A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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deixo ao leitor. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. e que assim. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. infelizmente. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. No centro de instrução em Mafra. que nisso estiver interessado. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. para dentro das fileiras das Forças Armadas. o autor adoptou uma estrutura mista. quer na dinamização do 25 de Abril. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. Essa foi. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. Marcharam esses 8 . indiscutivelmente. quer na rápida solução do conflito.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. de algum modo. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. Respeitando essa intenção. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado.

isto é. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. ignorando-os ou afeiçoando-os. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. etc. Guiné. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. estende-se entre 1961 e 1974. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. O regresso dos militares feitos prisioneiros. Angola. Moçambique. graduados em oficiais ou sargentos. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). por exemplo. Longe disso. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Damão e Diu). a crise académica de Março de 1962. por norma. cujo método é. desprezando a evidência dos factos. entenda-se. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. Logo no capítulo 2. perante as forças da novel República Indiana. O narrador acompanha-os. a petição de princípio. em Maio de 1962. para os três teatros de operações. Exactamente ao invés do intelectual burguês. de ensinar.milicianos. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. É esse o período de 13 anos e 3 meses. o autor intercala dezenas 9 . nomeadamente o historiador académico professoral. Entretanto. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. Não se trata. De acordo com o seu propósito didáctico. Na realidade.

Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. por si só. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. por estes democratas da 25. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. quando se perfilam em Portugal e no mundo. nesses anos finais. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. Mas todos. um acto de resistência. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. de forma modesta e aparente singeleza. algumas extensas de dez páginas. Nos tempos presentes. tantas vezes heróico.o livro agora publicado. reconforta a alma. Um estado dentro do Estado.de resenhas de carácter histórico. pois repara muita injustiça). como bem observa. Dos comunistas em primeiro lugar. despidos de ambição pessoal. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . (Mais que justo.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. Em tempo de escuridão. devemos ter orgulho nesse 10 . “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. que fazemos um povo. é justo assinalar. quer no país europeu. quer nas colónias em guerra. invocar essa memória já constitui. contra a opressão fascista. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido.

muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. E. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira.passado pois é parte e espírito da nossa História. que nunca aceitou como causa sua. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. comunista de sempre. não devemos esconder esse orgulho. Lisboa. permitam-me. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. mobilizado para uma Guerra Colonial.

vivê-la com as 12 . Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. perene. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. Nunca é tarde para perceber.. as mágoas persistem. porquê? As memórias esvaem-se. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. teimosamente persistente. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. dos seus incrimináveis mentores.. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. e da “vitória ser rápida”. o romance. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. compreender a guerra por dentro. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar.. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. As memórias da realidade. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. definitiva. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. a ficção baseada em factos reais.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. Estes ensinamentos da nossa história.

baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. A luta de novo tipo. 13 . a cobardia. as solidariedades. Guiné e Moçambique. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. flagelações e punham minas nas picadas. É este. mas agora. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. o desiderato deste livro. além do mais. os medos. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. as tristezas. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. ouro sobre azul. o terror. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. a amizade. que faziam emboscadas. a nobreza de carácter. e. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico.angústias. a revolta e a coragem. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. contra os mesmos incorrigíveis franceses.

não tivessem nascido. Como se não existissem 400 anos de dominação. o “Avante!”. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. deturpando. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. próceres de Salazar e de Caetano. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. Como se Agostinho Neto. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. escravatura..) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. na rádio e na televisão (também no cinema!. iludindo os portugueses. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. órgão central do Partido Comunista Português. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas.. Os que regressam de África ─ os 14 . os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (.. procuraram elidir as questões fundamentais..Os fascistas e militaristas.

recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. n. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. de Outubro de 1962.. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. o Presídio Militar de Elvas. as lutas e deserções multiplicam-se (. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS.. de presos por revolta ou protesto. até ao 25 de Abril de 1974. procura um caminho para se manifestar. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários.º 322. constituindo um feroz. que ousassem levantar a cabeça. de objectores.). tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. A amargura.desmobilizados. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. nomeadamente: fuga à tropa. Em Portugal. * 15 . a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. Os protestos. A recusa podia revestir diversas formas.

nas escolas. As suas 16 . nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. a violação de mulheres. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. torturas e morte. profissionais do quadro permanente não desumanizados. dependia a aceleração do fim da guerra. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. massacres. nas empresas. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. que tudo pervertia e até fazia assassinos.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. o tratamento desumano de prisioneiros. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. entre os jovens fardados. o assassínio gratuito.. Tarefa complicada sem dúvida. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. de preferência em grupo. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. e os que estavam convencidos que da sua acção. obstou o crime horrendo.. sob todas as formas. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. os melhores. deviam ir à guerra e uma vez aí. deturpada e mentida. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra.

“anti-patriotas” por definição. as suas manifestações e lutas. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. * É incontornável. A sua opinião crítica. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. às vezes mitificadas. “Abaixo o Fascismo!”. o “Movimento de Capitães”.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. Os comunistas. neputismo. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. tentavam por todos os meios (cunhas. iam para a dita. compadrio. primeiro. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. suborno. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. seus inimigos figadais. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. tráfico de influências. nas colectividades e associações. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. por outro lado. nos locais de trabalho. ainda que pouco (re)conhecido. no movimento democrático. com profundos sentimentos anti-guerra. a “soldo de potências estrangeiras”. nas escolas e nas ruas. e o “Movimento das Forças Armadas”. e o. depois.

torturas até à morte. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. (politicamente activo). o título de P. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. a PIDE/DGS humilhou. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). Uma questão central da guerra em África. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. vigiando. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições.A. em 1969. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. castigando e quiçá matando. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. fichando. sobre a Academia de Coimbra.Estas profundas contradições no seio do regime. despromovendo. 18 . Em África como em Portugal. excluindo. prendeu. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. perseguindo. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. Espancamentos brutais. de contestação e de revolta. em estreita ligação com os meios militaristas. perseguiu.

Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. a chamada guerra subversiva. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Salazar dera orientações nesse sentido.guineenses e moçambicanos. Significa que entre nós o crime compensa. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. a guerra colonial foi calculadamente 19 . se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares.

preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. Kaúlza de Arriaga. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. Marcelo Caetano. devido a interesses económicos e empresariais. Era assim para Oliveira Salazar. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. Silva Pais. Holanda). Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. Silva Cunha. 20 . organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. por questões de classe e de interesses individuais. França. e uma multidão de títeres do regime. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Mário de Figueiredo. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. muitos destes nas Forças Armadas. para que o poder político encontrasse uma solução. Bélgica. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. com a outra mata!”). evidentemente. Com determinação e sentido histórico. pelos valentes capitães com o apoio popular. por certo. Américo Tomás. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. não permitia saídas do tipo neocolonialista. naturalmente. Franco Nogueira. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974.

a guerra colonial não acabará nunca!.. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. Que este livro de inquietações. a derrotar todos os “senhores da guerra”. África jamais será esquecida. Para os milhares de feridos e estropiados. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito.. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. do passado ou da contemporaneidade. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. naturalmente.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. Essa seria a única. com as marcas irreversíveis no corpo. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história.

apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. Em última análise. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. perpetrando matanças descabeladas. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. o coronel João Varela Gomes.Jorge Jardim. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. será a nossa maior satisfação. Barreiro. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Flechas. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações.. etc. “Katangas”.). na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. O "28" chega vagarento e ronceiro. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". Pouca gente na rua. ficar na paragem não é prudente. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". à espera do sinal précombinado. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. É preciso voltar no recurso. Embora não seja novato naquelas andanças.arranca desiludido. Aquela é a única carreira que por ali passa. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Bom.Horas de jantar. mesmo em frente da paragem do eléctrico. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. não vá andar algum "bufo" nas imediações. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. Passam cinco minutos da hora combinada. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. a nova ligação é importante. sempre com muita gente azafamada. há iniciativas dependentes daquela conversa.

Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. Bento. Rua dos Poiais de S. o eterno mistério das trevas. Calçada de S. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Bento. Pelo som. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. António de Spínola. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. sorvedouro de homens e de recursos.. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. a rua entristece-se. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. O populismo do governador do monóculo. o telejornal está a começar. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. Sacudir as teias é preciso. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega.. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . vai caindo em descrédito. mal iluminada. inóspita. a querer roubar-me os "tomates"!?. desoladora. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. capital de um império de "faz de conta". a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea.─ “Olhá” desavergonhada. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais.

Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. D.. aproximando-se inexoravelmente da cidade. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . Contradições do sistema. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. Pela porta de uma taberna escura. mas hoje precisamente. Av. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África... na reunião matinal.. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes.!? Bom! Carros pretos há muitos. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. da chamada ala liberal. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. Carlos. durante o "minuto conspirativo".

Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . e das imensas contradições em que o regime se atolou. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. centenas de soldados portugueses mortos e feridos.Górdio". com populações civis sacrificadas. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. no norte de Moçambique. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. colocada num canto superior do estabelecimento. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. condenações de Portugal na ONU. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. Kaúlza de Arriaga. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão.

. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. ─ clamava exaltado no calor da discussão. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.” Madina do Boé. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. na Guiné. não sei se estão a perceber!?.. 28 .. convicto da orientação política traçada. não!?. o jovem moreno e bem vestido. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos.. envergando roupa de tons escuros. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. que teria a capital em Madina do Boé. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. na tropa há seis meses.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné... o rapaz magro e alto. em Setembro de 1973. ajudando na consciencialização. será alienada. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista.

Não era fácil convencer quem. paradas. quero ver como é!. * Chegara ao grupo discretamente.. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. mas a coisa pode radicalizar--se!. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. Este sentimento corria os quartéis. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. sentindo o cheiro a pólvora. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!... algo distante e compenetrada.. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”.. ─ o camarada João.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. casernas. mas simpática e graciosa.. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. acendeu paixões e afivelou rivalidades. sabia do que falava. motivadas por razões corporativas. e..regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . Aquela forma de estar. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. nos postos avançados..) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. nos aquartelamentos. na distante. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. Grande bronca! . o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.

o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. de barbicha. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. incorporava o regime. risonha e muito extrovertida. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. No pós Maio francês de 1968. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. um aspecto tristonho e sério. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra.escuros e sorridentes. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido... cigarro nervoso entre os dedos. propiciava radicalismos. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes.

. ─ Sabes? Eu … eu. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. A luta era feita de vitórias e derrotas... como acontecera de outras vezes. normalmente acompanhados. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. ansiedade. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. não temos pressa!. Cumprimentos da praxe. de avanços e de recuos. ─ Ora essa. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . uma penumbra agradável num tempo de quase verão. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. senhor ministro. ainda não respondeste ao meu pedido. mas o momento era de grande frustração. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. ─ Escuta. ─ Fazem favor de se sentar. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. Naquele início de noite estavam só os dois. de perna curta. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação..

Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. da GNR e da PIDE. a que os estudantes chamavam 32 . contra a ditadura política. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. sem vacilações! Fazem greve em Julho. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. O País animou-se em expectativa. no topo. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. acompanhada de abundantes gestos. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . A crise académica na Universidade de Coimbra.e uma cadeira de espaldar alto. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. Milhares de estudantes em desobediência civil. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada.. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. Ao fim e ao cabo. Universidade. Uma actuação firme. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático.. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. telefone pousado. no início do ano lectivo de 1969/70. O Ministro da Educação.

─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. 33 . ainda estão de pé?! ─ Faz favor. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. outra forma de piropo estudantil. mexendo-se incomodado. ficando enterrados quase ao nível do chão..! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo.. Os quase siderados visitantes. ainda em pé à beira dos sofás. "meio-nistro". mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. ─ Mas fazem o favor de se sentar. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. devido à sua baixa estatura. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas... ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. senhor ministro. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!.satiricamente o "meio-istro" ou. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. o "mini-istro". o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. vezes um ano perdido.

. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. chocante. na qual o Rolando também tinha participado. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. na clandestinidade. minarem a confiança dos soldados no Czar. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. como furriel sapador de minas e armadilhas. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. Uma angústia feita suor frio. junto do “povo fardado”. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Embarcara para a Guiné há menos de três meses.. quando o Partido Comunista da União Soviética. por dentro. Pelo caminho. João. Cego! Informara o comum amigo e avisador. mas logo assim em tão pouco tempo!?. resolveu que a solidariedade era mais urgente.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica.

sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!.º pavilhão. com cotos ligados à altura dos cotovelos. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. agora “minas e armadilhas”!?. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos... com uma absoluta angústia de ver o 35 . ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. O coração doía com aquela visão terrível. de cabelo encaracolado de um escuro característico. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas.. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo... evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!.. estavam sentados em cadeiras de rodas. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão.. também neste local não havia guardas.secretaria. foi entrando pelo terreiro. com múltiplos pavilhões disseminados. que se calhar nem foram ouvidas. Como não havia ninguém de guarda. vários soldados em pijama regulamentar. revoltadas e envergonhadas. por estranhos e simultâneos sentimentos . contudo logo à entrada do 1.. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. Por instantes ficou paralisado.

─ o jovem muito moreno. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida... comovido até ao limite das forças. Os médicos já me viram!.. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. começou a dar-lhe a sopa. estou sozinho!. ─ A esta hora está tudo ocupado. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!.. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. Sem nada dizer. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido.... Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. ─ Então rapaz. ─ Sim! Bem!.. ninguém dera pela sua presença.. Sou amigo como se fosse irmão. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa.amigo naquele estado.. 36 . entrei porque não encontrei ninguém de guarda.

─ Talvez mais tarde. foram as palavras do professor.sem Madina e sem Boé. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. vagaroso. com 37 .. Com a mão no ombro do amigo.. aproxima-se o "28". Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. filho dilecto do regime: ". rangente.". A outra vista não tem recuperação. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. com outros recursos consigam recuperar a outra!.─ Bom! Isso é uma boa notícia. devia estar com vergonha da sua situação... sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. é tempo de voltar para casa. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. ─ Não quero mais sopa. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas.. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. a rua está agora quase deserta.

gritos. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário.. no Instituto Nacional de Estatística. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. ali perto.. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. Não pensava tão cedo.a chamada “primavera marcelista”. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos.. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. não há veículos à vista. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. Mas os tempos estavam a mudar. um carro preto vindo da esquina próxima. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. Afastada a concorrência.

que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. no COM. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. enlevados e trémulos de emoção.! Mas olha. sem mais nada. Um a um todos foram chamados para a tropa. em princípios de Outubro. Os corações abriam-se de forma sincera. sem lamechices.namorada? ─ Sim. O jovem alto e magro.. tudo à volta parecia perfeito e calmo. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. Deram a volta ao quarteirão. e o mundo revelava-se sorridente. ditava a incorporação em Mafra.. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos.

partiram para a guerra.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. Até que todos os seus mentores. levou as notícias. pois o pai..º ciclo. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. os relatos. vacilante. trôpego. seguindo uma orientação conscientemente assumida. 40 . qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. o seu João Silveira. Durante muitos meses. os comentários. do 2. durante exercícios com fogo real. nos inícios da década de 70. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. o “Alerta Camarada!”. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. trazê-mo-los no coração. E morreu mais um no turno passado. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco.. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. Saía à mãe. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. necessariamente clandestino.

. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?.. alguns com fantasias bizarras. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. não foi avô? ─ Foi. ─ Pois não.. “Raio de ganapo!” ─ pensou.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto.. Traquinas e esperto como poucos. com nomes gravados outros. ─ É este aqui... muitos com flores artificiais. foi!. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra.. com fotografias uns. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. Para mim a guerra nunca acabou!.. * 41 . ─ Avô. alojado junto da coluna vertebral. melhor que ele próprio. ─ Avô. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. Mas não tem nenhum nome?!.

conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. comandante da secção. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. magnetómetros à frente para detectar metais. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. o grande temor pelos últimos dias de comissão. sobretudo nas zonas de areia solta. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. não tardava nasceria o Sol. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. o pessoal seguia com relativa descontracção. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . a chamada rebenta-minas. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. as picas atrás a furarem o terreno. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. emboscadas ou minas na picada. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. Há semanas que não havia flagelações.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte.

vou tentar des. o 1º cabo José Pinto. várias vezes dissera que se morresse na guerra. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar.. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer... ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. com distinção e elogios. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. como dizia publicamente e sem rodeios. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia.... carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. O Pinto era um rapaz corajoso. ─ Calma. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. dizia sempre o que pensava com frontalidade.. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio.. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. assim.. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. viscoso. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. devagar. pá! Passa-me a pica. leal e honesto. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. 43 . ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974.... ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo..

em Moçambique. 44 .

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .2. REGRESSO DA ÍNDIA.

o sobrinho Alfredo.. dá o mote: ─ O que representam Goa. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. O dono da casa. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. se engajou na luta contra a ditadura. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. há muitos anos radicado na vila operária. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. mas com as preocupações de um mundo em tensão. oriundo do Alentejo litoral. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História.Tarde de sábado. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. onde. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. nos fins da década de 50. lembrando as lições da escola primária.. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. frente à taberna do Arnaldo. não podemos abandoná-los !. como republicano e antifascista.

47 . bom. merecias que te cortasse o pescoço !”. claro!. ─ Sabe. desculpe. e.oceano! A conversa muito animada. Na sala. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável.. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. nessa azáfama. a PIDE rondava-lhe a casa. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo.. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. como lhe ia dizendo. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. demoradamente. barba ou cabelo? ─ Barba. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. Embora saísse sem julgamento. refastelado na cadeira. ─ Então senhor Vaz. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. tendo passado alguns meses preso em Caxias. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. notório situacionista. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz.

prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. O 48 . de que deveria restar uma memória positiva. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. em Helsínquia. foram castigados com o corte de dispensas. qual falcão em plena guerra-fria. Já em número de 300. o governo salazarista. no mesmo ano. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. No regimento de Artilharia 1. a Assembleia Mundial da Paz. usando a férrea censura dos jornais. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. escondendo do povo português a sua vocação belicista. insistia na via do confronto militarista. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. Damão e Diu. ficou uma lembrança trágica. Na longínqua Ásia. com representantes de 68 países. Inglaterra. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. pondo o quartel em “estado de sítio”. Estados Unidos e União Soviética. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Os governantes fascistas. sob administração portuguesa. em 1955. em Bandung. em Évora. foram mobilizados 150 soldados para a Índia.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. juntaram-se na parada a protestar. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias.

em 30 de 49 . como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. dependia de outros embarques próximos. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. mandou fazer uma marcha acelerada. é hoje! É hoje!”. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço.comandante. Depois de mais alguns episódios repressivos. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. intimando toda a hierarquia. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. Aumentou a revolta aos gritos de. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. Exaustos e revoltados.

necessário à sua vida. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial... Quando um povo. à sua defesa. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. à sua subsistência”. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. etc. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. muitos povos”. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva.Maio de 1956. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. Salazar afirmara que . Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. “Uma Nação. quando da negociação do plano Marshall.. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. no campo democrático.. Ainda no final da década de 40. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.analisa a questão colonial portuguesa. É assim. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. Na década de 50. cobiçadas pelos norte-americanos . Jogava as colónias e as suas imensas riquezas.

