A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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o autor adoptou uma estrutura mista. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. Essa foi. Marcharam esses 8 . a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. indiscutivelmente. quer na rápida solução do conflito. infelizmente. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. Respeitando essa intenção. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. e que assim. de algum modo. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. para dentro das fileiras das Forças Armadas. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. que nisso estiver interessado. quer na dinamização do 25 de Abril. No centro de instrução em Mafra. deixo ao leitor. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial.

o autor intercala dezenas 9 . desprezando a evidência dos factos. a petição de princípio. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Não se trata. por exemplo. É esse o período de 13 anos e 3 meses. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. Entretanto. Moçambique. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Guiné. cujo método é. nomeadamente o historiador académico professoral. O regresso dos militares feitos prisioneiros. estende-se entre 1961 e 1974. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. perante as forças da novel República Indiana. ignorando-os ou afeiçoando-os. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). a crise académica de Março de 1962. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. para os três teatros de operações. Exactamente ao invés do intelectual burguês. entenda-se. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. Longe disso.milicianos. de ensinar. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. etc. em Maio de 1962. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. graduados em oficiais ou sargentos. O narrador acompanha-os. Logo no capítulo 2. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. Na realidade. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. isto é. Angola. De acordo com o seu propósito didáctico. por norma. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. Damão e Diu).

(Mais que justo. quando se perfilam em Portugal e no mundo.o livro agora publicado. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. invocar essa memória já constitui. Em tempo de escuridão. devemos ter orgulho nesse 10 . cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. Um estado dentro do Estado. Nos tempos presentes. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. tantas vezes heróico. como bem observa. reconforta a alma. por si só. Mas todos. contra a opressão fascista. por estes democratas da 25. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . despidos de ambição pessoal. nesses anos finais. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. quer nas colónias em guerra.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. um acto de resistência. quer no país europeu.de resenhas de carácter histórico. de forma modesta e aparente singeleza. é justo assinalar. algumas extensas de dez páginas. que fazemos um povo. pois repara muita injustiça). aos direitos do trabalho e à própria condição humana. Dos comunistas em primeiro lugar.

mobilizado para uma Guerra Colonial. Lisboa. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio.passado pois é parte e espírito da nossa História. que nunca aceitou como causa sua. comunista de sempre. E. permitam-me. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. não devemos esconder esse orgulho.

dos seus incrimináveis mentores. Estes ensinamentos da nossa história. as mágoas persistem. compreender a guerra por dentro.. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. e da “vitória ser rápida”. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. o romance... Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. definitiva. perene. Nunca é tarde para perceber. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. As memórias da realidade. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. porquê? As memórias esvaem-se. vivê-la com as 12 . é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. a ficção baseada em factos reais. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. teimosamente persistente.

a amizade. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. ouro sobre azul. a cobardia. mas agora. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. 13 . e. os medos. o terror. que faziam emboscadas. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. Guiné e Moçambique. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares.angústias. o desiderato deste livro. flagelações e punham minas nas picadas. as tristezas. a nobreza de carácter. além do mais. as solidariedades. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. A luta de novo tipo. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. a revolta e a coragem. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. contra os mesmos incorrigíveis franceses. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. É este.

Os fascistas e militaristas.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. iludindo os portugueses. Como se não existissem 400 anos de dominação. órgão central do Partido Comunista Português. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. escravatura. deturpando. não tivessem nascido. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental.. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis.. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”.. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. o “Avante!”. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. procuraram elidir as questões fundamentais. na rádio e na televisão (também no cinema!. próceres de Salazar e de Caetano. Os que regressam de África ─ os 14 . Como se Agostinho Neto. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas..

A amargura.. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. procura um caminho para se manifestar. até ao 25 de Abril de 1974. o Batalhão Disciplinar de Penamacor.). de objectores. de presos por revolta ou protesto. A recusa podia revestir diversas formas. as lutas e deserções multiplicam-se (. n. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. Em Portugal. constituindo um feroz. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. nomeadamente: fuga à tropa. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. * 15 . que ousassem levantar a cabeça. o Presídio Militar de Elvas. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão.. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. de Outubro de 1962.º 322. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. Os protestos.desmobilizados.

As suas 16 . Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. sob todas as formas. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. a violação de mulheres. profissionais do quadro permanente não desumanizados. Tarefa complicada sem dúvida. torturas e morte. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. o assassínio gratuito. deviam ir à guerra e uma vez aí. entre os jovens fardados. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. obstou o crime horrendo... mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. de preferência em grupo.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. os melhores. que tudo pervertia e até fazia assassinos. massacres. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. nas escolas. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. nas empresas. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. dependia a aceleração do fim da guerra. e os que estavam convencidos que da sua acção. deturpada e mentida. o tratamento desumano de prisioneiros.

e o “Movimento das Forças Armadas”. seus inimigos figadais. “Abaixo o Fascismo!”. * É incontornável. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. “anti-patriotas” por definição. nas colectividades e associações. o “Movimento de Capitães”. às vezes mitificadas. por outro lado. ainda que pouco (re)conhecido. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. primeiro. nas escolas e nas ruas. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. tentavam por todos os meios (cunhas. compadrio. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. neputismo. com profundos sentimentos anti-guerra. no movimento democrático. Os comunistas. a “soldo de potências estrangeiras”. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. tráfico de influências. nos locais de trabalho. as suas manifestações e lutas. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. A sua opinião crítica.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. suborno. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. iam para a dita. depois. e o. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 .

que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. de contestação e de revolta. (politicamente activo). excluindo. Em África como em Portugal. sobre a Academia de Coimbra. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. Espancamentos brutais. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). castigando e quiçá matando. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. vigiando. despromovendo. em estreita ligação com os meios militaristas. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. perseguindo. Uma questão central da guerra em África. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão.Estas profundas contradições no seio do regime. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. perseguiu. prendeu. o título de P. em 1969. 18 .A. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). a PIDE/DGS humilhou. torturas até à morte. fichando.

porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. Salazar dera orientações nesse sentido. a guerra colonial foi calculadamente 19 . se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). a chamada guerra subversiva.guineenses e moçambicanos. Significa que entre nós o crime compensa. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar.

não permitia saídas do tipo neocolonialista. por questões de classe e de interesses individuais. naturalmente. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. França. Mário de Figueiredo. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Marcelo Caetano. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. devido a interesses económicos e empresariais.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. muitos destes nas Forças Armadas. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. por certo. 20 . Américo Tomás. Era assim para Oliveira Salazar. Holanda). redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Com determinação e sentido histórico. e uma multidão de títeres do regime. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. Bélgica. pelos valentes capitães com o apoio popular. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. Silva Pais. para que o poder político encontrasse uma solução. com a outra mata!”). evidentemente. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. Franco Nogueira. Silva Cunha. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. Kaúlza de Arriaga. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica.

Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. com as marcas irreversíveis no corpo. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. naturalmente. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. a derrotar todos os “senhores da guerra”. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. Essa seria a única. a guerra colonial não acabará nunca!.. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. Que este livro de inquietações. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . África jamais será esquecida. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito..* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. do passado ou da contemporaneidade. Para os milhares de feridos e estropiados. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz.

Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. perpetrando matanças descabeladas. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra..Jorge Jardim. Flechas. será a nossa maior satisfação. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. o coronel João Varela Gomes. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. etc. Em última análise. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Barreiro. “Katangas”. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 .).

1. IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .

só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. Bom. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. O "28" chega vagarento e ronceiro. É preciso voltar no recurso. mesmo em frente da paragem do eléctrico. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . há iniciativas dependentes daquela conversa. Aquela é a única carreira que por ali passa. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. sempre com muita gente azafamada. à espera do sinal précombinado. ficar na paragem não é prudente. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. não vá andar algum "bufo" nas imediações. Passam cinco minutos da hora combinada. Embora não seja novato naquelas andanças. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. a nova ligação é importante. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. Pouca gente na rua.Horas de jantar.arranca desiludido.

O populismo do governador do monóculo. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. a rua entristece-se. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas.. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais.─ “Olhá” desavergonhada. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. vai caindo em descrédito. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Sacudir as teias é preciso. Bento. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. Pelo som. inóspita. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. Rua dos Poiais de S. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. desoladora. o telejornal está a começar. sorvedouro de homens e de recursos.. mal iluminada. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. Calçada de S. António de Spínola. Bento. o eterno mistério das trevas. a querer roubar-me os "tomates"!?. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. capital de um império de "faz de conta".

donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". Contradições do sistema. durante o "minuto conspirativo". mas hoje precisamente. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal.!? Bom! Carros pretos há muitos.. Pela porta de uma taberna escura. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA.. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. D. da chamada ala liberal.. Carlos. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Av.. na reunião matinal. aproximando-se inexoravelmente da cidade. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário.

com populações civis sacrificadas. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. colocada num canto superior do estabelecimento. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. condenações de Portugal na ONU. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. e das imensas contradições em que o regime se atolou. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial.Górdio". O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. no norte de Moçambique. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. Kaúlza de Arriaga. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul.

que teria a capital em Madina do Boé..africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. o jovem moreno e bem vestido. não sei se estão a perceber!?. na tropa há seis meses. ─ clamava exaltado no calor da discussão. ajudando na consciencialização. em Setembro de 1973. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969... ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. na Guiné. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista.. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.. 28 . ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos.. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. não!?. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. será alienada. convicto da orientação política traçada. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. o rapaz magro e alto. envergando roupa de tons escuros.” Madina do Boé.

no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. Não era fácil convencer quem. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. ─ o camarada João. nos aquartelamentos. sentindo o cheiro a pólvora. após ter feito a especialidade em Vendas Novas.. acendeu paixões e afivelou rivalidades. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.. Este sentimento corria os quartéis. sabia do que falava. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. quero ver como é!.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . mas simpática e graciosa.. nos postos avançados. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes.. Aquela forma de estar. e. na distante. algo distante e compenetrada. casernas. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes.. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto.... mas a coisa pode radicalizar--se!.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. motivadas por razões corporativas. paradas. Grande bronca! . mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. * Chegara ao grupo discretamente.

incorporava o regime. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil.escuros e sorridentes. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. No pós Maio francês de 1968. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. de barbicha. um aspecto tristonho e sério. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. cigarro nervoso entre os dedos. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto.. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . ─ Portugal é a última potência colonial europeia. risonha e muito extrovertida. propiciava radicalismos..

. ─ Fazem favor de se sentar. senhor ministro. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização.. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. como acontecera de outras vezes. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. ─ Ora essa. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . de perna curta.. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. Cumprimentos da praxe. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. mas o momento era de grande frustração. ansiedade.. de avanços e de recuos. A luta era feita de vitórias e derrotas. normalmente acompanhados. ─ Escuta. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. ─ Sabes? Eu … eu. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. não temos pressa!. Naquele início de noite estavam só os dois. ainda não respondeste ao meu pedido.

e uma cadeira de espaldar alto. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. Uma actuação firme. telefone pousado.. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. Milhares de estudantes em desobediência civil. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . A crise académica na Universidade de Coimbra. acompanhada de abundantes gestos. da GNR e da PIDE. contra a ditadura política. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Universidade. O Ministro da Educação. no topo. sem vacilações! Fazem greve em Julho.. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. a que os estudantes chamavam 32 . exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. O País animou-se em expectativa. no início do ano lectivo de 1969/70. Ao fim e ao cabo.

. senhor ministro.. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. "meio-nistro".. vezes um ano perdido.. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. o "mini-istro". ainda em pé à beira dos sofás. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. 33 . mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. mexendo-se incomodado. outra forma de piropo estudantil.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. ─ Mas fazem o favor de se sentar. devido à sua baixa estatura. Os quase siderados visitantes. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa.satiricamente o "meio-istro" ou. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. ficando enterrados quase ao nível do chão.

por dentro. na clandestinidade. chocante. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Uma angústia feita suor frio. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista.. João. como furriel sapador de minas e armadilhas. Pelo caminho. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. junto do “povo fardado”. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra.. na qual o Rolando também tinha participado. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. Embarcara para a Guiné há menos de três meses. quando o Partido Comunista da União Soviética. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. resolveu que a solidariedade era mais urgente. Cego! Informara o comum amigo e avisador. minarem a confiança dos soldados no Czar. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. mas logo assim em tão pouco tempo!?.

é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. agora “minas e armadilhas”!?.. Como não havia ninguém de guarda. com cotos ligados à altura dos cotovelos. foi entrando pelo terreiro. Por instantes ficou paralisado.. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. também neste local não havia guardas. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. com uma absoluta angústia de ver o 35 . vários soldados em pijama regulamentar. O coração doía com aquela visão terrível. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. de cabelo encaracolado de um escuro característico..secretaria.. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné.º pavilhão... a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. contudo logo à entrada do 1. que se calhar nem foram ouvidas. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. por estranhos e simultâneos sentimentos . ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. revoltadas e envergonhadas.. com múltiplos pavilhões disseminados. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. estavam sentados em cadeiras de rodas.. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo.

amigo naquele estado. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. ─ A esta hora está tudo ocupado. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado... estou sozinho!. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. entrei porque não encontrei ninguém de guarda. ninguém dera pela sua presença. começou a dar-lhe a sopa... Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer... ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo.. Sou amigo como se fosse irmão.. comovido até ao limite das forças. Sem nada dizer. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. ─ o jovem muito moreno. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão.. ─ Sim! Bem!. Os médicos já me viram!. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. 36 . ─ Então rapaz.

. ─ Talvez mais tarde. a rua está agora quase deserta. é tempo de voltar para casa. ─ Não quero mais sopa.. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras.─ Bom! Isso é uma boa notícia. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. rangente. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”.sem Madina e sem Boé. A outra vista não tem recuperação. com 37 .. com outros recursos consigam recuperar a outra!.. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. filho dilecto do regime: "..". devia estar com vergonha da sua situação. aproxima-se o "28". Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial.. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. Com a mão no ombro do amigo. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. vagaroso. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. foram as palavras do professor. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.

. Não pensava tão cedo. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. Afastada a concorrência.. Mas os tempos estavam a mudar. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!.. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. no Instituto Nacional de Estatística. um carro preto vindo da esquina próxima. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. ali perto. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo.a chamada “primavera marcelista”. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. gritos. não há veículos à vista.

tudo à volta parecia perfeito e calmo. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. sem mais nada. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. ditava a incorporação em Mafra. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. Deram a volta ao quarteirão. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. sem lamechices.. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. Os corações abriam-se de forma sincera. em princípios de Outubro. e o mundo revelava-se sorridente. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 .. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. no COM. Um a um todos foram chamados para a tropa. O jovem alto e magro. enlevados e trémulos de emoção.! Mas olha.namorada? ─ Sim. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha.

partiram para a guerra. o seu João Silveira. E morreu mais um no turno passado. o “Alerta Camarada!”.º ciclo. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. durante exercícios com fogo real. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. Durante muitos meses. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. do 2..─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. vacilante. os relatos. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. levou as notícias.. Saía à mãe. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. trazê-mo-los no coração. Até que todos os seus mentores. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. necessariamente clandestino. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. 40 . pois o pai. os comentários. seguindo uma orientação conscientemente assumida. nos inícios da década de 70. trôpego.

ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. Para mim a guerra nunca acabou!. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. não foi avô? ─ Foi. melhor que ele próprio. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra.. com fotografias uns. “Raio de ganapo!” ─ pensou.. ─ Avô. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. Traquinas e esperto como poucos.. alojado junto da coluna vertebral. com nomes gravados outros. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?..... muitos com flores artificiais. foi!. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. ─ Pois não. alguns com fantasias bizarras. ─ Avô..─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. Mas não tem nenhum nome?!. ─ É este aqui. * 41 .

espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . comandante da secção. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. emboscadas ou minas na picada. sobretudo nas zonas de areia solta. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. a chamada rebenta-minas. o grande temor pelos últimos dias de comissão. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. o pessoal seguia com relativa descontracção. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. magnetómetros à frente para detectar metais. Há semanas que não havia flagelações. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. não tardava nasceria o Sol. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. as picas atrás a furarem o terreno. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada.

assim. vou tentar des. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique.. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. leal e honesto. o 1º cabo José Pinto..fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. com distinção e elogios.. pá! Passa-me a pica.. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. devagar. como dizia publicamente e sem rodeios. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível.. ─ Calma. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter.. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia.. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar.. dizia sempre o que pensava com frontalidade. 43 ... Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo... O Pinto era um rapaz corajoso. ─ Não foi detectada pelo magnetismo.. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. viscoso. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. várias vezes dissera que se morresse na guerra.

44 .em Moçambique.

REGRESSO DA ÍNDIA. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .2.

─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo.. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. há muitos anos radicado na vila operária. como republicano e antifascista. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. mas com as preocupações de um mundo em tensão. se engajou na luta contra a ditadura. oriundo do Alentejo litoral. frente à taberna do Arnaldo. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar.. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 .Tarde de sábado. O dono da casa. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. nos fins da década de 50. não podemos abandoná-los !. dá o mote: ─ O que representam Goa. onde. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. lembrando as lições da escola primária. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. o sobrinho Alfredo.

julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. 47 . refastelado na cadeira. Embora saísse sem julgamento. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. como lhe ia dizendo. ─ Então senhor Vaz. e.oceano! A conversa muito animada. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. notório situacionista.. barba ou cabelo? ─ Barba. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. a PIDE rondava-lhe a casa. bom. claro!. demoradamente. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. ─ Sabe. Na sala. nessa azáfama. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. merecias que te cortasse o pescoço !”. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. tendo passado alguns meses preso em Caxias. desculpe. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta..

Inglaterra. Na longínqua Ásia. Já em número de 300. em Évora. O 48 . usando a férrea censura dos jornais. insistia na via do confronto militarista. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. em 1955. o governo salazarista. a Assembleia Mundial da Paz. qual falcão em plena guerra-fria. sob administração portuguesa. escondendo do povo português a sua vocação belicista.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. de que deveria restar uma memória positiva. foram castigados com o corte de dispensas. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. ficou uma lembrança trágica. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. juntaram-se na parada a protestar. No regimento de Artilharia 1. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. pondo o quartel em “estado de sítio”. no mesmo ano. com representantes de 68 países. em Bandung. Estados Unidos e União Soviética. em Helsínquia. Os governantes fascistas. Damão e Diu. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos.

Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. dependia de outros embarques próximos. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados.comandante. intimando toda a hierarquia. Depois de mais alguns episódios repressivos. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. em 30 de 49 . Exaustos e revoltados. Aumentou a revolta aos gritos de. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. é hoje! É hoje!”. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. mandou fazer uma marcha acelerada. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença.

“Uma Nação. no campo democrático. muitos povos”. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva.. cobiçadas pelos norte-americanos .analisa a questão colonial portuguesa. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. à sua subsistência”. etc.Maio de 1956. Na década de 50. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”.. Salazar afirmara que . Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. É assim. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. Ainda no final da década de 40.. quando da negociação do plano Marshall. à sua defesa.. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. Quando um povo. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. necessário à sua vida. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”.

