A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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a linha política correcta consoante se veio a demonstrar.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. o autor adoptou uma estrutura mista. deixo ao leitor. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. quer na dinamização do 25 de Abril. que nisso estiver interessado. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. para dentro das fileiras das Forças Armadas. infelizmente. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. Marcharam esses 8 . de algum modo. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. Essa foi. e que assim. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. quer na rápida solução do conflito. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. indiscutivelmente. No centro de instrução em Mafra. Respeitando essa intenção.

Exactamente ao invés do intelectual burguês. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. etc. a crise académica de Março de 1962. isto é. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. O narrador acompanha-os. Não se trata. a petição de princípio. desprezando a evidência dos factos. Entretanto. nomeadamente o historiador académico professoral. Longe disso. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. De acordo com o seu propósito didáctico. cujo método é. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. Logo no capítulo 2. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. ignorando-os ou afeiçoando-os. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. por norma. estende-se entre 1961 e 1974. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador.milicianos. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). Guiné. Moçambique. para os três teatros de operações. É esse o período de 13 anos e 3 meses. Damão e Diu). graduados em oficiais ou sargentos. Angola. em Maio de 1962. por exemplo. Na realidade. perante as forças da novel República Indiana. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. O regresso dos militares feitos prisioneiros. o autor intercala dezenas 9 . entenda-se. de ensinar. relatar casos e episódios que contenham significado implícito.

aos direitos do trabalho e à própria condição humana. quer no país europeu. despidos de ambição pessoal. pois repara muita injustiça). (Mais que justo. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. Em tempo de escuridão. invocar essa memória já constitui. reconforta a alma. tantas vezes heróico. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. como bem observa. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. por estes democratas da 25. Mas todos. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. algumas extensas de dez páginas. contra a opressão fascista. quando se perfilam em Portugal e no mundo. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. que fazemos um povo. quer nas colónias em guerra. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. de forma modesta e aparente singeleza. Dos comunistas em primeiro lugar. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. por si só. Um estado dentro do Estado. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. um acto de resistência.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente.de resenhas de carácter histórico.o livro agora publicado. nesses anos finais. é justo assinalar. devemos ter orgulho nesse 10 . novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. Nos tempos presentes.

Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. E. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. não devemos esconder esse orgulho. comunista de sempre. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. mobilizado para uma Guerra Colonial. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. Lisboa. que nunca aceitou como causa sua.passado pois é parte e espírito da nossa História. permitam-me. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido.

perene.. as mágoas persistem. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. teimosamente persistente. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. o romance. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas.. Nunca é tarde para perceber. vivê-la com as 12 . a ficção baseada em factos reais. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. porquê? As memórias esvaem-se. definitiva. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. Estes ensinamentos da nossa história. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. dos seus incrimináveis mentores. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. e da “vitória ser rápida”. compreender a guerra por dentro.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. As memórias da realidade.. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas.

os medos. a revolta e a coragem. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa.angústias. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. além do mais. A luta de novo tipo. as tristezas. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. que faziam emboscadas. 13 . ouro sobre azul. a cobardia. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. o desiderato deste livro. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. Guiné e Moçambique. a nobreza de carácter. a amizade. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. as solidariedades. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. o terror. contra os mesmos incorrigíveis franceses. mas agora. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. É este. e. flagelações e punham minas nas picadas. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”.

crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. Como se Agostinho Neto. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. na rádio e na televisão (também no cinema!.. escravatura. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. procuraram elidir as questões fundamentais.Os fascistas e militaristas.. não tivessem nascido. Os que regressam de África ─ os 14 . o “Avante!”. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores.. Como se não existissem 400 anos de dominação. deturpando. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. próceres de Salazar e de Caetano. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (.. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. órgão central do Partido Comunista Português.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. iludindo os portugueses. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”.

autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. n.. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. A recusa podia revestir diversas formas. Os protestos. de presos por revolta ou protesto. até ao 25 de Abril de 1974. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. de objectores. * 15 .desmobilizados.). de Outubro de 1962. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. constituindo um feroz. as lutas e deserções multiplicam-se (. A amargura. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. procura um caminho para se manifestar. nomeadamente: fuga à tropa. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. o Presídio Militar de Elvas. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. Em Portugal. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado.º 322. que ousassem levantar a cabeça. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. o Batalhão Disciplinar de Penamacor..

que tudo pervertia e até fazia assassinos.. Tarefa complicada sem dúvida. dependia a aceleração do fim da guerra.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. sob todas as formas. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. nas escolas. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. massacres.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo.. profissionais do quadro permanente não desumanizados. deturpada e mentida. deviam ir à guerra e uma vez aí. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. a violação de mulheres. nas empresas. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. entre os jovens fardados. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. o tratamento desumano de prisioneiros. obstou o crime horrendo. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. de preferência em grupo. torturas e morte. os melhores. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. o assassínio gratuito. As suas 16 . e os que estavam convencidos que da sua acção.

primeiro. A sua opinião crítica. * É incontornável. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. nos locais de trabalho. “Abaixo o Fascismo!”. iam para a dita. nas escolas e nas ruas.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. a “soldo de potências estrangeiras”. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. suborno. Os comunistas. com profundos sentimentos anti-guerra. “anti-patriotas” por definição. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. compadrio. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. neputismo. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. ainda que pouco (re)conhecido. no movimento democrático. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. tentavam por todos os meios (cunhas. por outro lado. às vezes mitificadas. as suas manifestações e lutas. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. depois. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. e o “Movimento das Forças Armadas”. seus inimigos figadais. e o. tráfico de influências. o “Movimento de Capitães”. nas colectividades e associações. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta.

* Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. Em África como em Portugal. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. (politicamente activo). colaboração e incentivo em massacres e morticínios. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. fichando. sobre a Academia de Coimbra. de contestação e de revolta. a PIDE/DGS humilhou. em estreita ligação com os meios militaristas. Uma questão central da guerra em África. em 1969. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). despromovendo. torturas até à morte.A.Estas profundas contradições no seio do regime. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. vigiando. excluindo. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. 18 . prendeu. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. perseguiu. Espancamentos brutais. perseguindo. castigando e quiçá matando. o título de P.

guineenses e moçambicanos. Salazar dera orientações nesse sentido. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. a guerra colonial foi calculadamente 19 . Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. a chamada guerra subversiva. Significa que entre nós o crime compensa. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974.

naturalmente. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. 20 . Franco Nogueira. e uma multidão de títeres do regime. com a outra mata!”). devido a interesses económicos e empresariais. por questões de classe e de interesses individuais. Bélgica. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. por certo. Mário de Figueiredo. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. França.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. não permitia saídas do tipo neocolonialista. Silva Pais. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. Era assim para Oliveira Salazar. Silva Cunha. Holanda). e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Com determinação e sentido histórico. muitos destes nas Forças Armadas. pelos valentes capitães com o apoio popular. Marcelo Caetano. Américo Tomás. para que o poder político encontrasse uma solução. Kaúlza de Arriaga. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. evidentemente.

a narrativa baseia-se em factos reais e datados. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz.. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. Que este livro de inquietações. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. do passado ou da contemporaneidade.. África jamais será esquecida.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. com as marcas irreversíveis no corpo. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. a derrotar todos os “senhores da guerra”. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . naturalmente. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. Para os milhares de feridos e estropiados. Essa seria a única. a guerra colonial não acabará nunca!.

Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história.). que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. “Katangas”. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Flechas. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Barreiro. perpetrando matanças descabeladas. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. o coronel João Varela Gomes. será a nossa maior satisfação. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra.. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje.Jorge Jardim. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. etc. Em última análise.

1. IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .

só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Pouca gente na rua. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. sempre com muita gente azafamada. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. à espera do sinal précombinado. Aquela é a única carreira que por ali passa. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. ficar na paragem não é prudente. mesmo em frente da paragem do eléctrico.arranca desiludido. Passam cinco minutos da hora combinada. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. a nova ligação é importante. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia.Horas de jantar. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". É preciso voltar no recurso. O "28" chega vagarento e ronceiro. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. há iniciativas dependentes daquela conversa. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. Embora não seja novato naquelas andanças. Bom. não vá andar algum "bufo" nas imediações.

a rua entristece-se. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. vai caindo em descrédito. Sacudir as teias é preciso. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. inóspita. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. O populismo do governador do monóculo. capital de um império de "faz de conta".. António de Spínola. mal iluminada. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã.. Pelo som. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. Rua dos Poiais de S. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Bento.─ “Olhá” desavergonhada. Bento. o telejornal está a começar. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. a querer roubar-me os "tomates"!?. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. desoladora. Calçada de S. sorvedouro de homens e de recursos. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. o eterno mistério das trevas. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 .

. da chamada ala liberal. na reunião matinal. Pela porta de uma taberna escura. durante o "minuto conspirativo". Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. Carlos. D. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. Contradições do sistema. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. aproximando-se inexoravelmente da cidade. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. Av.!? Bom! Carros pretos há muitos. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA... ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. mas hoje precisamente. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal.. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança.

acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. condenações de Portugal na ONU. e das imensas contradições em que o regime se atolou. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. no norte de Moçambique.Górdio". falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. colocada num canto superior do estabelecimento. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. com populações civis sacrificadas. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. Kaúlza de Arriaga. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”.

na tropa há seis meses. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá.” Madina do Boé... em Setembro de 1973. será alienada. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. ajudando na consciencialização. o rapaz magro e alto. envergando roupa de tons escuros. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista... não sei se estão a perceber!?. na Guiné.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné.. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. convicto da orientação política traçada. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. que teria a capital em Madina do Boé. o jovem moreno e bem vestido. não!?.. 28 . Essa falsa república sem Madina e sem Boé. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras. ─ clamava exaltado no calor da discussão.

na distante.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. após ter feito a especialidade em Vendas Novas... ─ o camarada João. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. motivadas por razões corporativas. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. algo distante e compenetrada. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”... * Chegara ao grupo discretamente. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. mas a coisa pode radicalizar--se!.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. nos aquartelamentos. casernas. paradas. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. sentindo o cheiro a pólvora. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. acendeu paixões e afivelou rivalidades...regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 .. Não era fácil convencer quem. sabia do que falava. Grande bronca! . mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto.. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. mas simpática e graciosa. nos postos avançados. Este sentimento corria os quartéis. Aquela forma de estar. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. quero ver como é!. e.

propiciava radicalismos.. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. No pós Maio francês de 1968. um aspecto tristonho e sério. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. cigarro nervoso entre os dedos. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. incorporava o regime. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. de barbicha.. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade.escuros e sorridentes. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . risonha e muito extrovertida. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes.

O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. ainda não respondeste ao meu pedido. ─ Ora essa. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . de perna curta. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. ─ Sabes? Eu … eu...─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação.. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. mas o momento era de grande frustração. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. ─ Escuta. ansiedade. de avanços e de recuos. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. A luta era feita de vitórias e derrotas. Naquele início de noite estavam só os dois. como acontecera de outras vezes. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. ─ Fazem favor de se sentar.. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. Cumprimentos da praxe. normalmente acompanhados. senhor ministro. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. não temos pressa!.

"IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". no topo. A crise académica na Universidade de Coimbra.. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida..e uma cadeira de espaldar alto. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. a que os estudantes chamavam 32 . no início do ano lectivo de 1969/70. O País animou-se em expectativa. telefone pousado. O Ministro da Educação. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. Milhares de estudantes em desobediência civil. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. da GNR e da PIDE. contra a ditadura política. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . acompanhada de abundantes gestos. Ao fim e ao cabo. Uma actuação firme. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. sem vacilações! Fazem greve em Julho. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. Universidade. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República.

─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça.. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. devido à sua baixa estatura. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. Os quase siderados visitantes. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ainda em pé à beira dos sofás. ─ Mas fazem o favor de se sentar. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. "meio-nistro"..satiricamente o "meio-istro" ou.. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos..! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. mexendo-se incomodado. 33 . outra forma de piropo estudantil. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. vezes um ano perdido. senhor ministro. o "mini-istro". ficando enterrados quase ao nível do chão. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas.

mas logo assim em tão pouco tempo!?.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. como furriel sapador de minas e armadilhas. resolveu que a solidariedade era mais urgente. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista.. João. na clandestinidade. junto do “povo fardado”. chocante.. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. Pelo caminho. Embarcara para a Guiné há menos de três meses. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Cego! Informara o comum amigo e avisador. por dentro. quando o Partido Comunista da União Soviética. minarem a confiança dos soldados no Czar. na qual o Rolando também tinha participado. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. Uma angústia feita suor frio. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917.

estavam sentados em cadeiras de rodas. de cabelo encaracolado de um escuro característico. O coração doía com aquela visão terrível.. por estranhos e simultâneos sentimentos . Por instantes ficou paralisado. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. com cotos ligados à altura dos cotovelos. que se calhar nem foram ouvidas. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!... fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. agora “minas e armadilhas”!?.. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné.º pavilhão. também neste local não havia guardas.. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos.. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!.. com múltiplos pavilhões disseminados. revoltadas e envergonhadas. Como não havia ninguém de guarda..secretaria. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. contudo logo à entrada do 1. com uma absoluta angústia de ver o 35 . vários soldados em pijama regulamentar. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. foi entrando pelo terreiro. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo.

Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. estou sozinho!. ─ Então rapaz.. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido.. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra.. começou a dar-lhe a sopa. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. ─ A esta hora está tudo ocupado.. Sou amigo como se fosse irmão. ─ o jovem muito moreno. comovido até ao limite das forças. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. ─ Sim! Bem!. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. Os médicos já me viram!..amigo naquele estado. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. ninguém dera pela sua presença. entrei porque não encontrei ninguém de guarda. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.. 36 . Sem nada dizer.. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”.... O maqueiro atarefado não dera pela intrusão.

que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.sem Madina e sem Boé.. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. devia estar com vergonha da sua situação. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. aproxima-se o "28". foram as palavras do professor. filho dilecto do regime: ". ─ Talvez mais tarde. com 37 . Com a mão no ombro do amigo.". Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática... Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. com outros recursos consigam recuperar a outra!.. A outra vista não tem recuperação. a rua está agora quase deserta. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras.. rangente. vagaroso. é tempo de voltar para casa. ─ Não quero mais sopa.─ Bom! Isso é uma boa notícia. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas.. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas.

A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária..a chamada “primavera marcelista”. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. no Instituto Nacional de Estatística. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. Não pensava tão cedo. gritos. Afastada a concorrência. Mas os tempos estavam a mudar... permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. não há veículos à vista. um carro preto vindo da esquina próxima. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. ali perto.

tudo à volta parecia perfeito e calmo. Deram a volta ao quarteirão. sem mais nada. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido.! Mas olha. enlevados e trémulos de emoção. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . Um a um todos foram chamados para a tropa. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. e o mundo revelava-se sorridente. sem lamechices. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. Os corações abriam-se de forma sincera. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas.. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. no COM. em princípios de Outubro. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. O jovem alto e magro. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971.namorada? ─ Sim.. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. ditava a incorporação em Mafra.

nos inícios da década de 70. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. Saía à mãe. partiram para a guerra. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. o seu João Silveira. durante exercícios com fogo real. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. pois o pai. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar.º ciclo.. os relatos. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. Até que todos os seus mentores. 40 . levou as notícias.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. o “Alerta Camarada!”. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. os comentários.. trôpego. do 2. Durante muitos meses. vacilante. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. necessariamente clandestino. seguindo uma orientação conscientemente assumida. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. E morreu mais um no turno passado. trazê-mo-los no coração. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução.

─ É este aqui. * 41 . Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. foi!.. com fotografias uns. ─ Avô.... José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. alguns com fantasias bizarras. melhor que ele próprio... como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. muitos com flores artificiais. ─ Pois não. alojado junto da coluna vertebral. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis.. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. Para mim a guerra nunca acabou!. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. ─ Avô. não foi avô? ─ Foi. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. “Raio de ganapo!” ─ pensou.. Traquinas e esperto como poucos. com nomes gravados outros. Mas não tem nenhum nome?!. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.

─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. magnetómetros à frente para detectar metais. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. o grande temor pelos últimos dias de comissão. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. sobretudo nas zonas de areia solta. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. não tardava nasceria o Sol. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. Há semanas que não havia flagelações. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. o pessoal seguia com relativa descontracção. emboscadas ou minas na picada. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. as picas atrás a furarem o terreno. a chamada rebenta-minas. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. comandante da secção. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio.

acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. pá! Passa-me a pica.. o 1º cabo José Pinto. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974..... carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. vou tentar des. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. O Pinto era um rapaz corajoso.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio.. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!.. devagar.. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível... 43 . só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. ─ Calma... leal e honesto. assim. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores.. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. com distinção e elogios. como dizia publicamente e sem rodeios. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. várias vezes dissera que se morresse na guerra. viscoso. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. dizia sempre o que pensava com frontalidade.

em Moçambique. 44 .

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.2.

Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. onde. frente à taberna do Arnaldo. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar.. se engajou na luta contra a ditadura. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor.. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. mas com as preocupações de um mundo em tensão. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. dá o mote: ─ O que representam Goa. lembrando as lições da escola primária. nos fins da década de 50. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 .Tarde de sábado. como republicano e antifascista. O dono da casa. o sobrinho Alfredo. oriundo do Alentejo litoral. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. há muitos anos radicado na vila operária. não podemos abandoná-los !. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola.

bom. refastelado na cadeira. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. como lhe ia dizendo. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. a PIDE rondava-lhe a casa. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. notório situacionista. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte.. ─ Então senhor Vaz. claro!. e. demoradamente.oceano! A conversa muito animada. merecias que te cortasse o pescoço !”. desculpe. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. tendo passado alguns meses preso em Caxias. 47 . Na sala. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. nessa azáfama.. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. Embora saísse sem julgamento. barba ou cabelo? ─ Barba. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. ─ Sabe. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei.

Inglaterra. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. sob administração portuguesa. usando a férrea censura dos jornais. a Assembleia Mundial da Paz. Na longínqua Ásia. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. em 1955. Estados Unidos e União Soviética. Os governantes fascistas. de que deveria restar uma memória positiva. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. insistia na via do confronto militarista. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. foram castigados com o corte de dispensas.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. escondendo do povo português a sua vocação belicista. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. No regimento de Artilharia 1. pondo o quartel em “estado de sítio”. juntaram-se na parada a protestar. em Bandung. no mesmo ano. com representantes de 68 países. em Helsínquia. Damão e Diu. Já em número de 300. O 48 . o governo salazarista. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. ficou uma lembrança trágica. qual falcão em plena guerra-fria. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. em Évora.

na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. mandou fazer uma marcha acelerada. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Depois de mais alguns episódios repressivos. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. Exaustos e revoltados. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. intimando toda a hierarquia. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização.comandante. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. em 30 de 49 . é hoje! É hoje!”. Aumentou a revolta aos gritos de. dependia de outros embarques próximos. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. prometendo liberar os detidos no dia seguinte.

