A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. deixo ao leitor. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. infelizmente. que nisso estiver interessado. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. de algum modo. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. indiscutivelmente. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. quer na dinamização do 25 de Abril. Marcharam esses 8 . para dentro das fileiras das Forças Armadas. o autor adoptou uma estrutura mista. quer na rápida solução do conflito. Essa foi.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. e que assim. Respeitando essa intenção. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. No centro de instrução em Mafra.

O narrador acompanha-os. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961.milicianos. a crise académica de Março de 1962. Logo no capítulo 2. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. isto é. Guiné. para os três teatros de operações. ignorando-os ou afeiçoando-os. Longe disso. Angola. entenda-se. Damão e Diu). Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. em Maio de 1962. por norma. De acordo com o seu propósito didáctico. O regresso dos militares feitos prisioneiros. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. nomeadamente o historiador académico professoral. estende-se entre 1961 e 1974. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Exactamente ao invés do intelectual burguês. Não se trata. de ensinar. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. a petição de princípio. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. Na realidade. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. etc. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. É esse o período de 13 anos e 3 meses. o autor intercala dezenas 9 . perante as forças da novel República Indiana. cujo método é. Entretanto. por exemplo. desprezando a evidência dos factos. graduados em oficiais ou sargentos. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Moçambique.

ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. despidos de ambição pessoal. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos.de resenhas de carácter histórico. um acto de resistência. Dos comunistas em primeiro lugar. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. devemos ter orgulho nesse 10 . por si só. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. quando se perfilam em Portugal e no mundo. algumas extensas de dez páginas. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. Um estado dentro do Estado. Em tempo de escuridão. Mas todos. quer nas colónias em guerra. nesses anos finais. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. quer no país europeu. Nos tempos presentes. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. tantas vezes heróico. pois repara muita injustiça). (Mais que justo. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. de forma modesta e aparente singeleza. que fazemos um povo. como bem observa. contra a opressão fascista.o livro agora publicado. é justo assinalar. reconforta a alma. por estes democratas da 25. invocar essa memória já constitui. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem .

Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. permitam-me. Lisboa. não devemos esconder esse orgulho. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. comunista de sempre. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . E.passado pois é parte e espírito da nossa História. mobilizado para uma Guerra Colonial. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. que nunca aceitou como causa sua.

ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. vivê-la com as 12 . “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”.. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas.. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. As memórias da realidade. a ficção baseada em factos reais. Estes ensinamentos da nossa história. dos seus incrimináveis mentores. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. compreender a guerra por dentro. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. e da “vitória ser rápida”. porquê? As memórias esvaem-se.. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. perene. o romance. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. Nunca é tarde para perceber. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. definitiva. as mágoas persistem. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. teimosamente persistente. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes.

a revolta e a coragem. o desiderato deste livro. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. e. 13 . e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. os medos. ouro sobre azul. Guiné e Moçambique. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes.angústias. o terror. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. além do mais. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. que faziam emboscadas. mas agora. A luta de novo tipo. as tristezas. as solidariedades. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. contra os mesmos incorrigíveis franceses. É este. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. a nobreza de carácter. flagelações e punham minas nas picadas. a amizade. a cobardia. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia.

atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. Os que regressam de África ─ os 14 . os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. próceres de Salazar e de Caetano. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais..Os fascistas e militaristas. Como se não existissem 400 anos de dominação.. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. na rádio e na televisão (também no cinema!. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. Como se Agostinho Neto.. o “Avante!”. órgão central do Partido Comunista Português. não tivessem nascido. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. deturpando. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. iludindo os portugueses. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores.. procuraram elidir as questões fundamentais. escravatura.

tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. Em Portugal. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. as lutas e deserções multiplicam-se (. n. de presos por revolta ou protesto. A amargura. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. o Presídio Militar de Elvas. * 15 . procura um caminho para se manifestar. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim.. nomeadamente: fuga à tropa. de Outubro de 1962. até ao 25 de Abril de 1974. A recusa podia revestir diversas formas. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro.. constituindo um feroz. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. que ousassem levantar a cabeça. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. Os protestos. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. de objectores.). o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários.º 322.desmobilizados.

Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. de preferência em grupo. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. nas escolas. deviam ir à guerra e uma vez aí. deturpada e mentida. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. Tarefa complicada sem dúvida. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. torturas e morte. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. a violação de mulheres. nas empresas. massacres. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. que tudo pervertia e até fazia assassinos. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. o assassínio gratuito. profissionais do quadro permanente não desumanizados. os melhores. e os que estavam convencidos que da sua acção. o tratamento desumano de prisioneiros. dependia a aceleração do fim da guerra.. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. sob todas as formas. entre os jovens fardados. As suas 16 . entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. obstou o crime horrendo.. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais.

contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. “anti-patriotas” por definição. A sua opinião crítica. compadrio. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . com profundos sentimentos anti-guerra. a “soldo de potências estrangeiras”. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. às vezes mitificadas. no movimento democrático. primeiro. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. neputismo. “Abaixo o Fascismo!”. as suas manifestações e lutas. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. nos locais de trabalho. e o. e o “Movimento das Forças Armadas”. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. depois. * É incontornável. nas escolas e nas ruas. iam para a dita. Os comunistas. por outro lado. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. ainda que pouco (re)conhecido. tráfico de influências. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. nas colectividades e associações. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. suborno. tentavam por todos os meios (cunhas. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. o “Movimento de Capitães”. seus inimigos figadais.

Espancamentos brutais. a PIDE/DGS humilhou. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. 18 . assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). em estreita ligação com os meios militaristas. sobre a Academia de Coimbra. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. perseguiu. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. vigiando. Em África como em Portugal. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. despromovendo. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares.Estas profundas contradições no seio do regime. colaboração e incentivo em massacres e morticínios.A. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. torturas até à morte. perseguindo. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. castigando e quiçá matando. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. (politicamente activo). excluindo. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. de contestação e de revolta. o título de P. Uma questão central da guerra em África. fichando. em 1969. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. prendeu.

Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar.guineenses e moçambicanos. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Salazar dera orientações nesse sentido. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. a chamada guerra subversiva. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. a guerra colonial foi calculadamente 19 . Significa que entre nós o crime compensa. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar.

com a outra mata!”). e uma multidão de títeres do regime.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. por certo. Kaúlza de Arriaga. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Com determinação e sentido histórico. muitos destes nas Forças Armadas. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. Mário de Figueiredo. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. Marcelo Caetano. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Américo Tomás. Era assim para Oliveira Salazar. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. França. Silva Cunha. Silva Pais. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. pelos valentes capitães com o apoio popular. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Franco Nogueira. naturalmente. por questões de classe e de interesses individuais. para que o poder político encontrasse uma solução. evidentemente. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. devido a interesses económicos e empresariais. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. Bélgica. Holanda). 20 . não permitia saídas do tipo neocolonialista.

Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. África jamais será esquecida. a guerra colonial não acabará nunca!. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. Que este livro de inquietações. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra..* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. a derrotar todos os “senhores da guerra”. Essa seria a única. com as marcas irreversíveis no corpo.. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. naturalmente. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . Para os milhares de feridos e estropiados. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. do passado ou da contemporaneidade.

Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. Flechas.. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 .Jorge Jardim. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. o coronel João Varela Gomes. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. será a nossa maior satisfação. “Katangas”. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas.). seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. Em última análise. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. etc. Barreiro. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. perpetrando matanças descabeladas.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . à espera do sinal précombinado. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. ficar na paragem não é prudente. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. sempre com muita gente azafamada. a nova ligação é importante. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. Pouca gente na rua. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. há iniciativas dependentes daquela conversa. mesmo em frente da paragem do eléctrico. Bom. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. Embora não seja novato naquelas andanças.arranca desiludido. O "28" chega vagarento e ronceiro. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". não vá andar algum "bufo" nas imediações. Passam cinco minutos da hora combinada. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. É preciso voltar no recurso. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. Aquela é a única carreira que por ali passa. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes.Horas de jantar. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída.

duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. Bento.. Bento. Sacudir as teias é preciso. o eterno mistério das trevas. António de Spínola. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. vai caindo em descrédito. inóspita. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. desoladora. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. capital de um império de "faz de conta". Rua dos Poiais de S. sorvedouro de homens e de recursos. o telejornal está a começar. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais.─ “Olhá” desavergonhada. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto.. a rua entristece-se. Calçada de S. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. mal iluminada. O populismo do governador do monóculo. a querer roubar-me os "tomates"!?. Pelo som. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto.

Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. Pela porta de uma taberna escura. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede.. aproximando-se inexoravelmente da cidade.!? Bom! Carros pretos há muitos. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE.. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. durante o "minuto conspirativo".. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. na reunião matinal. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. Carlos.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. Av. D.. mas hoje precisamente. da chamada ala liberal. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. Contradições do sistema.

Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. condenações de Portugal na ONU. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. colocada num canto superior do estabelecimento. no norte de Moçambique. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. Kaúlza de Arriaga. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. e das imensas contradições em que o regime se atolou.Górdio". centenas de soldados portugueses mortos e feridos. com populações civis sacrificadas.

da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África... envergando roupa de tons escuros. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. na tropa há seis meses. não!?. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné.” Madina do Boé. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. em Setembro de 1973.. será alienada. ajudando na consciencialização. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista.. que teria a capital em Madina do Boé. o jovem moreno e bem vestido. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.. o rapaz magro e alto. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. na Guiné.. convicto da orientação política traçada. 28 . no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. não sei se estão a perceber!?. ─ clamava exaltado no calor da discussão. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau.

Este sentimento corria os quartéis. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. algo distante e compenetrada. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. Grande bronca! . * Chegara ao grupo discretamente. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. mas a coisa pode radicalizar--se!. ─ o camarada João.. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. bigode farfalhudo e sotaque nortenho.. na distante. nos aquartelamentos.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. sentindo o cheiro a pólvora. Não era fácil convencer quem. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. nos postos avançados. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. Aquela forma de estar.... paradas. motivadas por razões corporativas. acendeu paixões e afivelou rivalidades. mas simpática e graciosa.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. casernas... quero ver como é!. sabia do que falava. e.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes..

─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes.. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . incorporava o regime. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. cigarro nervoso entre os dedos. um aspecto tristonho e sério. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil.escuros e sorridentes. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. risonha e muito extrovertida. No pós Maio francês de 1968. de barbicha. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. propiciava radicalismos.. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. ─ Portugal é a última potência colonial europeia.

mas o momento era de grande frustração. Cumprimentos da praxe.. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. normalmente acompanhados. como acontecera de outras vezes. senhor ministro. de avanços e de recuos. A luta era feita de vitórias e derrotas. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. Naquele início de noite estavam só os dois. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. ainda não respondeste ao meu pedido. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. ─ Escuta. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros.. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada.. ─ Fazem favor de se sentar.. de perna curta. não temos pressa!. ─ Ora essa. ─ Sabes? Eu … eu. ansiedade.

O País animou-se em expectativa. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. contra a ditadura política. acompanhada de abundantes gestos. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. Universidade. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães".e uma cadeira de espaldar alto. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . telefone pousado. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. sem vacilações! Fazem greve em Julho. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. no topo. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. Ao fim e ao cabo. O Ministro da Educação. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida.. a que os estudantes chamavam 32 .. no início do ano lectivo de 1969/70. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Uma actuação firme. da GNR e da PIDE. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. Milhares de estudantes em desobediência civil. A crise académica na Universidade de Coimbra. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia.

teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. ─ Mas fazem o favor de se sentar. Do alto do espaldar da sua cadeira especial.. devido à sua baixa estatura. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. Os quase siderados visitantes. ainda estão de pé?! ─ Faz favor.. outra forma de piropo estudantil.. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente.. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. vezes um ano perdido. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. "meio-nistro". congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. ainda em pé à beira dos sofás. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. o "mini-istro". mexendo-se incomodado. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. ficando enterrados quase ao nível do chão. senhor ministro.satiricamente o "meio-istro" ou. 33 .

Pelo caminho. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. por dentro. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. resolveu que a solidariedade era mais urgente.. João. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. minarem a confiança dos soldados no Czar. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. quando o Partido Comunista da União Soviética. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Cego! Informara o comum amigo e avisador. Uma angústia feita suor frio. mas logo assim em tão pouco tempo!?. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. chocante.. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. na clandestinidade. junto do “povo fardado”. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. Embarcara para a Guiné há menos de três meses.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. na qual o Rolando também tinha participado. como furriel sapador de minas e armadilhas. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos.

Por instantes ficou paralisado. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. com uma absoluta angústia de ver o 35 . Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. por estranhos e simultâneos sentimentos . contudo logo à entrada do 1. também neste local não havia guardas. foi entrando pelo terreiro..º pavilhão. Como não havia ninguém de guarda. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor.secretaria. com cotos ligados à altura dos cotovelos.. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. que se calhar nem foram ouvidas. estavam sentados em cadeiras de rodas. com múltiplos pavilhões disseminados.. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca.. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. vários soldados em pijama regulamentar. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos... O coração doía com aquela visão terrível. de cabelo encaracolado de um escuro característico. revoltadas e envergonhadas. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. agora “minas e armadilhas”!?... a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos.

Sou amigo como se fosse irmão.. começou a dar-lhe a sopa.... ─ Então rapaz. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas.. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite. 36 . também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. ─ o jovem muito moreno.. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. estou sozinho!. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!.. ─ A esta hora está tudo ocupado. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. Os médicos já me viram!. ─ Sim! Bem!.. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. Sem nada dizer. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita.amigo naquele estado. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. comovido até ao limite das forças.. ninguém dera pela sua presença. entrei porque não encontrei ninguém de guarda.. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer.

foram as palavras do professor. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas.. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. aproxima-se o "28". O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. Com a mão no ombro do amigo. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. filho dilecto do regime: ". vagaroso. devia estar com vergonha da sua situação. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase..─ Bom! Isso é uma boa notícia. a rua está agora quase deserta.sem Madina e sem Boé. Passa tempo demais em relação às normas de segurança.. é tempo de voltar para casa.. com 37 . que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. ─ Não quero mais sopa. rangente.. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. A outra vista não tem recuperação. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”.".. ─ Talvez mais tarde. com outros recursos consigam recuperar a outra!.

atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. Não pensava tão cedo.. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. um carro preto vindo da esquina próxima. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. não há veículos à vista. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam.. Mas os tempos estavam a mudar. gritos. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 .. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. Afastada a concorrência.a chamada “primavera marcelista”. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. ali perto. no Instituto Nacional de Estatística. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos..

permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. sem mais nada. sem lamechices. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira.! Mas olha. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. Um a um todos foram chamados para a tropa. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971..namorada? ─ Sim. tudo à volta parecia perfeito e calmo. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. enlevados e trémulos de emoção. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. Os corações abriam-se de forma sincera. O jovem alto e magro. Deram a volta ao quarteirão. no COM. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes.. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. e o mundo revelava-se sorridente. em princípios de Outubro. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. ditava a incorporação em Mafra.

. 40 .─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco.. pois o pai. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. nos inícios da década de 70. E morreu mais um no turno passado. trazê-mo-los no coração. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. trôpego. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. vacilante. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. o “Alerta Camarada!”. o seu João Silveira. seguindo uma orientação conscientemente assumida. Durante muitos meses. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. durante exercícios com fogo real. necessariamente clandestino. do 2. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. Saía à mãe. os comentários. partiram para a guerra. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. Até que todos os seus mentores. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. os relatos.º ciclo. levou as notícias. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô.

Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra.. melhor que ele próprio. com nomes gravados outros. ─ Pois não. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. alojado junto da coluna vertebral. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. ─ É este aqui. ─ Avô... para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina.. muitos com flores artificiais. com fotografias uns. * 41 . Mas não tem nenhum nome?!.. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. ─ Avô. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade.. não foi avô? ─ Foi. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. foi!.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. alguns com fantasias bizarras. Para mim a guerra nunca acabou!. Traquinas e esperto como poucos.. “Raio de ganapo!” ─ pensou..

magnetómetros à frente para detectar metais. comandante da secção. sobretudo nas zonas de areia solta. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. emboscadas ou minas na picada. o grande temor pelos últimos dias de comissão. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. o pessoal seguia com relativa descontracção. a chamada rebenta-minas. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. as picas atrás a furarem o terreno. Há semanas que não havia flagelações. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. não tardava nasceria o Sol. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira.

43 .. viscoso. o 1º cabo José Pinto.. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível... assim. pá! Passa-me a pica.. com distinção e elogios. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. leal e honesto. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. devagar. O Pinto era um rapaz corajoso. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante.. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio.. várias vezes dissera que se morresse na guerra. ─ Calma. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. como dizia publicamente e sem rodeios. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel... dizia sempre o que pensava com frontalidade. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar... deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer.. vou tentar des. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia.. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”.

44 .em Moçambique.

2. REGRESSO DA ÍNDIA. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .

─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. O dono da casa. se engajou na luta contra a ditadura. oriundo do Alentejo litoral. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. não podemos abandoná-los !. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. mas com as preocupações de um mundo em tensão. dá o mote: ─ O que representam Goa. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. há muitos anos radicado na vila operária.. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. lembrando as lições da escola primária. onde. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. frente à taberna do Arnaldo. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo.. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos.Tarde de sábado. nos fins da década de 50. o sobrinho Alfredo. como republicano e antifascista.

47 . ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento.. como lhe ia dizendo. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. desculpe. barba ou cabelo? ─ Barba. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. e. notório situacionista. claro!. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. a PIDE rondava-lhe a casa. tendo passado alguns meses preso em Caxias. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. ─ Sabe. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. merecias que te cortasse o pescoço !”. ─ Então senhor Vaz. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. Embora saísse sem julgamento.oceano! A conversa muito animada. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. refastelado na cadeira.. demoradamente. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. bom. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. Na sala. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. nessa azáfama.

Os governantes fascistas. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. No regimento de Artilharia 1. em 1955. Na longínqua Ásia. pondo o quartel em “estado de sítio”. O 48 . em Helsínquia. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. Inglaterra. Estados Unidos e União Soviética. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Damão e Diu.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. foram castigados com o corte de dispensas. ficou uma lembrança trágica. em Bandung. no mesmo ano. de que deveria restar uma memória positiva. a Assembleia Mundial da Paz. Já em número de 300. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. insistia na via do confronto militarista. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. qual falcão em plena guerra-fria. juntaram-se na parada a protestar. com representantes de 68 países. em Évora. sob administração portuguesa. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. o governo salazarista. escondendo do povo português a sua vocação belicista. usando a férrea censura dos jornais. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias.

Depois de mais alguns episódios repressivos. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional.comandante. Aumentou a revolta aos gritos de. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. é hoje! É hoje!”. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. intimando toda a hierarquia. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. Exaustos e revoltados. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. mandou fazer uma marcha acelerada. dependia de outros embarques próximos. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. em 30 de 49 .

escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”.. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista.analisa a questão colonial portuguesa. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. necessário à sua vida. muitos povos”.Maio de 1956. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. etc.. Quando um povo. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. Ainda no final da década de 40. Na década de 50.. à sua defesa. quando da negociação do plano Marshall. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. no campo democrático. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. É assim. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. Salazar afirmara que . à sua subsistência”. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. “Uma Nação.. cobiçadas pelos norte-americanos . Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas.

