A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. quer na rápida solução do conflito. deixo ao leitor. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. Respeitando essa intenção. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. Marcharam esses 8 . ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. e que assim. Essa foi. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. que nisso estiver interessado.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. quer na dinamização do 25 de Abril. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. No centro de instrução em Mafra. para dentro das fileiras das Forças Armadas. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. infelizmente. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. indiscutivelmente. de algum modo. o autor adoptou uma estrutura mista.

de ensinar. a crise académica de Março de 1962. para os três teatros de operações. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. por norma. De acordo com o seu propósito didáctico. O narrador acompanha-os. em Maio de 1962. Damão e Diu). Angola. Exactamente ao invés do intelectual burguês. ignorando-os ou afeiçoando-os. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. Na realidade. estende-se entre 1961 e 1974. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. a petição de princípio.milicianos. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. etc. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). desprezando a evidência dos factos. cujo método é. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. perante as forças da novel República Indiana. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. Não se trata. Longe disso. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. Logo no capítulo 2. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. graduados em oficiais ou sargentos. É esse o período de 13 anos e 3 meses. nomeadamente o historiador académico professoral. entenda-se. Guiné. Moçambique. por exemplo. isto é. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. o autor intercala dezenas 9 . O regresso dos militares feitos prisioneiros. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Entretanto.

reconforta a alma. devemos ter orgulho nesse 10 . despidos de ambição pessoal. Dos comunistas em primeiro lugar. quando se perfilam em Portugal e no mundo. (Mais que justo. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. pois repara muita injustiça). algumas extensas de dez páginas.o livro agora publicado. que fazemos um povo. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. tantas vezes heróico. é justo assinalar. por si só. Mas todos. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. por estes democratas da 25. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. Um estado dentro do Estado. como bem observa. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . nesses anos finais. Em tempo de escuridão. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. quer no país europeu. contra a opressão fascista. invocar essa memória já constitui. de forma modesta e aparente singeleza. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. quer nas colónias em guerra. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. Nos tempos presentes. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. um acto de resistência.de resenhas de carácter histórico. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação.

passado pois é parte e espírito da nossa História. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. que nunca aceitou como causa sua. comunista de sempre. permitam-me. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. E. Lisboa. não devemos esconder esse orgulho. mobilizado para uma Guerra Colonial. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo.

Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos.. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. porquê? As memórias esvaem-se. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”.. vivê-la com as 12 . dos seus incrimináveis mentores. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. o romance. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. a ficção baseada em factos reais. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. Nunca é tarde para perceber. definitiva. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. perene. as mágoas persistem. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. compreender a guerra por dentro.. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. teimosamente persistente. Estes ensinamentos da nossa história. As memórias da realidade. e da “vitória ser rápida”.

além do mais. os medos. 13 . ouro sobre azul. o desiderato deste livro. mas agora. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. Guiné e Moçambique. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. É este. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. A luta de novo tipo. flagelações e punham minas nas picadas.angústias. as tristezas. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. a revolta e a coragem. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. contra os mesmos incorrigíveis franceses. que faziam emboscadas. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. a amizade. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. as solidariedades. a nobreza de carácter. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. e. a cobardia. o terror.

exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. Os que regressam de África ─ os 14 . mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. órgão central do Partido Comunista Português. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. o “Avante!”. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores..) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (.Os fascistas e militaristas. Como se não existissem 400 anos de dominação.. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. Como se Agostinho Neto. não tivessem nascido. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. deturpando.. iludindo os portugueses.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”.. escravatura. procuraram elidir as questões fundamentais. na rádio e na televisão (também no cinema!. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. próceres de Salazar e de Caetano. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas.

* 15 .).. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. procura um caminho para se manifestar. nomeadamente: fuga à tropa. de objectores. A amargura. constituindo um feroz. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. o Presídio Militar de Elvas.. de presos por revolta ou protesto.º 322. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. n. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. as lutas e deserções multiplicam-se (. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. Em Portugal.desmobilizados. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. Os protestos. que ousassem levantar a cabeça. até ao 25 de Abril de 1974. A recusa podia revestir diversas formas. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. de Outubro de 1962.

dependia a aceleração do fim da guerra. As suas 16 . massacres. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. de preferência em grupo. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. Tarefa complicada sem dúvida. os melhores. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. obstou o crime horrendo. o assassínio gratuito. deviam ir à guerra e uma vez aí. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. o tratamento desumano de prisioneiros. sob todas as formas.. torturas e morte.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. deturpada e mentida. a violação de mulheres. entre os jovens fardados. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes.. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. nas escolas. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. nas empresas. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. que tudo pervertia e até fazia assassinos. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. profissionais do quadro permanente não desumanizados. e os que estavam convencidos que da sua acção. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas.

Os comunistas. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. a “soldo de potências estrangeiras”.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. neputismo. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . as suas manifestações e lutas. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. “anti-patriotas” por definição. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. * É incontornável. “Abaixo o Fascismo!”. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. o “Movimento de Capitães”. depois. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. nas colectividades e associações. tráfico de influências. às vezes mitificadas. compadrio. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. e o. nos locais de trabalho. iam para a dita. nas escolas e nas ruas. suborno. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. seus inimigos figadais. no movimento democrático. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. tentavam por todos os meios (cunhas. com profundos sentimentos anti-guerra. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. A sua opinião crítica. ainda que pouco (re)conhecido. e o “Movimento das Forças Armadas”. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. por outro lado. primeiro.

prendeu. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. 18 . alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. vigiando. Uma questão central da guerra em África. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. em estreita ligação com os meios militaristas. despromovendo. de contestação e de revolta. torturas até à morte. castigando e quiçá matando. (politicamente activo). excluindo. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. o título de P. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). Espancamentos brutais. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. a PIDE/DGS humilhou. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). sobre a Academia de Coimbra. fichando. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial.A. Em África como em Portugal. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. perseguiu. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva.Estas profundas contradições no seio do regime. em 1969. perseguindo.

começou a preparação para uma guerra de novo tipo. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. a chamada guerra subversiva. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. Salazar dera orientações nesse sentido. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. Significa que entre nós o crime compensa. a guerra colonial foi calculadamente 19 .guineenses e moçambicanos. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas.

As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. devido a interesses económicos e empresariais. por questões de classe e de interesses individuais. Franco Nogueira. naturalmente. com a outra mata!”). Bélgica. não permitia saídas do tipo neocolonialista. Holanda). Kaúlza de Arriaga. por certo. para que o poder político encontrasse uma solução.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. e uma multidão de títeres do regime. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. França. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. Américo Tomás. Marcelo Caetano. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Silva Pais. Com determinação e sentido histórico. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Silva Cunha. 20 . um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. Era assim para Oliveira Salazar. evidentemente. pelos valentes capitães com o apoio popular. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. Mário de Figueiredo. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. muitos destes nas Forças Armadas.

. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. a derrotar todos os “senhores da guerra”. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. a guerra colonial não acabará nunca!. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. naturalmente. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. Que este livro de inquietações. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. Essa seria a única. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . do passado ou da contemporaneidade.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. África jamais será esquecida.. com as marcas irreversíveis no corpo. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. Para os milhares de feridos e estropiados.

Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra.. Barreiro.Jorge Jardim. Flechas. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história.). seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Em última análise. “Katangas”. perpetrando matanças descabeladas. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. o coronel João Varela Gomes. etc. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. será a nossa maior satisfação.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

Passam cinco minutos da hora combinada. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. à espera do sinal précombinado. O "28" chega vagarento e ronceiro. É preciso voltar no recurso. Bom. mesmo em frente da paragem do eléctrico. Embora não seja novato naquelas andanças. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. Aquela é a única carreira que por ali passa.arranca desiludido. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. sempre com muita gente azafamada.Horas de jantar. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. ficar na paragem não é prudente. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. não vá andar algum "bufo" nas imediações. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. há iniciativas dependentes daquela conversa. a nova ligação é importante. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. Pouca gente na rua.

Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. António de Spínola. a querer roubar-me os "tomates"!?. desoladora. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. o eterno mistério das trevas.. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. a rua entristece-se. Calçada de S. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa.─ “Olhá” desavergonhada. Rua dos Poiais de S. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. mal iluminada. sorvedouro de homens e de recursos. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. o telejornal está a começar. inóspita. Pelo som. Bento. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . capital de um império de "faz de conta". vai caindo em descrédito. Bento. Sacudir as teias é preciso. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos.. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. O populismo do governador do monóculo.

e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. D. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Contradições do sistema. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". na reunião matinal. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. Carlos. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. Pela porta de uma taberna escura. Av..donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. da chamada ala liberal. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede.. aproximando-se inexoravelmente da cidade. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE.. durante o "minuto conspirativo".!? Bom! Carros pretos há muitos. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . mas hoje precisamente..

com populações civis sacrificadas. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. condenações de Portugal na ONU. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. e das imensas contradições em que o regime se atolou. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias.Górdio". é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. Kaúlza de Arriaga. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. no norte de Moçambique. colocada num canto superior do estabelecimento. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!).

que teria a capital em Madina do Boé. o rapaz magro e alto. na Guiné. não!?. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. na tropa há seis meses. o jovem moreno e bem vestido. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. será alienada. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame.. 28 . ─ clamava exaltado no calor da discussão.. convicto da orientação política traçada. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. em Setembro de 1973. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné.. envergando roupa de tons escuros.” Madina do Boé.. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. ajudando na consciencialização... não sei se estão a perceber!?.

algo distante e compenetrada. Grande bronca! . Este sentimento corria os quartéis. sentindo o cheiro a pólvora.. * Chegara ao grupo discretamente. e. sabia do que falava.. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. nos aquartelamentos. ─ o camarada João. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. motivadas por razões corporativas. casernas. Aquela forma de estar.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. acendeu paixões e afivelou rivalidades.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez.. mas a coisa pode radicalizar--se!. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. paradas. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!.... mas simpática e graciosa. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. quero ver como é!.. Não era fácil convencer quem. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. nos postos avançados. na distante..) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes.

Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas.. sorriso trocista e provocador nos lábios finos.. risonha e muito extrovertida. um aspecto tristonho e sério. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. cigarro nervoso entre os dedos. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. incorporava o regime. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. No pós Maio francês de 1968.escuros e sorridentes. de barbicha. propiciava radicalismos. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade.

─ Fazem favor de se sentar. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. Naquele início de noite estavam só os dois.. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. normalmente acompanhados. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . ─ Ora essa.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto.. não temos pressa!. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra.. ─ Sabes? Eu … eu. de avanços e de recuos. Cumprimentos da praxe. mas o momento era de grande frustração. ansiedade. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. de perna curta. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele.. senhor ministro. A luta era feita de vitórias e derrotas. ─ Escuta. como acontecera de outras vezes. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. ainda não respondeste ao meu pedido. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama.

Ao fim e ao cabo. no topo. telefone pousado. O Ministro da Educação. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. contra a ditadura política. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. O País animou-se em expectativa.. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. no início do ano lectivo de 1969/70. acompanhada de abundantes gestos. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. A crise académica na Universidade de Coimbra.. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. da GNR e da PIDE. sem vacilações! Fazem greve em Julho. Universidade. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. a que os estudantes chamavam 32 . Uma actuação firme. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. Milhares de estudantes em desobediência civil. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático.e uma cadeira de espaldar alto. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República.

devido à sua baixa estatura. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos.. "meio-nistro"... ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. outra forma de piropo estudantil. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. o "mini-istro". mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. mexendo-se incomodado. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. ficando enterrados quase ao nível do chão. ─ Mas fazem o favor de se sentar. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. vezes um ano perdido.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. senhor ministro. Os quase siderados visitantes. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. 33 . ainda em pé à beira dos sofás.. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa.satiricamente o "meio-istro" ou. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças.

ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Embarcara para a Guiné há menos de três meses.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. mas logo assim em tão pouco tempo!?. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. na clandestinidade. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. minarem a confiança dos soldados no Czar. junto do “povo fardado”. Uma angústia feita suor frio. João. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto.. como furriel sapador de minas e armadilhas.. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. na qual o Rolando também tinha participado. por dentro. quando o Partido Comunista da União Soviética. Cego! Informara o comum amigo e avisador. Pelo caminho. resolveu que a solidariedade era mais urgente. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. chocante. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida.

até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem.. com múltiplos pavilhões disseminados. Por instantes ficou paralisado. Como não havia ninguém de guarda. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo... contudo logo à entrada do 1. revoltadas e envergonhadas. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. O coração doía com aquela visão terrível. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra.. com uma absoluta angústia de ver o 35 ..secretaria. de cabelo encaracolado de um escuro característico.º pavilhão. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. estavam sentados em cadeiras de rodas.. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. foi entrando pelo terreiro. com cotos ligados à altura dos cotovelos. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos.. agora “minas e armadilhas”!?. vários soldados em pijama regulamentar.. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. que se calhar nem foram ouvidas. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. também neste local não havia guardas. por estranhos e simultâneos sentimentos .

como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!... entrei porque não encontrei ninguém de guarda. ─ o jovem muito moreno. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!.. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. ninguém dera pela sua presença. Os médicos já me viram!. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. ─ Sim! Bem!.. ─ A esta hora está tudo ocupado. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite. Sou amigo como se fosse irmão... estou sozinho!. ─ Então rapaz. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. 36 . comovido até ao limite das forças. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo.amigo naquele estado. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. Sem nada dizer.. começou a dar-lhe a sopa.... a quem no círculo próximo chamavam “cigano”.

─ Bom! Isso é uma boa notícia.. a rua está agora quase deserta. rangente. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas.. com 37 .. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. filho dilecto do regime: ". Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. é tempo de voltar para casa. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. devia estar com vergonha da sua situação. vagaroso. A outra vista não tem recuperação.. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. Com a mão no ombro do amigo. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia... com outros recursos consigam recuperar a outra!. foram as palavras do professor.". Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. ─ Talvez mais tarde.sem Madina e sem Boé. ─ Não quero mais sopa. aproxima-se o "28".

os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário.. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar.. Mas os tempos estavam a mudar. ali perto. Não pensava tão cedo. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. gritos. Afastada a concorrência. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. um carro preto vindo da esquina próxima.. no Instituto Nacional de Estatística. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra.a chamada “primavera marcelista”. não há veículos à vista.

enlevados e trémulos de emoção. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. ditava a incorporação em Mafra. sem lamechices. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova.. tudo à volta parecia perfeito e calmo. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. e o mundo revelava-se sorridente. em princípios de Outubro. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos.namorada? ─ Sim. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. Os corações abriam-se de forma sincera. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. sem mais nada. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Deram a volta ao quarteirão. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado.. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. no COM. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. Um a um todos foram chamados para a tropa. O jovem alto e magro.! Mas olha.

O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. trôpego. necessariamente clandestino.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. Saía à mãe. partiram para a guerra. E morreu mais um no turno passado.. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. do 2. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. nos inícios da década de 70. os relatos. o seu João Silveira. Até que todos os seus mentores. seguindo uma orientação conscientemente assumida. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. levou as notícias.. o “Alerta Camarada!”.º ciclo. Durante muitos meses. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. durante exercícios com fogo real. 40 . vacilante. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. pois o pai. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. trazê-mo-los no coração. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. os comentários.

apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. ─ É este aqui. alguns com fantasias bizarras. muitos com flores artificiais.. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.... ─ Pois não. Mas não tem nenhum nome?!. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. Para mim a guerra nunca acabou!. ─ Avô. Traquinas e esperto como poucos. “Raio de ganapo!” ─ pensou. com fotografias uns. não foi avô? ─ Foi. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. melhor que ele próprio..─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra.. com nomes gravados outros. ─ Avô. * 41 .. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. foi!.. alojado junto da coluna vertebral.

a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. o grande temor pelos últimos dias de comissão. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. Há semanas que não havia flagelações. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. a chamada rebenta-minas. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. as picas atrás a furarem o terreno. emboscadas ou minas na picada. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. comandante da secção. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . o pessoal seguia com relativa descontracção. não tardava nasceria o Sol. magnetómetros à frente para detectar metais. sobretudo nas zonas de areia solta.

o 1º cabo José Pinto. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. 43 . carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo.. com distinção e elogios.. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel.. O Pinto era um rapaz corajoso.. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. pá! Passa-me a pica. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. leal e honesto.. várias vezes dissera que se morresse na guerra. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal.. vou tentar des. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. como dizia publicamente e sem rodeios. viscoso. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. assim.. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia.. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”.. ─ Calma... devagar. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!... Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. dizia sempre o que pensava com frontalidade.

em Moçambique. 44 .

REGRESSO DA ÍNDIA.2. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .

─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. frente à taberna do Arnaldo. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. há muitos anos radicado na vila operária. o sobrinho Alfredo. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. mas com as preocupações de um mundo em tensão. não podemos abandoná-los !. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. dá o mote: ─ O que representam Goa. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar.. nos fins da década de 50. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. lembrando as lições da escola primária. onde. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração.Tarde de sábado. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar.. O dono da casa. oriundo do Alentejo litoral. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. se engajou na luta contra a ditadura. como republicano e antifascista.

tendo passado alguns meses preso em Caxias. Embora saísse sem julgamento. ─ Então senhor Vaz. 47 . como lhe ia dizendo. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. claro!. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. notório situacionista. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. ─ Sabe. merecias que te cortasse o pescoço !”. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte.. bom. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. barba ou cabelo? ─ Barba.. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. e. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. refastelado na cadeira. a PIDE rondava-lhe a casa. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. desculpe. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. demoradamente. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. nessa azáfama. Na sala.oceano! A conversa muito animada.

o fim das guerras da Coreia e da Indochina. escondendo do povo português a sua vocação belicista. ficou uma lembrança trágica.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. em Évora. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. qual falcão em plena guerra-fria. O 48 . Inglaterra. no mesmo ano. com representantes de 68 países. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. em Helsínquia. Na longínqua Ásia. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. em Bandung. No regimento de Artilharia 1. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. a Assembleia Mundial da Paz. Estados Unidos e União Soviética. juntaram-se na parada a protestar. Os governantes fascistas. foram castigados com o corte de dispensas. pondo o quartel em “estado de sítio”. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Damão e Diu. insistia na via do confronto militarista. Já em número de 300. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. sob administração portuguesa. o governo salazarista. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. em 1955. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. usando a férrea censura dos jornais. de que deveria restar uma memória positiva.

No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. Depois de mais alguns episódios repressivos. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. intimando toda a hierarquia.comandante. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. é hoje! É hoje!”. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. mandou fazer uma marcha acelerada. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. dependia de outros embarques próximos. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. Aumentou a revolta aos gritos de. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. Exaustos e revoltados. em 30 de 49 .

mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”.. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. Na década de 50. Salazar afirmara que . à sua subsistência”. quando da negociação do plano Marshall. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África.analisa a questão colonial portuguesa. no campo democrático. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. etc. muitos povos”. cobiçadas pelos norte-americanos . escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. Ainda no final da década de 40.. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 .. à sua defesa. Quando um povo. necessário à sua vida.. É assim. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”.Maio de 1956. “Uma Nação. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.

o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado.. Por volta de 1954. a segregação racial nos transportes. cinemas e lugares públicos. na Margem Sul e noutros pontos do País. as fomes e epidemias devastadoras.. “um movimento racista contra o branco. O órgão central dos comunistas. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. a ausência de qualquer direito.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. como. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. de Junho de 1956 : “(. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. generoso portador da civilização”. em iniciativas abertas e unitárias. já citado.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (.. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África.. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. . expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.). social ou político. o MUD Juvenil.... de costas para a História e numa corrida contra o tempo. isto é.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 .. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. O regime salazarista. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”.

