A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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e que assim. quer na rápida solução do conflito. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. No centro de instrução em Mafra. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. indiscutivelmente. que nisso estiver interessado. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. quer na dinamização do 25 de Abril. infelizmente. Respeitando essa intenção. deixo ao leitor. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. Essa foi. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. Marcharam esses 8 . de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. para dentro das fileiras das Forças Armadas. o autor adoptou uma estrutura mista. de algum modo. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição.

Exactamente ao invés do intelectual burguês. entenda-se. Logo no capítulo 2. em Maio de 1962. Angola. para os três teatros de operações. o autor intercala dezenas 9 . o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. a petição de princípio. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. Guiné. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). Não se trata. De acordo com o seu propósito didáctico. perante as forças da novel República Indiana. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. O narrador acompanha-os. isto é.milicianos. por norma. etc. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. por exemplo. O regresso dos militares feitos prisioneiros. graduados em oficiais ou sargentos. É esse o período de 13 anos e 3 meses. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. ignorando-os ou afeiçoando-os. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. cujo método é. Na realidade. Entretanto. de ensinar. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Damão e Diu). nomeadamente o historiador académico professoral. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. desprezando a evidência dos factos. Moçambique. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. a crise académica de Março de 1962. Longe disso. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. estende-se entre 1961 e 1974.

tantas vezes heróico. quer nas colónias em guerra. como bem observa. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. Mas todos. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. despidos de ambição pessoal. Em tempo de escuridão. Dos comunistas em primeiro lugar. que fazemos um povo. quando se perfilam em Portugal e no mundo. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate.o livro agora publicado. quer no país europeu. nesses anos finais. por estes democratas da 25. reconforta a alma. (Mais que justo. Nos tempos presentes.de resenhas de carácter histórico. é justo assinalar. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. um acto de resistência. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . algumas extensas de dez páginas. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. pois repara muita injustiça). por si só. contra a opressão fascista. invocar essa memória já constitui. Um estado dentro do Estado. de forma modesta e aparente singeleza. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. devemos ter orgulho nesse 10 .

passado pois é parte e espírito da nossa História. E. que nunca aceitou como causa sua. Lisboa. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. não devemos esconder esse orgulho. mobilizado para uma Guerra Colonial. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. comunista de sempre. permitam-me.

Nunca é tarde para perceber. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. perene. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. porquê? As memórias esvaem-se. dos seus incrimináveis mentores. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. As memórias da realidade. Estes ensinamentos da nossa história. a ficção baseada em factos reais. e da “vitória ser rápida”. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses..Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas.. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. compreender a guerra por dentro. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola.. as mágoas persistem. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. teimosamente persistente. vivê-la com as 12 . ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. definitiva. o romance. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos.

Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. flagelações e punham minas nas picadas. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. além do mais. contra os mesmos incorrigíveis franceses. a cobardia. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. o terror. a nobreza de carácter. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. É este. Guiné e Moçambique.angústias. as solidariedades. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. A luta de novo tipo. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. a revolta e a coragem. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. os medos. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. a amizade. mas agora. e. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. as tristezas. o desiderato deste livro. ouro sobre azul. 13 . que faziam emboscadas. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas.

próceres de Salazar e de Caetano.. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas.Os fascistas e militaristas.. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. na rádio e na televisão (também no cinema!. Os que regressam de África ─ os 14 . exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. não tivessem nascido. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. Como se não existissem 400 anos de dominação.. deturpando. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. procuraram elidir as questões fundamentais. o “Avante!”. Como se Agostinho Neto. escravatura. órgão central do Partido Comunista Português..) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. iludindo os portugueses.

de Outubro de 1962. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. nomeadamente: fuga à tropa. até ao 25 de Abril de 1974. que ousassem levantar a cabeça. n. procura um caminho para se manifestar.. as lutas e deserções multiplicam-se (. Em Portugal. Os protestos. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. A amargura. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. o Presídio Militar de Elvas. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS.º 322. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. de objectores..desmobilizados. A recusa podia revestir diversas formas. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. constituindo um feroz.). promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. * 15 . recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. de presos por revolta ou protesto.

deturpada e mentida. dependia a aceleração do fim da guerra.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. massacres. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. os melhores. o assassínio gratuito. obstou o crime horrendo. deviam ir à guerra e uma vez aí. sob todas as formas. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. nas escolas. de preferência em grupo.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. profissionais do quadro permanente não desumanizados. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. entre os jovens fardados. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. Tarefa complicada sem dúvida. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. torturas e morte. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. As suas 16 . Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. e os que estavam convencidos que da sua acção. a violação de mulheres. o tratamento desumano de prisioneiros. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. nas empresas. que tudo pervertia e até fazia assassinos.. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes..

a “soldo de potências estrangeiras”. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. às vezes mitificadas. no movimento democrático. Os comunistas. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . primeiro. depois. tráfico de influências. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. por outro lado. suborno. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. e o “Movimento das Forças Armadas”. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. o “Movimento de Capitães”. e o. “Abaixo o Fascismo!”. nas escolas e nas ruas. seus inimigos figadais. nos locais de trabalho. iam para a dita. neputismo. ainda que pouco (re)conhecido. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. com profundos sentimentos anti-guerra. “anti-patriotas” por definição. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. as suas manifestações e lutas. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. nas colectividades e associações. * É incontornável. tentavam por todos os meios (cunhas. A sua opinião crítica. compadrio.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes.

Espancamentos brutais. em 1969. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. (politicamente activo). vigiando. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. excluindo. a PIDE/DGS humilhou. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. Uma questão central da guerra em África. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. sobre a Academia de Coimbra. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). prendeu. despromovendo. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. fichando. em estreita ligação com os meios militaristas. Em África como em Portugal. perseguiu. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos.A. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. perseguindo. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. castigando e quiçá matando. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. de contestação e de revolta. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. o título de P. torturas até à morte. 18 .Estas profundas contradições no seio do regime.

Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. a guerra colonial foi calculadamente 19 . Salazar dera orientações nesse sentido. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. A maioria dos notórios facínoras da PIDE.guineenses e moçambicanos. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. a chamada guerra subversiva. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Significa que entre nós o crime compensa. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra.

evidentemente. Silva Cunha. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. Com determinação e sentido histórico. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. por certo. com a outra mata!”). por questões de classe e de interesses individuais. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. Marcelo Caetano. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. devido a interesses económicos e empresariais. Mário de Figueiredo. pelos valentes capitães com o apoio popular. 20 . França. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Holanda). Kaúlza de Arriaga. Franco Nogueira. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. Bélgica. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. naturalmente. não permitia saídas do tipo neocolonialista.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. muitos destes nas Forças Armadas. e uma multidão de títeres do regime. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. para que o poder político encontrasse uma solução. Silva Pais. Américo Tomás. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. Era assim para Oliveira Salazar.

servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. com as marcas irreversíveis no corpo. do passado ou da contemporaneidade. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra.. naturalmente. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Que este livro de inquietações. Essa seria a única. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. a guerra colonial não acabará nunca!. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. Para os milhares de feridos e estropiados. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. a derrotar todos os “senhores da guerra”.. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . África jamais será esquecida. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário.

). para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. será a nossa maior satisfação. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Flechas. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. o coronel João Varela Gomes. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Barreiro. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 .Jorge Jardim. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. perpetrando matanças descabeladas. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. etc. Em última análise.. “Katangas”.

1. IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .

varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Bom.Horas de jantar. Passam cinco minutos da hora combinada. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". mesmo em frente da paragem do eléctrico. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. a nova ligação é importante. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. Embora não seja novato naquelas andanças. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. sempre com muita gente azafamada. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. Pouca gente na rua. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. não vá andar algum "bufo" nas imediações. ficar na paragem não é prudente. O "28" chega vagarento e ronceiro. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa.arranca desiludido. Aquela é a única carreira que por ali passa. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. há iniciativas dependentes daquela conversa. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. à espera do sinal précombinado. É preciso voltar no recurso.

António de Spínola. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. Bento. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. a rua entristece-se. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. Pelo som. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. Calçada de S. mal iluminada. sorvedouro de homens e de recursos. o eterno mistério das trevas. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. Bento. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas.─ “Olhá” desavergonhada. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. inóspita. Rua dos Poiais de S. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. a querer roubar-me os "tomates"!?. O populismo do governador do monóculo. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal.. o telejornal está a começar. Sacudir as teias é preciso. vai caindo em descrédito.. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. capital de um império de "faz de conta". ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. desoladora.

Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . mas hoje precisamente. Av. Pela porta de uma taberna escura... em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário.. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. da chamada ala liberal.!? Bom! Carros pretos há muitos. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. Carlos. Contradições do sistema. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse.. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. durante o "minuto conspirativo". sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. D. aproximando-se inexoravelmente da cidade. na reunião matinal.

é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . com populações civis sacrificadas. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. e das imensas contradições em que o regime se atolou. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. no norte de Moçambique. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. condenações de Portugal na ONU. colocada num canto superior do estabelecimento. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma.Górdio". centenas de soldados portugueses mortos e feridos. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. Kaúlza de Arriaga.

na Guiné. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. que teria a capital em Madina do Boé. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá.. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. envergando roupa de tons escuros. 28 .. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. não!?.” Madina do Boé.. ajudando na consciencialização. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. não sei se estão a perceber!?. na tropa há seis meses. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos.. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. será alienada. ─ clamava exaltado no calor da discussão. convicto da orientação política traçada. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. em Setembro de 1973. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. o rapaz magro e alto... o jovem moreno e bem vestido.

mas simpática e graciosa. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. Este sentimento corria os quartéis. ─ o camarada João. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. algo distante e compenetrada. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. na distante. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!..─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. mas a coisa pode radicalizar--se!. acendeu paixões e afivelou rivalidades. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné.. e. * Chegara ao grupo discretamente.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. sabia do que falava. paradas. após ter feito a especialidade em Vendas Novas.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes... nos postos avançados.. Aquela forma de estar. Grande bronca! . motivadas por razões corporativas. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.. casernas. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. Não era fácil convencer quem. quero ver como é!. nos aquartelamentos.. O mesmo sentimento alastrava nas repartições.. sentindo o cheiro a pólvora. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!.

A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. um aspecto tristonho e sério. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . ─ Portugal é a última potência colonial europeia. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. propiciava radicalismos. incorporava o regime. cigarro nervoso entre os dedos. risonha e muito extrovertida.. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina.escuros e sorridentes. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. No pós Maio francês de 1968. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. de barbicha. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes..

três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. mas o momento era de grande frustração. como acontecera de outras vezes. Naquele início de noite estavam só os dois.. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. de avanços e de recuos. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. uma penumbra agradável num tempo de quase verão.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. ansiedade.. ─ Sabes? Eu … eu. ─ Ora essa. normalmente acompanhados. ─ Fazem favor de se sentar. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. de perna curta. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. Cumprimentos da praxe. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. ainda não respondeste ao meu pedido.. A luta era feita de vitórias e derrotas.. não temos pressa!. senhor ministro. ─ Escuta. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra.

"IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. A crise académica na Universidade de Coimbra. sem vacilações! Fazem greve em Julho. Milhares de estudantes em desobediência civil. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. Universidade. no início do ano lectivo de 1969/70.e uma cadeira de espaldar alto. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. Uma actuação firme.. a que os estudantes chamavam 32 . telefone pousado. da GNR e da PIDE. no topo. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. acompanhada de abundantes gestos. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. O Ministro da Educação. Ao fim e ao cabo. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. contra a ditadura política. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada.. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. O País animou-se em expectativa.

enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. ficando enterrados quase ao nível do chão. vezes um ano perdido.. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. ainda em pé à beira dos sofás. ─ Mas fazem o favor de se sentar.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. mexendo-se incomodado. o "mini-istro". Do alto do espaldar da sua cadeira especial. "meio-nistro".satiricamente o "meio-istro" ou. outra forma de piropo estudantil. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência... 33 . ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. devido à sua baixa estatura.. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. Os quase siderados visitantes. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. senhor ministro.

Pelo caminho. mas logo assim em tão pouco tempo!?. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. resolveu que a solidariedade era mais urgente. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . na clandestinidade. Embarcara para a Guiné há menos de três meses. na qual o Rolando também tinha participado. por dentro. Uma angústia feita suor frio. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela.. Cego! Informara o comum amigo e avisador. quando o Partido Comunista da União Soviética. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. minarem a confiança dos soldados no Czar. junto do “povo fardado”. chocante. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. João. como furriel sapador de minas e armadilhas. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro..

foi entrando pelo terreiro... Não foi preciso perguntar a mais ninguém. Por instantes ficou paralisado.. com uma absoluta angústia de ver o 35 . É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. que se calhar nem foram ouvidas.. estavam sentados em cadeiras de rodas. revoltadas e envergonhadas. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. por estranhos e simultâneos sentimentos . Como não havia ninguém de guarda. contudo logo à entrada do 1. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. com cotos ligados à altura dos cotovelos.. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. agora “minas e armadilhas”!?. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos...secretaria. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. O coração doía com aquela visão terrível. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!.. de cabelo encaracolado de um escuro característico. vários soldados em pijama regulamentar. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido.º pavilhão. também neste local não havia guardas. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. com múltiplos pavilhões disseminados.

36 . também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!.. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!... tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. Sou amigo como se fosse irmão.. ─ o jovem muito moreno. estou sozinho!. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido.. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.amigo naquele estado.. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado.. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo.. comovido até ao limite das forças. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. ninguém dera pela sua presença. Os médicos já me viram!. ─ A esta hora está tudo ocupado. começou a dar-lhe a sopa.. ─ Então rapaz. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. ─ Sim! Bem!. entrei porque não encontrei ninguém de guarda. Sem nada dizer.. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas.

..sem Madina e sem Boé. A outra vista não tem recuperação.". ─ Talvez mais tarde. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”.─ Bom! Isso é uma boa notícia. rangente. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. aproxima-se o "28"... A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. a rua está agora quase deserta.. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. com outros recursos consigam recuperar a outra!. filho dilecto do regime: ". Com a mão no ombro do amigo. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. com 37 .. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. é tempo de voltar para casa. ─ Não quero mais sopa. devia estar com vergonha da sua situação. vagaroso. foram as palavras do professor. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.

. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. ali perto.a chamada “primavera marcelista”. Mas os tempos estavam a mudar. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. um carro preto vindo da esquina próxima. Afastada a concorrência... A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. não há veículos à vista. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. Não pensava tão cedo. no Instituto Nacional de Estatística.. gritos. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens.

sem lamechices. Os corações abriam-se de forma sincera. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos.! Mas olha. e o mundo revelava-se sorridente. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . no COM. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. enlevados e trémulos de emoção. O jovem alto e magro. tudo à volta parecia perfeito e calmo..namorada? ─ Sim. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. sem mais nada. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. ditava a incorporação em Mafra. Um a um todos foram chamados para a tropa. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. em princípios de Outubro. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. Deram a volta ao quarteirão.. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha.

40 . o seu João Silveira. necessariamente clandestino. nos inícios da década de 70. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô.. levou as notícias. o “Alerta Camarada!”. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução.. pois o pai. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos.º ciclo. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. trazê-mo-los no coração. seguindo uma orientação conscientemente assumida. E morreu mais um no turno passado. Durante muitos meses. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. os relatos. Até que todos os seus mentores. Saía à mãe. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. partiram para a guerra. trôpego. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. do 2. vacilante. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. os comentários. durante exercícios com fogo real.

para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina... alojado junto da coluna vertebral. com nomes gravados outros. foi!.. alguns com fantasias bizarras. ─ É este aqui. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. com fotografias uns. melhor que ele próprio.. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis.. “Raio de ganapo!” ─ pensou. Para mim a guerra nunca acabou!. muitos com flores artificiais. ─ Avô. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. Traquinas e esperto como poucos. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade.. * 41 . ─ Avô. não foi avô? ─ Foi.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra.. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. ─ Pois não.. Mas não tem nenhum nome?!. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.

olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. a chamada rebenta-minas. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. o grande temor pelos últimos dias de comissão. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. Há semanas que não havia flagelações. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. emboscadas ou minas na picada. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. não tardava nasceria o Sol. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. sobretudo nas zonas de areia solta. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. o pessoal seguia com relativa descontracção. magnetómetros à frente para detectar metais. comandante da secção. as picas atrás a furarem o terreno. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”.

. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. com distinção e elogios... ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. assim. leal e honesto.. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo.. viscoso. ─ Calma. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. dizia sempre o que pensava com frontalidade. O Pinto era um rapaz corajoso. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante.. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores.... Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. 43 ... pá! Passa-me a pica. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. devagar. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. vou tentar des. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. como dizia publicamente e sem rodeios. o 1º cabo José Pinto.. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. várias vezes dissera que se morresse na guerra..

em Moçambique. 44 .

2. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.

Tarde de sábado. nos fins da década de 50. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. se engajou na luta contra a ditadura. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração.. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. não podemos abandoná-los !. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. o sobrinho Alfredo. como republicano e antifascista. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . há muitos anos radicado na vila operária. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. dá o mote: ─ O que representam Goa. lembrando as lições da escola primária. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras.. O dono da casa. oriundo do Alentejo litoral. frente à taberna do Arnaldo. mas com as preocupações de um mundo em tensão. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. onde.

quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. nessa azáfama. desculpe. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. ─ Sabe.. e. refastelado na cadeira. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. ─ Então senhor Vaz. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. demoradamente. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. merecias que te cortasse o pescoço !”. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. a PIDE rondava-lhe a casa. como lhe ia dizendo. bom. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. Embora saísse sem julgamento. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. 47 .oceano! A conversa muito animada. barba ou cabelo? ─ Barba. Na sala. tendo passado alguns meses preso em Caxias. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois.. notório situacionista. claro!. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial.

escondendo do povo português a sua vocação belicista. com representantes de 68 países. pondo o quartel em “estado de sítio”. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. No regimento de Artilharia 1. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. juntaram-se na parada a protestar. foram castigados com o corte de dispensas. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. Já em número de 300. em 1955. em Évora. O 48 . Inglaterra. ficou uma lembrança trágica. Os governantes fascistas.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. Na longínqua Ásia. Estados Unidos e União Soviética. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. a Assembleia Mundial da Paz. o governo salazarista. no mesmo ano. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. em Helsínquia. Damão e Diu. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. usando a férrea censura dos jornais. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. de que deveria restar uma memória positiva. qual falcão em plena guerra-fria. sob administração portuguesa. insistia na via do confronto militarista. em Bandung. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana.

A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. mandou fazer uma marcha acelerada. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. dependia de outros embarques próximos. intimando toda a hierarquia. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. Exaustos e revoltados. em 30 de 49 . e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. é hoje! É hoje!”. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião.comandante. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. Depois de mais alguns episódios repressivos. Aumentou a revolta aos gritos de. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. prometendo liberar os detidos no dia seguinte.

. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. quando da negociação do plano Marshall. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. É assim. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . Quando um povo. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”... Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. à sua subsistência”. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. à sua defesa. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. cobiçadas pelos norte-americanos ..Maio de 1956. Ainda no final da década de 40. Na década de 50. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”.analisa a questão colonial portuguesa. etc. “Uma Nação. necessário à sua vida. muitos povos”. no campo democrático. Salazar afirmara que . pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (.

expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 .. já citado. na Margem Sul e noutros pontos do País. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”.. O órgão central dos comunistas.). organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. as fomes e epidemias devastadoras.. Por volta de 1954.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. cinemas e lugares públicos. “um movimento racista contra o branco.. o MUD Juvenil. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. . de Junho de 1956 : “(. em iniciativas abertas e unitárias. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. como.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. isto é. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. generoso portador da civilização”. O regime salazarista.. a segregação racial nos transportes... a ausência de qualquer direito. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. social ou político. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português.

