A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

2

ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

3

A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

4

A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
5

Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
6

Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
7

obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. infelizmente. quer na dinamização do 25 de Abril. No centro de instrução em Mafra. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. quer na rápida solução do conflito. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. de algum modo. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. que nisso estiver interessado. Essa foi. deixo ao leitor. o autor adoptou uma estrutura mista. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. e que assim. Marcharam esses 8 . a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. Respeitando essa intenção. para dentro das fileiras das Forças Armadas. indiscutivelmente. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só.

mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. O narrador acompanha-os. É esse o período de 13 anos e 3 meses. para os três teatros de operações. o autor intercala dezenas 9 . demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. perante as forças da novel República Indiana. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. por norma. Na realidade. Logo no capítulo 2. graduados em oficiais ou sargentos. entenda-se. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. ignorando-os ou afeiçoando-os. isto é. Angola. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. Guiné. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. estende-se entre 1961 e 1974. De acordo com o seu propósito didáctico. O regresso dos militares feitos prisioneiros. Entretanto. a crise académica de Março de 1962. por exemplo. Damão e Diu). a petição de princípio. nomeadamente o historiador académico professoral. em Maio de 1962. de ensinar. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. etc. Longe disso.milicianos. Não se trata. Exactamente ao invés do intelectual burguês. cujo método é. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. desprezando a evidência dos factos. Moçambique. relatar casos e episódios que contenham significado implícito.

novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. de forma modesta e aparente singeleza.o livro agora publicado. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. um acto de resistência. é justo assinalar. Nos tempos presentes. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . invocar essa memória já constitui. pois repara muita injustiça).de resenhas de carácter histórico. tantas vezes heróico. quer no país europeu. Em tempo de escuridão. contra a opressão fascista. Um estado dentro do Estado. (Mais que justo. por si só. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. algumas extensas de dez páginas. despidos de ambição pessoal.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. reconforta a alma. Mas todos. Dos comunistas em primeiro lugar. por estes democratas da 25. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. como bem observa. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. quando se perfilam em Portugal e no mundo. quer nas colónias em guerra. que fazemos um povo. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. nesses anos finais. devemos ter orgulho nesse 10 .

permitam-me.passado pois é parte e espírito da nossa História. comunista de sempre. E. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. mobilizado para uma Guerra Colonial. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. não devemos esconder esse orgulho. Lisboa. que nunca aceitou como causa sua.

vivê-la com as 12 . o romance. As memórias da realidade. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. teimosamente persistente. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. a ficção baseada em factos reais. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. e da “vitória ser rápida”. perene. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. as mágoas persistem. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. porquê? As memórias esvaem-se.. compreender a guerra por dentro.. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar.. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. Estes ensinamentos da nossa história. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. Nunca é tarde para perceber. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. definitiva. dos seus incrimináveis mentores. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente.

a nobreza de carácter. o desiderato deste livro. as tristezas. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola.angústias. o terror. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. Guiné e Moçambique. as solidariedades. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. 13 . ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. os medos. flagelações e punham minas nas picadas. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. além do mais. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. a amizade. e. contra os mesmos incorrigíveis franceses. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. ouro sobre azul. A luta de novo tipo. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. mas agora. É este. a revolta e a coragem. a cobardia. que faziam emboscadas.

Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos.Os fascistas e militaristas. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. na rádio e na televisão (também no cinema!. Os que regressam de África ─ os 14 .. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. procuraram elidir as questões fundamentais. iludindo os portugueses... próceres de Salazar e de Caetano. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. órgão central do Partido Comunista Português.. Como se Agostinho Neto. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. não tivessem nascido. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. escravatura. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. o “Avante!”. Como se não existissem 400 anos de dominação. deturpando. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis.

os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. Os protestos. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. n. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. que ousassem levantar a cabeça. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. A recusa podia revestir diversas formas. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. de presos por revolta ou protesto.º 322. constituindo um feroz. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão.. até ao 25 de Abril de 1974. de objectores.. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. procura um caminho para se manifestar. Em Portugal. * 15 . a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado.).desmobilizados. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. as lutas e deserções multiplicam-se (. nomeadamente: fuga à tropa. A amargura. o Presídio Militar de Elvas. de Outubro de 1962.

de preferência em grupo. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. torturas e morte. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. que tudo pervertia e até fazia assassinos. profissionais do quadro permanente não desumanizados. deviam ir à guerra e uma vez aí. entre os jovens fardados. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos.. nas empresas. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. As suas 16 . o tratamento desumano de prisioneiros. o assassínio gratuito.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. massacres. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. sob todas as formas. obstou o crime horrendo. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. Tarefa complicada sem dúvida.. nas escolas. os melhores. deturpada e mentida. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. e os que estavam convencidos que da sua acção. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. dependia a aceleração do fim da guerra. a violação de mulheres. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante.

as suas manifestações e lutas. o “Movimento de Capitães”. depois. nas colectividades e associações. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. com profundos sentimentos anti-guerra. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. compadrio. tráfico de influências. nas escolas e nas ruas. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. por outro lado. e o “Movimento das Forças Armadas”. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. seus inimigos figadais. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. ainda que pouco (re)conhecido. * É incontornável. e o. suborno. a “soldo de potências estrangeiras”. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . A sua opinião crítica. Os comunistas. “Abaixo o Fascismo!”. no movimento democrático. primeiro. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. iam para a dita. “anti-patriotas” por definição. às vezes mitificadas. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. neputismo. tentavam por todos os meios (cunhas. nos locais de trabalho.

de contestação e de revolta. vigiando. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). a PIDE/DGS humilhou. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. fichando. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. perseguiu. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. (politicamente activo). o título de P. Espancamentos brutais. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. Em África como em Portugal. em 1969.Estas profundas contradições no seio do regime. prendeu. 18 . em estreita ligação com os meios militaristas. despromovendo. Uma questão central da guerra em África.A. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. excluindo. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. torturas até à morte. perseguindo. sobre a Academia de Coimbra. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). castigando e quiçá matando.

A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. a chamada guerra subversiva. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. Significa que entre nós o crime compensa. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Salazar dera orientações nesse sentido.guineenses e moçambicanos. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. a guerra colonial foi calculadamente 19 .

A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. Silva Pais. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. 20 . por certo. não permitia saídas do tipo neocolonialista. Franco Nogueira. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. Marcelo Caetano. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. para que o poder político encontrasse uma solução. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. e uma multidão de títeres do regime. Américo Tomás. Bélgica. Era assim para Oliveira Salazar. evidentemente. com a outra mata!”). e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. Mário de Figueiredo. muitos destes nas Forças Armadas. Com determinação e sentido histórico. Kaúlza de Arriaga. pelos valentes capitães com o apoio popular. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. França. por questões de classe e de interesses individuais. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. Silva Cunha. devido a interesses económicos e empresariais. naturalmente. Holanda).

servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. a guerra colonial não acabará nunca!. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente.. Essa seria a única. Para os milhares de feridos e estropiados. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. Que este livro de inquietações. a derrotar todos os “senhores da guerra”. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . com as marcas irreversíveis no corpo. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. naturalmente.. África jamais será esquecida. do passado ou da contemporaneidade. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história.

). etc. “Katangas”.Jorge Jardim. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Em última análise. será a nossa maior satisfação. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. Barreiro. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . o coronel João Varela Gomes.. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. perpetrando matanças descabeladas. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. Flechas.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

a nova ligação é importante. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. mesmo em frente da paragem do eléctrico. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . sempre com muita gente azafamada. Bom. O "28" chega vagarento e ronceiro. não vá andar algum "bufo" nas imediações. há iniciativas dependentes daquela conversa. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta.Horas de jantar. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. Passam cinco minutos da hora combinada. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". É preciso voltar no recurso. ficar na paragem não é prudente. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?".arranca desiludido. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. Aquela é a única carreira que por ali passa. à espera do sinal précombinado. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. Embora não seja novato naquelas andanças. Pouca gente na rua.

Rua dos Poiais de S. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. inóspita. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé.. o eterno mistério das trevas. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. vai caindo em descrédito. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. a querer roubar-me os "tomates"!?. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. desoladora. a rua entristece-se. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. mal iluminada. Pelo som. Sacudir as teias é preciso. Bento. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos.─ “Olhá” desavergonhada. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. Bento.. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. O populismo do governador do monóculo. capital de um império de "faz de conta". Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. o telejornal está a começar. Calçada de S. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. sorvedouro de homens e de recursos. António de Spínola. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 .

sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE.. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas.!? Bom! Carros pretos há muitos. durante o "minuto conspirativo".. da chamada ala liberal. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. Carlos. mas hoje precisamente. Pela porta de uma taberna escura.. Av. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Contradições do sistema. na reunião matinal.. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. D. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". aproximando-se inexoravelmente da cidade.

Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. colocada num canto superior do estabelecimento. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. condenações de Portugal na ONU. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”.Górdio". Kaúlza de Arriaga. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. com populações civis sacrificadas. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. e das imensas contradições em que o regime se atolou. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. no norte de Moçambique. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe.

será alienada. o rapaz magro e alto. ─ clamava exaltado no calor da discussão. envergando roupa de tons escuros. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau... em Setembro de 1973.. convicto da orientação política traçada. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. 28 . da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África.. não!?. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. ajudando na consciencialização.. o jovem moreno e bem vestido. na Guiné. na tropa há seis meses.. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. que teria a capital em Madina do Boé. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. não sei se estão a perceber!?. Essa falsa república sem Madina e sem Boé.” Madina do Boé. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.

mas simpática e graciosa... ─ o camarada João. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. e.. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. Não era fácil convencer quem. nos postos avançados. * Chegara ao grupo discretamente.. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”... paradas. motivadas por razões corporativas. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. sabia do que falava.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. Grande bronca! . na distante. sentindo o cheiro a pólvora. algo distante e compenetrada. acendeu paixões e afivelou rivalidades. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. nos aquartelamentos. após ter feito a especialidade em Vendas Novas... Aquela forma de estar. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. casernas. quero ver como é!. mas a coisa pode radicalizar--se!.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . Este sentimento corria os quartéis.

voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina.escuros e sorridentes. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. No pós Maio francês de 1968. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . cigarro nervoso entre os dedos.. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. risonha e muito extrovertida. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas.. propiciava radicalismos. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. de barbicha. incorporava o regime. um aspecto tristonho e sério. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto.

Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. mas o momento era de grande frustração. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. ─ Sabes? Eu … eu. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. A luta era feita de vitórias e derrotas. normalmente acompanhados. ─ Escuta. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. ─ Fazem favor de se sentar.. ainda não respondeste ao meu pedido. ─ Ora essa. de avanços e de recuos. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. não temos pressa!. como acontecera de outras vezes. de perna curta. ansiedade.. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. senhor ministro. Cumprimentos da praxe. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra.. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. Naquele início de noite estavam só os dois..

boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . a que os estudantes chamavam 32 . acompanhada de abundantes gestos. contra a ditadura política. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. Milhares de estudantes em desobediência civil.e uma cadeira de espaldar alto.. Universidade. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. no início do ano lectivo de 1969/70. A crise académica na Universidade de Coimbra. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. da GNR e da PIDE. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Uma actuação firme. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. O País animou-se em expectativa. O Ministro da Educação. Ao fim e ao cabo. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. sem vacilações! Fazem greve em Julho. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. no topo.. telefone pousado. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade.

teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. mexendo-se incomodado.satiricamente o "meio-istro" ou. o "mini-istro". enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. devido à sua baixa estatura. Os quase siderados visitantes. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. 33 . são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. ainda estão de pé?! ─ Faz favor..! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. ficando enterrados quase ao nível do chão. ainda em pé à beira dos sofás... Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. vezes um ano perdido.. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. outra forma de piropo estudantil. "meio-nistro". recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. senhor ministro. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. ─ Mas fazem o favor de se sentar.

João. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. Uma angústia feita suor frio. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. na qual o Rolando também tinha participado. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. junto do “povo fardado”. como furriel sapador de minas e armadilhas. Cego! Informara o comum amigo e avisador.. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. na clandestinidade. chocante. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida.. resolveu que a solidariedade era mais urgente. Embarcara para a Guiné há menos de três meses.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. minarem a confiança dos soldados no Czar. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. por dentro. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. Pelo caminho. quando o Partido Comunista da União Soviética. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. mas logo assim em tão pouco tempo!?.

por estranhos e simultâneos sentimentos . revoltadas e envergonhadas. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra.. foi entrando pelo terreiro. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos.. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. que se calhar nem foram ouvidas. com cotos ligados à altura dos cotovelos. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas.secretaria.. O coração doía com aquela visão terrível. Como não havia ninguém de guarda. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné.. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. com múltiplos pavilhões disseminados. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. Por instantes ficou paralisado. também neste local não havia guardas. vários soldados em pijama regulamentar. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão.º pavilhão.. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. agora “minas e armadilhas”!?. de cabelo encaracolado de um escuro característico. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo.. contudo logo à entrada do 1.. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca.. estavam sentados em cadeiras de rodas. com uma absoluta angústia de ver o 35 . É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo.

─ Então rapaz.. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”... comovido até ao limite das forças. ninguém dera pela sua presença. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. Sou amigo como se fosse irmão. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. estou sozinho!. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!.. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. ─ o jovem muito moreno. ─ Sim! Bem!. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. começou a dar-lhe a sopa.. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!.. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. Os médicos já me viram!. entrei porque não encontrei ninguém de guarda.. 36 . que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.amigo naquele estado.. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. Sem nada dizer... ─ A esta hora está tudo ocupado. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão.

. rangente.sem Madina e sem Boé. com 37 . a rua está agora quase deserta.. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. devia estar com vergonha da sua situação. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia.". com outros recursos consigam recuperar a outra!. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. ─ Talvez mais tarde. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente.. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. filho dilecto do regime: ". sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. Com a mão no ombro do amigo. é tempo de voltar para casa.─ Bom! Isso é uma boa notícia.. aproxima-se o "28".. Passa tempo demais em relação às normas de segurança.. vagaroso. foram as palavras do professor. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. ─ Não quero mais sopa. A outra vista não tem recuperação. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial.

permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. um carro preto vindo da esquina próxima. não há veículos à vista. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. gritos. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes.a chamada “primavera marcelista”. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos.. Afastada a concorrência. no Instituto Nacional de Estatística. Mas os tempos estavam a mudar. Não pensava tão cedo.. ali perto.. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária.. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo.

ditava a incorporação em Mafra. sem mais nada. enlevados e trémulos de emoção.. sem lamechices. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. e o mundo revelava-se sorridente. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. O jovem alto e magro. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha.. em princípios de Outubro. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 .namorada? ─ Sim. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. Os corações abriam-se de forma sincera. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. Deram a volta ao quarteirão. no COM. Um a um todos foram chamados para a tropa.! Mas olha. tudo à volta parecia perfeito e calmo.

Durante muitos meses. os comentários. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. o seu João Silveira. seguindo uma orientação conscientemente assumida. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução..─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. levou as notícias. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. partiram para a guerra. do 2. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. pois o pai. necessariamente clandestino. Saía à mãe. vacilante. 40 . os relatos. durante exercícios com fogo real. nos inícios da década de 70. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. trôpego. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. o “Alerta Camarada!”. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. trazê-mo-los no coração. Até que todos os seus mentores. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. E morreu mais um no turno passado. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô.º ciclo..

. muitos com flores artificiais. ─ Avô. alguns com fantasias bizarras. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto.. com nomes gravados outros. com fotografias uns. Traquinas e esperto como poucos. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. não foi avô? ─ Foi.. melhor que ele próprio. Mas não tem nenhum nome?!. alojado junto da coluna vertebral. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade.. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. ─ Avô. foi!.. ─ Pois não.. “Raio de ganapo!” ─ pensou... como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. ─ É este aqui. * 41 . Para mim a guerra nunca acabou!.

─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. comandante da secção. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. Há semanas que não havia flagelações. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . não tardava nasceria o Sol. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. o grande temor pelos últimos dias de comissão. o pessoal seguia com relativa descontracção. as picas atrás a furarem o terreno. magnetómetros à frente para detectar metais. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. a chamada rebenta-minas.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. sobretudo nas zonas de areia solta. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. emboscadas ou minas na picada. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”.

deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer.. O Pinto era um rapaz corajoso.. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. o 1º cabo José Pinto. ─ Calma.. pá! Passa-me a pica...fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores.. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo.. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. 43 . leal e honesto. vou tentar des. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974.... Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia.. assim. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. devagar. viscoso.. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. com distinção e elogios. ─ Não foi detectada pelo magnetismo.. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. como dizia publicamente e sem rodeios. várias vezes dissera que se morresse na guerra. dizia sempre o que pensava com frontalidade. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel.

44 .em Moçambique.

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.2.

. O dono da casa. onde. oriundo do Alentejo litoral. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. mas com as preocupações de um mundo em tensão. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. lembrando as lições da escola primária. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. nos fins da década de 50. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. o sobrinho Alfredo. frente à taberna do Arnaldo.Tarde de sábado. há muitos anos radicado na vila operária. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. como republicano e antifascista. dá o mote: ─ O que representam Goa. não podemos abandoná-los !. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 .. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. se engajou na luta contra a ditadura.

barba ou cabelo? ─ Barba. a PIDE rondava-lhe a casa. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. refastelado na cadeira.oceano! A conversa muito animada. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. ─ Sabe. demoradamente. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. tendo passado alguns meses preso em Caxias. nessa azáfama. Embora saísse sem julgamento. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. e. merecias que te cortasse o pescoço !”. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. notório situacionista. Na sala. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. claro!.. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. 47 . O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. como lhe ia dizendo. bom.. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. desculpe. ─ Então senhor Vaz.

Na longínqua Ásia. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. o governo salazarista. foram castigados com o corte de dispensas. Já em número de 300. em Évora. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. em Bandung. em 1955. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. a Assembleia Mundial da Paz. qual falcão em plena guerra-fria. pondo o quartel em “estado de sítio”. no mesmo ano. insistia na via do confronto militarista. Inglaterra. o fim das guerras da Coreia e da Indochina.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. Os governantes fascistas. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. escondendo do povo português a sua vocação belicista. No regimento de Artilharia 1. O 48 . com representantes de 68 países. juntaram-se na parada a protestar. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. Estados Unidos e União Soviética. usando a férrea censura dos jornais. Damão e Diu. sob administração portuguesa. ficou uma lembrança trágica. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. em Helsínquia. de que deveria restar uma memória positiva.

na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. Exaustos e revoltados. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. é hoje! É hoje!”. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”.comandante. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. em 30 de 49 . mandou fazer uma marcha acelerada. intimando toda a hierarquia. Depois de mais alguns episódios repressivos. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. dependia de outros embarques próximos. Aumentou a revolta aos gritos de. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. prometendo liberar os detidos no dia seguinte.