É assim.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. Na década de 50.. quando da negociação do plano Marshall. necessário à sua vida. muitos povos”. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. no campo democrático. “Uma Nação. à sua defesa. cobiçadas pelos norte-americanos .. etc.. Ainda no final da década de 40. Quando um povo. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.Maio de 1956. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. à sua subsistência”. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva..analisa a questão colonial portuguesa. Salazar afirmara que . Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas.

há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. as fomes e epidemias devastadoras. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. na Margem Sul e noutros pontos do País. O órgão central dos comunistas. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. isto é. cinemas e lugares públicos. ... a segregação racial nos transportes.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. de costas para a História e numa corrida contra o tempo.. Por volta de 1954. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 .perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. como. de Junho de 1956 : “(. “um movimento racista contra o branco... O regime salazarista. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. a ausência de qualquer direito. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. já citado.. generoso portador da civilização”. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. o MUD Juvenil. social ou político.. em iniciativas abertas e unitárias.). No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados.. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal.

na casa modesta da tia Clotilde. quando o clube da terra jogava em casa. (. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. depois da “bola”. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. como os valentes soldados de Évora. vigário da matriz: 52 . nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. com que trabalhos e canseiras. Mas senhor doutor.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos..).. mais do que com qualquer outro membro da família. era tempo de visitar o primo Zé. nem os planos e as medidas de guerra. posto que irmãos não tinha. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? .. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. O colonialismo tem os seus dias contados.. e desde então todos os anos vai a Fátima. nem os discursos de Salazar. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”.

Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. não percas a fé na senhora de Fátima. era a sua companhia de muitas horas. A telefonia. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. olhe que os indianos são muitos. um luxo para as classes trabalhadoras. lembrando-se da afirmação 53 . para ouvir os relatos de futebol. com uma relativa consciência do mundo. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia.. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. entretanto já terminados. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. naquele tempo dos princípios da década de 60. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. como não haverá navios rendidos. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. 300 milhões!.─ Clotilde.. comprada a prestações com muitos sacrifícios. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”.

na altura dos Santos Populares. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. por isso lhe dava uma carga pejorativa. na Índia longínqua. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. de medos e angústias. como mandara o ditador. ─ Ah. comandados pelo general Vassalo e Silva. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. talvez!.. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. dez mil e tal contos..do barbeiro.. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos.. feitas 54 . Joaquim Faria. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano.. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. “rapidamente e em força”.. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. em Dezembro de 1961. numa atitude típica do seguidismo salazarista. . Eram agora raros os saltadores exímios. Quando os militares portugueses. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. em África. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. restavam os ganapos e as moçoilas. as tropas portuguesas na Índia. Em Maio de 1962. Damão e Diu pela União Indiana. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola.

instado por um grupo de familiares... as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. apupos. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. ausente há muito tempo.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. É um senhor vestido civilmente. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. cada vez em maior número. só acostaram em Lisboa já de madrugada. oriunda da zona antiga da vila operária. A mãe de Alfredo. correu juntamente com muitas outras famílias. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). Gritos. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. ─ implorava uma velha mãe. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado.. na ausência de informações oficiais. conforme os boatos que iam surgindo. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. No dia 23. ansiosa por abraçar o ente querido. vindos dos desenganos apesar da noite fria. a família de Alfredo Júnior. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. grande algazarra entre as centenas de parentes. vestes escuras e lágrimas doridas. e viceversa. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. já não o vejo há dezoito meses!. lenço modesto na cabeça. iam finalmente regressar ao País. de gabardina e chapéu. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. dado o seu isolamento..

─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. por sua vez. acompanhando zelosamente o senhor inspector.. Como povo livre. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. não podemos esquecer o povo português que. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. acenam com lenços brancos. fora do olhar policial. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. povo de Portugal. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. antes de voltarem para casa. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele.. datada de 14 de Dezembro de 1961. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. alguns jovens esgueiram-se lestos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos.) Por isso. mas contra o colonialismo e o fascismo. estenderemos a vós. Ao longe. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. debaixo da mira de dezenas de espingardas.

compreendendo. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.juventude. Regressaram à terra natal. talvez pela primeira vez. 57 . em troca de uma decantada pátria pluricontinental.

enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . em 1955. FNL. Em 1954. Damão e Diu. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. porém. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. em Diên Biên Phu. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. contra o ocupante francês. potência colonial. Ou a realização de um “referendo em Goa”. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. 58 colonialmente ocupados. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. que considerava proclamavaportuguesa”. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. Não era esta. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. a opinião dos meios de oposição ao regime. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. na Indonésia.

fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. Do que se passou nessa histórica assembleia. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras.. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. Neste planeta nascemos. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. 59 .. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. dos neutralistas e das jovens nações africanas. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960.)”. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. os representantes dos países socialistas. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. todos vivemos num único planeta. trabalhamos. Em 1958. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. pela União Soviética. Em relação às colónias portuguesas. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960.

em Luanda. com o apertar das algemas da opressão colonialista. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Goa. Tomé. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. Mueda. Os patriotas angolanos.” (oiçam. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista.. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. voltaremos aqui. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão.. Os massacres dos povos de S. que procuram inverter os factos. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Timor. Paiva Domingos da 60 . Cabinda..).Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas.. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. Neves Bendinha. ivuenu. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. turutuka dii. Scalo Bengo (Angola). A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. Bissau. com o agravamento da exploração colonial. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. oiçam. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades.

abençoou os revoltosos. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. em Cabo Verde. enquadrados em vários grupos. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. missionário na arquidiocese de Luanda. Imperial Santana. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. guardadas no campanário da Sé Catedral. fazendo milhares de vítimas. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”.Silva. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . o próprio. um cónego mestiço angolano. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. Raul Deão. na Ilha de Santiago. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. De resto. Virgílio Francisco. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. Domingos Manuel Mateus. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. Na madrugada de 4 de Fevereiro. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”.

com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. ou de trabalhadores numa oficina perto. filho da puta!”. com a perseguição. onde estavam muitos presos políticos. Nenhum dos objectivos foi alcançado. empurrados logo de manhã para as valas comuns. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . com poucas excepções. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. interrogados. era a “limpeza étnica”. dezenas de autóctones. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. feridos. À noite nos muceques. sendo os restantes. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. ─ Cadeia da 7. começou a terrível “révanche”. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. junto à praia do Bongo.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). presos.. mortes às dezenas. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. espancamentos. Depois foi um terrível massacre. nas rusgas e cercos. correrias.). uma autêntica “eliminação selectiva”.. levado a cabo por gente desvairada. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. espancamento e morte de gente negra. “Mata esse preto. Agarra que é “lumunba!”. Estava iniciada a Guerra Colonial. que seguia num machimbombo (autocarro). deixando centenas de cadáveres.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. Pedro da Barra. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. indefesa. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. ─ Companhia Indígena.

nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. quando a avenida da Praia era mais frequentada. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. O célebre fadista. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. do café Beira-Mar. conseguia desatar. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . Ao fim da tarde. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. sempre com conta e medida. o João “Careca”. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística.

sempre se ficava a saber alguma novidade. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”.. Fazia vibrar de emoção e orgulho. inquietante mesmo... da sua grandeza Além-Mar.. A curiosidade fora espicaçada. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. Acabou o noticiário. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. deixando uma angustia de dúvida e receio.. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. é nossa! Angola.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis.” A sensação desagradável.. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. pela negação dos factos apresentados. 64 .. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. gritarei é carne e sangue da nossa grei. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. é nossa. quebrando a corrente emocional e patrioteira.multicontinentalidade da Nação. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. é nossa! Angola. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. porque a família real era dinástica e divina.

.. Scalo Bengo . sobrinho por afinidade. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso..” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. Mas é perigoso ouvir!.─ Tio Zé. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. Tomé. na Emissora Nacional.. Timor. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. músicas estranhas que o velho vizinho. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. ─ Esse gajo é da situação. O Ferreira da Costa.. mas a realidade inevitável. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. S. Baixa do Cassange. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora.. duas.. Uma. Vozes estrangeiras incompreensíveis. Goa.. senhor Lobo. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. O regime fascista... idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. etc. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. diz ser tudo mentira!.. salazarista convicto. bem pronunciada. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. o regime 65 . centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. mantém nas masmorras da PIDE. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. três tentativas. E voltava! “.

00 horas. obstando a mensagem de denúncia e de luta. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada..colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. entre as 19. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. Espera enervante.. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. Os dilemas da guerra e da paz.ª classe na Sertã natal...” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. pelos serviços da PIDE. era outra voz da mesma liberdade procurada. Depois da 4.” Afinal não era a Rádio Moscovo. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente .00 e as 21. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades.

por sugestão de um colega. Aprendiz numa oficina de automóveis. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. aliciado pela PIDE. na Escola Fonseca Benevides. por lá ficou mais de um ano. com um salário que mal dava para a renda do quarto. Manuel interrogava-se. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. com uma sedimentada consciência de classe. O convívio com operários mais velhos e experientes. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação.incerteza no futuro. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. em toda a sua vida. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. as conversas sobre a realidade do País. A grande cidade dava outras oportunidades. parco de palavras. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. abriam-lhe os horizontes. promete continuares a estudar. para a outra-banda. embora exigisse muito sacrifício. as leituras recomendadas. Um segundo passo importante fora a mudança.

onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. Ainda agora. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. nunca mais parara de se agudizar. a mobilização para Angola. nas lutas no Ensino Secundário. que depois da questão da Índia. mas chegara a sua vez. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. E agora. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. depois da incorporação e a recruta. preocupações comuns e solidariedades. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa.conta. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. mantinham a amizade da adolescência. partilhada em muitos anos de brincadeiras. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. tendo depois emigrado para Angola. A experiência de participação. O terceiro irmão não fora mobilizado. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. o “Avante!”. pela primeira vez. a conversa era fácil e fraterna: 68 . de Xabregas à Veiga Beirão.900. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem.

─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. 69 . ─ Adeus filho. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara.... agitando-se freneticamente na amurada. um bom rapaz... ─ Nunca pensaste em não ir.. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. o choro mudo e soluçado dos homens. ir à guerra e ter lá um azar. para onde vão muitos! Já viste... até se leva bem. vestido de pequeninas velas brancas. ─ Não. mas o Nana era assim. encobre da vista o barco.. Sou atirador de infantaria. vamos todos lá parar!. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente.. O pior é a mobilização!. em dar o “cava”?!.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. não! Mas quanto mais cedo melhor. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora .

e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . no silêncio do quarto. A vontade nacional de agarrar o destino.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. alguns. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. adormeceu finalmente inquieto e agitado. quiçá para sempre. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. mas nunca de contrariá-lo. constituía um arquétipo da candura nacional. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. no meio do magote de gente lamuriosa.

Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. ou para alguma coisa!?. também houve nações e povos desenvolvidos.conversadora. havia muita gente esclarecida. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40.. até chegarem os europeus escravatura. perpetrado pelas tropas coloniais. um grupo de cariz tribalista. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. 80. Autodidacta e amante do saber. como sempre acontecia aos sábados. e agora. que lia e com o colonialismo e a 71 . ─ Os pretos são meio selvagens. O que se seguiu. no Norte de Angola. pelos movimentos de libertação. 100 mil?). Na zona velha de maioria operária. por vingança. nas zonas da savana e das florestas. têm lá cabeça para se governarem. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. recentemente. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos.. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante.

quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. que tudo estava sossegado... Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. ─ Sabe. de reflexão e de descanso. 72 . Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. quando entrei!?. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. não acha?!. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. senhor Vaz.acompanhava os problemas. como lhe tenho dito.. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. à volta do quarto pequeno e modesto. E também lá foram vividos os primeiros amores. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso.

. ainda é muito cedo!”. perseguições. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. “Safa. luzes intensas. que sonho dramático!”. só abria às nove horas para cortar o cabelo. um cheiro intenso a pólvora e a sangue.. densa. um precipício negro em que estava prestes a cair!. João deixou-se dormir novamente. correrias.“São seis horas da manhã. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. talvez uma floresta. como se propunha. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior.

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

. três horas de caminho. O chefe olhou-o com ar circunspecto. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. Posso chamar um táxi. fresca de Outono precoce. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. Seguia-se.. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. ─ E agora.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . já sem companhia. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. nada mais. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. não me parece!. com duas ou três casas. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. Na manhã seguinte.

e já fizera a exploração dos itinerários.trajectos labirínticos. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. orientação. Guiné e Moçambique. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. 76 .. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. em transporte próprio ou familiar. trazia medos e fantasmas. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. algumas conhecidas da universidade. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. começaram as marchas nocturnas. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. etc. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. táctica. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. da instrução sobre armamento. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. Muitas caras ensonadas. depois das longas caminhadas durante o dia. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores.

No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. pertenciam ao meu pelotão!. “a tropa não é para maricas. célebre desde as últimas invasões francesas. Rodrigo e Francisco. quanto melhor o treino. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . anafado. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. mais hipóteses têm de safar a pele!”. com a fama de “chicalhão” e prepotente. ─ Não aguento mais isto. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. O pelotão do 2º ciclo do COM.. devido às lamas nos caminhos. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. ─ Tens de ter calma. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. durante a progressão com todo o material de combate. de boa compleição física e bom contador de histórias. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril.. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. pá! Vou dar o “salto”. daquelas que nunca mais se esquecem. comandado pelo alferes “Manaça”. tornados amigos durante o 1º ciclo. fazia mais um exercício duro porque. ─ o manifestante era um aspirante alto. ensopado em suor. pesadíssimas. como ele dizia.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. incluindo a arma e a mochila às costas.

dizes tu!. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. tem lama até às partes. começa a entrar em pânico. vem avisar o cadete Aníbal a correr. magro de carnes. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. as pernas vacilam. gosta de fazer de porta-voz. ─ Depois logo se vê. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. Na margem da lagoa plena de águas barrentas.. Os mais expeditos fazem-no com êxito. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. ─ Falta pouco.contrapunha o Francisco.. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. ─ Outra vez a porra da lagoa. pá. o pessoal preparava-se para a travessia. pá. Uma porra. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. Por feitio ou bajulice.. na cauda dos restantes caminhantes. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. dando-se ares de importância. procurando ajudar o amigo. quem não sabe nadar atrapalha-se. por isso ganhou os favores do graduado... entra em contacto com a pele suada. relutantemente alguns ficam para o fim. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. bem nutrido e de ventre proeminente. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. 78 .. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade.. com um feitio solidário..

.. marche! ─ Sim.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. com uma alma altruísta. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. Friccionando-se com a camisa de trabalho.! O cadete Artur. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.grugluglu. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. o graduado continua a vociferar. qual nada! Não quero cá ninguém de fora.. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. perante o quadro terrível vence a inibição. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 .. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. volta para trás e tenta ajudar os outros dois... ─ Qual bombeiros.. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal.. Francisco apressa-se para ajudar o amigo.

enterrados no lodo. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal.. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. agarrados. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. comandante do pelotão. ainda em tratamento. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. ─ Algo não está bem. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. Baixa no anexo de Campolide. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. com permanência nocturna obrigatória. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. quer ir connosco amanhã? 80 . outros. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. teve uma atitude simpática . de bengala de invisual ainda mal manejada. sempre muito elegantemente fardado. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. que padeciam de graves deficiências. o jovem alferes Terras..

quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. A conversa continuou animada. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla).. nunca cá tinha estado. não ensinam o verdadeiramente importante). mas amanhã ensinamos-lhe o caminho.─ Não. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. obrigado! Sou casado!.. quando jogava o Benfica em casa. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. sim!? Obrigado! Eu.. em cima da cama.. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. ─ Agarre-se a isso. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. ( os instrutores são uns nabos. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem.. já não tinha mais novidades.. pouco falador. ─ Ah. ─ Ah! É casado!..

as coisas acontecem e pronto! 82 .. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. Era grande o constrangimento.. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. como aliás acontecia com os outros. mesmo dobrado. Evocam-se regulamentos. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. ─ Mas . mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. amanhã posso ser eu. “cada um com a sua”. ─ Ah! Pois.. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações.....! Não há ninguém de serviço. é uma forma de dizer. aqui anda tudo às putas. cumprem-se ordens. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. abrir o fecho da braguilha...daí para a rua. fora de qualquer regulamento. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas..! ─ pila era tabu. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. ─ Esse não acredito que pague!. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela.

canta. amigo canta.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. a espera animava o pessoal. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. falha de energia demorada de mais de uma hora. As sombras encorajavam a audácia. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. ai povo. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. alinhados em pelotões de 30 unidades.

─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. e no rescaldo das cantigas. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. assumindo o compromisso. o João. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. para garantir a segurança conspirativa da operação. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. Combinaram o essencial da acção primeira. com a denúncia do número de vítimas da guerra.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. A companhia (quase) inteira. Naquela tarde de Novembro de 1971. o Luís 84 . entre muitos citadinos divertidos. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos.

tão diversos daqueles para que foi concebido. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. constituindo um labirinto intrincado. por um lado. espalhados por várias mesas. com frades de hábito e penitência. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. 85 . o Fausto e o Duarte. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. dos refeitórios e das camaratas. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. a timidez. mas a maioria são cadetes. Todos estão em farda de trabalho. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. enquanto outros. estava unido na acção contra a guerra. feitas de pedra trabalhada. A sala dos cadetes é acolhedora. As conversas giram à volta de temas banais. polido o chão pela usura dos anos. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. pretextando uma guerra santa. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. o Manuel. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores.Manuel. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. é urgente terminar a “tarefa”. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. Sempre acontece quando os nervos apertam. das salas.

olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . um desvio apertado na primeira bifurcação. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui.. o ouvido à escuta de passos perseguidores. Um som agudo e estranho.. longos e frios. À frente de um séquito. de porte elevado e cabelos brancos.. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. “Safa!”.. subir e descer escadas. outros sons semelhantes. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. como um guincho. “As instalações devem estar em boas condições. mal iluminado. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. um beco sem saída na desorientação dos sentidos.” – pensava João.. em pânico. nada. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. um local frio e terrível.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto..”. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra... o desnorte nos caminhos desconhecidos. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.subir alguns degraus.

ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. Custara a pegar no sono. Companhia de Instrução está tudo calmo. excepto algumas respirações mais agitadas. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. correr. certamente devido a pesadelos também. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. sair do pesadelo. acordar no beliche superior inundado em suor. centenas de formas em movimento. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. Na caserna pequena da 2ª. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. são ratos. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. por detrás das lentes grossas. ninguém se atrevia a levantar a voz. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. 87 . comandante da unidade.habituando-se à escuridão percebem dezenas. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina.

denunciara a patifaria. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. uns voltavam logo. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos.] já bastam! Não à guerra colonial!”. num pátio interior mal iluminado. Por fim vieram três ou quatro cartas.. foram coladas nos corredores do convento. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. não há nada para mim? Não pode ser. escondendo a timidez e uma pequena miopia. vulgares na época.”... eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos.─ Tem de haver muito cuidado. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. A acção tinha corrido muito bem.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. a minha namorada escreveu-me!. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!..

condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. João precipitara-se para o exterior com passo estugado.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. não se via vivalma no caminho. Andava e pensava para distrair a ansiedade. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. porque apesar do sistema aperrado. a norte. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. havia excepções. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. certamente algum “menino” a caminho da cidade. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!.. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. pela aproximação do ocaso. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura..“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez.

os dias eram cada vez mais pequenos. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. Trago a senha para o contacto que combinámos. esquerdistas. “Não jures. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. nas bandas da Malveira. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. bom para a recruta.. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem.. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada.). O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. Boa sorte para a iniciativa..sugerido aquele local. socialistas. independentes. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. ─ Cuidado!. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. em transição para 90 . existe um ambiente geral muito favorável. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. embora arrefecesse a “sentidos vistos”... ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde..

esmerando a pontaria com o “olho director”. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. chuvoso e frio. * Durante a semana de campo. pelo menos nas costas dos instrutores. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. é sempre um momento angustiante. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. mesmo que seja só em treino. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. Não há dois pôr-do-sol iguais. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. com um tempo desagradável. nos arredores de Torres Vedras. dizia-se. orgulhosos da classificação na prova de tiro.o violeta. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. cada dia é sempre diferente. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. No miradouro não estava ninguém. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 .

E. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. não! Não posso!.especialidades. afilhados. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. tentando safar os filhos. credores de favores. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. empresários. latifundiários. tinham um estatuto especial. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. iria passar por um mau bocado. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. mas não permitia. etc. a subversão aumenta!.. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. altos dignitários da Igreja. o oficial do quadro 92 . generais. porque precisava de carne para canhão. Em requerimento ao Ministro da Defesa. parentes. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto... gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa.. a fina flor do nacionalismo. e muito menos a disparar. enfim. ─ Não. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra.”. deputados da Assembleia Nacional. Eram filhos de boas famílias.

foi despromovido para soldado. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. levantando e baixando a espingarda. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. só por milagre ninguém foi atingido. e. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. forçado pelo instrutor. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. de repente.permanente estava prestes a perder o “verniz”. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. O cadete gordo. baixote e 93 . ─ Eh. normalmente sonolentas e ressacadas. a arma começou a disparar.. Não servia para “oficial de guerra”. à beira de um ataque de nervos.. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. sob pressão da intolerância militarista vigente. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. atire ! A tragédia estava eminente.

No fundo da algibeira. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado.. ─ Ah! Pois. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras.. Boa!. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. ─ O quê.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. ─ Não jures camarada! Já disse!.. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . O velho convento de Mafra estava em polvorosa. logo apareciam noutros locais. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”..empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. nas portas. ─ Essa é boa.. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente.. “não jures camarada!”.. nas vitrines e até nas pautas. ─ Ouviste? A barraca está armada.. ‘tás a coçá-los!. nas janelas. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. “quero essa merda toda arrancada!”. nas paredes lisas. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.

propositadamente. a coacção e a chantagem. a hierarquia estava convencida de ter anulado. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f .. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. Tacteando a cola com os dedos.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia.. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures.. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. . 95 . O major. pela intimidação subsequente. ..! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. A desorientação sobreveio. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. a primordial agitação. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente.

já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. Por este tempo. Providencialmente. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 ... afixada em muitos sítios desusados.. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar.─ O carago. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. com zonas mal iluminadas. futuros oficiais do Exército Português. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. Mas os corredores eram muitos. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. pois o outro chuveiro estava avariado.. Queria ver se fosses atirador como eu!. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”.. até na sala do cadete: “. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados..

submetidos a feroz censura e controlo político. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. um moço bem constituído.guerra era debatida mais ou menos abertamente. mas na “terra prometida”. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. porque a terra era ruim. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. segundo a filosofia do velho Adílio. num quotidiano difícil. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. com particular destaque para o “Avante!”. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. Junto aos hotéis de luxo. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. aos solavancos. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. Os jornais. era um gritante e duro contraste. a rádio e a televisão. sobretudo o rapaz.

com um ar de arrumador encartado. se fossem interessados e cordatos. numa época do início da década de 70. sempre generoso com os portugueses humildes. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. empregados e operários. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. era o discurso oficial. mal pagos. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. incluindo no campo desportivo. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. era menos “aquele” que entrava. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. nem feriados. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. com poucas qualificações.boné de pala “oficial”. podiam chegar a cargos de chefia. nalguns casos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. Sobretudo se associassem ao 98 . numerosos.

preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. anda a concluir um curso superior. claro! Um resto de bom dia. 19 contos/mês. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho.2 contos/mês. Orava-se em acção de graças. para rezarem em comum.5 a 3. o empregado de escritório. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe..desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. trate disso! ─ Claro.8 a 2. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. 1. a mulher operária têxtil. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. 11. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. 4/5 contos/mês. minha senhora. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. o engenheiro-sénior. 12 contos/mês.5 contos/mês. por classes sociais. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. chefe de secção. Nas vésperas da Revolução de Abril. 14. 99 . pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. 2. o engenheiro-júnior. o operário especializado de horário geral.. minha senhora. senhor director. o agente técnico de engenharia. ─ Está a tirar Educação Física!. 25 contos/mês. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. 18. ─ Senhor director. chefe de serviço. uns mais à frente e outros mais atrás. ─ a resposta não tinha grande convicção. 15 contos/mês. sem sobressaltos.

no Domingo? ─ Eu gostava. prestes a terminar: ─ Alberta. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema.. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. mas o “tio” Fernando-pai!?. Combine lá com o “ti” Fernando. e de mais na tropa!. Mas não havia nada a fazer. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. com o curso quase acabado. o seu filho sabe o que faz.. só lhe faltava o estágio. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas.. ó homem!. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.. ─ Esteja descansada. por 100 . Entretanto fora chamado para a vida militar. hem! ─ Mas ir a Mafra.. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. para o curso de oficiais milicianos.. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá.

não é fácil a deslocação!. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes.. amor . pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. num pobre mister por conta própria. até que sobrevieram os “balões”. quando o emprego e o salário eram certos.. este ano precedido de 101 . eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. Se queres ir vai tu e a tua nora. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. em alas amplas e espaçadas. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. e pela luta diária pela sobrevivência. Depois. O carinho prodigalizado ao filho na infância. preparando-se para o ritual mitificado. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor.melhores salários e condições de trabalho. ─ Talvez seja melhor não irem. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. Gostava de assistir mas compreendo a situação. iam formando segundo o que estava instruído. não morriam de amores pela situação. ─ Tu é que sabes. subsequente ao despedimento. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa.

respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. provavelmente os tais “pides”. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir.. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!.acontecimentos muito interessantes..” ─ o alerta percorrera as casernas. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. certamente sobre a ameaça de represálias. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 .

não telefona para ninguém. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão.... MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. tinha agora um bode expiatório. sou contra isso. ouviu! Se não se explica 103 . resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. .. na Escola Prática de Infantaria de Mafra.. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!.. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte.sistema sonoro.

mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. ficara à beira de um ataque de nervos. no velho convento frio e austero. nem era cedo. bebidas variadas. as mesas brilhavam de iguarias. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. etc. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África.. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. Desculpe.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. acepipes. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. poucos. risos nervosos e traseiros espetados. acordada de madrugada. doces. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. de gastas pedras nos longos corredores. A instituição militar EPI. camarão. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. saladas. e senhores engravatados a rigor. bolos. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . característicos da castrada burguesia nacional. frutas. Nem era tarde. Pavoneavam-se alguns. etc. perna de frango na outra. copo na mão. carnes frias e quentes.. agora disfarçado com aperitivos. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. ─ Dá-me licença!. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. muitos daqueles cadetes imberbes. por vezes mesmo medíocre.

a última barreira foi assim passada calmamente. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. Transportava o mesmo saco da chegada. com pouca pinta de militar.. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. Suspeitava-se haver revista à saída.colonial!”.. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria... Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. ─ Boa noite! Por favor. mais o “material sobrante”. “Certamente estaria a arrancar!.). Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. quando o cansaço afrouxasse a vigilância.. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. Yota da Purificação” (.. sim. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. conheço. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados... Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.! 105 .. o melhor era ficar para o fim. numa última passagem sem retorno.. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. ─ Sim. De facto não o vi . o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos.

postada a alguma distância.. igualmente com ar distinto. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra... em Janeiro de 1972. 106 . Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.. seria noticiada no “Avante”. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!.. último a deixar o convento. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. ─ Obrigado! .. ─ Mas . naquele Dezembro de 1971.. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. estamos aqui à espera .─ É que já passaram todos. sinal distintivo da origem de classe... As duas dirigiram-se para a porta de armas.... Nada de grave! Lá informam-na melhor. no gabinete do oficial-dedia!. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel.

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. imaginários adoradores pássaros. de animais e da a Natureza. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. Animistas.ÁFRICA. 108 . posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.

surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII.Esta actividade artística. Estes povos sedentários praticando a agricultura. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. socalcos à volta dos montes para a agricultura. minas. Quiloa e Mombaça. canais de irrigação. a Zâmbia. a Tanzânia. numa zona de ruínas ancestrais. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. forjas. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. enriquecidas pelo 109 . pouco antes da chegada dos portugueses. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. Melinde. estradas. cidadelas de pedra. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. sepulturas e pinturas rupestres. no interior da Rodésia. quando estes. subentendia uma organização social e política evoluída. a caminho da Índia. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. o Zimbabwé e parte de Moçambique. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos.

com o 110 . contas. que já utilizavam inclusivé a moeda. na pastorícia e na extracção mineira. com quem comerciavam há mais de um milénio. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. feito através de numerosos intermediários “mouros”. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. vindos do Norte. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. com uma economia assente na agricultura. da Índia e até do Extremo Oriente. numa organização de tipo tribal-feudal. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. cobre. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. faziam de entreposto com os reinos do interior. estes em escala reduzida. encontraram um comércio progressivo. trocando directamente tecidos. essências e faiança chinesa. especiarias. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. por ouro. marfim e escravos.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. ferro. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. Organizadas em cidades-estado. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique.

levaram pouco tempo a desvanecer-se. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África.. Em 1513. Como todos os imperialistas. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. agente real de Sofala. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. mas neste intento viriam a ser derrotados. Como um erro nunca vem só. retrógrada e oportunista. Pedro Vaz de Soares. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. Por orientação da Coroa. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro.. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. pela sua ignorância e pela sua ganância. queriam muito e depressa!. novas oportunidades de negócio...”. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras.

soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. em 1498. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. húmida. nas margens do Zambeze. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. estranha. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. quente. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. em Sena e em Tete. Em 1561. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. fresca. embarcava-se à meia-noite. luminosa. no “Boeing” da Força Aérea. no terminal militar de Figo Maduro. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. No início da década de 70. Quando a guerra colonial começou em 1964. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. familiar. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. de Lisboa.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. o mais alto 112 .

baixo e já com acentuada falta de cabelo. pendurados no exterior da rede da vedação. normalmente reservado. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. alto de estatura e seco de carnes. moreno. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. tal como Lourenço Marques. entroncado e de estatura média. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. ─ desabafa o Eduardo. o sulista trigueiro e magro. ─ É a proclamada multirracialidade!. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos.. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 .. compunham um quadro de modernidade. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. sempre eloquente nas afirmações. A Beira era uma cidade moderna.

por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. quando ficaram sós. ─ Sim.. mais novo. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . Chegaram atrasados ao jantar da messe. enquanto se retirava após comer o pêro. dava assim as “boas-vindas”. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. que já ia avançado. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. ─ O jantar começa às sete. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. O criado negro andava numa fona. sem qualquer cumprimento. foi a primeira vez que lá fomos!..realidade. não atendeu logo à chamada. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. ─ O que estavas à espera?... o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta.

faziam um excelente cozido à portuguesa. diziam. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. Duplamente preocupado. ─ Pois claro. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel..Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. ─ Se calhar. ─ Furriel. Miguel. Ouviste a resposta do “Furnas”?. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra.. rapazes humildes e simples. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. 115 .. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra.. no regresso a pé. onde estavam os soldados aboletados.

─ Olha o que nos espera!. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando.. preocupavam-se à volta de malas e sacos... ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. ─ Quanto mais tarde melhor.. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida.. ─ Também pensei nisso.. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. a minha mãe viúva!. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. se saísse à tabela. É preciso ajudar. por dentro.. por dentro. disso não tenhas dúvidas. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. é essa a intenção. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. à beira da linha de caminho de ferro. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. mas a família. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. Dezenas de soldados e alguns graduados. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo.

mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. Os militares seguiam nas carruagens do meio. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. trum-trum”.carreira.. resfolgando. onde se juntavam dezenas de negros. na retaguarda. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. sem resposta. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. Eram tropas frescas a caminho da guerra. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. aguardando a ordem para embarcar. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. puseram o longo combóio em marcha lenta. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. atarefadas com filhos às costas. a marcha abranda. Duas máquinas a vapor. o combóio pára. Na noite de breu. A velocidade aumentava. à volta de sacos e trouxas. o inimigo haveria de registar esses movimentos!.. o coração salta: 117 . o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. simpático no trato e já em segunda comissão. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. tinham um aspecto sumptuoso. trumtrum. sobretudo mulheres de capulanas garridas. A viagem decorria na noite de sono.

─ O que aconteceu? Ninguém sabe. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. sonhando com a cama quente no lar distante. Duas horas da madrugada. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. A manhã aparece com um Sol fulgurante.. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. é fresca a brisa que entra pela janela. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. formando esplendorosos contraluz. embalados pelo andamento monocórdico da composição. irão esquecer essa doce sensação. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. só lá mais para a frente!. Lá fora não se vê vivalma. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. o pessoal vai adormecendo. Poucos dão pelo recomeço da viagem.. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro.. vai ser um enorme benefício para a economia da província. bem vestido e curioso. O cansaço vence a ansiedade. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . ninguém explica. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento.. mais duas que em Portugal. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós.

a África do Sul?!. A menção do grande país da África Austral. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571.. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. o material de guerra é todo russo e chinês. a Rodésia. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 .─ A guerra é uma coisa terrível. como depois foi baptizado. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. os ingleses. Abrindo caminho à força de espada. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. os americanos. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães.. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo.

. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. A coberto das suas armas de fogo. os seus métodos de governo. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses.. procurando enriquecer pela simples pilhagem. viriam a ditar a ruína. comportam-se como malfeitores.. ferro. na obra já referida. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. Por volta de 1667. Em 1607. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres.notícias fantasiosas. editada em 1960:. rigidamente autocráticos. O génio individual que punham nas suas empresas. como refere Basil Davidson. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar.. chumbo e estanho no seu território. a concessão de todas as minas de ouro. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. roído pelas guerras internas. cobre. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. a coragem. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. 120 .

Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. foi. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (.. quando esta faltou também lançaram-se 121 . vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. no primeiro século e meio de ocupação? .”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. segundo a documentação histórica. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira.. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. Os seus vizinhos do interior de língua banto. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata.. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro.. ou do tipo negróide.). glorificados descobridores. E o que fizeram afinal os portugueses.

manhã cedo.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. a partir dali. perceberam-se os cuidados no avanço. na obra já referida ─ . um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. o comboio não circularia mais de noite. qual cabeçorra disforme. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. Logo no reinicio. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. ─ Basil Davidson.

..? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. ─ Vai bem. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. Cinco homens num destacamento.. como por encanto. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. ─ Ei! Sou do Barreiro!.. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó.. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. mas o 123 . em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador... frio. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. tudo na mesma! Vamos para. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. passando fome.período em pleno campo inóspito. calor. onde em contrapartida. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. vivemos num abrigo cavado naquela elevação.. mas não se viam construções no horizonte visual. Do chão. ─ Isto é um buraco medonho. O calor era intenso. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde.

..pior era à noite. pá! Calma. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. fizemos a picagem logo de manhãzinha. endureciam os semblantes. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação.. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. barbados de dois dias. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. ─ ‘Tou farto disto. pondo fim à conversa. ─ Então adeus! Boa sorte. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos.. com o medo de os irem “pegar à mão”. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . venham cá eles fazê-la!. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. Após uma longa curva feita lentamente. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança.

o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. pensava que os comiam todos! Risada geral. não pediam. houve risos. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. esperavam somente. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. não barafustavam. O pessoal precisava de descomprimir. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. ─ Não te preocupes. muitas. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. só então a ganilha animou. registando a chegada de dois “amigos do homem”.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. Esperavam pacientemente e não diziam nada. não riam nem brincavam.

“Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias... entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. amontoados entre trouxas. em Tete. Olhavam surpresos com olhos esquivos. quando viram aparecer o 126 . verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem.. grandes e brilhantes nas crianças. apareceu risonho e agitado. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. malas velhas e caixotes com galinhas. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!.. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. ─ Verdade. moço robusto e bem parecido. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. mas ninguém estava sentado no chão. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. com bancos curtos de ripas. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. com divisas. onde dois ou três soldados disfarçaram.. estás a engatar-me!. surgido do mato. As carruagens da frente eram muito velhas.. O comboio era muito comprido. ensebadas pelo uso. quando se abriram as portas de Abril. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. Risonho e desmiolado. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!.soldado Edmundo.

mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. a morteirada. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . Afinal. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. a namorada.grupo de furriéis. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. a mina. Onde estarão a esta hora a esposa. ─ Tem juízo. homem novo. a companheira. os irmãos. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. maravilhando os olhos na beira-rio. os pais. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. persistente. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. a emboscada. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade.recomendava o capitão. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . a mãe.

128 . um tenente-coronel que. tinha o seu problema resolvido como sempre. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. para chegar à costa oriental. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. ciosamente guardada. ─ Assim com esta barba de três dias. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. muito cedo. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. correndo energicamente para o vale que.exasperado. parecemos discípulos de Fidel!. sujos de pó. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. sob a sua influência. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. Claro. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. oportuno. uma semana era passada. ─ discorria o António Manuel. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro.. concitando olhares curiosos. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano.. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. foi instituído o “Regime dos Prazos”. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete.

com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. Moçambique e Brasil. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. para a futura abolição da escravatura. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. com muito pouco êxito. no Congresso de Viena.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. Cabo Verde. quando foi incrementado o tráfico de escravos. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. separado definitivamente da dependência da Índia. enxameou a colónia de deportados políticos. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. formada por Angola. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. Moçambique era um território arruinado. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. No começo do século XVII. dominada 129 . mas na Zambézia. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. No final do século. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. A situação só animou nos meados do século dezassete. princípios do século XVIII. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII.

para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. As pequenas colónias no interior. chefeguerreiro dos invasores zulus. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. na Rodésia. conta-nos Bryant: “Em 1860. transformando num deserto essa vasta região”. vindas do Sul. ruas largas. Instalações 130 . capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). pó vermelho e castanho. cidade de passagem. casas brancas de estilo arabizado com terraços. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. Mzila. pouca gente nas ruas. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. a ideia foi repudiada e não vingou.

por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. Comprido caminho de água. Meio-dia. onde viria a falecer com febres. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. sul-africanos. ingleses. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. mesmo com o rio a seus pés. Concluiu o excelso expedicionário.militares por todo o lado. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. ditando o desinteresse dos ingleses. no lugar de Cahora Bassa. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. 131 . o Sol queima e há poucas sombras.. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. muito calor. rodesianos. é uma cidade sem espaços verdes. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. na língua nativa. o Zambeze. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. entre outros. por isso a Frelimo quer destruí-la!. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. alemães. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. outra vez a malfadada ração de combate.