Mas senhor doutor. mais do que com qualquer outro membro da família. quando o clube da terra jogava em casa. com que trabalhos e canseiras. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. nem os planos e as medidas de guerra. vigário da matriz: 52 . depois da “bola”.. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. e desde então todos os anos vai a Fátima. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. era tempo de visitar o primo Zé.. O colonialismo tem os seus dias contados. como os valentes soldados de Évora. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa.. nem os discursos de Salazar. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. (. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. na casa modesta da tia Clotilde. posto que irmãos não tinha.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos.)..

lembrando-se da afirmação 53 . como não haverá navios rendidos. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. entretanto já terminados. 300 milhões!. naquele tempo dos princípios da década de 60. para ouvir os relatos de futebol. A telefonia.. um luxo para as classes trabalhadoras. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas.. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. com uma relativa consciência do mundo. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. olhe que os indianos são muitos. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia.─ Clotilde. era a sua companhia de muitas horas. comprada a prestações com muitos sacrifícios. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. não percas a fé na senhora de Fátima.

feitas 54 . na Índia longínqua. talvez!. Em Maio de 1962. Quando os militares portugueses. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola.. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. Joaquim Faria.do barbeiro. numa atitude típica do seguidismo salazarista. restavam os ganapos e as moçoilas. dez mil e tal contos. em África. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. Damão e Diu pela União Indiana. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. . por isso lhe dava uma carga pejorativa.. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. ─ Ah. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. de medos e angústias.. comandados pelo general Vassalo e Silva. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo.. Eram agora raros os saltadores exímios.. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. como mandara o ditador. as tropas portuguesas na Índia.. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. em Dezembro de 1961. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. na altura dos Santos Populares. “rapidamente e em força”.

vindos dos desenganos apesar da noite fria. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). do cais da Rocha para o cais de Alcântara. só acostaram em Lisboa já de madrugada. A mãe de Alfredo.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. cada vez em maior número. na ausência de informações oficiais. ─ implorava uma velha mãe.. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. grande algazarra entre as centenas de parentes. ausente há muito tempo. ansiosa por abraçar o ente querido. Gritos. já não o vejo há dezoito meses!. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. dado o seu isolamento. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . oriunda da zona antiga da vila operária. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. de gabardina e chapéu. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. É um senhor vestido civilmente. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. instado por um grupo de familiares. No dia 23. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. e viceversa. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”.. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. lenço modesto na cabeça. correu juntamente com muitas outras famílias.. iam finalmente regressar ao País. vestes escuras e lágrimas doridas. apupos. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. conforme os boatos que iam surgindo.. a família de Alfredo Júnior.

Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 .─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. Como povo livre. debaixo da mira de dezenas de espingardas. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. estenderemos a vós. acenam com lenços brancos. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. alguns jovens esgueiram-se lestos. povo de Portugal. mas contra o colonialismo e o fascismo. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. acompanhando zelosamente o senhor inspector. fora do olhar policial.. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. por sua vez. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. datada de 14 de Dezembro de 1961. Ao longe. antes de voltarem para casa. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos.. não podemos esquecer o povo português que.) Por isso.

compreendendo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.juventude. talvez pela primeira vez. Regressaram à terra natal. 57 . cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional.

FNL. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. Não era esta. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Damão e Diu. porém. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. contra o ocupante francês. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . na Indonésia. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. em Diên Biên Phu. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. Ou a realização de um “referendo em Goa”. potência colonial. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Em 1954. em 1955. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. que considerava proclamavaportuguesa”. a opinião dos meios de oposição ao regime. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. 58 colonialmente ocupados.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. inicia a primeira luta armada no Continente Africano.

dos neutralistas e das jovens nações africanas. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. Neste planeta nascemos. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. todos vivemos num único planeta. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. Em relação às colónias portuguesas. os representantes dos países socialistas.)”. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção.. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. Em 1958. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. pela União Soviética. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. Do que se passou nessa histórica assembleia. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. 59 . tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. trabalhamos. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais.. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas.

Paiva Domingos da 60 . Cabinda. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Neves Bendinha. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”.” (oiçam.. Os patriotas angolanos. Scalo Bengo (Angola). Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. que procuram inverter os factos. com o apertar das algemas da opressão colonialista. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. Os massacres dos povos de S. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. Tomé. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. Mueda. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. oiçam. em Luanda. ivuenu. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia.. Timor.. com o agravamento da exploração colonial. voltaremos aqui..). turutuka dii. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Bissau. Goa.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas.

Silva. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. Domingos Manuel Mateus. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. um cónego mestiço angolano. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. Raul Deão. o próprio. missionário na arquidiocese de Luanda. enquadrados em vários grupos. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. De resto. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. Imperial Santana. Na madrugada de 4 de Fevereiro. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. abençoou os revoltosos. em Cabo Verde. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. Virgílio Francisco. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. fazendo milhares de vítimas. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. na Ilha de Santiago. guardadas no campanário da Sé Catedral.

Depois foi um terrível massacre. presos.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). uma autêntica “eliminação selectiva”. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. À noite nos muceques.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). onde estavam muitos presos políticos. Nenhum dos objectivos foi alcançado. espancamento e morte de gente negra. sendo os restantes. nas rusgas e cercos. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo.. interrogados. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. Pedro da Barra. Agarra que é “lumunba!”. dezenas de autóctones. era a “limpeza étnica”. com a perseguição. ─ Cadeia da 7. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. indefesa. mortes às dezenas. espancamentos. com poucas excepções. “Mata esse preto. Estava iniciada a Guerra Colonial. ─ Companhia Indígena. feridos.).. ou de trabalhadores numa oficina perto. que seguia num machimbombo (autocarro). eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. empurrados logo de manhã para as valas comuns. junto à praia do Bongo. filho da puta!”. deixando centenas de cadáveres. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. começou a terrível “révanche”. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. levado a cabo por gente desvairada. correrias.

na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. do café Beira-Mar. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. o João “Careca”. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. sempre com conta e medida. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. O célebre fadista. conseguia desatar. Ao fim da tarde. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. quando a avenida da Praia era mais frequentada.

da sua grandeza Além-Mar. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. 64 . a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. sempre se ficava a saber alguma novidade. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. A curiosidade fora espicaçada. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra... Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. quebrando a corrente emocional e patrioteira. gritarei é carne e sangue da nossa grei.. Fazia vibrar de emoção e orgulho.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal.” A sensação desagradável... um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. é nossa! Angola.. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas.multicontinentalidade da Nação. pela negação dos factos apresentados. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso.. é nossa. inquietante mesmo. é nossa! Angola. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. Acabou o noticiário. deixando uma angustia de dúvida e receio. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. porque a família real era dinástica e divina.

músicas estranhas que o velho vizinho. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. S.─ Tio Zé.. salazarista convicto. Tomé. duas.. mas a realidade inevitável. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. O regime fascista. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos.. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. Goa. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. O Ferreira da Costa.. bem pronunciada. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos.. sobrinho por afinidade. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. diz ser tudo mentira!. na Emissora Nacional. Vozes estrangeiras incompreensíveis. E voltava! “. mantém nas masmorras da PIDE. Mas é perigoso ouvir!. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau.. Baixa do Cassange.. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. o regime 65 . três tentativas. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. etc.. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. ─ Esse gajo é da situação. Uma. Timor.. senhor Lobo. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente.. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”..” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. Scalo Bengo . nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português.

” Afinal não era a Rádio Moscovo. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.. Depois da 4. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.. Espera enervante. era outra voz da mesma liberdade procurada. Os dilemas da guerra e da paz. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua.00 horas. entre as 19. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. obstando a mensagem de denúncia e de luta.. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. pelos serviços da PIDE.00 e as 21.ª classe na Sertã natal. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção..

matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. Manuel interrogava-se. em toda a sua vida. por sugestão de um colega. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . promete continuares a estudar. abriam-lhe os horizontes. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. Um segundo passo importante fora a mudança. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. embora exigisse muito sacrifício.incerteza no futuro. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. parco de palavras. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. na Escola Fonseca Benevides. por lá ficou mais de um ano. as conversas sobre a realidade do País. aliciado pela PIDE. Aprendiz numa oficina de automóveis. as leituras recomendadas. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. para a outra-banda. com uma sedimentada consciência de classe. com um salário que mal dava para a renda do quarto. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. A grande cidade dava outras oportunidades. O convívio com operários mais velhos e experientes. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária.

mantinham a amizade da adolescência. a mobilização para Angola. depois da incorporação e a recruta. pela primeira vez. A experiência de participação. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. partilhada em muitos anos de brincadeiras. Ainda agora. de Xabregas à Veiga Beirão. que depois da questão da Índia. a conversa era fácil e fraterna: 68 . mas chegara a sua vez. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. o “Avante!”. preocupações comuns e solidariedades. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. E agora. nas lutas no Ensino Secundário. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. tendo depois emigrado para Angola. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa.900. nunca mais parara de se agudizar. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito.conta. O terceiro irmão não fora mobilizado.

─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora .. mas o Nana era assim.... 69 . As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. o choro mudo e soluçado dos homens. até se leva bem. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha.. O pior é a mobilização!. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. ─ Não.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. ir à guerra e ter lá um azar.. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. vamos todos lá parar!.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. um bom rapaz. Sou atirador de infantaria. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas.. agitando-se freneticamente na amurada.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. encobre da vista o barco. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. não! Mas quanto mais cedo melhor... ─ Nunca pensaste em não ir. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. em dar o “cava”?!. vestido de pequeninas velas brancas. ─ Adeus filho. para onde vão muitos! Já viste.

que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. adormeceu finalmente inquieto e agitado. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . alguns. quiçá para sempre. A vontade nacional de agarrar o destino. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. no meio do magote de gente lamuriosa. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. mas nunca de contrariá-lo. constituía um arquétipo da candura nacional. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. no silêncio do quarto. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado.

O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. 100 mil?). ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. que lia e com o colonialismo e a 71 . Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. Na zona velha de maioria operária. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. pelos movimentos de libertação. 80. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). E mesmo mais para sul do deserto de Saara. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. por vingança. perpetrado pelas tropas coloniais. Autodidacta e amante do saber.. têm lá cabeça para se governarem. nas zonas da savana e das florestas. até chegarem os europeus escravatura. ─ Os pretos são meio selvagens. havia muita gente esclarecida. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. também houve nações e povos desenvolvidos. um grupo de cariz tribalista.. como sempre acontecia aos sábados. ou para alguma coisa!?. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. recentemente. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40.conversadora. e agora. no Norte de Angola. O que se seguiu.

de reflexão e de descanso. à volta do quarto pequeno e modesto. ─ Sabe. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre.. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. como lhe tenho dito. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo.acompanhava os problemas. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. não acha?!. E também lá foram vividos os primeiros amores.. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. 72 . Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. quando entrei!?. senhor Vaz. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife.. que tudo estava sossegado.

um cheiro intenso a pólvora e a sangue. como se propunha.. correrias. um precipício negro em que estava prestes a cair!. luzes intensas. João deixou-se dormir novamente. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada.“São seis horas da manhã. “Safa. ainda é muito cedo!”. densa.. talvez uma floresta. perseguições. só abria às nove horas para cortar o cabelo. que sonho dramático!”. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura.

NÃO JURES CAMARADA 74 .3.

nada mais. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. ─ E agora. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. mas inteligente: ─ São dez quilómetros.. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . fresca de Outono precoce. O chefe olhou-o com ar circunspecto. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. não me parece!. três horas de caminho. Posso chamar um táxi. com duas ou três casas. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. já sem companhia. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação.. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Seguia-se. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. Na manhã seguinte.

. depois das longas caminhadas durante o dia. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. etc. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano.trajectos labirínticos. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. e já fizera a exploração dos itinerários. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. 76 . Guiné e Moçambique. da instrução sobre armamento. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. orientação. algumas conhecidas da universidade. trazia medos e fantasmas. em transporte próprio ou familiar. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. começaram as marchas nocturnas. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. Muitas caras ensonadas. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. táctica. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir.

um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. “a tropa não é para maricas. devido às lamas nos caminhos. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. ─ o manifestante era um aspirante alto. pesadíssimas. quanto melhor o treino. como ele dizia. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. anafado. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. mais hipóteses têm de safar a pele!”. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. tornados amigos durante o 1º ciclo. com a fama de “chicalhão” e prepotente. fazia mais um exercício duro porque. O pelotão do 2º ciclo do COM. célebre desde as últimas invasões francesas. pertenciam ao meu pelotão!. de boa compleição física e bom contador de histórias.. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. ─ Não aguento mais isto. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. ensopado em suor. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente.. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. Rodrigo e Francisco. ─ Tens de ter calma. incluindo a arma e a mochila às costas. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. comandado pelo alferes “Manaça”. daquelas que nunca mais se esquecem. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . durante a progressão com todo o material de combate. pá! Vou dar o “salto”.

os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. o pessoal preparava-se para a travessia. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. pá. ─ Falta pouco. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas.. começa a entrar em pânico.contrapunha o Francisco.. as pernas vacilam.. Uma porra. procurando ajudar o amigo. na cauda dos restantes caminhantes. pá. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. por isso ganhou os favores do graduado.. magro de carnes. vem avisar o cadete Aníbal a correr. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. bem nutrido e de ventre proeminente.. Os mais expeditos fazem-no com êxito. quem não sabe nadar atrapalha-se. entra em contacto com a pele suada. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. ─ Outra vez a porra da lagoa. tem lama até às partes.. gosta de fazer de porta-voz. relutantemente alguns ficam para o fim. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. 78 . só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. com um feitio solidário. dando-se ares de importância.. dizes tu!. Por feitio ou bajulice. ─ Depois logo se vê. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”..

meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. perante o quadro terrível vence a inibição. ─ Qual bombeiros. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. Friccionando-se com a camisa de trabalho.grugluglu. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada.. marche! ─ Sim.! O cadete Artur. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama.. o graduado continua a vociferar. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. com uma alma altruísta. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor.. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. qual nada! Não quero cá ninguém de fora.. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio...

juntando-se à volta de um acamado paraplégico. enterrados no lodo. ─ Algo não está bem. agarrados. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. sempre muito elegantemente fardado. o jovem alferes Terras. de bengala de invisual ainda mal manejada. ainda em tratamento. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. quer ir connosco amanhã? 80 . para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. Baixa no anexo de Campolide. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. outros. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. teve uma atitude simpática . que padeciam de graves deficiências. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços.. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. comandante do pelotão. com permanência nocturna obrigatória..

quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. pouco falador. ─ Agarre-se a isso. A conversa continuou animada.─ Não. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito.. não ensinam o verdadeiramente importante). Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração.. sim!? Obrigado! Eu.. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. ─ Ah! É casado!.. nunca cá tinha estado. em cima da cama. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. ─ Ah. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. obrigado! Sou casado!... só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem... já não tinha mais novidades. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . quando jogava o Benfica em casa. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. ( os instrutores são uns nabos. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas.

. as coisas acontecem e pronto! 82 . abrir o fecho da braguilha.. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia.. é uma forma de dizer. como aliás acontecia com os outros. fora de qualquer regulamento.. cumprem-se ordens. ─ Esse não acredito que pague!. amanhã posso ser eu. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações.. aqui anda tudo às putas. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado.! ─ pila era tabu. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. “cada um com a sua”.. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. ─ Ah! Pois..! Não há ninguém de serviço. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você.daí para a rua.. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano.. ─ Mas .. Evocam-se regulamentos. mesmo dobrado. Era grande o constrangimento.

alinhados em pelotões de 30 unidades. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. amigo canta. falha de energia demorada de mais de uma hora. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. ai povo. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. As sombras encorajavam a audácia. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. canta. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. a espera animava o pessoal.

─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. assumindo o compromisso. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. Naquela tarde de Novembro de 1971. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. o João. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. para garantir a segurança conspirativa da operação. entre muitos citadinos divertidos. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. com a denúncia do número de vítimas da guerra. A companhia (quase) inteira. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. o Luís 84 . e no rescaldo das cantigas. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. Combinaram o essencial da acção primeira.

Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. 85 . Alguns homens beberricam num balcão apropriado. enquanto outros. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. a timidez. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. Todos estão em farda de trabalho. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. o Fausto e o Duarte. estava unido na acção contra a guerra. é urgente terminar a “tarefa”. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. feitas de pedra trabalhada. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. com divisas que não vão além das duas barras de tenente.Manuel. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. mas a maioria são cadetes. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. tão diversos daqueles para que foi concebido. por um lado. constituindo um labirinto intrincado. As conversas giram à volta de temas banais. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. pretextando uma guerra santa. com frades de hábito e penitência. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. das salas. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. polido o chão pela usura dos anos. espalhados por várias mesas. dos refeitórios e das camaratas. Sempre acontece quando os nervos apertam. o Manuel. A sala dos cadetes é acolhedora. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso.

. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.subir alguns degraus.. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. o desnorte nos caminhos desconhecidos. como um guincho. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. o ouvido à escuta de passos perseguidores. de porte elevado e cabelos brancos..”. subir e descer escadas. um local frio e terrível.” – pensava João. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. outros sons semelhantes.. À frente de um séquito. nada. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . longos e frios. Um som agudo e estranho. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . um desvio apertado na primeira bifurcação. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!.... depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. mal iluminado. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. em pânico. “Safa!”. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. “As instalações devem estar em boas condições.

as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. centenas de formas em movimento. correr. excepto algumas respirações mais agitadas. por detrás das lentes grossas. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. ninguém se atrevia a levantar a voz. Custara a pegar no sono. comandante da unidade. acordar no beliche superior inundado em suor. são ratos. certamente devido a pesadelos também. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. sair do pesadelo. Companhia de Instrução está tudo calmo.habituando-se à escuridão percebem dezenas. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. Na caserna pequena da 2ª. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. 87 .

Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . vulgares na época. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. mas se alguém for apanhado com as vinhetas.”. A acção tinha corrido muito bem. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando.. não há nada para mim? Não pode ser. num pátio interior mal iluminado. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente.. denunciara a patifaria. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. Por fim vieram três ou quatro cartas.] já bastam! Não à guerra colonial!”. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade.. a minha namorada escreveu-me!. foram coladas nos corredores do convento. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas.. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. escondendo a timidez e uma pequena miopia. uns voltavam logo.─ Tem de haver muito cuidado.

Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes.. não se via vivalma no caminho. porque apesar do sistema aperrado.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. havia excepções. pela aproximação do ocaso.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. Andava e pensava para distrair a ansiedade.. certamente algum “menino” a caminho da cidade. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. a norte. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. João precipitara-se para o exterior com passo estugado. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa.

socialistas. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa... os dias eram cada vez mais pequenos... Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. Boa sorte para a iniciativa. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. Trago a senha para o contacto que combinámos. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas.. existe um ambiente geral muito favorável. nas bandas da Malveira. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. em transição para 90 .).sugerido aquele local. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. bom para a recruta. independentes. “Não jures. esquerdistas. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. ─ Cuidado!. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. embora arrefecesse a “sentidos vistos”..

cada dia é sempre diferente. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. é sempre um momento angustiante. chuvoso e frio. dizia-se. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. esmerando a pontaria com o “olho director”. nos arredores de Torres Vedras. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. com um tempo desagradável. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. No miradouro não estava ninguém. orgulhosos da classificação na prova de tiro. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. * Durante a semana de campo. mesmo que seja só em treino.o violeta. pelo menos nas costas dos instrutores. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. Não há dois pôr-do-sol iguais. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza.

latifundiários. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. não! Não posso!. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. mas não permitia. tinham um estatuto especial. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. credores de favores. enfim. iria passar por um mau bocado. a fina flor do nacionalismo. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. E. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. etc. tentando safar os filhos. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. altos dignitários da Igreja. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. empresários. deputados da Assembleia Nacional.”. o oficial do quadro 92 . chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único).. Eram filhos de boas famílias. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. afilhados. a subversão aumenta!. ─ Não. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. parentes. generais.. e muito menos a disparar.. porque precisava de carne para canhão.especialidades.. Em requerimento ao Ministro da Defesa.

a arma começou a disparar. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. forçado pelo instrutor. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. e. baixote e 93 . levantando e baixando a espingarda. normalmente sonolentas e ressacadas. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. ─ Eh. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. à beira de um ataque de nervos. só por milagre ninguém foi atingido.. O cadete gordo. Não servia para “oficial de guerra”. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. sob pressão da intolerância militarista vigente. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo.permanente estava prestes a perder o “verniz”. atire ! A tragédia estava eminente. foi despromovido para soldado.. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. de repente. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada.

nas vitrines e até nas pautas. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. ‘tás a coçá-los!. ─ Não jures camarada! Já disse!.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. “não jures camarada!”. No fundo da algibeira. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 ... ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. ─ Ah! Pois. logo apareciam noutros locais... ─ Essa é boa. ─ O quê.. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. nas paredes lisas. nas portas. ─ Ouviste? A barraca está armada. nas janelas. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. “quero essa merda toda arrancada!”. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. Boa!.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte..

a coacção e a chantagem. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. O major.. propositadamente.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. Tacteando a cola com os dedos. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. A desorientação sobreveio. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. .. pela intimidação subsequente. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. a hierarquia estava convencida de ter anulado.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo.. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho.. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. a primordial agitação. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. 95 . . Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos.

. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. até na sala do cadete: “. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Queria ver se fosses atirador como eu!.─ O carago. com zonas mal iluminadas. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. Por este tempo... Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . afixada em muitos sítios desusados. pois o outro chuveiro estava avariado. Providencialmente. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento.. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis... já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. Mas os corredores eram muitos. futuros oficiais do Exército Português. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar.

havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. porque a terra era ruim. Na origem natal beirã a miséria era inexorável.guerra era debatida mais ou menos abertamente. a rádio e a televisão. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. submetidos a feroz censura e controlo político. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. Junto aos hotéis de luxo. era um gritante e duro contraste. um moço bem constituído. num quotidiano difícil. mas na “terra prometida”. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. sobretudo o rapaz. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. segundo a filosofia do velho Adílio. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. Os jornais. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. aos solavancos. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. com particular destaque para o “Avante!”. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira.

“Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. com poucas qualificações. era o discurso oficial. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. podiam chegar a cargos de chefia. incluindo no campo desportivo. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. empregados e operários. nalguns casos. era menos “aquele” que entrava. com um ar de arrumador encartado. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. se fossem interessados e cordatos. nem feriados. Sobretudo se associassem ao 98 . ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro.boné de pala “oficial”. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. numa época do início da década de 70. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. sempre generoso com os portugueses humildes. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. numerosos. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. mal pagos. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e.

Tudo rodava na boa harmonia do Senhor.. senhor director. o engenheiro-sénior. para rezarem em comum. 25 contos/mês. o operário especializado de horário geral. 18. claro! Um resto de bom dia. minha senhora. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. ─ Está a tirar Educação Física!.5 a 3. 12 contos/mês. 19 contos/mês. minha senhora. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. chefe de serviço. por classes sociais.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. a mulher operária têxtil. ─ Senhor director. 14. 99 . Nas vésperas da Revolução de Abril.5 contos/mês. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. 11. uns mais à frente e outros mais atrás. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus.. trate disso! ─ Claro. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. sem sobressaltos. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. o empregado de escritório. ─ a resposta não tinha grande convicção. 4/5 contos/mês.8 a 2. anda a concluir um curso superior.2 contos/mês. Orava-se em acção de graças. 1. chefe de secção. 15 contos/mês. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. o agente técnico de engenharia. o engenheiro-júnior. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. 2.

só lhe faltava o estágio. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. ó homem!. por 100 . Entretanto fora chamado para a vida militar. com o curso quase acabado. Mas não havia nada a fazer.. ─ Esteja descansada. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. mas o “tio” Fernando-pai!?..O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. hem! ─ Mas ir a Mafra. Combine lá com o “ti” Fernando. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três.. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. para o curso de oficiais milicianos. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. e de mais na tropa!. prestes a terminar: ─ Alberta. o seu filho sabe o que faz.... no Domingo? ─ Eu gostava.

os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. amor . frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. e pela luta diária pela sobrevivência. Depois. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. Se queres ir vai tu e a tua nora. O carinho prodigalizado ao filho na infância. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. Gostava de assistir mas compreendo a situação. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. até que sobrevieram os “balões”. ─ Talvez seja melhor não irem. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. subsequente ao despedimento. não é fácil a deslocação!. iam formando segundo o que estava instruído. quando o emprego e o salário eram certos. preparando-se para o ritual mitificado. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. não morriam de amores pela situação. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. em alas amplas e espaçadas. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. este ano precedido de 101 ... num pobre mister por conta própria. ─ Tu é que sabes. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu.melhores salários e condições de trabalho.

havia uma grande expectativa em ambos os “campos”.” ─ o alerta percorrera as casernas.. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente... era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa.acontecimentos muito interessantes. provavelmente os tais “pides”.. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar. certamente sobre a ameaça de represálias. Cá para trás reinava um silêncio murmurado.

.sistema sonoro. tinha agora um bode expiatório.. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. não telefona para ninguém.. na Escola Prática de Infantaria de Mafra.. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. sou contra isso.. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia..“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte.. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. ouviu! Se não se explica 103 .

perna de frango na outra. no velho convento frio e austero. bebidas variadas.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. por vezes mesmo medíocre. Nem era tarde. muitos daqueles cadetes imberbes. doces. poucos. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída.. Pavoneavam-se alguns.. Desculpe. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. acordada de madrugada. camarão. risos nervosos e traseiros espetados. nem era cedo. e senhores engravatados a rigor. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. bolos. agora disfarçado com aperitivos. carnes frias e quentes. saladas. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. etc. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . de gastas pedras nos longos corredores. as mesas brilhavam de iguarias. frutas. copo na mão. A instituição militar EPI. etc. ficara à beira de um ataque de nervos. acepipes. ─ Dá-me licença!. característicos da castrada burguesia nacional. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações.

Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. Yota da Purificação” (. Suspeitava-se haver revista à saída.).. o melhor era ficar para o fim.. quando o cansaço afrouxasse a vigilância. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. ─ Sim..! 105 .. a última barreira foi assim passada calmamente. ─ Boa noite! Por favor. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria.. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados.. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?.. sim. “Certamente estaria a arrancar!. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas.colonial!”. numa última passagem sem retorno.. é punido com 5 (cinco) dias de detenção... com pouca pinta de militar. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. Transportava o mesmo saco da chegada. mais o “material sobrante”. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. De facto não o vi . agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. conheço. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.

* A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra... naquele Dezembro de 1971. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!..─ É que já passaram todos. igualmente com ar distinto. As duas dirigiram-se para a porta de armas. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!.. ─ Mas .... postada a alguma distância. sinal distintivo da origem de classe.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade.. estamos aqui à espera ... em Janeiro de 1972. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. ─ Obrigado! . Nada de grave! Lá informam-na melhor. 106 . no gabinete do oficial-dedia!.. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. seria noticiada no “Avante”. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. último a deixar o convento. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento.

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

108 . de animais e da a Natureza. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. imaginários adoradores pássaros.ÁFRICA. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. Animistas. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade.

Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. forjas. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. subentendia uma organização social e política evoluída. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. sepulturas e pinturas rupestres. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. Melinde. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. pouco antes da chegada dos portugueses. quando estes. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. a Tanzânia. a Zâmbia. Estes povos sedentários praticando a agricultura. a caminho da Índia. cidadelas de pedra. estradas. socalcos à volta dos montes para a agricultura. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. o Zimbabwé e parte de Moçambique. minas. Quiloa e Mombaça. no interior da Rodésia. enriquecidas pelo 109 . estes “azanienses” – segundo a denominação grega.Esta actividade artística. canais de irrigação. numa zona de ruínas ancestrais.

faziam de entreposto com os reinos do interior. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. Organizadas em cidades-estado. feito através de numerosos intermediários “mouros”. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. ferro. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. essências e faiança chinesa. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. trocando directamente tecidos. marfim e escravos. cobre. encontraram um comércio progressivo. contas. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. com o 110 . Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. que já utilizavam inclusivé a moeda. estes em escala reduzida. por ouro. vindos do Norte.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. da Índia e até do Extremo Oriente. especiarias. na pastorícia e na extracção mineira. com uma economia assente na agricultura. numa organização de tipo tribal-feudal. com quem comerciavam há mais de um milénio.

. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . novas oportunidades de negócio.. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. Pedro Vaz de Soares. Por orientação da Coroa. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. pela sua ignorância e pela sua ganância.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. mas neste intento viriam a ser derrotados. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. retrógrada e oportunista. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. Em 1513. agente real de Sofala. levaram pouco tempo a desvanecer-se.”. Como todos os imperialistas. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil.. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. Como um erro nunca vem só. queriam muito e depressa!. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro.. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota.

luminosa. quente. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. o mais alto 112 . havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. de Lisboa. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. estranha. húmida. familiar. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. em 1498. Quando a guerra colonial começou em 1964. em Sena e em Tete. embarcava-se à meia-noite. no “Boeing” da Força Aérea. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. no terminal militar de Figo Maduro. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. fresca. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. No início da década de 70. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. Em 1561. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. nas margens do Zambeze.

. ─ desabafa o Eduardo. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos.. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. tal como Lourenço Marques. A Beira era uma cidade moderna. pendurados no exterior da rede da vedação. moreno. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. sempre eloquente nas afirmações. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. entroncado e de estatura média. normalmente reservado. compunham um quadro de modernidade. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. alto de estatura e seco de carnes. ─ É a proclamada multirracialidade!. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. o sulista trigueiro e magro.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. baixo e já com acentuada falta de cabelo. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira.

O criado negro andava numa fona.. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. mais novo. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. que já ia avançado. quando ficaram sós. foi a primeira vez que lá fomos!. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. dava assim as “boas-vindas”. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. Chegaram atrasados ao jantar da messe. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. ─ O que estavas à espera?.realidade... sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. sem qualquer cumprimento. ─ Sim. não atendeu logo à chamada. ─ O jantar começa às sete. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. enquanto se retirava após comer o pêro.. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo.

Ouviste a resposta do “Furnas”?. ─ Furriel. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?.. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. ─ Se calhar. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. onde estavam os soldados aboletados. diziam. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. no regresso a pé. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. 115 . Miguel. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel.. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. rapazes humildes e simples. trocou impressões com o amigo recente mas confiável.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos.. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. Duplamente preocupado. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. faziam um excelente cozido à portuguesa.. ─ Pois claro.

─ Também pensei nisso.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!.. se saísse à tabela. preocupavam-se à volta de malas e sacos. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. por dentro. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão.. por dentro... à beira da linha de caminho de ferro. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. Dezenas de soldados e alguns graduados. a minha mãe viúva!. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. ─ Olha o que nos espera!. disso não tenhas dúvidas. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. é essa a intenção. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. É preciso ajudar. ─ Quanto mais tarde melhor.. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. mas a família... ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado..

à volta de sacos e trouxas. Na noite de breu. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. trumtrum.. Eram tropas frescas a caminho da guerra. Duas máquinas a vapor. onde se juntavam dezenas de negros.. na retaguarda. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. A velocidade aumentava. puseram o longo combóio em marcha lenta. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. trum-trum”. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. sem resposta. atarefadas com filhos às costas. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. tinham um aspecto sumptuoso. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. o combóio pára. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. aguardando a ordem para embarcar.carreira. a marcha abranda. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. resfolgando. Os militares seguiam nas carruagens do meio. o coração salta: 117 . como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. sobretudo mulheres de capulanas garridas. A viagem decorria na noite de sono. simpático no trato e já em segunda comissão. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós.

Duas horas da madrugada. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. o pessoal vai adormecendo. irão esquecer essa doce sensação. sonhando com a cama quente no lar distante. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro.. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. Poucos dão pelo recomeço da viagem. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. embalados pelo andamento monocórdico da composição.. só lá mais para a frente!.. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. é fresca a brisa que entra pela janela. ninguém explica. vai ser um enorme benefício para a economia da província. Lá fora não se vê vivalma. formando esplendorosos contraluz.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. mais duas que em Portugal. bem vestido e curioso. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. A manhã aparece com um Sol fulgurante. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. O cansaço vence a ansiedade..

─ A guerra é uma coisa terrível. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. o material de guerra é todo russo e chinês. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. Abrindo caminho à força de espada. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. os ingleses.. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 .. a Rodésia. A menção do grande país da África Austral. os americanos. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. como depois foi baptizado. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. a África do Sul?!. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército.

chumbo e estanho no seu território. viriam a ditar a ruína. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. O génio individual que punham nas suas empresas. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. Em 1607. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Por volta de 1667. roído pelas guerras internas. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. rigidamente autocráticos. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses.. os seus métodos de governo. comportam-se como malfeitores. 120 . Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. a concessão de todas as minas de ouro. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. a coragem. cobre. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. A coberto das suas armas de fogo. na obra já referida. ferro.. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. editada em 1960:.. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. como refere Basil Davidson..notícias fantasiosas.

o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. foi. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais...). tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. quando esta faltou também lançaram-se 121 . a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”.. E o que fizeram afinal os portugueses. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. segundo a documentação histórica.. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. glorificados descobridores. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. ou do tipo negróide.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. Os seus vizinhos do interior de língua banto. no primeiro século e meio de ocupação? .

Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. o comboio não circularia mais de noite.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. perceberam-se os cuidados no avanço. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . manhã cedo. ─ Basil Davidson. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. a partir dali. qual cabeçorra disforme. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. Logo no reinicio. na obra já referida ─ .

─ Ei! Sou do Barreiro!.. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes...? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. onde em contrapartida. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses.. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. como por encanto. mas o 123 . não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. frio. mas não se viam construções no horizonte visual.. O calor era intenso. ─ Vai bem.. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha.. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. Do chão. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo.. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. Cinco homens num destacamento. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. tudo na mesma! Vamos para. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. calor. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. ─ Isto é um buraco medonho. passando fome.período em pleno campo inóspito. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial.

Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. venham cá eles fazê-la!. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. ─ Então adeus! Boa sorte. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. com o medo de os irem “pegar à mão”.. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro.pior era à noite. barbados de dois dias. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. pondo fim à conversa. ─ ‘Tou farto disto.. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. fizemos a picagem logo de manhãzinha. Após uma longa curva feita lentamente.. endureciam os semblantes. pá! Calma..

muitas. não riam nem brincavam. pensava que os comiam todos! Risada geral. Esperavam pacientemente e não diziam nada. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. só então a ganilha animou. esperavam somente. registando a chegada de dois “amigos do homem”. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não pediam. houve risos. ─ Não te preocupes. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. não barafustavam. mesmo levando em conta o carácter racista da piada.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. O pessoal precisava de descomprimir.

quando se abriram as portas de Abril. onde dois ou três soldados disfarçaram. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. Risonho e desmiolado. estás a engatar-me!. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. com bancos curtos de ripas. quando viram aparecer o 126 . malas velhas e caixotes com galinhas... grandes e brilhantes nas crianças. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. apareceu risonho e agitado. amontoados entre trouxas. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. moço robusto e bem parecido. O comboio era muito comprido. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo.. ─ Verdade. com divisas.. mas ninguém estava sentado no chão. ensebadas pelo uso. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes.. surgido do mato. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. em Tete. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. o Edmundo lá reuniu os vinte paus.. Olhavam surpresos com olhos esquivos.soldado Edmundo. As carruagens da frente eram muito velhas.

pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. Onde estarão a esta hora a esposa. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. a companheira. a mina. Afinal. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. persistente. os pais. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . a morteirada. a emboscada.grupo de furriéis. a namorada.recomendava o capitão. os irmãos. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. maravilhando os olhos na beira-rio. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. a mãe. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. homem novo. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. ─ Tem juízo.

uma semana era passada. oportuno. ─ Assim com esta barba de três dias. ciosamente guardada. ─ discorria o António Manuel. 128 . Claro. parecemos discípulos de Fidel!. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. um tenente-coronel que. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. foi instituído o “Regime dos Prazos”. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. sob a sua influência. para chegar à costa oriental. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. concitando olhares curiosos. correndo energicamente para o vale que. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico.. sujos de pó. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde.. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. muito cedo. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico.exasperado. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. tinha o seu problema resolvido como sempre.

situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. separado definitivamente da dependência da Índia. enxameou a colónia de deportados políticos. Moçambique era um território arruinado. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. para a futura abolição da escravatura. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. formada por Angola. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. Cabo Verde. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. No final do século. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. A situação só animou nos meados do século dezassete. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. quando foi incrementado o tráfico de escravos. mas na Zambézia. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. Moçambique e Brasil. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. No começo do século XVII. dominada 129 . no Congresso de Viena. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. com muito pouco êxito. princípios do século XVIII.

e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. pó vermelho e castanho. conta-nos Bryant: “Em 1860. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. As pequenas colónias no interior. pouca gente nas ruas. a ideia foi repudiada e não vingou. vindas do Sul. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). casas brancas de estilo arabizado com terraços. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. na Rodésia. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. cidade de passagem. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). ruas largas. transformando num deserto essa vasta região”. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. chefeguerreiro dos invasores zulus. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. Instalações 130 . pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. Mzila.

no lugar de Cahora Bassa. outra vez a malfadada ração de combate.. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. na língua nativa. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. onde viria a falecer com febres. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. sul-africanos. mesmo com o rio a seus pés. ditando o desinteresse dos ingleses. muito calor. o Zambeze. Meio-dia. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. rodesianos. é uma cidade sem espaços verdes. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. entre outros. 131 . Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo.militares por todo o lado. alemães. Comprido caminho de água. o Sol queima e há poucas sombras. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. Concluiu o excelso expedicionário. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. ingleses. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. por isso a Frelimo quer destruí-la!.

e. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. “pró 132 . Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. ─ E se fosses à merda!. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. possuidora do regime mais racista do continente africano.. só cá venho safar o “coirão”.. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. A via alcatroada era um luxo raro. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. por isso a grande nação austral.. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. A estrada continuava para o Songo.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. na defesa da antiga colónia. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. O projecto hidroeléctrico quando terminado. ao encontro do gigante em construção. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes.. por máquinas da Engenharia Militar. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados.

incluindo algumas paragens para reagrupamento. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. Estar na guerra aprende-se depressa. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. Soaram tiros longínquos. mas pouco ou nada se divisava. os camiões seguiam mais devagar. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra.concluía ainda o soldado-condutor. só se ouviam os motores roucos em aceleração. seria fácil montarem uma surpresa. a engenharia militar ainda ali não chegara. a estrada acabava e começava a picada. estávamos no reino da guerra. Ao fim de quase três horas de viagem. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Sousa. Em sentido contrário o trânsito rareava. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal.galheiro”! A mata era densa. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. lentamente. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. percorridos cerca de 120 quilómetros. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista.

a conversa continua no bar. num portento de força impressionante. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. do qual se avistava o Zambeze. alargada a alguns civis presentes. e um deles. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. * Estima: um posto de defesa na picada. de nome Trindade. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. “já cá estamos há muito tempo. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei..silêncio. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. e só agora o António Manuel. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. a lógica da campanha militar era. correndo escuro e caudaloso. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. A alegria de uns era a apreensão de outros. E a guerra ficava mais próxima. Os recém-chegados. A guerra é naturalmente o tema central. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. agora outros que dêem o coiro!”. soturnos. ninguém saí dos trilhos. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”.. primeiro classificado. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. construído em paliçada de troncos. atreveu-se a responder timidamente: 134 . o veículo continuou a marcha devagar. ninguém se atrevia a abrir a boca. símbolos da tropa especial. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. poeirentos. com granadas e fieiras de balas à vista.

─ Quem não está connosco. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. está contra nós! Vocês são novos aqui.. para os lados de Mucumbura. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu.. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. e as populações! A acção psico... junto à fronteira com a Rodésia. ─ António? Que nome curioso! 135 . Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha.─ Mas. ─ Ah! Cá como lá. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. pelos vistos. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António.. A todo poderosa PIDE/DGS!..

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

Quelimane. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. Durante este período inicial. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. Entre a surpresa e a desorientação. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. tinham fortes tradições independentistas. Em resposta. Cabo Delgado e Niassa. e os Macondes nos planaltos do Norte. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. em 1968. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Também o reino do Monomotapa no interior.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. esteve circunscrita aos distritos do norte. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. na região de Mueda. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. 137 . com um ataque ao posto de Chai. Ilha de Moçambique). Sofala. o comando das Forças Armadas portuguesas.

locais e nomes. Calado de seu nome. em Abril de 1971. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. uma companhia de “comandos”. Nijs e John Paul. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. e dos padres anglicanos. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. à época bispo de Vila Cabral. em Maio. Valverde e 138 . controlada pelas tropas auxiliares africanas. Em Novembro. O ódio instala-se. Em Setembro do mesmo ano. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. pouco escutadas no entanto. para os aldeamentos cercados de arame farpado. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. onde. reconhecidos por Portugal na ONU”. e os Direitos do Homem. na aldeia de António. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. tropas da Rodésia de Ian Smith. Trindade. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. Em Tete. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. acusado de colaboracionismo. Depois de descreverem em pormenor com datas.

onde iam de férias. sem julgamento ou culpa formada. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. raça. Os africanos. até Novembro de 1973. sem qualquer ambiguidade. são os governantes políticos e militares de Portugal. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. numa conferência no Reino Unido.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. cultura. Nesta data foram expulsos de Moçambique.. Cabora Bassa Em Março de 1968. porém. em 2 de Janeiro de 1972. deveria estar a Igreja. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. corajosa e claramente. são perseguidos. torturados e assassinados. De hoje em diante. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . mentalidade e até filosofia. (.. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”..) O povo de Moçambique..Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. devido à sua língua. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. costumes... daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (.

são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. assente nos aquartelamentos de Chicoa. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete.milhão de colonos brancos. A empresa construtora Zamco. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. inteligentemente. No concreto. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 .) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. em 8 de Março de 1968. (alemães. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. italianos. que devia ser defendida a todo o custo. rodeado por uma vedação de arame farpado. vertidos no caldeirão da guerrilha que. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. em Julho de 1968. etc. no dizer indígena. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. ingleses. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. Cahora Bassa. a afirmar o desejo independentista. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. é um campo entrincheirado num meio hostil. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. Estima e Chipera. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. e para isso.

foi enorme o efeito psicológico em toda a região. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. constituía-se em forças irregulares. As notícias chegavam em catadupa. Furacungo. flagelações. Chicoa. No dia 9 de Novembro de 1972. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm.Moçambique. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. num só dia. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. embora os estragos não fossem de monta. 15 de Novembro de 72. emboscadas. minas. a Base Aérea nº 7. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. em Tete. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. minas! Fuga e reagrupamento. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. apoio na população. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. a linha de caminho-de-ferro 141 . ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. Fingué. Depois atacou sucessivamente. com a ajuda da República Popular da China. minas. eis a nossa táctica.

e os técnicos sul-africanos e europeus. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. com uma força desconhecida. ao longo de 8 quilómetros. controladas e permanentemente patrulhadas. foi sabotada na região de Moatize. e em 25 de Setembro de 1972. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". Kaúlza de Arriaga. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. no eixo Beira-Vila Pery. O comandante-chefe. uma tarefa que o comandante-chefe. divisava-se o rio escuro e caudaloso. separando inexoravelmente as duas margens. pela primeira vez. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. Assim se entretinham as forças portuguesas. com raras excepções. Deste lado a vegetação era escassa. com algumas portas apenas. cinzenta e castanha. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. silenciosa e traiçoeira. Entretanto.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. Kaúlza de Arriaga. A mão-de-obra rodesiana. também assumira esse compromisso. 142 . O pânico instala-se e. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta.

A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. companheiro de 143 . nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. mecânico de armamento. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. nascida e crescida sob a protecção das tágides. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. Foi há uns três anos. ─ Aqui não. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. conta-se a meia voz. mas mais acima houve um desastre terrível. A água de um castanho terroso. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. causando arrepios a viagem entre as duas margens.

a jangada entra em estremeções. descaiu para a frente a meio da viagem. onde a água era mais agitada. aproximando-se da extremidade sem anteparo. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. o alferes Baptista resolve intervir. e aumenta também a trepidação. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. ajoujado de carga militar. Um camião “Fargo”. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. por certo deficientemente escorado. o camião desliza mais um 144 . ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução.formação do António Manuel. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura.

outros procuram nadar energicamente para a margem. ou porque não tinham meios de socorro. Com um formidável estampido. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. cinco ou seis homens. ficando suspensas no vazio. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . Sem comando não havia acção. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. com comando mesmo errado. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. a jangada porém. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. em desespero. o abrandar fora fatal. a corda que prendia a viatura partiu-se. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. no meio de uma gritaria medonha. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem.

numa operação cuidada e lenta. * A tarde chegou ao fim. Ao todo. em poucos minutos. . Uma noite mal dormida em cama emprestada. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. mantimentos e munições. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio.mais abaixo. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. e 146 . Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. era um sol diferente. soldados e nativos. Metade da Companhia tinha feito a travessia. 101 soldados e graduados. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. material de guerra. Alguns nadadores atingem a margem. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. Por isso a trasfega não fora completada. um sono em vigília despertando ao menor ruído. Tudo se passou rapidamente. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. que arrasta consigo mais alguns homens. mas os restantes corpos nunca apareceram.Ao serão. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. provocando o deslizamento da segunda viatura. na messe. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões.

homens e armas. mesmo que cheire a gasóleo. Histórias de guerra contadas no próprio teatro.. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. o rio faz favor!. 147 . Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. houve um acidente com muitos mortos. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. prestes a ser rendida ─ Sim. são por vezes replicadas. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. os três amigos não se afastaram da zona do motor. Parece que não!.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. Numa das primeiras viaturas. amigos.. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. ... Mais mais para montante. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. Se houver alguma coisa. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. com malas. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. bagagens..revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. aqui quando chove.. ─ contava um furriel operacional da companhia local. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado.

. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara.. Calaram-se. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . tão perto do quartel! ─ congeminava o João. ─ Mas. inquieto. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. nem piar de pássaro nem som de animal. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. No silêncio ensurdecedor. Na luminosidade da contraluz matinal.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. meu alferes. peremptória.* Reinava uma estranha calma na Natureza. com um timbre familiar. embora ocultas pela folhagem densa. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. não-operacional mas com algum traquejo da vida. ─ Neste sítio não é provável. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. metálica na extremidade. ─ Continuem a picar.

Sierra. mesmo jogado com pouca convicção.... Sierra. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.. Tango . Alfa. a guerra continua O som distante e abafado. Sierra . era 149 . Alfa.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. era um passatempo de luxo no teatro de guerra. Bravo . dois.. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. o negrume cerrado da noite africana. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa. três rebentamentos Baumm!. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. O batuque vai começar. António Manuel. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor.. embora nítido... Trrrr. Baumm!. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco.. propôs o empate.... os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. ─ Parece estar a acontecer algo de grave. Trrrr. Baumm!.. enche a noite quente de Verão... o parceiro das partidas escaquísticas.. Trrrr.... dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. Mike. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. vestido a rigor de camuflado sarapintado..desde o destino final....

os “turras” mandaram só umas morteiradas. com uma experiência de oito meses.. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. em Agosto. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. Baumm!.. Baumm!. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro.. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. Os rebentamentos não cessavam. madrugada ainda.. na noite anterior. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. a cantina. vozes abafadas. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. * Manhã cedo. A 150 .. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. ─ A seguir somos nós!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se.. ─ Foi assim. iluminado por fraca luz interior. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!.. a messe e a porta de armas. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). cobravam dos conhecimentos vividos ou contados.. e fazer o reconhecimento da zona. Já há três dias que fazem sinais nos morros.

─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. ─ Nada. a partir de Chicoa.. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. nomeadamente o comandante. o pelotão já partira. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. ─ acrescentava o Sousa. agora já cheirava a sangue. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. com ar de desaprovação. Ah! Aí está...formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS.. ─ Yota?.. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. concluira João. À noite. ─ observava o António. levantando-se desaustinadamente. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. João . eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. Mas. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. Agora o sono cortado vencia a emoção. ─ com a metáfora. o alferes Yota.. que ficara sem um pé. A fisionomia era-lhe familiar. eludia o sobressalto.. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente... À hora do jantar chegou a terrível notícia. fazia uma 151 . havia dois feridos graves. esteve comigo na recruta em Mafra!. cândido por feitio. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. Ao lado.. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás.

o trabalho na fábrica.. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. No teatro de guerra. onde deixara a esposa jovem. parte maior das agruras da distância. A História não pára e o Mundo avança. ─ o António Manuel nascera na beira-rio.. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. o mais sulista do grupo. desde muito cedo. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. sofria a saudade da Pátria distante. Talvez mais cedo do que tarde!. assumia a contradição. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. nas populações e nas nossas tropas. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. de estudos e vivência. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. violentados. a discussão prometia. o 152 .. Aos milicianos chantageiam com as férias. no interior de uma África estranha e quente. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. Idealista.. quando elas começarem a “cantar”. ─ A guerra colonial tem os dias contados. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada.. embora algo sentimental. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. e estas crianças andrajosas e famintas!.ideia diferente! ─ Sousa. como faz o Movimento de Libertação!. ─ A realidade é tão chocante.. dava-lhe uma consciência aguda da situação. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”.

repetido como um eco por várias gargantas em aflição. temendo o perigo iminente. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho.medo misturava-se com a revolta. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. ao fim da tarde era sinal de alerta. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. O aparecimento de “very-lights”. ainda que disso nem todos dessem conta. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. de pele branca. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. a luminosidade 153 . * Havia um mês que ali estavam. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. que também ali se construía. em 1970 e 71. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. tal como ao mundo chegou. entre morros altos apertando a vista e a alma. indiferente aos dramas dos homens. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. na dilacerante guerra de guerrilhas. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. pois era sua a decisão táctica. tentando detectar qualquer indício identificador. A Natureza.

torturados pela inclemência solar. começaram a voltar às casernas. devido à forte influência da guerrilha na zona. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. como eram conhecidos na gíria militar. ou de zinco. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. 154 . Era assim no coração de África. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. cobertas com telhas de fibrocimento. Constava à boca pequena. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão.quente impressionava ainda a retina. Pouco a pouco. fora destruído e abandonado há alguns anos. Deixava o interior das instalações militares. O alarme soara falso. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos.

por questão de segurança. em grupo. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?.. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. combinou-se uma visita à aldeia. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. Estavam em grupos.. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. o homem macaco”. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. tão-pouco adolescentes. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. Envenenado estava tão-só o ambiente. para matar a fome. autorizara o batuque aos sábados. local mais calmo e “arejado”.. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. Ao quarto fim-de-semana de estadia. vestidas com capulanas de cores garridas. remoendo as dúvidas e a desconfiança. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. que na tropa não se podia abrir a boca!. A excepção eram as moças novas. Ali não havia selvagens de tanga. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. para manter o ânimo das populações!. com corpos musculados e peles luzidias. dispersos entre brincadeiras ocasionais. outra 155 . rigorosamente contidas dentro do arame farpado.O novo comandante do batalhão recém-chegado.. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). trazia à memória os célebres filmes da juventude. Recentemente. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. um major mal conhecido e mal encarado. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. da saga “Tarzan. nem havia setas envenenadas.

─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. aquele era um clima muito seco. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. Decerto clientes de “cuspo”. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. 156 . rompendo o soluço. com menos humidade. ─ Talvez tenhas razão. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel.. Afinal não tinham ficado para o batuque. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. Porventura. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. mais perto do Índico. a noite chegou mansamente. com divisas. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. eventualmente!?.profissão rendosa. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo.. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. a de lacaio da administração colonial.

uma área enorme cercada de arame farpado. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. o batuque ia começar na aldeia. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. O aquartelamento é grande. e. Desde essa data. patranhas e acção psicológica. dispersos e muito afastados. pelos vistos. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. a alma aperta-se e os sentidos despertam. poucos. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. aprendido há poucos dias. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. com uma única saída para a picada.E quem concordava? Muito poucos. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. bem no interior do istmo central moçambicano. Ao todo são oito postos de guarda. Na noite escura por caminhos esconsos. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. daqueles. a guerra continuava. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. e para sul até ao aldeamento. ligados por atalhos ainda não memorizados. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . É a primeira ronda de serviço. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante.

.. O coração acelera desordenado. paciência!”. acidentes ou fenómenos naquele local. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!...tiro!?. não! Pois. não! Na Guiné. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. eventos. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. reportavam à guerra. Abafava-se no quarto completamente fechado. não quis dar parte de fraco!.. ─ Pois. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. antes de desabar uma curta tromba de água. De repente a chuva 158 . distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. Sousa olhava o tecto.. todos os acontecimentos. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas.. João vai avançando de modo inseguro. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto.. ─ Achas provável? Nunca constou!... o sobressalto aperta-lhe o peito.

─ Quem vem lá? Alto. rasgado a muitos.. nenhuma claridade ofuscante. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. O receio esfumava-se. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. o jovem militar. A velha África das origens humanas.. Nenhum som.”. com reflexos azulados e avermelhados. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. esfumou-se na noite. tão radicalmente como tinha começado. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. muitos quilómetros.parou. coloridos em tons de prata e ouro. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. no caminho do segundo posto de vigilância. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. 159 . por miríades de riscos ziguezagueantes. siderado. Fundindo-se na terra. nenhum rumor distante. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento.

ao longe. ponho-me para aqui a contar os raios!. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.... ─ Aproxime-se para verificar!. fugaz. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.. açoriano como a maioria daquele batalhão. E é espantoso. meu furriel! Conhece? ─ Não.. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo.. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. Ah! É o furriel da secretaria. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica.. * 160 . apertavam como tenazes o coração dos homens. Pregou-me um susto..

olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. o correio era o elemento existencial mais 161 . Valia o facto de ter combinado a compensação. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. certamente superior à poupança. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. durante a manhã após o serviço de ronda. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. e pronto! ─ Deixa lá. agora é só ensaio. com prejuízo dos alimentos perecíveis. Gestão tropeira. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. com o chefe da secretaria. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. suspeitosamente simpático. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. justificas ao capitão.

”. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar. meneando a cabeça. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. como iria ser o dia? 162 . Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade. O centro de gravidade do corpo leve. exibindo-se papéis.. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. Após uma pequena entrevista no alpendre. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. mandadores sem lei. A desconfiança suplantou a curiosidade. Fora uma noite premonitória. “Pronto! Já estou feito! É comigo!.. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar..transcendente para aquela rapaziada.. comandante de companhia. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. num circulo nauseante de imponderabilidade. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis.

.6. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.. 163 .

─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). Alguns camaradas observavam atónitos. nem um mandado. Nem mais uma palavra. amigo das ideias. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. isso vai afectar o moral dos homens. percebendo que algo de 164 . Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. o oficial alto e escuro. candidamente.. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. o amigo ao receber religiosamente o material. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. O comandante interino do Batalhão. um major que mal conhecia. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas... com modos de polícia.. de G3 pronta. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. ─ observava. Começava a ficar irritado. mas ninguém tinha dito nada ao visado. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. depois do primeiro choque. Tinha até ordens para o algemar.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. nem uma explicação. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas.

─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. trata-se de um indivíduo perigoso.grave se passava. Em Chipera. se não se importa. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. a calma em pessoa. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado.. ao fim da tarde igual. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. nas terras quentes dos longos planaltos centrais.. Olhou-o com ar reprovativo. agora com uma cama vazia. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. sem coragem para comentar na hora da despedida. Até sempre. de que falava a mensagem.. empertigado. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo.. está enganado! ─ “Meu tenente”. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!. em jeito de despedida. onde o dia-a-dia continuava tenso.. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. pelo despotismo do comando militarista. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico..

Horas depois. o jovem alto e magro. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. perturbantes e insidiosas. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. Era um homem já 166 .. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. afirmando também a voz. da barba feita com lâmina inusitada. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT.. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. era compartilhada por um negro ainda jovem. com um ar distinto no ambiente despojado. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. Por detrás da secretária da sua importância.circulando subterrâneas. da delegação da PIDE/DGS em Tete. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. A cela dos fundos da delegação. No outro. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa.

maduro. estavam estendidos três colchões de espuma fina. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. mostrando ser o mentor da cela. sem qualquer divisória. única abertura para o exterior. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. com um tom acastanhado na pele exposta. Um mainato muito jovem. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. ─ Sim. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. colocados a um canto. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. rapaz ainda. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. acha? 167 . embora encorpado. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. senhô! Gosta de ver limpo. Retomando a tarefa de limpeza do chão. ─ Fique nessa! Tem mais luz. ─ Não tem mais tronco. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. Junto à parede contrária à porta de entrada. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. né! ─ respondeu o jovem corpulento. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. ─ Nhambo! Que tá fazendo. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. curtido pelo sol africano.

com uma cor amarelo-alaranjada. ─ Eu sou Silveira. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. saindo a menear o rabo nutrido.─ respondeu o miúdo a sorrir. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. quase fugaz. num breve instante. a cara redonda e luzidia. passou-lhe um brilho estranho nos olhos.. num trejeito efeminado: ─ Vá.! ─ acrescentou. que não deixava perceber o “fio da meada”. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . para de novo pousar os olhos no chão. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. resplandecente e implacável.. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . De vez em quando. às voltas com uma mala preta de plástico. que lhe tinham trazido há minutos. deixava ver a farda recentemente despida. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. na tarde quente e esplendorosa. furriel do Exército português . Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. ─ Eu sou fulano de tal.. e 168 . ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho.. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. manipulada para retirar o pijama. Aberta em cima da cama de circunstância. ─ interrompeu a resposta.... mas adivinhava-se uma bola magnífica. não seria conveniente..

desviando o olhar súbito. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. provavelmente!. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . como recomendara a jovem esposa com carinho. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. lhe arranjara. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. depois de confirmar a identidade.mais não disseram. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado.. acrescentou ─ venha comigo. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”.. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. De súbito. na direcção do mictório.. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. ─ comentara João. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer.”. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna..

é claro!. gosta de viver ao ar livre. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. mais do que a cabeça. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . ─ Deixe estar. ─ Como assim. O coração. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras.. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. escreva só a morada de destino do telegrama. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto.. Os dois primitivos residentes da cela.. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. olhavam curiosos para aquele “luxo”. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos..─ Chico. com indicação de posterior devolução. percebendo certamente ser transitório. menos bem desenhadas do que era costume. e aos meus camaradas de tropa. não é necessário. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. Talvez sejam mulheres. Ansumé jazia morto numa poça de sangue.. Ansumé ficara arrasado. No ar perpassava um fluído etéreo. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. desorientado. A inquietação não permitia apreciar 178 . mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. ─ Também ouvi. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. sobretudo brancos. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete.. Faltava uma bala no carregador. com a G3 caída ao lado. sim.. activos e combatentes..! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate.. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto.. LOURENÇO MARQUES. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. no Norte.

Talvez fosse. a sede da PIDE/DGS. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. O polícia dava mostras de nervosismo. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. nem sempre concretizáveis. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. desde Tete. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção. ─ Temos de ir.. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. rumo à “Vivenda Algarve”. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. até à sede em Lourenço Marques.pormenorizadamente a paisagem. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. no coração de África. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas... 179 . ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. roubando o ângulo de visão e a serenidade. percebendo-se as sucessivas modificações da flora.. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. vigiada por dois agentes com cara-de-pau.. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. nem sempre concretizadas.. onde a geografia era mais agreste.

* A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava.. em Tete. que substituíram os dias de angústia da guerra. A cela com 2 x 4 metros. não podia fraquejar. Chipera Velha. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. nada!. nem asseios. Mas a solidão e a insegurança presentes. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos.. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. protegida por uma rede metálica. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. onde estava enfiado há mês e meio. nem utensílios. 180 . Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. pois não queria. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. na confusão dos dias de angústia da prisão. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. num canto. Era todo o mobiliário existente.

O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. não seria prudente. Apurou o ouvido. humanamente insuportáveis.. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante.. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. Voltou o silêncio profundo. Reinava de novo o silêncio. puxado entretanto. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. porém. paralelo e gémeo.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. até que o assobio reapareceu. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo.Acordou (quanto tempo depois?). que reconheceria em qualquer parte do mundo. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). Tal. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. 181 . mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.Batendo as asas na noite calada. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma.

eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza.eles comem tudo.. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. 182 . o Paredes. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. O Zeca. o Braga. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. aquela noite de coragem e fervor antifascista. na Faculdade de Ciências. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. à rua da Escola Politécnica. cantaram e recitaram. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. o Ary. até à comoção das lágrimas. O anúncio de um título bem imaginado.!”. tocaram. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. eles comem tudo. SARL. encostadas precariamente. que tinha a coragem de ter medo. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose.. SARL.

O novo comandante. um tenente-coronel. Em suma.. O segundo. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. era como a maioria dos oficiais-generais. pá?. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. O primeiro comandante. era o terceiro. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. de “guerra em guerra”. numa estranha itenerância nómada. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. por ordem cronológica. meu comandante. fora reveladora da mentalidade militarista. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. em menos de quatro meses. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. pá! O 183 . Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. mal tinham acabado de chegar. Andando de quartel em quartel. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia.. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. tratando-se de uma nomeação interina... ─ Põe o barrete. em meados de Outubro. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano.

era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. do comandante-chefe. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. Chiça!”. as meias a três quartos e a continência. as únicas preocupações são o barrete. a trabalharem nas limpezas. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”.barrete é para usar. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. Para estes. e. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. era o aspecto exterior do aquartelamento. com um soldado sem pés. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. até 184 . feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. dois com a guarda pessoal. noutras. “Filho da puta. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. procurando neste caso dividendos imediatos. quatro helicópteros. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. general Kaúlza de Arriaga. foi muito elogiada a “fachada”. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. Por isso. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. com três feridos graves como primeiras baixas.

todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. Os militares cumpriam o seu papel.sucumbirem!?. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. a guerra não parava de evoluir. era uma questão de tempo e de meios. Não acreditavam naquele optimismo todo. aliás. porém. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. para sul do rio Messalo. não passando. O tempo jogava a nosso favor. apesar da 185 . como estrategicamente se tinha proposto. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. Deus me livre!”. em Manica e Sofala. e quanto aos meios. Aliás. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. no Niassa a actividade terrorista era residual.. questionavam-se segundo o velho aforismo. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. a barragem em breve seria um facto.. Contraditoriamente. Os objectivos em curso seriam cumpridos. analisando com consciência a realidade conhecida. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. agora o resto era com o poder político. Alguns. estavam cansados de tantas comissões.

de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. em Maio de 1973. Não era grande coisa. não isenta de grandes contradições e inconsequências. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. Machava. chamado a Lisboa em Julho de 1973. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. em Março de 1973. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. No Norte. A guerrilha atacou Vila Gamito. na direcção da cidade da Beira. mas. em Abril. e. atacou Estima com foguetes de 122 mm. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. afinal. prisão da 186 . em Maio. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. como todas as outras. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala.fraqueza anunciada. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. e. em Cabo Delgado. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. megalómano. em Junho. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. tomando os desejos por realidades. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. O general ultranacionalista. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. por essa altura.

mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. diálogos breves.. Mas deixe estar. composto de muitos dramas solitários e isolados. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. magro. de tão inesperada. falando de bons modos. causava alguma perplexidade. o guarda prisional quando abriu a porta devagar.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço.. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. O guarda prisional. de bigode fino e voz nortenha. ─ Coma. Não era o mesmo da chegada. por enquanto deveria haver algum cuidado... ─ Deixe estar. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário.PIDE/DGS em Lourenço Marques. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. Novembro de 1972. porventura maiores que o seu. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. bateu com força na porta de madeira. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. de estatura média. eu já volto quando terminar a ronda. A conversa continuou durante alguns minutos. portas abrindo-se e fechando-se. Não obteve resposta. constatando. entre as quatro paredes caiadas. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. nem o jantar me trouxeram!. obrigado! Não se incomode. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. a esta hora já não se pode fazer nada. 187 . Mas.

─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto... não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. Vagamente. esperando melhores dias!. ─ Cá estamos. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje.... ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. querem ver que está feito com a PIDE?!. A seu tempo. ─ no limiar da porta. como exigiam as regras.Quando voltou a recolher o púcaro.. que se passará? ─ a questão 188 .. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. trouxe bananas (a comida era péssima).”. ontem fiquei preocupado. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional.. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde.

De facto. durante toda a tarde e início da noite. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. ─ Vou ver o que se passa. Vindo do fundo do corredor. dou em doido!”. porque o guarda não mostrou surpresa. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento.. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. abafado e húmido. Em pouco tempo. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. trancados e isolados em pequenos espaços.devia ser muito ignara. sem esperança. lamentoso. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. anjo ou demónio?”. Depois fez-se silêncio. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. porém. ficava um calor insuportável. logo abafadas por a porta ter sido fechada. provocando uma enorme tensão. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. 189 .. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. O tratamento normal da polícia é não dar comida!.

. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes.. aparecendo o guarda com um sorriso. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. isto aqui não interessa a ninguém. 190 . por “actividades políticas”. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade.. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. mais velho de aparência. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. era nítido o desenho das palavras na contraluz. de costas na enxerga. Mesmo agora.Num momento de nostalgia e saudade. De resto. muito abalado pela alimentação deficiente. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes.. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. na janela. acordado.. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. no quartel da Xefina! ─ E você.. a sonhar com a liberdade roubada. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. Olhando para o exterior.! ─ completava o furriel. Quando já descria. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. a aguardar as visitas prometidas.

prestando atenção. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. o guarda prisional. guarda Cerqueira. ao 191 . passando lestos pelos circunstantes. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. dir-se-ia uma acentuada palidez. ─ Sim. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. O corpo caiu desamparado no chão de cimento... ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. ficando sem expressão. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. sorrindo. não fora o paradoxo de cores. Os olhos faiscaram um fugaz terror. ─ Não! Não! Você. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. o pastor Manganhela. com comiseração e espanto. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. ─ Bom! Temos de acabar. não pudemos abusar da sorte. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. procuraram transmitir algo.

Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem..! Ao dizer isto. À excepção do jovem branco. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. esticou no chão o corpo inerte. colocando-a por debaixo da enxerga. já bastante enrugadas.homem preto que acabava de cair abruptamente. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. Instintivamente. Autoritário e brusco. com óculos verdes graduados. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. reteve por instantes o olhar no único branco. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. ─ Já disse.. a face de outro homem negro. fumando boquilha. olhando sobranceiro os detidos. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. Os restantes presos ganharam alento. a fazer-se desentendido. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. eu trato disso!”. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. maduro de idade. Ao percorrer em silêncio a sala. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão.

. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana.. por certo inspirado na rábula do superior: 193 .. O director continuava a cirandar na pequena sala.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. branco nas suíças. ─ Sim. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. precisa de ocupação!?. cabelo grisalho. o processo do pastor Zedequias Manganhela.. ─ não pode completar a frase. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador. senhor director.. aparentando uns prováveis sessenta anos. interrompida de forma abrupta. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. Acompanhava directamente.. ─ Ora isso é o que iremos ver!. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. detido desde Junho de 1972. suspensa no curso da resposta. alto e de barriga algo proeminente. ─ ameaçava António Vaz. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane.. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido.. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. ─ Bom sabe. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão.

! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. vindo do teatro de guerra... quente e envolta na ligeira 194 . ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. Na minha mala. de roupa. O “anjo da guarda”. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos... nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar.─ É a primeira vez que cá venho. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento... Cerqueira. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. de alguns livros!. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.

um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). e com grande prestígio na Europa. o guarda-fiscal. devotado à sua missão. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. Suicídio. ou um tenebroso 195 . numa zona onde não havia guerra. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. nunca se saberá.neblina africana que aplacava a inclemência. ameaças. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. Zedequias Manganhela era um pastor. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. conforme a versão oficial. Foram seis meses de interrogatórios. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. onde Manganhela permanecia em isolamento. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. sevícias. terror psicológico. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. de colaboração com a Frelimo. humilhações permanentes sobre um homem idoso. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. nunca provada. com quem trocara algumas palavras na casa de banho.

pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. foi um crime de morte matada. 7. os seus mentores e os seus mandantes.assassinato? Em qualquer dos casos. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes.

soube-se a dramática história da prisão. denunciado em meados de 1973. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. a 9 de Setembro de 1974. A 197 . que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. muitos presos políticos na cadeia da Machava.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. por ajudar. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. do guarda prisional Cerqueira. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. quiçá salvar.

com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. Quando o avião. o pide de má fronha olhava-o de soslaio.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . na sua incansável solidariedade. agora com o futuro tão incerto. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. ─ Não. Abriu os olhos. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. chamas. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. num pesadelo de tiros. correrias. gritos.. um DC-6 da TAP. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. com escala em Luanda. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. Com a recusa da carta propositadamente escrita.. muito sangue!. perseguições e sangue. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. fumos.

a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. Os aldeões são divididos em dois grupos. Chico Cachavi. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. distantes entre si poucos quilómetros. e. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. mulheres e crianças do outro sentados no chão.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. Chawola e Juwau. não levou a conclusões. num repente. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. Por volta das 14 horas surgem. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. um tenebroso 199 . é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. homens de um lado. com muitos aldeamentos dispersos. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. Tratava-se de uma área muito povoada. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. próprio da época das chuvas. e. quando procura o mato. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. como represália.

em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. O sangue enlouquece a soldadagem. Pedro. A tropa completamente ensandecida. e. fica juncado de cadáveres. à entrada de Tete. o aldeamento é completamente destruído.torcionário do recrutamento provincial. O rio Nyamtawatawa. crianças chorando são mortas a pontapé. um afluente do Luenha. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. surpreendendo os habitantes incrédulos. que organizaram o primeiro relatório 200 . repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. para além do que pode entender a razão humana. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. Foram os padres daquela congregação. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. que depois as diriam ao mundo. perante a passividade de sargentos e oficiais. Juntaram depois as vítimas numa pilha. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. violadas. distante cerca de quatro quilómetros. mutiladas e mortas. uma mulher grávida é esventrada. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. jovens donzelas são arrastadas para o mato. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola.

aconteceu quando. e sobre Wiriyamu. em 19/12/1972. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. finalmente. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. coronel Videira. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. três dias depois dos acontecimentos. desumanizados e corrompidos até à medula. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. nomeadamente ao comandante da ZOT. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. em Julho de 1973. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem.sobre Chawola. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. ano e meio depois. traje alegre vestido para afugentar 201 . que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas.

Caxias. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. estava uma carrinha da PIDE/DGS. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz.“maus olhados”. onde acabara de ser identificado e fotografado. agora tinha iniciado o interrogatório. 202 . depois de todos os passageiros terem saído. para iniciar uma nova e derradeira viagem. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada.. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. por isso está como está!. Da companheira não havia sinal. Ficaram para o fim. o mundo está cheio de ateus. essa é uma matéria reservada. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?.. na natureza e no seu coração. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS.! O agente. Lá em baixo à espera.. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante... percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. ─ Desculpe. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. em Caxias.. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino...

pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. apenas o corredor comprido e silencioso. as da minha esposa. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. Divisavam-se várias portas fechadas. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. interrompido por outra porta de ferro gradeada. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. ─ Ah! É verdade. o grande responsável. e o meu tipo de sangue. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . você é militar. o som metálico da lingueta da fechadura. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. Também estive na guerra do Ultramar. Por detrás tem as minhas iniciais. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. outra campainha.─ Fiz-lhe uma pergunta. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. passagem para um longo corredor fracamente iluminado.

Por cima da mesa.. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 .. por vezes reduzido. criando um ambiente soturno. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. gradeada. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. como depois se perceberia.um palmo e fazia uma cara-de-mau. em Mafra. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. por onde eram emitidos sons gravados. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. numa fisionomia naturalmente ruim. ─ Ah! Não sabe!. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. propício à desmoralização psicológica do preso. ─ Não sei do que está a falar. isolado do mundo. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria.. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. fraca. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário.. uma lâmpada de filamento. em Dezembro de 1971?!.

Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . a tosse de catarro ou o pigarrear. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. o preso é sempre o mesmo. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. impedem o “fechamento” completo do cérebro. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. por vezes o safanão. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. chamava-se o “moínho”. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. um aspecto de símio de pernas arqueadas. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. faz favor! Eu não o ofendi. ─ Respeito o quê. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. Começava a tortura do sono. criando uma pressão terrível.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. sobretudo na alta madrugada. para além da fracção de segundo. polícia manhoso à maneira antiga. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir.

Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!.. o coração “salta do peito”. * 206 .. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. O efeito é terrível.! O agente sentou-se estranhamente calado.. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. instantaneamente parado. hem! O mundo desmorona-se. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. Àquela hora o sono apertava. A partir daí a tortura é dupla. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira.. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. o preso desfalece instantaneamente. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. os ouvidos zunem ensurdecidos. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. O sádico pide continua a sua nova táctica. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector.. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. silencioso.. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. para acordar logo de seguida em sobressalto.

ter saído 207 . quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. quando mencionou o senhor doutor. preocupado com a aparência para infundir respeito. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. nunca levantando a voz. ─ Não sei porque estou preso.. o “senhor doutor”. um porte de alto funcionário do Estado. e por um ligeiro sorriso cínico. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. só traída por um pequeno esgar... impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. depois do inspector superior da PIDE/DGS. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão..A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. O chefe-de-brigada chegado no séquito. não precisou de muito!. no Curso de Oficiais Milicianos. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. encarregou-se de clarificar a situação. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. Adelino Tinoco. mas não tinha a certeza. gravata e sapatos reluzentes. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra.

─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. a não ser. foi uma pessoa simpática e colaboradora.. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?.! ─ Ia dar o salto. se não conta tudo não vai dormir hoje. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. ─ Violências. ─ o pide calmeirão. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 ..com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar... ─ Vá. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.. não! Por favor... não vale a pena perdermos tempo. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?.. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. O senhor é uma pessoa inteligente. vamos tratar como pessoas civilizadas. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação.

Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. Encontrei-o uma vez em Lisboa. deixando-o ofegante.. prostrado de joelhos. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. o resto fiava mais fino. ─ Vá. Um pequeno prurido de remorsos. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. apesar das suas reticências. Calou-se..! A brigada da Guarda Fiscal.. fazia o papel legal. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. Estava muito calor em pleno Agosto. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. avisada... Estamos de visita! Não podem. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada.. um sujeito fulano de tal. por favor! ─ Mas!. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . perto de Vilar Formoso. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra.

210 .. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. pinturas-quadros humanizados. todo encolhido. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. é claramente provocatória para impressionar o detido.. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. são figuras de bichos. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio.. O “SENHOR INSPECTOR” Um.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. penteadinho e bem vestido. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. em Dezembro de 1971. pequenos baixo-relevo estilizados. em Mafra. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. fale! ─ este é dos “pides maus”. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. onde antes só estavam manchas indistintas. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam.

─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente.” ─ Esse canalha!. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. ali estava um exemplar do “Avante!”. ─ Desconheço esse assunto. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada.... não nos obrigue a mudar de figurino! 211 .. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. desdobrou uma folha de papel fininho e. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. em Dezembro de 1971. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. é a primeira alucinação.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. fazia precisamente um ano. não vale a pena negar! Além disso. não resta alternativa. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. surpreendentemente.

Até amanhã. Silêncio! Não entrou ninguém. com um bafo acentuado de álcool. caminhando. aludira. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. que até os tinha formados em Psicologia. o que permitia ir calculando o tempo). continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. Como uma mola. bombista!”. Passaram as horas. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. já a madrugada ia alta. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. Adelino Tinoco. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. O pide pequeno e feio. como o torcionário-mor. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. ─ A partir de agora fica sem cadeira. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. Junto da sua cara. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. já disse! ─ sacudindo-o 212 . trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Encostado às paredes foi caminhando. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro.

bem vestido num fato azul-esverdeado. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . deu origem. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando.violentamente. como de costume. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. não tem cara para levar uma bofetada!. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. Um “pide-bom”. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. alto e de meia idade.. de bom corte. com ar muito solene. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. no instante seguinte. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado... O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. voltou as costas e desandou.. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. e com um emblema na lapela. o “superior” teve uma ligeira hesitação. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório.

continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. sob o mando directo de Salazar até 1968. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. quatro dias. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. Agora na década de 70. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. não tenho nada a ver com isso. no quarto dia consecutivo. com Marcelo Caetano no poder. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. desaparecem. eram mitigados. de onde chega uma luz de sol 214 . por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. muito íntimo do director Silva Pais. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. ameaçador. as paredes deslocam-se.! Alucinações frequentes..consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro..

com ar arrogante e meio imbecil. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol.. além do oceano. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço.magnífica.. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. O café da noite tinha um gosto esquisito. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!..” ─ Afaste-se da janela.. mais um passo ansioso e . sobre o rio. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. O vigilante calou-se.. única saída para a liberdade urgente.. semiaberta. acima do mundo. mentecapto.” Passa o tempo a olhar para o preso. não conseguia adormecer. vinha um 215 . a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!.. por isso bebeu só uns goles. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse.. Ao fim de quatro dias de privação do sono. pouco antes da mudança de turno. Quem dera poder dormir um pouco!. só abre a boca para ditar ordens e regras. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. O preso avança às cegas para um precipício. Todas as noites. onde a vida continua. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada.