É assim.Maio de 1956. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. quando da negociação do plano Marshall. “Uma Nação. necessário à sua vida. Na década de 50. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. cobiçadas pelos norte-americanos . escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. muitos povos”. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”..analisa a questão colonial portuguesa. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. à sua subsistência”.. à sua defesa. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”..) As tentativas para a reprimir de nada servirão. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. no campo democrático.. etc. Salazar afirmara que . Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. Quando um povo. Ainda no final da década de 40. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.

generoso portador da civilização”. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. como.... a segregação racial nos transportes. . já citado. Por volta de 1954. de Junho de 1956 : “(. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . social ou político. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. isto é. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. “um movimento racista contra o branco.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”.. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. a ausência de qualquer direito. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. o MUD Juvenil. na Margem Sul e noutros pontos do País. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África.)... em iniciativas abertas e unitárias. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado.. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. as fomes e epidemias devastadoras. O regime salazarista.. cinemas e lugares públicos.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. O órgão central dos comunistas.

que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. (. como os valentes soldados de Évora. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. Mas senhor doutor. e desde então todos os anos vai a Fátima. nem os planos e as medidas de guerra. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. mais do que com qualquer outro membro da família. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. depois da “bola”. era tempo de visitar o primo Zé.. com que trabalhos e canseiras. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista.. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. nem os discursos de Salazar.). em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . vigário da matriz: 52 .. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. posto que irmãos não tinha. quando o clube da terra jogava em casa. O colonialismo tem os seus dias contados.. na casa modesta da tia Clotilde.

para ouvir os relatos de futebol. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. entretanto já terminados. não percas a fé na senhora de Fátima. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. olhe que os indianos são muitos. comprada a prestações com muitos sacrifícios. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia.. lembrando-se da afirmação 53 . como não haverá navios rendidos. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. A telefonia. com uma relativa consciência do mundo. um luxo para as classes trabalhadoras. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. 300 milhões!. era a sua companhia de muitas horas.─ Clotilde. naquele tempo dos princípios da década de 60. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho.. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso.

se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. em Dezembro de 1961. “rapidamente e em força”. Quando os militares portugueses. por isso lhe dava uma carga pejorativa. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!.do barbeiro. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. feitas 54 . as tropas portuguesas na Índia. como mandara o ditador. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. numa atitude típica do seguidismo salazarista. dez mil e tal contos.. de medos e angústias. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. talvez!. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões.. comandados pelo general Vassalo e Silva. restavam os ganapos e as moçoilas. Damão e Diu pela União Indiana. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. na altura dos Santos Populares. em África.. ─ Ah. Em Maio de 1962. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. Joaquim Faria. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. Eram agora raros os saltadores exímios.. na Índia longínqua... ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. .

já não o vejo há dezoito meses!. lenço modesto na cabeça. conforme os boatos que iam surgindo. grande algazarra entre as centenas de parentes. iam finalmente regressar ao País. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). de gabardina e chapéu. Gritos.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. na ausência de informações oficiais. A mãe de Alfredo. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. cada vez em maior número. apupos. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. oriunda da zona antiga da vila operária... ausente há muito tempo. No dia 23. a família de Alfredo Júnior.. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado.. só acostaram em Lisboa já de madrugada. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. ─ implorava uma velha mãe. vindos dos desenganos apesar da noite fria. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. instado por um grupo de familiares. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. e viceversa. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. vestes escuras e lágrimas doridas. dado o seu isolamento. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. É um senhor vestido civilmente. correu juntamente com muitas outras famílias. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. ansiosa por abraçar o ente querido.

Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. povo de Portugal. não podemos esquecer o povo português que. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. debaixo da mira de dezenas de espingardas. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”.. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. acenam com lenços brancos. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). fora do olhar policial. por sua vez. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. alguns jovens esgueiram-se lestos. estenderemos a vós. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. acompanhando zelosamente o senhor inspector. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. Ao longe. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. Como povo livre. mas contra o colonialismo e o fascismo. datada de 14 de Dezembro de 1961. antes de voltarem para casa. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”..─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão.) Por isso.

Regressaram à terra natal. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. 57 . talvez pela primeira vez. em troca de uma decantada pátria pluricontinental.juventude. compreendendo. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.

o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. 58 colonialmente ocupados. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. Damão e Diu.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. a opinião dos meios de oposição ao regime. Não era esta. em 1955. porém. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. na Indonésia. FNL. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. potência colonial. Em 1954. Ou a realização de um “referendo em Goa”. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. contra o ocupante francês. em Diên Biên Phu. que considerava proclamavaportuguesa”. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria .

Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. trabalhamos. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. Em 1958. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. 59 . dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960.)”. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. Do que se passou nessa histórica assembleia. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. Neste planeta nascemos. os representantes dos países socialistas. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. Em relação às colónias portuguesas. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. dos neutralistas e das jovens nações africanas. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”.. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. todos vivemos num único planeta.. pela União Soviética.

como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. Os massacres dos povos de S. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. voltaremos aqui. que procuram inverter os factos. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Timor. Os patriotas angolanos. turutuka dii. Goa.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. Cabinda. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda.” (oiçam. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português.).. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais.. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. Tomé. Neves Bendinha. Paiva Domingos da 60 . com o apertar das algemas da opressão colonialista. ivuenu. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. Mueda. Bissau. em Luanda. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão.. oiçam. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. Scalo Bengo (Angola). com o agravamento da exploração colonial..

os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . em Cabo Verde. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. Domingos Manuel Mateus. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. abençoou os revoltosos. missionário na arquidiocese de Luanda. De resto. enquadrados em vários grupos. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. o próprio. um cónego mestiço angolano. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. guardadas no campanário da Sé Catedral. Raul Deão. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. Virgílio Francisco. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”.Silva. fazendo milhares de vítimas. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. Imperial Santana. Na madrugada de 4 de Fevereiro. na Ilha de Santiago.

com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. nas rusgas e cercos. Agarra que é “lumunba!”.. ─ Cadeia da 7. ─ Companhia Indígena. começou a terrível “révanche”. indefesa. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. Depois foi um terrível massacre. filho da puta!”. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. deixando centenas de cadáveres.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). com a perseguição. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. dezenas de autóctones. uma autêntica “eliminação selectiva”. interrogados. mortes às dezenas. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. À noite nos muceques. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. com poucas excepções. “Mata esse preto. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. Estava iniciada a Guerra Colonial.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). era a “limpeza étnica”. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. feridos. onde estavam muitos presos políticos.. junto à praia do Bongo. presos.). correrias. espancamentos. espancamento e morte de gente negra. sendo os restantes. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. levado a cabo por gente desvairada. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. que seguia num machimbombo (autocarro). ou de trabalhadores numa oficina perto. Pedro da Barra. empurrados logo de manhã para as valas comuns. Nenhum dos objectivos foi alcançado.

quando a avenida da Praia era mais frequentada. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. sempre com conta e medida. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. do café Beira-Mar. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. o João “Careca”. conseguia desatar. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. Ao fim da tarde. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. O célebre fadista.

sempre se ficava a saber alguma novidade. deixando uma angustia de dúvida e receio. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. porque a família real era dinástica e divina. da sua grandeza Além-Mar... 64 . A curiosidade fora espicaçada. é nossa! Angola. gritarei é carne e sangue da nossa grei. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios.. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. Fazia vibrar de emoção e orgulho.. pela negação dos factos apresentados... inquietante mesmo. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola.. é nossa.. é nossa! Angola.multicontinentalidade da Nação. Acabou o noticiário. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal.” A sensação desagradável. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. quebrando a corrente emocional e patrioteira.

Baixa do Cassange. O Ferreira da Costa. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. S. três tentativas. na Emissora Nacional. E voltava! “. Scalo Bengo . Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. Timor. ─ Esse gajo é da situação. O regime fascista. duas. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. sobrinho por afinidade.. salazarista convicto.. senhor Lobo. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. mas a realidade inevitável.. Vozes estrangeiras incompreensíveis. bem pronunciada. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. etc. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos.─ Tio Zé. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso... idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. o regime 65 . massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Goa. Tomé. mantém nas masmorras da PIDE.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. pela ditadura terrorista dos monopólios associada.. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo.. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”.. Uma.. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. Mas é perigoso ouvir!. músicas estranhas que o velho vizinho.. diz ser tudo mentira!..

. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. era outra voz da mesma liberdade procurada.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.00 horas.. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . Os dilemas da guerra e da paz. pelos serviços da PIDE.ª classe na Sertã natal. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras.. Depois da 4. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.” Afinal não era a Rádio Moscovo. entre as 19. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. Espera enervante. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola.. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 .. obstando a mensagem de denúncia e de luta. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.00 e as 21.. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.

com um salário que mal dava para a renda do quarto. Manuel interrogava-se. promete continuares a estudar. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . por sugestão de um colega. para a outra-banda. em toda a sua vida. Aprendiz numa oficina de automóveis. aliciado pela PIDE. parco de palavras. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. A grande cidade dava outras oportunidades. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai.incerteza no futuro. embora exigisse muito sacrifício. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. com uma sedimentada consciência de classe. na Escola Fonseca Benevides. as leituras recomendadas. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. as conversas sobre a realidade do País. abriam-lhe os horizontes. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. Um segundo passo importante fora a mudança. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. O convívio com operários mais velhos e experientes. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. por lá ficou mais de um ano.

partilhada em muitos anos de brincadeiras. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. nas lutas no Ensino Secundário. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. tendo depois emigrado para Angola. preocupações comuns e solidariedades. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. mantinham a amizade da adolescência.conta. que depois da questão da Índia. de Xabregas à Veiga Beirão. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. mas chegara a sua vez. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. O terceiro irmão não fora mobilizado. o “Avante!”. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. a conversa era fácil e fraterna: 68 . Ainda agora. pela primeira vez. depois da incorporação e a recruta. E agora. nunca mais parara de se agudizar. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. A experiência de participação.900. a mobilização para Angola. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem.

filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. mas o Nana era assim. ─ Não. ─ Nunca pensaste em não ir. vestido de pequeninas velas brancas. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares.. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. O pior é a mobilização!. um bom rapaz. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência.. Sou atirador de infantaria... em dar o “cava”?!. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. encobre da vista o barco.. agitando-se freneticamente na amurada. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!.. o choro mudo e soluçado dos homens. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. vamos todos lá parar!. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora ..!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. até se leva bem. ir à guerra e ter lá um azar. não! Mas quanto mais cedo melhor..─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta... empurrando mais e mais o navio pela barra fora. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. 69 . para onde vão muitos! Já viste. ─ Adeus filho.

mas nunca de contrariá-lo. no silêncio do quarto. A vontade nacional de agarrar o destino. alguns.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. constituía um arquétipo da candura nacional. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. adormeceu finalmente inquieto e agitado. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. no meio do magote de gente lamuriosa. quiçá para sempre. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado.

também houve nações e povos desenvolvidos. têm lá cabeça para se governarem. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. O que se seguiu. 100 mil?). E mesmo mais para sul do deserto de Saara.. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ).. no Norte de Angola. 80. ou para alguma coisa!?. e agora. havia muita gente esclarecida. Autodidacta e amante do saber. nas zonas da savana e das florestas. que lia e com o colonialismo e a 71 . A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. por vingança. perpetrado pelas tropas coloniais. até chegarem os europeus escravatura. um grupo de cariz tribalista. ─ Os pretos são meio selvagens. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. Na zona velha de maioria operária. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados.conversadora. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. como sempre acontecia aos sábados. recentemente. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. pelos movimentos de libertação.

à volta do quarto pequeno e modesto. senhor Vaz. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. ─ Sabe. não acha?!. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. de reflexão e de descanso.. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. E também lá foram vividos os primeiros amores. quando entrei!?. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. que tudo estava sossegado.. 72 . como lhe tenho dito.acompanhava os problemas. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo.. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife.

ainda é muito cedo!”. talvez uma floresta.. perseguições.“São seis horas da manhã.. que sonho dramático!”. João deixou-se dormir novamente. só abria às nove horas para cortar o cabelo. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. densa. um cheiro intenso a pólvora e a sangue. correrias. luzes intensas. um precipício negro em que estava prestes a cair!. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . como se propunha. “Safa. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura.

NÃO JURES CAMARADA 74 .3.

Na manhã seguinte. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali... ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. fresca de Outono precoce. Seguia-se. nada mais. três horas de caminho. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. não me parece!. com duas ou três casas. O chefe olhou-o com ar circunspecto. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 .LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. ─ E agora. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. Posso chamar um táxi. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. já sem companhia. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila.

depois das longas caminhadas durante o dia. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. táctica. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. 76 . Guiné e Moçambique. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. começaram as marchas nocturnas. e já fizera a exploração dos itinerários. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. em transporte próprio ou familiar. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. trazia medos e fantasmas. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. orientação.trajectos labirínticos. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. da instrução sobre armamento. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. Muitas caras ensonadas. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores.. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. algumas conhecidas da universidade. etc.

em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. Rodrigo e Francisco. “a tropa não é para maricas. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. ─ Tens de ter calma. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. anafado.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. daquelas que nunca mais se esquecem. mais hipóteses têm de safar a pele!”. como ele dizia. ensopado em suor... incluindo a arma e a mochila às costas. devido às lamas nos caminhos. ─ Não aguento mais isto. pesadíssimas. de boa compleição física e bom contador de histórias. tornados amigos durante o 1º ciclo. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. O pelotão do 2º ciclo do COM. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . ─ o manifestante era um aspirante alto. fazia mais um exercício duro porque. durante a progressão com todo o material de combate. comandado pelo alferes “Manaça”. pá! Vou dar o “salto”. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. com a fama de “chicalhão” e prepotente. pertenciam ao meu pelotão!. quanto melhor o treino. célebre desde as últimas invasões francesas.

.... tem lama até às partes. pá. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. Por feitio ou bajulice. com um feitio solidário.. gosta de fazer de porta-voz. Uma porra. entra em contacto com a pele suada. o pessoal preparava-se para a travessia. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. na cauda dos restantes caminhantes. ─ Depois logo se vê. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante.contrapunha o Francisco. relutantemente alguns ficam para o fim. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. magro de carnes. dando-se ares de importância. começa a entrar em pânico. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. Os mais expeditos fazem-no com êxito. ─ Outra vez a porra da lagoa. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. quem não sabe nadar atrapalha-se. procurando ajudar o amigo. por isso ganhou os favores do graduado. 78 .. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”... só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. dizes tu!. bem nutrido e de ventre proeminente. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. ─ Falta pouco. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. pá. vem avisar o cadete Aníbal a correr. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. as pernas vacilam.

perante o quadro terrível vence a inibição.! O cadete Artur. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. marche! ─ Sim. ─ Qual bombeiros. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada.. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.. volta para trás e tenta ajudar os outros dois.grugluglu.. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio.. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior.. com uma alma altruísta. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 .. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. o graduado continua a vociferar. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal.. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. Friccionando-se com a camisa de trabalho. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal..─ Socorro! Não sei nadar! Socor.

agarrados. outros. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. enterrados no lodo. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais... quer ir connosco amanhã? 80 . que padeciam de graves deficiências. ─ Algo não está bem.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. teve uma atitude simpática . o jovem alferes Terras. Baixa no anexo de Campolide. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. com permanência nocturna obrigatória. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. comandante do pelotão. ainda em tratamento. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. sempre muito elegantemente fardado. de bengala de invisual ainda mal manejada. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. juntando-se à volta de um acamado paraplégico.

.. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla).. sim!? Obrigado! Eu. em cima da cama. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas.. ( os instrutores são uns nabos. ─ Ah. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante.. ─ Agarre-se a isso. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. pouco falador. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna.. obrigado! Sou casado!. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem.. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. A conversa continuou animada. nunca cá tinha estado. não ensinam o verdadeiramente importante). já não tinha mais novidades. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra.─ Não. quando jogava o Benfica em casa. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. ─ Ah! É casado!.

mesmo dobrado. Era grande o constrangimento.! ─ pila era tabu.. como aliás acontecia com os outros. “cada um com a sua”. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. aqui anda tudo às putas.. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano.. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande.! Não há ninguém de serviço. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado...daí para a rua... de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. fora de qualquer regulamento. ─ Mas . Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. cumprem-se ordens. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. é uma forma de dizer. ─ Ah! Pois. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente.. as coisas acontecem e pronto! 82 . amanhã posso ser eu. abrir o fecho da braguilha.. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. ─ Esse não acredito que pague!.. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. Evocam-se regulamentos.

um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. a espera animava o pessoal. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. As sombras encorajavam a audácia. alinhados em pelotões de 30 unidades. falha de energia demorada de mais de uma hora. canta. amigo canta. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. ai povo.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente.

com a denúncia do número de vítimas da guerra. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. entre muitos citadinos divertidos. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. Combinaram o essencial da acção primeira. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. para garantir a segurança conspirativa da operação. e no rescaldo das cantigas.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. o Luís 84 . vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. Naquela tarde de Novembro de 1971. A companhia (quase) inteira. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. assumindo o compromisso. o João.

o Fausto e o Duarte. das salas. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. A sala dos cadetes é acolhedora. Todos estão em farda de trabalho. tão diversos daqueles para que foi concebido. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. feitas de pedra trabalhada. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. Sempre acontece quando os nervos apertam. As conversas giram à volta de temas banais. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. por um lado. polido o chão pela usura dos anos. constituindo um labirinto intrincado. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. estava unido na acção contra a guerra.Manuel. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. a timidez. dos refeitórios e das camaratas. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. com frades de hábito e penitência. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. mas a maioria são cadetes. 85 . ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. é urgente terminar a “tarefa”. enquanto outros. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. espalhados por várias mesas. pretextando uma guerra santa. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. o Manuel.

Um som agudo e estranho.. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada.. um local frio e terrível. o ouvido à escuta de passos perseguidores. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. “As instalações devem estar em boas condições. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. À frente de um séquito.. o desnorte nos caminhos desconhecidos. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima... Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. em pânico.” – pensava João. “Safa!”. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. longos e frios.. subir e descer escadas.. outros sons semelhantes. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. mal iluminado. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . nada. como um guincho. um desvio apertado na primeira bifurcação. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. um beco sem saída na desorientação dos sentidos.”. de porte elevado e cabelos brancos..subir alguns degraus. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.

centenas de formas em movimento. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. certamente devido a pesadelos também.habituando-se à escuridão percebem dezenas. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. Custara a pegar no sono. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. por detrás das lentes grossas. Companhia de Instrução está tudo calmo. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. excepto algumas respirações mais agitadas. sair do pesadelo. 87 . Na caserna pequena da 2ª. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. correr. são ratos. comandante da unidade. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. acordar no beliche superior inundado em suor. ninguém se atrevia a levantar a voz. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota.

denunciara a patifaria. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante.─ Tem de haver muito cuidado. foram coladas nos corredores do convento. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. não há nada para mim? Não pode ser.”. Por fim vieram três ou quatro cartas. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!.. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. num pátio interior mal iluminado. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente.. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. uns voltavam logo.. escondendo a timidez e uma pequena miopia. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. a minha namorada escreveu-me!. A acção tinha corrido muito bem. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. vulgares na época. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados.. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 .] já bastam! Não à guerra colonial!”. mas se alguém for apanhado com as vinhetas.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos.

“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. não se via vivalma no caminho. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. a norte.. João precipitara-se para o exterior com passo estugado.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. porque apesar do sistema aperrado. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. certamente algum “menino” a caminho da cidade. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. Andava e pensava para distrair a ansiedade. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. pela aproximação do ocaso.. havia excepções. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”.

─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. os dias eram cada vez mais pequenos.. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. embora arrefecesse a “sentidos vistos”. nas bandas da Malveira..sugerido aquele local. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. esquerdistas. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. “Não jures. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. Trago a senha para o contacto que combinámos. independentes. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. socialistas.). As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar.. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. em transição para 90 .. Boa sorte para a iniciativa. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem.. ─ Cuidado!. existe um ambiente geral muito favorável. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde.. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. bom para a recruta.