─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel.. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. só cá venho safar o “coirão”. A via alcatroada era um luxo raro. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. O projecto hidroeléctrico quando terminado. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. “pró 132 . garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!.. por máquinas da Engenharia Militar. A estrada continuava para o Songo. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado.. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. ─ E se fosses à merda!. por isso a grande nação austral. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. possuidora do regime mais racista do continente africano. na defesa da antiga colónia. ao encontro do gigante em construção. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. e.. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada.

lentamente. só se ouviam os motores roucos em aceleração. a estrada acabava e começava a picada. Estar na guerra aprende-se depressa. os camiões seguiam mais devagar. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. Sousa. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. incluindo algumas paragens para reagrupamento. Em sentido contrário o trânsito rareava. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . estávamos no reino da guerra. a engenharia militar ainda ali não chegara. seria fácil montarem uma surpresa. percorridos cerca de 120 quilómetros. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam.galheiro”! A mata era densa. mas pouco ou nada se divisava.concluía ainda o soldado-condutor. Ao fim de quase três horas de viagem. Soaram tiros longínquos. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 .

a conversa continua no bar. e só agora o António Manuel. com granadas e fieiras de balas à vista. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado.. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. * Estima: um posto de defesa na picada. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. símbolos da tropa especial. ninguém se atrevia a abrir a boca. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. correndo escuro e caudaloso. primeiro classificado. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. “já cá estamos há muito tempo. de nome Trindade. soturnos. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde.. atreveu-se a responder timidamente: 134 . parecia muito seguro de uma intocável autoridade. poeirentos. e um deles. A alegria de uns era a apreensão de outros. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso.silêncio. num portento de força impressionante. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. A guerra é naturalmente o tema central. ninguém saí dos trilhos. agora outros que dêem o coiro!”. do qual se avistava o Zambeze. E a guerra ficava mais próxima. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. o veículo continuou a marcha devagar. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. a lógica da campanha militar era. construído em paliçada de troncos. Os recém-chegados. alargada a alguns civis presentes.

Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. pelos vistos. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. junto à fronteira com a Rodésia. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. está contra nós! Vocês são novos aqui. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?.. A todo poderosa PIDE/DGS!.. para os lados de Mucumbura. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. e as populações! A acção psico.. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. ─ Ah! Cá como lá.. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu. ─ Quem não está connosco. ─ António? Que nome curioso! 135 .─ Mas. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade... ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha.

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. esteve circunscrita aos distritos do norte. Entre a surpresa e a desorientação. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. Ilha de Moçambique). Cabo Delgado e Niassa. o comando das Forças Armadas portuguesas. tinham fortes tradições independentistas. Quelimane. 137 . a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Em resposta. Sofala. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. Durante este período inicial. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. e os Macondes nos planaltos do Norte.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. Também o reino do Monomotapa no interior. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. na região de Mueda. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. com um ataque ao posto de Chai. em 1968.

à época bispo de Vila Cabral. tropas da Rodésia de Ian Smith. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. Trindade. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. Nijs e John Paul. Depois de descreverem em pormenor com datas. Em Setembro do mesmo ano. onde. locais e nomes.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. controlada pelas tropas auxiliares africanas. Calado de seu nome. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. e dos padres anglicanos. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. e os Direitos do Homem. na aldeia de António. Valverde e 138 . Em Tete. em Maio. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. reconhecidos por Portugal na ONU”. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. pouco escutadas no entanto. em Abril de 1971. uma companhia de “comandos”. Em Novembro. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. acusado de colaboracionismo. O ódio instala-se. para os aldeamentos cercados de arame farpado.

deveria estar a Igreja. porém. são os governantes políticos e militares de Portugal. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. corajosa e claramente. cultura. Nesta data foram expulsos de Moçambique. raça.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. mentalidade e até filosofia. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 .. sem julgamento ou culpa formada. torturados e assassinados.. até Novembro de 1973. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais.. costumes. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. De hoje em diante.. são perseguidos..) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. Cabora Bassa Em Março de 1968.) O povo de Moçambique. devido à sua língua. sem qualquer ambiguidade. onde iam de férias. numa conferência no Reino Unido..Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. Os africanos. em 2 de Janeiro de 1972. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. (.

) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. vertidos no caldeirão da guerrilha que. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . (alemães. inteligentemente. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. em 8 de Março de 1968. é um campo entrincheirado num meio hostil. Cahora Bassa. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. assente nos aquartelamentos de Chicoa. que devia ser defendida a todo o custo. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. italianos. No concreto. ingleses. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. e para isso. a afirmar o desejo independentista. Estima e Chipera. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. rodeado por uma vedação de arame farpado. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. etc. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História.milhão de colonos brancos. A empresa construtora Zamco. no dizer indígena. em Julho de 1968.

Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. a Base Aérea nº 7. minas! Fuga e reagrupamento. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. com a ajuda da República Popular da China. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado.Moçambique. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. eis a nossa táctica. apoio na população. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. flagelações. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. num só dia. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. constituía-se em forças irregulares. 15 de Novembro de 72. minas. Furacungo. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. As notícias chegavam em catadupa. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. minas. No dia 9 de Novembro de 1972. a linha de caminho-de-ferro 141 . Fingué. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. em Tete. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. embora os estragos não fossem de monta. emboscadas. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. Depois atacou sucessivamente. Chicoa.

que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. controladas e permanentemente patrulhadas. O pânico instala-se e. divisava-se o rio escuro e caudaloso. no eixo Beira-Vila Pery. 142 . foi sabotada na região de Moatize. separando inexoravelmente as duas margens. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. A mão-de-obra rodesiana. e em 25 de Setembro de 1972. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. silenciosa e traiçoeira. com uma força desconhecida. uma tarefa que o comandante-chefe. Deste lado a vegetação era escassa. O comandante-chefe. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. ao longo de 8 quilómetros. Assim se entretinham as forças portuguesas. com algumas portas apenas. Kaúlza de Arriaga. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. Kaúlza de Arriaga. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. também assumira esse compromisso. cinzenta e castanha. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". com raras excepções. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. e os técnicos sul-africanos e europeus. Entretanto. pela primeira vez. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete.

─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. nascida e crescida sob a protecção das tágides. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. A água de um castanho terroso. Foi há uns três anos. companheiro de 143 . conta-se a meia voz. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. ─ Aqui não. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. mecânico de armamento. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. mas mais acima houve um desastre terrível. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. causando arrepios a viagem entre as duas margens. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone.

─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. o camião desliza mais um 144 . Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. a jangada entra em estremeções. ajoujado de carga militar. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. onde a água era mais agitada. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. Um camião “Fargo”. descaiu para a frente a meio da viagem. aproximando-se da extremidade sem anteparo. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. e aumenta também a trepidação. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. o alferes Baptista resolve intervir. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. por certo deficientemente escorado. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente.formação do António Manuel.

em desespero. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. ou porque não tinham meios de socorro. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. no meio de uma gritaria medonha. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. outros procuram nadar energicamente para a margem.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. a corda que prendia a viatura partiu-se. Com um formidável estampido. cinco ou seis homens. com comando mesmo errado. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. ficando suspensas no vazio. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. Sem comando não havia acção. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. o abrandar fora fatal. a jangada porém.

provocando o deslizamento da segunda viatura. .Ao serão. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. material de guerra. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. mantimentos e munições. na messe. era um sol diferente. soldados e nativos. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. mas os restantes corpos nunca apareceram. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. Tudo se passou rapidamente. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Alguns nadadores atingem a margem. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. que arrasta consigo mais alguns homens. numa operação cuidada e lenta. Naquela zona do rio há muitos crocodilos.mais abaixo. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. * A tarde chegou ao fim. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. Ao todo. Por isso a trasfega não fora completada. e 146 . um sono em vigília despertando ao menor ruído. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. em poucos minutos. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. 101 soldados e graduados. Metade da Companhia tinha feito a travessia. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos.

Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos.. houve um acidente com muitos mortos. 147 .. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. o rio faz favor!. bagagens. são por vezes replicadas.. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada.. prestes a ser rendida ─ Sim. . de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. amigos.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. mesmo que cheire a gasóleo. os três amigos não se afastaram da zona do motor. Numa das primeiras viaturas.. Se houver alguma coisa. homens e armas. ─ contava um furriel operacional da companhia local. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. com malas. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. Parece que não!.. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. aqui quando chove. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. Mais mais para montante. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia.

A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. peremptória. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. embora ocultas pela folhagem densa. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. metálica na extremidade. meu alferes.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. com um timbre familiar. ─ Continuem a picar. ─ Mas. Na luminosidade da contraluz matinal. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. inquieto. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa.. que daí a pouco já se percebiam distintamente. ─ Neste sítio não é provável. Calaram-se. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. nem piar de pássaro nem som de animal. tão perto do quartel! ─ congeminava o João..* Reinava uma estranha calma na Natureza. No silêncio ensurdecedor. não-operacional mas com algum traquejo da vida.

. Baumm!. Sierra . mesmo jogado com pouca convicção... ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez.. três rebentamentos Baumm!.... embora nítido... Bravo .. era 149 .. Trrrr. Tango . sem divisas e de lenço verde ao pescoço. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa. Alfa. propôs o empate. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. vestido a rigor de camuflado sarapintado.. Mike.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. Sierra.. enche a noite quente de Verão.desde o destino final.. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa. Trrrr.. o parceiro das partidas escaquísticas. Alfa.. Trrrr. o negrume cerrado da noite africana. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. dois... Baumm!. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. a guerra continua O som distante e abafado. O batuque vai começar.. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.. ─ Parece estar a acontecer algo de grave. António Manuel. Sierra.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco....

. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair.. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. A 150 . Baumm!. na noite anterior. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ).. ─ A seguir somos nós!. iluminado por fraca luz interior.. e fazer o reconhecimento da zona. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados.. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. ─ Foi assim. Os rebentamentos não cessavam.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. a messe e a porta de armas. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. * Manhã cedo. os “turras” mandaram só umas morteiradas. a cantina. com uma experiência de oito meses. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. Já há três dias que fazem sinais nos morros. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. vozes abafadas. madrugada ainda. Baumm!.. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque... em Agosto.

o alferes Yota. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. nomeadamente o comandante. João .. Ah! Aí está.. Mas. À noite.. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada.. agora já cheirava a sangue. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!.. Ao lado. A fisionomia era-lhe familiar. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. esteve comigo na recruta em Mafra!. eludia o sobressalto.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. fazia uma 151 . ─ Yota?. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém.. a partir de Chicoa. cândido por feitio. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. com ar de desaprovação. ─ acrescentava o Sousa. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!.. ─ observava o António. havia dois feridos graves. concluira João. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. À hora do jantar chegou a terrível notícia. Agora o sono cortado vencia a emoção. o pelotão já partira. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. que ficara sem um pé. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás.. ─ Nada.. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. levantando-se desaustinadamente. ─ com a metáfora..

─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. A História não pára e o Mundo avança. no interior de uma África estranha e quente. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. o trabalho na fábrica. violentados. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. quando elas começarem a “cantar”. No teatro de guerra. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis.ideia diferente! ─ Sousa. ─ A realidade é tão chocante. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. dava-lhe uma consciência aguda da situação. embora algo sentimental. de estudos e vivência. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. nas populações e nas nossas tropas. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. como faz o Movimento de Libertação!.. parte maior das agruras da distância... a discussão prometia. assumia a contradição. Aos milicianos chantageiam com as férias.. sofria a saudade da Pátria distante.. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. e estas crianças andrajosas e famintas!. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. o mais sulista do grupo. ─ A guerra colonial tem os dias contados.. Idealista. o 152 . ─ o António Manuel nascera na beira-rio. onde deixara a esposa jovem. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. desde muito cedo. Talvez mais cedo do que tarde!.

tal como ao mundo chegou. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. tentando detectar qualquer indício identificador. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra.medo misturava-se com a revolta. O aparecimento de “very-lights”. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. a luminosidade 153 . A Natureza. que também ali se construía. pois era sua a decisão táctica. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. na dilacerante guerra de guerrilhas. de pele branca. ao fim da tarde era sinal de alerta. * Havia um mês que ali estavam. ainda que disso nem todos dessem conta. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. temendo o perigo iminente. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. em 1970 e 71. indiferente aos dramas dos homens. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. entre morros altos apertando a vista e a alma.

Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. Constava à boca pequena.quente impressionava ainda a retina. Deixava o interior das instalações militares. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. O alarme soara falso. começaram a voltar às casernas. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. devido à forte influência da guerrilha na zona. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. como eram conhecidos na gíria militar. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. Pouco a pouco. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. Era assim no coração de África. 154 . um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. fora destruído e abandonado há alguns anos. torturados pela inclemência solar. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. ou de zinco. cobertas com telhas de fibrocimento. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação.

Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. autorizara o batuque aos sábados. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. Ao quarto fim-de-semana de estadia. dispersos entre brincadeiras ocasionais.. em grupo. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. Ali não havia selvagens de tanga. A excepção eram as moças novas. que na tropa não se podia abrir a boca!. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller.. remoendo as dúvidas e a desconfiança. um major mal conhecido e mal encarado. Envenenado estava tão-só o ambiente.. local mais calmo e “arejado”.O novo comandante do batalhão recém-chegado. para matar a fome. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). tão-pouco adolescentes. com corpos musculados e peles luzidias. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. trazia à memória os célebres filmes da juventude. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. por questão de segurança. vestidas com capulanas de cores garridas. combinou-se uma visita à aldeia. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. nem havia setas envenenadas. ” ─ interrogaram-se os soldados calados.. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. Estavam em grupos. da saga “Tarzan. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. Recentemente. o homem macaco”. outra 155 . para manter o ânimo das populações!. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos.

profissão rendosa. rompendo o soluço. 156 .. Decerto clientes de “cuspo”. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. com menos humidade. a noite chegou mansamente. aquele era um clima muito seco. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. eventualmente!?. Afinal não tinham ficado para o batuque. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta.. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. ─ Talvez tenhas razão. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. com divisas. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. mais perto do Índico. a de lacaio da administração colonial. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. Porventura. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família.

E quem concordava? Muito poucos. patranhas e acção psicológica. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. com uma única saída para a picada. Ao todo são oito postos de guarda. uma área enorme cercada de arame farpado. ligados por atalhos ainda não memorizados. Na noite escura por caminhos esconsos. Desde essa data. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. daqueles. aprendido há poucos dias. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. e para sul até ao aldeamento. e. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. É a primeira ronda de serviço. O aquartelamento é grande. pelos vistos. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. a guerra continuava. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. o batuque ia começar na aldeia. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. a alma aperta-se e os sentidos despertam. dispersos e muito afastados. poucos. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . bem no interior do istmo central moçambicano.

acidentes ou fenómenos naquele local. eventos. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas.. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. o sobressalto aperta-lhe o peito. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante.. não! Pois. ─ Achas provável? Nunca constou!. De repente a chuva 158 . todos os acontecimentos. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!.. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. Sousa olhava o tecto. reportavam à guerra. antes de desabar uma curta tromba de água. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente.. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada.. não quis dar parte de fraco!... a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde.. ─ Pois.. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro.. não! Na Guiné. paciência!”. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. O coração acelera desordenado. João vai avançando de modo inseguro. Abafava-se no quarto completamente fechado.tiro!?. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte.

com reflexos azulados e avermelhados. no caminho do segundo posto de vigilância. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. tão radicalmente como tinha começado. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. siderado. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. Fundindo-se na terra. nenhum rumor distante. muitos quilómetros. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. 159 . com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul.”. esfumou-se na noite. Nenhum som. coloridos em tons de prata e ouro. nenhuma claridade ofuscante. por miríades de riscos ziguezagueantes.. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. ─ Quem vem lá? Alto. rasgado a muitos.parou. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. o jovem militar. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. O receio esfumava-se.. A velha África das origens humanas.

─ Aproxime-se para verificar!. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.... ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. meu furriel! Conhece? ─ Não. ponho-me para aqui a contar os raios!. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.. * 160 .. fugaz. açoriano como a maioria daquele batalhão. Pregou-me um susto.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. apertavam como tenazes o coração dos homens. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. ao longe.. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra.. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. E é espantoso. Ah! É o furriel da secretaria..

deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. com prejuízo dos alimentos perecíveis. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. com o chefe da secretaria. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. Valia o facto de ter combinado a compensação. certamente superior à poupança. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. o correio era o elemento existencial mais 161 . e pronto! ─ Deixa lá. justificas ao capitão. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. agora é só ensaio. suspeitosamente simpático. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. durante a manhã após o serviço de ronda. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. Gestão tropeira. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais.

. comandante de companhia. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra.. A desconfiança suplantou a curiosidade. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. exibindo-se papéis. num circulo nauseante de imponderabilidade.transcendente para aquela rapaziada. como iria ser o dia? 162 . meneando a cabeça. mandadores sem lei. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. Fora uma noite premonitória. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. Após uma pequena entrevista no alpendre. O centro de gravidade do corpo leve. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar..”.

163 . DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.6...

percebendo que algo de 164 .Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. ─ observava. amigo das ideias.. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. depois do primeiro choque. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. o oficial alto e escuro. um major que mal conhecia. de G3 pronta. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma.. Nem mais uma palavra. mas ninguém tinha dito nada ao visado. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. nem uma explicação. candidamente. nem um mandado.. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. Começava a ficar irritado. Tinha até ordens para o algemar.. O comandante interino do Batalhão. com modos de polícia. isso vai afectar o moral dos homens. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. Alguns camaradas observavam atónitos. o amigo ao receber religiosamente o material.

de que falava a mensagem. nas terras quentes dos longos planaltos centrais.. Em Chipera.grave se passava.. pelo despotismo do comando militarista... está enganado! ─ “Meu tenente”. onde o dia-a-dia continuava tenso. em jeito de despedida. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. Até sempre. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. se não se importa. empertigado. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!.. agora com uma cama vazia. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. a calma em pessoa. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . trata-se de um indivíduo perigoso. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. Olhou-o com ar reprovativo. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. ao fim da tarde igual. sem coragem para comentar na hora da despedida. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel.. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves.

da barba feita com lâmina inusitada. Era um homem já 166 . No outro. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. o jovem alto e magro. Horas depois. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. afirmando também a voz. Por detrás da secretária da sua importância. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT.. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga.circulando subterrâneas. com um ar distinto no ambiente despojado. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu.. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. perturbantes e insidiosas. da delegação da PIDE/DGS em Tete. era compartilhada por um negro ainda jovem. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. A cela dos fundos da delegação. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa.

embora encorpado. ─ Fique nessa! Tem mais luz. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. colocados a um canto. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes.maduro. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. Um mainato muito jovem. sem qualquer divisória. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. rapaz ainda. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. senhô! Gosta de ver limpo. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. ─ Nhambo! Que tá fazendo. Retomando a tarefa de limpeza do chão. curtido pelo sol africano. ─ Não tem mais tronco. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. né! ─ respondeu o jovem corpulento. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. única abertura para o exterior. ─ Sim. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. com um tom acastanhado na pele exposta. mostrando ser o mentor da cela. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. Junto à parede contrária à porta de entrada. acha? 167 . chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. estavam estendidos três colchões de espuma fina.