(.).. e desde então todos os anos vai a Fátima. O colonialismo tem os seus dias contados. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . vigário da matriz: 52 . que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. Mas senhor doutor. nem os planos e as medidas de guerra. quando o clube da terra jogava em casa. como os valentes soldados de Évora. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. na casa modesta da tia Clotilde.. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra.. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. nem os discursos de Salazar. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. com que trabalhos e canseiras. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença.. depois da “bola”. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. posto que irmãos não tinha. era tempo de visitar o primo Zé. mais do que com qualquer outro membro da família.

A telefonia. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira.. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. com uma relativa consciência do mundo. para ouvir os relatos de futebol. naquele tempo dos princípios da década de 60. era a sua companhia de muitas horas. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. como não haverá navios rendidos. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé..─ Clotilde. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. um luxo para as classes trabalhadoras. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. comprada a prestações com muitos sacrifícios. olhe que os indianos são muitos. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. lembrando-se da afirmação 53 . não percas a fé na senhora de Fátima. 300 milhões!. entretanto já terminados.

dez mil e tal contos. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu.. “rapidamente e em força”. feitas 54 . apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. ─ Ah. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. como mandara o ditador. Quando os militares portugueses. numa atitude típica do seguidismo salazarista.. por isso lhe dava uma carga pejorativa. restavam os ganapos e as moçoilas.. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. talvez!. Eram agora raros os saltadores exímios. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. as tropas portuguesas na Índia. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. na altura dos Santos Populares.. comandados pelo general Vassalo e Silva. ou nas terras misteriosas de sangue e morte... . sem o esplendor e o entusiasmo de outrora.do barbeiro. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. de medos e angústias. em África. Damão e Diu pela União Indiana. na Índia longínqua. Em Maio de 1962. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. em Dezembro de 1961. Joaquim Faria.

prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. ─ implorava uma velha mãe. conforme os boatos que iam surgindo.. A mãe de Alfredo. grande algazarra entre as centenas de parentes. correu juntamente com muitas outras famílias. cada vez em maior número. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. a família de Alfredo Júnior. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. instado por um grupo de familiares. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. ansiosa por abraçar o ente querido. vindos dos desenganos apesar da noite fria. já não o vejo há dezoito meses!. vestes escuras e lágrimas doridas. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. É um senhor vestido civilmente. iam finalmente regressar ao País. na ausência de informações oficiais.. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. oriunda da zona antiga da vila operária. No dia 23. apupos. dado o seu isolamento. só acostaram em Lisboa já de madrugada. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. lenço modesto na cabeça.. de gabardina e chapéu.. ausente há muito tempo. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. e viceversa. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). Gritos.

está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. antes de voltarem para casa. estenderemos a vós. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos.) Por isso. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. por sua vez.. acompanhando zelosamente o senhor inspector. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). fora do olhar policial. acenam com lenços brancos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. debaixo da mira de dezenas de espingardas. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. Ao longe. alguns jovens esgueiram-se lestos. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades.. povo de Portugal. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. mas contra o colonialismo e o fascismo. datada de 14 de Dezembro de 1961. Como povo livre. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. não podemos esquecer o povo português que.

cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. Regressaram à terra natal. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental.juventude. talvez pela primeira vez. 57 . compreendendo.

Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. 58 colonialmente ocupados. porém. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. em 1955. Em 1954. Damão e Diu. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. contra o ocupante francês. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. na Indonésia. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Ou a realização de um “referendo em Goa”. FNL. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. em Diên Biên Phu. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. que considerava proclamavaportuguesa”. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . potência colonial. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. Não era esta. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. a opinião dos meios de oposição ao regime.

Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. Neste planeta nascemos. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. Em 1958. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. Em relação às colónias portuguesas.. Do que se passou nessa histórica assembleia. dos neutralistas e das jovens nações africanas. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. pela União Soviética. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. os representantes dos países socialistas. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. 59 . educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. trabalhamos. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960.)”.. todos vivemos num único planeta. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa.

toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Scalo Bengo (Angola). que procuram inverter os factos. Bissau. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Goa. Paiva Domingos da 60 . ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades.. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Mueda. oiçam.)... Cabinda. com o agravamento da exploração colonial. com o apertar das algemas da opressão colonialista. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. Os massacres dos povos de S.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas.. Timor. ivuenu. turutuka dii. Neves Bendinha. em Luanda. voltaremos aqui. Tomé. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português.” (oiçam. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. Os patriotas angolanos. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais.

De resto. missionário na arquidiocese de Luanda. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. abençoou os revoltosos. Imperial Santana. enquadrados em vários grupos. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. guardadas no campanário da Sé Catedral. Raul Deão. Domingos Manuel Mateus.Silva. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. Na madrugada de 4 de Fevereiro. Virgílio Francisco. em Cabo Verde. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. na Ilha de Santiago. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. o próprio. um cónego mestiço angolano. fazendo milhares de vítimas.

que seguia num machimbombo (autocarro). empurrados logo de manhã para as valas comuns. feridos. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar.. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas.. deixando centenas de cadáveres. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. indefesa. interrogados. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. junto à praia do Bongo. Depois foi um terrível massacre. espancamento e morte de gente negra. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. Agarra que é “lumunba!”. ─ Companhia Indígena. dezenas de autóctones. ou de trabalhadores numa oficina perto. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). espancamentos. filho da puta!”. correrias. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . com poucas excepções. Nenhum dos objectivos foi alcançado. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. sendo os restantes. uma autêntica “eliminação selectiva”. Estava iniciada a Guerra Colonial. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. começou a terrível “révanche”. À noite nos muceques. levado a cabo por gente desvairada. onde estavam muitos presos políticos. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. ─ Cadeia da 7. Pedro da Barra. nas rusgas e cercos. era a “limpeza étnica”. “Mata esse preto.). torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). com a perseguição. presos. mortes às dezenas.

na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. Ao fim da tarde. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. O célebre fadista. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. conseguia desatar. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. o João “Careca”. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. do café Beira-Mar. quando a avenida da Praia era mais frequentada. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. sempre com conta e medida.

à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. Fazia vibrar de emoção e orgulho. é nossa! Angola. inquietante mesmo. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra..” A sensação desagradável.. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. pela negação dos factos apresentados. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. deixando uma angustia de dúvida e receio. 64 . a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis.. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. A curiosidade fora espicaçada.multicontinentalidade da Nação.. é nossa! Angola... da sua grandeza Além-Mar. porque a família real era dinástica e divina. Acabou o noticiário. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. quebrando a corrente emocional e patrioteira.. sempre se ficava a saber alguma novidade. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais. gritarei é carne e sangue da nossa grei. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. é nossa.

. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. Timor. diz ser tudo mentira!. o regime 65 . Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. etc. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Vozes estrangeiras incompreensíveis. sobrinho por afinidade. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. S. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer... imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”.. três tentativas. salazarista convicto.. O Ferreira da Costa. duas. Scalo Bengo . nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. músicas estranhas que o velho vizinho.. Mas é perigoso ouvir!.. mantém nas masmorras da PIDE.... Goa. O regime fascista. Uma. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. E voltava! “. Baixa do Cassange. ─ Esse gajo é da situação. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta.. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. mas a realidade inevitável. senhor Lobo. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. bem pronunciada. na Emissora Nacional. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. Tomé.─ Tio Zé.

a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.ª classe na Sertã natal. entre as 19. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . Os dilemas da guerra e da paz.. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho.” Afinal não era a Rádio Moscovo.. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco.. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. era outra voz da mesma liberdade procurada.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. pelos serviços da PIDE.00 horas. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. Depois da 4. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.00 e as 21. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros... Espera enervante. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. obstando a mensagem de denúncia e de luta. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente .

o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. Um segundo passo importante fora a mudança. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. por lá ficou mais de um ano. as conversas sobre a realidade do País. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. para a outra-banda. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. com um salário que mal dava para a renda do quarto. na Escola Fonseca Benevides. Manuel interrogava-se. A grande cidade dava outras oportunidades. embora exigisse muito sacrifício. promete continuares a estudar. abriam-lhe os horizontes. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. aliciado pela PIDE. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador.incerteza no futuro. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. com uma sedimentada consciência de classe. as leituras recomendadas. Aprendiz numa oficina de automóveis. parco de palavras. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. O convívio com operários mais velhos e experientes. em toda a sua vida. por sugestão de um colega.

mantinham a amizade da adolescência. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. preocupações comuns e solidariedades. A experiência de participação. O terceiro irmão não fora mobilizado. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. Ainda agora.900. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. o “Avante!”. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. a conversa era fácil e fraterna: 68 .conta. de Xabregas à Veiga Beirão. pela primeira vez. que depois da questão da Índia. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. E agora. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. nunca mais parara de se agudizar. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. partilhada em muitos anos de brincadeiras. a mobilização para Angola. nas lutas no Ensino Secundário. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. mas chegara a sua vez. tendo depois emigrado para Angola. depois da incorporação e a recruta.

... em dar o “cava”?!. O pior é a mobilização!. ─ Adeus filho. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. o choro mudo e soluçado dos homens. agitando-se freneticamente na amurada. Sou atirador de infantaria. ─ Não.. 69 .. vamos todos lá parar!. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. para onde vão muitos! Já viste. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. ─ Nunca pensaste em não ir. vestido de pequeninas velas brancas. não! Mas quanto mais cedo melhor. um bom rapaz. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. ir à guerra e ter lá um azar. até se leva bem. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . empurrando mais e mais o navio pela barra fora...!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada.. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!.. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. encobre da vista o barco..─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. mas o Nana era assim.

Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. mas nunca de contrariá-lo. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. quiçá para sempre. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . no meio do magote de gente lamuriosa. no silêncio do quarto. alguns.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. adormeceu finalmente inquieto e agitado. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. constituía um arquétipo da candura nacional. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. A vontade nacional de agarrar o destino. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado.

ou para alguma coisa!?. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. têm lá cabeça para se governarem. Na zona velha de maioria operária. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. havia muita gente esclarecida. que lia e com o colonialismo e a 71 . perpetrado pelas tropas coloniais. O que se seguiu. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. ─ Os pretos são meio selvagens... ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. e agora. até chegarem os europeus escravatura. por vingança. pelos movimentos de libertação.conversadora. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. Autodidacta e amante do saber. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). 100 mil?). nas zonas da savana e das florestas. como sempre acontecia aos sábados. 80. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. também houve nações e povos desenvolvidos. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. um grupo de cariz tribalista. no Norte de Angola. recentemente.

Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos.. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar.. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. E também lá foram vividos os primeiros amores. que tudo estava sossegado.acompanhava os problemas. como lhe tenho dito. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. 72 . Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. senhor Vaz. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. quando entrei!?. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. de reflexão e de descanso. à volta do quarto pequeno e modesto. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso.. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. ─ Sabe. não acha?!. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos.

como se propunha. “Safa.“São seis horas da manhã. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . ainda é muito cedo!”.. um cheiro intenso a pólvora e a sangue. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada.. luzes intensas. um precipício negro em que estava prestes a cair!. só abria às nove horas para cortar o cabelo. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. João deixou-se dormir novamente. perseguições. talvez uma floresta. que sonho dramático!”. densa. correrias. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior.

NÃO JURES CAMARADA 74 .3.

fresca de Outono precoce.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. Posso chamar um táxi. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço.. Seguia-se. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . já sem companhia. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971.. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. três horas de caminho. O chefe olhou-o com ar circunspecto. com duas ou três casas. não me parece!. nada mais. ─ E agora. Na manhã seguinte.

depois das longas caminhadas durante o dia. 76 . e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. Guiné e Moçambique. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. etc. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. algumas conhecidas da universidade. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. em transporte próprio ou familiar.. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado.trajectos labirínticos. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. trazia medos e fantasmas. da instrução sobre armamento. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. orientação. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. Muitas caras ensonadas. começaram as marchas nocturnas. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. e já fizera a exploração dos itinerários. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. táctica.

durante a progressão com todo o material de combate. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. devido às lamas nos caminhos. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . pesadíssimas. quanto melhor o treino. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. daquelas que nunca mais se esquecem. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. célebre desde as últimas invasões francesas. de boa compleição física e bom contador de histórias. como ele dizia.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. ─ o manifestante era um aspirante alto. ─ Não aguento mais isto. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. ─ Tens de ter calma. Rodrigo e Francisco. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. incluindo a arma e a mochila às costas. tornados amigos durante o 1º ciclo. com a fama de “chicalhão” e prepotente. comandado pelo alferes “Manaça”. mais hipóteses têm de safar a pele!”. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. fazia mais um exercício duro porque. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa.. pertenciam ao meu pelotão!. “a tropa não é para maricas. O pelotão do 2º ciclo do COM. ensopado em suor. pá! Vou dar o “salto”. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda.. anafado.

Os mais expeditos fazem-no com êxito. ─ Falta pouco. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. gosta de fazer de porta-voz. ─ Outra vez a porra da lagoa. ─ Depois logo se vê.contrapunha o Francisco. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. magro de carnes.. dando-se ares de importância. Uma porra.. entra em contacto com a pele suada. 78 . vem avisar o cadete Aníbal a correr. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. o pessoal preparava-se para a travessia. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. bem nutrido e de ventre proeminente. começa a entrar em pânico. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. quem não sabe nadar atrapalha-se. procurando ajudar o amigo. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho.. as pernas vacilam. com um feitio solidário. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos.. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. pá.. por isso ganhou os favores do graduado. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f... pá. na cauda dos restantes caminhantes.. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. dizes tu!. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. Por feitio ou bajulice. tem lama até às partes. relutantemente alguns ficam para o fim.

─ Socorro! Não sei nadar! Socor..grugluglu. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. marche! ─ Sim. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio.. Friccionando-se com a camisa de trabalho. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama.! O cadete Artur... lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . perante o quadro terrível vence a inibição. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. ─ Qual bombeiros. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. o graduado continua a vociferar. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior.. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. com uma alma altruísta. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão... ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.. qual nada! Não quero cá ninguém de fora.

está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. Baixa no anexo de Campolide. sempre muito elegantemente fardado. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. com permanência nocturna obrigatória. ainda em tratamento. quer ir connosco amanhã? 80 . tem algum problema cardíaco? ─ Sim. de bengala de invisual ainda mal manejada. outros.. o jovem alferes Terras. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. agarrados. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. que padeciam de graves deficiências. teve uma atitude simpática . cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços.. ─ Algo não está bem. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. enterrados no lodo. comandante do pelotão. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal.

( os instrutores são uns nabos. obrigado! Sou casado!. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. ─ Ah! É casado!. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. não ensinam o verdadeiramente importante). em cima da cama.─ Não. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor.. já não tinha mais novidades. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas.. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”.. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. ─ Ah. A conversa continuou animada. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. quando jogava o Benfica em casa. pouco falador. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra.... Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 ... silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. nunca cá tinha estado. ─ Agarre-se a isso. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). sim!? Obrigado! Eu.

A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. ─ Ah! Pois. mesmo dobrado.. Era grande o constrangimento. fora de qualquer regulamento. é uma forma de dizer. como aliás acontecia com os outros. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!.daí para a rua. cumprem-se ordens. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande.. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia.. amanhã posso ser eu. ─ Mas .. abrir o fecho da braguilha. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. aqui anda tudo às putas. “cada um com a sua”. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!.! ─ pila era tabu. ─ Esse não acredito que pague!. as coisas acontecem e pronto! 82 . Evocam-se regulamentos.! Não há ninguém de serviço....... O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela.

alinhados em pelotões de 30 unidades. a espera animava o pessoal. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. amigo canta. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. canta.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. As sombras encorajavam a audácia. ai povo. falha de energia demorada de mais de uma hora.

o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. assumindo o compromisso. entre muitos citadinos divertidos. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. Naquela tarde de Novembro de 1971. o João. com a denúncia do número de vítimas da guerra. Combinaram o essencial da acção primeira. o Luís 84 . estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. e no rescaldo das cantigas.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. A companhia (quase) inteira. para garantir a segurança conspirativa da operação. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação.

polido o chão pela usura dos anos. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. por um lado. Sempre acontece quando os nervos apertam. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. das salas. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. o Manuel. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. espalhados por várias mesas. o Fausto e o Duarte. 85 .Manuel. As conversas giram à volta de temas banais. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. Todos estão em farda de trabalho. a timidez. é urgente terminar a “tarefa”. com frades de hábito e penitência. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. tão diversos daqueles para que foi concebido. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. constituindo um labirinto intrincado. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. A sala dos cadetes é acolhedora. mas a maioria são cadetes. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. estava unido na acção contra a guerra. pretextando uma guerra santa. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. enquanto outros. dos refeitórios e das camaratas. feitas de pedra trabalhada.

. subir e descer escadas.. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. como um guincho.. em pânico. longos e frios.. nada. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. Um som agudo e estranho. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. outros sons semelhantes. um desvio apertado na primeira bifurcação. um beco sem saída na desorientação dos sentidos.” – pensava João. o desnorte nos caminhos desconhecidos. mal iluminado. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto.. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. de porte elevado e cabelos brancos. um local frio e terrível. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!.. À frente de um séquito. o ouvido à escuta de passos perseguidores.subir alguns degraus. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: .. “Safa!”. “As instalações devem estar em boas condições. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 .. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada.”.

acordar no beliche superior inundado em suor. Na caserna pequena da 2ª. ninguém se atrevia a levantar a voz. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. Companhia de Instrução está tudo calmo. por detrás das lentes grossas. são ratos. excepto algumas respirações mais agitadas. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. 87 . Custara a pegar no sono. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. sair do pesadelo. comandante da unidade. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente.habituando-se à escuridão percebem dezenas. centenas de formas em movimento. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. certamente devido a pesadelos também. correr.

Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. num pátio interior mal iluminado. Por fim vieram três ou quatro cartas. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente.. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. não há nada para mim? Não pode ser. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. vulgares na época. uns voltavam logo. A acção tinha corrido muito bem. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade.─ Tem de haver muito cuidado.. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. foram coladas nos corredores do convento.”.] já bastam! Não à guerra colonial!”. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . a minha namorada escreveu-me!.. escondendo a timidez e uma pequena miopia. denunciara a patifaria..

“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . João precipitara-se para o exterior com passo estugado. pela aproximação do ocaso. a norte. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. havia excepções. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. Andava e pensava para distrair a ansiedade. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!... E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. não se via vivalma no caminho. certamente algum “menino” a caminho da cidade. porque apesar do sistema aperrado. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada.

─ Cuidado!. em transição para 90 .. Trago a senha para o contacto que combinámos.sugerido aquele local. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas.. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. existe um ambiente geral muito favorável. socialistas. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto.). O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa.. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema.. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. nas bandas da Malveira. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários.. bom para a recruta. esquerdistas. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. “Não jures. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. independentes. Boa sorte para a iniciativa. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. embora arrefecesse a “sentidos vistos”. os dias eram cada vez mais pequenos..

aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. dizia-se. orgulhosos da classificação na prova de tiro. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. pelo menos nas costas dos instrutores. chuvoso e frio. * Durante a semana de campo. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. cada dia é sempre diferente. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. nos arredores de Torres Vedras. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. Não há dois pôr-do-sol iguais. com um tempo desagradável. No miradouro não estava ninguém. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. mesmo que seja só em treino. esmerando a pontaria com o “olho director”. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. é sempre um momento angustiante. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 .o violeta.