No miradouro não estava ninguém. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. pelo menos nas costas dos instrutores.o violeta. orgulhosos da classificação na prova de tiro. é sempre um momento angustiante. dizia-se. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. cada dia é sempre diferente. com um tempo desagradável. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. chuvoso e frio. * Durante a semana de campo. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. Não há dois pôr-do-sol iguais. esmerando a pontaria com o “olho director”. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. mesmo que seja só em treino. nos arredores de Torres Vedras. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores.

E. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. altos dignitários da Igreja..especialidades. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. enfim. afilhados. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM.. mas não permitia. o oficial do quadro 92 . a fina flor do nacionalismo. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. não! Não posso!. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. generais. iria passar por um mau bocado. etc. latifundiários. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. deputados da Assembleia Nacional. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. empresários. parentes. tinham um estatuto especial. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. a subversão aumenta!. como dizia o comandante da Legião Portuguesa.. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. porque precisava de carne para canhão. credores de favores. tentando safar os filhos.”. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. ─ Não. Eram filhos de boas famílias. Em requerimento ao Ministro da Defesa.. e muito menos a disparar.

sob pressão da intolerância militarista vigente. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. baixote e 93 . forçado pelo instrutor. normalmente sonolentas e ressacadas. foi despromovido para soldado.. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. só por milagre ninguém foi atingido. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. atire ! A tragédia estava eminente. e. à beira de um ataque de nervos. a arma começou a disparar. levantando e baixando a espingarda. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. de repente. ─ Eh.. Não servia para “oficial de guerra”. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo.permanente estava prestes a perder o “verniz”. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. O cadete gordo.

─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. “não jures camarada!”... ─ Ouviste? A barraca está armada. logo apareciam noutros locais. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.. nas portas.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. ─ Essa é boa. nas vitrines e até nas pautas. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 ... Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. No fundo da algibeira. “quero essa merda toda arrancada!”. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria.. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. ‘tás a coçá-los!. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. Boa!. ─ O quê. nas janelas. nas paredes lisas..empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. ─ Não jures camarada! Já disse!. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. ─ Ah! Pois. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto.

Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. A desorientação sobreveio. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. pela intimidação subsequente. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. a primordial agitação. O major. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . propositadamente. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. Tacteando a cola com os dedos. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente.. . para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo... Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. a coacção e a chantagem. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. . 95 . eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. a hierarquia estava convencida de ter anulado..! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras.

e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. Queria ver se fosses atirador como eu!. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Mas os corredores eram muitos.. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. com zonas mal iluminadas. Por este tempo. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. futuros oficiais do Exército Português.. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. até na sala do cadete: “. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento.. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis.. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. afixada em muitos sítios desusados. Providencialmente..─ O carago. pois o outro chuveiro estava avariado.. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!.

num quotidiano difícil. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. submetidos a feroz censura e controlo político. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . a rádio e a televisão. era um gritante e duro contraste. com particular destaque para o “Avante!”. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. um moço bem constituído. segundo a filosofia do velho Adílio. porque a terra era ruim. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos.guerra era debatida mais ou menos abertamente. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. sobretudo o rapaz. mas na “terra prometida”. aos solavancos. Os jornais. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. Junto aos hotéis de luxo. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos.

sempre generoso com os portugueses humildes. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. nalguns casos. nem feriados. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores.boné de pala “oficial”. numerosos. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. era menos “aquele” que entrava. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. numa época do início da década de 70. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. se fossem interessados e cordatos. Sobretudo se associassem ao 98 . ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. era o discurso oficial. com um ar de arrumador encartado. com poucas qualificações. empregados e operários. incluindo no campo desportivo. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. mal pagos. podiam chegar a cargos de chefia.

em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. ─ a resposta não tinha grande convicção. ─ Está a tirar Educação Física!. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. anda a concluir um curso superior. chefe de secção. 12 contos/mês. o engenheiro-sénior. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus.. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. para rezarem em comum. claro! Um resto de bom dia. 19 contos/mês. chefe de serviço.5 contos/mês.2 contos/mês.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”.. 99 . o operário especializado de horário geral. trate disso! ─ Claro. sem sobressaltos. 11. 25 contos/mês. 1. o empregado de escritório.8 a 2. minha senhora. 15 contos/mês. 18. 2. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. 4/5 contos/mês. Orava-se em acção de graças. o engenheiro-júnior. ─ Senhor director. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. minha senhora. a mulher operária têxtil. Nas vésperas da Revolução de Abril. senhor director. o agente técnico de engenharia. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja.5 a 3. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. por classes sociais. uns mais à frente e outros mais atrás. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. 14. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”.

. o seu filho sabe o que faz. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas..... prestes a terminar: ─ Alberta. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. por 100 . com o curso quase acabado. Entretanto fora chamado para a vida militar. só lhe faltava o estágio. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes.. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. Combine lá com o “ti” Fernando. mas o “tio” Fernando-pai!?. no Domingo? ─ Eu gostava. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. e de mais na tropa!. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. para o curso de oficiais milicianos. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. ─ Esteja descansada. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. hem! ─ Mas ir a Mafra. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. ó homem!. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. Mas não havia nada a fazer. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando.

num pobre mister por conta própria. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. amor . O carinho prodigalizado ao filho na infância. não é fácil a deslocação!. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. não morriam de amores pela situação. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. Gostava de assistir mas compreendo a situação. em alas amplas e espaçadas. preparando-se para o ritual mitificado. Depois. subsequente ao despedimento. iam formando segundo o que estava instruído. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. este ano precedido de 101 .melhores salários e condições de trabalho. e pela luta diária pela sobrevivência.. ─ Talvez seja melhor não irem. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. ─ Tu é que sabes. quando o emprego e o salário eram certos. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. Se queres ir vai tu e a tua nora. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. até que sobrevieram os “balões”. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada..

─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.. certamente sobre a ameaça de represálias. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. provavelmente os tais “pides”. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas.” ─ o alerta percorrera as casernas. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!...acontecimentos muito interessantes. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 .

. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. sou contra isso.. ouviu! Se não se explica 103 . Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. tinha agora um bode expiatório. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. não telefona para ninguém. .sistema sonoro. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República.. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel.. na Escola Prática de Infantaria de Mafra...“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor.

Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. etc. poucos. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. frutas.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. bolos. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua.. Nem era tarde. característicos da castrada burguesia nacional. acordada de madrugada. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. por vezes mesmo medíocre. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. copo na mão. ─ Dá-me licença!. agora disfarçado com aperitivos. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. no velho convento frio e austero. bebidas variadas. etc. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África.. saladas. perna de frango na outra. A instituição militar EPI. camarão. ficara à beira de um ataque de nervos. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. carnes frias e quentes. risos nervosos e traseiros espetados. acepipes. nem era cedo. muitos daqueles cadetes imberbes. e senhores engravatados a rigor. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. doces. Pavoneavam-se alguns. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. as mesas brilhavam de iguarias. de gastas pedras nos longos corredores. Desculpe.

! 105 . quando o cansaço afrouxasse a vigilância. ─ Sim.colonial!”. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja... Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. com pouca pinta de militar. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “...). farto de pivete a suor nem lá meteu a mão.. De facto não o vi . mais o “material sobrante”. ─ Boa noite! Por favor. o melhor era ficar para o fim. conheço. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. “Certamente estaria a arrancar!. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia... João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados.. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. Transportava o mesmo saco da chegada. Yota da Purificação” (. sim... o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria. a última barreira foi assim passada calmamente. numa última passagem sem retorno. Suspeitava-se haver revista à saída.

igualmente com ar distinto.. último a deixar o convento. Nada de grave! Lá informam-na melhor. 106 . As duas dirigiram-se para a porta de armas. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. ─ Obrigado! . há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!.─ É que já passaram todos.. estamos aqui à espera . ─ Olhe! O melhor é perguntar além... Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras... O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. seria noticiada no “Avante”... postada a alguma distância. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade.. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento... por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra.. no gabinete do oficial-dedia!. sinal distintivo da origem de classe. em Janeiro de 1972. ─ Mas . naquele Dezembro de 1971.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. imaginários adoradores pássaros. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. Animistas. de animais e da a Natureza.ÁFRICA. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. 108 . posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.

Melinde. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. canais de irrigação. Estes povos sedentários praticando a agricultura. a caminho da Índia. numa zona de ruínas ancestrais. no interior da Rodésia. cidadelas de pedra. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. a Tanzânia. forjas. socalcos à volta dos montes para a agricultura. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. enriquecidas pelo 109 . o Zimbabwé e parte de Moçambique. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. subentendia uma organização social e política evoluída. a Zâmbia. minas.Esta actividade artística. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. estradas. pouco antes da chegada dos portugueses. Quiloa e Mombaça. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. quando estes. sepulturas e pinturas rupestres. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala.

tráfego comercial com os países árabes e a Índia. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. contas. encontraram um comércio progressivo. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. com quem comerciavam há mais de um milénio. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. essências e faiança chinesa. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. cobre. vindos do Norte. que já utilizavam inclusivé a moeda. na pastorícia e na extracção mineira. com o 110 . situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. especiarias. estes em escala reduzida. feito através de numerosos intermediários “mouros”. marfim e escravos. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. trocando directamente tecidos. Organizadas em cidades-estado. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. da Índia e até do Extremo Oriente. faziam de entreposto com os reinos do interior. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. por ouro. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. com uma economia assente na agricultura. numa organização de tipo tribal-feudal. ferro.

Em 1513.. agente real de Sofala. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. queriam muito e depressa!. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. retrógrada e oportunista.”. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. levaram pouco tempo a desvanecer-se.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. pela sua ignorância e pela sua ganância.. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro.. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. Como todos os imperialistas.. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. Como um erro nunca vem só. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . Por orientação da Coroa. novas oportunidades de negócio. mas neste intento viriam a ser derrotados. Pedro Vaz de Soares. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias.

havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. no “Boeing” da Força Aérea. Quando a guerra colonial começou em 1964. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. Em 1561. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. embarcava-se à meia-noite. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. húmida. o mais alto 112 . e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. No início da década de 70.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. em Sena e em Tete. de Lisboa. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. quente. fresca. familiar. em 1498. estranha. no terminal militar de Figo Maduro. luminosa. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. nas margens do Zambeze.

O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. alto de estatura e seco de carnes. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis.. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. compunham um quadro de modernidade. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. ─ É a proclamada multirracialidade!. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos.. sempre eloquente nas afirmações. pendurados no exterior da rede da vedação. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. o sulista trigueiro e magro. A Beira era uma cidade moderna. tal como Lourenço Marques. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. moreno. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. entroncado e de estatura média. normalmente reservado. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. ─ desabafa o Eduardo.

olhando os jovens furriéis com ar arrogante. não atendeu logo à chamada. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. ─ Sim. mais novo. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. enquanto se retirava após comer o pêro. ─ O que estavas à espera?. ─ O jantar começa às sete.. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento.. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. quando ficaram sós.realidade. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . sem qualquer cumprimento. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. O criado negro andava numa fona.. que já ia avançado.. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. foi a primeira vez que lá fomos!. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. dava assim as “boas-vindas”. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. Chegaram atrasados ao jantar da messe.

pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. 115 .. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior.. ─ Se calhar. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista.. rapazes humildes e simples. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. no regresso a pé. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ─ Pois claro. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. Ouviste a resposta do “Furnas”?. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. faziam um excelente cozido à portuguesa.. Duplamente preocupado. diziam. Miguel. ─ Furriel. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. onde estavam os soldados aboletados.

gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. Dezenas de soldados e alguns graduados. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista... espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. É preciso ajudar.. por dentro.. a minha mãe viúva!. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. ─ Quanto mais tarde melhor. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. se saísse à tabela. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago.. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. é essa a intenção. à beira da linha de caminho de ferro.. mas a família. ─ Olha o que nos espera!. ─ Também pensei nisso. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. por dentro. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. preocupavam-se à volta de malas e sacos. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . disso não tenhas dúvidas. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado..

já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. na retaguarda. A viagem decorria na noite de sono. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. aguardando a ordem para embarcar. resfolgando. trum-trum”. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. Os militares seguiam nas carruagens do meio. trumtrum. Eram tropas frescas a caminho da guerra. Na noite de breu. onde se juntavam dezenas de negros. A velocidade aumentava. sem resposta. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. atarefadas com filhos às costas.carreira.. tinham um aspecto sumptuoso. puseram o longo combóio em marcha lenta. a marcha abranda. o coração salta: 117 . Duas máquinas a vapor. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. sobretudo mulheres de capulanas garridas.. à volta de sacos e trouxas. simpático no trato e já em segunda comissão. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. o combóio pára. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que.

Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. Lá fora não se vê vivalma. A manhã aparece com um Sol fulgurante. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!.. O cansaço vence a ansiedade. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. sonhando com a cama quente no lar distante. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade.. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. irão esquecer essa doce sensação. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. vai ser um enorme benefício para a economia da província. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. ninguém explica. Poucos dão pelo recomeço da viagem. bem vestido e curioso. embalados pelo andamento monocórdico da composição.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. formando esplendorosos contraluz. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. só lá mais para a frente!. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. o pessoal vai adormecendo... mais duas que em Portugal. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . é fresca a brisa que entra pela janela. Duas horas da madrugada.

os ingleses. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita.. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo.. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . onde reinava o odioso regime do “apartheid”. os americanos. o material de guerra é todo russo e chinês. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. A menção do grande país da África Austral. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. como depois foi baptizado. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. Abrindo caminho à força de espada. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. a Rodésia.─ A guerra é uma coisa terrível. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. a África do Sul?!.

espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. A coberto das suas armas de fogo. cobre. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. O génio individual que punham nas suas empresas.. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. 120 . na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. editada em 1960:. rigidamente autocráticos. comportam-se como malfeitores. ferro. como refere Basil Davidson. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. viriam a ditar a ruína. os seus métodos de governo. roído pelas guerras internas. Em 1607. a concessão de todas as minas de ouro. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa.. Por volta de 1667.. a coragem.notícias fantasiosas. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos.. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. chumbo e estanho no seu território. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. na obra já referida.

).. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era.. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. segundo a documentação histórica. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. quando esta faltou também lançaram-se 121 . os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir.. Os seus vizinhos do interior de língua banto. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita.. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. E o que fizeram afinal os portugueses. glorificados descobridores. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. foi. no primeiro século e meio de ocupação? . tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. ou do tipo negróide. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata.

o comboio não circularia mais de noite. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. a partir dali. Logo no reinicio. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. ─ Basil Davidson. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. manhã cedo. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. perceberam-se os cuidados no avanço. na obra já referida ─ . qual cabeçorra disforme.

. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. frio. ─ Ei! Sou do Barreiro!. ─ Vai bem. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador... vivemos num abrigo cavado naquela elevação. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama.. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. mas não se viam construções no horizonte visual. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”..? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”.. O calor era intenso. Cinco homens num destacamento. passando fome. mas o 123 . tudo na mesma! Vamos para. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. ─ Isto é um buraco medonho. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. calor.. onde em contrapartida.. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta.período em pleno campo inóspito. Do chão. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. como por encanto.

─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos.pior era à noite.. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. pá! Calma. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos.. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha.. ─ Então adeus! Boa sorte. Após uma longa curva feita lentamente.. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. endureciam os semblantes. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . com o medo de os irem “pegar à mão”. barbados de dois dias. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. fizemos a picagem logo de manhãzinha. venham cá eles fazê-la!. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ ‘Tou farto disto. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. pondo fim à conversa. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada.

─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. Esperavam pacientemente e não diziam nada. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. só então a ganilha animou. não barafustavam. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. esperavam somente. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. houve risos. muitas.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. não riam nem brincavam. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. ─ Não te preocupes. pensava que os comiam todos! Risada geral. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. O pessoal precisava de descomprimir. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. registando a chegada de dois “amigos do homem”. não pediam. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 .

mas ninguém estava sentado no chão. grandes e brilhantes nas crianças. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. estás a engatar-me!. ─ Aqui no comboio? Não pode ser.. Olhavam surpresos com olhos esquivos. Risonho e desmiolado. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. moço robusto e bem parecido. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. com divisas. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas.. com bancos curtos de ripas. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês..soldado Edmundo. amontoados entre trouxas. quando viram aparecer o 126 . entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra.. surgido do mato. O comboio era muito comprido. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. quando se abriram as portas de Abril. em Tete. As carruagens da frente eram muito velhas. onde dois ou três soldados disfarçaram. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. malas velhas e caixotes com galinhas.. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. ─ Verdade. apareceu risonho e agitado. ensebadas pelo uso..

entre árvores e arbustos por ali mais abundantes.grupo de furriéis.recomendava o capitão. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. a morteirada. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. a namorada. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . os irmãos. os pais. Afinal. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. a emboscada. homem novo. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. a mãe. a mina. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . persistente. maravilhando os olhos na beira-rio. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. Onde estarão a esta hora a esposa. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. a companheira. ─ Tem juízo.

aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. muito cedo. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. concitando olhares curiosos. parecemos discípulos de Fidel!.. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. um tenente-coronel que. sob a sua influência. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. para chegar à costa oriental. foi instituído o “Regime dos Prazos”. uma semana era passada. ciosamente guardada.exasperado. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. sujos de pó. 128 . ─ discorria o António Manuel. correndo energicamente para o vale que. tinha o seu problema resolvido como sempre. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. oportuno. Claro. ─ Assim com esta barba de três dias..

No começo do século XVII. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. Moçambique era um território arruinado. separado definitivamente da dependência da Índia. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. no Congresso de Viena. Moçambique e Brasil. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. dominada 129 . enxameou a colónia de deportados políticos.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. mas na Zambézia. com muito pouco êxito. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. A situação só animou nos meados do século dezassete. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. quando foi incrementado o tráfico de escravos. para a futura abolição da escravatura. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. formada por Angola. princípios do século XVIII. Cabo Verde. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. No final do século.

a ideia foi repudiada e não vingou. na Rodésia. ruas largas. As pequenas colónias no interior. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. cidade de passagem. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. pó vermelho e castanho. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). vindas do Sul. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). Mzila.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. Instalações 130 . Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. chefeguerreiro dos invasores zulus. pouca gente nas ruas. transformando num deserto essa vasta região”. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. casas brancas de estilo arabizado com terraços. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. conta-nos Bryant: “Em 1860.

alemães. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. muito calor. entre outros. é uma cidade sem espaços verdes. rodesianos. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. Concluiu o excelso expedicionário. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. ditando o desinteresse dos ingleses. Meio-dia. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo.. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. na língua nativa. por isso a Frelimo quer destruí-la!. no lugar de Cahora Bassa. Comprido caminho de água. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. outra vez a malfadada ração de combate. mesmo com o rio a seus pés.militares por todo o lado. sul-africanos. 131 . o Zambeze. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. onde viria a falecer com febres. ingleses. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. o Sol queima e há poucas sombras.

na defesa da antiga colónia. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. ao encontro do gigante em construção. ─ E se fosses à merda!. só cá venho safar o “coirão”.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada... percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. A via alcatroada era um luxo raro. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada.. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história.. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. “pró 132 . acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. A estrada continuava para o Songo. por isso a grande nação austral. e. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. O projecto hidroeléctrico quando terminado. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. possuidora do regime mais racista do continente africano. por máquinas da Engenharia Militar.

coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. só se ouviam os motores roucos em aceleração. a engenharia militar ainda ali não chegara. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. percorridos cerca de 120 quilómetros. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. Ao fim de quase três horas de viagem. a estrada acabava e começava a picada. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Em sentido contrário o trânsito rareava. Sousa. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. Estar na guerra aprende-se depressa. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista.concluía ainda o soldado-condutor. mas pouco ou nada se divisava. Soaram tiros longínquos. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. os camiões seguiam mais devagar. lentamente.galheiro”! A mata era densa. estávamos no reino da guerra. seria fácil montarem uma surpresa. incluindo algumas paragens para reagrupamento.

e só agora o António Manuel. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. poeirentos. com granadas e fieiras de balas à vista. ninguém se atrevia a abrir a boca. a conversa continua no bar. ninguém saí dos trilhos. correndo escuro e caudaloso. atreveu-se a responder timidamente: 134 . alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. * Estima: um posto de defesa na picada. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. e um deles. primeiro classificado. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. agora outros que dêem o coiro!”. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades.. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. soturnos. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. A alegria de uns era a apreensão de outros.silêncio. o veículo continuou a marcha devagar.. Os recém-chegados. construído em paliçada de troncos. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. alargada a alguns civis presentes. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. de nome Trindade. do qual se avistava o Zambeze. símbolos da tropa especial. “já cá estamos há muito tempo. num portento de força impressionante. A guerra é naturalmente o tema central. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. E a guerra ficava mais próxima. a lógica da campanha militar era.

Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António.. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia.. A todo poderosa PIDE/DGS!..─ Mas. ─ Ah! Cá como lá.. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu. ─ António? Que nome curioso! 135 .. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. ─ Quem não está connosco. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze.. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. pelos vistos. junto à fronteira com a Rodésia. e as populações! A acção psico. para os lados de Mucumbura. está contra nós! Vocês são novos aqui.

A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .5.

várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. Cabo Delgado e Niassa. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. com um ataque ao posto de Chai. na região de Mueda. Ilha de Moçambique). o comando das Forças Armadas portuguesas. 137 . era clara a incapacidade dos altos comandos militares. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Quelimane. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. esteve circunscrita aos distritos do norte. em 1968. Durante este período inicial. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. tinham fortes tradições independentistas. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. Sofala. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. Entre a surpresa e a desorientação. e os Macondes nos planaltos do Norte. Também o reino do Monomotapa no interior. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. Em resposta.

à época bispo de Vila Cabral. O ódio instala-se. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. na aldeia de António. Valverde e 138 . chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. controlada pelas tropas auxiliares africanas.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. tropas da Rodésia de Ian Smith. Nijs e John Paul. em Maio. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. em Abril de 1971. onde. reconhecidos por Portugal na ONU”. e os Direitos do Homem. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. uma companhia de “comandos”. Depois de descreverem em pormenor com datas. pouco escutadas no entanto. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. e dos padres anglicanos. para os aldeamentos cercados de arame farpado. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. locais e nomes. Trindade. Calado de seu nome. Em Setembro do mesmo ano. acusado de colaboracionismo. Em Novembro. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. Em Tete.

deveria estar a Igreja. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. costumes. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. corajosa e claramente... e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. Cabora Bassa Em Março de 1968. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. Nesta data foram expulsos de Moçambique. são os governantes políticos e militares de Portugal. raça.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. numa conferência no Reino Unido. (. onde iam de férias. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. sem qualquer ambiguidade. porém.. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . em 2 de Janeiro de 1972. devido à sua língua. cultura. são perseguidos. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”.. mentalidade e até filosofia. De hoje em diante.. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. sem julgamento ou culpa formada.. torturados e assassinados.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. Os africanos.) O povo de Moçambique. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. até Novembro de 1973.

milhão de colonos brancos. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. A empresa construtora Zamco. ingleses. vertidos no caldeirão da guerrilha que. No concreto. é um campo entrincheirado num meio hostil. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. etc. (alemães. que devia ser defendida a todo o custo. no dizer indígena.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. Estima e Chipera. Cahora Bassa. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. italianos. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. e para isso. rodeado por uma vedação de arame farpado. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. em Julho de 1968. a afirmar o desejo independentista. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. em 8 de Março de 1968. inteligentemente. assente nos aquartelamentos de Chicoa. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969.

numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. num só dia. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. As notícias chegavam em catadupa. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. embora os estragos não fossem de monta. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. a linha de caminho-de-ferro 141 . eis a nossa táctica. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. flagelações. com a ajuda da República Popular da China. constituía-se em forças irregulares. No dia 9 de Novembro de 1972. Chicoa. em Tete. minas. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. minas. minas! Fuga e reagrupamento. Depois atacou sucessivamente. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. emboscadas. apoio na população. 15 de Novembro de 72. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e.Moçambique. a Base Aérea nº 7. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. Furacungo. Fingué.

Assim se entretinham as forças portuguesas. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. uma tarefa que o comandante-chefe. cinzenta e castanha. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. Kaúlza de Arriaga. O pânico instala-se e. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. silenciosa e traiçoeira. 142 .que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. com algumas portas apenas. ao longo de 8 quilómetros. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. controladas e permanentemente patrulhadas. também assumira esse compromisso. com uma força desconhecida. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. A mão-de-obra rodesiana. e os técnicos sul-africanos e europeus. Kaúlza de Arriaga. e em 25 de Setembro de 1972. O comandante-chefe. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. Entretanto. no eixo Beira-Vila Pery. foi sabotada na região de Moatize. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. divisava-se o rio escuro e caudaloso. com raras excepções. pela primeira vez. Deste lado a vegetação era escassa. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". separando inexoravelmente as duas margens.

Foi há uns três anos. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. A água de um castanho terroso. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. mas mais acima houve um desastre terrível. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. ─ Aqui não. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. companheiro de 143 . A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. causando arrepios a viagem entre as duas margens. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. conta-se a meia voz. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. mecânico de armamento.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. nascida e crescida sob a protecção das tágides.

Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. aproximando-se da extremidade sem anteparo. descaiu para a frente a meio da viagem. e aumenta também a trepidação. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. por certo deficientemente escorado. Um camião “Fargo”. ajoujado de carga militar.formação do António Manuel. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. a jangada entra em estremeções. o camião desliza mais um 144 . * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. o alferes Baptista resolve intervir. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. onde a água era mais agitada.

permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. Sem comando não havia acção. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . Com um formidável estampido. ou porque não tinham meios de socorro. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. em desespero. com comando mesmo errado. a jangada porém. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. o abrandar fora fatal. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. a corda que prendia a viatura partiu-se. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. ficando suspensas no vazio. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. cinco ou seis homens. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. outros procuram nadar energicamente para a margem. no meio de uma gritaria medonha. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também.

* A tarde chegou ao fim. provocando o deslizamento da segunda viatura. que arrasta consigo mais alguns homens. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. um sono em vigília despertando ao menor ruído. Alguns nadadores atingem a margem. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. e 146 . mantimentos e munições. Por isso a trasfega não fora completada. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. Tudo se passou rapidamente.mais abaixo. numa operação cuidada e lenta. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra.Ao serão. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. soldados e nativos. na messe. Metade da Companhia tinha feito a travessia. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. mas os restantes corpos nunca apareceram. em poucos minutos. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. Ao todo. . o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. material de guerra. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. 101 soldados e graduados. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. era um sol diferente.

com malas. ─ contava um furriel operacional da companhia local. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. .. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. homens e armas. mesmo que cheire a gasóleo. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos.. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. o rio faz favor!. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor.. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. amigos. Parece que não!. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. Numa das primeiras viaturas.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. prestes a ser rendida ─ Sim. 147 . mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. são por vezes replicadas. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS.. aqui quando chove. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. Mais mais para montante.. os três amigos não se afastaram da zona do motor. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. bagagens. houve um acidente com muitos mortos. Se houver alguma coisa.. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar.

meu alferes. não-operacional mas com algum traquejo da vida. Na luminosidade da contraluz matinal. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. ─ Neste sítio não é provável. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. nem piar de pássaro nem som de animal. inquieto. No silêncio ensurdecedor.. peremptória. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. metálica na extremidade. com um timbre familiar. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. Calaram-se. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. ─ Mas. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. ─ Continuem a picar. embora ocultas pela folhagem densa.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos.* Reinava uma estranha calma na Natureza. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada.. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes.

propôs o empate. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa..... o negrume cerrado da noite africana. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. dois. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia.. Baumm!. Sierra . Trrrr. Mike. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. enche a noite quente de Verão. António Manuel. vestido a rigor de camuflado sarapintado... Alfa... ─ Parece estar a acontecer algo de grave. Bravo . embora nítido. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor... fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. era 149 .. Tango .. Sierra.. sem divisas e de lenço verde ao pescoço..” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. Trrrr.. mesmo jogado com pouca convicção. o parceiro das partidas escaquísticas. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.. Sierra.desde o destino final.. O batuque vai começar.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco.... Baumm!. Trrrr. três rebentamentos Baumm!. a guerra continua O som distante e abafado. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. Alfa. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa..

. e fazer o reconhecimento da zona.. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. * Manhã cedo. Os rebentamentos não cessavam. em Agosto. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder... ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. Baumm!. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. com uma experiência de oito meses.. vozes abafadas.. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. a cantina. ─ Foi assim.. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. a messe e a porta de armas. A 150 . aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. madrugada ainda. ─ A seguir somos nós!.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. iluminado por fraca luz interior. na noite anterior. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ).. Já há três dias que fazem sinais nos morros. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. Baumm!. os “turras” mandaram só umas morteiradas.

o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. ─ com a metáfora. concluira João. que ficara sem um pé.. Mas. nomeadamente o comandante. levantando-se desaustinadamente. esteve comigo na recruta em Mafra!. havia dois feridos graves. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. A fisionomia era-lhe familiar.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. cândido por feitio.. ─ Yota?... ─ Nada. Ao lado.. eludia o sobressalto... o alferes Yota.. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. o pelotão já partira. com ar de desaprovação.. João . Agora o sono cortado vencia a emoção. fazia uma 151 . eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém.. agora já cheirava a sangue. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. ─ acrescentava o Sousa. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. À hora do jantar chegou a terrível notícia. Ah! Aí está. ─ observava o António. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. a partir de Chicoa. À noite.

ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados.. No teatro de guerra. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. assumia a contradição. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. sofria a saudade da Pátria distante. embora algo sentimental. no interior de uma África estranha e quente.. parte maior das agruras da distância.. desde muito cedo.ideia diferente! ─ Sousa. Talvez mais cedo do que tarde!. ─ A realidade é tão chocante. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. onde deixara a esposa jovem. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. o 152 . o mais sulista do grupo. o trabalho na fábrica. a discussão prometia. como faz o Movimento de Libertação!. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado.. ─ o António Manuel nascera na beira-rio.. de estudos e vivência. violentados. dava-lhe uma consciência aguda da situação. Idealista. A História não pára e o Mundo avança. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. ─ A guerra colonial tem os dias contados. e estas crianças andrajosas e famintas!. quando elas começarem a “cantar”. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. Aos milicianos chantageiam com as férias. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. nas populações e nas nossas tropas..

tinham sido precedidos de foguetes luminosos. na dilacerante guerra de guerrilhas. ainda que disso nem todos dessem conta. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus.medo misturava-se com a revolta. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. O aparecimento de “very-lights”. de pele branca. * Havia um mês que ali estavam. temendo o perigo iminente. indiferente aos dramas dos homens. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. pois era sua a decisão táctica. que também ali se construía. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. A Natureza. tentando detectar qualquer indício identificador. ao fim da tarde era sinal de alerta. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. tal como ao mundo chegou. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. entre morros altos apertando a vista e a alma. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. em 1970 e 71. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. a luminosidade 153 . No local onde até há pouco tempo estivera o sol. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes.

em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. devido à forte influência da guerrilha na zona. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. Era assim no coração de África. Deixava o interior das instalações militares. torturados pela inclemência solar. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. ou de zinco. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. começaram a voltar às casernas. fora destruído e abandonado há alguns anos. Constava à boca pequena. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. como eram conhecidos na gíria militar. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante.quente impressionava ainda a retina. cobertas com telhas de fibrocimento. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. Pouco a pouco. 154 . O alarme soara falso. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos.

com corpos musculados e peles luzidias. Envenenado estava tão-só o ambiente.. dispersos entre brincadeiras ocasionais. Recentemente.. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. Ali não havia selvagens de tanga. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. por questão de segurança. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição.. um major mal conhecido e mal encarado. tão-pouco adolescentes. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. autorizara o batuque aos sábados. combinou-se uma visita à aldeia. remoendo as dúvidas e a desconfiança. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. para manter o ânimo das populações!. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. o homem macaco”. em grupo. trazia à memória os célebres filmes da juventude. A excepção eram as moças novas. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa).O novo comandante do batalhão recém-chegado. vestidas com capulanas de cores garridas. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. que na tropa não se podia abrir a boca!. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa.. da saga “Tarzan. Ao quarto fim-de-semana de estadia. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. Estavam em grupos. outra 155 . local mais calmo e “arejado”. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. nem havia setas envenenadas. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. para matar a fome.

. Porventura. a noite chegou mansamente. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. aquele era um clima muito seco. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. mais perto do Índico.profissão rendosa.. a de lacaio da administração colonial. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. com divisas. Afinal não tinham ficado para o batuque. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. eventualmente!?. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. rompendo o soluço. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. com menos humidade. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. Decerto clientes de “cuspo”. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. 156 . anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. ─ Talvez tenhas razão.

O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. ligados por atalhos ainda não memorizados. com uma única saída para a picada. dispersos e muito afastados. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. poucos. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. uma área enorme cercada de arame farpado. Na noite escura por caminhos esconsos. pelos vistos. bem no interior do istmo central moçambicano. É a primeira ronda de serviço. e. aprendido há poucos dias.E quem concordava? Muito poucos. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. o batuque ia começar na aldeia. patranhas e acção psicológica. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. e para sul até ao aldeamento. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . a alma aperta-se e os sentidos despertam. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. Desde essa data. Ao todo são oito postos de guarda. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. a guerra continuava. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. O aquartelamento é grande. daqueles.

tiro!?. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. acidentes ou fenómenos naquele local. não! Pois... Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. De repente a chuva 158 . Sousa olhava o tecto.. antes de desabar uma curta tromba de água. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. não! Na Guiné. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia... Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. não quis dar parte de fraco!. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. o sobressalto aperta-lhe o peito... pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. paciência!”.. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. ─ Pois. todos os acontecimentos. O coração acelera desordenado. eventos. reportavam à guerra. ─ Achas provável? Nunca constou!. João vai avançando de modo inseguro. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro.. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. Abafava-se no quarto completamente fechado.. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!.

coloridos em tons de prata e ouro. ─ Quem vem lá? Alto. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. esfumou-se na noite. o jovem militar. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. nenhum rumor distante. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. tão radicalmente como tinha começado.. 159 . rasgado a muitos. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. siderado. Nenhum som. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. A velha África das origens humanas. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado.. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. nenhuma claridade ofuscante. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. muitos quilómetros. com reflexos azulados e avermelhados. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos.”.parou. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. por miríades de riscos ziguezagueantes. no caminho do segundo posto de vigilância. Fundindo-se na terra. O receio esfumava-se. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua.

─ É muito bonita! Isto aqui não presta. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra.. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. Ah! É o furriel da secretaria. ponho-me para aqui a contar os raios!. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. ao longe.. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. Pregou-me um susto. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. meu furriel! Conhece? ─ Não.. ─ Aproxime-se para verificar!. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.. açoriano como a maioria daquele batalhão. apertavam como tenazes o coração dos homens. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.. * 160 . é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha.. E é espantoso. fugaz. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!...

O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. durante a manhã após o serviço de ronda. Valia o facto de ter combinado a compensação. certamente superior à poupança. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. o correio era o elemento existencial mais 161 . depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. suspeitosamente simpático. com o chefe da secretaria. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. e pronto! ─ Deixa lá. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. Gestão tropeira. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. com prejuízo dos alimentos perecíveis. justificas ao capitão. agora é só ensaio. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante.

Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. meneando a cabeça. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.. comandante de companhia. como iria ser o dia? 162 . “Pronto! Já estou feito! É comigo!.transcendente para aquela rapaziada. exibindo-se papéis. O centro de gravidade do corpo leve. A desconfiança suplantou a curiosidade. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM.. Após uma pequena entrevista no alpendre. mandadores sem lei. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!.”. Fora uma noite premonitória. num circulo nauseante de imponderabilidade. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar..

.6.. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?. 163 .

ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. um major que mal conhecia. depois do primeiro choque.. candidamente. isso vai afectar o moral dos homens. o amigo ao receber religiosamente o material. de G3 pronta.. nem uma explicação. mas ninguém tinha dito nada ao visado. percebendo que algo de 164 . Começava a ficar irritado. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. O comandante interino do Batalhão.. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Tinha até ordens para o algemar. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. nem um mandado. com modos de polícia. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas.. Nem mais uma palavra. Alguns camaradas observavam atónitos. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. amigo das ideias. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. ─ observava. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). o oficial alto e escuro.

. Até sempre.grave se passava. de que falava a mensagem. agora com uma cama vazia. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. trata-se de um indivíduo perigoso. está enganado! ─ “Meu tenente”. onde o dia-a-dia continuava tenso. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. em jeito de despedida.. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. Em Chipera.. Olhou-o com ar reprovativo. ao fim da tarde igual. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”... sem coragem para comentar na hora da despedida. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. empertigado. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!.. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. pelo despotismo do comando militarista. a calma em pessoa. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. se não se importa.

perturbantes e insidiosas. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. com um ar distinto no ambiente despojado. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. afirmando também a voz. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. A cela dos fundos da delegação. Horas depois..circulando subterrâneas. Por detrás da secretária da sua importância. Era um homem já 166 .. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. da delegação da PIDE/DGS em Tete. era compartilhada por um negro ainda jovem. o jovem alto e magro. No outro. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. da barba feita com lâmina inusitada.

estavam estendidos três colchões de espuma fina. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. ─ Fique nessa! Tem mais luz. ─ Sim.maduro. embora encorpado. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. sem qualquer divisória. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. Junto à parede contrária à porta de entrada. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. curtido pelo sol africano. Retomando a tarefa de limpeza do chão. rapaz ainda. senhô! Gosta de ver limpo. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. né! ─ respondeu o jovem corpulento. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. colocados a um canto. acha? 167 . rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. mostrando ser o mentor da cela. ─ Não tem mais tronco. Um mainato muito jovem. única abertura para o exterior. com um tom acastanhado na pele exposta. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. ─ Nhambo! Que tá fazendo.

furriel do Exército português ... com uma cor amarelo-alaranjada. que lhe tinham trazido há minutos.. quase fugaz. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . saindo a menear o rabo nutrido.. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. a cara redonda e luzidia. manipulada para retirar o pijama. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura.─ respondeu o miúdo a sorrir. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. na tarde quente e esplendorosa. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. num breve instante. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. deixava ver a farda recentemente despida. De vez em quando. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. que não deixava perceber o “fio da meada”. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. mas adivinhava-se uma bola magnífica.. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. ─ Eu sou fulano de tal. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. Aberta em cima da cama de circunstância. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. não seria conveniente. num trejeito efeminado: ─ Vá. para de novo pousar os olhos no chão. às voltas com uma mala preta de plástico.! ─ acrescentou.. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. resplandecente e implacável... e 168 . ─ Eu sou Silveira. ─ interrompeu a resposta.

não deu logo pela chegada do homem ainda novo. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. depois de confirmar a identidade. na direcção do mictório. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar.”. como recomendara a jovem esposa com carinho.. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos.. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. De súbito. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação... ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. ─ comentara João. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel.mais não disseram. acrescentou ─ venha comigo. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. lhe arranjara. desviando o olhar súbito. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. provavelmente!.

Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. mais do que a cabeça.. percebendo certamente ser transitório. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. é claro!. O coração. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. ─ Deixe estar. olhavam curiosos para aquele “luxo”. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”.. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras.. Os dois primitivos residentes da cela. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade.─ Chico. menos bem desenhadas do que era costume. e aos meus camaradas de tropa.. com indicação de posterior devolução. não é necessário. escreva só a morada de destino do telegrama. gosta de viver ao ar livre. ─ Como assim. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
171

conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

172

Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
173

alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
174

* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
175

furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

176

Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
177

. sim. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. activos e combatentes. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. ─ Também ouvi.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. Faltava uma bala no carregador. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. Talvez sejam mulheres. sobretudo brancos.... no Norte.. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. com a G3 caída ao lado. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. A inquietação não permitia apreciar 178 . Ansumé ficara arrasado. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. LOURENÇO MARQUES. desorientado. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto.. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. No ar perpassava um fluído etéreo. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete.

com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. no coração de África. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. 179 . Os “pides” não se tinham afastado um segundo.pormenorizadamente a paisagem. vigiada por dois agentes com cara-de-pau..” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. desde Tete. rumo à “Vivenda Algarve”.. O polícia dava mostras de nervosismo. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. a sede da PIDE/DGS. nem sempre concretizáveis. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. percebendo-se as sucessivas modificações da flora.. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. até à sede em Lourenço Marques... Talvez fosse. roubando o ângulo de visão e a serenidade. nem sempre concretizadas. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. ─ Temos de ir. onde a geografia era mais agreste.

pois não queria. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração.. Chipera Velha. que substituíram os dias de angústia da guerra. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. Mas a solidão e a insegurança presentes. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. nem asseios. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. não podia fraquejar. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. na confusão dos dias de angústia da prisão. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. em Tete. num canto. 180 . recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. onde estava enfiado há mês e meio. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. A cela com 2 x 4 metros. nem utensílios. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. protegida por uma rede metálica. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques.. Era todo o mobiliário existente. nada!.

. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”.. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. Tal. 181 .Acordou (quanto tempo depois?). não seria prudente.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. paralelo e gémeo. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. que reconheceria em qualquer parte do mundo. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). Reinava de novo o silêncio. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. até que o assobio reapareceu. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. porém. puxado entretanto. humanamente insuportáveis. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. Apurou o ouvido.Batendo as asas na noite calada. Voltou o silêncio profundo.

Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. encostadas precariamente. na Faculdade de Ciências. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa.eles comem tudo. o Braga. cantaram e recitaram. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. SARL. O anúncio de um título bem imaginado.. aquela noite de coragem e fervor antifascista. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. o Paredes. tocaram.!”. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. SARL.. à rua da Escola Politécnica. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. eles comem tudo. até à comoção das lágrimas. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. O Zeca. 182 . a dizer a sua magistral poesia: “SARL. que tinha a coragem de ter medo. o Ary.

um tenente-coronel. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. O novo comandante. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. tratando-se de uma nomeação interina. era como a maioria dos oficiais-generais.. O segundo. pá! O 183 . ─ Põe o barrete. era o terceiro. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos... O primeiro comandante. Andando de quartel em quartel. Em suma. meu comandante. pá?. fora reveladora da mentalidade militarista. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. em menos de quatro meses. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias.. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. em meados de Outubro. por ordem cronológica. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. de “guerra em guerra”. numa estranha itenerância nómada. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. mal tinham acabado de chegar.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa.

Para estes. noutras. Por isso. dois com a guarda pessoal. foi muito elogiada a “fachada”. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. com um soldado sem pés. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. e. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. do comandante-chefe. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. era o aspecto exterior do aquartelamento. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. até 184 . feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. as únicas preocupações são o barrete. general Kaúlza de Arriaga. quatro helicópteros. com três feridos graves como primeiras baixas. as meias a três quartos e a continência. Chiça!”. a trabalharem nas limpezas. “Filho da puta. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal.barrete é para usar. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). Interessante foi que a partir daquele acontecimento. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. procurando neste caso dividendos imediatos.

. Os objectivos em curso seriam cumpridos. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. Os militares cumpriam o seu papel. O tempo jogava a nosso favor. e quanto aos meios. para sul do rio Messalo. não passando. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. como estrategicamente se tinha proposto. em Manica e Sofala. Alguns. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. porém. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”.sucumbirem!?. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”.. a guerra não parava de evoluir. analisando com consciência a realidade conhecida. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. questionavam-se segundo o velho aforismo. no Niassa a actividade terrorista era residual. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. Aliás. Contraditoriamente. Deus me livre!”. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. apesar da 185 . a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. estavam cansados de tantas comissões. a barragem em breve seria um facto. agora o resto era com o poder político. Não acreditavam naquele optimismo todo. era uma questão de tempo e de meios. aliás.

Machava. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. por essa altura. na direcção da cidade da Beira. prisão da 186 . Não era grande coisa. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. chamado a Lisboa em Julho de 1973. megalómano. tomando os desejos por realidades. em Maio. em Março de 1973. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. em Maio de 1973. afinal. como todas as outras. O general ultranacionalista. No Norte. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. A guerrilha atacou Vila Gamito.fraqueza anunciada. e. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. atacou Estima com foguetes de 122 mm. em Junho. mas. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. não isenta de grandes contradições e inconsequências. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. e. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. em Abril. em Cabo Delgado.

causava alguma perplexidade. diálogos breves. falando de bons modos. ─ Coma. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. 187 . eu já volto quando terminar a ronda. Não obteve resposta. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente..PIDE/DGS em Lourenço Marques. portas abrindo-se e fechando-se. nem o jantar me trouxeram!. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. Não era o mesmo da chegada. bateu com força na porta de madeira. A conversa continuou durante alguns minutos.. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. Novembro de 1972. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor.. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. de bigode fino e voz nortenha. de estatura média. ─ Deixe estar. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. composto de muitos dramas solitários e isolados. O guarda prisional. constatando. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. magro. por enquanto deveria haver algum cuidado.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. a esta hora já não se pode fazer nada. obrigado! Não se incomode. Mas deixe estar. entre as quatro paredes caiadas. de tão inesperada. Mas. porventura maiores que o seu..

─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. trouxe bananas (a comida era péssima). querem ver que está feito com a PIDE?!. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. que se passará? ─ a questão 188 .. ─ no limiar da porta. ─ Cá estamos. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa....”. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo... ontem fiquei preocupado.. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos.Quando voltou a recolher o púcaro. como exigiam as regras. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde.. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. A seu tempo. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. esperando melhores dias!. Vagamente. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses.

permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. abafado e húmido.. trancados e isolados em pequenos espaços. De facto. durante toda a tarde e início da noite. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. Depois fez-se silêncio. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. anjo ou demónio?”. sem esperança..devia ser muito ignara. provocando uma enorme tensão. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. Vindo do fundo do corredor. 189 . como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. porém. ficava um calor insuportável. lamentoso. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. dou em doido!”. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. Em pouco tempo. porque o guarda não mostrou surpresa. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. ─ Vou ver o que se passa. logo abafadas por a porta ter sido fechada. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada.

e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. Olhando para o exterior. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. De resto. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. no quartel da Xefina! ─ E você. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. mais velho de aparência...Num momento de nostalgia e saudade.! ─ completava o furriel. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. muito abalado pela alimentação deficiente. aparecendo o guarda com um sorriso. a aguardar as visitas prometidas. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. por “actividades políticas”.. Quando já descria.. era nítido o desenho das palavras na contraluz. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. de costas na enxerga. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage.. na janela. a sonhar com a liberdade roubada.. acordado. 190 . era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. isto aqui não interessa a ninguém. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. Mesmo agora. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura.

procuraram transmitir algo. sorrindo. o pastor Manganhela. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate.. guarda Cerqueira. ─ Bom! Temos de acabar. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. com comiseração e espanto. ─ Não! Não! Você.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. não pudemos abusar da sorte. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. passando lestos pelos circunstantes. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. ─ Sim. o guarda prisional. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. prestando atenção. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. não fora o paradoxo de cores. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. ao 191 .. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. Os olhos faiscaram um fugaz terror. dir-se-ia uma acentuada palidez. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ficando sem expressão.

maduro de idade. À excepção do jovem branco. colocando-a por debaixo da enxerga. olhando sobranceiro os detidos. reteve por instantes o olhar no único branco. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. Instintivamente. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 .! Ao dizer isto. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. Ao percorrer em silêncio a sala. Autoritário e brusco.homem preto que acabava de cair abruptamente. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. ─ Já disse. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso.. a face de outro homem negro. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem.. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. com óculos verdes graduados. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. Os restantes presos ganharam alento. esticou no chão o corpo inerte. a fazer-se desentendido. fumando boquilha. eu trato disso!”. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. já bastante enrugadas.

senhor director. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.... nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. detido desde Junho de 1972. alto e de barriga algo proeminente. ─ Sim. Acompanhava directamente. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. ─ Bom sabe. suspensa no curso da resposta. o processo do pastor Zedequias Manganhela. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão.. cabelo grisalho. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política.. ─ ameaçava António Vaz. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. branco nas suíças. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. ─ Ora isso é o que iremos ver!. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. interrompida de forma abrupta. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. O director continuava a cirandar na pequena sala.. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . aparentando uns prováveis sessenta anos.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto.. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos.. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. ─ não pode completar a frase. precisa de ocupação!?. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique.

onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene.. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. de roupa...─ É a primeira vez que cá venho.. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. O “anjo da guarda”.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. quente e envolta na ligeira 194 . ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas. vindo do teatro de guerra. de alguns livros!. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”.. Cerqueira. Na minha mala. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava..

humilhações permanentes sobre um homem idoso. de colaboração com a Frelimo.neblina africana que aplacava a inclemência. Foram seis meses de interrogatórios. nunca provada. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. numa zona onde não havia guerra. ou um tenebroso 195 . o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. o guarda-fiscal. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. Suicídio. nunca se saberá. Zedequias Manganhela era um pastor. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. onde Manganhela permanecia em isolamento. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. terror psicológico. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. ameaças. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. e com grande prestígio na Europa. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). sevícias. devotado à sua missão. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. conforme a versão oficial. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável.

7. os seus mentores e os seus mandantes. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . foi um crime de morte matada. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano.assassinato? Em qualquer dos casos. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes.

tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. quiçá salvar. a 9 de Setembro de 1974. A 197 . que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. por ajudar.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. soube-se a dramática história da prisão. do guarda prisional Cerqueira. denunciado em meados de 1973. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. muitos presos políticos na cadeia da Machava.

fumos. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. ─ Não. chamas. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. na sua incansável solidariedade.. Quando o avião. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . Com a recusa da carta propositadamente escrita.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. num pesadelo de tiros. perseguições e sangue. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. Abriu os olhos. um DC-6 da TAP. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. com escala em Luanda. correrias. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. gritos.. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. agora com o futuro tão incerto. muito sangue!.

embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. Chico Cachavi. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. um tenebroso 199 . Tratava-se de uma área muito povoada. e. com muitos aldeamentos dispersos. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. quando procura o mato. Os aldeões são divididos em dois grupos. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. homens de um lado. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. Chawola e Juwau. Por volta das 14 horas surgem. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. como represália. e.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. mulheres e crianças do outro sentados no chão. num repente. distantes entre si poucos quilómetros. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. não levou a conclusões. próprio da época das chuvas. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”.

enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. distante cerca de quatro quilómetros. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. uma mulher grávida é esventrada. O sangue enlouquece a soldadagem. crianças chorando são mortas a pontapé. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. jovens donzelas são arrastadas para o mato. mutiladas e mortas. O rio Nyamtawatawa. Foram os padres daquela congregação. à entrada de Tete. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. fica juncado de cadáveres. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. para além do que pode entender a razão humana. perante a passividade de sargentos e oficiais. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola.torcionário do recrutamento provincial. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. que depois as diriam ao mundo. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. violadas. um afluente do Luenha. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. e. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. Pedro. A tropa completamente ensandecida. o aldeamento é completamente destruído. surpreendendo os habitantes incrédulos. que organizaram o primeiro relatório 200 . Juntaram depois as vítimas numa pilha. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados.

O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. coronel Videira. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. em Julho de 1973.sobre Chawola. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. traje alegre vestido para afugentar 201 . haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. aconteceu quando. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. nomeadamente ao comandante da ZOT. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. três dias depois dos acontecimentos. em 19/12/1972. e sobre Wiriyamu. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. ano e meio depois. finalmente. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. desumanizados e corrompidos até à medula.

com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. 202 . na natureza e no seu coração. onde acabara de ser identificado e fotografado. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. estava uma carrinha da PIDE/DGS.. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”.“maus olhados”. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. Da companheira não havia sinal. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. essa é uma matéria reservada. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer.. por isso está como está!.. o mundo está cheio de ateus. Lá em baixo à espera. Ficaram para o fim..! O agente. ─ Desculpe. depois de todos os passageiros terem saído. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. para iniciar uma nova e derradeira viagem.. Caxias.. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. agora tinha iniciado o interrogatório... em Caxias. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz.

outra campainha. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. Divisavam-se várias portas fechadas. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. Por detrás tem as minhas iniciais. Também estive na guerra do Ultramar. você é militar. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. interrompido por outra porta de ferro gradeada. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. o grande responsável.─ Fiz-lhe uma pergunta. apenas o corredor comprido e silencioso. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . as da minha esposa. ─ Ah! É verdade. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. e o meu tipo de sangue. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. o som metálico da lingueta da fechadura. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo.

─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. Por cima da mesa. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. ─ Ah! Não sabe!. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. propício à desmoralização psicológica do preso. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.um palmo e fazia uma cara-de-mau. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. em Mafra. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta.. por onde eram emitidos sons gravados. por vezes reduzido. uma lâmpada de filamento. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. ─ Não sei do que está a falar. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. isolado do mundo. fraca. gradeada.. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. em Dezembro de 1971?!. como depois se perceberia.. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. numa fisionomia naturalmente ruim. criando um ambiente soturno..

a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. faz favor! Eu não o ofendi. criando uma pressão terrível. Começava a tortura do sono. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. um aspecto de símio de pernas arqueadas. chamava-se o “moínho”. sobretudo na alta madrugada. polícia manhoso à maneira antiga. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. impedem o “fechamento” completo do cérebro. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. o preso é sempre o mesmo. por vezes o safanão.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. ─ Respeito o quê. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . tinha o aspecto de um funcionário subalterno. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. a tosse de catarro ou o pigarrear. para além da fracção de segundo.

o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. o preso desfalece instantaneamente. Àquela hora o sono apertava.. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir.. O sádico pide continua a sua nova táctica. silencioso. os ouvidos zunem ensurdecidos. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora.! O agente sentou-se estranhamente calado. O efeito é terrível... uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar.. o coração “salta do peito”.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. hem! O mundo desmorona-se. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. * 206 . instantaneamente parado.. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. para acordar logo de seguida em sobressalto. A partir daí a tortura é dupla. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara.

ter saído 207 . só traída por um pequeno esgar. Adelino Tinoco. ─ Não sei porque estou preso. gravata e sapatos reluzentes. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. depois do inspector superior da PIDE/DGS. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. O chefe-de-brigada chegado no séquito. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido.. preocupado com a aparência para infundir respeito. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão.. e por um ligeiro sorriso cínico. um porte de alto funcionário do Estado.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. mas não tinha a certeza. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. no Curso de Oficiais Milicianos. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. encarregou-se de clarificar a situação. não precisou de muito!.. quando mencionou o senhor doutor. nunca levantando a voz. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. o “senhor doutor”.. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna.

─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado... foi uma pessoa simpática e colaboradora.. não vale a pena perdermos tempo. O senhor é uma pessoa inteligente. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . ─ Vá. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?.. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. a não ser. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. ─ Violências... ─ o pide calmeirão. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. se não conta tudo não vai dormir hoje. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. não! Por favor.. vamos tratar como pessoas civilizadas..! ─ Ia dar o salto.

o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. Um pequeno prurido de remorsos. Calou-se.. o resto fiava mais fino. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. deixando-o ofegante. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. avisada. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração.. apesar das suas reticências. Estava muito calor em pleno Agosto.. prostrado de joelhos. Encontrei-o uma vez em Lisboa. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias.. fazia o papel legal. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. Estamos de visita! Não podem. perto de Vilar Formoso. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra.! A brigada da Guarda Fiscal. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação.. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . ─ Vá. por favor! ─ Mas!. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização.. um sujeito fulano de tal.

é claramente provocatória para impressionar o detido. A conversa em voz alta com o substituído no moinho.. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. penteadinho e bem vestido.. O “SENHOR INSPECTOR” Um. onde antes só estavam manchas indistintas. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. pequenos baixo-relevo estilizados. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir.. pinturas-quadros humanizados. 210 . ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. fale! ─ este é dos “pides maus”. em Mafra. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. todo encolhido. em Dezembro de 1971. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. são figuras de bichos.

ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. desdobrou uma folha de papel fininho e. ─ Desconheço esse assunto. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. é a primeira alucinação. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique.. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se.” ─ Esse canalha!. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 .. não vale a pena negar! Além disso. não resta alternativa. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes.. fazia precisamente um ano. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ali estava um exemplar do “Avante!”. surpreendentemente.. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. em Dezembro de 1971.

continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. já a madrugada ia alta. Passaram as horas. Adelino Tinoco. com um bafo acentuado de álcool. O pide pequeno e feio. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. que até os tinha formados em Psicologia.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. ─ A partir de agora fica sem cadeira. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Junto da sua cara. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. já disse! ─ sacudindo-o 212 . caminhando. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. aludira. Como uma mola. Até amanhã. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. como o torcionário-mor. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. Encostado às paredes foi caminhando. Silêncio! Não entrou ninguém. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. o que permitia ir calculando o tempo). bombista!”. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé.

fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. deu origem... Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. como de costume. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. de bom corte. com ar muito solene. e com um emblema na lapela. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. bem vestido num fato azul-esverdeado.violentamente. voltou as costas e desandou. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado.. o “superior” teve uma ligeira hesitação. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. não tem cara para levar uma bofetada!. alto e de meia idade.. no instante seguinte. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. Um “pide-bom”. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível.

eram mitigados. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. quatro dias. muito íntimo do director Silva Pais. as paredes deslocam-se.. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. no quarto dia consecutivo. Agora na década de 70. não tenho nada a ver com isso. ameaçador. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. desaparecem. de onde chega uma luz de sol 214 . a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. sob o mando directo de Salazar até 1968. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio..consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro.! Alucinações frequentes. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. com Marcelo Caetano no poder. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior.

semiaberta. não conseguia adormecer. única saída para a liberdade urgente.” Passa o tempo a olhar para o preso. mais um passo ansioso e .. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. com ar arrogante e meio imbecil.magnífica. além do oceano. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse.. O preso avança às cegas para um precipício. Ao fim de quatro dias de privação do sono. mentecapto.. acima do mundo. sobre o rio. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. só abre a boca para ditar ordens e regras. por isso bebeu só uns goles. O vigilante calou-se..” ─ Afaste-se da janela. onde a vida continua. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!.. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. Quem dera poder dormir um pouco!.. pouco antes da mudança de turno. Todas as noites.. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. O café da noite tinha um gosto esquisito. vinha um 215 .. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada.

juntava-se a confusão do tempo. obrigado. calha bem!.. apetecia-lhe conversar. Hoje é o primeiro dia de Inverno. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta.. Sabia bem aquela bebida quente. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. porque de repente. sem querer. vindo não sabia de onde. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. A falta de descanso do cérebro. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. não é? Sentia uma tremenda excitação. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim... embora os polícias garantissem haver aquecimento central.. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. daí as alucinações. conversar!. vamos é saber da sua disposição. fazia frio à noite. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho.. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. Mas isso não interessa.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. produzia a perda da noção tridimensional. ─ Interessa. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. quase euforia. 216 . não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada.

ninguém me mandou. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. também estive na guerra. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro.. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você.. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. foi uma força de expressão. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar.─ Não sei. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. contava todos os pecados. um homem católico.. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. nem o Deus em que não acredita. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor... ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. não respondeu logo. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. por onde vultos furtivos se escapavam. em Angola!?. ─ Você. não estou a par! Mas. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. fazem agitação contra a guerra. Já temos uma filha!. dizem-se pacifistas. e no entanto vão lá. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. sabe. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira..