. às voltas com uma mala preta de plástico. a cara redonda e luzidia. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado.. para de novo pousar os olhos no chão. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez.. na tarde quente e esplendorosa. manipulada para retirar o pijama. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. Aberta em cima da cama de circunstância. num trejeito efeminado: ─ Vá. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. num breve instante. ─ interrompeu a resposta. ─ Eu sou fulano de tal. resplandecente e implacável. De vez em quando. não seria conveniente. passou-lhe um brilho estranho nos olhos.! ─ acrescentou.... e 168 .. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. saindo a menear o rabo nutrido.. ─ Eu sou Silveira. que lhe tinham trazido há minutos. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. com uma cor amarelo-alaranjada. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . mas adivinhava-se uma bola magnífica. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!.─ respondeu o miúdo a sorrir. que não deixava perceber o “fio da meada”. quase fugaz. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. deixava ver a farda recentemente despida. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. furriel do Exército português .

nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. depois de confirmar a identidade. acrescentou ─ venha comigo. como recomendara a jovem esposa com carinho. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna.mais não disseram. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. na direcção do mictório. desviando o olhar súbito. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção.. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã... De súbito. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. lhe arranjara. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol.”. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. ─ comentara João. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. provavelmente!. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação.. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 .

percebendo certamente ser transitório. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. menos bem desenhadas do que era costume. com indicação de posterior devolução. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. ─ Deixe estar. olhavam curiosos para aquele “luxo”. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. mais do que a cabeça.. não é necessário. é claro!. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. gosta de viver ao ar livre.. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. e aos meus camaradas de tropa.─ Chico.. ─ Como assim. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 .. Os dois primitivos residentes da cela. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. O coração. escreva só a morada de destino do telegrama. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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sim. A inquietação não permitia apreciar 178 . desorientado. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. No ar perpassava um fluído etéreo. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. Ansumé ficara arrasado.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. Faltava uma bala no carregador.. sobretudo brancos.. no Norte... ─ Também ouvi. com a G3 caída ao lado. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. LOURENÇO MARQUES.. Talvez sejam mulheres.. activos e combatentes. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete.

desde Tete. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. nem sempre concretizáveis. ─ Temos de ir. onde a geografia era mais agreste. nem sempre concretizadas. percebendo-se as sucessivas modificações da flora.. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. no coração de África. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. O polícia dava mostras de nervosismo... Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. a sede da PIDE/DGS. Talvez fosse. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. rumo à “Vivenda Algarve”. 179 . que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção... até à sede em Lourenço Marques.. roubando o ângulo de visão e a serenidade. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?.pormenorizadamente a paisagem. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas.

que substituíram os dias de angústia da guerra. 180 . uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. Mas a solidão e a insegurança presentes. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava.. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. na confusão dos dias de angústia da prisão. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. não podia fraquejar. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. nem utensílios. nada!. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. num canto. protegida por uma rede metálica. em Tete.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”.. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. pois não queria. onde estava enfiado há mês e meio. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. A cela com 2 x 4 metros. nem asseios. Era todo o mobiliário existente. Chipera Velha.

até que o assobio reapareceu. Tal. Reinava de novo o silêncio. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”.Acordou (quanto tempo depois?).. humanamente insuportáveis. não seria prudente. Voltou o silêncio profundo. porém. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. puxado entretanto. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. paralelo e gémeo. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. que reconheceria em qualquer parte do mundo.Batendo as asas na noite calada. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas).” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. Apurou o ouvido. 181 .. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada.

eles comem tudo. o Braga. até à comoção das lágrimas. O Zeca. O anúncio de um título bem imaginado. o Ary. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. na Faculdade de Ciências. cantaram e recitaram. à rua da Escola Politécnica. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. tocaram. 182 .!”. que tinha a coragem de ter medo. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. SARL. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. SARL. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. o Paredes.. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. encostadas precariamente. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa.. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. eles comem tudo. aquela noite de coragem e fervor antifascista.

não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”.. pá! O 183 . o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. meu comandante. O segundo. O novo comandante. por ordem cronológica. Andando de quartel em quartel. mal tinham acabado de chegar. fora reveladora da mentalidade militarista. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. era como a maioria dos oficiais-generais. um tenente-coronel. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. em menos de quatro meses..NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa.. de “guerra em guerra”. tratando-se de uma nomeação interina. em meados de Outubro. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. numa estranha itenerância nómada. era o terceiro. pá?. ─ Põe o barrete. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. O primeiro comandante. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria.. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. Em suma. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos.

finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. Chiça!”. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. até 184 . Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. “Filho da puta. as meias a três quartos e a continência. Para estes. as únicas preocupações são o barrete. era o aspecto exterior do aquartelamento. e. Por isso. general Kaúlza de Arriaga. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. a trabalharem nas limpezas. noutras. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. foi muito elogiada a “fachada”. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. dois com a guarda pessoal.barrete é para usar. com um soldado sem pés. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). com três feridos graves como primeiras baixas. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. do comandante-chefe. quatro helicópteros. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. procurando neste caso dividendos imediatos. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral.

Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. Aliás.. e quanto aos meios. em Manica e Sofala. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. analisando com consciência a realidade conhecida. Contraditoriamente. Deus me livre!”. Os objectivos em curso seriam cumpridos. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. a guerra não parava de evoluir. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. apesar da 185 . contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza.. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. para sul do rio Messalo. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. Não acreditavam naquele optimismo todo. Alguns. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. no Niassa a actividade terrorista era residual. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. Os militares cumpriam o seu papel. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. agora o resto era com o poder político. estavam cansados de tantas comissões. questionavam-se segundo o velho aforismo. era uma questão de tempo e de meios. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. como estrategicamente se tinha proposto. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. a barragem em breve seria um facto. porém. não passando. O tempo jogava a nosso favor.sucumbirem!?. aliás.

em Junho.fraqueza anunciada. não isenta de grandes contradições e inconsequências. tomando os desejos por realidades. O general ultranacionalista. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. na direcção da cidade da Beira. em Março de 1973. Não era grande coisa. em Abril. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. mas. por essa altura. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. prisão da 186 . Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. afinal. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. em Maio de 1973. em Maio. e. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. e. Machava. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. como todas as outras. chamado a Lisboa em Julho de 1973. No Norte. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. em Cabo Delgado. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. megalómano. A guerrilha atacou Vila Gamito. atacou Estima com foguetes de 122 mm. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais.

187 . Mas. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente.. de tão inesperada. diálogos breves. porventura maiores que o seu. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. ─ Deixe estar. Não obteve resposta.. a esta hora já não se pode fazer nada. ─ Coma. composto de muitos dramas solitários e isolados. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. A conversa continuou durante alguns minutos. nem o jantar me trouxeram!. entre as quatro paredes caiadas. de bigode fino e voz nortenha. bateu com força na porta de madeira. obrigado! Não se incomode. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. magro..PIDE/DGS em Lourenço Marques. portas abrindo-se e fechando-se. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. Mas deixe estar. O guarda prisional. de estatura média.. constatando. Novembro de 1972. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. causava alguma perplexidade. Não era o mesmo da chegada.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. falando de bons modos. eu já volto quando terminar a ronda. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite.

─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz.. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses.. trouxe bananas (a comida era péssima).. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. A seu tempo. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. esperando melhores dias!. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. que se passará? ─ a questão 188 . ─ Cá estamos.. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje.. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. ontem fiquei preocupado. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto.. querem ver que está feito com a PIDE?!. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional.Quando voltou a recolher o púcaro.”.. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. ─ no limiar da porta. como exigiam as regras. Vagamente.

Depois fez-se silêncio. abafado e húmido. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo.. De facto. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. ─ Vou ver o que se passa. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. sem esperança. logo abafadas por a porta ter sido fechada. porque o guarda não mostrou surpresa. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. trancados e isolados em pequenos espaços. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. ficava um calor insuportável. provocando uma enorme tensão. durante toda a tarde e início da noite. porém. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. anjo ou demónio?”. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial.. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. dou em doido!”. Em pouco tempo. Vindo do fundo do corredor. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. 189 . como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. lamentoso.devia ser muito ignara.

é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta.. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. 190 . de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. aparecendo o guarda com um sorriso. Quando já descria. Mesmo agora. de costas na enxerga. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura.. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. a sonhar com a liberdade roubada. muito abalado pela alimentação deficiente. De resto.. isto aqui não interessa a ninguém.Num momento de nostalgia e saudade. Olhando para o exterior. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo.. acordado.. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. no quartel da Xefina! ─ E você. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. era nítido o desenho das palavras na contraluz. na janela.! ─ completava o furriel. por “actividades políticas”. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. a aguardar as visitas prometidas. mais velho de aparência..

não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. ─ Sim. ─ Não! Não! Você. o pastor Manganhela. prestando atenção.. sorrindo. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. dir-se-ia uma acentuada palidez. passando lestos pelos circunstantes. ao 191 . ─ Bom! Temos de acabar. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. não fora o paradoxo de cores. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. não pudemos abusar da sorte. procuraram transmitir algo. ficando sem expressão. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. Os olhos faiscaram um fugaz terror.. guarda Cerqueira. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. com comiseração e espanto.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. o guarda prisional.

olhando sobranceiro os detidos. Os restantes presos ganharam alento. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. colocando-a por debaixo da enxerga. esticou no chão o corpo inerte. maduro de idade.! Ao dizer isto. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. com óculos verdes graduados. Ao percorrer em silêncio a sala. À excepção do jovem branco. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. ─ Já disse. eu trato disso!”. já bastante enrugadas. fumando boquilha. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. a fazer-se desentendido. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. Autoritário e brusco. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. a face de outro homem negro. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. reteve por instantes o olhar no único branco.. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 .homem preto que acabava de cair abruptamente. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. Instintivamente. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade..

─ Sim. ─ não pode completar a frase. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. ─ Ora isso é o que iremos ver!. Acompanhava directamente. cabelo grisalho. suspensa no curso da resposta... o processo do pastor Zedequias Manganhela. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. detido desde Junho de 1972.. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar.. branco nas suíças. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. ─ Bom sabe. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. senhor director.. alto e de barriga algo proeminente. precisa de ocupação!?.. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.. interrompida de forma abrupta. ─ ameaçava António Vaz. aparentando uns prováveis sessenta anos. O director continuava a cirandar na pequena sala. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto..

. Cerqueira. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. de roupa. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. de alguns livros!.. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. Na minha mala.. O “anjo da guarda”... vindo do teatro de guerra. quente e envolta na ligeira 194 . ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento.. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.─ É a primeira vez que cá venho. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.

terror psicológico. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. conforme a versão oficial. nunca se saberá. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. Foram seis meses de interrogatórios. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). onde Manganhela permanecia em isolamento. nunca provada. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. ameaças. sevícias.neblina africana que aplacava a inclemência. e com grande prestígio na Europa. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. ou um tenebroso 195 . devotado à sua missão. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. de colaboração com a Frelimo. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. o guarda-fiscal. Suicídio. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. numa zona onde não havia guerra. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. Zedequias Manganhela era um pastor. humilhações permanentes sobre um homem idoso.

7. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 .assassinato? Em qualquer dos casos. foi um crime de morte matada. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. os seus mentores e os seus mandantes.

denunciado em meados de 1973. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. A 197 .16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. soube-se a dramática história da prisão. por ajudar. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. quiçá salvar. a 9 de Setembro de 1974. do guarda prisional Cerqueira. muitos presos políticos na cadeia da Machava. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS.

esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. muito sangue!. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. agora com o futuro tão incerto. fumos. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. perseguições e sangue. Quando o avião. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. ─ Não. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. chamas. com escala em Luanda. num pesadelo de tiros. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. Com a recusa da carta propositadamente escrita. Abriu os olhos. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. correrias. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. na sua incansável solidariedade.. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 .. um DC-6 da TAP. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. gritos.

é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. com muitos aldeamentos dispersos. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. como represália. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. Os aldeões são divididos em dois grupos. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. e. próprio da época das chuvas. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. Tratava-se de uma área muito povoada. mulheres e crianças do outro sentados no chão. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. não levou a conclusões. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. quando procura o mato. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. distantes entre si poucos quilómetros. homens de um lado. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. num repente.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. Por volta das 14 horas surgem. e. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. Chawola e Juwau. Chico Cachavi. um tenebroso 199 .

“Por não dizerem quem alvejou o avião”. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. que organizaram o primeiro relatório 200 . que depois as diriam ao mundo. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. A tropa completamente ensandecida. jovens donzelas são arrastadas para o mato. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. Juntaram depois as vítimas numa pilha. um afluente do Luenha. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder.torcionário do recrutamento provincial. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. para além do que pode entender a razão humana. uma mulher grávida é esventrada. à entrada de Tete. fica juncado de cadáveres. perante a passividade de sargentos e oficiais. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. O sangue enlouquece a soldadagem. surpreendendo os habitantes incrédulos. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. O rio Nyamtawatawa. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. e. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. violadas. o aldeamento é completamente destruído. Pedro. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. crianças chorando são mortas a pontapé. mutiladas e mortas. distante cerca de quatro quilómetros. Foram os padres daquela congregação.

haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. nomeadamente ao comandante da ZOT. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. coronel Videira. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. em 19/12/1972. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. e sobre Wiriyamu. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. ano e meio depois. três dias depois dos acontecimentos. em Julho de 1973. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. finalmente.sobre Chawola. aconteceu quando. traje alegre vestido para afugentar 201 . revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. desumanizados e corrompidos até à medula. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela.

o mundo está cheio de ateus.“maus olhados”. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. Da companheira não havia sinal. 202 . ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja... por isso está como está!.. Ficaram para o fim. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. em Caxias. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino.. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. agora tinha iniciado o interrogatório. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. onde acabara de ser identificado e fotografado. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. essa é uma matéria reservada. ─ Desculpe. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. Lá em baixo à espera.. para iniciar uma nova e derradeira viagem. depois de todos os passageiros terem saído. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS... puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada.! O agente.. estava uma carrinha da PIDE/DGS. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. na natureza e no seu coração. Caxias. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado.

Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência.─ Fiz-lhe uma pergunta. apenas o corredor comprido e silencioso. Também estive na guerra do Ultramar. Por detrás tem as minhas iniciais. as da minha esposa. ─ Ah! É verdade. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. e o meu tipo de sangue. Divisavam-se várias portas fechadas. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. você é militar. o grande responsável. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. outra campainha. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. o som metálico da lingueta da fechadura. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. interrompido por outra porta de ferro gradeada. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo.

por vezes reduzido... acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.um palmo e fazia uma cara-de-mau. isolado do mundo. gradeada. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria.. Por cima da mesa. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário.. criando um ambiente soturno. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. uma lâmpada de filamento. ─ Não sei do que está a falar. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. propício à desmoralização psicológica do preso. em Dezembro de 1971?!. por onde eram emitidos sons gravados. ─ Ah! Não sabe!. em Mafra. numa fisionomia naturalmente ruim. como depois se perceberia. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. fraca.

À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. para além da fracção de segundo. ─ Respeito o quê. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. o preso é sempre o mesmo. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. sobretudo na alta madrugada. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. a tosse de catarro ou o pigarrear. faz favor! Eu não o ofendi. um aspecto de símio de pernas arqueadas. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. polícia manhoso à maneira antiga. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. impedem o “fechamento” completo do cérebro. criando uma pressão terrível. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. por vezes o safanão. chamava-se o “moínho”. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. Começava a tortura do sono.

.. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir.... Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez.. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. O sádico pide continua a sua nova táctica.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. para acordar logo de seguida em sobressalto. hem! O mundo desmorona-se. A partir daí a tortura é dupla. o coração “salta do peito”. o preso desfalece instantaneamente. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. silencioso. os ouvidos zunem ensurdecidos. instantaneamente parado. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias.! O agente sentou-se estranhamente calado. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. Àquela hora o sono apertava. * 206 . O efeito é terrível. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. a respiração é travada num doloroso nó na garganta.

o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. O chefe-de-brigada chegado no séquito. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. gravata e sapatos reluzentes. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. e por um ligeiro sorriso cínico. Adelino Tinoco. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. não precisou de muito!. depois do inspector superior da PIDE/DGS... Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. preocupado com a aparência para infundir respeito. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. só traída por um pequeno esgar. ter saído 207 . não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!.. no Curso de Oficiais Milicianos. mas não tinha a certeza. quando mencionou o senhor doutor. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. nunca levantando a voz. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. encarregou-se de clarificar a situação. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. ─ Não sei porque estou preso. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. o “senhor doutor”. um porte de alto funcionário do Estado..

não! Por favor. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 .com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado.. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. a não ser. ─ Vá. ─ Violências. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política.! ─ Ia dar o salto. não vale a pena perdermos tempo. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.. ─ o pide calmeirão... se não conta tudo não vai dormir hoje. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. O senhor é uma pessoa inteligente... ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. vamos tratar como pessoas civilizadas. foi uma pessoa simpática e colaboradora..

prostrado de joelhos. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. Estava muito calor em pleno Agosto... o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço..! A brigada da Guarda Fiscal. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. por favor! ─ Mas!. perto de Vilar Formoso. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. fazia o papel legal. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. um sujeito fulano de tal. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor.. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. Estamos de visita! Não podem. ─ Vá. Encontrei-o uma vez em Lisboa. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação..uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração.. avisada. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. o resto fiava mais fino. Calou-se. deixando-o ofegante. apesar das suas reticências. Um pequeno prurido de remorsos.

disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. em Dezembro de 1971. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. fale! ─ este é dos “pides maus”. pequenos baixo-relevo estilizados. são figuras de bichos. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. 210 . é claramente provocatória para impressionar o detido. em Mafra.. onde antes só estavam manchas indistintas. penteadinho e bem vestido.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino... O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. todo encolhido. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. O “SENHOR INSPECTOR” Um. pinturas-quadros humanizados.

não vale a pena negar! Além disso. ali estava um exemplar do “Avante!”. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. ─ Desconheço esse assunto.. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”.. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista.. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada.” ─ Esse canalha!. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. fazia precisamente um ano. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. em Dezembro de 1971. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. é a primeira alucinação. não resta alternativa. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. desdobrou uma folha de papel fininho e. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. surpreendentemente.. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se.

Junto da sua cara. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. já a madrugada ia alta. com um bafo acentuado de álcool. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Encostado às paredes foi caminhando. já disse! ─ sacudindo-o 212 . O pide pequeno e feio. ─ A partir de agora fica sem cadeira. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. Como uma mola. Passaram as horas. Adelino Tinoco. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. o que permitia ir calculando o tempo). não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. aludira. bombista!”. que até os tinha formados em Psicologia. caminhando. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. Silêncio! Não entrou ninguém. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. Até amanhã. como o torcionário-mor. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão.

mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 .. e com um emblema na lapela. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. deu origem. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. como de costume.violentamente. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!.. não tem cara para levar uma bofetada!. de bom corte. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. Um “pide-bom”. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. no instante seguinte. com ar muito solene. voltou as costas e desandou... pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. o “superior” teve uma ligeira hesitação. bem vestido num fato azul-esverdeado. alto e de meia idade.

. no quarto dia consecutivo. não tenho nada a ver com isso. desaparecem. sob o mando directo de Salazar até 1968. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962.! Alucinações frequentes. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. muito íntimo do director Silva Pais. de onde chega uma luz de sol 214 . eram mitigados. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. com Marcelo Caetano no poder. as paredes deslocam-se. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. Agora na década de 70. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. ameaçador. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono.. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. quatro dias.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro.

. mais um passo ansioso e . o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios.” Passa o tempo a olhar para o preso.. pouco antes da mudança de turno.magnífica. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. Todas as noites. O vigilante calou-se. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. só abre a boca para ditar ordens e regras. onde a vida continua. além do oceano.. O café da noite tinha um gosto esquisito. única saída para a liberdade urgente. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. Quem dera poder dormir um pouco!. mentecapto.. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias... com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. não conseguia adormecer. acima do mundo.. Ao fim de quatro dias de privação do sono. O preso avança às cegas para um precipício.” ─ Afaste-se da janela. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol.. sobre o rio. com ar arrogante e meio imbecil. por isso bebeu só uns goles. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. vinha um 215 . semiaberta. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!.