) que os colonialistas portugueses e estrangeiros.. a ausência de qualquer direito. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. O regime salazarista. na Margem Sul e noutros pontos do País. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas... a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. . generoso portador da civilização”. cinemas e lugares públicos. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. social ou político.. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”.. de Junho de 1956 : “(. O órgão central dos comunistas. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. o MUD Juvenil.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. “um movimento racista contra o branco. a segregação racial nos transportes. isto é. Por volta de 1954.. como.).. já citado.. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. as fomes e epidemias devastadoras. em iniciativas abertas e unitárias. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho.

admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. como os valentes soldados de Évora. depois da “bola”. (. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. na casa modesta da tia Clotilde. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. nem os discursos de Salazar.. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista.. nem os planos e as medidas de guerra. e desde então todos os anos vai a Fátima. quando o clube da terra jogava em casa. vigário da matriz: 52 . numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa.). nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação..aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. O colonialismo tem os seus dias contados. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores.. era tempo de visitar o primo Zé. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. posto que irmãos não tinha. mais do que com qualquer outro membro da família. Mas senhor doutor. com que trabalhos e canseiras.

não percas a fé na senhora de Fátima. naquele tempo dos princípios da década de 60. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. A telefonia. lembrando-se da afirmação 53 .. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. comprada a prestações com muitos sacrifícios. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. olhe que os indianos são muitos. 300 milhões!. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. era a sua companhia de muitas horas. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. como não haverá navios rendidos. para ouvir os relatos de futebol. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. entretanto já terminados.─ Clotilde.. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. com uma relativa consciência do mundo. um luxo para as classes trabalhadoras.

. Damão e Diu pela União Indiana. ─ Ah. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. “rapidamente e em força”.do barbeiro. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. em Dezembro de 1961. as tropas portuguesas na Índia... apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. ou nas terras misteriosas de sangue e morte.. como mandara o ditador. numa atitude típica do seguidismo salazarista. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu.. Eram agora raros os saltadores exímios. restavam os ganapos e as moçoilas. em África. Quando os militares portugueses. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. de medos e angústias. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. na Índia longínqua.. comandados pelo general Vassalo e Silva. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. Joaquim Faria. talvez!. por isso lhe dava uma carga pejorativa. . Em Maio de 1962. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. na altura dos Santos Populares. feitas 54 . ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. dez mil e tal contos.

instado por um grupo de familiares. No dia 23. correu juntamente com muitas outras famílias. já não o vejo há dezoito meses!. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. ausente há muito tempo. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais.. lenço modesto na cabeça. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. grande algazarra entre as centenas de parentes. A mãe de Alfredo.. oriunda da zona antiga da vila operária. só acostaram em Lisboa já de madrugada.. ansiosa por abraçar o ente querido. de gabardina e chapéu. vindos dos desenganos apesar da noite fria. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. na ausência de informações oficiais. vestes escuras e lágrimas doridas. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. e viceversa. a família de Alfredo Júnior. cada vez em maior número. apupos.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento.. iam finalmente regressar ao País. conforme os boatos que iam surgindo. Gritos. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. dado o seu isolamento. É um senhor vestido civilmente. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. ─ implorava uma velha mãe.

debaixo da mira de dezenas de espingardas. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara.) Por isso. acenam com lenços brancos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. fora do olhar policial. Como povo livre. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. alguns jovens esgueiram-se lestos. antes de voltarem para casa. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. datada de 14 de Dezembro de 1961.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. Ao longe. estenderemos a vós. por sua vez. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. não podemos esquecer o povo português que. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. acompanhando zelosamente o senhor inspector.. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). mas contra o colonialismo e o fascismo. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . povo de Portugal..

Regressaram à terra natal. talvez pela primeira vez. em troca de uma decantada pátria pluricontinental.juventude. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. 57 . cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. compreendendo.

nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. que considerava proclamavaportuguesa”. FNL. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. Em 1954. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . em 1955. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. porém. 58 colonialmente ocupados. potência colonial. contra o ocupante francês. Damão e Diu. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. em Diên Biên Phu. na Indonésia. Ou a realização de um “referendo em Goa”. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. a opinião dos meios de oposição ao regime. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. Não era esta.

)”.. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. todos vivemos num único planeta. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. os representantes dos países socialistas. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. pela União Soviética. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (.. Do que se passou nessa histórica assembleia. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. Em relação às colónias portuguesas. 59 . dos neutralistas e das jovens nações africanas. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. Em 1958. trabalhamos.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. Neste planeta nascemos.

turutuka dii.. ivuenu. Paiva Domingos da 60 . 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Scalo Bengo (Angola).. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. Neves Bendinha. com o apertar das algemas da opressão colonialista. com o agravamento da exploração colonial. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. em Luanda. Os massacres dos povos de S. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”.” (oiçam. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista.. Timor. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. Mueda. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. Goa. voltaremos aqui.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. Cabinda. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português.). que procuram inverter os factos. Os patriotas angolanos. Tomé. oiçam.. Bissau.

fazendo milhares de vítimas. Virgílio Francisco. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. abençoou os revoltosos. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. um cónego mestiço angolano. Imperial Santana. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). enquadrados em vários grupos. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. De resto. guardadas no campanário da Sé Catedral. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. Domingos Manuel Mateus. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. na Ilha de Santiago. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. o próprio.Silva. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . em Cabo Verde. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. Raul Deão. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. Na madrugada de 4 de Fevereiro. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. missionário na arquidiocese de Luanda.

. feridos. espancamentos. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. começou a terrível “révanche”. com a perseguição. ─ Companhia Indígena. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . dezenas de autóctones. ─ Cadeia da 7. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. Estava iniciada a Guerra Colonial. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. uma autêntica “eliminação selectiva”. sendo os restantes. À noite nos muceques. era a “limpeza étnica”. mortes às dezenas. deixando centenas de cadáveres. Nenhum dos objectivos foi alcançado. espancamento e morte de gente negra. filho da puta!”. junto à praia do Bongo. nas rusgas e cercos. presos. ou de trabalhadores numa oficina perto. Agarra que é “lumunba!”. onde estavam muitos presos políticos. Pedro da Barra. correrias. empurrados logo de manhã para as valas comuns.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. “Mata esse preto. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. interrogados.. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. com poucas excepções.). que seguia num machimbombo (autocarro). levado a cabo por gente desvairada. indefesa. Depois foi um terrível massacre.

repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. conseguia desatar. o João “Careca”. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. O célebre fadista. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. quando a avenida da Praia era mais frequentada. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. sempre com conta e medida. Ao fim da tarde. do café Beira-Mar.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência.

A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. é nossa! Angola... Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. da sua grandeza Além-Mar. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas.. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. é nossa. A curiosidade fora espicaçada. pela negação dos factos apresentados. porque a família real era dinástica e divina. inquietante mesmo. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra.” A sensação desagradável.. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. gritarei é carne e sangue da nossa grei.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. deixando uma angustia de dúvida e receio.multicontinentalidade da Nação. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. 64 . ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. é nossa! Angola. Fazia vibrar de emoção e orgulho. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. sempre se ficava a saber alguma novidade... antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. quebrando a corrente emocional e patrioteira.. Acabou o noticiário. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios.

deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. três tentativas.. senhor Lobo. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. sobrinho por afinidade. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. mantém nas masmorras da PIDE... duas. músicas estranhas que o velho vizinho. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. Timor. Uma. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. Vozes estrangeiras incompreensíveis. Goa. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. O regime fascista. S.. Tomé. diz ser tudo mentira!.. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava.. E voltava! “. Mas é perigoso ouvir!. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos.. mas a realidade inevitável. o regime 65 . etc. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. salazarista convicto.─ Tio Zé. Baixa do Cassange.. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente.. O Ferreira da Costa. ─ Esse gajo é da situação. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem.. na Emissora Nacional. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. bem pronunciada.. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. Scalo Bengo .

. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco.” Afinal não era a Rádio Moscovo. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. obstando a mensagem de denúncia e de luta.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola.. entre as 19. pelos serviços da PIDE.ª classe na Sertã natal... O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada. Depois da 4. Espera enervante. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. era outra voz da mesma liberdade procurada. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 .00 e as 21. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. Os dilemas da guerra e da paz. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente .00 horas. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.

incerteza no futuro. as conversas sobre a realidade do País. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. com uma sedimentada consciência de classe. A grande cidade dava outras oportunidades. Aprendiz numa oficina de automóveis. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. as leituras recomendadas. promete continuares a estudar. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. para a outra-banda. embora exigisse muito sacrifício. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. Manuel interrogava-se. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. aliciado pela PIDE. com um salário que mal dava para a renda do quarto. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. O convívio com operários mais velhos e experientes. na Escola Fonseca Benevides. por lá ficou mais de um ano. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . por sugestão de um colega. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. Um segundo passo importante fora a mudança. parco de palavras. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. em toda a sua vida. abriam-lhe os horizontes. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel.

mas chegara a sua vez. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem.900. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. partilhada em muitos anos de brincadeiras. A experiência de participação. nas lutas no Ensino Secundário. E agora. a mobilização para Angola. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. de Xabregas à Veiga Beirão. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. Ainda agora. mantinham a amizade da adolescência. tendo depois emigrado para Angola. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. depois da incorporação e a recruta. pela primeira vez. preocupações comuns e solidariedades. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. a conversa era fácil e fraterna: 68 . e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. O terceiro irmão não fora mobilizado. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. nunca mais parara de se agudizar. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. que depois da questão da Índia. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno.conta. o “Avante!”.

encobre da vista o barco. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora .!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. vamos todos lá parar!.. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. 69 . o choro mudo e soluçado dos homens. ir à guerra e ter lá um azar. agitando-se freneticamente na amurada. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. vestido de pequeninas velas brancas. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!.. Sou atirador de infantaria. ─ Adeus filho.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. mas o Nana era assim. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. O pior é a mobilização!.. ─ Não. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. para onde vão muitos! Já viste. um bom rapaz.. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. ─ Nunca pensaste em não ir.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta.... até se leva bem. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha.. em dar o “cava”?!. não! Mas quanto mais cedo melhor..

quiçá para sempre. no silêncio do quarto. constituía um arquétipo da candura nacional. mas nunca de contrariá-lo. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. adormeceu finalmente inquieto e agitado. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. A vontade nacional de agarrar o destino. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. alguns. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . no meio do magote de gente lamuriosa. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria.

Autodidacta e amante do saber. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ).conversadora. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. 80. no Norte de Angola. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. até chegarem os europeus escravatura. recentemente. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. 100 mil?). Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. pelos movimentos de libertação. por vingança. havia muita gente esclarecida. perpetrado pelas tropas coloniais. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. também houve nações e povos desenvolvidos. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. ─ Os pretos são meio selvagens. O que se seguiu. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. que lia e com o colonialismo e a 71 .. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. um grupo de cariz tribalista. como sempre acontecia aos sábados. têm lá cabeça para se governarem. nas zonas da savana e das florestas.. e agora. Na zona velha de maioria operária. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. ou para alguma coisa!?.

o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. ─ Sabe. à volta do quarto pequeno e modesto. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre.. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. E também lá foram vividos os primeiros amores. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. não acha?!. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. quando entrei!?. 72 .. de reflexão e de descanso. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. senhor Vaz. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. que tudo estava sossegado.. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros.acompanhava os problemas. como lhe tenho dito.

João deixou-se dormir novamente. só abria às nove horas para cortar o cabelo. um cheiro intenso a pólvora e a sangue.“São seis horas da manhã. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. como se propunha. luzes intensas. que sonho dramático!”. ainda é muito cedo!”.. correrias. densa. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. talvez uma floresta. um precipício negro em que estava prestes a cair!. perseguições. “Safa..

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. não me parece!. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada.. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. O chefe olhou-o com ar circunspecto. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. com duas ou três casas. Na manhã seguinte. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. Seguia-se. ─ E agora. nada mais. fresca de Outono precoce. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. já sem companhia. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. Posso chamar um táxi. três horas de caminho.

trazia medos e fantasmas. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. começaram as marchas nocturnas. em transporte próprio ou familiar. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. depois das longas caminhadas durante o dia. orientação. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. etc.trajectos labirínticos. Guiné e Moçambique. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. e já fizera a exploração dos itinerários. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. Diziam ser assim nas matas cerradas em África.. da instrução sobre armamento. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. Muitas caras ensonadas. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. algumas conhecidas da universidade. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. 76 . táctica.

pertenciam ao meu pelotão!. pá! Vou dar o “salto”. incluindo a arma e a mochila às costas. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. com a fama de “chicalhão” e prepotente.. fazia mais um exercício duro porque. durante a progressão com todo o material de combate. mais hipóteses têm de safar a pele!”. pesadíssimas. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa.. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. célebre desde as últimas invasões francesas. “a tropa não é para maricas. quanto melhor o treino. tornados amigos durante o 1º ciclo. ─ Tens de ter calma. ─ o manifestante era um aspirante alto. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. anafado. de boa compleição física e bom contador de histórias. O pelotão do 2º ciclo do COM. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. daquelas que nunca mais se esquecem. ensopado em suor. devido às lamas nos caminhos. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . ─ Não aguento mais isto. Rodrigo e Francisco. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. como ele dizia. comandado pelo alferes “Manaça”. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou.

Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos.contrapunha o Francisco. quem não sabe nadar atrapalha-se. Os mais expeditos fazem-no com êxito.. 78 . hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. procurando ajudar o amigo. pá. relutantemente alguns ficam para o fim. Por feitio ou bajulice.. dando-se ares de importância. com um feitio solidário. bem nutrido e de ventre proeminente. magro de carnes. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. entra em contacto com a pele suada. começa a entrar em pânico. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. tem lama até às partes. ─ Falta pouco. o pessoal preparava-se para a travessia. na cauda dos restantes caminhantes. gosta de fazer de porta-voz. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. por isso ganhou os favores do graduado. ─ Outra vez a porra da lagoa... a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. pá. as pernas vacilam. dizes tu!. Uma porra.. vem avisar o cadete Aníbal a correr. ─ Depois logo se vê... uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f.. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades.

O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio. qual nada! Não quero cá ninguém de fora.... Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. ─ Qual bombeiros. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas.. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.grugluglu.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. marche! ─ Sim. com uma alma altruísta. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. Friccionando-se com a camisa de trabalho. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. o graduado continua a vociferar.! O cadete Artur. perante o quadro terrível vence a inibição... tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal.. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior..

sempre muito elegantemente fardado. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. ─ Algo não está bem. teve uma atitude simpática . de bengala de invisual ainda mal manejada. o jovem alferes Terras. outros. juntando-se à volta de um acamado paraplégico.. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. Baixa no anexo de Campolide. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. ainda em tratamento. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. com permanência nocturna obrigatória. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. quer ir connosco amanhã? 80 .corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa.. enterrados no lodo. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. que padeciam de graves deficiências. agarrados. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. comandante do pelotão. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços.

mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo.. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . pouco falador. sim!? Obrigado! Eu. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas.. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. ─ Agarre-se a isso. já não tinha mais novidades. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. ─ Ah. ( os instrutores são uns nabos. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. A conversa continuou animada. não ensinam o verdadeiramente importante). distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”.. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). obrigado! Sou casado!. ─ Ah! É casado!. quando jogava o Benfica em casa. nunca cá tinha estado. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito.. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna....─ Não.. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. em cima da cama.

─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande.! Não há ninguém de serviço. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!... é uma forma de dizer. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você.. ─ Esse não acredito que pague!.! ─ pila era tabu.. Evocam-se regulamentos..daí para a rua. ─ Ah! Pois. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. “cada um com a sua”. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. abrir o fecho da braguilha. fora de qualquer regulamento. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. mesmo dobrado. amanhã posso ser eu. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela.. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. as coisas acontecem e pronto! 82 . um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!.. aqui anda tudo às putas.. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. cumprem-se ordens. como aliás acontecia com os outros. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. ─ Mas .. Era grande o constrangimento..

a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. a espera animava o pessoal.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. falha de energia demorada de mais de uma hora. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. ai povo. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. alinhados em pelotões de 30 unidades. amigo canta. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. As sombras encorajavam a audácia. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. canta.

Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. com a denúncia do número de vítimas da guerra. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. Combinaram o essencial da acção primeira. assumindo o compromisso. A companhia (quase) inteira. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. o Luís 84 . e no rescaldo das cantigas. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. Naquela tarde de Novembro de 1971. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. entre muitos citadinos divertidos. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. o João. para garantir a segurança conspirativa da operação. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança.

com divisas que não vão além das duas barras de tenente. Todos estão em farda de trabalho. estava unido na acção contra a guerra. constituindo um labirinto intrincado. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. o Manuel. A sala dos cadetes é acolhedora. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. das salas. por um lado. feitas de pedra trabalhada. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores.Manuel. enquanto outros. tão diversos daqueles para que foi concebido. pretextando uma guerra santa. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. dos refeitórios e das camaratas. a timidez. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. o Fausto e o Duarte. Sempre acontece quando os nervos apertam. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. com frades de hábito e penitência. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. é urgente terminar a “tarefa”. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. 85 . espalhados por várias mesas. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. As conversas giram à volta de temas banais. mas a maioria são cadetes. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. polido o chão pela usura dos anos.

depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra.”. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. como um guincho. outros sons semelhantes. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. o ouvido à escuta de passos perseguidores. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!... “As instalações devem estar em boas condições. um desvio apertado na primeira bifurcação. um local frio e terrível. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto.. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.” – pensava João... Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada..subir alguns degraus. “Safa!”.. nada. mal iluminado. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . Um som agudo e estranho. subir e descer escadas. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. longos e frios. de porte elevado e cabelos brancos.. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. em pânico. À frente de um séquito. o desnorte nos caminhos desconhecidos.

Custara a pegar no sono. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. sair do pesadelo. comandante da unidade. acordar no beliche superior inundado em suor. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. são ratos. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. correr. 87 . certamente devido a pesadelos também. por detrás das lentes grossas. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. excepto algumas respirações mais agitadas. centenas de formas em movimento. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. ninguém se atrevia a levantar a voz. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho.habituando-se à escuridão percebem dezenas. Companhia de Instrução está tudo calmo. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. Na caserna pequena da 2ª.

mas se alguém for apanhado com as vinhetas. uns voltavam logo. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. foram coladas nos corredores do convento.─ Tem de haver muito cuidado.. escondendo a timidez e uma pequena miopia. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. a minha namorada escreveu-me!.”.] já bastam! Não à guerra colonial!”.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. não há nada para mim? Não pode ser. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos.. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. Por fim vieram três ou quatro cartas. vulgares na época.. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã.. A acção tinha corrido muito bem. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. denunciara a patifaria. num pátio interior mal iluminado.

quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . havia excepções. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. pela aproximação do ocaso. João precipitara-se para o exterior com passo estugado. porque apesar do sistema aperrado.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. não se via vivalma no caminho. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. certamente algum “menino” a caminho da cidade.. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia.. Andava e pensava para distrair a ansiedade. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. a norte.

bom para a recruta. independentes.).. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa.. nas bandas da Malveira.. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários.. ─ Cuidado!. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. existe um ambiente geral muito favorável. Trago a senha para o contacto que combinámos. Boa sorte para a iniciativa. esquerdistas. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. embora arrefecesse a “sentidos vistos”. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar.. socialistas. os dias eram cada vez mais pequenos.. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol.sugerido aquele local. em transição para 90 . a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. “Não jures.

tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. nos arredores de Torres Vedras. pelo menos nas costas dos instrutores. esmerando a pontaria com o “olho director”. com um tempo desagradável. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. Não há dois pôr-do-sol iguais. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. é sempre um momento angustiante. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. cada dia é sempre diferente. chuvoso e frio. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. mesmo que seja só em treino. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. orgulhosos da classificação na prova de tiro. * Durante a semana de campo. No miradouro não estava ninguém. dizia-se. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza.o violeta.

e muito menos a disparar. afilhados. tentando safar os filhos. não! Não posso!. a subversão aumenta!. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). generais. enfim. o oficial do quadro 92 . ─ Não. parentes.. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. altos dignitários da Igreja. iria passar por um mau bocado. Em requerimento ao Ministro da Defesa. mas não permitia.. a fina flor do nacionalismo. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. deputados da Assembleia Nacional. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. tinham um estatuto especial.. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. Eram filhos de boas famílias. empresários.especialidades. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto.”. etc. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses.. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. credores de favores. porque precisava de carne para canhão. latifundiários. E.

O cadete gordo. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada.. Não servia para “oficial de guerra”.permanente estava prestes a perder o “verniz”. levantando e baixando a espingarda. a arma começou a disparar. forçado pelo instrutor. atire ! A tragédia estava eminente. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. só por milagre ninguém foi atingido. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. normalmente sonolentas e ressacadas. e. de repente.. à beira de um ataque de nervos. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. ─ Eh. sob pressão da intolerância militarista vigente. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. baixote e 93 . NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. foi despromovido para soldado. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido.

nas janelas. nas paredes lisas. nas portas. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. logo apareciam noutros locais. No fundo da algibeira. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. ─ Ouviste? A barraca está armada. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito.. ─ Não jures camarada! Já disse!.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. ─ O quê.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. “quero essa merda toda arrancada!”. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. nas vitrines e até nas pautas.. Boa!.. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado.. ‘tás a coçá-los!. “não jures camarada!”. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. O velho convento de Mafra estava em polvorosa.. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . ─ Ah! Pois. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. ─ Essa é boa. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro.. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”.

Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. pela intimidação subsequente. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. a coacção e a chantagem..─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras.. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo.. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. . propositadamente. a hierarquia estava convencida de ter anulado. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. . pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. O major. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. 95 . a primordial agitação. Tacteando a cola com os dedos. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço.. A desorientação sobreveio. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f .

Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. Mas os corredores eram muitos. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis.. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Queria ver se fosses atirador como eu!. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. afixada em muitos sítios desusados.─ O carago. Por este tempo. futuros oficiais do Exército Português.. pois o outro chuveiro estava avariado... Providencialmente. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. com zonas mal iluminadas. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. até na sala do cadete: “. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 ...

agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. num quotidiano difícil. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. a rádio e a televisão. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. sobretudo o rapaz. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. era um gritante e duro contraste. um moço bem constituído. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. submetidos a feroz censura e controlo político. segundo a filosofia do velho Adílio. Os jornais. porque a terra era ruim. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. com particular destaque para o “Avante!”. mas na “terra prometida”. Junto aos hotéis de luxo. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos.guerra era debatida mais ou menos abertamente. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. aos solavancos.

sempre generoso com os portugueses humildes. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. nalguns casos. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. podiam chegar a cargos de chefia. numa época do início da década de 70.boné de pala “oficial”. Sobretudo se associassem ao 98 . era menos “aquele” que entrava. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. com um ar de arrumador encartado. numerosos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. incluindo no campo desportivo. empregados e operários. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. era o discurso oficial. se fossem interessados e cordatos. mal pagos. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. com poucas qualificações. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. nem feriados. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos.

99 . 11. o empregado de escritório. o engenheiro-sénior. 12 contos/mês.5 contos/mês. 1. uns mais à frente e outros mais atrás.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. Orava-se em acção de graças. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. claro! Um resto de bom dia. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. 14. trate disso! ─ Claro.. senhor director. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso.8 a 2. 4/5 contos/mês. 19 contos/mês. o engenheiro-júnior. a mulher operária têxtil. sem sobressaltos. anda a concluir um curso superior. minha senhora. 15 contos/mês. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. por classes sociais. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”.. ─ Senhor director. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. Nas vésperas da Revolução de Abril. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. para rezarem em comum. 18.2 contos/mês. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. chefe de secção. minha senhora. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor.5 a 3. ─ Está a tirar Educação Física!. 2. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. o operário especializado de horário geral. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. chefe de serviço. ─ a resposta não tinha grande convicção. o agente técnico de engenharia. 25 contos/mês.

hem! ─ Mas ir a Mafra. e de mais na tropa!.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. mas o “tio” Fernando-pai!?.. só lhe faltava o estágio. ó homem!.. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. no Domingo? ─ Eu gostava. para o curso de oficiais milicianos. prestes a terminar: ─ Alberta. por 100 . quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema.. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. com o curso quase acabado. Entretanto fora chamado para a vida militar. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura.. Combine lá com o “ti” Fernando.. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. Mas não havia nada a fazer. o seu filho sabe o que faz.. ─ Esteja descansada. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.

* As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. Depois.. Gostava de assistir mas compreendo a situação. quando o emprego e o salário eram certos. Se queres ir vai tu e a tua nora. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra.. num pobre mister por conta própria. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. não é fácil a deslocação!. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. este ano precedido de 101 . até que sobrevieram os “balões”. subsequente ao despedimento. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento.melhores salários e condições de trabalho. ─ Tu é que sabes. preparando-se para o ritual mitificado. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. iam formando segundo o que estava instruído. em alas amplas e espaçadas. amor . e pela luta diária pela sobrevivência. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. O carinho prodigalizado ao filho na infância. ─ Talvez seja melhor não irem. não morriam de amores pela situação. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada.

. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões.. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. certamente sobre a ameaça de represálias. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. provavelmente os tais “pides”. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo.acontecimentos muito interessantes. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido.. Cá para trás reinava um silêncio murmurado.” ─ o alerta percorrera as casernas. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa.

.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor... ouviu! Se não se explica 103 . não telefona para ninguém. sou contra isso.. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República.. na Escola Prática de Infantaria de Mafra.. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. . tinha agora um bode expiatório. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão.sistema sonoro. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel.

poucos. bebidas variadas. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. ─ Dá-me licença!. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. acepipes. frutas. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. copo na mão.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. característicos da castrada burguesia nacional. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. A instituição militar EPI. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. etc. agora disfarçado com aperitivos. ficara à beira de um ataque de nervos. Nem era tarde. doces. perna de frango na outra. camarão. por vezes mesmo medíocre. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim.. acordada de madrugada. risos nervosos e traseiros espetados. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. Desculpe. etc. carnes frias e quentes. saladas. e senhores engravatados a rigor. nem era cedo. bolos. no velho convento frio e austero. muitos daqueles cadetes imberbes. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. de gastas pedras nos longos corredores. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua.. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. Pavoneavam-se alguns. as mesas brilhavam de iguarias.

enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja.! 105 .. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. Suspeitava-se haver revista à saída. o melhor era ficar para o fim.. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “.. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. De facto não o vi . o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. numa última passagem sem retorno.. a última barreira foi assim passada calmamente.. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. quando o cansaço afrouxasse a vigilância... Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. com pouca pinta de militar....colonial!”. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. mais o “material sobrante”. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria. sim. conheço.). Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”. “Certamente estaria a arrancar!. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. ─ Boa noite! Por favor. Yota da Purificação” (. ─ Sim. Transportava o mesmo saco da chegada.

O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. igualmente com ar distinto.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.. em Janeiro de 1972.. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. Nada de grave! Lá informam-na melhor.. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra. 106 . dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. sinal distintivo da origem de classe.. seria noticiada no “Avante”. no gabinete do oficial-dedia!.─ É que já passaram todos. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. naquele Dezembro de 1971. ─ Obrigado! . último a deixar o convento. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. estamos aqui à espera .. As duas dirigiram-se para a porta de armas...... lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!.. ─ Mas . postada a alguma distância.

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. imaginários adoradores pássaros. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. Animistas. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. de animais e da a Natureza. 108 .ÁFRICA.

Estes povos sedentários praticando a agricultura. subentendia uma organização social e política evoluída. a Zâmbia. minas. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. o Zimbabwé e parte de Moçambique. canais de irrigação. pouco antes da chegada dos portugueses. no interior da Rodésia. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. forjas.Esta actividade artística. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. sepulturas e pinturas rupestres. estradas. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. Quiloa e Mombaça. a Tanzânia. quando estes. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. a caminho da Índia. numa zona de ruínas ancestrais. enriquecidas pelo 109 . Melinde. cidadelas de pedra. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. socalcos à volta dos montes para a agricultura.

da Índia e até do Extremo Oriente. feito através de numerosos intermediários “mouros”. com uma economia assente na agricultura. encontraram um comércio progressivo. cobre. vindos do Norte. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. essências e faiança chinesa. faziam de entreposto com os reinos do interior. trocando directamente tecidos. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. contas. ferro. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. Organizadas em cidades-estado. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. especiarias. marfim e escravos. por ouro. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. numa organização de tipo tribal-feudal. na pastorícia e na extracção mineira. que já utilizavam inclusivé a moeda. com o 110 . estes em escala reduzida. com quem comerciavam há mais de um milénio.

..beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. Como todos os imperialistas.”. mas neste intento viriam a ser derrotados. agente real de Sofala. Por orientação da Coroa. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. Pedro Vaz de Soares. Como um erro nunca vem só. levaram pouco tempo a desvanecer-se. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras.. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. retrógrada e oportunista. novas oportunidades de negócio. queriam muito e depressa!. Em 1513. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. pela sua ignorância e pela sua ganância. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!.. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África.

quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. estranha. luminosa. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. em 1498.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. no terminal militar de Figo Maduro. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. húmida. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. familiar. o mais alto 112 . Quando a guerra colonial começou em 1964. quente. nas margens do Zambeze. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. em Sena e em Tete. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. Em 1561. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. de Lisboa. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. no “Boeing” da Força Aérea. fresca. embarcava-se à meia-noite. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. No início da década de 70. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze.

entroncado e de estatura média. normalmente reservado. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. ─ É a proclamada multirracialidade!. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. tal como Lourenço Marques. A Beira era uma cidade moderna. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. o sulista trigueiro e magro. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. alto de estatura e seco de carnes.. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. sempre eloquente nas afirmações. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. compunham um quadro de modernidade. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. baixo e já com acentuada falta de cabelo. moreno. pendurados no exterior da rede da vedação.. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. ─ desabafa o Eduardo. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa.

─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. ─ O que estavas à espera?. Chegaram atrasados ao jantar da messe. quando ficaram sós. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. que já ia avançado. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. O criado negro andava numa fona. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. ─ Sim. foi a primeira vez que lá fomos!. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes.. sem qualquer cumprimento. dava assim as “boas-vindas”. enquanto se retirava após comer o pêro. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 .. ─ O jantar começa às sete. não atendeu logo à chamada.. mais novo. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro..realidade.

Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. 115 . no regresso a pé. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que.. Duplamente preocupado. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. onde estavam os soldados aboletados.. ─ Pois claro. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. ─ Furriel. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. Miguel. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses.. Ouviste a resposta do “Furnas”?.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”.. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. faziam um excelente cozido à portuguesa. rapazes humildes e simples. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. diziam. ─ Se calhar. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida.

. É preciso ajudar.. mas a família. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora.. é essa a intenção. ─ Olha o que nos espera!. a minha mãe viúva!.. por dentro. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. ─ Também pensei nisso. se saísse à tabela.. à beira da linha de caminho de ferro. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 .. ─ Quanto mais tarde melhor. Dezenas de soldados e alguns graduados. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. preocupavam-se à volta de malas e sacos.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago.. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. disso não tenhas dúvidas. por dentro. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.

o coração salta: 117 . já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. Os militares seguiam nas carruagens do meio. aguardando a ordem para embarcar. o combóio pára.. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. tinham um aspecto sumptuoso. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. na retaguarda. Eram tropas frescas a caminho da guerra. trum-trum”. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. à volta de sacos e trouxas. sobretudo mulheres de capulanas garridas. Duas máquinas a vapor. sem resposta.. simpático no trato e já em segunda comissão. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. A viagem decorria na noite de sono. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. a marcha abranda. A velocidade aumentava. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. trumtrum. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. puseram o longo combóio em marcha lenta. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. resfolgando.carreira. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. Na noite de breu. onde se juntavam dezenas de negros. atarefadas com filhos às costas.

.. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. vai ser um enorme benefício para a economia da província. só lá mais para a frente!. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. ninguém explica. A manhã aparece com um Sol fulgurante. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco..─ O que aconteceu? Ninguém sabe. bem vestido e curioso. embalados pelo andamento monocórdico da composição. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. Lá fora não se vê vivalma. o pessoal vai adormecendo. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. é fresca a brisa que entra pela janela. O cansaço vence a ansiedade. Poucos dão pelo recomeço da viagem.. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. formando esplendorosos contraluz. mais duas que em Portugal. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. irão esquecer essa doce sensação. Duas horas da madrugada. sonhando com a cama quente no lar distante.

produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . A menção do grande país da África Austral. os ingleses. o material de guerra é todo russo e chinês. os americanos. Abrindo caminho à força de espada.. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída.─ A guerra é uma coisa terrível. a África do Sul?!. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. como depois foi baptizado. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. a Rodésia. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior.. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”.

roído pelas guerras internas. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. rigidamente autocráticos.. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. procurando enriquecer pela simples pilhagem. O génio individual que punham nas suas empresas. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil.. ferro.notícias fantasiosas. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. viriam a ditar a ruína. Por volta de 1667. cobre. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. 120 . na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”.. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. a coragem. na obra já referida. a concessão de todas as minas de ouro. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. como refere Basil Davidson. editada em 1960:. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes.. A coberto das suas armas de fogo. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. Em 1607. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. chumbo e estanho no seu território. comportam-se como malfeitores. os seus métodos de governo. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império.

fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. no primeiro século e meio de ocupação? . Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. foi. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria.. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro.. quando esta faltou também lançaram-se 121 .. Os seus vizinhos do interior de língua banto. E o que fizeram afinal os portugueses. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita..). o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. segundo a documentação histórica. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. glorificados descobridores. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. ou do tipo negróide.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza.

Logo no reinicio.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. perceberam-se os cuidados no avanço. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. ─ Basil Davidson. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. manhã cedo. a partir dali. na obra já referida ─ . qual cabeçorra disforme. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. o comboio não circularia mais de noite. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”.

─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo.. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. mas o 123 . em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. calor. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. ─ Ei! Sou do Barreiro!. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta... ─ Isto é um buraco medonho. Cinco homens num destacamento. como por encanto. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. onde em contrapartida. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. passando fome. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. tudo na mesma! Vamos para.período em pleno campo inóspito. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. mas não se viam construções no horizonte visual.... ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. frio. ─ Vai bem.. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. O calor era intenso. onde se divisavam apenas pequenos arbustos.. Do chão.

hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. Após uma longa curva feita lentamente. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. ─ Então adeus! Boa sorte. endureciam os semblantes. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. ─ ‘Tou farto disto. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. com o medo de os irem “pegar à mão”. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia.pior era à noite. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos.. pá! Calma. pondo fim à conversa. venham cá eles fazê-la!. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha.. barbados de dois dias.. fizemos a picagem logo de manhãzinha. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada..

muitas. houve risos. não pediam. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. registando a chegada de dois “amigos do homem”. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. pensava que os comiam todos! Risada geral. não riam nem brincavam. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. O pessoal precisava de descomprimir. não barafustavam. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. só então a ganilha animou. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. ─ Não te preocupes. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. esperavam somente. Esperavam pacientemente e não diziam nada. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes.

. grandes e brilhantes nas crianças. ─ Verdade. Risonho e desmiolado. surgido do mato. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral.. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. estás a engatar-me!. Olhavam surpresos com olhos esquivos. em Tete. mas ninguém estava sentado no chão. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. amontoados entre trouxas. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. As carruagens da frente eram muito velhas. malas velhas e caixotes com galinhas. onde dois ou três soldados disfarçaram. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. apareceu risonho e agitado.. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. com divisas..soldado Edmundo. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. quando viram aparecer o 126 . quando se abriram as portas de Abril. com bancos curtos de ripas. O comboio era muito comprido. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!.. moço robusto e bem parecido.. ensebadas pelo uso.

o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. os irmãos. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. a emboscada. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade.grupo de furriéis.recomendava o capitão. homem novo. a mãe. persistente. Onde estarão a esta hora a esposa. maravilhando os olhos na beira-rio. a companheira. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. a mina. a morteirada. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. os pais. ─ Tem juízo. Afinal. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . a namorada. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs.

sob a sua influência. concitando olhares curiosos.. um tenente-coronel que. 128 . Claro. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. correndo energicamente para o vale que. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. parecemos discípulos de Fidel!. ciosamente guardada. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde.. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. oportuno. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. muito cedo. para chegar à costa oriental. sujos de pó. foi instituído o “Regime dos Prazos”. uma semana era passada. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. tinha o seu problema resolvido como sempre. ─ Assim com esta barba de três dias.exasperado. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. ─ discorria o António Manuel. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze.

o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. A situação só animou nos meados do século dezassete. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. formada por Angola. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. para a futura abolição da escravatura. com muito pouco êxito. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. enxameou a colónia de deportados políticos. no Congresso de Viena. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. separado definitivamente da dependência da Índia. Moçambique era um território arruinado. No começo do século XVII. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. princípios do século XVIII. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. Cabo Verde. quando foi incrementado o tráfico de escravos. mas na Zambézia. Moçambique e Brasil. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. dominada 129 . No final do século. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”.

Mzila.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. chefeguerreiro dos invasores zulus. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. transformando num deserto essa vasta região”. Instalações 130 . vindas do Sul. cidade de passagem. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. As pequenas colónias no interior. pó vermelho e castanho. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. conta-nos Bryant: “Em 1860. a ideia foi repudiada e não vingou. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). casas brancas de estilo arabizado com terraços. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. ruas largas. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. na Rodésia. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. pouca gente nas ruas.

muito calor. sul-africanos. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. na língua nativa. entre outros. Concluiu o excelso expedicionário. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. o Sol queima e há poucas sombras. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. alemães. por isso a Frelimo quer destruí-la!. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. 131 .. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. é uma cidade sem espaços verdes. no lugar de Cahora Bassa. onde viria a falecer com febres. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. rodesianos. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. ingleses. outra vez a malfadada ração de combate.militares por todo o lado. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. Meio-dia. mesmo com o rio a seus pés. o Zambeze. ditando o desinteresse dos ingleses. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. Comprido caminho de água.

percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados.. A estrada continuava para o Songo. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. O projecto hidroeléctrico quando terminado.. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!.. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. possuidora do regime mais racista do continente africano. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. por máquinas da Engenharia Militar. e.. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. por isso a grande nação austral. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. na defesa da antiga colónia. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. “pró 132 . percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. só cá venho safar o “coirão”. ─ E se fosses à merda!. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. A via alcatroada era um luxo raro. ao encontro do gigante em construção.

respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. Soaram tiros longínquos. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. só se ouviam os motores roucos em aceleração. Estar na guerra aprende-se depressa. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. estávamos no reino da guerra. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra.concluía ainda o soldado-condutor. os camiões seguiam mais devagar. a estrada acabava e começava a picada. mas pouco ou nada se divisava. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. a engenharia militar ainda ali não chegara. Sousa. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . seria fácil montarem uma surpresa. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. incluindo algumas paragens para reagrupamento. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. lentamente. Ao fim de quase três horas de viagem.galheiro”! A mata era densa. Em sentido contrário o trânsito rareava. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. percorridos cerca de 120 quilómetros. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 .

domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. primeiro classificado. A alegria de uns era a apreensão de outros. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. a lógica da campanha militar era.. a conversa continua no bar. poeirentos. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. A guerra é naturalmente o tema central. o veículo continuou a marcha devagar. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. e só agora o António Manuel. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. construído em paliçada de troncos. símbolos da tropa especial. e um deles. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. ninguém saí dos trilhos. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. ninguém se atrevia a abrir a boca. num portento de força impressionante. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado.. do qual se avistava o Zambeze. agora outros que dêem o coiro!”. correndo escuro e caudaloso. alargada a alguns civis presentes.silêncio. Os recém-chegados. atreveu-se a responder timidamente: 134 . E a guerra ficava mais próxima. soturnos. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. * Estima: um posto de defesa na picada. “já cá estamos há muito tempo. com granadas e fieiras de balas à vista. de nome Trindade.

está contra nós! Vocês são novos aqui. junto à fronteira com a Rodésia. A todo poderosa PIDE/DGS!.─ Mas. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul... embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu. ─ Quem não está connosco. ─ Ah! Cá como lá. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. ─ António? Que nome curioso! 135 . pelos vistos. para os lados de Mucumbura. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”.. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos.. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António.. e as populações! A acção psico.. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?.

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

em 1968. o comando das Forças Armadas portuguesas. Entre a surpresa e a desorientação. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. Cabo Delgado e Niassa. esteve circunscrita aos distritos do norte. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. 137 . Também o reino do Monomotapa no interior. Em resposta. tinham fortes tradições independentistas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Quelimane.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. e os Macondes nos planaltos do Norte. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Sofala. na região de Mueda. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. com um ataque ao posto de Chai. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. Ilha de Moçambique). nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. Durante este período inicial. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964.

Calado de seu nome. controlada pelas tropas auxiliares africanas. Em Setembro do mesmo ano. O ódio instala-se. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. uma companhia de “comandos”. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. Trindade. à época bispo de Vila Cabral. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. e dos padres anglicanos. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. locais e nomes. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. e os Direitos do Homem. em Abril de 1971. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. para os aldeamentos cercados de arame farpado. onde. tropas da Rodésia de Ian Smith. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. na aldeia de António. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. Depois de descreverem em pormenor com datas. em Maio. Valverde e 138 . Nijs e John Paul. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. Em Novembro. Em Tete. acusado de colaboracionismo. reconhecidos por Portugal na ONU”. pouco escutadas no entanto. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo.

(. são os governantes políticos e militares de Portugal. onde iam de férias.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. numa conferência no Reino Unido. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (.. torturados e assassinados.. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. devido à sua língua.. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. Os africanos.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos.) O povo de Moçambique. até Novembro de 1973. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. raça.. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. sem julgamento ou culpa formada. corajosa e claramente. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . cultura. são perseguidos. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. porém. De hoje em diante. em 2 de Janeiro de 1972.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português.. costumes. sem qualquer ambiguidade. Cabora Bassa Em Março de 1968. mentalidade e até filosofia.. Nesta data foram expulsos de Moçambique. deveria estar a Igreja. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está.

(alemães. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. em Julho de 1968. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política.milhão de colonos brancos. Estima e Chipera. rodeado por uma vedação de arame farpado. é um campo entrincheirado num meio hostil. etc. em 8 de Março de 1968. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. que devia ser defendida a todo o custo. A empresa construtora Zamco. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . no dizer indígena. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. assente nos aquartelamentos de Chicoa. italianos. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. e para isso. vertidos no caldeirão da guerrilha que. ingleses. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. a afirmar o desejo independentista. No concreto. inteligentemente. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. Cahora Bassa. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem.

minas. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. Furacungo. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. minas! Fuga e reagrupamento. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. 15 de Novembro de 72. Depois atacou sucessivamente. minas. flagelações. As notícias chegavam em catadupa. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. constituía-se em forças irregulares. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. num só dia. eis a nossa táctica. Chicoa.Moçambique. Fingué. embora os estragos não fossem de monta. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. apoio na população. a Base Aérea nº 7. No dia 9 de Novembro de 1972. emboscadas. com a ajuda da República Popular da China. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. em Tete. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. a linha de caminho-de-ferro 141 .

O comandante-chefe. ao longo de 8 quilómetros. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. silenciosa e traiçoeira. e os técnicos sul-africanos e europeus. também assumira esse compromisso. foi sabotada na região de Moatize. controladas e permanentemente patrulhadas. 142 . divisava-se o rio escuro e caudaloso. Entretanto. Kaúlza de Arriaga. pela primeira vez. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. Assim se entretinham as forças portuguesas. com raras excepções. A mão-de-obra rodesiana. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. com uma força desconhecida. cinzenta e castanha. uma tarefa que o comandante-chefe. Deste lado a vegetação era escassa. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. O pânico instala-se e. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. separando inexoravelmente as duas margens. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. com algumas portas apenas. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. e em 25 de Setembro de 1972. no eixo Beira-Vila Pery. Kaúlza de Arriaga. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida.

O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. mecânico de armamento. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. causando arrepios a viagem entre as duas margens. A água de um castanho terroso. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. Foi há uns três anos. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. companheiro de 143 . conta-se a meia voz. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. nascida e crescida sob a protecção das tágides. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ Aqui não.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. mas mais acima houve um desastre terrível. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa.

a jangada entra em estremeções. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. onde a água era mais agitada. Um camião “Fargo”. o camião desliza mais um 144 . Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. e aumenta também a trepidação.formação do António Manuel. descaiu para a frente a meio da viagem. o alferes Baptista resolve intervir. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. ajoujado de carga militar. aproximando-se da extremidade sem anteparo. por certo deficientemente escorado. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada.

e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. outros procuram nadar energicamente para a margem. Sem comando não havia acção. com comando mesmo errado. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. a corda que prendia a viatura partiu-se. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. Com um formidável estampido. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. o abrandar fora fatal. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. ou porque não tinham meios de socorro. em desespero. a jangada porém. no meio de uma gritaria medonha. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. cinco ou seis homens. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . ficando suspensas no vazio. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana.

Uma noite mal dormida em cama emprestada. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. mantimentos e munições. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma.Ao serão. Por isso a trasfega não fora completada. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. e 146 . 101 soldados e graduados. Ao todo. provocando o deslizamento da segunda viatura. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. em poucos minutos. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. soldados e nativos. Metade da Companhia tinha feito a travessia. um sono em vigília despertando ao menor ruído. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. .mais abaixo. era um sol diferente. mas os restantes corpos nunca apareceram. que arrasta consigo mais alguns homens. Tudo se passou rapidamente. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. na messe. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. * A tarde chegou ao fim. numa operação cuidada e lenta. Alguns nadadores atingem a margem. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. material de guerra.

por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas.. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. os três amigos não se afastaram da zona do motor. com malas. 147 . embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. prestes a ser rendida ─ Sim. homens e armas. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor... os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. Numa das primeiras viaturas. ─ contava um furriel operacional da companhia local. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. são por vezes replicadas.. aqui quando chove. houve um acidente com muitos mortos. bagagens. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. Se houver alguma coisa.. Mais mais para montante. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. . amigos. o rio faz favor!. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar..revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. Parece que não!.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. mesmo que cheire a gasóleo. Histórias de guerra contadas no próprio teatro.

com um timbre familiar. peremptória.. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Na luminosidade da contraluz matinal. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . ─ Neste sítio não é provável. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara.* Reinava uma estranha calma na Natureza. ─ Continuem a picar. ─ Mas. No silêncio ensurdecedor..” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. embora ocultas pela folhagem densa. metálica na extremidade. Calaram-se. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. não-operacional mas com algum traquejo da vida. meu alferes. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. nem piar de pássaro nem som de animal. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. inquieto. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada.

Trrrr. Baumm!. António Manuel.desde o destino final. dois. Sierra. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa. Baumm!. enche a noite quente de Verão... era 149 . o negrume cerrado da noite africana. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção.. vestido a rigor de camuflado sarapintado... mesmo jogado com pouca convicção. o parceiro das partidas escaquísticas.. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.. Tango . vinha um homem de cabelos claros: “Será!?.... propôs o empate. Mike. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região. Bravo . ─ Parece estar a acontecer algo de grave. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. Sierra . Trrrr.. Alfa.. a guerra continua O som distante e abafado.. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia.. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. embora nítido.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco.. Sierra.. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa.. Alfa. O batuque vai começar.. três rebentamentos Baumm!.. Trrrr.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes.....

Baumm!. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. iluminado por fraca luz interior. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. Baumm!. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se.. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. A 150 . vozes abafadas... na noite anterior.. * Manhã cedo. e fazer o reconhecimento da zona.. a messe e a porta de armas. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. em Agosto. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. ─ A seguir somos nós!. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. os “turras” mandaram só umas morteiradas.. Os rebentamentos não cessavam. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ).. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. madrugada ainda.. Já há três dias que fazem sinais nos morros. a cantina. com uma experiência de oito meses. ─ Foi assim. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio.

. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. o alferes Yota. À hora do jantar chegou a terrível notícia. o pelotão já partira. Mas. Ao lado. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. a partir de Chicoa. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. esteve comigo na recruta em Mafra!. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. eludia o sobressalto.. que ficara sem um pé. levantando-se desaustinadamente... eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. João . fazia uma 151 . Ah! Aí está. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. concluira João. ─ observava o António. havia dois feridos graves.. ─ acrescentava o Sousa. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. À noite... nomeadamente o comandante. A fisionomia era-lhe familiar. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse.. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. cândido por feitio. ─ Nada.. ─ Yota?. com ar de desaprovação. ─ com a metáfora. Agora o sono cortado vencia a emoção. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. agora já cheirava a sangue..

A História não pára e o Mundo avança.ideia diferente! ─ Sousa. Aos milicianos chantageiam com as férias. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. o trabalho na fábrica. ─ A guerra colonial tem os dias contados.. ─ o António Manuel nascera na beira-rio... ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. embora algo sentimental. sofria a saudade da Pátria distante. nas populações e nas nossas tropas. e estas crianças andrajosas e famintas!. assumia a contradição. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. a discussão prometia. No teatro de guerra. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. o mais sulista do grupo. quando elas começarem a “cantar”. de estudos e vivência. no interior de uma África estranha e quente. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império.. ─ A realidade é tão chocante. Idealista. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. desde muito cedo. Talvez mais cedo do que tarde!. como faz o Movimento de Libertação!. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. onde deixara a esposa jovem. dava-lhe uma consciência aguda da situação. violentados. parte maior das agruras da distância. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. o 152 . a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade...

ao fim da tarde era sinal de alerta. * Havia um mês que ali estavam. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. entre morros altos apertando a vista e a alma. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. a luminosidade 153 . sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. em 1970 e 71. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. de pele branca. indiferente aos dramas dos homens. pois era sua a decisão táctica. tal como ao mundo chegou. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro.medo misturava-se com a revolta. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. temendo o perigo iminente. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. na dilacerante guerra de guerrilhas. O aparecimento de “very-lights”. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. tentando detectar qualquer indício identificador. ainda que disso nem todos dessem conta. que também ali se construía. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. A Natureza.

segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. Pouco a pouco. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. ou de zinco.quente impressionava ainda a retina. 154 . um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. Deixava o interior das instalações militares. O alarme soara falso. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. Constava à boca pequena. fora destruído e abandonado há alguns anos. começaram a voltar às casernas. como eram conhecidos na gíria militar. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. Era assim no coração de África. torturados pela inclemência solar. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. cobertas com telhas de fibrocimento. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. devido à forte influência da guerrilha na zona.

em grupo.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. combinou-se uma visita à aldeia. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. dispersos entre brincadeiras ocasionais. A excepção eram as moças novas. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. autorizara o batuque aos sábados. para matar a fome.. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. outra 155 . trazia à memória os célebres filmes da juventude. Envenenado estava tão-só o ambiente. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel.. um major mal conhecido e mal encarado. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. vestidas com capulanas de cores garridas. por questão de segurança. nem havia setas envenenadas. Estavam em grupos. Ali não havia selvagens de tanga. que na tropa não se podia abrir a boca!. remoendo as dúvidas e a desconfiança. para manter o ânimo das populações!. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). Recentemente. local mais calmo e “arejado”. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. o homem macaco”. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. com corpos musculados e peles luzidias. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos... Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. da saga “Tarzan. Ao quarto fim-de-semana de estadia. tão-pouco adolescentes.

A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. a de lacaio da administração colonial. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. aquele era um clima muito seco. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. eventualmente!?. Decerto clientes de “cuspo”.. Afinal não tinham ficado para o batuque. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo.. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. com menos humidade.profissão rendosa. 156 . Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. com divisas. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. a noite chegou mansamente. Porventura. rompendo o soluço. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. mais perto do Índico. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. ─ Talvez tenhas razão.

pelos vistos. É a primeira ronda de serviço. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. O aquartelamento é grande. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. patranhas e acção psicológica. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. Desde essa data. dispersos e muito afastados. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. poucos. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. Na noite escura por caminhos esconsos. a guerra continuava. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . a alma aperta-se e os sentidos despertam. com uma única saída para a picada. daqueles. e para sul até ao aldeamento. ligados por atalhos ainda não memorizados. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. uma área enorme cercada de arame farpado.E quem concordava? Muito poucos. Ao todo são oito postos de guarda. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. o batuque ia começar na aldeia. bem no interior do istmo central moçambicano. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. e. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. aprendido há poucos dias.

O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. todos os acontecimentos. antes de desabar uma curta tromba de água.. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!. não quis dar parte de fraco!. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. o sobressalto aperta-lhe o peito.. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. ─ Achas provável? Nunca constou!. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se.. De repente a chuva 158 . ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia.tiro!?. acidentes ou fenómenos naquele local.. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante.... pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde.. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. João vai avançando de modo inseguro. paciência!”. não! Pois.. reportavam à guerra. ─ Pois.. não! Na Guiné. Abafava-se no quarto completamente fechado. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. O coração acelera desordenado. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. Sousa olhava o tecto. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. eventos.

por miríades de riscos ziguezagueantes. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. 159 . O receio esfumava-se. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. Fundindo-se na terra. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. no caminho do segundo posto de vigilância.. nenhuma claridade ofuscante.parou. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. rasgado a muitos. ─ Quem vem lá? Alto. tão radicalmente como tinha começado. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. Nenhum som.. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. siderado. nenhum rumor distante. com reflexos azulados e avermelhados. A velha África das origens humanas. muitos quilómetros. esfumou-se na noite.”. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. coloridos em tons de prata e ouro. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. o jovem militar.

é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. Pregou-me um susto. meu furriel! Conhece? ─ Não. ponho-me para aqui a contar os raios!. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.. apertavam como tenazes o coração dos homens.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância.... ─ Aproxime-se para verificar!. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. fugaz. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite.. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo... Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. E é espantoso. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. açoriano como a maioria daquele batalhão. * 160 . ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. ao longe. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.. Ah! É o furriel da secretaria. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade.

O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. suspeitosamente simpático. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. Gestão tropeira. agora é só ensaio. durante a manhã após o serviço de ronda. o correio era o elemento existencial mais 161 . mostrava-se normalmente pouco compreensivo. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. e pronto! ─ Deixa lá. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. Valia o facto de ter combinado a compensação. com prejuízo dos alimentos perecíveis. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. justificas ao capitão. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. com o chefe da secretaria.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. certamente superior à poupança. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos.

. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis... mandadores sem lei. Fora uma noite premonitória.. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.transcendente para aquela rapaziada. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. meneando a cabeça. A desconfiança suplantou a curiosidade. comandante de companhia. como iria ser o dia? 162 . num circulo nauseante de imponderabilidade. exibindo-se papéis. Após uma pequena entrevista no alpendre. o comandante interino do batalhão chamou o capitão.”. O centro de gravidade do corpo leve.

DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.6. 163 ...

Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa.... amigo das ideias. ─ observava. percebendo que algo de 164 . o oficial alto e escuro. Tinha até ordens para o algemar. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. Começava a ficar irritado. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. depois do primeiro choque. Alguns camaradas observavam atónitos. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. nem um mandado. Nem mais uma palavra. isso vai afectar o moral dos homens. o amigo ao receber religiosamente o material. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. nem uma explicação. O comandante interino do Batalhão. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. candidamente. com modos de polícia. de G3 pronta. mas ninguém tinha dito nada ao visado.. um major que mal conhecia.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel.

sem coragem para comentar na hora da despedida. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel.. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. de que falava a mensagem. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!.. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. se não se importa. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”.. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. agora com uma cama vazia.. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!.. em jeito de despedida. Até sempre. ao fim da tarde igual. Olhou-o com ar reprovativo. está enganado! ─ “Meu tenente”. onde o dia-a-dia continuava tenso.grave se passava.. Em Chipera. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. a calma em pessoa. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. empertigado. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. pelo despotismo do comando militarista. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!. trata-se de um indivíduo perigoso. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado.

vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. o jovem alto e magro. Era um homem já 166 .circulando subterrâneas. da delegação da PIDE/DGS em Tete. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. com um ar distinto no ambiente despojado.. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. era compartilhada por um negro ainda jovem. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. perturbantes e insidiosas. afirmando também a voz. Por detrás da secretária da sua importância. A cela dos fundos da delegação. Horas depois.. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. No outro. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. da barba feita com lâmina inusitada. com cor macilenta e sinais de cortes na cara.

sem qualquer divisória. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. Retomando a tarefa de limpeza do chão. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho.maduro. mostrando ser o mentor da cela. senhô! Gosta de ver limpo. Um mainato muito jovem. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. ─ Nhambo! Que tá fazendo. embora encorpado. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. ─ Sim. colocados a um canto. curtido pelo sol africano. acha? 167 . estavam estendidos três colchões de espuma fina. rapaz ainda. Junto à parede contrária à porta de entrada. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. com um tom acastanhado na pele exposta. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. única abertura para o exterior. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. né! ─ respondeu o jovem corpulento. ─ Não tem mais tronco. ─ Fique nessa! Tem mais luz. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório.

num trejeito efeminado: ─ Vá. na tarde quente e esplendorosa. De vez em quando. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago.. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. ─ Eu sou Silveira. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. num breve instante. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. a cara redonda e luzidia. deixava ver a farda recentemente despida. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. Aberta em cima da cama de circunstância. com uma cor amarelo-alaranjada. às voltas com uma mala preta de plástico. resplandecente e implacável. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. para de novo pousar os olhos no chão. que lhe tinham trazido há minutos..! ─ acrescentou. furriel do Exército português . saindo a menear o rabo nutrido... cegando quem ousasse desafiá-la directamente.. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . ─ Eu sou fulano de tal. manipulada para retirar o pijama. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem.. não seria conveniente. ─ interrompeu a resposta..─ respondeu o miúdo a sorrir. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez.. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . mas adivinhava-se uma bola magnífica. que não deixava perceber o “fio da meada”. e 168 . quase fugaz. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene.

segundo lhe contara o camarada das “Operações”..”. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . na direcção do mictório. provavelmente!. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. ─ comentara João.mais não disseram. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã.. desviando o olhar súbito. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. acrescentou ─ venha comigo. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna.. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção.. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. lhe arranjara. De súbito. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. como recomendara a jovem esposa com carinho. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. depois de confirmar a identidade. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente.