─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes.. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. tantos que tinha alucinações tremendas.” martelava-lhe o cérebro doído. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. impedido de dormir há muitos dias. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. Por agora as dúvidas foram vencidas. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. não vou!... faz ultrapassar o período de fragilização. Nem o chefe-de-brigada.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio.. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. por estar para ali a falar com aquele carrasco. ninguém! Parecia terem esquecido o preso.

(inspector. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. comprometido. quase euforia. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 ... com a entrada triunfal do inseparável séquito. chefe-de-brigada. (mas ficaram quase todos bem na vida. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. Calou-se o agente de cara redonda. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. Passava largamente da meia-noite. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. ligados ao Partido Comunista. quando a revolução esmoreceu). SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. SEIS. Facto curioso. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. em Alcântara. segundo dizia. vamos buscá-la para esclarecer..Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. por não ter arranjado melhor!. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente.. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. anos mais tarde.

. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. Raiva. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. quase gritava num acesso de raiva e de desespero.. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 .. pela impotência perante a situação. Nascia um estranho sentimento novo. subindo pelo peito até ao cérebro. misto de revolta e de desalento. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. pavor. ─ Se os documentos não são seus. não posso!. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. manhas experimentadas da polícia.vontade.. a aprofundar a angústia dilacerante. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. Que dia seria hoje.

Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. já lhe disse! Se insiste. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. a investigação ia no “bom caminho”. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. Apetece-lhe vomitar. há muito perdera a perspectiva tridimensional.. desritmado. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. como você.papel sujo. sob constantes ameaças dos pides. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. A respiração pela boca torna-se ofegante. a tortura do sono ia continuar. eu logo lhes dizia!. os comunistas de merda. bate desamparado contra a parede. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. desfaço-o a pontapé!”. ─ Comigo. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. em pé horas e horas a fio. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. O detido já não liga às provocações. O preso caminha encostado às paredes. O inspector Tinoco retirara-se impante. entrado a meio da tarde. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. julgando-a mais distante. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta.. Sem cadeira para se sentar. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. o “vaidoso” e o “atarracado”.

Sim. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. a confusão. a família!. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!... Ah! Se pudesse saber que a companheira. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. Sentia-se verdadeiramente mal. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. firme e 222 . Estava sinceramente assustado. talvez. Muito tempo depois.. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça.. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. claro. já meio recuperado. é ainda um homem novo. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. mas com os pés cada vez mais inchados. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. gente de excepcional coragem. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. ─ Sofro do coração. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada... mas nem todos tinham essa fibra. hoje celebrados como heróis. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas.. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico.. não tem o traquejo dos “duros”. Não há milagre.

torcionário. com o ar mais angelical do mundo.. até porque na altura outros apoios foram recusados. criminoso. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.. poupando energias. Devido ao cansaço. fascista . nazi. Na tarde do 6º dia. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. Não tardou de facto. ─ Sofro do coração. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. chantagista. facínora. jamais olvidado. embora verdadeiramente ameaçada. hipócrita. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. tinha obtido do “seu” médico e amigo. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. canalha. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. o “senhor inspector”.determinada. carrasco. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. torturador requintado. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. ontem ao 223 . por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. ─ Então.

Já não conseguia levantar-se. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. a qualquer hora do dia ou da noite. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse.. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. A matilha de macabéus e hienas. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. : “Prenderam a minha companheira!”.serviço de Salazar e agora de Caetano... O torturado levanta-se em grande sobressalto. com esgares de riso. De repente. trago um médico comigo!. gritos de mulher!. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. ouvem-se gritos humanos lancinantes. o peito sufoca. a olhar interessado. “unha com carne” com o director Silva Pais. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 .. Este pensamento produz uma angústia terrível. Descalço. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. estava atrás do chefe pronta para saltar. e se for preciso. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. o coração desritmiza-se. não dizia nada. sem interferir. mas não estava”. Até o agente de serviço já não implicava. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. parecem-lhe gritos familiares. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram.

─ Não está a ouvir? São gritos. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. cinzento. Muitos. O pide de serviço. uma história de comunista já assumido. nas longas fases depressivas. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. 225 . abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. frio. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas.).. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. A PIDE aceitou a história.. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. contra o que era habitual. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. sem sol (ou ainda não terá nascido?). Ganhara forma no cérebro. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro.

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. Sobre estes causídicos. entre familiares e amigos. amigos. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. fazia-se de propósito em voz alta. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . corajosas. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. houve intervenções brilhantes. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. repartido por várias sessões. a título gracioso. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. Das primeiras.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. defenderam em tribunal. milhares de portugueses.

O próprio juiz o admoestou. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. anafado e exibicionista no fato de fantasia. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. quando foi apertado como testemunha de acusação. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. com o Carlos e o Pedro. mas falando em voz alta e explícita. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo.. durante sete dias e seis noites sem dormir. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. seco de carnes e cenho ruim. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas.. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. Riram de forma alarve. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. pelo doutor Manuel. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. As alegações iniciais e finais do réu. caso raro. 228 . fingindo ignorar o detido.

às 16. além do mais.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. Nos registos da prisão-sul de Caxias.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. a sentença constituíu uma pequena vitória.. com uma pena de prisão remível a multa. Costa Saraiva. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. ─ É fácil comprovar. há-de constar a minha entrada cerca das 20.. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. O fascismo.. com permissão do juiz. na sala de interrogatório!. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. era rancoroso. 229 . perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. Ao fim de três sessões. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. senhor doutor! Nos registos da TAP. a interromper o réu.. que lutavam pela liberdade.00h do dia 23 de Dezembro. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. ─ agora era o acusador público. proveniente da Beira. Embatucou o procurador do Ministério Público. onde eu nunca tinha estado antes.

Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. 230 . O apoio necessário vinha da família. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. tal era a acusação. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. Vicente Bolina. Eduardo Fernandes. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. algumas intervenções foram particularmente conseguidas.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. ficarão registadas para a posteridade. No mínimo. Zaida. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. Maia. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. José Caria. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. os antigos colegas Baptista. Suzel. Conduto e Pimenta. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Eugénio Torres. os amigos José Lucas. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Manuel Felizardo. Fernando Fragoso. Hélder e Ventura.

disfarçando a saudade. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados.. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. Desfazendo por fim o ar de admiração. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. aplacando a angústia e educando o espírito. vê logo o quartel. fraternal e dinâmico. organizado. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. a reflexão. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. que encheu o dia-a-dia. cidade dormitório às portas de Lisboa. ─ Bom dia. quase vazio no início da manhã. não há 231 . AMADORA. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. o estudo. em rápida expansão.

bordado a ouro e esperança de melhores dias. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. adivinhando a má nova e o destino ruim. situada numa magnífica frente para o rio. indicada no 232 . Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . o desemprego na grande indústria. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. indiferente aos dramas dos homens. Um cabo e um praça da GNR. na Amadora. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. o batente de ferro da casa térrea. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor.. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. mãe e madrasta. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica.. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1..que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. com caras de poucos amigos. o rio era um espelho plano e calmo.. ─ Deixe estar.

. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. oficial do SGE. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. ─ Processo disciplinar. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. era preocupante e inabitual. ─ Andamos à sua procura há oito dias. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. se tinha levantado para o receber.. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. tudo era diferente naquele homem de idade madura. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada.. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. O capitão Luís. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. já fui julgado e condenado em tribunal!?.. Não queremos criar problemas a ninguém. esse cretino!. ─ Sabe?!. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. é um cepo redondo com dois olhos. até aí conhecidos. a humanidade com que lidava com os 233 . gordinho como era da praxe. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército.. João ficara perplexo desde o primeiro encontro.gabinete do oficial-de-dia. ─ Entre.

─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. repetia-se ao princípio da manhã.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. embrulhado em “maus lençóis”. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. também com um problema militar complicado por razões políticas. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. 234 . A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. ─ Eu sei. formado em Direito. Todos os dias desde a primeira vez. deixava os interlocutores espantados. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. intuía com reprimida alegria na alma. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. gerava uma nova expectativa. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”...

furriel “estacionado”. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. tristezas e expectativas.. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio.. deu para partilhar mágoas e esperanças. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. 235 . ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. o que. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. para quem tinha um curso de engenharia. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. mas não se comia nada mal.Não tinha. ─ Parte do jardim em frente ao Comando.. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. Tomara eu!.. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. não constituía dificuldade. ando a pagar viagem a viagem!.

se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado.. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. então não vale a pena perder tempo.. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. deve ter sido complicado!?. ─ Bom! Ainda está muito quente. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido.. em Dezembro de 1971. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. redondo de aspecto e de alcunha. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. foram obtidas sob 236 .Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra..

como mandavam as regras tropeiras. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. ─ Quem não está. Certamente por isso. Por mais de uma vez. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. não é um transporte público. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. nos dias tal. se sentara num banco traseiro. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. Isso não pode recusar. dando como provadas as acusações. ─ Só mais um minuto. o processo-fantoche. senão tem faltas injustificadas. ─ Isto é um veículo militar. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. O horário é para cumprir. estivesse. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. já o mês de Julho ia avançado. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . sufocava-se no interior da camioneta. falta um companheiro de viagem. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. Era curioso.tortura. Não ficaria por aqui. Os documentos apresentados para assinatura. Depois chamo-o para assinar. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. porém. e tal.

mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. na secretaria dos “Adidos”. Acácio da Silva”. por determinação de S. Era um estado dentro do Estado. ruivo e sardento. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. ª. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. seco de carnes e de sorriso franco. o furriel miliciano. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas.o compasso de espera solicitado. Ex. pelo contrário. a PIDE/DGS. com a conivência do militarismo reaccionário. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. o “chefe da viatura”. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. é furriel! Qualquer coisa da Silva. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

239

* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
240

progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
241

─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

242

PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
243

entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
244

─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
245

ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. ─ Foi o bom e o bonito. e o moço de bigodão negro.. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. tentou esganá-la. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. mas o alentejano não se deu de achado. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. até já cortou os pulsos para se matar!. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou.. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. ─ A doença dele é outra.... a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. mostrava-se loquaz..─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. mas num domingo foi aí uma barraca. ─ O tipo está doido varrido. desatou aos pontapés às cadeiras. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então.. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. casado há pouco tempo e aqui preso!.. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. 246 .

nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia.─ Então a situação é grave. fundado em colaboracionismos vários. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. tem de se compreender. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. se tinha suicidado na cela. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. A notícia surgiu brutal. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . Contou consternado que o soldado “esgazeado”. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. sempre a caminho da enfermaria. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. ─ Pois sim. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

248

burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
249

ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
250

passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

251

Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
252

difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
253

─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

254

. 255 .da filhinha! Prometo que voltarei.. talvez mais cedo do que tarde!.

sacos. malas.A LENDA 9. velhos conhecidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. homens. 256 .

como gado para matadouro. Algures. Beliches a cinco de altura. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. O camião carregado de soldados. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo..No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira.. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!.. Encostado ao taipal. 257 . ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. que para aquele lado era de terra batida. gente deitada semi-nua. grupos barulhentos jogando às cartas. cruza-se outro camião com soldados a granel. o “canhão” esperava a carne fresca. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. sobre as preocupações com a mobilização iminente.).. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor.

por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. paleio animado e boina na mão. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. se não houver problemas com a saída!. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. moço alto e magro. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. rua abaixo direito ao centro da cidade. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. isto é um país em guerra. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. nossos soldados? ─ Desculpe.. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. que por perto ouvia a conversa... apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. ─ A vossa identificação. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. falta de hábito!.. ─ Se calhar vou contigo. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 .

.. tecendo laços de solidariedade circunstancial. mas sem fim à vista. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. também não a pedi nem a desejo! 259 .. lá foram saindo os magalas mal ataviados. algures naquela guerra oficialmente já ganha. entretanto voltou de avião para a metrópole!. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. é um exagero!. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. sem pés... “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. sem braços ou sem vida. ─ Isso deve ser história. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. não deve ser limpa há um ano!. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. ordens do sargento! Resmungando e refilando. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. pá! ─ Não te metas com esse gajo.de colocações e a escala de serviço.. Devem vir fardados.. ─ Há aí vassouras e pás. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. limparam.. ─ Conta-se haver um “gajo” rico.

as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras.. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. e a economia da região sobrevive do conflito. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. Os homens ocupam-se da máquina militar. ─ conversava-se à mesa do 260 . pelo contrário. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico... centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte.. assim se chamavam. que consome enormes recursos da Pátria distante. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. veículos militares correndo pelas ruas. com o sol nebulado e uma humidade elevada. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. elogiando o trabalho feito. característica daquela região. com uma eficácia muito baixa. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. Na conclusão da empreitada. pois a guerrilha não diminuiu. As vivendeiras.

falam mal o português.Café Central no fim da tarde quente. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. Também alguns milicianos trouxeram a família.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. Passam carros de boas marcas com condutor militar. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda.. Ganham uma bagatela.. Longe dos teatros de operações. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. Esta “chicalhada” irrita.. a fim de conhecer tanto quanto possível. mas têm comida certa: ─ António. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. a 261 . quase não há serviçais do género feminino. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba.. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. a história da terra moçambicana. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. Têm inúmeros criados pretos. não sabem ler nem escrever. o militarismo sufoca! .tal como sufocava o calor de Dezembro.

Nem vou. oriundo da burguesia alentejana. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. deixavam-no intranquilo. com bons conhecimentos.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. ao fim do dia. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui.. a prestar serviço nas “Informações Militares”. ─ insistia o jovem bem parecido. onde tudo era demasiado no estilo europeu. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos.. que não se vende em Portugal. protegidos pela lei do condicionamento industrial. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. e aos industriais de refrigerantes. A sua formação era claramente conservadora. Quando se saía da cidade. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. quartel-general da guerra. viam-se grandes embondeiros. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. à beira do milagre da “tomada 262 . conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. a perder de vista. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. Uma planície de cor castanho-avermelhada. e potenciando o vício pela bebida americana. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. porque Salazar não gosta muito dos americanos. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo.

263 . actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. Pelo que tenho visto. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. réplica da arquitectura europeia. revelando a comum ascendência asiática. Prestes a mudarem. entre silêncios e goles de mistura fresca.. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. mais depressa os homens que os montes. ─ Quando vim.de consciência”. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. muitos sacrifícios e muitas vidas. Não tardam aí melhores dias!.. deixam gente de pele escura. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. ainda que tal custasse muitas angústias. acreditava na justeza deste conflito. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. Para o mais distante. já tinha a chave. Automóveis de boas marcas. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. Ia para dois meses. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais.

por bastante comum. na Índia e até na China. chegavam famílias inteiras. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. com o infelizmente célebre. como na gíria é conhecida. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . se notava um grande sossego. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. a servirem como desabafos da alma. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. ─ Ah! Então era isso. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. o movimento à porta da mansão!. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. À noite.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais.. com as leituras ou as idas à biblioteca.. Estavam muitos orientais. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. no Golfo Pérsico. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. normalmente. O descontentamento emergia. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde.

E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . que encontraram sempre forte resistência. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. 265 ... nos princípios do século XVI. Datam do século XX. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. Esta é uma lenda do povo maconde. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. Durante a I Grande Guerra. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. nunca mais deixou de nos tratar mal”. começou a fazer-nos sofrer muito. Os pretos cuidaram dele até crescer. viviam na água. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. A etnia maconde. a que o povo das tatuagens e dentes limados.. habitando o Norte de Moçambique. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. em 1918. E desde então até hoje.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. possuía um carácter forte e indómito. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. internando-se no mato. “Os brancos antigamente eram peixes. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. e se ele o dizia.. entre os rios Lúrio e Rovuma. se furtava.

no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. Em 1895 e 96. em 1882. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. alunos sem escolas e sem professores. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. em 1878. No início do século XX.. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. de traficantes e de entidades coniventes. doentes sem hospitais.”Batalhões sem soldados. escolas sem alunos. confinando os limites do território moçambicano (e angolano).A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. da costa de Angola à costa de Moçambique. “de Angola à contra-costa”. em 1885. fronteira à ilha de 266 . no Sul. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. e de Capelo e Ivens. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. hospitais sem médicos!”. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. em 1889. Este último escreveu o livro “Mozambique”. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. A nova expedição de Serpa Pinto. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto..

Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. a Companhia de Moçambique. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. que iam completando a ocupação militar. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. e o cultivo do algodão e da borracha. ferro e ouro. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). numa série de campanhas iniciadas em 1908.. são finalmente controladas (oficialmente. Lúrio e o lago Niassa. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. criada em 1894. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. submissão das populações e pilhagem dos recursos. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. a Companhia do Niassa. com capitais metade ingleses e metade franceses. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. em 1879. procedendo à exploração mineira nesta área. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). com capital inglês e francês. a norte. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. criada em 1888.!).Moçambique.. entre os rios Rovuma.

entre pessoal militar e administrativo. foi criado o primeiro código do trabalho. Ou seja. Já a Companhia do Niassa. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. aumentando para 20 mil em 1926. Em 1878. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. na sua área a 268 . ao abrigo desta lei. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. muito depois da abolição oficial da escravatura. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. não se mobilizavam voluntariamente. conseguiam um tráfego internacional crescente. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. ao seu sustento próprio”.) está sujeito. sua sede. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”.país colonizador. mantém-se o regime de trabalho forçado. subindo para 2 mil no início do século XX. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. que funcionaram até 1942.. nunca teve grandes resultados. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. Por outro lado. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. fundamentalmente para Angola. No período de 1910 a 1923. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena..

o esforço português de colonização efectiva. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. em 1925. destinados à exportação: algodão. canade-açúcar. amendoim. tinha em 1925. segunda cidade. atinge 20 mil. Holanda) estava em declínio. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. sisal. É muito recente. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. No segundo quartel do século XX. assiste-se. oleaginosas (caju.penetração europeia era mínima. milho. a capital. 1500 habitantes (só 50 brancos!). particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. Bélgica. tinha 30 mil habitantes e a Beira. todavia. copra). chá. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. mesmo nas suas próprias terras! 269 . Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. França. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. criadas por decreto obrigatório. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. e nunca foram construídas vias férreas. Alemanha. já do século XX. no Centro e no Sul do território. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. Porto Amélia. mandioca. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”.

cultivava 45% da produção algodoeira total. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. em 1945. originariamente para a exploração das minas de Moatize. do Niassa e de Moçambique. Sena Sugar States. que assim funcionam como mercado protector. Companhia de Algodões de Moçambique. e em particular com o capital britânico. pertencente ao grupo Champallimaud. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. Inglaterra e União Sul Africana. que cessaram a actividade por volta de 1942. concessão feita a capitais luxemburgueses. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. Presente desde há muito. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. criada em 1921 com capitais ingleses. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. a que se 270 .Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. Curiosamente. No caso da exportação de algodão. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. constituída em 1948 com capital luso-belga. a mais importante açucareira da colónia. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. perícia.. Além das referidas Companhias do Zambeze. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. fundamentalmente para Portugal..

