A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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o autor adoptou uma estrutura mista. e que assim. deixo ao leitor. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. indiscutivelmente. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. Essa foi. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. de algum modo. quer na dinamização do 25 de Abril. quer na rápida solução do conflito. Respeitando essa intenção. Marcharam esses 8 . No centro de instrução em Mafra. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. infelizmente. que nisso estiver interessado. para dentro das fileiras das Forças Armadas. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal.

o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. Exactamente ao invés do intelectual burguês. de ensinar. etc. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. nomeadamente o historiador académico professoral. É esse o período de 13 anos e 3 meses. Damão e Diu). Angola. Guiné. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. desprezando a evidência dos factos. De acordo com o seu propósito didáctico. Na realidade. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. a petição de princípio. a crise académica de Março de 1962. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Não se trata. cujo método é. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). o autor intercala dezenas 9 . entenda-se. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. Moçambique. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”.milicianos. para os três teatros de operações. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. por norma. Logo no capítulo 2. O narrador acompanha-os. por exemplo. estende-se entre 1961 e 1974. O regresso dos militares feitos prisioneiros. ignorando-os ou afeiçoando-os. graduados em oficiais ou sargentos. Longe disso. isto é. em Maio de 1962. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. Entretanto. perante as forças da novel República Indiana. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista.

invocar essa memória já constitui. Em tempo de escuridão. quer no país europeu. quer nas colónias em guerra. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. reconforta a alma. por estes democratas da 25. pois repara muita injustiça). de forma modesta e aparente singeleza. Dos comunistas em primeiro lugar. Nos tempos presentes. contra a opressão fascista. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que.o livro agora publicado. Um estado dentro do Estado. devemos ter orgulho nesse 10 . novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. quando se perfilam em Portugal e no mundo. por si só. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. que fazemos um povo.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. nesses anos finais. despidos de ambição pessoal. algumas extensas de dez páginas. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. Mas todos.de resenhas de carácter histórico. tantas vezes heróico. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. um acto de resistência. é justo assinalar. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. como bem observa. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. (Mais que justo.

E. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . permitam-me. Lisboa. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. comunista de sempre. não devemos esconder esse orgulho. mobilizado para uma Guerra Colonial. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio.passado pois é parte e espírito da nossa História. que nunca aceitou como causa sua.

As memórias da realidade. as mágoas persistem. o romance. teimosamente persistente. a ficção baseada em factos reais.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola.. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. vivê-la com as 12 . é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. dos seus incrimináveis mentores. e da “vitória ser rápida”. perene. Estes ensinamentos da nossa história. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. Nunca é tarde para perceber. definitiva. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas.. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. porquê? As memórias esvaem-se. compreender a guerra por dentro. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente..

Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. A luta de novo tipo. 13 . contra os mesmos incorrigíveis franceses. o terror. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. É este. ouro sobre azul. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954.angústias. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. que faziam emboscadas. além do mais. a cobardia. a nobreza de carácter. Guiné e Moçambique. o desiderato deste livro. as solidariedades. a amizade. a revolta e a coragem. e. mas agora. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. os medos. flagelações e punham minas nas picadas. as tristezas. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico.

mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. iludindo os portugueses.. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. Os que regressam de África ─ os 14 . não tivessem nascido. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. Como se Agostinho Neto.. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas.. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. deturpando. Como se não existissem 400 anos de dominação..) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. escravatura. o “Avante!”. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. na rádio e na televisão (também no cinema!. próceres de Salazar e de Caetano.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais.Os fascistas e militaristas. órgão central do Partido Comunista Português. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. procuraram elidir as questões fundamentais.

nomeadamente: fuga à tropa. Os protestos. de objectores. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. que ousassem levantar a cabeça.º 322. o Presídio Militar de Elvas. Em Portugal. as lutas e deserções multiplicam-se (... promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. de Outubro de 1962. de presos por revolta ou protesto. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. n.desmobilizados. procura um caminho para se manifestar. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. constituindo um feroz. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. A amargura. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. * 15 . o Batalhão Disciplinar de Penamacor. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. até ao 25 de Abril de 1974. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros.). A recusa podia revestir diversas formas.

Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. o tratamento desumano de prisioneiros.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. entre os jovens fardados. de preferência em grupo. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. a violação de mulheres. As suas 16 . Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas.. obstou o crime horrendo. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. sob todas as formas. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. o assassínio gratuito. nas empresas. massacres. nas escolas. que tudo pervertia e até fazia assassinos.. dependia a aceleração do fim da guerra. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. e os que estavam convencidos que da sua acção. Tarefa complicada sem dúvida.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. profissionais do quadro permanente não desumanizados. torturas e morte. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. deviam ir à guerra e uma vez aí. deturpada e mentida. os melhores.

neputismo. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. “Abaixo o Fascismo!”. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. e o “Movimento das Forças Armadas”. as suas manifestações e lutas. seus inimigos figadais. a “soldo de potências estrangeiras”. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. e o. no movimento democrático. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . o “Movimento de Capitães”. ainda que pouco (re)conhecido. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. primeiro. tentavam por todos os meios (cunhas. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. nas escolas e nas ruas. por outro lado. nos locais de trabalho. Os comunistas. compadrio.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. “anti-patriotas” por definição. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. às vezes mitificadas. com profundos sentimentos anti-guerra. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. A sua opinião crítica. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. suborno. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. iam para a dita. tráfico de influências. nas colectividades e associações. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. depois. * É incontornável.

e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). torturas até à morte. perseguiu. 18 . torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. sobre a Academia de Coimbra. (politicamente activo). lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. vigiando. Espancamentos brutais. excluindo. de contestação e de revolta. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. em 1969. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. em estreita ligação com os meios militaristas. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral).A. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. fichando. Uma questão central da guerra em África. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. despromovendo. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. perseguindo. prendeu. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. a PIDE/DGS humilhou. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. Em África como em Portugal. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. o título de P. castigando e quiçá matando.Estas profundas contradições no seio do regime.

Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. Salazar dera orientações nesse sentido. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo.guineenses e moçambicanos. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. a guerra colonial foi calculadamente 19 . com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. a chamada guerra subversiva. Significa que entre nós o crime compensa. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50.

Era assim para Oliveira Salazar. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. evidentemente. com a outra mata!”). naturalmente. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Holanda). França. Franco Nogueira. Américo Tomás. para que o poder político encontrasse uma solução. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. muitos destes nas Forças Armadas. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. Silva Pais. Bélgica. por certo. Kaúlza de Arriaga. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. por questões de classe e de interesses individuais. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. Mário de Figueiredo. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. Com determinação e sentido histórico. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Silva Cunha. não permitia saídas do tipo neocolonialista. e uma multidão de títeres do regime.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. 20 . pelos valentes capitães com o apoio popular. devido a interesses económicos e empresariais. Marcelo Caetano.

Essa seria a única. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito.. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. naturalmente. a derrotar todos os “senhores da guerra”. a guerra colonial não acabará nunca!. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. com as marcas irreversíveis no corpo. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. Que este livro de inquietações. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. África jamais será esquecida. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial.. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. Para os milhares de feridos e estropiados. do passado ou da contemporaneidade.

que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. “Katangas”. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. será a nossa maior satisfação. etc.Jorge Jardim. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses.. perpetrando matanças descabeladas. o coronel João Varela Gomes. Flechas. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. Em última análise. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados.). para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. Barreiro. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . mesmo em frente da paragem do eléctrico. Pouca gente na rua. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. não vá andar algum "bufo" nas imediações. Bom. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. Embora não seja novato naquelas andanças. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. ficar na paragem não é prudente. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". sempre com muita gente azafamada. É preciso voltar no recurso. a nova ligação é importante. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. O "28" chega vagarento e ronceiro.arranca desiludido. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. há iniciativas dependentes daquela conversa. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. Aquela é a única carreira que por ali passa. Passam cinco minutos da hora combinada. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. à espera do sinal précombinado. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes.Horas de jantar.

Bento. Rua dos Poiais de S. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. vai caindo em descrédito. o telejornal está a começar. Bento. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. desoladora. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. António de Spínola.. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. O populismo do governador do monóculo. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. Pelo som. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. a querer roubar-me os "tomates"!?. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. mal iluminada.─ “Olhá” desavergonhada. Calçada de S. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. a rua entristece-se. Sacudir as teias é preciso. capital de um império de "faz de conta". Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . inóspita. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto.. o eterno mistério das trevas. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. sorvedouro de homens e de recursos. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael.

Contradições do sistema. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. aproximando-se inexoravelmente da cidade. Pela porta de uma taberna escura. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. da chamada ala liberal.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. D. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha.. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário.!? Bom! Carros pretos há muitos. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. durante o "minuto conspirativo".. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid".. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial.. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. Carlos. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . Av. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. na reunião matinal. mas hoje precisamente.

Kaúlza de Arriaga. colocada num canto superior do estabelecimento. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!).Górdio". com populações civis sacrificadas. e das imensas contradições em que o regime se atolou. no norte de Moçambique. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. condenações de Portugal na ONU. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente.

não sei se estão a perceber!?.. que teria a capital em Madina do Boé. convicto da orientação política traçada.” Madina do Boé. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras. na tropa há seis meses. o rapaz magro e alto. o jovem moreno e bem vestido..africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. será alienada. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas.. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África.. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. ─ clamava exaltado no calor da discussão. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame.. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. ajudando na consciencialização. envergando roupa de tons escuros. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969.. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. 28 . na Guiné. em Setembro de 1973. não!?.

. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria.. nos aquartelamentos. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto. na distante. acendeu paixões e afivelou rivalidades. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. Não era fácil convencer quem. sentindo o cheiro a pólvora. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez.. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné.. * Chegara ao grupo discretamente. mas simpática e graciosa. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes..regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . mas a coisa pode radicalizar--se!. Este sentimento corria os quartéis. paradas. ─ o camarada João. sabia do que falava. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. Grande bronca! . O mesmo sentimento alastrava nas repartições.. casernas. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. nos postos avançados. Aquela forma de estar. bigode farfalhudo e sotaque nortenho..) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes.. algo distante e compenetrada. quero ver como é!. motivadas por razões corporativas. e.

escuros e sorridentes. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra.. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . cigarro nervoso entre os dedos. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. No pós Maio francês de 1968. incorporava o regime. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. risonha e muito extrovertida. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. um aspecto tristonho e sério. ─ Portugal é a última potência colonial europeia.. de barbicha. propiciava radicalismos. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes.

. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. ─ Fazem favor de se sentar. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. ─ Ora essa. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. não temos pressa!.. como acontecera de outras vezes. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . mas o momento era de grande frustração. ansiedade. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. de perna curta. senhor ministro. Naquele início de noite estavam só os dois. ainda não respondeste ao meu pedido. ─ Sabes? Eu … eu. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. Cumprimentos da praxe. de avanços e de recuos. ─ Escuta. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada.. normalmente acompanhados.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto.. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. A luta era feita de vitórias e derrotas. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação.

lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático.e uma cadeira de espaldar alto. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças.. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. contra a ditadura política. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . da GNR e da PIDE. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. sem vacilações! Fazem greve em Julho. no início do ano lectivo de 1969/70. O Ministro da Educação. Uma actuação firme. no topo. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. a que os estudantes chamavam 32 . boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. Ao fim e ao cabo. A crise académica na Universidade de Coimbra. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. O País animou-se em expectativa. Universidade. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães".. Milhares de estudantes em desobediência civil. telefone pousado. acompanhada de abundantes gestos. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada.

teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência..satiricamente o "meio-istro" ou. 33 . enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. outra forma de piropo estudantil. Os quase siderados visitantes. devido à sua baixa estatura. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa.. ─ Mas fazem o favor de se sentar. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. mexendo-se incomodado. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. ainda em pé à beira dos sofás. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. vezes um ano perdido. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. Do alto do espaldar da sua cadeira especial.. o "mini-istro". ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos.. ficando enterrados quase ao nível do chão. ainda estão de pé?! ─ Faz favor.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. senhor ministro. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. "meio-nistro".

no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. quando o Partido Comunista da União Soviética. na clandestinidade. Embarcara para a Guiné há menos de três meses. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 .. por dentro. chocante. Uma angústia feita suor frio. Pelo caminho. como furriel sapador de minas e armadilhas. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. João. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. resolveu que a solidariedade era mais urgente. minarem a confiança dos soldados no Czar. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. Cego! Informara o comum amigo e avisador. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. junto do “povo fardado”. na qual o Rolando também tinha participado. mas logo assim em tão pouco tempo!?. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação..SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica.

Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo.. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. que se calhar nem foram ouvidas. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. contudo logo à entrada do 1....º pavilhão.secretaria.. Como não havia ninguém de guarda. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!.. por estranhos e simultâneos sentimentos . O coração doía com aquela visão terrível. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. agora “minas e armadilhas”!?. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. foi entrando pelo terreiro. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. também neste local não havia guardas. vários soldados em pijama regulamentar. com cotos ligados à altura dos cotovelos. Por instantes ficou paralisado. estavam sentados em cadeiras de rodas. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. de cabelo encaracolado de um escuro característico. revoltadas e envergonhadas. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. Não foi preciso perguntar a mais ninguém.. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem.. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. com múltiplos pavilhões disseminados. com uma absoluta angústia de ver o 35 .

comovido até ao limite das forças. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.. ─ Sim! Bem!. Os médicos já me viram!.. Sem nada dizer.. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. 36 . ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. ─ o jovem muito moreno... que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. ─ Então rapaz.. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa.amigo naquele estado. entrei porque não encontrei ninguém de guarda. ninguém dera pela sua presença. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida.. ─ A esta hora está tudo ocupado. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. estou sozinho!.. Sou amigo como se fosse irmão.. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. começou a dar-lhe a sopa. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão.. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio.

. com outros recursos consigam recuperar a outra!. com 37 . sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. rangente. foram as palavras do professor. A outra vista não tem recuperação. Com a mão no ombro do amigo.sem Madina e sem Boé.. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. aproxima-se o "28". a rua está agora quase deserta. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente.─ Bom! Isso é uma boa notícia. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. filho dilecto do regime: ". Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. é tempo de voltar para casa. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. ─ Talvez mais tarde.. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas.. devia estar com vergonha da sua situação... ─ Não quero mais sopa.". vagaroso. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia.

quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. Afastada a concorrência. Não pensava tão cedo. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . no Instituto Nacional de Estatística. gritos. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam.. não há veículos à vista. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. ali perto.a chamada “primavera marcelista”. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos.. um carro preto vindo da esquina próxima. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. Mas os tempos estavam a mudar.. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário.. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra.

Um a um todos foram chamados para a tropa. ditava a incorporação em Mafra.namorada? ─ Sim. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . em princípios de Outubro. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. Os corações abriam-se de forma sincera. sem lamechices. sem mais nada. tudo à volta parecia perfeito e calmo. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado.. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. no COM. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos.! Mas olha. enlevados e trémulos de emoção. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. O jovem alto e magro. e o mundo revelava-se sorridente. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. Deram a volta ao quarteirão.. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas.

o seu João Silveira. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. nos inícios da década de 70. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. Saía à mãe. seguindo uma orientação conscientemente assumida. E morreu mais um no turno passado. vacilante. partiram para a guerra. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. trôpego. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. Até que todos os seus mentores. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. durante exercícios com fogo real. necessariamente clandestino. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. do 2. 40 . trazê-mo-los no coração. Durante muitos meses.º ciclo... levou as notícias. os relatos. pois o pai. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. o “Alerta Camarada!”. os comentários. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo.

alguns com fantasias bizarras. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. ─ É este aqui. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra.. melhor que ele próprio. ─ Pois não. com fotografias uns. ─ Avô... Mas não tem nenhum nome?!.. foi!. Traquinas e esperto como poucos. com nomes gravados outros.. * 41 .. “Raio de ganapo!” ─ pensou. muitos com flores artificiais. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?... como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. alojado junto da coluna vertebral. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. não foi avô? ─ Foi. Para mim a guerra nunca acabou!. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. ─ Avô. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra.

espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. magnetómetros à frente para detectar metais. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. sobretudo nas zonas de areia solta. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. o pessoal seguia com relativa descontracção. emboscadas ou minas na picada. Há semanas que não havia flagelações. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. comandante da secção. a chamada rebenta-minas. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. não tardava nasceria o Sol. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. o grande temor pelos últimos dias de comissão. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . as picas atrás a furarem o terreno.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica.

. vou tentar des. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel.. assim.. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974.. leal e honesto.. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. com distinção e elogios.. o 1º cabo José Pinto.. pá! Passa-me a pica. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar.. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. viscoso... deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. devagar. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. dizia sempre o que pensava com frontalidade.. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal.. como dizia publicamente e sem rodeios.. ─ Calma. O Pinto era um rapaz corajoso. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”. várias vezes dissera que se morresse na guerra. 43 . carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio.