O regime salazarista. a segregação racial nos transportes. cinemas e lugares públicos. as fomes e epidemias devastadoras. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . o MUD Juvenil. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. isto é.. na Margem Sul e noutros pontos do País.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (.. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África.). O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. “um movimento racista contra o branco. a ausência de qualquer direito. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal.. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. . acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. como. social ou político. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados.. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho.. Por volta de 1954. de Junho de 1956 : “(. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas.. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. generoso portador da civilização”. já citado. em iniciativas abertas e unitárias.. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”.. O órgão central dos comunistas.

REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. mais do que com qualquer outro membro da família.. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. nem os discursos de Salazar. quando o clube da terra jogava em casa.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. na casa modesta da tia Clotilde. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra.. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. depois da “bola”. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. vigário da matriz: 52 . posto que irmãos não tinha. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. Mas senhor doutor.. era tempo de visitar o primo Zé. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. com que trabalhos e canseiras. nem os planos e as medidas de guerra. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. e desde então todos os anos vai a Fátima. O colonialismo tem os seus dias contados.. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa.). como os valentes soldados de Évora. (.

naquele tempo dos princípios da década de 60. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. com uma relativa consciência do mundo.─ Clotilde. não percas a fé na senhora de Fátima. lembrando-se da afirmação 53 . 300 milhões!. entretanto já terminados. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. olhe que os indianos são muitos.. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas.. comprada a prestações com muitos sacrifícios. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. como não haverá navios rendidos. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. era a sua companhia de muitas horas. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. A telefonia. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. um luxo para as classes trabalhadoras. para ouvir os relatos de futebol.

sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. Joaquim Faria. em Dezembro de 1961. em África.do barbeiro. na Índia longínqua.. feitas 54 . os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. na altura dos Santos Populares. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. as tropas portuguesas na Índia. Eram agora raros os saltadores exímios. “rapidamente e em força”. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. como mandara o ditador.. por isso lhe dava uma carga pejorativa. dez mil e tal contos. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. Em Maio de 1962. ─ Ah. restavam os ganapos e as moçoilas... se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano.. Quando os militares portugueses. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. de medos e angústias. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. talvez!. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. Damão e Diu pela União Indiana. comandados pelo general Vassalo e Silva. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!.. numa atitude típica do seguidismo salazarista. .

A mãe de Alfredo. vindos dos desenganos apesar da noite fria. apupos. Gritos. na ausência de informações oficiais. iam finalmente regressar ao País. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. ansiosa por abraçar o ente querido. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. de gabardina e chapéu.. vestes escuras e lágrimas doridas. grande algazarra entre as centenas de parentes. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. ausente há muito tempo. a família de Alfredo Júnior. dado o seu isolamento.. No dia 23. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. ─ implorava uma velha mãe. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. e viceversa. conforme os boatos que iam surgindo. cada vez em maior número. lenço modesto na cabeça. já não o vejo há dezoito meses!.. correu juntamente com muitas outras famílias.. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . oriunda da zona antiga da vila operária. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). só acostaram em Lisboa já de madrugada. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. instado por um grupo de familiares. É um senhor vestido civilmente.

─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . Ao longe. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. mas contra o colonialismo e o fascismo. acenam com lenços brancos. povo de Portugal. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. debaixo da mira de dezenas de espingardas. estenderemos a vós. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). não podemos esquecer o povo português que. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. Como povo livre. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. fora do olhar policial. acompanhando zelosamente o senhor inspector. antes de voltarem para casa. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. por sua vez.. datada de 14 de Dezembro de 1961. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara.. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. alguns jovens esgueiram-se lestos. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”.) Por isso.

em troca de uma decantada pátria pluricontinental. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.juventude. Regressaram à terra natal. 57 . talvez pela primeira vez. compreendendo. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional.

da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. que considerava proclamavaportuguesa”. em Diên Biên Phu. em 1955. FNL. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. Em 1954. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. Ou a realização de um “referendo em Goa”. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. Não era esta. contra o ocupante francês. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. potência colonial. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. a opinião dos meios de oposição ao regime. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . porém. na Indonésia. 58 colonialmente ocupados. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Damão e Diu.

todos vivemos num único planeta. Em relação às colónias portuguesas. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. trabalhamos. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. Do que se passou nessa histórica assembleia. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (... com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. pela União Soviética. os representantes dos países socialistas. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. 59 . Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. Neste planeta nascemos.)”. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. dos neutralistas e das jovens nações africanas. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. Em 1958. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU.

Goa. Mueda. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. Tomé. com o apertar das algemas da opressão colonialista. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Os massacres dos povos de S. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”.. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Timor. Paiva Domingos da 60 . ivuenu. Os patriotas angolanos. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. com o agravamento da exploração colonial.” (oiçam.. turutuka dii. voltaremos aqui.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. Neves Bendinha. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. oiçam.).. que procuram inverter os factos. Em breve fariam prova estas palavras certeiras.. Bissau. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. Scalo Bengo (Angola). encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. Cabinda. em Luanda.

Silva. Imperial Santana. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. um cónego mestiço angolano. na Ilha de Santiago. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. enquadrados em vários grupos. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. abençoou os revoltosos. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. Raul Deão. em Cabo Verde. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. Virgílio Francisco. De resto. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. o próprio. fazendo milhares de vítimas. guardadas no campanário da Sé Catedral. Domingos Manuel Mateus. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. missionário na arquidiocese de Luanda. Na madrugada de 4 de Fevereiro. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada.

Sambizanga (foram mortos 4 polícias). junto à praia do Bongo. sendo os restantes. era a “limpeza étnica”. com poucas excepções. nas rusgas e cercos. ─ Companhia Indígena. começou a terrível “révanche”. uma autêntica “eliminação selectiva”.). levado a cabo por gente desvairada. que seguia num machimbombo (autocarro). feridos. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana.. deixando centenas de cadáveres. correrias. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. interrogados. “Mata esse preto. filho da puta!”. Pedro da Barra. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. espancamentos. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. presos. dezenas de autóctones. mortes às dezenas. onde estavam muitos presos políticos. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas.. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . Depois foi um terrível massacre. Nenhum dos objectivos foi alcançado.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). ─ Cadeia da 7. com a perseguição. indefesa. Agarra que é “lumunba!”. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. Estava iniciada a Guerra Colonial. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. espancamento e morte de gente negra. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. À noite nos muceques. empurrados logo de manhã para as valas comuns. ou de trabalhadores numa oficina perto.

ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. sempre com conta e medida. O célebre fadista. do café Beira-Mar. quando a avenida da Praia era mais frequentada. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. conseguia desatar. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . Ao fim da tarde. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. o João “Careca”. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência.

A curiosidade fora espicaçada. Acabou o noticiário.. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. quebrando a corrente emocional e patrioteira. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. é nossa... é nossa! Angola. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. da sua grandeza Além-Mar. deixando uma angustia de dúvida e receio. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios.. inquietante mesmo. pela negação dos factos apresentados. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. porque a família real era dinástica e divina.. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. Fazia vibrar de emoção e orgulho. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. 64 . gritarei é carne e sangue da nossa grei. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado... sempre se ficava a saber alguma novidade. é nossa! Angola.” A sensação desagradável. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional.multicontinentalidade da Nação..

mantém nas masmorras da PIDE. senhor Lobo. sobrinho por afinidade. O Ferreira da Costa... numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. E voltava! “. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer.. salazarista convicto. bem pronunciada. O regime fascista. mas a realidade inevitável.. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. duas. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente.. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem.. na Emissora Nacional... em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. Scalo Bengo . identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. Uma. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. etc. diz ser tudo mentira!. ─ Esse gajo é da situação... Goa. músicas estranhas que o velho vizinho. Tomé. Timor. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. o regime 65 . Baixa do Cassange. Mas é perigoso ouvir!. três tentativas. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. S. Vozes estrangeiras incompreensíveis..─ Tio Zé. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos.

entre as 19.00 e as 21..” Afinal não era a Rádio Moscovo. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. Os dilemas da guerra e da paz. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção.. obstando a mensagem de denúncia e de luta. era outra voz da mesma liberdade procurada.. Depois da 4. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente .ª classe na Sertã natal.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. pelos serviços da PIDE. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras.. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . Espera enervante.00 horas.

Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. aliciado pela PIDE. por sugestão de um colega. em toda a sua vida.incerteza no futuro. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. promete continuares a estudar. por lá ficou mais de um ano. Manuel interrogava-se. com uma sedimentada consciência de classe. Aprendiz numa oficina de automóveis. O convívio com operários mais velhos e experientes. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. com um salário que mal dava para a renda do quarto. embora exigisse muito sacrifício. A grande cidade dava outras oportunidades. Um segundo passo importante fora a mudança. para a outra-banda. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. as leituras recomendadas. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. as conversas sobre a realidade do País. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. na Escola Fonseca Benevides. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . parco de palavras. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. abriam-lhe os horizontes. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial.

E agora.conta.900. a conversa era fácil e fraterna: 68 . que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. O terceiro irmão não fora mobilizado. pela primeira vez. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. a mobilização para Angola. o “Avante!”. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. A experiência de participação. tendo depois emigrado para Angola. partilhada em muitos anos de brincadeiras. preocupações comuns e solidariedades. Ainda agora. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. depois da incorporação e a recruta. de Xabregas à Veiga Beirão. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. mantinham a amizade da adolescência. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. mas chegara a sua vez. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. nas lutas no Ensino Secundário. que depois da questão da Índia. nunca mais parara de se agudizar. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência.

filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. não! Mas quanto mais cedo melhor. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. vestido de pequeninas velas brancas.. para onde vão muitos! Já viste. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. ir à guerra e ter lá um azar. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares.. vamos todos lá parar!. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta.. em dar o “cava”?!. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. O pior é a mobilização!. 69 . Sou atirador de infantaria. mas o Nana era assim... encobre da vista o barco. o choro mudo e soluçado dos homens. um bom rapaz. ─ Adeus filho.. até se leva bem..!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. ─ Não. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora .. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. ─ Nunca pensaste em não ir. agitando-se freneticamente na amurada..

O grito triunfante do homem de samarra de camponês. adormeceu finalmente inquieto e agitado. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. alguns. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. no meio do magote de gente lamuriosa. no silêncio do quarto. A vontade nacional de agarrar o destino. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. mas nunca de contrariá-lo. quiçá para sempre. constituía um arquétipo da candura nacional. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”.

80. 100 mil?). Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. ou para alguma coisa!?. O que se seguiu. nas zonas da savana e das florestas. até chegarem os europeus escravatura. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. têm lá cabeça para se governarem. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. como sempre acontecia aos sábados. também houve nações e povos desenvolvidos. que lia e com o colonialismo e a 71 .. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). ─ Os pretos são meio selvagens. havia muita gente esclarecida. e agora. recentemente. Na zona velha de maioria operária. pelos movimentos de libertação.. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. Autodidacta e amante do saber. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. no Norte de Angola.conversadora. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. por vingança. perpetrado pelas tropas coloniais. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. um grupo de cariz tribalista. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade.

Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. senhor Vaz. não acha?!..acompanhava os problemas. E também lá foram vividos os primeiros amores.. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. quando entrei!?. como lhe tenho dito. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. 72 . o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. ─ Sabe. de reflexão e de descanso. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. que tudo estava sossegado.. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. à volta do quarto pequeno e modesto. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola.

ainda é muito cedo!”. perseguições. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. como se propunha. um cheiro intenso a pólvora e a sangue. João deixou-se dormir novamente. correrias. um precipício negro em que estava prestes a cair!. talvez uma floresta. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . só abria às nove horas para cortar o cabelo.“São seis horas da manhã. que sonho dramático!”. luzes intensas. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada.. densa. “Safa..

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Seguia-se. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. nada mais. já sem companhia. com duas ou três casas. três horas de caminho.. Posso chamar um táxi. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. O chefe olhou-o com ar circunspecto. fresca de Outono precoce. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 .LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. Na manhã seguinte. ─ E agora. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada.. não me parece!. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila.

só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. 76 . por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. depois das longas caminhadas durante o dia.trajectos labirínticos. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. etc. algumas conhecidas da universidade. e já fizera a exploração dos itinerários. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. da instrução sobre armamento. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. começaram as marchas nocturnas.. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. táctica. orientação. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. em transporte próprio ou familiar. trazia medos e fantasmas. Guiné e Moçambique. Muitas caras ensonadas. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores.

No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. mais hipóteses têm de safar a pele!”. O pelotão do 2º ciclo do COM. anafado. com a fama de “chicalhão” e prepotente.. “a tropa não é para maricas. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. pesadíssimas. ─ Não aguento mais isto. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. durante a progressão com todo o material de combate. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. pertenciam ao meu pelotão!.. como ele dizia. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. incluindo a arma e a mochila às costas. ─ o manifestante era um aspirante alto. quanto melhor o treino. ─ Tens de ter calma. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. daquelas que nunca mais se esquecem. de boa compleição física e bom contador de histórias. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . pá! Vou dar o “salto”. devido às lamas nos caminhos. célebre desde as últimas invasões francesas. tornados amigos durante o 1º ciclo. comandado pelo alferes “Manaça”. Rodrigo e Francisco. ensopado em suor. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. fazia mais um exercício duro porque.

dando-se ares de importância.. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. pá.. vem avisar o cadete Aníbal a correr.. na cauda dos restantes caminhantes. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. por isso ganhou os favores do graduado. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. pá.... a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. relutantemente alguns ficam para o fim. quem não sabe nadar atrapalha-se. o pessoal preparava-se para a travessia. Por feitio ou bajulice. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. começa a entrar em pânico. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. tem lama até às partes. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. as pernas vacilam. Os mais expeditos fazem-no com êxito. gosta de fazer de porta-voz. dizes tu!. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. bem nutrido e de ventre proeminente. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas.. ─ Depois logo se vê. procurando ajudar o amigo.. ─ Outra vez a porra da lagoa. Uma porra. entra em contacto com a pele suada. magro de carnes. ─ Falta pouco.contrapunha o Francisco. 78 . Na margem da lagoa plena de águas barrentas. com um feitio solidário. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f.

Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama.grugluglu.. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal.. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral.. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. com uma alma altruísta.. marche! ─ Sim. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. o graduado continua a vociferar. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. ─ Qual bombeiros.. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior.. perante o quadro terrível vence a inibição. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. Friccionando-se com a camisa de trabalho. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão.! O cadete Artur.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . qual nada! Não quero cá ninguém de fora..

que padeciam de graves deficiências.. enterrados no lodo. Baixa no anexo de Campolide. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. sempre muito elegantemente fardado. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. com permanência nocturna obrigatória. agarrados. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. o jovem alferes Terras. de bengala de invisual ainda mal manejada. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. teve uma atitude simpática . ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. quer ir connosco amanhã? 80 . outros. ─ Algo não está bem. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa.. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. ainda em tratamento. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. comandante do pelotão. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”.

quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra.. ─ Ah. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. em cima da cama. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas.. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. quando jogava o Benfica em casa. não ensinam o verdadeiramente importante). obrigado! Sou casado!.. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração.... ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito.─ Não. sim!? Obrigado! Eu. ─ Agarre-se a isso... A conversa continuou animada. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). pouco falador. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. já não tinha mais novidades. nunca cá tinha estado. ( os instrutores são uns nabos. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. ─ Ah! É casado!.

. é uma forma de dizer. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. as coisas acontecem e pronto! 82 . ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!.daí para a rua.. mesmo dobrado.. ─ Esse não acredito que pague!.. como aliás acontecia com os outros.. cumprem-se ordens. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia.. aqui anda tudo às putas. ─ Mas . Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia.. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. ─ Ah! Pois.. abrir o fecho da braguilha. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. Evocam-se regulamentos. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas.. Era grande o constrangimento. fora de qualquer regulamento..! ─ pila era tabu.! Não há ninguém de serviço. “cada um com a sua”. amanhã posso ser eu.

A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. amigo canta. canta. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. a espera animava o pessoal. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. As sombras encorajavam a audácia. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. falha de energia demorada de mais de uma hora. alinhados em pelotões de 30 unidades. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. ai povo. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 .

Combinaram o essencial da acção primeira. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. para garantir a segurança conspirativa da operação. e no rescaldo das cantigas. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. o João. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. A companhia (quase) inteira. Naquela tarde de Novembro de 1971. com a denúncia do número de vítimas da guerra. entre muitos citadinos divertidos. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. assumindo o compromisso. o Luís 84 . quase toda a gente cantava quando alguns prontos. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar.

As conversas giram à volta de temas banais. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. estava unido na acção contra a guerra. 85 . é urgente terminar a “tarefa”. feitas de pedra trabalhada. por um lado. tão diversos daqueles para que foi concebido. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. pretextando uma guerra santa. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. enquanto outros. polido o chão pela usura dos anos. o Fausto e o Duarte. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. espalhados por várias mesas. mas a maioria são cadetes. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. A sala dos cadetes é acolhedora. Todos estão em farda de trabalho. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. dos refeitórios e das camaratas. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores.Manuel. constituindo um labirinto intrincado. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. Sempre acontece quando os nervos apertam. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. das salas. com frades de hábito e penitência. a timidez. o Manuel.

. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima.. de porte elevado e cabelos brancos. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada.. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . nada... o desnorte nos caminhos desconhecidos. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui.subir alguns degraus. À frente de um séquito.”.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. outros sons semelhantes.. “Safa!”. o ouvido à escuta de passos perseguidores.. Um som agudo e estranho. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. como um guincho. mal iluminado. em pânico. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. um desvio apertado na primeira bifurcação. “As instalações devem estar em boas condições. longos e frios.” – pensava João. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. subir e descer escadas. um local frio e terrível.

Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. 87 . comandante da unidade. acordar no beliche superior inundado em suor. certamente devido a pesadelos também. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. ninguém se atrevia a levantar a voz. Na caserna pequena da 2ª. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. sair do pesadelo. correr. por detrás das lentes grossas. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. centenas de formas em movimento. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz.habituando-se à escuridão percebem dezenas. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. Companhia de Instrução está tudo calmo. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. excepto algumas respirações mais agitadas. Custara a pegar no sono. são ratos.

uns voltavam logo. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente.. foram coladas nos corredores do convento. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então.. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante.─ Tem de haver muito cuidado. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. num pátio interior mal iluminado. não há nada para mim? Não pode ser.. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . a minha namorada escreveu-me!.”.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. vulgares na época. A acção tinha corrido muito bem. Por fim vieram três ou quatro cartas. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande.] já bastam! Não à guerra colonial!”. denunciara a patifaria. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. escondendo a timidez e uma pequena miopia. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada..

instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. Andava e pensava para distrair a ansiedade. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura.. certamente algum “menino” a caminho da cidade. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. havia excepções. pela aproximação do ocaso. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. não se via vivalma no caminho. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 .” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. porque apesar do sistema aperrado. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. João precipitara-se para o exterior com passo estugado. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. a norte. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos..

Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto.. embora arrefecesse a “sentidos vistos”.. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. em transição para 90 . ─ Cuidado!. existe um ambiente geral muito favorável.. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. esquerdistas. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. os dias eram cada vez mais pequenos. Trago a senha para o contacto que combinámos. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. bom para a recruta.. socialistas. Boa sorte para a iniciativa..). cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!.. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. independentes. nas bandas da Malveira.sugerido aquele local. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. “Não jures.

Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. pelo menos nas costas dos instrutores. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. * Durante a semana de campo. No miradouro não estava ninguém. orgulhosos da classificação na prova de tiro. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . esmerando a pontaria com o “olho director”.o violeta. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. cada dia é sempre diferente. dizia-se. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. mesmo que seja só em treino. Não há dois pôr-do-sol iguais. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. chuvoso e frio. nos arredores de Torres Vedras. é sempre um momento angustiante. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. com um tempo desagradável. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade.

. Eram filhos de boas famílias. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. enfim. E.especialidades. o oficial do quadro 92 .. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. generais. a subversão aumenta!. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse.. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. tinham um estatuto especial. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. mas não permitia. não! Não posso!. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa.. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. tentando safar os filhos. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. latifundiários. porque precisava de carne para canhão. iria passar por um mau bocado. parentes.”. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. e muito menos a disparar. a fina flor do nacionalismo. ─ Não. altos dignitários da Igreja. credores de favores. afilhados. empresários. etc. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). deputados da Assembleia Nacional. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. Em requerimento ao Ministro da Defesa.

só por milagre ninguém foi atingido.. foi despromovido para soldado. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. O cadete gordo. forçado pelo instrutor. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. Não servia para “oficial de guerra”. de repente. à beira de um ataque de nervos. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. a arma começou a disparar. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. baixote e 93 .permanente estava prestes a perder o “verniz”. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico.. normalmente sonolentas e ressacadas. e. atire ! A tragédia estava eminente. ─ Eh. sob pressão da intolerância militarista vigente. levantando e baixando a espingarda. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada.

A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito.. nas janelas.. nas paredes lisas. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . com centenas de vinhetas coladas por toda a parte..empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. ─ Ah! Pois.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. ─ Não jures camarada! Já disse!.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. “quero essa merda toda arrancada!”. No fundo da algibeira. nas vitrines e até nas pautas. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. “não jures camarada!”.. ─ Ouviste? A barraca está armada.. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. nas portas. ‘tás a coçá-los!.. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. logo apareciam noutros locais. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. ─ O quê. ─ Essa é boa. Boa!..

Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. propositadamente. a hierarquia estava convencida de ter anulado. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. O major. a coacção e a chantagem. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. pela intimidação subsequente. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures.. . Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. A desorientação sobreveio.. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço... * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. a primordial agitação. . Tacteando a cola com os dedos. 95 .

... com zonas mal iluminadas. Providencialmente.─ O carago. pois o outro chuveiro estava avariado. Mas os corredores eram muitos.. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas.. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Por este tempo. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”.. até na sala do cadete: “. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. futuros oficiais do Exército Português. Queria ver se fosses atirador como eu!. afixada em muitos sítios desusados. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”.

era um gritante e duro contraste. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. Junto aos hotéis de luxo. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. mas na “terra prometida”. sobretudo o rapaz. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. a rádio e a televisão. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . um moço bem constituído. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril.guerra era debatida mais ou menos abertamente. submetidos a feroz censura e controlo político. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. Os jornais. aos solavancos. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. num quotidiano difícil. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. porque a terra era ruim. segundo a filosofia do velho Adílio. com particular destaque para o “Avante!”. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano.

Sobretudo se associassem ao 98 . simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores.boné de pala “oficial”. com um ar de arrumador encartado. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. nem feriados. empregados e operários. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. se fossem interessados e cordatos. sempre generoso com os portugueses humildes. nalguns casos. numa época do início da década de 70. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. mal pagos. era menos “aquele” que entrava. incluindo no campo desportivo. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. era o discurso oficial. numerosos. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. podiam chegar a cargos de chefia. com poucas qualificações. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual.

4/5 contos/mês.. o engenheiro-sénior. 2. garantes da regular entrada das comparticipações patronais.. ─ Senhor director. 11. chefe de serviço. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. o empregado de escritório. o agente técnico de engenharia. 18. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. 1. por classes sociais. Nas vésperas da Revolução de Abril. 12 contos/mês. 25 contos/mês. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24.8 a 2. para rezarem em comum. 99 . minha senhora. Orava-se em acção de graças. uns mais à frente e outros mais atrás. o operário especializado de horário geral. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. ─ Está a tirar Educação Física!. claro! Um resto de bom dia. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. a mulher operária têxtil. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. minha senhora.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. trate disso! ─ Claro. chefe de secção. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. o engenheiro-júnior. ─ a resposta não tinha grande convicção.2 contos/mês. senhor director. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia.5 a 3. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. 15 contos/mês. sem sobressaltos. anda a concluir um curso superior. 14. 19 contos/mês.5 contos/mês.

a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas.. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. ─ Esteja descansada. ó homem!.. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. hem! ─ Mas ir a Mafra. e de mais na tropa!. no Domingo? ─ Eu gostava. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai.. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando.. com o curso quase acabado. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. Entretanto fora chamado para a vida militar. Combine lá com o “ti” Fernando. para o curso de oficiais milicianos.. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. mas o “tio” Fernando-pai!?. só lhe faltava o estágio. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. Mas não havia nada a fazer. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes.. o seu filho sabe o que faz. por 100 . seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. prestes a terminar: ─ Alberta.

Depois. não é fácil a deslocação!. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. até que sobrevieram os “balões”.. não morriam de amores pela situação. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. num pobre mister por conta própria. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. e pela luta diária pela sobrevivência. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes.. ─ Talvez seja melhor não irem. iam formando segundo o que estava instruído.melhores salários e condições de trabalho. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. amor . Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. este ano precedido de 101 . eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. preparando-se para o ritual mitificado. em alas amplas e espaçadas. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. Gostava de assistir mas compreendo a situação. O carinho prodigalizado ao filho na infância. Se queres ir vai tu e a tua nora. quando o emprego e o salário eram certos. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. subsequente ao despedimento. ─ Tu é que sabes.

─ O melhor é mexer os lábios a fingir.. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. provavelmente os tais “pides”. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 .acontecimentos muito interessantes. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente.. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. certamente sobre a ameaça de represálias. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.” ─ o alerta percorrera as casernas..

Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. na Escola Prática de Infantaria de Mafra... MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade.sistema sonoro. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. ouviu! Se não se explica 103 . resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971... O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. não telefona para ninguém.. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão..“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. sou contra isso. tinha agora um bode expiatório. .

Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. acepipes. muitos daqueles cadetes imberbes. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes.. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. por vezes mesmo medíocre. A instituição militar EPI. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. risos nervosos e traseiros espetados. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. Desculpe. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. etc. doces. e senhores engravatados a rigor. frutas. etc. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. bolos. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. bebidas variadas. perna de frango na outra. nem era cedo. copo na mão. poucos. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. acordada de madrugada. ficara à beira de um ataque de nervos. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. ─ Dá-me licença!. agora disfarçado com aperitivos. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. no velho convento frio e austero. carnes frias e quentes. Pavoneavam-se alguns. saladas. de gastas pedras nos longos corredores. característicos da castrada burguesia nacional.. Nem era tarde.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. camarão. as mesas brilhavam de iguarias.

! 105 . Yota da Purificação” (. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. é punido com 5 (cinco) dias de detenção.colonial!”. a última barreira foi assim passada calmamente. Transportava o mesmo saco da chegada.. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. sim.. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. “Certamente estaria a arrancar!. o melhor era ficar para o fim. De facto não o vi . Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”. Suspeitava-se haver revista à saída.. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria. ─ Sim. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas.. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. com pouca pinta de militar. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas.. numa última passagem sem retorno. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão..... quando o cansaço afrouxasse a vigilância.. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. conheço. mais o “material sobrante”.). Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. ─ Boa noite! Por favor.

. 106 .. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. As duas dirigiram-se para a porta de armas. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. seria noticiada no “Avante”. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. Nada de grave! Lá informam-na melhor. ─ Mas . Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras.. sinal distintivo da origem de classe.─ É que já passaram todos. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. estamos aqui à espera ... naquele Dezembro de 1971.. último a deixar o convento. igualmente com ar distinto.... O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. no gabinete do oficial-dedia!..! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro. ─ Obrigado! .. em Janeiro de 1972. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra. postada a alguma distância.

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. imaginários adoradores pássaros. Animistas. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. 108 .ÁFRICA. de animais e da a Natureza.

minas. forjas. o Zimbabwé e parte de Moçambique. a Zâmbia. sepulturas e pinturas rupestres. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. cidadelas de pedra. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. quando estes. a Tanzânia. pouco antes da chegada dos portugueses. Quiloa e Mombaça. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. a caminho da Índia. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. canais de irrigação. subentendia uma organização social e política evoluída. no interior da Rodésia. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia.Esta actividade artística. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. numa zona de ruínas ancestrais. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. Melinde. enriquecidas pelo 109 . socalcos à volta dos montes para a agricultura. estradas. Estes povos sedentários praticando a agricultura. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos.

Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. da Índia e até do Extremo Oriente. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. encontraram um comércio progressivo. vindos do Norte. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. contas. trocando directamente tecidos. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. feito através de numerosos intermediários “mouros”. essências e faiança chinesa. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. ferro. que já utilizavam inclusivé a moeda. numa organização de tipo tribal-feudal. marfim e escravos. com o 110 . O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. Organizadas em cidades-estado. estes em escala reduzida. por ouro. faziam de entreposto com os reinos do interior. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. especiarias. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. cobre. com uma economia assente na agricultura. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. com quem comerciavam há mais de um milénio. na pastorícia e na extracção mineira.

Como todos os imperialistas. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. queriam muito e depressa!. Por orientação da Coroa. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. agente real de Sofala. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias.. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. levaram pouco tempo a desvanecer-se. Pedro Vaz de Soares. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. Como um erro nunca vem só. novas oportunidades de negócio..”.. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. Em 1513. pela sua ignorância e pela sua ganância. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. retrógrada e oportunista.. mas neste intento viriam a ser derrotados.

Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. familiar. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. embarcava-se à meia-noite. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. no terminal militar de Figo Maduro. Quando a guerra colonial começou em 1964. nas margens do Zambeze. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. quente. fresca. húmida. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. No início da década de 70. em Sena e em Tete. Em 1561. luminosa.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. em 1498. de Lisboa. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. o mais alto 112 . no “Boeing” da Força Aérea. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. estranha. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico.

O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. ─ desabafa o Eduardo. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. pendurados no exterior da rede da vedação. moreno. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. sempre eloquente nas afirmações. normalmente reservado.. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. A Beira era uma cidade moderna. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. tal como Lourenço Marques. compunham um quadro de modernidade. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. entroncado e de estatura média. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. ─ É a proclamada multirracialidade!. o sulista trigueiro e magro. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . baixo e já com acentuada falta de cabelo. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. alto de estatura e seco de carnes. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos..

o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta.realidade.. mais novo. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . O criado negro andava numa fona. que já ia avançado. dava assim as “boas-vindas”. ─ O jantar começa às sete. ─ O que estavas à espera?. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. Chegaram atrasados ao jantar da messe.. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos.. enquanto se retirava após comer o pêro. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. sem qualquer cumprimento. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. foi a primeira vez que lá fomos!. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. não atendeu logo à chamada. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem.. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. quando ficaram sós. ─ Sim. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento.

oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. ─ Furriel. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos... ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. 115 . até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. faziam um excelente cozido à portuguesa. onde estavam os soldados aboletados. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. ─ Se calhar. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. Duplamente preocupado.. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. ─ Pois claro. Ouviste a resposta do “Furnas”?. diziam. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa.. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. no regresso a pé. Miguel. rapazes humildes e simples.

. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.. à beira da linha de caminho de ferro. por dentro. mas a família. se saísse à tabela. preocupavam-se à volta de malas e sacos. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. É preciso ajudar. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano.. Dezenas de soldados e alguns graduados. é essa a intenção.. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. disso não tenhas dúvidas.. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista.. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. ─ Quanto mais tarde melhor. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. por dentro.. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. a minha mãe viúva!. ─ Olha o que nos espera!. ─ Também pensei nisso.

A viagem decorria na noite de sono. Na noite de breu. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. a marcha abranda. na retaguarda. o combóio pára. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. simpático no trato e já em segunda comissão. onde se juntavam dezenas de negros. Os militares seguiam nas carruagens do meio. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. puseram o longo combóio em marcha lenta. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. sem resposta. aguardando a ordem para embarcar. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. Eram tropas frescas a caminho da guerra. o coração salta: 117 .. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. trum-trum”.carreira. A velocidade aumentava. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. sobretudo mulheres de capulanas garridas. tinham um aspecto sumptuoso. atarefadas com filhos às costas. trumtrum.. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. resfolgando. Duas máquinas a vapor. à volta de sacos e trouxas. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas.

─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. embalados pelo andamento monocórdico da composição. só lá mais para a frente!.. mais duas que em Portugal. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. ninguém explica... A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. Poucos dão pelo recomeço da viagem. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. formando esplendorosos contraluz. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. vai ser um enorme benefício para a economia da província. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . o pessoal vai adormecendo. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. O cansaço vence a ansiedade.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. é fresca a brisa que entra pela janela. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. A manhã aparece com um Sol fulgurante. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. Lá fora não se vê vivalma. irão esquecer essa doce sensação. Duas horas da madrugada. bem vestido e curioso.. sonhando com a cama quente no lar distante.

onde reinava o odioso regime do “apartheid”. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo.. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571.─ A guerra é uma coisa terrível. os ingleses. Abrindo caminho à força de espada. a Rodésia. como depois foi baptizado. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. A menção do grande país da África Austral. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. o material de guerra é todo russo e chinês. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. a África do Sul?!. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior.. os americanos.

rigidamente autocráticos. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. os seus métodos de governo. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629.notícias fantasiosas. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. cobre. roído pelas guerras internas.. O génio individual que punham nas suas empresas. ferro. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. A coberto das suas armas de fogo. comportam-se como malfeitores. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. a concessão de todas as minas de ouro. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. na obra já referida. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. chumbo e estanho no seu território. Em 1607. viriam a ditar a ruína.. a coragem. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar.. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. editada em 1960:. Por volta de 1667. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos.. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. como refere Basil Davidson. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. 120 . destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. procurando enriquecer pela simples pilhagem.

o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. ou do tipo negróide. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. E o que fizeram afinal os portugueses. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. Os seus vizinhos do interior de língua banto. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. foi. quando esta faltou também lançaram-se 121 .. glorificados descobridores. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (.. no primeiro século e meio de ocupação? . os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria... lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira.). segundo a documentação histórica.

Logo no reinicio. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. ─ Basil Davidson. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. a partir dali. perceberam-se os cuidados no avanço. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. manhã cedo. qual cabeçorra disforme. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . o comboio não circularia mais de noite.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. na obra já referida ─ . O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas.

onde em contrapartida. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta.. Do chão. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses.. mas o 123 . Cinco homens num destacamento.. ─ Ei! Sou do Barreiro!. como por encanto. onde se divisavam apenas pequenos arbustos.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. mas não se viam construções no horizonte visual. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. passando fome.. tudo na mesma! Vamos para. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. ─ Vai bem. ─ Isto é um buraco medonho. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó.. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. O calor era intenso.. frio..período em pleno campo inóspito. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. calor..

Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada.pior era à noite. barbados de dois dias. com o medo de os irem “pegar à mão”. ─ Então adeus! Boa sorte. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro.. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. fizemos a picagem logo de manhãzinha. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. Após uma longa curva feita lentamente. pá! Calma. endureciam os semblantes. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia.. venham cá eles fazê-la!. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. pondo fim à conversa. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. ─ ‘Tou farto disto. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 ... ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!.

não pediam. não riam nem brincavam. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. Esperavam pacientemente e não diziam nada. só então a ganilha animou.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. O pessoal precisava de descomprimir. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. houve risos. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. muitas. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não barafustavam. esperavam somente. registando a chegada de dois “amigos do homem”. ─ Não te preocupes. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. pensava que os comiam todos! Risada geral. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo.

ensebadas pelo uso. malas velhas e caixotes com galinhas. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. mas ninguém estava sentado no chão. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. onde dois ou três soldados disfarçaram.. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. em Tete.. surgido do mato. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. O comboio era muito comprido.. o Edmundo lá reuniu os vinte paus.. com bancos curtos de ripas. quando se abriram as portas de Abril. Risonho e desmiolado.. estás a engatar-me!. moço robusto e bem parecido. quando viram aparecer o 126 .. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. apareceu risonho e agitado. As carruagens da frente eram muito velhas. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. amontoados entre trouxas. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. ─ Verdade. Olhavam surpresos com olhos esquivos. grandes e brilhantes nas crianças.soldado Edmundo. com divisas.

perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. Afinal. maravilhando os olhos na beira-rio.recomendava o capitão.grupo de furriéis. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . a mina. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. homem novo. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . a mãe. persistente. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. a morteirada. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. os irmãos. a namorada. ─ Tem juízo. Onde estarão a esta hora a esposa. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. a companheira. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. os pais. a emboscada. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura.

ciosamente guardada. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. Claro. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. um tenente-coronel que.. oportuno. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. sujos de pó. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. uma semana era passada. ─ Assim com esta barba de três dias. parecemos discípulos de Fidel!. para chegar à costa oriental. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. correndo energicamente para o vale que. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. tinha o seu problema resolvido como sempre. ─ discorria o António Manuel.. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores.exasperado. muito cedo. foi instituído o “Regime dos Prazos”. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. concitando olhares curiosos. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. sob a sua influência. 128 . Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro.

consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. Cabo Verde. princípios do século XVIII. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. formada por Angola. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. separado definitivamente da dependência da Índia. A situação só animou nos meados do século dezassete. para a futura abolição da escravatura. Moçambique era um território arruinado. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. quando foi incrementado o tráfico de escravos. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. com muito pouco êxito. dominada 129 . No começo do século XVII. enxameou a colónia de deportados políticos. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. Moçambique e Brasil. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. mas na Zambézia. no Congresso de Viena. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. No final do século. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história.

casas brancas de estilo arabizado com terraços. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. na Rodésia. transformando num deserto essa vasta região”. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. Mzila. cidade de passagem. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. As pequenas colónias no interior. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). pouca gente nas ruas. conta-nos Bryant: “Em 1860. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. vindas do Sul. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Instalações 130 . mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. pó vermelho e castanho.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. a ideia foi repudiada e não vingou. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. chefeguerreiro dos invasores zulus. ruas largas.

não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. ingleses. o Zambeze. no lugar de Cahora Bassa. mesmo com o rio a seus pés. Concluiu o excelso expedicionário. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. é uma cidade sem espaços verdes. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo.militares por todo o lado. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. por isso a Frelimo quer destruí-la!. alemães. rodesianos. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. Meio-dia. na língua nativa.. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. entre outros. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. onde viria a falecer com febres. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. outra vez a malfadada ração de combate. ditando o desinteresse dos ingleses. Comprido caminho de água. 131 . sul-africanos. o Sol queima e há poucas sombras. muito calor. tendo o eminente africanista descido até perto da foz.

ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. A estrada continuava para o Songo. por isso a grande nação austral. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. ─ Calma! Calma! Guardem as energias.. ao encontro do gigante em construção. na defesa da antiga colónia. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. O projecto hidroeléctrico quando terminado. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. só cá venho safar o “coirão”. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados.. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. possuidora do regime mais racista do continente africano. por máquinas da Engenharia Militar. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. ─ E se fosses à merda!. e.. A via alcatroada era um luxo raro.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação.. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. “pró 132 . garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava.

concluía ainda o soldado-condutor. os camiões seguiam mais devagar. estávamos no reino da guerra. a engenharia militar ainda ali não chegara. só se ouviam os motores roucos em aceleração. seria fácil montarem uma surpresa. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal.galheiro”! A mata era densa. percorridos cerca de 120 quilómetros. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Sousa. Em sentido contrário o trânsito rareava. lentamente. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. incluindo algumas paragens para reagrupamento. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . a estrada acabava e começava a picada. Estar na guerra aprende-se depressa. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. Soaram tiros longínquos. Ao fim de quase três horas de viagem. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. mas pouco ou nada se divisava. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna.

poeirentos. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. ninguém se atrevia a abrir a boca. num portento de força impressionante. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. construído em paliçada de troncos. agora outros que dêem o coiro!”. soturnos. a lógica da campanha militar era. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. a conversa continua no bar. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei.. A guerra é naturalmente o tema central. símbolos da tropa especial. “já cá estamos há muito tempo. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. e só agora o António Manuel. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. primeiro classificado. de nome Trindade. Os recém-chegados. e um deles. alargada a alguns civis presentes. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. com granadas e fieiras de balas à vista. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. ninguém saí dos trilhos. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. o veículo continuou a marcha devagar. * Estima: um posto de defesa na picada. atreveu-se a responder timidamente: 134 .. A alegria de uns era a apreensão de outros.silêncio. E a guerra ficava mais próxima. correndo escuro e caudaloso. do qual se avistava o Zambeze. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde.

quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. ─ Quem não está connosco. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?.. A todo poderosa PIDE/DGS!. junto à fronteira com a Rodésia. pelos vistos. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu... ─ Ah! Cá como lá.. está contra nós! Vocês são novos aqui. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade.. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. para os lados de Mucumbura.─ Mas. e as populações! A acção psico.. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. ─ António? Que nome curioso! 135 .

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. Durante este período inicial. Sofala.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. Quelimane. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. esteve circunscrita aos distritos do norte. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. Também o reino do Monomotapa no interior. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. em 1968. o comando das Forças Armadas portuguesas. e os Macondes nos planaltos do Norte. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. com um ataque ao posto de Chai. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. Ilha de Moçambique). Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. Entre a surpresa e a desorientação. 137 . Em resposta. na região de Mueda. Cabo Delgado e Niassa. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. tinham fortes tradições independentistas.

queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. acusado de colaboracionismo. e os Direitos do Homem. locais e nomes. Trindade. Em Tete. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. uma companhia de “comandos”. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. Calado de seu nome. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. reconhecidos por Portugal na ONU”. controlada pelas tropas auxiliares africanas. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. tropas da Rodésia de Ian Smith. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. para os aldeamentos cercados de arame farpado. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. Nijs e John Paul. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. à época bispo de Vila Cabral. Depois de descreverem em pormenor com datas. onde. pouco escutadas no entanto.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. Em Novembro. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. Valverde e 138 . O ódio instala-se. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. em Abril de 1971. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. na aldeia de António. e dos padres anglicanos. em Maio. Em Setembro do mesmo ano.

mentalidade e até filosofia. raça. porém. são perseguidos. deveria estar a Igreja.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. sem qualquer ambiguidade. cultura. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. onde iam de férias. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. torturados e assassinados. numa conferência no Reino Unido. Os africanos. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. (. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . Nesta data foram expulsos de Moçambique. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. corajosa e claramente. costumes... em 2 de Janeiro de 1972.. sem julgamento ou culpa formada. Cabora Bassa Em Março de 1968.. devido à sua língua. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. até Novembro de 1973..) O povo de Moçambique..) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. são os governantes políticos e militares de Portugal. De hoje em diante.

Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. que devia ser defendida a todo o custo. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. No concreto. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. A empresa construtora Zamco. (alemães.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. vertidos no caldeirão da guerrilha que. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. em Julho de 1968. etc. rodeado por uma vedação de arame farpado. inteligentemente. a afirmar o desejo independentista. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. italianos. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. em 8 de Março de 1968. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. assente nos aquartelamentos de Chicoa. no dizer indígena.milhão de colonos brancos. Cahora Bassa. Estima e Chipera. é um campo entrincheirado num meio hostil. e para isso. ingleses. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith.

A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. apoio na população. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. embora os estragos não fossem de monta. minas. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. As notícias chegavam em catadupa. Chicoa. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. emboscadas. Fingué. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. com a ajuda da República Popular da China. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. eis a nossa táctica. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. em Tete. No dia 9 de Novembro de 1972. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. a linha de caminho-de-ferro 141 . minas. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. Depois atacou sucessivamente. 15 de Novembro de 72. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. constituía-se em forças irregulares. flagelações.Moçambique. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. Furacungo. num só dia. minas! Fuga e reagrupamento. a Base Aérea nº 7. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa.

com raras excepções. silenciosa e traiçoeira. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. também assumira esse compromisso. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. uma tarefa que o comandante-chefe. ao longo de 8 quilómetros. foi sabotada na região de Moatize. Deste lado a vegetação era escassa. divisava-se o rio escuro e caudaloso. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. Kaúlza de Arriaga. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. O comandante-chefe. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. 142 . Kaúlza de Arriaga. Assim se entretinham as forças portuguesas. com algumas portas apenas. controladas e permanentemente patrulhadas. Entretanto. e os técnicos sul-africanos e europeus. separando inexoravelmente as duas margens. cinzenta e castanha. A mão-de-obra rodesiana. no eixo Beira-Vila Pery. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. e em 25 de Setembro de 1972. com uma força desconhecida. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". O pânico instala-se e. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. pela primeira vez. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores.

deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. mas mais acima houve um desastre terrível. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. conta-se a meia voz. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. ─ Aqui não. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. causando arrepios a viagem entre as duas margens. companheiro de 143 . mecânico de armamento. A água de um castanho terroso. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. Foi há uns três anos. nascida e crescida sob a protecção das tágides. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone.

descaiu para a frente a meio da viagem. o camião desliza mais um 144 .formação do António Manuel. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. por certo deficientemente escorado. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. ajoujado de carga militar. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. e aumenta também a trepidação. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. a jangada entra em estremeções. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. aproximando-se da extremidade sem anteparo. Um camião “Fargo”. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. onde a água era mais agitada. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. o alferes Baptista resolve intervir.

Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. ficando suspensas no vazio. Sem comando não havia acção. com comando mesmo errado. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. a jangada porém. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. Com um formidável estampido. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. em desespero. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. outros procuram nadar energicamente para a margem. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. no meio de uma gritaria medonha. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. ou porque não tinham meios de socorro. o abrandar fora fatal. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. cinco ou seis homens. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. a corda que prendia a viatura partiu-se.

Alguns nadadores atingem a margem.mais abaixo. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. * A tarde chegou ao fim. em poucos minutos. Ao todo. soldados e nativos. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. Uma noite mal dormida em cama emprestada. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. provocando o deslizamento da segunda viatura. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. numa operação cuidada e lenta. Tudo se passou rapidamente.Ao serão. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. na messe. 101 soldados e graduados. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. mantimentos e munições. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. que arrasta consigo mais alguns homens. um sono em vigília despertando ao menor ruído. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. mas os restantes corpos nunca apareceram. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. Metade da Companhia tinha feito a travessia. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. . e 146 . o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. era um sol diferente. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. material de guerra. Por isso a trasfega não fora completada.

. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. são por vezes replicadas. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. Se houver alguma coisa. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. homens e armas. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. amigos. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. Parece que não!. prestes a ser rendida ─ Sim. ─ contava um furriel operacional da companhia local. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. Mais mais para montante. bagagens.. o rio faz favor!. os três amigos não se afastaram da zona do motor. com malas. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte.. Numa das primeiras viaturas.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS.. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem... os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. aqui quando chove. . mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. houve um acidente com muitos mortos. 147 . Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. mesmo que cheire a gasóleo.

embora ocultas pela folhagem densa. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. peremptória. metálica na extremidade. não-operacional mas com algum traquejo da vida. Na luminosidade da contraluz matinal. ─ Neste sítio não é provável. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. com um timbre familiar.* Reinava uma estranha calma na Natureza. ─ Mas. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa.. inquieto. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. Calaram-se. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. No silêncio ensurdecedor.. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. nem piar de pássaro nem som de animal. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. ─ Continuem a picar. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. meu alferes. que daí a pouco já se percebiam distintamente.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos.

Baumm!. vestido a rigor de camuflado sarapintado. Sierra.desde o destino final. era 149 .. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção.. a guerra continua O som distante e abafado.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez.. Mike. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. o negrume cerrado da noite africana. o parceiro das partidas escaquísticas. Trrrr.. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. Baumm!..... três rebentamentos Baumm!. dois.. enche a noite quente de Verão. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa..! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. Trrrr..... A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. António Manuel. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região. embora nítido.. Trrrr. Sierra.. O batuque vai começar. Alfa.. ─ Parece estar a acontecer algo de grave... Bravo . Alfa. Tango .. Sierra .. mesmo jogado com pouca convicção.. propôs o empate. era um passatempo de luxo no teatro de guerra..

vozes abafadas.. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso.. os “turras” mandaram só umas morteiradas. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. a cantina. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!.. em Agosto. e fazer o reconhecimento da zona.. Já há três dias que fazem sinais nos morros. ─ A seguir somos nós!. Os rebentamentos não cessavam. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. iluminado por fraca luz interior. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. madrugada ainda. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. com uma experiência de oito meses. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. A 150 . na noite anterior. Baumm!.. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. * Manhã cedo. a messe e a porta de armas. Baumm!.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório.. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. ─ Foi assim...

A fisionomia era-lhe familiar. a habitual conversa a quatro ficou mais séria.. ─ Nada. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. fazia uma 151 . que ficara sem um pé..formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. Ao lado. À noite. ─ com a metáfora. a partir de Chicoa. nomeadamente o comandante.. concluira João.. agora já cheirava a sangue.. Agora o sono cortado vencia a emoção. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. levantando-se desaustinadamente. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. Ah! Aí está. ─ acrescentava o Sousa. À hora do jantar chegou a terrível notícia. eludia o sobressalto.. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. ─ observava o António. João .. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!.. ─ Yota?. esteve comigo na recruta em Mafra!.. o pelotão já partira. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. cândido por feitio. com ar de desaprovação.. Mas. havia dois feridos graves. o alferes Yota. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!.

─ “Eles” têm isto muito bem controlado. ─ A guerra colonial tem os dias contados. embora algo sentimental.. de estudos e vivência. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. assumia a contradição. Aos milicianos chantageiam com as férias. onde deixara a esposa jovem. Talvez mais cedo do que tarde!. o mais sulista do grupo. o 152 . ─ o António Manuel nascera na beira-rio.. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante.. nas populações e nas nossas tropas. a discussão prometia. como faz o Movimento de Libertação!. desde muito cedo. ─ A realidade é tão chocante. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. sofria a saudade da Pátria distante. e estas crianças andrajosas e famintas!. o trabalho na fábrica. parte maior das agruras da distância. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo.. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”.. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. No teatro de guerra. Idealista. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. dava-lhe uma consciência aguda da situação. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada.ideia diferente! ─ Sousa. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. no interior de uma África estranha e quente. A História não pára e o Mundo avança.. violentados. quando elas começarem a “cantar”.

tinham sido precedidos de foguetes luminosos. de pele branca. a luminosidade 153 . temendo o perigo iminente. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. pois era sua a decisão táctica. entre morros altos apertando a vista e a alma. ainda que disso nem todos dessem conta. em 1970 e 71. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. A Natureza. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. que também ali se construía. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. * Havia um mês que ali estavam. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. indiferente aos dramas dos homens. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. ao fim da tarde era sinal de alerta. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. tal como ao mundo chegou.medo misturava-se com a revolta. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. na dilacerante guerra de guerrilhas. O aparecimento de “very-lights”. tentando detectar qualquer indício identificador. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus.

devido à forte influência da guerrilha na zona. Constava à boca pequena. Deixava o interior das instalações militares. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. O alarme soara falso. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. como eram conhecidos na gíria militar. fora destruído e abandonado há alguns anos. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros.quente impressionava ainda a retina. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. cobertas com telhas de fibrocimento. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. 154 . Era assim no coração de África. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. torturados pela inclemência solar. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. Pouco a pouco. ou de zinco. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. começaram a voltar às casernas. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível.

tão-pouco adolescentes. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. autorizara o batuque aos sábados. Envenenado estava tão-só o ambiente. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. que na tropa não se podia abrir a boca!. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. dispersos entre brincadeiras ocasionais.. remoendo as dúvidas e a desconfiança. combinou-se uma visita à aldeia. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa.. nem havia setas envenenadas. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. Ali não havia selvagens de tanga. A excepção eram as moças novas. o homem macaco”. para matar a fome. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. Estavam em grupos. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. Recentemente. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. por questão de segurança. em grupo. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. um major mal conhecido e mal encarado. Ao quarto fim-de-semana de estadia. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). trazia à memória os célebres filmes da juventude. outra 155 . vestidas com capulanas de cores garridas. com corpos musculados e peles luzidias.. para manter o ânimo das populações!. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores.O novo comandante do batalhão recém-chegado.. da saga “Tarzan. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. local mais calmo e “arejado”.

os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. com menos humidade. 156 . com divisas. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. ─ Talvez tenhas razão. a de lacaio da administração colonial. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel.profissão rendosa. Afinal não tinham ficado para o batuque.. aquele era um clima muito seco. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. rompendo o soluço. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. eventualmente!?. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. mais perto do Índico. a noite chegou mansamente. Porventura. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. Decerto clientes de “cuspo”. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos.. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz.

O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. dispersos e muito afastados. e. bem no interior do istmo central moçambicano. a guerra continuava. com uma única saída para a picada. pelos vistos. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. Desde essa data. ligados por atalhos ainda não memorizados. É a primeira ronda de serviço. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . a alma aperta-se e os sentidos despertam. e para sul até ao aldeamento. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante.E quem concordava? Muito poucos. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. daqueles. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. o batuque ia começar na aldeia. Na noite escura por caminhos esconsos. aprendido há poucos dias. poucos. O aquartelamento é grande. Ao todo são oito postos de guarda. uma área enorme cercada de arame farpado. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. patranhas e acção psicológica.

pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. paciência!”. João vai avançando de modo inseguro.. O coração acelera desordenado.. ─ Achas provável? Nunca constou!. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente.. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!.. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!.. o sobressalto aperta-lhe o peito. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. reportavam à guerra. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. De repente a chuva 158 ... não! Pois.. antes de desabar uma curta tromba de água. todos os acontecimentos. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. acidentes ou fenómenos naquele local.. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. Abafava-se no quarto completamente fechado.. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte.tiro!?. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. não! Na Guiné. eventos. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. ─ Pois. Sousa olhava o tecto. não quis dar parte de fraco!. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana.

Fundindo-se na terra. siderado. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados.. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. coloridos em tons de prata e ouro. no caminho do segundo posto de vigilância. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. por miríades de riscos ziguezagueantes. ─ Quem vem lá? Alto. 159 . A velha África das origens humanas. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. O receio esfumava-se. o jovem militar. tão radicalmente como tinha começado. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. muitos quilómetros. nenhum rumor distante. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde.”. nenhuma claridade ofuscante.. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável.parou. com reflexos azulados e avermelhados. Nenhum som. esfumou-se na noite. rasgado a muitos. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza.

Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica.. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. * 160 . ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. ponho-me para aqui a contar os raios!. Pregou-me um susto. fugaz.. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?... ─ Aproxime-se para verificar!.. E é espantoso. ao longe. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.. Ah! É o furriel da secretaria.. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. meu furriel! Conhece? ─ Não. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra..─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. açoriano como a maioria daquele batalhão. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. apertavam como tenazes o coração dos homens.

Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. com o chefe da secretaria. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. Valia o facto de ter combinado a compensação. e pronto! ─ Deixa lá. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. durante a manhã após o serviço de ronda. com prejuízo dos alimentos perecíveis. certamente superior à poupança. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. suspeitosamente simpático. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. justificas ao capitão. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. o correio era o elemento existencial mais 161 . agora é só ensaio. Gestão tropeira. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. mostrava-se normalmente pouco compreensivo.

Após uma pequena entrevista no alpendre. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. meneando a cabeça.. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.transcendente para aquela rapaziada.. num circulo nauseante de imponderabilidade. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Fora uma noite premonitória. O centro de gravidade do corpo leve. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. exibindo-se papéis. A desconfiança suplantou a curiosidade.. mandadores sem lei.”. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra.. como iria ser o dia? 162 . comandante de companhia. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.

6... 163 . DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.

. com modos de polícia. candidamente. O comandante interino do Batalhão. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. ─ observava. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel.. nem um mandado. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu.. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. nem uma explicação. um major que mal conhecia. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. Começava a ficar irritado. Alguns camaradas observavam atónitos. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. de G3 pronta. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. isso vai afectar o moral dos homens. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. percebendo que algo de 164 .Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. Nem mais uma palavra. Tinha até ordens para o algemar. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. mas ninguém tinha dito nada ao visado.. amigo das ideias. o oficial alto e escuro. depois do primeiro choque. o amigo ao receber religiosamente o material.

como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!.grave se passava.. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. de que falava a mensagem. pelo despotismo do comando militarista. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar.. Até sempre. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. trata-se de um indivíduo perigoso. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. em jeito de despedida. Olhou-o com ar reprovativo. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. sem coragem para comentar na hora da despedida. empertigado. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. ao fim da tarde igual. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. onde o dia-a-dia continuava tenso. agora com uma cama vazia. Em Chipera. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado.. a calma em pessoa. se não se importa. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”.... está enganado! ─ “Meu tenente”.

ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. era compartilhada por um negro ainda jovem. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. o jovem alto e magro. perturbantes e insidiosas. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga.. No outro. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. A cela dos fundos da delegação. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. Por detrás da secretária da sua importância. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. da delegação da PIDE/DGS em Tete. Era um homem já 166 . sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. afirmando também a voz.circulando subterrâneas. da barba feita com lâmina inusitada. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. com um ar distinto no ambiente despojado. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. Horas depois. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino.. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT.

né! ─ respondeu o jovem corpulento. curtido pelo sol africano. Retomando a tarefa de limpeza do chão. sem qualquer divisória. com um tom acastanhado na pele exposta. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. ─ Fique nessa! Tem mais luz. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. ─ Não tem mais tronco. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. colocados a um canto. mostrando ser o mentor da cela. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. Um mainato muito jovem. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. Junto à parede contrária à porta de entrada. ─ Nhambo! Que tá fazendo. embora encorpado. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. rapaz ainda. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. ─ Sim. estavam estendidos três colchões de espuma fina. senhô! Gosta de ver limpo. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. acha? 167 . ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes.maduro. única abertura para o exterior.

na tarde quente e esplendorosa. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. a cara redonda e luzidia. De vez em quando. que lhe tinham trazido há minutos. furriel do Exército português . como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam.. Aberta em cima da cama de circunstância. quase fugaz. ─ Eu sou fulano de tal.─ respondeu o miúdo a sorrir. para de novo pousar os olhos no chão. com uma cor amarelo-alaranjada. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. manipulada para retirar o pijama. ─ Eu sou Silveira.. resplandecente e implacável... o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado.. às voltas com uma mala preta de plástico. num trejeito efeminado: ─ Vá. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. num breve instante. que não deixava perceber o “fio da meada”. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem ...! ─ acrescentou. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. saindo a menear o rabo nutrido. e 168 . desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. mas adivinhava-se uma bola magnífica. deixava ver a farda recentemente despida. ─ interrompeu a resposta. não seria conveniente.. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!.

de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar.. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. na direcção do mictório.. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. ─ comentara João. depois de confirmar a identidade. como recomendara a jovem esposa com carinho. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. acrescentou ─ venha comigo.mais não disseram. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado.”. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. provavelmente!. De súbito. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . lhe arranjara. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã.. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. desviando o olhar súbito.. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. não deu logo pela chegada do homem ainda novo.

preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade.─ Chico. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. não é necessário. percebendo certamente ser transitório. O coração. Os dois primitivos residentes da cela. com indicação de posterior devolução. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. ─ Deixe estar. e aos meus camaradas de tropa. menos bem desenhadas do que era costume.. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. ─ Como assim. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!.. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. olhavam curiosos para aquele “luxo”. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. é claro!.. gosta de viver ao ar livre. escreva só a morada de destino do telegrama. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. mais do que a cabeça.. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. sobretudo brancos. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. desorientado. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. no Norte. Talvez sejam mulheres. Ansumé jazia morto numa poça de sangue.. sim. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio.. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. No ar perpassava um fluído etéreo.. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. Faltava uma bala no carregador.. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. LOURENÇO MARQUES. A inquietação não permitia apreciar 178 .! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate.. Ansumé ficara arrasado. com a G3 caída ao lado. activos e combatentes.. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. ─ Também ouvi. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem.

faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. roubando o ângulo de visão e a serenidade. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência.pormenorizadamente a paisagem. ─ Temos de ir. desde Tete. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. onde a geografia era mais agreste. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. a sede da PIDE/DGS. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. nem sempre concretizáveis. até à sede em Lourenço Marques. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. no coração de África.. 179 . com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul.. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas.. Os “pides” não se tinham afastado um segundo.. percebendo-se as sucessivas modificações da flora..” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. rumo à “Vivenda Algarve”. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. Talvez fosse. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. nem sempre concretizadas.. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. O polícia dava mostras de nervosismo. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.

. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. pois não queria. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. Era todo o mobiliário existente. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. não podia fraquejar. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. nada!.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. nem utensílios. que substituíram os dias de angústia da guerra. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. Chipera Velha. protegida por uma rede metálica. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. Mas a solidão e a insegurança presentes. em Tete. na confusão dos dias de angústia da prisão. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. nem asseios.. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. num canto. A cela com 2 x 4 metros. onde estava enfiado há mês e meio. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. 180 .

181 . até que o assobio reapareceu. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias..Batendo as asas na noite calada. Voltou o silêncio profundo. humanamente insuportáveis. que reconheceria em qualquer parte do mundo. Reinava de novo o silêncio. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre.. Tal. puxado entretanto. paralelo e gémeo. Apurou o ouvido. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). porém. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. não seria prudente. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar.Acordou (quanto tempo depois?). recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma.

de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa.. SARL. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. à rua da Escola Politécnica. O anúncio de um título bem imaginado. até à comoção das lágrimas. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. SARL. cantaram e recitaram. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. O Zeca. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. o Braga.eles comem tudo. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. 182 . o Paredes. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina.!”. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. tocaram. o Ary. encostadas precariamente. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. aquela noite de coragem e fervor antifascista. que tinha a coragem de ter medo. na Faculdade de Ciências. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício.. eles comem tudo.

O novo comandante. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. Em suma. tratando-se de uma nomeação interina. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. meu comandante. em meados de Outubro. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias... era como a maioria dos oficiais-generais.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. pá?. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. mal tinham acabado de chegar. em menos de quatro meses. ─ Põe o barrete. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. pá! O 183 . fora reveladora da mentalidade militarista. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. por ordem cronológica. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. O primeiro comandante. Andando de quartel em quartel. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. numa estranha itenerância nómada. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. era o terceiro. O segundo.. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia.. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. um tenente-coronel. de “guerra em guerra”. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento.

Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. do comandante-chefe. Por isso. procurando neste caso dividendos imediatos. até 184 . meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. com um soldado sem pés. “Filho da puta. era o aspecto exterior do aquartelamento. Para estes. a trabalharem nas limpezas. Chiça!”. e. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. as meias a três quartos e a continência. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). foi muito elogiada a “fachada”. dois com a guarda pessoal. general Kaúlza de Arriaga. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação.barrete é para usar. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. com três feridos graves como primeiras baixas. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. quatro helicópteros. noutras. as únicas preocupações são o barrete. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros.

contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. apesar da 185 . analisando com consciência a realidade conhecida. em Manica e Sofala.. e quanto aos meios. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. Os objectivos em curso seriam cumpridos. Não acreditavam naquele optimismo todo. porém. questionavam-se segundo o velho aforismo. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. Os militares cumpriam o seu papel. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. agora o resto era com o poder político. aliás.sucumbirem!?. Aliás. para sul do rio Messalo. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado.. O tempo jogava a nosso favor. a guerra não parava de evoluir. estavam cansados de tantas comissões. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. era uma questão de tempo e de meios. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. Deus me livre!”. Alguns. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. Contraditoriamente. a barragem em breve seria um facto. como estrategicamente se tinha proposto. não passando. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. no Niassa a actividade terrorista era residual.

chamado a Lisboa em Julho de 1973. A guerrilha atacou Vila Gamito. megalómano. Não era grande coisa. como todas as outras. e. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. atacou Estima com foguetes de 122 mm. e. tomando os desejos por realidades. O general ultranacionalista. mas. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. em Junho.fraqueza anunciada. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. na direcção da cidade da Beira. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. em Abril. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. não isenta de grandes contradições e inconsequências. em Maio de 1973. em Maio. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. por essa altura. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. afinal. No Norte. prisão da 186 . em Cabo Delgado. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. Machava. em Março de 1973.

187 . causava alguma perplexidade. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem.PIDE/DGS em Lourenço Marques.. Não era o mesmo da chegada. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Deixe estar. eu já volto quando terminar a ronda. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. a esta hora já não se pode fazer nada.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. constatando. de estatura média. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. nem o jantar me trouxeram!.. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite.. bateu com força na porta de madeira. Mas deixe estar. Novembro de 1972. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. de tão inesperada. O guarda prisional. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. diálogos breves. Não obteve resposta. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. obrigado! Não se incomode. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. magro. entre as quatro paredes caiadas. porventura maiores que o seu. ─ Coma. Mas. portas abrindo-se e fechando-se. falando de bons modos. de bigode fino e voz nortenha. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. A conversa continuou durante alguns minutos. composto de muitos dramas solitários e isolados..

Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. que se passará? ─ a questão 188 . ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente... papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses.”.. ─ Cá estamos. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto.. esperando melhores dias!. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. A seu tempo. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. trouxe bananas (a comida era péssima). ─ no limiar da porta. Vagamente. ontem fiquei preocupado... Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. como exigiam as regras.. querem ver que está feito com a PIDE?!. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina.Quando voltou a recolher o púcaro.

Vindo do fundo do corredor. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. ─ Vou ver o que se passa.. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. abafado e húmido. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. porque o guarda não mostrou surpresa. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. sem esperança.devia ser muito ignara. porém. durante toda a tarde e início da noite. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. ficava um calor insuportável. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. Em pouco tempo. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional.. anjo ou demónio?”. Depois fez-se silêncio. De facto. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. provocando uma enorme tensão. 189 . dou em doido!”. lamentoso. logo abafadas por a porta ter sido fechada. trancados e isolados em pequenos espaços.

. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. a sonhar com a liberdade roubada. Mesmo agora. mais velho de aparência.. por “actividades políticas”. muito prazer! ─ Furriel Ferreira.. muito abalado pela alimentação deficiente. aparecendo o guarda com um sorriso..! ─ completava o furriel. De resto. era nítido o desenho das palavras na contraluz. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes.Num momento de nostalgia e saudade. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. acordado. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. Olhando para o exterior. a aguardar as visitas prometidas. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. 190 . de costas na enxerga. isto aqui não interessa a ninguém. na janela. Quando já descria.. no quartel da Xefina! ─ E você.. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos.

Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ─ Sim.. o guarda prisional. ─ Bom! Temos de acabar. dir-se-ia uma acentuada palidez. passando lestos pelos circunstantes. ─ Não! Não! Você. não pudemos abusar da sorte.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. Os olhos faiscaram um fugaz terror. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. não fora o paradoxo de cores. guarda Cerqueira. sorrindo. procuraram transmitir algo. o pastor Manganhela. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?.. prestando atenção. ao 191 . ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. ficando sem expressão. com comiseração e espanto. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. O corpo caiu desamparado no chão de cimento.

Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. olhando sobranceiro os detidos. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. a face de outro homem negro. À excepção do jovem branco.. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso.. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. reteve por instantes o olhar no único branco. Ao percorrer em silêncio a sala. com óculos verdes graduados. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. Os restantes presos ganharam alento. ─ Já disse. colocando-a por debaixo da enxerga. Autoritário e brusco. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. eu trato disso!”. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. a fazer-se desentendido. maduro de idade. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. Instintivamente. esticou no chão o corpo inerte. já bastante enrugadas. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado.homem preto que acabava de cair abruptamente.! Ao dizer isto. fumando boquilha. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante.

─ Sim. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. precisa de ocupação!?. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director..continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. o processo do pastor Zedequias Manganhela. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. Acompanhava directamente. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. suspensa no curso da resposta. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. O director continuava a cirandar na pequena sala. ─ ameaçava António Vaz.. senhor director. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão.. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. ─ não pode completar a frase. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane... responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. interrompida de forma abrupta. branco nas suíças. ─ Bom sabe. cabelo grisalho. ─ Ora isso é o que iremos ver!.. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. alto e de barriga algo proeminente. detido desde Junho de 1972... aparentando uns prováveis sessenta anos.

─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. quente e envolta na ligeira 194 .. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar.─ É a primeira vez que cá venho. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. O “anjo da guarda”.... Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. vindo do teatro de guerra... ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. Cerqueira. de alguns livros!. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. Na minha mala. de roupa. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.

pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. ameaças. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. devotado à sua missão. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. de colaboração com a Frelimo. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. humilhações permanentes sobre um homem idoso. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora.neblina africana que aplacava a inclemência. onde Manganhela permanecia em isolamento. o guarda-fiscal. terror psicológico. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). Suicídio. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. conforme a versão oficial. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. ou um tenebroso 195 . Foram seis meses de interrogatórios. Zedequias Manganhela era um pastor. sevícias. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. nunca provada. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. nunca se saberá. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. numa zona onde não havia guerra. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. e com grande prestígio na Europa.

7. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. foi um crime de morte matada. os seus mentores e os seus mandantes.assassinato? Em qualquer dos casos.

do guarda prisional Cerqueira. por ajudar. quiçá salvar.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. denunciado em meados de 1973. soube-se a dramática história da prisão. a 9 de Setembro de 1974. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. A 197 . muitos presos políticos na cadeia da Machava.

agora com o futuro tão incerto.. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. Quando o avião. Com a recusa da carta propositadamente escrita.. um DC-6 da TAP. correrias. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. Abriu os olhos. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. fumos.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . na sua incansável solidariedade. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. num pesadelo de tiros. muito sangue!. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. ─ Não. chamas. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. perseguições e sangue. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. com escala em Luanda. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. gritos.

Chico Cachavi. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. com muitos aldeamentos dispersos. mulheres e crianças do outro sentados no chão. homens de um lado. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. Por volta das 14 horas surgem. Chawola e Juwau. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. não levou a conclusões. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. um tenebroso 199 . Os aldeões são divididos em dois grupos. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. próprio da época das chuvas. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. como represália. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. num repente. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. e. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. Tratava-se de uma área muito povoada.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. quando procura o mato. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. e. distantes entre si poucos quilómetros.

Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. Juntaram depois as vítimas numa pilha. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. O rio Nyamtawatawa. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. perante a passividade de sargentos e oficiais. mutiladas e mortas.torcionário do recrutamento provincial. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. fica juncado de cadáveres. distante cerca de quatro quilómetros. Foram os padres daquela congregação. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. que organizaram o primeiro relatório 200 . jovens donzelas são arrastadas para o mato. para além do que pode entender a razão humana. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. O sangue enlouquece a soldadagem. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. que depois as diriam ao mundo. um afluente do Luenha. A tropa completamente ensandecida. violadas. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. o aldeamento é completamente destruído. Pedro. uma mulher grávida é esventrada. crianças chorando são mortas a pontapé. e. surpreendendo os habitantes incrédulos. à entrada de Tete. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”.

três dias depois dos acontecimentos. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. em 19/12/1972. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. desumanizados e corrompidos até à medula. aconteceu quando. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. e sobre Wiriyamu.sobre Chawola. finalmente. ano e meio depois. nomeadamente ao comandante da ZOT. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. coronel Videira. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. em Julho de 1973. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. traje alegre vestido para afugentar 201 .

! O agente. Ficaram para o fim. 202 .. para iniciar uma nova e derradeira viagem. por isso está como está!. Caxias. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras.. agora tinha iniciado o interrogatório. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. estava uma carrinha da PIDE/DGS.. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. na natureza e no seu coração. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. depois de todos os passageiros terem saído.. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. Da companheira não havia sinal. onde acabara de ser identificado e fotografado. o mundo está cheio de ateus.. em Caxias. Lá em baixo à espera... com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante..“maus olhados”. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. ─ Desculpe. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. essa é uma matéria reservada. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer.

─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . passagem para um longo corredor fracamente iluminado. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. o som metálico da lingueta da fechadura. Também estive na guerra do Ultramar. ─ Ah! É verdade. o grande responsável. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. outra campainha. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. e o meu tipo de sangue. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. Divisavam-se várias portas fechadas. as da minha esposa. Por detrás tem as minhas iniciais. interrompido por outra porta de ferro gradeada. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. você é militar.─ Fiz-lhe uma pergunta. apenas o corredor comprido e silencioso. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade.

No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário.. propício à desmoralização psicológica do preso. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria.. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. Por cima da mesa. fraca. numa fisionomia naturalmente ruim. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. por onde eram emitidos sons gravados. em Mafra. como depois se perceberia. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. uma lâmpada de filamento. ─ Ah! Não sabe!. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer.um palmo e fazia uma cara-de-mau. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. ─ Não sei do que está a falar. criando um ambiente soturno. em Dezembro de 1971?!. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. por vezes reduzido. isolado do mundo. gradeada...

─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. faz favor! Eu não o ofendi. por vezes o safanão. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. ─ Respeito o quê. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. para além da fracção de segundo. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. Começava a tortura do sono.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. sobretudo na alta madrugada. chamava-se o “moínho”. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. o preso é sempre o mesmo. a tosse de catarro ou o pigarrear. polícia manhoso à maneira antiga. impedem o “fechamento” completo do cérebro. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. criando uma pressão terrível. um aspecto de símio de pernas arqueadas.

uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. o preso desfalece instantaneamente. O sádico pide continua a sua nova táctica. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. silencioso. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara... seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. o coração “salta do peito”.. A partir daí a tortura é dupla. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria.. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado... o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. O efeito é terrível. os ouvidos zunem ensurdecidos.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. Àquela hora o sono apertava. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. para acordar logo de seguida em sobressalto. hem! O mundo desmorona-se. * 206 . Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias.! O agente sentou-se estranhamente calado. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. instantaneamente parado. a respiração é travada num doloroso nó na garganta.

O chefe-de-brigada chegado no séquito. um porte de alto funcionário do Estado. não precisou de muito!. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. só traída por um pequeno esgar. preocupado com a aparência para infundir respeito. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. ─ Não sei porque estou preso.. ter saído 207 . ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. no Curso de Oficiais Milicianos. o “senhor doutor”.. depois do inspector superior da PIDE/DGS. gravata e sapatos reluzentes. e por um ligeiro sorriso cínico. Adelino Tinoco. mas não tinha a certeza.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão.. encarregou-se de clarificar a situação. quando mencionou o senhor doutor. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. nunca levantando a voz.. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra.

. ─ Vá. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado.. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. O senhor é uma pessoa inteligente. vamos tratar como pessoas civilizadas. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. desferiu uma palmada forte nas costas do detido.. não! Por favor.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 .. não vale a pena perdermos tempo..! ─ Ia dar o salto. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. se não conta tudo não vai dormir hoje. ─ o pide calmeirão.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. ─ Violências. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar.. foi uma pessoa simpática e colaboradora. a não ser.

tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. um sujeito fulano de tal.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. deixando-o ofegante. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. ─ Vá. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo.. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta.! A brigada da Guarda Fiscal. por favor! ─ Mas!. Um pequeno prurido de remorsos. apesar das suas reticências. fazia o papel legal. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. avisada. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. perto de Vilar Formoso.. Encontrei-o uma vez em Lisboa. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação.. prostrado de joelhos. o resto fiava mais fino. Estamos de visita! Não podem. Calou-se. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Estava muito calor em pleno Agosto. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.... rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação.

fale! ─ este é dos “pides maus”. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio..levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. é claramente provocatória para impressionar o detido. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. penteadinho e bem vestido. 210 . A conversa em voz alta com o substituído no moinho. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. todo encolhido. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. O “SENHOR INSPECTOR” Um. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. são figuras de bichos. onde antes só estavam manchas indistintas. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas.. pequenos baixo-relevo estilizados. pinturas-quadros humanizados. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. em Mafra. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. em Dezembro de 1971.. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam.

. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde.” ─ Esse canalha!.. ali estava um exemplar do “Avante!”.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. desdobrou uma folha de papel fininho e. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. não vale a pena negar! Além disso. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ─ Desconheço esse assunto. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. é a primeira alucinação. fazia precisamente um ano. não resta alternativa. surpreendentemente. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. em Dezembro de 1971. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso... O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se.

caminhando. O pide pequeno e feio. Adelino Tinoco. como o torcionário-mor. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. já disse! ─ sacudindo-o 212 . entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. Silêncio! Não entrou ninguém. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. com um bafo acentuado de álcool. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. Junto da sua cara. bombista!”. o que permitia ir calculando o tempo). Encostado às paredes foi caminhando. já a madrugada ia alta. Como uma mola. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. aludira. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Passaram as horas. que até os tinha formados em Psicologia.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. Até amanhã. ─ A partir de agora fica sem cadeira. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados.

alto e de meia idade. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. e com um emblema na lapela.. com ar muito solene.. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. de bom corte. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”.violentamente. bem vestido num fato azul-esverdeado. não tem cara para levar uma bofetada!. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. Um “pide-bom”. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. como de costume. no instante seguinte. deu origem. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. voltou as costas e desandou. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. o “superior” teve uma ligeira hesitação. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 ...

continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado.! Alucinações frequentes. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. Agora na década de 70. quatro dias. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. não tenho nada a ver com isso.. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. eram mitigados. de onde chega uma luz de sol 214 . que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. as paredes deslocam-se. muito íntimo do director Silva Pais. com Marcelo Caetano no poder. ameaçador. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica.. sob o mando directo de Salazar até 1968. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. desaparecem.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. no quarto dia consecutivo.

aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. Todas as noites.. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. não conseguia adormecer. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. sobre o rio.” ─ Afaste-se da janela. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. vinha um 215 .. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. por isso bebeu só uns goles.magnífica. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. mais um passo ansioso e . O preso avança às cegas para um precipício. além do oceano. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. Quem dera poder dormir um pouco!.” Passa o tempo a olhar para o preso... pouco antes da mudança de turno. Ao fim de quatro dias de privação do sono. só abre a boca para ditar ordens e regras. O vigilante calou-se. semiaberta. com ar arrogante e meio imbecil. única saída para a liberdade urgente... acima do mundo. O café da noite tinha um gosto esquisito.. onde a vida continua. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. mentecapto..

estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta.. Hoje é o primeiro dia de Inverno. Mas isso não interessa. calha bem!. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus.. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. sem querer. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. não é? Sentia uma tremenda excitação. vindo não sabia de onde. conversar!. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. com as paredes a afastarem-se ou a caírem.. obrigado. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. Sabia bem aquela bebida quente. quase euforia. ─ Interessa.. apetecia-lhe conversar. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. A falta de descanso do cérebro.. fazia frio à noite. vamos é saber da sua disposição. produzia a perda da noção tridimensional.. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. porque de repente. juntava-se a confusão do tempo.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. 216 . daí as alucinações.

em Angola!?. e no entanto vão lá. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. dizem-se pacifistas.. um homem católico. contava todos os pecados.. sabe. nem o Deus em que não acredita. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. ninguém me mandou.. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. ─ Você. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. Já temos uma filha!. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido... fazem agitação contra a guerra.─ Não sei. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. não estou a par! Mas. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. foi uma força de expressão. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro.. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. por onde vultos furtivos se escapavam. não respondeu logo. também estive na guerra. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias.

O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. faz ultrapassar o período de fragilização. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde.” martelava-lhe o cérebro doído. Por agora as dúvidas foram vencidas. não vou!. ninguém! Parecia terem esquecido o preso. enfraquece a vigilância e diminui a vontade.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. tantos que tinha alucinações tremendas. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família.. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço... restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. Nem o chefe-de-brigada.. impedido de dormir há muitos dias. por estar para ali a falar com aquele carrasco. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa.

SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. por não ter arranjado melhor!.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada.. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. em Alcântara. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. com a entrada triunfal do inseparável séquito. Passava largamente da meia-noite. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. Facto curioso. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. SEIS. quase euforia. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. ligados ao Partido Comunista. Calou-se o agente de cara redonda.. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . há muito que acontecera a rotação do “moinho”. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido.. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. segundo dizia. vamos buscá-la para esclarecer. anos mais tarde. comprometido. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. chefe-de-brigada.. quando a revolução esmoreceu). (mas ficaram quase todos bem na vida. (inspector.

pela impotência perante a situação. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . manhas experimentadas da polícia. pavor. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. não posso!. ─ Se os documentos não são seus. Nascia um estranho sentimento novo.. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. subindo pelo peito até ao cérebro. a aprofundar a angústia dilacerante. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente.. Raiva.. medo! Dúvidas dilacerantes do preso.vontade. misto de revolta e de desalento. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira.. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. Que dia seria hoje. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!.

vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. julgando-a mais distante. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. O preso caminha encostado às paredes. desritmado. em pé horas e horas a fio. bate desamparado contra a parede. ─ Comigo. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. os comunistas de merda. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. eu logo lhes dizia!.. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. desfaço-o a pontapé!”. a tortura do sono ia continuar. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. entrado a meio da tarde. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta.. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. sob constantes ameaças dos pides. o “vaidoso” e o “atarracado”. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. Apetece-lhe vomitar. O detido já não liga às provocações. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. a investigação ia no “bom caminho”. O inspector Tinoco retirara-se impante.papel sujo. como você. Sem cadeira para se sentar. já lhe disse! Se insiste. há muito perdera a perspectiva tridimensional. A respiração pela boca torna-se ofegante. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas.

Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. não tem o traquejo dos “duros”. mas nem todos tinham essa fibra.. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. mas com os pés cada vez mais inchados. firme e 222 ... recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. gente de excepcional coragem. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. ─ Sofro do coração.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. já meio recuperado. Não há milagre. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. Sentia-se verdadeiramente mal. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. Estava sinceramente assustado. a confusão. é ainda um homem novo.. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. a família!. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. Sim.. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. Muito tempo depois.... parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. talvez. Ah! Se pudesse saber que a companheira. claro. hoje celebrados como heróis.

Não tardou de facto. nazi. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. Devido ao cansaço. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. jamais olvidado. ─ Sofro do coração. até porque na altura outros apoios foram recusados. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. Na tarde do 6º dia. tinha obtido do “seu” médico e amigo.. ─ Então. criminoso.. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. poupando energias. carrasco. com o ar mais angelical do mundo. torturador requintado. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. o “senhor inspector”. chantagista. torcionário. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. facínora. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. embora verdadeiramente ameaçada. ontem ao 223 .determinada. hipócrita. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. fascista . mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. canalha. todos os nomes que definiam aquele títere do regime.

parecem-lhe gritos familiares. e se for preciso. estava atrás do chefe pronta para saltar.. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva.serviço de Salazar e agora de Caetano. o coração desritmiza-se. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. Até o agente de serviço já não implicava. trago um médico comigo!. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. A matilha de macabéus e hienas. Descalço. De repente. ouvem-se gritos humanos lancinantes. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura.. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. a qualquer hora do dia ou da noite. mas este fez-lhes um sinal de aquietação... com esgares de riso. mas não estava”. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. não dizia nada. “unha com carne” com o director Silva Pais. Este pensamento produz uma angústia terrível. Já não conseguia levantar-se. O torturado levanta-se em grande sobressalto. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. o peito sufoca. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. a olhar interessado. gritos de mulher!. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. sem interferir. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. : “Prenderam a minha companheira!”.

abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País.─ Não está a ouvir? São gritos. contra o que era habitual. O pide de serviço. 225 . A PIDE aceitou a história. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. nas longas fases depressivas. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. Ganhara forma no cérebro. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. uma história de comunista já assumido. Muitos. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972.).. cinzento. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede.. frio. sem sol (ou ainda não terá nascido?).

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. repartido por várias sessões. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. Sobre estes causídicos. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. houve intervenções brilhantes. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). defenderam em tribunal. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. amigos. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. a título gracioso. fazia-se de propósito em voz alta. Das primeiras. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. entre familiares e amigos. milhares de portugueses. corajosas.

seco de carnes e cenho ruim. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. caso raro. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. As alegações iniciais e finais do réu. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. 228 . durante sete dias e seis noites sem dormir. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. fingindo ignorar o detido. mas falando em voz alta e explícita. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. Riram de forma alarve. pelo doutor Manuel.. O próprio juiz o admoestou. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa.. quando foi apertado como testemunha de acusação. anafado e exibicionista no fato de fantasia. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. com o Carlos e o Pedro. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial.

Nos registos da prisão-sul de Caxias.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. na sala de interrogatório!.. ─ agora era o acusador público. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. Ao fim de três sessões. Costa Saraiva. era rancoroso. Embatucou o procurador do Ministério Público.. onde eu nunca tinha estado antes. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. com permissão do juiz. senhor doutor! Nos registos da TAP. além do mais. O fascismo.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. 229 . É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. há-de constar a minha entrada cerca das 20. proveniente da Beira. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. às 16.00h do dia 23 de Dezembro. a interromper o réu. que lutavam pela liberdade... dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. a sentença constituíu uma pequena vitória. com uma pena de prisão remível a multa. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. ─ É fácil comprovar.

No mínimo.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. tal era a acusação. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Fernando Fragoso. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. Manuel Felizardo. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. Hélder e Ventura. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. os amigos José Lucas. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. José Caria. Eugénio Torres. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. 230 . Suzel. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. os antigos colegas Baptista. Vicente Bolina. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. Maia. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. Zaida. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. O apoio necessário vinha da família. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Conduto e Pimenta. ficarão registadas para a posteridade. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. Eduardo Fernandes.

com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). disfarçando a saudade. não há 231 . Desfazendo por fim o ar de admiração. em rápida expansão. fraternal e dinâmico. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. quase vazio no início da manhã. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. cidade dormitório às portas de Lisboa. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. aplacando a angústia e educando o espírito. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. a reflexão. AMADORA. ─ Bom dia. organizado. o estudo. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais.. vê logo o quartel. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. que encheu o dia-a-dia.

com caras de poucos amigos. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. indicada no 232 . senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. o batente de ferro da casa térrea. ─ Deixe estar. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973.. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade.. o rio era um espelho plano e calmo. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. bordado a ouro e esperança de melhores dias. mãe e madrasta... o desemprego na grande indústria. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. situada numa magnífica frente para o rio. Um cabo e um praça da GNR. indiferente aos dramas dos homens. na Amadora. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. adivinhando a má nova e o destino ruim. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias.

─ Processo disciplinar. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto.. Não queremos criar problemas a ninguém. a humanidade com que lidava com os 233 .. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. ─ Entre. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. se tinha levantado para o receber. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso.. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. O capitão Luís. tudo era diferente naquele homem de idade madura. esse cretino!. até aí conhecidos. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. ─ Sabe?!.gabinete do oficial-de-dia. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano... Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar.. oficial do SGE. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. gordinho como era da praxe. ─ Andamos à sua procura há oito dias. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. era preocupante e inabitual. é um cepo redondo com dois olhos. já fui julgado e condenado em tribunal!?.

deixava os interlocutores espantados. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão..problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. também com um problema militar complicado por razões políticas. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. embrulhado em “maus lençóis”. gerava uma nova expectativa. repetia-se ao princípio da manhã.. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. ─ Eu sei. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. intuía com reprimida alegria na alma. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. Todos os dias desde a primeira vez. 234 . formado em Direito.

. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. o que. ando a pagar viagem a viagem!. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. para quem tinha um curso de engenharia. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. Tomara eu!.. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. 235 . ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. deu para partilhar mágoas e esperanças. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato..Não tinha. mas não se comia nada mal.. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. furriel “estacionado”. tristezas e expectativas. não constituía dificuldade. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu.

─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. foram obtidas sob 236 . então não vale a pena perder tempo. em Dezembro de 1971. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. deve ter sido complicado!?. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar... ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. fazia a encomendada inquirição com zelo policial.. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. ─ Bom! Ainda está muito quente.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. redondo de aspecto e de alcunha.

dando como provadas as acusações. já o mês de Julho ia avançado. não é um transporte público. porém.tortura. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. estivesse. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. Isso não pode recusar. Certamente por isso. como mandavam as regras tropeiras. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. Os documentos apresentados para assinatura. ─ Quem não está. sufocava-se no interior da camioneta. O horário é para cumprir. ─ Isto é um veículo militar. e tal. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. se sentara num banco traseiro. ─ Só mais um minuto. nos dias tal. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . o processo-fantoche. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. Por mais de uma vez. senão tem faltas injustificadas. falta um companheiro de viagem. Era curioso. Não ficaria por aqui. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. Depois chamo-o para assinar.

seco de carnes e de sorriso franco. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. ruivo e sardento. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. Era um estado dentro do Estado. o furriel miliciano. com a conivência do militarismo reaccionário. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. Ex. por determinação de S. pelo contrário. na secretaria dos “Adidos”. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. ª. a PIDE/DGS. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. é furriel! Qualquer coisa da Silva.o compasso de espera solicitado. Acácio da Silva”. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. o “chefe da viatura”. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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.. ─ A doença dele é outra. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. ─ Foi o bom e o bonito. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. ─ O tipo está doido varrido. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então.. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração... e o moço de bigodão negro. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. mas num domingo foi aí uma barraca. 246 . tentou esganá-la. casado há pouco tempo e aqui preso!. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. até já cortou os pulsos para se matar!. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. desatou aos pontapés às cadeiras..─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. mostrava-se loquaz. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado.. mas o alentejano não se deu de achado..

Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. A notícia surgiu brutal. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . ─ Pois sim. tem de se compreender. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. fundado em colaboracionismos vários. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias.─ Então a situação é grave. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. sempre a caminho da enfermaria. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. se tinha suicidado na cela. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. Contou consternado que o soldado “esgazeado”.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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.da filhinha! Prometo que voltarei. talvez mais cedo do que tarde!.. 255 .

A LENDA 9. malas. velhos conhecidos. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. sacos. 256 . homens.

gente deitada semi-nua. Encostado ao taipal. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. como gado para matadouro... encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. Algures..No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira.). sobre as preocupações com a mobilização iminente. Beliches a cinco de altura. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. 257 . * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. O camião carregado de soldados. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. cruza-se outro camião com soldados a granel. que para aquele lado era de terra batida. o “canhão” esperava a carne fresca. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. grupos barulhentos jogando às cartas. Para onde irá? Como o mundo é pequeno.

pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. isto é um país em guerra. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. ─ Se calhar vou contigo. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. nossos soldados? ─ Desculpe. que por perto ouvia a conversa.. ─ A vossa identificação. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. falta de hábito!.. se não houver problemas com a saída!. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 .─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade.. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. rua abaixo direito ao centro da cidade. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação.. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. paleio animado e boina na mão. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. moço alto e magro.

é um exagero!. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada..de colocações e a escala de serviço. ─ Isso deve ser história.. sem braços ou sem vida. tecendo laços de solidariedade circunstancial. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. mas sem fim à vista.. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação.. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. sem pés. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. algures naquela guerra oficialmente já ganha. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. ─ Há aí vassouras e pás. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. Devem vir fardados. também não a pedi nem a desejo! 259 .. não deve ser limpa há um ano!. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. limparam. ordens do sargento! Resmungando e refilando. lá foram saindo os magalas mal ataviados... animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. pá! ─ Não te metas com esse gajo. entretanto voltou de avião para a metrópole!. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. apanharam e carregaram cinco latões de lixo.

elogiando o trabalho feito.. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. com uma eficácia muito baixa. e a economia da região sobrevive do conflito.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. que consome enormes recursos da Pátria distante. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. veículos militares correndo pelas ruas.. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. assim se chamavam.. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. característica daquela região. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. ─ conversava-se à mesa do 260 . Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. pois a guerrilha não diminuiu. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. com o sol nebulado e uma humidade elevada. As vivendeiras.. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. pelo contrário. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. Os homens ocupam-se da máquina militar. Na conclusão da empreitada. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras.

. Esta “chicalhada” irrita. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”.tal como sufocava o calor de Dezembro. Têm inúmeros criados pretos.Café Central no fim da tarde quente. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. Longe dos teatros de operações. quase não há serviçais do género feminino. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades.. mas têm comida certa: ─ António. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. a 261 . casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal... Passam carros de boas marcas com condutor militar. a história da terra moçambicana. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. Ganham uma bagatela. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. não sabem ler nem escrever. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. o militarismo sufoca! . a fim de conhecer tanto quanto possível. Também alguns milicianos trouxeram a família. falam mal o português.

onde tudo era demasiado no estilo europeu. a perder de vista. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. Uma planície de cor castanho-avermelhada. Quando se saía da cidade. quartel-general da guerra. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. e aos industriais de refrigerantes. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. viam-se grandes embondeiros. e potenciando o vício pela bebida americana. ao fim do dia. oriundo da burguesia alentejana. à beira do milagre da “tomada 262 . protegidos pela lei do condicionamento industrial. deixavam-no intranquilo. com bons conhecimentos. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. a prestar serviço nas “Informações Militares”.. A sua formação era claramente conservadora. Nem vou. ─ insistia o jovem bem parecido. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. que não se vende em Portugal.. porque Salazar não gosta muito dos americanos. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada.

a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. ─ Quando vim. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. já tinha a chave. Pelo que tenho visto. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais.. acreditava na justeza deste conflito. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. revelando a comum ascendência asiática. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. Não tardam aí melhores dias!. Automóveis de boas marcas. deixam gente de pele escura. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. 263 . Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. muitos sacrifícios e muitas vidas. ainda que tal custasse muitas angústias. Prestes a mudarem. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. Ia para dois meses. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. mais depressa os homens que os montes.de consciência”.. Para o mais distante. entre silêncios e goles de mistura fresca. réplica da arquitectura europeia.

Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. Estavam muitos orientais. chegavam famílias inteiras. por bastante comum.. ─ Ah! Então era isso. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. com o infelizmente célebre. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. como na gíria é conhecida. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. O descontentamento emergia. com as leituras ou as idas à biblioteca.. se notava um grande sossego. normalmente. o movimento à porta da mansão!. no Golfo Pérsico. na Índia e até na China. À noite. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. a servirem como desabafos da alma.

a que o povo das tatuagens e dentes limados. entre os rios Lúrio e Rovuma. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. em 1918. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. começou a fazer-nos sofrer muito. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. que encontraram sempre forte resistência. nos princípios do século XVI. viviam na água. Os pretos cuidaram dele até crescer. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. Datam do século XX. se furtava.. nunca mais deixou de nos tratar mal”. E desde então até hoje.. Durante a I Grande Guerra..gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. 265 . “Os brancos antigamente eram peixes. internando-se no mato. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. e se ele o dizia. Esta é uma lenda do povo maconde. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito.. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. habitando o Norte de Moçambique. possuía um carácter forte e indómito. A etnia maconde. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. no remanso da biblioteca municipal de Nampula.

. e de Capelo e Ivens. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. Este último escreveu o livro “Mozambique”. doentes sem hospitais. da costa de Angola à costa de Moçambique.. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. No início do século XX. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . no Sul.”Batalhões sem soldados. em 1882. alunos sem escolas e sem professores. “de Angola à contra-costa”. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. fronteira à ilha de 266 . em 1885. escolas sem alunos. Em 1895 e 96. hospitais sem médicos!”. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. de traficantes e de entidades coniventes. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). em 1889. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. em 1878.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. A nova expedição de Serpa Pinto. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional.

a Companhia de Moçambique. a Companhia do Niassa. criada em 1888.. com capitais metade ingleses e metade franceses.!). e o cultivo do algodão e da borracha. criada em 1894. em 1879. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia.. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. procedendo à exploração mineira nesta área. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. ferro e ouro. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. numa série de campanhas iniciadas em 1908. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. com capital inglês e francês. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. a norte. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi).Moçambique. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . À medida que se desenvolviam as campanhas militares. que iam completando a ocupação militar. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. são finalmente controladas (oficialmente. Lúrio e o lago Niassa. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. entre os rios Rovuma. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). submissão das populações e pilhagem dos recursos.

autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”.) está sujeito. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. fundamentalmente para Angola. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. muito depois da abolição oficial da escravatura. subindo para 2 mil no início do século XX. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. não se mobilizavam voluntariamente. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. entre pessoal militar e administrativo. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. conseguiam um tráfego internacional crescente. No período de 1910 a 1923.. sua sede. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. Já a Companhia do Niassa. ao seu sustento próprio”. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. Em 1878. aumentando para 20 mil em 1926. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro.. foi criado o primeiro código do trabalho. mantém-se o regime de trabalho forçado. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. Por outro lado. Ou seja. ao abrigo desta lei. que funcionaram até 1942. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas.país colonizador. nunca teve grandes resultados. na sua área a 268 .

penetração europeia era mínima. milho. mandioca. segunda cidade. chá. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. tinha em 1925. amendoim. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. e nunca foram construídas vias férreas. tinha 30 mil habitantes e a Beira. Porto Amélia. Bélgica. É muito recente. No segundo quartel do século XX. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. destinados à exportação: algodão. o esforço português de colonização efectiva. em 1925. assiste-se. já do século XX. no Centro e no Sul do território. mesmo nas suas próprias terras! 269 . atinge 20 mil. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. sisal. copra). Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. criadas por decreto obrigatório. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. a capital. 1500 habitantes (só 50 brancos!). Alemanha. França. canade-açúcar. todavia. Holanda) estava em declínio. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. oleaginosas (caju.

Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique.. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. Inglaterra e União Sul Africana. pertencente ao grupo Champallimaud. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. fundamentalmente para Portugal.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. concessão feita a capitais luxemburgueses. que cessaram a actividade por volta de 1942. constituída em 1948 com capital luso-belga. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. perícia. originariamente para a exploração das minas de Moatize. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. criada em 1921 com capitais ingleses.. Presente desde há muito. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. do Niassa e de Moçambique. Além das referidas Companhias do Zambeze. e em particular com o capital britânico. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. Companhia de Algodões de Moçambique. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. Sena Sugar States. No caso da exportação de algodão. em 1945. Curiosamente. que assim funcionam como mercado protector. a mais importante açucareira da colónia. cultivava 45% da produção algodoeira total. a que se 270 .

está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. desmentida desde 271 . se cultivam e se elevam.. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. também presente na indústria dos óleos. metade do total.. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. incluindo: 400 mil emigrantes. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. Em complemento. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval.. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. sejam quais forem as suas diferenciações. no período áureo do chamado Estado Novo: . se auxiliam. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. etc. em 1943. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores.“No meio das convulsões presentes. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. irmandade dos povos que.associaria o grupo Melo. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. 520 mil contratados do algodão.

asiáticos e “assimilados”. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. com a política de “fomento colonial”. Todavia. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. traficando em escravos. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. espalhados ao longo da costa moçambicana. em 1960. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). 1. em 1950.sempre pela escassíssima presença portuguesa. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. à data dos inícios da guerra de libertação. em decréscimo) num universo de 6. três ou quatro nos finais do século XIX. ou seja. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus.6 milhões. no século XVIII. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . ano da publicação do Acto Colonial.5%). Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. dez em 1825. e as escolas elementares das missões católicas. organizadas em ensino primário e liceal. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. Da mesma forma. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930.

. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização.. Por este tempo. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. padres de Verona. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias.território colonial. padres de Burgos. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. 95% da população africana se encontrasse na 273 . sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. 1970). Nas suas escolas ensinam as línguas nativas... reflectindo a miséria da missão colonizadora. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. etc. subjectivamente. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. confluindo no desejo independentista. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. sobretudo depois da II Guerra Mundial. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. Não admira pois que em 1960.). pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. nacionalizar e civilizar a população nativa”. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . fomentando o espírito nacionalista latente. ao arrepio do ensino do Português. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. educar. “Não é mais que um método de domesticar o indígena..

. como na afirmação do Presidente da República. são gente boa. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas.. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. Craveiro Lopes. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. os Casimiro.. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. a Lurdes. o Castro. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!)..situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. o António. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. ). sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. 274 . o Muradali. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. A colónia funcionou até 1960. o Fausto. A humilhação permanente da despromoção. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. ok?!. o Ivo. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. Precisas de te distrair! O Carlos. o Monteiro. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. em 1956. quando começar a luta de libertação nacional. o Melo. a Lena. o Santos.

275 . estava um negro deitado na estrada. este tipo é incrível. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano.. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa... ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. muito apertado pela PIDE em Caxias. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. entretanto a revolução. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. Ciclo do COM. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. A seguir a uma curva.. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. atravessado. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. como morto. ─ Não é tanto uma questão de coragem. ─ questionava a esposa. sempre muito sensível. é mais uma questão de integridade.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. por isso te despromoveram e te castigaram. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. que até nem foi extraordinária.

se estivessem aqui comigo!. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. por isso tu és a minha vida. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. O mais custoso é a separação. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. cada vez maiores. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. De vez em quando vou tendo notícias.. tu ensinaste-me a viver.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. carregada pela angústia da separação física. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. Estão bem. a minha luz. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 .) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. (. felizmente.. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo.. O tempo não pára. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa.. mas nós havemos de vencer haja o que houver. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo... sim! Com dezoito meses. me dá vida.

. o casal ainda não tinha filhos. Como disse um grande poeta. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. (.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. a nossa ligação temse fortalecido. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . o amor constrói-se também com sofrimento. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. amor da minha vida”. que faz amanhã 18 meses. ─ uma carga de trabalhos.. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. diz o nosso fruto pequenino.. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. e agora?.. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias.criaram. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. Nós esperamos por ti. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! .. Por outro lado. não sei se aguentaria. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil.. O “carocha” quebrou o transe emocional. durante quase seis meses.

pelo parente morto em exercício militar. em Outubro passado. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. no início da década de 70. e de sectores ligados ao general Spínola. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. genuíno. fora compulsivamente incorporado. à entrada. natural da cidade-quartel-general. que há pouco. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. as de jovens oficiais do quadro. era um jovem mulato.G. foi bastante mais João. ─ Um movimento autêntico.. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. também alferes no Q. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. também ex-dirigente associativo. onde vinha em luto familiar. fora apresentado como Ivo.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava.G. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. ou mais uma tentativa de “putch” militar. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. Juntamente com outros dirigentes estudantis. alto e bem parecido.. desassombradamente.

Fixados há muito em Nampula. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. trazendo e levando notícias e materiais. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. chegando e partindo constantemente. que não renegavam. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. A casa de família da classe média. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. ─ Como sabem. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . alimentando a célula da resistência em Moçambique. Se isto dura mais uns meses. que fazia a interface entre muita gente. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. falava no assunto tabu. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. para ajudar a acabar com isto. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. o mulato quase formado em Medicina.

assume-se agora do lado dos oprimidos. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. mas creio que já não têm tempo!. mas se é contra o regime. nos quartéis.. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia..! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. O julgamento do 280 . em plena época quente no Hemisfério Sul. ─ Talvez não haja tempo para isso. muito simpática e delicada... Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. também dirigente académico perseguido. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. ─ A própria igreja de Moçambique. concitou a atenção dos presentes. Tenho a convicção que o fim se aproxima. que venha por bem! ─ Por cá. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento.. depois do fracasso das operações no Norte. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação.... oriundo de famílias militares. ─ a senhora de Casimiro. nas escolas!. num fim de tarde africano. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. mostrara uma insuspeita clarividência. ─ o jovem Melo..

durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. Depois da concordata de 1940. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. parte integrante da máquina colonial. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. num contexto de declínio do colonialismo. o ambiente ganhava optimismo. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. Sebastião Soares de Resende. é paradigmático do papel da igreja católica em África. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. assumia-se de forma muito mais contraditória. no curso do século XX. Completa esta imagem do século XVIII. prevendo e prevenindo o futuro. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. por orientação do Vaticano. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). terra de esperança. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. uma voz clara que 281 . aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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do oceano de águas escuras e algo agitadas. de medusas da “Cruz de Cristo”. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. aparentemente descurando o futuro. Percorridos em visita. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. nada de atrasos!”. A praia das “Chocas”. tinha uma areia fina de tacto agradável. rumo ao Norte. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. num “Aviso” da Marinha de Guerra. quase escrava. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. cada vez menos. agarrado às vantagens do passado. espraiando-se levemente na areia branca. a praia do “Relamzapo”. semeada de pedaços de algas escuras. e. Agora na sua senda. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . como gostavam de dizer.30h. aqui e acolá. negros na maior parte. imaculada. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. duas dezenas de soldados. a meio caminho da cidade portuária. os colonos emigrados. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. com “cabrinhas” de espuma branca. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. Na conjuntura actual. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. A partida é às 20. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. ainda acreditavam.

é melhor não te verem por 290 . Num jipe oficial. Ele contar-vos-á os pormenores. ao jantar. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva..bigode sobranceiro.. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. Tinha razão o Ivo. Tratem-no como se fosse um de nós. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. um jovem alferes moçambicano. estivemos a conversar em casa de uns amigos. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. ─ Há poucos dias estava óptimo. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. Marcelo. também vou?.. impecavelmente fardado. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão.. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. logo me contas o resto da história. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. branco. Caíra a noite.

já eram velhos amigos. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. Antes. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. com o furriel “recepcionista”. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. de camuflado. instruiu o condutor de serviço: 291 . em serviço à pista. ─ Olha quem ele é!.perto. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência.. à saída. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. ex-dirigente estudantil.. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida.

e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha.. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . a poente. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa.. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. com telhados de fibrocimento. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. pintadas de branco. a rasar a copa das árvores. Verdes e impenetráveis. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. parecia ser gente “importante”. que passava rapidamente. único utente até hoje! Ao longe. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. Diferente.. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. era uma zona de casas. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. num vale em depressão. Do avião. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. para onde vai o professor. bem vestidos ao modo africano. arrasando os nervos. alinhadas ao longo de uma estrada de terra.. desde Porto Amélia.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!.

foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. destoava do verde constante da paisagem. em Porto Amélia. ─ Contava-se. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. até se diluírem no horizonte. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. 293 . ou talvez mesmo de há muitos dias. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. de contornos envoltos em bruma.. Mais distante. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. interpelou-os: ─ Meu furriel. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante.. de madrugada. de ataques com foguetes de 122mm?. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos.adiante.

É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. Em tempo de Equinócio. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições.Fim de tarde ameno. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. em fila. confundindo-se à distância com a neblina circundante. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. Por instantes. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. sem vontade. ao calor escaldante do meio-dia. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. sem gosto. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. Ali na África Setentrional. sem higiene. a recolha da sopa numa lata de folha. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. porventura. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável.

e o manto escuro caindo sobre o lago. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. o medo da guerra. É Naschinguyeia. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles.da pátria. em cenas de caça na terra de ninguém. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. crocodilos. Novamente o mundo sem sons. Mais distantes. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. da personagem mal conhecida por recém-chegada. encosta abaixo. Mina. ataque? Nada. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. minas anti-pessoal. a angústia do afastamento familiar. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . despejada a eito. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. em cujas margens coexistem por vezes. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. do outro lado do rio. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. caçadores nativos. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. falso alarme. projéctil. a miséria do rancho. o nosso direito e o nosso interesse. A respiração suspende-se por segundos.

afogou as pretensões num banho de sangue. em Junho de 1960. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. com mais de 50 mortos. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. em 1961.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. em Abril de 1961. em 1963 e por último em Moçambique. Uma contínua e continuada mistificação. no Tanganica. belgas. francesas. depois na Guiné-Bissau. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. o mito da defesa do mundo ocidental. transferindo-se para Dar-es-Salaam. Franco Nogueira. primeiro em Angola. em 1964. acediam à independência. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960.impérios asiáticos. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. quando as ex-colónias inglesas. holandesas. um ex-ministro de Salazar. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. piscando o olho aos americanos e à NATO. em véspera da 296 .

a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. da 1ª. Em Nairobi. em inícios de 1961. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. independente desde 1958. Como nos restantes casos. tratava-se de um movimento heterogéneo. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. em Maio de 1961. No interior de Tete. com diferentes sensibilidades e perspectivas. No final desse ano. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. em 19 de Dezembro de 1961. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961).União Nacional de Moçambique Independente. com mais ou menos expressão. Damão e Diu. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. começando a derrocada do império colonial português. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. segundo os próprios. futuro grande estratega militar da luta de 297 . É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. foi criada a UNAMI . Marcelino dos Santos e Uria Simango. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. no Quénia. moçambicanos da etnia maconde. A realização em Marrocos. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa.

Congresso em Setembro de 1962. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. simultaneamente em Cabo Delgado. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira.libertação: Samora Machel. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. Ao fim de quase 500 anos. O conflito iniciou-se em 1964. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. capital do Niassa. * Eduardo Mondlane. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. finalmente. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. com um ataque ao posto militar de Chai. bispo de Vila Cabral. e no vizinho distrito de Niassa. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. em 1971. unificado a partir do 1º. pelas tropas em acções de represália. Após 298 . um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. primeiro presidente da Frelimo. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas.

só em Março de 1963 se radicou em Dar. no extremo nordeste de Cabo Delgado. Professor na Universidade de Siracusa. Pascoal Mocumbi. capital do Tanganica. Tinha chegado a Dar em 1963. Eduardo Mondlane. Leo Millas. a Frelimo teve um início de vida agitado. nomeadamente Julius Nyerere. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. o tenente Jacinto Veloso das FAP. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. Instalada em Dar-es-Salaam. um período de grande vitalidade da Frelimo. que casara com uma americana branca. em Março de 1964. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. Por essa época. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. em risco de ser preso pela PIDE. moçambicano de origem 299 . com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. após uma espectacular deserção. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro.breve passagem por Lisboa. Joaquim Chissano. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. seguiu Samora Moisés Machel. Janette. entre outros. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. iniciando com Marcelino dos Santos. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade.

protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. em Setembro de 1964. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Mondlane convidou Helder Martins. Mais tarde em 1965. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. a funcionar na capital argelina. de passagem por Argel em Março de 1963. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. em Fevereiro 300 . Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. Perseguido e preso pela PIDE. para se juntar à Frelimo. outro moçambicano branco. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. Também por esse tempo. comum na região setentrional africana. O seu presidente Banda. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia.branca a juntar-se ao movimento. Lázaro Nkavandame. O seu líder tribal mais carismático.

de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. onde reza a lenda. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. a 301 . devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. a luta alargou-se rapidamente. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. conta a história do movimento de libertação. No mês de Fevereiro de 1965. base da alimentação. por não terem armamento pesado). No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. Desde o primeiro ataque a Mueda. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote.

EUA e URSS. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. e à exemplar democracia americana. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. total e completa.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. Foram então nomeados. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. ─ Independência de Moçambique. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. num Moçambique livre e independente. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. que garante a sua unidade interna. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências.

a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. É a resposta às forças portuguesas que. a sul. condenada internacionalmente. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. em Moçambique. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. Em Abril de 1966. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. Neste contexto. onde o regime do “apartheid”. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. decretando sanções económicas e políticas. em Novembro de 1965. Salazar fazendo jogo duplo. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. 303 . na Namíbia. em 1967. ZANU e ZAPU. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. uma nova frente na região de Tete. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. veio complicar o xadrez político na África Meridional. na Rodésia. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. em Moçambique.

o padre católico negro Mateus Gwandgere. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). alvo por vezes de assaltos surpresa. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. (ganham dezasseis contos por mês. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. Em Fevereiro de 1968. Kingwa. O movimento moçambicano está já então bem organizado. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. Viveu-se à época deste congresso. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. enquanto um soldado ganham um!). aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. passando a partir de 1966. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. no célebre campo de Naschingwea.Na região de Cabo Delgado. Mtwara.

Em Portugal. em Dar-es-Salaam. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária... sem um claro vencedor. sem sentido histórico e sem significado real. Moçambique. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. Em visita às colónias em Abril de 1969. são um imenso caldeirão prestes a entornar. E foi a PIDE. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. onde vivia com a mulher e três filhos menores. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo.). Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. África do Sul. Namíbia. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. Em Fevereiro de 1969. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. As palavras só têm significado para os 305 .

e. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. é eleito presidente Samora Moisés Machel. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. O movimento de libertação está mais forte. em Moçambique. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. para Angola e Moçambique. No dia 1 de Julho de 1970. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. respectivamente. um militarista ultrareaccionário.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. morte. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. coeso e organizado. sangue. em Maio de 1970. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. A história e o tempo jogam a seu favor. sacrifícios extremos. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). um dos fundadores. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. para comandante-chefe. custou esta 306 .

Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. na acepção militarista. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. bem organizada e com uma forte retaguarda. muitas apreensões de armas. Praticando o extermínio por onde passava. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. dinâmica. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. também houve muitas vitórias. de centenas de estropiados. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. milhares de combatentes. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. pomposamente exibidas na RTP. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. 307 . além de uma rede de células secretas nas principais cidades. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território.

monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). o ministro do Ultramar. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. Aguardavam os restos garantidos da refeição. O conflito colonial em Moçambique. ficou-se pelo quilómetro vinte!. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas.. diria outro retinto situacionista. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. montada debaixo do grande embondeiro.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. crime (milhares de mortos civis e militares). Silva Cunha.). Como resposta.. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. a fingir de refeitório. prometendo acabar com o “terrorismo”. 308 .

só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. que também está de partida. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos.entretidos em brincadeiras de ocasião. dez escudos por mês! Vive com a mãe. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. o pai morreu na guerra. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. Como te chamas? ─ João. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. Vinham quase todos da aldeia macua.. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”.. outros nada.. Quatro. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado.. Lava. de carapinha escura. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. ─ Então não conheces a história? O pai deste. com as suas tatuagens características.. precisam de ajuda!. ─ E o pai?. sobretudo os da “fofoca”. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. sinhô! ─ desviou a cara.. passa a ferro e não leva caro. Alguns já tinham comido sopa do rancho. 309 . oito ou nove anos. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. eram raros os garotos vindos do lado maconde. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel... cinco anos.

. com telhado de colmo como as outras.. radiante na sua prometida função de cicerone.─ Curioso!. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões.. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. repuxada pelo filho mais pequeno. de forma menos tradicional. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”.. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias. em cuja entrada ficava a casa de Teresa.. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. ─ É a Teresa! Não te dizia!. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. transportado às costas como era uso. aflito com o rumo do negócio. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. mas com paredes rectangulares de madeira. ─ Pois é. que está nos GE´S. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. consta que ele é casado na metrópole..

onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. ou porventura devido à língua entaramelada. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. só perturbada pela desgraça dos homens.João estava tentado a corrigir o vocabulário. sempre a gritar e a gesticular. com um fardamento esquisito. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . Gritava de modo incompreensível à distância. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. em genuíno desabafo de revolta. mas achou prudente não se manifestar. magro. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. calças pretas. qual dono de escrava. na África sedenta de liberdade. ─ O furriel tem andado desorientado. Já escondido. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. em terras de mistério e desgraça. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. a metrópole era Portugal. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro.

já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. obrigado! Tenho outras preocupações. visivelmente amedrontado. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. onde este tipo de assuntos era mais propício. mas nenhum queixume. O “negócio” era do lado da aldeia macua. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento.. Notava-se pouca actividade. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. cor amarelenta e barba mal escanhoada.. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. 312 . Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas.timorato o rapaz de estatura baixa. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. Os homens deviam estar a descansar da guerra. cercado de arame farpado e minas. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. ─ O homem está com ciúmes. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada.

já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. onde já anoitecera. ─ Porque se sujeitará Teresa. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. ocorreu à imaginação do soldado castigado. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. já os tinha mencionado. não seria muito prudente.. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. A frase soava ordinária. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. Se é que essa seria a “estória”. Só não sabia. ─ Logo se verá. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda.. O cabo Carlos. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?.─ Há lá velhotes porreiros. Nas circunstâncias. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. a sua comissão fora penalizada em três anos. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. e por isso hesitou 313 . como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. como degradante era todo o ambiente da guerra. não há pressa.

à enorme angústia pelos mortos. 314 . somada à saturação de sucessivas saídas e. criava um estado de espírito muito negativo. a raiar a exasperação e a revolta. A hipótese de não rodarem. ─ Isto é uma guerra. ao fim de um ano de “trolha”. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. na perspectiva de descerem para Sul. gerava uma enorme frustração que. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. caramba. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. era que de há anos àquela parte. os homens estão muito desgastados. raramente encontravam alguém da guerrilha.calado e pensativo. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. sobretudo. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações.

a relativamente inepta tradição colonialista. Monica Chitupila. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. Filomena Nashak. contra o que chamavam. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. eram os outros 315 . “travestida” de serviços de informação militar. Armando Panguene. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. sob o comando supremo de Samora Machel. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. militarista e reaccionário. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. Alberto Chipande. entre outros. Em contrapartida. Sebastião Mabote. Bonifácio Gruveta. O movimento nacionalista. único do povo moçambicano. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. Osvaldo Tazane.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). José Moiane. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. por um comando supremo todo poderoso. Mariana Pachinwepa. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Raimundo Pachinwepa.

Grupos de soldados portugueses. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. nos confins de uma África inóspita. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. em Julho de 1973. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. “A fogueira do guerrilheiro”.vectores fundamentais da situação político-militar. em português. A sorte da guerra estava traçada! 316 . ensanguentada e sedenta de liberdade. por milhares de manifestantes. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

apostólicos e romanos”. e em Portugal. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. MPLA e FRELIMO. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Diminuía a base social de apoio ao regime. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. durante a campanha para a Assembleia Nacional. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. muito “católicos. Dia Mundial da Paz. no dia 1 de Janeiro de 1969. Felicidade Alves. 318 . atenta e preocupada com os ventos da História. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. da diocese do Porto. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. em protesto contra a “política ultramarina”. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. Domingos. em Lisboa. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. por oposição à guerra. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque.

ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. No início da década de 70. Santarém. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. na organização da resistência e do combate internos. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. Vendas Novas. “Levantamento de rancho”. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. no 4º turno de 1971. “Alerta camarada!”. embora negando os factos. ameaçando:. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. Lamego. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. e outros mais No panorama internacional. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. “Não jures camarada!”. em 1971. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. em 1972. organizada unitariamente. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. no 3º turno de 72. nas escolas. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. dentro do “ninho de víboras”.. nos quartéis. Santarém. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. entre outros. e os Estados Unidos. arrancados às escolas. publicado nos princípios da década de 70: . Tavira.. no 1º turno de 72. protestos na parada. Tavira. em 1971... Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. 319 .

Mas a luta de libertação está muito avançada. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. Entretanto. No essencial tudo fica na mesma. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. como resposta a agressões vindas do exterior”. os 320 . a proclamação. Guiné e Moçambique. próximo da fronteira. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. António de Spínola.“ajustando” a estratégia. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. ainda que por novas vias. com Leopold Senghor. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. o combate não esmorece e. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. Ainda assim. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. encontra-se. Na Guiné. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. Em Outubro do mesmo ano. o Conselho de Segurança da ONU. com o objectivo de “legitimar a guerra. O alcance da iniciativa é inteligível. e em Abril. ao perceber o fim inexorável. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. para breve. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. Enquanto isto. em Março de 1973. da independência da Guiné. em Outubro de 1972.

Um mês depois. KAIOMBE DE JIMBE. organizadas como um “exército regular”. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. no entanto. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. que Marcelo Caetano. havia o “inimigo interno”. de aquartelamento em aquartelamento. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. todos aqueles que iam 321 . conversando e trocando novidades. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. as forças guineenses combatem por todo o lado. em Setembro. reparando rádios e antenas.. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. o PAIGC proclama em Madina do Boé. sem nunca o confessar abertamente.“Strella”. empenhado há tantos anos na luta pela independência. em aumento crescente. A guerra entrava numa fase derradeira. fartos de guerra e do militarismo fascista. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. Havia o In. Quanta gente. que a guerra de libertação é invencível. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. em Agosto de 1973. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. a independência da Guiné. Spínola. perigosamente de terra em terra. percebendo finalmente. não pode satisfazer. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. acossado. ficaria ainda ferida ou estropiada. numa zona libertada. derrotado.

pertencente ao subsector do Cazombo. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. Mas ainda havia quem. carroça mal puxada! revolta-se!. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar.. arreando forte na besta. na vila de Jimbe. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca.. na Região Militar Leste. besta contrariada. Além da agricultura de subsistência. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . foi só um desabafo. mas como muitos outros. – Bem.. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. bem. furriel. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. Não era mau rapaz o furriel. procurasse puxar a “carroça”. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. nos princípios de 1974. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”.. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. Já se sabe o resultado.

A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. com frequências próprias. o problema não era do rádio propriamente dito.. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. os chamados “flechas”. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância.e políveis. onde vivia pobremente a população indígena. – Esperem aqui. com duas ruas paralelas. onde aquela estava montada. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. era uma realidade também em África. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista.. trabalhado na feitura de peças artesanais. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. agradado com a tarefa. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. Afinal. Devia ser problema na antena. solicitaram a reparação. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo.! – o furriel. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. – Venham comigo. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.

Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. e outros. de nome Kaiombe. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. o agente António Camelo. apagar os charutos no corpo dos presos. Lontrão. e comentando o sucedido com os camaradas residentes.jovens militares estarrecidos. participante na invasão do solo angolano independente. ficaram a saber que o chefe do posto. Perturbados e confundidos. alegadamente à caça. Morreu passado pouco tempo. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. que deviam doer horrivelmente. completamente expostos aos elementos. com as O pide da retirou-se antena. Laia. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. apanhado no mato pelos “flechas”. rumo à África do Sul racista. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. solicitado para outro qualquer assunto. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. Alguns meses depois o pide Camelo. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. autênticas jaulas de guarda-bichos. mas suspeito de apoiar o MPLA. causando-lhes horríveis queimaduras. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. De volta ao quartel. momentaneamente. ou no célebre batalhão “Búfalo”. Vaz. No caso vertente. tratava-se de um habitante da zona. tinha por desporto nos interrogatórios. 324 . Casimiro. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. Trindade.

Significa que entre nós o crime compensa.. que em África. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. da revolta activa de muitos milicianos 325 . prendeu. perseguiu. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. e as de dezenas de milhares de autóctones. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. Essas vidas poupavam-se. porventura numa escala muito maior.Face hedionda do sistema colonial fascista. como em Portugal. ou reforma dos ex-combatentes. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. guineenses e moçambicanos. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar.. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Neste sentido. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma.

decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. o general fascista não parava de conspirar. em Óbidos. com mais homens. o general derrotado na 326 . cada vez em maior número. composta por 19 elementos. futuro militar de Abril. António de Spínola. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. – Por esta altura. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. entre ultra-reaccionários. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. como ministro do Ultramar. Regressado de Moçambique. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. – Em Fevereiro de 1974. mais meios logísticos. embora unidos no essencial. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. – Em 1 de Dezembro. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. Dezembro de 1973. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. em Julho. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. homem da sua confiança pessoal. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. conservadores e liberais.

na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. – No dia 5 de Março. Família. O professor fascista “demo-liberal”. para reflexão. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. os oficiais-generais. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. Vinha de um retiro no Buçaco. publica o livro “Portugal e o Futuro”. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. reafirmando a disposição de não ceder em África. Costa Gomes e Spínola.Guiné. – Nesse mesmo dia. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. para todo o país. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. convidando-os. em vão. Pátria. – No início de Março. em directo. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. transmitida pela RTP. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. a chamada “brigada do reumático”. a assumirem o governo. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. A “coisa” está para breve. reúne-se em Cascais. o “Movimento dos Capitães”. 327 . Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional.

e prisões. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M.. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . – Cartas de amor e guerra. meu sargento. grande dinâmica unitária do movimento CDE. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. Os amigos. – Deixa lá a guerra.. Caetano. com as missivas dissimuladas. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. naquele promissor Março de 1974. animadas pelos comunistas. em fins de Março. amor e esperança. no regresso de férias. O velho sargento. solidários. divertido e perspicaz. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. com frequentes “extravios”. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. greves na cintura industrial de Lisboa. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. o sargento-ajudante “Mafra”. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. “Portugal e o Futuro”. livro de António de Spínola. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. Desta vez. em trânsito ocasional. chalaceara à partida.

embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica.) Amor querido. depois de castigo disciplinar). (..... Mais cedo do que tarde. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. como costumas dizer”(.. Margarida. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. Hastings.. em Julho de 1973. refere a coragem dos revoltosos.(. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto.. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março.. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação.). Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. com um enorme impacto 329 . Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. Não foi ainda!. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. apesar de inconsequente. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. denunciados ao mundo pelo padre inglês A. INHAMINGA A SUL..) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados.. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro.

O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973.! – Nada que se compare com este inferno. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”.. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. esta zona onde aquartelámos.mediático. acompanhados por dois cineastas e um repórter. no caminho estratégico para a Beira. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. Havia notícias desde Julho de 1972. era ou mato ou morro.) “Afinal tinhas razão amigo. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. sempre a alinhar! – Boa sorte. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações.. Algumas semanas depois. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”.. para onde a companhia independente tinha rodado: (.. A situação é deplorável. Oficialmente configurava uma acção por focos. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. amigo. 330 . é palco de uma crescente perturbação subversiva. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias).

o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. Nos últimos dias de Julho de 1973.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. massacrando ferozmente populações. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. torturando e eliminando patriotas. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. nas hostes colonialistas. Depois do Verão de 1973. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. em Tete. A sanha perseguidora. vinda da guerra no mato. em autênticos massacres. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. onde o terreno estava relativamente “livre”. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. iria assistir e nalguns casos participar. prendendo sobas e régulos. lançava o pânico. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. Estas denúncias referem milhares de 331 . A tropa regular. Entravam e saíam carros civis e militares. sobretudo depois da chegada das tropas especiais.

e nas Colónias. Gungunhana e Moçambique. a alta hierarquia militar. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. geralmente odiada. No estratégico caminho da Beira. pela PIDE. como na localização das bases Nampula.mortos. 332 . originando dezenas de milhares de deslocados. durante a operação Nó Górdio. adivinhado naquele início do ano de 1974. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. terem essa atribuição). mesmo depois dos seus rotundos fracassos. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. por cegueira. conveniência ou por convicção. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. com homens de “antes quebrar que torcer”.

azuis. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. podiam ver-se muitas estrelas. do Brasil.. da Rodésia. A explicação não tardou. em plena luz do Sol. de 19 a 22 de Abril de 1974. amarelas..“Strella”. a norte de Moçambique. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. dada pelo chefe da secretaria. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. incluindo aquele. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. da Namíbia. cinzentas e verdes... pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. com foguetes terra-terra de 122 mm. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. Mesmo tendo diminuído as 333 . Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. padre José de Sousa àquela área. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia.. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!.. significando tratar-se de militares de patente elevada. – Têm fardamentos bonitos!.... Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. – São “patentes” da África do Sul.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974.

comia-se em dois turnos. depois do caldo aguado. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto.. após uma grave crise de desnutrição. em 1971. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. digna de registo. Na messe dos sargentos. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. os aviões de abastecimentos tinham rareado. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida.. onde João fora aboletado por determinação do comandante. Zambézia. após a operação “Nó Górdio”. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. tal como há três meses atrás. Manica e Sofala. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. Com as últimas garfadas. de serviço à pista. o correio andava atrasado quase um mês. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”... a comida escasseava. retiraram-se à procura da refeição frugal. não estava pronta: – É um “Dakota”.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez.

deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. já utilizados na Guiné pelo PAIGC.. – Calha bem. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. atingira-se uma situação alimentar muito precária. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. Num repente. são 13 horas e o almoço arrefece!. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Por favor. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”.. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. os “Strella”. Depois de levantar voo na pequena pista. Agarrados aos frágeis bancos de lona. Em princípios de Abril de 1974. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. com o 335 . a aeronave subiu muito alto. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. virando-se para a comitiva tagarelando. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. ainda fumegante. vamos tentar uma aterragem de emergência.

a unidade militar mais próxima. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. o avião meio destruído. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. fazendo um barulho ensurdecedor. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó.. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. não permitiram uma boa travagem. O piloto-chefe informou via rádio. abandonadas à pressa pelos indígenas. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. prevenindo-a da emergência. – Tenente. a exigir a elevação do “nariz”. travando a fundo os rodados. em Diaca . no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. e a falta do motor. fora feita para receber os pequenos monomotores. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. vamos “dançar” um bocado. imobilizou-se por fim. No interior andavam todos aos trambolhões.motor restante acelerado ao máximo. em rápida aproximação da terra. 336 . A pista de terra batida e cheia de buracos. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. gritando o desespero da hora derradeira.. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. quando se aperceberam da situação.

vinda do Sul para estudar. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. dos trabalhadores. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. da intelectualidade progressista. No dia 6 de Abril de 1974. por não haver condições democráticas. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. Coordenando a luta legal e semi-legal. recebidas com grande apoio popular. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. onde decorria uma participada assembleia de democratas. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. 337 . concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. depressa se envolvera na luta pela democracia. e desmultiplicava-se em acções de rua. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. dos estudantes.

.. tão Não teve tempo de completar a leitura. dependurado à cabeceira.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. escrito na pedra ou no vento. sublime e autêntico.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. o desejo.. será o grito de revolta... Custava-lhe magoadas.. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. Faremos dele a nossa canção de luta. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. A morena de olhos escuros dos genes árabes.. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas.: “. doendo no corpo e na alma. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. Amo-te querida esposa. gostava de escrever um poema assim. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. cresce o amor. à porta da cela onde 338 . não sei qual a sua fonte de inspiração. – Minhas senhoras. onde quer que viva onde quer que morra. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (.. mas se soubesse fazer poesia. tê-lo-ei sempre comigo. multidão na verdade Lutaremos meu amor”.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso.

foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. a ala dos interrogatórios e das torturas. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. apenas recebemos ordens para as transferir. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. A carcereira às ordens da PIDE...normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. – Isso não sabemos. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. porém.... doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro.. Muito interessante. Era outro. Decisão temerária e esforço inglório. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. – São cartas do meu marido que está na guerra. entretanto regressada dos lavabos. a morena de cabelos em franja. o estrato humano em presença. completamente. mudando o tom.. “Poemas de amor e revolução”?!.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. minha senhora. Não tivera tempo para mais hesitações.. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. Eram ordens. 339 . – É o regulamento. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. como era uso. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”.

numa reunião da CDE. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. por minutos ou por horas. Era preciso arrumar as ideias. Aqui neste fim do mundo. que vais fazer? – questionava o Pedro. analisar a situação. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal.. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. sinto-me atado de pés e mãos. prostrado. – Se pudesse ia para lá já hoje!. – Vais ver. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. Depois ressuscitou! É verdade. Lágrimas reprimidas mas teimosas. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. com data de há dois dias. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem.– Depois logo explica isso ao senhor inspector.. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. não vão detê-la por muito tempo.. 340 . no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. produto da fé dogmática.. com a miúda pequena!. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. – E agora. – Foi detida no princípio do mês. nem sabia bem. em Lisboa. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo.

operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. – Pedro referia-se à esposa. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias.. de quem tinha um filho também pequenito. com o parlatório de permeio. sem saída previsível. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. que avançavam lentamente. agravado por um quotidiano de misérias. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. mal a conheço!. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. Aquilo lá está complicado. nas mesmas picadas. – É da idade do meu.. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. a guerra prosseguia sem fim à vista. greves nas fábricas!. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. 341 . o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. – É tempo de derrubar o fascismo... UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. Algo paira no ar!.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70.. frustrações e medo.. lançada à dois anos pelo general fascista.

que não matavam mas moíam bastante. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. No presente. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois.. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. mas que era por vezes motivo de incidentes. apto a receber grandes aviões. perdidos no meio da burocracia conveniente. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. diziam as vozes do desânimo.entretanto afastado. somados na terceira ou quarta comissão. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. mal alimentados. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente.. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. Aliás. em 25 de Junho de 1975..”. a bem da moral psicológica das populações. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. mal instalados. fazia parte da orientação do In. da contestação e da revolta. talvez o enorme campo de aviação. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. Já quase chegavam para a casita nova.

mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm.. Companhia de Caçadores. quando o pânico perturba a racionalidade.. com a arma cruzada entre os braços. – Ai minha rica mãezinha. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. mas às vezes não!. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. estão em calções 343 . Pela primeira vez em pleno dia. encarregada da segurança daquela área. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. É o décimo. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. desde que começou o ataque às 8. debruçados no parapeito da vala. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes.

onde psicologicamente o susto era menor.. a responderem ao bombardeamento: 344 . tinha decerto instruções hierarquizadas.. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. Restava a vala-trincheira já superlotada. Na secretaria do comando. ser um normal rebentamento na pedreira. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. arrancando resoluto no jipe. na direcção da pista de aviação em eterna construção. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. entretido a escrever à máquina um aerograma. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. Na reacção. A excepção foi o comandante do aquartelamento. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. pensava-se inicialmente. de 8 e 14mm.e tronco nu porque o tempo contínua quente. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. a meia encosta. enquanto o chefe não chegava. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. na direcção do posto de artilharia da unidade.

os nossos canhões não têm precisão a essa distância. a menos de 50 metros. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. Aprendia-se nas conversas de caserna. a mais de cinco quilómetros. é relativamente inofensivo. “arrancado” à escola superior de agronomia. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. – Ena. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. que “quando se ouve é bom sinal!”. sempre de cócoras... com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. – Pois não.. O furriel Costa continuava imperturbável. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. não morreu um gajo no ataque a Palma! . Outra vez a voz calma do furriel Costa. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. com a G3 entre os braços. pá! Por pouco!.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. ribatejano.. permitia concluir que ainda estavam vivos. filho de pequenos agricultores. ao fim da tarde. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. Havia uma pequena pausa no ataque... Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 .. Olha se caísse aqui?!.. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. mas a tremenda e instantânea confusão. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque.

as munições deviam estar a escassear. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”.os anteriores. No seu jeito brincalhão característico. a pontaria estava agora muito alta. traduziam um intenso pavor. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável.. No dia 4 de Abril de 1974. fica atenta às notícias da telefonia!. – Venho estafada. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. Nove horas da manhã. só estragos materiais. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. A resposta da artilharia esmorecia também. já se via muita gente de pé. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas.. durante uma hora e vinte minutos. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. Os olhares cruzados naquele instante. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . parecendo nunca levar as coisas muito a sério.

O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. mesmo em dias de borrasca. sempre lindo. em vias de se tornar definitiva. a jovem mulher com ar cansado. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. – Vai-te deitar. Amanhã logo saberás quando acordares.e não queres que durma? Sorria. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. ao rever o local à beira-rio. Não te preocupes. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. – Como foram os interrogatórios. rapariga! Descansa. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço.. Conhecendo o ditado das “águas mil”. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído.. sem objectivar. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. bem precisas.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo... – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré.. distendendo os nervos. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. pela primeira vez em muitos 347 . aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. nos novos caminhos da liberdade precária. O comboio da linha fora a primeira etapa. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. se se cumprisse a movimentação preparada.. no “Abril em Portugal”. onde começara o namoro e.

sorriu. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. a esta hora já estão em casa com as famílias. – Responsáveis fomos todos. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. sobre as 348 . Como estaria o seu João. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. – empertigou-se o chefe de brigada.. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. horas e horas de angústia.dias. desde a partida do marido para a guerra. a mostrar serviço na presença do superior. nada mais tenho para dizer! – Ah. – Não tenho nada a declarar.. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. onde vivia com os sogros. “visita” diária desde o primeiro dia. Novamente a insídia do inspector superior.

alegre por rever a mãe. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. onde cabia toda a candura do mundo. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. Finalmente! 349 . ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. a saudade roendo o corpo e a alma. após quase vinte dias de interrogatórios... com a convicção de que algo de importante estava para acontecer.insinuações em relação ao companheiro. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. Por fim desistiram. houve qualquer coisa em Lisboa!. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. e só regressou exausta de madrugada. em catadupa. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. na hora de tentar conciliar o sono. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. Um último pensamento foi para o companheiro distante. com um sorriso como não via há muito tempo. Numa das vezes. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974.

. 350 .– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!..

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