. escreva só a morada de destino do telegrama. percebendo certamente ser transitório.. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. não é necessário. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma.. e aos meus camaradas de tropa. ─ Deixe estar. ─ Como assim. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. olhavam curiosos para aquele “luxo”. mais do que a cabeça. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. menos bem desenhadas do que era costume. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. é claro!.─ Chico. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. O coração. gosta de viver ao ar livre. com indicação de posterior devolução.. Os dois primitivos residentes da cela.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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“Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. ─ Também ouvi.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. activos e combatentes. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. desorientado. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais... com a G3 caída ao lado.. no Norte. sim. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. A inquietação não permitia apreciar 178 . No ar perpassava um fluído etéreo. LOURENÇO MARQUES. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. Faltava uma bala no carregador. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento..! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente.. Ansumé ficara arrasado. sobretudo brancos. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem.. Talvez sejam mulheres. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita.

Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. rumo à “Vivenda Algarve”.. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. no coração de África. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. ─ Temos de ir.. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. vigiada por dois agentes com cara-de-pau.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. roubando o ângulo de visão e a serenidade. 179 . mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. nem sempre concretizáveis. O polícia dava mostras de nervosismo. desde Tete. onde a geografia era mais agreste. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. a sede da PIDE/DGS. Talvez fosse.. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!.. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção. até à sede em Lourenço Marques.pormenorizadamente a paisagem. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele.. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. Os “pides” não se tinham afastado um segundo.. nem sempre concretizadas. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?.

no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. nem utensílios. protegida por uma rede metálica. Chipera Velha. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. A cela com 2 x 4 metros. nada!. pois não queria. em Tete. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. onde estava enfiado há mês e meio. nem asseios. na confusão dos dias de angústia da prisão. que substituíram os dias de angústia da guerra. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. 180 . pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. Era todo o mobiliário existente. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. num canto. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. Mas a solidão e a insegurança presentes.. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”.. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. não podia fraquejar. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE.

porém.Batendo as asas na noite calada. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). humanamente insuportáveis. que reconheceria em qualquer parte do mundo. puxado entretanto. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. não seria prudente. Tal. Voltou o silêncio profundo. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. 181 .Acordou (quanto tempo depois?).” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. paralelo e gémeo. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. Reinava de novo o silêncio. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar.. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Apurou o ouvido. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”.. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. até que o assobio reapareceu.

o Ary. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. até à comoção das lágrimas. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. cantaram e recitaram.eles comem tudo. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. o Braga. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. SARL.!”. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. 182 . tocaram. na Faculdade de Ciências. o Paredes. à rua da Escola Politécnica. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. SARL. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. O anúncio de um título bem imaginado.. que tinha a coragem de ter medo. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. aquela noite de coragem e fervor antifascista. eles comem tudo. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. encostadas precariamente.. O Zeca. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos.

fora reveladora da mentalidade militarista. meu comandante. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. O primeiro comandante. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. um tenente-coronel. Andando de quartel em quartel. pá! O 183 . era como a maioria dos oficiais-generais. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. O novo comandante. Em suma. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. numa estranha itenerância nómada. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. em menos de quatro meses. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. era o terceiro. de “guerra em guerra”.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. tratando-se de uma nomeação interina. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. por ordem cronológica... mal tinham acabado de chegar.. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. em meados de Outubro. ─ Põe o barrete. pá?.. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. O segundo.

general Kaúlza de Arriaga. do comandante-chefe. com três feridos graves como primeiras baixas. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. até 184 . dois com a guarda pessoal.barrete é para usar. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). Chiça!”. foi muito elogiada a “fachada”. com um soldado sem pés. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. Por isso. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. a trabalharem nas limpezas. “Filho da puta. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. Para estes. noutras. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. as meias a três quartos e a continência. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. as únicas preocupações são o barrete. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. quatro helicópteros. procurando neste caso dividendos imediatos. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. era o aspecto exterior do aquartelamento. e.

Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. e quanto aos meios. apesar da 185 . “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Alguns.sucumbirem!?. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima.. agora o resto era com o poder político. questionavam-se segundo o velho aforismo. a guerra não parava de evoluir. porém. Os objectivos em curso seriam cumpridos. Os militares cumpriam o seu papel. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. Deus me livre!”. não passando. Não acreditavam naquele optimismo todo.. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. O tempo jogava a nosso favor. em Manica e Sofala. a barragem em breve seria um facto. como estrategicamente se tinha proposto. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. para sul do rio Messalo. era uma questão de tempo e de meios. Contraditoriamente. analisando com consciência a realidade conhecida. estavam cansados de tantas comissões. no Niassa a actividade terrorista era residual. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. Aliás. aliás.

a herança do general fascista! Em Junho de 1973. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. como todas as outras. em Abril. Machava. Não era grande coisa. atacou Estima com foguetes de 122 mm. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. A guerrilha atacou Vila Gamito. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. por essa altura. e. em Março de 1973. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. em Maio de 1973. prisão da 186 . face ao ponto a que as coisas tinham chegado. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. não isenta de grandes contradições e inconsequências. em Maio. No Norte. O general ultranacionalista. e. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. tomando os desejos por realidades. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. megalómano. chamado a Lisboa em Julho de 1973. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. mas. afinal. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. na direcção da cidade da Beira. em Junho. em Cabo Delgado.fraqueza anunciada.

de estatura média. eu já volto quando terminar a ronda. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. Novembro de 1972. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. constatando. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. entre as quatro paredes caiadas. causava alguma perplexidade. 187 .. bateu com força na porta de madeira. por enquanto deveria haver algum cuidado. portas abrindo-se e fechando-se. O guarda prisional. de bigode fino e voz nortenha. A conversa continuou durante alguns minutos.. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente.. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. Não obteve resposta. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. de tão inesperada. diálogos breves. a esta hora já não se pode fazer nada. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. Mas deixe estar. Não era o mesmo da chegada. nem o jantar me trouxeram!.. ─ Deixe estar. falando de bons modos. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. porventura maiores que o seu. magro. obrigado! Não se incomode. composto de muitos dramas solitários e isolados.PIDE/DGS em Lourenço Marques. ─ Coma. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. Mas.

. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente.Quando voltou a recolher o púcaro. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz.”.. A seu tempo. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. como exigiam as regras. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. ─ Cá estamos. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje.. ontem fiquei preocupado. Vagamente. que se passará? ─ a questão 188 . por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. ─ no limiar da porta. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa.. trouxe bananas (a comida era péssima).. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses.. querem ver que está feito com a PIDE?!. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. esperando melhores dias!.. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto..

martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. De facto. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. ficava um calor insuportável. 189 . que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. porém. provocando uma enorme tensão. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. durante toda a tarde e início da noite. dou em doido!”. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. Vindo do fundo do corredor. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. ─ Vou ver o que se passa. abafado e húmido. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento.devia ser muito ignara.. trancados e isolados em pequenos espaços. lamentoso. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. porque o guarda não mostrou surpresa. Depois fez-se silêncio.. anjo ou demónio?”. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. Em pouco tempo. sem esperança. logo abafadas por a porta ter sido fechada.

acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. 190 . correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. aparecendo o guarda com um sorriso.. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes.. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. por “actividades políticas”.. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. mais velho de aparência. isto aqui não interessa a ninguém.Num momento de nostalgia e saudade. a aguardar as visitas prometidas. Quando já descria. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina.. no quartel da Xefina! ─ E você.. Mesmo agora. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. na janela. era nítido o desenho das palavras na contraluz. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. acordado. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. muito abalado pela alimentação deficiente. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. Olhando para o exterior. de costas na enxerga.. De resto. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. a sonhar com a liberdade roubada.! ─ completava o furriel.

O corpo caiu desamparado no chão de cimento. procuraram transmitir algo. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. sorrindo. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. ao 191 . com comiseração e espanto. o guarda prisional. dir-se-ia uma acentuada palidez. ─ Bom! Temos de acabar. não pudemos abusar da sorte. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. passando lestos pelos circunstantes. prestando atenção. guarda Cerqueira.. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. o pastor Manganhela. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. Os olhos faiscaram um fugaz terror.. ─ Não! Não! Você. não fora o paradoxo de cores. ─ Sim. ficando sem expressão.

Autoritário e brusco. ─ Já disse. com óculos verdes graduados. reteve por instantes o olhar no único branco. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. Os restantes presos ganharam alento. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. esticou no chão o corpo inerte. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. Instintivamente.! Ao dizer isto. já bastante enrugadas. Ao percorrer em silêncio a sala. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. a fazer-se desentendido. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. colocando-a por debaixo da enxerga. À excepção do jovem branco. fumando boquilha... olhando sobranceiro os detidos. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. a face de outro homem negro.homem preto que acabava de cair abruptamente. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. eu trato disso!”. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. maduro de idade. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 .

─ Bom sabe. alto e de barriga algo proeminente. branco nas suíças. o processo do pastor Zedequias Manganhela. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. ─ Sim. por certo inspirado na rábula do superior: 193 .. senhor director..continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. interrompida de forma abrupta. ─ ameaçava António Vaz. Acompanhava directamente... detido desde Junho de 1972. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco.. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana.. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. O director continuava a cirandar na pequena sala. aparentando uns prováveis sessenta anos. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. ─ Ora isso é o que iremos ver!. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política.. ─ não pode completar a frase. precisa de ocupação!?. suspensa no curso da resposta. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso.. cabelo grisalho.

escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos.. de roupa. quente e envolta na ligeira 194 . Na minha mala. de alguns livros!. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada... vindo do teatro de guerra. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”.. Cerqueira. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação.─ É a primeira vez que cá venho. O “anjo da guarda”..

e com grande prestígio na Europa. terror psicológico. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques.neblina africana que aplacava a inclemência. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. de colaboração com a Frelimo. ameaças. o guarda-fiscal. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. Foram seis meses de interrogatórios. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. Zedequias Manganhela era um pastor. onde Manganhela permanecia em isolamento. numa zona onde não havia guerra. conforme a versão oficial. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. sevícias. humilhações permanentes sobre um homem idoso. nunca se saberá. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. ou um tenebroso 195 . Suicídio. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. devotado à sua missão. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. nunca provada.

LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . os seus mentores e os seus mandantes. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano.assassinato? Em qualquer dos casos. foi um crime de morte matada. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. 7.

denunciado em meados de 1973. soube-se a dramática história da prisão.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. a 9 de Setembro de 1974. A 197 . já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. do guarda prisional Cerqueira. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. muitos presos políticos na cadeia da Machava. por ajudar. quiçá salvar.

sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . chamas.. um DC-6 da TAP. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. na sua incansável solidariedade. agora com o futuro tão incerto. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. muito sangue!. ─ Não. correrias. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. fumos.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. Abriu os olhos. Com a recusa da carta propositadamente escrita.. perseguições e sangue. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. gritos. Quando o avião. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. num pesadelo de tiros. com escala em Luanda. o pide de má fronha olhava-o de soslaio.

Por volta das 14 horas surgem. e. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. homens de um lado. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. Tratava-se de uma área muito povoada. Chawola e Juwau. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. e. com muitos aldeamentos dispersos. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. como represália. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. não levou a conclusões. mulheres e crianças do outro sentados no chão. próprio da época das chuvas. quando procura o mato. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. Chico Cachavi. distantes entre si poucos quilómetros. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. num repente. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. um tenebroso 199 . Os aldeões são divididos em dois grupos.

“Por não dizerem quem alvejou o avião”. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. distante cerca de quatro quilómetros. que organizaram o primeiro relatório 200 . o aldeamento é completamente destruído. Juntaram depois as vítimas numa pilha. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. jovens donzelas são arrastadas para o mato. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. para além do que pode entender a razão humana. O rio Nyamtawatawa. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres.torcionário do recrutamento provincial. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. A tropa completamente ensandecida. à entrada de Tete. um afluente do Luenha. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. uma mulher grávida é esventrada. O sangue enlouquece a soldadagem. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. e. que depois as diriam ao mundo. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. surpreendendo os habitantes incrédulos. fica juncado de cadáveres. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. Foram os padres daquela congregação. perante a passividade de sargentos e oficiais. mutiladas e mortas. Pedro. crianças chorando são mortas a pontapé. violadas.

Neste episódio capital da guerra em Moçambique. em Julho de 1973. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. coronel Videira. e sobre Wiriyamu. em 19/12/1972. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. três dias depois dos acontecimentos. desumanizados e corrompidos até à medula.sobre Chawola. aconteceu quando. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. ano e meio depois. nomeadamente ao comandante da ZOT. traje alegre vestido para afugentar 201 . os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. finalmente. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam.

“maus olhados”. por isso está como está!. Lá em baixo à espera. ─ Desculpe. agora tinha iniciado o interrogatório. na natureza e no seu coração. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio.! O agente.. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. essa é uma matéria reservada. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras.. Caxias. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. 202 . Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz... estava uma carrinha da PIDE/DGS. Da companheira não havia sinal. onde acabara de ser identificado e fotografado. Ficaram para o fim.. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. depois de todos os passageiros terem saído.. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu.. em Caxias. o mundo está cheio de ateus. para iniciar uma nova e derradeira viagem.. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja.

não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. outra campainha. Por detrás tem as minhas iniciais. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. Divisavam-se várias portas fechadas. apenas o corredor comprido e silencioso. e o meu tipo de sangue. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. Também estive na guerra do Ultramar. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. o som metálico da lingueta da fechadura. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. você é militar. as da minha esposa.─ Fiz-lhe uma pergunta. ─ Ah! É verdade. interrompido por outra porta de ferro gradeada. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. o grande responsável. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra.

criando um ambiente soturno. uma lâmpada de filamento. Por cima da mesa. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. propício à desmoralização psicológica do preso.um palmo e fazia uma cara-de-mau. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. em Dezembro de 1971?!... gradeada. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. fraca. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. como depois se perceberia. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. ─ Não sei do que está a falar. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . ─ Ah! Não sabe!. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. por onde eram emitidos sons gravados. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. por vezes reduzido. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor.. em Mafra. isolado do mundo. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.. numa fisionomia naturalmente ruim.

a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. Começava a tortura do sono. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. ─ Respeito o quê. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. o preso é sempre o mesmo. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. chamava-se o “moínho”. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. por vezes o safanão. sobretudo na alta madrugada. criando uma pressão terrível. para além da fracção de segundo. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. polícia manhoso à maneira antiga. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. um aspecto de símio de pernas arqueadas. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. faz favor! Eu não o ofendi. impedem o “fechamento” completo do cérebro. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. a tosse de catarro ou o pigarrear.

desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. o coração “salta do peito”..! O agente sentou-se estranhamente calado. O efeito é terrível. os ouvidos zunem ensurdecidos. * 206 . com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. A partir daí a tortura é dupla. silencioso... o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. Àquela hora o sono apertava. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar... Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. instantaneamente parado.. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. para acordar logo de seguida em sobressalto. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. hem! O mundo desmorona-se. o preso desfalece instantaneamente. O sádico pide continua a sua nova táctica. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias.

quando mencionou o senhor doutor. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. o “senhor doutor”. no Curso de Oficiais Milicianos. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. depois do inspector superior da PIDE/DGS. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. ter saído 207 . preocupado com a aparência para infundir respeito. só traída por um pequeno esgar. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. gravata e sapatos reluzentes. Adelino Tinoco. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. encarregou-se de clarificar a situação. e por um ligeiro sorriso cínico. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura.. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. O chefe-de-brigada chegado no séquito. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. não precisou de muito!. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. mas não tinha a certeza.. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar.. um porte de alto funcionário do Estado.. nunca levantando a voz. ─ Não sei porque estou preso. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação.

─ Violências. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. se não conta tudo não vai dormir hoje.. foi uma pessoa simpática e colaboradora... propositadamente: ─ “Senhor doutor”. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. ─ Vá. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . a não ser.. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”..! ─ Ia dar o salto. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação.. não! Por favor. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. desferiu uma palmada forte nas costas do detido.. ─ o pide calmeirão. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.. vamos tratar como pessoas civilizadas. O senhor é uma pessoa inteligente. não vale a pena perdermos tempo.

prostrado de joelhos. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. perto de Vilar Formoso. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . deixando-o ofegante. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Estamos de visita! Não podem. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. ─ Vá. Encontrei-o uma vez em Lisboa. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias.. Calou-se. Estava muito calor em pleno Agosto. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo.. avisada.. o resto fiava mais fino..! A brigada da Guarda Fiscal. um sujeito fulano de tal. fazia o papel legal. por favor! ─ Mas!. Um pequeno prurido de remorsos. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização.. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.. apesar das suas reticências. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra.

gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. são figuras de bichos. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. 210 . A conversa em voz alta com o substituído no moinho. pinturas-quadros humanizados.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. onde antes só estavam manchas indistintas. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. O “SENHOR INSPECTOR” Um.. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. todo encolhido. pequenos baixo-relevo estilizados.. é claramente provocatória para impressionar o detido. em Mafra. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. em Dezembro de 1971. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. penteadinho e bem vestido. fale! ─ este é dos “pides maus”. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono..

─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. não resta alternativa. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. não vale a pena negar! Além disso. ali estava um exemplar do “Avante!”.. surpreendentemente. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. em Dezembro de 1971. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!...“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. é a primeira alucinação. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. desdobrou uma folha de papel fininho e. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 .. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. fazia precisamente um ano. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira.” ─ Esse canalha!. ─ Desconheço esse assunto.

a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. Adelino Tinoco. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. com um bafo acentuado de álcool. Encostado às paredes foi caminhando. O pide pequeno e feio. o que permitia ir calculando o tempo). aludira. como o torcionário-mor. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. Silêncio! Não entrou ninguém. bombista!”.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. que até os tinha formados em Psicologia. Passaram as horas. já a madrugada ia alta. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. já disse! ─ sacudindo-o 212 . ─ A partir de agora fica sem cadeira. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. Até amanhã. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. Junto da sua cara. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. caminhando. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. Como uma mola.

não tem cara para levar uma bofetada!. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. alto e de meia idade. de bom corte. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. o “superior” teve uma ligeira hesitação.. deu origem.. e com um emblema na lapela. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. no instante seguinte.. voltou as costas e desandou. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. Um “pide-bom”. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho.violentamente. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 .. com ar muito solene. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. como de costume. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. bem vestido num fato azul-esverdeado. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza.

por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. sob o mando directo de Salazar até 1968. no quarto dia consecutivo. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. não tenho nada a ver com isso. ameaçador. com Marcelo Caetano no poder. eram mitigados. de onde chega uma luz de sol 214 . quatro dias. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. desaparecem. muito íntimo do director Silva Pais..! Alucinações frequentes. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. Agora na década de 70. as paredes deslocam-se..

. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. só abre a boca para ditar ordens e regras.magnífica. O café da noite tinha um gosto esquisito. acima do mundo. O vigilante calou-se. vinha um 215 . por isso bebeu só uns goles.. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol.” Passa o tempo a olhar para o preso. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!.. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. O preso avança às cegas para um precipício. Todas as noites. única saída para a liberdade urgente. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios... mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. mais um passo ansioso e . Ao fim de quatro dias de privação do sono. semiaberta. além do oceano. não conseguia adormecer. mentecapto. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. Quem dera poder dormir um pouco!. com ar arrogante e meio imbecil.. pouco antes da mudança de turno.. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço..” ─ Afaste-se da janela. onde a vida continua. sobre o rio.

. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. vindo não sabia de onde.. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. 216 .. conversar!. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável.. juntava-se a confusão do tempo. quase euforia. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. sem querer. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. vamos é saber da sua disposição. apetecia-lhe conversar. A falta de descanso do cérebro. Sabia bem aquela bebida quente.. não é? Sentia uma tremenda excitação. produzia a perda da noção tridimensional. obrigado. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. Mas isso não interessa. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. porque de repente. daí as alucinações. ─ Interessa.. fazia frio à noite. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. calha bem!.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. Hoje é o primeiro dia de Inverno. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra.

qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. ─ Você. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos.. não estou a par! Mas. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. dizem-se pacifistas. um homem católico. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. sabe. por onde vultos furtivos se escapavam. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . em Angola!?. nem o Deus em que não acredita. e no entanto vão lá. Já temos uma filha!.. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. não respondeu logo.. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. foi uma força de expressão.─ Não sei. ninguém me mandou. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. também estive na guerra. fazem agitação contra a guerra.. contava todos os pecados. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar.. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva.. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro.

tantos que tinha alucinações tremendas.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. por estar para ali a falar com aquele carrasco. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. ninguém! Parecia terem esquecido o preso. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. não vou!.” martelava-lhe o cérebro doído. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono... * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. impedido de dormir há muitos dias. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. Por agora as dúvidas foram vencidas. faz ultrapassar o período de fragilização.. Nem o chefe-de-brigada.. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes.

Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril.. vamos buscá-la para esclarecer. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO.. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. (inspector. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. Passava largamente da meia-noite. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. quase euforia. por não ter arranjado melhor!.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. Calou-se o agente de cara redonda. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido.. anos mais tarde. (mas ficaram quase todos bem na vida. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. com a entrada triunfal do inseparável séquito.. comprometido. chefe-de-brigada. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. SEIS. ligados ao Partido Comunista. quando a revolução esmoreceu). segundo dizia. Facto curioso. em Alcântara. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa.

Nascia um estranho sentimento novo. manhas experimentadas da polícia. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. pavor. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. a aprofundar a angústia dilacerante. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica.. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. misto de revolta e de desalento. Que dia seria hoje..vontade. Raiva. pela impotência perante a situação..” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. ─ Se os documentos não são seus. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. subindo pelo peito até ao cérebro. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira.. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. não posso!.

eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. eu logo lhes dizia!. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. O preso caminha encostado às paredes. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. entrado a meio da tarde. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. A respiração pela boca torna-se ofegante. ─ Comigo. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. desfaço-o a pontapé!”. os pés começaram a inchar: “Se se sentar.. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. em pé horas e horas a fio. o “vaidoso” e o “atarracado”. há muito perdera a perspectiva tridimensional. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. como você. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. a investigação ia no “bom caminho”. O detido já não liga às provocações. já lhe disse! Se insiste. sob constantes ameaças dos pides. O inspector Tinoco retirara-se impante. os comunistas de merda. a tortura do sono ia continuar. desritmado.papel sujo. Apetece-lhe vomitar. Sem cadeira para se sentar. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. bate desamparado contra a parede. julgando-a mais distante. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta..

.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. não tem o traquejo dos “duros”. é ainda um homem novo. hoje celebrados como heróis. a família!. Muito tempo depois. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. Estava sinceramente assustado. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. Sim. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico.. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. gente de excepcional coragem. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom.. mas nem todos tinham essa fibra. Não há milagre. talvez... Ah! Se pudesse saber que a companheira. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. a confusão.. ─ Sofro do coração. já meio recuperado..O pide agressor ajuda-o a levantar-se. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. claro. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. Sentia-se verdadeiramente mal.. mas com os pés cada vez mais inchados. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. firme e 222 .

torcionário. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás.determinada. Na tarde do 6º dia. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. Devido ao cansaço.. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. tinha obtido do “seu” médico e amigo. poupando energias. ontem ao 223 . ─ Sofro do coração. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. Não tardou de facto. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. torturador requintado. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. hipócrita. o “senhor inspector”. jamais olvidado. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. até porque na altura outros apoios foram recusados. carrasco. embora verdadeiramente ameaçada. com o ar mais angelical do mundo. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. criminoso. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. facínora. fascista . todos os nomes que definiam aquele títere do regime. ─ Então. nazi. chantagista.. canalha. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica.

Descalço. com esgares de riso. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura.serviço de Salazar e agora de Caetano. ouvem-se gritos humanos lancinantes. mas não estava”.. parecem-lhe gritos familiares. e se for preciso. estava atrás do chefe pronta para saltar. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira.. Já não conseguia levantar-se. Até o agente de serviço já não implicava. não dizia nada. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram... o peito sufoca. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. a qualquer hora do dia ou da noite. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. a olhar interessado. “unha com carne” com o director Silva Pais. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. trago um médico comigo!. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. o coração desritmiza-se. O torturado levanta-se em grande sobressalto. gritos de mulher!. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. sem interferir. A matilha de macabéus e hienas. Este pensamento produz uma angústia terrível. De repente. : “Prenderam a minha companheira!”.

. 225 . sem sol (ou ainda não terá nascido?). nas longas fases depressivas. cinzento. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Ganhara forma no cérebro. contra o que era habitual. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede.). abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. frio.─ Não está a ouvir? São gritos. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. Muitos.. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. A PIDE aceitou a história. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. uma história de comunista já assumido. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. O pide de serviço. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas.

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

houve intervenções brilhantes. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. Das primeiras. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. repartido por várias sessões. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. amigos.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. corajosas. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. Sobre estes causídicos. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. entre familiares e amigos. a título gracioso. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. defenderam em tribunal. fazia-se de propósito em voz alta. milhares de portugueses. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes.

com o Carlos e o Pedro. As alegações iniciais e finais do réu. quando foi apertado como testemunha de acusação. seco de carnes e cenho ruim. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. caso raro. mas falando em voz alta e explícita. anafado e exibicionista no fato de fantasia. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas.. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. Riram de forma alarve. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. durante sete dias e seis noites sem dormir. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco.. O próprio juiz o admoestou. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. 228 . pelo doutor Manuel. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. fingindo ignorar o detido.

além do mais. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. onde eu nunca tinha estado antes.00h do dia 16 de Dezembro de 1972.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. senhor doutor! Nos registos da TAP. proveniente da Beira. 229 . na sala de interrogatório!. às 16.00h do dia 23 de Dezembro. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. com uma pena de prisão remível a multa. Nos registos da prisão-sul de Caxias. a sentença constituíu uma pequena vitória.. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. com permissão do juiz. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa.. Embatucou o procurador do Ministério Público. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. ─ É fácil comprovar. era rancoroso. que lutavam pela liberdade. Costa Saraiva. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. há-de constar a minha entrada cerca das 20.. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. Ao fim de três sessões. ─ agora era o acusador público. O fascismo.. a interromper o réu.

Eduardo Fernandes. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Maia. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. ficarão registadas para a posteridade. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Zaida. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. O apoio necessário vinha da família. os antigos colegas Baptista. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. tal era a acusação. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. Manuel Felizardo. Suzel. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. Eugénio Torres. Fernando Fragoso. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. No mínimo. José Caria. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. Vicente Bolina. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Conduto e Pimenta. Hélder e Ventura. os amigos José Lucas. 230 .

Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. a reflexão. em rápida expansão. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. quase vazio no início da manhã. organizado. cidade dormitório às portas de Lisboa. o estudo. AMADORA. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. disfarçando a saudade. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. ─ Bom dia. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. fraternal e dinâmico. Desfazendo por fim o ar de admiração. vê logo o quartel. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. aplacando a angústia e educando o espírito. que encheu o dia-a-dia. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. não há 231 . REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora..

o rio era um espelho plano e calmo.. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. Um cabo e um praça da GNR. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. mãe e madrasta. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. situada numa magnífica frente para o rio.. ─ Deixe estar. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. indiferente aos dramas dos homens. bordado a ouro e esperança de melhores dias. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. com caras de poucos amigos.. adivinhando a má nova e o destino ruim. o desemprego na grande indústria. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. indicada no 232 . na Amadora.. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. o batente de ferro da casa térrea.

− dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. oficial do SGE. ─ Processo disciplinar. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. ─ Andamos à sua procura há oito dias. esse cretino!. já fui julgado e condenado em tribunal!?. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR... é um cepo redondo com dois olhos. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. a humanidade com que lidava com os 233 . pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. Não queremos criar problemas a ninguém. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado.. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. se tinha levantado para o receber. O capitão Luís. gordinho como era da praxe. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. era preocupante e inabitual. tudo era diferente naquele homem de idade madura. até aí conhecidos.gabinete do oficial-de-dia.. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. ─ Entre. ─ Sabe?!.. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército.

gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. deixava os interlocutores espantados. repetia-se ao princípio da manhã. também com um problema militar complicado por razões políticas.. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar.. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. formado em Direito. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. Todos os dias desde a primeira vez. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. gerava uma nova expectativa. intuía com reprimida alegria na alma. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. ─ Eu sei. com uma palavra amiga para o jovem miliciano.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. 234 . em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. embrulhado em “maus lençóis”.

comparando com a experiência no “teatro de guerra”. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. tristezas e expectativas. Tomara eu!. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. ando a pagar viagem a viagem!. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu.Não tinha. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”.. mas não se comia nada mal. o que. deu para partilhar mágoas e esperanças.. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio.. 235 . para quem tinha um curso de engenharia. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. furriel “estacionado”. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo.. não constituía dificuldade. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço.

para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. ─ Bom! Ainda está muito quente. redondo de aspecto e de alcunha.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE.. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. em Dezembro de 1971..Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. foram obtidas sob 236 .. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”.. deve ter sido complicado!?. então não vale a pena perder tempo.

por isso não são válidas e não têm nenhum valor. sufocava-se no interior da camioneta. ─ Isto é um veículo militar. já o mês de Julho ia avançado. porém. se sentara num banco traseiro. ─ Quem não está. Os documentos apresentados para assinatura. ─ Só mais um minuto. Não ficaria por aqui. dando como provadas as acusações.tortura. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. Era curioso. nos dias tal. o processo-fantoche. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . Por mais de uma vez. falta um companheiro de viagem. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. como mandavam as regras tropeiras. O horário é para cumprir. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. estivesse. Isso não pode recusar. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. senão tem faltas injustificadas. Depois chamo-o para assinar. Certamente por isso. não é um transporte público. e tal.

entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. Acácio da Silva”. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . ª. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção.o compasso de espera solicitado. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. com a conivência do militarismo reaccionário. a PIDE/DGS. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. pelo contrário. ruivo e sardento. o “chefe da viatura”. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. por determinação de S. é furriel! Qualquer coisa da Silva. seco de carnes e de sorriso franco. Era um estado dentro do Estado. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. na secretaria dos “Adidos”. Ex. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. o furriel miliciano.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. até já cortou os pulsos para se matar!. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz.. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. e o moço de bigodão negro. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. 246 .. tentou esganá-la.. ─ A doença dele é outra. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. desatou aos pontapés às cadeiras. mas num domingo foi aí uma barraca. casado há pouco tempo e aqui preso!. mostrava-se loquaz.. ─ O tipo está doido varrido... ─ Foi o bom e o bonito.. ─ Ao princípio era um moitão de visitas.. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. mas o alentejano não se deu de achado. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão.

outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias.─ Então a situação é grave. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. se tinha suicidado na cela. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. fundado em colaboracionismos vários. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. tem de se compreender. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. sempre a caminho da enfermaria. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. A notícia surgiu brutal. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. ─ Pois sim. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 .

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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talvez mais cedo do que tarde!...da filhinha! Prometo que voltarei. 255 .

256 . sacos.A LENDA 9. homens. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. malas. velhos conhecidos.

Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.. grupos barulhentos jogando às cartas. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. Algures. Encostado ao taipal. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. que para aquele lado era de terra batida. gente deitada semi-nua. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. 257 . Beliches a cinco de altura. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. como gado para matadouro. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira.. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos..).. sobre as preocupações com a mobilização iminente. o “canhão” esperava a carne fresca. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. O camião carregado de soldados. cruza-se outro camião com soldados a granel.

que por perto ouvia a conversa. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço... que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro.. moço alto e magro. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. ─ Se calhar vou contigo. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. nossos soldados? ─ Desculpe. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. rua abaixo direito ao centro da cidade. isto é um país em guerra. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”.. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. paleio animado e boina na mão.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . falta de hábito!. se não houver problemas com a saída!. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. ─ A vossa identificação.

tecendo laços de solidariedade circunstancial. lá foram saindo os magalas mal ataviados. ─ Isso deve ser história. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. algures naquela guerra oficialmente já ganha. mas sem fim à vista.. entretanto voltou de avião para a metrópole!. apanharam e carregaram cinco latões de lixo.. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. também não a pedi nem a desejo! 259 . esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo.. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. pá! ─ Não te metas com esse gajo. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. ─ Conta-se haver um “gajo” rico.. ─ Há aí vassouras e pás.. limparam. sem braços ou sem vida. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação.. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula.de colocações e a escala de serviço.. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. Devem vir fardados. é um exagero!. ordens do sargento! Resmungando e refilando. não deve ser limpa há um ano!. sem pés.. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna.

Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. e a economia da região sobrevive do conflito.. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. ─ conversava-se à mesa do 260 . o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. veículos militares correndo pelas ruas. que consome enormes recursos da Pátria distante. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte.. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas.. Os homens ocupam-se da máquina militar. assim se chamavam. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. As vivendeiras. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. com o sol nebulado e uma humidade elevada. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. pois a guerrilha não diminuiu. Na conclusão da empreitada. pelo contrário.. com uma eficácia muito baixa. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. elogiando o trabalho feito. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. característica daquela região.

a história da terra moçambicana. mas têm comida certa: ─ António..!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos.Café Central no fim da tarde quente.. o militarismo sufoca! . as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação.tal como sufocava o calor de Dezembro. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. Ganham uma bagatela. Também alguns milicianos trouxeram a família. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. Esta “chicalhada” irrita. falam mal o português. Têm inúmeros criados pretos. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria.. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. Longe dos teatros de operações. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. quase não há serviçais do género feminino. não sabem ler nem escrever.. a 261 . casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. Passam carros de boas marcas com condutor militar. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. a fim de conhecer tanto quanto possível.

como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. quartel-general da guerra. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. a perder de vista. e aos industriais de refrigerantes. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias.. protegidos pela lei do condicionamento industrial. com bons conhecimentos. deixavam-no intranquilo. e potenciando o vício pela bebida americana. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. onde tudo era demasiado no estilo europeu. porque Salazar não gosta muito dos americanos. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. oriundo da burguesia alentejana. a prestar serviço nas “Informações Militares”. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. viam-se grandes embondeiros. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. Nem vou.. ao fim do dia. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. A sua formação era claramente conservadora. à beira do milagre da “tomada 262 . Uma planície de cor castanho-avermelhada.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. ─ insistia o jovem bem parecido. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. que não se vende em Portugal. Quando se saía da cidade.

. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. réplica da arquitectura europeia. Para o mais distante. entre silêncios e goles de mistura fresca. já tinha a chave. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. muitos sacrifícios e muitas vidas. mais depressa os homens que os montes. acreditava na justeza deste conflito. Automóveis de boas marcas. Pelo que tenho visto. Prestes a mudarem. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África.. Ia para dois meses. deixam gente de pele escura. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. Não tardam aí melhores dias!. ainda que tal custasse muitas angústias. revelando a comum ascendência asiática. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. 263 . João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo.de consciência”. ─ Quando vim.

A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. se notava um grande sossego. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. ─ Ah! Então era isso. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . normalmente. a servirem como desabafos da alma. com o infelizmente célebre. no Golfo Pérsico. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. na Índia e até na China. Estavam muitos orientais. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. com as leituras ou as idas à biblioteca. como na gíria é conhecida. chegavam famílias inteiras. À noite. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. por bastante comum.. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá.. o movimento à porta da mansão!. O descontentamento emergia. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África.

. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . Datam do século XX. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. que encontraram sempre forte resistência. E desde então até hoje. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. a que o povo das tatuagens e dentes limados. e se ele o dizia. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. internando-se no mato.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado.. nos princípios do século XVI. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. nunca mais deixou de nos tratar mal”. Os pretos cuidaram dele até crescer. se furtava. viviam na água. habitando o Norte de Moçambique. em 1918. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. Durante a I Grande Guerra. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. 265 . possuía um carácter forte e indómito. no remanso da biblioteca municipal de Nampula.. A etnia maconde. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. começou a fazer-nos sofrer muito. Esta é uma lenda do povo maconde. “Os brancos antigamente eram peixes. entre os rios Lúrio e Rovuma. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito..

no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . A nova expedição de Serpa Pinto. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. hospitais sem médicos!”. Em 1895 e 96. escolas sem alunos. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. alunos sem escolas e sem professores. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. no Sul. “de Angola à contra-costa”. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. Este último escreveu o livro “Mozambique”.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. em 1885. derrotando as pretensões portuguesas de soberania.. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. No início do século XX. e de Capelo e Ivens. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. fronteira à ilha de 266 . que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas.. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). em 1878.”Batalhões sem soldados. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. doentes sem hospitais. em 1882. da costa de Angola à costa de Moçambique. em 1889. de traficantes e de entidades coniventes.

. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. a Companhia do Niassa. numa série de campanhas iniciadas em 1908. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. em 1879. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. são finalmente controladas (oficialmente. a Companhia de Moçambique. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. criada em 1894.!). tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. com capital inglês e francês. que iam completando a ocupação militar. entre os rios Rovuma. a norte.Moçambique. procedendo à exploração mineira nesta área. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). com capitais metade ingleses e metade franceses. ferro e ouro. e o cultivo do algodão e da borracha. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias.. submissão das populações e pilhagem dos recursos. Lúrio e o lago Niassa. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . criada em 1888. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia.

na sua área a 268 .. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. Por outro lado. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. entre pessoal militar e administrativo. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. Em 1878. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. nunca teve grandes resultados. ao seu sustento próprio”. Ou seja. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. aumentando para 20 mil em 1926. mantém-se o regime de trabalho forçado. foi criado o primeiro código do trabalho.. que funcionaram até 1942. subindo para 2 mil no início do século XX. No período de 1910 a 1923.) está sujeito. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. Já a Companhia do Niassa. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. conseguiam um tráfego internacional crescente. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. muito depois da abolição oficial da escravatura. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados.país colonizador. não se mobilizavam voluntariamente. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. fundamentalmente para Angola. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. ao abrigo desta lei. sua sede.

penetração europeia era mínima. canade-açúcar. a capital. tinha em 1925. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. segunda cidade. sisal. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. o esforço português de colonização efectiva. mesmo nas suas próprias terras! 269 . atinge 20 mil. França. Bélgica. no Centro e no Sul do território. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. todavia. criadas por decreto obrigatório. Porto Amélia. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. copra). em 1925. mandioca. destinados à exportação: algodão. No segundo quartel do século XX. assiste-se. já do século XX. e nunca foram construídas vias férreas. oleaginosas (caju. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. É muito recente. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. Alemanha. chá. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. amendoim. milho. 1500 habitantes (só 50 brancos!). Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. Holanda) estava em declínio. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. tinha 30 mil habitantes e a Beira.