Mas isso não interessa. embora os polícias garantissem haver aquecimento central.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. apetecia-lhe conversar. 216 . sem querer.. calha bem!. A falta de descanso do cérebro. conversar!. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. obrigado. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. fazia frio à noite. quase euforia. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. produzia a perda da noção tridimensional. vamos é saber da sua disposição. Hoje é o primeiro dia de Inverno. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável.. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. daí as alucinações.. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. Sabia bem aquela bebida quente. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho.. ─ Interessa. não é? Sentia uma tremenda excitação. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra.. vindo não sabia de onde. juntava-se a confusão do tempo.. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. porque de repente.

─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. fazem agitação contra a guerra. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido.. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. foi uma força de expressão. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. em Angola!?. e no entanto vão lá. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista.. por onde vultos furtivos se escapavam.. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. não estou a par! Mas.. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. ninguém me mandou. ─ Você. um homem católico. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. também estive na guerra. nem o Deus em que não acredita. sabe. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. contava todos os pecados.. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. Já temos uma filha!. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 .─ Não sei. dizem-se pacifistas. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos.. não respondeu logo. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido.

impedido de dormir há muitos dias. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento.. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família.. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. ─ Cale-se! Cale-se! 218 .se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. Nem o chefe-de-brigada.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. tantos que tinha alucinações tremendas. não vou!.. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. por estar para ali a falar com aquele carrasco.. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. ninguém! Parecia terem esquecido o preso. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora.” martelava-lhe o cérebro doído. Por agora as dúvidas foram vencidas. faz ultrapassar o período de fragilização.

. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”.. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. Facto curioso. vamos buscá-la para esclarecer.. quase euforia. anos mais tarde. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. comprometido. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada.. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. ligados ao Partido Comunista. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. (mas ficaram quase todos bem na vida. com a entrada triunfal do inseparável séquito. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. SEIS. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. Passava largamente da meia-noite. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. chefe-de-brigada. Calou-se o agente de cara redonda. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. por não ter arranjado melhor!. (inspector.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. segundo dizia. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. em Alcântara. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. quando a revolução esmoreceu).

. ─ Se os documentos não são seus. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês.vontade. não posso!.. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. a aprofundar a angústia dilacerante.. pela impotência perante a situação. subindo pelo peito até ao cérebro. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. Que dia seria hoje. misto de revolta e de desalento.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. Raiva. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. Nascia um estranho sentimento novo. manhas experimentadas da polícia. pavor. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira.. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS.

na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. já lhe disse! Se insiste. em pé horas e horas a fio. julgando-a mais distante. os comunistas de merda. ─ Comigo. sob constantes ameaças dos pides. eu logo lhes dizia!. bate desamparado contra a parede. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. Sem cadeira para se sentar.. os pés começaram a inchar: “Se se sentar.papel sujo. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. há muito perdera a perspectiva tridimensional. o “vaidoso” e o “atarracado”. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. O detido já não liga às provocações. O preso caminha encostado às paredes. Apetece-lhe vomitar. entrado a meio da tarde. a investigação ia no “bom caminho”. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 .. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. desritmado. desfaço-o a pontapé!”. O inspector Tinoco retirara-se impante. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. como você. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. a tortura do sono ia continuar. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. A respiração pela boca torna-se ofegante.

a família!. é ainda um homem novo.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas... Ah! Se pudesse saber que a companheira. não tem o traquejo dos “duros”. claro. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. Sim. Muito tempo depois.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. Estava sinceramente assustado. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!.. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça.. hoje celebrados como heróis. já meio recuperado. gente de excepcional coragem. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. ─ Sofro do coração. firme e 222 . a confusão. mas nem todos tinham essa fibra. Não há milagre.. mas com os pés cada vez mais inchados.. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada... talvez. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. Sentia-se verdadeiramente mal.

o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. Não tardou de facto. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. até porque na altura outros apoios foram recusados. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. ontem ao 223 . chantagista. ─ Sofro do coração. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. nazi. canalha. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. torcionário..determinada. ─ Então. criminoso. o “senhor inspector”. Devido ao cansaço. torturador requintado. facínora. tinha obtido do “seu” médico e amigo.. carrasco. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. Na tarde do 6º dia. jamais olvidado. embora verdadeiramente ameaçada. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. poupando energias. fascista . hipócrita. com o ar mais angelical do mundo. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso.

com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. O torturado levanta-se em grande sobressalto. Até o agente de serviço já não implicava. a olhar interessado.. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. “unha com carne” com o director Silva Pais. não dizia nada. com esgares de riso. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. o peito sufoca. Este pensamento produz uma angústia terrível.. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler.. gritos de mulher!. mas não estava”. trago um médico comigo!. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. : “Prenderam a minha companheira!”. Descalço. Já não conseguia levantar-se. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. A matilha de macabéus e hienas. e se for preciso. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. o coração desritmiza-se.serviço de Salazar e agora de Caetano. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. ouvem-se gritos humanos lancinantes. a qualquer hora do dia ou da noite. De repente. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira.. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. parecem-lhe gritos familiares. sem interferir. estava atrás do chefe pronta para saltar.

uma história de comunista já assumido. Ganhara forma no cérebro. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. contra o que era habitual.. frio. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. nas longas fases depressivas. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção..). cinzento. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. A PIDE aceitou a história.─ Não está a ouvir? São gritos. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. sem sol (ou ainda não terá nascido?). abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Muitos. 225 . o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. O pide de serviço. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas.

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. houve intervenções brilhantes. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). amigos. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. entre familiares e amigos. defenderam em tribunal. milhares de portugueses. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. Sobre estes causídicos. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . a título gracioso. corajosas. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. repartido por várias sessões. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. Das primeiras. fazia-se de propósito em voz alta.

. caso raro. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. pelo doutor Manuel. anafado e exibicionista no fato de fantasia. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. fingindo ignorar o detido. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. As alegações iniciais e finais do réu.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. mas falando em voz alta e explícita. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas.. O próprio juiz o admoestou. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. durante sete dias e seis noites sem dormir. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. quando foi apertado como testemunha de acusação. 228 . ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. seco de carnes e cenho ruim. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. Riram de forma alarve. com o Carlos e o Pedro.

estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. ─ É fácil comprovar. O fascismo. era rancoroso. 229 . com permissão do juiz. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. Nos registos da prisão-sul de Caxias. onde eu nunca tinha estado antes. com uma pena de prisão remível a multa. que lutavam pela liberdade. a sentença constituíu uma pequena vitória. proveniente da Beira.. há-de constar a minha entrada cerca das 20. Ao fim de três sessões. na sala de interrogatório!. às 16. além do mais. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro..─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. ─ agora era o acusador público. Costa Saraiva.00h do dia 23 de Dezembro. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita.. Embatucou o procurador do Ministério Público. senhor doutor! Nos registos da TAP. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. a interromper o réu.. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!.

Manuel Felizardo. Eduardo Fernandes. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. Hélder e Ventura. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Fernando Fragoso. Suzel. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. ficarão registadas para a posteridade. tal era a acusação. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Vicente Bolina. O apoio necessário vinha da família. Eugénio Torres. José Caria. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. os antigos colegas Baptista. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. No mínimo. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. 230 . fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. Conduto e Pimenta. Maia.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. Zaida. os amigos José Lucas.

quase vazio no início da manhã. em rápida expansão. aplacando a angústia e educando o espírito. não há 231 . o estudo.. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). Desfazendo por fim o ar de admiração. ─ Bom dia. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. disfarçando a saudade. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. a reflexão. que encheu o dia-a-dia. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. AMADORA. fraternal e dinâmico. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. vê logo o quartel. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. cidade dormitório às portas de Lisboa. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. organizado. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização.

situada numa magnífica frente para o rio.. bordado a ouro e esperança de melhores dias. na Amadora. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. o rio era um espelho plano e calmo. Um cabo e um praça da GNR. ─ Deixe estar. adivinhando a má nova e o destino ruim. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor.. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. mãe e madrasta. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso.. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. indiferente aos dramas dos homens. com caras de poucos amigos. o desemprego na grande indústria. indicada no 232 .. o batente de ferro da casa térrea. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui .

João ficara perplexo desde o primeiro encontro. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. O capitão Luís. era preocupante e inabitual. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR.... tudo era diferente naquele homem de idade madura. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. Não queremos criar problemas a ninguém. já fui julgado e condenado em tribunal!?. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar.gabinete do oficial-de-dia. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. ─ Sabe?!. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada.. ─ Entre. ─ Andamos à sua procura há oito dias. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. oficial do SGE. esse cretino!.. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. se tinha levantado para o receber. ─ Processo disciplinar. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. até aí conhecidos. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. gordinho como era da praxe. é um cepo redondo com dois olhos. a humanidade com que lidava com os 233 . Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado.

a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. deixava os interlocutores espantados. 234 . com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. embrulhado em “maus lençóis”. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea.. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. Todos os dias desde a primeira vez.. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. repetia-se ao princípio da manhã. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. também com um problema militar complicado por razões políticas. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. gerava uma nova expectativa. ─ Eu sei. intuía com reprimida alegria na alma. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. formado em Direito. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça.

comparando com a experiência no “teatro de guerra”. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. ─ Parte do jardim em frente ao Comando.. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. não constituía dificuldade. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. mas não se comia nada mal. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. furriel “estacionado”. tristezas e expectativas.. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. 235 . Tomara eu!. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço.. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. ando a pagar viagem a viagem!.. o que. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. deu para partilhar mágoas e esperanças.Não tinha. para quem tinha um curso de engenharia.

foi retomado na semana seguinte por imposição legal.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. em Dezembro de 1971.. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. então não vale a pena perder tempo. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. ─ Bom! Ainda está muito quente.. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei.. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. deve ter sido complicado!?. foram obtidas sob 236 . redondo de aspecto e de alcunha. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação..

─ Isto é um veículo militar. o processo-fantoche. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. falta um companheiro de viagem.tortura. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. estivesse. Não ficaria por aqui. ─ Quem não está. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . não é um transporte público. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. sufocava-se no interior da camioneta. O horário é para cumprir. Certamente por isso. como mandavam as regras tropeiras. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. Isso não pode recusar. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. Os documentos apresentados para assinatura. Depois chamo-o para assinar. porém. já o mês de Julho ia avançado. senão tem faltas injustificadas. nos dias tal. e tal. Por mais de uma vez. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. se sentara num banco traseiro. dando como provadas as acusações. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. ─ Só mais um minuto. Era curioso.

vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. ª. Acácio da Silva”. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. o furriel miliciano. na secretaria dos “Adidos”. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. Ex. por determinação de S. seco de carnes e de sorriso franco. Era um estado dentro do Estado. ruivo e sardento. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. a PIDE/DGS. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. pelo contrário. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. com a conivência do militarismo reaccionário. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. é furriel! Qualquer coisa da Silva.o compasso de espera solicitado. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. o “chefe da viatura”.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. mas num domingo foi aí uma barraca. e o moço de bigodão negro. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração.... ─ Ao princípio era um moitão de visitas. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. casado há pouco tempo e aqui preso!. tentou esganá-la. ─ Foi o bom e o bonito... 246 . até já cortou os pulsos para se matar!. mostrava-se loquaz. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou... ─ A doença dele é outra. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. ─ O tipo está doido varrido. mas o alentejano não se deu de achado. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. desatou aos pontapés às cadeiras.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!.

Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. fundado em colaboracionismos vários. tem de se compreender. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio.─ Então a situação é grave. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. sempre a caminho da enfermaria. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. A notícia surgiu brutal. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. se tinha suicidado na cela. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. ─ Pois sim. Contou consternado que o soldado “esgazeado”.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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255 .da filhinha! Prometo que voltarei. talvez mais cedo do que tarde!...

homens. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. velhos conhecidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. sacos.A LENDA 9. malas. 256 .

enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes.. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!.). Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. Algures. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. 257 . montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal.. grupos barulhentos jogando às cartas. O camião carregado de soldados. Beliches a cinco de altura. Encostado ao taipal.. que para aquele lado era de terra batida.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. o “canhão” esperava a carne fresca. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. gente deitada semi-nua.. como gado para matadouro. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. cruza-se outro camião com soldados a granel. sobre as preocupações com a mobilização iminente.

─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. isto é um país em guerra. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. ─ A vossa identificação. se não houver problemas com a saída!. falta de hábito!. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel.. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . que por perto ouvia a conversa. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. nossos soldados? ─ Desculpe. ─ Se calhar vou contigo. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação.. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem.. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. moço alto e magro. paleio animado e boina na mão. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”.. rua abaixo direito ao centro da cidade. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. meu furriel! Chegámos há pouco tempo.

. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. limparam. sem braços ou sem vida. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. algures naquela guerra oficialmente já ganha. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram.. tecendo laços de solidariedade circunstancial. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos.de colocações e a escala de serviço. também não a pedi nem a desejo! 259 . lá foram saindo os magalas mal ataviados. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro... Devem vir fardados. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. mas sem fim à vista.. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. ordens do sargento! Resmungando e refilando. o “chico” barrigudo quer poupar na comida.. é um exagero!. não deve ser limpa há um ano!. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. ─ Isso deve ser história.. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. entretanto voltou de avião para a metrópole!. ─ Há aí vassouras e pás. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação.. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. pá! ─ Não te metas com esse gajo. sem pés.

o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar.. Os homens ocupam-se da máquina militar. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. e a economia da região sobrevive do conflito. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços.. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. com o sol nebulado e uma humidade elevada. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. que consome enormes recursos da Pátria distante.. pelo contrário. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. ─ conversava-se à mesa do 260 .. pois a guerrilha não diminuiu. Na conclusão da empreitada. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. característica daquela região. com uma eficácia muito baixa. elogiando o trabalho feito. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. assim se chamavam. As vivendeiras. veículos militares correndo pelas ruas.

. Passam carros de boas marcas com condutor militar. falam mal o português. quase não há serviçais do género feminino. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. Têm inúmeros criados pretos. o militarismo sufoca! . a história da terra moçambicana. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. Esta “chicalhada” irrita. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba.. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados... Ganham uma bagatela. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. Longe dos teatros de operações. não sabem ler nem escrever. a fim de conhecer tanto quanto possível. Também alguns milicianos trouxeram a família. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal.Café Central no fim da tarde quente.tal como sufocava o calor de Dezembro.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. mas têm comida certa: ─ António. a 261 .

mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. Uma planície de cor castanho-avermelhada. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. A sua formação era claramente conservadora. e potenciando o vício pela bebida americana. à beira do milagre da “tomada 262 . em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. que não se vende em Portugal. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui.. oriundo da burguesia alentejana. porque Salazar não gosta muito dos americanos. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. a prestar serviço nas “Informações Militares”. ─ insistia o jovem bem parecido.. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. deixavam-no intranquilo. onde tudo era demasiado no estilo europeu.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. Quando se saía da cidade. Nem vou. ao fim do dia. a perder de vista. protegidos pela lei do condicionamento industrial. e aos industriais de refrigerantes. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. quartel-general da guerra. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. com bons conhecimentos. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. viam-se grandes embondeiros.

entre silêncios e goles de mistura fresca. Automóveis de boas marcas. ─ Quando vim. revelando a comum ascendência asiática. já tinha a chave. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental.de consciência”. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. Para o mais distante. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. Prestes a mudarem. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. muitos sacrifícios e muitas vidas. ainda que tal custasse muitas angústias. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. acreditava na justeza deste conflito. deixam gente de pele escura. mais depressa os homens que os montes. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas.. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. 263 . Ia para dois meses. réplica da arquitectura europeia. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. Não tardam aí melhores dias!. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. Pelo que tenho visto.. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”.

chegavam famílias inteiras. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. Estavam muitos orientais. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. a servirem como desabafos da alma.. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. como na gíria é conhecida. se notava um grande sossego. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . O descontentamento emergia. com o infelizmente célebre.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. À noite. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. o movimento à porta da mansão!. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. por bastante comum. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. com as leituras ou as idas à biblioteca. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. ─ Ah! Então era isso. no Golfo Pérsico. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. na Índia e até na China. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá.. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. normalmente.

“Os brancos antigamente eram peixes. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. nunca mais deixou de nos tratar mal”. que encontraram sempre forte resistência. 265 . com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. E desde então até hoje. se furtava. a que o povo das tatuagens e dentes limados. Esta é uma lenda do povo maconde. nos princípios do século XVI. habitando o Norte de Moçambique. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data.. entre os rios Lúrio e Rovuma. começou a fazer-nos sofrer muito. internando-se no mato. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . A etnia maconde. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. Durante a I Grande Guerra.. e se ele o dizia. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional.. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco.. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. em 1918. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. possuía um carácter forte e indómito. Os pretos cuidaram dele até crescer.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. Datam do século XX. viviam na água. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas.

doentes sem hospitais. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. e de Capelo e Ivens. Este último escreveu o livro “Mozambique”. Em 1895 e 96. “de Angola à contra-costa”. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). em 1885.. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. fronteira à ilha de 266 . escolas sem alunos. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. No início do século XX. hospitais sem médicos!”. em 1878. em 1882. da costa de Angola à costa de Moçambique. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. derrotando as pretensões portuguesas de soberania.. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. A nova expedição de Serpa Pinto. alunos sem escolas e sem professores. em 1889.”Batalhões sem soldados. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. no Sul. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. de traficantes e de entidades coniventes. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional.

ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. a Companhia do Niassa. Lúrio e o lago Niassa.Moçambique. procedendo à exploração mineira nesta área. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. e o cultivo do algodão e da borracha. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. são finalmente controladas (oficialmente. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. com capital inglês e francês. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . entre os rios Rovuma. submissão das populações e pilhagem dos recursos. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. criada em 1888. a Companhia de Moçambique. que iam completando a ocupação militar. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. em 1879.!). a norte. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. numa série de campanhas iniciadas em 1908. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros... criada em 1894. com capitais metade ingleses e metade franceses. ferro e ouro.

a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. conseguiam um tráfego internacional crescente. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval.país colonizador. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. aumentando para 20 mil em 1926. muito depois da abolição oficial da escravatura. Já a Companhia do Niassa. fundamentalmente para Angola. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. mantém-se o regime de trabalho forçado. Por outro lado. subindo para 2 mil no início do século XX. que funcionaram até 1942. na sua área a 268 . tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. Ou seja. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. ao abrigo desta lei.) está sujeito. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. o porto e o caminho-de-ferro da Beira.. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. sua sede. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”.. entre pessoal militar e administrativo. Em 1878. não se mobilizavam voluntariamente. ao seu sustento próprio”. nunca teve grandes resultados. foi criado o primeiro código do trabalho. No período de 1910 a 1923. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano.

No segundo quartel do século XX. mesmo nas suas próprias terras! 269 . Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. no Centro e no Sul do território. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. a capital. já do século XX. Porto Amélia. chá. em 1925. tinha 30 mil habitantes e a Beira. e nunca foram construídas vias férreas. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. Holanda) estava em declínio. É muito recente. 1500 habitantes (só 50 brancos!). Alemanha. destinados à exportação: algodão. todavia. oleaginosas (caju. o esforço português de colonização efectiva. mandioca.penetração europeia era mínima. tinha em 1925. canade-açúcar. criadas por decreto obrigatório. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. Bélgica. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. atinge 20 mil. segunda cidade. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. amendoim. França. sisal. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. assiste-se. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. milho. copra).

originariamente para a exploração das minas de Moatize. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. Sena Sugar States. Curiosamente.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. que assim funcionam como mercado protector. do Niassa e de Moçambique. Companhia de Algodões de Moçambique. em 1945. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. a mais importante açucareira da colónia. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. No caso da exportação de algodão. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. constituída em 1948 com capital luso-belga. Inglaterra e União Sul Africana.. cultivava 45% da produção algodoeira total. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. que cessaram a actividade por volta de 1942. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. pertencente ao grupo Champallimaud.. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. perícia. concessão feita a capitais luxemburgueses. criada em 1921 com capitais ingleses. fundamentalmente para Portugal. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. a que se 270 . Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. Presente desde há muito. e em particular com o capital britânico. Além das referidas Companhias do Zambeze.

. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores.. no período áureo do chamado Estado Novo: . está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. se auxiliam. também presente na indústria dos óleos. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. irmandade dos povos que.“No meio das convulsões presentes. 520 mil contratados do algodão. incluindo: 400 mil emigrantes. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval.. etc.associaria o grupo Melo. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. se cultivam e se elevam. em 1943. Em complemento. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. metade do total. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. desmentida desde 271 . nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. sejam quais forem as suas diferenciações.

tinha um exército pessoal no vale do Zambeze.5%). 1. em 1950. espalhados ao longo da costa moçambicana. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . asiáticos e “assimilados”. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. organizadas em ensino primário e liceal. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. Da mesma forma.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. à data dos inícios da guerra de libertação. com a política de “fomento colonial”. e as escolas elementares das missões católicas. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960.6 milhões. em 1960. em decréscimo) num universo de 6. dez em 1825. no século XVIII. três ou quatro nos finais do século XIX. traficando em escravos. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. Todavia. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. ou seja. ano da publicação do Acto Colonial.sempre pela escassíssima presença portuguesa.

território colonial.. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. etc.. Por este tempo.). 1970). realizam então um trabalho novo de apoio às populações.. padres de Burgos. educar. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . nacionalizar e civilizar a população nativa”. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. 95% da população africana se encontrasse na 273 . eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. confluindo no desejo independentista. ao arrepio do ensino do Português. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. reflectindo a miséria da missão colonizadora. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. sobretudo depois da II Guerra Mundial. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. subjectivamente. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. fomentando o espírito nacionalista latente.. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração.. padres de Verona. Não admira pois que em 1960.

. quando começar a luta de libertação nacional. Craveiro Lopes. 274 . havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias.. o Fausto. o António.. A humilhação permanente da despromoção. A colónia funcionou até 1960. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). ok?!.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. o Muradali. os Casimiro. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. a Lena. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. o Santos. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. o Monteiro. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. o Melo. em 1956. são gente boa. ). disciplinando os seus instintos rudimentares”(. o Castro.. a Lurdes. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. como na afirmação do Presidente da República. Precisas de te distrair! O Carlos. o Ivo.

por isso te despromoveram e te castigaram. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. estava um negro deitado na estrada. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam..trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. é mais uma questão de integridade. como morto. ─ Não é tanto uma questão de coragem. 275 . companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. que até nem foi extraordinária. ─ questionava a esposa.. arrostando sozinho as penas da insubmissão. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que.. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. este tipo é incrível. muito apertado pela PIDE em Caxias. A seguir a uma curva. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia.. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. atravessado. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. Ciclo do COM. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. entretanto a revolução. sempre muito sensível.

Estão bem. sim! Com dezoito meses. por isso tu és a minha vida.. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. O mais custoso é a separação. me dá vida.. De vez em quando vou tendo notícias. felizmente. cada vez maiores.. se estivessem aqui comigo!. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. tu ensinaste-me a viver. O tempo não pára.. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz.. mas nós havemos de vencer haja o que houver. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. carregada pela angústia da separação física. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. a minha luz. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. (.. Tu foste verdadeiramente o meu caminho.

o casal ainda não tinha filhos.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”.. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . diz o nosso fruto pequenino. o amor constrói-se também com sofrimento. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . ─ uma carga de trabalhos. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. Nós esperamos por ti. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. Por outro lado. durante quase seis meses. O “carocha” quebrou o transe emocional.. que faz amanhã 18 meses.. não sei se aguentaria. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias.. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. (. e agora?. Como disse um grande poeta. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias.. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. amor da minha vida”.criaram. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. a nossa ligação temse fortalecido..

MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. fora apresentado como Ivo. genuíno. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques... também ex-dirigente associativo. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. ─ Um movimento autêntico.G. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. também alferes no Q. em Outubro passado. as de jovens oficiais do quadro. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. à entrada. era um jovem mulato. no início da década de 70. Juntamente com outros dirigentes estudantis. ou mais uma tentativa de “putch” militar. pelo parente morto em exercício militar. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. que há pouco. natural da cidade-quartel-general. desassombradamente. fora compulsivamente incorporado. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. alto e bem parecido. foi bastante mais João. e de sectores ligados ao general Spínola. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . onde vinha em luto familiar.G. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política.

que fazia a interface entre muita gente. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. trazendo e levando notícias e materiais. o mulato quase formado em Medicina. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. Se isto dura mais uns meses. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. A casa de família da classe média. chegando e partindo constantemente. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. falava no assunto tabu. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. Fixados há muito em Nampula. que não renegavam. ─ Como sabem. para ajudar a acabar com isto. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. alimentando a célula da resistência em Moçambique. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala.

nas escolas!..! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. depois do fracasso das operações no Norte. ─ a senhora de Casimiro. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos... o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento.. assume-se agora do lado dos oprimidos. que venha por bem! ─ Por cá. mostrara uma insuspeita clarividência. ─ o jovem Melo. oriundo de famílias militares.. num fim de tarde africano. O julgamento do 280 .guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral.. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. concitou a atenção dos presentes. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. ─ A própria igreja de Moçambique. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. muito simpática e delicada. nos quartéis. mas creio que já não têm tempo!. também dirigente académico perseguido. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!.. em plena época quente no Hemisfério Sul.. ─ Talvez não haja tempo para isso. tantos anos de mão dada com o colonialismo. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. Tenho a convicção que o fim se aproxima.. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. mas se é contra o regime. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação..

parte integrante da máquina colonial. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. por orientação do Vaticano. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). no curso do século XX. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). terra de esperança. é paradigmático do papel da igreja católica em África. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. prevendo e prevenindo o futuro. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. Sebastião Soares de Resende. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. o ambiente ganhava optimismo. num contexto de declínio do colonialismo. uma voz clara que 281 . quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. assumia-se de forma muito mais contraditória. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. Completa esta imagem do século XVIII. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. Depois da concordata de 1940. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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nada de atrasos!”. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. a praia do “Relamzapo”.do oceano de águas escuras e algo agitadas. de medusas da “Cruz de Cristo”. aparentemente descurando o futuro. com “cabrinhas” de espuma branca. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. aqui e acolá. tinha uma areia fina de tacto agradável. A praia das “Chocas”. cada vez menos. num “Aviso” da Marinha de Guerra. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. Percorridos em visita. os colonos emigrados. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. rumo ao Norte. a meio caminho da cidade portuária. duas dezenas de soldados. Agora na sua senda. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. quase escrava. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. negros na maior parte. e. Na conjuntura actual. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. A partida é às 20. semeada de pedaços de algas escuras. espraiando-se levemente na areia branca.30h. como gostavam de dizer. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. imaculada. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. agarrado às vantagens do passado. ainda acreditavam. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 .

bigode sobranceiro. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. Marcelo. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. ao jantar. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora.. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão... Num jipe oficial. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. branco. Caíra a noite. estivemos a conversar em casa de uns amigos. Tinha razão o Ivo. logo me contas o resto da história. ─ Há poucos dias estava óptimo. também vou?. Tratem-no como se fosse um de nós. Ele contar-vos-á os pormenores. impecavelmente fardado. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. um jovem alferes moçambicano. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!.. é melhor não te verem por 290 .

à saída. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. em serviço à pista.. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida.. de camuflado. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques.perto. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. ─ Olha quem ele é!. já eram velhos amigos. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. com o furriel “recepcionista”. Antes. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. instruiu o condutor de serviço: 291 . ex-dirigente estudantil. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo.

─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”.. único utente até hoje! Ao longe. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. a poente. bem vestidos ao modo africano.. Do avião. arrasando os nervos. num vale em depressão. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. pintadas de branco. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. Verdes e impenetráveis. a rasar a copa das árvores. parecia ser gente “importante”. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. Diferente. desde Porto Amélia. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. era uma zona de casas. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. que passava rapidamente.. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo.. para onde vai o professor. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. com telhados de fibrocimento. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . ─ Bom! Há por aí buracos bem piores.

293 . confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. em Porto Amélia. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. de contornos envoltos em bruma. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde.adiante. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. de ataques com foguetes de 122mm?.. ─ Contava-se. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. até se diluírem no horizonte. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. Mais distante. ou talvez mesmo de há muitos dias.. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. destoava do verde constante da paisagem. de madrugada. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. interpelou-os: ─ Meu furriel. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada.

Fim de tarde ameno. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . Por instantes. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. porventura. sem gosto. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. ao calor escaldante do meio-dia. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. Ali na África Setentrional. confundindo-se à distância com a neblina circundante. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. Em tempo de Equinócio. sem higiene. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. sem vontade. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. em fila. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. a recolha da sopa numa lata de folha. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março.

falso alarme. Mais distantes. o nosso direito e o nosso interesse. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. A respiração suspende-se por segundos. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. despejada a eito. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. caçadores nativos. É Naschinguyeia. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. crocodilos. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. a miséria do rancho. do outro lado do rio. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. o medo da guerra.da pátria. da personagem mal conhecida por recém-chegada. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . Mina. projéctil. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. encosta abaixo. minas anti-pessoal. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. Novamente o mundo sem sons. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. ataque? Nada. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. e o manto escuro caindo sobre o lago. a angústia do afastamento familiar. em cenas de caça na terra de ninguém. em cujas margens coexistem por vezes.

primeiro em Angola. piscando o olho aos americanos e à NATO. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. o mito da defesa do mundo ocidental. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”.impérios asiáticos. um ex-ministro de Salazar. holandesas. com mais de 50 mortos. quando as ex-colónias inglesas. acediam à independência. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. em Junho de 1960.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. belgas. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. em Abril de 1961. em 1961. francesas. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. afogou as pretensões num banho de sangue. depois na Guiné-Bissau. Franco Nogueira. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. no Tanganica. transferindo-se para Dar-es-Salaam. em 1963 e por último em Moçambique. em véspera da 296 . em 1964. Uma contínua e continuada mistificação. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. convencido da sua superioridade e vantagem rácica.

com diferentes sensibilidades e perspectivas. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. em Maio de 1961. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. segundo os próprios. começando a derrocada do império colonial português. Marcelino dos Santos e Uria Simango. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. No interior de Tete. moçambicanos da etnia maconde. no Quénia. futuro grande estratega militar da luta de 297 . a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. tratava-se de um movimento heterogéneo. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. A realização em Marrocos. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. foi criada a UNAMI . em 19 de Dezembro de 1961. com mais ou menos expressão.União Nacional de Moçambique Independente. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. No final desse ano. Em Nairobi. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. Damão e Diu. independente desde 1958. da 1ª. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. Como nos restantes casos.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. em inícios de 1961. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques.

mas a sua atitude corajosa foi silenciada. e no vizinho distrito de Niassa. capital do Niassa. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”.libertação: Samora Machel. bispo de Vila Cabral. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. O conflito iniciou-se em 1964. Ao fim de quase 500 anos. pelas tropas em acções de represália. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. unificado a partir do 1º. Após 298 . foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. simultaneamente em Cabo Delgado. com um ataque ao posto militar de Chai. * Eduardo Mondlane. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. finalmente. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. primeiro presidente da Frelimo. Congresso em Setembro de 1962. em 1971. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal.

Joaquim Chissano. a Frelimo teve um início de vida agitado. o tenente Jacinto Veloso das FAP. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. Janette. iniciando com Marcelino dos Santos. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. Por essa época. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Leo Millas. que casara com uma americana branca. Instalada em Dar-es-Salaam. um período de grande vitalidade da Frelimo. no extremo nordeste de Cabo Delgado. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. seguiu Samora Moisés Machel. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. em risco de ser preso pela PIDE. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. entre outros. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia.breve passagem por Lisboa. moçambicano de origem 299 . Professor na Universidade de Siracusa. em Março de 1964. nomeadamente Julius Nyerere. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. capital do Tanganica. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. após uma espectacular deserção. só em Março de 1963 se radicou em Dar. Eduardo Mondlane. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Pascoal Mocumbi. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. Tinha chegado a Dar em 1963. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral.

em Fevereiro 300 . médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Perseguido e preso pela PIDE. Mais tarde em 1965. Mondlane convidou Helder Martins. a funcionar na capital argelina. outro moçambicano branco. comum na região setentrional africana. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. de passagem por Argel em Março de 1963. O seu presidente Banda. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Lázaro Nkavandame. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. em Setembro de 1964.branca a juntar-se ao movimento. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. para se juntar à Frelimo. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. Também por esse tempo. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. O seu líder tribal mais carismático.

criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. conta a história do movimento de libertação. base da alimentação. onde reza a lenda. a 301 . devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. Desde o primeiro ataque a Mueda. por não terem armamento pesado). os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. a luta alargou-se rapidamente. No mês de Fevereiro de 1965. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia.

Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. num Moçambique livre e independente. EUA e URSS. Foram então nomeados. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. ─ Independência de Moçambique. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. que garante a sua unidade interna. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. e à exemplar democracia americana. total e completa. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. a linha de separação dos países sob o jugo 302 .

na Namíbia. Neste contexto. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. em Moçambique. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. Salazar fazendo jogo duplo. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. em Moçambique. decretando sanções económicas e políticas. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. em 1967.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. Em Abril de 1966. em Novembro de 1965. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. É a resposta às forças portuguesas que. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. condenada internacionalmente. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. a sul. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. uma nova frente na região de Tete. ZANU e ZAPU. veio complicar o xadrez político na África Meridional. onde o regime do “apartheid”. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. na Rodésia. 303 .

passando a partir de 1966. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. no célebre campo de Naschingwea. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. Em Fevereiro de 1968. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . alvo por vezes de assaltos surpresa. (ganham dezasseis contos por mês. O movimento moçambicano está já então bem organizado. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. o padre católico negro Mateus Gwandgere. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. Mtwara. Viveu-se à época deste congresso. enquanto um soldado ganham um!). organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações).Na região de Cabo Delgado. Kingwa. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura.

a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Moçambique. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. As palavras só têm significado para os 305 . com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. sem um claro vencedor. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória.). dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. são um imenso caldeirão prestes a entornar. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola.. sem sentido histórico e sem significado real. em Dar-es-Salaam. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Em visita às colónias em Abril de 1969. E foi a PIDE. África do Sul. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes.. onde vivia com a mulher e três filhos menores. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . Namíbia. Em Portugal. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Em Fevereiro de 1969. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente.

ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. em Moçambique. A história e o tempo jogam a seu favor. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. O movimento de libertação está mais forte. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. respectivamente. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). um dos fundadores. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. morte. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. em Maio de 1970. e. é eleito presidente Samora Moisés Machel. para Angola e Moçambique. coeso e organizado. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. sacrifícios extremos. custou esta 306 . um militarista ultrareaccionário. sangue. para comandante-chefe. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. No dia 1 de Julho de 1970. vítima de uma desmesurada ambição pessoal.

a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. Praticando o extermínio por onde passava. de centenas de estropiados. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. 307 . furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. milhares de combatentes. muitas apreensões de armas. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. bem organizada e com uma forte retaguarda. pomposamente exibidas na RTP. dinâmica. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. na acepção militarista. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. também houve muitas vitórias. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte.

com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. Como resposta. 308 . agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. a fingir de refeitório. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra.).A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”.. o ministro do Ultramar.. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. diria outro retinto situacionista. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). “Um murro de boxe num ninho de vespas”. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. crime (milhares de mortos civis e militares). montada debaixo do grande embondeiro. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. ficou-se pelo quilómetro vinte!. Aguardavam os restos garantidos da refeição. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. O conflito colonial em Moçambique. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. Silva Cunha. prometendo acabar com o “terrorismo”. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga.

. o pai morreu na guerra. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. cinco anos. oito ou nove anos. de carapinha escura. dez escudos por mês! Vive com a mãe. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado... estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. Como te chamas? ─ João. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. ─ Mas é tão pequeno ainda!?.. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro.. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote.. precisam de ajuda!. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”.. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”.. sinhô! ─ desviou a cara. ─ E o pai?. 309 . Alguns já tinham comido sopa do rancho.entretidos em brincadeiras de ocasião. que também está de partida. Lava. Quatro. com as suas tatuagens características. sobretudo os da “fofoca”. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. passa a ferro e não leva caro. ─ Então não conheces a história? O pai deste. Vinham quase todos da aldeia macua. eram raros os garotos vindos do lado maconde. outros nada.

consta que ele é casado na metrópole.─ Curioso!.. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos.. ─ Pois é. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. que está nos GE´S. em cuja entrada ficava a casa de Teresa.. mas com paredes rectangulares de madeira. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. aflito com o rumo do negócio. repuxada pelo filho mais pequeno. com telhado de colmo como as outras. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias. radiante na sua prometida função de cicerone. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. mas parece ser ela a não querer ir! 310 ... Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!.. ─ É a Teresa! Não te dizia!. transportado às costas como era uso. de forma menos tradicional.

João estava tentado a corrigir o vocabulário. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. mas achou prudente não se manifestar. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. qual dono de escrava. Já escondido. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. na África sedenta de liberdade. em genuíno desabafo de revolta. com um fardamento esquisito. magro. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. em terras de mistério e desgraça. sempre a gritar e a gesticular. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. ─ O furriel tem andado desorientado. só perturbada pela desgraça dos homens. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. calças pretas. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. ou porventura devido à língua entaramelada. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. Gritava de modo incompreensível à distância. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . a metrópole era Portugal.

visivelmente amedrontado. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão.. 312 . A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. ─ O homem está com ciúmes.timorato o rapaz de estatura baixa. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. Notava-se pouca actividade. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. obrigado! Tenho outras preocupações. mas nenhum queixume. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. cercado de arame farpado e minas. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. cor amarelenta e barba mal escanhoada. onde este tipo de assuntos era mais propício. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. O “negócio” era do lado da aldeia macua. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. Os homens deviam estar a descansar da guerra. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. A cena degradante repetiu-se à porta da casa..

mas a conversa deslizava para um campo perigoso. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. não há pressa. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. onde já anoitecera. ─ Logo se verá. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes.. ─ Porque se sujeitará Teresa. ocorreu à imaginação do soldado castigado. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. O cabo Carlos. Só não sabia. Nas circunstâncias. e por isso hesitou 313 . Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?.─ Há lá velhotes porreiros. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. Se é que essa seria a “estória”. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. a sua comissão fora penalizada em três anos.. como degradante era todo o ambiente da guerra. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. não seria muito prudente. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. A frase soava ordinária. já os tinha mencionado. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem.

se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. ao fim de um ano de “trolha”. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. à enorme angústia pelos mortos. caramba. a raiar a exasperação e a revolta. ─ Isto é uma guerra. na perspectiva de descerem para Sul. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. era que de há anos àquela parte. gerava uma enorme frustração que. A hipótese de não rodarem. os homens estão muito desgastados. sobretudo. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez.calado e pensativo. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. somada à saturação de sucessivas saídas e. criava um estado de espírito muito negativo. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. 314 . raramente encontravam alguém da guerrilha. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações.

entre outros. a relativamente inepta tradição colonialista. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. José Moiane. Em contrapartida. O movimento nacionalista. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Mariana Pachinwepa. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. Osvaldo Tazane. Raimundo Pachinwepa. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. Filomena Nashak. eram os outros 315 . contra o que chamavam. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. Sebastião Mabote. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. por um comando supremo todo poderoso. militarista e reaccionário. Alberto Chipande.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. único do povo moçambicano. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. Monica Chitupila. “travestida” de serviços de informação militar. Armando Panguene. Bonifácio Gruveta. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. sob o comando supremo de Samora Machel.

Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. nos confins de uma África inóspita. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. A sorte da guerra estava traçada! 316 . por milhares de manifestantes. ensanguentada e sedenta de liberdade. “A fogueira do guerrilheiro”. em Julho de 1973.vectores fundamentais da situação político-militar. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. Grupos de soldados portugueses. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. em português.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. Domingos. em protesto contra a “política ultramarina”. MPLA e FRELIMO. em Lisboa. Dia Mundial da Paz. atenta e preocupada com os ventos da História. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. durante a campanha para a Assembleia Nacional. no dia 1 de Janeiro de 1969. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. da diocese do Porto. por oposição à guerra. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. 318 . a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. apostólicos e romanos”. muito “católicos. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. Felicidade Alves. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. e em Portugal. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Diminuía a base social de apoio ao regime.

O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. e os Estados Unidos. na organização da resistência e do combate internos. No início da década de 70. 319 .. “Levantamento de rancho”. Santarém. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. Vendas Novas. no 1º turno de 72. “Não jures camarada!”. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. em 1971. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. organizada unitariamente. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. Tavira. em 1971. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. protestos na parada. nas escolas. arrancados às escolas. Tavira. em 1972. publicado nos princípios da década de 70: . nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. dentro do “ninho de víboras”. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. e outros mais No panorama internacional. Santarém. nos quartéis. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. “Alerta camarada!”. Lamego.. entre outros.. no 4º turno de 1971. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. no 3º turno de 72. embora negando os factos. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. ameaçando:. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas.. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas.

de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. Enquanto isto. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. Ainda assim. para breve. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. com Leopold Senghor. No essencial tudo fica na mesma. Mas a luta de libertação está muito avançada. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. como resposta a agressões vindas do exterior”. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. ainda que por novas vias. Guiné e Moçambique. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. em Março de 1973. o combate não esmorece e. António de Spínola. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. com o objectivo de “legitimar a guerra. Na Guiné. os 320 . há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. ao perceber o fim inexorável. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. e em Abril. Em Outubro do mesmo ano. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. o Conselho de Segurança da ONU. em Outubro de 1972. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. da independência da Guiné.“ajustando” a estratégia. próximo da fronteira. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. Entretanto. O alcance da iniciativa é inteligível. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. encontra-se. a proclamação. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973.

reparando rádios e antenas.. as forças guineenses combatem por todo o lado. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. percebendo finalmente. ficaria ainda ferida ou estropiada. conversando e trocando novidades. sem nunca o confessar abertamente. não pode satisfazer. Um mês depois. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. em aumento crescente. KAIOMBE DE JIMBE. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. numa zona libertada. havia o “inimigo interno”. derrotado. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. em Agosto de 1973. Havia o In. empenhado há tantos anos na luta pela independência. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. de aquartelamento em aquartelamento. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. a independência da Guiné.“Strella”. todos aqueles que iam 321 . o PAIGC proclama em Madina do Boé. fartos de guerra e do militarismo fascista. acossado. no entanto. A guerra entrava numa fase derradeira. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. Quanta gente. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. que a guerra de libertação é invencível. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. perigosamente de terra em terra. que Marcelo Caetano. organizadas como um “exército regular”. Spínola. em Setembro.

. na vila de Jimbe. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta .percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). Já se sabe o resultado. foi só um desabafo. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. Mas ainda havia quem.. procurasse puxar a “carroça”. Não era mau rapaz o furriel. arreando forte na besta. carroça mal puxada! revolta-se!. – Bem. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. nos princípios de 1974. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. Além da agricultura de subsistência. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. bem. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. besta contrariada. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. mas como muitos outros.. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente.. pertencente ao subsector do Cazombo. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. furriel. na Região Militar Leste. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra.

faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. com duas ruas paralelas. trabalhado na feitura de peças artesanais. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. era uma realidade também em África.. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. solicitaram a reparação. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. Afinal. onde aquela estava montada. Devia ser problema na antena. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. com frequências próprias.. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. agradado com a tarefa.! – o furriel. os chamados “flechas”. o problema não era do rádio propriamente dito. onde vivia pobremente a população indígena.e políveis. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. – Venham comigo. – Esperem aqui. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação.

rumo à África do Sul racista. com as O pide da retirou-se antena. solicitado para outro qualquer assunto. e outros. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. tratava-se de um habitante da zona. ou no célebre batalhão “Búfalo”. Vaz. Alguns meses depois o pide Camelo. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. Trindade. De volta ao quartel. que deviam doer horrivelmente. de nome Kaiombe. o agente António Camelo. alegadamente à caça. momentaneamente. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. ficaram a saber que o chefe do posto. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. Morreu passado pouco tempo. autênticas jaulas de guarda-bichos. Perturbados e confundidos. Laia. mas suspeito de apoiar o MPLA. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. causando-lhes horríveis queimaduras. apagar os charutos no corpo dos presos. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. No caso vertente. tinha por desporto nos interrogatórios. 324 . completamente expostos aos elementos.jovens militares estarrecidos. participante na invasão do solo angolano independente. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. Lontrão. Casimiro. apanhado no mato pelos “flechas”. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas.

prendeu. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. Neste sentido. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. perseguiu. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar.Face hedionda do sistema colonial fascista.. guineenses e moçambicanos.. como em Portugal. que em África. ou reforma dos ex-combatentes. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. Essas vidas poupavam-se. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. da revolta activa de muitos milicianos 325 . com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Significa que entre nós o crime compensa. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. e as de dezenas de milhares de autóctones. porventura numa escala muito maior.

tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. futuro militar de Abril. – Em Fevereiro de 1974. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. composta por 19 elementos. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. em Julho. mais meios logísticos. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. cada vez em maior número. homem da sua confiança pessoal. em Óbidos. Dezembro de 1973. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. António de Spínola. o general derrotado na 326 . embora unidos no essencial. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. entre ultra-reaccionários. – Em 1 de Dezembro. Regressado de Moçambique.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. com mais homens. o general fascista não parava de conspirar. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. – Por esta altura. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. conservadores e liberais. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. como ministro do Ultramar.

a assumirem o governo. convidando-os. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. 327 . – Nesse mesmo dia. Costa Gomes e Spínola. reafirmando a disposição de não ceder em África. a chamada “brigada do reumático”. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. A “coisa” está para breve. publica o livro “Portugal e o Futuro”. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. – No início de Março. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. Pátria. reúne-se em Cascais. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. para todo o país. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. O professor fascista “demo-liberal”. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. para reflexão. Família. o “Movimento dos Capitães”. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. Vinha de um retiro no Buçaco.Guiné. em vão. os oficiais-generais. – No dia 5 de Março. em directo. transmitida pela RTP. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano.

percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. – Deixa lá a guerra.. com frequentes “extravios”. Desta vez. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M.. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. Caetano. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. O velho sargento. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. e prisões. – Cartas de amor e guerra. chalaceara à partida. animadas pelos comunistas. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. grande dinâmica unitária do movimento CDE. naquele promissor Março de 1974.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. amor e esperança. em fins de Março. livro de António de Spínola. no regresso de férias. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. solidários. o sargento-ajudante “Mafra”. greves na cintura industrial de Lisboa. em trânsito ocasional. Os amigos. divertido e perspicaz. com as missivas dissimuladas. “Portugal e o Futuro”. meu sargento.

apesar de inconsequente. com um enorme impacto 329 . refere a coragem dos revoltosos.. como costumas dizer”(.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. (... INHAMINGA A SUL. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972.. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua..) Amor querido.(. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. depois de castigo disciplinar). Margarida. Não foi ainda!.. Mais cedo do que tarde. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. Hastings... Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março.). embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.. em Julho de 1973. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim..

de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. é palco de uma crescente perturbação subversiva. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra.! – Nada que se compare com este inferno. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. A situação é deplorável. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. Havia notícias desde Julho de 1972... Oficialmente configurava uma acção por focos. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. era ou mato ou morro. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. para onde a companhia independente tinha rodado: (.mediático. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. 330 .. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. esta zona onde aquartelámos. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”.. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. sempre a alinhar! – Boa sorte. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. acompanhados por dois cineastas e um repórter. no caminho estratégico para a Beira.) “Afinal tinhas razão amigo. Algumas semanas depois. amigo.

alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. Depois do Verão de 1973. Estas denúncias referem milhares de 331 . uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. iria assistir e nalguns casos participar. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. massacrando ferozmente populações. em autênticos massacres. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. A tropa regular. Entravam e saíam carros civis e militares. onde o terreno estava relativamente “livre”. torturando e eliminando patriotas.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. vinda da guerra no mato. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. prendendo sobas e régulos. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. lançava o pânico. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. em Tete. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. A sanha perseguidora. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. nas hostes colonialistas. Nos últimos dias de Julho de 1973.

com homens de “antes quebrar que torcer”. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. e nas Colónias. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm.mortos. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. adivinhado naquele início do ano de 1974. por cegueira. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. a alta hierarquia militar. originando dezenas de milhares de deslocados. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. como na localização das bases Nampula. terem essa atribuição). mesmo depois dos seus rotundos fracassos. durante a operação Nó Górdio. geralmente odiada. pela PIDE. conveniência ou por convicção. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. No estratégico caminho da Beira. Gungunhana e Moçambique. 332 . atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar.

E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. – Têm fardamentos bonitos!. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte.. amarelas. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países.. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . Mesmo tendo diminuído as 333 . Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado.. da Namíbia. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. incluindo aquele.. significando tratar-se de militares de patente elevada.. azuis. podiam ver-se muitas estrelas. a norte de Moçambique. do Brasil. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras.. dada pelo chefe da secretaria.“Strella”. A explicação não tardou.. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. padre José de Sousa àquela área. da Rodésia. em plena luz do Sol. com foguetes terra-terra de 122 mm.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. – São “patentes” da África do Sul. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante.. de 19 a 22 de Abril de 1974. cinzentas e verdes.. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira.

os aviões de abastecimentos tinham rareado. a comida escasseava. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. não estava pronta: – É um “Dakota”. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. Na messe dos sargentos. de serviço à pista. depois do caldo aguado.. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. em 1971. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. Com as últimas garfadas. digna de registo. comia-se em dois turnos.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. retiraram-se à procura da refeição frugal. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. Zambézia. tal como há três meses atrás. após a operação “Nó Górdio”. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. o correio andava atrasado quase um mês..?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. após uma grave crise de desnutrição. Manica e Sofala. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter.. onde João fora aboletado por determinação do comandante. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 .. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação.

atingira-se uma situação alimentar muito precária. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. com o 335 . – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. Em princípios de Abril de 1974. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. Depois de levantar voo na pequena pista. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. vamos tentar uma aterragem de emergência. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês.. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. virando-se para a comitiva tagarelando. Num repente. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. os “Strella”.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Por favor. a aeronave subiu muito alto. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo.. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. ainda fumegante. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. – Calha bem. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. Agarrados aos frágeis bancos de lona. são 13 horas e o almoço arrefece!. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor.

o avião meio destruído. vamos “dançar” um bocado. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. em Diaca . fora feita para receber os pequenos monomotores. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. a unidade militar mais próxima. em rápida aproximação da terra. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. travando a fundo os rodados. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. 336 . enquanto o tenente puxava os “ailerons”. imobilizou-se por fim. – Tenente.. prevenindo-a da emergência. O piloto-chefe informou via rádio. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. a exigir a elevação do “nariz”. gritando o desespero da hora derradeira. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. No interior andavam todos aos trambolhões. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras.. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. quando se aperceberam da situação. e a falta do motor. não permitiram uma boa travagem. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. abandonadas à pressa pelos indígenas. fazendo um barulho ensurdecedor.motor restante acelerado ao máximo. A pista de terra batida e cheia de buracos.

da intelectualidade progressista. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. vinda do Sul para estudar. recebidas com grande apoio popular. 337 . por não haver condições democráticas. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Coordenando a luta legal e semi-legal. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. e desmultiplicava-se em acções de rua. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. depressa se envolvera na luta pela democracia. dos trabalhadores. onde decorria uma participada assembleia de democratas. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. No dia 6 de Abril de 1974.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. dos estudantes. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar.

.. doendo no corpo e na alma. gostava de escrever um poema assim. dependurado à cabeceira.. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. não sei qual a sua fonte de inspiração.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade.. cresce o amor. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. – Minhas senhoras.. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada..” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair..– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. Custava-lhe magoadas. Amo-te querida esposa. tão Não teve tempo de completar a leitura. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação.: “.. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. onde quer que viva onde quer que morra. será o grito de revolta. tê-lo-ei sempre comigo. Faremos dele a nossa canção de luta. à porta da cela onde 338 . mas se soubesse fazer poesia. o desejo. sublime e autêntico. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. escrito na pedra ou no vento.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. A morena de olhos escuros dos genes árabes.

Não tivera tempo para mais hesitações.. apenas recebemos ordens para as transferir. – São cartas do meu marido que está na guerra. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. – Isso não sabemos. – É o regulamento. “Poemas de amor e revolução”?!. entretanto regressada dos lavabos.. A carcereira às ordens da PIDE. Eram ordens. como era uso. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. completamente. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. a morena de cabelos em franja.. Muito interessante.. Era outro.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. 339 . minha senhora. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro... o estrato humano em presença. Decisão temerária e esforço inglório. a ala dos interrogatórios e das torturas.. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. porém. mudando o tom. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário.. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza.

340 . A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. – Se pudesse ia para lá já hoje!. – E agora. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. produto da fé dogmática. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. prostrado. sinto-me atado de pés e mãos. por minutos ou por horas.. com data de há dois dias.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. analisar a situação. nem sabia bem.. – Foi detida no princípio do mês. em Lisboa.. que vais fazer? – questionava o Pedro. Era preciso arrumar as ideias. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. Depois ressuscitou! É verdade. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. Lágrimas reprimidas mas teimosas.. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. Aqui neste fim do mundo. não vão detê-la por muito tempo. numa reunião da CDE. – Vais ver. com a miúda pequena!. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal.

com o parlatório de permeio. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. frustrações e medo. Algo paira no ar!. mal a conheço!.. 341 . operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. nas mesmas picadas. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. – Pedro referia-se à esposa.. sem saída previsível. – É tempo de derrubar o fascismo. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João.. que avançavam lentamente. greves nas fábricas!. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. Aquilo lá está complicado. lançada à dois anos pelo general fascista.. a Manuela conta-me de uma grande agitação social... Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. – É da idade do meu. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. de quem tinha um filho também pequenito. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. agravado por um quotidiano de misérias. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. a guerra prosseguia sem fim à vista.

que não matavam mas moíam bastante. perdidos no meio da burocracia conveniente. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. a bem da moral psicológica das populações. Aliás. Já quase chegavam para a casita nova. em 25 de Junho de 1975. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. diziam as vozes do desânimo. apto a receber grandes aviões. mas que era por vezes motivo de incidentes. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”.. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. mal alimentados.. somados na terceira ou quarta comissão. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. fazia parte da orientação do In.. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. talvez o enorme campo de aviação. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. No presente. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. da contestação e da revolta. mal instalados. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências.entretanto afastado. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”.”. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”.

encarregada da segurança daquela área.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. Companhia de Caçadores. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento.. Pela primeira vez em pleno dia. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. debruçados no parapeito da vala. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. – Ai minha rica mãezinha. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção.. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. É o décimo. desde que começou o ataque às 8. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. quando o pânico perturba a racionalidade. com a arma cruzada entre os braços. mas às vezes não!. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. estão em calções 343 . Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento.

a responderem ao bombardeamento: 344 . saindo do seu gabinete tenso mas determinado.. a meia encosta. entretido a escrever à máquina um aerograma. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. Na reacção. onde psicologicamente o susto era menor. ser um normal rebentamento na pedreira. tinha decerto instruções hierarquizadas. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. Restava a vala-trincheira já superlotada. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. arrancando resoluto no jipe. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. A excepção foi o comandante do aquartelamento. na direcção da pista de aviação em eterna construção. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. pensava-se inicialmente.e tronco nu porque o tempo contínua quente. Na secretaria do comando. na direcção do posto de artilharia da unidade.. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. de 8 e 14mm. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. enquanto o chefe não chegava.

. Outra vez a voz calma do furriel Costa. Havia uma pequena pausa no ataque.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além.. não morreu um gajo no ataque a Palma! . O furriel Costa continuava imperturbável. pá! Por pouco!.. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. ribatejano. sempre de cócoras. a mais de cinco quilómetros. permitia concluir que ainda estavam vivos. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos.. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo.. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. – Ena. é relativamente inofensivo. – Pois não. filho de pequenos agricultores. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. que “quando se ouve é bom sinal!”. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência.. “arrancado” à escola superior de agronomia. Olha se caísse aqui?!. a menos de 50 metros. Aprendia-se nas conversas de caserna. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . com a G3 entre os braços.. mas a tremenda e instantânea confusão. ao fim da tarde. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente..

passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. – Venho estafada. durante uma hora e vinte minutos. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. só estragos materiais. traduziam um intenso pavor. fica atenta às notícias da telefonia!. Nove horas da manhã.os anteriores.. A resposta da artilharia esmorecia também. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites.. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. Os olhares cruzados naquele instante. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. as munições deviam estar a escassear. a pontaria estava agora muito alta. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . já se via muita gente de pé. No seu jeito brincalhão característico. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. No dia 4 de Abril de 1974. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros.

rapariga! Descansa. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. – Vai-te deitar. mesmo em dias de borrasca.. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. bem precisas. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. Conhecendo o ditado das “águas mil”. onde começara o namoro e. ao rever o local à beira-rio. sempre lindo. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. sem objectivar. nos novos caminhos da liberdade precária.. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. no “Abril em Portugal”. O comboio da linha fora a primeira etapa. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista.. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. a jovem mulher com ar cansado. – Como foram os interrogatórios. pela primeira vez em muitos 347 .... distendendo os nervos. Não te preocupes.e não queres que durma? Sorria. em vias de se tornar definitiva. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. Amanhã logo saberás quando acordares. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. se se cumprisse a movimentação preparada.

. – empertigou-se o chefe de brigada. “visita” diária desde o primeiro dia.dias. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. – Responsáveis fomos todos. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. desde a partida do marido para a guerra. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. sobre as 348 . demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. a esta hora já estão em casa com as famílias. a mostrar serviço na presença do superior. nada mais tenho para dizer! – Ah. Como estaria o seu João. sorriu.. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. horas e horas de angústia. onde vivia com os sogros. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. – Não tenho nada a declarar. Novamente a insídia do inspector superior.

com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. onde cabia toda a candura do mundo. e só regressou exausta de madrugada. houve qualquer coisa em Lisboa!. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. alegre por rever a mãe. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. após quase vinte dias de interrogatórios. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. Finalmente! 349 ... Um último pensamento foi para o companheiro distante. a saudade roendo o corpo e a alma. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. Por fim desistiram.insinuações em relação ao companheiro. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. com um sorriso como não via há muito tempo. na hora de tentar conciliar o sono. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. em catadupa. Numa das vezes.

– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.. 350 ..

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