44 .em Moçambique.

REGRESSO DA ÍNDIA.2. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 .

. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor.. mas com as preocupações de um mundo em tensão. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. oriundo do Alentejo litoral. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . não podemos abandoná-los !. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. lembrando as lições da escola primária. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. o sobrinho Alfredo. frente à taberna do Arnaldo. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. se engajou na luta contra a ditadura. dá o mote: ─ O que representam Goa. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. onde. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. há muitos anos radicado na vila operária.Tarde de sábado. O dono da casa. nos fins da década de 50. como republicano e antifascista. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos.

mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. a PIDE rondava-lhe a casa. tendo passado alguns meses preso em Caxias. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. refastelado na cadeira. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. Na sala. 47 . julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. bom.. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. claro!. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. desculpe. notório situacionista. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. como lhe ia dizendo. e. Embora saísse sem julgamento. ─ Então senhor Vaz.. nessa azáfama. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. merecias que te cortasse o pescoço !”. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. ─ Sabe. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante.oceano! A conversa muito animada. demoradamente. barba ou cabelo? ─ Barba. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento.

preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. usando a férrea censura dos jornais. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. Os governantes fascistas. Na longínqua Ásia. foram castigados com o corte de dispensas. pondo o quartel em “estado de sítio”. em 1955. o governo salazarista. O 48 . a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. com representantes de 68 países. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. escondendo do povo português a sua vocação belicista. ficou uma lembrança trágica. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. de que deveria restar uma memória positiva. a Assembleia Mundial da Paz. No regimento de Artilharia 1. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. qual falcão em plena guerra-fria. sob administração portuguesa. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. em Évora. em Bandung. Estados Unidos e União Soviética. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. Já em número de 300. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. em Helsínquia. Damão e Diu. insistia na via do confronto militarista. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. no mesmo ano. Inglaterra. juntaram-se na parada a protestar. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa.

tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. intimando toda a hierarquia. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. em 30 de 49 . mandou fazer uma marcha acelerada. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho.comandante. dependia de outros embarques próximos. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. é hoje! É hoje!”. Exaustos e revoltados. Aumentou a revolta aos gritos de. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. Depois de mais alguns episódios repressivos. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã.

. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista.Maio de 1956. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. quando da negociação do plano Marshall. cobiçadas pelos norte-americanos . Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. Salazar afirmara que . havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . muitos povos”. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”.. Na década de 50. Quando um povo. à sua defesa. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. à sua subsistência”..analisa a questão colonial portuguesa. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. Ainda no final da década de 40. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. É assim. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. necessário à sua vida.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. etc. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”.. “Uma Nação. no campo democrático. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956.

Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado.). No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956.. O regime salazarista.. cinemas e lugares públicos. o MUD Juvenil. já citado.. social ou político. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho.. Por volta de 1954. O órgão central dos comunistas. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. isto é. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. “um movimento racista contra o branco...) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. na Margem Sul e noutros pontos do País. .. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. as fomes e epidemias devastadoras. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. de Junho de 1956 : “(. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. em iniciativas abertas e unitárias. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. como.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. a segregação racial nos transportes. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. generoso portador da civilização”. a ausência de qualquer direito..

. O colonialismo tem os seus dias contados.. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos.. e desde então todos os anos vai a Fátima. mais do que com qualquer outro membro da família. nem os planos e as medidas de guerra. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. vigário da matriz: 52 . era tempo de visitar o primo Zé. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. como os valentes soldados de Évora. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . nem os discursos de Salazar. (. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. quando o clube da terra jogava em casa.. depois da “bola”. Mas senhor doutor. na casa modesta da tia Clotilde. posto que irmãos não tinha. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. com que trabalhos e canseiras.).

300 milhões!.─ Clotilde. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. naquele tempo dos princípios da década de 60. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. um luxo para as classes trabalhadoras. era a sua companhia de muitas horas. entretanto já terminados.. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. com uma relativa consciência do mundo. A telefonia. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. lembrando-se da afirmação 53 .. para ouvir os relatos de futebol. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. olhe que os indianos são muitos. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. comprada a prestações com muitos sacrifícios. como não haverá navios rendidos. não percas a fé na senhora de Fátima.

em Dezembro de 1961. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. como mandara o ditador. comandados pelo general Vassalo e Silva. ou nas terras misteriosas de sangue e morte.. de medos e angústias. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. feitas 54 .. Damão e Diu pela União Indiana. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. numa atitude típica do seguidismo salazarista. restavam os ganapos e as moçoilas. “rapidamente e em força”. Quando os militares portugueses. na altura dos Santos Populares. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. por isso lhe dava uma carga pejorativa. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. em África.do barbeiro.. Eram agora raros os saltadores exímios.. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. Joaquim Faria.. ─ Ah. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. Em Maio de 1962. . rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. talvez!.. na Índia longínqua. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. dez mil e tal contos. as tropas portuguesas na Índia. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos.

grande algazarra entre as centenas de parentes.. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. ausente há muito tempo. A mãe de Alfredo. só acostaram em Lisboa já de madrugada. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. vestes escuras e lágrimas doridas. iam finalmente regressar ao País. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. apupos. ansiosa por abraçar o ente querido. a família de Alfredo Júnior. já não o vejo há dezoito meses!. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE.. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). Gritos. e viceversa. lenço modesto na cabeça. na ausência de informações oficiais. ─ implorava uma velha mãe.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. de gabardina e chapéu. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. instado por um grupo de familiares. conforme os boatos que iam surgindo.. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. dado o seu isolamento.. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. correu juntamente com muitas outras famílias. oriunda da zona antiga da vila operária. cada vez em maior número. É um senhor vestido civilmente. No dia 23. vindos dos desenganos apesar da noite fria.

está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. alguns jovens esgueiram-se lestos. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. estenderemos a vós. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…).. Como povo livre. acenam com lenços brancos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos.. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. debaixo da mira de dezenas de espingardas. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. Ao longe. acompanhando zelosamente o senhor inspector. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. por sua vez. não podemos esquecer o povo português que. datada de 14 de Dezembro de 1961. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. antes de voltarem para casa. fora do olhar policial. mas contra o colonialismo e o fascismo. povo de Portugal. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”.) Por isso. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 .

o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. 57 . em troca de uma decantada pátria pluricontinental. talvez pela primeira vez. Regressaram à terra natal. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. compreendendo.juventude.

potência colonial. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. na Indonésia. porém. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. Damão e Diu. a opinião dos meios de oposição ao regime. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. FNL. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. contra o ocupante francês. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. Em 1954. que considerava proclamavaportuguesa”. Ou a realização de um “referendo em Goa”. em 1955. Não era esta. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. 58 colonialmente ocupados. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. em Diên Biên Phu.

e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. Em relação às colónias portuguesas.. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri.. Neste planeta nascemos.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. todos vivemos num único planeta. Em 1958. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. Do que se passou nessa histórica assembleia. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. pela União Soviética.)”. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. trabalhamos. os representantes dos países socialistas. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. 59 . tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. dos neutralistas e das jovens nações africanas. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta.

. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. voltaremos aqui. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Cabinda. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. Os massacres dos povos de S... encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu. oiçam. que procuram inverter os factos. em Luanda. Paiva Domingos da 60 . dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. com o apertar das algemas da opressão colonialista.. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Bissau. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais.). como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. Timor. Tomé. Neves Bendinha. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. com o agravamento da exploração colonial. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. turutuka dii. Os patriotas angolanos. ivuenu.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”.” (oiçam. Mueda. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. Goa. Scalo Bengo (Angola).

na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. em Cabo Verde. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. De resto. enquadrados em vários grupos. Raul Deão. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. missionário na arquidiocese de Luanda. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. Imperial Santana. Na madrugada de 4 de Fevereiro. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. na Ilha de Santiago. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 .Silva. um cónego mestiço angolano. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. o próprio. guardadas no campanário da Sé Catedral. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. abençoou os revoltosos. Domingos Manuel Mateus. Virgílio Francisco. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. fazendo milhares de vítimas.

─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. Pedro da Barra. filho da puta!”. era a “limpeza étnica”. começou a terrível “révanche”. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . que seguia num machimbombo (autocarro).). Agarra que é “lumunba!”. Nenhum dos objectivos foi alcançado. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. À noite nos muceques. Estava iniciada a Guerra Colonial.. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. ─ Companhia Indígena. deixando centenas de cadáveres. ─ Cadeia da 7..ª esquadra da PSP (estrada de Catete). Depois foi um terrível massacre. “Mata esse preto. levado a cabo por gente desvairada. presos. indefesa. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. uma autêntica “eliminação selectiva”. interrogados. espancamento e morte de gente negra. sendo os restantes. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. mortes às dezenas. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. com a perseguição. onde estavam muitos presos políticos. dezenas de autóctones.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. feridos. com poucas excepções. nas rusgas e cercos. empurrados logo de manhã para as valas comuns. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. correrias. junto à praia do Bongo. espancamentos. ou de trabalhadores numa oficina perto.

repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. quando a avenida da Praia era mais frequentada. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. sempre com conta e medida. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. conseguia desatar. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. O célebre fadista. do café Beira-Mar. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. o João “Careca”. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. Ao fim da tarde.

à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. deixando uma angustia de dúvida e receio. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais... quebrando a corrente emocional e patrioteira. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra.. porque a família real era dinástica e divina. Acabou o noticiário.. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. é nossa! Angola. é nossa. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. sempre se ficava a saber alguma novidade. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado.. Fazia vibrar de emoção e orgulho. gritarei é carne e sangue da nossa grei. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. é nossa! Angola.. inquietante mesmo. 64 .. pela negação dos factos apresentados. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria.multicontinentalidade da Nação. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. da sua grandeza Além-Mar.” A sensação desagradável. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. A curiosidade fora espicaçada. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa.. um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola.

. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. O regime fascista. diz ser tudo mentira!. três tentativas.─ Tio Zé.. na Emissora Nacional. senhor Lobo. ─ Esse gajo é da situação.. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. o regime 65 . Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. E voltava! “. músicas estranhas que o velho vizinho. S. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora... idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. Vozes estrangeiras incompreensíveis. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. bem pronunciada... salazarista convicto. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. Goa. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. etc. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Tomé. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. sobrinho por afinidade. mantém nas masmorras da PIDE. Mas é perigoso ouvir!.. O Ferreira da Costa. duas. Scalo Bengo .. Baixa do Cassange. Timor. Uma.. mas a realidade inevitável. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta..

ª classe na Sertã natal. era outra voz da mesma liberdade procurada..00 horas.00 e as 21.. pelos serviços da PIDE. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . entre as 19.. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho.. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.” Afinal não era a Rádio Moscovo. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. obstando a mensagem de denúncia e de luta. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. Os dilemas da guerra e da paz.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor.. Depois da 4. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. Espera enervante.

e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. as conversas sobre a realidade do País. em toda a sua vida. com um salário que mal dava para a renda do quarto. por sugestão de um colega. Um segundo passo importante fora a mudança. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. embora exigisse muito sacrifício. Aprendiz numa oficina de automóveis. O convívio com operários mais velhos e experientes. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. na Escola Fonseca Benevides. com uma sedimentada consciência de classe.incerteza no futuro. para a outra-banda. aliciado pela PIDE. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. as leituras recomendadas. Manuel interrogava-se. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. promete continuares a estudar. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. abriam-lhe os horizontes. parco de palavras. A grande cidade dava outras oportunidades. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. por lá ficou mais de um ano. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial.

depois da incorporação e a recruta. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. Ainda agora. mantinham a amizade da adolescência. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. nas lutas no Ensino Secundário. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. pela primeira vez. a conversa era fácil e fraterna: 68 . que depois da questão da Índia. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência.conta. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro.900. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. mas chegara a sua vez. A experiência de participação. O terceiro irmão não fora mobilizado. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. tendo depois emigrado para Angola. preocupações comuns e solidariedades. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. a mobilização para Angola. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. o “Avante!”. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. de Xabregas à Veiga Beirão. E agora. nunca mais parara de se agudizar. partilhada em muitos anos de brincadeiras. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”.

─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. Sou atirador de infantaria.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. não! Mas quanto mais cedo melhor. O pior é a mobilização!. empurrando mais e mais o navio pela barra fora. ─ Nunca pensaste em não ir. em dar o “cava”?!. vestido de pequeninas velas brancas. até se leva bem. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares.. ─ Adeus filho... o choro mudo e soluçado dos homens. para onde vão muitos! Já viste.. ir à guerra e ter lá um azar. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. vamos todos lá parar!. mas o Nana era assim. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara..!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. encobre da vista o barco.. ─ Não... ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta.. um bom rapaz. 69 . ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. agitando-se freneticamente na amurada.

Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. no silêncio do quarto. quiçá para sempre. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. mas nunca de contrariá-lo. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. adormeceu finalmente inquieto e agitado. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. alguns.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. A vontade nacional de agarrar o destino. constituía um arquétipo da candura nacional. no meio do magote de gente lamuriosa.

até chegarem os europeus escravatura. O que se seguiu. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40.conversadora. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. ou para alguma coisa!?. nas zonas da savana e das florestas. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. recentemente. perpetrado pelas tropas coloniais. no Norte de Angola. e agora. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. que lia e com o colonialismo e a 71 . um grupo de cariz tribalista. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). como sempre acontecia aos sábados. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. havia muita gente esclarecida. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. têm lá cabeça para se governarem. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. por vingança.. pelos movimentos de libertação. Na zona velha de maioria operária. ─ Os pretos são meio selvagens. 100 mil?). Autodidacta e amante do saber. também houve nações e povos desenvolvidos. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. 80.. E mesmo mais para sul do deserto de Saara.

de reflexão e de descanso. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. 72 . E também lá foram vividos os primeiros amores. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais.acompanhava os problemas. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. quando entrei!?. como lhe tenho dito. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo... que tudo estava sossegado. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. senhor Vaz. não acha?!. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. à volta do quarto pequeno e modesto. ─ Sabe.. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos.

. João deixou-se dormir novamente. densa. como se propunha..“São seis horas da manhã. só abria às nove horas para cortar o cabelo. correrias. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. um cheiro intenso a pólvora e a sangue. “Safa. que sonho dramático!”. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. ainda é muito cedo!”. luzes intensas. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . perseguições. um precipício negro em que estava prestes a cair!. talvez uma floresta. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura.

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

. O chefe olhou-o com ar circunspecto.. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. ─ E agora. Seguia-se. nada mais. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. já sem companhia. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. Posso chamar um táxi. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. não me parece!. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. fresca de Outono precoce. com duas ou três casas. Na manhã seguinte. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. três horas de caminho.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite.

em transporte próprio ou familiar. trazia medos e fantasmas. táctica. e já fizera a exploração dos itinerários. depois das longas caminhadas durante o dia. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas.. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra.trajectos labirínticos. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. etc. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. da instrução sobre armamento. 76 . À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. Muitas caras ensonadas. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. começaram as marchas nocturnas. algumas conhecidas da universidade. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. orientação. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. Guiné e Moçambique.

pesadíssimas. ensopado em suor. mais hipóteses têm de safar a pele!”. durante a progressão com todo o material de combate. anafado. célebre desde as últimas invasões francesas. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. Rodrigo e Francisco.. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . ─ Tens de ter calma. pá! Vou dar o “salto”. de boa compleição física e bom contador de histórias. tornados amigos durante o 1º ciclo. ─ o manifestante era um aspirante alto. devido às lamas nos caminhos. como ele dizia. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. ─ Não aguento mais isto. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. daquelas que nunca mais se esquecem. comandado pelo alferes “Manaça”. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. fazia mais um exercício duro porque. “a tropa não é para maricas. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. incluindo a arma e a mochila às costas. O pelotão do 2º ciclo do COM.. quanto melhor o treino.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. pertenciam ao meu pelotão!. com a fama de “chicalhão” e prepotente.

com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. Por feitio ou bajulice. bem nutrido e de ventre proeminente. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. dizes tu!.. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. gosta de fazer de porta-voz. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. o pessoal preparava-se para a travessia. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas.. com um feitio solidário. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. pá. magro de carnes.contrapunha o Francisco. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho... vem avisar o cadete Aníbal a correr. ─ Depois logo se vê. relutantemente alguns ficam para o fim. as pernas vacilam. pá. procurando ajudar o amigo. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. por isso ganhou os favores do graduado. entra em contacto com a pele suada... Os mais expeditos fazem-no com êxito. começa a entrar em pânico. na cauda dos restantes caminhantes. tem lama até às partes. dando-se ares de importância. Uma porra. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. 78 . os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. quem não sabe nadar atrapalha-se. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. ─ Falta pouco.. ─ Outra vez a porra da lagoa..

lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.. o graduado continua a vociferar. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. ─ Qual bombeiros. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama.─ Socorro! Não sei nadar! Socor.. com uma alma altruísta... Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas.. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão.. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal.grugluglu. perante o quadro terrível vence a inibição. marche! ─ Sim. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio.! O cadete Artur. Friccionando-se com a camisa de trabalho. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. volta para trás e tenta ajudar os outros dois.. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada..

agarrados. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. Baixa no anexo de Campolide. comandante do pelotão. ─ Algo não está bem. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. de bengala de invisual ainda mal manejada. com permanência nocturna obrigatória.. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. o jovem alferes Terras. enterrados no lodo.. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. que padeciam de graves deficiências. quer ir connosco amanhã? 80 . sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. teve uma atitude simpática . ainda em tratamento. outros. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. sempre muito elegantemente fardado. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços.

só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo.. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. já não tinha mais novidades. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. ─ Ah. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. em cima da cama. sim!? Obrigado! Eu. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.. ─ Agarre-se a isso.. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. nunca cá tinha estado. quando jogava o Benfica em casa.. A conversa continuou animada.. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla).─ Não. pouco falador. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna.. ( os instrutores são uns nabos.. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. ─ Ah! É casado!. obrigado! Sou casado!. não ensinam o verdadeiramente importante).. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito.