.. e muito menos a disparar.. afilhados. Eram filhos de boas famílias. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. empresários. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. E. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. Em requerimento ao Ministro da Defesa. altos dignitários da Igreja. deputados da Assembleia Nacional. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse.. etc. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. parentes. enfim. a fina flor do nacionalismo. iria passar por um mau bocado. porque precisava de carne para canhão. mas não permitia. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. generais. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. tentando safar os filhos.especialidades. a subversão aumenta!. ─ Não. o oficial do quadro 92 . uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. latifundiários. credores de favores. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência.”. não! Não posso!. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. tinham um estatuto especial.

permanente estava prestes a perder o “verniz”. ─ Eh. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. levantando e baixando a espingarda. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. O cadete gordo. Não servia para “oficial de guerra”. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. à beira de um ataque de nervos. e. baixote e 93 . foi despromovido para soldado. normalmente sonolentas e ressacadas.. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. forçado pelo instrutor. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. a arma começou a disparar. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. atire ! A tragédia estava eminente. sob pressão da intolerância militarista vigente. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. só por milagre ninguém foi atingido. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente.. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. de repente.

A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. logo apareciam noutros locais. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . ─ Não jures camarada! Já disse!. nas vitrines e até nas pautas.. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. Boa!.. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem.. ─ Ouviste? A barraca está armada.. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado.. nas janelas. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. “quero essa merda toda arrancada!”. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. ‘tás a coçá-los!. nas portas.. “não jures camarada!”. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. ─ Ah! Pois. ─ O quê. nas paredes lisas. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. No fundo da algibeira. ─ Essa é boa.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil.

comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. pela intimidação subsequente. propositadamente. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado.. ... eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. Tacteando a cola com os dedos. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. A desorientação sobreveio. O major. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. a hierarquia estava convencida de ter anulado. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. 95 . a primordial agitação. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo.. a coacção e a chantagem. .─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço.

Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias.. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. Por este tempo. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. com zonas mal iluminadas. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!.. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”... Mas os corredores eram muitos. afixada em muitos sítios desusados. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez.. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. até na sala do cadete: “. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. futuros oficiais do Exército Português. pois o outro chuveiro estava avariado.. Providencialmente.─ O carago. Queria ver se fosses atirador como eu!.

e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. sobretudo o rapaz. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . com particular destaque para o “Avante!”. num quotidiano difícil. Os jornais. Junto aos hotéis de luxo. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. um moço bem constituído. a rádio e a televisão. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. submetidos a feroz censura e controlo político. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. aos solavancos. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. era um gritante e duro contraste. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. segundo a filosofia do velho Adílio. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. mas na “terra prometida”. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. Na origem natal beirã a miséria era inexorável.guerra era debatida mais ou menos abertamente. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. porque a terra era ruim.

para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos.boné de pala “oficial”. nalguns casos. se fossem interessados e cordatos. nem feriados. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. era o discurso oficial. era menos “aquele” que entrava. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. com poucas qualificações. numa época do início da década de 70. mal pagos. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. com um ar de arrumador encartado. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. numerosos. empregados e operários. incluindo no campo desportivo. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. sempre generoso com os portugueses humildes. Sobretudo se associassem ao 98 . ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. podiam chegar a cargos de chefia.

─ Está a tirar Educação Física!. o engenheiro-júnior. uns mais à frente e outros mais atrás. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. ─ Senhor director.5 a 3. 1. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. 12 contos/mês. Nas vésperas da Revolução de Abril. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. 19 contos/mês.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa.. Orava-se em acção de graças. o engenheiro-sénior. ─ a resposta não tinha grande convicção.5 contos/mês.. sem sobressaltos. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. chefe de secção. por classes sociais. para rezarem em comum. a mulher operária têxtil.2 contos/mês. minha senhora. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. trate disso! ─ Claro. 4/5 contos/mês. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. chefe de serviço. o agente técnico de engenharia. o operário especializado de horário geral. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho.8 a 2. o empregado de escritório. claro! Um resto de bom dia. 18. anda a concluir um curso superior. senhor director. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. minha senhora. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. 14. 11. 99 . 25 contos/mês. 15 contos/mês. 2. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia.

─ Por nada deste mundo perderia esse dia. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. e de mais na tropa!. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. mas o “tio” Fernando-pai!?. com o curso quase acabado. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta..O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. ó homem!. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. prestes a terminar: ─ Alberta. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer.. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. ─ Esteja descansada.. por 100 .. no Domingo? ─ Eu gostava. Mas não havia nada a fazer. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.. Combine lá com o “ti” Fernando. Entretanto fora chamado para a vida militar. para o curso de oficiais milicianos. o seu filho sabe o que faz. só lhe faltava o estágio. hem! ─ Mas ir a Mafra..

e pela luta diária pela sobrevivência. ─ Tu é que sabes. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. O carinho prodigalizado ao filho na infância. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. subsequente ao despedimento. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. iam formando segundo o que estava instruído. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. Gostava de assistir mas compreendo a situação.melhores salários e condições de trabalho. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa.. num pobre mister por conta própria. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. não morriam de amores pela situação. este ano precedido de 101 . quando o emprego e o salário eram certos. amor . Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. Depois. preparando-se para o ritual mitificado. em alas amplas e espaçadas. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. Se queres ir vai tu e a tua nora. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. até que sobrevieram os “balões”. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. ─ Talvez seja melhor não irem. não é fácil a deslocação!. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada.. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu.

─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. certamente sobre a ameaça de represálias. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas.. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. provavelmente os tais “pides”. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!...” ─ o alerta percorrera as casernas.acontecimentos muito interessantes.. Cá para trás reinava um silêncio murmurado.

A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República.. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. na Escola Prática de Infantaria de Mafra. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. .“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. sou contra isso. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia... MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade.. ouviu! Se não se explica 103 . resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971.. não telefona para ninguém. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. tinha agora um bode expiatório..sistema sonoro. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!.

Nem era tarde. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. bebidas variadas. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. perna de frango na outra. camarão. nem era cedo. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. copo na mão. poucos. Pavoneavam-se alguns. doces. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. bolos. muitos daqueles cadetes imberbes. as mesas brilhavam de iguarias. etc. característicos da castrada burguesia nacional. agora disfarçado com aperitivos. risos nervosos e traseiros espetados. por vezes mesmo medíocre.. acepipes.. A instituição militar EPI. etc. ficara à beira de um ataque de nervos. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. no velho convento frio e austero. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. de gastas pedras nos longos corredores. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. e senhores engravatados a rigor. Desculpe. saladas. frutas. acordada de madrugada. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. carnes frias e quentes. ─ Dá-me licença!. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa.

Suspeitava-se haver revista à saída. Yota da Purificação” (. “Certamente estaria a arrancar!. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria. a última barreira foi assim passada calmamente.colonial!”... ─ Boa noite! Por favor. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. com pouca pinta de militar. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. De facto não o vi . Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia.! 105 . João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável.. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. o melhor era ficar para o fim.. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta.). quando o cansaço afrouxasse a vigilância.. sim. ─ Sim.. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja.. numa última passagem sem retorno. Transportava o mesmo saco da chegada.. conheço. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.. mais o “material sobrante”..

. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. seria noticiada no “Avante”.. ─ Mas . lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. igualmente com ar distinto. 106 . Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade.. em Janeiro de 1972.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.─ É que já passaram todos. postada a alguma distância. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento... sinal distintivo da origem de classe. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra.... As duas dirigiram-se para a porta de armas.. último a deixar o convento. naquele Dezembro de 1971. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. Nada de grave! Lá informam-na melhor. estamos aqui à espera . por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso. ─ Olhe! O melhor é perguntar além.. no gabinete do oficial-dedia!.. ─ Obrigado! ..

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.ÁFRICA. 108 . muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. Animistas. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. de animais e da a Natureza. imaginários adoradores pássaros.

Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. a Tanzânia. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. o Zimbabwé e parte de Moçambique. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. no interior da Rodésia. cidadelas de pedra. socalcos à volta dos montes para a agricultura. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. quando estes. Estes povos sedentários praticando a agricultura. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. a caminho da Índia. Melinde. pouco antes da chegada dos portugueses. subentendia uma organização social e política evoluída. canais de irrigação. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. sepulturas e pinturas rupestres. forjas. Quiloa e Mombaça. enriquecidas pelo 109 . habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos.Esta actividade artística. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. estradas. a Zâmbia. numa zona de ruínas ancestrais. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. minas.

que já utilizavam inclusivé a moeda. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. cobre. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. vindos do Norte. trocando directamente tecidos. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. com uma economia assente na agricultura. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. contas. numa organização de tipo tribal-feudal. Organizadas em cidades-estado. na pastorícia e na extracção mineira. com quem comerciavam há mais de um milénio. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. por ouro. encontraram um comércio progressivo. marfim e escravos. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. ferro. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. essências e faiança chinesa. feito através de numerosos intermediários “mouros”. estes em escala reduzida. especiarias. faziam de entreposto com os reinos do interior. com o 110 . da Índia e até do Extremo Oriente.

Pedro Vaz de Soares. novas oportunidades de negócio.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. pela sua ignorância e pela sua ganância. agente real de Sofala. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia.. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras.. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . mas neste intento viriam a ser derrotados. Em 1513. levaram pouco tempo a desvanecer-se. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil.. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. Como todos os imperialistas. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. retrógrada e oportunista. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. Por orientação da Coroa. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas.”.. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. queriam muito e depressa!. Como um erro nunca vem só.

e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. o mais alto 112 . Em 1561. fresca. nas margens do Zambeze. Quando a guerra colonial começou em 1964. luminosa. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. em 1498. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. no terminal militar de Figo Maduro.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. no “Boeing” da Força Aérea. em Sena e em Tete. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. No início da década de 70. húmida. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. quente. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. familiar. estranha. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. de Lisboa. embarcava-se à meia-noite. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos.

durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. tal como Lourenço Marques. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais.. normalmente reservado. o sulista trigueiro e magro. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. pendurados no exterior da rede da vedação. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ É a proclamada multirracialidade!. ─ desabafa o Eduardo. moreno.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. alto de estatura e seco de carnes. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. compunham um quadro de modernidade. entroncado e de estatura média. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 .. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. A Beira era uma cidade moderna. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. sempre eloquente nas afirmações.

e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. dava assim as “boas-vindas”. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. quando ficaram sós. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. foi a primeira vez que lá fomos!. ─ O que estavas à espera?. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. ─ O jantar começa às sete. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada.. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos.realidade. não atendeu logo à chamada.. ─ Sim. que já ia avançado. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. Chegaram atrasados ao jantar da messe. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem.. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. mais novo. O criado negro andava numa fona. enquanto se retirava após comer o pêro. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa.. sem qualquer cumprimento. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa.

Duplamente preocupado.. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. onde estavam os soldados aboletados. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. faziam um excelente cozido à portuguesa. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. Miguel. ─ Pois claro. ─ Furriel. no regresso a pé. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. diziam.. Ouviste a resposta do “Furnas”?. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra.. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. 115 . ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa.. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. ─ Se calhar. rapazes humildes e simples.

─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. por dentro.. à beira da linha de caminho de ferro.. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. por dentro. preocupavam-se à volta de malas e sacos. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas.. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano.. É preciso ajudar. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora.. ─ Também pensei nisso...─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. Dezenas de soldados e alguns graduados. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. se saísse à tabela. mas a família. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado.. disso não tenhas dúvidas. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. a minha mãe viúva!. é essa a intenção. ─ Quanto mais tarde melhor. ─ Olha o que nos espera!.

─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. sobretudo mulheres de capulanas garridas.. atarefadas com filhos às costas. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. o coração salta: 117 . o inimigo haveria de registar esses movimentos!. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que.carreira. Na noite de breu. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. simpático no trato e já em segunda comissão. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. onde se juntavam dezenas de negros. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. na retaguarda. Eram tropas frescas a caminho da guerra. resfolgando. A viagem decorria na noite de sono. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. A velocidade aumentava.. trum-trum”. puseram o longo combóio em marcha lenta. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. sem resposta. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. Duas máquinas a vapor. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. Os militares seguiam nas carruagens do meio. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. tinham um aspecto sumptuoso. à volta de sacos e trouxas. o combóio pára. aguardando a ordem para embarcar. a marcha abranda. trumtrum.

embalados pelo andamento monocórdico da composição.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. Poucos dão pelo recomeço da viagem. formando esplendorosos contraluz. Lá fora não se vê vivalma. mais duas que em Portugal. O cansaço vence a ansiedade. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós... mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. sonhando com a cama quente no lar distante.. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. só lá mais para a frente!. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. é fresca a brisa que entra pela janela. vai ser um enorme benefício para a economia da província. o pessoal vai adormecendo. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. A manhã aparece com um Sol fulgurante. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. ninguém explica. Duas horas da madrugada. bem vestido e curioso. irão esquecer essa doce sensação. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento..

a Rodésia.─ A guerra é uma coisa terrível. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. os ingleses. os americanos. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. como depois foi baptizado. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. o material de guerra é todo russo e chinês. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . Abrindo caminho à força de espada.. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. A menção do grande país da África Austral.. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. a África do Sul?!. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou.

O génio individual que punham nas suas empresas. rigidamente autocráticos.. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. A coberto das suas armas de fogo. a coragem. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. 120 . roído pelas guerras internas. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. os seus métodos de governo. chumbo e estanho no seu território. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. na obra já referida. ferro. Em 1607. viriam a ditar a ruína. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. Por volta de 1667. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. cobre.notícias fantasiosas. a concessão de todas as minas de ouro. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. comportam-se como malfeitores. editada em 1960:. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar.. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. procurando enriquecer pela simples pilhagem. como refere Basil Davidson. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629...

a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. foi. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista.. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. ou do tipo negróide.. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira.). Os seus vizinhos do interior de língua banto. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. glorificados descobridores.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. E o que fizeram afinal os portugueses.. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. quando esta faltou também lançaram-se 121 . segundo a documentação histórica.. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. no primeiro século e meio de ocupação? . Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças.

─ Basil Davidson. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. perceberam-se os cuidados no avanço. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. qual cabeçorra disforme. manhã cedo. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. o comboio não circularia mais de noite. na obra já referida ─ . À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. Logo no reinicio.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . a partir dali. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara.

─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”.. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. O calor era intenso. Cinco homens num destacamento. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. frio. onde em contrapartida.. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. calor.. ─ Vai bem. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó.. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. mas o 123 . mas não se viam construções no horizonte visual. Do chão. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo.período em pleno campo inóspito. ─ Ei! Sou do Barreiro!. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses..? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. passando fome. tudo na mesma! Vamos para.... como por encanto. ─ Isto é um buraco medonho. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha.

─ Então adeus! Boa sorte. pondo fim à conversa. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. com o medo de os irem “pegar à mão”. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. barbados de dois dias. Após uma longa curva feita lentamente. endureciam os semblantes.. fizemos a picagem logo de manhãzinha. ─ ‘Tou farto disto. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem..pior era à noite.. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. venham cá eles fazê-la!. pá! Calma. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia.. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos.

juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. só então a ganilha animou. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . mesmo levando em conta o carácter racista da piada. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. muitas.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. não riam nem brincavam. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. houve risos. não barafustavam. esperavam somente. ─ Não te preocupes. O pessoal precisava de descomprimir. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não pediam. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. registando a chegada de dois “amigos do homem”. Esperavam pacientemente e não diziam nada. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. pensava que os comiam todos! Risada geral.

numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. estás a engatar-me!..soldado Edmundo. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas.. com divisas. moço robusto e bem parecido. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. malas velhas e caixotes com galinhas. Olhavam surpresos com olhos esquivos. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. ─ Verdade. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. As carruagens da frente eram muito velhas. onde dois ou três soldados disfarçaram. com bancos curtos de ripas. mas ninguém estava sentado no chão.. quando se abriram as portas de Abril. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. O comboio era muito comprido.. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. ensebadas pelo uso. apareceu risonho e agitado.. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. grandes e brilhantes nas crianças. amontoados entre trouxas. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. surgido do mato.. em Tete. Risonho e desmiolado. quando viram aparecer o 126 .

entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. a namorada. a mãe. a companheira. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . os irmãos. a mina. a morteirada. a emboscada. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte.grupo de furriéis. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. persistente. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. Onde estarão a esta hora a esposa.recomendava o capitão. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. homem novo. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. Afinal. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. maravilhando os olhos na beira-rio. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. os pais. ─ Tem juízo.

numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde.. um tenente-coronel que.exasperado. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. Claro. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. sob a sua influência. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. correndo energicamente para o vale que. ─ Assim com esta barba de três dias. tinha o seu problema resolvido como sempre. foi instituído o “Regime dos Prazos”.. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. ciosamente guardada. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. para chegar à costa oriental. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. parecemos discípulos de Fidel!. muito cedo. 128 . oportuno. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. sujos de pó. uma semana era passada. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. ─ discorria o António Manuel. concitando olhares curiosos. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze.

Moçambique era um território arruinado. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. dominada 129 . com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. A situação só animou nos meados do século dezassete. quando foi incrementado o tráfico de escravos. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. formada por Angola. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. No começo do século XVII. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. Moçambique e Brasil. Cabo Verde.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. No final do século. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. com muito pouco êxito. para a futura abolição da escravatura. no Congresso de Viena. enxameou a colónia de deportados políticos. mas na Zambézia. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. separado definitivamente da dependência da Índia. princípios do século XVIII. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete.

Instalações 130 . casas brancas de estilo arabizado com terraços. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. transformando num deserto essa vasta região”. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. conta-nos Bryant: “Em 1860. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Mzila. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. chefeguerreiro dos invasores zulus.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. pouca gente nas ruas. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. ruas largas. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. vindas do Sul. a ideia foi repudiada e não vingou. cidade de passagem. na Rodésia. pó vermelho e castanho. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. As pequenas colónias no interior.

na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. Concluiu o excelso expedicionário. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. na língua nativa. entre outros. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. muito calor. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. sul-africanos. por isso a Frelimo quer destruí-la!. ingleses. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. ditando o desinteresse dos ingleses. 131 .militares por todo o lado. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. outra vez a malfadada ração de combate. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. rodesianos. é uma cidade sem espaços verdes. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. onde viria a falecer com febres. no lugar de Cahora Bassa. o Sol queima e há poucas sombras. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. Comprido caminho de água. o Zambeze. alemães.. Meio-dia. mesmo com o rio a seus pés.

Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. A estrada continuava para o Songo. por isso a grande nação austral. ─ E se fosses à merda!.. por máquinas da Engenharia Militar. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia.. O projecto hidroeléctrico quando terminado. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. possuidora do regime mais racista do continente africano. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. e. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. na defesa da antiga colónia.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. só cá venho safar o “coirão”. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada.. “pró 132 . ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. A via alcatroada era um luxo raro. ao encontro do gigante em construção. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados.. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados.

Estar na guerra aprende-se depressa. percorridos cerca de 120 quilómetros. Sousa. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . só se ouviam os motores roucos em aceleração. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. mas pouco ou nada se divisava. a engenharia militar ainda ali não chegara. lentamente. seria fácil montarem uma surpresa. Soaram tiros longínquos. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. incluindo algumas paragens para reagrupamento. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. Em sentido contrário o trânsito rareava. os camiões seguiam mais devagar. a estrada acabava e começava a picada. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. Ao fim de quase três horas de viagem. estávamos no reino da guerra. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”.galheiro”! A mata era densa.concluía ainda o soldado-condutor.

E a guerra ficava mais próxima. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. de nome Trindade. poeirentos. atreveu-se a responder timidamente: 134 . agora outros que dêem o coiro!”. símbolos da tropa especial. “já cá estamos há muito tempo. alargada a alguns civis presentes. e um deles. a lógica da campanha militar era... saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. Os recém-chegados. ninguém saí dos trilhos. e só agora o António Manuel. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. o veículo continuou a marcha devagar. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. com granadas e fieiras de balas à vista. primeiro classificado. correndo escuro e caudaloso. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. soturnos. * Estima: um posto de defesa na picada. A alegria de uns era a apreensão de outros. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. construído em paliçada de troncos. do qual se avistava o Zambeze.silêncio. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. A guerra é naturalmente o tema central. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. a conversa continua no bar. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. ninguém se atrevia a abrir a boca. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. num portento de força impressionante.

.. A todo poderosa PIDE/DGS!. está contra nós! Vocês são novos aqui. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia.─ Mas.. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. ─ Quem não está connosco. para os lados de Mucumbura.. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”.. ─ António? Que nome curioso! 135 . atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. junto à fronteira com a Rodésia. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade.. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. e as populações! A acção psico. pelos vistos. ─ Ah! Cá como lá. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu.

A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .5.

Também o reino do Monomotapa no interior. Em resposta. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. Durante este período inicial. Quelimane. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. tinham fortes tradições independentistas. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Ilha de Moçambique). o comando das Forças Armadas portuguesas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. com um ataque ao posto de Chai. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. na região de Mueda. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. Cabo Delgado e Niassa. Sofala. 137 . e os Macondes nos planaltos do Norte. em 1968. Entre a surpresa e a desorientação. esteve circunscrita aos distritos do norte. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes.

uma companhia de “comandos”. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. à época bispo de Vila Cabral. na aldeia de António. controlada pelas tropas auxiliares africanas. em Maio. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. locais e nomes. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. onde. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. em Abril de 1971. e dos padres anglicanos. para os aldeamentos cercados de arame farpado. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. O ódio instala-se. reconhecidos por Portugal na ONU”. e os Direitos do Homem. Depois de descreverem em pormenor com datas. Em Tete. Trindade. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. acusado de colaboracionismo. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. tropas da Rodésia de Ian Smith. Valverde e 138 . que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. pouco escutadas no entanto. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. Calado de seu nome.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. Em Setembro do mesmo ano. Nijs e John Paul. Em Novembro. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira.

ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. De hoje em diante.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. torturados e assassinados. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (.. deveria estar a Igreja. corajosa e claramente. onde iam de férias. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. devido à sua língua. costumes. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. (. até Novembro de 1973. são os governantes políticos e militares de Portugal.) O povo de Moçambique. mentalidade e até filosofia. sem julgamento ou culpa formada.. Cabora Bassa Em Março de 1968.. porém. Nesta data foram expulsos de Moçambique.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. raça. são perseguidos. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais... Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 .. numa conferência no Reino Unido. cultura. sem qualquer ambiguidade. Os africanos. em 2 de Janeiro de 1972.

milhão de colonos brancos. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. Cahora Bassa. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. inteligentemente. é um campo entrincheirado num meio hostil. etc. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . (alemães. a afirmar o desejo independentista. A empresa construtora Zamco. assente nos aquartelamentos de Chicoa. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. no dizer indígena. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. italianos. ingleses. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. em 8 de Março de 1968. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. No concreto. rodeado por uma vedação de arame farpado. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. e para isso. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. em Julho de 1968. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. vertidos no caldeirão da guerrilha que. que devia ser defendida a todo o custo. Estima e Chipera.

15 de Novembro de 72. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. minas! Fuga e reagrupamento. a linha de caminho-de-ferro 141 . foi enorme o efeito psicológico em toda a região. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. em Tete. As notícias chegavam em catadupa. eis a nossa táctica. emboscadas. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. Fingué. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. minas. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. No dia 9 de Novembro de 1972. constituía-se em forças irregulares. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas.Moçambique. Chicoa. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. num só dia. a Base Aérea nº 7. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. flagelações. embora os estragos não fossem de monta. Depois atacou sucessivamente. com a ajuda da República Popular da China. Furacungo. minas. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. apoio na população. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa.

O pânico instala-se e. A mão-de-obra rodesiana. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. com uma força desconhecida. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. Assim se entretinham as forças portuguesas. também assumira esse compromisso. Kaúlza de Arriaga. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. divisava-se o rio escuro e caudaloso. Entretanto. separando inexoravelmente as duas margens. no eixo Beira-Vila Pery. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. ao longo de 8 quilómetros. foi sabotada na região de Moatize. com algumas portas apenas.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. 142 . cinzenta e castanha. silenciosa e traiçoeira. controladas e permanentemente patrulhadas. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. Deste lado a vegetação era escassa. uma tarefa que o comandante-chefe. e os técnicos sul-africanos e europeus. pela primeira vez. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. Kaúlza de Arriaga. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. e em 25 de Setembro de 1972. com raras excepções. O comandante-chefe. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta.

deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. A água de um castanho terroso. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. companheiro de 143 . certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. Foi há uns três anos. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. ─ Aqui não. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. conta-se a meia voz. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. mecânico de armamento. nascida e crescida sob a protecção das tágides. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. causando arrepios a viagem entre as duas margens. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. mas mais acima houve um desastre terrível. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato.

por certo deficientemente escorado.formação do António Manuel. o alferes Baptista resolve intervir. Um camião “Fargo”. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. e aumenta também a trepidação. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. aproximando-se da extremidade sem anteparo. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. onde a água era mais agitada. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. ajoujado de carga militar. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. descaiu para a frente a meio da viagem. o camião desliza mais um 144 . a jangada entra em estremeções.

com comando mesmo errado. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. ou porque não tinham meios de socorro. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. o abrandar fora fatal. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. a corda que prendia a viatura partiu-se. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. no meio de uma gritaria medonha. outros procuram nadar energicamente para a margem. ficando suspensas no vazio. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . cinco ou seis homens. em desespero. a jangada porém. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. Com um formidável estampido. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. Sem comando não havia acção. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana.

a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. mantimentos e munições. numa operação cuidada e lenta. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. era um sol diferente. * A tarde chegou ao fim. na messe. que arrasta consigo mais alguns homens. soldados e nativos. mas os restantes corpos nunca apareceram. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. e 146 . um sono em vigília despertando ao menor ruído. . visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. Ao todo. 101 soldados e graduados.mais abaixo. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. Por isso a trasfega não fora completada. Alguns nadadores atingem a margem. Metade da Companhia tinha feito a travessia. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum.Ao serão. Uma noite mal dormida em cama emprestada. em poucos minutos. Tudo se passou rapidamente. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. provocando o deslizamento da segunda viatura. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. material de guerra. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar.

Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar... por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada.. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. são por vezes replicadas. o rio faz favor!. amigos. aqui quando chove. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. ─ contava um furriel operacional da companhia local. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho.. Parece que não!. 147 . homens e armas. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. Se houver alguma coisa. Numa das primeiras viaturas. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. os três amigos não se afastaram da zona do motor. Mais mais para montante. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. mesmo que cheire a gasóleo... prestes a ser rendida ─ Sim. bagagens.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. . com malas. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. houve um acidente com muitos mortos. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar.

meu alferes. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. Calaram-se. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Na luminosidade da contraluz matinal. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. não-operacional mas com algum traquejo da vida.* Reinava uma estranha calma na Natureza. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . inquieto. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. peremptória. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. No silêncio ensurdecedor. com um timbre familiar. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito... ─ Mas. embora ocultas pela folhagem densa. metálica na extremidade. ─ Neste sítio não é provável. nem piar de pássaro nem som de animal. ─ Continuem a picar.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É.

. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez.. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa. era um passatempo de luxo no teatro de guerra... vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa. a guerra continua O som distante e abafado. ─ Parece estar a acontecer algo de grave.. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.desde o destino final. Alfa. o negrume cerrado da noite africana. Sierra ... Alfa. Baumm!.... Baumm!. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. Bravo .. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um... Sierra. era 149 . enche a noite quente de Verão. o parceiro das partidas escaquísticas. António Manuel... Trrrr.. propôs o empate.. vestido a rigor de camuflado sarapintado. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. Tango .! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco... Trrrr. três rebentamentos Baumm!. embora nítido. dois. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. O batuque vai começar. Sierra. Trrrr..” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes.. mesmo jogado com pouca convicção.. Mike..

e fazer o reconhecimento da zona. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência.. a messe e a porta de armas. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). em Agosto. a cantina. * Manhã cedo. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se.. com uma experiência de oito meses. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento.... donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. iluminado por fraca luz interior. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. ─ A seguir somos nós!. vozes abafadas. na noite anterior. madrugada ainda. ─ Foi assim. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório... Baumm!. Os rebentamentos não cessavam. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. A 150 . Já há três dias que fazem sinais nos morros.. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. os “turras” mandaram só umas morteiradas. Baumm!. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder.

a habitual conversa a quatro ficou mais séria. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada.. havia dois feridos graves. ─ com a metáfora. Mas. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse.. ─ acrescentava o Sousa. Agora o sono cortado vencia a emoção. A fisionomia era-lhe familiar. cândido por feitio. À hora do jantar chegou a terrível notícia... ─ Nada. que ficara sem um pé.. o alferes Yota. esteve comigo na recruta em Mafra!. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. agora já cheirava a sangue. fazia uma 151 . com ar de desaprovação.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS.. o pelotão já partira. Ah! Aí está. levantando-se desaustinadamente.. João . ─ observava o António. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. Ao lado. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente.. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. ─ Yota?. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente.. À noite. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. eludia o sobressalto. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. a partir de Chicoa. concluira João. nomeadamente o comandante..

ideia diferente! ─ Sousa.. e estas crianças andrajosas e famintas!. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. assumia a contradição. Talvez mais cedo do que tarde!.. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. ─ A guerra colonial tem os dias contados.. a discussão prometia.. o mais sulista do grupo. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. no interior de uma África estranha e quente. A História não pára e o Mundo avança. ─ A realidade é tão chocante. o 152 . argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. Idealista. parte maior das agruras da distância. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. violentados. o trabalho na fábrica. como faz o Movimento de Libertação!. embora algo sentimental.. No teatro de guerra. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. onde deixara a esposa jovem. nas populações e nas nossas tropas. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. de estudos e vivência. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis.. sofria a saudade da Pátria distante. dava-lhe uma consciência aguda da situação. quando elas começarem a “cantar”. Aos milicianos chantageiam com as férias. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. desde muito cedo. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”.

Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. ao fim da tarde era sinal de alerta. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. ainda que disso nem todos dessem conta. pois era sua a decisão táctica. indiferente aos dramas dos homens.medo misturava-se com a revolta. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. * Havia um mês que ali estavam. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. tentando detectar qualquer indício identificador. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. que também ali se construía. O aparecimento de “very-lights”. em 1970 e 71. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. tal como ao mundo chegou. a luminosidade 153 . enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. temendo o perigo iminente. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. entre morros altos apertando a vista e a alma. de pele branca. A Natureza. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. na dilacerante guerra de guerrilhas.

O alarme soara falso. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. cobertas com telhas de fibrocimento. torturados pela inclemência solar. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. como eram conhecidos na gíria militar. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. começaram a voltar às casernas. Era assim no coração de África. 154 . Pouco a pouco. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente.quente impressionava ainda a retina. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. Deixava o interior das instalações militares. devido à forte influência da guerrilha na zona. fora destruído e abandonado há alguns anos. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. Constava à boca pequena. ou de zinco. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde.

. um major mal conhecido e mal encarado. local mais calmo e “arejado”. nem havia setas envenenadas. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). vestidas com capulanas de cores garridas. Estavam em grupos. trazia à memória os célebres filmes da juventude.. Envenenado estava tão-só o ambiente. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. com corpos musculados e peles luzidias. autorizara o batuque aos sábados. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel.. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. Recentemente. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. por questão de segurança. que na tropa não se podia abrir a boca!. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. ” ─ interrogaram-se os soldados calados.O novo comandante do batalhão recém-chegado. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. tão-pouco adolescentes. Ali não havia selvagens de tanga. para manter o ânimo das populações!. Ao quarto fim-de-semana de estadia. em grupo. o homem macaco”. da saga “Tarzan. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. dispersos entre brincadeiras ocasionais. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?.. A excepção eram as moças novas. remoendo as dúvidas e a desconfiança. para matar a fome. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. outra 155 . a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. combinou-se uma visita à aldeia.

Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. rompendo o soluço. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. com menos humidade. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos.. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. Afinal não tinham ficado para o batuque. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. mais perto do Índico. com divisas. eventualmente!?. ─ Talvez tenhas razão. a de lacaio da administração colonial. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. a noite chegou mansamente. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. 156 . Decerto clientes de “cuspo”. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. aquele era um clima muito seco. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel.profissão rendosa. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. Porventura..

ligados por atalhos ainda não memorizados. O aquartelamento é grande. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. dispersos e muito afastados. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. daqueles. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. Ao todo são oito postos de guarda. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. e para sul até ao aldeamento. e. a alma aperta-se e os sentidos despertam. poucos. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. aprendido há poucos dias. o batuque ia começar na aldeia. bem no interior do istmo central moçambicano. a guerra continuava. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. com uma única saída para a picada. Desde essa data. pelos vistos. uma área enorme cercada de arame farpado. patranhas e acção psicológica.E quem concordava? Muito poucos. Na noite escura por caminhos esconsos. É a primeira ronda de serviço. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido.

Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. acidentes ou fenómenos naquele local. paciência!”. antes de desabar uma curta tromba de água. Sousa olhava o tecto. Abafava-se no quarto completamente fechado. reportavam à guerra.. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. João vai avançando de modo inseguro. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!. eventos.tiro!?... ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante... De repente a chuva 158 . não! Pois.. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. O coração acelera desordenado.... pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. ─ Pois. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. todos os acontecimentos. não quis dar parte de fraco!. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. ─ Achas provável? Nunca constou!. o sobressalto aperta-lhe o peito. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!.. não! Na Guiné.

O receio esfumava-se. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. nenhum rumor distante. esfumou-se na noite. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados.. ─ Quem vem lá? Alto. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. por miríades de riscos ziguezagueantes. rasgado a muitos. no caminho do segundo posto de vigilância. A velha África das origens humanas. Fundindo-se na terra. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo.”.parou. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. siderado. coloridos em tons de prata e ouro. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?.. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. o jovem militar. Nenhum som. 159 . “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. com reflexos azulados e avermelhados. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. tão radicalmente como tinha começado. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. muitos quilómetros. nenhuma claridade ofuscante.

. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. E é espantoso. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. apertavam como tenazes o coração dos homens. ─ Aproxime-se para verificar!. ao longe. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!.. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. fugaz.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. Ah! É o furriel da secretaria. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. ponho-me para aqui a contar os raios!... é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. meu furriel! Conhece? ─ Não.. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. * 160 . Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. Pregou-me um susto. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo.. açoriano como a maioria daquele batalhão... A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras.

às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. com prejuízo dos alimentos perecíveis. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. Gestão tropeira. certamente superior à poupança. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. suspeitosamente simpático. durante a manhã após o serviço de ronda. com o chefe da secretaria. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. Valia o facto de ter combinado a compensação. agora é só ensaio. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. justificas ao capitão. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. e pronto! ─ Deixa lá. o correio era o elemento existencial mais 161 .

Após uma pequena entrevista no alpendre. O centro de gravidade do corpo leve. num circulo nauseante de imponderabilidade. Fora uma noite premonitória. meneando a cabeça. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. exibindo-se papéis. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar.”... e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis.transcendente para aquela rapaziada. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade. comandante de companhia. como iria ser o dia? 162 ... mandadores sem lei. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. A desconfiança suplantou a curiosidade. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.

DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?..6. 163 ..

O comandante interino do Batalhão. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. de G3 pronta. um major que mal conhecia. nem um mandado.. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. amigo das ideias. Alguns camaradas observavam atónitos. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. o amigo ao receber religiosamente o material. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. nem uma explicação.. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. depois do primeiro choque. percebendo que algo de 164 . Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos.. candidamente. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. mas ninguém tinha dito nada ao visado. ─ observava. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel.. o oficial alto e escuro. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). isso vai afectar o moral dos homens. Nem mais uma palavra. Começava a ficar irritado. com modos de polícia. Tinha até ordens para o algemar.

o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. Em Chipera. onde o dia-a-dia continuava tenso. se não se importa. a calma em pessoa. em jeito de despedida. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel.. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. sem coragem para comentar na hora da despedida. ao fim da tarde igual.grave se passava. agora com uma cama vazia. pelo despotismo do comando militarista. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. Até sempre. de que falava a mensagem. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. empertigado... ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!.. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. trata-se de um indivíduo perigoso. está enganado! ─ “Meu tenente”. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”.. Olhou-o com ar reprovativo..

da delegação da PIDE/DGS em Tete. perturbantes e insidiosas. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. da barba feita com lâmina inusitada. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. afirmando também a voz. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. Horas depois. A cela dos fundos da delegação. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa.. com um ar distinto no ambiente despojado. Por detrás da secretária da sua importância. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. era compartilhada por um negro ainda jovem.. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. o jovem alto e magro. No outro.circulando subterrâneas. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. Era um homem já 166 . com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino.

sem qualquer divisória. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. ─ Não tem mais tronco. acha? 167 . interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. ─ Nhambo! Que tá fazendo. estavam estendidos três colchões de espuma fina. rapaz ainda. Um mainato muito jovem. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. colocados a um canto. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. com um tom acastanhado na pele exposta. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. senhô! Gosta de ver limpo. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. Junto à parede contrária à porta de entrada. curtido pelo sol africano. ─ Sim. né! ─ respondeu o jovem corpulento. ─ Fique nessa! Tem mais luz. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. embora encorpado. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. única abertura para o exterior.maduro. mostrando ser o mentor da cela. Retomando a tarefa de limpeza do chão. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho.

─ Eu sou fulano de tal. às voltas com uma mala preta de plástico. que não deixava perceber o “fio da meada”. deixava ver a farda recentemente despida. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. ─ Eu sou Silveira. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. na tarde quente e esplendorosa. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. para de novo pousar os olhos no chão. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. saindo a menear o rabo nutrido. num breve instante. a cara redonda e luzidia. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de .. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. ─ interrompeu a resposta. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . mas adivinhava-se uma bola magnífica. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez.─ respondeu o miúdo a sorrir. e 168 .. manipulada para retirar o pijama. De vez em quando. com uma cor amarelo-alaranjada.! ─ acrescentou. não seria conveniente.. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho.. furriel do Exército português . que lhe tinham trazido há minutos.. Aberta em cima da cama de circunstância. num trejeito efeminado: ─ Vá. quase fugaz.. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. resplandecente e implacável.. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene..

─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta... Em cima da cama estava o pijama “grenat”. acrescentou ─ venha comigo.. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. ─ comentara João. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. depois de confirmar a identidade. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. como recomendara a jovem esposa com carinho. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. De súbito. na direcção do mictório. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente.mais não disseram. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 .”. lhe arranjara. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. provavelmente!. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. desviando o olhar súbito. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer.. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna.

então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto.. com indicação de posterior devolução. menos bem desenhadas do que era costume. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . Os dois primitivos residentes da cela. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. é claro!. gosta de viver ao ar livre. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. mais do que a cabeça.. percebendo certamente ser transitório.─ Chico.. escreva só a morada de destino do telegrama. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. e aos meus camaradas de tropa. ─ Deixe estar. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. não é necessário. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. ─ Como assim.. O coração. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. olhavam curiosos para aquele “luxo”.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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. no Norte. sobretudo brancos. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto.. sim. ─ Também ouvi. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo.... contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. Faltava uma bala no carregador.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. A inquietação não permitia apreciar 178 . mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. Talvez sejam mulheres. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. desorientado. LOURENÇO MARQUES. Ansumé ficara arrasado. com a G3 caída ao lado. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. No ar perpassava um fluído etéreo. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. activos e combatentes.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate..

até à sede em Lourenço Marques.. desde Tete. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva.. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. percebendo-se as sucessivas modificações da flora... faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. 179 .pormenorizadamente a paisagem. nem sempre concretizadas. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. no coração de África. onde a geografia era mais agreste. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador.. Talvez fosse. nem sempre concretizáveis. a sede da PIDE/DGS. ─ Temos de ir. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. roubando o ângulo de visão e a serenidade. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. rumo à “Vivenda Algarve”. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. O polícia dava mostras de nervosismo.

em Tete. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. nada!. não podia fraquejar. pois não queria. 180 .. na confusão dos dias de angústia da prisão.. onde estava enfiado há mês e meio.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. A cela com 2 x 4 metros. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. protegida por uma rede metálica. num canto. que substituíram os dias de angústia da guerra. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. nem asseios. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. Mas a solidão e a insegurança presentes. Era todo o mobiliário existente. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. nem utensílios. Chipera Velha. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava.

Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Tal. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. Voltou o silêncio profundo. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. que reconheceria em qualquer parte do mundo. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar.. humanamente insuportáveis. puxado entretanto. paralelo e gémeo. até que o assobio reapareceu. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma.. porém. não seria prudente. Reinava de novo o silêncio. 181 .Acordou (quanto tempo depois?). até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. Apurou o ouvido. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas).Batendo as asas na noite calada. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada.

eles comem tudo. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. o Braga. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. que tinha a coragem de ter medo. na Faculdade de Ciências. O anúncio de um título bem imaginado. encostadas precariamente. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza.. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. SARL.!”. até à comoção das lágrimas. SARL.eles comem tudo. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício.. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. cantaram e recitaram. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. 182 . o Paredes. à rua da Escola Politécnica. o Ary. O Zeca. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. tocaram. aquela noite de coragem e fervor antifascista.

. pá?. O segundo. numa estranha itenerância nómada. Em suma. ─ Põe o barrete. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. em meados de Outubro.. pá! O 183 .. Andando de quartel em quartel. meu comandante. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. mal tinham acabado de chegar. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. por ordem cronológica. tratando-se de uma nomeação interina. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. era o terceiro. O primeiro comandante. O novo comandante. fora reveladora da mentalidade militarista. em menos de quatro meses. era como a maioria dos oficiais-generais. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. de “guerra em guerra”. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. um tenente-coronel. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa.. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos.

pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. com três feridos graves como primeiras baixas. e. noutras. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. foi muito elogiada a “fachada”. “Filho da puta.barrete é para usar. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. com um soldado sem pés. procurando neste caso dividendos imediatos. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. as meias a três quartos e a continência. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. até 184 . general Kaúlza de Arriaga. Chiça!”. dois com a guarda pessoal. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. era o aspecto exterior do aquartelamento. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. a trabalharem nas limpezas. do comandante-chefe. quatro helicópteros. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. Para estes. Por isso. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. as únicas preocupações são o barrete. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva.

Contraditoriamente. porém. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. a guerra não parava de evoluir. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. Aliás. era uma questão de tempo e de meios. e quanto aos meios. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. agora o resto era com o poder político. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. Os militares cumpriam o seu papel. Alguns. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. estavam cansados de tantas comissões. em Manica e Sofala. analisando com consciência a realidade conhecida.. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Deus me livre!”. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. para sul do rio Messalo. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. Os objectivos em curso seriam cumpridos. questionavam-se segundo o velho aforismo.sucumbirem!?. não passando. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. no Niassa a actividade terrorista era residual. como estrategicamente se tinha proposto. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo.. Não acreditavam naquele optimismo todo. O tempo jogava a nosso favor. apesar da 185 . aliás. a barragem em breve seria um facto.

como todas as outras. afinal. por essa altura. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. em Junho. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. Não era grande coisa. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. na direcção da cidade da Beira. Machava. em Maio. em Cabo Delgado. tomando os desejos por realidades.fraqueza anunciada. em Março de 1973. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. e. não isenta de grandes contradições e inconsequências. em Abril. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. A guerrilha atacou Vila Gamito. mas. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. No Norte. O general ultranacionalista. atacou Estima com foguetes de 122 mm. megalómano. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. prisão da 186 . em Maio de 1973. e. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. chamado a Lisboa em Julho de 1973. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento.

de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas.. entre as quatro paredes caiadas. porventura maiores que o seu. obrigado! Não se incomode. portas abrindo-se e fechando-se. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. ─ Coma. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. constatando. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. Mas deixe estar. causava alguma perplexidade. Não obteve resposta. Novembro de 1972. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. a esta hora já não se pode fazer nada. ─ Deixe estar. de bigode fino e voz nortenha. bateu com força na porta de madeira. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. O guarda prisional. Mas. de estatura média.. 187 . mas passaram-me à disponibilidade para me deterem.. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. magro. diálogos breves. composto de muitos dramas solitários e isolados. A conversa continuou durante alguns minutos.PIDE/DGS em Lourenço Marques. de tão inesperada. eu já volto quando terminar a ronda.. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. nem o jantar me trouxeram!. Não era o mesmo da chegada. falando de bons modos.

grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz.”. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!.. querem ver que está feito com a PIDE?!.. trouxe bananas (a comida era péssima). ─ no limiar da porta... ─ Cá estamos. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. ontem fiquei preocupado.. esperando melhores dias!. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. como exigiam as regras..Quando voltou a recolher o púcaro. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa.. Vagamente. A seu tempo. que se passará? ─ a questão 188 . Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível.

provocando uma enorme tensão.. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. abafado e húmido. De facto. Vindo do fundo do corredor. logo abafadas por a porta ter sido fechada. porém. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. dou em doido!”. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. trancados e isolados em pequenos espaços. ─ Vou ver o que se passa. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. 189 . voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis.. lamentoso. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. durante toda a tarde e início da noite. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. Depois fez-se silêncio. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional.devia ser muito ignara. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. anjo ou demónio?”. sem esperança. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. porque o guarda não mostrou surpresa. ficava um calor insuportável. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. Em pouco tempo. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial.

de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. Quando já descria. mais velho de aparência.. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta... acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. no quartel da Xefina! ─ E você. de costas na enxerga. era nítido o desenho das palavras na contraluz.! ─ completava o furriel. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. por “actividades políticas”. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?.Num momento de nostalgia e saudade. na janela. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. Olhando para o exterior. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. De resto. acordado. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. a sonhar com a liberdade roubada.. 190 . isto aqui não interessa a ninguém. aparecendo o guarda com um sorriso. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. muito abalado pela alimentação deficiente. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. Mesmo agora. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole.. muito prazer! ─ Furriel Ferreira.. a aguardar as visitas prometidas.

o pastor Manganhela.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. dir-se-ia uma acentuada palidez. sim! Foi o “comité” de boas-vindas.. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. passando lestos pelos circunstantes. ─ Sim. guarda Cerqueira. sorrindo. ─ Não! Não! Você. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. não fora o paradoxo de cores. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. ao 191 . ficando sem expressão. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. prestando atenção. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. não pudemos abusar da sorte. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. o guarda prisional. procuraram transmitir algo. ─ Bom! Temos de acabar. Os olhos faiscaram um fugaz terror. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. com comiseração e espanto..

Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . a face de outro homem negro. já bastante enrugadas.. reteve por instantes o olhar no único branco. Autoritário e brusco. ─ Já disse. fumando boquilha.homem preto que acabava de cair abruptamente. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. com óculos verdes graduados. Instintivamente. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. eu trato disso!”. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar.! Ao dizer isto. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. Ao percorrer em silêncio a sala. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. maduro de idade. esticou no chão o corpo inerte. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. À excepção do jovem branco. colocando-a por debaixo da enxerga. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. grossas bagas de suor correndo pelo rosto.. Os restantes presos ganharam alento. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. a fazer-se desentendido. olhando sobranceiro os detidos. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita.

Acompanhava directamente... interrompida de forma abrupta. ─ ameaçava António Vaz. detido desde Junho de 1972. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.. suspensa no curso da resposta.. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!.. O director continuava a cirandar na pequena sala. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. ─ Ora isso é o que iremos ver!. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. branco nas suíças. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. alto e de barriga algo proeminente. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. ─ Bom sabe.. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. precisa de ocupação!?. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. o processo do pastor Zedequias Manganhela. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . cabelo grisalho. ─ Sim. aparentando uns prováveis sessenta anos. ─ não pode completar a frase.. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. senhor director. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido.. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra.

O “anjo da guarda”. Cerqueira. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”.. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento.. quente e envolta na ligeira 194 .! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. Na minha mala.. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. de roupa. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga.. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. de alguns livros!. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. vindo do teatro de guerra.. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas..─ É a primeira vez que cá venho. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava.

Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. onde Manganhela permanecia em isolamento. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. terror psicológico. sevícias. ou um tenebroso 195 .neblina africana que aplacava a inclemência. o guarda-fiscal. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). conforme a versão oficial. ameaças. e com grande prestígio na Europa. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. nunca se saberá. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. numa zona onde não havia guerra. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. de colaboração com a Frelimo. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. Zedequias Manganhela era um pastor. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. nunca provada. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. humilhações permanentes sobre um homem idoso. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. devotado à sua missão. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. Suicídio. Foram seis meses de interrogatórios.

7. os seus mentores e os seus mandantes. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes.assassinato? Em qualquer dos casos. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. foi um crime de morte matada.

muitos presos políticos na cadeia da Machava. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. A 197 . denunciado em meados de 1973. por ajudar. do guarda prisional Cerqueira. soube-se a dramática história da prisão. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. quiçá salvar. a 9 de Setembro de 1974.

Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. gritos. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. com escala em Luanda.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. muito sangue!. correrias.. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. ─ Não. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. num pesadelo de tiros. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . agora com o futuro tão incerto. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. na sua incansável solidariedade. fumos. Com a recusa da carta propositadamente escrita. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. um DC-6 da TAP. perseguições e sangue. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. chamas. Abriu os olhos. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. Quando o avião..

“phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. e. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. num repente. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. Chico Cachavi. distantes entre si poucos quilómetros. próprio da época das chuvas. quando procura o mato. mulheres e crianças do outro sentados no chão. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. Tratava-se de uma área muito povoada. Chawola e Juwau. Os aldeões são divididos em dois grupos. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. homens de um lado. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. como represália. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. com muitos aldeamentos dispersos. e. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. não levou a conclusões. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. um tenebroso 199 . Por volta das 14 horas surgem. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente.

que organizaram o primeiro relatório 200 . jovens donzelas são arrastadas para o mato. Pedro. A tropa completamente ensandecida. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. que depois as diriam ao mundo. um afluente do Luenha. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. violadas. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. e. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. à entrada de Tete. distante cerca de quatro quilómetros. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. Foram os padres daquela congregação. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. uma mulher grávida é esventrada. Juntaram depois as vítimas numa pilha. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. para além do que pode entender a razão humana. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. O rio Nyamtawatawa. surpreendendo os habitantes incrédulos. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. O sangue enlouquece a soldadagem. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. crianças chorando são mortas a pontapé. mutiladas e mortas. perante a passividade de sargentos e oficiais.torcionário do recrutamento provincial. fica juncado de cadáveres. o aldeamento é completamente destruído.

ano e meio depois. em 19/12/1972. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. traje alegre vestido para afugentar 201 . “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. aconteceu quando. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. desumanizados e corrompidos até à medula. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas.sobre Chawola. três dias depois dos acontecimentos. e sobre Wiriyamu. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. coronel Videira. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. nomeadamente ao comandante da ZOT. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. finalmente. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. em Julho de 1973.

.. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja.. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. por isso está como está!. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. ─ Desculpe. estava uma carrinha da PIDE/DGS. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer.“maus olhados”. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. para iniciar uma nova e derradeira viagem. essa é uma matéria reservada.. Lá em baixo à espera. na natureza e no seu coração. em Caxias. Ficaram para o fim. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino.. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço... 202 . ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. Da companheira não havia sinal. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada.. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. onde acabara de ser identificado e fotografado. agora tinha iniciado o interrogatório. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. depois de todos os passageiros terem saído. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. Caxias. o mundo está cheio de ateus.! O agente.

não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. e o meu tipo de sangue. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. apenas o corredor comprido e silencioso. outra campainha. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. Por detrás tem as minhas iniciais.─ Fiz-lhe uma pergunta. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. o som metálico da lingueta da fechadura. o grande responsável. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . interrompido por outra porta de ferro gradeada. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. Também estive na guerra do Ultramar. ─ Ah! É verdade. Divisavam-se várias portas fechadas. você é militar. as da minha esposa.

em Mafra.. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. por onde eram emitidos sons gravados. criando um ambiente soturno. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972.um palmo e fazia uma cara-de-mau. ─ Ah! Não sabe!. como depois se perceberia. ─ Não sei do que está a falar. gradeada. isolado do mundo. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. fraca. numa fisionomia naturalmente ruim. em Dezembro de 1971?!. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”.. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 .. propício à desmoralização psicológica do preso. uma lâmpada de filamento. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. Por cima da mesa. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. por vezes reduzido.

Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. sobretudo na alta madrugada. Começava a tortura do sono. faz favor! Eu não o ofendi. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. a tosse de catarro ou o pigarrear. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. o preso é sempre o mesmo. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. um aspecto de símio de pernas arqueadas. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. polícia manhoso à maneira antiga. ─ Respeito o quê. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. criando uma pressão terrível.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. impedem o “fechamento” completo do cérebro. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. por vezes o safanão. para além da fracção de segundo. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. chamava-se o “moínho”.

o preso desfalece instantaneamente.. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria.. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!.. O efeito é terrível. * 206 . Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. Àquela hora o sono apertava. A partir daí a tortura é dupla. os ouvidos zunem ensurdecidos. hem! O mundo desmorona-se. para acordar logo de seguida em sobressalto. instantaneamente parado.. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara.. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir.. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir.! O agente sentou-se estranhamente calado. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. o coração “salta do peito”.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. O sádico pide continua a sua nova táctica. silencioso.

nunca levantando a voz. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. o “senhor doutor”. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. e por um ligeiro sorriso cínico.. ─ Não sei porque estou preso. O chefe-de-brigada chegado no séquito. preocupado com a aparência para infundir respeito. só traída por um pequeno esgar. encarregou-se de clarificar a situação. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. ter saído 207 . e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro.. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível.. um porte de alto funcionário do Estado. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. no Curso de Oficiais Milicianos. depois do inspector superior da PIDE/DGS. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. mas não tinha a certeza. gravata e sapatos reluzentes. Adelino Tinoco. não precisou de muito!.. quando mencionou o senhor doutor. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade.

─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. ─ Violências... vamos tratar como pessoas civilizadas. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. não! Por favor. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 ..com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. se não conta tudo não vai dormir hoje.. não vale a pena perdermos tempo. ─ Vá. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.! ─ Ia dar o salto. a não ser. foi uma pessoa simpática e colaboradora. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política... ─ o pide calmeirão. desferiu uma palmada forte nas costas do detido.. O senhor é uma pessoa inteligente. propositadamente: ─ “Senhor doutor”.

avisada.. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . Calou-se. por favor! ─ Mas!. ─ Vá. apesar das suas reticências. deixando-o ofegante. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. um sujeito fulano de tal. Um pequeno prurido de remorsos. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. Estamos de visita! Não podem. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor.. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias.. fazia o papel legal. Encontrei-o uma vez em Lisboa.. o resto fiava mais fino. Estava muito calor em pleno Agosto. prostrado de joelhos.! A brigada da Guarda Fiscal. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho.. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. perto de Vilar Formoso. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo.. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço.

O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. penteadinho e bem vestido. em Dezembro de 1971. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. O “SENHOR INSPECTOR” Um. todo encolhido. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. onde antes só estavam manchas indistintas. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas.. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. fale! ─ este é dos “pides maus”. são figuras de bichos. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. em Mafra.. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino.. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. pequenos baixo-relevo estilizados. 210 . é claramente provocatória para impressionar o detido. pinturas-quadros humanizados. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas.

.. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. não resta alternativa. desdobrou uma folha de papel fininho e. ─ Desconheço esse assunto. ali estava um exemplar do “Avante!”. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. fazia precisamente um ano. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim.. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. surpreendentemente. não vale a pena negar! Além disso. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. em Dezembro de 1971. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. é a primeira alucinação. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso.. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique.” ─ Esse canalha!.

Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. Silêncio! Não entrou ninguém. Até amanhã. como o torcionário-mor. Adelino Tinoco. Encostado às paredes foi caminhando. o que permitia ir calculando o tempo). já a madrugada ia alta. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. ─ A partir de agora fica sem cadeira. Como uma mola. Passaram as horas. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. aludira. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. já disse! ─ sacudindo-o 212 . bombista!”. caminhando. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. Junto da sua cara. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. com um bafo acentuado de álcool.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. O pide pequeno e feio. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. que até os tinha formados em Psicologia.

a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. Um “pide-bom”. alto e de meia idade. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. no instante seguinte. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade.. o “superior” teve uma ligeira hesitação. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. bem vestido num fato azul-esverdeado.. e com um emblema na lapela.. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”.violentamente. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. voltou as costas e desandou. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!.. como de costume. não tem cara para levar uma bofetada!. de bom corte. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. com ar muito solene. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. deu origem.

de onde chega uma luz de sol 214 . continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado.! Alucinações frequentes. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três.. ameaçador. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. não tenho nada a ver com isso. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. Agora na década de 70. muito íntimo do director Silva Pais. sob o mando directo de Salazar até 1968. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. as paredes deslocam-se. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. com Marcelo Caetano no poder. no quarto dia consecutivo. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. desaparecem. quatro dias. eram mitigados. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se..consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior.

o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios.. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. mentecapto. única saída para a liberdade urgente. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. acima do mundo. O vigilante calou-se.. semiaberta. vinha um 215 . com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. sobre o rio.” Passa o tempo a olhar para o preso.. Quem dera poder dormir um pouco!. Todas as noites. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. O preso avança às cegas para um precipício. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. por isso bebeu só uns goles.. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. além do oceano. só abre a boca para ditar ordens e regras. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!.. Ao fim de quatro dias de privação do sono.. mais um passo ansioso e . a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!... pouco antes da mudança de turno. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. onde a vida continua. não conseguia adormecer.magnífica. com ar arrogante e meio imbecil.” ─ Afaste-se da janela. O café da noite tinha um gosto esquisito.

Hoje é o primeiro dia de Inverno. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. Mas isso não interessa.. porque de repente. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. quase euforia. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. sem querer. não é? Sentia uma tremenda excitação. vamos é saber da sua disposição. conversar!. A falta de descanso do cérebro. juntava-se a confusão do tempo. produzia a perda da noção tridimensional. 216 . Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim.. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho... calha bem!. daí as alucinações. com as paredes a afastarem-se ou a caírem... Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. fazia frio à noite. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. obrigado. vindo não sabia de onde. apetecia-lhe conversar. Sabia bem aquela bebida quente. ─ Interessa. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?.

já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. sumiu nas trevas da sala mal iluminada.. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. foi uma força de expressão. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido.. por onde vultos furtivos se escapavam. nem o Deus em que não acredita. sabe. não respondeu logo. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você.. ─ Você. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . fazem agitação contra a guerra. ninguém me mandou. também estive na guerra. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido.. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta.─ Não sei. contava todos os pecados. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. e no entanto vão lá. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. não estou a par! Mas. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. em Angola!?.. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. um homem católico. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus.. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. dizem-se pacifistas. Já temos uma filha!. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista.

─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes.” martelava-lhe o cérebro doído. ─ Cale-se! Cale-se! 218 .. Por agora as dúvidas foram vencidas. por estar para ali a falar com aquele carrasco.. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço.. impedido de dormir há muitos dias. Nem o chefe-de-brigada.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. não vou!. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. ninguém! Parecia terem esquecido o preso. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. tantos que tinha alucinações tremendas.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. faz ultrapassar o período de fragilização.

Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. Passava largamente da meia-noite. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. Facto curioso. comprometido. quando a revolução esmoreceu). ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. vamos buscá-la para esclarecer. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”..Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. por não ter arranjado melhor!.. segundo dizia. chefe-de-brigada.. Calou-se o agente de cara redonda. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. quase euforia. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . anos mais tarde. SEIS. (inspector. com a entrada triunfal do inseparável séquito. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. em Alcântara.. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. ligados ao Partido Comunista. (mas ficaram quase todos bem na vida.

.. pavor. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. Nascia um estranho sentimento novo. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. manhas experimentadas da polícia. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. subindo pelo peito até ao cérebro. não posso!.. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . pela impotência perante a situação.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. Que dia seria hoje. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. a aprofundar a angústia dilacerante. ─ Se os documentos não são seus.vontade. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. Raiva.. misto de revolta e de desalento.

tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. em pé horas e horas a fio. a investigação ia no “bom caminho”. o “vaidoso” e o “atarracado”. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”..papel sujo. já lhe disse! Se insiste. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . entrado a meio da tarde. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. os comunistas de merda. sob constantes ameaças dos pides. Sem cadeira para se sentar. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. O preso caminha encostado às paredes. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. O inspector Tinoco retirara-se impante. há muito perdera a perspectiva tridimensional. bate desamparado contra a parede. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. A respiração pela boca torna-se ofegante. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. Apetece-lhe vomitar. ─ Comigo. desritmado. desfaço-o a pontapé!”. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. a tortura do sono ia continuar. eu logo lhes dizia!. julgando-a mais distante. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. como você. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. O detido já não liga às provocações.. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas.

Sim.. ─ Sofro do coração.. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. hoje celebrados como heróis. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo.. a confusão. gente de excepcional coragem. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. mas nem todos tinham essa fibra.. Muito tempo depois. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. não tem o traquejo dos “duros”. é ainda um homem novo.. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. Estava sinceramente assustado. Sentia-se verdadeiramente mal. já meio recuperado. a família!. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. Não há milagre.. claro. mas com os pés cada vez mais inchados. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura.. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. Ah! Se pudesse saber que a companheira. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. firme e 222 .. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. talvez.

jamais olvidado. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. fascista .determinada. ─ Sofro do coração. até porque na altura outros apoios foram recusados. criminoso. o “senhor inspector”. torturador requintado. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. facínora. canalha. poupando energias.. nazi. chantagista. tinha obtido do “seu” médico e amigo. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. Na tarde do 6º dia. ontem ao 223 . com o ar mais angelical do mundo. Devido ao cansaço.. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. Não tardou de facto. torcionário. hipócrita. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. ─ Então. carrasco. embora verdadeiramente ameaçada. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás.

mas não estava”. Até o agente de serviço já não implicava.. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. Já não conseguia levantar-se. estava atrás do chefe pronta para saltar. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. A matilha de macabéus e hienas. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. a qualquer hora do dia ou da noite.. não dizia nada. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. trago um médico comigo!. o peito sufoca. O torturado levanta-se em grande sobressalto. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. o coração desritmiza-se. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. : “Prenderam a minha companheira!”. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. De repente. “unha com carne” com o director Silva Pais. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . sem interferir.serviço de Salazar e agora de Caetano. ouvem-se gritos humanos lancinantes. a olhar interessado. parecem-lhe gritos familiares. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. Descalço. gritos de mulher!.. com esgares de riso. Este pensamento produz uma angústia terrível.. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. e se for preciso. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira.

nas longas fases depressivas. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. Muitos. frio. Ganhara forma no cérebro.). O pide de serviço. A PIDE aceitou a história. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. contra o que era habitual. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. cinzento. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados.. sem sol (ou ainda não terá nascido?). alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. uma história de comunista já assumido. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. 225 .─ Não está a ouvir? São gritos..

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). defenderam em tribunal. a título gracioso.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. fazia-se de propósito em voz alta. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. houve intervenções brilhantes. entre familiares e amigos. milhares de portugueses. Sobre estes causídicos. corajosas. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. amigos. repartido por várias sessões. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. Das primeiras. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista.

seco de carnes e cenho ruim. 228 .. caso raro. As alegações iniciais e finais do réu. O próprio juiz o admoestou. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. durante sete dias e seis noites sem dormir. pelo doutor Manuel. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. fingindo ignorar o detido. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. anafado e exibicionista no fato de fantasia. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. Riram de forma alarve. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. quando foi apertado como testemunha de acusação. com o Carlos e o Pedro.. mas falando em voz alta e explícita.

─ É fácil comprovar.. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. era rancoroso. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas.00h do dia 16 de Dezembro de 1972.. Costa Saraiva. O fascismo. ─ agora era o acusador público.. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. além do mais.. na sala de interrogatório!. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. onde eu nunca tinha estado antes. a sentença constituíu uma pequena vitória. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. Embatucou o procurador do Ministério Público. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. que lutavam pela liberdade. às 16. Nos registos da prisão-sul de Caxias. com uma pena de prisão remível a multa. a interromper o réu. Ao fim de três sessões. proveniente da Beira. 229 . que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa.00h do dia 23 de Dezembro. com permissão do juiz. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. senhor doutor! Nos registos da TAP. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. há-de constar a minha entrada cerca das 20.

Maia. Eduardo Fernandes.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Eugénio Torres. Hélder e Ventura. Vicente Bolina. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. 230 . Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. tal era a acusação. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. No mínimo. Conduto e Pimenta. Fernando Fragoso. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. Zaida. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. Manuel Felizardo. José Caria. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. os amigos José Lucas. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. os antigos colegas Baptista. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. ficarão registadas para a posteridade. Suzel. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. O apoio necessário vinha da família. os professores Dias Agudo e Simões do Reis.

Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. aplacando a angústia e educando o espírito. a reflexão. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. ─ Bom dia. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita.. AMADORA. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. vê logo o quartel. que encheu o dia-a-dia. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. fraternal e dinâmico. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). quase vazio no início da manhã. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. o estudo. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. Desfazendo por fim o ar de admiração. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. em rápida expansão. disfarçando a saudade. não há 231 . cidade dormitório às portas de Lisboa. organizado.

que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. bordado a ouro e esperança de melhores dias. ─ Deixe estar.. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. indiferente aos dramas dos homens. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. adivinhando a má nova e o destino ruim. o desemprego na grande indústria. com caras de poucos amigos. na Amadora. indicada no 232 . exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. o batente de ferro da casa térrea.. Um cabo e um praça da GNR. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. o rio era um espelho plano e calmo. situada numa magnífica frente para o rio.. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. mãe e madrasta. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas.. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica.

─ Andamos à sua procura há oito dias. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. ─ Sabe?!. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. era preocupante e inabitual. já fui julgado e condenado em tribunal!?. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos.. ─ Processo disciplinar. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. gordinho como era da praxe. Não queremos criar problemas a ninguém. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. tudo era diferente naquele homem de idade madura.. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. se tinha levantado para o receber. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. oficial do SGE. é um cepo redondo com dois olhos. a humanidade com que lidava com os 233 ..gabinete do oficial-de-dia.. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto.. até aí conhecidos.. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. O capitão Luís. esse cretino!. ─ Entre. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar.

em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. intuía com reprimida alegria na alma. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. ─ Eu sei.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. também com um problema militar complicado por razões políticas. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. deixava os interlocutores espantados... ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. repetia-se ao princípio da manhã. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. Todos os dias desde a primeira vez. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. embrulhado em “maus lençóis”. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. gerava uma nova expectativa. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. formado em Direito. 234 .

mas não se comia nada mal.Não tinha. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja.. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. deu para partilhar mágoas e esperanças. tristezas e expectativas. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. não constituía dificuldade. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. o que. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio.. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. ando a pagar viagem a viagem!.. furriel “estacionado”. para quem tinha um curso de engenharia. Tomara eu!. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu.. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. 235 .

. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. redondo de aspecto e de alcunha.. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. fazia a encomendada inquirição com zelo policial.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. ─ Bom! Ainda está muito quente. então não vale a pena perder tempo. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. foram obtidas sob 236 .Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. em Dezembro de 1971. deve ter sido complicado!?. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português.. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. foi retomado na semana seguinte por imposição legal.

Isso não pode recusar. ─ Isto é um veículo militar. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . já o mês de Julho ia avançado. O horário é para cumprir. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. dando como provadas as acusações. Era curioso. Por mais de uma vez. ─ Só mais um minuto. como mandavam as regras tropeiras. e tal. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. se sentara num banco traseiro. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. Não ficaria por aqui. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. o processo-fantoche. estivesse.tortura. ─ Quem não está. porém. Certamente por isso. Depois chamo-o para assinar. senão tem faltas injustificadas. não é um transporte público. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. Os documentos apresentados para assinatura. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. nos dias tal. falta um companheiro de viagem. sufocava-se no interior da camioneta. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui.

o “chefe da viatura”. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. é furriel! Qualquer coisa da Silva. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. Ex. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia.o compasso de espera solicitado. a PIDE/DGS. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. Acácio da Silva”. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. Era um estado dentro do Estado. ª. seco de carnes e de sorriso franco. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. o furriel miliciano. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. na secretaria dos “Adidos”. por determinação de S. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. com a conivência do militarismo reaccionário. ruivo e sardento. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. pelo contrário. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 .

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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casado há pouco tempo e aqui preso!. mas o alentejano não se deu de achado. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. ─ Ao princípio era um moitão de visitas... desatou aos pontapés às cadeiras.. ─ Foi o bom e o bonito.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. até já cortou os pulsos para se matar!. ─ A doença dele é outra... 246 . ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. e o moço de bigodão negro. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. tentou esganá-la. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. mostrava-se loquaz.. ─ O tipo está doido varrido. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. mas num domingo foi aí uma barraca.. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração..

A notícia surgiu brutal. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer.─ Então a situação é grave. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. se tinha suicidado na cela. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. tem de se compreender. fundado em colaboracionismos vários. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. ─ Pois sim. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. sempre a caminho da enfermaria. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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. 255 .da filhinha! Prometo que voltarei.. talvez mais cedo do que tarde!.

velhos conhecidos. sacos. homens. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. malas. 256 . DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas.A LENDA 9.

gente deitada semi-nua. cruza-se outro camião com soldados a granel. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. sobre as preocupações com a mobilização iminente.). 257 . como gado para matadouro.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. Beliches a cinco de altura. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. Algures.. Encostado ao taipal.. esfumou-se na distância e na poeira da estrada.. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. grupos barulhentos jogando às cartas. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. o “canhão” esperava a carne fresca.. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. O camião carregado de soldados. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. que para aquele lado era de terra batida. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.

meu furriel! Chegámos há pouco tempo. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. isto é um país em guerra. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . falta de hábito!. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. se não houver problemas com a saída!.. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. que por perto ouvia a conversa. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. rua abaixo direito ao centro da cidade. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel..─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade... nossos soldados? ─ Desculpe. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. ─ A vossa identificação. paleio animado e boina na mão. ─ Se calhar vou contigo. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. moço alto e magro.

animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. entretanto voltou de avião para a metrópole!. algures naquela guerra oficialmente já ganha. ─ Isso deve ser história. lá foram saindo os magalas mal ataviados. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. Devem vir fardados.. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. também não a pedi nem a desejo! 259 . ordens do sargento! Resmungando e refilando. tecendo laços de solidariedade circunstancial. sem pés.. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. sem braços ou sem vida. limparam. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada.. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo.. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. O resto do tempo podem ir para onde quiserem.de colocações e a escala de serviço.. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. mas sem fim à vista. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. ─ Há aí vassouras e pás... pá! ─ Não te metas com esse gajo. é um exagero!. não deve ser limpa há um ano!.

o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras.. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. veículos militares correndo pelas ruas. e a economia da região sobrevive do conflito. pelo contrário.. característica daquela região. ─ conversava-se à mesa do 260 . Na conclusão da empreitada. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. As vivendeiras. Os homens ocupam-se da máquina militar. com o sol nebulado e uma humidade elevada. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. que consome enormes recursos da Pátria distante. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. elogiando o trabalho feito. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. A tarde de princípio de Dezembro estava quente.. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas.. assim se chamavam. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. com uma eficácia muito baixa. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. pois a guerrilha não diminuiu. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada.

Esta “chicalhada” irrita. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. falam mal o português. Ganham uma bagatela. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. a história da terra moçambicana. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. quase não há serviçais do género feminino. Passam carros de boas marcas com condutor militar. Longe dos teatros de operações. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria.Café Central no fim da tarde quente. Têm inúmeros criados pretos. a 261 . Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. o militarismo sufoca! . a fim de conhecer tanto quanto possível.. Também alguns milicianos trouxeram a família. mas têm comida certa: ─ António.. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda..tal como sufocava o calor de Dezembro.. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. não sabem ler nem escrever.

. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. que não se vende em Portugal. A sua formação era claramente conservadora. à beira do milagre da “tomada 262 . e potenciando o vício pela bebida americana.. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. ao fim do dia. deixavam-no intranquilo. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. oriundo da burguesia alentejana. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. Quando se saía da cidade.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. porque Salazar não gosta muito dos americanos. viam-se grandes embondeiros. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. a perder de vista. e aos industriais de refrigerantes. a prestar serviço nas “Informações Militares”. Uma planície de cor castanho-avermelhada. onde tudo era demasiado no estilo europeu. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. quartel-general da guerra. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. Nem vou. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. ─ insistia o jovem bem parecido. com bons conhecimentos. protegidos pela lei do condicionamento industrial.

de consciência”. já tinha a chave. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. mais depressa os homens que os montes. réplica da arquitectura europeia. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos.. Não tardam aí melhores dias!. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. ainda que tal custasse muitas angústias. entre silêncios e goles de mistura fresca. acreditava na justeza deste conflito. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. revelando a comum ascendência asiática. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. Para o mais distante. Automóveis de boas marcas. Ia para dois meses. deixam gente de pele escura. Prestes a mudarem.. 263 . João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. muitos sacrifícios e muitas vidas. Pelo que tenho visto. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. ─ Quando vim. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor.

Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. como na gíria é conhecida. À noite.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais.. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. chegavam famílias inteiras. com as leituras ou as idas à biblioteca. com o infelizmente célebre.. por bastante comum. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. O descontentamento emergia. se notava um grande sossego. no Golfo Pérsico. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. ─ Ah! Então era isso. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . Estavam muitos orientais. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. a servirem como desabafos da alma. na Índia e até na China. o movimento à porta da mansão!. normalmente.

Datam do século XX. possuía um carácter forte e indómito. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. internando-se no mato. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. “Os brancos antigamente eram peixes. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. E desde então até hoje. 265 . nos princípios do século XVI.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado.. se furtava. habitando o Norte de Moçambique.. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. nunca mais deixou de nos tratar mal”. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. Durante a I Grande Guerra.. Os pretos cuidaram dele até crescer. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . em 1918. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. A etnia maconde. e se ele o dizia. viviam na água. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito.. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. Esta é uma lenda do povo maconde. que encontraram sempre forte resistência. entre os rios Lúrio e Rovuma. a que o povo das tatuagens e dentes limados. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. começou a fazer-nos sofrer muito. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional.

confinando os limites do território moçambicano (e angolano). no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . de traficantes e de entidades coniventes. em 1882. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. hospitais sem médicos!”. fronteira à ilha de 266 . obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. “de Angola à contra-costa”. A nova expedição de Serpa Pinto. escolas sem alunos.. Em 1895 e 96.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. No início do século XX. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. em 1878. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. em 1885. alunos sem escolas e sem professores. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. doentes sem hospitais.”Batalhões sem soldados. da costa de Angola à costa de Moçambique. no Sul. derrotando as pretensões portuguesas de soberania.. Este último escreveu o livro “Mozambique”. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. e de Capelo e Ivens. em 1889.

procedendo à exploração mineira nesta área. e o cultivo do algodão e da borracha. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). numa série de campanhas iniciadas em 1908... À medida que se desenvolviam as campanhas militares. submissão das populações e pilhagem dos recursos. que iam completando a ocupação militar. em 1879. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura).Moçambique. a Companhia do Niassa. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. a norte. são finalmente controladas (oficialmente. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. com capital inglês e francês. criada em 1894. ferro e ouro.!). com capitais metade ingleses e metade franceses. criada em 1888. Lúrio e o lago Niassa. entre os rios Rovuma. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. a Companhia de Moçambique. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros.

Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. Ou seja. fundamentalmente para Angola. Em 1878. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. subindo para 2 mil no início do século XX. muito depois da abolição oficial da escravatura. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. na sua área a 268 . sua sede. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano.) está sujeito. ao seu sustento próprio”.. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. aumentando para 20 mil em 1926. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. No período de 1910 a 1923. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”.. ao abrigo desta lei. entre pessoal militar e administrativo.país colonizador. nunca teve grandes resultados. Por outro lado. mantém-se o regime de trabalho forçado. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. Já a Companhia do Niassa. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. conseguiam um tráfego internacional crescente. não se mobilizavam voluntariamente. foi criado o primeiro código do trabalho. que funcionaram até 1942. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. o porto e o caminho-de-ferro da Beira.

No segundo quartel do século XX. Alemanha. todavia. chá. Porto Amélia. já do século XX. Bélgica. em 1925. É muito recente. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. sisal. 1500 habitantes (só 50 brancos!). segunda cidade. França. milho. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. canade-açúcar. criadas por decreto obrigatório. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. oleaginosas (caju. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz.penetração europeia era mínima. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. e nunca foram construídas vias férreas. destinados à exportação: algodão. atinge 20 mil. tinha 30 mil habitantes e a Beira. o esforço português de colonização efectiva. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. Holanda) estava em declínio. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. mandioca. no Centro e no Sul do território. mesmo nas suas próprias terras! 269 . cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. amendoim. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. copra). assiste-se. tinha em 1925. a capital.

e em particular com o capital britânico. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. cultivava 45% da produção algodoeira total. perícia. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. concessão feita a capitais luxemburgueses. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. fundamentalmente para Portugal. Inglaterra e União Sul Africana.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. a que se 270 . Companhia de Algodões de Moçambique. pertencente ao grupo Champallimaud. criada em 1921 com capitais ingleses. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa.. No caso da exportação de algodão. em 1945. Além das referidas Companhias do Zambeze. do Niassa e de Moçambique. Curiosamente. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. a mais importante açucareira da colónia. constituída em 1948 com capital luso-belga.. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. originariamente para a exploração das minas de Moatize. Sena Sugar States. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. que cessaram a actividade por volta de 1942. Presente desde há muito. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. que assim funcionam como mercado protector.