No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. a segregação racial nos transportes. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. . significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. as fomes e epidemias devastadoras.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. O regime salazarista. generoso portador da civilização”.. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. social ou político. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados.).. como. já citado. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. O órgão central dos comunistas. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. de Junho de 1956 : “(. isto é.. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. Por volta de 1954.. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (.. “um movimento racista contra o branco... o MUD Juvenil. a ausência de qualquer direito. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. em iniciativas abertas e unitárias.. cinemas e lugares públicos. na Margem Sul e noutros pontos do País.

nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. na casa modesta da tia Clotilde. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. com que trabalhos e canseiras. depois da “bola”.. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. nem os planos e as medidas de guerra. Mas senhor doutor.). quando o clube da terra jogava em casa. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. era tempo de visitar o primo Zé. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável.. (. como os valentes soldados de Évora. mais do que com qualquer outro membro da família. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. nem os discursos de Salazar.. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . posto que irmãos não tinha. vigário da matriz: 52 . O colonialismo tem os seus dias contados. e desde então todos os anos vai a Fátima. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. com quem tinha claras parecenças fisionómicas..

sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. naquele tempo dos princípios da década de 60. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. A telefonia. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. com uma relativa consciência do mundo. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. não percas a fé na senhora de Fátima. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. entretanto já terminados.. como não haverá navios rendidos.. um luxo para as classes trabalhadoras. era a sua companhia de muitas horas. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. olhe que os indianos são muitos. 300 milhões!. comprada a prestações com muitos sacrifícios. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas.─ Clotilde. para ouvir os relatos de futebol. lembrando-se da afirmação 53 .

O locutor anunciava o acumulado na subscrição. numa atitude típica do seguidismo salazarista. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu.. ─ Ah. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. em Dezembro de 1961. em África. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. Eram agora raros os saltadores exímios..do barbeiro. “rapidamente e em força”. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões.. na Índia longínqua. feitas 54 . se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano.. dez mil e tal contos. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. Damão e Diu pela União Indiana.. como mandara o ditador. talvez!. Joaquim Faria. de medos e angústias. na altura dos Santos Populares. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. por isso lhe dava uma carga pejorativa. Quando os militares portugueses.. comandados pelo general Vassalo e Silva. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. as tropas portuguesas na Índia. restavam os ganapos e as moçoilas. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. Em Maio de 1962. .

instado por um grupo de familiares.. e viceversa. ansiosa por abraçar o ente querido.. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. a família de Alfredo Júnior. iam finalmente regressar ao País. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. conforme os boatos que iam surgindo. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). de gabardina e chapéu. correu juntamente com muitas outras famílias. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . apupos. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. grande algazarra entre as centenas de parentes. Gritos. vestes escuras e lágrimas doridas. É um senhor vestido civilmente. No dia 23.. dado o seu isolamento. na ausência de informações oficiais.. cada vez em maior número.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. já não o vejo há dezoito meses!. vindos dos desenganos apesar da noite fria. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. A mãe de Alfredo. lenço modesto na cabeça. oriunda da zona antiga da vila operária. só acostaram em Lisboa já de madrugada. ─ implorava uma velha mãe. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. ausente há muito tempo.

estenderemos a vós. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). mas contra o colonialismo e o fascismo. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. por sua vez. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. datada de 14 de Dezembro de 1961. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. debaixo da mira de dezenas de espingardas. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”.) Por isso.. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades.. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. acenam com lenços brancos. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. antes de voltarem para casa. povo de Portugal.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. Como povo livre. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. não podemos esquecer o povo português que. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. alguns jovens esgueiram-se lestos. Ao longe. acompanhando zelosamente o senhor inspector. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . fora do olhar policial.

57 .juventude. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. Regressaram à terra natal. compreendendo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental. talvez pela primeira vez. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.

Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. potência colonial. Não era esta. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. em Diên Biên Phu. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . em 1955. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Ou a realização de um “referendo em Goa”. a opinião dos meios de oposição ao regime. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. na Indonésia. Damão e Diu. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Em 1954. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. que considerava proclamavaportuguesa”. porém. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. 58 colonialmente ocupados. contra o ocupante francês. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. FNL.

a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. os representantes dos países socialistas. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. dos neutralistas e das jovens nações africanas. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. Do que se passou nessa histórica assembleia.. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. Neste planeta nascemos. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”.)”.. trabalhamos. Em relação às colónias portuguesas. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. Em 1958. 59 . pela União Soviética. todos vivemos num único planeta. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo.

. em Luanda. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”.. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. com o apertar das algemas da opressão colonialista.). turutuka dii.. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. com o agravamento da exploração colonial. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. Scalo Bengo (Angola). Neves Bendinha. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. Bissau. Cabinda. Mueda. que procuram inverter os factos. Os massacres dos povos de S. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Tomé. Paiva Domingos da 60 . 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. Timor. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Em breve fariam prova estas palavras certeiras.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. ivuenu.. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. voltaremos aqui. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. Os patriotas angolanos. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. Goa.” (oiçam. oiçam. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades.

um cónego mestiço angolano. Domingos Manuel Mateus. abençoou os revoltosos. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. na Ilha de Santiago. enquadrados em vários grupos. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. fazendo milhares de vítimas. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. Imperial Santana. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. em Cabo Verde. Raul Deão. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano.Silva. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. o próprio. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. missionário na arquidiocese de Luanda. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. Na madrugada de 4 de Fevereiro. De resto. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. Virgílio Francisco. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. guardadas no campanário da Sé Catedral.

─ Companhia Indígena. Estava iniciada a Guerra Colonial. ou de trabalhadores numa oficina perto. começou a terrível “révanche”. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. filho da puta!”. dezenas de autóctones. sendo os restantes. presos. junto à praia do Bongo. interrogados. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia.). com a perseguição. empurrados logo de manhã para as valas comuns. levado a cabo por gente desvairada. nas rusgas e cercos. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 .. Pedro da Barra. indefesa. uma autêntica “eliminação selectiva”. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. ─ Cadeia da 7. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. espancamento e morte de gente negra. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. onde estavam muitos presos políticos. feridos. Nenhum dos objectivos foi alcançado. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. com poucas excepções.. mortes às dezenas. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. “Mata esse preto. espancamentos. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. que seguia num machimbombo (autocarro). ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. À noite nos muceques. correrias. Depois foi um terrível massacre. Agarra que é “lumunba!”. deixando centenas de cadáveres. era a “limpeza étnica”.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX.Sambizanga (foram mortos 4 polícias).

patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. do café Beira-Mar. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. o João “Careca”. O célebre fadista. Ao fim da tarde. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. conseguia desatar. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. sempre com conta e medida. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. quando a avenida da Praia era mais frequentada.

quebrando a corrente emocional e patrioteira. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal.. é nossa. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. inquietante mesmo. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. Acabou o noticiário.. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. é nossa! Angola. deixando uma angustia de dúvida e receio.multicontinentalidade da Nação.. A curiosidade fora espicaçada.... gritarei é carne e sangue da nossa grei. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. três ou quatro todos os dias para não assustar muito.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. é nossa! Angola.. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”.” A sensação desagradável. da sua grandeza Além-Mar. porque a família real era dinástica e divina. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. 64 . Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. Fazia vibrar de emoção e orgulho. pela negação dos factos apresentados. sempre se ficava a saber alguma novidade.

S. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos.. três tentativas. duas. sobrinho por afinidade. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos.. salazarista convicto.. Timor. senhor Lobo.─ Tio Zé. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. Scalo Bengo . etc. diz ser tudo mentira!... Baixa do Cassange. na Emissora Nacional. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora.. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. Vozes estrangeiras incompreensíveis. o regime 65 . Tomé. Goa. Uma.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. bem pronunciada.. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “... O Ferreira da Costa. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. E voltava! “. músicas estranhas que o velho vizinho.. Mas é perigoso ouvir!. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. O regime fascista. mantém nas masmorras da PIDE. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso.. ─ Esse gajo é da situação. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. mas a realidade inevitável. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português.

Depois da 4. Espera enervante. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.” Afinal não era a Rádio Moscovo..00 e as 21. obstando a mensagem de denúncia e de luta. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua... era outra voz da mesma liberdade procurada. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 .colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. entre as 19... O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção.ª classe na Sertã natal. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades..00 horas. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. pelos serviços da PIDE. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . Os dilemas da guerra e da paz. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.

o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. as leituras recomendadas. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. Aprendiz numa oficina de automóveis. promete continuares a estudar.incerteza no futuro. com um salário que mal dava para a renda do quarto. na Escola Fonseca Benevides. A grande cidade dava outras oportunidades. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. aliciado pela PIDE. abriam-lhe os horizontes. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. por sugestão de um colega. em toda a sua vida. as conversas sobre a realidade do País. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. Manuel interrogava-se. embora exigisse muito sacrifício. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. parco de palavras. Um segundo passo importante fora a mudança. por lá ficou mais de um ano. com uma sedimentada consciência de classe. para a outra-banda. O convívio com operários mais velhos e experientes.

onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. Ainda agora.900. partilhada em muitos anos de brincadeiras. a conversa era fácil e fraterna: 68 . nas lutas no Ensino Secundário. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. depois da incorporação e a recruta. tendo depois emigrado para Angola. mas chegara a sua vez. o “Avante!”. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. pela primeira vez. preocupações comuns e solidariedades. que depois da questão da Índia. E agora. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa.conta. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. O terceiro irmão não fora mobilizado. de Xabregas à Veiga Beirão. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. nunca mais parara de se agudizar. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. mantinham a amizade da adolescência. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. a mobilização para Angola. A experiência de participação. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito.

até se leva bem.. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. ─ Não. não! Mas quanto mais cedo melhor.. em dar o “cava”?!. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . um bom rapaz.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. ir à guerra e ter lá um azar.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. ─ Nunca pensaste em não ir. O pior é a mobilização!.. 69 ... agitando-se freneticamente na amurada. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha.. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares.. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. vestido de pequeninas velas brancas. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente.. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. ─ Adeus filho. o choro mudo e soluçado dos homens. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. encobre da vista o barco... Sou atirador de infantaria. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. mas o Nana era assim. vamos todos lá parar!. para onde vão muitos! Já viste.

com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. quiçá para sempre. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. A vontade nacional de agarrar o destino. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais .O grito triunfante do homem de samarra de camponês. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. no silêncio do quarto. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. alguns. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. adormeceu finalmente inquieto e agitado. no meio do magote de gente lamuriosa. constituía um arquétipo da candura nacional. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. mas nunca de contrariá-lo.

─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. 80. havia muita gente esclarecida.conversadora. nas zonas da savana e das florestas. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. recentemente. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. por vingança. têm lá cabeça para se governarem. um grupo de cariz tribalista. até chegarem os europeus escravatura. ou para alguma coisa!?. e agora. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. que lia e com o colonialismo e a 71 . Na zona velha de maioria operária. no Norte de Angola. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). também houve nações e povos desenvolvidos. como sempre acontecia aos sábados. 100 mil?).. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. ─ Os pretos são meio selvagens. pelos movimentos de libertação. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. perpetrado pelas tropas coloniais. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. Autodidacta e amante do saber. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. O que se seguiu..

mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. como lhe tenho dito. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. de reflexão e de descanso. que tudo estava sossegado. 72 . com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. senhor Vaz. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre.. E também lá foram vividos os primeiros amores. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. ─ Sabe.. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. à volta do quarto pequeno e modesto. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura.. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar.acompanhava os problemas. não acha?!. quando entrei!?.

“São seis horas da manhã. luzes intensas. talvez uma floresta. como se propunha. um precipício negro em que estava prestes a cair!. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. ainda é muito cedo!”. João deixou-se dormir novamente. “Safa. densa. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. perseguições.. que sonho dramático!”. correrias. só abria às nove horas para cortar o cabelo. um cheiro intenso a pólvora e a sangue.. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 .

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. fresca de Outono precoce.. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . com duas ou três casas. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. não me parece!. Posso chamar um táxi. Seguia-se. ─ E agora. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. Na manhã seguinte. já sem companhia. nada mais. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. O chefe olhou-o com ar circunspecto.. três horas de caminho. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar.

por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. começaram as marchas nocturnas.. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. em transporte próprio ou familiar. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. orientação. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. da instrução sobre armamento. depois das longas caminhadas durante o dia. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. etc. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. táctica. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. Guiné e Moçambique. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada.trajectos labirínticos. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. algumas conhecidas da universidade. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. 76 . e já fizera a exploração dos itinerários. Muitas caras ensonadas. trazia medos e fantasmas.

No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. tornados amigos durante o 1º ciclo. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. comandado pelo alferes “Manaça”. célebre desde as últimas invasões francesas. ─ o manifestante era um aspirante alto. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa.. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. Rodrigo e Francisco. incluindo a arma e a mochila às costas. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. devido às lamas nos caminhos. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. ensopado em suor. ─ Tens de ter calma. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. com a fama de “chicalhão” e prepotente. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. fazia mais um exercício duro porque. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. mais hipóteses têm de safar a pele!”. pá! Vou dar o “salto”. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . “a tropa não é para maricas. pertenciam ao meu pelotão!. daquelas que nunca mais se esquecem.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. como ele dizia. anafado.. O pelotão do 2º ciclo do COM. durante a progressão com todo o material de combate. ─ Não aguento mais isto. pesadíssimas. de boa compleição física e bom contador de histórias. quanto melhor o treino.

a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. por isso ganhou os favores do graduado. bem nutrido e de ventre proeminente. pá. 78 . Os mais expeditos fazem-no com êxito. quem não sabe nadar atrapalha-se.. começa a entrar em pânico. com um feitio solidário. relutantemente alguns ficam para o fim.. entra em contacto com a pele suada.. vem avisar o cadete Aníbal a correr. ─ Outra vez a porra da lagoa. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. ─ Depois logo se vê. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. tem lama até às partes. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. Por feitio ou bajulice. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. as pernas vacilam. na cauda dos restantes caminhantes.contrapunha o Francisco. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. o pessoal preparava-se para a travessia. ─ Falta pouco.. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. dando-se ares de importância. procurando ajudar o amigo. Uma porra.. dizes tu!... gosta de fazer de porta-voz. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe.. magro de carnes. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. pá.

.. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . ─ Qual bombeiros. volta para trás e tenta ajudar os outros dois.. o graduado continua a vociferar.! O cadete Artur. com uma alma altruísta. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. perante o quadro terrível vence a inibição. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio.. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal.─ Socorro! Não sei nadar! Socor.. Friccionando-se com a camisa de trabalho.grugluglu. marche! ─ Sim. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal.. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral.. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior.

juntando-se à volta de um acamado paraplégico. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. com permanência nocturna obrigatória. outros. ainda em tratamento. o jovem alferes Terras. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés.. que padeciam de graves deficiências. ─ Algo não está bem. enterrados no lodo. Baixa no anexo de Campolide. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. de bengala de invisual ainda mal manejada. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. quer ir connosco amanhã? 80 . sempre muito elegantemente fardado.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa.. comandante do pelotão. agarrados. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. teve uma atitude simpática . onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços.

. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra... E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). A conversa continuou animada. obrigado! Sou casado!. quando jogava o Benfica em casa. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. em cima da cama. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. ─ Ah.. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. pouco falador. não ensinam o verdadeiramente importante). ( os instrutores são uns nabos. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. já não tinha mais novidades. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.─ Não. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias.. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho.. nunca cá tinha estado. ─ Agarre-se a isso.. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. ─ Ah! É casado!. sim!? Obrigado! Eu. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas..

A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações.. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas.. cumprem-se ordens. fora de qualquer regulamento. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado... ─ Mas .daí para a rua. ─ Ah! Pois. aqui anda tudo às putas. Era grande o constrangimento. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. amanhã posso ser eu. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar.. “cada um com a sua”.. as coisas acontecem e pronto! 82 . ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande.. Evocam-se regulamentos. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano.. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. ─ Esse não acredito que pague!. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. abrir o fecho da braguilha. é uma forma de dizer.. mesmo dobrado. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia.! Não há ninguém de serviço. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. como aliás acontecia com os outros.. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você.! ─ pila era tabu. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente.

dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. amigo canta. As sombras encorajavam a audácia. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. falha de energia demorada de mais de uma hora. canta. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. alinhados em pelotões de 30 unidades. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. a espera animava o pessoal. ai povo. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada.

vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. Combinaram o essencial da acção primeira. entre muitos citadinos divertidos. assumindo o compromisso. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. para garantir a segurança conspirativa da operação. A companhia (quase) inteira. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. o Luís 84 . com a denúncia do número de vítimas da guerra.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. Naquela tarde de Novembro de 1971. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. o João. e no rescaldo das cantigas. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação.

rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. Sempre acontece quando os nervos apertam. estava unido na acção contra a guerra. das salas. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. a timidez. o Fausto e o Duarte. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. As conversas giram à volta de temas banais. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. mas a maioria são cadetes. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. tão diversos daqueles para que foi concebido. o Manuel. enquanto outros. é urgente terminar a “tarefa”. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. com frades de hábito e penitência. dos refeitórios e das camaratas. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio.Manuel. pretextando uma guerra santa. 85 . A sala dos cadetes é acolhedora. espalhados por várias mesas. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. feitas de pedra trabalhada. por um lado. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. Todos estão em farda de trabalho. constituindo um labirinto intrincado. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. polido o chão pela usura dos anos.

de porte elevado e cabelos brancos.. outros sons semelhantes.. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.. “Safa!”. subir e descer escadas. “As instalações devem estar em boas condições. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra.. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima.” – pensava João. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. o desnorte nos caminhos desconhecidos. longos e frios... o ouvido à escuta de passos perseguidores. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. um desvio apertado na primeira bifurcação. mal iluminado. em pânico. um local frio e terrível..”. Um som agudo e estranho.subir alguns degraus. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. como um guincho. nada. À frente de um séquito. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!.. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada.

devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. ninguém se atrevia a levantar a voz. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. correr. Companhia de Instrução está tudo calmo. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. certamente devido a pesadelos também. centenas de formas em movimento. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. por detrás das lentes grossas. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. comandante da unidade. Custara a pegar no sono. 87 . são ratos. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. sair do pesadelo.habituando-se à escuridão percebem dezenas. acordar no beliche superior inundado em suor. Na caserna pequena da 2ª. excepto algumas respirações mais agitadas. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz.

A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. a minha namorada escreveu-me!. Por fim vieram três ou quatro cartas. denunciara a patifaria. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. num pátio interior mal iluminado.. escondendo a timidez e uma pequena miopia. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. uns voltavam logo. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. não há nada para mim? Não pode ser.─ Tem de haver muito cuidado. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade.. vulgares na época.”. A acção tinha corrido muito bem. foram coladas nos corredores do convento.. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã..] já bastam! Não à guerra colonial!”. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade.

“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. porque apesar do sistema aperrado.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. Andava e pensava para distrair a ansiedade. não se via vivalma no caminho. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . havia excepções. a norte. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. certamente algum “menino” a caminho da cidade. pela aproximação do ocaso. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura.. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada.. João precipitara-se para o exterior com passo estugado.

existe um ambiente geral muito favorável. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. independentes. bom para a recruta. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. os dias eram cada vez mais pequenos. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. “Não jures. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. embora arrefecesse a “sentidos vistos”.. socialistas. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem.)... envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. esquerdistas. Trago a senha para o contacto que combinámos.. ─ Cuidado!.sugerido aquele local. nas bandas da Malveira. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. Boa sorte para a iniciativa. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. em transição para 90 .. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis..

a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . cada dia é sempre diferente. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. orgulhosos da classificação na prova de tiro. * Durante a semana de campo. esmerando a pontaria com o “olho director”. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. mesmo que seja só em treino. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. No miradouro não estava ninguém. nos arredores de Torres Vedras. com um tempo desagradável. é sempre um momento angustiante. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. pelo menos nas costas dos instrutores. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. dizia-se.o violeta. chuvoso e frio. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. Não há dois pôr-do-sol iguais.

Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. deputados da Assembleia Nacional. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. iria passar por um mau bocado. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). credores de favores. afilhados. não! Não posso!. o oficial do quadro 92 . a subversão aumenta!. generais. e muito menos a disparar. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. porque precisava de carne para canhão... ─ Não. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. Eram filhos de boas famílias.”. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. etc.. E. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. latifundiários. a fina flor do nacionalismo. empresários.. Em requerimento ao Ministro da Defesa. altos dignitários da Igreja. tinham um estatuto especial. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. parentes. enfim. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. mas não permitia. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa.especialidades. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. tentando safar os filhos.

não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. à beira de um ataque de nervos. O cadete gordo. e. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. sob pressão da intolerância militarista vigente. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. ─ Eh. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. baixote e 93 . que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo.permanente estava prestes a perder o “verniz”. normalmente sonolentas e ressacadas. a arma começou a disparar.. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. Não servia para “oficial de guerra”. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. só por milagre ninguém foi atingido. foi despromovido para soldado. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. forçado pelo instrutor. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. de repente. atire ! A tragédia estava eminente.. levantando e baixando a espingarda.

Boa!. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. ─ Ah! Pois. ─ Não jures camarada! Já disse!. ─ Essa é boa. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. “não jures camarada!”. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. ─ O quê. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”. No fundo da algibeira.. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. nas portas. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. ─ Ouviste? A barraca está armada... nas paredes lisas.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem.. nas janelas.. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . “quero essa merda toda arrancada!”.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. ‘tás a coçá-los!. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. nas vitrines e até nas pautas. logo apareciam noutros locais... ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte.

quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. A desorientação sobreveio. a coacção e a chantagem. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. . pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. O major. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. 95 . comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho.. Tacteando a cola com os dedos.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras.. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. propositadamente. .. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. pela intimidação subsequente.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. a primordial agitação. a hierarquia estava convencida de ter anulado. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes.. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira.

Queria ver se fosses atirador como eu!. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis... Por este tempo. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. com zonas mal iluminadas. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. afixada em muitos sítios desusados. futuros oficiais do Exército Português.. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada... Mas os corredores eram muitos.. pois o outro chuveiro estava avariado. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . até na sala do cadete: “. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição.─ O carago. Providencialmente. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”.

com particular destaque para o “Avante!”. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. submetidos a feroz censura e controlo político. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril.guerra era debatida mais ou menos abertamente. num quotidiano difícil. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. um moço bem constituído. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. mas na “terra prometida”. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. porque a terra era ruim. Os jornais. a rádio e a televisão. sobretudo o rapaz. aos solavancos. Junto aos hotéis de luxo. era um gritante e duro contraste. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. segundo a filosofia do velho Adílio.

incluindo no campo desportivo. com poucas qualificações. mal pagos. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. era o discurso oficial. numa época do início da década de 70. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. empregados e operários. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. nem feriados. sempre generoso com os portugueses humildes. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. era menos “aquele” que entrava. com um ar de arrumador encartado. Sobretudo se associassem ao 98 . de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. podiam chegar a cargos de chefia. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual.boné de pala “oficial”. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. se fossem interessados e cordatos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. nalguns casos. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. numerosos.

garantes da regular entrada das comparticipações patronais. para rezarem em comum.2 contos/mês. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. o engenheiro-júnior. ─ a resposta não tinha grande convicção. 15 contos/mês. 25 contos/mês. 4/5 contos/mês. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. por classes sociais.. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. 18. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. o agente técnico de engenharia. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. 19 contos/mês. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. senhor director. claro! Um resto de bom dia. uns mais à frente e outros mais atrás. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. minha senhora.. o engenheiro-sénior. ─ Senhor director. 2. 11. minha senhora. sem sobressaltos. o empregado de escritório. Nas vésperas da Revolução de Abril. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. anda a concluir um curso superior. a mulher operária têxtil. 14.8 a 2.5 a 3. ─ Está a tirar Educação Física!.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia.5 contos/mês. o operário especializado de horário geral. trate disso! ─ Claro. 1. 99 . Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. 12 contos/mês. chefe de serviço. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. Orava-se em acção de graças. chefe de secção.

nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho..O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. por 100 . para o curso de oficiais milicianos. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. Mas não havia nada a fazer. mas o “tio” Fernando-pai!?. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. Entretanto fora chamado para a vida militar. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. com o curso quase acabado. prestes a terminar: ─ Alberta. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três.. e de mais na tropa!. o seu filho sabe o que faz. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta.. ─ Esteja descansada.. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. no Domingo? ─ Eu gostava. Combine lá com o “ti” Fernando. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá.. hem! ─ Mas ir a Mafra. só lhe faltava o estágio. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. ó homem!.. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura.

quando o emprego e o salário eram certos. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. Gostava de assistir mas compreendo a situação. num pobre mister por conta própria. até que sobrevieram os “balões”. ─ Talvez seja melhor não irem. ─ Tu é que sabes. este ano precedido de 101 . * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. não é fácil a deslocação!. não morriam de amores pela situação. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. subsequente ao despedimento. e pela luta diária pela sobrevivência. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. O carinho prodigalizado ao filho na infância. Depois..melhores salários e condições de trabalho. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. amor . Se queres ir vai tu e a tua nora. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. em alas amplas e espaçadas. preparando-se para o ritual mitificado. iam formando segundo o que estava instruído. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada..

“Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!.. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.acontecimentos muito interessantes. provavelmente os tais “pides”. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 .. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa.. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. certamente sobre a ameaça de represálias. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido.” ─ o alerta percorrera as casernas. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente.. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir.

tinha agora um bode expiatório. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. . O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação... ouviu! Se não se explica 103 . O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade.. não telefona para ninguém. na Escola Prática de Infantaria de Mafra. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada... resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971.sistema sonoro. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. sou contra isso.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!..

acordada de madrugada. no velho convento frio e austero. saladas. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. acepipes. camarão. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. frutas. bebidas variadas. poucos. Desculpe. agora disfarçado com aperitivos. A instituição militar EPI. característicos da castrada burguesia nacional.. risos nervosos e traseiros espetados. nem era cedo. e senhores engravatados a rigor. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. ─ Dá-me licença!.. muitos daqueles cadetes imberbes. Pavoneavam-se alguns. por vezes mesmo medíocre. etc. Nem era tarde. carnes frias e quentes. as mesas brilhavam de iguarias. copo na mão. perna de frango na outra. ficara à beira de um ataque de nervos. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. bolos. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. doces. etc. de gastas pedras nos longos corredores. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta.

Suspeitava-se haver revista à saída. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável.. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria.. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. Yota da Purificação” (. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos.). o melhor era ficar para o fim. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. conheço. com pouca pinta de militar. ─ Sim.. a última barreira foi assim passada calmamente. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. “Certamente estaria a arrancar!.... farto de pivete a suor nem lá meteu a mão.colonial!”. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?.. mais o “material sobrante”. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. numa última passagem sem retorno. ─ Boa noite! Por favor... quando o cansaço afrouxasse a vigilância. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas.! 105 . agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. De facto não o vi . Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas.. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”. sim. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. Transportava o mesmo saco da chegada.

106 . sinal distintivo da origem de classe. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. igualmente com ar distinto.. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!... no gabinete do oficial-dedia!. naquele Dezembro de 1971. último a deixar o convento. em Janeiro de 1972. ─ Obrigado! .... Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras.. As duas dirigiram-se para a porta de armas. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento.. Nada de grave! Lá informam-na melhor.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra.─ É que já passaram todos.. postada a alguma distância. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. seria noticiada no “Avante”. estamos aqui à espera . ─ Mas ... por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso..

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

ÁFRICA. Animistas. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. de animais e da a Natureza. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. 108 . imaginários adoradores pássaros. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.

sepulturas e pinturas rupestres. forjas. a Tanzânia. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. canais de irrigação. subentendia uma organização social e política evoluída. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. Estes povos sedentários praticando a agricultura. quando estes. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. socalcos à volta dos montes para a agricultura. Melinde. Quiloa e Mombaça. estradas. minas. no interior da Rodésia. numa zona de ruínas ancestrais. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII.Esta actividade artística. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. enriquecidas pelo 109 . a caminho da Índia. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. o Zimbabwé e parte de Moçambique. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. pouco antes da chegada dos portugueses. a Zâmbia. cidadelas de pedra. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos.

O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. com o 110 . mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. da Índia e até do Extremo Oriente. estes em escala reduzida.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. trocando directamente tecidos. feito através de numerosos intermediários “mouros”. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. vindos do Norte. faziam de entreposto com os reinos do interior. especiarias. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. essências e faiança chinesa. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. Organizadas em cidades-estado. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. numa organização de tipo tribal-feudal. ferro. com uma economia assente na agricultura. encontraram um comércio progressivo. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. marfim e escravos. por ouro. que já utilizavam inclusivé a moeda. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. na pastorícia e na extracção mineira. com quem comerciavam há mais de um milénio. cobre. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. contas.

Por orientação da Coroa...beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. novas oportunidades de negócio.. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. Como todos os imperialistas. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. retrógrada e oportunista. levaram pouco tempo a desvanecer-se. agente real de Sofala. queriam muito e depressa!. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. Em 1513.”. Pedro Vaz de Soares. Como um erro nunca vem só. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas.. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. mas neste intento viriam a ser derrotados. pela sua ignorância e pela sua ganância.

embarcava-se à meia-noite. de Lisboa. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. No início da década de 70. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. quente. o mais alto 112 . húmida. no terminal militar de Figo Maduro. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. em 1498. familiar. nas margens do Zambeze. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. em Sena e em Tete. no “Boeing” da Força Aérea. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. Em 1561. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. Quando a guerra colonial começou em 1964. estranha. fresca. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. luminosa.

baixo e já com acentuada falta de cabelo. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. ─ É a proclamada multirracialidade!. o sulista trigueiro e magro. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. normalmente reservado. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. A Beira era uma cidade moderna. pendurados no exterior da rede da vedação.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. tal como Lourenço Marques. ─ desabafa o Eduardo. alto de estatura e seco de carnes. compunham um quadro de modernidade. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira.. entroncado e de estatura média. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. sempre eloquente nas afirmações. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis.. moreno.

. foi a primeira vez que lá fomos!. ─ O que estavas à espera?. dava assim as “boas-vindas”. sem qualquer cumprimento. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento.. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. quando ficaram sós.. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. mais novo. ─ O jantar começa às sete. enquanto se retirava após comer o pêro. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. ─ Sim. que já ia avançado. O criado negro andava numa fona. Chegaram atrasados ao jantar da messe.realidade. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . não atendeu logo à chamada..

. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. ─ Furriel. ─ Se calhar. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. no regresso a pé. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. ─ Pois claro. 115 . Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. onde estavam os soldados aboletados. rapazes humildes e simples. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel.. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. diziam. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. Miguel. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. Duplamente preocupado. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista... é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. Ouviste a resposta do “Furnas”?. faziam um excelente cozido à portuguesa.

gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado.. é essa a intenção. se saísse à tabela. ─ Olha o que nos espera!.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora.. ─ Quanto mais tarde melhor.. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. ─ Também pensei nisso. disso não tenhas dúvidas. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas.. preocupavam-se à volta de malas e sacos... por dentro. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. à beira da linha de caminho de ferro.. a minha mãe viúva!. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . por dentro. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários. mas a família. Dezenas de soldados e alguns graduados. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. É preciso ajudar. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista.. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.

a marcha abranda. na retaguarda. A viagem decorria na noite de sono. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. atarefadas com filhos às costas. o coração salta: 117 . como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. resfolgando. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. sobretudo mulheres de capulanas garridas.. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. trum-trum”. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. sem resposta. Duas máquinas a vapor. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. Na noite de breu. A velocidade aumentava. puseram o longo combóio em marcha lenta. à volta de sacos e trouxas. onde se juntavam dezenas de negros.. Os militares seguiam nas carruagens do meio. Eram tropas frescas a caminho da guerra. simpático no trato e já em segunda comissão. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. tinham um aspecto sumptuoso.carreira. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. o combóio pára. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. aguardando a ordem para embarcar. trumtrum.

ninguém explica. só lá mais para a frente!. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. Lá fora não se vê vivalma. irão esquecer essa doce sensação. é fresca a brisa que entra pela janela. o pessoal vai adormecendo. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. formando esplendorosos contraluz... mais duas que em Portugal. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. bem vestido e curioso. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. sonhando com a cama quente no lar distante. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. O cansaço vence a ansiedade.. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. vai ser um enorme benefício para a economia da província. Poucos dão pelo recomeço da viagem.. Duas horas da madrugada. embalados pelo andamento monocórdico da composição. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. A manhã aparece com um Sol fulgurante.

. como depois foi baptizado. a África do Sul?!. A menção do grande país da África Austral. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . o material de guerra é todo russo e chinês. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. a Rodésia. os americanos. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada.. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. Abrindo caminho à força de espada. os ingleses. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571.─ A guerra é uma coisa terrível. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou.

Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. 120 . na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. os seus métodos de governo. viriam a ditar a ruína. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. roído pelas guerras internas.. chumbo e estanho no seu território. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social.. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”.notícias fantasiosas. comportam-se como malfeitores. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. na obra já referida. a coragem. editada em 1960:.. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. ferro. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império.. A coberto das suas armas de fogo. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. como refere Basil Davidson. cobre. rigidamente autocráticos. Por volta de 1667. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. a concessão de todas as minas de ouro. O génio individual que punham nas suas empresas. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Em 1607.

”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era.. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. segundo a documentação histórica. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (.. no primeiro século e meio de ocupação? . ou do tipo negróide. foi. glorificados descobridores. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. Os seus vizinhos do interior de língua banto. E o que fizeram afinal os portugueses. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”..fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças..). quando esta faltou também lançaram-se 121 .

Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . o comboio não circularia mais de noite. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. qual cabeçorra disforme. Logo no reinicio. a partir dali. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. manhã cedo. na obra já referida ─ . ─ Basil Davidson. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. perceberam-se os cuidados no avanço. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. acabando por se contentar com o comércio de escravos”.

em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador.. calor. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!.período em pleno campo inóspito.. Cinco homens num destacamento. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. tudo na mesma! Vamos para.. O calor era intenso. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”... Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. frio. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. mas não se viam construções no horizonte visual.. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde... só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. passando fome. Do chão. como por encanto. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. ─ Vai bem. onde em contrapartida. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. ─ Isto é um buraco medonho. mas o 123 . ─ Ei! Sou do Barreiro!.

. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. endureciam os semblantes. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . barbados de dois dias.. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos.. venham cá eles fazê-la!.. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. fizemos a picagem logo de manhãzinha. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem.pior era à noite. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. ─ Então adeus! Boa sorte. com o medo de os irem “pegar à mão”. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. pondo fim à conversa. pá! Calma. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. ─ ‘Tou farto disto. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. Após uma longa curva feita lentamente.

houve risos. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. muitas. não barafustavam. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. esperavam somente. não riam nem brincavam. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. registando a chegada de dois “amigos do homem”. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. Esperavam pacientemente e não diziam nada. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não pediam. pensava que os comiam todos! Risada geral. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. só então a ganilha animou. O pessoal precisava de descomprimir. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. ─ Não te preocupes.

onde dois ou três soldados disfarçaram. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. em Tete. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra.. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. moço robusto e bem parecido. malas velhas e caixotes com galinhas. surgido do mato. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. quando viram aparecer o 126 .. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. As carruagens da frente eram muito velhas. apareceu risonho e agitado. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. quando se abriram as portas de Abril.. Olhavam surpresos com olhos esquivos. com bancos curtos de ripas. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado.. mas ninguém estava sentado no chão. ensebadas pelo uso. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. estás a engatar-me!.soldado Edmundo. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. Risonho e desmiolado. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. amontoados entre trouxas. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. grandes e brilhantes nas crianças.. O comboio era muito comprido. ─ Verdade. com divisas. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo..

os irmãos. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila.recomendava o capitão. maravilhando os olhos na beira-rio. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. homem novo. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. persistente. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. ─ Tem juízo. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. Afinal.grupo de furriéis. a namorada. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . a morteirada. os pais. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. a mãe. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. a companheira. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. a emboscada. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . Onde estarão a esta hora a esposa. a mina. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte.

exasperado. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. parecemos discípulos de Fidel!. foi instituído o “Regime dos Prazos”. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. muito cedo. oportuno. ─ Assim com esta barba de três dias. ciosamente guardada. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. para chegar à costa oriental. tinha o seu problema resolvido como sempre. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. Claro. um tenente-coronel que. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. ─ discorria o António Manuel. uma semana era passada. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico.. correndo energicamente para o vale que. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. sob a sua influência. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. 128 . atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. sujos de pó. concitando olhares curiosos..

foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. formada por Angola. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. Cabo Verde. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. para a futura abolição da escravatura. A situação só animou nos meados do século dezassete. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. separado definitivamente da dependência da Índia. com muito pouco êxito. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. quando foi incrementado o tráfico de escravos. princípios do século XVIII. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. Moçambique e Brasil. Moçambique era um território arruinado.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. dominada 129 . O compromisso assinado pelo governo português em 1815. No começo do século XVII. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. No final do século. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. mas na Zambézia. no Congresso de Viena. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. enxameou a colónia de deportados políticos.

transformando num deserto essa vasta região”. As pequenas colónias no interior. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ).pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. a ideia foi repudiada e não vingou. Mzila. cidade de passagem. na Rodésia. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. vindas do Sul. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. chefeguerreiro dos invasores zulus. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. pó vermelho e castanho. pouca gente nas ruas. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. ruas largas. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. Instalações 130 . e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. casas brancas de estilo arabizado com terraços. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. conta-nos Bryant: “Em 1860. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ).

alemães. por isso a Frelimo quer destruí-la!. entre outros. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia.militares por todo o lado. sul-africanos. 131 . tendo o eminente africanista descido até perto da foz. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. Comprido caminho de água. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete.. ingleses. o Zambeze. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. muito calor. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. é uma cidade sem espaços verdes. onde viria a falecer com febres. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. mesmo com o rio a seus pés. Meio-dia. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. na língua nativa. no lugar de Cahora Bassa. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. outra vez a malfadada ração de combate. rodesianos. ditando o desinteresse dos ingleses. Concluiu o excelso expedicionário. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. o Sol queima e há poucas sombras. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade.

─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes... garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. por isso a grande nação austral. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. na defesa da antiga colónia. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada.. A via alcatroada era um luxo raro. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. só cá venho safar o “coirão”. por máquinas da Engenharia Militar. ─ Calma! Calma! Guardem as energias.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. A estrada continuava para o Songo. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. “pró 132 . ─ E se fosses à merda!. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. O projecto hidroeléctrico quando terminado. possuidora do regime mais racista do continente africano.. ao encontro do gigante em construção. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. e. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia.

Sousa. Ao fim de quase três horas de viagem. Estar na guerra aprende-se depressa. só se ouviam os motores roucos em aceleração. a engenharia militar ainda ali não chegara. mas pouco ou nada se divisava. a estrada acabava e começava a picada. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. Soaram tiros longínquos. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. incluindo algumas paragens para reagrupamento. estávamos no reino da guerra. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. os camiões seguiam mais devagar. Em sentido contrário o trânsito rareava. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . percorridos cerca de 120 quilómetros.galheiro”! A mata era densa. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. lentamente. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal.concluía ainda o soldado-condutor. seria fácil montarem uma surpresa.

do qual se avistava o Zambeze. o veículo continuou a marcha devagar. correndo escuro e caudaloso. primeiro classificado. num portento de força impressionante.. agora outros que dêem o coiro!”. ninguém se atrevia a abrir a boca. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. alargada a alguns civis presentes. com granadas e fieiras de balas à vista. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso.. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. A guerra é naturalmente o tema central. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. A alegria de uns era a apreensão de outros. “já cá estamos há muito tempo. a lógica da campanha militar era. símbolos da tropa especial. de nome Trindade. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. construído em paliçada de troncos. poeirentos. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. a conversa continua no bar. atreveu-se a responder timidamente: 134 . ninguém saí dos trilhos. soturnos. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. Os recém-chegados. e um deles. E a guerra ficava mais próxima. * Estima: um posto de defesa na picada. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. e só agora o António Manuel. parecia muito seguro de uma intocável autoridade.silêncio.

junto à fronteira com a Rodésia. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia.─ Mas. para os lados de Mucumbura.. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?.. pelos vistos. e as populações! A acção psico. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. ─ Ah! Cá como lá. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. A todo poderosa PIDE/DGS!.. ─ António? Que nome curioso! 135 . Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade.. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. está contra nós! Vocês são novos aqui. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos.. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul.. ─ Quem não está connosco. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde.

A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .5.

Em resposta. Durante este período inicial. em 1968. Quelimane. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. tinham fortes tradições independentistas. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. Entre a surpresa e a desorientação. na região de Mueda. e os Macondes nos planaltos do Norte. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. 137 . a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. o comando das Forças Armadas portuguesas. Cabo Delgado e Niassa. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. com um ataque ao posto de Chai. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Sofala. Também o reino do Monomotapa no interior. Ilha de Moçambique). esteve circunscrita aos distritos do norte. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações.

Em Tete. O ódio instala-se. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. Valverde e 138 . e dos padres anglicanos. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. uma companhia de “comandos”. Em Novembro. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. e os Direitos do Homem. em Maio. Trindade. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. tropas da Rodésia de Ian Smith. locais e nomes. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. na aldeia de António. em Abril de 1971. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. para os aldeamentos cercados de arame farpado. pouco escutadas no entanto. Nijs e John Paul. onde.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. à época bispo de Vila Cabral. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. Em Setembro do mesmo ano. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. controlada pelas tropas auxiliares africanas. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Depois de descreverem em pormenor com datas. acusado de colaboracionismo. reconhecidos por Portugal na ONU”. Calado de seu nome.

corajosa e claramente. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. numa conferência no Reino Unido. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. sem qualquer ambiguidade. são os governantes políticos e militares de Portugal. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. Os africanos. até Novembro de 1973. costumes. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. De hoje em diante. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. Cabora Bassa Em Março de 1968. Nesta data foram expulsos de Moçambique. onde iam de férias. sem julgamento ou culpa formada.. cultura. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 .Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. raça..) O povo de Moçambique. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. em 2 de Janeiro de 1972. mentalidade e até filosofia.. são perseguidos. deveria estar a Igreja.. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. porém. torturados e assassinados. devido à sua língua..) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português.. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. (. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS.

em 8 de Março de 1968. inteligentemente. a afirmar o desejo independentista. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. A empresa construtora Zamco. vertidos no caldeirão da guerrilha que. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. rodeado por uma vedação de arame farpado. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. no dizer indígena. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. ingleses.milhão de colonos brancos. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. (alemães. em Julho de 1968.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. é um campo entrincheirado num meio hostil. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. italianos. Cahora Bassa. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. que devia ser defendida a todo o custo. etc. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. e para isso. Estima e Chipera. No concreto. assente nos aquartelamentos de Chicoa. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio.

foi enorme o efeito psicológico em toda a região. Furacungo. No dia 9 de Novembro de 1972. minas! Fuga e reagrupamento. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. minas. constituía-se em forças irregulares. eis a nossa táctica. flagelações. apoio na população. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. a Base Aérea nº 7. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. Fingué. embora os estragos não fossem de monta. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. minas. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. As notícias chegavam em catadupa. a linha de caminho-de-ferro 141 . a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. com a ajuda da República Popular da China. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. Depois atacou sucessivamente. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. em Tete. num só dia. emboscadas. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. Chicoa. 15 de Novembro de 72. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português.Moçambique.

também assumira esse compromisso. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. no eixo Beira-Vila Pery. controladas e permanentemente patrulhadas. Kaúlza de Arriaga. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. com raras excepções. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. foi sabotada na região de Moatize. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. ao longo de 8 quilómetros. A mão-de-obra rodesiana. com algumas portas apenas. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. uma tarefa que o comandante-chefe. Entretanto. pela primeira vez. O pânico instala-se e. 142 . e em 25 de Setembro de 1972. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. Kaúlza de Arriaga. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. e os técnicos sul-africanos e europeus. cinzenta e castanha. O comandante-chefe. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. divisava-se o rio escuro e caudaloso. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. com uma força desconhecida. separando inexoravelmente as duas margens. silenciosa e traiçoeira. Deste lado a vegetação era escassa. Assim se entretinham as forças portuguesas.

certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. conta-se a meia voz. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. Foi há uns três anos. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. nascida e crescida sob a protecção das tágides. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. mas mais acima houve um desastre terrível.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ Aqui não. A água de um castanho terroso. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. companheiro de 143 . ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. mecânico de armamento. causando arrepios a viagem entre as duas margens. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal.

descaiu para a frente a meio da viagem. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. por certo deficientemente escorado. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. a jangada entra em estremeções. o camião desliza mais um 144 . ajoujado de carga militar. e aumenta também a trepidação. o alferes Baptista resolve intervir. onde a água era mais agitada. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. Um camião “Fargo”. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. aproximando-se da extremidade sem anteparo. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura.formação do António Manuel. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada.

cinco ou seis homens. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. em desespero. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. outros procuram nadar energicamente para a margem. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. ou porque não tinham meios de socorro. a jangada porém. com comando mesmo errado. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. a corda que prendia a viatura partiu-se. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. no meio de uma gritaria medonha. Com um formidável estampido. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. o abrandar fora fatal. Sem comando não havia acção. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. ficando suspensas no vazio. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades.

a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. provocando o deslizamento da segunda viatura. em poucos minutos. Ao todo. Uma noite mal dormida em cama emprestada. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. mantimentos e munições. . soldados e nativos. * A tarde chegou ao fim. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. um sono em vigília despertando ao menor ruído. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. Tudo se passou rapidamente. mas os restantes corpos nunca apareceram. Alguns nadadores atingem a margem. numa operação cuidada e lenta. na messe. Por isso a trasfega não fora completada. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. material de guerra. que arrasta consigo mais alguns homens. era um sol diferente.Ao serão. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. 101 soldados e graduados. e 146 . O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte.mais abaixo. Metade da Companhia tinha feito a travessia. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado.

mesmo que cheire a gasóleo.... são por vezes replicadas. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS.. bagagens. houve um acidente com muitos mortos. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. .. ─ contava um furriel operacional da companhia local. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. os três amigos não se afastaram da zona do motor. com malas.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. aqui quando chove. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar.. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. amigos. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. prestes a ser rendida ─ Sim. 147 . À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. Numa das primeiras viaturas. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. Mais mais para montante. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. homens e armas. o rio faz favor!. Se houver alguma coisa. Parece que não!.

que daí a pouco já se percebiam distintamente. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. peremptória. ─ Neste sítio não é provável. Na luminosidade da contraluz matinal. metálica na extremidade. No silêncio ensurdecedor. inquieto.* Reinava uma estranha calma na Natureza. nem piar de pássaro nem som de animal.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . ─ Continuem a picar. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. não-operacional mas com algum traquejo da vida. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. embora ocultas pela folhagem densa. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. com um timbre familiar.. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. ─ Mas. meu alferes. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa.. Calaram-se. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada.

. Baumm!. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. embora nítido.. o negrume cerrado da noite africana. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.... enche a noite quente de Verão. três rebentamentos Baumm!. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. era 149 . Baumm!. Trrrr... ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região. O batuque vai começar.. Trrrr. propôs o empate.... ─ Parece estar a acontecer algo de grave... Sierra.. Alfa. Sierra . ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção.desde o destino final. Mike.. Sierra. Trrrr. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. António Manuel. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. dois.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco. mesmo jogado com pouca convicção. vestido a rigor de camuflado sarapintado... os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez... fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. o parceiro das partidas escaquísticas. a guerra continua O som distante e abafado. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa. Bravo .” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes.. Alfa... para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa.. Tango .

. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência.. * Manhã cedo. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. na noite anterior. em Agosto.. a messe e a porta de armas.. Baumm!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). madrugada ainda. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados.. com uma experiência de oito meses.. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. e fazer o reconhecimento da zona. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. ─ A seguir somos nós!. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder.. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. Os rebentamentos não cessavam. os “turras” mandaram só umas morteiradas. a cantina. ─ Foi assim. Já há três dias que fazem sinais nos morros. A 150 . Baumm!. vozes abafadas. iluminado por fraca luz interior.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório.. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos.

. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. ─ acrescentava o Sousa. cândido por feitio. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. havia dois feridos graves.. que ficara sem um pé. o pelotão já partira.. a partir de Chicoa... o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. esteve comigo na recruta em Mafra!. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. Ah! Aí está.. Agora o sono cortado vencia a emoção. levantando-se desaustinadamente. nomeadamente o comandante. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. ─ com a metáfora. com ar de desaprovação. eludia o sobressalto.. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. À noite. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. Ao lado.. A fisionomia era-lhe familiar. concluira João. agora já cheirava a sangue. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. fazia uma 151 .. João .. ─ observava o António. o alferes Yota. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. Mas. ─ Yota?. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. À hora do jantar chegou a terrível notícia. ─ Nada.

que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. o trabalho na fábrica. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. o 152 . o mais sulista do grupo. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. parte maior das agruras da distância. no interior de uma África estranha e quente. como faz o Movimento de Libertação!. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. embora algo sentimental.. quando elas começarem a “cantar”. assumia a contradição. violentados. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. ─ A realidade é tão chocante. a discussão prometia. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios.. Aos milicianos chantageiam com as férias.. nas populações e nas nossas tropas. No teatro de guerra. onde deixara a esposa jovem. e estas crianças andrajosas e famintas!. Idealista. sofria a saudade da Pátria distante. desde muito cedo. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. de estudos e vivência..ideia diferente! ─ Sousa. Talvez mais cedo do que tarde!. ─ A guerra colonial tem os dias contados. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. dava-lhe uma consciência aguda da situação. A História não pára e o Mundo avança. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis...

medo misturava-se com a revolta. tentando detectar qualquer indício identificador. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. na dilacerante guerra de guerrilhas. entre morros altos apertando a vista e a alma. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. indiferente aos dramas dos homens. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. de pele branca. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. a luminosidade 153 . punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. O aparecimento de “very-lights”. A Natureza. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. * Havia um mês que ali estavam. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. ao fim da tarde era sinal de alerta. tal como ao mundo chegou. em 1970 e 71. temendo o perigo iminente. que também ali se construía. pois era sua a decisão táctica. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. ainda que disso nem todos dessem conta. repetido como um eco por várias gargantas em aflição.

cobertas com telhas de fibrocimento. devido à forte influência da guerrilha na zona. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. Deixava o interior das instalações militares. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. fora destruído e abandonado há alguns anos. começaram a voltar às casernas. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. Pouco a pouco. Era assim no coração de África. torturados pela inclemência solar. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. O alarme soara falso. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros.quente impressionava ainda a retina. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. Constava à boca pequena. 154 . ou de zinco. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. como eram conhecidos na gíria militar. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente.

O novo comandante do batalhão recém-chegado. outra 155 . em grupo. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. tão-pouco adolescentes. remoendo as dúvidas e a desconfiança. um major mal conhecido e mal encarado.. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. Estavam em grupos. dispersos entre brincadeiras ocasionais.. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. por questão de segurança. nem havia setas envenenadas. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. para matar a fome. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. A excepção eram as moças novas. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores.. Ao quarto fim-de-semana de estadia. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. combinou-se uma visita à aldeia. que na tropa não se podia abrir a boca!. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. com corpos musculados e peles luzidias. vestidas com capulanas de cores garridas. Recentemente. autorizara o batuque aos sábados. trazia à memória os célebres filmes da juventude.. Ali não havia selvagens de tanga. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). da saga “Tarzan. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. Envenenado estava tão-só o ambiente. local mais calmo e “arejado”. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. o homem macaco”. para manter o ânimo das populações!.

assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. com menos humidade. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca.. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. Decerto clientes de “cuspo”. rompendo o soluço. 156 . a noite chegou mansamente. Afinal não tinham ficado para o batuque. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. ─ Talvez tenhas razão. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. eventualmente!?.. Porventura. aquele era um clima muito seco. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. mais perto do Índico. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta.profissão rendosa. com divisas. a de lacaio da administração colonial.

E quem concordava? Muito poucos. bem no interior do istmo central moçambicano. daqueles. ligados por atalhos ainda não memorizados. pelos vistos. O aquartelamento é grande. o batuque ia começar na aldeia. dispersos e muito afastados. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. patranhas e acção psicológica. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. e para sul até ao aldeamento. a guerra continuava. Na noite escura por caminhos esconsos. com uma única saída para a picada. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. Ao todo são oito postos de guarda. uma área enorme cercada de arame farpado. e. aprendido há poucos dias. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. a alma aperta-se e os sentidos despertam. É a primeira ronda de serviço. Desde essa data. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. poucos. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo.

acidentes ou fenómenos naquele local. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico.. ─ Achas provável? Nunca constou!. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. De repente a chuva 158 . eventos. antes de desabar uma curta tromba de água.. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia.. todos os acontecimentos... paciência!”.tiro!?. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!.. Abafava-se no quarto completamente fechado. não! Pois. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. O coração acelera desordenado. o sobressalto aperta-lhe o peito.. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto... não quis dar parte de fraco!. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. reportavam à guerra. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. João vai avançando de modo inseguro. ─ Pois.. não! Na Guiné. Sousa olhava o tecto.

─ Quem vem lá? Alto. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua.”. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. Fundindo-se na terra. tão radicalmente como tinha começado. esfumou-se na noite. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. Nenhum som. nenhuma claridade ofuscante. com reflexos azulados e avermelhados.. nenhum rumor distante. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. o jovem militar. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. 159 . apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. O receio esfumava-se. no caminho do segundo posto de vigilância. A velha África das origens humanas. por miríades de riscos ziguezagueantes. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul.. rasgado a muitos. siderado.parou. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. muitos quilómetros. coloridos em tons de prata e ouro. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo.

ponho-me para aqui a contar os raios!.. meu furriel! Conhece? ─ Não. ao longe. E é espantoso. * 160 . não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra.. Pregou-me um susto. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel... ─ Aproxime-se para verificar!. apertavam como tenazes o coração dos homens... Ah! É o furriel da secretaria. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. fugaz. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?.. açoriano como a maioria daquele batalhão.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite.

certamente superior à poupança. com prejuízo dos alimentos perecíveis. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. durante a manhã após o serviço de ronda. Gestão tropeira.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. suspeitosamente simpático. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. e pronto! ─ Deixa lá. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. com o chefe da secretaria. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. Valia o facto de ter combinado a compensação. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. agora é só ensaio. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. justificas ao capitão. o correio era o elemento existencial mais 161 . Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas.

O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. comandante de companhia. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. num circulo nauseante de imponderabilidade. como iria ser o dia? 162 .. Após uma pequena entrevista no alpendre. O centro de gravidade do corpo leve.. A desconfiança suplantou a curiosidade. Fora uma noite premonitória. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. meneando a cabeça.. exibindo-se papéis.transcendente para aquela rapaziada. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. mandadores sem lei. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.”.. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.

6. 163 . DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?...

Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. depois do primeiro choque. com modos de polícia. ─ observava. nem uma explicação. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. o oficial alto e escuro. de G3 pronta... ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. Tinha até ordens para o algemar. amigo das ideias. Começava a ficar irritado. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. Alguns camaradas observavam atónitos. o amigo ao receber religiosamente o material. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. O comandante interino do Batalhão. nem um mandado. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. mas ninguém tinha dito nada ao visado. percebendo que algo de 164 . não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”.. Nem mais uma palavra.. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. candidamente. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. isso vai afectar o moral dos homens. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. um major que mal conhecia.

Até sempre. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!.. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. de que falava a mensagem. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. agora com uma cama vazia. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”.. sem coragem para comentar na hora da despedida. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. pelo despotismo do comando militarista. a calma em pessoa. onde o dia-a-dia continuava tenso.. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. Olhou-o com ar reprovativo. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . empertigado. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. Em Chipera. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. em jeito de despedida. ao fim da tarde igual. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. trata-se de um indivíduo perigoso. está enganado! ─ “Meu tenente”.. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento.. se não se importa. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado.grave se passava. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”..

com um ar distinto no ambiente despojado. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. da barba feita com lâmina inusitada. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial.circulando subterrâneas. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas.. Horas depois. No outro. da delegação da PIDE/DGS em Tete. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. Por detrás da secretária da sua importância. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. perturbantes e insidiosas. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. afirmando também a voz. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. o jovem alto e magro. A cela dos fundos da delegação. era compartilhada por um negro ainda jovem. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu.. Era um homem já 166 . vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade.

─ Nhambo! Que tá fazendo. curtido pelo sol africano. acha? 167 . ─ Fique nessa! Tem mais luz. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. embora encorpado. sem qualquer divisória. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. colocados a um canto.maduro. Retomando a tarefa de limpeza do chão. senhô! Gosta de ver limpo. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. com um tom acastanhado na pele exposta. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. rapaz ainda. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. mostrando ser o mentor da cela. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. única abertura para o exterior. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. Junto à parede contrária à porta de entrada. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. Um mainato muito jovem. né! ─ respondeu o jovem corpulento. ─ Sim. estavam estendidos três colchões de espuma fina. ─ Não tem mais tronco.

quase fugaz.. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. mas adivinhava-se uma bola magnífica. num trejeito efeminado: ─ Vá. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem .. Aberta em cima da cama de circunstância.. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem.! ─ acrescentou. não seria conveniente. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade.. com uma cor amarelo-alaranjada. De vez em quando. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . ─ interrompeu a resposta. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. para de novo pousar os olhos no chão. às voltas com uma mala preta de plástico. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. saindo a menear o rabo nutrido.─ respondeu o miúdo a sorrir. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. ─ Eu sou fulano de tal.. que lhe tinham trazido há minutos. e 168 . que não deixava perceber o “fio da meada”.. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. deixava ver a farda recentemente despida. a cara redonda e luzidia. manipulada para retirar o pijama.. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. resplandecente e implacável. ─ Eu sou Silveira.. furriel do Exército português . cegando quem ousasse desafiá-la directamente. na tarde quente e esplendorosa. num breve instante. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene.

. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar.. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. como recomendara a jovem esposa com carinho. desviando o olhar súbito. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. na direcção do mictório. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. provavelmente!. lhe arranjara. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . depois de confirmar a identidade. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. De súbito. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. ─ comentara João. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer...”. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. acrescentou ─ venha comigo.mais não disseram. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”.

gosta de viver ao ar livre. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. Os dois primitivos residentes da cela. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. percebendo certamente ser transitório..─ Chico. é claro!.. não é necessário. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE.. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. ─ Como assim. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. olhavam curiosos para aquele “luxo”. O coração. mais do que a cabeça. e aos meus camaradas de tropa. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. com indicação de posterior devolução. escreva só a morada de destino do telegrama. ─ Deixe estar. menos bem desenhadas do que era costume.. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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Ansumé ficara arrasado..! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio... desorientado. Talvez sejam mulheres. sobretudo brancos. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. no Norte.. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. No ar perpassava um fluído etéreo. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo.. ─ Também ouvi. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. sim. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. activos e combatentes. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. LOURENÇO MARQUES. com a G3 caída ao lado.. Faltava uma bala no carregador.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. A inquietação não permitia apreciar 178 . com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente.

pormenorizadamente a paisagem. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. roubando o ângulo de visão e a serenidade. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas.. O polícia dava mostras de nervosismo. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. Talvez fosse. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. onde a geografia era mais agreste. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro.. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. rumo à “Vivenda Algarve”.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!.. 179 . ─ Temos de ir. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. percebendo-se as sucessivas modificações da flora.. nem sempre concretizadas. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. no coração de África. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência.. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. desde Tete. a sede da PIDE/DGS. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. nem sempre concretizáveis. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. até à sede em Lourenço Marques.. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele.

pois não queria. em Tete. nem asseios. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. nada!. A cela com 2 x 4 metros. protegida por uma rede metálica. na confusão dos dias de angústia da prisão. num canto. 180 . a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques.. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. Chipera Velha. Mas a solidão e a insegurança presentes. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos.. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. Era todo o mobiliário existente. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. que substituíram os dias de angústia da guerra. não podia fraquejar. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. nem utensílios. onde estava enfiado há mês e meio. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração.

mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Voltou o silêncio profundo. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. Tal. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. não seria prudente. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. porém. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. humanamente insuportáveis. até que o assobio reapareceu. Reinava de novo o silêncio. Apurou o ouvido. puxado entretanto.Batendo as asas na noite calada. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. que reconheceria em qualquer parte do mundo. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. paralelo e gémeo. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar.. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C.Acordou (quanto tempo depois?).. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. 181 .” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias.

Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. até à comoção das lágrimas. na Faculdade de Ciências.eles comem tudo. o Paredes. o Ary. o Braga. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. eles comem tudo. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. SARL. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. SARL.!”. 182 . O anúncio de um título bem imaginado. à rua da Escola Politécnica. O Zeca. encostadas precariamente. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. que tinha a coragem de ter medo. cantaram e recitaram.. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina.. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. aquela noite de coragem e fervor antifascista. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. tocaram. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor.

. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. tratando-se de uma nomeação interina. ─ Põe o barrete. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique.. um tenente-coronel. O segundo. mal tinham acabado de chegar. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. por ordem cronológica. numa estranha itenerância nómada. em menos de quatro meses. fora reveladora da mentalidade militarista.. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. O novo comandante. era como a maioria dos oficiais-generais. Andando de quartel em quartel. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. em meados de Outubro. O primeiro comandante. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. pá! O 183 . pá?. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. era o terceiro.. meu comandante.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. de “guerra em guerra”. Em suma.

pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. do comandante-chefe. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. Para estes. noutras. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. até 184 .barrete é para usar. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. general Kaúlza de Arriaga. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. com um soldado sem pés. dois com a guarda pessoal. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. Chiça!”. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. quatro helicópteros. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. Por isso. as meias a três quartos e a continência. e. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. “Filho da puta. era o aspecto exterior do aquartelamento. a trabalharem nas limpezas. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. as únicas preocupações são o barrete. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. procurando neste caso dividendos imediatos. com três feridos graves como primeiras baixas. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). foi muito elogiada a “fachada”.

Alguns. porém. questionavam-se segundo o velho aforismo. era uma questão de tempo e de meios. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. agora o resto era com o poder político.. analisando com consciência a realidade conhecida. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. aliás. Contraditoriamente. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. como estrategicamente se tinha proposto. Deus me livre!”. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. não passando. e quanto aos meios. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada.sucumbirem!?. no Niassa a actividade terrorista era residual.. Os militares cumpriam o seu papel. estavam cansados de tantas comissões. apesar da 185 . a guerra não parava de evoluir. a barragem em breve seria um facto. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Os objectivos em curso seriam cumpridos. O tempo jogava a nosso favor. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. Aliás. em Manica e Sofala. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. para sul do rio Messalo. Não acreditavam naquele optimismo todo. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”.

O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. afinal. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. e. em Março de 1973. em Cabo Delgado. e. No Norte. em Maio. em Abril. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. na direcção da cidade da Beira. chamado a Lisboa em Julho de 1973. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. atacou Estima com foguetes de 122 mm. mas. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. tomando os desejos por realidades. em Maio de 1973. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. A guerrilha atacou Vila Gamito. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala.fraqueza anunciada. megalómano. O general ultranacionalista. Não era grande coisa. por essa altura. não isenta de grandes contradições e inconsequências. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. em Junho. Machava. prisão da 186 . minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. como todas as outras.

PIDE/DGS em Lourenço Marques. obrigado! Não se incomode. composto de muitos dramas solitários e isolados. magro.. a esta hora já não se pode fazer nada. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. ─ Deixe estar.. A conversa continuou durante alguns minutos. constatando. de tão inesperada. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. de bigode fino e voz nortenha. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. causava alguma perplexidade. entre as quatro paredes caiadas.. falando de bons modos. diálogos breves.. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. O guarda prisional. Não era o mesmo da chegada. Mas deixe estar. porventura maiores que o seu. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. nem o jantar me trouxeram!. Não obteve resposta.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. Mas. portas abrindo-se e fechando-se. de estatura média. 187 . eu já volto quando terminar a ronda. bateu com força na porta de madeira. Novembro de 1972. ─ Coma.

Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa.Quando voltou a recolher o púcaro. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. ─ Cá estamos.. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível.. que se passará? ─ a questão 188 . ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto.. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. A seu tempo. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz... querem ver que está feito com a PIDE?!. ontem fiquei preocupado. Vagamente.. ─ no limiar da porta. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos..”. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. como exigiam as regras. trouxe bananas (a comida era péssima). Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente.. esperando melhores dias!.

como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. trancados e isolados em pequenos espaços. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. Vindo do fundo do corredor. Em pouco tempo. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. porque o guarda não mostrou surpresa. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. ficava um calor insuportável. dou em doido!”. 189 . porém. De facto. abafado e húmido. Depois fez-se silêncio. sem esperança.. ─ Vou ver o que se passa. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. logo abafadas por a porta ter sido fechada. anjo ou demónio?”. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. durante toda a tarde e início da noite. lamentoso. O tratamento normal da polícia é não dar comida!.devia ser muito ignara. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo.. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. provocando uma enorme tensão. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre.

. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. De resto. muito abalado pela alimentação deficiente. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. mais velho de aparência. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. de costas na enxerga. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina..Num momento de nostalgia e saudade.. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. no quartel da Xefina! ─ E você. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage.. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos.. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta.. a sonhar com a liberdade roubada. acordado. a aguardar as visitas prometidas. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. aparecendo o guarda com um sorriso. 190 . e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. isto aqui não interessa a ninguém. na janela. por “actividades políticas”. Quando já descria. Olhando para o exterior. Mesmo agora. era nítido o desenho das palavras na contraluz. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes.! ─ completava o furriel. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole.

tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. dir-se-ia uma acentuada palidez. ─ Bom! Temos de acabar.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. procuraram transmitir algo. guarda Cerqueira. passando lestos pelos circunstantes. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. ─ Não! Não! Você. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. não pudemos abusar da sorte. o pastor Manganhela. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. prestando atenção. ao 191 . ficando sem expressão. ─ Sim. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. não fora o paradoxo de cores. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. sorrindo... o guarda prisional. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. Os olhos faiscaram um fugaz terror. com comiseração e espanto.

satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 .. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. Instintivamente. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. Os restantes presos ganharam alento. esticou no chão o corpo inerte. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. reteve por instantes o olhar no único branco. a face de outro homem negro. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante.. Autoritário e brusco. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. ─ Já disse. com óculos verdes graduados. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. já bastante enrugadas.homem preto que acabava de cair abruptamente. fumando boquilha. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. maduro de idade. olhando sobranceiro os detidos. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. Ao percorrer em silêncio a sala. eu trato disso!”. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. À excepção do jovem branco. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. a fazer-se desentendido.! Ao dizer isto. colocando-a por debaixo da enxerga.

. alto e de barriga algo proeminente. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. O director continuava a cirandar na pequena sala. ─ não pode completar a frase. ─ Bom sabe. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. Acompanhava directamente. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política.. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. interrompida de forma abrupta.. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. suspensa no curso da resposta.. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. cabelo grisalho. ─ Ora isso é o que iremos ver!. precisa de ocupação!?. o processo do pastor Zedequias Manganhela. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director.. branco nas suíças. senhor director.. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. aparentando uns prováveis sessenta anos.. ─ Sim. detido desde Junho de 1972. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. ─ ameaçava António Vaz.

.. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. O “anjo da guarda”.. Na minha mala.. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos.─ É a primeira vez que cá venho. de roupa. quente e envolta na ligeira 194 . vindo do teatro de guerra.. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. Cerqueira. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. de alguns livros!. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”..

ou um tenebroso 195 . e com grande prestígio na Europa. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. conforme a versão oficial. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). devotado à sua missão. ameaças. nunca provada. Suicídio. numa zona onde não havia guerra. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. terror psicológico. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto.neblina africana que aplacava a inclemência. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. Foram seis meses de interrogatórios. humilhações permanentes sobre um homem idoso. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. de colaboração com a Frelimo. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. o guarda-fiscal. sevícias. Zedequias Manganhela era um pastor. onde Manganhela permanecia em isolamento. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. nunca se saberá. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável.

assassinato? Em qualquer dos casos. foi um crime de morte matada. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. os seus mentores e os seus mandantes. 7. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 .

já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. denunciado em meados de 1973.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. por ajudar. do guarda prisional Cerqueira. soube-se a dramática história da prisão. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. muitos presos políticos na cadeia da Machava. a 9 de Setembro de 1974. A 197 . tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. quiçá salvar.

muito sangue!. num pesadelo de tiros. perseguições e sangue. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. correrias. chamas. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. agora com o futuro tão incerto. Quando o avião. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. fumos. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. com escala em Luanda.. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. Com a recusa da carta propositadamente escrita. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. ─ Não. um DC-6 da TAP. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . na sua incansável solidariedade.. Abriu os olhos. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. gritos.

homens de um lado. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. Os aldeões são divididos em dois grupos. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. Tratava-se de uma área muito povoada. e. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. um tenebroso 199 . com muitos aldeamentos dispersos. Chico Cachavi. num repente. não levou a conclusões. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. próprio da época das chuvas. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. Por volta das 14 horas surgem. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. mulheres e crianças do outro sentados no chão. como represália. quando procura o mato. e. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. Chawola e Juwau. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. distantes entre si poucos quilómetros. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente.

jovens donzelas são arrastadas para o mato. o aldeamento é completamente destruído. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. O sangue enlouquece a soldadagem. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. fica juncado de cadáveres. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. Foram os padres daquela congregação. O rio Nyamtawatawa. perante a passividade de sargentos e oficiais. para além do que pode entender a razão humana. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. Juntaram depois as vítimas numa pilha. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. que organizaram o primeiro relatório 200 . Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. que depois as diriam ao mundo. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. uma mulher grávida é esventrada. Pedro. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. distante cerca de quatro quilómetros. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. mutiladas e mortas. e. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. crianças chorando são mortas a pontapé. A tropa completamente ensandecida. violadas. surpreendendo os habitantes incrédulos. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. um afluente do Luenha.torcionário do recrutamento provincial. à entrada de Tete.

haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. finalmente. ano e meio depois. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. e sobre Wiriyamu. em 19/12/1972. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. três dias depois dos acontecimentos. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. nomeadamente ao comandante da ZOT. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. coronel Videira. traje alegre vestido para afugentar 201 . alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. desumanizados e corrompidos até à medula. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. em Julho de 1973. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. aconteceu quando. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder.sobre Chawola.

com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante.. Caxias. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. para iniciar uma nova e derradeira viagem. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?.. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. na natureza e no seu coração. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. Ficaram para o fim. essa é uma matéria reservada. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. Lá em baixo à espera. 202 . percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado.... ─ Desculpe. Da companheira não havia sinal. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. agora tinha iniciado o interrogatório. por isso está como está!.. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. depois de todos os passageiros terem saído. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio.“maus olhados”.! O agente. em Caxias.. estava uma carrinha da PIDE/DGS. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. o mundo está cheio de ateus.. onde acabara de ser identificado e fotografado.

Também estive na guerra do Ultramar. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. Divisavam-se várias portas fechadas. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. interrompido por outra porta de ferro gradeada. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. o som metálico da lingueta da fechadura.─ Fiz-lhe uma pergunta. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. o grande responsável. ─ Ah! É verdade. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. outra campainha. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. você é militar. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. e o meu tipo de sangue. as da minha esposa. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . Por detrás tem as minhas iniciais. apenas o corredor comprido e silencioso. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro.

propício à desmoralização psicológica do preso.um palmo e fazia uma cara-de-mau.. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano.. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. fraca. uma lâmpada de filamento. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. gradeada. criando um ambiente soturno. isolado do mundo. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. em Mafra. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. ─ Não sei do que está a falar. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. Por cima da mesa. como depois se perceberia. ─ Ah! Não sabe!. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. por vezes reduzido.. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário.. em Dezembro de 1971?!. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. numa fisionomia naturalmente ruim. por onde eram emitidos sons gravados.

Começava a tortura do sono. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. chamava-se o “moínho”. por vezes o safanão. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. criando uma pressão terrível. impedem o “fechamento” completo do cérebro. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. um aspecto de símio de pernas arqueadas. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. polícia manhoso à maneira antiga. a tosse de catarro ou o pigarrear. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. para além da fracção de segundo. sobretudo na alta madrugada. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. o preso é sempre o mesmo. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. faz favor! Eu não o ofendi. ─ Respeito o quê.

com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. instantaneamente parado.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada.. O efeito é terrível.. o coração “salta do peito”.. silencioso. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. hem! O mundo desmorona-se. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. Àquela hora o sono apertava. para acordar logo de seguida em sobressalto. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado.. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. o preso desfalece instantaneamente. os ouvidos zunem ensurdecidos. * 206 . o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. O sádico pide continua a sua nova táctica. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!.. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. A partir daí a tortura é dupla..! O agente sentou-se estranhamente calado. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. a respiração é travada num doloroso nó na garganta.

.. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. preocupado com a aparência para infundir respeito. no Curso de Oficiais Milicianos. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. nunca levantando a voz. um porte de alto funcionário do Estado. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. O chefe-de-brigada chegado no séquito. Adelino Tinoco. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. depois do inspector superior da PIDE/DGS. só traída por um pequeno esgar. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. mas não tinha a certeza. quando mencionou o senhor doutor. encarregou-se de clarificar a situação. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. gravata e sapatos reluzentes.. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível.. o “senhor doutor”. não precisou de muito!. e por um ligeiro sorriso cínico. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. ─ Não sei porque estou preso. ter saído 207 .

O senhor é uma pessoa inteligente. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. vamos tratar como pessoas civilizadas.. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. não! Por favor.. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 .. ─ Violências. ─ Vá. não vale a pena perdermos tempo... a não ser. propositadamente: ─ “Senhor doutor”... O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. ─ o pide calmeirão. se não conta tudo não vai dormir hoje. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. foi uma pessoa simpática e colaboradora. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão.! ─ Ia dar o salto. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”.

fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. perto de Vilar Formoso. Estamos de visita! Não podem.! A brigada da Guarda Fiscal. o resto fiava mais fino. Um pequeno prurido de remorsos. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. prostrado de joelhos. avisada. um sujeito fulano de tal. Encontrei-o uma vez em Lisboa.. fazia o papel legal. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação... apesar das suas reticências. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. por favor! ─ Mas!.. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. Calou-se. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. deixando-o ofegante. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação... doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. ─ Vá. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. Estava muito calor em pleno Agosto.

─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. é claramente provocatória para impressionar o detido. em Dezembro de 1971. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso.. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino.. 210 . fale! ─ este é dos “pides maus”. todo encolhido.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. pinturas-quadros humanizados. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. onde antes só estavam manchas indistintas. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. pequenos baixo-relevo estilizados. O “SENHOR INSPECTOR” Um. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. são figuras de bichos. penteadinho e bem vestido.. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. em Mafra. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas.

─ Desconheço esse assunto. não resta alternativa. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. em Dezembro de 1971. é a primeira alucinação.. ali estava um exemplar do “Avante!”.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”.” ─ Esse canalha!.. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar... Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. não vale a pena negar! Além disso. surpreendentemente. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. fazia precisamente um ano. desdobrou uma folha de papel fininho e.

Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. já a madrugada ia alta. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. O pide pequeno e feio. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. aludira. Até amanhã. Passaram as horas. Silêncio! Não entrou ninguém. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. bombista!”. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. já disse! ─ sacudindo-o 212 .Tem mais 24 horas para pensar no assunto. Adelino Tinoco. caminhando. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. ─ A partir de agora fica sem cadeira. Junto da sua cara. que até os tinha formados em Psicologia. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. Encostado às paredes foi caminhando. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. como o torcionário-mor. com um bafo acentuado de álcool. Como uma mola. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. o que permitia ir calculando o tempo). a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos.

─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. voltou as costas e desandou.. e com um emblema na lapela. como de costume. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . o “superior” teve uma ligeira hesitação. deu origem. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. não tem cara para levar uma bofetada!. de bom corte. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. Um “pide-bom”. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”.. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. com ar muito solene.. no instante seguinte. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. alto e de meia idade. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde.violentamente. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório.. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. bem vestido num fato azul-esverdeado.

abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. de onde chega uma luz de sol 214 . no quarto dia consecutivo. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado.. não tenho nada a ver com isso. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica.! Alucinações frequentes. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. sob o mando directo de Salazar até 1968. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade.. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. eram mitigados. muito íntimo do director Silva Pais. ameaçador. as paredes deslocam-se. com Marcelo Caetano no poder. desaparecem. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. quatro dias. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. Agora na década de 70.

magnífica. pouco antes da mudança de turno.. O preso avança às cegas para um precipício. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. além do oceano. única saída para a liberdade urgente.. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. acima do mundo. Quem dera poder dormir um pouco!. semiaberta.” Passa o tempo a olhar para o preso.. Todas as noites.. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. vinha um 215 .. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. não conseguia adormecer. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. sobre o rio.. por isso bebeu só uns goles.. mentecapto. onde a vida continua.. mais um passo ansioso e . com ar arrogante e meio imbecil. só abre a boca para ditar ordens e regras. Ao fim de quatro dias de privação do sono. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. O vigilante calou-se. O café da noite tinha um gosto esquisito.” ─ Afaste-se da janela.

. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. sem querer. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. fazia frio à noite. obrigado. porque de repente. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. vindo não sabia de onde. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. ─ Interessa. A falta de descanso do cérebro. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. não é? Sentia uma tremenda excitação. daí as alucinações. Mas isso não interessa. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. apetecia-lhe conversar. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada.. produzia a perda da noção tridimensional.. conversar!. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. Hoje é o primeiro dia de Inverno.. juntava-se a confusão do tempo. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. 216 .. Sabia bem aquela bebida quente. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. com as paredes a afastarem-se ou a caírem.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante.. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. calha bem!. quase euforia. vamos é saber da sua disposição.

─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. Já temos uma filha!. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. ninguém me mandou.. também estive na guerra.. não respondeu logo. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. ─ Você. nem o Deus em que não acredita. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você.. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. contava todos os pecados. fazem agitação contra a guerra... um homem católico. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. não estou a par! Mas. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos.─ Não sei. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . dizem-se pacifistas. e no entanto vão lá. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. sabe.. por onde vultos furtivos se escapavam. foi uma força de expressão. em Angola!?. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta.

Nem o chefe-de-brigada. tantos que tinha alucinações tremendas.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa.. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. não vou!. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. ninguém! Parecia terem esquecido o preso..se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. Por agora as dúvidas foram vencidas. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família.. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.” martelava-lhe o cérebro doído. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. por estar para ali a falar com aquele carrasco. faz ultrapassar o período de fragilização.. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. impedido de dormir há muitos dias.

e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. quando a revolução esmoreceu). SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. anos mais tarde.. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. segundo dizia. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. chefe-de-brigada. ligados ao Partido Comunista. Passava largamente da meia-noite. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. Calou-se o agente de cara redonda.. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. vamos buscá-la para esclarecer. (mas ficaram quase todos bem na vida.. com a entrada triunfal do inseparável séquito. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. por não ter arranjado melhor!.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. quase euforia. (inspector. comprometido. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. Facto curioso. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. em Alcântara. SEIS..

. a aprofundar a angústia dilacerante. misto de revolta e de desalento. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. manhas experimentadas da polícia.. pavor. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão.. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!.vontade. subindo pelo peito até ao cérebro. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. não posso!. Nascia um estranho sentimento novo. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. Que dia seria hoje. ─ Se os documentos não são seus. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . pela impotência perante a situação. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. quase gritava num acesso de raiva e de desespero..” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. Raiva.

sob constantes ameaças dos pides. entrado a meio da tarde. a investigação ia no “bom caminho”. eu logo lhes dizia!. os comunistas de merda.. O detido já não liga às provocações. ─ Comigo. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. julgando-a mais distante. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. Apetece-lhe vomitar.papel sujo. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. em pé horas e horas a fio. a tortura do sono ia continuar. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. bate desamparado contra a parede. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. já lhe disse! Se insiste. O inspector Tinoco retirara-se impante. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. o “vaidoso” e o “atarracado”. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. O preso caminha encostado às paredes. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . há muito perdera a perspectiva tridimensional. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. desritmado. desfaço-o a pontapé!”. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”.. Sem cadeira para se sentar. como você. A respiração pela boca torna-se ofegante. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas.

Estava sinceramente assustado. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. Muito tempo depois. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. Sim. firme e 222 . gente de excepcional coragem. claro.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento.. é ainda um homem novo. mas nem todos tinham essa fibra. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. talvez. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça.. Sentia-se verdadeiramente mal. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. não tem o traquejo dos “duros”. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. a confusão.. mas com os pés cada vez mais inchados.. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. ─ Sofro do coração. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas.. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. Não há milagre.. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro.. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. já meio recuperado. Ah! Se pudesse saber que a companheira.. hoje celebrados como heróis. a família!.

nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás.. criminoso. chantagista. tinha obtido do “seu” médico e amigo. jamais olvidado. canalha. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. torturador requintado. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. ─ Sofro do coração. o “senhor inspector”. torcionário. carrasco. fascista . mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.determinada.. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. Não tardou de facto. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. ontem ao 223 . o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. poupando energias. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. embora verdadeiramente ameaçada. com o ar mais angelical do mundo. ─ Então. nazi. Devido ao cansaço. hipócrita. facínora. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. Na tarde do 6º dia. até porque na altura outros apoios foram recusados.

estava atrás do chefe pronta para saltar. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. a olhar interessado.. o peito sufoca. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. : “Prenderam a minha companheira!”. com esgares de riso. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. Já não conseguia levantar-se. Até o agente de serviço já não implicava. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram..serviço de Salazar e agora de Caetano. o coração desritmiza-se. trago um médico comigo!.. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. e se for preciso. O torturado levanta-se em grande sobressalto. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. gritos de mulher!. sem interferir. Este pensamento produz uma angústia terrível. parecem-lhe gritos familiares. não dizia nada. a qualquer hora do dia ou da noite. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva.. “unha com carne” com o director Silva Pais. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. ouvem-se gritos humanos lancinantes. Descalço. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . mas este fez-lhes um sinal de aquietação. De repente. A matilha de macabéus e hienas. mas não estava”.

cinzento. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. Muitos. contra o que era habitual. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. sem sol (ou ainda não terá nascido?). A PIDE aceitou a história. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. 225 . Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados.. nas longas fases depressivas. frio. Ganhara forma no cérebro. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro.─ Não está a ouvir? São gritos.). O pide de serviço. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. uma história de comunista já assumido.. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada.

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

a título gracioso. repartido por várias sessões. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. Sobre estes causídicos. defenderam em tribunal. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 .NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. entre familiares e amigos. corajosas. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). amigos. houve intervenções brilhantes. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. milhares de portugueses. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. Das primeiras. fazia-se de propósito em voz alta. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência.

seco de carnes e cenho ruim. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. durante sete dias e seis noites sem dormir. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. com o Carlos e o Pedro. O próprio juiz o admoestou. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. quando foi apertado como testemunha de acusação. caso raro. As alegações iniciais e finais do réu. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. anafado e exibicionista no fato de fantasia. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. Riram de forma alarve. pelo doutor Manuel. fingindo ignorar o detido. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. mas falando em voz alta e explícita.. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. 228 ..

na sala de interrogatório!. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. era rancoroso. Nos registos da prisão-sul de Caxias. Embatucou o procurador do Ministério Público.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa.. além do mais. a sentença constituíu uma pequena vitória. ─ agora era o acusador público. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. 229 . que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas.. a interromper o réu. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. há-de constar a minha entrada cerca das 20. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. às 16. ─ É fácil comprovar. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. Costa Saraiva. O fascismo. com uma pena de prisão remível a multa. proveniente da Beira.. onde eu nunca tinha estado antes. com permissão do juiz. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. que lutavam pela liberdade. Ao fim de três sessões. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro.00h do dia 23 de Dezembro. senhor doutor! Nos registos da TAP..

Suzel. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. os amigos José Lucas. Eduardo Fernandes. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. Conduto e Pimenta. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. os antigos colegas Baptista. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. Vicente Bolina. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. Hélder e Ventura. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. O apoio necessário vinha da família. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. 230 . Manuel Felizardo.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Zaida. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Eugénio Torres. ficarão registadas para a posteridade. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. José Caria. Fernando Fragoso. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Maia. No mínimo. tal era a acusação.

quase vazio no início da manhã. não há 231 . cidade dormitório às portas de Lisboa. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. Desfazendo por fim o ar de admiração. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. em rápida expansão. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. fraternal e dinâmico. organizado. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. disfarçando a saudade. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. a reflexão. ─ Bom dia.. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. vê logo o quartel. AMADORA. que encheu o dia-a-dia. aplacando a angústia e educando o espírito. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. o estudo. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70.

. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ─ Deixe estar. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica.. situada numa magnífica frente para o rio. adivinhando a má nova e o destino ruim. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui .que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973.. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. Um cabo e um praça da GNR. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. o desemprego na grande indústria. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. indicada no 232 . ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. na Amadora. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas.. bordado a ouro e esperança de melhores dias. mãe e madrasta. indiferente aos dramas dos homens. o rio era um espelho plano e calmo. com caras de poucos amigos. o batente de ferro da casa térrea. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1.

Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. esse cretino!. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. ─ Processo disciplinar. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. Não queremos criar problemas a ninguém. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. tudo era diferente naquele homem de idade madura. O capitão Luís. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada.. era preocupante e inabitual.. a humanidade com que lidava com os 233 . meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR.gabinete do oficial-de-dia. gordinho como era da praxe. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. ─ Sabe?!.. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. até aí conhecidos. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. ─ Andamos à sua procura há oito dias. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado... ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. oficial do SGE. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. é um cepo redondo com dois olhos. já fui julgado e condenado em tribunal!?. se tinha levantado para o receber.. ─ Entre.

problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. repetia-se ao princípio da manhã.. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. embrulhado em “maus lençóis”. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. deixava os interlocutores espantados.. formado em Direito. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. 234 . com uma palavra amiga para o jovem miliciano. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. Todos os dias desde a primeira vez. ─ Eu sei. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. também com um problema militar complicado por razões políticas. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. gerava uma nova expectativa. intuía com reprimida alegria na alma. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu.

tristezas e expectativas. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. para quem tinha um curso de engenharia. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. 235 .Não tinha.. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. ando a pagar viagem a viagem!. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. Tomara eu!. ─ Parte do jardim em frente ao Comando.. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. mas não se comia nada mal. deu para partilhar mágoas e esperanças. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja.. furriel “estacionado”. não constituía dificuldade.. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. o que.

damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português.. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. redondo de aspecto e de alcunha. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar..Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. então não vale a pena perder tempo. em Dezembro de 1971. foram obtidas sob 236 . basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. ─ Bom! Ainda está muito quente..─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. foi retomado na semana seguinte por imposição legal.. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. deve ter sido complicado!?. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.

Certamente por isso. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. não é um transporte público. o processo-fantoche. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . falta um companheiro de viagem.tortura. Não ficaria por aqui. Os documentos apresentados para assinatura. e tal. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. ─ Só mais um minuto. Isso não pode recusar. senão tem faltas injustificadas. dando como provadas as acusações. como mandavam as regras tropeiras. estivesse. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. Por mais de uma vez. O horário é para cumprir. já o mês de Julho ia avançado. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. nos dias tal. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. Depois chamo-o para assinar. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. ─ Quem não está. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. ─ Isto é um veículo militar. Era curioso. sufocava-se no interior da camioneta. se sentara num banco traseiro. porém.

foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. ruivo e sardento. o “chefe da viatura”. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. o furriel miliciano. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. Ex. é furriel! Qualquer coisa da Silva. Era um estado dentro do Estado. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. seco de carnes e de sorriso franco. por determinação de S. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. a PIDE/DGS. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. ª. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção.o compasso de espera solicitado. Acácio da Silva”. na secretaria dos “Adidos”. com a conivência do militarismo reaccionário. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. pelo contrário. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. onde costumava aparecer o jovem de média estatura.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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.. até já cortou os pulsos para se matar!. e o moço de bigodão negro. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. ─ A doença dele é outra. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior... ─ Ao princípio era um moitão de visitas.. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. casado há pouco tempo e aqui preso!. desatou aos pontapés às cadeiras. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. mas o alentejano não se deu de achado. tentou esganá-la. 246 . mostrava-se loquaz... mas num domingo foi aí uma barraca. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. ─ Foi o bom e o bonito. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. ─ O tipo está doido varrido..

entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. tem de se compreender. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. sempre a caminho da enfermaria. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. ─ Pois sim. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. A notícia surgiu brutal. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. fundado em colaboracionismos vários. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. se tinha suicidado na cela.─ Então a situação é grave.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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. 255 .da filhinha! Prometo que voltarei. talvez mais cedo do que tarde!..

velhos conhecidos. homens. sacos. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos.A LENDA 9. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. 256 . malas.

. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. 257 . o “canhão” esperava a carne fresca. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. grupos barulhentos jogando às cartas.. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. Para onde irá? Como o mundo é pequeno.). envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. Beliches a cinco de altura.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. cruza-se outro camião com soldados a granel. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. Encostado ao taipal.. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. gente deitada semi-nua.. como gado para matadouro. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. que para aquele lado era de terra batida. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. O camião carregado de soldados. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. sobre as preocupações com a mobilização iminente. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. Algures. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes.

por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação.. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. se não houver problemas com a saída!. não se esqueçam! Tinham-se esquecido.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. paleio animado e boina na mão.. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço.. isto é um país em guerra. ─ Se calhar vou contigo.. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. nossos soldados? ─ Desculpe. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. moço alto e magro. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. ─ A vossa identificação. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . falta de hábito!. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. rua abaixo direito ao centro da cidade. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. que por perto ouvia a conversa. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. meu furriel! Chegámos há pouco tempo.

.. também não a pedi nem a desejo! 259 . mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. não deve ser limpa há um ano!.. ─ Há aí vassouras e pás. sem braços ou sem vida. ordens do sargento! Resmungando e refilando. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. é um exagero!. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. sem pés. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. ─ Isso deve ser história. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros.. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna....de colocações e a escala de serviço.. entretanto voltou de avião para a metrópole!. Devem vir fardados. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. pá! ─ Não te metas com esse gajo. tecendo laços de solidariedade circunstancial. lá foram saindo os magalas mal ataviados. algures naquela guerra oficialmente já ganha. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. mas sem fim à vista. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. limparam. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação.

indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. pelo contrário. com o sol nebulado e uma humidade elevada. veículos militares correndo pelas ruas.. e a economia da região sobrevive do conflito. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras.. As vivendeiras.. Os homens ocupam-se da máquina militar. assim se chamavam. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. característica daquela região. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. que consome enormes recursos da Pátria distante. pois a guerrilha não diminuiu. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. Na conclusão da empreitada. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. elogiando o trabalho feito. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. com uma eficácia muito baixa.. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. ─ conversava-se à mesa do 260 .

casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. Também alguns milicianos trouxeram a família. quase não há serviçais do género feminino. Ganham uma bagatela. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. mas têm comida certa: ─ António. o militarismo sufoca! .. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal.. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. falam mal o português. Passam carros de boas marcas com condutor militar.tal como sufocava o calor de Dezembro. a 261 . Esta “chicalhada” irrita.. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. não sabem ler nem escrever. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria.Café Central no fim da tarde quente. a fim de conhecer tanto quanto possível. a história da terra moçambicana. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados.. Têm inúmeros criados pretos. Longe dos teatros de operações. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda.

A sua formação era claramente conservadora. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. Nem vou. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. porque Salazar não gosta muito dos americanos.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. oriundo da burguesia alentejana. viam-se grandes embondeiros. deixavam-no intranquilo. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. com bons conhecimentos. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. e aos industriais de refrigerantes. que não se vende em Portugal. quartel-general da guerra. e potenciando o vício pela bebida americana. a prestar serviço nas “Informações Militares”. Uma planície de cor castanho-avermelhada. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada.. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. protegidos pela lei do condicionamento industrial. onde tudo era demasiado no estilo europeu. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. à beira do milagre da “tomada 262 . conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. a perder de vista. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. ─ insistia o jovem bem parecido. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade.. Quando se saía da cidade. ao fim do dia.

Pelo que tenho visto. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. mais depressa os homens que os montes. réplica da arquitectura europeia. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares.. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. Automóveis de boas marcas. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. ─ Quando vim. acreditava na justeza deste conflito. Prestes a mudarem. entre silêncios e goles de mistura fresca. muitos sacrifícios e muitas vidas. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. Para o mais distante. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor.. ainda que tal custasse muitas angústias. Ia para dois meses. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. deixam gente de pele escura. já tinha a chave.de consciência”. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. revelando a comum ascendência asiática. Não tardam aí melhores dias!. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. 263 . no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais.

nas tardes de idas e vindas aos Adidos. normalmente. com o infelizmente célebre. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. se notava um grande sossego. Estavam muitos orientais. como na gíria é conhecida. no Golfo Pérsico.. À noite. O descontentamento emergia. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. com as leituras ou as idas à biblioteca. na Índia e até na China. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 .. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. a servirem como desabafos da alma. por bastante comum. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. o movimento à porta da mansão!. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. chegavam famílias inteiras. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. ─ Ah! Então era isso. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula.

gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. Os pretos cuidaram dele até crescer. E desde então até hoje. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. A etnia maconde. 265 .. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. nos princípios do século XVI. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. Esta é uma lenda do povo maconde. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. entre os rios Lúrio e Rovuma. Datam do século XX. em 1918. possuía um carácter forte e indómito.. a que o povo das tatuagens e dentes limados. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. e se ele o dizia. viviam na água. começou a fazer-nos sofrer muito.. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . que a manteve longe dos circuitos da escravatura. internando-se no mato. “Os brancos antigamente eram peixes. se furtava. habitando o Norte de Moçambique. nunca mais deixou de nos tratar mal”.. Durante a I Grande Guerra. que encontraram sempre forte resistência. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos.

Este último escreveu o livro “Mozambique”. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). alunos sem escolas e sem professores. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. em 1878.”Batalhões sem soldados.. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. e de Capelo e Ivens. em 1889. fronteira à ilha de 266 . A nova expedição de Serpa Pinto. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. no Sul.. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. “de Angola à contra-costa”. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. em 1885. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. escolas sem alunos. No início do século XX. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. de traficantes e de entidades coniventes.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. Em 1895 e 96. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. hospitais sem médicos!”. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. doentes sem hospitais. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. da costa de Angola à costa de Moçambique. em 1882.

Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. Lúrio e o lago Niassa. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura).Moçambique.. são finalmente controladas (oficialmente. em 1879. submissão das populações e pilhagem dos recursos.!). ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. que iam completando a ocupação militar. criada em 1894. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. a Companhia de Moçambique. numa série de campanhas iniciadas em 1908. criada em 1888. a norte. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados.. ferro e ouro. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). com capital inglês e francês. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. a Companhia do Niassa. entre os rios Rovuma. e o cultivo do algodão e da borracha. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. procedendo à exploração mineira nesta área. com capitais metade ingleses e metade franceses.

muito depois da abolição oficial da escravatura.. nunca teve grandes resultados. não se mobilizavam voluntariamente. entre pessoal militar e administrativo.país colonizador. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. ao seu sustento próprio”. aumentando para 20 mil em 1926. que funcionaram até 1942.. na sua área a 268 . tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. sua sede. Já a Companhia do Niassa. subindo para 2 mil no início do século XX. No período de 1910 a 1923. Em 1878. foi criado o primeiro código do trabalho. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. conseguiam um tráfego internacional crescente. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. Por outro lado. fundamentalmente para Angola. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. Ou seja. ao abrigo desta lei. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. mantém-se o regime de trabalho forçado.) está sujeito. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval.

atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. atinge 20 mil. sisal. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. mandioca. oleaginosas (caju. e nunca foram construídas vias férreas. no Centro e no Sul do território. já do século XX. canade-açúcar. Porto Amélia. criadas por decreto obrigatório. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. todavia. assiste-se. Holanda) estava em declínio. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. 1500 habitantes (só 50 brancos!). chá. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. tinha 30 mil habitantes e a Beira. a capital. É muito recente. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. em 1925. França. destinados à exportação: algodão. tinha em 1925.penetração europeia era mínima. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. No segundo quartel do século XX. copra). milho. mesmo nas suas próprias terras! 269 . amendoim. Bélgica. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. o esforço português de colonização efectiva. Alemanha. segunda cidade.

criada em 1921 com capitais ingleses. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. do Niassa e de Moçambique. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. Companhia de Algodões de Moçambique. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. em 1945. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. a que se 270 . e em particular com o capital britânico. cultivava 45% da produção algodoeira total. constituída em 1948 com capital luso-belga. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. Curiosamente.. Presente desde há muito. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. originariamente para a exploração das minas de Moatize. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras..Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. que assim funcionam como mercado protector. Inglaterra e União Sul Africana. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. perícia. Sena Sugar States. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. concessão feita a capitais luxemburgueses. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. fundamentalmente para Portugal. No caso da exportação de algodão. pertencente ao grupo Champallimaud. que cessaram a actividade por volta de 1942. Além das referidas Companhias do Zambeze. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. a mais importante açucareira da colónia.

desmentida desde 271 . incluindo: 400 mil emigrantes.associaria o grupo Melo. metade do total. se cultivam e se elevam. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante.. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. etc. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. Em complemento. sejam quais forem as suas diferenciações.. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. em 1943. no período áureo do chamado Estado Novo: . O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria.“No meio das convulsões presentes. irmandade dos povos que.. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. 520 mil contratados do algodão. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. se auxiliam. também presente na indústria dos óleos. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria.

A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. no século XVIII. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. Da mesma forma.5%). só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930.sempre pela escassíssima presença portuguesa. em 1960. à data dos inícios da guerra de libertação. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. ou seja. traficando em escravos.6 milhões. ano da publicação do Acto Colonial. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. dez em 1825. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. e as escolas elementares das missões católicas. organizadas em ensino primário e liceal. com a política de “fomento colonial”. Todavia. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. asiáticos e “assimilados”. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. espalhados ao longo da costa moçambicana. em 1950. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. três ou quatro nos finais do século XIX. 1. em decréscimo) num universo de 6. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes.

etc. reflectindo a miséria da missão colonizadora. ao arrepio do ensino do Português.. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões.). Não admira pois que em 1960. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. padres de Verona.. educar. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. 1970). os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. Mas apesar do Estado pagar aos bispos.território colonial.. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. confluindo no desejo independentista. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. Por este tempo. nacionalizar e civilizar a população nativa”. padres de Burgos. realizam então um trabalho novo de apoio às populações... 95% da população africana se encontrasse na 273 . pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. fomentando o espírito nacionalista latente. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. subjectivamente. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. sobretudo depois da II Guerra Mundial. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar.

são gente boa. ok?!. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. A colónia funcionou até 1960. o Melo.. quando começar a luta de libertação nacional. o Castro. 274 . A humilhação permanente da despromoção. o Ivo.. o Muradali. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. o Fausto. os Casimiro. em 1956.. o Santos. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. ). em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas.. a Lurdes. como na afirmação do Presidente da República. o António.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. Precisas de te distrair! O Carlos. Craveiro Lopes. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. a Lena. o Monteiro.

─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. como morto. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. atravessado. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. entretanto a revolução. este tipo é incrível. ─ questionava a esposa. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. estava um negro deitado na estrada. A seguir a uma curva. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. por isso te despromoveram e te castigaram.. muito apertado pela PIDE em Caxias. sempre muito sensível.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. é mais uma questão de integridade. ─ Não é tanto uma questão de coragem. que até nem foi extraordinária. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º.. 275 .. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena.. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. Ciclo do COM.

me dá vida. carregada pela angústia da separação física.. O tempo não pára. se estivessem aqui comigo!. felizmente.. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . O mais custoso é a separação. por isso tu és a minha vida. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. (. Estão bem. De vez em quando vou tendo notícias. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. ─ Nunca foram referenciados! A não ser.. a minha luz. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. tu ensinaste-me a viver. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito.. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. mas nós havemos de vencer haja o que houver. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. cada vez maiores.. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém.. sim! Com dezoito meses.

O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique.. a nossa ligação temse fortalecido. ─ uma carga de trabalhos. (.criaram. diz o nosso fruto pequenino. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha.. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. O “carocha” quebrou o transe emocional. Como disse um grande poeta. e agora?. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil.. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. Por outro lado. o casal ainda não tinha filhos.. não sei se aguentaria. Nós esperamos por ti.. o amor constrói-se também com sofrimento. que faz amanhã 18 meses. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. durante quase seis meses. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 ..) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. amor da minha vida”. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova.

que há pouco. também alferes no Q. Juntamente com outros dirigentes estudantis. onde vinha em luto familiar. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . ─ Um movimento autêntico.. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. alto e bem parecido. no início da década de 70. em Outubro passado. à entrada. desassombradamente. pelo parente morto em exercício militar. também ex-dirigente associativo. foi bastante mais João..G. era um jovem mulato. fora apresentado como Ivo. fora compulsivamente incorporado. as de jovens oficiais do quadro. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. e de sectores ligados ao general Spínola. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. ou mais uma tentativa de “putch” militar. genuíno. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura.G. natural da cidade-quartel-general.

trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. Fixados há muito em Nampula. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. para ajudar a acabar com isto. o mulato quase formado em Medicina. ─ Como sabem. A casa de família da classe média. que não renegavam. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. trazendo e levando notícias e materiais. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. alimentando a célula da resistência em Moçambique. falava no assunto tabu. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. Se isto dura mais uns meses. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . chegando e partindo constantemente. que fazia a interface entre muita gente. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual.

O julgamento do 280 .. muito simpática e delicada. ─ a senhora de Casimiro. Tenho a convicção que o fim se aproxima. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. tantos anos de mão dada com o colonialismo. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. ─ o jovem Melo. num fim de tarde africano. ─ A própria igreja de Moçambique. mostrara uma insuspeita clarividência. nos quartéis. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não.. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. oriundo de famílias militares. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas.. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda...! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. mas creio que já não têm tempo!. nas escolas!. também dirigente académico perseguido. depois do fracasso das operações no Norte. mas se é contra o regime. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. assume-se agora do lado dos oprimidos. que venha por bem! ─ Por cá. ─ Talvez não haja tempo para isso.. concitou a atenção dos presentes... Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!.. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. em plena época quente no Hemisfério Sul..

aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. Depois da concordata de 1940. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. é paradigmático do papel da igreja católica em África. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. Completa esta imagem do século XVIII. prevendo e prevenindo o futuro. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. o ambiente ganhava optimismo.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. assumia-se de forma muito mais contraditória. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. por orientação do Vaticano. num contexto de declínio do colonialismo. parte integrante da máquina colonial. no curso do século XX. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. terra de esperança. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. Sebastião Soares de Resende. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. uma voz clara que 281 .

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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os colonos emigrados.30h. a meio caminho da cidade portuária. nada de atrasos!”. aqui e acolá. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. ainda acreditavam. agarrado às vantagens do passado. de medusas da “Cruz de Cristo”. negros na maior parte. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. cada vez menos. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . e. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. Agora na sua senda. imaculada. A praia das “Chocas”. aparentemente descurando o futuro. Percorridos em visita. num “Aviso” da Marinha de Guerra. semeada de pedaços de algas escuras. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. a praia do “Relamzapo”. com “cabrinhas” de espuma branca. Na conjuntura actual. A partida é às 20. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra.do oceano de águas escuras e algo agitadas. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. rumo ao Norte. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. quase escrava. como gostavam de dizer. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. duas dezenas de soldados. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. espraiando-se levemente na areia branca. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. tinha uma areia fina de tacto agradável. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda.

onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. Num jipe oficial. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. Tinha razão o Ivo. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade.. branco. ─ Há poucos dias estava óptimo. ao jantar.. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático.. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. é melhor não te verem por 290 . também vou?. Ele contar-vos-á os pormenores. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”.. impecavelmente fardado. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. um jovem alferes moçambicano. estivemos a conversar em casa de uns amigos.bigode sobranceiro. Caíra a noite. Marcelo. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. logo me contas o resto da história. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. Tratem-no como se fosse um de nós.

do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. de camuflado. com o furriel “recepcionista”. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. à saída. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. ─ Olha quem ele é!. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes.. já eram velhos amigos.. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. em serviço à pista. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. Antes. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes.perto. instruiu o condutor de serviço: 291 . ex-dirigente estudantil. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje.

. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. bem vestidos ao modo africano. que passava rapidamente. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. arrasando os nervos. com telhados de fibrocimento. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo.. a rasar a copa das árvores. Do avião. a poente. pintadas de branco.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. Diferente. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . para onde vai o professor. desde Porto Amélia.. Verdes e impenetráveis. único utente até hoje! Ao longe. era uma zona de casas. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. num vale em depressão. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo.. parecia ser gente “importante”. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa.

até se diluírem no horizonte. interpelou-os: ─ Meu furriel. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. de contornos envoltos em bruma. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. 293 . foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída.. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante.. ─ Contava-se. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. em Porto Amélia. destoava do verde constante da paisagem. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. barba por fazer mas atitude simpática e despachada.adiante. Mais distante. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. de madrugada. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. ou talvez mesmo de há muitos dias. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. de ataques com foguetes de 122mm?. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas.

Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição.Fim de tarde ameno. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. sem gosto. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. sem higiene. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. ao calor escaldante do meio-dia. confundindo-se à distância com a neblina circundante. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. porventura. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. Ali na África Setentrional. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. a recolha da sopa numa lata de folha. sem vontade. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. Em tempo de Equinócio. Por instantes. em fila.

o medo da guerra. a miséria do rancho. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. minas anti-pessoal. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. da personagem mal conhecida por recém-chegada. o nosso direito e o nosso interesse. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. do outro lado do rio. Novamente o mundo sem sons. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. Mais distantes. É Naschinguyeia. despejada a eito. e o manto escuro caindo sobre o lago. Mina. falso alarme. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. projéctil. a angústia do afastamento familiar.da pátria. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. em cujas margens coexistem por vezes. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . caçadores nativos. encosta abaixo. crocodilos. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. A respiração suspende-se por segundos. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. em cenas de caça na terra de ninguém. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. ataque? Nada.

primeiro em Angola. piscando o olho aos americanos e à NATO. transferindo-se para Dar-es-Salaam. o mito da defesa do mundo ocidental. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. holandesas. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. Franco Nogueira. em 1961. depois na Guiné-Bissau. francesas. em Junho de 1960. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. acediam à independência. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. em 1964. belgas. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. em véspera da 296 . Uma contínua e continuada mistificação. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. convencido da sua superioridade e vantagem rácica.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. quando as ex-colónias inglesas. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. em Abril de 1961. um ex-ministro de Salazar. em 1963 e por último em Moçambique. com mais de 50 mortos.impérios asiáticos. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. no Tanganica. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. afogou as pretensões num banho de sangue.

criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. segundo os próprios. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. No interior de Tete.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. A realização em Marrocos. em 19 de Dezembro de 1961. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. foi criada a UNAMI . quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. moçambicanos da etnia maconde.União Nacional de Moçambique Independente. Em Nairobi. futuro grande estratega militar da luta de 297 . Marcelino dos Santos e Uria Simango. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. em Maio de 1961. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. independente desde 1958. em inícios de 1961. começando a derrocada do império colonial português. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. tratava-se de um movimento heterogéneo. com mais ou menos expressão. da 1ª. No final desse ano. Damão e Diu. Como nos restantes casos. com diferentes sensibilidades e perspectivas. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. no Quénia.

pelas tropas em acções de represália. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. Congresso em Setembro de 1962. em 1971. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. simultaneamente em Cabo Delgado. finalmente. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. * Eduardo Mondlane. unificado a partir do 1º. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. bispo de Vila Cabral. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”.libertação: Samora Machel. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. capital do Niassa. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. primeiro presidente da Frelimo. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. Ao fim de quase 500 anos. Após 298 . O conflito iniciou-se em 1964. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. e no vizinho distrito de Niassa. com um ataque ao posto militar de Chai. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal.

mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. moçambicano de origem 299 . onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Eduardo Mondlane. Pascoal Mocumbi. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. a Frelimo teve um início de vida agitado. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. nomeadamente Julius Nyerere. em Março de 1964. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. Joaquim Chissano. Por essa época. um período de grande vitalidade da Frelimo. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Leo Millas. Janette. só em Março de 1963 se radicou em Dar. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. Tinha chegado a Dar em 1963. entre outros. Professor na Universidade de Siracusa. Instalada em Dar-es-Salaam.breve passagem por Lisboa. no extremo nordeste de Cabo Delgado. em risco de ser preso pela PIDE. capital do Tanganica. seguiu Samora Moisés Machel. o tenente Jacinto Veloso das FAP. após uma espectacular deserção. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. que casara com uma americana branca. iniciando com Marcelino dos Santos.

comum na região setentrional africana. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. outro moçambicano branco. Lázaro Nkavandame. Também por esse tempo. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. de passagem por Argel em Março de 1963. em Fevereiro 300 . em Setembro de 1964. O seu presidente Banda. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente.branca a juntar-se ao movimento. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. O seu líder tribal mais carismático. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Mondlane convidou Helder Martins. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. Mais tarde em 1965. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. Perseguido e preso pela PIDE. para se juntar à Frelimo. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. a funcionar na capital argelina.

Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. conta a história do movimento de libertação. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. base da alimentação.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. a luta alargou-se rapidamente. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. por não terem armamento pesado). No mês de Fevereiro de 1965. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. onde reza a lenda. a 301 . num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Desde o primeiro ataque a Mueda. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana.

e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. EUA e URSS. num Moçambique livre e independente. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. e à exemplar democracia americana. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. que garante a sua unidade interna. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. Foram então nomeados. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. total e completa. ─ Independência de Moçambique.

e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. decretando sanções económicas e políticas. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. ZANU e ZAPU. Salazar fazendo jogo duplo. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). condenada internacionalmente. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. É a resposta às forças portuguesas que. na Namíbia. uma nova frente na região de Tete. em Novembro de 1965. em 1967. onde o regime do “apartheid”. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. Em Abril de 1966. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. em Moçambique.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. na Rodésia. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. Neste contexto. 303 . em Moçambique. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. a sul. veio complicar o xadrez político na África Meridional. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre.

O movimento moçambicano está já então bem organizado. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. Em Fevereiro de 1968.Na região de Cabo Delgado. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. passando a partir de 1966. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. no célebre campo de Naschingwea. (ganham dezasseis contos por mês. Kingwa. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. o padre católico negro Mateus Gwandgere. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. alvo por vezes de assaltos surpresa. enquanto um soldado ganham um!). a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. Viveu-se à época deste congresso. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. Mtwara. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo.

África do Sul. sem sentido histórico e sem significado real. em Dar-es-Salaam. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador..). que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”.. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . Moçambique. onde vivia com a mulher e três filhos menores. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Namíbia. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. As palavras só têm significado para os 305 . a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. sem um claro vencedor. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Em Portugal. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. Em visita às colónias em Abril de 1969. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. Em Fevereiro de 1969. são um imenso caldeirão prestes a entornar. E foi a PIDE.

Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. e. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. No dia 1 de Julho de 1970. A história e o tempo jogam a seu favor. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. respectivamente. coeso e organizado. um militarista ultrareaccionário. um dos fundadores. para comandante-chefe. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. em Maio de 1970. custou esta 306 . sacrifícios extremos. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. morte. O movimento de libertação está mais forte. para Angola e Moçambique. sangue. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. em Moçambique. é eleito presidente Samora Moisés Machel.

milhares de combatentes. bem organizada e com uma forte retaguarda. na acepção militarista. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. também houve muitas vitórias. muitas apreensões de armas. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. de centenas de estropiados. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. pomposamente exibidas na RTP. Praticando o extermínio por onde passava. 307 . transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. dinâmica. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses.

diria outro retinto situacionista. finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. O conflito colonial em Moçambique. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. ficou-se pelo quilómetro vinte!. 308 . desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra.). a fingir de refeitório. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). prometendo acabar com o “terrorismo”.. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade..A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. o ministro do Ultramar. montada debaixo do grande embondeiro. Como resposta. Aguardavam os restos garantidos da refeição. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). Silva Cunha. crime (milhares de mortos civis e militares).

. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. que também está de partida. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. sobretudo os da “fofoca”. ─ Mas é tão pequeno ainda!?.. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”... ─ Então não conheces a história? O pai deste. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. de carapinha escura. 309 . A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta.entretidos em brincadeiras de ocasião. passa a ferro e não leva caro. oito ou nove anos. cinco anos. dez escudos por mês! Vive com a mãe. com as suas tatuagens características.. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. Como te chamas? ─ João. sinhô! ─ desviou a cara. precisam de ajuda!.. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. Vinham quase todos da aldeia macua. eram raros os garotos vindos do lado maconde. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. outros nada. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado.. Quatro. Lava. o pai morreu na guerra.. ─ E o pai?. Alguns já tinham comido sopa do rancho. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos.

. que está nos GE´S.. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias. radiante na sua prometida função de cicerone. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. mas com paredes rectangulares de madeira. repuxada pelo filho mais pequeno.. com telhado de colmo como as outras.. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama.. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. aflito com o rumo do negócio. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. ─ Pois é. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões.─ Curioso!. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. consta que ele é casado na metrópole. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. ─ É a Teresa! Não te dizia!.. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. de forma menos tradicional. transportado às costas como era uso. mas parece ser ela a não querer ir! 310 .

em terras de mistério e desgraça. sempre a gritar e a gesticular. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. calças pretas. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento.João estava tentado a corrigir o vocabulário. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. Gritava de modo incompreensível à distância. em genuíno desabafo de revolta. ou porventura devido à língua entaramelada. ─ O furriel tem andado desorientado. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. a metrópole era Portugal. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. na África sedenta de liberdade. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. magro. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. só perturbada pela desgraça dos homens. Já escondido. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . com um fardamento esquisito. mas achou prudente não se manifestar. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. qual dono de escrava. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes.

onde este tipo de assuntos era mais propício. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça.timorato o rapaz de estatura baixa.. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. Os homens deviam estar a descansar da guerra. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. cor amarelenta e barba mal escanhoada. cercado de arame farpado e minas.. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. ─ O homem está com ciúmes. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. visivelmente amedrontado. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. 312 . mas nenhum queixume. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. Notava-se pouca actividade. O “negócio” era do lado da aldeia macua. obrigado! Tenho outras preocupações. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.

não seria muito prudente. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. a sua comissão fora penalizada em três anos. ocorreu à imaginação do soldado castigado.. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética.─ Há lá velhotes porreiros. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. não há pressa. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. O cabo Carlos. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. já os tinha mencionado. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. como degradante era todo o ambiente da guerra. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. ─ Porque se sujeitará Teresa. e por isso hesitou 313 . onde já anoitecera. Nas circunstâncias. A frase soava ordinária. Só não sabia. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. Se é que essa seria a “estória”. ─ Logo se verá..

qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. 314 . na perspectiva de descerem para Sul. era que de há anos àquela parte. A hipótese de não rodarem. à enorme angústia pelos mortos.calado e pensativo. criava um estado de espírito muito negativo. sobretudo. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. ─ Isto é uma guerra. raramente encontravam alguém da guerrilha. os homens estão muito desgastados. somada à saturação de sucessivas saídas e. ao fim de um ano de “trolha”. gerava uma enorme frustração que. a raiar a exasperação e a revolta. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. caramba. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona.

caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. Armando Panguene. Sebastião Mabote. contra o que chamavam. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. O movimento nacionalista. sob o comando supremo de Samora Machel. Bonifácio Gruveta. Em contrapartida. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. eram os outros 315 . “travestida” de serviços de informação militar. Alberto Chipande. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. Monica Chitupila.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. Osvaldo Tazane. militarista e reaccionário. Mariana Pachinwepa. único do povo moçambicano. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. entre outros. por um comando supremo todo poderoso. a relativamente inepta tradição colonialista. José Moiane. Raimundo Pachinwepa. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). Filomena Nashak.

Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. Grupos de soldados portugueses. nos confins de uma África inóspita. A sorte da guerra estava traçada! 316 . por milhares de manifestantes. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. ensanguentada e sedenta de liberdade. em português. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas.vectores fundamentais da situação político-militar. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. “A fogueira do guerrilheiro”. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. em Julho de 1973.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

Dia Mundial da Paz. Domingos. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. em Lisboa. apostólicos e romanos”. durante a campanha para a Assembleia Nacional. Diminuía a base social de apoio ao regime. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. muito “católicos. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. no dia 1 de Janeiro de 1969. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. MPLA e FRELIMO. por oposição à guerra. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. e em Portugal. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. em protesto contra a “política ultramarina”. 318 . da diocese do Porto. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. Felicidade Alves. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. atenta e preocupada com os ventos da História.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970.

nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. no 1º turno de 72. No início da década de 70. “Não jures camarada!”. na organização da resistência e do combate internos. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. Tavira. entre outros. e os Estados Unidos. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. arrancados às escolas. ameaçando:. nas escolas. protestos na parada. e outros mais No panorama internacional. organizada unitariamente. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. no 3º turno de 72. no 4º turno de 1971. “Levantamento de rancho”. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné.. Lamego. em 1972. publicado nos princípios da década de 70: . com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra.. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. Vendas Novas. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. Tavira. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. Santarém. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola.. “Alerta camarada!”. 319 . Santarém. embora negando os factos. em 1971. dentro do “ninho de víboras”. em 1971.. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. nos quartéis. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra.

em Outubro de 1972. O alcance da iniciativa é inteligível. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. os 320 . manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. como resposta a agressões vindas do exterior”. No essencial tudo fica na mesma.“ajustando” a estratégia. da independência da Guiné. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. e em Abril. com o objectivo de “legitimar a guerra. o Conselho de Segurança da ONU. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. com Leopold Senghor. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. Enquanto isto. para breve. encontra-se. Ainda assim. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. próximo da fronteira. o combate não esmorece e. Entretanto. a proclamação. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. em Março de 1973. ao perceber o fim inexorável. Mas a luta de libertação está muito avançada. ainda que por novas vias. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. António de Spínola. Guiné e Moçambique. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. Na Guiné. Em Outubro do mesmo ano. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972.

de aquartelamento em aquartelamento. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. derrotado. Spínola. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. o PAIGC proclama em Madina do Boé. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. em aumento crescente. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. Havia o In. havia o “inimigo interno”. organizadas como um “exército regular”. numa zona libertada. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. Quanta gente. acossado. fartos de guerra e do militarismo fascista. em Agosto de 1973.“Strella”. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. todos aqueles que iam 321 . em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. as forças guineenses combatem por todo o lado. Um mês depois. sem nunca o confessar abertamente. em Setembro. KAIOMBE DE JIMBE. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. percebendo finalmente. A guerra entrava numa fase derradeira. conversando e trocando novidades. não pode satisfazer. a independência da Guiné. reparando rádios e antenas. que Marcelo Caetano. no entanto. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. empenhado há tantos anos na luta pela independência. ficaria ainda ferida ou estropiada. que a guerra de libertação é invencível. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. perigosamente de terra em terra. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau.. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis.

– Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. Além da agricultura de subsistência. foi só um desabafo. mas como muitos outros. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. furriel. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. bem. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar.. – Bem.. carroça mal puxada! revolta-se!. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. na Região Militar Leste. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). Mas ainda havia quem. Não era mau rapaz o furriel. pertencente ao subsector do Cazombo. na vila de Jimbe. procurasse puxar a “carroça”.. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . nos princípios de 1974. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial.. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. besta contrariada. arreando forte na besta. Já se sabe o resultado.

onde aquela estava montada.. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. os chamados “flechas”. com duas ruas paralelas. – Venham comigo. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. solicitaram a reparação. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. era uma realidade também em África. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação.e políveis.! – o furriel. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. agradado com a tarefa. – Esperem aqui. trabalhado na feitura de peças artesanais. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. com frequências próprias. onde vivia pobremente a população indígena. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. Devia ser problema na antena. o problema não era do rádio propriamente dito. Afinal. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial.

o agente António Camelo. Vaz. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. Casimiro. momentaneamente. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. completamente expostos aos elementos. Perturbados e confundidos. alegadamente à caça. de nome Kaiombe. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. e outros. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. Laia.jovens militares estarrecidos. mas suspeito de apoiar o MPLA. tratava-se de um habitante da zona. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. autênticas jaulas de guarda-bichos. apanhado no mato pelos “flechas”. rumo à África do Sul racista. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. participante na invasão do solo angolano independente. 324 . e comentando o sucedido com os camaradas residentes. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. Lontrão. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. Morreu passado pouco tempo. apagar os charutos no corpo dos presos. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. ficaram a saber que o chefe do posto. Trindade. De volta ao quartel. No caso vertente. Alguns meses depois o pide Camelo. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. ou no célebre batalhão “Búfalo”. solicitado para outro qualquer assunto. tinha por desporto nos interrogatórios. causando-lhes horríveis queimaduras. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. com as O pide da retirou-se antena. que deviam doer horrivelmente.

Significa que entre nós o crime compensa. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. ou reforma dos ex-combatentes. e as de dezenas de milhares de autóctones. porventura numa escala muito maior. Essas vidas poupavam-se.. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. guineenses e moçambicanos. perseguiu. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. da revolta activa de muitos milicianos 325 .Face hedionda do sistema colonial fascista. prendeu. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. que em África. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. Neste sentido.. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. como em Portugal.

As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. Regressado de Moçambique. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. composta por 19 elementos. com mais homens. em Óbidos. – Em 1 de Dezembro. cada vez em maior número. entre ultra-reaccionários. – Por esta altura. homem da sua confiança pessoal. o general fascista não parava de conspirar. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. mais meios logísticos. – Em Fevereiro de 1974. António de Spínola. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. embora unidos no essencial. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. Dezembro de 1973. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. como ministro do Ultramar.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. futuro militar de Abril. em Julho. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. o general derrotado na 326 . Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. conservadores e liberais.

contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. reúne-se em Cascais. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. para reflexão. – No dia 5 de Março. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. convidando-os. 327 . Família. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. – No início de Março. A “coisa” está para breve. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. – Nesse mesmo dia. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. O professor fascista “demo-liberal”. o “Movimento dos Capitães”. Pátria. a chamada “brigada do reumático”. publica o livro “Portugal e o Futuro”. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). a assumirem o governo. em directo.Guiné. em vão. Vinha de um retiro no Buçaco. Costa Gomes e Spínola. reafirmando a disposição de não ceder em África. os oficiais-generais. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. para todo o país. transmitida pela RTP. após ter chamado Costa Gomes e Spínola.

Os amigos. greves na cintura industrial de Lisboa. Caetano. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. divertido e perspicaz. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. – Cartas de amor e guerra. amor e esperança. o sargento-ajudante “Mafra”. chalaceara à partida. livro de António de Spínola.. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. meu sargento. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . e prisões. animadas pelos comunistas. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. em fins de Março. “Portugal e o Futuro”. O velho sargento. em trânsito ocasional. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. com frequentes “extravios”. no regresso de férias. – Deixa lá a guerra.. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. com as missivas dissimuladas. grande dinâmica unitária do movimento CDE. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. solidários. Desta vez. naquele promissor Março de 1974. a cachopa precisa é de palavras carinhosas.

.. apesar de inconsequente..). Mais cedo do que tarde. depois de castigo disciplinar).) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados.. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. como costumas dizer”(.. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. INHAMINGA A SUL.. (. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua.. refere a coragem dos revoltosos. em Julho de 1973. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. denunciados ao mundo pelo padre inglês A. com um enorme impacto 329 . embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. Não foi ainda!. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. Margarida.) Amor querido.. Hastings. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto.(. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972.

esta zona onde aquartelámos.. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra.! – Nada que se compare com este inferno. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio.mediático.) “Afinal tinhas razão amigo. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. no caminho estratégico para a Beira. é palco de uma crescente perturbação subversiva. era ou mato ou morro. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. Oficialmente configurava uma acção por focos. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. amigo. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. Algumas semanas depois. acompanhados por dois cineastas e um repórter. para onde a companhia independente tinha rodado: (. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. A situação é deplorável.. 330 .. Havia notícias desde Julho de 1972. sempre a alinhar! – Boa sorte. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”..

apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. iria assistir e nalguns casos participar. Depois do Verão de 1973. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. vinda da guerra no mato. onde o terreno estava relativamente “livre”. A tropa regular. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. torturando e eliminando patriotas. lançava o pânico. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. A sanha perseguidora. Entravam e saíam carros civis e militares. prendendo sobas e régulos. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. em autênticos massacres. Nos últimos dias de Julho de 1973. nas hostes colonialistas. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Estas denúncias referem milhares de 331 . em Tete. massacrando ferozmente populações. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo.

terem essa atribuição). conveniência ou por convicção. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. 332 . atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades.mortos. com homens de “antes quebrar que torcer”. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. No estratégico caminho da Beira. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. por cegueira. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. durante a operação Nó Górdio. adivinhado naquele início do ano de 1974. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. a alta hierarquia militar. como na localização das bases Nampula. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. e nas Colónias. originando dezenas de milhares de deslocados. Gungunhana e Moçambique. pela PIDE. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. geralmente odiada. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”.

sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. da Namíbia. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. azuis. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. de 19 a 22 de Abril de 1974.. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. do Brasil. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia.“Strella”.. Mesmo tendo diminuído as 333 . – São “patentes” da África do Sul. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. cinzentas e verdes.. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. padre José de Sousa àquela área.. da Rodésia.. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. a norte de Moçambique. podiam ver-se muitas estrelas.. dada pelo chefe da secretaria. incluindo aquele. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. com foguetes terra-terra de 122 mm.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. significando tratar-se de militares de patente elevada. – Têm fardamentos bonitos!.. A explicação não tardou. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . em plena luz do Sol. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. amarelas...

mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . a comida escasseava. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. após uma grave crise de desnutrição. não estava pronta: – É um “Dakota”. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. onde João fora aboletado por determinação do comandante. em 1971. os aviões de abastecimentos tinham rareado. depois do caldo aguado. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. após a operação “Nó Górdio”. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”.. de serviço à pista. comia-se em dois turnos. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. tal como há três meses atrás.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação.. Zambézia.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. Manica e Sofala. digna de registo. retiraram-se à procura da refeição frugal. o correio andava atrasado quase um mês... cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. Na messe dos sargentos. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. Com as últimas garfadas.

mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. Por favor. virando-se para a comitiva tagarelando. são 13 horas e o almoço arrefece!. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. Agarrados aos frágeis bancos de lona. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor.. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. Num repente. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. vamos tentar uma aterragem de emergência. ainda fumegante. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. – Calha bem. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se.. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. Em princípios de Abril de 1974. Depois de levantar voo na pequena pista. atingira-se uma situação alimentar muito precária. os “Strella”. a aeronave subiu muito alto. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. com o 335 .

O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos.motor restante acelerado ao máximo. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. em Diaca . e a falta do motor. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. fora feita para receber os pequenos monomotores. o avião meio destruído. prevenindo-a da emergência. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. O piloto-chefe informou via rádio. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. vamos “dançar” um bocado. quando se aperceberam da situação. travando a fundo os rodados. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. 336 . Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. gritando o desespero da hora derradeira. fazendo um barulho ensurdecedor. a exigir a elevação do “nariz”. – Tenente. não permitiram uma boa travagem. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento.. a unidade militar mais próxima. No interior andavam todos aos trambolhões. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. imobilizou-se por fim.. A pista de terra batida e cheia de buracos. em rápida aproximação da terra. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. abandonadas à pressa pelos indígenas.

da intelectualidade progressista. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. dos trabalhadores. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. depressa se envolvera na luta pela democracia. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. e desmultiplicava-se em acções de rua. por não haver condições democráticas. dos estudantes. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. No dia 6 de Abril de 1974. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. 337 . o Movimento Democrático ficara particularmente activo. onde decorria uma participada assembleia de democratas. Coordenando a luta legal e semi-legal.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. vinda do Sul para estudar. recebidas com grande apoio popular. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto.

gostava de escrever um poema assim. tão Não teve tempo de completar a leitura.. tê-lo-ei sempre comigo. sublime e autêntico.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. Amo-te querida esposa.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. onde quer que viva onde quer que morra.. não sei qual a sua fonte de inspiração. cresce o amor.. será o grito de revolta. Faremos dele a nossa canção de luta.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. dependurado à cabeceira... molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(.. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. A morena de olhos escuros dos genes árabes. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. à porta da cela onde 338 .– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. escrito na pedra ou no vento. o desejo. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade. multidão na verdade Lutaremos meu amor”.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. – Minhas senhoras. mas se soubesse fazer poesia.. Custava-lhe magoadas.. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair.: “. doendo no corpo e na alma.

igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. Era outro. Decisão temerária e esforço inglório. Não tivera tempo para mais hesitações. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. como era uso. entretanto regressada dos lavabos. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!... Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. apenas recebemos ordens para as transferir. – É o regulamento. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito.. Muito interessante. Eram ordens.. A carcereira às ordens da PIDE.. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. mudando o tom. completamente.. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. – Isso não sabemos.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. – São cartas do meu marido que está na guerra. “Poemas de amor e revolução”?!. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”..! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. 339 .. porém. a ala dos interrogatórios e das torturas. o estrato humano em presença. a morena de cabelos em franja. minha senhora. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia.

numa reunião da CDE. – Se pudesse ia para lá já hoje!. com data de há dois dias. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. analisar a situação. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. não vão detê-la por muito tempo. – Foi detida no princípio do mês. em Lisboa. prostrado. Aqui neste fim do mundo. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. Lágrimas reprimidas mas teimosas. na caserna pobre e alheia às vicissitudes.. por minutos ou por horas. sinto-me atado de pés e mãos.. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. nem sabia bem. 340 . Era preciso arrumar as ideias. – Vais ver. Depois ressuscitou! É verdade. produto da fé dogmática... que vais fazer? – questionava o Pedro. – E agora. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. com a miúda pequena!. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche.

. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. de quem tinha um filho também pequenito.. que avançavam lentamente. 341 . mal a conheço!. Aquilo lá está complicado. – É tempo de derrubar o fascismo.. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. agravado por um quotidiano de misérias. – Pedro referia-se à esposa. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. nas mesmas picadas.. Algo paira no ar!. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70.. com o parlatório de permeio. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. greves nas fábricas!. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. sem saída previsível. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. a guerra prosseguia sem fim à vista. – É da idade do meu. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. lançada à dois anos pelo general fascista. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES.. frustrações e medo.

entretanto afastado. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente.. apto a receber grandes aviões. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. em 25 de Junho de 1975. somados na terceira ou quarta comissão. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. que não matavam mas moíam bastante. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. a bem da moral psicológica das populações. mal instalados..”. perdidos no meio da burocracia conveniente. mas que era por vezes motivo de incidentes. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. talvez o enorme campo de aviação. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. mal alimentados. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. diziam as vozes do desânimo.. fazia parte da orientação do In. da contestação e da revolta. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. No presente. Já quase chegavam para a casita nova. Aliás.

que não resistiriam a uma boa “morteirada”.. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira.. quando o pânico perturba a racionalidade. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. debruçados no parapeito da vala. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. mas às vezes não!. encarregada da segurança daquela área.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. com a arma cruzada entre os braços. desde que começou o ataque às 8. estão em calções 343 . – Ai minha rica mãezinha. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. Pela primeira vez em pleno dia. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. Companhia de Caçadores.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. É o décimo. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos.

Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. entretido a escrever à máquina um aerograma. de 8 e 14mm.. ser um normal rebentamento na pedreira. na direcção da pista de aviação em eterna construção. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. tinha decerto instruções hierarquizadas. onde psicologicamente o susto era menor. enquanto o chefe não chegava. Na secretaria do comando.e tronco nu porque o tempo contínua quente. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. a meia encosta. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. A excepção foi o comandante do aquartelamento. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. pensava-se inicialmente.. Restava a vala-trincheira já superlotada. na direcção do posto de artilharia da unidade. Na reacção. arrancando resoluto no jipe. a responderem ao bombardeamento: 344 . – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados.

. filho de pequenos agricultores. ao fim da tarde. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. ribatejano. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. Outra vez a voz calma do furriel Costa. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa... permitia concluir que ainda estavam vivos. com a G3 entre os braços. Havia uma pequena pausa no ataque. a mais de cinco quilómetros. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. não morreu um gajo no ataque a Palma! .. – Pois não. O furriel Costa continuava imperturbável. é relativamente inofensivo. a menos de 50 metros. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. pá! Por pouco!. que “quando se ouve é bom sinal!”..– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. sempre de cócoras. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. “arrancado” à escola superior de agronomia. mas a tremenda e instantânea confusão. Olha se caísse aqui?!... Aprendia-se nas conversas de caserna. – Ena.. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo.

– Venho estafada. traduziam um intenso pavor.os anteriores. A resposta da artilharia esmorecia também. as munições deviam estar a escassear. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. durante uma hora e vinte minutos. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. Nove horas da manhã. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”.. já se via muita gente de pé. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 .. No seu jeito brincalhão característico. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. No dia 4 de Abril de 1974. só estragos materiais. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. Os olhares cruzados naquele instante. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. a pontaria estava agora muito alta. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. fica atenta às notícias da telefonia!. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros.

enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado.e não queres que durma? Sorria.. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. O comboio da linha fora a primeira etapa.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. a jovem mulher com ar cansado. se se cumprisse a movimentação preparada. no “Abril em Portugal”. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. – Vai-te deitar. mesmo em dias de borrasca.. rapariga! Descansa. pela primeira vez em muitos 347 . – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. bem precisas. Amanhã logo saberás quando acordares. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. sempre lindo. Não te preocupes. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo.. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. Conhecendo o ditado das “águas mil”. sem objectivar. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. onde começara o namoro e. – Como foram os interrogatórios. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. ao rever o local à beira-rio.. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís.. nos novos caminhos da liberdade precária.. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. distendendo os nervos. em vias de se tornar definitiva.

“visita” diária desde o primeiro dia. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. – empertigou-se o chefe de brigada.. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. onde vivia com os sogros. – Não tenho nada a declarar. – Responsáveis fomos todos. a esta hora já estão em casa com as famílias. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. sorriu. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. desde a partida do marido para a guerra.. Como estaria o seu João. sobre as 348 . horas e horas de angústia. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. nada mais tenho para dizer! – Ah.dias. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. Novamente a insídia do inspector superior. a mostrar serviço na presença do superior.

prestes a levar um bom e muito desejado abanão.insinuações em relação ao companheiro. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. Finalmente! 349 . Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. alegre por rever a mãe. Por fim desistiram. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas.. na hora de tentar conciliar o sono. após quase vinte dias de interrogatórios. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. com um sorriso como não via há muito tempo. Numa das vezes. Um último pensamento foi para o companheiro distante. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. e só regressou exausta de madrugada. em catadupa. onde cabia toda a candura do mundo.. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. houve qualquer coisa em Lisboa!. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. a saudade roendo o corpo e a alma. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias.

.– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!. 350 ..

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