. sem querer. Mas isso não interessa. vamos é saber da sua disposição. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. apetecia-lhe conversar. vindo não sabia de onde. obrigado...sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. calha bem!. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. Sabia bem aquela bebida quente.. produzia a perda da noção tridimensional. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. ─ Interessa. porque de repente. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. daí as alucinações. A falta de descanso do cérebro. conversar!. quase euforia. Hoje é o primeiro dia de Inverno. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. não é? Sentia uma tremenda excitação.. fazia frio à noite. 216 . juntava-se a confusão do tempo. juntando-se agora a confusão espacio-temporal..

não respondeu logo. não estou a par! Mas. ─ Você. por onde vultos furtivos se escapavam. dizem-se pacifistas. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. fazem agitação contra a guerra. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus.. um homem católico.. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. nem o Deus em que não acredita.. ninguém me mandou. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. sabe. também estive na guerra. em Angola!?. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias... qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor.─ Não sei. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . sumiu nas trevas da sala mal iluminada. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar.. Já temos uma filha!. foi uma força de expressão. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. e no entanto vão lá. contava todos os pecados. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido.

impedido de dormir há muitos dias.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio.” martelava-lhe o cérebro doído.. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. tantos que tinha alucinações tremendas. não vou!. Por agora as dúvidas foram vencidas... A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. ninguém! Parecia terem esquecido o preso.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”.. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. faz ultrapassar o período de fragilização. Nem o chefe-de-brigada. por estar para ali a falar com aquele carrasco. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar. enfraquece a vigilância e diminui a vontade.

(mas ficaram quase todos bem na vida. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. chefe-de-brigada. vamos buscá-la para esclarecer. Passava largamente da meia-noite. quando a revolução esmoreceu). (inspector.. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . segundo dizia. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”.... agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. Facto curioso.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. SEIS. ligados ao Partido Comunista. anos mais tarde. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. em Alcântara. Calou-se o agente de cara redonda. quase euforia. com a entrada triunfal do inseparável séquito. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. por não ter arranjado melhor!. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. comprometido. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa.

quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . não posso!.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente..vontade. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira.. pela impotência perante a situação. a aprofundar a angústia dilacerante.. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. pavor. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. Que dia seria hoje. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. Nascia um estranho sentimento novo. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. manhas experimentadas da polícia. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira.. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. Raiva. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. ─ Se os documentos não são seus. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. subindo pelo peito até ao cérebro. misto de revolta e de desalento.

o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida.papel sujo. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. como você. Sem cadeira para se sentar. Apetece-lhe vomitar. eu logo lhes dizia!. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. em pé horas e horas a fio. já lhe disse! Se insiste.. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. os comunistas de merda. A respiração pela boca torna-se ofegante. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. sob constantes ameaças dos pides. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. desfaço-o a pontapé!”. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. O preso caminha encostado às paredes. entrado a meio da tarde.. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. bate desamparado contra a parede. desritmado. O inspector Tinoco retirara-se impante. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. a tortura do sono ia continuar. ─ Comigo. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. O detido já não liga às provocações. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . julgando-a mais distante. o “vaidoso” e o “atarracado”. há muito perdera a perspectiva tridimensional. a investigação ia no “bom caminho”.

Ah! Se pudesse saber que a companheira. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros... ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. a família!.. talvez. é ainda um homem novo.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!.. ─ Sofro do coração. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. gente de excepcional coragem. claro. Sim. Não há milagre. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. mas com os pés cada vez mais inchados. a confusão. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. hoje celebrados como heróis..... parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. Sentia-se verdadeiramente mal. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. firme e 222 . arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. Estava sinceramente assustado. não tem o traquejo dos “duros”. já meio recuperado. mas nem todos tinham essa fibra. Muito tempo depois.

carrasco. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. Devido ao cansaço. ontem ao 223 . embora verdadeiramente ameaçada. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. Na tarde do 6º dia. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. poupando energias. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. chantagista. ─ Sofro do coração. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. facínora. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. ─ Então. o “senhor inspector”. torcionário. torturador requintado. hipócrita. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. canalha.determinada.. nazi. até porque na altura outros apoios foram recusados. criminoso. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso.. com o ar mais angelical do mundo. fascista . jamais olvidado. tinha obtido do “seu” médico e amigo. Não tardou de facto.

com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. e se for preciso. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. A matilha de macabéus e hienas. com esgares de riso. trago um médico comigo!. a olhar interessado. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa.. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. parecem-lhe gritos familiares. não dizia nada. Este pensamento produz uma angústia terrível. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. O torturado levanta-se em grande sobressalto. sem interferir. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar.. gritos de mulher!.. o coração desritmiza-se. “unha com carne” com o director Silva Pais. Já não conseguia levantar-se. Até o agente de serviço já não implicava. De repente. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. mas não estava”. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse.serviço de Salazar e agora de Caetano. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. Descalço.. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. estava atrás do chefe pronta para saltar. ouvem-se gritos humanos lancinantes. a qualquer hora do dia ou da noite. o peito sufoca. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. : “Prenderam a minha companheira!”.

A PIDE aceitou a história. frio. cinzento. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. uma história de comunista já assumido.─ Não está a ouvir? São gritos.).. contra o que era habitual. nas longas fases depressivas. Ganhara forma no cérebro. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. sem sol (ou ainda não terá nascido?).. 225 . limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. O pide de serviço. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. Muitos. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País.

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. Das primeiras. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. entre familiares e amigos. houve intervenções brilhantes. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. amigos. fazia-se de propósito em voz alta. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. a título gracioso. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. Sobre estes causídicos. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). repartido por várias sessões. defenderam em tribunal. corajosas. milhares de portugueses. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas.

psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. O próprio juiz o admoestou. com o Carlos e o Pedro... quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. pelo doutor Manuel. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. fingindo ignorar o detido. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. seco de carnes e cenho ruim. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. durante sete dias e seis noites sem dormir. 228 . As alegações iniciais e finais do réu. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. mas falando em voz alta e explícita. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. anafado e exibicionista no fato de fantasia. caso raro. quando foi apertado como testemunha de acusação. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. Riram de forma alarve.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco.

. com uma pena de prisão remível a multa. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. há-de constar a minha entrada cerca das 20. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. ─ agora era o acusador público. proveniente da Beira. a sentença constituíu uma pequena vitória. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. a interromper o réu.. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. era rancoroso. 229 .00h do dia 23 de Dezembro. Ao fim de três sessões.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. onde eu nunca tinha estado antes. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. Nos registos da prisão-sul de Caxias. na sala de interrogatório!. que lutavam pela liberdade. às 16. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. senhor doutor! Nos registos da TAP. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. Costa Saraiva... O fascismo. com permissão do juiz. além do mais. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. ─ É fácil comprovar. Embatucou o procurador do Ministério Público.

ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Zaida. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. os antigos colegas Baptista. Conduto e Pimenta. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. 230 . Vicente Bolina. tal era a acusação. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. Hélder e Ventura.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Suzel. os amigos José Lucas. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. Manuel Felizardo. Eugénio Torres. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. ficarão registadas para a posteridade. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. O apoio necessário vinha da família. Fernando Fragoso. No mínimo. Maia. José Caria. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. Eduardo Fernandes.

o estudo. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. AMADORA. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. não há 231 . cidade dormitório às portas de Lisboa. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. vê logo o quartel. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. organizado. disfarçando a saudade. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. a reflexão. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). que encheu o dia-a-dia. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. quase vazio no início da manhã. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. ─ Bom dia. aplacando a angústia e educando o espírito. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. em rápida expansão. fraternal e dinâmico. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. Desfazendo por fim o ar de admiração. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa.. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico.

pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. ─ Deixe estar.. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. o rio era um espelho plano e calmo. na Amadora. com caras de poucos amigos. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. situada numa magnífica frente para o rio. o batente de ferro da casa térrea. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. Um cabo e um praça da GNR. o desemprego na grande indústria. indiferente aos dramas dos homens.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. bordado a ouro e esperança de melhores dias. mãe e madrasta. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui .. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. adivinhando a má nova e o destino ruim.. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. indicada no 232 ..

se tinha levantado para o receber..gabinete do oficial-de-dia. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. esse cretino!... entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. ─ Andamos à sua procura há oito dias. é um cepo redondo com dois olhos. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. ─ Sabe?!. ─ Processo disciplinar. ─ Entre. O capitão Luís. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. a humanidade com que lidava com os 233 . oficial do SGE. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. Não queremos criar problemas a ninguém. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar.. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto... pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. era preocupante e inabitual. já fui julgado e condenado em tribunal!?. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. tudo era diferente naquele homem de idade madura. gordinho como era da praxe. até aí conhecidos. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade.

formado em Direito. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. 234 ... gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. embrulhado em “maus lençóis”. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. deixava os interlocutores espantados. intuía com reprimida alegria na alma. com uma palavra amiga para o jovem miliciano.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. também com um problema militar complicado por razões políticas. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. gerava uma nova expectativa. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. Todos os dias desde a primeira vez. ─ Eu sei. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. repetia-se ao princípio da manhã.

. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. o que. Tomara eu!.. 235 .. não constituía dificuldade. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. ando a pagar viagem a viagem!. tristezas e expectativas. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário.. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. para quem tinha um curso de engenharia. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. mas não se comia nada mal. deu para partilhar mágoas e esperanças.Não tinha. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. furriel “estacionado”.

em Dezembro de 1971. foram obtidas sob 236 .. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar.. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra.. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. então não vale a pena perder tempo. deve ter sido complicado!?. ─ Bom! Ainda está muito quente. redondo de aspecto e de alcunha. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. fazia a encomendada inquirição com zelo policial.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE.

Depois chamo-o para assinar. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . nos dias tal. estivesse. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. Por mais de uma vez. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. porém. sufocava-se no interior da camioneta. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. Os documentos apresentados para assinatura. como mandavam as regras tropeiras. falta um companheiro de viagem. Não ficaria por aqui. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. Era curioso. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. não é um transporte público. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido.tortura. o processo-fantoche. O horário é para cumprir. dando como provadas as acusações. ─ Isto é um veículo militar. Isso não pode recusar. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. ─ Só mais um minuto. Certamente por isso. e tal. senão tem faltas injustificadas. ─ Quem não está. se sentara num banco traseiro. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. já o mês de Julho ia avançado.

Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. Ex. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. o “chefe da viatura”. seco de carnes e de sorriso franco. é furriel! Qualquer coisa da Silva. onde costumava aparecer o jovem de média estatura.o compasso de espera solicitado. o furriel miliciano. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . pelo contrário. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. ruivo e sardento. Acácio da Silva”. Era um estado dentro do Estado. com a conivência do militarismo reaccionário. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. na secretaria dos “Adidos”. a PIDE/DGS. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. por determinação de S. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. ª.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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mas num domingo foi aí uma barraca. mas o alentejano não se deu de achado. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. e o moço de bigodão negro.. casado há pouco tempo e aqui preso!. até já cortou os pulsos para se matar!. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada.. ─ A doença dele é outra... desatou aos pontapés às cadeiras. mostrava-se loquaz. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior.. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado.. ─ Foi o bom e o bonito. ─ O tipo está doido varrido. tentou esganá-la.. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. 246 . A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz.. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração.

Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . sempre a caminho da enfermaria. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. tem de se compreender. A notícia surgiu brutal. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. fundado em colaboracionismos vários. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. se tinha suicidado na cela. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição.─ Então a situação é grave. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. ─ Pois sim.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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.da filhinha! Prometo que voltarei. 255 .. talvez mais cedo do que tarde!.

A LENDA 9. 256 . homens. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. sacos. velhos conhecidos. malas. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas.

─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem.. que para aquele lado era de terra batida.). O camião carregado de soldados... Para onde irá? Como o mundo é pequeno. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. cruza-se outro camião com soldados a granel. Encostado ao taipal. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. gente deitada semi-nua. 257 . enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. grupos barulhentos jogando às cartas.. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente. sobre as preocupações com a mobilização iminente. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. como gado para matadouro. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. o “canhão” esperava a carne fresca. Beliches a cinco de altura. Algures. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte.

apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. falta de hábito!. isto é um país em guerra.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. rua abaixo direito ao centro da cidade. se não houver problemas com a saída!.. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. nossos soldados? ─ Desculpe. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. ─ A vossa identificação.. ─ Se calhar vou contigo.. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. paleio animado e boina na mão. moço alto e magro. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . meu furriel! Chegámos há pouco tempo. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”.. que por perto ouvia a conversa. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. não se esqueçam! Tinham-se esquecido.

sem pés. tecendo laços de solidariedade circunstancial. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos... “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. pá! ─ Não te metas com esse gajo. lá foram saindo os magalas mal ataviados. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. é um exagero!. mas sem fim à vista. limparam. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. ordens do sargento! Resmungando e refilando. ─ Isso deve ser história. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. algures naquela guerra oficialmente já ganha. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. não deve ser limpa há um ano!. Devem vir fardados. entretanto voltou de avião para a metrópole!.. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. ─ Conta-se haver um “gajo” rico..de colocações e a escala de serviço.. também não a pedi nem a desejo! 259 .. ─ Há aí vassouras e pás.. sem braços ou sem vida. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo.

característica daquela região. que consome enormes recursos da Pátria distante. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. com o sol nebulado e uma humidade elevada. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. ─ conversava-se à mesa do 260 . acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. Na conclusão da empreitada. As vivendeiras. veículos militares correndo pelas ruas. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”.. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. Os homens ocupam-se da máquina militar.. pois a guerrilha não diminuiu. e a economia da região sobrevive do conflito. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada.. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. elogiando o trabalho feito.. com uma eficácia muito baixa. assim se chamavam. pelo contrário.

. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. a história da terra moçambicana. a 261 . Há gente conhecida na Repartição de Colocações. falam mal o português. mas têm comida certa: ─ António. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas.. a fim de conhecer tanto quanto possível.Café Central no fim da tarde quente. Também alguns milicianos trouxeram a família. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando.tal como sufocava o calor de Dezembro. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. Longe dos teatros de operações. Ganham uma bagatela. Passam carros de boas marcas com condutor militar. Têm inúmeros criados pretos. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades.. Esta “chicalhada” irrita. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal.. o militarismo sufoca! . ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. quase não há serviçais do género feminino. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. não sabem ler nem escrever.

Uma planície de cor castanho-avermelhada. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. com bons conhecimentos. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. ao fim do dia. onde tudo era demasiado no estilo europeu. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. ─ insistia o jovem bem parecido. e potenciando o vício pela bebida americana. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. oriundo da burguesia alentejana. deixavam-no intranquilo. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. protegidos pela lei do condicionamento industrial. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. que não se vende em Portugal. a perder de vista.. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. Nem vou. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias.. à beira do milagre da “tomada 262 . A sua formação era claramente conservadora. quartel-general da guerra. a prestar serviço nas “Informações Militares”.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. viam-se grandes embondeiros. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. porque Salazar não gosta muito dos americanos. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. e aos industriais de refrigerantes. Quando se saía da cidade.

revelando a comum ascendência asiática. Não tardam aí melhores dias!. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. Ia para dois meses. ─ Quando vim. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. 263 . Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. já tinha a chave.de consciência”. Para o mais distante. ainda que tal custasse muitas angústias. entre silêncios e goles de mistura fresca. Automóveis de boas marcas. Pelo que tenho visto. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. deixam gente de pele escura. réplica da arquitectura europeia. mais depressa os homens que os montes. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. muitos sacrifícios e muitas vidas.. acreditava na justeza deste conflito.. Prestes a mudarem. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental.

quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . como na gíria é conhecida. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. ─ Ah! Então era isso. a servirem como desabafos da alma. normalmente. À noite. Estavam muitos orientais. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. o movimento à porta da mansão!. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida.. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. com o infelizmente célebre. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. no Golfo Pérsico. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. O descontentamento emergia.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. por bastante comum. se notava um grande sossego. na Índia e até na China. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas.. com as leituras ou as idas à biblioteca. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. chegavam famílias inteiras.

A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. Os pretos cuidaram dele até crescer. 265 . a que o povo das tatuagens e dentes limados. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. habitando o Norte de Moçambique. internando-se no mato. E desde então até hoje. nos princípios do século XVI. começou a fazer-nos sofrer muito. Durante a I Grande Guerra. e se ele o dizia. possuía um carácter forte e indómito. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. Esta é uma lenda do povo maconde. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. se furtava. Datam do século XX.. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. em 1918.. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. A etnia maconde. viviam na água. que encontraram sempre forte resistência. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas.. entre os rios Lúrio e Rovuma. “Os brancos antigamente eram peixes. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito.. nunca mais deixou de nos tratar mal”. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas.

em 1882. doentes sem hospitais. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. A nova expedição de Serpa Pinto. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. em 1878. da costa de Angola à costa de Moçambique.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839.. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. alunos sem escolas e sem professores. em 1889. no Sul. escolas sem alunos. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. de traficantes e de entidades coniventes. em 1885. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891.. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. Em 1895 e 96. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. hospitais sem médicos!”. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). “de Angola à contra-costa”. Este último escreveu o livro “Mozambique”. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. fronteira à ilha de 266 . No início do século XX.”Batalhões sem soldados. e de Capelo e Ivens. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim.

Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas.!).. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). À medida que se desenvolviam as campanhas militares. com capital inglês e francês. criada em 1894. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. criada em 1888. com capitais metade ingleses e metade franceses.. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. a norte. são finalmente controladas (oficialmente. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. submissão das populações e pilhagem dos recursos. Lúrio e o lago Niassa. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. a Companhia de Moçambique. entre os rios Rovuma. numa série de campanhas iniciadas em 1908. em 1879. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). procedendo à exploração mineira nesta área. e o cultivo do algodão e da borracha. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. a Companhia do Niassa.Moçambique. ferro e ouro. que iam completando a ocupação militar. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique.

para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. não se mobilizavam voluntariamente. entre pessoal militar e administrativo. ao seu sustento próprio”. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados.. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. No período de 1910 a 1923. foi criado o primeiro código do trabalho. aumentando para 20 mil em 1926.) está sujeito. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. Ou seja. sua sede. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. na sua área a 268 . ao abrigo desta lei. que funcionaram até 1942.país colonizador. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. mantém-se o regime de trabalho forçado. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. fundamentalmente para Angola. Por outro lado. subindo para 2 mil no início do século XX. muito depois da abolição oficial da escravatura. Em 1878. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. Já a Companhia do Niassa. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. conseguiam um tráfego internacional crescente. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros.. nunca teve grandes resultados.

particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. em 1925.penetração europeia era mínima. o esforço português de colonização efectiva. assiste-se. Bélgica. milho. chá. É muito recente. copra). em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. Holanda) estava em declínio. segunda cidade. atinge 20 mil. canade-açúcar. oleaginosas (caju. 1500 habitantes (só 50 brancos!). tinha 30 mil habitantes e a Beira. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. criadas por decreto obrigatório. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. França. mandioca. destinados à exportação: algodão. e nunca foram construídas vias férreas. sisal. tinha em 1925. no Centro e no Sul do território. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. Alemanha. todavia. a capital. mesmo nas suas próprias terras! 269 . No segundo quartel do século XX. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. amendoim. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. Porto Amélia. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. já do século XX.

Presente desde há muito. cultivava 45% da produção algodoeira total. perícia. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. Companhia de Algodões de Moçambique. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. originariamente para a exploração das minas de Moatize. fundamentalmente para Portugal. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis.. a mais importante açucareira da colónia. criada em 1921 com capitais ingleses. constituída em 1948 com capital luso-belga. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. e em particular com o capital britânico. em 1945. pertencente ao grupo Champallimaud. Sena Sugar States. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. do Niassa e de Moçambique. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. Curiosamente. Além das referidas Companhias do Zambeze. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. No caso da exportação de algodão.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. que assim funcionam como mercado protector. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. a que se 270 .. Inglaterra e União Sul Africana. concessão feita a capitais luxemburgueses. que cessaram a actividade por volta de 1942.