O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria.“No meio das convulsões presentes. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. irmandade dos povos que. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. incluindo: 400 mil emigrantes. também presente na indústria dos óleos.. 520 mil contratados do algodão. se auxiliam. desmentida desde 271 . o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores.associaria o grupo Melo. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã.. metade do total. se cultivam e se elevam. etc.. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. sejam quais forem as suas diferenciações. em 1943. Em complemento. no período áureo do chamado Estado Novo: .

como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. Da mesma forma.6 milhões. 1. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. organizadas em ensino primário e liceal. no século XVIII. ou seja. à data dos inícios da guerra de libertação. Todavia. dez em 1825. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. asiáticos e “assimilados”. em 1950. em decréscimo) num universo de 6. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . ano da publicação do Acto Colonial. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. com a política de “fomento colonial”. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. em 1960.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). e as escolas elementares das missões católicas. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. espalhados ao longo da costa moçambicana. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. três ou quatro nos finais do século XIX. traficando em escravos.5%).sempre pela escassíssima presença portuguesa. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930.

reflectindo a miséria da missão colonizadora. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. Não admira pois que em 1960. 1970). subjectivamente.território colonial. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. fomentando o espírito nacionalista latente. padres de Burgos. realizam então um trabalho novo de apoio às populações.. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. Por este tempo.. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE.. educar. ao arrepio do ensino do Português. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias.. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. 95% da população africana se encontrasse na 273 . Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. nacionalizar e civilizar a população nativa”. sobretudo depois da II Guerra Mundial. padres de Verona. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. confluindo no desejo independentista..). etc. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? .

E será este o seu papel fundamental daqui para a frente.. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. o António.. o Fausto. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. o Melo. o Muradali. o Santos. os Casimiro. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. 274 . ). SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. o Ivo. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). Precisas de te distrair! O Carlos. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. A colónia funcionou até 1960. ok?!. o Monteiro. a Lurdes. como na afirmação do Presidente da República. A humilhação permanente da despromoção. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias.. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. quando começar a luta de libertação nacional. Craveiro Lopes.. em 1956. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. são gente boa. a Lena. o Castro.

─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. é mais uma questão de integridade. por isso te despromoveram e te castigaram. ─ questionava a esposa. este tipo é incrível. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. Ciclo do COM. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. atravessado. arrostando sozinho as penas da insubmissão. estava um negro deitado na estrada. muito apertado pela PIDE em Caxias. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. 275 . Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. como morto. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. que até nem foi extraordinária. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda.. ─ Não é tanto uma questão de coragem.... A seguir a uma curva. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. entretanto a revolução. sempre muito sensível. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa.

) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. (. O mais custoso é a separação. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. tu ensinaste-me a viver. O tempo não pára.. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. cada vez maiores. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar.. mas nós havemos de vencer haja o que houver.. se estivessem aqui comigo!. a minha luz. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. sim! Com dezoito meses. me dá vida. carregada pela angústia da separação física. felizmente. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem.. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. Estão bem. por isso tu és a minha vida. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz.. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. De vez em quando vou tendo notícias.

. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. Nós esperamos por ti. o amor constrói-se também com sofrimento. Como disse um grande poeta. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. durante quase seis meses. O “carocha” quebrou o transe emocional. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. o casal ainda não tinha filhos. a nossa ligação temse fortalecido...) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”.. que faz amanhã 18 meses.. (. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . Por outro lado. e agora?. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. diz o nosso fruto pequenino.criaram. amor da minha vida”. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. não sei se aguentaria. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova.. ─ uma carga de trabalhos.

. fora apresentado como Ivo. Juntamente com outros dirigentes estudantis. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. à entrada. onde vinha em luto familiar. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. desassombradamente.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. que há pouco. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. e de sectores ligados ao general Spínola. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. foi bastante mais João. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. também alferes no Q. as de jovens oficiais do quadro. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. também ex-dirigente associativo. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. ─ Um movimento autêntico. em Outubro passado.. alto e bem parecido. no início da década de 70. era um jovem mulato.G. genuíno. pelo parente morto em exercício militar. fora compulsivamente incorporado. natural da cidade-quartel-general. ou mais uma tentativa de “putch” militar.G. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q.

─ Como sabem. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. que não renegavam. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . o mulato quase formado em Medicina. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. que fazia a interface entre muita gente. trazendo e levando notícias e materiais. chegando e partindo constantemente. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. Se isto dura mais uns meses. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. falava no assunto tabu. para ajudar a acabar com isto. alimentando a célula da resistência em Moçambique. A casa de família da classe média. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. Fixados há muito em Nampula. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado.

─ Eles sabem muito bem qual é a situação. ─ o jovem Melo. mostrara uma insuspeita clarividência.. mas creio que já não têm tempo!.. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. oriundo de famílias militares. O julgamento do 280 . que venha por bem! ─ Por cá. mas se é contra o regime.. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo.. muito simpática e delicada. também dirigente académico perseguido. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. Tenho a convicção que o fim se aproxima.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!.. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. nos quartéis. ─ a senhora de Casimiro. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. concitou a atenção dos presentes.. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. ─ A própria igreja de Moçambique. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. num fim de tarde africano.. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!.. em plena época quente no Hemisfério Sul. nas escolas!. depois do fracasso das operações no Norte. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. assume-se agora do lado dos oprimidos. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. ─ Talvez não haja tempo para isso..

parte integrante da máquina colonial. uma voz clara que 281 . nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos).padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. no curso do século XX. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. prevendo e prevenindo o futuro. é paradigmático do papel da igreja católica em África. Depois da concordata de 1940. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. Sebastião Soares de Resende. terra de esperança. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. assumia-se de forma muito mais contraditória. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. num contexto de declínio do colonialismo. Completa esta imagem do século XVIII. o ambiente ganhava optimismo. por orientação do Vaticano.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
282

Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
283

Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

284

Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

285

10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

286

ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
287

já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
288

num “Aviso” da Marinha de Guerra. imaculada. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante.do oceano de águas escuras e algo agitadas. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. como gostavam de dizer. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”.30h. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. tinha uma areia fina de tacto agradável. ainda acreditavam. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. a meio caminho da cidade portuária. A praia das “Chocas”. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. A partida é às 20. aqui e acolá. Agora na sua senda. duas dezenas de soldados. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. os colonos emigrados. aparentemente descurando o futuro. quase escrava. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. Na conjuntura actual. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. de medusas da “Cruz de Cristo”. Percorridos em visita. cada vez menos. nada de atrasos!”. rumo ao Norte. espraiando-se levemente na areia branca. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. a praia do “Relamzapo”. negros na maior parte. e. semeada de pedaços de algas escuras. agarrado às vantagens do passado. com “cabrinhas” de espuma branca. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico.

Caíra a noite. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques.. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo.. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. estivemos a conversar em casa de uns amigos. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. logo me contas o resto da história. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. também vou?. impecavelmente fardado. é melhor não te verem por 290 . o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora.bigode sobranceiro. Tinha razão o Ivo. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. Ele contar-vos-á os pormenores.. ao jantar. ─ Há poucos dias estava óptimo. branco. um jovem alferes moçambicano. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto.. Num jipe oficial. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. Marcelo. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. Tratem-no como se fosse um de nós. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando.

perto. ─ Olha quem ele é!. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. à saída. instruiu o condutor de serviço: 291 . Antes. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. de camuflado... ex-dirigente estudantil. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. em serviço à pista. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. já eram velhos amigos. com o furriel “recepcionista”. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes.

─ Bom! Há por aí buracos bem piores. único utente até hoje! Ao longe. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. a rasar a copa das árvores. desde Porto Amélia. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. para onde vai o professor. Verdes e impenetráveis.. Diferente. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. pintadas de branco. Do avião. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. parecia ser gente “importante”. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. a poente. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. num vale em depressão. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. bem vestidos ao modo africano.. com telhados de fibrocimento... ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. arrasando os nervos. era uma zona de casas. que passava rapidamente. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom.

─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro.. de ataques com foguetes de 122mm?. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. de contornos envoltos em bruma. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação.. interpelou-os: ─ Meu furriel. de madrugada. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. Mais distante. ─ Contava-se. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. em Porto Amélia. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. até se diluírem no horizonte. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. 293 .adiante. destoava do verde constante da paisagem. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. ou talvez mesmo de há muitos dias. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno.

Em tempo de Equinócio. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. sem gosto. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. a recolha da sopa numa lata de folha. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. em fila. porventura. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . Por instantes. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. sem higiene. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. ao calor escaldante do meio-dia.Fim de tarde ameno. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. confundindo-se à distância com a neblina circundante. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. Ali na África Setentrional. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. sem vontade.

da personagem mal conhecida por recém-chegada. Mais distantes. falso alarme. a miséria do rancho. A respiração suspende-se por segundos. Novamente o mundo sem sons. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. despejada a eito. projéctil. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. e o manto escuro caindo sobre o lago. a angústia do afastamento familiar. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. o medo da guerra. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. Mina. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. caçadores nativos.da pátria. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. em cenas de caça na terra de ninguém. minas anti-pessoal. encosta abaixo. do outro lado do rio. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. crocodilos. o nosso direito e o nosso interesse. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. É Naschinguyeia. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . em cujas margens coexistem por vezes. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. ataque? Nada.

belgas. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. depois na Guiné-Bissau. transferindo-se para Dar-es-Salaam. o mito da defesa do mundo ocidental. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. francesas. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. Uma contínua e continuada mistificação. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. em 1964.impérios asiáticos. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. em véspera da 296 .A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. com mais de 50 mortos. em Junho de 1960. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. piscando o olho aos americanos e à NATO. afogou as pretensões num banho de sangue. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. primeiro em Angola. um ex-ministro de Salazar. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. Franco Nogueira. em 1961. no Tanganica. holandesas. em Abril de 1961. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. em 1963 e por último em Moçambique. quando as ex-colónias inglesas. acediam à independência.

Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. No interior de Tete. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. Damão e Diu. segundo os próprios. foi criada a UNAMI . a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. Como nos restantes casos. da 1ª. começando a derrocada do império colonial português. tratava-se de um movimento heterogéneo.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). com mais ou menos expressão.União Nacional de Moçambique Independente. A realização em Marrocos. em inícios de 1961. independente desde 1958. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. no Quénia. moçambicanos da etnia maconde. No final desse ano. em Maio de 1961. com diferentes sensibilidades e perspectivas. em 19 de Dezembro de 1961. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. Marcelino dos Santos e Uria Simango. futuro grande estratega militar da luta de 297 . Em Nairobi. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane.

de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. unificado a partir do 1º. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. O conflito iniciou-se em 1964. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. bispo de Vila Cabral. com um ataque ao posto militar de Chai. Congresso em Setembro de 1962. finalmente. pelas tropas em acções de represália. Ao fim de quase 500 anos. e no vizinho distrito de Niassa. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. Após 298 . * Eduardo Mondlane.libertação: Samora Machel. capital do Niassa. primeiro presidente da Frelimo. em 1971. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. simultaneamente em Cabo Delgado. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique.

Leo Millas. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. a Frelimo teve um início de vida agitado. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. seguiu Samora Moisés Machel. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE.breve passagem por Lisboa. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. Instalada em Dar-es-Salaam. Joaquim Chissano. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. que casara com uma americana branca. Eduardo Mondlane. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. um período de grande vitalidade da Frelimo. iniciando com Marcelino dos Santos. Tinha chegado a Dar em 1963. entre outros. Professor na Universidade de Siracusa. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. só em Março de 1963 se radicou em Dar. nomeadamente Julius Nyerere. Por essa época. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Pascoal Mocumbi. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. capital do Tanganica. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. no extremo nordeste de Cabo Delgado. após uma espectacular deserção. em risco de ser preso pela PIDE. Janette. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. moçambicano de origem 299 . o tenente Jacinto Veloso das FAP. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. em Março de 1964.

A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. O seu líder tribal mais carismático. Lázaro Nkavandame. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. Mondlane convidou Helder Martins. em Fevereiro 300 . outro moçambicano branco. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. em Setembro de 1964. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. de passagem por Argel em Março de 1963. comum na região setentrional africana. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. O seu presidente Banda. para se juntar à Frelimo. Mais tarde em 1965. a funcionar na capital argelina. Também por esse tempo.branca a juntar-se ao movimento. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. Perseguido e preso pela PIDE. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato.

No mês de Fevereiro de 1965. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Desde o primeiro ataque a Mueda. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. onde reza a lenda. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. conta a história do movimento de libertação. a luta alargou-se rapidamente. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. por não terem armamento pesado). Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. a 301 . devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. base da alimentação. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos).

Foram então nomeados. num Moçambique livre e independente. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. ─ Independência de Moçambique. total e completa. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. e à exemplar democracia americana. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. que garante a sua unidade interna. EUA e URSS. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos.

Salazar fazendo jogo duplo.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. a sul. em Moçambique. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. uma nova frente na região de Tete. decretando sanções económicas e políticas. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. em 1967. onde o regime do “apartheid”. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. Em Abril de 1966. na Rodésia. na Namíbia. Neste contexto. em Moçambique. 303 . e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. veio complicar o xadrez político na África Meridional. É a resposta às forças portuguesas que. ZANU e ZAPU. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. em Novembro de 1965. condenada internacionalmente.

Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. no célebre campo de Naschingwea. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. Kingwa. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. passando a partir de 1966. Em Fevereiro de 1968. Mtwara. o padre católico negro Mateus Gwandgere. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio.Na região de Cabo Delgado. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. Viveu-se à época deste congresso. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. O movimento moçambicano está já então bem organizado. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. (ganham dezasseis contos por mês. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. enquanto um soldado ganham um!). alvo por vezes de assaltos surpresa.

os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente.). um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. E foi a PIDE. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Em Portugal... dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. em Dar-es-Salaam. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. Namíbia. são um imenso caldeirão prestes a entornar. sem sentido histórico e sem significado real. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. Em Fevereiro de 1969. Em visita às colónias em Abril de 1969. onde vivia com a mulher e três filhos menores. As palavras só têm significado para os 305 . a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Moçambique. África do Sul. sem um claro vencedor.

ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. respectivamente. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. O movimento de libertação está mais forte. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. sacrifícios extremos. morte. custou esta 306 . vítima de uma desmesurada ambição pessoal. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. A história e o tempo jogam a seu favor. coeso e organizado. é eleito presidente Samora Moisés Machel. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. em Maio de 1970. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). para Angola e Moçambique. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. em Moçambique. para comandante-chefe. um militarista ultrareaccionário. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. No dia 1 de Julho de 1970. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). e. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. sangue. um dos fundadores.

desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. dinâmica. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. de centenas de estropiados. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. 307 . também houve muitas vitórias. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. na acepção militarista. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. Praticando o extermínio por onde passava. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. muitas apreensões de armas. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. pomposamente exibidas na RTP. milhares de combatentes. bem organizada e com uma forte retaguarda. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul.

Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. O conflito colonial em Moçambique. diria outro retinto situacionista. 308 . ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade).. a fingir de refeitório. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. Aguardavam os restos garantidos da refeição.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. crime (milhares de mortos civis e militares). finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. prometendo acabar com o “terrorismo”. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. Silva Cunha. montada debaixo do grande embondeiro. o ministro do Ultramar. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. ficou-se pelo quilómetro vinte!..). trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. Como resposta. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”).

─ Se quiseres ele trata-te da roupa. Alguns já tinham comido sopa do rancho. eram raros os garotos vindos do lado maconde. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. que também está de partida. sinhô! ─ desviou a cara.. Como te chamas? ─ João. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote.. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. ─ Então não conheces a história? O pai deste.. precisam de ajuda!. outros nada.. Lava. 309 . ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. sobretudo os da “fofoca”. de carapinha escura. ─ Mas é tão pequeno ainda!?... oito ou nove anos. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. com as suas tatuagens características.entretidos em brincadeiras de ocasião. o pai morreu na guerra. cinco anos. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. dez escudos por mês! Vive com a mãe. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado.. passa a ferro e não leva caro. Quatro. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. Vinham quase todos da aldeia macua. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. ─ E o pai?. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel..

transportado às costas como era uso. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. radiante na sua prometida função de cicerone. com telhado de colmo como as outras... mas parece ser ela a não querer ir! 310 . caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. ─ Pois é. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama.─ Curioso!. aflito com o rumo do negócio. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. consta que ele é casado na metrópole.. mas com paredes rectangulares de madeira. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”.. repuxada pelo filho mais pequeno. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe.. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. que está nos GE´S. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. ─ É a Teresa! Não te dizia!. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. de forma menos tradicional.

onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. mas achou prudente não se manifestar. sempre a gritar e a gesticular. Gritava de modo incompreensível à distância. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. com um fardamento esquisito. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. em terras de mistério e desgraça. em genuíno desabafo de revolta. só perturbada pela desgraça dos homens. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. calças pretas. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. Já escondido. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. na África sedenta de liberdade. magro. a metrópole era Portugal. ou porventura devido à língua entaramelada. ─ O furriel tem andado desorientado. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor.João estava tentado a corrigir o vocabulário. qual dono de escrava. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”.

igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. mas nenhum queixume. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.timorato o rapaz de estatura baixa. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. 312 . já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!.. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. onde este tipo de assuntos era mais propício. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. Os homens deviam estar a descansar da guerra. ─ O homem está com ciúmes. O “negócio” era do lado da aldeia macua. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. obrigado! Tenho outras preocupações. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. Notava-se pouca actividade. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. cor amarelenta e barba mal escanhoada. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. visivelmente amedrontado.. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. cercado de arame farpado e minas. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas.

. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida.. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. como degradante era todo o ambiente da guerra. onde já anoitecera. a sua comissão fora penalizada em três anos. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. A frase soava ordinária. e por isso hesitou 313 . O cabo Carlos. ─ Logo se verá. não há pressa. já os tinha mencionado. Nas circunstâncias. Só não sabia. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. Se é que essa seria a “estória”. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. mas a conversa deslizava para um campo perigoso.─ Há lá velhotes porreiros. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. ─ Porque se sujeitará Teresa. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. ocorreu à imaginação do soldado castigado. não seria muito prudente.

qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. sobretudo. criava um estado de espírito muito negativo. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona.calado e pensativo. era que de há anos àquela parte. à enorme angústia pelos mortos. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. caramba. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. raramente encontravam alguém da guerrilha. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. 314 . na perspectiva de descerem para Sul. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. os homens estão muito desgastados. ao fim de um ano de “trolha”. a raiar a exasperação e a revolta. somada à saturação de sucessivas saídas e. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. gerava uma enorme frustração que. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. ─ Isto é uma guerra. A hipótese de não rodarem.

Raimundo Pachinwepa. por um comando supremo todo poderoso. Em contrapartida. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Bonifácio Gruveta. Armando Panguene. entre outros. militarista e reaccionário. sob o comando supremo de Samora Machel. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. Osvaldo Tazane. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. O movimento nacionalista. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). a relativamente inepta tradição colonialista. Mariana Pachinwepa. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. José Moiane. único do povo moçambicano. contra o que chamavam. Alberto Chipande. “travestida” de serviços de informação militar. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. Monica Chitupila. eram os outros 315 . A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. Sebastião Mabote. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. Filomena Nashak.

ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. “A fogueira do guerrilheiro”.vectores fundamentais da situação político-militar. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. nos confins de uma África inóspita. em português. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. em Julho de 1973. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. por milhares de manifestantes. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. A sorte da guerra estava traçada! 316 . Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. Grupos de soldados portugueses. ensanguentada e sedenta de liberdade.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. apostólicos e romanos”. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. e em Portugal. durante a campanha para a Assembleia Nacional. por oposição à guerra. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. atenta e preocupada com os ventos da História. 318 . em protesto contra a “política ultramarina”. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Dia Mundial da Paz. da diocese do Porto.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. no dia 1 de Janeiro de 1969. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. Domingos. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Felicidade Alves. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. muito “católicos. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. em Lisboa. Diminuía a base social de apoio ao regime. MPLA e FRELIMO.

aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. arrancados às escolas. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. nos quartéis. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. “Não jures camarada!”. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. no 4º turno de 1971. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. e outros mais No panorama internacional. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. Vendas Novas.. “Alerta camarada!”. na organização da resistência e do combate internos. Santarém. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. publicado nos princípios da década de 70: . manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. no 1º turno de 72. 319 . organizada unitariamente.. Santarém. no 3º turno de 72. Lamego. “Levantamento de rancho”. embora negando os factos. e os Estados Unidos. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. dentro do “ninho de víboras”. Tavira. em 1971. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. em 1971. Tavira.. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. em 1972. protestos na parada. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas.. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. ameaçando:. entre outros. nas escolas. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. No início da década de 70.

mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. como resposta a agressões vindas do exterior”. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. a proclamação. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. O alcance da iniciativa é inteligível. com Leopold Senghor. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. para breve. da independência da Guiné. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. Enquanto isto. Em Outubro do mesmo ano. encontra-se. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC.“ajustando” a estratégia. em Outubro de 1972. ainda que por novas vias. No essencial tudo fica na mesma. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. Na Guiné. o Conselho de Segurança da ONU. António de Spínola. ao perceber o fim inexorável. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. próximo da fronteira. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. Entretanto. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. Guiné e Moçambique. Mas a luta de libertação está muito avançada. o combate não esmorece e. e em Abril. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. em Março de 1973. Ainda assim. os 320 . reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. com o objectivo de “legitimar a guerra. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”.

que Marcelo Caetano. em aumento crescente. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. Quanta gente. a independência da Guiné. reparando rádios e antenas. havia o “inimigo interno”. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. empenhado há tantos anos na luta pela independência. percebendo finalmente. perigosamente de terra em terra. não pode satisfazer. organizadas como um “exército regular”. Um mês depois. ficaria ainda ferida ou estropiada. em Agosto de 1973. acossado. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. numa zona libertada. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. A guerra entrava numa fase derradeira. fartos de guerra e do militarismo fascista. todos aqueles que iam 321 . fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. KAIOMBE DE JIMBE. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. o PAIGC proclama em Madina do Boé.“Strella”. as forças guineenses combatem por todo o lado. Spínola. que a guerra de libertação é invencível. no entanto.. conversando e trocando novidades. em Setembro. de aquartelamento em aquartelamento. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. sem nunca o confessar abertamente. derrotado. Havia o In. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. que mesmo esmorecida nas terras do Leste.

um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!).. – Bem. Já se sabe o resultado. arreando forte na besta. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. furriel. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca.. na Região Militar Leste. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. mas como muitos outros. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. Não era mau rapaz o furriel. foi só um desabafo. carroça mal puxada! revolta-se!. procurasse puxar a “carroça”. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola.. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. pertencente ao subsector do Cazombo. Mas ainda havia quem. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. besta contrariada. na vila de Jimbe. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. Além da agricultura de subsistência. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. bem. nos princípios de 1974..

os chamados “flechas”. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. solicitaram a reparação. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . agradado com a tarefa. onde vivia pobremente a população indígena. o problema não era do rádio propriamente dito. – Esperem aqui.e políveis. – Venham comigo. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”.. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. Devia ser problema na antena.! – o furriel. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. onde aquela estava montada. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. Afinal. era uma realidade também em África. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. com frequências próprias.. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. com duas ruas paralelas. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. trabalhado na feitura de peças artesanais. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa.

rumo à África do Sul racista. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. No caso vertente. solicitado para outro qualquer assunto. Casimiro. participante na invasão do solo angolano independente. Alguns meses depois o pide Camelo. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. 324 . De volta ao quartel. causando-lhes horríveis queimaduras. apagar os charutos no corpo dos presos. autênticas jaulas de guarda-bichos. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. o agente António Camelo. Laia. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. mas suspeito de apoiar o MPLA. Morreu passado pouco tempo. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. completamente expostos aos elementos. tinha por desporto nos interrogatórios. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. Trindade. Vaz. que deviam doer horrivelmente. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. Lontrão. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. alegadamente à caça. momentaneamente. Perturbados e confundidos. ficaram a saber que o chefe do posto. com as O pide da retirou-se antena. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. tratava-se de um habitante da zona. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. apanhado no mato pelos “flechas”. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. ou no célebre batalhão “Búfalo”. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. e outros.jovens militares estarrecidos. de nome Kaiombe.

guineenses e moçambicanos. Neste sentido. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar... se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. da revolta activa de muitos milicianos 325 . a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. Essas vidas poupavam-se. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!.Face hedionda do sistema colonial fascista. porventura numa escala muito maior. perseguiu. Significa que entre nós o crime compensa. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. prendeu. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. e as de dezenas de milhares de autóctones. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. ou reforma dos ex-combatentes. que em África. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. como em Portugal.

mais meios logísticos. com mais homens. embora unidos no essencial. o general fascista não parava de conspirar. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. Dezembro de 1973. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. – Em 1 de Dezembro. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. futuro militar de Abril. homem da sua confiança pessoal. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. entre ultra-reaccionários. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. em Julho. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. conservadores e liberais. – Em Fevereiro de 1974. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. o general derrotado na 326 . Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. António de Spínola. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. composta por 19 elementos. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. – Por esta altura. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. em Óbidos. cada vez em maior número. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. Regressado de Moçambique. como ministro do Ultramar.

CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. Vinha de um retiro no Buçaco. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. A “coisa” está para breve. – No dia 5 de Março. reafirmando a disposição de não ceder em África. para todo o país. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. transmitida pela RTP. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. a chamada “brigada do reumático”. convidando-os. 327 . contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. Família. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. em vão. publica o livro “Portugal e o Futuro”. a assumirem o governo. Costa Gomes e Spínola. O professor fascista “demo-liberal”. – No início de Março. o “Movimento dos Capitães”. – Nesse mesmo dia. Pátria. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. para reflexão.Guiné. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. em directo. reúne-se em Cascais. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. os oficiais-generais. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa).

chalaceara à partida. amor e esperança. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. – Cartas de amor e guerra. no regresso de férias.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. greves na cintura industrial de Lisboa. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. Caetano. livro de António de Spínola. naquele promissor Março de 1974. – Deixa lá a guerra.. animadas pelos comunistas. em trânsito ocasional. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. Os amigos. Desta vez. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . com as missivas dissimuladas. O velho sargento. “Portugal e o Futuro”. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”.. divertido e perspicaz. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. com frequentes “extravios”. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. grande dinâmica unitária do movimento CDE. e prisões. o sargento-ajudante “Mafra”. solidários. em fins de Março. meu sargento. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos.

.. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.. depois de castigo disciplinar). apesar de inconsequente.. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica.) Amor querido... com um enorme impacto 329 ....) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. como costumas dizer”(. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto.(.. Mais cedo do que tarde. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. em Julho de 1973. INHAMINGA A SUL. Margarida. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. Não foi ainda!. Hastings. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. refere a coragem dos revoltosos. (.). Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta.

acompanhados por dois cineastas e um repórter. 330 .. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias).. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. para onde a companhia independente tinha rodado: (.) “Afinal tinhas razão amigo.. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. Algumas semanas depois. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. amigo. A situação é deplorável. Havia notícias desde Julho de 1972. é palco de uma crescente perturbação subversiva. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. sempre a alinhar! – Boa sorte. esta zona onde aquartelámos.! – Nada que se compare com este inferno. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. era ou mato ou morro. no caminho estratégico para a Beira. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. Oficialmente configurava uma acção por focos..mediático. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira.

onde o terreno estava relativamente “livre”. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. prendendo sobas e régulos. em autênticos massacres. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. vinda da guerra no mato. iria assistir e nalguns casos participar. A tropa regular. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. massacrando ferozmente populações. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. sobretudo depois da chegada das tropas especiais.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. torturando e eliminando patriotas. Depois do Verão de 1973. Entravam e saíam carros civis e militares. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. lançava o pânico. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. nas hostes colonialistas. Estas denúncias referem milhares de 331 . foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. em Tete. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. A sanha perseguidora. Nos últimos dias de Julho de 1973.

Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm.mortos. No estratégico caminho da Beira. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. geralmente odiada. originando dezenas de milhares de deslocados. terem essa atribuição). Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. durante a operação Nó Górdio. adivinhado naquele início do ano de 1974. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. 332 . com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. como na localização das bases Nampula. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. e nas Colónias. conveniência ou por convicção. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. pela PIDE. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. a alta hierarquia militar. por cegueira. Gungunhana e Moçambique. com homens de “antes quebrar que torcer”. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial.

significando tratar-se de militares de patente elevada. Mesmo tendo diminuído as 333 . Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas.. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. azuis. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. em plena luz do Sol. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. podiam ver-se muitas estrelas. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. da Rodésia... tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade.. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando... cinzentas e verdes.. – Têm fardamentos bonitos!.. amarelas.. incluindo aquele. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. a norte de Moçambique. padre José de Sousa àquela área. A explicação não tardou. – São “patentes” da África do Sul. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. dada pelo chefe da secretaria. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. de 19 a 22 de Abril de 1974. da Namíbia. com foguetes terra-terra de 122 mm. do Brasil. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte.“Strella”.

?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. não estava pronta: – É um “Dakota”. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. comia-se em dois turnos. Na messe dos sargentos. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. retiraram-se à procura da refeição frugal.. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão.. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto.. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . digna de registo. em 1971. onde João fora aboletado por determinação do comandante.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. após uma grave crise de desnutrição.. a comida escasseava. os aviões de abastecimentos tinham rareado. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. Com as últimas garfadas. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. Manica e Sofala. de serviço à pista. Zambézia. após a operação “Nó Górdio”. depois do caldo aguado. tal como há três meses atrás. o correio andava atrasado quase um mês.

No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. Depois de levantar voo na pequena pista. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. Num repente. – Calha bem. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. virando-se para a comitiva tagarelando. ainda fumegante. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados.. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. são 13 horas e o almoço arrefece!. Em princípios de Abril de 1974. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. Agarrados aos frágeis bancos de lona. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. com o 335 . vamos tentar uma aterragem de emergência. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. Por favor. os “Strella”.. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. a aeronave subiu muito alto. atingira-se uma situação alimentar muito precária.

. abandonadas à pressa pelos indígenas. vamos “dançar” um bocado. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. O piloto-chefe informou via rádio. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. – Tenente. No interior andavam todos aos trambolhões. e a falta do motor. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento.. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. travando a fundo os rodados. gritando o desespero da hora derradeira. em Diaca . quando se aperceberam da situação. a exigir a elevação do “nariz”. fazendo um barulho ensurdecedor. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. 336 . não permitiram uma boa travagem. prevenindo-a da emergência. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. fora feita para receber os pequenos monomotores. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. a unidade militar mais próxima. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo.motor restante acelerado ao máximo. A pista de terra batida e cheia de buracos. em rápida aproximação da terra. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. imobilizou-se por fim. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. o avião meio destruído.

preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. da intelectualidade progressista. dos estudantes. No dia 6 de Abril de 1974. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. Coordenando a luta legal e semi-legal. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. onde decorria uma participada assembleia de democratas. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. por não haver condições democráticas. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. recebidas com grande apoio popular. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. depressa se envolvera na luta pela democracia. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. dos trabalhadores. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. e desmultiplicava-se em acções de rua. vinda do Sul para estudar. 337 . Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974.

. mas se soubesse fazer poesia..cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. A morena de olhos escuros dos genes árabes..” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. não sei qual a sua fonte de inspiração. onde quer que viva onde quer que morra. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. gostava de escrever um poema assim.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas...– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. Custava-lhe magoadas. sublime e autêntico. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade. à porta da cela onde 338 .. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. Faremos dele a nossa canção de luta.: “. tão Não teve tempo de completar a leitura. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. tê-lo-ei sempre comigo. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. será o grito de revolta. doendo no corpo e na alma. dependurado à cabeceira. cresce o amor. – Minhas senhoras. escrito na pedra ou no vento.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. o desejo. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(.. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. Amo-te querida esposa..

decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. o estrato humano em presença. entretanto regressada dos lavabos. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se... porém. Muito interessante.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. a morena de cabelos em franja. completamente. – Isso não sabemos. “Poemas de amor e revolução”?!. minha senhora. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. a ala dos interrogatórios e das torturas.. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. A carcereira às ordens da PIDE. Não tivera tempo para mais hesitações. como era uso. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro.. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário.. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. Decisão temerária e esforço inglório.. – São cartas do meu marido que está na guerra. – É o regulamento. apenas recebemos ordens para as transferir.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. Eram ordens. 339 .. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. mudando o tom.. Era outro.

. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. sinto-me atado de pés e mãos. – Vais ver. produto da fé dogmática. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. não vão detê-la por muito tempo. que vais fazer? – questionava o Pedro. com a miúda pequena!. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. numa reunião da CDE. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. prostrado. com data de há dois dias. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. analisar a situação.. 340 . na caserna pobre e alheia às vicissitudes. – Foi detida no princípio do mês. – Se pudesse ia para lá já hoje!.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. por minutos ou por horas. Aqui neste fim do mundo. – E agora. nem sabia bem. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. Lágrimas reprimidas mas teimosas. Depois ressuscitou! É verdade.. Era preciso arrumar as ideias. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal.. em Lisboa.

frustrações e medo. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. a guerra prosseguia sem fim à vista. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias.. mal a conheço!. lançada à dois anos pelo general fascista. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. com o parlatório de permeio.. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. de quem tinha um filho também pequenito. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. nas mesmas picadas. 341 . operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. greves nas fábricas!. Algo paira no ar!. Aquilo lá está complicado. que avançavam lentamente. – É tempo de derrubar o fascismo. – É da idade do meu. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. agravado por um quotidiano de misérias... sem saída previsível. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. – Pedro referia-se à esposa.. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”..

mas que era por vezes motivo de incidentes. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. da contestação e da revolta. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde.. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências.entretanto afastado. a bem da moral psicológica das populações. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). somados na terceira ou quarta comissão. No presente. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. Já quase chegavam para a casita nova. Aliás. talvez o enorme campo de aviação. apto a receber grandes aviões. mal alimentados. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas.. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 .”. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. em 25 de Junho de 1975.. que não matavam mas moíam bastante. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. diziam as vozes do desânimo. perdidos no meio da burocracia conveniente. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. mal instalados. fazia parte da orientação do In. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo.

. Pela primeira vez em pleno dia. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. com a arma cruzada entre os braços. à espera de uma hipotética tentativa de penetração.. – Ai minha rica mãezinha. É o décimo. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. desde que começou o ataque às 8. debruçados no parapeito da vala. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. estão em calções 343 . – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. encarregada da segurança daquela área. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. Companhia de Caçadores. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. quando o pânico perturba a racionalidade. mas às vezes não!.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos.

Na reacção. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. arrancando resoluto no jipe. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. de 8 e 14mm. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. pensava-se inicialmente. enquanto o chefe não chegava. onde psicologicamente o susto era menor. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. Restava a vala-trincheira já superlotada. ser um normal rebentamento na pedreira.e tronco nu porque o tempo contínua quente... Na secretaria do comando. a meia encosta. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. a responderem ao bombardeamento: 344 . A excepção foi o comandante do aquartelamento. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. entretido a escrever à máquina um aerograma. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. tinha decerto instruções hierarquizadas. na direcção do posto de artilharia da unidade. na direcção da pista de aviação em eterna construção. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos.

. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente.. Outra vez a voz calma do furriel Costa. Aprendia-se nas conversas de caserna. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência.. que “quando se ouve é bom sinal!”. “arrancado” à escola superior de agronomia.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. permitia concluir que ainda estavam vivos.. – Pois não.. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. é relativamente inofensivo. Olha se caísse aqui?!. sempre de cócoras.. a menos de 50 metros. mas a tremenda e instantânea confusão. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. Havia uma pequena pausa no ataque. com a G3 entre os braços.. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. pá! Por pouco!. – Ena. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. filho de pequenos agricultores. ribatejano. ao fim da tarde. O furriel Costa continuava imperturbável. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. a mais de cinco quilómetros.. não morreu um gajo no ataque a Palma! .

já se via muita gente de pé.. fica atenta às notícias da telefonia!. as munições deviam estar a escassear. traduziam um intenso pavor. Nove horas da manhã.os anteriores. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. a pontaria estava agora muito alta. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque.. Os olhares cruzados naquele instante. No dia 4 de Abril de 1974. durante uma hora e vinte minutos. No seu jeito brincalhão característico. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. – Venho estafada. A resposta da artilharia esmorecia também. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. só estragos materiais. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. parecendo nunca levar as coisas muito a sério.

trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís..! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. mesmo em dias de borrasca. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. sempre lindo. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. ao rever o local à beira-rio. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando.e não queres que durma? Sorria. pela primeira vez em muitos 347 . sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. Conhecendo o ditado das “águas mil”.. se se cumprisse a movimentação preparada. em vias de se tornar definitiva. a jovem mulher com ar cansado. distendendo os nervos. – Como foram os interrogatórios. nos novos caminhos da liberdade precária. O comboio da linha fora a primeira etapa. no “Abril em Portugal”. onde começara o namoro e. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. sem objectivar.. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. rapariga! Descansa. bem precisas. Amanhã logo saberás quando acordares.. Não te preocupes. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!.. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária.. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. – Vai-te deitar.

com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. – Não tenho nada a declarar. nada mais tenho para dizer! – Ah. – empertigou-se o chefe de brigada.dias. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. “visita” diária desde o primeiro dia. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. desde a partida do marido para a guerra. horas e horas de angústia. Novamente a insídia do inspector superior.. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. – Responsáveis fomos todos. onde vivia com os sogros. Como estaria o seu João. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. a esta hora já estão em casa com as famílias. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. sorriu. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica.. a mostrar serviço na presença do superior. sobre as 348 .

onde cabia toda a candura do mundo. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia.. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. Finalmente! 349 . Numa das vezes. houve qualquer coisa em Lisboa!.insinuações em relação ao companheiro. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. alegre por rever a mãe. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. Por fim desistiram.. Um último pensamento foi para o companheiro distante. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. a saudade roendo o corpo e a alma. e só regressou exausta de madrugada. na hora de tentar conciliar o sono. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. após quase vinte dias de interrogatórios. com um sorriso como não via há muito tempo. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. em catadupa. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento.

350 .– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!...

351 .

352 .

353 .

354 .

355 .

356 .

357 .

358 .

359 .

360 .

361 .

362 .

363 .

364 .

365 .

366 .

367 .

368 .

369 .

370 .

371 .

372 .

373 .

374 .

375 .

376 .

377 .

378 .

379 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful