A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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quer na dinamização do 25 de Abril. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. infelizmente. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. deixo ao leitor.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. quer na rápida solução do conflito. para dentro das fileiras das Forças Armadas. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. que nisso estiver interessado. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. Respeitando essa intenção. indiscutivelmente. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. No centro de instrução em Mafra. Marcharam esses 8 . de algum modo. o autor adoptou uma estrutura mista. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. e que assim. Essa foi.

milicianos. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. O regresso dos militares feitos prisioneiros. Exactamente ao invés do intelectual burguês. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. graduados em oficiais ou sargentos. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. etc. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. Angola. ignorando-os ou afeiçoando-os. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. Damão e Diu). Na realidade. em Maio de 1962. Entretanto. Não se trata. estende-se entre 1961 e 1974. Logo no capítulo 2. O narrador acompanha-os. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. a crise académica de Março de 1962. É esse o período de 13 anos e 3 meses. cujo método é. por norma. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). relatar casos e episódios que contenham significado implícito. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. Guiné. para os três teatros de operações. desprezando a evidência dos factos. nomeadamente o historiador académico professoral. perante as forças da novel República Indiana. Longe disso. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. a petição de princípio. por exemplo. o autor intercala dezenas 9 . Moçambique. de ensinar. De acordo com o seu propósito didáctico. entenda-se. isto é. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador.

Um estado dentro do Estado.o livro agora publicado. despidos de ambição pessoal. Dos comunistas em primeiro lugar. contra a opressão fascista. tantas vezes heróico. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. (Mais que justo. invocar essa memória já constitui. reconforta a alma. por si só. um acto de resistência. é justo assinalar. quer nas colónias em guerra. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. de forma modesta e aparente singeleza. por estes democratas da 25. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. Em tempo de escuridão. que fazemos um povo. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. nesses anos finais.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. devemos ter orgulho nesse 10 . Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . Nos tempos presentes. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. como bem observa. quando se perfilam em Portugal e no mundo. quer no país europeu. pois repara muita injustiça). cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente.de resenhas de carácter histórico. Mas todos. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. algumas extensas de dez páginas. aos direitos do trabalho e à própria condição humana.

não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. que nunca aceitou como causa sua. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. mobilizado para uma Guerra Colonial. Lisboa. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. não devemos esconder esse orgulho. comunista de sempre. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . E.passado pois é parte e espírito da nossa História. permitam-me. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho.

Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. as mágoas persistem. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. teimosamente persistente. e da “vitória ser rápida”. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos... quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. As memórias da realidade. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. compreender a guerra por dentro. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. porquê? As memórias esvaem-se. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. perene. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. vivê-la com as 12 . ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar.. o romance. Estes ensinamentos da nossa história. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. a ficção baseada em factos reais. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. dos seus incrimináveis mentores. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. Nunca é tarde para perceber. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. definitiva.

as solidariedades. o desiderato deste livro. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. Guiné e Moçambique. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. além do mais. a amizade. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. 13 . dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. A luta de novo tipo. a revolta e a coragem. os medos. e. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. contra os mesmos incorrigíveis franceses. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. ouro sobre azul. mas agora. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. É este. o terror. a nobreza de carácter. flagelações e punham minas nas picadas.angústias. a cobardia. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. as tristezas. que faziam emboscadas. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português.

mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana.. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola.. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. Como se Agostinho Neto. procuraram elidir as questões fundamentais. Como se não existissem 400 anos de dominação. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. deturpando. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas..) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. o “Avante!”. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. iludindo os portugueses.Os fascistas e militaristas. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. escravatura. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. na rádio e na televisão (também no cinema!. órgão central do Partido Comunista Português.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. próceres de Salazar e de Caetano.. Os que regressam de África ─ os 14 . não tivessem nascido. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis.

desmobilizados. constituindo um feroz. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. procura um caminho para se manifestar. até ao 25 de Abril de 1974. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. nomeadamente: fuga à tropa. * 15 .º 322.. as lutas e deserções multiplicam-se (. o Presídio Militar de Elvas. n. de presos por revolta ou protesto. A amargura. de Outubro de 1962. que ousassem levantar a cabeça. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. Os protestos. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. A recusa podia revestir diversas formas. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria..). Em Portugal. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. de objectores. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão.

entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. deviam ir à guerra e uma vez aí. nas empresas. deturpada e mentida. a violação de mulheres. o tratamento desumano de prisioneiros. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. profissionais do quadro permanente não desumanizados. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. obstou o crime horrendo. nas escolas. os melhores. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. torturas e morte. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. de preferência em grupo.. sob todas as formas. Tarefa complicada sem dúvida. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. dependia a aceleração do fim da guerra.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. o assassínio gratuito. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. que tudo pervertia e até fazia assassinos. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. e os que estavam convencidos que da sua acção. massacres. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. As suas 16 . ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. entre os jovens fardados..

Os comunistas. no movimento democrático. ainda que pouco (re)conhecido. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. tráfico de influências. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . às vezes mitificadas. depois. o “Movimento de Capitães”. “anti-patriotas” por definição. primeiro. compadrio. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. nas colectividades e associações. tentavam por todos os meios (cunhas. neputismo. a “soldo de potências estrangeiras”. por outro lado. e o. suborno. A sua opinião crítica. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. * É incontornável. as suas manifestações e lutas. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. seus inimigos figadais. “Abaixo o Fascismo!”. com profundos sentimentos anti-guerra. nos locais de trabalho. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. iam para a dita. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. e o “Movimento das Forças Armadas”. nas escolas e nas ruas.

e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. vigiando. o título de P. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. de contestação e de revolta. Em África como em Portugal. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. prendeu. torturas até à morte. perseguindo. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. em 1969. 18 . que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. despromovendo. Uma questão central da guerra em África. castigando e quiçá matando. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares.Estas profundas contradições no seio do regime. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). perseguiu. fichando. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. (politicamente activo). Espancamentos brutais. excluindo. em estreita ligação com os meios militaristas. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). a PIDE/DGS humilhou.A. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. sobre a Academia de Coimbra.

Significa que entre nós o crime compensa. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses.guineenses e moçambicanos. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. a chamada guerra subversiva. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. Salazar dera orientações nesse sentido. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. a guerra colonial foi calculadamente 19 .

redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Mário de Figueiredo. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. não permitia saídas do tipo neocolonialista. devido a interesses económicos e empresariais. pelos valentes capitães com o apoio popular. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. e uma multidão de títeres do regime. Américo Tomás. por certo. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. naturalmente. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. Franco Nogueira. Silva Cunha. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. Era assim para Oliveira Salazar. Com determinação e sentido histórico. Kaúlza de Arriaga. Silva Pais. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. evidentemente. Holanda). muitos destes nas Forças Armadas. para que o poder político encontrasse uma solução. França. com a outra mata!”).preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. por questões de classe e de interesses individuais. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. Marcelo Caetano. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Bélgica. 20 .

com as marcas irreversíveis no corpo. Para os milhares de feridos e estropiados.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. do passado ou da contemporaneidade. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. naturalmente. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. a guerra colonial não acabará nunca!. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade.. Que este livro de inquietações. África jamais será esquecida. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. Essa seria a única. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. a derrotar todos os “senhores da guerra”.. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim.

). Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. o coronel João Varela Gomes. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. será a nossa maior satisfação. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. Flechas. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. perpetrando matanças descabeladas. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. “Katangas”. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. etc. Barreiro.Jorge Jardim. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações.. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Em última análise.

1. IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .

sempre com muita gente azafamada. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. não vá andar algum "bufo" nas imediações. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. Bom. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. Passam cinco minutos da hora combinada. há iniciativas dependentes daquela conversa. Pouca gente na rua. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo.arranca desiludido. mesmo em frente da paragem do eléctrico. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . ficar na paragem não é prudente. a nova ligação é importante. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. O "28" chega vagarento e ronceiro. É preciso voltar no recurso.Horas de jantar. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. Aquela é a única carreira que por ali passa. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. Embora não seja novato naquelas andanças. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. à espera do sinal précombinado.

meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. António de Spínola. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. Bento. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . Pelo som. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70.─ “Olhá” desavergonhada.. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. Bento. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. o telejornal está a começar. a rua entristece-se. sorvedouro de homens e de recursos. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. vai caindo em descrédito. inóspita. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. capital de um império de "faz de conta". a querer roubar-me os "tomates"!?. desoladora. mal iluminada. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. o eterno mistério das trevas. Calçada de S.. Sacudir as teias é preciso. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. O populismo do governador do monóculo. Rua dos Poiais de S.

Contradições do sistema. aproximando-se inexoravelmente da cidade. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. D.. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”.!? Bom! Carros pretos há muitos. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede.. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. na reunião matinal. Pela porta de uma taberna escura. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . Carlos. mas hoje precisamente. durante o "minuto conspirativo". da chamada ala liberal. Av.. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid".. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas.

e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul.Górdio". Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. com populações civis sacrificadas. condenações de Portugal na ONU. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. Kaúlza de Arriaga. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. no norte de Moçambique. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. e das imensas contradições em que o regime se atolou. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. colocada num canto superior do estabelecimento. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente.

envergando roupa de tons escuros. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame... 28 . O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. será alienada. convicto da orientação política traçada.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné.. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. ajudando na consciencialização. na tropa há seis meses. o jovem moreno e bem vestido. ─ clamava exaltado no calor da discussão.. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. o rapaz magro e alto. não!?.. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. não sei se estão a perceber!?. na Guiné. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos.” Madina do Boé. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África.. que teria a capital em Madina do Boé. em Setembro de 1973.

. acendeu paixões e afivelou rivalidades.. ─ o camarada João. quero ver como é!. sabia do que falava.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . paradas. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. Grande bronca! . o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. mas simpática e graciosa. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.. nos postos avançados. e. mas a coisa pode radicalizar--se!.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. na distante. algo distante e compenetrada.. Aquela forma de estar. casernas. sentindo o cheiro a pólvora. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. O mesmo sentimento alastrava nas repartições.. * Chegara ao grupo discretamente. motivadas por razões corporativas.. nos aquartelamentos.. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. Este sentimento corria os quartéis.. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. Não era fácil convencer quem. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso.

─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido.. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. cigarro nervoso entre os dedos. incorporava o regime.escuros e sorridentes. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. propiciava radicalismos. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. um aspecto tristonho e sério. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. risonha e muito extrovertida. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. de barbicha. No pós Maio francês de 1968.. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil.

─ Fazem favor de se sentar. como acontecera de outras vezes.. não temos pressa!. Naquele início de noite estavam só os dois.. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. ansiedade. Cumprimentos da praxe. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. A luta era feita de vitórias e derrotas. ainda não respondeste ao meu pedido.. ─ Escuta. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto.. senhor ministro. normalmente acompanhados. de avanços e de recuos. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. mas o momento era de grande frustração. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. de perna curta. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. ─ Sabes? Eu … eu. ─ Ora essa. uma penumbra agradável num tempo de quase verão.

enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. O País animou-se em expectativa. Milhares de estudantes em desobediência civil. no início do ano lectivo de 1969/70. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. contra a ditadura política. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. a que os estudantes chamavam 32 . O Ministro da Educação. sem vacilações! Fazem greve em Julho. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. Uma actuação firme. Ao fim e ao cabo. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. Universidade. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada.. no topo. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. A crise académica na Universidade de Coimbra. da GNR e da PIDE. telefone pousado. acompanhada de abundantes gestos..e uma cadeira de espaldar alto. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães".

recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. senhor ministro.. ─ Mas fazem o favor de se sentar. mexendo-se incomodado. ficando enterrados quase ao nível do chão..satiricamente o "meio-istro" ou. Os quase siderados visitantes. outra forma de piropo estudantil. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. ainda em pé à beira dos sofás. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. 33 .. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. o "mini-istro". mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. Do alto do espaldar da sua cadeira especial. devido à sua baixa estatura. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. vezes um ano perdido.. "meio-nistro". teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!.

no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. Cego! Informara o comum amigo e avisador. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. resolveu que a solidariedade era mais urgente. Embarcara para a Guiné há menos de três meses.. quando o Partido Comunista da União Soviética. Uma angústia feita suor frio. Pelo caminho. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. mas logo assim em tão pouco tempo!?.. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. por dentro. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. na clandestinidade. junto do “povo fardado”. como furriel sapador de minas e armadilhas. João. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. na qual o Rolando também tinha participado. minarem a confiança dos soldados no Czar. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. chocante. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista.

É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo... com múltiplos pavilhões disseminados. Como não havia ninguém de guarda. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. com uma absoluta angústia de ver o 35 . com cotos ligados à altura dos cotovelos. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. agora “minas e armadilhas”!?. de cabelo encaracolado de um escuro característico.secretaria. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. que se calhar nem foram ouvidas. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca.º pavilhão. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. revoltadas e envergonhadas.. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido.. por estranhos e simultâneos sentimentos .. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. foi entrando pelo terreiro. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. vários soldados em pijama regulamentar. O coração doía com aquela visão terrível. também neste local não havia guardas. contudo logo à entrada do 1.. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. Por instantes ficou paralisado... a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. estavam sentados em cadeiras de rodas. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos.

estou sozinho!. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra.. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo.. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. Os médicos já me viram!... ─ A esta hora está tudo ocupado. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. comovido até ao limite das forças. começou a dar-lhe a sopa.. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão.. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita.. 36 . entrei porque não encontrei ninguém de guarda. ─ o jovem muito moreno. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. Sem nada dizer. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa.. ─ Então rapaz. ninguém dera pela sua presença. ─ Sim! Bem!.. Sou amigo como se fosse irmão.amigo naquele estado..

aproxima-se o "28". ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. com 37 . ─ Talvez mais tarde. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. filho dilecto do regime: ". foram as palavras do professor.. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. rangente.─ Bom! Isso é uma boa notícia. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria.. ─ Não quero mais sopa.. Com a mão no ombro do amigo. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. devia estar com vergonha da sua situação. a rua está agora quase deserta. A outra vista não tem recuperação. vagaroso."...sem Madina e sem Boé. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. é tempo de voltar para casa. com outros recursos consigam recuperar a outra!.

. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!.a chamada “primavera marcelista”. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra.... De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. um carro preto vindo da esquina próxima. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. não há veículos à vista. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. no Instituto Nacional de Estatística. ali perto. Afastada a concorrência. Não pensava tão cedo. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. Mas os tempos estavam a mudar. gritos.

e o mundo revelava-se sorridente..! Mas olha. em princípios de Outubro. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. enlevados e trémulos de emoção. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. tudo à volta parecia perfeito e calmo. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. sem lamechices. Um a um todos foram chamados para a tropa. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. ditava a incorporação em Mafra. Os corações abriam-se de forma sincera. O jovem alto e magro. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida.. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. Deram a volta ao quarteirão. sem mais nada. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. no COM.namorada? ─ Sim. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 .

. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. partiram para a guerra. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. seguindo uma orientação conscientemente assumida. o seu João Silveira. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. E morreu mais um no turno passado.. trôpego. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. do 2. durante exercícios com fogo real. Até que todos os seus mentores. os comentários. Durante muitos meses. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. trazê-mo-los no coração. levou as notícias. Saía à mãe.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. pois o pai. vacilante.º ciclo. necessariamente clandestino. os relatos. 40 . o “Alerta Camarada!”. nos inícios da década de 70.

apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. ─ É este aqui.. melhor que ele próprio. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. alguns com fantasias bizarras. alojado junto da coluna vertebral.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. Mas não tem nenhum nome?!. “Raio de ganapo!” ─ pensou.. foi!. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. ─ Avô. não foi avô? ─ Foi. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis.. * 41 . ─ Pois não.. muitos com flores artificiais... ─ Avô... Traquinas e esperto como poucos. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. com nomes gravados outros. Para mim a guerra nunca acabou!. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. com fotografias uns.

Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. comandante da secção. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. a chamada rebenta-minas. sobretudo nas zonas de areia solta. emboscadas ou minas na picada. Há semanas que não havia flagelações. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. magnetómetros à frente para detectar metais.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. o grande temor pelos últimos dias de comissão. as picas atrás a furarem o terreno. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. o pessoal seguia com relativa descontracção. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . não tardava nasceria o Sol. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos.

deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. devagar... como dizia publicamente e sem rodeios. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante.. 43 ... à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. pá! Passa-me a pica.. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma.. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. viscoso. ─ Calma. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. dizia sempre o que pensava com frontalidade.. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!.. O Pinto era um rapaz corajoso. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia.. com distinção e elogios. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. vou tentar des. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente... Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. leal e honesto. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. o 1º cabo José Pinto. várias vezes dissera que se morresse na guerra. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo.. assim.

44 .em Moçambique.

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .2. REGRESSO DA ÍNDIA.

frente à taberna do Arnaldo. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. o sobrinho Alfredo. dá o mote: ─ O que representam Goa. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. mas com as preocupações de um mundo em tensão.Tarde de sábado. lembrando as lições da escola primária. oriundo do Alentejo litoral. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos.. como republicano e antifascista.. se engajou na luta contra a ditadura. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. há muitos anos radicado na vila operária. nos fins da década de 50. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. O dono da casa. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. não podemos abandoná-los !. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. onde.

─ Então senhor Vaz. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. a PIDE rondava-lhe a casa. Na sala.. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. ─ Sabe. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. como lhe ia dizendo. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. barba ou cabelo? ─ Barba. Embora saísse sem julgamento. tendo passado alguns meses preso em Caxias. claro!. e. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. notório situacionista. nessa azáfama. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. 47 .oceano! A conversa muito animada. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política.. desculpe. bom. refastelado na cadeira. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. demoradamente. merecias que te cortasse o pescoço !”.

se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. o governo salazarista. Já em número de 300. de que deveria restar uma memória positiva. qual falcão em plena guerra-fria. Na longínqua Ásia. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. usando a férrea censura dos jornais. O 48 . em Helsínquia. escondendo do povo português a sua vocação belicista. insistia na via do confronto militarista. pondo o quartel em “estado de sítio”. em 1955. Os governantes fascistas.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Inglaterra. no mesmo ano. a Assembleia Mundial da Paz. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. sob administração portuguesa. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. juntaram-se na parada a protestar. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. ficou uma lembrança trágica. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. em Évora. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. Damão e Diu. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. com representantes de 68 países. foram castigados com o corte de dispensas. No regimento de Artilharia 1. Estados Unidos e União Soviética. em Bandung. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias.

No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. intimando toda a hierarquia. em 30 de 49 . gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”.comandante. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. Aumentou a revolta aos gritos de. é hoje! É hoje!”. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. mandou fazer uma marcha acelerada. dependia de outros embarques próximos. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. Depois de mais alguns episódios repressivos. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. Exaustos e revoltados. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço.

Ainda no final da década de 40. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.. à sua defesa. cobiçadas pelos norte-americanos . sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. Salazar afirmara que . Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. É assim. Quando um povo. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. muitos povos”.analisa a questão colonial portuguesa.Maio de 1956.. “Uma Nação. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 .. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. à sua subsistência”. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. no campo democrático. quando da negociação do plano Marshall. Na década de 50.. etc. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. necessário à sua vida.

já citado. as fomes e epidemias devastadoras... de costas para a História e numa corrida contra o tempo. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. em iniciativas abertas e unitárias. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”.). acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. isto é. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas. social ou político. a ausência de qualquer direito. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo.. o MUD Juvenil... No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956. . cinemas e lugares públicos. generoso portador da civilização”. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”.. como.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. de Junho de 1956 : “(. na Margem Sul e noutros pontos do País. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. a segregação racial nos transportes. “um movimento racista contra o branco. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. O órgão central dos comunistas.. Por volta de 1954. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (.. O regime salazarista.

que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. Mas senhor doutor.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos.. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. com que trabalhos e canseiras. (. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. quando o clube da terra jogava em casa. vigário da matriz: 52 . muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação.. posto que irmãos não tinha. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. na casa modesta da tia Clotilde. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. depois da “bola”. era tempo de visitar o primo Zé. nem os discursos de Salazar. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. como os valentes soldados de Évora..). e desde então todos os anos vai a Fátima. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. O colonialismo tem os seus dias contados. nem os planos e as medidas de guerra.. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. mais do que com qualquer outro membro da família.

Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. comprada a prestações com muitos sacrifícios. como não haverá navios rendidos. lembrando-se da afirmação 53 . A telefonia. era a sua companhia de muitas horas. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada.─ Clotilde. 300 milhões!. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. um luxo para as classes trabalhadoras. naquele tempo dos princípios da década de 60. com uma relativa consciência do mundo. para ouvir os relatos de futebol. não percas a fé na senhora de Fátima. olhe que os indianos são muitos. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado.. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde.. entretanto já terminados.

se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa.do barbeiro. como mandara o ditador. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. Quando os militares portugueses.. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. Damão e Diu pela União Indiana. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. restavam os ganapos e as moçoilas... rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. por isso lhe dava uma carga pejorativa.. dez mil e tal contos. feitas 54 .. as tropas portuguesas na Índia. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. numa atitude típica do seguidismo salazarista. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. de medos e angústias. ─ Ah. . ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. em África. em Dezembro de 1961. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. comandados pelo general Vassalo e Silva. na Índia longínqua.. Joaquim Faria. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. Em Maio de 1962. Eram agora raros os saltadores exímios. “rapidamente e em força”. talvez!. na altura dos Santos Populares.

vestes escuras e lágrimas doridas. No dia 23. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. vindos dos desenganos apesar da noite fria.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. É um senhor vestido civilmente. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”.. grande algazarra entre as centenas de parentes. já não o vejo há dezoito meses!. só acostaram em Lisboa já de madrugada. oriunda da zona antiga da vila operária. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. ─ implorava uma velha mãe.. conforme os boatos que iam surgindo. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. iam finalmente regressar ao País. Gritos. cada vez em maior número. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. de gabardina e chapéu. correu juntamente com muitas outras famílias. ansiosa por abraçar o ente querido. instado por um grupo de familiares. lenço modesto na cabeça. dado o seu isolamento.. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. ausente há muito tempo. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. a família de Alfredo Júnior. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais.. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. e viceversa. A mãe de Alfredo. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). na ausência de informações oficiais. apupos.

incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. não podemos esquecer o povo português que. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila.) Por isso. acenam com lenços brancos. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . fora do olhar policial. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. datada de 14 de Dezembro de 1961.. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. mas contra o colonialismo e o fascismo. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. alguns jovens esgueiram-se lestos. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. acompanhando zelosamente o senhor inspector. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. antes de voltarem para casa. por sua vez. Ao longe. estenderemos a vós.. Como povo livre. povo de Portugal. debaixo da mira de dezenas de espingardas.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…).

talvez pela primeira vez. compreendendo.juventude. em troca de uma decantada pátria pluricontinental. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. Regressaram à terra natal. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. 57 .

na Indonésia. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. 58 colonialmente ocupados. contra o ocupante francês. Em 1954. Damão e Diu. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. FNL. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. porém. Não era esta. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. em 1955. a opinião dos meios de oposição ao regime. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. Ou a realização de um “referendo em Goa”. que considerava proclamavaportuguesa”. potência colonial. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . em Diên Biên Phu. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”.

59 . Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. os representantes dos países socialistas.. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. Em relação às colónias portuguesas. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. todos vivemos num único planeta. trabalhamos. Do que se passou nessa histórica assembleia. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. pela União Soviética. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta.)”. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa.. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. Neste planeta nascemos. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. dos neutralistas e das jovens nações africanas. Em 1958.

A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. turutuka dii. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. que procuram inverter os factos. Os massacres dos povos de S. Cabinda.. com o agravamento da exploração colonial. com o apertar das algemas da opressão colonialista. Mueda. Os patriotas angolanos.” (oiçam. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas.). Timor. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Goa. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”.. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. Scalo Bengo (Angola). Neves Bendinha. ivuenu. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu... Bissau. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. voltaremos aqui.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. oiçam. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Tomé. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. Paiva Domingos da 60 . em Luanda.

enquadrados em vários grupos. De resto. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. abençoou os revoltosos. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . fazendo milhares de vítimas. guardadas no campanário da Sé Catedral. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. o próprio. na Ilha de Santiago. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange.Silva. Imperial Santana. em Cabo Verde. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. Na madrugada de 4 de Fevereiro. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. Virgílio Francisco. um cónego mestiço angolano. Domingos Manuel Mateus. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. Raul Deão. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. missionário na arquidiocese de Luanda. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas.

─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. “Mata esse preto. espancamentos. uma autêntica “eliminação selectiva”. sendo os restantes. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana.. À noite nos muceques. deixando centenas de cadáveres. Pedro da Barra. empurrados logo de manhã para as valas comuns. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. Depois foi um terrível massacre.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). ─ Cadeia da 7. junto à praia do Bongo. filho da puta!”. espancamento e morte de gente negra. presos.). com a perseguição. Estava iniciada a Guerra Colonial. onde estavam muitos presos políticos. indefesa. era a “limpeza étnica”. feridos. com poucas excepções. interrogados. dezenas de autóctones. Nenhum dos objectivos foi alcançado. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. ─ Companhia Indígena. mortes às dezenas. começou a terrível “révanche”. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. ou de trabalhadores numa oficina perto. que seguia num machimbombo (autocarro). torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos.. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. Agarra que é “lumunba!”. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. correrias. levado a cabo por gente desvairada. nas rusgas e cercos.

Ao fim da tarde. quando a avenida da Praia era mais frequentada. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. o João “Careca”. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. conseguia desatar. O célebre fadista. sempre com conta e medida. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. do café Beira-Mar. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional.

64 . três ou quatro todos os dias para não assustar muito. é nossa! Angola.. sempre se ficava a saber alguma novidade. porque a família real era dinástica e divina. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal.. gritarei é carne e sangue da nossa grei. Fazia vibrar de emoção e orgulho.” A sensação desagradável. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. quebrando a corrente emocional e patrioteira. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. pela negação dos factos apresentados. inquietante mesmo. Acabou o noticiário. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis..multicontinentalidade da Nação. deixando uma angustia de dúvida e receio. da sua grandeza Além-Mar. é nossa! Angola.. é nossa. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques.. A curiosidade fora espicaçada. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra.. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso... ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma.

idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Scalo Bengo . Timor. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. o regime 65 . Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. Uma. diz ser tudo mentira!. músicas estranhas que o velho vizinho. três tentativas. etc.. Vozes estrangeiras incompreensíveis. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso.─ Tio Zé. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. ─ Esse gajo é da situação. O Ferreira da Costa. mas a realidade inevitável. senhor Lobo..” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”.. Goa. sobrinho por afinidade. Tomé.. mantém nas masmorras da PIDE. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. Mas é perigoso ouvir!. E voltava! “. salazarista convicto. bem pronunciada... numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso.. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos.. S. O regime fascista. duas... na Emissora Nacional. Baixa do Cassange. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “.. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente.

colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola...” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.ª classe na Sertã natal. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.... Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “.. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. pelos serviços da PIDE.00 e as 21.” Afinal não era a Rádio Moscovo. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . Os dilemas da guerra e da paz. era outra voz da mesma liberdade procurada. obstando a mensagem de denúncia e de luta. Depois da 4. Espera enervante. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. entre as 19. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua.00 horas.

Manuel interrogava-se. por sugestão de um colega. abriam-lhe os horizontes. na Escola Fonseca Benevides. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. com um salário que mal dava para a renda do quarto. parco de palavras. O convívio com operários mais velhos e experientes. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. embora exigisse muito sacrifício. A grande cidade dava outras oportunidades. Um segundo passo importante fora a mudança. com uma sedimentada consciência de classe. as conversas sobre a realidade do País. promete continuares a estudar. Aprendiz numa oficina de automóveis. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. as leituras recomendadas. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. aliciado pela PIDE.incerteza no futuro. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. por lá ficou mais de um ano. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . para a outra-banda. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. em toda a sua vida.

em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. O terceiro irmão não fora mobilizado. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. A experiência de participação. a conversa era fácil e fraterna: 68 . preocupações comuns e solidariedades.conta. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. partilhada em muitos anos de brincadeiras. depois da incorporação e a recruta. nas lutas no Ensino Secundário. a mobilização para Angola. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. de Xabregas à Veiga Beirão. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. mantinham a amizade da adolescência. mas chegara a sua vez. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. o “Avante!”. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. que depois da questão da Índia. nunca mais parara de se agudizar. E agora. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. pela primeira vez. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. Ainda agora.900. tendo depois emigrado para Angola. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial.

. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . Sou atirador de infantaria.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. vestido de pequeninas velas brancas. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência.. até se leva bem. um bom rapaz.. o choro mudo e soluçado dos homens.. agitando-se freneticamente na amurada. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. ─ Adeus filho. ─ Não. ─ Nunca pensaste em não ir. mas o Nana era assim. encobre da vista o barco. não! Mas quanto mais cedo melhor. em dar o “cava”?!. vamos todos lá parar!... muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas.. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. empurrando mais e mais o navio pela barra fora.. O pior é a mobilização!. ir à guerra e ter lá um azar.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. 69 .. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. para onde vão muitos! Já viste.

procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. constituía um arquétipo da candura nacional. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. quiçá para sempre. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. alguns. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . no silêncio do quarto. A vontade nacional de agarrar o destino. mas nunca de contrariá-lo. adormeceu finalmente inquieto e agitado. no meio do magote de gente lamuriosa. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais.O grito triunfante do homem de samarra de camponês.

pelos movimentos de libertação. até chegarem os europeus escravatura. ou para alguma coisa!?. têm lá cabeça para se governarem. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. perpetrado pelas tropas coloniais. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. Na zona velha de maioria operária. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. recentemente. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. que lia e com o colonialismo e a 71 . chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ).conversadora. ─ Os pretos são meio selvagens. 100 mil?). Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. 80. Autodidacta e amante do saber. havia muita gente esclarecida.. como sempre acontecia aos sábados. também houve nações e povos desenvolvidos. nas zonas da savana e das florestas. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. O que se seguiu. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. e agora.. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. no Norte de Angola. por vingança. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. um grupo de cariz tribalista.

Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. 72 .. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. de reflexão e de descanso. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos.acompanhava os problemas. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. senhor Vaz. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. não acha?!. E também lá foram vividos os primeiros amores. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola... Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. ─ Sabe. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. à volta do quarto pequeno e modesto. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. quando entrei!?. como lhe tenho dito. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. que tudo estava sossegado. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais.

. um precipício negro em que estava prestes a cair!. ainda é muito cedo!”. só abria às nove horas para cortar o cabelo. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . densa. perseguições. correrias. que sonho dramático!”. talvez uma floresta.“São seis horas da manhã. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. “Safa.. João deixou-se dormir novamente. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. luzes intensas. um cheiro intenso a pólvora e a sangue. como se propunha.

NÃO JURES CAMARADA 74 .3.

a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 ..LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. Seguia-se. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. nada mais. O chefe olhou-o com ar circunspecto.. três horas de caminho. Posso chamar um táxi. ─ E agora. Na manhã seguinte. fresca de Outono precoce. não me parece!. com duas ou três casas. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. já sem companhia. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação.

Muitas caras ensonadas. Guiné e Moçambique. 76 . trazia medos e fantasmas. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. em transporte próprio ou familiar. depois das longas caminhadas durante o dia. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. táctica. da instrução sobre armamento.. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado.trajectos labirínticos. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. etc. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. começaram as marchas nocturnas. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. algumas conhecidas da universidade. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. orientação. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. e já fizera a exploração dos itinerários.

mais hipóteses têm de safar a pele!”. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. ensopado em suor. “a tropa não é para maricas. célebre desde as últimas invasões francesas. durante a progressão com todo o material de combate. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. fazia mais um exercício duro porque. O pelotão do 2º ciclo do COM. daquelas que nunca mais se esquecem. quanto melhor o treino. devido às lamas nos caminhos. pá! Vou dar o “salto”. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. tornados amigos durante o 1º ciclo. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. anafado. ─ o manifestante era um aspirante alto. de boa compleição física e bom contador de histórias. pesadíssimas. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. incluindo a arma e a mochila às costas. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. Rodrigo e Francisco. ─ Não aguento mais isto. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa.. comandado pelo alferes “Manaça”. com a fama de “chicalhão” e prepotente.. pertenciam ao meu pelotão!. como ele dizia. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. ─ Tens de ter calma.

. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. bem nutrido e de ventre proeminente. ─ Outra vez a porra da lagoa. o pessoal preparava-se para a travessia. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. dando-se ares de importância. por isso ganhou os favores do graduado. na cauda dos restantes caminhantes. tem lama até às partes. gosta de fazer de porta-voz. magro de carnes. pá. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador.. entra em contacto com a pele suada. vem avisar o cadete Aníbal a correr. as pernas vacilam.. ─ Depois logo se vê.. quem não sabe nadar atrapalha-se. pá. 78 .. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. Uma porra.. começa a entrar em pânico. Por feitio ou bajulice..contrapunha o Francisco. dizes tu!. com um feitio solidário. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. relutantemente alguns ficam para o fim.. Os mais expeditos fazem-no com êxito. procurando ajudar o amigo. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. ─ Falta pouco.

arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor.grugluglu... lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . o graduado continua a vociferar. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior. marche! ─ Sim. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. Francisco apressa-se para ajudar o amigo.! O cadete Artur. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor... Friccionando-se com a camisa de trabalho. perante o quadro terrível vence a inibição. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada... tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. com uma alma altruísta. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal.. ─ Qual bombeiros..

está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. quer ir connosco amanhã? 80 . sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. tem algum problema cardíaco? ─ Sim.. ainda em tratamento.. outros. agarrados. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. que padeciam de graves deficiências. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. ─ Algo não está bem. enterrados no lodo. Baixa no anexo de Campolide. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. sempre muito elegantemente fardado. teve uma atitude simpática . o jovem alferes Terras. comandante do pelotão. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. com permanência nocturna obrigatória. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. de bengala de invisual ainda mal manejada.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. juntando-se à volta de um acamado paraplégico.

( os instrutores são uns nabos. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.─ Não.. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. A conversa continuou animada. obrigado! Sou casado!. não ensinam o verdadeiramente importante). voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. quando jogava o Benfica em casa. pouco falador. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem... Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. sim!? Obrigado! Eu. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. ─ Ah. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. nunca cá tinha estado. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. ─ Ah! É casado!. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. em cima da cama. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias.. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”.. ─ Agarre-se a isso. já não tinha mais novidades....

mesmo dobrado. abrir o fecho da braguilha... como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. “cada um com a sua”. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. fora de qualquer regulamento.. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. ─ Ah! Pois.. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. ─ Esse não acredito que pague!.. ─ Mas . Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você.! Não há ninguém de serviço. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente.. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande.. amanhã posso ser eu.! ─ pila era tabu. cumprem-se ordens. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. aqui anda tudo às putas. Evocam-se regulamentos.daí para a rua... como aliás acontecia com os outros. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. as coisas acontecem e pronto! 82 . um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado.. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. Era grande o constrangimento. é uma forma de dizer.

Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. amigo canta. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. As sombras encorajavam a audácia. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. ai povo. a espera animava o pessoal. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. falha de energia demorada de mais de uma hora. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. canta. alinhados em pelotões de 30 unidades.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada.

e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. com a denúncia do número de vítimas da guerra.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. o Luís 84 . entre muitos citadinos divertidos. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. Combinaram o essencial da acção primeira. e no rescaldo das cantigas. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. assumindo o compromisso. para garantir a segurança conspirativa da operação. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. Naquela tarde de Novembro de 1971. A companhia (quase) inteira. o João.

A sala dos cadetes é acolhedora. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. polido o chão pela usura dos anos. o Manuel. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. das salas. com frades de hábito e penitência. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. tão diversos daqueles para que foi concebido. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. constituindo um labirinto intrincado.Manuel. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. feitas de pedra trabalhada. dos refeitórios e das camaratas. espalhados por várias mesas. enquanto outros. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. o Fausto e o Duarte. por um lado. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. mas a maioria são cadetes. As conversas giram à volta de temas banais. a timidez. Sempre acontece quando os nervos apertam. Todos estão em farda de trabalho. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. pretextando uma guerra santa. é urgente terminar a “tarefa”. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. estava unido na acção contra a guerra. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. 85 .

Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui.. nada.. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra... um local frio e terrível. À frente de um séquito. o ouvido à escuta de passos perseguidores. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!.. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.. mal iluminado. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer.subir alguns degraus. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . Um som agudo e estranho. de porte elevado e cabelos brancos. “Safa!”. o desnorte nos caminhos desconhecidos. “As instalações devem estar em boas condições. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . um beco sem saída na desorientação dos sentidos. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. subir e descer escadas.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. um desvio apertado na primeira bifurcação. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!.. longos e frios. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima.” – pensava João. em pânico.”. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. outros sons semelhantes. como um guincho..

ninguém se atrevia a levantar a voz. Companhia de Instrução está tudo calmo. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. são ratos. correr. excepto algumas respirações mais agitadas. certamente devido a pesadelos também. Na caserna pequena da 2ª. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. 87 . Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. sair do pesadelo. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. por detrás das lentes grossas. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina.habituando-se à escuridão percebem dezenas. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. centenas de formas em movimento. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. comandante da unidade. Custara a pegar no sono. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. acordar no beliche superior inundado em suor.

. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. Por fim vieram três ou quatro cartas. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente.”. a minha namorada escreveu-me!. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos... Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. uns voltavam logo. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. foram coladas nos corredores do convento.─ Tem de haver muito cuidado. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. num pátio interior mal iluminado. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada.. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. A acção tinha corrido muito bem. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. denunciara a patifaria.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. vulgares na época. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. não há nada para mim? Não pode ser.] já bastam! Não à guerra colonial!”. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. escondendo a timidez e uma pequena miopia. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos.

João precipitara-se para o exterior com passo estugado. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . havia excepções... instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. Andava e pensava para distrair a ansiedade.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. a norte. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. pela aproximação do ocaso. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. porque apesar do sistema aperrado. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. não se via vivalma no caminho. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. certamente algum “menino” a caminho da cidade.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia.

─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna.. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. socialistas. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado.. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. bom para a recruta. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. Trago a senha para o contacto que combinámos. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. esquerdistas... independentes. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem.. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa.. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. existe um ambiente geral muito favorável. embora arrefecesse a “sentidos vistos”.). em transição para 90 . “Não jures. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada.sugerido aquele local. os dias eram cada vez mais pequenos. Boa sorte para a iniciativa. ─ Cuidado!. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. nas bandas da Malveira.

a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. orgulhosos da classificação na prova de tiro. pelo menos nas costas dos instrutores. dizia-se. é sempre um momento angustiante. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. nos arredores de Torres Vedras.o violeta. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. mesmo que seja só em treino. esmerando a pontaria com o “olho director”. No miradouro não estava ninguém. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. cada dia é sempre diferente. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . com um tempo desagradável. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. chuvoso e frio. * Durante a semana de campo. Não há dois pôr-do-sol iguais. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança.

parentes. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. afilhados. altos dignitários da Igreja. E. Em requerimento ao Ministro da Defesa. deputados da Assembleia Nacional. iria passar por um mau bocado. e muito menos a disparar. ─ Não. enfim. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. mas não permitia. não! Não posso!. tentando safar os filhos. latifundiários. porque precisava de carne para canhão. a fina flor do nacionalismo. etc.. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. o oficial do quadro 92 . generais.. credores de favores. a subversão aumenta!. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. tinham um estatuto especial. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. empresários. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). como dizia o comandante da Legião Portuguesa.. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa.especialidades. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra.”. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. Eram filhos de boas famílias..

permanente estava prestes a perder o “verniz”. Não servia para “oficial de guerra”. e. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. ─ Eh. só por milagre ninguém foi atingido. de repente. sob pressão da intolerância militarista vigente.. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. levantando e baixando a espingarda. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. normalmente sonolentas e ressacadas. à beira de um ataque de nervos. foi despromovido para soldado. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. forçado pelo instrutor. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. atire ! A tragédia estava eminente. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. a arma começou a disparar. O cadete gordo. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde.. baixote e 93 .

nas vitrines e até nas pautas. O velho convento de Mafra estava em polvorosa..empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. No fundo da algibeira. nas paredes lisas. ─ Não jures camarada! Já disse!... reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. ‘tás a coçá-los!. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. ─ Ah! Pois. nas portas. “quero essa merda toda arrancada!”. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. “não jures camarada!”. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto.. ─ O quê. Boa!...! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . ─ Essa é boa. logo apareciam noutros locais.. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. ─ Ouviste? A barraca está armada. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. nas janelas.

a hierarquia estava convencida de ter anulado. . pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. O major. A desorientação sobreveio.. Tacteando a cola com os dedos. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. propositadamente. . Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia.. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira.. pela intimidação subsequente. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço.. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. 95 . encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. a primordial agitação. a coacção e a chantagem.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes.

já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento.. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . Providencialmente. futuros oficiais do Exército Português. até na sala do cadete: “. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”.. afixada em muitos sítios desusados. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. pois o outro chuveiro estava avariado.. Queria ver se fosses atirador como eu!. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Por este tempo. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez.─ O carago. com zonas mal iluminadas.... Mas os corredores eram muitos.

as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. um moço bem constituído. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. a rádio e a televisão. era um gritante e duro contraste. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. com particular destaque para o “Avante!”.guerra era debatida mais ou menos abertamente. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. segundo a filosofia do velho Adílio. aos solavancos. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. sobretudo o rapaz. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. num quotidiano difícil. submetidos a feroz censura e controlo político. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . Os jornais. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. porque a terra era ruim. mas na “terra prometida”. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. Junto aos hotéis de luxo.

senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. se fossem interessados e cordatos.boné de pala “oficial”. Sobretudo se associassem ao 98 . * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. mal pagos. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. era o discurso oficial. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. era menos “aquele” que entrava. numerosos. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. empregados e operários. com um ar de arrumador encartado. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. sempre generoso com os portugueses humildes. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. incluindo no campo desportivo. com poucas qualificações. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. numa época do início da década de 70. nem feriados. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. podiam chegar a cargos de chefia. nalguns casos.

pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. minha senhora. 11. chefe de serviço. o engenheiro-júnior. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. o engenheiro-sénior. trate disso! ─ Claro. chefe de secção. minha senhora. ─ Está a tirar Educação Física!. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. uns mais à frente e outros mais atrás. o empregado de escritório. a mulher operária têxtil.5 contos/mês. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. 1. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. Orava-se em acção de graças.2 contos/mês. 14. anda a concluir um curso superior.. para rezarem em comum. Nas vésperas da Revolução de Abril. o agente técnico de engenharia. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. 12 contos/mês. por classes sociais. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. 4/5 contos/mês.. 15 contos/mês. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor.5 a 3. ─ Senhor director. 18. o operário especializado de horário geral. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. 25 contos/mês. 99 .8 a 2. ─ a resposta não tinha grande convicção. sem sobressaltos. 19 contos/mês. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. 2. senhor director. claro! Um resto de bom dia.

nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho... Mas não havia nada a fazer. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. e de mais na tropa!. no Domingo? ─ Eu gostava.. por 100 .O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. com o curso quase acabado. para o curso de oficiais milicianos. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. ó homem!. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. mas o “tio” Fernando-pai!?. só lhe faltava o estágio. Entretanto fora chamado para a vida militar. Combine lá com o “ti” Fernando... prestes a terminar: ─ Alberta. ─ Esteja descansada. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. hem! ─ Mas ir a Mafra. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. o seu filho sabe o que faz. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá.. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.

iam formando segundo o que estava instruído. este ano precedido de 101 . amor . em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. preparando-se para o ritual mitificado. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. não é fácil a deslocação!.melhores salários e condições de trabalho. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. quando o emprego e o salário eram certos. e pela luta diária pela sobrevivência. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. Depois. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. Se queres ir vai tu e a tua nora. até que sobrevieram os “balões”. subsequente ao despedimento. em alas amplas e espaçadas. Gostava de assistir mas compreendo a situação... tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. não morriam de amores pela situação. O carinho prodigalizado ao filho na infância. ─ Tu é que sabes. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. ─ Talvez seja melhor não irem. num pobre mister por conta própria. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM.

acontecimentos muito interessantes. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas.” ─ o alerta percorrera as casernas. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. certamente sobre a ameaça de represálias. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação.. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. provavelmente os tais “pides”.. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. Cá para trás reinava um silêncio murmurado.

O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. . O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada.. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. sou contra isso.....sistema sonoro.. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. na Escola Prática de Infantaria de Mafra. não telefona para ninguém. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. ouviu! Se não se explica 103 . resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. tinha agora um bode expiatório.

etc. perna de frango na outra. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. camarão. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina.. de gastas pedras nos longos corredores. etc.. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. bolos. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. carnes frias e quentes. doces. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. risos nervosos e traseiros espetados. agora disfarçado com aperitivos. característicos da castrada burguesia nacional. A instituição militar EPI. as mesas brilhavam de iguarias. copo na mão. Desculpe. saladas. Pavoneavam-se alguns. e senhores engravatados a rigor. nem era cedo. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. bebidas variadas. por vezes mesmo medíocre. no velho convento frio e austero. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . acordada de madrugada. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. acepipes. ficara à beira de um ataque de nervos. ─ Dá-me licença!. muitos daqueles cadetes imberbes. frutas. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. poucos. Nem era tarde.

numa última passagem sem retorno. ─ Boa noite! Por favor.. De facto não o vi .. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?.. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. Yota da Purificação” (. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável.! 105 ... ─ Sim. sim. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria... é punido com 5 (cinco) dias de detenção. a última barreira foi assim passada calmamente. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. Suspeitava-se haver revista à saída. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. com pouca pinta de militar. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta.). com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. mais o “material sobrante”. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja...colonial!”. conheço. Transportava o mesmo saco da chegada. o melhor era ficar para o fim. “Certamente estaria a arrancar!. quando o cansaço afrouxasse a vigilância.

. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras.... estamos aqui à espera . no gabinete do oficial-dedia!. As duas dirigiram-se para a porta de armas. Nada de grave! Lá informam-na melhor. último a deixar o convento.... em Janeiro de 1972. 106 . ─ Obrigado! . seria noticiada no “Avante”. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento..─ É que já passaram todos. ─ Mas . lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. postada a alguma distância.. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. ─ Olhe! O melhor é perguntar além.. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. igualmente com ar distinto. naquele Dezembro de 1971. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra. sinal distintivo da origem de classe.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro..

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. 108 . muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI.ÁFRICA. imaginários adoradores pássaros. de animais e da a Natureza. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. Animistas.

minas. a caminho da Índia. enriquecidas pelo 109 . socalcos à volta dos montes para a agricultura.Esta actividade artística. o Zimbabwé e parte de Moçambique. a Zâmbia. cidadelas de pedra. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. sepulturas e pinturas rupestres. quando estes. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. no interior da Rodésia. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. canais de irrigação. pouco antes da chegada dos portugueses. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. a Tanzânia. estradas. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. numa zona de ruínas ancestrais. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. Estes povos sedentários praticando a agricultura. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. Quiloa e Mombaça. Melinde. forjas. subentendia uma organização social e política evoluída. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas.

da Índia e até do Extremo Oriente. Organizadas em cidades-estado. faziam de entreposto com os reinos do interior. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. ferro. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. com o 110 . por ouro. estes em escala reduzida. com uma economia assente na agricultura. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. encontraram um comércio progressivo. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. que já utilizavam inclusivé a moeda. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. feito através de numerosos intermediários “mouros”. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. na pastorícia e na extracção mineira. essências e faiança chinesa. trocando directamente tecidos. com quem comerciavam há mais de um milénio. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. marfim e escravos. vindos do Norte. especiarias.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. contas. numa organização de tipo tribal-feudal. cobre.

Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. mas neste intento viriam a ser derrotados. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. Em 1513.. Como todos os imperialistas. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior.. Pedro Vaz de Soares.. levaram pouco tempo a desvanecer-se. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 ..”. retrógrada e oportunista. agente real de Sofala. Por orientação da Coroa. novas oportunidades de negócio. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. pela sua ignorância e pela sua ganância. Como um erro nunca vem só. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. queriam muito e depressa!.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota.

estranha. Quando a guerra colonial começou em 1964. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. húmida. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. quente. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. no terminal militar de Figo Maduro. em Sena e em Tete.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. nas margens do Zambeze. No início da década de 70. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. Em 1561. familiar. no “Boeing” da Força Aérea. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. de Lisboa. luminosa. fresca. o mais alto 112 . em 1498. embarcava-se à meia-noite. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa.

o sulista trigueiro e magro. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. compunham um quadro de modernidade. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. entroncado e de estatura média. moreno. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . pendurados no exterior da rede da vedação. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. ─ É a proclamada multirracialidade!. ─ desabafa o Eduardo. A Beira era uma cidade moderna. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente... normalmente reservado. tal como Lourenço Marques. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. alto de estatura e seco de carnes. sempre eloquente nas afirmações.

. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. mais novo. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. que já ia avançado. não atendeu logo à chamada. ─ O jantar começa às sete. quando ficaram sós. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. sem qualquer cumprimento.realidade.. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta... Chegaram atrasados ao jantar da messe. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. ─ O que estavas à espera?. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. enquanto se retirava após comer o pêro. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. dava assim as “boas-vindas”. ─ Sim. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. foi a primeira vez que lá fomos!. O criado negro andava numa fona.

─ Se calhar. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. onde estavam os soldados aboletados.. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. ─ Pois claro. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. Miguel. Ouviste a resposta do “Furnas”?. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida.. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel... trocou impressões com o amigo recente mas confiável. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. diziam. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. Duplamente preocupado. 115 . ─ Furriel. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. faziam um excelente cozido à portuguesa. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. no regresso a pé. rapazes humildes e simples.

como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. Dezenas de soldados e alguns graduados.. ─ Olha o que nos espera!. ─ Também pensei nisso. é essa a intenção. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. mas a família.. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. à beira da linha de caminho de ferro..─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. É preciso ajudar.. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. preocupavam-se à volta de malas e sacos.. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. disso não tenhas dúvidas. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago.. ─ Quanto mais tarde melhor. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista.. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . por dentro. a minha mãe viúva!. se saísse à tabela. por dentro.

mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. o coração salta: 117 . Duas máquinas a vapor. a marcha abranda. o inimigo haveria de registar esses movimentos!.. sem resposta. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. resfolgando. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. na retaguarda. aguardando a ordem para embarcar. trumtrum. puseram o longo combóio em marcha lenta. A velocidade aumentava. simpático no trato e já em segunda comissão. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo.. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. tinham um aspecto sumptuoso. A viagem decorria na noite de sono. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. trum-trum”. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. o combóio pára.carreira. onde se juntavam dezenas de negros. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. atarefadas com filhos às costas. Na noite de breu. Eram tropas frescas a caminho da guerra. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. Os militares seguiam nas carruagens do meio. sobretudo mulheres de capulanas garridas. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. à volta de sacos e trouxas.

Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. embalados pelo andamento monocórdico da composição. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. sonhando com a cama quente no lar distante. vai ser um enorme benefício para a economia da província. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. A manhã aparece com um Sol fulgurante... é fresca a brisa que entra pela janela. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento.. bem vestido e curioso..─ O que aconteceu? Ninguém sabe. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . irão esquecer essa doce sensação. O cansaço vence a ansiedade. Duas horas da madrugada. só lá mais para a frente!. ninguém explica. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. formando esplendorosos contraluz. mais duas que em Portugal. Lá fora não se vê vivalma. o pessoal vai adormecendo. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. Poucos dão pelo recomeço da viagem.

onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. como depois foi baptizado. os ingleses. a África do Sul?!. a Rodésia. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. onde reinava o odioso regime do “apartheid”.. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. o material de guerra é todo russo e chinês. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. os americanos. A menção do grande país da África Austral. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”.. Abrindo caminho à força de espada.─ A guerra é uma coisa terrível. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação.

comportam-se como malfeitores. A coberto das suas armas de fogo. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. chumbo e estanho no seu território. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. Em 1607. 120 .. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. a coragem. cobre. na obra já referida. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram.. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. Por volta de 1667. os seus métodos de governo. a concessão de todas as minas de ouro. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. O génio individual que punham nas suas empresas..notícias fantasiosas. editada em 1960:. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. como refere Basil Davidson. roído pelas guerras internas.. viriam a ditar a ruína. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. ferro. rigidamente autocráticos.

Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. no primeiro século e meio de ocupação? . os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria.. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. E o que fizeram afinal os portugueses. glorificados descobridores. segundo a documentação histórica. ou do tipo negróide. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. foi. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. quando esta faltou também lançaram-se 121 .. Os seus vizinhos do interior de língua banto. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”.. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico.).”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata.. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira.

manhã cedo. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. perceberam-se os cuidados no avanço. qual cabeçorra disforme. Logo no reinicio. na obra já referida ─ . acabando por se contentar com o comércio de escravos”. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. a partir dali. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. ─ Basil Davidson. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. o comboio não circularia mais de noite. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 .

─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo..período em pleno campo inóspito. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. mas o 123 .. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. ─ Isto é um buraco medonho.. Cinco homens num destacamento. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. ─ Ei! Sou do Barreiro!..? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”... a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. calor. tudo na mesma! Vamos para.. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. passando fome. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. como por encanto. frio. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. Do chão. O calor era intenso. onde em contrapartida. mas não se viam construções no horizonte visual. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. ─ Vai bem. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. onde se divisavam apenas pequenos arbustos..

com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. com o medo de os irem “pegar à mão”. barbados de dois dias. ─ ‘Tou farto disto. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ Então adeus! Boa sorte. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!.. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. Após uma longa curva feita lentamente. fizemos a picagem logo de manhãzinha.. endureciam os semblantes. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos.. pá! Calma.. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. pondo fim à conversa. venham cá eles fazê-la!. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos.pior era à noite. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada.

não barafustavam. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. não pediam. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. muitas. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. esperavam somente. pensava que os comiam todos! Risada geral. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. ─ Não te preocupes. não riam nem brincavam.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. registando a chegada de dois “amigos do homem”. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. houve risos. só então a ganilha animou. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. Esperavam pacientemente e não diziam nada. O pessoal precisava de descomprimir. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes.

.. grandes e brilhantes nas crianças. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês.. mas ninguém estava sentado no chão.. com divisas. onde dois ou três soldados disfarçaram. As carruagens da frente eram muito velhas. surgido do mato.. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. ─ Verdade. quando viram aparecer o 126 . amontoados entre trouxas. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes.soldado Edmundo. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. O comboio era muito comprido. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. malas velhas e caixotes com galinhas. ensebadas pelo uso. quando se abriram as portas de Abril. Risonho e desmiolado. moço robusto e bem parecido. estás a engatar-me!. apareceu risonho e agitado. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral.. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. com bancos curtos de ripas. em Tete. Olhavam surpresos com olhos esquivos.

a mãe. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . a companheira. a mina.recomendava o capitão. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. ─ Tem juízo. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. Afinal. a namorada. persistente. maravilhando os olhos na beira-rio. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. Onde estarão a esta hora a esposa.grupo de furriéis. homem novo. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. a morteirada. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. os pais. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. os irmãos. a emboscada.

um tenente-coronel que. muito cedo. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. sob a sua influência. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. tinha o seu problema resolvido como sempre. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. foi instituído o “Regime dos Prazos”. correndo energicamente para o vale que. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. 128 . sujos de pó. Claro. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. ciosamente guardada..exasperado. ─ discorria o António Manuel. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. concitando olhares curiosos. para chegar à costa oriental. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. parecemos discípulos de Fidel!. ─ Assim com esta barba de três dias. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. uma semana era passada. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira.. oportuno.

mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. princípios do século XVIII. com muito pouco êxito. No final do século. Moçambique e Brasil. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. para a futura abolição da escravatura. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. Moçambique era um território arruinado. formada por Angola. A situação só animou nos meados do século dezassete. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. mas na Zambézia. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. quando foi incrementado o tráfico de escravos. No começo do século XVII. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. no Congresso de Viena. Cabo Verde. dominada 129 . fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. separado definitivamente da dependência da Índia. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. enxameou a colónia de deportados políticos.

pouca gente nas ruas. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. a ideia foi repudiada e não vingou. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. vindas do Sul. ruas largas. Mzila. As pequenas colónias no interior. transformando num deserto essa vasta região”. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). pó vermelho e castanho. casas brancas de estilo arabizado com terraços. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. conta-nos Bryant: “Em 1860. na Rodésia. cidade de passagem. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. Instalações 130 . no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. chefeguerreiro dos invasores zulus. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete.

. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. outra vez a malfadada ração de combate. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. 131 . ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. o Zambeze.militares por todo o lado. Concluiu o excelso expedicionário. Meio-dia. por isso a Frelimo quer destruí-la!. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. entre outros. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. rodesianos. muito calor. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. ditando o desinteresse dos ingleses. onde viria a falecer com febres. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. no lugar de Cahora Bassa. Comprido caminho de água. o Sol queima e há poucas sombras. é uma cidade sem espaços verdes. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. sul-africanos. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. alemães. ingleses. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. na língua nativa. mesmo com o rio a seus pés. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis.

─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!.. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. possuidora do regime mais racista do continente africano. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. por isso a grande nação austral. O projecto hidroeléctrico quando terminado. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente... ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. ─ E se fosses à merda!. A via alcatroada era um luxo raro. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. na defesa da antiga colónia. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. só cá venho safar o “coirão”. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados.. A estrada continuava para o Songo. ao encontro do gigante em construção. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. por máquinas da Engenharia Militar. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. e. “pró 132 . O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação.

árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . Ao fim de quase três horas de viagem. estávamos no reino da guerra. seria fácil montarem uma surpresa. Estar na guerra aprende-se depressa. incluindo algumas paragens para reagrupamento. só se ouviam os motores roucos em aceleração. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna.galheiro”! A mata era densa. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. Sousa. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. mas pouco ou nada se divisava. a estrada acabava e começava a picada. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. a engenharia militar ainda ali não chegara. Em sentido contrário o trânsito rareava. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. Soaram tiros longínquos. lentamente. os camiões seguiam mais devagar. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal.concluía ainda o soldado-condutor. percorridos cerca de 120 quilómetros.

a lógica da campanha militar era. A alegria de uns era a apreensão de outros. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades.silêncio. e um deles. soturnos. do qual se avistava o Zambeze. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. A guerra é naturalmente o tema central. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. poeirentos. “já cá estamos há muito tempo. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. o veículo continuou a marcha devagar. num portento de força impressionante. primeiro classificado. símbolos da tropa especial. atreveu-se a responder timidamente: 134 . * Estima: um posto de defesa na picada. E a guerra ficava mais próxima. correndo escuro e caudaloso. de nome Trindade. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. ninguém saí dos trilhos. construído em paliçada de troncos. a conversa continua no bar. alargada a alguns civis presentes. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”.. e só agora o António Manuel. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. ninguém se atrevia a abrir a boca. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. com granadas e fieiras de balas à vista. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. Os recém-chegados.. agora outros que dêem o coiro!”.

. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?.─ Mas. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu.. junto à fronteira com a Rodésia... ─ Ah! Cá como lá. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. ─ Quem não está connosco. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. ─ António? Que nome curioso! 135 .. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. pelos vistos. está contra nós! Vocês são novos aqui.. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. para os lados de Mucumbura. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. e as populações! A acção psico. A todo poderosa PIDE/DGS!. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze.

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

esteve circunscrita aos distritos do norte. Ilha de Moçambique). era clara a incapacidade dos altos comandos militares. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Cabo Delgado e Niassa. Sofala. o comando das Forças Armadas portuguesas. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. com um ataque ao posto de Chai. tinham fortes tradições independentistas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. Durante este período inicial. Também o reino do Monomotapa no interior. na região de Mueda. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. Em resposta. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. Quelimane. em 1968. e os Macondes nos planaltos do Norte. Entre a surpresa e a desorientação. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. 137 . construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico.

para os aldeamentos cercados de arame farpado. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. e os Direitos do Homem. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. em Maio. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. acusado de colaboracionismo. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. uma companhia de “comandos”. reconhecidos por Portugal na ONU”. controlada pelas tropas auxiliares africanas. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. à época bispo de Vila Cabral. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. locais e nomes. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. Valverde e 138 . Nijs e John Paul. O ódio instala-se. Trindade. na aldeia de António. em Abril de 1971. e dos padres anglicanos. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. Em Novembro. Depois de descreverem em pormenor com datas. onde. tropas da Rodésia de Ian Smith. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. pouco escutadas no entanto. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. Em Setembro do mesmo ano. Em Tete. Calado de seu nome. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios.

sem qualquer ambiguidade.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. até Novembro de 1973. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (.. Os africanos. corajosa e claramente. são perseguidos. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. costumes. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. deveria estar a Igreja. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. Nesta data foram expulsos de Moçambique.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. devido à sua língua. são os governantes políticos e militares de Portugal. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. porém. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. onde iam de férias. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . em 2 de Janeiro de 1972... numa conferência no Reino Unido. torturados e assassinados.) O povo de Moçambique. De hoje em diante.. raça. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. mentalidade e até filosofia. (.. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está.. Cabora Bassa Em Março de 1968. sem julgamento ou culpa formada. cultura.

é um campo entrincheirado num meio hostil. no dizer indígena. inteligentemente. etc. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. A empresa construtora Zamco. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. Cahora Bassa. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. vertidos no caldeirão da guerrilha que. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. italianos. em 8 de Março de 1968. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . a afirmar o desejo independentista.milhão de colonos brancos. que devia ser defendida a todo o custo. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. em Julho de 1968. assente nos aquartelamentos de Chicoa. rodeado por uma vedação de arame farpado. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. e para isso. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. (alemães. No concreto. Estima e Chipera. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. ingleses.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul.

Chicoa. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. a linha de caminho-de-ferro 141 . do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. em Tete. Depois atacou sucessivamente. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. eis a nossa táctica. flagelações. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. com a ajuda da República Popular da China. No dia 9 de Novembro de 1972. num só dia. As notícias chegavam em catadupa. embora os estragos não fossem de monta. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. minas.Moçambique. a Base Aérea nº 7. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. constituía-se em forças irregulares. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. Furacungo. Fingué. 15 de Novembro de 72. minas! Fuga e reagrupamento. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. emboscadas. apoio na população. minas. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha.

apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. silenciosa e traiçoeira. divisava-se o rio escuro e caudaloso. separando inexoravelmente as duas margens. controladas e permanentemente patrulhadas. Kaúlza de Arriaga. também assumira esse compromisso. ao longo de 8 quilómetros. O comandante-chefe. no eixo Beira-Vila Pery. 142 . A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". pela primeira vez. com raras excepções. foi sabotada na região de Moatize. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. Entretanto. e os técnicos sul-africanos e europeus. O pânico instala-se e. com uma força desconhecida. cinzenta e castanha. e em 25 de Setembro de 1972. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. com algumas portas apenas. Kaúlza de Arriaga. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. Deste lado a vegetação era escassa. uma tarefa que o comandante-chefe. A mão-de-obra rodesiana.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. Assim se entretinham as forças portuguesas.

com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. mas mais acima houve um desastre terrível. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. causando arrepios a viagem entre as duas margens. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. ─ Aqui não. Foi há uns três anos. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. mecânico de armamento. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. companheiro de 143 . nascida e crescida sob a protecção das tágides. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. conta-se a meia voz. A água de um castanho terroso.

Perto da margem a corrente ainda era mais forte. ajoujado de carga militar. e aumenta também a trepidação.formação do António Manuel. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. o alferes Baptista resolve intervir. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. descaiu para a frente a meio da viagem. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. a jangada entra em estremeções. onde a água era mais agitada. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. aproximando-se da extremidade sem anteparo. por certo deficientemente escorado. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. o camião desliza mais um 144 . Um camião “Fargo”. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada.

e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. cinco ou seis homens. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. outros procuram nadar energicamente para a margem. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. Com um formidável estampido. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. ficando suspensas no vazio. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. no meio de uma gritaria medonha. com comando mesmo errado. o abrandar fora fatal. a corda que prendia a viatura partiu-se. ou porque não tinham meios de socorro. a jangada porém. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. Sem comando não havia acção. em desespero. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado.

Metade da Companhia tinha feito a travessia. Alguns nadadores atingem a margem. 101 soldados e graduados. mas os restantes corpos nunca apareceram. que arrasta consigo mais alguns homens. Tudo se passou rapidamente. na messe. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. mantimentos e munições. soldados e nativos. material de guerra.mais abaixo. * A tarde chegou ao fim. numa operação cuidada e lenta. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. Por isso a trasfega não fora completada. e 146 . a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. era um sol diferente. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. em poucos minutos. provocando o deslizamento da segunda viatura. . Ao todo. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar.Ao serão. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. um sono em vigília despertando ao menor ruído. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra.

Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. ─ contava um furriel operacional da companhia local.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte.. com malas. bagagens. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. Se houver alguma coisa. o rio faz favor!. são por vezes replicadas.. os três amigos não se afastaram da zona do motor. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada.. prestes a ser rendida ─ Sim. homens e armas. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. . Parece que não!. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. amigos. mesmo que cheire a gasóleo. Numa das primeiras viaturas. aqui quando chove. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. Mais mais para montante. 147 ... houve um acidente com muitos mortos. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar.. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos.

metálica na extremidade. meu alferes. nem piar de pássaro nem som de animal. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. No silêncio ensurdecedor. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. ─ Neste sítio não é provável. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. ─ Mas.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. embora ocultas pela folhagem densa. que daí a pouco já se percebiam distintamente.* Reinava uma estranha calma na Natureza. peremptória. Na luminosidade da contraluz matinal.. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. com um timbre familiar. ─ Continuem a picar. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. Calaram-se. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. inquieto. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. não-operacional mas com algum traquejo da vida. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 ..

. Sierra. Baumm!. Tango . Trrrr.. era um passatempo de luxo no teatro de guerra. o parceiro das partidas escaquísticas. Alfa. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. Trrrr.. a guerra continua O som distante e abafado. três rebentamentos Baumm!.. dois. propôs o empate.. António Manuel... ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.... Sierra.. Baumm!... Mike. ─ Parece estar a acontecer algo de grave.... fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. mesmo jogado com pouca convicção. Bravo . para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco. vestido a rigor de camuflado sarapintado. embora nítido. O batuque vai começar. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa.. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. Sierra . o negrume cerrado da noite africana......” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes.desde o destino final. Trrrr.. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. Alfa. era 149 . sem divisas e de lenço verde ao pescoço. enche a noite quente de Verão.

madrugada ainda.. * Manhã cedo.. com uma experiência de oito meses. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. a messe e a porta de armas. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. ─ Foi assim. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. Os rebentamentos não cessavam. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. Já há três dias que fazem sinais nos morros.. a cantina. na noite anterior. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. iluminado por fraca luz interior. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder.. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência.. em Agosto. ─ A seguir somos nós!. vozes abafadas. e fazer o reconhecimento da zona. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ).salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. Baumm!. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos... Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio.. A 150 . Baumm!. os “turras” mandaram só umas morteiradas. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento.

que ficara sem um pé. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. Mas. ─ com a metáfora. com ar de desaprovação. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!.. concluira João. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. o alferes Yota. cândido por feitio. havia dois feridos graves. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. levantando-se desaustinadamente. João .. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. Ao lado. ─ acrescentava o Sousa. a partir de Chicoa. agora já cheirava a sangue. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. eludia o sobressalto.. o pelotão já partira. À noite. À hora do jantar chegou a terrível notícia. fazia uma 151 . Agora o sono cortado vencia a emoção.. ─ Yota?.. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. esteve comigo na recruta em Mafra!.. ─ observava o António.. A fisionomia era-lhe familiar.. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente.. Ah! Aí está. ─ Nada.. nomeadamente o comandante.

ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. a discussão prometia. desde muito cedo. o 152 . o trabalho na fábrica. embora algo sentimental. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. e estas crianças andrajosas e famintas!. A História não pára e o Mundo avança. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. ─ A guerra colonial tem os dias contados. o mais sulista do grupo. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. como faz o Movimento de Libertação!. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado.. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo.. parte maior das agruras da distância. nas populações e nas nossas tropas. de estudos e vivência.. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. ─ A realidade é tão chocante.ideia diferente! ─ Sousa.. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. no interior de uma África estranha e quente. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. sofria a saudade da Pátria distante. Talvez mais cedo do que tarde!. No teatro de guerra. onde deixara a esposa jovem. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. assumia a contradição. dava-lhe uma consciência aguda da situação.. Idealista. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. Aos milicianos chantageiam com as férias.. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. quando elas começarem a “cantar”. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. violentados.

tal como ao mundo chegou. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. O aparecimento de “very-lights”. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. tentando detectar qualquer indício identificador. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. que também ali se construía. ao fim da tarde era sinal de alerta. em 1970 e 71. entre morros altos apertando a vista e a alma. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. temendo o perigo iminente. * Havia um mês que ali estavam. de pele branca.medo misturava-se com a revolta. indiferente aos dramas dos homens. na dilacerante guerra de guerrilhas. a luminosidade 153 . No local onde até há pouco tempo estivera o sol. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. pois era sua a decisão táctica. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. A Natureza. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. ainda que disso nem todos dessem conta. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos.

Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. Era assim no coração de África. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. como eram conhecidos na gíria militar. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. 154 . Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. O alarme soara falso. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. Deixava o interior das instalações militares. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. cobertas com telhas de fibrocimento. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. Pouco a pouco. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. começaram a voltar às casernas. Constava à boca pequena. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante.quente impressionava ainda a retina. torturados pela inclemência solar. ou de zinco. fora destruído e abandonado há alguns anos. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. devido à forte influência da guerrilha na zona. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”.

deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. Recentemente. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. outra 155 . Envenenado estava tão-só o ambiente. que na tropa não se podia abrir a boca!. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). em grupo. vestidas com capulanas de cores garridas. para matar a fome. o homem macaco”. para manter o ânimo das populações!. trazia à memória os célebres filmes da juventude. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. remoendo as dúvidas e a desconfiança. tão-pouco adolescentes. dispersos entre brincadeiras ocasionais. por questão de segurança. rigorosamente contidas dentro do arame farpado.. com corpos musculados e peles luzidias. da saga “Tarzan. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. nem havia setas envenenadas. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel.. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. Ao quarto fim-de-semana de estadia. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?.. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. Estavam em grupos. combinou-se uma visita à aldeia. um major mal conhecido e mal encarado.. A excepção eram as moças novas. Ali não havia selvagens de tanga. autorizara o batuque aos sábados. local mais calmo e “arejado”. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller.

a de lacaio da administração colonial. rompendo o soluço. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos.. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca.. com menos humidade. 156 . ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. Porventura. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. Decerto clientes de “cuspo”. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel.profissão rendosa. aquele era um clima muito seco. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. mais perto do Índico. ─ Talvez tenhas razão. Afinal não tinham ficado para o batuque. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. eventualmente!?. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. a noite chegou mansamente. com divisas.

bifurcando-se para norte até à pista de aviação. Desde essa data. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. ligados por atalhos ainda não memorizados. aprendido há poucos dias. a alma aperta-se e os sentidos despertam. O aquartelamento é grande. É a primeira ronda de serviço. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. bem no interior do istmo central moçambicano. patranhas e acção psicológica.E quem concordava? Muito poucos. o batuque ia começar na aldeia. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . poucos. e para sul até ao aldeamento. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. daqueles. com uma única saída para a picada. a guerra continuava. pelos vistos. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. Ao todo são oito postos de guarda. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. Na noite escura por caminhos esconsos. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. dispersos e muito afastados. uma área enorme cercada de arame farpado. e. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”.

. acidentes ou fenómenos naquele local. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. o sobressalto aperta-lhe o peito.. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. não! Na Guiné. paciência!”. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde.tiro!?. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada... Sousa olhava o tecto. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. De repente a chuva 158 . todos os acontecimentos. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. ─ Achas provável? Nunca constou!. reportavam à guerra. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia.. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. ─ Pois. não! Pois. Abafava-se no quarto completamente fechado. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto.. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. eventos. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!... Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. João vai avançando de modo inseguro.. não quis dar parte de fraco!. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. antes de desabar uma curta tromba de água.. O coração acelera desordenado.

deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. 159 . Fundindo-se na terra. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. tão radicalmente como tinha começado. por miríades de riscos ziguezagueantes. com reflexos azulados e avermelhados. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?.”. rasgado a muitos.parou. esfumou-se na noite. o jovem militar. siderado. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. A velha África das origens humanas. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. O receio esfumava-se... Nenhum som. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. no caminho do segundo posto de vigilância. coloridos em tons de prata e ouro. nenhuma claridade ofuscante. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. ─ Quem vem lá? Alto. muitos quilómetros. nenhum rumor distante.

. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. * 160 . E é espantoso. Pregou-me um susto.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância.. apertavam como tenazes o coração dos homens. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. fugaz. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?.. ponho-me para aqui a contar os raios!. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras. ─ Aproxime-se para verificar!. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica.... reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo... Ah! É o furriel da secretaria. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. ao longe. açoriano como a maioria daquele batalhão. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. meu furriel! Conhece? ─ Não.

ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. certamente superior à poupança. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. agora é só ensaio. com o chefe da secretaria. o correio era o elemento existencial mais 161 . Valia o facto de ter combinado a compensação. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. durante a manhã após o serviço de ronda. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. e pronto! ─ Deixa lá. com prejuízo dos alimentos perecíveis. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. suspeitosamente simpático. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. justificas ao capitão. Gestão tropeira.

como iria ser o dia? 162 . No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar. o comandante interino do batalhão chamou o capitão.”. A desconfiança suplantou a curiosidade.. num circulo nauseante de imponderabilidade. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra.transcendente para aquela rapaziada. Fora uma noite premonitória. Após uma pequena entrevista no alpendre. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. mandadores sem lei. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. meneando a cabeça. O centro de gravidade do corpo leve. exibindo-se papéis. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. comandante de companhia. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis...

163 .6. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?...

Nem mais uma palavra. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. O comandante interino do Batalhão. depois do primeiro choque. candidamente. percebendo que algo de 164 . ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu.. isso vai afectar o moral dos homens. o oficial alto e escuro. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. Tinha até ordens para o algemar. mas ninguém tinha dito nada ao visado. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. de G3 pronta. ─ observava.. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. nem uma explicação.. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). nem um mandado.. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. amigo das ideias. um major que mal conhecia. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. com modos de polícia. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. Começava a ficar irritado. Alguns camaradas observavam atónitos. o amigo ao receber religiosamente o material.

está enganado! ─ “Meu tenente”.. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. empertigado. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. onde o dia-a-dia continuava tenso. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. de que falava a mensagem. Em Chipera. Olhou-o com ar reprovativo.. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. ao fim da tarde igual. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento.grave se passava. Até sempre. a calma em pessoa. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”... sem coragem para comentar na hora da despedida. pelo despotismo do comando militarista. agora com uma cama vazia. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!.. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. em jeito de despedida. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!.. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. se não se importa. trata-se de um indivíduo perigoso.

com cor macilenta e sinais de cortes na cara. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. afirmando também a voz. com um ar distinto no ambiente despojado. No outro. o jovem alto e magro. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali.circulando subterrâneas. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. da delegação da PIDE/DGS em Tete. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. A cela dos fundos da delegação. Horas depois. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial.. Era um homem já 166 . com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. Por detrás da secretária da sua importância.. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. perturbantes e insidiosas. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. da barba feita com lâmina inusitada. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. era compartilhada por um negro ainda jovem.

─ Fique nessa! Tem mais luz. ─ Não tem mais tronco. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. ─ Nhambo! Que tá fazendo. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. né! ─ respondeu o jovem corpulento. acha? 167 . entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. única abertura para o exterior. senhô! Gosta de ver limpo.maduro. mostrando ser o mentor da cela. embora encorpado. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. estavam estendidos três colchões de espuma fina. curtido pelo sol africano. rapaz ainda. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. Retomando a tarefa de limpeza do chão. sem qualquer divisória. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. Junto à parede contrária à porta de entrada. Um mainato muito jovem. com um tom acastanhado na pele exposta. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. ─ Sim. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. colocados a um canto.

─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho.─ respondeu o miúdo a sorrir.. a cara redonda e luzidia. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. com uma cor amarelo-alaranjada. manipulada para retirar o pijama. na tarde quente e esplendorosa. Aberta em cima da cama de circunstância.. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade.. quase fugaz. e 168 . que não deixava perceber o “fio da meada”. para de novo pousar os olhos no chão. ─ Eu sou Silveira. mas adivinhava-se uma bola magnífica. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. não seria conveniente. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . passou-lhe um brilho estranho nos olhos.! ─ acrescentou... minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. num breve instante.. furriel do Exército português . ─ Eu sou fulano de tal... às voltas com uma mala preta de plástico. deixava ver a farda recentemente despida. saindo a menear o rabo nutrido. ─ interrompeu a resposta. que lhe tinham trazido há minutos. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. num trejeito efeminado: ─ Vá. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. De vez em quando. resplandecente e implacável.

acrescentou ─ venha comigo. ─ comentara João. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. como recomendara a jovem esposa com carinho. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã.mais não disseram. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. lhe arranjara. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. segundo lhe contara o camarada das “Operações”.. Em cima da cama estava o pijama “grenat”.. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. na direcção do mictório. provavelmente!. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta.. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. desviando o olhar súbito.”. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. depois de confirmar a identidade. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado.. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. De súbito.

preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . olhavam curiosos para aquele “luxo”. é claro!. ─ Como assim. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. escreva só a morada de destino do telegrama.. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. não é necessário. Os dois primitivos residentes da cela. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. O coração. menos bem desenhadas do que era costume. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos.. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde.. com indicação de posterior devolução. gosta de viver ao ar livre.. e aos meus camaradas de tropa. percebendo certamente ser transitório. ─ Deixe estar. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto.─ Chico. mais do que a cabeça.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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A inquietação não permitia apreciar 178 . desorientado.. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. no Norte. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. Talvez sejam mulheres. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem.. sim.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate.. No ar perpassava um fluído etéreo. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo.. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. ─ Também ouvi.. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. LOURENÇO MARQUES. com a G3 caída ao lado. Ansumé ficara arrasado. activos e combatentes.. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. sobretudo brancos. Faltava uma bala no carregador.

mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele.. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. Talvez fosse. no coração de África. roubando o ângulo de visão e a serenidade. ─ Temos de ir..pormenorizadamente a paisagem. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo.. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.. até à sede em Lourenço Marques.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. desde Tete. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. a sede da PIDE/DGS. onde a geografia era mais agreste. nem sempre concretizadas. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação... O polícia dava mostras de nervosismo. rumo à “Vivenda Algarve”. 179 . Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. nem sempre concretizáveis. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro.

uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. não podia fraquejar. Chipera Velha.. nada!. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. nem utensílios. onde estava enfiado há mês e meio. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. na confusão dos dias de angústia da prisão. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. protegida por uma rede metálica. pois não queria. nem asseios. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. A cela com 2 x 4 metros. num canto. em Tete. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. 180 . pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. Era todo o mobiliário existente. que substituíram os dias de angústia da guerra. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. Mas a solidão e a insegurança presentes.. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”.

até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. Tal. puxado entretanto. porém.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. até que o assobio reapareceu. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. paralelo e gémeo. Voltou o silêncio profundo. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. não seria prudente. 181 .. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Apurou o ouvido. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.Batendo as asas na noite calada. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. Reinava de novo o silêncio. humanamente insuportáveis.Acordou (quanto tempo depois?).. que reconheceria em qualquer parte do mundo.

aquela noite de coragem e fervor antifascista. à rua da Escola Politécnica. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. 182 .!”. encostadas precariamente. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. na Faculdade de Ciências. que tinha a coragem de ter medo. cantaram e recitaram.eles comem tudo. o Paredes. O Zeca. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. eles comem tudo. SARL. o Braga. O anúncio de um título bem imaginado. tocaram.. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa.. até à comoção das lágrimas. SARL. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. o Ary. encetando uma arenga de justificações radicalizantes.

pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia.. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. O segundo. mal tinham acabado de chegar. O primeiro comandante. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias.. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. Em suma. era o terceiro. por ordem cronológica. um tenente-coronel. em meados de Outubro. ─ Põe o barrete. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. numa estranha itenerância nómada. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. O novo comandante. fora reveladora da mentalidade militarista. pá?. meu comandante.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. em menos de quatro meses. tratando-se de uma nomeação interina.. era como a maioria dos oficiais-generais. Andando de quartel em quartel.. de “guerra em guerra”. pá! O 183 .

feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. “Filho da puta. Chiça!”. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. as meias a três quartos e a continência. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. até 184 . outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. dois com a guarda pessoal. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. com um soldado sem pés. noutras. e. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. com três feridos graves como primeiras baixas. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. foi muito elogiada a “fachada”. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. general Kaúlza de Arriaga.barrete é para usar. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. quatro helicópteros. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. do comandante-chefe. a trabalharem nas limpezas. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. era o aspecto exterior do aquartelamento. Para estes. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. procurando neste caso dividendos imediatos. Por isso. as únicas preocupações são o barrete.

. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. não passando. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. Deus me livre!”. para sul do rio Messalo. a guerra não parava de evoluir. Alguns. Não acreditavam naquele optimismo todo. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Os objectivos em curso seriam cumpridos. no Niassa a actividade terrorista era residual. O tempo jogava a nosso favor.. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. em Manica e Sofala. Os militares cumpriam o seu papel. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. era uma questão de tempo e de meios. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. agora o resto era com o poder político. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. questionavam-se segundo o velho aforismo. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. a barragem em breve seria um facto.sucumbirem!?. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. porém. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. aliás. analisando com consciência a realidade conhecida. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. Aliás. apesar da 185 . a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. e quanto aos meios. como estrategicamente se tinha proposto. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. estavam cansados de tantas comissões. Contraditoriamente.

em Abril. em Março de 1973. em Cabo Delgado. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. em Junho. e. prisão da 186 . como todas as outras.fraqueza anunciada. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. chamado a Lisboa em Julho de 1973. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. No Norte. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. O general ultranacionalista. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. em Maio de 1973. Machava. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. tomando os desejos por realidades. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. afinal. na direcção da cidade da Beira. A guerrilha atacou Vila Gamito. em Maio. mas. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. não isenta de grandes contradições e inconsequências. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. por essa altura. e. Não era grande coisa. atacou Estima com foguetes de 122 mm. megalómano.

composto de muitos dramas solitários e isolados. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. por enquanto deveria haver algum cuidado. a esta hora já não se pode fazer nada. diálogos breves. porventura maiores que o seu. constatando. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. causava alguma perplexidade.. Não obteve resposta. 187 . Novembro de 1972. eu já volto quando terminar a ronda. de estatura média. Não era o mesmo da chegada. O guarda prisional. falando de bons modos. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. obrigado! Não se incomode.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço.. Mas. Mas deixe estar. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. nem o jantar me trouxeram!. ─ Deixe estar.PIDE/DGS em Lourenço Marques. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. ─ Coma. A conversa continuou durante alguns minutos. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. portas abrindo-se e fechando-se. entre as quatro paredes caiadas. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. bateu com força na porta de madeira. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. de tão inesperada. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. magro.. de bigode fino e voz nortenha..

mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. A seu tempo... trouxe bananas (a comida era péssima). ontem fiquei preocupado. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo.. Vagamente... ─ no limiar da porta. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.Quando voltou a recolher o púcaro. que se passará? ─ a questão 188 . ─ Cá estamos. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. esperando melhores dias!.. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. querem ver que está feito com a PIDE?!. como exigiam as regras. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde.”. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina.. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos..

189 . durante toda a tarde e início da noite. lamentoso. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. logo abafadas por a porta ter sido fechada. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. porém. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. Em pouco tempo. Vindo do fundo do corredor. abafado e húmido. trancados e isolados em pequenos espaços. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. sem esperança. ficava um calor insuportável. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem.. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. De facto. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. dou em doido!”. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis.. provocando uma enorme tensão. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. Depois fez-se silêncio. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. ─ Vou ver o que se passa. anjo ou demónio?”. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. porque o guarda não mostrou surpresa.devia ser muito ignara.

a aguardar as visitas prometidas. a sonhar com a liberdade roubada..! ─ completava o furriel. muito abalado pela alimentação deficiente.Num momento de nostalgia e saudade. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. Olhando para o exterior. isto aqui não interessa a ninguém. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. de costas na enxerga. Mesmo agora. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes.. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. acordado. mais velho de aparência.. aparecendo o guarda com um sorriso. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal.. 190 . na janela. era nítido o desenho das palavras na contraluz. De resto. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?.. por “actividades políticas”. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes.. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. Quando já descria. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. no quartel da Xefina! ─ E você. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina.

─ Sim. prestando atenção. o pastor Manganhela. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. não fora o paradoxo de cores. ficando sem expressão. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. guarda Cerqueira. Os olhos faiscaram um fugaz terror. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. passando lestos pelos circunstantes. ─ Não! Não! Você. ─ Bom! Temos de acabar.. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. sorrindo.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. não pudemos abusar da sorte.. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. procuraram transmitir algo. o guarda prisional. ao 191 . com comiseração e espanto. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. dir-se-ia uma acentuada palidez.

abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. colocando-a por debaixo da enxerga. À excepção do jovem branco. fumando boquilha.. reteve por instantes o olhar no único branco.. eu trato disso!”. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. Instintivamente.homem preto que acabava de cair abruptamente.! Ao dizer isto. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. ─ Já disse. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. esticou no chão o corpo inerte. a fazer-se desentendido. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . Ao percorrer em silêncio a sala. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. com óculos verdes graduados. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. a face de outro homem negro. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. maduro de idade. Os restantes presos ganharam alento. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. já bastante enrugadas. olhando sobranceiro os detidos. Autoritário e brusco. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita.

cabelo grisalho... ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique.... deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. o processo do pastor Zedequias Manganhela. alto e de barriga algo proeminente. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. ─ ameaçava António Vaz. precisa de ocupação!?. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. aparentando uns prováveis sessenta anos. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. detido desde Junho de 1972. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. ─ Sim. ─ Ora isso é o que iremos ver!.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. branco nas suíças. Acompanhava directamente.. senhor director. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. suspensa no curso da resposta.. ─ Bom sabe.. ─ não pode completar a frase. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. interrompida de forma abrupta. O director continuava a cirandar na pequena sala.

Na minha mala. O “anjo da guarda”. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. de roupa.. quente e envolta na ligeira 194 . aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento.. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. vindo do teatro de guerra. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada.─ É a primeira vez que cá venho. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar.. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. de alguns livros!.. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. Cerqueira. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava.. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação.

“passada a ferro” sob a enxerga da cama. nunca provada.neblina africana que aplacava a inclemência. conforme a versão oficial. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. humilhações permanentes sobre um homem idoso. Foram seis meses de interrogatórios. terror psicológico. o guarda-fiscal. devotado à sua missão. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). nunca se saberá. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. numa zona onde não havia guerra. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. sevícias. Zedequias Manganhela era um pastor. onde Manganhela permanecia em isolamento. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. Suicídio. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. ou um tenebroso 195 . pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. de colaboração com a Frelimo. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. e com grande prestígio na Europa. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. ameaças. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável.

7. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. os seus mentores e os seus mandantes. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . foi um crime de morte matada.assassinato? Em qualquer dos casos.

soube-se a dramática história da prisão. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. denunciado em meados de 1973. quiçá salvar. A 197 . a 9 de Setembro de 1974. do guarda prisional Cerqueira. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. muitos presos políticos na cadeia da Machava.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. por ajudar.

. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. perseguições e sangue. um DC-6 da TAP. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. ─ Não. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . gritos.. num pesadelo de tiros. Abriu os olhos. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. chamas. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. agora com o futuro tão incerto. muito sangue!. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. com escala em Luanda. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. na sua incansável solidariedade. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. Com a recusa da carta propositadamente escrita.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. fumos. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. Quando o avião. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. correrias. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”.

lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. e. Chawola e Juwau. Tratava-se de uma área muito povoada. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. homens de um lado. num repente. distantes entre si poucos quilómetros. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. Chico Cachavi. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. próprio da época das chuvas. quando procura o mato. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. Por volta das 14 horas surgem. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. mulheres e crianças do outro sentados no chão. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. como represália. não levou a conclusões. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. e. Os aldeões são divididos em dois grupos. com muitos aldeamentos dispersos. um tenebroso 199 . havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros.

Juntaram depois as vítimas numa pilha. um afluente do Luenha. O sangue enlouquece a soldadagem. perante a passividade de sargentos e oficiais. o aldeamento é completamente destruído. que depois as diriam ao mundo. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados.torcionário do recrutamento provincial. à entrada de Tete. fica juncado de cadáveres. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. que organizaram o primeiro relatório 200 . dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. uma mulher grávida é esventrada. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. para além do que pode entender a razão humana. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. mutiladas e mortas. O rio Nyamtawatawa. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. violadas. distante cerca de quatro quilómetros. e. jovens donzelas são arrastadas para o mato. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. A tropa completamente ensandecida. crianças chorando são mortas a pontapé. surpreendendo os habitantes incrédulos. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. Foram os padres daquela congregação. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. Pedro.

três dias depois dos acontecimentos. finalmente. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. traje alegre vestido para afugentar 201 . em 19/12/1972. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. e sobre Wiriyamu. nomeadamente ao comandante da ZOT. em Julho de 1973.sobre Chawola. desumanizados e corrompidos até à medula. aconteceu quando. ano e meio depois. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. coronel Videira. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica.

nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu.. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada.. agora tinha iniciado o interrogatório. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. ─ Desculpe. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. por isso está como está!. Lá em baixo à espera. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer.! O agente. essa é uma matéria reservada. na natureza e no seu coração. em Caxias. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço... ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio.. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. para iniciar uma nova e derradeira viagem. Ficaram para o fim. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado..“maus olhados”.. estava uma carrinha da PIDE/DGS. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. o mundo está cheio de ateus.. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. Da companheira não havia sinal. Caxias. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. depois de todos os passageiros terem saído. 202 . ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. onde acabara de ser identificado e fotografado.

─ Fiz-lhe uma pergunta. as da minha esposa. e o meu tipo de sangue. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. o som metálico da lingueta da fechadura. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. Divisavam-se várias portas fechadas. interrompido por outra porta de ferro gradeada. Também estive na guerra do Ultramar. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. o grande responsável. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. Por detrás tem as minhas iniciais. apenas o corredor comprido e silencioso. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. ─ Ah! É verdade. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. outra campainha. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. você é militar. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma.

Por cima da mesa. numa fisionomia naturalmente ruim. gradeada.. em Mafra. fraca.. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor.. criando um ambiente soturno. ─ Não sei do que está a falar. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”.um palmo e fazia uma cara-de-mau. propício à desmoralização psicológica do preso. por vezes reduzido. em Dezembro de 1971?!. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. por onde eram emitidos sons gravados. como depois se perceberia. uma lâmpada de filamento. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. isolado do mundo. ─ Ah! Não sabe!. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário.

para além da fracção de segundo. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. o preso é sempre o mesmo. impedem o “fechamento” completo do cérebro. ─ Respeito o quê. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. chamava-se o “moínho”. um aspecto de símio de pernas arqueadas. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . faz favor! Eu não o ofendi.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. por vezes o safanão. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. criando uma pressão terrível. sobretudo na alta madrugada. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. a tosse de catarro ou o pigarrear. polícia manhoso à maneira antiga. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. Começava a tortura do sono.

silencioso. o coração “salta do peito”.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. os ouvidos zunem ensurdecidos. O sádico pide continua a sua nova táctica.. * 206 . Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer.. para acordar logo de seguida em sobressalto. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. O efeito é terrível. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada.! O agente sentou-se estranhamente calado. hem! O mundo desmorona-se... instantaneamente parado. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar.. o preso desfalece instantaneamente. A partir daí a tortura é dupla. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. Àquela hora o sono apertava.. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez.

preocupado com a aparência para infundir respeito. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. O chefe-de-brigada chegado no séquito. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. encarregou-se de clarificar a situação. ─ Não sei porque estou preso. mas não tinha a certeza.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. nunca levantando a voz. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra.. quando mencionou o senhor doutor. o “senhor doutor”. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. no Curso de Oficiais Milicianos... O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. um porte de alto funcionário do Estado. Adelino Tinoco. não precisou de muito!. gravata e sapatos reluzentes. e por um ligeiro sorriso cínico. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!.. só traída por um pequeno esgar. depois do inspector superior da PIDE/DGS. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. ter saído 207 . impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão.

─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. a não ser. O senhor é uma pessoa inteligente. ─ Violências. se não conta tudo não vai dormir hoje. ─ o pide calmeirão. foi uma pessoa simpática e colaboradora. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. ─ Vá.! ─ Ia dar o salto. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. não vale a pena perdermos tempo.. propositadamente: ─ “Senhor doutor”.... vamos tratar como pessoas civilizadas. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?.. não! Por favor. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 ....

prostrado de joelhos. perto de Vilar Formoso. ─ Vá. deixando-o ofegante.. o resto fiava mais fino.. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação.. Calou-se. avisada. Encontrei-o uma vez em Lisboa.. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Um pequeno prurido de remorsos. Estava muito calor em pleno Agosto. apesar das suas reticências. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. um sujeito fulano de tal. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. fazia o papel legal. por favor! ─ Mas!. Estamos de visita! Não podem. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra.! A brigada da Guarda Fiscal. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta..

O “SENHOR INSPECTOR” Um. pequenos baixo-relevo estilizados.. são figuras de bichos. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. penteadinho e bem vestido. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. em Mafra. em Dezembro de 1971. onde antes só estavam manchas indistintas. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino... denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. 210 . ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. fale! ─ este é dos “pides maus”. pinturas-quadros humanizados. é claramente provocatória para impressionar o detido. todo encolhido. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso.

.. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”.. não resta alternativa. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. surpreendentemente.” ─ Esse canalha!. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. não vale a pena negar! Além disso. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ali estava um exemplar do “Avante!”. fazia precisamente um ano. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. é a primeira alucinação. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. em Dezembro de 1971. ─ Desconheço esse assunto. desdobrou uma folha de papel fininho e. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente..

caminhando. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. com um bafo acentuado de álcool. já a madrugada ia alta. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. como o torcionário-mor. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Até amanhã. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. já disse! ─ sacudindo-o 212 .Tem mais 24 horas para pensar no assunto. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Silêncio! Não entrou ninguém. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. Junto da sua cara. Encostado às paredes foi caminhando. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. bombista!”. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. ─ A partir de agora fica sem cadeira. Passaram as horas. aludira. Adelino Tinoco. Como uma mola. O pide pequeno e feio. o que permitia ir calculando o tempo). não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. que até os tinha formados em Psicologia. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”.

voltou as costas e desandou. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. o “superior” teve uma ligeira hesitação. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza.. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . bem vestido num fato azul-esverdeado. deu origem. e com um emblema na lapela. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho... pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade.. no instante seguinte.violentamente. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. de bom corte. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. Um “pide-bom”. com ar muito solene. como de costume. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. não tem cara para levar uma bofetada!. alto e de meia idade. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial.

dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. desaparecem. eram mitigados. de onde chega uma luz de sol 214 . Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. as paredes deslocam-se. não tenho nada a ver com isso. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono... continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. ameaçador.! Alucinações frequentes. no quarto dia consecutivo. sob o mando directo de Salazar até 1968. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. com Marcelo Caetano no poder. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. muito íntimo do director Silva Pais. Agora na década de 70. quatro dias.

com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. O preso avança às cegas para um precipício.” ─ Afaste-se da janela. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. O café da noite tinha um gosto esquisito.. só abre a boca para ditar ordens e regras.. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. sobre o rio. vinha um 215 . acima do mundo. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. não conseguia adormecer.. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”.. além do oceano. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias.. semiaberta. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. Quem dera poder dormir um pouco!...magnífica. Ao fim de quatro dias de privação do sono.” Passa o tempo a olhar para o preso. O vigilante calou-se. com ar arrogante e meio imbecil. mentecapto. mais um passo ansioso e . Todas as noites. por isso bebeu só uns goles. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. única saída para a liberdade urgente.. onde a vida continua. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. pouco antes da mudança de turno.

. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. ─ Interessa. fazia frio à noite. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. obrigado. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. Mas isso não interessa. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável.. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. calha bem!. produzia a perda da noção tridimensional. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. não é? Sentia uma tremenda excitação. A falta de descanso do cérebro. porque de repente. daí as alucinações. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. 216 . ─ Ah! É você! Há dias que não o via.. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. conversar!.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. Sabia bem aquela bebida quente. Hoje é o primeiro dia de Inverno.. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. apetecia-lhe conversar.. vindo não sabia de onde. quase euforia. vamos é saber da sua disposição.. sem querer. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. juntava-se a confusão do tempo.

nem o Deus em que não acredita. um homem católico. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. contava todos os pecados... qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. e no entanto vão lá. em Angola!?. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. foi uma força de expressão. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. ─ Você. Já temos uma filha!. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. não respondeu logo.. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. por onde vultos furtivos se escapavam. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. também estive na guerra. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar.. não estou a par! Mas. dizem-se pacifistas. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 .. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. fazem agitação contra a guerra.─ Não sei. ninguém me mandou. sabe.. sumiu nas trevas da sala mal iluminada.

ninguém! Parecia terem esquecido o preso. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. Nem o chefe-de-brigada. por estar para ali a falar com aquele carrasco.. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes..” martelava-lhe o cérebro doído. não vou!. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. tantos que tinha alucinações tremendas. impedido de dormir há muitos dias. ─ Cale-se! Cale-se! 218 .. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. Por agora as dúvidas foram vencidas. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. faz ultrapassar o período de fragilização. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família.

. quase euforia. (inspector. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. SEIS. anos mais tarde.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. com a entrada triunfal do inseparável séquito. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. chefe-de-brigada. Calou-se o agente de cara redonda. ligados ao Partido Comunista. em Alcântara. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. segundo dizia. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala.. Facto curioso. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. vamos buscá-la para esclarecer. (mas ficaram quase todos bem na vida. quando a revolução esmoreceu). Passava largamente da meia-noite. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. por não ter arranjado melhor!. há muito que acontecera a rotação do “moinho”.. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”.. comprometido. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente.

a aprofundar a angústia dilacerante. ─ Se os documentos não são seus. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. misto de revolta e de desalento. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira.vontade. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. subindo pelo peito até ao cérebro. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. pavor.. pela impotência perante a situação. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. Raiva.. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. manhas experimentadas da polícia...” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. Nascia um estranho sentimento novo. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. Que dia seria hoje. não posso!.

A respiração pela boca torna-se ofegante. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. julgando-a mais distante. a investigação ia no “bom caminho”. há muito perdera a perspectiva tridimensional. o “vaidoso” e o “atarracado”. Apetece-lhe vomitar.papel sujo. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. O preso caminha encostado às paredes. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. bate desamparado contra a parede. O inspector Tinoco retirara-se impante. desritmado. sob constantes ameaças dos pides. já lhe disse! Se insiste. em pé horas e horas a fio. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão.. desfaço-o a pontapé!”. como você. entrado a meio da tarde. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”.. eu logo lhes dizia!. Sem cadeira para se sentar. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. ─ Comigo. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. os comunistas de merda. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. O detido já não liga às provocações. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. a tortura do sono ia continuar.

. firme e 222 .. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. claro. Ah! Se pudesse saber que a companheira. não tem o traquejo dos “duros”.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. mas nem todos tinham essa fibra. já meio recuperado. talvez. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. a família!. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. gente de excepcional coragem.. Muito tempo depois. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. a confusão. hoje celebrados como heróis.. mas com os pés cada vez mais inchados.. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas.. Não há milagre. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. Estava sinceramente assustado. é ainda um homem novo. ─ Sofro do coração. Sim. Sentia-se verdadeiramente mal.. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo..

queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!.. canalha. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. chantagista. o “senhor inspector”. com o ar mais angelical do mundo. Não tardou de facto. tinha obtido do “seu” médico e amigo. ─ Sofro do coração. carrasco. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. torcionário. ontem ao 223 . todos os nomes que definiam aquele títere do regime. até porque na altura outros apoios foram recusados. poupando energias. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada.determinada. fascista . jamais olvidado. facínora. criminoso. torturador requintado. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. Na tarde do 6º dia. Devido ao cansaço.. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. hipócrita. embora verdadeiramente ameaçada. ─ Então. nazi. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.

no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. Descalço. o coração desritmiza-se. Já não conseguia levantar-se. a qualquer hora do dia ou da noite. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. a olhar interessado. A matilha de macabéus e hienas. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. O torturado levanta-se em grande sobressalto. Até o agente de serviço já não implicava. gritos de mulher!. sem interferir. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. : “Prenderam a minha companheira!”. não dizia nada.. Este pensamento produz uma angústia terrível.. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. com esgares de riso. o peito sufoca.. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 .serviço de Salazar e agora de Caetano. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. De repente. estava atrás do chefe pronta para saltar. ouvem-se gritos humanos lancinantes. mas este fez-lhes um sinal de aquietação.. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. parecem-lhe gritos familiares. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. trago um médico comigo!. e se for preciso. “unha com carne” com o director Silva Pais. mas não estava”. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar.

abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada.). Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. Ganhara forma no cérebro.─ Não está a ouvir? São gritos. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. A PIDE aceitou a história. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. Muitos. 225 . produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. O pide de serviço. contra o que era habitual. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. frio. uma história de comunista já assumido. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. sem sol (ou ainda não terá nascido?). muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude.. nas longas fases depressivas. cinzento. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção..

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. Sobre estes causídicos. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. amigos. milhares de portugueses. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. a título gracioso. defenderam em tribunal.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. repartido por várias sessões. Das primeiras. corajosas. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. fazia-se de propósito em voz alta. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. houve intervenções brilhantes. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. entre familiares e amigos.

com o Carlos e o Pedro. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. Riram de forma alarve. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. durante sete dias e seis noites sem dormir.. quando foi apertado como testemunha de acusação. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. O próprio juiz o admoestou. 228 . caso raro. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. anafado e exibicionista no fato de fantasia. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. fingindo ignorar o detido. pelo doutor Manuel. mas falando em voz alta e explícita. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!.. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. seco de carnes e cenho ruim. As alegações iniciais e finais do réu.

Ao fim de três sessões. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. Costa Saraiva.. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. na sala de interrogatório!. Embatucou o procurador do Ministério Público.. era rancoroso. com uma pena de prisão remível a multa. proveniente da Beira. O fascismo.00h do dia 23 de Dezembro. que lutavam pela liberdade. ─ É fácil comprovar. ─ agora era o acusador público. há-de constar a minha entrada cerca das 20. 229 .00h do dia 16 de Dezembro de 1972. a interromper o réu. Nos registos da prisão-sul de Caxias. com permissão do juiz. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar.. a sentença constituíu uma pequena vitória. às 16. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. onde eu nunca tinha estado antes. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. senhor doutor! Nos registos da TAP. além do mais. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas..

Vicente Bolina. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. Eduardo Fernandes. No mínimo. os amigos José Lucas. Zaida. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. Fernando Fragoso. Suzel. O apoio necessário vinha da família. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. os antigos colegas Baptista. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. ficarão registadas para a posteridade. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. Eugénio Torres.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Maia. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Manuel Felizardo. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. tal era a acusação. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. 230 . embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. Conduto e Pimenta. Hélder e Ventura. José Caria.

quase vazio no início da manhã. Desfazendo por fim o ar de admiração. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. em rápida expansão. aplacando a angústia e educando o espírito.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. o estudo. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. AMADORA. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. ─ Bom dia. que encheu o dia-a-dia. não há 231 . a reflexão.. vê logo o quartel. organizado. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. fraternal e dinâmico. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. disfarçando a saudade. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. cidade dormitório às portas de Lisboa.

com caras de poucos amigos... adivinhando a má nova e o destino ruim. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. Um cabo e um praça da GNR. indicada no 232 . pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. na Amadora. o batente de ferro da casa térrea. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo.. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. bordado a ouro e esperança de melhores dias. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. ─ Deixe estar. o rio era um espelho plano e calmo. indiferente aos dramas dos homens. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. o desemprego na grande indústria. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . situada numa magnífica frente para o rio.. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. mãe e madrasta.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973.

meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. é um cepo redondo com dois olhos. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. era preocupante e inabitual. já fui julgado e condenado em tribunal!?. a humanidade com que lidava com os 233 .... gordinho como era da praxe. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. Não queremos criar problemas a ninguém. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. tudo era diferente naquele homem de idade madura. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. esse cretino!. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. ─ Andamos à sua procura há oito dias. oficial do SGE. se tinha levantado para o receber. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos.. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado.. ─ Sabe?!.. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. ─ Processo disciplinar.gabinete do oficial-de-dia. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. ─ Entre. O capitão Luís. até aí conhecidos.

gerava uma nova expectativa. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração.. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. ─ Eu sei. 234 . eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. com uma palavra amiga para o jovem miliciano.. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. formado em Direito. repetia-se ao princípio da manhã. deixava os interlocutores espantados. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. Todos os dias desde a primeira vez. embrulhado em “maus lençóis”.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. também com um problema militar complicado por razões políticas. intuía com reprimida alegria na alma.

Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja.. furriel “estacionado”. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. tristezas e expectativas. deu para partilhar mágoas e esperanças. não constituía dificuldade. comparando com a experiência no “teatro de guerra”.. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. para quem tinha um curso de engenharia. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. mas não se comia nada mal. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”.. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. ando a pagar viagem a viagem!. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. Tomara eu!. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. o que.. 235 . ─ Parte do jardim em frente ao Comando.Não tinha.

damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”..─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. foram obtidas sob 236 . ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. em Dezembro de 1971. ─ Bom! Ainda está muito quente. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. redondo de aspecto e de alcunha. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. deve ter sido complicado!?. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido... ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. foi retomado na semana seguinte por imposição legal.. então não vale a pena perder tempo. fazia a encomendada inquirição com zelo policial.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra.

se sentara num banco traseiro. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. falta um companheiro de viagem. dando como provadas as acusações. como mandavam as regras tropeiras. o processo-fantoche. Os documentos apresentados para assinatura. Não ficaria por aqui. O horário é para cumprir. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. ─ Isto é um veículo militar. Depois chamo-o para assinar. porém. Certamente por isso. não é um transporte público. Isso não pode recusar. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . Por mais de uma vez. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. ─ Só mais um minuto. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. e tal. ─ Quem não está. senão tem faltas injustificadas. sufocava-se no interior da camioneta.tortura. estivesse. já o mês de Julho ia avançado. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. nos dias tal. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. Era curioso.

o compasso de espera solicitado. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. Ex. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. por determinação de S. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. o “chefe da viatura”. Era um estado dentro do Estado. seco de carnes e de sorriso franco. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. a PIDE/DGS. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. ª. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . o furriel miliciano. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. pelo contrário. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. Acácio da Silva”. com a conivência do militarismo reaccionário. é furriel! Qualquer coisa da Silva. ruivo e sardento. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. na secretaria dos “Adidos”. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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─ Ao princípio era um moitão de visitas. mas o alentejano não se deu de achado. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. mas num domingo foi aí uma barraca. mostrava-se loquaz. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. e o moço de bigodão negro. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou.. tentou esganá-la.... ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. ─ O tipo está doido varrido..─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!.. desatou aos pontapés às cadeiras. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. ─ A doença dele é outra.. ─ Foi o bom e o bonito. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz.. 246 . até já cortou os pulsos para se matar!. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. casado há pouco tempo e aqui preso!. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada.

Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. ─ Pois sim. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. tem de se compreender. A notícia surgiu brutal. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. fundado em colaboracionismos vários. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. se tinha suicidado na cela. sempre a caminho da enfermaria. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia.─ Então a situação é grave. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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.da filhinha! Prometo que voltarei. 255 .. talvez mais cedo do que tarde!.

homens. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas.A LENDA 9. velhos conhecidos. 256 . tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. malas. sacos.

. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. que para aquele lado era de terra batida. O camião carregado de soldados. sobre as preocupações com a mobilização iminente. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. grupos barulhentos jogando às cartas. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. Algures. como gado para matadouro. 257 .). enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Encostado ao taipal. gente deitada semi-nua. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem.. Beliches a cinco de altura. cruza-se outro camião com soldados a granel. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor.. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. o “canhão” esperava a carne fresca. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!.

. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. nossos soldados? ─ Desculpe. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. isto é um país em guerra. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 .. se não houver problemas com a saída!. paleio animado e boina na mão. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado.. ─ A vossa identificação. ─ Se calhar vou contigo. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. moço alto e magro. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. que por perto ouvia a conversa. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. falta de hábito!.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro.. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. rua abaixo direito ao centro da cidade.

que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. é um exagero!. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. pá! ─ Não te metas com esse gajo. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. sem pés.de colocações e a escala de serviço. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. sem braços ou sem vida. lá foram saindo os magalas mal ataviados. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram.. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. limparam. ordens do sargento! Resmungando e refilando. tecendo laços de solidariedade circunstancial. algures naquela guerra oficialmente já ganha.. ─ Há aí vassouras e pás. mas sem fim à vista... entretanto voltou de avião para a metrópole!. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. ─ Isso deve ser história.. Devem vir fardados. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. também não a pedi nem a desejo! 259 .. ─ Conta-se haver um “gajo” rico.. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. não deve ser limpa há um ano!.

com o sol nebulado e uma humidade elevada. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. Os homens ocupam-se da máquina militar. veículos militares correndo pelas ruas. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. pois a guerrilha não diminuiu. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. característica daquela região. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. As vivendeiras. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. pelo contrário.. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. Na conclusão da empreitada. que consome enormes recursos da Pátria distante. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. assim se chamavam. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. elogiando o trabalho feito. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. e a economia da região sobrevive do conflito.. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada.. detém cada vez mais a iniciativa estratégica.. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. ─ conversava-se à mesa do 260 . com uma eficácia muito baixa.

não sabem ler nem escrever. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. Passam carros de boas marcas com condutor militar. mas têm comida certa: ─ António. a fim de conhecer tanto quanto possível. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. Têm inúmeros criados pretos.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. a 261 . as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”... sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades.Café Central no fim da tarde quente.tal como sufocava o calor de Dezembro. Esta “chicalhada” irrita. o militarismo sufoca! . Também alguns milicianos trouxeram a família. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. Longe dos teatros de operações. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando.. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação.. quase não há serviçais do género feminino. Ganham uma bagatela. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. a história da terra moçambicana. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. falam mal o português. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda.

a prestar serviço nas “Informações Militares”. a perder de vista. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. Nem vou. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. porque Salazar não gosta muito dos americanos... ao fim do dia. Quando se saía da cidade. e potenciando o vício pela bebida americana. quartel-general da guerra. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. e aos industriais de refrigerantes. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. oriundo da burguesia alentejana. viam-se grandes embondeiros. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. à beira do milagre da “tomada 262 . onde tudo era demasiado no estilo europeu. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. A sua formação era claramente conservadora. Uma planície de cor castanho-avermelhada. protegidos pela lei do condicionamento industrial. ─ insistia o jovem bem parecido. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. com bons conhecimentos. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. deixavam-no intranquilo. que não se vende em Portugal.

* No caminho de regresso ao “bairro militar”. Ia para dois meses. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. já tinha a chave. mais depressa os homens que os montes. Para o mais distante. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. Prestes a mudarem. Não tardam aí melhores dias!.de consciência”. ─ Quando vim. entre silêncios e goles de mistura fresca. muitos sacrifícios e muitas vidas. ainda que tal custasse muitas angústias. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. acreditava na justeza deste conflito. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas... isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. 263 . João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. réplica da arquitectura europeia. revelando a comum ascendência asiática. Automóveis de boas marcas. Pelo que tenho visto. deixam gente de pele escura. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor.

─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 .Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. por bastante comum. com as leituras ou as idas à biblioteca. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. como na gíria é conhecida. À noite. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. chegavam famílias inteiras. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. no Golfo Pérsico.. com o infelizmente célebre. normalmente. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. ─ Ah! Então era isso. se notava um grande sossego. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida.. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. a servirem como desabafos da alma. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. o movimento à porta da mansão!. na Índia e até na China. Estavam muitos orientais. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. O descontentamento emergia. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes.

viviam na água. que encontraram sempre forte resistência... possuía um carácter forte e indómito. começou a fazer-nos sofrer muito. Datam do século XX. A etnia maconde. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco.. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. entre os rios Lúrio e Rovuma. internando-se no mato.. se furtava. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. a que o povo das tatuagens e dentes limados. Os pretos cuidaram dele até crescer. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. habitando o Norte de Moçambique. Durante a I Grande Guerra. nos princípios do século XVI. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. Esta é uma lenda do povo maconde. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. 265 . em 1918. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. nunca mais deixou de nos tratar mal”. “Os brancos antigamente eram peixes. E desde então até hoje. e se ele o dizia. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos.

. da costa de Angola à costa de Moçambique. No início do século XX. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural.”Batalhões sem soldados. em 1889.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. Em 1895 e 96. escolas sem alunos. “de Angola à contra-costa”. em 1882. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. e de Capelo e Ivens. de traficantes e de entidades coniventes.. fronteira à ilha de 266 . deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. em 1885. no Sul. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. alunos sem escolas e sem professores. em 1878. hospitais sem médicos!”. doentes sem hospitais. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. Este último escreveu o livro “Mozambique”. A nova expedição de Serpa Pinto. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos.

e o cultivo do algodão e da borracha. entre os rios Rovuma.. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. criada em 1888. a Companhia do Niassa. são finalmente controladas (oficialmente. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. numa série de campanhas iniciadas em 1908. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. procedendo à exploração mineira nesta área.Moçambique. submissão das populações e pilhagem dos recursos. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. a Companhia de Moçambique. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas.!). com capitais metade ingleses e metade franceses. Lúrio e o lago Niassa. criada em 1894. a norte. que iam completando a ocupação militar. com capital inglês e francês. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. em 1879. ferro e ouro.. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). À medida que se desenvolviam as campanhas militares.

mantém-se o regime de trabalho forçado. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. subindo para 2 mil no início do século XX. Já a Companhia do Niassa. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. aumentando para 20 mil em 1926. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. muito depois da abolição oficial da escravatura. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. fundamentalmente para Angola. Ou seja. Em 1878. nunca teve grandes resultados.país colonizador. entre pessoal militar e administrativo. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano.) está sujeito. ao seu sustento próprio”.. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. que funcionaram até 1942. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. ao abrigo desta lei. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. não se mobilizavam voluntariamente. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. na sua área a 268 . autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. sua sede. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados.. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. foi criado o primeiro código do trabalho. Por outro lado. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. conseguiam um tráfego internacional crescente. No período de 1910 a 1923.

particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. Holanda) estava em declínio. tinha 30 mil habitantes e a Beira. amendoim. sisal. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. a capital. mandioca. segunda cidade. e nunca foram construídas vias férreas. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. assiste-se. destinados à exportação: algodão. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. já do século XX. 1500 habitantes (só 50 brancos!). canade-açúcar. Bélgica. Alemanha. Porto Amélia. No segundo quartel do século XX. criadas por decreto obrigatório. França. no Centro e no Sul do território. o esforço português de colonização efectiva. tinha em 1925. oleaginosas (caju. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. copra). chá. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. em 1925. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. É muito recente. milho.penetração europeia era mínima. atinge 20 mil. mesmo nas suas próprias terras! 269 . Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. todavia.

criada em 1921 com capitais ingleses. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia.. do Niassa e de Moçambique. em 1945. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. a mais importante açucareira da colónia. Inglaterra e União Sul Africana. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. Curiosamente. a que se 270 . Companhia de Algodões de Moçambique. que assim funcionam como mercado protector. cultivava 45% da produção algodoeira total. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. concessão feita a capitais luxemburgueses. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. que cessaram a actividade por volta de 1942. originariamente para a exploração das minas de Moatize. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. e em particular com o capital britânico. Presente desde há muito. pertencente ao grupo Champallimaud. perícia. constituída em 1948 com capital luso-belga.. Sena Sugar States. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. fundamentalmente para Portugal. No caso da exportação de algodão. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. Além das referidas Companhias do Zambeze. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar.

nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. desmentida desde 271 . envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. etc. Em complemento. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. no período áureo do chamado Estado Novo: .“No meio das convulsões presentes. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. incluindo: 400 mil emigrantes. se auxiliam. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria.. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. irmandade dos povos que. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. em 1943..associaria o grupo Melo. se cultivam e se elevam. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. metade do total. 520 mil contratados do algodão.. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. também presente na indústria dos óleos. sejam quais forem as suas diferenciações. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército.

e as escolas elementares das missões católicas. Todavia. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. três ou quatro nos finais do século XIX. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). asiáticos e “assimilados”. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. Da mesma forma. no século XVIII.sempre pela escassíssima presença portuguesa. ano da publicação do Acto Colonial. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . ou seja.5%). em decréscimo) num universo de 6. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. em 1950. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. traficando em escravos. espalhados ao longo da costa moçambicana. 1. com a política de “fomento colonial”. em 1960. à data dos inícios da guerra de libertação. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. dez em 1825. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960.6 milhões. organizadas em ensino primário e liceal.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”.

pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e.. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. 1970). O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização.território colonial. sobretudo depois da II Guerra Mundial. confluindo no desejo independentista. fomentando o espírito nacionalista latente. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. educar. 95% da população africana se encontrasse na 273 . ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. reflectindo a miséria da missão colonizadora. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas.. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. subjectivamente. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões.. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. padres de Verona. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. etc. “Não é mais que um método de domesticar o indígena.). os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . ao arrepio do ensino do Português... nacionalizar e civilizar a população nativa”. padres de Burgos. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. Não admira pois que em 1960. Por este tempo. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias.

Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional.. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. o António. a Lena. são gente boa.. ). ok?!.. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. A humilhação permanente da despromoção. o Santos.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. o Muradali. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. o Castro. como na afirmação do Presidente da República. os Casimiro. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. o Melo. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. quando começar a luta de libertação nacional. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico.. A colónia funcionou até 1960. o Ivo. a Lurdes. em 1956. Precisas de te distrair! O Carlos. o Monteiro. o Fausto. Craveiro Lopes. 274 .

estava um negro deitado na estrada. como morto. por isso te despromoveram e te castigaram. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. Ciclo do COM. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. arrostando sozinho as penas da insubmissão.. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. atravessado. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. 275 .. que até nem foi extraordinária. sempre muito sensível. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. ─ questionava a esposa. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. é mais uma questão de integridade. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. este tipo é incrível.. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam.. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. muito apertado pela PIDE em Caxias. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. entretanto a revolução. A seguir a uma curva. ─ Não é tanto uma questão de coragem.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra.

mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. se estivessem aqui comigo!. felizmente.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. a minha luz.. cada vez maiores. tu ensinaste-me a viver. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta.. mas nós havemos de vencer haja o que houver.. O tempo não pára.. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. (. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. Estão bem. sim! Com dezoito meses. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. ─ Nunca foram referenciados! A não ser.. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. O mais custoso é a separação. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . De vez em quando vou tendo notícias. por isso tu és a minha vida.. me dá vida. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. carregada pela angústia da separação física.

─ Vocês têm tido uma vida muito difícil.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . não sei se aguentaria. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias.. Nós esperamos por ti. Como disse um grande poeta. O “carocha” quebrou o transe emocional. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura.. durante quase seis meses. que faz amanhã 18 meses. e agora?. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. o amor constrói-se também com sofrimento.. ─ uma carga de trabalhos. Por outro lado.. diz o nosso fruto pequenino. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. a nossa ligação temse fortalecido.. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova.criaram. (. o casal ainda não tinha filhos. amor da minha vida”. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 ..

no início da década de 70. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. desassombradamente. onde vinha em luto familiar.. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. Juntamente com outros dirigentes estudantis. ou mais uma tentativa de “putch” militar. também ex-dirigente associativo. ─ Um movimento autêntico. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. que há pouco.G. era um jovem mulato. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. fora apresentado como Ivo. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q.G. pelo parente morto em exercício militar. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. e de sectores ligados ao general Spínola. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. alto e bem parecido. fora compulsivamente incorporado. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. as de jovens oficiais do quadro. em Outubro passado.. natural da cidade-quartel-general. à entrada. genuíno. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. também alferes no Q. foi bastante mais João.

que fazia a interface entre muita gente. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. Se isto dura mais uns meses. o mulato quase formado em Medicina.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. falava no assunto tabu. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. que não renegavam. A casa de família da classe média. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. alimentando a célula da resistência em Moçambique. Fixados há muito em Nampula. trazendo e levando notícias e materiais. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. para ajudar a acabar com isto. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. chegando e partindo constantemente. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. ─ Como sabem. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático.

─ Talvez não haja tempo para isso. tantos anos de mão dada com o colonialismo. mas creio que já não têm tempo!. mas se é contra o regime. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. mostrara uma insuspeita clarividência. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. que venha por bem! ─ Por cá. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. concitou a atenção dos presentes. O julgamento do 280 . É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. nas escolas!. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. Tenho a convicção que o fim se aproxima.. ─ o jovem Melo.. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia... em plena época quente no Hemisfério Sul. ─ a senhora de Casimiro. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. depois do fracasso das operações no Norte. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda... ─ Eles sabem muito bem qual é a situação.. assume-se agora do lado dos oprimidos. muito simpática e delicada.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo.. nos quartéis. também dirigente académico perseguido. ─ A própria igreja de Moçambique..! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. oriundo de famílias militares. num fim de tarde africano..

a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. prevendo e prevenindo o futuro. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. terra de esperança. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). Sebastião Soares de Resende. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. Completa esta imagem do século XVIII. é paradigmático do papel da igreja católica em África. por orientação do Vaticano. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. Depois da concordata de 1940. no curso do século XX. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. parte integrante da máquina colonial. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. assumia-se de forma muito mais contraditória. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. num contexto de declínio do colonialismo. uma voz clara que 281 . o ambiente ganhava optimismo.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. aqui e acolá. Na conjuntura actual. rumo ao Norte. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. como gostavam de dizer. nada de atrasos!”.do oceano de águas escuras e algo agitadas. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. quase escrava. a praia do “Relamzapo”. espraiando-se levemente na areia branca. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. agarrado às vantagens do passado. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. cada vez menos. de medusas da “Cruz de Cristo”. A praia das “Chocas”. negros na maior parte. Agora na sua senda. os colonos emigrados. num “Aviso” da Marinha de Guerra. com “cabrinhas” de espuma branca.30h. Percorridos em visita. e. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. duas dezenas de soldados. ainda acreditavam. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. aparentemente descurando o futuro. a meio caminho da cidade portuária. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. imaculada. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. A partida é às 20. tinha uma areia fina de tacto agradável. semeada de pedaços de algas escuras.

o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. Tinha razão o Ivo. Marcelo. ao jantar. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. também vou?. impecavelmente fardado. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. um jovem alferes moçambicano. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. é melhor não te verem por 290 . Caíra a noite. ─ Há poucos dias estava óptimo. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”.. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. Num jipe oficial. branco. logo me contas o resto da história.. Tratem-no como se fosse um de nós.. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. estivemos a conversar em casa de uns amigos. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão.. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade.bigode sobranceiro. Ele contar-vos-á os pormenores. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando.

─ Olha quem ele é!. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes.. com o furriel “recepcionista”. instruiu o condutor de serviço: 291 . * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo.. Antes. em serviço à pista. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. ex-dirigente estudantil. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida.perto. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. de camuflado. já eram velhos amigos. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. à saída. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento.

Verdes e impenetráveis. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . com telhados de fibrocimento. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea.. parecia ser gente “importante”. era uma zona de casas. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. arrasando os nervos. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros.. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. a rasar a copa das árvores. num vale em depressão.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. Do avião. para onde vai o professor. bem vestidos ao modo africano. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. pintadas de branco. a poente. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. Diferente. que passava rapidamente. único utente até hoje! Ao longe. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!.. desde Porto Amélia.. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo.

estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno... interpelou-os: ─ Meu furriel. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. até se diluírem no horizonte. ou talvez mesmo de há muitos dias. ─ Contava-se. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. de ataques com foguetes de 122mm?. barba por fazer mas atitude simpática e despachada.adiante. de contornos envoltos em bruma. em Porto Amélia. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. de madrugada. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. destoava do verde constante da paisagem. Mais distante. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. 293 .

constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. sem gosto. em fila. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 .Fim de tarde ameno. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. a recolha da sopa numa lata de folha. ao calor escaldante do meio-dia. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. sem higiene. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. Em tempo de Equinócio. confundindo-se à distância com a neblina circundante. sem vontade. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. porventura. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. Ali na África Setentrional. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. Por instantes. o ambiente é um pouco mais húmido e quente.

amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. da personagem mal conhecida por recém-chegada. ataque? Nada. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. em cujas margens coexistem por vezes. despejada a eito. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . Mina. caçadores nativos. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. o medo da guerra. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. crocodilos. Novamente o mundo sem sons. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. encosta abaixo. o nosso direito e o nosso interesse. e o manto escuro caindo sobre o lago. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. É Naschinguyeia. A respiração suspende-se por segundos. projéctil. a miséria do rancho. minas anti-pessoal. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. a angústia do afastamento familiar. falso alarme. do outro lado do rio. Mais distantes. em cenas de caça na terra de ninguém.da pátria. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever.

transferindo-se para Dar-es-Salaam. piscando o olho aos americanos e à NATO. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. belgas. em 1964. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. depois na Guiné-Bissau. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. no Tanganica. afogou as pretensões num banho de sangue. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. um ex-ministro de Salazar. em 1963 e por último em Moçambique. acediam à independência. em Junho de 1960. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. em véspera da 296 . em 1961. Franco Nogueira. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. primeiro em Angola.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. quando as ex-colónias inglesas. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. o mito da defesa do mundo ocidental. com mais de 50 mortos. Uma contínua e continuada mistificação. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. francesas. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. em Abril de 1961. holandesas.impérios asiáticos.

independente desde 1958. No interior de Tete. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. A realização em Marrocos. em 19 de Dezembro de 1961. da 1ª. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. futuro grande estratega militar da luta de 297 . Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. Damão e Diu. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. No final desse ano.União Nacional de Moçambique Independente. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. em Maio de 1961. com diferentes sensibilidades e perspectivas. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. no Quénia. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. segundo os próprios. foi criada a UNAMI . interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. em inícios de 1961. Marcelino dos Santos e Uria Simango. Como nos restantes casos. Em Nairobi. moçambicanos da etnia maconde. começando a derrocada do império colonial português. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. tratava-se de um movimento heterogéneo. com mais ou menos expressão. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques.

e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. primeiro presidente da Frelimo. * Eduardo Mondlane. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. unificado a partir do 1º. finalmente. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. Ao fim de quase 500 anos. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. Após 298 . pelas tropas em acções de represália. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. capital do Niassa. com um ataque ao posto militar de Chai. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude.libertação: Samora Machel. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. simultaneamente em Cabo Delgado. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. bispo de Vila Cabral. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. em 1971. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. Congresso em Setembro de 1962. e no vizinho distrito de Niassa. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. O conflito iniciou-se em 1964.

Por essa época. Eduardo Mondlane. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Instalada em Dar-es-Salaam. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Joaquim Chissano. moçambicano de origem 299 . um período de grande vitalidade da Frelimo. que casara com uma americana branca. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. seguiu Samora Moisés Machel. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. só em Março de 1963 se radicou em Dar. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. Professor na Universidade de Siracusa. nomeadamente Julius Nyerere. o tenente Jacinto Veloso das FAP. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. em risco de ser preso pela PIDE. capital do Tanganica. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia.breve passagem por Lisboa. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. iniciando com Marcelino dos Santos. a Frelimo teve um início de vida agitado. no extremo nordeste de Cabo Delgado. entre outros. Janette. Leo Millas. após uma espectacular deserção. Pascoal Mocumbi. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. em Março de 1964. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. Tinha chegado a Dar em 1963.

O seu líder tribal mais carismático. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. Mondlane convidou Helder Martins. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Perseguido e preso pela PIDE. Lázaro Nkavandame. a funcionar na capital argelina. Mais tarde em 1965. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. de passagem por Argel em Março de 1963. em Fevereiro 300 . comum na região setentrional africana. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos.branca a juntar-se ao movimento. em Setembro de 1964. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. outro moçambicano branco. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Também por esse tempo. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. O seu presidente Banda. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. para se juntar à Frelimo. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda.

mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. onde reza a lenda. conta a história do movimento de libertação. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. por não terem armamento pesado). os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. No mês de Fevereiro de 1965. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Desde o primeiro ataque a Mueda.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. base da alimentação. a 301 . a luta alargou-se rapidamente.

numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. Foram então nomeados. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. total e completa. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. num Moçambique livre e independente. EUA e URSS. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. que garante a sua unidade interna. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. e à exemplar democracia americana. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. ─ Independência de Moçambique.

e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. Salazar fazendo jogo duplo. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. em 1967. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. Em Abril de 1966. condenada internacionalmente. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. 303 . (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. em Moçambique. onde o regime do “apartheid”. Neste contexto. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. em Novembro de 1965. na Rodésia. decretando sanções económicas e políticas. É a resposta às forças portuguesas que. ZANU e ZAPU. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. veio complicar o xadrez político na África Meridional. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. uma nova frente na região de Tete. na Namíbia. em Moçambique. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. a sul.

quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo.Na região de Cabo Delgado. Viveu-se à época deste congresso. o padre católico negro Mateus Gwandgere. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. Mtwara. O movimento moçambicano está já então bem organizado. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). Em Fevereiro de 1968. no célebre campo de Naschingwea. passando a partir de 1966. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. (ganham dezasseis contos por mês. alvo por vezes de assaltos surpresa. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. enquanto um soldado ganham um!). aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . Kingwa.

sem um claro vencedor. onde vivia com a mulher e três filhos menores. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. em Dar-es-Salaam. Namíbia. As palavras só têm significado para os 305 . Em Fevereiro de 1969. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas..brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Em Portugal. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. sem sentido histórico e sem significado real.). perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. são um imenso caldeirão prestes a entornar. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral .. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. Moçambique. África do Sul. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. E foi a PIDE. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Em visita às colónias em Abril de 1969. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola.

ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. e. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. sangue. um dos fundadores. No dia 1 de Julho de 1970. é eleito presidente Samora Moisés Machel. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. um militarista ultrareaccionário. para comandante-chefe. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. sacrifícios extremos. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. em Moçambique. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. para Angola e Moçambique. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. coeso e organizado. respectivamente. A história e o tempo jogam a seu favor. custou esta 306 . reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). em Maio de 1970. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. O movimento de libertação está mais forte. morte. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta.

famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. pomposamente exibidas na RTP. muitas apreensões de armas. Praticando o extermínio por onde passava. milhares de combatentes. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. 307 . desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. também houve muitas vitórias. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. dinâmica. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. na acepção militarista. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. bem organizada e com uma forte retaguarda. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. de centenas de estropiados. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia.

uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). O conflito colonial em Moçambique. Aguardavam os restos garantidos da refeição. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. o ministro do Ultramar. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. 308 .. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. crime (milhares de mortos civis e militares). porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas.). diria outro retinto situacionista. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). prometendo acabar com o “terrorismo”. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. Como resposta. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. Silva Cunha. ficou-se pelo quilómetro vinte!.. a fingir de refeitório. montada debaixo do grande embondeiro. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973).

. que também está de partida.. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. oito ou nove anos... sobretudo os da “fofoca”. Como te chamas? ─ João. ─ Então não conheces a história? O pai deste. 309 .. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. dez escudos por mês! Vive com a mãe. precisam de ajuda!. passa a ferro e não leva caro. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. sinhô! ─ desviou a cara. outros nada. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. Lava.. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. Vinham quase todos da aldeia macua... ─ E o pai?. Quatro. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. o pai morreu na guerra. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. Alguns já tinham comido sopa do rancho. com as suas tatuagens características. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado.entretidos em brincadeiras de ocasião. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. eram raros os garotos vindos do lado maconde. cinco anos. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. de carapinha escura. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”.

─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. consta que ele é casado na metrópole. transportado às costas como era uso. ─ Pois é.─ Curioso!. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. mas com paredes rectangulares de madeira.. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. que está nos GE´S.. com telhado de colmo como as outras.. ─ É a Teresa! Não te dizia!. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua.. repuxada pelo filho mais pequeno. de forma menos tradicional. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. radiante na sua prometida função de cicerone.. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. aflito com o rumo do negócio.

só perturbada pela desgraça dos homens. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. a metrópole era Portugal. sempre a gritar e a gesticular. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. ─ O furriel tem andado desorientado. com um fardamento esquisito. calças pretas. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. em terras de mistério e desgraça. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. qual dono de escrava.João estava tentado a corrigir o vocabulário. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. magro. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. Gritava de modo incompreensível à distância. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . ou porventura devido à língua entaramelada. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. em genuíno desabafo de revolta. na África sedenta de liberdade. Já escondido. mas achou prudente não se manifestar.

Os homens deviam estar a descansar da guerra. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. mas nenhum queixume. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. obrigado! Tenho outras preocupações. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. onde este tipo de assuntos era mais propício. cor amarelenta e barba mal escanhoada. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.. visivelmente amedrontado. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. ─ O homem está com ciúmes. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. O “negócio” era do lado da aldeia macua. Notava-se pouca actividade. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. cercado de arame farpado e minas. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça.. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas.timorato o rapaz de estatura baixa. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. 312 .

como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. a sua comissão fora penalizada em três anos. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. ocorreu à imaginação do soldado castigado. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida.─ Há lá velhotes porreiros. ─ Logo se verá.. não seria muito prudente. onde já anoitecera. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. O cabo Carlos. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. não há pressa. Se é que essa seria a “estória”. Nas circunstâncias. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado.. e por isso hesitou 313 . falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. A frase soava ordinária. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. já os tinha mencionado. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. Só não sabia. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. como degradante era todo o ambiente da guerra. ─ Porque se sujeitará Teresa.

fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. era que de há anos àquela parte. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto.calado e pensativo. 314 . ao fim de um ano de “trolha”. sobretudo. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. caramba. à enorme angústia pelos mortos. os homens estão muito desgastados. somada à saturação de sucessivas saídas e. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. gerava uma enorme frustração que. ─ Isto é uma guerra. criava um estado de espírito muito negativo. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. a raiar a exasperação e a revolta. A hipótese de não rodarem. na perspectiva de descerem para Sul. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. raramente encontravam alguém da guerrilha. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações.

Em contrapartida. Raimundo Pachinwepa. Mariana Pachinwepa. Bonifácio Gruveta. “travestida” de serviços de informação militar. Armando Panguene. militarista e reaccionário. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. Monica Chitupila. Alberto Chipande. sob o comando supremo de Samora Machel. contra o que chamavam. entre outros. único do povo moçambicano. Sebastião Mabote. Filomena Nashak. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. José Moiane. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi).O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. O movimento nacionalista. a relativamente inepta tradição colonialista. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. eram os outros 315 . consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. por um comando supremo todo poderoso. Osvaldo Tazane.

Grupos de soldados portugueses. ensanguentada e sedenta de liberdade.vectores fundamentais da situação político-militar. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. A sorte da guerra estava traçada! 316 . e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. em português. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. “A fogueira do guerrilheiro”. por milhares de manifestantes. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. nos confins de uma África inóspita. em Julho de 1973. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. em protesto contra a “política ultramarina”. 318 . solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. em Lisboa. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. durante a campanha para a Assembleia Nacional. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. e em Portugal. Domingos. por oposição à guerra. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). no dia 1 de Janeiro de 1969. Diminuía a base social de apoio ao regime. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. MPLA e FRELIMO. da diocese do Porto. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. atenta e preocupada com os ventos da História.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. Dia Mundial da Paz. muito “católicos. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. apostólicos e romanos”. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. Felicidade Alves.

manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. Lamego. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. nos quartéis. 319 . O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. em 1972. e os Estados Unidos.. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. no 1º turno de 72. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. organizada unitariamente. nas escolas. no 4º turno de 1971. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. dentro do “ninho de víboras”. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. “Levantamento de rancho”. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. entre outros. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. e outros mais No panorama internacional. “Alerta camarada!”. na organização da resistência e do combate internos.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas.. ameaçando:. Santarém. Tavira. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. Santarém. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. em 1971. protestos na parada. em 1971. no 3º turno de 72. embora negando os factos. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. Vendas Novas. Tavira. publicado nos princípios da década de 70: .. arrancados às escolas. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. No início da década de 70.. “Não jures camarada!”.

há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. o Conselho de Segurança da ONU. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. No essencial tudo fica na mesma. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. Ainda assim. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. O alcance da iniciativa é inteligível. Enquanto isto. com o objectivo de “legitimar a guerra. Guiné e Moçambique. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. com Leopold Senghor. ainda que por novas vias. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. Na Guiné. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. da independência da Guiné. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. Em Outubro do mesmo ano. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. para breve. os 320 . e em Abril. a proclamação.“ajustando” a estratégia. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. António de Spínola. próximo da fronteira. Entretanto. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. o combate não esmorece e. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. em Outubro de 1972. encontra-se. em Março de 1973. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. Mas a luta de libertação está muito avançada. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. como resposta a agressões vindas do exterior”. ao perceber o fim inexorável.

em Setembro. que Marcelo Caetano. derrotado. reparando rádios e antenas. Spínola. Quanta gente. as forças guineenses combatem por todo o lado. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. perigosamente de terra em terra. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. A guerra entrava numa fase derradeira. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. Um mês depois. KAIOMBE DE JIMBE. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. ficaria ainda ferida ou estropiada. que a guerra de libertação é invencível. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. percebendo finalmente. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. em aumento crescente. não pode satisfazer. a independência da Guiné. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. numa zona libertada.“Strella”. conversando e trocando novidades. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. de aquartelamento em aquartelamento. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. no entanto. havia o “inimigo interno”. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. sem nunca o confessar abertamente. acossado. o PAIGC proclama em Madina do Boé. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português.. fartos de guerra e do militarismo fascista. organizadas como um “exército regular”. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. em Agosto de 1973. Havia o In. empenhado há tantos anos na luta pela independência. todos aqueles que iam 321 . imediatamente reconhecida por muitos países africanos.

por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. na vila de Jimbe. Mas ainda havia quem. pertencente ao subsector do Cazombo. nos princípios de 1974. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta .percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola.. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. Já se sabe o resultado. Além da agricultura de subsistência.. furriel. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. Não era mau rapaz o furriel.. bem. procurasse puxar a “carroça”.. mas como muitos outros. – Bem. arreando forte na besta. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. foi só um desabafo. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. na Região Militar Leste. carroça mal puxada! revolta-se!. besta contrariada.

Afinal. trabalhado na feitura de peças artesanais. agradado com a tarefa. – Venham comigo. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. onde aquela estava montada. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”.. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. Devia ser problema na antena. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. o problema não era do rádio propriamente dito. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. – Esperem aqui.e políveis. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. com duas ruas paralelas. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus.. com frequências próprias. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. solicitaram a reparação. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. onde vivia pobremente a população indígena. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. os chamados “flechas”. era uma realidade também em África.! – o furriel.

e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. apanhado no mato pelos “flechas”. Morreu passado pouco tempo. autênticas jaulas de guarda-bichos. 324 . ficaram a saber que o chefe do posto. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. completamente expostos aos elementos. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. Alguns meses depois o pide Camelo. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. alegadamente à caça. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. Lontrão. No caso vertente. momentaneamente. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. ou no célebre batalhão “Búfalo”. com as O pide da retirou-se antena. Trindade. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem.jovens militares estarrecidos. apagar os charutos no corpo dos presos. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. Laia. tinha por desporto nos interrogatórios. Vaz. de nome Kaiombe. e outros. Perturbados e confundidos. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. o agente António Camelo. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. solicitado para outro qualquer assunto. que deviam doer horrivelmente. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. Casimiro. participante na invasão do solo angolano independente. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. tratava-se de um habitante da zona. causando-lhes horríveis queimaduras. De volta ao quartel. rumo à África do Sul racista. mas suspeito de apoiar o MPLA.

. prendeu. porventura numa escala muito maior. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África.. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Significa que entre nós o crime compensa. guineenses e moçambicanos. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar.Face hedionda do sistema colonial fascista. ou reforma dos ex-combatentes. e as de dezenas de milhares de autóctones. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. perseguiu. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. da revolta activa de muitos milicianos 325 . Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. Neste sentido. como em Portugal. Essas vidas poupavam-se. que em África. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam.

Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. – Em Fevereiro de 1974. em Julho. composta por 19 elementos. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. Regressado de Moçambique. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. entre ultra-reaccionários. mais meios logísticos. em Óbidos. cada vez em maior número. – Por esta altura. homem da sua confiança pessoal. – Em 1 de Dezembro. António de Spínola. o general derrotado na 326 . futuro militar de Abril. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. com mais homens. Dezembro de 1973. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. embora unidos no essencial. como ministro do Ultramar. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. conservadores e liberais. o general fascista não parava de conspirar. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973.

A “coisa” está para breve. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. Família. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. os oficiais-generais. para reflexão. reafirmando a disposição de não ceder em África. – Nesse mesmo dia. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. para todo o país. publica o livro “Portugal e o Futuro”. – No início de Março. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. reúne-se em Cascais. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. a assumirem o governo. Costa Gomes e Spínola. O professor fascista “demo-liberal”.Guiné. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. Pátria. Vinha de um retiro no Buçaco. convidando-os. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). a chamada “brigada do reumático”. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. 327 . o “Movimento dos Capitães”. em directo. transmitida pela RTP. em vão. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. – No dia 5 de Março.

meu sargento. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. no regresso de férias. naquele promissor Março de 1974. em fins de Março. divertido e perspicaz. greves na cintura industrial de Lisboa.. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. O velho sargento.. o sargento-ajudante “Mafra”. chalaceara à partida. com as missivas dissimuladas. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. livro de António de Spínola. e prisões. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. solidários. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. “Portugal e o Futuro”. animadas pelos comunistas. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. em trânsito ocasional. com frequentes “extravios”. grande dinâmica unitária do movimento CDE. Desta vez. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. – Deixa lá a guerra. Caetano. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . amor e esperança. Os amigos. – Cartas de amor e guerra.

. com um enorme impacto 329 . um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. Margarida... O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. apesar de inconsequente. em Julho de 1973. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. refere a coragem dos revoltosos.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados.. Mais cedo do que tarde. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. depois de castigo disciplinar). embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto.(. (... O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972.) Amor querido. INHAMINGA A SUL. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro.. Não foi ainda!.). Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. como costumas dizer”(. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. Hastings. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua..

um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. Oficialmente configurava uma acção por focos. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra..! – Nada que se compare com este inferno. sempre a alinhar! – Boa sorte. era ou mato ou morro.. amigo. 330 .) “Afinal tinhas razão amigo. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. para onde a companhia independente tinha rodado: (. é palco de uma crescente perturbação subversiva. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. no caminho estratégico para a Beira. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. acompanhados por dois cineastas e um repórter.mediático. esta zona onde aquartelámos. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”.. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. Havia notícias desde Julho de 1972. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio.. A situação é deplorável. Algumas semanas depois. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira.

trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. Nos últimos dias de Julho de 1973. Entravam e saíam carros civis e militares. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Depois do Verão de 1973. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. prendendo sobas e régulos.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. em autênticos massacres. massacrando ferozmente populações. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. A sanha perseguidora. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. onde o terreno estava relativamente “livre”. A tropa regular. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. torturando e eliminando patriotas. em Tete. iria assistir e nalguns casos participar. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. vinda da guerra no mato. nas hostes colonialistas. Estas denúncias referem milhares de 331 . lançava o pânico.

adivinhado naquele início do ano de 1974. originando dezenas de milhares de deslocados. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. pela PIDE. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. No estratégico caminho da Beira. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. com homens de “antes quebrar que torcer”. 332 . conveniência ou por convicção. durante a operação Nó Górdio. terem essa atribuição). quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. Gungunhana e Moçambique.mortos. a alta hierarquia militar. geralmente odiada. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. como na localização das bases Nampula. por cegueira. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. e nas Colónias. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm.

significando tratar-se de militares de patente elevada. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!.. Mesmo tendo diminuído as 333 . E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. da Rodésia. cinzentas e verdes. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. a norte de Moçambique. em plena luz do Sol.“Strella”. A explicação não tardou. padre José de Sousa àquela área... dada pelo chefe da secretaria.. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. com foguetes terra-terra de 122 mm... de 19 a 22 de Abril de 1974. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira.... Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . da Namíbia. podiam ver-se muitas estrelas. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. – Têm fardamentos bonitos!. incluindo aquele. azuis. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. – São “patentes” da África do Sul. do Brasil. amarelas. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte.

– Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. digna de registo. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. depois do caldo aguado.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. retiraram-se à procura da refeição frugal. Com as últimas garfadas. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. a comida escasseava. tal como há três meses atrás. onde João fora aboletado por determinação do comandante. comia-se em dois turnos. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. os aviões de abastecimentos tinham rareado. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. Zambézia. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”... Manica e Sofala... de serviço à pista. após uma grave crise de desnutrição.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. após a operação “Nó Górdio”. Na messe dos sargentos. o correio andava atrasado quase um mês. não estava pronta: – É um “Dakota”. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. em 1971. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra.

espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. vamos tentar uma aterragem de emergência. são 13 horas e o almoço arrefece!. Por favor. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. Agarrados aos frágeis bancos de lona. com o 335 . atingira-se uma situação alimentar muito precária. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. Em princípios de Abril de 1974.. virando-se para a comitiva tagarelando. ainda fumegante.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. Depois de levantar voo na pequena pista. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. – Calha bem. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. a aeronave subiu muito alto. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. Num repente. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar.. os “Strella”. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor.

imobilizou-se por fim. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. 336 . quando se aperceberam da situação. prevenindo-a da emergência. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. a unidade militar mais próxima. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. travando a fundo os rodados. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. em Diaca . fazendo um barulho ensurdecedor. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó.. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. não permitiram uma boa travagem. o avião meio destruído. e a falta do motor. vamos “dançar” um bocado. a exigir a elevação do “nariz”. A pista de terra batida e cheia de buracos. O piloto-chefe informou via rádio.motor restante acelerado ao máximo. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. gritando o desespero da hora derradeira. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. em rápida aproximação da terra. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. fora feita para receber os pequenos monomotores. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas.. – Tenente. No interior andavam todos aos trambolhões. abandonadas à pressa pelos indígenas.

Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. vinda do Sul para estudar. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. onde decorria uma participada assembleia de democratas. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. e desmultiplicava-se em acções de rua. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Coordenando a luta legal e semi-legal. da intelectualidade progressista. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. depressa se envolvera na luta pela democracia.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. dos trabalhadores. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. dos estudantes. 337 . concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. recebidas com grande apoio popular. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. No dia 6 de Abril de 1974. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. por não haver condições democráticas.

” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. A morena de olhos escuros dos genes árabes. sublime e autêntico.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. Faremos dele a nossa canção de luta. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. doendo no corpo e na alma.. será o grito de revolta... Custava-lhe magoadas. Amo-te querida esposa. à porta da cela onde 338 . Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. escrito na pedra ou no vento..– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. gostava de escrever um poema assim. onde quer que viva onde quer que morra. tê-lo-ei sempre comigo. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante.. mas se soubesse fazer poesia.. – Minhas senhoras.. não sei qual a sua fonte de inspiração. cresce o amor. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. tão Não teve tempo de completar a leitura. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade..cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. o desejo. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação.: “. dependurado à cabeceira.

Não tivera tempo para mais hesitações. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. porém. 339 . pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. minha senhora. entretanto regressada dos lavabos. o estrato humano em presença.... – É o regulamento. mudando o tom. a ala dos interrogatórios e das torturas. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. – Isso não sabemos. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. Eram ordens. completamente. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!... “Poemas de amor e revolução”?!. Muito interessante. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas.. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. A carcereira às ordens da PIDE.. Era outro. apenas recebemos ordens para as transferir. a morena de cabelos em franja. – São cartas do meu marido que está na guerra.. como era uso. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. Decisão temerária e esforço inglório.

Lágrimas reprimidas mas teimosas.. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. que vais fazer? – questionava o Pedro. com data de há dois dias. 340 . – Se pudesse ia para lá já hoje!. produto da fé dogmática. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. Depois ressuscitou! É verdade. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. – Foi detida no princípio do mês. – Vais ver.. sinto-me atado de pés e mãos. Era preciso arrumar as ideias. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão.. numa reunião da CDE. Aqui neste fim do mundo. com a miúda pequena!. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. prostrado. em Lisboa.– Depois logo explica isso ao senhor inspector.. analisar a situação. – E agora. não vão detê-la por muito tempo. nem sabia bem. por minutos ou por horas. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado.

. a guerra prosseguia sem fim à vista. frustrações e medo. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho.. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. – É tempo de derrubar o fascismo. Algo paira no ar!. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. agravado por um quotidiano de misérias. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. nas mesmas picadas.. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. mal a conheço!. greves nas fábricas!. sem saída previsível. 341 . Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. de quem tinha um filho também pequenito.. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. Aquilo lá está complicado. – É da idade do meu. – Pedro referia-se à esposa. que avançavam lentamente. lançada à dois anos pelo general fascista.. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial.. com o parlatório de permeio.

. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. fazia parte da orientação do In. que não matavam mas moíam bastante. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. mas que era por vezes motivo de incidentes. talvez o enorme campo de aviação. diziam as vozes do desânimo. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. mal instalados. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. somados na terceira ou quarta comissão. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka).entretanto afastado. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. perdidos no meio da burocracia conveniente. da contestação e da revolta. em 25 de Junho de 1975.”.. No presente.. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. a bem da moral psicológica das populações. Já quase chegavam para a casita nova. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. apto a receber grandes aviões. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. Aliás. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. mal alimentados.

mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. Companhia de Caçadores. quando o pânico perturba a racionalidade. desde que começou o ataque às 8.. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. estão em calções 343 . dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. É o décimo. – Ai minha rica mãezinha. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. mas às vezes não!. com a arma cruzada entre os braços. encarregada da segurança daquela área..fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. Pela primeira vez em pleno dia. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. debruçados no parapeito da vala. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos.

Restava a vala-trincheira já superlotada. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. na direcção do posto de artilharia da unidade. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. Na secretaria do comando. A excepção foi o comandante do aquartelamento... onde psicologicamente o susto era menor. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. entretido a escrever à máquina um aerograma. a responderem ao bombardeamento: 344 . a meia encosta. na direcção da pista de aviação em eterna construção. tinha decerto instruções hierarquizadas. Na reacção. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. arrancando resoluto no jipe. pensava-se inicialmente. ser um normal rebentamento na pedreira. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. enquanto o chefe não chegava. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco.e tronco nu porque o tempo contínua quente. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. de 8 e 14mm. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia.

imperturbável no seu montículo a animar as hostes.. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . O furriel Costa continuava imperturbável. ao fim da tarde. Outra vez a voz calma do furriel Costa. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. permitia concluir que ainda estavam vivos.. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. a menos de 50 metros. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. é relativamente inofensivo... “arrancado” à escola superior de agronomia.. Havia uma pequena pausa no ataque. com a G3 entre os braços. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. não morreu um gajo no ataque a Palma! . os nossos canhões não têm precisão a essa distância. – Ena. a mais de cinco quilómetros. que “quando se ouve é bom sinal!”.. pá! Por pouco!. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. – Pois não. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque... Olha se caísse aqui?!.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. ribatejano. mas a tremenda e instantânea confusão. filho de pequenos agricultores. Aprendia-se nas conversas de caserna. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. sempre de cócoras.

a pontaria estava agora muito alta. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. as munições deviam estar a escassear. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. A resposta da artilharia esmorecia também. Nove horas da manhã. só estragos materiais. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. durante uma hora e vinte minutos. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. fica atenta às notícias da telefonia!. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. No dia 4 de Abril de 1974.. Os olhares cruzados naquele instante. No seu jeito brincalhão característico. traduziam um intenso pavor. – Venho estafada.. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. já se via muita gente de pé.os anteriores. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”.

sempre lindo. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. O comboio da linha fora a primeira etapa. distendendo os nervos. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados.. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. pela primeira vez em muitos 347 . – Vai-te deitar. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. mesmo em dias de borrasca. nos novos caminhos da liberdade precária. rapariga! Descansa. em vias de se tornar definitiva. Conhecendo o ditado das “águas mil”. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. no “Abril em Portugal”. Amanhã logo saberás quando acordares.e não queres que durma? Sorria.. sem objectivar. ao rever o local à beira-rio. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. bem precisas.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista... Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. onde começara o namoro e. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. – Como foram os interrogatórios.. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. Não te preocupes. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado.. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. a jovem mulher com ar cansado. se se cumprisse a movimentação preparada.

desde a partida do marido para a guerra. Como estaria o seu João. sobre as 348 . nada mais tenho para dizer! – Ah. Novamente a insídia do inspector superior. a esta hora já estão em casa com as famílias. “visita” diária desde o primeiro dia. a mostrar serviço na presença do superior. sorriu. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista.dias. horas e horas de angústia. – Responsáveis fomos todos... mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. onde vivia com os sogros. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. – Não tenho nada a declarar. – empertigou-se o chefe de brigada.

Numa das vezes. Um último pensamento foi para o companheiro distante. em catadupa. onde cabia toda a candura do mundo. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. na hora de tentar conciliar o sono. Por fim desistiram. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. houve qualquer coisa em Lisboa!. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. com um sorriso como não via há muito tempo.insinuações em relação ao companheiro. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. a saudade roendo o corpo e a alma. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. e só regressou exausta de madrugada. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. Finalmente! 349 . uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias.. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar.. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. após quase vinte dias de interrogatórios. alegre por rever a mãe.

.. 350 .– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.

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