520 mil contratados do algodão. se cultivam e se elevam. etc. no período áureo do chamado Estado Novo: . Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. incluindo: 400 mil emigrantes. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. sejam quais forem as suas diferenciações. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército.. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã.. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. irmandade dos povos que. se auxiliam. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. Em complemento. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. também presente na indústria dos óleos.associaria o grupo Melo.. em 1943. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. desmentida desde 271 . o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval.“No meio das convulsões presentes. metade do total.

em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. 1. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias.6 milhões. Da mesma forma. à data dos inícios da guerra de libertação. e as escolas elementares das missões católicas. traficando em escravos. no século XVIII. ano da publicação do Acto Colonial.sempre pela escassíssima presença portuguesa.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. organizadas em ensino primário e liceal. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. com a política de “fomento colonial”. asiáticos e “assimilados”. dez em 1825. ou seja. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. espalhados ao longo da costa moçambicana. em decréscimo) num universo de 6. em 1950. Todavia. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário.5%). como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. três ou quatro nos finais do século XIX. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. em 1960. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0.

educar. subjectivamente. Por este tempo. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. ao arrepio do ensino do Português. sobretudo depois da II Guerra Mundial. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. padres de Burgos. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. etc. 1970). pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. reflectindo a miséria da missão colonizadora. Não admira pois que em 1960. nacionalizar e civilizar a população nativa”.. liberta o europeu do seu medo pelo africano (..território colonial. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. padres de Verona. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . confluindo no desejo independentista.). Mas apesar do Estado pagar aos bispos. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. realizam então um trabalho novo de apoio às populações.. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. fomentando o espírito nacionalista latente... 95% da população africana se encontrasse na 273 .

os Casimiro. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. a Lurdes. quando começar a luta de libertação nacional. 274 . o Ivo. o António... também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. o Melo. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar.. A humilhação permanente da despromoção. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. Precisas de te distrair! O Carlos. ). em 1956. ok?!. são gente boa..situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. o Fausto. A colónia funcionou até 1960. a Lena. como na afirmação do Presidente da República. Craveiro Lopes. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). o Muradali. o Monteiro. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. o Santos. o Castro.

─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. entretanto a revolução. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. A seguir a uma curva. sempre muito sensível. ─ Não é tanto uma questão de coragem. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. estava um negro deitado na estrada. como morto. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. Ciclo do COM. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. é mais uma questão de integridade. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa.. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. ─ questionava a esposa. por isso te despromoveram e te castigaram. arrostando sozinho as penas da insubmissão.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. atravessado. que até nem foi extraordinária. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. muito apertado pela PIDE em Caxias.. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra.. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam.. este tipo é incrível. 275 .

felizmente. Estão bem. O tempo não pára. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. a minha luz. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar.. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. se estivessem aqui comigo!. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. tu ensinaste-me a viver.. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . ─ Nunca foram referenciados! A não ser. (. por isso tu és a minha vida.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo.. me dá vida.. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. carregada pela angústia da separação física. mas nós havemos de vencer haja o que houver. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. cada vez maiores. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. De vez em quando vou tendo notícias. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. O mais custoso é a separação. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante.. sim! Com dezoito meses.

. diz o nosso fruto pequenino. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias.. que faz amanhã 18 meses... Por outro lado. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. o casal ainda não tinha filhos. não sei se aguentaria.. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. (. a nossa ligação temse fortalecido.. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova.criaram. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. Nós esperamos por ti. ─ uma carga de trabalhos. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. e agora?. Como disse um grande poeta. O “carocha” quebrou o transe emocional.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. durante quase seis meses. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. o amor constrói-se também com sofrimento. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. amor da minha vida”. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! .

onde vinha em luto familiar. fora apresentado como Ivo. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. ou mais uma tentativa de “putch” militar. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. alto e bem parecido. Juntamente com outros dirigentes estudantis. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava.. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques.. em Outubro passado. também ex-dirigente associativo. pelo parente morto em exercício militar. as de jovens oficiais do quadro. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . também alferes no Q. desassombradamente.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. que há pouco. e de sectores ligados ao general Spínola.G. no início da década de 70. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. natural da cidade-quartel-general. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. ─ Um movimento autêntico.G. era um jovem mulato. genuíno. foi bastante mais João. fora compulsivamente incorporado. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. à entrada. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro.

na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. A casa de família da classe média. Se isto dura mais uns meses. que fazia a interface entre muita gente. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. Fixados há muito em Nampula. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. chegando e partindo constantemente. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. trazendo e levando notícias e materiais. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. para ajudar a acabar com isto. falava no assunto tabu. alimentando a célula da resistência em Moçambique. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . ─ Como sabem. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. o mulato quase formado em Medicina. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. que não renegavam.

... mas se é contra o regime. concitou a atenção dos presentes. que venha por bem! ─ Por cá. nos quartéis. O julgamento do 280 .! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. ─ A própria igreja de Moçambique. assume-se agora do lado dos oprimidos... estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!.. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. ─ o jovem Melo. Tenho a convicção que o fim se aproxima.. ─ Talvez não haja tempo para isso. também dirigente académico perseguido. oriundo de famílias militares.. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. mostrara uma insuspeita clarividência. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos.. num fim de tarde africano. ─ a senhora de Casimiro. muito simpática e delicada. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. tantos anos de mão dada com o colonialismo. nas escolas!. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. depois do fracasso das operações no Norte. mas creio que já não têm tempo!. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia.. em plena época quente no Hemisfério Sul.

a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. prevendo e prevenindo o futuro. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. parte integrante da máquina colonial. Depois da concordata de 1940. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. o ambiente ganhava optimismo. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. Completa esta imagem do século XVIII. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. Sebastião Soares de Resende.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. por orientação do Vaticano. uma voz clara que 281 . tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. no curso do século XX. é paradigmático do papel da igreja católica em África. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. assumia-se de forma muito mais contraditória. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). num contexto de declínio do colonialismo. terra de esperança. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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cada vez menos. ainda acreditavam. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. semeada de pedaços de algas escuras. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. Na conjuntura actual. espraiando-se levemente na areia branca. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. nada de atrasos!”. e. duas dezenas de soldados. como gostavam de dizer. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. quase escrava. aparentemente descurando o futuro. com “cabrinhas” de espuma branca. Percorridos em visita. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. agarrado às vantagens do passado. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. A partida é às 20. A praia das “Chocas”. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. aqui e acolá. os colonos emigrados. tinha uma areia fina de tacto agradável. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. imaculada. num “Aviso” da Marinha de Guerra. a meio caminho da cidade portuária.do oceano de águas escuras e algo agitadas. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. a praia do “Relamzapo”. de medusas da “Cruz de Cristo”. Agora na sua senda. negros na maior parte. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante.30h. rumo ao Norte.

quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. um jovem alferes moçambicano. Caíra a noite. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. impecavelmente fardado. logo me contas o resto da história. Tinha razão o Ivo. Tratem-no como se fosse um de nós. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto.bigode sobranceiro. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. estivemos a conversar em casa de uns amigos. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. Marcelo. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. também vou?. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”.. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. ao jantar. Ele contar-vos-á os pormenores. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. ─ Há poucos dias estava óptimo. Num jipe oficial. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo... o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. branco.. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. é melhor não te verem por 290 .

instruiu o condutor de serviço: 291 . do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. de camuflado. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido.. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. Antes. com o furriel “recepcionista”. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático.. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. ex-dirigente estudantil. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. em serviço à pista. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. já eram velhos amigos. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. ─ Olha quem ele é!. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo.perto. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. à saída.

avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. desde Porto Amélia. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. que passava rapidamente. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. era uma zona de casas. parecia ser gente “importante”. a rasar a copa das árvores.. único utente até hoje! Ao longe. para onde vai o professor. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. Verdes e impenetráveis. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. arrasando os nervos. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. bem vestidos ao modo africano. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom.. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. num vale em depressão. a poente. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar.. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. com telhados de fibrocimento.. Diferente. pintadas de branco. Do avião. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores.

Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. ─ Contava-se. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. de madrugada. de ataques com foguetes de 122mm?. interpelou-os: ─ Meu furriel. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. em Porto Amélia. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde.adiante. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos.. ou talvez mesmo de há muitos dias. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante.. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. de contornos envoltos em bruma. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. destoava do verde constante da paisagem. Mais distante. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. 293 . ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. até se diluírem no horizonte. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte.

a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. Em tempo de Equinócio. ao calor escaldante do meio-dia. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. sem higiene. Ali na África Setentrional. Por instantes. sem vontade. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. a recolha da sopa numa lata de folha. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. porventura. confundindo-se à distância com a neblina circundante.Fim de tarde ameno. em fila. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. sem gosto. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar.

Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. do outro lado do rio. o nosso direito e o nosso interesse. projéctil. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. crocodilos. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. falso alarme. Mais distantes. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. em cenas de caça na terra de ninguém. ataque? Nada. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . em cujas margens coexistem por vezes. da personagem mal conhecida por recém-chegada. a angústia do afastamento familiar. É Naschinguyeia. encosta abaixo. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. caçadores nativos. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase.da pátria. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. o medo da guerra. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. e o manto escuro caindo sobre o lago. despejada a eito. Novamente o mundo sem sons. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. a miséria do rancho. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. Mina. A respiração suspende-se por segundos. minas anti-pessoal.

Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. um ex-ministro de Salazar. transferindo-se para Dar-es-Salaam. Franco Nogueira. francesas. holandesas. em véspera da 296 . em Abril de 1961. afogou as pretensões num banho de sangue. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. piscando o olho aos americanos e à NATO. primeiro em Angola.impérios asiáticos. belgas. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. em 1964. depois na Guiné-Bissau. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. em 1963 e por último em Moçambique. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. no Tanganica. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. o mito da defesa do mundo ocidental. Uma contínua e continuada mistificação.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. em 1961. em Junho de 1960. acediam à independência. com mais de 50 mortos. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. quando as ex-colónias inglesas.

Marcelino dos Santos e Uria Simango. Como nos restantes casos. futuro grande estratega militar da luta de 297 . com mais ou menos expressão. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. com diferentes sensibilidades e perspectivas. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. começando a derrocada do império colonial português. segundo os próprios. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. A realização em Marrocos. no Quénia. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. moçambicanos da etnia maconde. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. em Maio de 1961. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões.União Nacional de Moçambique Independente. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. tratava-se de um movimento heterogéneo. em inícios de 1961. independente desde 1958. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. No interior de Tete. Em Nairobi. foi criada a UNAMI . Nela participou o UDENAMO representando Moçambique.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. Damão e Diu. em 19 de Dezembro de 1961. No final desse ano. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. da 1ª.

* Eduardo Mondlane. Ao fim de quase 500 anos. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. capital do Niassa. O conflito iniciou-se em 1964. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . mas a sua atitude corajosa foi silenciada. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. unificado a partir do 1º. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. primeiro presidente da Frelimo. simultaneamente em Cabo Delgado. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. em 1971. Congresso em Setembro de 1962.libertação: Samora Machel. bispo de Vila Cabral. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. pelas tropas em acções de represália. com um ataque ao posto militar de Chai. finalmente. e no vizinho distrito de Niassa. Após 298 .

fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. Pascoal Mocumbi. iniciando com Marcelino dos Santos. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. em risco de ser preso pela PIDE. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. moçambicano de origem 299 . em Março de 1964. um período de grande vitalidade da Frelimo. seguiu Samora Moisés Machel. entre outros. capital do Tanganica. Eduardo Mondlane. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Joaquim Chissano. a Frelimo teve um início de vida agitado. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. nomeadamente Julius Nyerere. Instalada em Dar-es-Salaam.breve passagem por Lisboa. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. Leo Millas. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. Tinha chegado a Dar em 1963. no extremo nordeste de Cabo Delgado. Por essa época. só em Março de 1963 se radicou em Dar. após uma espectacular deserção. o tenente Jacinto Veloso das FAP. que casara com uma americana branca. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Janette. Professor na Universidade de Siracusa.

em Setembro de 1964. para se juntar à Frelimo. Lázaro Nkavandame. Mais tarde em 1965. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. de passagem por Argel em Março de 1963. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. outro moçambicano branco. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. O seu presidente Banda. a funcionar na capital argelina. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. em Fevereiro 300 . Perseguido e preso pela PIDE. Mondlane convidou Helder Martins.branca a juntar-se ao movimento. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. O seu líder tribal mais carismático. comum na região setentrional africana. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. Também por esse tempo.

verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Desde o primeiro ataque a Mueda. base da alimentação. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. No mês de Fevereiro de 1965.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). por não terem armamento pesado). os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. onde reza a lenda. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. conta a história do movimento de libertação. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. a 301 . mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. a luta alargou-se rapidamente. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes.

─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. ─ Independência de Moçambique. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. Foram então nomeados. que garante a sua unidade interna. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. total e completa. e à exemplar democracia americana. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. EUA e URSS. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . num Moçambique livre e independente. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem.

na Rodésia. Neste contexto. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. ZANU e ZAPU. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. na Namíbia. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. Em Abril de 1966. decretando sanções económicas e políticas. Salazar fazendo jogo duplo. condenada internacionalmente. em Moçambique. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. a sul.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. uma nova frente na região de Tete. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. em Moçambique. É a resposta às forças portuguesas que. 303 . veio complicar o xadrez político na África Meridional. em Novembro de 1965. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. em 1967. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. onde o regime do “apartheid”. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola.

autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. O movimento moçambicano está já então bem organizado. enquanto um soldado ganham um!). o padre católico negro Mateus Gwandgere. no célebre campo de Naschingwea. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. (ganham dezasseis contos por mês. passando a partir de 1966. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. Mtwara. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. Em Fevereiro de 1968. Viveu-se à época deste congresso. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. alvo por vezes de assaltos surpresa. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 .Na região de Cabo Delgado. Kingwa.

Moçambique. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . E foi a PIDE. em Dar-es-Salaam. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. As palavras só têm significado para os 305 . África do Sul. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador.). Em Fevereiro de 1969. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária.. sem um claro vencedor. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane.. sem sentido histórico e sem significado real. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. Namíbia. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. Em visita às colónias em Abril de 1969. Em Portugal. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. são um imenso caldeirão prestes a entornar. onde vivia com a mulher e três filhos menores. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola.

reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). em Maio de 1970. vítima de uma desmesurada ambição pessoal.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. custou esta 306 . crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. O movimento de libertação está mais forte. para Angola e Moçambique. para comandante-chefe. e. um militarista ultrareaccionário. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. A história e o tempo jogam a seu favor. é eleito presidente Samora Moisés Machel. sacrifícios extremos. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. No dia 1 de Julho de 1970. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. em Moçambique. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. morte. um dos fundadores. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. respectivamente. sangue. coeso e organizado. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores.

desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. também houve muitas vitórias. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. de centenas de estropiados. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. pomposamente exibidas na RTP. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. bem organizada e com uma forte retaguarda. 307 . dinâmica. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. muitas apreensões de armas. milhares de combatentes. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. Praticando o extermínio por onde passava. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. na acepção militarista.

Silva Cunha. 308 .). descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. montada debaixo do grande embondeiro. o ministro do Ultramar. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga.. a fingir de refeitório. crime (milhares de mortos civis e militares). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. Como resposta. prometendo acabar com o “terrorismo”. ficou-se pelo quilómetro vinte!.. O conflito colonial em Moçambique. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. diria outro retinto situacionista. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”).A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. Aguardavam os restos garantidos da refeição. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos.

─ Mas é tão pequeno ainda!?. oito ou nove anos. ─ Então não conheces a história? O pai deste. 309 . hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro.. de carapinha escura.. precisam de ajuda!.entretidos em brincadeiras de ocasião.. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta.. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. dez escudos por mês! Vive com a mãe.. sobretudo os da “fofoca”. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. sinhô! ─ desviou a cara. Alguns já tinham comido sopa do rancho. cinco anos. com as suas tatuagens características. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. ─ E o pai?. Quatro. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?... estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote.. o pai morreu na guerra. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. outros nada. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. Vinham quase todos da aldeia macua. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. eram raros os garotos vindos do lado maconde. passa a ferro e não leva caro. Como te chamas? ─ João. Lava. que também está de partida.

.. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. de forma menos tradicional. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”.. repuxada pelo filho mais pequeno. aflito com o rumo do negócio. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. que está nos GE´S...─ Curioso!. transportado às costas como era uso. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. ─ Pois é. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. mas com paredes rectangulares de madeira. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. radiante na sua prometida função de cicerone. consta que ele é casado na metrópole. mas parece ser ela a não querer ir! 310 .. ─ É a Teresa! Não te dizia!. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. com telhado de colmo como as outras. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita.

Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. mas achou prudente não se manifestar. Gritava de modo incompreensível à distância. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . com um fardamento esquisito. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. qual dono de escrava. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. calças pretas. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. ou porventura devido à língua entaramelada. magro. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. em terras de mistério e desgraça. a metrópole era Portugal. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. na África sedenta de liberdade. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. ─ O furriel tem andado desorientado. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. só perturbada pela desgraça dos homens. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. em genuíno desabafo de revolta. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. sempre a gritar e a gesticular. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas.João estava tentado a corrigir o vocabulário. Já escondido.

onde este tipo de assuntos era mais propício. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. 312 . Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. mas nenhum queixume. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça.timorato o rapaz de estatura baixa. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. O “negócio” era do lado da aldeia macua. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. cor amarelenta e barba mal escanhoada. Os homens deviam estar a descansar da guerra. cercado de arame farpado e minas. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. obrigado! Tenho outras preocupações. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!.. visivelmente amedrontado. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.. Notava-se pouca actividade. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. ─ O homem está com ciúmes.

não há pressa. quando se ouviram distintamente gemidos roucos.─ Há lá velhotes porreiros. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. ocorreu à imaginação do soldado castigado. Nas circunstâncias.. não seria muito prudente. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?.. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. O cabo Carlos. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. ─ Logo se verá. Se é que essa seria a “estória”. a sua comissão fora penalizada em três anos. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. e por isso hesitou 313 . como degradante era todo o ambiente da guerra. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. ─ Porque se sujeitará Teresa. onde já anoitecera. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. já os tinha mencionado. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. A frase soava ordinária. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. Só não sabia. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo.

qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. criava um estado de espírito muito negativo. a raiar a exasperação e a revolta. gerava uma enorme frustração que. os homens estão muito desgastados. à enorme angústia pelos mortos. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. raramente encontravam alguém da guerrilha. ─ Isto é uma guerra. A hipótese de não rodarem. 314 . para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. ao fim de um ano de “trolha”. era que de há anos àquela parte. na perspectiva de descerem para Sul. somada à saturação de sucessivas saídas e. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. caramba. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados.calado e pensativo. sobretudo.

caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. militarista e reaccionário. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. eram os outros 315 . “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. único do povo moçambicano. Sebastião Mabote. “travestida” de serviços de informação militar. Raimundo Pachinwepa. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. Osvaldo Tazane. Mariana Pachinwepa. Em contrapartida. por um comando supremo todo poderoso. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. Bonifácio Gruveta.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. Monica Chitupila. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). sob o comando supremo de Samora Machel. José Moiane. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. O movimento nacionalista. Alberto Chipande. contra o que chamavam. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. Filomena Nashak. a relativamente inepta tradição colonialista. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. entre outros. Armando Panguene.

e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. em português. ensanguentada e sedenta de liberdade. por milhares de manifestantes. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial.vectores fundamentais da situação político-militar. nos confins de uma África inóspita. A sorte da guerra estava traçada! 316 . Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. em Julho de 1973. Grupos de soldados portugueses. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. “A fogueira do guerrilheiro”.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

durante a campanha para a Assembleia Nacional. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. MPLA e FRELIMO. no dia 1 de Janeiro de 1969. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. apostólicos e romanos”. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. em protesto contra a “política ultramarina”. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. em Lisboa. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. e em Portugal. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. muito “católicos.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. Domingos. 318 . atenta e preocupada com os ventos da História. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. Dia Mundial da Paz. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. da diocese do Porto. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Felicidade Alves. Diminuía a base social de apoio ao regime. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. por oposição à guerra.

revolta no aquartelamento de Lourenço Marques..Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. e outros mais No panorama internacional. em 1971. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. Santarém. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. Santarém. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. “Levantamento de rancho”. protestos na parada... nos quartéis. publicado nos princípios da década de 70: . “Alerta camarada!”. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. nas escolas. no 1º turno de 72. em 1971. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. e os Estados Unidos. em 1972. organizada unitariamente. Vendas Novas. arrancados às escolas. na organização da resistência e do combate internos. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. no 3º turno de 72. embora negando os factos. Lamego. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. Tavira. Tavira. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. No início da década de 70.. entre outros. “Não jures camarada!”. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. no 4º turno de 1971. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. dentro do “ninho de víboras”. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. ameaçando:. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. 319 .

uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. em Outubro de 1972. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá.“ajustando” a estratégia. Em Outubro do mesmo ano. os 320 . Ainda assim. da independência da Guiné. encontra-se. o Conselho de Segurança da ONU. para breve. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. com o objectivo de “legitimar a guerra. António de Spínola. em Março de 1973. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. Na Guiné. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. Guiné e Moçambique. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. ainda que por novas vias. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. Mas a luta de libertação está muito avançada. Entretanto. próximo da fronteira. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. O alcance da iniciativa é inteligível. com Leopold Senghor. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. o combate não esmorece e. e em Abril. ao perceber o fim inexorável. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. como resposta a agressões vindas do exterior”. a proclamação. No essencial tudo fica na mesma. Enquanto isto. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973.

perigosamente de terra em terra. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. em aumento crescente.“Strella”. que a guerra de libertação é invencível. Havia o In. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. conversando e trocando novidades. Quanta gente. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. as forças guineenses combatem por todo o lado. KAIOMBE DE JIMBE. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. numa zona libertada. não pode satisfazer. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. em Setembro. derrotado. acossado. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. organizadas como um “exército regular”. no entanto. a independência da Guiné. de aquartelamento em aquartelamento. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional.. Spínola. Um mês depois. em Agosto de 1973. havia o “inimigo interno”. ficaria ainda ferida ou estropiada. todos aqueles que iam 321 . tinha mais inimigos do que julgar se pensava. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. A guerra entrava numa fase derradeira. empenhado há tantos anos na luta pela independência. reparando rádios e antenas. que Marcelo Caetano. o PAIGC proclama em Madina do Boé. sem nunca o confessar abertamente. fartos de guerra e do militarismo fascista. percebendo finalmente. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta.

Mas ainda havia quem. procurasse puxar a “carroça”. foi só um desabafo. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. bem. pertencente ao subsector do Cazombo. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. carroça mal puxada! revolta-se!.. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. furriel. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). Não era mau rapaz o furriel. – Bem. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar.. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. na Região Militar Leste. besta contrariada. Além da agricultura de subsistência.. na vila de Jimbe. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. arreando forte na besta. mas como muitos outros. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. nos princípios de 1974. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente.. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . Já se sabe o resultado.

que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. onde aquela estava montada. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. – Esperem aqui. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. trabalhado na feitura de peças artesanais.e políveis.. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. agradado com a tarefa. Devia ser problema na antena. Afinal. o problema não era do rádio propriamente dito. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade.! – o furriel. onde vivia pobremente a população indígena. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. solicitaram a reparação. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. – Venham comigo. com duas ruas paralelas. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . permitindo comunicar inclusivé com Portugal. com frequências próprias. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. os chamados “flechas”. era uma realidade também em África.

Perturbados e confundidos.jovens militares estarrecidos. momentaneamente. tratava-se de um habitante da zona. rumo à África do Sul racista. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. participante na invasão do solo angolano independente. apanhado no mato pelos “flechas”. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. e outros. Trindade. causando-lhes horríveis queimaduras. o agente António Camelo. com as O pide da retirou-se antena. ficaram a saber que o chefe do posto. 324 . No caso vertente. de nome Kaiombe. solicitado para outro qualquer assunto. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. Laia. tinha por desporto nos interrogatórios. Alguns meses depois o pide Camelo. alegadamente à caça. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. mas suspeito de apoiar o MPLA. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. autênticas jaulas de guarda-bichos. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. que deviam doer horrivelmente. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. ou no célebre batalhão “Búfalo”. completamente expostos aos elementos. apagar os charutos no corpo dos presos. De volta ao quartel. Morreu passado pouco tempo. Casimiro. Lontrão. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. Vaz. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra.

das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. da revolta activa de muitos milicianos 325 .Face hedionda do sistema colonial fascista. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. A situação de tensão decorrente da guerra interminável.. guineenses e moçambicanos. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. ou reforma dos ex-combatentes. Essas vidas poupavam-se.. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. prendeu. porventura numa escala muito maior. Significa que entre nós o crime compensa. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. Neste sentido. como em Portugal. perseguiu. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. e as de dezenas de milhares de autóctones. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. que em África.

homem da sua confiança pessoal. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. embora unidos no essencial. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. – Em 1 de Dezembro. futuro militar de Abril. o general fascista não parava de conspirar. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. mais meios logísticos. – Em Fevereiro de 1974. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. o general derrotado na 326 . Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Regressado de Moçambique. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. – Por esta altura. com mais homens. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. António de Spínola. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. em Julho. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. conservadores e liberais. composta por 19 elementos. Dezembro de 1973. como ministro do Ultramar. entre ultra-reaccionários. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. cada vez em maior número. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. em Óbidos. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema.

convidando-os. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. os oficiais-generais. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. Pátria. a assumirem o governo. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. 327 . Costa Gomes e Spínola. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. em directo. reafirmando a disposição de não ceder em África. – Nesse mesmo dia. A “coisa” está para breve. Vinha de um retiro no Buçaco. publica o livro “Portugal e o Futuro”. em vão. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. o “Movimento dos Capitães”. – No dia 5 de Março. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. para todo o país. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. reúne-se em Cascais. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. para reflexão. transmitida pela RTP. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. O professor fascista “demo-liberal”. a chamada “brigada do reumático”. Família. – No início de Março.Guiné.

Caetano. divertido e perspicaz. animadas pelos comunistas.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. amor e esperança. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. Desta vez. grande dinâmica unitária do movimento CDE. com as missivas dissimuladas. em trânsito ocasional. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. com frequentes “extravios”. O velho sargento. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. em fins de Março. meu sargento. solidários. chalaceara à partida. – Deixa lá a guerra. – Cartas de amor e guerra.. o sargento-ajudante “Mafra”. naquele promissor Março de 1974. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. “Portugal e o Futuro”. e prisões. greves na cintura industrial de Lisboa. Os amigos. livro de António de Spínola. no regresso de férias..

refere a coragem dos revoltosos. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro.. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. Mais cedo do que tarde. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. com um enorme impacto 329 . o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. apesar de inconsequente. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto..... Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. como costumas dizer”(.. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.). em Julho de 1973. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. (. Margarida. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação.) Amor querido. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. Hastings. depois de castigo disciplinar)..(. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. INHAMINGA A SUL. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972... Não foi ainda!. denunciados ao mundo pelo padre inglês A..

O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. esta zona onde aquartelámos. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. Oficialmente configurava uma acção por focos. 330 . no caminho estratégico para a Beira. era ou mato ou morro. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. Algumas semanas depois. amigo.! – Nada que se compare com este inferno. é palco de uma crescente perturbação subversiva. para onde a companhia independente tinha rodado: (. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. Havia notícias desde Julho de 1972. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. acompanhados por dois cineastas e um repórter... A situação é deplorável. sempre a alinhar! – Boa sorte.mediático.. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo.. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada.) “Afinal tinhas razão amigo. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira.

nas hostes colonialistas. em autênticos massacres. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. A tropa regular. massacrando ferozmente populações. onde o terreno estava relativamente “livre”. Nos últimos dias de Julho de 1973. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. Depois do Verão de 1973. em Tete. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. A sanha perseguidora. prendendo sobas e régulos. Entravam e saíam carros civis e militares. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. lançava o pânico. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. vinda da guerra no mato. Estas denúncias referem milhares de 331 . só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. torturando e eliminando patriotas. iria assistir e nalguns casos participar.

a alta hierarquia militar. originando dezenas de milhares de deslocados. como na localização das bases Nampula. adivinhado naquele início do ano de 1974. No estratégico caminho da Beira. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. Gungunhana e Moçambique. durante a operação Nó Górdio. e nas Colónias. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. por cegueira. geralmente odiada. terem essa atribuição). quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. conveniência ou por convicção. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade.mortos. 332 . pela PIDE. com homens de “antes quebrar que torcer”. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais.

Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!.. – Têm fardamentos bonitos!. do Brasil. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. cinzentas e verdes. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. a norte de Moçambique. significando tratar-se de militares de patente elevada. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação.“Strella”... com foguetes terra-terra de 122 mm. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos.. podiam ver-se muitas estrelas. da Namíbia. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. A explicação não tardou. incluindo aquele.. Mesmo tendo diminuído as 333 .. da Rodésia. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. dada pelo chefe da secretaria. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . em plena luz do Sol. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia... padre José de Sousa àquela área. – São “patentes” da África do Sul.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. de 19 a 22 de Abril de 1974. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira.. amarelas. azuis. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra.

a comida escasseava. tal como há três meses atrás. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. Na messe dos sargentos. o correio andava atrasado quase um mês. Zambézia.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. de serviço à pista. os aviões de abastecimentos tinham rareado.. retiraram-se à procura da refeição frugal. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. digna de registo. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. não estava pronta: – É um “Dakota”. depois do caldo aguado. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. Manica e Sofala. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. onde João fora aboletado por determinação do comandante. comia-se em dois turnos. após a operação “Nó Górdio”. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez... após uma grave crise de desnutrição. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. Com as últimas garfadas. em 1971.. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete.

Agarrados aos frágeis bancos de lona. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. a aeronave subiu muito alto. são 13 horas e o almoço arrefece!. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”.. atingira-se uma situação alimentar muito precária. com o 335 . – Calha bem. ainda fumegante. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. Num repente. Por favor. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. os “Strella”. Em princípios de Abril de 1974. vamos tentar uma aterragem de emergência. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. Depois de levantar voo na pequena pista. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados.. virando-se para a comitiva tagarelando.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes.

– Tenente. O piloto-chefe informou via rádio. e a falta do motor. No interior andavam todos aos trambolhões. fora feita para receber os pequenos monomotores. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente.motor restante acelerado ao máximo. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. o avião meio destruído. prevenindo-a da emergência. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. não permitiram uma boa travagem. quando se aperceberam da situação. a unidade militar mais próxima. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. em rápida aproximação da terra.. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. abandonadas à pressa pelos indígenas. travando a fundo os rodados. fazendo um barulho ensurdecedor. gritando o desespero da hora derradeira. a exigir a elevação do “nariz”. A pista de terra batida e cheia de buracos. imobilizou-se por fim. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. em Diaca . 336 . salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. vamos “dançar” um bocado. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande.. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!.

Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. onde decorria uma participada assembleia de democratas. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. recebidas com grande apoio popular. dos trabalhadores. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. e desmultiplicava-se em acções de rua. dos estudantes. No dia 6 de Abril de 1974. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. Coordenando a luta legal e semi-legal. por não haver condições democráticas. depressa se envolvera na luta pela democracia. vinda do Sul para estudar. 337 . a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. da intelectualidade progressista.

. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. será o grito de revolta. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. não sei qual a sua fonte de inspiração..” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso.: “. cresce o amor.. gostava de escrever um poema assim. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada.. mas se soubesse fazer poesia. sublime e autêntico.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. – Minhas senhoras. à porta da cela onde 338 . Faremos dele a nossa canção de luta. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. tão Não teve tempo de completar a leitura. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. Custava-lhe magoadas.. dependurado à cabeceira. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. escrito na pedra ou no vento. tê-lo-ei sempre comigo. o desejo. onde quer que viva onde quer que morra... Amo-te querida esposa. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. A morena de olhos escuros dos genes árabes..) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. doendo no corpo e na alma. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. multidão na verdade Lutaremos meu amor”.

mudando o tom.. – Isso não sabemos. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. Não tivera tempo para mais hesitações.. – É o regulamento. apenas recebemos ordens para as transferir. – São cartas do meu marido que está na guerra. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. Era outro.. minha senhora. entretanto regressada dos lavabos. “Poemas de amor e revolução”?!... fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. o estrato humano em presença. A carcereira às ordens da PIDE. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza.. a ala dos interrogatórios e das torturas. a morena de cabelos em franja. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”.. Decisão temerária e esforço inglório. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. completamente.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. porém. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. Muito interessante. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. como era uso. Eram ordens.. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. 339 .normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas.

Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. Depois ressuscitou! É verdade. – Vais ver. sinto-me atado de pés e mãos. analisar a situação. – E agora. não vão detê-la por muito tempo. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. – Foi detida no princípio do mês. numa reunião da CDE. com data de há dois dias. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. produto da fé dogmática. Era preciso arrumar as ideias. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. com a miúda pequena!. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. prostrado. Aqui neste fim do mundo.. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. 340 . na caserna pobre e alheia às vicissitudes... Lágrimas reprimidas mas teimosas. por minutos ou por horas. que vais fazer? – questionava o Pedro. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. em Lisboa. – Se pudesse ia para lá já hoje!.. nem sabia bem.– Depois logo explica isso ao senhor inspector.

que avançavam lentamente. 341 . Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. – Pedro referia-se à esposa.. – É da idade do meu. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. Aquilo lá está complicado.... a guerra prosseguia sem fim à vista. de quem tinha um filho também pequenito. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. sem saída previsível. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. com o parlatório de permeio. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. lançada à dois anos pelo general fascista. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial.. mal a conheço!. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. greves nas fábricas!. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. agravado por um quotidiano de misérias. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. nas mesmas picadas. frustrações e medo.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. Algo paira no ar!. – É tempo de derrubar o fascismo..

sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. que não matavam mas moíam bastante. mal alimentados. mal instalados.”. mas que era por vezes motivo de incidentes. Aliás.. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. apto a receber grandes aviões. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo... da contestação e da revolta. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. No presente. somados na terceira ou quarta comissão. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. Já quase chegavam para a casita nova. em 25 de Junho de 1975. fazia parte da orientação do In. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. a bem da moral psicológica das populações. talvez o enorme campo de aviação. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. perdidos no meio da burocracia conveniente.entretanto afastado. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. diziam as vozes do desânimo. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas.

fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. Companhia de Caçadores. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. com a arma cruzada entre os braços. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. mas às vezes não!. debruçados no parapeito da vala. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. estão em calções 343 . esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. encarregada da segurança daquela área.. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. – Ai minha rica mãezinha. quando o pânico perturba a racionalidade. desde que começou o ataque às 8. Pela primeira vez em pleno dia. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. É o décimo. que não resistiriam a uma boa “morteirada”.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974..

– BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. tinha decerto instruções hierarquizadas. Na secretaria do comando. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. ser um normal rebentamento na pedreira. enquanto o chefe não chegava.e tronco nu porque o tempo contínua quente. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. de 8 e 14mm. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. saindo do seu gabinete tenso mas determinado.. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. Na reacção. na direcção da pista de aviação em eterna construção. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. entretido a escrever à máquina um aerograma. a meia encosta. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. a responderem ao bombardeamento: 344 . A excepção foi o comandante do aquartelamento. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. arrancando resoluto no jipe. onde psicologicamente o susto era menor. pensava-se inicialmente.. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. Restava a vala-trincheira já superlotada. na direcção do posto de artilharia da unidade.

atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. filho de pequenos agricultores.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. que “quando se ouve é bom sinal!”. sempre de cócoras. Olha se caísse aqui?!. ribatejano. pá! Por pouco!.. os nossos canhões não têm precisão a essa distância... com a G3 entre os braços. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. a mais de cinco quilómetros. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo.. “arrancado” à escola superior de agronomia. ao fim da tarde. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência... imperturbável no seu montículo a animar as hostes. não morreu um gajo no ataque a Palma! . Havia uma pequena pausa no ataque. é relativamente inofensivo.. – Ena. Outra vez a voz calma do furriel Costa. – Pois não. O furriel Costa continuava imperturbável. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos.. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. permitia concluir que ainda estavam vivos. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. mas a tremenda e instantânea confusão. Aprendia-se nas conversas de caserna. a menos de 50 metros.

fica atenta às notícias da telefonia!. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. No seu jeito brincalhão característico. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”.. Os olhares cruzados naquele instante. a pontaria estava agora muito alta. as munições deviam estar a escassear. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade.os anteriores. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. traduziam um intenso pavor. só estragos materiais. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. – Venho estafada. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. No dia 4 de Abril de 1974. já se via muita gente de pé. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. Nove horas da manhã. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 .. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. A resposta da artilharia esmorecia também. durante uma hora e vinte minutos.

distendendo os nervos.. a jovem mulher com ar cansado. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. O comboio da linha fora a primeira etapa. pela primeira vez em muitos 347 . bem precisas.e não queres que durma? Sorria. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. Amanhã logo saberás quando acordares. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. rapariga! Descansa. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. Não te preocupes. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. se se cumprisse a movimentação preparada. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. em vias de se tornar definitiva. onde começara o namoro e. no “Abril em Portugal”. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. sempre lindo.. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. nos novos caminhos da liberdade precária.. – Vai-te deitar. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído.. Conhecendo o ditado das “águas mil”. sem objectivar. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. mesmo em dias de borrasca. – Como foram os interrogatórios. ao rever o local à beira-rio... – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado.

sobre as 348 . – Não tenho nada a declarar. Como estaria o seu João. horas e horas de angústia. onde vivia com os sogros. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. desde a partida do marido para a guerra. sorriu. – empertigou-se o chefe de brigada. a mostrar serviço na presença do superior.. Novamente a insídia do inspector superior. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito.. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. “visita” diária desde o primeiro dia. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. a esta hora já estão em casa com as famílias. – Responsáveis fomos todos. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. nada mais tenho para dizer! – Ah. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito.dias.

Finalmente! 349 . após quase vinte dias de interrogatórios. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. com um sorriso como não via há muito tempo. em catadupa. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. onde cabia toda a candura do mundo. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974.. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar.. houve qualquer coisa em Lisboa!. Um último pensamento foi para o companheiro distante. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. Numa das vezes. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. a saudade roendo o corpo e a alma.insinuações em relação ao companheiro. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. e só regressou exausta de madrugada. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. na hora de tentar conciliar o sono. Por fim desistiram. alegre por rever a mãe.

. 350 ..– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.

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