(267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. do Niassa e de Moçambique. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. Além das referidas Companhias do Zambeze. Sena Sugar States. No caso da exportação de algodão.. Curiosamente. que cessaram a actividade por volta de 1942. Presente desde há muito. que assim funcionam como mercado protector. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. a que se 270 . concessão feita a capitais luxemburgueses. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. originariamente para a exploração das minas de Moatize. criada em 1921 com capitais ingleses. Inglaterra e União Sul Africana. fundamentalmente para Portugal. perícia.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. a mais importante açucareira da colónia. e em particular com o capital britânico. cultivava 45% da produção algodoeira total. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. em 1945. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. Companhia de Algodões de Moçambique.. pertencente ao grupo Champallimaud. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. constituída em 1948 com capital luso-belga.

desmentida desde 271 . 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. metade do total. em 1943.. se cultivam e se elevam. incluindo: 400 mil emigrantes. irmandade dos povos que. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. sejam quais forem as suas diferenciações. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. Em complemento. se auxiliam. 520 mil contratados do algodão.“No meio das convulsões presentes. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria.associaria o grupo Melo.. no período áureo do chamado Estado Novo: . etc. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. também presente na indústria dos óleos..

os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. organizadas em ensino primário e liceal. no século XVIII.sempre pela escassíssima presença portuguesa. ano da publicação do Acto Colonial. em decréscimo) num universo de 6.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. ou seja. e as escolas elementares das missões católicas. três ou quatro nos finais do século XIX. em 1960. asiáticos e “assimilados”. Da mesma forma. com a política de “fomento colonial”. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. 1. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. à data dos inícios da guerra de libertação. espalhados ao longo da costa moçambicana. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes.5%). em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. dez em 1825. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . traficando em escravos.6 milhões. em 1950. Todavia. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário.

pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. confluindo no desejo independentista. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar.). Por este tempo. padres de Burgos. ao arrepio do ensino do Português. reflectindo a miséria da missão colonizadora. etc. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. subjectivamente. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. 95% da população africana se encontrasse na 273 . nacionalizar e civilizar a população nativa”. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. Não admira pois que em 1960. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias.. 1970). para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE.. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas.território colonial... padres de Verona. sobretudo depois da II Guerra Mundial.. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. fomentando o espírito nacionalista latente. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. educar. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino.

o Monteiro. quando começar a luta de libertação nacional. disciplinando os seus instintos rudimentares”(.. a Lena. como na afirmação do Presidente da República. o Melo. são gente boa. em 1956.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. Precisas de te distrair! O Carlos. o Santos. o António. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. o Fausto. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. os Casimiro. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo.. o Muradali. 274 . Faziam parte de uma rede de apoios e resistência.. o Castro. a Lurdes. A humilhação permanente da despromoção. ok?!. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. A colónia funcionou até 1960. o Ivo.. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. ). E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). Craveiro Lopes.

Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. muito apertado pela PIDE em Caxias. entretanto a revolução.. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. por isso te despromoveram e te castigaram. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Não é tanto uma questão de coragem.. como morto. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. que até nem foi extraordinária. A seguir a uma curva. ─ questionava a esposa. é mais uma questão de integridade. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. este tipo é incrível. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa.. Ciclo do COM. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. estava um negro deitado na estrada. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º.. 275 .trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. atravessado. sempre muito sensível.

mas nós havemos de vencer haja o que houver. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar.. (. O mais custoso é a separação. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim.. me dá vida. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. por isso tu és a minha vida. carregada pela angústia da separação física. Estão bem. felizmente. cada vez maiores. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. sim! Com dezoito meses.. a minha luz. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. se estivessem aqui comigo!. tu ensinaste-me a viver. De vez em quando vou tendo notícias... inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. O tempo não pára. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 .─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem.

alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. ─ uma carga de trabalhos. durante quase seis meses. amor da minha vida”.. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. O “carocha” quebrou o transe emocional.criaram. e agora?. que faz amanhã 18 meses. diz o nosso fruto pequenino. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona.. Por outro lado. (. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! .. o amor constrói-se também com sofrimento. Nós esperamos por ti.. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. Como disse um grande poeta... O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. o casal ainda não tinha filhos. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. a nossa ligação temse fortalecido. não sei se aguentaria. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 .

Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia.G. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. e de sectores ligados ao general Spínola. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. também alferes no Q. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. pelo parente morto em exercício militar. genuíno. à entrada. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. que há pouco. também ex-dirigente associativo. foi bastante mais João. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique.G. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q.. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. fora compulsivamente incorporado. desassombradamente. no início da década de 70. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. ou mais uma tentativa de “putch” militar. as de jovens oficiais do quadro. natural da cidade-quartel-general.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. era um jovem mulato. ─ Um movimento autêntico.. Juntamente com outros dirigentes estudantis. fora apresentado como Ivo. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. em Outubro passado. alto e bem parecido. onde vinha em luto familiar.

a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. que não renegavam. trazendo e levando notícias e materiais. falava no assunto tabu. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. Se isto dura mais uns meses. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . ─ Como sabem. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. Fixados há muito em Nampula. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. alimentando a célula da resistência em Moçambique. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. para ajudar a acabar com isto. chegando e partindo constantemente. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. o mulato quase formado em Medicina. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. que fazia a interface entre muita gente. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. A casa de família da classe média. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático.

apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. ─ Talvez não haja tempo para isso. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação... ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. depois do fracasso das operações no Norte. assume-se agora do lado dos oprimidos. concitou a atenção dos presentes. ─ A própria igreja de Moçambique. nos quartéis. Tenho a convicção que o fim se aproxima.. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. nas escolas!. muito simpática e delicada. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não.. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. O julgamento do 280 . de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda... ─ o jovem Melo. oriundo de famílias militares. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. mas creio que já não têm tempo!. em plena época quente no Hemisfério Sul. também dirigente académico perseguido. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. mostrara uma insuspeita clarividência. mas se é contra o regime. num fim de tarde africano. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!...guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral.. ─ a senhora de Casimiro. que venha por bem! ─ Por cá.

nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. Sebastião Soares de Resende. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. num contexto de declínio do colonialismo. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. parte integrante da máquina colonial. Depois da concordata de 1940. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. assumia-se de forma muito mais contraditória. no curso do século XX. prevendo e prevenindo o futuro. o ambiente ganhava optimismo. terra de esperança. Completa esta imagem do século XVIII. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. uma voz clara que 281 . durante a ascensão e esplendor do colonialismo. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. é paradigmático do papel da igreja católica em África. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. por orientação do Vaticano.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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Agora na sua senda. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. Percorridos em visita. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. A partida é às 20. os colonos emigrados. como gostavam de dizer. tinha uma areia fina de tacto agradável. rumo ao Norte. duas dezenas de soldados. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. agarrado às vantagens do passado. ainda acreditavam. imaculada.do oceano de águas escuras e algo agitadas. semeada de pedaços de algas escuras. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. nada de atrasos!”. de medusas da “Cruz de Cristo”. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. e. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”.30h. Na conjuntura actual. num “Aviso” da Marinha de Guerra. quase escrava. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. aqui e acolá. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. negros na maior parte. A praia das “Chocas”. a praia do “Relamzapo”. cada vez menos. aparentemente descurando o futuro. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. a meio caminho da cidade portuária. com “cabrinhas” de espuma branca. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. espraiando-se levemente na areia branca.

. um jovem alferes moçambicano. Ele contar-vos-á os pormenores. impecavelmente fardado. Marcelo. Tinha razão o Ivo. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. Tratem-no como se fosse um de nós. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. ao jantar. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora.. também vou?.. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. estivemos a conversar em casa de uns amigos. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. é melhor não te verem por 290 . branco. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. logo me contas o resto da história. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. Num jipe oficial. ─ Há poucos dias estava óptimo.. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade.bigode sobranceiro. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. Caíra a noite.

. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. ex-dirigente estudantil. já eram velhos amigos. instruiu o condutor de serviço: 291 . o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. Antes. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. de camuflado. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. com o furriel “recepcionista”. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável.perto.. ─ Olha quem ele é!. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. em serviço à pista. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. à saída. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático.

. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. para onde vai o professor. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. Diferente. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. que passava rapidamente. Verdes e impenetráveis. arrasando os nervos.. desde Porto Amélia.. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. bem vestidos ao modo africano. Do avião. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. com telhados de fibrocimento. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. parecia ser gente “importante”. era uma zona de casas. a poente. único utente até hoje! Ao longe. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha.. pintadas de branco. a rasar a copa das árvores. num vale em depressão. alinhadas ao longo de uma estrada de terra.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”.

em Porto Amélia. de ataques com foguetes de 122mm?. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde.adiante. Mais distante. destoava do verde constante da paisagem. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. de contornos envoltos em bruma. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. ─ Contava-se. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. de madrugada. 293 . serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. até se diluírem no horizonte. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. ou talvez mesmo de há muitos dias.. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. barba por fazer mas atitude simpática e despachada.. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. interpelou-os: ─ Meu furriel.

O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. Em tempo de Equinócio. a recolha da sopa numa lata de folha. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. Por instantes. ao calor escaldante do meio-dia. confundindo-se à distância com a neblina circundante. o ambiente é um pouco mais húmido e quente.Fim de tarde ameno. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. sem higiene. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. sem vontade. em fila. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. porventura. Ali na África Setentrional. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. sem gosto. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente.

falso alarme. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . minas anti-pessoal. da personagem mal conhecida por recém-chegada. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. Mina. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. a angústia do afastamento familiar. despejada a eito. em cujas margens coexistem por vezes. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. encosta abaixo. o medo da guerra. A respiração suspende-se por segundos. o nosso direito e o nosso interesse. caçadores nativos. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. em cenas de caça na terra de ninguém. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. a miséria do rancho. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. projéctil. É Naschinguyeia. Novamente o mundo sem sons. do outro lado do rio. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. e o manto escuro caindo sobre o lago. crocodilos.da pátria. ataque? Nada. Mais distantes. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais.

Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. francesas. afogou as pretensões num banho de sangue. com mais de 50 mortos. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. piscando o olho aos americanos e à NATO. em 1963 e por último em Moçambique. belgas. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos.impérios asiáticos. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. acediam à independência. em Junho de 1960. no Tanganica. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. em Abril de 1961. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. transferindo-se para Dar-es-Salaam. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. Uma contínua e continuada mistificação. depois na Guiné-Bissau. o mito da defesa do mundo ocidental. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. em 1961. primeiro em Angola. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. em véspera da 296 . quando as ex-colónias inglesas. um ex-ministro de Salazar. holandesas. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. Franco Nogueira. em 1964. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. convencido da sua superioridade e vantagem rácica.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco.

tratava-se de um movimento heterogéneo. independente desde 1958. segundo os próprios.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). Em Nairobi. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. Como nos restantes casos. no Quénia. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. Marcelino dos Santos e Uria Simango. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. foi criada a UNAMI . com mais ou menos expressão. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. Damão e Diu. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. da 1ª. No final desse ano.União Nacional de Moçambique Independente. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. futuro grande estratega militar da luta de 297 . a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. A realização em Marrocos. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. moçambicanos da etnia maconde. em inícios de 1961. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. em Maio de 1961. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. com diferentes sensibilidades e perspectivas. em 19 de Dezembro de 1961. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. No interior de Tete. começando a derrocada do império colonial português.

em 1971. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. unificado a partir do 1º. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. Ao fim de quase 500 anos. simultaneamente em Cabo Delgado. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Após 298 . O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. bispo de Vila Cabral. pelas tropas em acções de represália. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. finalmente. primeiro presidente da Frelimo. com um ataque ao posto militar de Chai. * Eduardo Mondlane. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . capital do Niassa. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. e no vizinho distrito de Niassa. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. O conflito iniciou-se em 1964. Congresso em Setembro de 1962.libertação: Samora Machel.

moçambicano de origem 299 . Professor na Universidade de Siracusa. o tenente Jacinto Veloso das FAP. após uma espectacular deserção. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Pascoal Mocumbi. Tinha chegado a Dar em 1963. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. um período de grande vitalidade da Frelimo. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. capital do Tanganica. Leo Millas. Joaquim Chissano. seguiu Samora Moisés Machel. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. em Março de 1964. Janette. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Instalada em Dar-es-Salaam. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. no extremo nordeste de Cabo Delgado. só em Março de 1963 se radicou em Dar. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. iniciando com Marcelino dos Santos. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. a Frelimo teve um início de vida agitado. Eduardo Mondlane. Por essa época. entre outros.breve passagem por Lisboa. que casara com uma americana branca. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. em risco de ser preso pela PIDE. nomeadamente Julius Nyerere.

Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. Também por esse tempo. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. Lázaro Nkavandame. em Fevereiro 300 . Mondlane convidou Helder Martins. Perseguido e preso pela PIDE. em Setembro de 1964. Mais tarde em 1965. a funcionar na capital argelina. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente.branca a juntar-se ao movimento. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. O seu líder tribal mais carismático. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. comum na região setentrional africana. de passagem por Argel em Março de 1963. para se juntar à Frelimo. O seu presidente Banda. outro moçambicano branco. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia.

conta a história do movimento de libertação. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. No mês de Fevereiro de 1965. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. a 301 . devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. base da alimentação. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos).de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. a luta alargou-se rapidamente. onde reza a lenda. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. Desde o primeiro ataque a Mueda. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. por não terem armamento pesado). No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico.

e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. que garante a sua unidade interna. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. ─ Independência de Moçambique. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. total e completa. e à exemplar democracia americana. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. num Moçambique livre e independente. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. Foram então nomeados. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. EUA e URSS. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. a linha de separação dos países sob o jugo 302 .

Neste contexto. Salazar fazendo jogo duplo. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. decretando sanções económicas e políticas. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. em Moçambique. É a resposta às forças portuguesas que. na Rodésia. condenada internacionalmente. em 1967. Em Abril de 1966. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. ZANU e ZAPU. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). em Moçambique. veio complicar o xadrez político na África Meridional. em Novembro de 1965. a sul. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. uma nova frente na região de Tete. na Namíbia. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. 303 . a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. onde o regime do “apartheid”.

a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. passando a partir de 1966. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. Mtwara. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. o padre católico negro Mateus Gwandgere. O movimento moçambicano está já então bem organizado. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. Kingwa. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. alvo por vezes de assaltos surpresa. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. no célebre campo de Naschingwea.Na região de Cabo Delgado. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. Viveu-se à época deste congresso. enquanto um soldado ganham um!). autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. Em Fevereiro de 1968. (ganham dezasseis contos por mês.

sem sentido histórico e sem significado real. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. Em Fevereiro de 1969. As palavras só têm significado para os 305 .). sem um claro vencedor. África do Sul. em Dar-es-Salaam. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola.. são um imenso caldeirão prestes a entornar. E foi a PIDE. onde vivia com a mulher e três filhos menores. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. Em Portugal. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo.. Em visita às colónias em Abril de 1969. Moçambique. Namíbia. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas.

sacrifícios extremos. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. No dia 1 de Julho de 1970. coeso e organizado. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. para Angola e Moçambique. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. custou esta 306 . morte. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). em Moçambique. respectivamente. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. e. sangue. para comandante-chefe. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. é eleito presidente Samora Moisés Machel. um militarista ultrareaccionário. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. O movimento de libertação está mais forte. um dos fundadores. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. A história e o tempo jogam a seu favor. em Maio de 1970. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos.

de centenas de estropiados. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. Praticando o extermínio por onde passava. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. milhares de combatentes. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. pomposamente exibidas na RTP. também houve muitas vitórias. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. na acepção militarista. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. dinâmica. muitas apreensões de armas. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. 307 . bem organizada e com uma forte retaguarda. além de uma rede de células secretas nas principais cidades.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago).

agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. diria outro retinto situacionista. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). 308 . derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). afundaram-se em ignomínia (condenação internacional).).A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. “Um murro de boxe num ninho de vespas”... prometendo acabar com o “terrorismo”. Aguardavam os restos garantidos da refeição. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. ficou-se pelo quilómetro vinte!. montada debaixo do grande embondeiro. crime (milhares de mortos civis e militares). corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. O conflito colonial em Moçambique. o ministro do Ultramar. Silva Cunha. a fingir de refeitório. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. Como resposta. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso.

.entretidos em brincadeiras de ocasião. Alguns já tinham comido sopa do rancho. passa a ferro e não leva caro. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos.. dez escudos por mês! Vive com a mãe. Como te chamas? ─ João. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. o pai morreu na guerra. cinco anos. ─ E o pai?.. precisam de ajuda!. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. Quatro.. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. sobretudo os da “fofoca”. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. que também está de partida.. Vinham quase todos da aldeia macua. Lava.. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. de carapinha escura. outros nada. com as suas tatuagens características. ─ Então não conheces a história? O pai deste. eram raros os garotos vindos do lado maconde. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado.. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. sinhô! ─ desviou a cara. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. oito ou nove anos. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. 309 . ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”..

transportado às costas como era uso. aflito com o rumo do negócio. que está nos GE´S. mas com paredes rectangulares de madeira... ─ É a Teresa! Não te dizia!. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias. ─ Pois é. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. com telhado de colmo como as outras.─ Curioso!. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. de forma menos tradicional.. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos.. consta que ele é casado na metrópole. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua.. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. radiante na sua prometida função de cicerone. repuxada pelo filho mais pequeno. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe.. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. mas parece ser ela a não querer ir! 310 .

ou porventura devido à língua entaramelada. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. na África sedenta de liberdade. mas achou prudente não se manifestar. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. em genuíno desabafo de revolta. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. calças pretas. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. em terras de mistério e desgraça. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. com um fardamento esquisito. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. só perturbada pela desgraça dos homens. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. sempre a gritar e a gesticular. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. Gritava de modo incompreensível à distância. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. ─ O furriel tem andado desorientado. a metrópole era Portugal. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . magro.João estava tentado a corrigir o vocabulário. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. Já escondido. qual dono de escrava.

onde este tipo de assuntos era mais propício. 312 . A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. A cena degradante repetiu-se à porta da casa.. Notava-se pouca actividade. O “negócio” era do lado da aldeia macua. ─ O homem está com ciúmes. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. mas nenhum queixume. visivelmente amedrontado. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. obrigado! Tenho outras preocupações. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. cor amarelenta e barba mal escanhoada. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. cercado de arame farpado e minas.timorato o rapaz de estatura baixa. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. Os homens deviam estar a descansar da guerra.

já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. já os tinha mencionado. ocorreu à imaginação do soldado castigado. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. ─ Porque se sujeitará Teresa. e por isso hesitou 313 . não seria muito prudente. Nas circunstâncias. Só não sabia. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. onde já anoitecera. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. a sua comissão fora penalizada em três anos. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”.─ Há lá velhotes porreiros. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. A frase soava ordinária. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. ─ Logo se verá. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. O cabo Carlos.. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. como degradante era todo o ambiente da guerra. não há pressa. Se é que essa seria a “estória”. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade..

sobretudo. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. a raiar a exasperação e a revolta. ─ Isto é uma guerra. raramente encontravam alguém da guerrilha. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. caramba. criava um estado de espírito muito negativo. era que de há anos àquela parte. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. somada à saturação de sucessivas saídas e. à enorme angústia pelos mortos. 314 . gerava uma enorme frustração que. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. os homens estão muito desgastados. ao fim de um ano de “trolha”. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. na perspectiva de descerem para Sul. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua.calado e pensativo. A hipótese de não rodarem.

forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. Sebastião Mabote. O movimento nacionalista. sob o comando supremo de Samora Machel. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. Alberto Chipande. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. Raimundo Pachinwepa. Bonifácio Gruveta. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Mariana Pachinwepa. entre outros. José Moiane. Em contrapartida. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). “travestida” de serviços de informação militar. contra o que chamavam. por um comando supremo todo poderoso. Filomena Nashak. a relativamente inepta tradição colonialista. militarista e reaccionário. Armando Panguene. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. único do povo moçambicano. eram os outros 315 . Osvaldo Tazane. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. Monica Chitupila.

a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. “A fogueira do guerrilheiro”. nos confins de uma África inóspita. em Julho de 1973. Grupos de soldados portugueses. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. por milhares de manifestantes. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. A sorte da guerra estava traçada! 316 . Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista.vectores fundamentais da situação político-militar. em português. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. ensanguentada e sedenta de liberdade.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. por oposição à guerra. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). apostólicos e romanos”. em protesto contra a “política ultramarina”. da diocese do Porto. 318 . que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. muito “católicos. Felicidade Alves. Dia Mundial da Paz. em Lisboa. Diminuía a base social de apoio ao regime.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. e em Portugal. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. atenta e preocupada com os ventos da História. Domingos. durante a campanha para a Assembleia Nacional. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. MPLA e FRELIMO. no dia 1 de Janeiro de 1969. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja.

Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. protestos na parada. embora negando os factos. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. Tavira.. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. 319 .. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. Tavira. em 1972. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. “Não jures camarada!”. no 4º turno de 1971. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. e outros mais No panorama internacional... Lamego. No início da década de 70. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. organizada unitariamente. Santarém. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. publicado nos princípios da década de 70: . dentro do “ninho de víboras”. na organização da resistência e do combate internos. em 1971. ameaçando:. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. e os Estados Unidos.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. “Levantamento de rancho”. no 1º turno de 72. nos quartéis. entre outros. nas escolas. no 3º turno de 72. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. em 1971. Vendas Novas. arrancados às escolas. Santarém. “Alerta camarada!”.

da independência da Guiné. próximo da fronteira. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. o Conselho de Segurança da ONU. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. Em Outubro do mesmo ano. Mas a luta de libertação está muito avançada. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. os 320 . para breve. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. como resposta a agressões vindas do exterior”. e em Abril. Entretanto. ao perceber o fim inexorável. com o objectivo de “legitimar a guerra. encontra-se. António de Spínola. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. Ainda assim. ainda que por novas vias. Enquanto isto. No essencial tudo fica na mesma. em Outubro de 1972. o combate não esmorece e. em Março de 1973. Na Guiné.“ajustando” a estratégia. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. Guiné e Moçambique. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. O alcance da iniciativa é inteligível. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. a proclamação. com Leopold Senghor.

percebendo finalmente. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. conversando e trocando novidades. fartos de guerra e do militarismo fascista. as forças guineenses combatem por todo o lado. Havia o In. empenhado há tantos anos na luta pela independência. KAIOMBE DE JIMBE. não pode satisfazer. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. a independência da Guiné. Spínola. numa zona libertada. derrotado. em aumento crescente. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. acossado. que a guerra de libertação é invencível. havia o “inimigo interno”. todos aqueles que iam 321 . o PAIGC proclama em Madina do Boé. em Setembro. no entanto. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. Um mês depois. A guerra entrava numa fase derradeira. de aquartelamento em aquartelamento. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. reparando rádios e antenas. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. perigosamente de terra em terra. organizadas como um “exército regular”. sem nunca o confessar abertamente. ficaria ainda ferida ou estropiada. em Agosto de 1973. Quanta gente.. que Marcelo Caetano. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional.“Strella”.

carroça mal puxada! revolta-se!. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. Não era mau rapaz o furriel. foi só um desabafo. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. bem.. Já se sabe o resultado. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. procurasse puxar a “carroça”.. nos princípios de 1974.. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. na vila de Jimbe.. besta contrariada. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. – Bem. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . Além da agricultura de subsistência. mas como muitos outros.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. pertencente ao subsector do Cazombo. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. na Região Militar Leste. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. Mas ainda havia quem. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. arreando forte na besta. furriel.

apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. agradado com a tarefa. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.! – o furriel.e políveis. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. os chamados “flechas”. solicitaram a reparação. – Venham comigo. – Esperem aqui.. com frequências próprias. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. Devia ser problema na antena. onde vivia pobremente a população indígena. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 .. era uma realidade também em África. onde aquela estava montada. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. trabalhado na feitura de peças artesanais. Afinal. com duas ruas paralelas. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. o problema não era do rádio propriamente dito.

mas suspeito de apoiar o MPLA. Morreu passado pouco tempo. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. apagar os charutos no corpo dos presos. tinha por desporto nos interrogatórios. Trindade. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. com as O pide da retirou-se antena. momentaneamente. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. Lontrão. alegadamente à caça. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. participante na invasão do solo angolano independente. No caso vertente. o agente António Camelo. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. solicitado para outro qualquer assunto. ficaram a saber que o chefe do posto. 324 . Vaz. completamente expostos aos elementos. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. ou no célebre batalhão “Búfalo”. de nome Kaiombe. apanhado no mato pelos “flechas”. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. e outros. causando-lhes horríveis queimaduras. autênticas jaulas de guarda-bichos. Perturbados e confundidos. Casimiro. que deviam doer horrivelmente. Alguns meses depois o pide Camelo. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. Laia. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. rumo à África do Sul racista. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz.jovens militares estarrecidos. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. tratava-se de um habitante da zona. De volta ao quartel.

. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. e as de dezenas de milhares de autóctones. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. perseguiu.. ou reforma dos ex-combatentes. como em Portugal.Face hedionda do sistema colonial fascista. prendeu. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. que em África. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. Neste sentido. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. Essas vidas poupavam-se. guineenses e moçambicanos. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. da revolta activa de muitos milicianos 325 . com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Significa que entre nós o crime compensa. porventura numa escala muito maior.

embora unidos no essencial. Dezembro de 1973. o general derrotado na 326 . António de Spínola. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. o general fascista não parava de conspirar. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. conservadores e liberais. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. mais meios logísticos. como ministro do Ultramar. com mais homens. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. em Óbidos. – Em 1 de Dezembro. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. cada vez em maior número. homem da sua confiança pessoal. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. em Julho.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. composta por 19 elementos. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. – Em Fevereiro de 1974. Regressado de Moçambique. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. entre ultra-reaccionários. – Por esta altura. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. futuro militar de Abril. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião.

numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. reafirmando a disposição de não ceder em África. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. para reflexão. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. publica o livro “Portugal e o Futuro”. convidando-os. – Nesse mesmo dia. – No dia 5 de Março. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. transmitida pela RTP. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. 327 . O professor fascista “demo-liberal”. após ultrapassada uma fase de algum desânimo.Guiné. reúne-se em Cascais. Família. Pátria. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. a chamada “brigada do reumático”. em directo. Costa Gomes e Spínola. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. em vão. Vinha de um retiro no Buçaco. A “coisa” está para breve. o “Movimento dos Capitães”. para todo o país. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). a assumirem o governo. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. – No início de Março. os oficiais-generais. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas.

naquele promissor Março de 1974. o sargento-ajudante “Mafra”. greves na cintura industrial de Lisboa. Os amigos. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . divertido e perspicaz.. meu sargento. – Cartas de amor e guerra.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. e prisões. chalaceara à partida. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. O velho sargento. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. amor e esperança. solidários. Caetano. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. “Portugal e o Futuro”. no regresso de férias. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. com frequentes “extravios”. Desta vez. em trânsito ocasional. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. em fins de Março. livro de António de Spínola. animadas pelos comunistas.. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. com as missivas dissimuladas. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. – Deixa lá a guerra. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. grande dinâmica unitária do movimento CDE. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M.

(. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro.. refere a coragem dos revoltosos. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. depois de castigo disciplinar). em Julho de 1973... como costumas dizer”(. Não foi ainda!. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. INHAMINGA A SUL. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. apesar de inconsequente. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.. com um enorme impacto 329 . que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime.) Amor querido.).) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados.. Mais cedo do que tarde.. Hastings. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta... o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. Margarida.(.. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.

O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973.. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. para onde a companhia independente tinha rodado: (. no caminho estratégico para a Beira. 330 . – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações..! – Nada que se compare com este inferno.mediático. sempre a alinhar! – Boa sorte.. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). A situação é deplorável. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. Oficialmente configurava uma acção por focos. amigo. era ou mato ou morro. Havia notícias desde Julho de 1972. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. é palco de uma crescente perturbação subversiva.. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo.) “Afinal tinhas razão amigo. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. esta zona onde aquartelámos. acompanhados por dois cineastas e um repórter. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. Algumas semanas depois. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”.

lançava o pânico. Entravam e saíam carros civis e militares. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. torturando e eliminando patriotas. vinda da guerra no mato.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. onde o terreno estava relativamente “livre”. A tropa regular. Nos últimos dias de Julho de 1973. Estas denúncias referem milhares de 331 . alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. Depois do Verão de 1973. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. em autênticos massacres. A sanha perseguidora. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. iria assistir e nalguns casos participar. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. em Tete. prendendo sobas e régulos. massacrando ferozmente populações. nas hostes colonialistas. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga.

quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. Gungunhana e Moçambique. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. a alta hierarquia militar. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. como na localização das bases Nampula. 332 . conveniência ou por convicção. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. e nas Colónias. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. originando dezenas de milhares de deslocados. adivinhado naquele início do ano de 1974. com homens de “antes quebrar que torcer”. durante a operação Nó Górdio. No estratégico caminho da Beira. por cegueira. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade.mortos. geralmente odiada. pela PIDE. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. terem essa atribuição). atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades.

.. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. de 19 a 22 de Abril de 1974.. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. padre José de Sousa àquela área. podiam ver-se muitas estrelas. em plena luz do Sol.. da Rodésia. com foguetes terra-terra de 122 mm.“Strella”. dada pelo chefe da secretaria. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. A explicação não tardou. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras.. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. – São “patentes” da África do Sul. Mesmo tendo diminuído as 333 . azuis.. da Namíbia. do Brasil. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. a norte de Moçambique. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa... incluindo aquele. significando tratar-se de militares de patente elevada. – Têm fardamentos bonitos!. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos.. amarelas. cinzentas e verdes. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!.

Com as últimas garfadas. retiraram-se à procura da refeição frugal. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. não estava pronta: – É um “Dakota”.... os aviões de abastecimentos tinham rareado. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. digna de registo. Zambézia.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. a comida escasseava. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. Na messe dos sargentos. comia-se em dois turnos. de serviço à pista. onde João fora aboletado por determinação do comandante. Manica e Sofala. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. depois do caldo aguado. o correio andava atrasado quase um mês. após uma grave crise de desnutrição. tal como há três meses atrás. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 .. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. em 1971. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. após a operação “Nó Górdio”. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter.

virando-se para a comitiva tagarelando. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. com o 335 . No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. Num repente. ainda fumegante. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. os “Strella”.. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. Agarrados aos frágeis bancos de lona. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados.. Depois de levantar voo na pequena pista. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. Em princípios de Abril de 1974. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. vamos tentar uma aterragem de emergência. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. são 13 horas e o almoço arrefece!. atingira-se uma situação alimentar muito precária. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. – Calha bem. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. a aeronave subiu muito alto. Por favor.

travando a fundo os rodados. – Tenente. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. imobilizou-se por fim. fora feita para receber os pequenos monomotores. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. fazendo um barulho ensurdecedor. não permitiram uma boa travagem. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento.. em Diaca . quando se aperceberam da situação. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. No interior andavam todos aos trambolhões. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. a exigir a elevação do “nariz”. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. 336 . prevenindo-a da emergência. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. e a falta do motor. vamos “dançar” um bocado. gritando o desespero da hora derradeira.. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. em rápida aproximação da terra. o avião meio destruído. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. A pista de terra batida e cheia de buracos.motor restante acelerado ao máximo. O piloto-chefe informou via rádio. a unidade militar mais próxima. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. abandonadas à pressa pelos indígenas.

e desmultiplicava-se em acções de rua. vinda do Sul para estudar. onde decorria uma participada assembleia de democratas. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. dos estudantes. 337 . recebidas com grande apoio popular. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. dos trabalhadores. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. Coordenando a luta legal e semi-legal. depressa se envolvera na luta pela democracia. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. No dia 6 de Abril de 1974. da intelectualidade progressista. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. por não haver condições democráticas. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS.

onde quer que obriguem o sacrifício humilhante..– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. Amo-te querida esposa. não sei qual a sua fonte de inspiração. onde quer que viva onde quer que morra. tê-lo-ei sempre comigo. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. escrito na pedra ou no vento. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. doendo no corpo e na alma.. Custava-lhe magoadas. dependurado à cabeceira. mas se soubesse fazer poesia. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação.. A morena de olhos escuros dos genes árabes.. sublime e autêntico.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. será o grito de revolta..: “. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. tão Não teve tempo de completar a leitura. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. – Minhas senhoras. à porta da cela onde 338 . sentimentos e emoções de uma vivência difícil.. gostava de escrever um poema assim. Faremos dele a nossa canção de luta. o desejo. cresce o amor.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade.. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas..

surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. entretanto regressada dos lavabos. minha senhora. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. “Poemas de amor e revolução”?!. a morena de cabelos em franja. apenas recebemos ordens para as transferir. – É o regulamento. o estrato humano em presença. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. mudando o tom... pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. – São cartas do meu marido que está na guerra.. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. Não tivera tempo para mais hesitações. Era outro... completamente.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. porém. Eram ordens. Muito interessante. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro.. A carcereira às ordens da PIDE. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. a ala dos interrogatórios e das torturas.. como era uso. 339 . – Isso não sabemos.. Decisão temerária e esforço inglório.

com a miúda pequena!. – Vais ver. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche.. Depois ressuscitou! É verdade. com data de há dois dias. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. que vais fazer? – questionava o Pedro. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. nem sabia bem. numa reunião da CDE. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. sinto-me atado de pés e mãos. prostrado.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. Aqui neste fim do mundo. Lágrimas reprimidas mas teimosas. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. não vão detê-la por muito tempo. por minutos ou por horas.. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. em Lisboa. – Se pudesse ia para lá já hoje!. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. Era preciso arrumar as ideias. – E agora. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo.. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. – Foi detida no princípio do mês. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. analisar a situação. produto da fé dogmática.. 340 .

UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. frustrações e medo. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. sem saída previsível. lançada à dois anos pelo general fascista. nas mesmas picadas. Algo paira no ar!. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho.. a Manuela conta-me de uma grande agitação social... – É tempo de derrubar o fascismo. a guerra prosseguia sem fim à vista. que avançavam lentamente. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. de quem tinha um filho também pequenito. mal a conheço!. Aquilo lá está complicado. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. 341 . o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. agravado por um quotidiano de misérias.. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. greves nas fábricas!.. – É da idade do meu. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas.. – Pedro referia-se à esposa. com o parlatório de permeio.

No presente. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. mas que era por vezes motivo de incidentes. em 25 de Junho de 1975. a bem da moral psicológica das populações.. mal alimentados.. somados na terceira ou quarta comissão. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. perdidos no meio da burocracia conveniente. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. Já quase chegavam para a casita nova. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. talvez o enorme campo de aviação. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. diziam as vozes do desânimo. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. Aliás. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. mal instalados. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente.entretanto afastado. fazia parte da orientação do In. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. que não matavam mas moíam bastante. apto a receber grandes aviões.. da contestação e da revolta.”.

– Ai minha rica mãezinha. estão em calções 343 . mas às vezes não!. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. com a arma cruzada entre os braços.. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. debruçados no parapeito da vala. encarregada da segurança daquela área. Pela primeira vez em pleno dia.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974.. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. desde que começou o ataque às 8. Companhia de Caçadores. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. É o décimo. quando o pânico perturba a racionalidade. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira.

entretido a escrever à máquina um aerograma.. na direcção do posto de artilharia da unidade. arrancando resoluto no jipe. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. Restava a vala-trincheira já superlotada. saindo do seu gabinete tenso mas determinado.e tronco nu porque o tempo contínua quente. Na reacção. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. enquanto o chefe não chegava. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. pensava-se inicialmente. a responderem ao bombardeamento: 344 . tinha decerto instruções hierarquizadas. ser um normal rebentamento na pedreira. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. de 8 e 14mm. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. onde psicologicamente o susto era menor. A excepção foi o comandante do aquartelamento. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada.. a meia encosta. Na secretaria do comando. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. na direcção da pista de aviação em eterna construção.

permitia concluir que ainda estavam vivos. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. mas a tremenda e instantânea confusão. os nossos canhões não têm precisão a essa distância.... – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. não morreu um gajo no ataque a Palma! . a menos de 50 metros. ribatejano. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. com a G3 entre os braços. ao fim da tarde. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . Havia uma pequena pausa no ataque.. O furriel Costa continuava imperturbável. a mais de cinco quilómetros. pá! Por pouco!.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. Outra vez a voz calma do furriel Costa. é relativamente inofensivo. Aprendia-se nas conversas de caserna. que “quando se ouve é bom sinal!”.. filho de pequenos agricultores.. – Pois não.. Olha se caísse aqui?!. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. sempre de cócoras. – Ena. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”.. “arrancado” à escola superior de agronomia.

Os olhares cruzados naquele instante. a pontaria estava agora muito alta. No seu jeito brincalhão característico. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. fica atenta às notícias da telefonia!. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor.os anteriores. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. No dia 4 de Abril de 1974. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. durante uma hora e vinte minutos. já se via muita gente de pé. – Venho estafada. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. traduziam um intenso pavor. Nove horas da manhã.. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade.. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. as munições deviam estar a escassear. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . só estragos materiais. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. A resposta da artilharia esmorecia também. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”.

sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. onde começara o namoro e. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. Amanhã logo saberás quando acordares. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. no “Abril em Portugal”.... distendendo os nervos. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. pela primeira vez em muitos 347 . sempre lindo. Conhecendo o ditado das “águas mil”. bem precisas. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. – Como foram os interrogatórios. rapariga! Descansa. nos novos caminhos da liberdade precária. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís.. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa.e não queres que durma? Sorria. Não te preocupes. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. – Vai-te deitar.. a jovem mulher com ar cansado. se se cumprisse a movimentação preparada. sem objectivar. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. ao rever o local à beira-rio. O comboio da linha fora a primeira etapa. em vias de se tornar definitiva. mesmo em dias de borrasca.. o Tinoco também não vai dormir esta noite!.

onde vivia com os sogros. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. – Responsáveis fomos todos. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. a esta hora já estão em casa com as famílias. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. desde a partida do marido para a guerra. Como estaria o seu João. sorriu. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”.. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil.. a mostrar serviço na presença do superior. – Não tenho nada a declarar. – empertigou-se o chefe de brigada.dias. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. horas e horas de angústia. nada mais tenho para dizer! – Ah. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. Novamente a insídia do inspector superior. “visita” diária desde o primeiro dia. sobre as 348 .

vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar.insinuações em relação ao companheiro. Finalmente! 349 . em catadupa... * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. com um sorriso como não via há muito tempo. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. a saudade roendo o corpo e a alma. e só regressou exausta de madrugada. Numa das vezes. Por fim desistiram. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. houve qualquer coisa em Lisboa!. Um último pensamento foi para o companheiro distante. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. após quase vinte dias de interrogatórios. na hora de tentar conciliar o sono. onde cabia toda a candura do mundo. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. alegre por rever a mãe. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono.

.– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!. 350 ..

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