. ─ Mas . Era grande o constrangimento. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas.. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. Evocam-se regulamentos.. fora de qualquer regulamento.. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. mesmo dobrado. aqui anda tudo às putas. ─ Ah! Pois.. as coisas acontecem e pronto! 82 . cumprem-se ordens...! ─ pila era tabu. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. como aliás acontecia com os outros. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. é uma forma de dizer. “cada um com a sua”. ─ Esse não acredito que pague!. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela..! Não há ninguém de serviço. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. amanhã posso ser eu.. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas.. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. abrir o fecho da braguilha. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você.daí para a rua.

vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. canta. alinhados em pelotões de 30 unidades. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. ai povo. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. a espera animava o pessoal. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. falha de energia demorada de mais de uma hora. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. amigo canta. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. As sombras encorajavam a audácia.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada.

* Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. o João. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. A companhia (quase) inteira.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. para garantir a segurança conspirativa da operação. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. entre muitos citadinos divertidos. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. Naquela tarde de Novembro de 1971. e no rescaldo das cantigas. com a denúncia do número de vítimas da guerra. assumindo o compromisso. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. o Luís 84 . Combinaram o essencial da acção primeira. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel.

Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. Todos estão em farda de trabalho. o Manuel. feitas de pedra trabalhada. das salas. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. estava unido na acção contra a guerra. com frades de hábito e penitência. dos refeitórios e das camaratas. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. constituindo um labirinto intrincado. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. 85 . seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. o Fausto e o Duarte. tão diversos daqueles para que foi concebido. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. polido o chão pela usura dos anos. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios.Manuel. A sala dos cadetes é acolhedora. As conversas giram à volta de temas banais. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. Sempre acontece quando os nervos apertam. a timidez. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. pretextando uma guerra santa. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. por um lado. é urgente terminar a “tarefa”. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. espalhados por várias mesas. mas a maioria são cadetes. enquanto outros.

Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima.subir alguns degraus. o ouvido à escuta de passos perseguidores. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . um desvio apertado na primeira bifurcação. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. mal iluminado. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . o desnorte nos caminhos desconhecidos. À frente de um séquito. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. Um som agudo e estranho. como um guincho. outros sons semelhantes. “Safa!”.. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. um local frio e terrível. um beco sem saída na desorientação dos sentidos..”.. subir e descer escadas.. “As instalações devem estar em boas condições. em pânico. de porte elevado e cabelos brancos. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza.” – pensava João.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. longos e frios... nada. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!...

─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. por detrás das lentes grossas. são ratos. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. acordar no beliche superior inundado em suor.habituando-se à escuridão percebem dezenas. Custara a pegar no sono. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. comandante da unidade. certamente devido a pesadelos também. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. Na caserna pequena da 2ª. 87 . excepto algumas respirações mais agitadas. centenas de formas em movimento. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. Companhia de Instrução está tudo calmo. sair do pesadelo. ninguém se atrevia a levantar a voz. correr.

mas se alguém for apanhado com as vinhetas.. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. num pátio interior mal iluminado. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. foram coladas nos corredores do convento. denunciara a patifaria. escondendo a timidez e uma pequena miopia.”.] já bastam! Não à guerra colonial!”.. a minha namorada escreveu-me!. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . uns voltavam logo. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. A acção tinha corrido muito bem. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. Por fim vieram três ou quatro cartas. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então.. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada..─ Tem de haver muito cuidado. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. não há nada para mim? Não pode ser. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. vulgares na época.

. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. porque apesar do sistema aperrado. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. Andava e pensava para distrair a ansiedade. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. a norte. pela aproximação do ocaso. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. certamente algum “menino” a caminho da cidade. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. João precipitara-se para o exterior com passo estugado..“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . não se via vivalma no caminho. havia excepções.

. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. embora arrefecesse a “sentidos vistos”. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. nas bandas da Malveira. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna.. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno..).. “Não jures. esquerdistas. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol.sugerido aquele local. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. existe um ambiente geral muito favorável. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas.. socialistas. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. ─ Cuidado!. em transição para 90 . Boa sorte para a iniciativa. bom para a recruta. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. os dias eram cada vez mais pequenos. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde.. independentes. Trago a senha para o contacto que combinámos.

houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. mesmo que seja só em treino. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. * Durante a semana de campo. pelo menos nas costas dos instrutores. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. nos arredores de Torres Vedras. orgulhosos da classificação na prova de tiro.o violeta. No miradouro não estava ninguém. chuvoso e frio. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. cada dia é sempre diferente. com um tempo desagradável. é sempre um momento angustiante. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. dizia-se. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. esmerando a pontaria com o “olho director”. Não há dois pôr-do-sol iguais.

deputados da Assembleia Nacional. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. não! Não posso!. ─ Não. altos dignitários da Igreja.especialidades. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. afilhados. o oficial do quadro 92 . generais. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa.”.. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. credores de favores. e muito menos a disparar. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. etc. Em requerimento ao Ministro da Defesa. a subversão aumenta!. iria passar por um mau bocado. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). tentando safar os filhos. Eram filhos de boas famílias. porque precisava de carne para canhão. enfim. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. tinham um estatuto especial.. mas não permitia. E. empresários. latifundiários. a fina flor do nacionalismo. parentes. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses...

─ Eh. e. sob pressão da intolerância militarista vigente. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. forçado pelo instrutor. levantando e baixando a espingarda. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. foi despromovido para soldado. a arma começou a disparar. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. só por milagre ninguém foi atingido... Não servia para “oficial de guerra”. à beira de um ataque de nervos. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. O cadete gordo. de repente. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico.permanente estava prestes a perder o “verniz”. atire ! A tragédia estava eminente. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. normalmente sonolentas e ressacadas. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. baixote e 93 .

No fundo da algibeira. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . ─ O quê. nas vitrines e até nas pautas. “quero essa merda toda arrancada!”. O velho convento de Mafra estava em polvorosa.. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”. ─ Essa é boa. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito.. logo apareciam noutros locais. ─ Ah! Pois. “não jures camarada!”. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. ‘tás a coçá-los!. nas portas.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. nas janelas.. Boa!. ─ Ouviste? A barraca está armada... João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. nas paredes lisas. ─ Não jures camarada! Já disse!..! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana..

. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . .! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. A desorientação sobreveio. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. a primordial agitação. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos.. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. O major. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. 95 .. a coacção e a chantagem.. a hierarquia estava convencida de ter anulado. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. pela intimidação subsequente..─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. Tacteando a cola com os dedos. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. propositadamente. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia.

afixada em muitos sítios desusados.. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Queria ver se fosses atirador como eu!. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. Por este tempo. futuros oficiais do Exército Português.. Providencialmente. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Mas os corredores eram muitos.. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados.─ O carago. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial.. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas.. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. com zonas mal iluminadas. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”.. até na sala do cadete: “. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. pois o outro chuveiro estava avariado.

só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. porque a terra era ruim. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. com particular destaque para o “Avante!”. Os jornais. a rádio e a televisão. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. sobretudo o rapaz. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. um moço bem constituído. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. segundo a filosofia do velho Adílio. submetidos a feroz censura e controlo político. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. era um gritante e duro contraste. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros.guerra era debatida mais ou menos abertamente. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. num quotidiano difícil. Junto aos hotéis de luxo. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. aos solavancos. mas na “terra prometida”.

nem feriados. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. era o discurso oficial. com poucas qualificações. com um ar de arrumador encartado. era menos “aquele” que entrava. incluindo no campo desportivo. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”.boné de pala “oficial”. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. podiam chegar a cargos de chefia. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. sempre generoso com os portugueses humildes. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. numa época do início da década de 70. Sobretudo se associassem ao 98 . para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. empregados e operários. numerosos. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. mal pagos. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. se fossem interessados e cordatos. nalguns casos. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”.

99 . garantes da regular entrada das comparticipações patronais.2 contos/mês. o engenheiro-júnior. 15 contos/mês. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. senhor director. 1. uns mais à frente e outros mais atrás. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. o agente técnico de engenharia. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. 4/5 contos/mês. 18.5 contos/mês. o engenheiro-sénior. ─ Senhor director. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. minha senhora. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. para rezarem em comum. 25 contos/mês. por classes sociais. 19 contos/mês. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. o empregado de escritório. 12 contos/mês. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. Orava-se em acção de graças. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia.. ─ a resposta não tinha grande convicção. a mulher operária têxtil.8 a 2.. anda a concluir um curso superior. o operário especializado de horário geral. Nas vésperas da Revolução de Abril. sem sobressaltos. 2. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. 11. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. chefe de serviço. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. minha senhora.5 a 3. trate disso! ─ Claro. ─ Está a tirar Educação Física!. claro! Um resto de bom dia. chefe de secção. 14.

o seu filho sabe o que faz. ─ Esteja descansada.. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. só lhe faltava o estágio. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos.. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. Combine lá com o “ti” Fernando. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. para o curso de oficiais milicianos. Mas não havia nada a fazer. e de mais na tropa!. prestes a terminar: ─ Alberta... ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. Entretanto fora chamado para a vida militar.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. por 100 . seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. hem! ─ Mas ir a Mafra. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.. com o curso quase acabado.. no Domingo? ─ Eu gostava. ó homem!. mas o “tio” Fernando-pai!?.

subsequente ao despedimento. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema.. quando o emprego e o salário eram certos. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. Depois. e pela luta diária pela sobrevivência. preparando-se para o ritual mitificado.melhores salários e condições de trabalho. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. em alas amplas e espaçadas. amor . não é fácil a deslocação!. Gostava de assistir mas compreendo a situação. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. ─ Tu é que sabes. Se queres ir vai tu e a tua nora. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. iam formando segundo o que estava instruído.. até que sobrevieram os “balões”. este ano precedido de 101 . pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. ─ Talvez seja melhor não irem. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. não morriam de amores pela situação. num pobre mister por conta própria. O carinho prodigalizado ao filho na infância. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra.

“Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória... respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. provavelmente os tais “pides”. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido.. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. certamente sobre a ameaça de represálias. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!.” ─ o alerta percorrera as casernas. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir..acontecimentos muito interessantes. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação.

. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão.. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!... Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. na Escola Prática de Infantaria de Mafra. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. tinha agora um bode expiatório. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia.. sou contra isso..“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. não telefona para ninguém. .sistema sonoro. ouviu! Se não se explica 103 . ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação.

dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. muitos daqueles cadetes imberbes. A instituição militar EPI. frutas. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. Pavoneavam-se alguns.. as mesas brilhavam de iguarias. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. carnes frias e quentes. característicos da castrada burguesia nacional. perna de frango na outra. bebidas variadas. doces. poucos. camarão. copo na mão. e senhores engravatados a rigor. no velho convento frio e austero. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. etc.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. ─ Dá-me licença!. ficara à beira de um ataque de nervos. Nem era tarde. acordada de madrugada. Desculpe. risos nervosos e traseiros espetados.. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. bolos. agora disfarçado com aperitivos. etc. de gastas pedras nos longos corredores. acepipes. saladas. por vezes mesmo medíocre. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . nem era cedo. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim.

De facto não o vi . numa última passagem sem retorno. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. com pouca pinta de militar. a última barreira foi assim passada calmamente.. sim. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.. Suspeitava-se haver revista à saída. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria.! 105 .). Yota da Purificação” (.. o melhor era ficar para o fim. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. ─ Sim.... afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. mais o “material sobrante”. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. conheço.. ─ Boa noite! Por favor. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados.colonial!”.. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. Transportava o mesmo saco da chegada. “Certamente estaria a arrancar!. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença.. quando o cansaço afrouxasse a vigilância. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão.. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos.

por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. Nada de grave! Lá informam-na melhor. 106 . * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra. naquele Dezembro de 1971. estamos aqui à espera . igualmente com ar distinto. sinal distintivo da origem de classe. As duas dirigiram-se para a porta de armas.. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. ─ Obrigado! .─ É que já passaram todos.. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade... em Janeiro de 1972....! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.. ─ Mas . ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. postada a alguma distância.. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. seria noticiada no “Avante”... último a deixar o convento. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. no gabinete do oficial-dedia!.

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

Animistas. 108 . posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade.ÁFRICA. de animais e da a Natureza. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. imaginários adoradores pássaros. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI.

não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. pouco antes da chegada dos portugueses. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. forjas. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. quando estes. o Zimbabwé e parte de Moçambique. Estes povos sedentários praticando a agricultura. a Tanzânia. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. Melinde. subentendia uma organização social e política evoluída. a Zâmbia. estradas. canais de irrigação. cidadelas de pedra. socalcos à volta dos montes para a agricultura. no interior da Rodésia. enriquecidas pelo 109 . a caminho da Índia. numa zona de ruínas ancestrais.Esta actividade artística. minas. sepulturas e pinturas rupestres. Quiloa e Mombaça. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. possuindo uma tecnologia da idade do ferro.

Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. numa organização de tipo tribal-feudal. feito através de numerosos intermediários “mouros”. por ouro. contas. trocando directamente tecidos. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. que já utilizavam inclusivé a moeda. Organizadas em cidades-estado. essências e faiança chinesa. com o 110 . que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. cobre.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. faziam de entreposto com os reinos do interior. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. especiarias. da Índia e até do Extremo Oriente. marfim e escravos. encontraram um comércio progressivo. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. na pastorícia e na extracção mineira. estes em escala reduzida. com quem comerciavam há mais de um milénio. vindos do Norte. ferro. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. com uma economia assente na agricultura.

. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. Em 1513. agente real de Sofala.. Por orientação da Coroa.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. Como um erro nunca vem só.. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. Pedro Vaz de Soares. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . mas neste intento viriam a ser derrotados. levaram pouco tempo a desvanecer-se.”. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. Como todos os imperialistas. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. novas oportunidades de negócio.. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. retrógrada e oportunista. pela sua ignorância e pela sua ganância. queriam muito e depressa!.

No início da década de 70. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. estranha. húmida. no terminal militar de Figo Maduro. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. Em 1561. o mais alto 112 . embarcava-se à meia-noite. familiar. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. quente. no “Boeing” da Força Aérea. em Sena e em Tete. luminosa. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. fresca. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. Quando a guerra colonial começou em 1964. de Lisboa. em 1498. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. nas margens do Zambeze. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique.

sempre eloquente nas afirmações. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. ─ desabafa o Eduardo.. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. tal como Lourenço Marques.. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. o sulista trigueiro e magro. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. normalmente reservado. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. ─ É a proclamada multirracialidade!. moreno. pendurados no exterior da rede da vedação. alto de estatura e seco de carnes. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. A Beira era uma cidade moderna. compunham um quadro de modernidade. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . entroncado e de estatura média. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada.

que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados.. Chegaram atrasados ao jantar da messe. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada.. mais novo. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. não atendeu logo à chamada. foi a primeira vez que lá fomos!. ─ Sim. olhando os jovens furriéis com ar arrogante.. ─ O jantar começa às sete. quando ficaram sós. ─ O que estavas à espera?. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. que já ia avançado. sem qualquer cumprimento. O criado negro andava numa fona. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta.realidade. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. dava assim as “boas-vindas”. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem.. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. enquanto se retirava após comer o pêro.

─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?... convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ─ Pois claro. ─ Se calhar. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. faziam um excelente cozido à portuguesa. Miguel. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. onde estavam os soldados aboletados. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. no regresso a pé. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. rapazes humildes e simples. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior.. diziam.. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. 115 . Duplamente preocupado. ─ Furriel. Ouviste a resposta do “Furnas”?. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que.

é essa a intenção.. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. É preciso ajudar. ─ Quanto mais tarde melhor. a minha mãe viúva!. preocupavam-se à volta de malas e sacos. à beira da linha de caminho de ferro... parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.. Dezenas de soldados e alguns graduados.. mas a família. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. se saísse à tabela. ─ Olha o que nos espera!. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. por dentro. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago.. por dentro. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. disso não tenhas dúvidas. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida.. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. ─ Também pensei nisso. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo..

trumtrum. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. trum-trum”. onde se juntavam dezenas de negros. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. simpático no trato e já em segunda comissão. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. sobretudo mulheres de capulanas garridas. Duas máquinas a vapor. o coração salta: 117 . o inimigo haveria de registar esses movimentos!.. Eram tropas frescas a caminho da guerra. puseram o longo combóio em marcha lenta. atarefadas com filhos às costas. tinham um aspecto sumptuoso. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. Os militares seguiam nas carruagens do meio. o combóio pára. à volta de sacos e trouxas. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. na retaguarda.. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. A velocidade aumentava. resfolgando. a marcha abranda. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. aguardando a ordem para embarcar.carreira. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. A viagem decorria na noite de sono. sem resposta. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. Na noite de breu.

A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele.. sonhando com a cama quente no lar distante. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. embalados pelo andamento monocórdico da composição. o pessoal vai adormecendo. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. Lá fora não se vê vivalma. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. só lá mais para a frente!. irão esquecer essa doce sensação.. vai ser um enorme benefício para a economia da província.─ O que aconteceu? Ninguém sabe. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . bem vestido e curioso. formando esplendorosos contraluz. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas.. O cansaço vence a ansiedade. A manhã aparece com um Sol fulgurante. é fresca a brisa que entra pela janela. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. Poucos dão pelo recomeço da viagem. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. Duas horas da madrugada. mais duas que em Portugal.. ninguém explica. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós.

Abrindo caminho à força de espada.─ A guerra é uma coisa terrível. a Rodésia. como depois foi baptizado. os ingleses. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo.. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. os americanos. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. a África do Sul?!. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . onde reinava o odioso regime do “apartheid”. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. o material de guerra é todo russo e chinês. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. A menção do grande país da África Austral. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo..

como refere Basil Davidson. Em 1607. cobre. rigidamente autocráticos. ferro. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. os seus métodos de governo.. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. a concessão de todas as minas de ouro. O génio individual que punham nas suas empresas. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. editada em 1960:. 120 . roído pelas guerras internas. procurando enriquecer pela simples pilhagem. na obra já referida. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. a coragem. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. Por volta de 1667. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”.. viriam a ditar a ruína. chumbo e estanho no seu território. A coberto das suas armas de fogo.notícias fantasiosas... comportam-se como malfeitores.

quando esta faltou também lançaram-se 121 . tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas.. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. glorificados descobridores. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir.). ou do tipo negróide. foi. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. Os seus vizinhos do interior de língua banto.. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. segundo a documentação histórica. no primeiro século e meio de ocupação? . vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza.. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. E o que fizeram afinal os portugueses..

A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. manhã cedo. Logo no reinicio. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. a partir dali. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. na obra já referida ─ . acabando por se contentar com o comércio de escravos”. qual cabeçorra disforme. ─ Basil Davidson. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . perceberam-se os cuidados no avanço. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. o comboio não circularia mais de noite.

Do chão. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. onde em contrapartida. como por encanto. ─ Isto é um buraco medonho.. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. frio. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. passando fome. O calor era intenso. calor. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó.. mas não se viam construções no horizonte visual. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. onde se divisavam apenas pequenos arbustos.. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. ─ Ei! Sou do Barreiro!. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. ─ Vai bem..período em pleno campo inóspito. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!... mas o 123 .? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. tudo na mesma! Vamos para. Cinco homens num destacamento.. vivemos num abrigo cavado naquela elevação..

pior era à noite.. Após uma longa curva feita lentamente. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos... divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. com o medo de os irem “pegar à mão”. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos.. endureciam os semblantes. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. ─ Então adeus! Boa sorte. ─ ‘Tou farto disto. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. barbados de dois dias. pondo fim à conversa. fizemos a picagem logo de manhãzinha. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. pá! Calma. venham cá eles fazê-la!. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!.

Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. esperavam somente. só então a ganilha animou. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. não pediam. O pessoal precisava de descomprimir. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. registando a chegada de dois “amigos do homem”. mesmo levando em conta o carácter racista da piada.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. não barafustavam. pensava que os comiam todos! Risada geral. houve risos. ─ Não te preocupes. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não riam nem brincavam. muitas. Esperavam pacientemente e não diziam nada.

Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. As carruagens da frente eram muito velhas.soldado Edmundo. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. ─ Verdade. grandes e brilhantes nas crianças. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. Risonho e desmiolado. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra.. O comboio era muito comprido. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. com divisas. com bancos curtos de ripas. onde dois ou três soldados disfarçaram. apareceu risonho e agitado... surgido do mato. ensebadas pelo uso. malas velhas e caixotes com galinhas. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. quando se abriram as portas de Abril. mas ninguém estava sentado no chão. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas.. moço robusto e bem parecido.. amontoados entre trouxas. Olhavam surpresos com olhos esquivos. estás a engatar-me!. quando viram aparecer o 126 . intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos.. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. em Tete.

a emboscada. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . a mina. a mãe. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. os pais. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. a morteirada. maravilhando os olhos na beira-rio.recomendava o capitão. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . Onde estarão a esta hora a esposa. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. a namorada. persistente. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. a companheira. homem novo. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. os irmãos. Afinal. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. ─ Tem juízo. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade.grupo de furriéis. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs.

na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. sob a sua influência. ─ Assim com esta barba de três dias. foi instituído o “Regime dos Prazos”. tinha o seu problema resolvido como sempre. oportuno. uma semana era passada.exasperado. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. parecemos discípulos de Fidel!. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. 128 .. correndo energicamente para o vale que. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. ─ discorria o António Manuel. concitando olhares curiosos. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. sujos de pó. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros.. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. um tenente-coronel que. Claro. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. ciosamente guardada. muito cedo. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. para chegar à costa oriental.

consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. formada por Angola. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. Moçambique era um território arruinado. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. mas na Zambézia. Cabo Verde. A situação só animou nos meados do século dezassete. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. para a futura abolição da escravatura. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. enxameou a colónia de deportados políticos. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. dominada 129 . estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. No final do século. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. No começo do século XVII. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. princípios do século XVIII. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. com muito pouco êxito. quando foi incrementado o tráfico de escravos. no Congresso de Viena. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. separado definitivamente da dependência da Índia. Moçambique e Brasil.

mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. a ideia foi repudiada e não vingou. casas brancas de estilo arabizado com terraços. Instalações 130 . Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). ruas largas. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. chefeguerreiro dos invasores zulus. pouca gente nas ruas. pó vermelho e castanho. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. As pequenas colónias no interior. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. transformando num deserto essa vasta região”. cidade de passagem. conta-nos Bryant: “Em 1860. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. na Rodésia. vindas do Sul. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. Mzila.

Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. no lugar de Cahora Bassa. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. entre outros. 131 . ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. o Zambeze. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. Comprido caminho de água. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. onde viria a falecer com febres. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. ingleses. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica.. sul-africanos.militares por todo o lado. é uma cidade sem espaços verdes. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. rodesianos. Concluiu o excelso expedicionário. mesmo com o rio a seus pés. alemães. o Sol queima e há poucas sombras. muito calor. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. na língua nativa. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. por isso a Frelimo quer destruí-la!. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. ditando o desinteresse dos ingleses. outra vez a malfadada ração de combate. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. Meio-dia.

No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. por máquinas da Engenharia Militar. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. “pró 132 . ao encontro do gigante em construção. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes.. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. A estrada continuava para o Songo. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. na defesa da antiga colónia. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. e. possuidora do regime mais racista do continente africano. A via alcatroada era um luxo raro. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa.. O projecto hidroeléctrico quando terminado. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. só cá venho safar o “coirão”. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. ─ E se fosses à merda!. ─ Calma! Calma! Guardem as energias.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. por isso a grande nação austral. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria.. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia..

os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. estávamos no reino da guerra. incluindo algumas paragens para reagrupamento. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . percorridos cerca de 120 quilómetros. Estar na guerra aprende-se depressa.concluía ainda o soldado-condutor. Em sentido contrário o trânsito rareava. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. a estrada acabava e começava a picada.galheiro”! A mata era densa. Soaram tiros longínquos. Ao fim de quase três horas de viagem. mas pouco ou nada se divisava. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. os camiões seguiam mais devagar. Sousa. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. a engenharia militar ainda ali não chegara. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. lentamente. seria fácil montarem uma surpresa. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. só se ouviam os motores roucos em aceleração.

com granadas e fieiras de balas à vista. agora outros que dêem o coiro!”. Os recém-chegados. A alegria de uns era a apreensão de outros. e um deles. construído em paliçada de troncos.silêncio. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. * Estima: um posto de defesa na picada. A guerra é naturalmente o tema central. o veículo continuou a marcha devagar. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. símbolos da tropa especial. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. a lógica da campanha militar era. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde.. do qual se avistava o Zambeze. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. alargada a alguns civis presentes. poeirentos. E a guerra ficava mais próxima. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. primeiro classificado. ninguém se atrevia a abrir a boca. num portento de força impressionante. a conversa continua no bar. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. “já cá estamos há muito tempo. soturnos. correndo escuro e caudaloso.. ninguém saí dos trilhos. e só agora o António Manuel. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. atreveu-se a responder timidamente: 134 . de nome Trindade. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei.

atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. ─ Quem não está connosco.. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. ─ Ah! Cá como lá. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. está contra nós! Vocês são novos aqui.. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. ─ António? Que nome curioso! 135 ... ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos.. e as populações! A acção psico. pelos vistos.. A todo poderosa PIDE/DGS!. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. para os lados de Mucumbura. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. junto à fronteira com a Rodésia. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul.─ Mas. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu.

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

esteve circunscrita aos distritos do norte. Durante este período inicial. Cabo Delgado e Niassa. 137 . que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. o comando das Forças Armadas portuguesas. tinham fortes tradições independentistas. em 1968. na região de Mueda. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. Ilha de Moçambique). com um ataque ao posto de Chai. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. Em resposta. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. Entre a surpresa e a desorientação. Quelimane. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. Sofala. e os Macondes nos planaltos do Norte. Também o reino do Monomotapa no interior.

Em Tete.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. em Abril de 1971. na aldeia de António. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. uma companhia de “comandos”. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. e os Direitos do Homem. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. locais e nomes. à época bispo de Vila Cabral. onde. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. controlada pelas tropas auxiliares africanas. Trindade. pouco escutadas no entanto. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. tropas da Rodésia de Ian Smith. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. reconhecidos por Portugal na ONU”. Depois de descreverem em pormenor com datas. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. Em Novembro. Em Setembro do mesmo ano. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Nijs e John Paul. e dos padres anglicanos. em Maio. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. Valverde e 138 . acusado de colaboracionismo. O ódio instala-se. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. Calado de seu nome. para os aldeamentos cercados de arame farpado.

numa conferência no Reino Unido.. porém. Nesta data foram expulsos de Moçambique.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. mentalidade e até filosofia. até Novembro de 1973. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . devido à sua língua. De hoje em diante. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. raça. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. (. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. Cabora Bassa Em Março de 1968. deveria estar a Igreja.. em 2 de Janeiro de 1972.. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. onde iam de férias. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. são perseguidos.. sem julgamento ou culpa formada. corajosa e claramente. torturados e assassinados. sem qualquer ambiguidade. cultura. são os governantes políticos e militares de Portugal.. Os africanos..) O povo de Moçambique.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. costumes. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (.

em Julho de 1968.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio.milhão de colonos brancos. italianos. A empresa construtora Zamco. ingleses. no dizer indígena. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . Cahora Bassa. assente nos aquartelamentos de Chicoa. é um campo entrincheirado num meio hostil. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. No concreto. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. que devia ser defendida a todo o custo. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. vertidos no caldeirão da guerrilha que. (alemães. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. a afirmar o desejo independentista. inteligentemente. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. etc. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. em 8 de Março de 1968. rodeado por uma vedação de arame farpado. e para isso. Estima e Chipera.

Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. embora os estragos não fossem de monta. a linha de caminho-de-ferro 141 . “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. minas. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. com a ajuda da República Popular da China. apoio na população.Moçambique. minas! Fuga e reagrupamento. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. Depois atacou sucessivamente. num só dia. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. emboscadas. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. minas. Chicoa. eis a nossa táctica. Furacungo. flagelações. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. em Tete. 15 de Novembro de 72. constituía-se em forças irregulares. As notícias chegavam em catadupa. Fingué. a Base Aérea nº 7. No dia 9 de Novembro de 1972. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17.

Kaúlza de Arriaga. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". pela primeira vez. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. no eixo Beira-Vila Pery. ao longo de 8 quilómetros. e os técnicos sul-africanos e europeus. 142 . a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. Kaúlza de Arriaga. uma tarefa que o comandante-chefe. cinzenta e castanha. separando inexoravelmente as duas margens. Deste lado a vegetação era escassa. e em 25 de Setembro de 1972. Entretanto. foi sabotada na região de Moatize.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. controladas e permanentemente patrulhadas. O pânico instala-se e. também assumira esse compromisso. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. A mão-de-obra rodesiana. O comandante-chefe. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. divisava-se o rio escuro e caudaloso. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. com algumas portas apenas. com raras excepções. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. silenciosa e traiçoeira. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. com uma força desconhecida. Assim se entretinham as forças portuguesas. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores.

era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. A água de um castanho terroso. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. nascida e crescida sob a protecção das tágides. mecânico de armamento. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. Foi há uns três anos.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. causando arrepios a viagem entre as duas margens. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. mas mais acima houve um desastre terrível. companheiro de 143 . musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. ─ Aqui não. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. conta-se a meia voz.

por certo deficientemente escorado. Um camião “Fargo”. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. descaiu para a frente a meio da viagem.formação do António Manuel. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. o alferes Baptista resolve intervir. a jangada entra em estremeções. o camião desliza mais um 144 . abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. onde a água era mais agitada. aproximando-se da extremidade sem anteparo. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. ajoujado de carga militar. e aumenta também a trepidação.

produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. a jangada porém. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. outros procuram nadar energicamente para a margem. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. a corda que prendia a viatura partiu-se. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. ou porque não tinham meios de socorro. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. Sem comando não havia acção. cinco ou seis homens. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. com comando mesmo errado. em desespero. o abrandar fora fatal. ficando suspensas no vazio. no meio de uma gritaria medonha. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. Com um formidável estampido. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista.

. provocando o deslizamento da segunda viatura. Alguns nadadores atingem a margem. e 146 . Tudo se passou rapidamente. material de guerra. soldados e nativos. mantimentos e munições. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Ao todo. Metade da Companhia tinha feito a travessia. Naquela zona do rio há muitos crocodilos.mais abaixo. que arrasta consigo mais alguns homens. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. na messe. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. 101 soldados e graduados. mas os restantes corpos nunca apareceram. em poucos minutos. era um sol diferente. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente.Ao serão. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. numa operação cuidada e lenta. * A tarde chegou ao fim. Por isso a trasfega não fora completada. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. um sono em vigília despertando ao menor ruído.

os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. Numa das primeiras viaturas. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada.. ─ contava um furriel operacional da companhia local. houve um acidente com muitos mortos. com malas. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. Parece que não!. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho.. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. . Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!... o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. homens e armas. amigos. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. bagagens.. mesmo que cheire a gasóleo. os três amigos não se afastaram da zona do motor. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. são por vezes replicadas. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. Se houver alguma coisa. aqui quando chove. o rio faz favor!. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. 147 .. Mais mais para montante. prestes a ser rendida ─ Sim.

peremptória. ─ Continuem a picar. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. metálica na extremidade. ─ Neste sítio não é provável. No silêncio ensurdecedor. ─ Mas.. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. embora ocultas pela folhagem densa. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. meu alferes. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara.. inquieto. Calaram-se. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo.* Reinava uma estranha calma na Natureza. Na luminosidade da contraluz matinal. que daí a pouco já se percebiam distintamente. com um timbre familiar.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . nem piar de pássaro nem som de animal. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. não-operacional mas com algum traquejo da vida. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?.

. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. embora nítido. o negrume cerrado da noite africana. era 149 . Sierra ... Sierra. Mike. Trrrr.. Alfa. Trrrr.. Baumm!.. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. Alfa.. dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. três rebentamentos Baumm!.. Trrrr.. O batuque vai começar.... a guerra continua O som distante e abafado. mesmo jogado com pouca convicção. dois. sem divisas e de lenço verde ao pescoço. Baumm!. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez... António Manuel. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.desde o destino final.. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. Tango .. enche a noite quente de Verão. Bravo . Sierra. vestido a rigor de camuflado sarapintado. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco... ─ Parece estar a acontecer algo de grave. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa... o parceiro das partidas escaquísticas.... propôs o empate.

na noite anterior. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. ─ A seguir somos nós!. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio.. a messe e a porta de armas.. a cantina. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. os “turras” mandaram só umas morteiradas. e fazer o reconhecimento da zona. madrugada ainda. ─ Foi assim. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados.... Baumm!. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. * Manhã cedo. iluminado por fraca luz interior. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. em Agosto.. Já há três dias que fazem sinais nos morros. Baumm!.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. vozes abafadas.. A 150 . com uma experiência de oito meses. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ).. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. Os rebentamentos não cessavam.

. À noite. ─ observava o António.. Mas.. nomeadamente o comandante. ─ Nada. agora já cheirava a sangue. eludia o sobressalto. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente.. o alferes Yota. havia dois feridos graves. esteve comigo na recruta em Mafra!. cândido por feitio. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. ─ acrescentava o Sousa. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. A fisionomia era-lhe familiar. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. João .. a partir de Chicoa. com ar de desaprovação.. Agora o sono cortado vencia a emoção.. ─ com a metáfora. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém.. ─ Yota?. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. que ficara sem um pé... levantando-se desaustinadamente. Ah! Aí está. À hora do jantar chegou a terrível notícia. concluira João. o pelotão já partira. Ao lado. fazia uma 151 .

parte maior das agruras da distância.ideia diferente! ─ Sousa. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. assumia a contradição.. Talvez mais cedo do que tarde!. ─ A guerra colonial tem os dias contados. o trabalho na fábrica. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. a discussão prometia. Idealista. como faz o Movimento de Libertação!. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. ─ A realidade é tão chocante.. onde deixara a esposa jovem. violentados. dava-lhe uma consciência aguda da situação. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. de estudos e vivência. o 152 . Aos milicianos chantageiam com as férias. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. e estas crianças andrajosas e famintas!. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. embora algo sentimental.. sofria a saudade da Pátria distante. A História não pára e o Mundo avança.. quando elas começarem a “cantar”. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. no interior de uma África estranha e quente. o mais sulista do grupo. No teatro de guerra... convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. desde muito cedo. nas populações e nas nossas tropas. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado.

Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. O aparecimento de “very-lights”. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. tentando detectar qualquer indício identificador. pois era sua a decisão táctica. ainda que disso nem todos dessem conta. * Havia um mês que ali estavam. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. de pele branca. entre morros altos apertando a vista e a alma. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. a luminosidade 153 . sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. A Natureza.medo misturava-se com a revolta. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. indiferente aos dramas dos homens. que também ali se construía. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. temendo o perigo iminente. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. em 1970 e 71. na dilacerante guerra de guerrilhas. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. tal como ao mundo chegou. ao fim da tarde era sinal de alerta.

os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. Constava à boca pequena. Pouco a pouco. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. devido à forte influência da guerrilha na zona. começaram a voltar às casernas. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. Era assim no coração de África. torturados pela inclemência solar. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente.quente impressionava ainda a retina. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. Deixava o interior das instalações militares. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. fora destruído e abandonado há alguns anos. ou de zinco. como eram conhecidos na gíria militar. cobertas com telhas de fibrocimento. O alarme soara falso. 154 .

com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. vestidas com capulanas de cores garridas. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). por questão de segurança. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. trazia à memória os célebres filmes da juventude. rigorosamente contidas dentro do arame farpado.. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. Ao quarto fim-de-semana de estadia. com corpos musculados e peles luzidias. da saga “Tarzan. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. que na tropa não se podia abrir a boca!. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. Recentemente. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. combinou-se uma visita à aldeia.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha.. em grupo. dispersos entre brincadeiras ocasionais. Envenenado estava tão-só o ambiente. para manter o ânimo das populações!. autorizara o batuque aos sábados. local mais calmo e “arejado”. Estavam em grupos. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. remoendo as dúvidas e a desconfiança. o homem macaco”. Ali não havia selvagens de tanga.. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?.. um major mal conhecido e mal encarado. nem havia setas envenenadas. tão-pouco adolescentes. A excepção eram as moças novas. outra 155 . para matar a fome.

prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. aquele era um clima muito seco. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos.profissão rendosa. com menos humidade. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. eventualmente!?. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. 156 . pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. Porventura. ─ Talvez tenhas razão. a noite chegou mansamente. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. Decerto clientes de “cuspo”. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel.. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique.. Afinal não tinham ficado para o batuque. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. mais perto do Índico. rompendo o soluço. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. com divisas. a de lacaio da administração colonial.

Ao todo são oito postos de guarda. patranhas e acção psicológica. dispersos e muito afastados. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. a guerra continuava. Desde essa data. com uma única saída para a picada. e para sul até ao aldeamento. bem no interior do istmo central moçambicano. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. Na noite escura por caminhos esconsos. ligados por atalhos ainda não memorizados. pelos vistos. a alma aperta-se e os sentidos despertam. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . uma área enorme cercada de arame farpado. O aquartelamento é grande.E quem concordava? Muito poucos. o batuque ia começar na aldeia. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. É a primeira ronda de serviço. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. daqueles. e. aprendido há poucos dias. poucos.

O coração acelera desordenado. eventos. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro... não! Pois. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto.tiro!?. ─ Achas provável? Nunca constou!. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. Abafava-se no quarto completamente fechado.. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. antes de desabar uma curta tromba de água. Sousa olhava o tecto. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana.. João vai avançando de modo inseguro. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!.. o sobressalto aperta-lhe o peito.. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. reportavam à guerra.. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões.. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. acidentes ou fenómenos naquele local. todos os acontecimentos. não quis dar parte de fraco!. paciência!”. ─ Pois. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se.. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente.. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. não! Na Guiné. De repente a chuva 158 .

o jovem militar. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso.parou. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. por miríades de riscos ziguezagueantes. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. nenhuma claridade ofuscante. siderado. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. nenhum rumor distante. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. no caminho do segundo posto de vigilância. com reflexos azulados e avermelhados. rasgado a muitos. Fundindo-se na terra. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. muitos quilómetros.”. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. coloridos em tons de prata e ouro. O receio esfumava-se.. 159 . ─ Quem vem lá? Alto.. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. tão radicalmente como tinha começado. esfumou-se na noite. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. Nenhum som. A velha África das origens humanas. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos.

ponho-me para aqui a contar os raios!. ─ Aproxime-se para verificar!. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado.. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade.. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. ao longe. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. meu furriel! Conhece? ─ Não. E é espantoso... açoriano como a maioria daquele batalhão... Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. Ah! É o furriel da secretaria. Pregou-me um susto. fugaz.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?.. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel. apertavam como tenazes o coração dos homens. * 160 . ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra.. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra.

e pronto! ─ Deixa lá. Gestão tropeira. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. com prejuízo dos alimentos perecíveis. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. Valia o facto de ter combinado a compensação. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. suspeitosamente simpático. justificas ao capitão. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. com o chefe da secretaria. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. agora é só ensaio. durante a manhã após o serviço de ronda. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. certamente superior à poupança. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. o correio era o elemento existencial mais 161 . Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante.

meneando a cabeça. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. como iria ser o dia? 162 . “Pronto! Já estou feito! É comigo!. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis.”. A desconfiança suplantou a curiosidade.. O centro de gravidade do corpo leve.. mandadores sem lei. Após uma pequena entrevista no alpendre. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. num circulo nauseante de imponderabilidade. exibindo-se papéis.transcendente para aquela rapaziada. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.. Fora uma noite premonitória. comandante de companhia.

. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?..6. 163 .

o oficial alto e escuro. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. Nem mais uma palavra. nem uma explicação. um major que mal conhecia. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). isso vai afectar o moral dos homens. com modos de polícia. mas ninguém tinha dito nada ao visado. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. amigo das ideias. candidamente. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. Alguns camaradas observavam atónitos. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. Começava a ficar irritado... o amigo ao receber religiosamente o material. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. de G3 pronta. depois do primeiro choque.. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. ─ observava. percebendo que algo de 164 . ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?.. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. O comandante interino do Batalhão.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. Tinha até ordens para o algemar. nem um mandado.

preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”.. Em Chipera. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. Até sempre.grave se passava. trata-se de um indivíduo perigoso. agora com uma cama vazia. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. sem coragem para comentar na hora da despedida. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. empertigado. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . ao fim da tarde igual. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!.. de que falava a mensagem. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar.. está enganado! ─ “Meu tenente”. se não se importa.. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!.. a calma em pessoa. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. pelo despotismo do comando militarista. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. onde o dia-a-dia continuava tenso. Olhou-o com ar reprovativo. em jeito de despedida. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves..

o torcionário famigerado pôs-se vermelho. afirmando também a voz. A cela dos fundos da delegação. da barba feita com lâmina inusitada. com um ar distinto no ambiente despojado. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. Horas depois. perturbantes e insidiosas. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro. era compartilhada por um negro ainda jovem. o jovem alto e magro. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. da delegação da PIDE/DGS em Tete. No outro. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa... de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. Por detrás da secretária da sua importância. com cor macilenta e sinais de cortes na cara.circulando subterrâneas. Era um homem já 166 . vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT.

estavam estendidos três colchões de espuma fina. sem qualquer divisória. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. Retomando a tarefa de limpeza do chão. embora encorpado. rapaz ainda. senhô! Gosta de ver limpo. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. com um tom acastanhado na pele exposta. colocados a um canto. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. mostrando ser o mentor da cela. única abertura para o exterior. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. ─ Sim. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. Junto à parede contrária à porta de entrada. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”.maduro. Um mainato muito jovem. curtido pelo sol africano. ─ Não tem mais tronco. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. ─ Fique nessa! Tem mais luz. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. né! ─ respondeu o jovem corpulento. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. ─ Nhambo! Que tá fazendo. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. acha? 167 .

minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam.. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez.. ─ interrompeu a resposta. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. passou-lhe um brilho estranho nos olhos.. saindo a menear o rabo nutrido. e 168 .. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. para de novo pousar os olhos no chão. manipulada para retirar o pijama. na tarde quente e esplendorosa.. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . ─ Eu sou fulano de tal. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade.. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. ─ Eu sou Silveira. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. que lhe tinham trazido há minutos. furriel do Exército português ... num breve instante.! ─ acrescentou. Aberta em cima da cama de circunstância. que não deixava perceber o “fio da meada”.─ respondeu o miúdo a sorrir. deixava ver a farda recentemente despida. quase fugaz. a cara redonda e luzidia. com uma cor amarelo-alaranjada. num trejeito efeminado: ─ Vá. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. às voltas com uma mala preta de plástico. De vez em quando. mas adivinhava-se uma bola magnífica. não seria conveniente. resplandecente e implacável.

Em cima da cama estava o pijama “grenat”. ─ comentara João. De súbito. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer.. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. como recomendara a jovem esposa com carinho. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. provavelmente!. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. na direcção do mictório. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . depois de confirmar a identidade..”.. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação.mais não disseram. acrescentou ─ venha comigo. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. lhe arranjara. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel.. desviando o olhar súbito.

. olhavam curiosos para aquele “luxo”. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro.. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. e aos meus camaradas de tropa.. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. com indicação de posterior devolução. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. menos bem desenhadas do que era costume. ─ Deixe estar. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras.. gosta de viver ao ar livre. mais do que a cabeça.─ Chico. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . Os dois primitivos residentes da cela. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. percebendo certamente ser transitório. O coração. não é necessário. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. ─ Como assim. escreva só a morada de destino do telegrama. é claro!. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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.. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. sobretudo brancos. no Norte. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. sim. Talvez sejam mulheres. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. desorientado. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita.. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento.. A inquietação não permitia apreciar 178 . A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. activos e combatentes. com a G3 caída ao lado. No ar perpassava um fluído etéreo. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. Ansumé ficara arrasado..! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais.. ─ Também ouvi. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. LOURENÇO MARQUES. Faltava uma bala no carregador. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente.

rumo à “Vivenda Algarve”. roubando o ângulo de visão e a serenidade. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?.pormenorizadamente a paisagem. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. onde a geografia era mais agreste.. 179 . ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. Talvez fosse. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. até à sede em Lourenço Marques. a sede da PIDE/DGS... Os “pides” não se tinham afastado um segundo. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.. ─ Temos de ir. nem sempre concretizáveis.. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. vigiada por dois agentes com cara-de-pau.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. no coração de África. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência.. desde Tete. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. nem sempre concretizadas. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. O polícia dava mostras de nervosismo.

“E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. em Tete. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. pois não queria. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. nada!. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos.. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar.. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. A cela com 2 x 4 metros. Chipera Velha. onde estava enfiado há mês e meio. não podia fraquejar. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. na confusão dos dias de angústia da prisão. nem utensílios. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. nem asseios. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. num canto. 180 . Era todo o mobiliário existente. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. que substituíram os dias de angústia da guerra. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. Mas a solidão e a insegurança presentes. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. protegida por uma rede metálica.

porém. Reinava de novo o silêncio. paralelo e gémeo. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. Tal. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. humanamente insuportáveis. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. Apurou o ouvido. Voltou o silêncio profundo.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada.Batendo as asas na noite calada. puxado entretanto. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. 181 . que reconheceria em qualquer parte do mundo..Acordou (quanto tempo depois?). até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. até que o assobio reapareceu.. não seria prudente.

que tinha a coragem de ter medo. na Faculdade de Ciências. SARL.. aquela noite de coragem e fervor antifascista. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. O Zeca. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. cantaram e recitaram. até à comoção das lágrimas.!”. encostadas precariamente. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose.eles comem tudo. SARL. 182 .. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. O anúncio de um título bem imaginado. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. tocaram. à rua da Escola Politécnica. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. o Braga. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. eles comem tudo. o Ary. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. o Paredes.

pá?. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. era o terceiro. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos.. O primeiro comandante. Andando de quartel em quartel. meu comandante.. fora reveladora da mentalidade militarista.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. pá! O 183 . em meados de Outubro. Em suma. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. um tenente-coronel. era como a maioria dos oficiais-generais. mal tinham acabado de chegar. O novo comandante.. tratando-se de uma nomeação interina. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. em menos de quatro meses. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. de “guerra em guerra”. numa estranha itenerância nómada. por ordem cronológica. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia.. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. ─ Põe o barrete. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. O segundo.

já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. Para estes. quatro helicópteros. foi muito elogiada a “fachada”. as meias a três quartos e a continência. “Filho da puta. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. a trabalharem nas limpezas. com um soldado sem pés. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. e. as únicas preocupações são o barrete. Por isso.barrete é para usar. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. dois com a guarda pessoal. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. com três feridos graves como primeiras baixas. era o aspecto exterior do aquartelamento. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. Chiça!”. noutras. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. até 184 . general Kaúlza de Arriaga. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). procurando neste caso dividendos imediatos. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. do comandante-chefe.

. analisando com consciência a realidade conhecida. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. em Manica e Sofala. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. era uma questão de tempo e de meios. Os militares cumpriam o seu papel. Aliás. O tempo jogava a nosso favor.sucumbirem!?. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. e quanto aos meios. Os objectivos em curso seriam cumpridos. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. questionavam-se segundo o velho aforismo. Deus me livre!”. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. aliás. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Não acreditavam naquele optimismo todo. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. a guerra não parava de evoluir. no Niassa a actividade terrorista era residual.. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. porém. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Alguns. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. como estrategicamente se tinha proposto. a barragem em breve seria um facto. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. estavam cansados de tantas comissões. apesar da 185 . Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. não passando. agora o resto era com o poder político. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. para sul do rio Messalo. Contraditoriamente.

O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. No Norte. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. afinal. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. tomando os desejos por realidades.fraqueza anunciada. A guerrilha atacou Vila Gamito. atacou Estima com foguetes de 122 mm. mas. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. como todas as outras. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. em Junho. em Março de 1973. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. não isenta de grandes contradições e inconsequências. prisão da 186 . a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. e. Machava. em Maio de 1973. em Maio. chamado a Lisboa em Julho de 1973. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. na direcção da cidade da Beira. em Abril. Não era grande coisa. em Cabo Delgado. megalómano. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. por essa altura. e. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. O general ultranacionalista. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais.

O guarda prisional. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. diálogos breves. falando de bons modos.PIDE/DGS em Lourenço Marques. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. A conversa continuou durante alguns minutos. ─ Deixe estar. porventura maiores que o seu. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. de estatura média. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. de tão inesperada.. magro. Mas.. eu já volto quando terminar a ronda. Novembro de 1972. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. composto de muitos dramas solitários e isolados.. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. de bigode fino e voz nortenha. bateu com força na porta de madeira. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. a esta hora já não se pode fazer nada. portas abrindo-se e fechando-se. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. ─ Coma. Não era o mesmo da chegada. 187 . causava alguma perplexidade. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. Mas deixe estar.. obrigado! Não se incomode. entre as quatro paredes caiadas. nem o jantar me trouxeram!. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. Não obteve resposta. constatando.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço.

.”. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz.. esperando melhores dias!. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. trouxe bananas (a comida era péssima).. ─ Cá estamos. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa... a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. ─ no limiar da porta. Vagamente. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. que se passará? ─ a questão 188 . ontem fiquei preocupado. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. A seu tempo. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina.. como exigiam as regras..Quando voltou a recolher o púcaro.. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. querem ver que está feito com a PIDE?!.

* Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. De facto.. logo abafadas por a porta ter sido fechada. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional.. porém. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. trancados e isolados em pequenos espaços. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial.devia ser muito ignara. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. Depois fez-se silêncio. provocando uma enorme tensão. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. Em pouco tempo. lamentoso. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. dou em doido!”. ─ Vou ver o que se passa. ficava um calor insuportável. Vindo do fundo do corredor. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. anjo ou demónio?”. durante toda a tarde e início da noite. sem esperança. porque o guarda não mostrou surpresa. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. 189 . abafado e húmido.

. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. aparecendo o guarda com um sorriso. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. muito abalado pela alimentação deficiente. 190 . ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. era nítido o desenho das palavras na contraluz.! ─ completava o furriel. Mesmo agora. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. mais velho de aparência. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. a aguardar as visitas prometidas. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. de costas na enxerga. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. no quartel da Xefina! ─ E você. acordado..Num momento de nostalgia e saudade. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. isto aqui não interessa a ninguém.. De resto. a sonhar com a liberdade roubada... Quando já descria. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. na janela.. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. Olhando para o exterior. por “actividades políticas”.

─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?.. ─ Bom! Temos de acabar. ─ Sim. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. prestando atenção. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. não pudemos abusar da sorte. Os olhos faiscaram um fugaz terror. o guarda prisional.. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. ao 191 . Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. guarda Cerqueira. dir-se-ia uma acentuada palidez. ─ Não! Não! Você. sorrindo. procuraram transmitir algo. não fora o paradoxo de cores. ficando sem expressão. o pastor Manganhela. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. com comiseração e espanto. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. passando lestos pelos circunstantes. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante.

satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente.. a face de outro homem negro. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. fumando boquilha. esticou no chão o corpo inerte. eu trato disso!”. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. Instintivamente. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. maduro de idade. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. colocando-a por debaixo da enxerga.! Ao dizer isto. já bastante enrugadas. reteve por instantes o olhar no único branco. À excepção do jovem branco. olhando sobranceiro os detidos. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. Autoritário e brusco. ─ Já disse. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . a fazer-se desentendido. Ao percorrer em silêncio a sala.homem preto que acabava de cair abruptamente.. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. Os restantes presos ganharam alento. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. com óculos verdes graduados. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido.

senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. alto e de barriga algo proeminente. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. precisa de ocupação!?. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. o processo do pastor Zedequias Manganhela. senhor director.. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. detido desde Junho de 1972. ─ Ora isso é o que iremos ver!. aparentando uns prováveis sessenta anos.. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. ─ Bom sabe.. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra.. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. ─ Sim. suspensa no curso da resposta.. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso.. cabelo grisalho. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane.. O director continuava a cirandar na pequena sala. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. ─ não pode completar a frase. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . interrompida de forma abrupta. Acompanhava directamente. branco nas suíças. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco.. ─ ameaçava António Vaz. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido.

O “anjo da guarda”..─ É a primeira vez que cá venho. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga.. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. Na minha mala. de roupa. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. quente e envolta na ligeira 194 . aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. vindo do teatro de guerra. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação... Cerqueira.. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. de alguns livros!.

sevícias. ou um tenebroso 195 . ameaças.neblina africana que aplacava a inclemência. devotado à sua missão. de colaboração com a Frelimo. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. Suicídio. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. terror psicológico. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. Zedequias Manganhela era um pastor. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. nunca provada. e com grande prestígio na Europa. Foram seis meses de interrogatórios. humilhações permanentes sobre um homem idoso. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. conforme a versão oficial. nunca se saberá. numa zona onde não havia guerra. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. o guarda-fiscal. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). onde Manganhela permanecia em isolamento.

os seus mentores e os seus mandantes. foi um crime de morte matada. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. 7. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano.assassinato? Em qualquer dos casos. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 .

A 197 . por ajudar. soube-se a dramática história da prisão. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. muitos presos políticos na cadeia da Machava. do guarda prisional Cerqueira. quiçá salvar. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. denunciado em meados de 1973. a 9 de Setembro de 1974. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro.

Quando o avião. perseguições e sangue. Abriu os olhos..polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. chamas. correrias. com escala em Luanda.. agora com o futuro tão incerto. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. gritos. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. num pesadelo de tiros. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. muito sangue!. um DC-6 da TAP. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. na sua incansável solidariedade. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. fumos. ─ Não. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. Com a recusa da carta propositadamente escrita.

havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. distantes entre si poucos quilómetros. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. num repente. não levou a conclusões. com muitos aldeamentos dispersos. Chico Cachavi. como represália. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. próprio da época das chuvas. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. e. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. Por volta das 14 horas surgem. mulheres e crianças do outro sentados no chão. um tenebroso 199 . homens de um lado. e. Os aldeões são divididos em dois grupos. Tratava-se de uma área muito povoada. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. Chawola e Juwau. quando procura o mato.

uma mulher grávida é esventrada. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. que depois as diriam ao mundo. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. crianças chorando são mortas a pontapé. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. distante cerca de quatro quilómetros. que organizaram o primeiro relatório 200 . sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. fica juncado de cadáveres. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. e. Pedro. O rio Nyamtawatawa. violadas. à entrada de Tete. perante a passividade de sargentos e oficiais. A tropa completamente ensandecida. o aldeamento é completamente destruído. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. para além do que pode entender a razão humana. jovens donzelas são arrastadas para o mato. surpreendendo os habitantes incrédulos. mutiladas e mortas. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro.torcionário do recrutamento provincial. O sangue enlouquece a soldadagem. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. Juntaram depois as vítimas numa pilha. um afluente do Luenha. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. Foram os padres daquela congregação. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar.

João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. aconteceu quando. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. em 19/12/1972. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. nomeadamente ao comandante da ZOT. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. três dias depois dos acontecimentos. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. e sobre Wiriyamu. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. finalmente. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. traje alegre vestido para afugentar 201 . que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. em Julho de 1973. ano e meio depois.sobre Chawola. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. coronel Videira. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. desumanizados e corrompidos até à medula.

─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. Caxias.. Lá em baixo à espera.. essa é uma matéria reservada. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz.. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio.. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. em Caxias. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. para iniciar uma nova e derradeira viagem. na natureza e no seu coração.. o mundo está cheio de ateus. ─ Desculpe. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado.! O agente... puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. agora tinha iniciado o interrogatório. onde acabara de ser identificado e fotografado. Ficaram para o fim. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. depois de todos os passageiros terem saído. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. estava uma carrinha da PIDE/DGS. por isso está como está!. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu.“maus olhados”. Da companheira não havia sinal. 202 ..

A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. ─ Ah! É verdade. interrompido por outra porta de ferro gradeada. o grande responsável. e o meu tipo de sangue. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. as da minha esposa. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. apenas o corredor comprido e silencioso. Divisavam-se várias portas fechadas. Por detrás tem as minhas iniciais.─ Fiz-lhe uma pergunta. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. o som metálico da lingueta da fechadura. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. você é militar. outra campainha. Também estive na guerra do Ultramar. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo.

uma lâmpada de filamento. em Mafra. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. ─ Não sei do que está a falar. propício à desmoralização psicológica do preso.. como depois se perceberia.. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede.. numa fisionomia naturalmente ruim. Por cima da mesa. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 .. por onde eram emitidos sons gravados. fraca. por vezes reduzido. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. em Dezembro de 1971?!. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. gradeada. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. criando um ambiente soturno. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. ─ Ah! Não sabe!. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. isolado do mundo.um palmo e fazia uma cara-de-mau. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias.

a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. a tosse de catarro ou o pigarrear. sobretudo na alta madrugada. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . chamava-se o “moínho”. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. por vezes o safanão.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. um aspecto de símio de pernas arqueadas. Começava a tortura do sono. faz favor! Eu não o ofendi. o preso é sempre o mesmo. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. para além da fracção de segundo. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. polícia manhoso à maneira antiga. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. impedem o “fechamento” completo do cérebro. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. criando uma pressão terrível. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. ─ Respeito o quê. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga.

o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer.... Àquela hora o sono apertava. O efeito é terrível. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. hem! O mundo desmorona-se. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. os ouvidos zunem ensurdecidos. para acordar logo de seguida em sobressalto.! O agente sentou-se estranhamente calado.. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. o coração “salta do peito”. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. silencioso. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir.. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. O sádico pide continua a sua nova táctica. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. instantaneamente parado. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. A partir daí a tortura é dupla. * 206 . o preso desfalece instantaneamente..

Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. O chefe-de-brigada chegado no séquito. ─ Não sei porque estou preso.. encarregou-se de clarificar a situação. só traída por um pequeno esgar.. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. um porte de alto funcionário do Estado. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. depois do inspector superior da PIDE/DGS.. preocupado com a aparência para infundir respeito. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro. quando mencionou o senhor doutor. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. ter saído 207 . A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. nunca levantando a voz. no Curso de Oficiais Milicianos. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão.. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. gravata e sapatos reluzentes. Adelino Tinoco. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. e por um ligeiro sorriso cínico. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. não precisou de muito!. mas não tinha a certeza. o “senhor doutor”.

.. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. se não conta tudo não vai dormir hoje. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. a não ser. não! Por favor. ─ Violências..! ─ Ia dar o salto. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão... não vale a pena perdermos tempo.. foi uma pessoa simpática e colaboradora. vamos tratar como pessoas civilizadas.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”.. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. ─ o pide calmeirão. O senhor é uma pessoa inteligente. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. ─ Vá. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.

por favor! ─ Mas!.... tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. Um pequeno prurido de remorsos. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo.! A brigada da Guarda Fiscal. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. ─ Vá. apesar das suas reticências. perto de Vilar Formoso. Estava muito calor em pleno Agosto. deixando-o ofegante. fazia o papel legal. avisada. prostrado de joelhos. Encontrei-o uma vez em Lisboa.. o resto fiava mais fino. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra.. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. Calou-se. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. um sujeito fulano de tal. Estamos de visita! Não podem.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 .. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.

210 . onde antes só estavam manchas indistintas. pequenos baixo-relevo estilizados. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. fale! ─ este é dos “pides maus”. são figuras de bichos. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. em Dezembro de 1971. em Mafra.... Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. O “SENHOR INSPECTOR” Um. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. penteadinho e bem vestido. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. é claramente provocatória para impressionar o detido. todo encolhido. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. pinturas-quadros humanizados.

─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. ─ Desconheço esse assunto.. não resta alternativa. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. surpreendentemente. ali estava um exemplar do “Avante!”. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. é a primeira alucinação.. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . não vale a pena negar! Além disso. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. em Dezembro de 1971.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”.. fazia precisamente um ano. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista..” ─ Esse canalha!. desdobrou uma folha de papel fininho e.

Tem mais 24 horas para pensar no assunto. ─ A partir de agora fica sem cadeira. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. como o torcionário-mor. bombista!”. caminhando. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. que até os tinha formados em Psicologia. com um bafo acentuado de álcool. Silêncio! Não entrou ninguém. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. já a madrugada ia alta. Adelino Tinoco. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. Junto da sua cara. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Como uma mola. aludira. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. Passaram as horas. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. Encostado às paredes foi caminhando. Até amanhã. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. o que permitia ir calculando o tempo). continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. já disse! ─ sacudindo-o 212 . O pide pequeno e feio.

deu origem.. bem vestido num fato azul-esverdeado. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. o “superior” teve uma ligeira hesitação. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. de bom corte. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. não tem cara para levar uma bofetada!. Um “pide-bom”. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde...violentamente. como de costume. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. com ar muito solene. alto e de meia idade. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . no instante seguinte. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. voltou as costas e desandou. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. e com um emblema na lapela. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando.. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza.

. Agora na década de 70. quatro dias.. desaparecem.! Alucinações frequentes. no quarto dia consecutivo. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. sob o mando directo de Salazar até 1968. eram mitigados. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. com Marcelo Caetano no poder. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. não tenho nada a ver com isso. ameaçador. muito íntimo do director Silva Pais. de onde chega uma luz de sol 214 . continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. as paredes deslocam-se.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três.

por isso bebeu só uns goles.. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. além do oceano. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!.magnífica. Ao fim de quatro dias de privação do sono.” ─ Afaste-se da janela. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. pouco antes da mudança de turno... mais um passo ansioso e . só abre a boca para ditar ordens e regras.. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. Quem dera poder dormir um pouco!.. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. com ar arrogante e meio imbecil.. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”.” Passa o tempo a olhar para o preso. onde a vida continua. única saída para a liberdade urgente. Todas as noites. semiaberta. vinha um 215 . O preso avança às cegas para um precipício.. mentecapto. sobre o rio.. acima do mundo. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. O vigilante calou-se. O café da noite tinha um gosto esquisito. não conseguia adormecer.

não é? Sentia uma tremenda excitação. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. juntava-se a confusão do tempo. 216 . apetecia-lhe conversar. Mas isso não interessa... juntando-se agora a confusão espacio-temporal. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. sem querer.. quase euforia. calha bem!. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. vamos é saber da sua disposição. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. Hoje é o primeiro dia de Inverno. vindo não sabia de onde. A falta de descanso do cérebro. porque de repente.. conversar!.. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. ─ Interessa.. produzia a perda da noção tridimensional. daí as alucinações. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. obrigado. Sabia bem aquela bebida quente. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. fazia frio à noite. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?.

sabe. não respondeu logo.. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . por onde vultos furtivos se escapavam.. fazem agitação contra a guerra. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você... foi uma força de expressão. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias.. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. contava todos os pecados.. também estive na guerra. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta.─ Não sei. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. ─ Você. dizem-se pacifistas. nem o Deus em que não acredita. em Angola!?. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. ninguém me mandou. e no entanto vão lá. não estou a par! Mas. Já temos uma filha!. um homem católico. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus.

─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar. ninguém! Parecia terem esquecido o preso..” martelava-lhe o cérebro doído.. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . por estar para ali a falar com aquele carrasco. tantos que tinha alucinações tremendas. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. Por agora as dúvidas foram vencidas. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. impedido de dormir há muitos dias. faz ultrapassar o período de fragilização... A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. não vou!. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. Nem o chefe-de-brigada.

em Alcântara. vamos buscá-la para esclarecer. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. ligados ao Partido Comunista. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. há muito que acontecera a rotação do “moinho”.. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . comprometido. quase euforia. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. O preso sentia outra vez uma enorme excitação.. Passava largamente da meia-noite. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. segundo dizia. chefe-de-brigada. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. quando a revolução esmoreceu). Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. anos mais tarde..Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa.. Facto curioso. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. com a entrada triunfal do inseparável séquito. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. (inspector. Calou-se o agente de cara redonda. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. (mas ficaram quase todos bem na vida. por não ter arranjado melhor!. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. SEIS.

aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa... se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. Raiva.vontade. pela impotência perante a situação. não posso!. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. ─ Se os documentos não são seus.. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. misto de revolta e de desalento. manhas experimentadas da polícia. a aprofundar a angústia dilacerante. subindo pelo peito até ao cérebro. Nascia um estranho sentimento novo. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. pavor..” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. Que dia seria hoje. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS.

já lhe disse! Se insiste. a tortura do sono ia continuar. em pé horas e horas a fio. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência.. Sem cadeira para se sentar. há muito perdera a perspectiva tridimensional. entrado a meio da tarde. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . os comunistas de merda. desritmado. ─ Comigo.papel sujo. Apetece-lhe vomitar. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. desfaço-o a pontapé!”. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. sob constantes ameaças dos pides.. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. A respiração pela boca torna-se ofegante. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. bate desamparado contra a parede. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. O preso caminha encostado às paredes. o “vaidoso” e o “atarracado”. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. como você. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. O inspector Tinoco retirara-se impante. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. julgando-a mais distante. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. eu logo lhes dizia!. O detido já não liga às provocações. a investigação ia no “bom caminho”.

.. Sim. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. mas nem todos tinham essa fibra. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. talvez.. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso... exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. Estava sinceramente assustado. mas com os pés cada vez mais inchados. não tem o traquejo dos “duros”. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. a família!.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. Muito tempo depois.. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura. hoje celebrados como heróis. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. é ainda um homem novo. claro. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça.. Não há milagre. já meio recuperado. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”.. ─ Sofro do coração. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. firme e 222 . a confusão. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. gente de excepcional coragem. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. Sentia-se verdadeiramente mal. Ah! Se pudesse saber que a companheira. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom.

canalha. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso.. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. todos os nomes que definiam aquele títere do regime.. nazi. torcionário. hipócrita. jamais olvidado. facínora. Devido ao cansaço. fascista . por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. ─ Sofro do coração. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. até porque na altura outros apoios foram recusados. tinha obtido do “seu” médico e amigo. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. o “senhor inspector”. embora verdadeiramente ameaçada. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. poupando energias. criminoso. ontem ao 223 . torturador requintado. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. Não tardou de facto. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior. chantagista. carrasco.determinada. com o ar mais angelical do mundo. Na tarde do 6º dia. ─ Então.

com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo.. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. estava atrás do chefe pronta para saltar. trago um médico comigo!. a olhar interessado. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. sem interferir. a qualquer hora do dia ou da noite.. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. mas não estava”. : “Prenderam a minha companheira!”. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. o coração desritmiza-se. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 .. Descalço. Até o agente de serviço já não implicava.. o peito sufoca. O torturado levanta-se em grande sobressalto. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. Já não conseguia levantar-se. ouvem-se gritos humanos lancinantes. parecem-lhe gritos familiares. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. De repente. e se for preciso. A matilha de macabéus e hienas. com esgares de riso.serviço de Salazar e agora de Caetano. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. gritos de mulher!. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. não dizia nada. “unha com carne” com o director Silva Pais. Este pensamento produz uma angústia terrível.

limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro.. Ganhara forma no cérebro. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada.). nas longas fases depressivas. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. frio. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas.─ Não está a ouvir? São gritos. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. cinzento. contra o que era habitual. 225 . A PIDE aceitou a história. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas.. Muitos. O pide de serviço. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. uma história de comunista já assumido. sem sol (ou ainda não terá nascido?).

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). milhares de portugueses. repartido por várias sessões. a título gracioso. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. houve intervenções brilhantes. defenderam em tribunal. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. amigos. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. Das primeiras. Sobre estes causídicos. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. corajosas. entre familiares e amigos. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. fazia-se de propósito em voz alta. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas.

228 . caso raro. fingindo ignorar o detido. durante sete dias e seis noites sem dormir. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. anafado e exibicionista no fato de fantasia. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. As alegações iniciais e finais do réu. Riram de forma alarve. com o Carlos e o Pedro. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. mas falando em voz alta e explícita. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. seco de carnes e cenho ruim. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família.. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. quando foi apertado como testemunha de acusação. pelo doutor Manuel. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. O próprio juiz o admoestou. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!.. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE.

onde eu nunca tinha estado antes. Ao fim de três sessões. a interromper o réu. na sala de interrogatório!. com permissão do juiz. que lutavam pela liberdade. além do mais. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. às 16. 229 . a sentença constituíu uma pequena vitória. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. senhor doutor! Nos registos da TAP.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. Embatucou o procurador do Ministério Público.. ─ agora era o acusador público. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. O fascismo.00h do dia 23 de Dezembro. com uma pena de prisão remível a multa. ─ É fácil comprovar. há-de constar a minha entrada cerca das 20. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar... era rancoroso. proveniente da Beira. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. Costa Saraiva. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. Nos registos da prisão-sul de Caxias..

os antigos colegas Baptista.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Eduardo Fernandes. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. O apoio necessário vinha da família. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Zaida. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. Vicente Bolina. Hélder e Ventura. Eugénio Torres. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. os amigos José Lucas. Fernando Fragoso. José Caria. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Conduto e Pimenta. 230 . algumas intervenções foram particularmente conseguidas. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. ficarão registadas para a posteridade. Manuel Felizardo. Maia. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. tal era a acusação. No mínimo. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. Suzel. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo.

lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. em rápida expansão. a reflexão. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. organizado.. ─ Bom dia. não há 231 . quase vazio no início da manhã. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). o estudo. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. Desfazendo por fim o ar de admiração. aplacando a angústia e educando o espírito. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. fraternal e dinâmico.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. cidade dormitório às portas de Lisboa. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. que encheu o dia-a-dia. vê logo o quartel. AMADORA. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. disfarçando a saudade. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto.

que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica.. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. adivinhando a má nova e o destino ruim. ─ Deixe estar. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. na Amadora. indiferente aos dramas dos homens. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. indicada no 232 . bordado a ouro e esperança de melhores dias. o batente de ferro da casa térrea. situada numa magnífica frente para o rio. o desemprego na grande indústria. Um cabo e um praça da GNR... interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. com caras de poucos amigos. o rio era um espelho plano e calmo. mãe e madrasta. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor.. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui .

esse cretino!. a humanidade com que lidava com os 233 .. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. Não queremos criar problemas a ninguém.. ─ Entre. se tinha levantado para o receber. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade.. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. ─ Andamos à sua procura há oito dias. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. tudo era diferente naquele homem de idade madura. já fui julgado e condenado em tribunal!?. era preocupante e inabitual. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. até aí conhecidos.. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. ─ Processo disciplinar. O capitão Luís. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. oficial do SGE.. ─ Sabe?!. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. gordinho como era da praxe. é um cepo redondo com dois olhos.gabinete do oficial-de-dia. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa.

intuía com reprimida alegria na alma. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. gerava uma nova expectativa. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. Todos os dias desde a primeira vez. repetia-se ao princípio da manhã. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. formado em Direito. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. ─ Eu sei. deixava os interlocutores espantados. também com um problema militar complicado por razões políticas.. embrulhado em “maus lençóis”. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. 234 ..

mas não se comia nada mal. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. para quem tinha um curso de engenharia.. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. 235 . conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo.. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. não constituía dificuldade. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso.. furriel “estacionado”. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. deu para partilhar mágoas e esperanças. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. Tomara eu!. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio.Não tinha. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. ando a pagar viagem a viagem!. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. tristezas e expectativas. o que. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa..

. em Dezembro de 1971. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. foram obtidas sob 236 .. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação.. redondo de aspecto e de alcunha.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. ─ Bom! Ainda está muito quente. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. deve ter sido complicado!?. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. então não vale a pena perder tempo.. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar.

─ Só mais um minuto.tortura. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. ─ Quem não está. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. Certamente por isso. o processo-fantoche. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. como mandavam as regras tropeiras. Não ficaria por aqui. O horário é para cumprir. Era curioso. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. se sentara num banco traseiro. nos dias tal. já o mês de Julho ia avançado. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. Por mais de uma vez. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. Os documentos apresentados para assinatura. porém. falta um companheiro de viagem. estivesse. Depois chamo-o para assinar. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. dando como provadas as acusações. ─ Isto é um veículo militar. e tal. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. senão tem faltas injustificadas. Isso não pode recusar. não é um transporte público. sufocava-se no interior da camioneta. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde.

onde costumava aparecer o jovem de média estatura. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. com a conivência do militarismo reaccionário. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. Ex. na secretaria dos “Adidos”. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. a PIDE/DGS. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. ruivo e sardento. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . o furriel miliciano. Acácio da Silva”. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. pelo contrário. é furriel! Qualquer coisa da Silva. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. ª. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia.o compasso de espera solicitado. por determinação de S. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. Era um estado dentro do Estado. o “chefe da viatura”. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. seco de carnes e de sorriso franco.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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. até já cortou os pulsos para se matar!. e o moço de bigodão negro. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. ─ A doença dele é outra. mas o alentejano não se deu de achado. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. tentou esganá-la.. ─ O tipo está doido varrido. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. 246 ..─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. ─ Foi o bom e o bonito. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração.. mas num domingo foi aí uma barraca. desatou aos pontapés às cadeiras. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. casado há pouco tempo e aqui preso!... ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior.. mostrava-se loquaz. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então..

─ Então a situação é grave. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . sempre a caminho da enfermaria. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. ─ Pois sim. tem de se compreender. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. se tinha suicidado na cela. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. A notícia surgiu brutal. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. fundado em colaboracionismos vários. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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.. 255 . talvez mais cedo do que tarde!.da filhinha! Prometo que voltarei.

A LENDA 9. 256 . homens. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. velhos conhecidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. sacos. malas.

ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. o “canhão” esperava a carne fresca. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. como gado para matadouro. O camião carregado de soldados. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.). sobre as preocupações com a mobilização iminente. esfumou-se na distância e na poeira da estrada..No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. Algures. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. Beliches a cinco de altura.. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. cruza-se outro camião com soldados a granel. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. gente deitada semi-nua. grupos barulhentos jogando às cartas. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!.. Encostado ao taipal. que para aquele lado era de terra batida. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo.. 257 . encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte.

moço alto e magro. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. ─ Se calhar vou contigo.. que por perto ouvia a conversa. rua abaixo direito ao centro da cidade.. ─ A vossa identificação. isto é um país em guerra. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. se não houver problemas com a saída!. paleio animado e boina na mão. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 .. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. nossos soldados? ─ Desculpe. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática.. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. falta de hábito!. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada.

─ Conta-se haver um “gajo” rico. apanharam e carregaram cinco latões de lixo.. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. Devem vir fardados. mas sem fim à vista. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna.. limparam. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. também não a pedi nem a desejo! 259 . ordens do sargento! Resmungando e refilando. lá foram saindo os magalas mal ataviados. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. ─ Há aí vassouras e pás. tecendo laços de solidariedade circunstancial. entretanto voltou de avião para a metrópole!. pá! ─ Não te metas com esse gajo.. ─ Isso deve ser história.de colocações e a escala de serviço. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. sem pés. algures naquela guerra oficialmente já ganha. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída. é um exagero!. sem braços ou sem vida... não deve ser limpa há um ano!. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram....

veículos militares correndo pelas ruas. e a economia da região sobrevive do conflito. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos... o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. Os homens ocupam-se da máquina militar. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. ─ conversava-se à mesa do 260 . com o sol nebulado e uma humidade elevada.. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. que consome enormes recursos da Pátria distante. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. As vivendeiras. elogiando o trabalho feito. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. pois a guerrilha não diminuiu. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. com uma eficácia muito baixa. característica daquela região. assim se chamavam. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. pelo contrário. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas..Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. Na conclusão da empreitada.

quase não há serviçais do género feminino. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”.. a história da terra moçambicana.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. a 261 . Esta “chicalhada” irrita. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados.. a fim de conhecer tanto quanto possível. Têm inúmeros criados pretos. mas têm comida certa: ─ António.tal como sufocava o calor de Dezembro... falam mal o português. Longe dos teatros de operações. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. Ganham uma bagatela. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. Também alguns milicianos trouxeram a família.Café Central no fim da tarde quente. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. o militarismo sufoca! . os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. não sabem ler nem escrever. Passam carros de boas marcas com condutor militar. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba.

deixavam-no intranquilo. quartel-general da guerra. que não se vende em Portugal. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. Quando se saía da cidade. protegidos pela lei do condicionamento industrial. a perder de vista. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. porque Salazar não gosta muito dos americanos. à beira do milagre da “tomada 262 . conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. com bons conhecimentos. ao fim do dia. Uma planície de cor castanho-avermelhada. viam-se grandes embondeiros. e aos industriais de refrigerantes. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. A sua formação era claramente conservadora.. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias.. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. Nem vou. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. onde tudo era demasiado no estilo europeu. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. e potenciando o vício pela bebida americana. ─ insistia o jovem bem parecido. oriundo da burguesia alentejana. a prestar serviço nas “Informações Militares”.

ainda que tal custasse muitas angústias. já tinha a chave. réplica da arquitectura europeia.. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. 263 . a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. entre silêncios e goles de mistura fresca. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. Ia para dois meses. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. muitos sacrifícios e muitas vidas.. Prestes a mudarem. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas.de consciência”. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. Automóveis de boas marcas. Não tardam aí melhores dias!. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. ─ Quando vim. acreditava na justeza deste conflito. mais depressa os homens que os montes. Para o mais distante. deixam gente de pele escura. revelando a comum ascendência asiática. Pelo que tenho visto.

. O descontentamento emergia. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. À noite. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. o movimento à porta da mansão!. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. no Golfo Pérsico. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. a servirem como desabafos da alma. com as leituras ou as idas à biblioteca. com o infelizmente célebre. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. se notava um grande sossego.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . por bastante comum. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. chegavam famílias inteiras. normalmente.. ─ Ah! Então era isso. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. como na gíria é conhecida. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. Estavam muitos orientais. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. na Índia e até na China. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia.

Esta é uma lenda do povo maconde. viviam na água.. Os pretos cuidaram dele até crescer.. internando-se no mato. Datam do século XX. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. que encontraram sempre forte resistência.. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. nos princípios do século XVI. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. e se ele o dizia. 265 .gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. nunca mais deixou de nos tratar mal”. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . habitando o Norte de Moçambique. “Os brancos antigamente eram peixes. Durante a I Grande Guerra. se furtava. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. A etnia maconde. E desde então até hoje. possuía um carácter forte e indómito. entre os rios Lúrio e Rovuma. a que o povo das tatuagens e dentes limados. que a manteve longe dos circuitos da escravatura.. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. começou a fazer-nos sofrer muito. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. em 1918. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente.

sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. em 1885. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. “de Angola à contra-costa”. em 1889. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto.. em 1882. No início do século XX. hospitais sem médicos!”. confinando os limites do território moçambicano (e angolano).”Batalhões sem soldados. em 1878. doentes sem hospitais..A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . e de Capelo e Ivens. fronteira à ilha de 266 . prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. no Sul. Em 1895 e 96. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. alunos sem escolas e sem professores. de traficantes e de entidades coniventes. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. da costa de Angola à costa de Moçambique. Este último escreveu o livro “Mozambique”. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. escolas sem alunos. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. A nova expedição de Serpa Pinto.

Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. criada em 1894. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). em 1879. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. com capital inglês e francês. são finalmente controladas (oficialmente. a norte. ferro e ouro.. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. que iam completando a ocupação militar. a Companhia do Niassa. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. Lúrio e o lago Niassa.. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. entre os rios Rovuma. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. e o cultivo do algodão e da borracha.!).Moçambique. numa série de campanhas iniciadas em 1908. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. criada em 1888. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. a Companhia de Moçambique. com capitais metade ingleses e metade franceses. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. submissão das populações e pilhagem dos recursos. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. procedendo à exploração mineira nesta área.

subindo para 2 mil no início do século XX. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”.país colonizador. No período de 1910 a 1923. que funcionaram até 1942. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. Ou seja. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. muito depois da abolição oficial da escravatura. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. foi criado o primeiro código do trabalho.. Por outro lado. conseguiam um tráfego internacional crescente. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. ao seu sustento próprio”.) está sujeito. mantém-se o regime de trabalho forçado. não se mobilizavam voluntariamente. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro.. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. Em 1878. aumentando para 20 mil em 1926. Já a Companhia do Niassa. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. fundamentalmente para Angola. na sua área a 268 . agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. ao abrigo desta lei. sua sede. entre pessoal militar e administrativo. nunca teve grandes resultados. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência.

Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. oleaginosas (caju. copra). num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. assiste-se. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. tinha 30 mil habitantes e a Beira. sisal. França. Bélgica. canade-açúcar. mesmo nas suas próprias terras! 269 . já do século XX. mandioca. todavia. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. 1500 habitantes (só 50 brancos!). amendoim. destinados à exportação: algodão. chá. atinge 20 mil. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Alemanha. em 1925. Porto Amélia. tinha em 1925. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. criadas por decreto obrigatório. Holanda) estava em declínio. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. no Centro e no Sul do território. segunda cidade. É muito recente. milho.penetração europeia era mínima. No segundo quartel do século XX. a capital. e nunca foram construídas vias férreas. o esforço português de colonização efectiva.

perícia. em 1945. criada em 1921 com capitais ingleses. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. que cessaram a actividade por volta de 1942.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. No caso da exportação de algodão. pertencente ao grupo Champallimaud. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. cultivava 45% da produção algodoeira total. fundamentalmente para Portugal. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. a que se 270 . que assim funcionam como mercado protector. concessão feita a capitais luxemburgueses. e em particular com o capital britânico. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. Curiosamente. Além das referidas Companhias do Zambeze. Sena Sugar States. Inglaterra e União Sul Africana. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. constituída em 1948 com capital luso-belga. Companhia de Algodões de Moçambique. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial.. do Niassa e de Moçambique.. Presente desde há muito. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. a mais importante açucareira da colónia. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. originariamente para a exploração das minas de Moatize.