A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. metade do total.. também presente na indústria dos óleos. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. desmentida desde 271 . irmandade dos povos que. sejam quais forem as suas diferenciações. etc. 520 mil contratados do algodão. incluindo: 400 mil emigrantes. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador.associaria o grupo Melo. em 1943. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. no período áureo do chamado Estado Novo: . se cultivam e se elevam... a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta.“No meio das convulsões presentes. se auxiliam. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. Em complemento.

1. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. Todavia.5%). os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. asiáticos e “assimilados”. em 1950. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. espalhados ao longo da costa moçambicana. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. no século XVIII. três ou quatro nos finais do século XIX. ano da publicação do Acto Colonial. com a política de “fomento colonial”. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). e as escolas elementares das missões católicas. organizadas em ensino primário e liceal. em decréscimo) num universo de 6. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. em 1960. traficando em escravos. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que.6 milhões. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. à data dos inícios da guerra de libertação. dez em 1825.sempre pela escassíssima presença portuguesa. ou seja. Da mesma forma.

liberta o europeu do seu medo pelo africano (. sobretudo depois da II Guerra Mundial. 95% da população africana se encontrasse na 273 . educar. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. 1970). numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias.. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. padres de Burgos. Por este tempo.). Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias.. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE.. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões.. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. reflectindo a miséria da missão colonizadora. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940..território colonial. Não admira pois que em 1960. subjectivamente. nacionalizar e civilizar a população nativa”. padres de Verona. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. confluindo no desejo independentista. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. etc. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. fomentando o espírito nacionalista latente. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. ao arrepio do ensino do Português. realizam então um trabalho novo de apoio às populações.

o António. o Ivo. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. ). só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. o Castro. como na afirmação do Presidente da República. são gente boa. o Muradali. 274 ... sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. a Lurdes. a Lena. quando começar a luta de libertação nacional. Craveiro Lopes. o Melo. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. Precisas de te distrair! O Carlos. o Monteiro. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo.. em 1956. o Santos. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. os Casimiro. ok?!. A humilhação permanente da despromoção.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). o Fausto. A colónia funcionou até 1960..

muito apertado pela PIDE em Caxias... sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. A seguir a uma curva. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. ─ questionava a esposa. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. por isso te despromoveram e te castigaram. 275 . Ciclo do COM. sempre muito sensível. que até nem foi extraordinária.. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. como morto. entretanto a revolução. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. atravessado. ─ Não é tanto uma questão de coragem. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. é mais uma questão de integridade. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia.. este tipo é incrível. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. estava um negro deitado na estrada. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam.

por isso tu és a minha vida. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar.. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. tu ensinaste-me a viver. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. mas nós havemos de vencer haja o que houver. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. (. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas.. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. a minha luz. O tempo não pára.. me dá vida. De vez em quando vou tendo notícias. felizmente.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. sim! Com dezoito meses. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. se estivessem aqui comigo!.. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . Estão bem. cada vez maiores.. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante. carregada pela angústia da separação física. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. O mais custoso é a separação. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem.

...criaram. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. e agora?. amor da minha vida”. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! .. o casal ainda não tinha filhos. a nossa ligação temse fortalecido. não sei se aguentaria. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. O “carocha” quebrou o transe emocional.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. (. Nós esperamos por ti. diz o nosso fruto pequenino. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. ─ uma carga de trabalhos.. durante quase seis meses. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. que faz amanhã 18 meses. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. o amor constrói-se também com sofrimento.. Como disse um grande poeta. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. Por outro lado. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos.

preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. Juntamente com outros dirigentes estudantis. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. fora compulsivamente incorporado. ─ Um movimento autêntico.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. em Outubro passado. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. ou mais uma tentativa de “putch” militar. natural da cidade-quartel-general. as de jovens oficiais do quadro.G. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. à entrada. desassombradamente. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. onde vinha em luto familiar. e de sectores ligados ao general Spínola. no início da década de 70. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes.. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. que há pouco. foi bastante mais João. pelo parente morto em exercício militar. também alferes no Q. fora apresentado como Ivo.G. genuíno. era um jovem mulato. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques.. também ex-dirigente associativo. alto e bem parecido.

os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. Se isto dura mais uns meses. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. que fazia a interface entre muita gente. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. A casa de família da classe média. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. falava no assunto tabu. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . para ajudar a acabar com isto. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. chegando e partindo constantemente. alimentando a célula da resistência em Moçambique. que não renegavam. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. Fixados há muito em Nampula. trazendo e levando notícias e materiais. ─ Como sabem. o mulato quase formado em Medicina.

. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia.. ─ o jovem Melo. tantos anos de mão dada com o colonialismo. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. concitou a atenção dos presentes. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. ─ a senhora de Casimiro.. ─ A própria igreja de Moçambique. em plena época quente no Hemisfério Sul. nas escolas!. oriundo de famílias militares. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. mostrara uma insuspeita clarividência.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%... depois do fracasso das operações no Norte. mas creio que já não têm tempo!. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. mas se é contra o regime. assume-se agora do lado dos oprimidos. muito simpática e delicada. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. ─ Talvez não haja tempo para isso. também dirigente académico perseguido. nos quartéis... ─ Há alguma coisa que não nos contou?!.. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. que venha por bem! ─ Por cá. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação.. Tenho a convicção que o fim se aproxima. O julgamento do 280 . estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. num fim de tarde africano..

o ambiente ganhava optimismo. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. por orientação do Vaticano. Sebastião Soares de Resende. uma voz clara que 281 . no curso do século XX. é paradigmático do papel da igreja católica em África.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. prevendo e prevenindo o futuro. Completa esta imagem do século XVIII. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. terra de esperança. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). assumia-se de forma muito mais contraditória. parte integrante da máquina colonial. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. Depois da concordata de 1940. num contexto de declínio do colonialismo. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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imaculada. Percorridos em visita. duas dezenas de soldados. a meio caminho da cidade portuária. num “Aviso” da Marinha de Guerra. como gostavam de dizer. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. a praia do “Relamzapo”. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. tinha uma areia fina de tacto agradável. rumo ao Norte. aparentemente descurando o futuro. A partida é às 20.do oceano de águas escuras e algo agitadas. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda.30h. quase escrava. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . e. negros na maior parte. com “cabrinhas” de espuma branca. aqui e acolá. cada vez menos. agarrado às vantagens do passado. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. os colonos emigrados. Agora na sua senda. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. espraiando-se levemente na areia branca. ainda acreditavam. semeada de pedaços de algas escuras. A praia das “Chocas”. Na conjuntura actual. de medusas da “Cruz de Cristo”. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. nada de atrasos!”. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico.

quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. Tratem-no como se fosse um de nós. logo me contas o resto da história. Caíra a noite. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. impecavelmente fardado. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão.. é melhor não te verem por 290 . entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático.. ─ Há poucos dias estava óptimo. estivemos a conversar em casa de uns amigos.. Ele contar-vos-á os pormenores. um jovem alferes moçambicano. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. Marcelo. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. Num jipe oficial.bigode sobranceiro. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. também vou?. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva.. ao jantar. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. Tinha razão o Ivo. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. branco.

* ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. ex-dirigente estudantil. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio.perto. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques.. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida.. Antes. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. à saída. ─ Olha quem ele é!. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. já eram velhos amigos. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. com o furriel “recepcionista”. de camuflado. em serviço à pista. instruiu o condutor de serviço: 291 .

para onde vai o professor. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. a poente. pintadas de branco. Diferente. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas.. num vale em depressão. desde Porto Amélia. bem vestidos ao modo africano. Do avião. com telhados de fibrocimento. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. que passava rapidamente. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. Verdes e impenetráveis. alinhadas ao longo de uma estrada de terra.. era uma zona de casas. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. arrasando os nervos.. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . a rasar a copa das árvores. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom.. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. parecia ser gente “importante”. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. único utente até hoje! Ao longe.

─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. Mais distante.. interpelou-os: ─ Meu furriel. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. destoava do verde constante da paisagem. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. de ataques com foguetes de 122mm?. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. 293 . No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. ─ Contava-se. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. ou talvez mesmo de há muitos dias. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação.. de contornos envoltos em bruma. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada.adiante. de madrugada. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. em Porto Amélia. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. até se diluírem no horizonte.

vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. sem vontade. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. Por instantes. a recolha da sopa numa lata de folha. Ali na África Setentrional. ao calor escaldante do meio-dia. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. confundindo-se à distância com a neblina circundante. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. porventura. em fila. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. Em tempo de Equinócio. sem gosto. sem higiene. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança.Fim de tarde ameno. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. o ambiente é um pouco mais húmido e quente.

─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. A respiração suspende-se por segundos. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. do outro lado do rio. e o manto escuro caindo sobre o lago. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. em cenas de caça na terra de ninguém. da personagem mal conhecida por recém-chegada. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. falso alarme. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. Novamente o mundo sem sons. a miséria do rancho. caçadores nativos. projéctil. Mina. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . em cujas margens coexistem por vezes. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. despejada a eito.da pátria. encosta abaixo. a angústia do afastamento familiar. É Naschinguyeia. minas anti-pessoal. o nosso direito e o nosso interesse. ataque? Nada. o medo da guerra. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. Mais distantes. crocodilos. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”.

em 1963 e por último em Moçambique. acediam à independência. Uma contínua e continuada mistificação. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. em véspera da 296 . que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. em 1964. depois na Guiné-Bissau. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. piscando o olho aos americanos e à NATO. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. quando as ex-colónias inglesas. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. em Abril de 1961. em Junho de 1960. transferindo-se para Dar-es-Salaam. holandesas. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. belgas. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. Franco Nogueira. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. em 1961. primeiro em Angola. no Tanganica. francesas.impérios asiáticos. um ex-ministro de Salazar. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. afogou as pretensões num banho de sangue. o mito da defesa do mundo ocidental. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. com mais de 50 mortos. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco.

No final desse ano. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. Em Nairobi. No interior de Tete. no Quénia. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. A realização em Marrocos. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. começando a derrocada do império colonial português. futuro grande estratega militar da luta de 297 . tratava-se de um movimento heterogéneo. segundo os próprios. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. em 19 de Dezembro de 1961. com diferentes sensibilidades e perspectivas. independente desde 1958. foi criada a UNAMI . Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. Como nos restantes casos. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens.União Nacional de Moçambique Independente. com mais ou menos expressão.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. Damão e Diu. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. da 1ª. Marcelino dos Santos e Uria Simango. em inícios de 1961. em Maio de 1961. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. moçambicanos da etnia maconde.

* Eduardo Mondlane. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. finalmente. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. bispo de Vila Cabral. em 1971. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. pelas tropas em acções de represália. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. primeiro presidente da Frelimo. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. Congresso em Setembro de 1962. Ao fim de quase 500 anos. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. unificado a partir do 1º. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. e no vizinho distrito de Niassa. Após 298 . das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. simultaneamente em Cabo Delgado. O conflito iniciou-se em 1964. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. com um ataque ao posto militar de Chai. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica .libertação: Samora Machel. capital do Niassa.

moçambicano de origem 299 .breve passagem por Lisboa. Joaquim Chissano. Tinha chegado a Dar em 1963. Janette. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. em risco de ser preso pela PIDE. em Março de 1964. um período de grande vitalidade da Frelimo. entre outros. Instalada em Dar-es-Salaam. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. seguiu Samora Moisés Machel. o tenente Jacinto Veloso das FAP. no extremo nordeste de Cabo Delgado. Por essa época. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. Pascoal Mocumbi. nomeadamente Julius Nyerere. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. iniciando com Marcelino dos Santos. a Frelimo teve um início de vida agitado. que casara com uma americana branca. Eduardo Mondlane. após uma espectacular deserção. capital do Tanganica. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. só em Março de 1963 se radicou em Dar. Professor na Universidade de Siracusa. Leo Millas. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro.

O seu presidente Banda. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. Mondlane convidou Helder Martins. Lázaro Nkavandame. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. a funcionar na capital argelina. O seu líder tribal mais carismático. comum na região setentrional africana. para se juntar à Frelimo. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. em Setembro de 1964. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. outro moçambicano branco. em Fevereiro 300 . médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. Perseguido e preso pela PIDE. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. Também por esse tempo. de passagem por Argel em Março de 1963. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Mais tarde em 1965. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato.branca a juntar-se ao movimento.

por não terem armamento pesado). conta a história do movimento de libertação.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. onde reza a lenda. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. a 301 . verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. Desde o primeiro ataque a Mueda. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. a luta alargou-se rapidamente. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). base da alimentação. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. No mês de Fevereiro de 1965. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana.

EUA e URSS. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. num Moçambique livre e independente. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. Foram então nomeados. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. total e completa. ─ Independência de Moçambique. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. que garante a sua unidade interna. e à exemplar democracia americana. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964.

onde o regime do “apartheid”. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. em Novembro de 1965. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. ZANU e ZAPU. decretando sanções económicas e políticas. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. É a resposta às forças portuguesas que. em Moçambique. veio complicar o xadrez político na África Meridional. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. Salazar fazendo jogo duplo. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). uma nova frente na região de Tete.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. a sul. 303 . em Moçambique. na Namíbia. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. condenada internacionalmente. em 1967. na Rodésia. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. Em Abril de 1966. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. Neste contexto.

quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. Em Fevereiro de 1968. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. enquanto um soldado ganham um!). aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações).Na região de Cabo Delgado. O movimento moçambicano está já então bem organizado. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. o padre católico negro Mateus Gwandgere. Mtwara. Kingwa. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. no célebre campo de Naschingwea. Viveu-se à época deste congresso. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. alvo por vezes de assaltos surpresa. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. (ganham dezasseis contos por mês. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. passando a partir de 1966. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 .

As palavras só têm significado para os 305 . são um imenso caldeirão prestes a entornar. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral .. Moçambique. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. África do Sul. em Dar-es-Salaam. Em Fevereiro de 1969..). Em visita às colónias em Abril de 1969. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. sem sentido histórico e sem significado real. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. Em Portugal. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Namíbia. E foi a PIDE. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. onde vivia com a mulher e três filhos menores. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. sem um claro vencedor.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!.

reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. e. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. para comandante-chefe. para Angola e Moçambique. é eleito presidente Samora Moisés Machel. em Moçambique. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. sacrifícios extremos. custou esta 306 . um militarista ultrareaccionário. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. morte. O movimento de libertação está mais forte. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. um dos fundadores. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. sangue. No dia 1 de Julho de 1970. respectivamente. coeso e organizado. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. em Maio de 1970. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. A história e o tempo jogam a seu favor. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens.

milhares de combatentes. muitas apreensões de armas. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. pomposamente exibidas na RTP. 307 . A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. na acepção militarista. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. dinâmica. também houve muitas vitórias. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. de centenas de estropiados. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. bem organizada e com uma forte retaguarda. Praticando o extermínio por onde passava. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas.

corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). Silva Cunha. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional).. Aguardavam os restos garantidos da refeição.).. 308 .A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. o ministro do Ultramar. Como resposta. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. a fingir de refeitório. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. crime (milhares de mortos civis e militares). com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. prometendo acabar com o “terrorismo”. ficou-se pelo quilómetro vinte!. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). O conflito colonial em Moçambique. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). montada debaixo do grande embondeiro. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). diria outro retinto situacionista. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos).

outros nada.. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa.. o pai morreu na guerra. Quatro. 309 .. Alguns já tinham comido sopa do rancho. oito ou nove anos. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. passa a ferro e não leva caro. Vinham quase todos da aldeia macua. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. cinco anos.. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. ─ Então não conheces a história? O pai deste.. Como te chamas? ─ João.. Lava. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. sobretudo os da “fofoca”. ─ E o pai?. de carapinha escura. que também está de partida. eram raros os garotos vindos do lado maconde. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. dez escudos por mês! Vive com a mãe. com as suas tatuagens características. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro.entretidos em brincadeiras de ocasião. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. precisam de ajuda!. sinhô! ─ desviou a cara. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável... A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado.

com telhado de colmo como as outras. consta que ele é casado na metrópole. mas com paredes rectangulares de madeira. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. ─ Pois é. ─ É a Teresa! Não te dizia!.. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. transportado às costas como era uso. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . radiante na sua prometida função de cicerone.. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!.. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. repuxada pelo filho mais pequeno. aflito com o rumo do negócio..─ Curioso!. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. que está nos GE´S. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. de forma menos tradicional..

─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. Gritava de modo incompreensível à distância. magro. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. Já escondido. em terras de mistério e desgraça. ou porventura devido à língua entaramelada. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. na África sedenta de liberdade. só perturbada pela desgraça dos homens. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. a metrópole era Portugal. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. ─ O furriel tem andado desorientado. mas achou prudente não se manifestar. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. em genuíno desabafo de revolta. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. sempre a gritar e a gesticular. calças pretas.João estava tentado a corrigir o vocabulário. qual dono de escrava. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. com um fardamento esquisito. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra.

A cena degradante repetiu-se à porta da casa. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate.. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. Os homens deviam estar a descansar da guerra. Notava-se pouca actividade. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. O “negócio” era do lado da aldeia macua. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. ─ O homem está com ciúmes. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. onde este tipo de assuntos era mais propício. visivelmente amedrontado. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. mas nenhum queixume. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar.timorato o rapaz de estatura baixa. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. cercado de arame farpado e minas. obrigado! Tenho outras preocupações. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas.. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. cor amarelenta e barba mal escanhoada. 312 . enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul.

─ Há lá velhotes porreiros. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível.. e por isso hesitou 313 . ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. onde já anoitecera. como degradante era todo o ambiente da guerra. Só não sabia. ocorreu à imaginação do soldado castigado.. a sua comissão fora penalizada em três anos. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. Nas circunstâncias. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. O cabo Carlos. Se é que essa seria a “estória”. não seria muito prudente. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. A frase soava ordinária. ─ Porque se sujeitará Teresa. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. ─ Logo se verá. não há pressa. já os tinha mencionado. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo.

sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. caramba. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. raramente encontravam alguém da guerrilha. ─ Isto é uma guerra. A hipótese de não rodarem. na perspectiva de descerem para Sul. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. criava um estado de espírito muito negativo. somada à saturação de sucessivas saídas e. era que de há anos àquela parte. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. os homens estão muito desgastados. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações.calado e pensativo. a raiar a exasperação e a revolta. 314 . o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. gerava uma enorme frustração que. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. ao fim de um ano de “trolha”. à enorme angústia pelos mortos. sobretudo.

Osvaldo Tazane. único do povo moçambicano. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. Filomena Nashak. militarista e reaccionário. contra o que chamavam. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. a relativamente inepta tradição colonialista. entre outros. Em contrapartida. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). José Moiane. Monica Chitupila. Sebastião Mabote. Bonifácio Gruveta. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. eram os outros 315 . O movimento nacionalista. por um comando supremo todo poderoso. Raimundo Pachinwepa. Armando Panguene. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. “travestida” de serviços de informação militar. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. Alberto Chipande. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. Mariana Pachinwepa. sob o comando supremo de Samora Machel.

Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. em Julho de 1973. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. em português. por milhares de manifestantes. “A fogueira do guerrilheiro”. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. A sorte da guerra estava traçada! 316 . nos confins de uma África inóspita. ensanguentada e sedenta de liberdade.vectores fundamentais da situação político-militar. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. Grupos de soldados portugueses.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. no dia 1 de Janeiro de 1969. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. em Lisboa. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. atenta e preocupada com os ventos da História. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Felicidade Alves. Diminuía a base social de apoio ao regime. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. por oposição à guerra. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. 318 . em protesto contra a “política ultramarina”. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. Domingos. apostólicos e romanos”. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. e em Portugal. muito “católicos. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. Dia Mundial da Paz. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. MPLA e FRELIMO. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. durante a campanha para a Assembleia Nacional. da diocese do Porto.

nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. no 3º turno de 72. Santarém. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. “Levantamento de rancho”. “Não jures camarada!”. Lamego. No início da década de 70. no 1º turno de 72. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. arrancados às escolas. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. embora negando os factos. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras.. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola.. publicado nos princípios da década de 70: . protestos na parada. Santarém. em 1972. 319 . “Alerta camarada!”. no 4º turno de 1971. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. organizada unitariamente. em 1971. em 1971. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. e outros mais No panorama internacional. Tavira. entre outros. Vendas Novas.. e os Estados Unidos.. nos quartéis. ameaçando:. nas escolas. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. na organização da resistência e do combate internos. Tavira. dentro do “ninho de víboras”.

Guiné e Moçambique. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. como resposta a agressões vindas do exterior”. próximo da fronteira. a proclamação. ao perceber o fim inexorável. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. e em Abril. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. Enquanto isto. encontra-se. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. para breve. Em Outubro do mesmo ano. ainda que por novas vias. o Conselho de Segurança da ONU. No essencial tudo fica na mesma. Entretanto. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. o combate não esmorece e. Ainda assim. O alcance da iniciativa é inteligível. com o objectivo de “legitimar a guerra. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. em Outubro de 1972. em Março de 1973. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. Mas a luta de libertação está muito avançada. António de Spínola. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. com Leopold Senghor. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. os 320 .“ajustando” a estratégia. Na Guiné. da independência da Guiné. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres.

que Marcelo Caetano. Quanta gente. fartos de guerra e do militarismo fascista. organizadas como um “exército regular”.“Strella”. Um mês depois.. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. ficaria ainda ferida ou estropiada. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. derrotado. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. não pode satisfazer. numa zona libertada. em aumento crescente. empenhado há tantos anos na luta pela independência. em Agosto de 1973. havia o “inimigo interno”. que a guerra de libertação é invencível. as forças guineenses combatem por todo o lado. percebendo finalmente. sem nunca o confessar abertamente. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. conversando e trocando novidades. de aquartelamento em aquartelamento. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. acossado. reparando rádios e antenas. Havia o In. perigosamente de terra em terra. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. Spínola. todos aqueles que iam 321 . passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. o PAIGC proclama em Madina do Boé. a independência da Guiné. no entanto. KAIOMBE DE JIMBE. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. em Setembro. A guerra entrava numa fase derradeira.

bem.. Mas ainda havia quem. carroça mal puxada! revolta-se!. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. nos princípios de 1974. na Região Militar Leste.. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. mas como muitos outros. Além da agricultura de subsistência. pertencente ao subsector do Cazombo.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!).. – Bem. procurasse puxar a “carroça”. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. besta contrariada. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola.. Já se sabe o resultado. Não era mau rapaz o furriel. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. foi só um desabafo. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. arreando forte na besta. na vila de Jimbe. furriel. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar.

que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. agradado com a tarefa. era uma realidade também em África. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”.! – o furriel. onde aquela estava montada. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . trabalhado na feitura de peças artesanais. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”.. – Esperem aqui. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. Afinal. – Venham comigo. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa.. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. com frequências próprias. onde vivia pobremente a população indígena. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício.e políveis. Devia ser problema na antena. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. o problema não era do rádio propriamente dito. os chamados “flechas”. solicitaram a reparação. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. com duas ruas paralelas.

De volta ao quartel. e outros. causando-lhes horríveis queimaduras. completamente expostos aos elementos. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. Laia. rumo à África do Sul racista. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. tratava-se de um habitante da zona. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. de nome Kaiombe. com as O pide da retirou-se antena. o agente António Camelo. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. apagar os charutos no corpo dos presos. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas.jovens militares estarrecidos. mas suspeito de apoiar o MPLA. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. Alguns meses depois o pide Camelo. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. Lontrão. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. que deviam doer horrivelmente. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. Casimiro. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. tinha por desporto nos interrogatórios. ficaram a saber que o chefe do posto. Vaz. ou no célebre batalhão “Búfalo”. apanhado no mato pelos “flechas”. Perturbados e confundidos. momentaneamente. autênticas jaulas de guarda-bichos. No caso vertente. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. solicitado para outro qualquer assunto. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. Trindade. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. Morreu passado pouco tempo. participante na invasão do solo angolano independente. 324 . alegadamente à caça.

A situação de tensão decorrente da guerra interminável.. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. e as de dezenas de milhares de autóctones. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. Essas vidas poupavam-se. da revolta activa de muitos milicianos 325 .. guineenses e moçambicanos. ou reforma dos ex-combatentes. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. prendeu. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. Neste sentido. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. perseguiu. Significa que entre nós o crime compensa.Face hedionda do sistema colonial fascista. como em Portugal. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. que em África. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. porventura numa escala muito maior. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados.

o general fascista não parava de conspirar. futuro militar de Abril. – Em 1 de Dezembro. como ministro do Ultramar. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. composta por 19 elementos. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. o general derrotado na 326 . princípios de 74: – Em Novembro de 1973. entre ultra-reaccionários. – Em Fevereiro de 1974. António de Spínola. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. em Óbidos. com mais homens. Regressado de Moçambique. – Por esta altura. mais meios logísticos. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Dezembro de 1973. conservadores e liberais. em Julho. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. cada vez em maior número. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. homem da sua confiança pessoal. embora unidos no essencial. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. com o conluio do recente ministro Silva Cunha.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. reúnem-se novamente os oficiais subalternos.

– No dia 5 de Março. em vão. os oficiais-generais. transmitida pela RTP. Costa Gomes e Spínola. para reflexão. convidando-os. O professor fascista “demo-liberal”. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. em directo. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. Vinha de um retiro no Buçaco. o “Movimento dos Capitães”. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). a chamada “brigada do reumático”. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. a assumirem o governo.Guiné. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. reafirmando a disposição de não ceder em África. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. – No início de Março. – Nesse mesmo dia. A “coisa” está para breve. 327 . reúne-se em Cascais. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. publica o livro “Portugal e o Futuro”. Família. para todo o país. Pátria. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional.

alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. Caetano. Desta vez. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. – Deixa lá a guerra. meu sargento. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. em trânsito ocasional. com as missivas dissimuladas.. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. O velho sargento. solidários. em fins de Março. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. grande dinâmica unitária do movimento CDE. naquele promissor Março de 1974. no regresso de férias. amor e esperança.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. animadas pelos comunistas. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . divertido e perspicaz. – Cartas de amor e guerra. com frequentes “extravios”. e prisões. o sargento-ajudante “Mafra”. livro de António de Spínola.. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. Os amigos. greves na cintura industrial de Lisboa. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. “Portugal e o Futuro”. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. chalaceara à partida.

. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março.. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. (. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica.. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. em Julho de 1973. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim.. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. depois de castigo disciplinar). refere a coragem dos revoltosos.) Amor querido. Hastings.. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto..). como costumas dizer”(. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro.. apesar de inconsequente.(.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. denunciados ao mundo pelo padre inglês A. Margarida. INHAMINGA A SUL. Não foi ainda!... com um enorme impacto 329 . Mais cedo do que tarde.

.mediático. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel.. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. sempre a alinhar! – Boa sorte. acompanhados por dois cineastas e um repórter. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. Algumas semanas depois. no caminho estratégico para a Beira. 330 .. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. é palco de uma crescente perturbação subversiva. amigo. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. esta zona onde aquartelámos.) “Afinal tinhas razão amigo. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias).! – Nada que se compare com este inferno. Havia notícias desde Julho de 1972. Oficialmente configurava uma acção por focos. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. A situação é deplorável.. para onde a companhia independente tinha rodado: (. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. era ou mato ou morro.

a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. A tropa regular. iria assistir e nalguns casos participar. em autênticos massacres. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. lançava o pânico. onde o terreno estava relativamente “livre”. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. A sanha perseguidora. Depois do Verão de 1973. torturando e eliminando patriotas. em Tete. vinda da guerra no mato. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. massacrando ferozmente populações. Estas denúncias referem milhares de 331 . prendendo sobas e régulos. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. Entravam e saíam carros civis e militares.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. Nos últimos dias de Julho de 1973. nas hostes colonialistas.

por cegueira. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. como na localização das bases Nampula. terem essa atribuição). pela PIDE. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. mesmo depois dos seus rotundos fracassos.mortos. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. 332 . com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. Gungunhana e Moçambique. e nas Colónias. No estratégico caminho da Beira. a alta hierarquia militar. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. originando dezenas de milhares de deslocados. geralmente odiada. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. durante a operação Nó Górdio. adivinhado naquele início do ano de 1974. conveniência ou por convicção. com homens de “antes quebrar que torcer”.

Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países..O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974.. com foguetes terra-terra de 122 mm. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. da Namíbia. A explicação não tardou. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. a norte de Moçambique. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. Mesmo tendo diminuído as 333 . em plena luz do Sol.. – Têm fardamentos bonitos!. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando.. de 19 a 22 de Abril de 1974.. amarelas. podiam ver-se muitas estrelas. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. – São “patentes” da África do Sul. azuis. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. do Brasil. dada pelo chefe da secretaria. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte..“Strella”. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. padre José de Sousa àquela área. significando tratar-se de militares de patente elevada... da Rodésia. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. cinzentas e verdes. incluindo aquele..

?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação.. em 1971. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . retiraram-se à procura da refeição frugal. Na messe dos sargentos. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. os aviões de abastecimentos tinham rareado. a comida escasseava. de serviço à pista. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão.. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. comia-se em dois turnos. Zambézia. o correio andava atrasado quase um mês. após uma grave crise de desnutrição. digna de registo. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. Com as últimas garfadas. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. não estava pronta: – É um “Dakota”. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. tal como há três meses atrás. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. Manica e Sofala. onde João fora aboletado por determinação do comandante. após a operação “Nó Górdio”. depois do caldo aguado. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos... – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma.

– Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. os “Strella”. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. Por favor.. atingira-se uma situação alimentar muito precária. – Calha bem. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. ainda fumegante.. virando-se para a comitiva tagarelando. Em princípios de Abril de 1974. são 13 horas e o almoço arrefece!. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. Num repente. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. com o 335 . vamos tentar uma aterragem de emergência. a aeronave subiu muito alto. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. Agarrados aos frágeis bancos de lona.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. Depois de levantar voo na pequena pista. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”.

. em rápida aproximação da terra. gritando o desespero da hora derradeira. No interior andavam todos aos trambolhões. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. A pista de terra batida e cheia de buracos. não permitiram uma boa travagem. fora feita para receber os pequenos monomotores. 336 . A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. a unidade militar mais próxima. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. o avião meio destruído. prevenindo-a da emergência.motor restante acelerado ao máximo. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. vamos “dançar” um bocado. travando a fundo os rodados. – Tenente. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. quando se aperceberam da situação. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. e a falta do motor. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. imobilizou-se por fim. O piloto-chefe informou via rádio. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974.. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. a exigir a elevação do “nariz”. em Diaca . O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. fazendo um barulho ensurdecedor. abandonadas à pressa pelos indígenas.

cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. por não haver condições democráticas. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. No dia 6 de Abril de 1974. vinda do Sul para estudar. onde decorria uma participada assembleia de democratas. dos trabalhadores. Coordenando a luta legal e semi-legal. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. dos estudantes. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. recebidas com grande apoio popular. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. depressa se envolvera na luta pela democracia. 337 . a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. e desmultiplicava-se em acções de rua. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. da intelectualidade progressista.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos.

estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade.. dependurado à cabeceira. à porta da cela onde 338 . mas se soubesse fazer poesia.: “.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso.. doendo no corpo e na alma. Custava-lhe magoadas. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. tão Não teve tempo de completar a leitura. Faremos dele a nossa canção de luta. escrito na pedra ou no vento.. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. Amo-te querida esposa. A morena de olhos escuros dos genes árabes.. sublime e autêntico. gostava de escrever um poema assim. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. – Minhas senhoras. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. o desejo. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(...)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. cresce o amor.. onde quer que viva onde quer que morra. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. será o grito de revolta. tê-lo-ei sempre comigo.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. não sei qual a sua fonte de inspiração.. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante.

a ala dos interrogatórios e das torturas. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. mudando o tom.. – Isso não sabemos. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. como era uso. “Poemas de amor e revolução”?!. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. o estrato humano em presença. 339 . decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. Era outro.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. Eram ordens. Decisão temerária e esforço inglório.. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se.. – É o regulamento... completamente. – São cartas do meu marido que está na guerra. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia... Muito interessante. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. minha senhora. entretanto regressada dos lavabos. A carcereira às ordens da PIDE. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. a morena de cabelos em franja. Não tivera tempo para mais hesitações.. porém. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. apenas recebemos ordens para as transferir.

em Lisboa. – Foi detida no princípio do mês.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. 340 .. Era preciso arrumar as ideias. – Vais ver. – Se pudesse ia para lá já hoje!. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. com data de há dois dias. Lágrimas reprimidas mas teimosas. – E agora. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. nem sabia bem. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. que vais fazer? – questionava o Pedro. produto da fé dogmática. Depois ressuscitou! É verdade. na caserna pobre e alheia às vicissitudes.. com a miúda pequena!. analisar a situação. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. numa reunião da CDE. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. prostrado. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. sinto-me atado de pés e mãos. Aqui neste fim do mundo. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche.. por minutos ou por horas. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão.. não vão detê-la por muito tempo.

as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João.. de quem tinha um filho também pequenito. nas mesmas picadas. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. a Manuela conta-me de uma grande agitação social.. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”.. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. agravado por um quotidiano de misérias. sem saída previsível. Algo paira no ar!. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. com o parlatório de permeio. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. 341 . mal a conheço!. Aquilo lá está complicado. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. a guerra prosseguia sem fim à vista. que avançavam lentamente.. – Pedro referia-se à esposa. greves nas fábricas!. – É tempo de derrubar o fascismo. lançada à dois anos pelo general fascista..Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. – É da idade do meu.. frustrações e medo.

No presente. Já quase chegavam para a casita nova. mal alimentados. fazia parte da orientação do In. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. somados na terceira ou quarta comissão. mal instalados. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente.. em 25 de Junho de 1975. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”.. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . talvez o enorme campo de aviação. a bem da moral psicológica das populações.”. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. mas que era por vezes motivo de incidentes. apto a receber grandes aviões. diziam as vozes do desânimo. que não matavam mas moíam bastante. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências..entretanto afastado. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). perdidos no meio da burocracia conveniente. Aliás. da contestação e da revolta.

esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. com a arma cruzada entre os braços.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. mas às vezes não!. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra.. – Ai minha rica mãezinha. quando o pânico perturba a racionalidade. desde que começou o ataque às 8. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. estão em calções 343 . a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. encarregada da segurança daquela área. Pela primeira vez em pleno dia. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. debruçados no parapeito da vala.. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. Companhia de Caçadores. É o décimo.

Na reacção. tinha decerto instruções hierarquizadas. a responderem ao bombardeamento: 344 . pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. a meia encosta. Restava a vala-trincheira já superlotada. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. enquanto o chefe não chegava. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente.. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. onde psicologicamente o susto era menor. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. na direcção da pista de aviação em eterna construção. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco.e tronco nu porque o tempo contínua quente. na direcção do posto de artilharia da unidade. A excepção foi o comandante do aquartelamento. arrancando resoluto no jipe. pensava-se inicialmente. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. Na secretaria do comando. entretido a escrever à máquina um aerograma.. ser um normal rebentamento na pedreira. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. de 8 e 14mm.

O furriel Costa continuava imperturbável. ribatejano. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. filho de pequenos agricultores.. “arrancado” à escola superior de agronomia. pá! Por pouco!.. a menos de 50 metros. – Pois não. permitia concluir que ainda estavam vivos. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 .. Olha se caísse aqui?!. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala.. – Ena. com a G3 entre os braços. ao fim da tarde. que “quando se ouve é bom sinal!”. Aprendia-se nas conversas de caserna. Havia uma pequena pausa no ataque. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. é relativamente inofensivo.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo.... Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. a mais de cinco quilómetros. mas a tremenda e instantânea confusão. não morreu um gajo no ataque a Palma! . atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”.. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. sempre de cócoras. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. Outra vez a voz calma do furriel Costa.

O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros.. já se via muita gente de pé. A resposta da artilharia esmorecia também. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. fica atenta às notícias da telefonia!.os anteriores. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. as munições deviam estar a escassear. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . No dia 4 de Abril de 1974. só estragos materiais. durante uma hora e vinte minutos. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. No seu jeito brincalhão característico. – Venho estafada. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. traduziam um intenso pavor. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. Os olhares cruzados naquele instante. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. a pontaria estava agora muito alta.. Nove horas da manhã.

prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. distendendo os nervos. onde começara o namoro e. O comboio da linha fora a primeira etapa.. ao rever o local à beira-rio. nos novos caminhos da liberdade precária.. rapariga! Descansa. Não te preocupes.. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. a jovem mulher com ar cansado. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. – Vai-te deitar. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. mesmo em dias de borrasca. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. sem objectivar. pela primeira vez em muitos 347 . bem precisas. no “Abril em Portugal”... trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. sempre lindo. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política.. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. Amanhã logo saberás quando acordares. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. – Como foram os interrogatórios.e não queres que durma? Sorria. Conhecendo o ditado das “águas mil”. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. em vias de se tornar definitiva. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. se se cumprisse a movimentação preparada.

a esta hora já estão em casa com as famílias. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. desde a partida do marido para a guerra. – Não tenho nada a declarar.. horas e horas de angústia.dias. Novamente a insídia do inspector superior. nada mais tenho para dizer! – Ah. sorriu. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista.. Como estaria o seu João. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. a mostrar serviço na presença do superior. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. – Responsáveis fomos todos. “visita” diária desde o primeiro dia. – empertigou-se o chefe de brigada. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. onde vivia com os sogros. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. sobre as 348 . demasiado tempo! Fora um transe muito difícil.

em catadupa. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. houve qualquer coisa em Lisboa!. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. onde cabia toda a candura do mundo. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. com um sorriso como não via há muito tempo. Por fim desistiram. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia.. após quase vinte dias de interrogatórios. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. Um último pensamento foi para o companheiro distante. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. e só regressou exausta de madrugada.insinuações em relação ao companheiro. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. na hora de tentar conciliar o sono. alegre por rever a mãe. a saudade roendo o corpo e a alma. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. Finalmente! 349 . Numa das vezes..

– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.. 350 ..

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