“No meio das convulsões presentes. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. também presente na indústria dos óleos. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores.. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. Em complemento. desmentida desde 271 . metade do total. no período áureo do chamado Estado Novo: . Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. etc. incluindo: 400 mil emigrantes. 520 mil contratados do algodão.associaria o grupo Melo. em 1943. se auxiliam. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. irmandade dos povos que. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. sejam quais forem as suas diferenciações. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores... se cultivam e se elevam.

era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. 1. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. organizadas em ensino primário e liceal. três ou quatro nos finais do século XIX. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. no século XVIII. à data dos inícios da guerra de libertação. dez em 1825. traficando em escravos. em 1960. ou seja. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . e as escolas elementares das missões católicas. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. espalhados ao longo da costa moçambicana. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. em 1950.6 milhões. ano da publicação do Acto Colonial.5%). em decréscimo) num universo de 6. com a política de “fomento colonial”.sempre pela escassíssima presença portuguesa.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. asiáticos e “assimilados”. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. Da mesma forma. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. Todavia. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0.

ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. educar. etc. Por este tempo. padres de Verona. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. confluindo no desejo independentista. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. sobretudo depois da II Guerra Mundial.. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. subjectivamente.. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. ao arrepio do ensino do Português.. 95% da população africana se encontrasse na 273 . Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. reflectindo a miséria da missão colonizadora.. fomentando o espírito nacionalista latente. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. Não admira pois que em 1960.território colonial. nacionalizar e civilizar a população nativa”. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. padres de Burgos. 1970). para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? ..).

. ok?!.. o Castro. Craveiro Lopes. a Lurdes. são gente boa. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. o Fausto. A humilhação permanente da despromoção. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. o Monteiro.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. o Santos. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). 274 . os Casimiro.. a Lena. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência.. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. ). o Ivo. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. A colónia funcionou até 1960. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. o Muradali. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. o Melo. em 1956. quando começar a luta de libertação nacional. Precisas de te distrair! O Carlos. como na afirmação do Presidente da República. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. o António.

arrostando sozinho as penas da insubmissão.. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que.. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. este tipo é incrível.. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. 275 . por isso te despromoveram e te castigaram. Ciclo do COM. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!.. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. A seguir a uma curva. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. ─ Não é tanto uma questão de coragem. muito apertado pela PIDE em Caxias. atravessado. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. que até nem foi extraordinária. como morto. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. entretanto a revolução. ─ questionava a esposa. estava um negro deitado na estrada.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. é mais uma questão de integridade. sempre muito sensível. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa.

─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. cada vez maiores. O mais custoso é a separação. De vez em quando vou tendo notícias. me dá vida. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante... No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém.. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. sim! Com dezoito meses. por isso tu és a minha vida.. O tempo não pára. a minha luz. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. se estivessem aqui comigo!. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. felizmente. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. tu ensinaste-me a viver. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito.. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. mas nós havemos de vencer haja o que houver. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 .─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. Estão bem. (. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. carregada pela angústia da separação física.

─ uma carga de trabalhos.. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. Nós esperamos por ti. durante quase seis meses. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . o amor constrói-se também com sofrimento.criaram.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. que faz amanhã 18 meses. Por outro lado. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos.. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. a nossa ligação temse fortalecido. Como disse um grande poeta. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova... ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. não sei se aguentaria. o casal ainda não tinha filhos. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . e agora?. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. amor da minha vida”. (. O “carocha” quebrou o transe emocional. diz o nosso fruto pequenino. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura.. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha..

as de jovens oficiais do quadro. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. e de sectores ligados ao general Spínola. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. que há pouco. natural da cidade-quartel-general. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. em Outubro passado. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. alto e bem parecido.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. ─ Um movimento autêntico. fora apresentado como Ivo. fora compulsivamente incorporado. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia.. onde vinha em luto familiar. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. ou mais uma tentativa de “putch” militar. genuíno.. foi bastante mais João. desassombradamente. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . no início da década de 70. Juntamente com outros dirigentes estudantis. pelo parente morto em exercício militar. também alferes no Q.G. era um jovem mulato.G. à entrada. também ex-dirigente associativo.

que fazia a interface entre muita gente. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. Se isto dura mais uns meses. trazendo e levando notícias e materiais. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. chegando e partindo constantemente.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . para ajudar a acabar com isto. Fixados há muito em Nampula. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. A casa de família da classe média. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. falava no assunto tabu. alimentando a célula da resistência em Moçambique. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. o mulato quase formado em Medicina. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. que não renegavam. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. ─ Como sabem.

em plena época quente no Hemisfério Sul. Tenho a convicção que o fim se aproxima. mostrara uma insuspeita clarividência... também dirigente académico perseguido.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas.. concitou a atenção dos presentes. que venha por bem! ─ Por cá.. nas escolas!.. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. ─ a senhora de Casimiro. oriundo de famílias militares. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. mas creio que já não têm tempo!. assume-se agora do lado dos oprimidos. ─ Talvez não haja tempo para isso. depois do fracasso das operações no Norte. num fim de tarde africano. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. nos quartéis. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!..guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. mas se é contra o regime. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. ─ A própria igreja de Moçambique.. O julgamento do 280 . ─ o jovem Melo... apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. muito simpática e delicada. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim.

A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. Completa esta imagem do século XVIII. é paradigmático do papel da igreja católica em África. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. por orientação do Vaticano. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. o ambiente ganhava optimismo. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. no curso do século XX. num contexto de declínio do colonialismo. parte integrante da máquina colonial. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. Depois da concordata de 1940. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. terra de esperança. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. prevendo e prevenindo o futuro. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). durante a ascensão e esplendor do colonialismo. assumia-se de forma muito mais contraditória. Sebastião Soares de Resende. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. uma voz clara que 281 . quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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30h. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. aqui e acolá. num “Aviso” da Marinha de Guerra. nada de atrasos!”. Agora na sua senda. quase escrava. rumo ao Norte. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. Na conjuntura actual. a praia do “Relamzapo”. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. os colonos emigrados. aparentemente descurando o futuro. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. a meio caminho da cidade portuária. Percorridos em visita. tinha uma areia fina de tacto agradável. ainda acreditavam. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. A partida é às 20. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. negros na maior parte. semeada de pedaços de algas escuras. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. A praia das “Chocas”. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. imaculada. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . e. de medusas da “Cruz de Cristo”. com “cabrinhas” de espuma branca. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. espraiando-se levemente na areia branca. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. agarrado às vantagens do passado. duas dezenas de soldados. cada vez menos.do oceano de águas escuras e algo agitadas. como gostavam de dizer.

impecavelmente fardado. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”.bigode sobranceiro. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. Marcelo. Caíra a noite. ─ Há poucos dias estava óptimo. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”.. Num jipe oficial. ao jantar.. logo me contas o resto da história. Ele contar-vos-á os pormenores.. Tinha razão o Ivo. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. é melhor não te verem por 290 . o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora.. Tratem-no como se fosse um de nós. branco. também vou?. um jovem alferes moçambicano. estivemos a conversar em casa de uns amigos. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto.

em serviço à pista. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. ex-dirigente estudantil. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje.. à saída. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. ─ Olha quem ele é!. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques.perto. instruiu o condutor de serviço: 291 . A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. com o furriel “recepcionista”. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. já eram velhos amigos. de camuflado. Antes.. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência.

certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. único utente até hoje! Ao longe. num vale em depressão. desde Porto Amélia. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. alinhadas ao longo de uma estrada de terra.. Diferente. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . bem vestidos ao modo africano. a rasar a copa das árvores. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. a poente. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. com telhados de fibrocimento. para onde vai o professor. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora.. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. arrasando os nervos. pintadas de branco.─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. que passava rapidamente. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. parecia ser gente “importante”.. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. Do avião. era uma zona de casas. Verdes e impenetráveis. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro..

orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. de ataques com foguetes de 122mm?. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas.adiante. 293 . de madrugada. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. de contornos envoltos em bruma. interpelou-os: ─ Meu furriel. até se diluírem no horizonte. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. destoava do verde constante da paisagem. em Porto Amélia.. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos.. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. Mais distante. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. ─ Contava-se. ou talvez mesmo de há muitos dias. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada.

agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. ao calor escaldante do meio-dia. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. sem gosto. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. em fila. a recolha da sopa numa lata de folha. porventura. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar.Fim de tarde ameno. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. Em tempo de Equinócio. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. Ali na África Setentrional. confundindo-se à distância com a neblina circundante. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. sem higiene. Por instantes. sem vontade. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção.

esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. minas anti-pessoal. Mina. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. projéctil. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. da personagem mal conhecida por recém-chegada. falso alarme. e o manto escuro caindo sobre o lago. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. Mais distantes. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. A respiração suspende-se por segundos. em cenas de caça na terra de ninguém. caçadores nativos. Novamente o mundo sem sons. do outro lado do rio. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. despejada a eito. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. o medo da guerra. encosta abaixo. crocodilos. ataque? Nada. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. o nosso direito e o nosso interesse. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. em cujas margens coexistem por vezes. a angústia do afastamento familiar. a miséria do rancho. É Naschinguyeia. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania.da pátria.

com mais de 50 mortos. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. o mito da defesa do mundo ocidental. primeiro em Angola. um ex-ministro de Salazar. em Junho de 1960. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. piscando o olho aos americanos e à NATO. em véspera da 296 . em 1961. acediam à independência. Uma contínua e continuada mistificação. no Tanganica. francesas. em 1963 e por último em Moçambique. afogou as pretensões num banho de sangue. depois na Guiné-Bissau. em Abril de 1961. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. Franco Nogueira. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. quando as ex-colónias inglesas.impérios asiáticos. belgas. transferindo-se para Dar-es-Salaam. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. holandesas. em 1964. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda.

independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). Como nos restantes casos. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. No final desse ano. em 19 de Dezembro de 1961. em Maio de 1961.União Nacional de Moçambique Independente. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. segundo os próprios. No interior de Tete. Damão e Diu. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. em inícios de 1961. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. Marcelino dos Santos e Uria Simango. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. no Quénia. da 1ª. começando a derrocada do império colonial português. com diferentes sensibilidades e perspectivas. futuro grande estratega militar da luta de 297 . com mais ou menos expressão. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. A realização em Marrocos. Em Nairobi. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. independente desde 1958. tratava-se de um movimento heterogéneo. moçambicanos da etnia maconde. foi criada a UNAMI . criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane.

primeiro presidente da Frelimo. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. Após 298 . com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. Congresso em Setembro de 1962. capital do Niassa. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. finalmente. bispo de Vila Cabral. * Eduardo Mondlane. em 1971. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”.libertação: Samora Machel. Ao fim de quase 500 anos. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . pelas tropas em acções de represália. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. e no vizinho distrito de Niassa. O conflito iniciou-se em 1964. simultaneamente em Cabo Delgado. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. unificado a partir do 1º. com um ataque ao posto militar de Chai. de monsenhor Eurico Dias Nogueira.

fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. só em Março de 1963 se radicou em Dar. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. Tinha chegado a Dar em 1963. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. moçambicano de origem 299 . Leo Millas. em risco de ser preso pela PIDE. a Frelimo teve um início de vida agitado. no extremo nordeste de Cabo Delgado. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. em Março de 1964. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. o tenente Jacinto Veloso das FAP. Pascoal Mocumbi. Por essa época. seguiu Samora Moisés Machel. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Joaquim Chissano. nomeadamente Julius Nyerere. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma.breve passagem por Lisboa. iniciando com Marcelino dos Santos. Janette. um período de grande vitalidade da Frelimo. capital do Tanganica. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. que casara com uma americana branca. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Instalada em Dar-es-Salaam. entre outros. Eduardo Mondlane. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. Professor na Universidade de Siracusa. após uma espectacular deserção.

Mais tarde em 1965. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. Lázaro Nkavandame. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. Também por esse tempo. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. em Fevereiro 300 . * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. em Setembro de 1964. de passagem por Argel em Março de 1963. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. outro moçambicano branco. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. O seu presidente Banda. O seu líder tribal mais carismático. Perseguido e preso pela PIDE. a funcionar na capital argelina. Mondlane convidou Helder Martins. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. para se juntar à Frelimo. comum na região setentrional africana.branca a juntar-se ao movimento.

Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). a luta alargou-se rapidamente. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. conta a história do movimento de libertação. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. base da alimentação. onde reza a lenda. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. a 301 .de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. Desde o primeiro ataque a Mueda. por não terem armamento pesado). mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. No mês de Fevereiro de 1965.

num Moçambique livre e independente.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. ─ Independência de Moçambique. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. total e completa. e à exemplar democracia americana. EUA e URSS. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. que garante a sua unidade interna. Foram então nomeados.

a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. em Moçambique. uma nova frente na região de Tete.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. em 1967. É a resposta às forças portuguesas que. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. a sul. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. onde o regime do “apartheid”. decretando sanções económicas e políticas. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. em Novembro de 1965. Neste contexto. na Rodésia. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. Salazar fazendo jogo duplo. em Moçambique. Em Abril de 1966. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. na Namíbia. veio complicar o xadrez político na África Meridional. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. condenada internacionalmente. 303 . ZANU e ZAPU. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas.

Mtwara. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. alvo por vezes de assaltos surpresa. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. Kingwa. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. O movimento moçambicano está já então bem organizado. enquanto um soldado ganham um!). Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. (ganham dezasseis contos por mês. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. passando a partir de 1966. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. Viveu-se à época deste congresso.Na região de Cabo Delgado. no célebre campo de Naschingwea. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. Em Fevereiro de 1968. o padre católico negro Mateus Gwandgere. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo.

Moçambique. Em visita às colónias em Abril de 1969. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória.. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . Em Fevereiro de 1969. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. em Dar-es-Salaam. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. As palavras só têm significado para os 305 . Namíbia. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. onde vivia com a mulher e três filhos menores. sem sentido histórico e sem significado real.). África do Sul.. E foi a PIDE. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. Em Portugal. são um imenso caldeirão prestes a entornar. sem um claro vencedor.

O movimento de libertação está mais forte. sangue. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). A história e o tempo jogam a seu favor. em Maio de 1970. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. No dia 1 de Julho de 1970. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. morte. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). um dos fundadores. custou esta 306 . para Angola e Moçambique.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. e. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. em Moçambique. para comandante-chefe. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. é eleito presidente Samora Moisés Machel. respectivamente. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. coeso e organizado. sacrifícios extremos. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. um militarista ultrareaccionário.

desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. na acepção militarista. milhares de combatentes. também houve muitas vitórias. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. dinâmica. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. Praticando o extermínio por onde passava. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. 307 . A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. muitas apreensões de armas. de centenas de estropiados. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. pomposamente exibidas na RTP. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. bem organizada e com uma forte retaguarda. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses.

desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. ficou-se pelo quilómetro vinte!. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. prometendo acabar com o “terrorismo”. O conflito colonial em Moçambique. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). montada debaixo do grande embondeiro. Silva Cunha. Aguardavam os restos garantidos da refeição. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. a fingir de refeitório. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. 308 .. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. Como resposta. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos.). descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). crime (milhares de mortos civis e militares). “Um murro de boxe num ninho de vespas”.. finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. o ministro do Ultramar. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). diria outro retinto situacionista.

─ E o pai?.. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”.. ─ Então não conheces a história? O pai deste. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. Lava. dez escudos por mês! Vive com a mãe. sinhô! ─ desviou a cara. de carapinha escura. oito ou nove anos. precisam de ajuda!. sobretudo os da “fofoca”. eram raros os garotos vindos do lado maconde. Vinham quase todos da aldeia macua... hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote.. cinco anos. outros nada.. que também está de partida. Como te chamas? ─ João. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. o pai morreu na guerra. com as suas tatuagens características. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. passa a ferro e não leva caro. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa. 309 . ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. Alguns já tinham comido sopa do rancho.. Quatro..entretidos em brincadeiras de ocasião.

aflito com o rumo do negócio. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama.. ─ Pois é. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. radiante na sua prometida função de cicerone. consta que ele é casado na metrópole. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. que está nos GE´S. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . com telhado de colmo como as outras. transportado às costas como era uso. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. de forma menos tradicional. mas com paredes rectangulares de madeira. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador.. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.─ Curioso!.. repuxada pelo filho mais pequeno.... ─ É a Teresa! Não te dizia!. em cuja entrada ficava a casa de Teresa.

As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . aproximava-se da negra Teresa gesticulando. mas achou prudente não se manifestar. sempre a gritar e a gesticular. calças pretas. a metrópole era Portugal. Já escondido. ─ O furriel tem andado desorientado. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. Gritava de modo incompreensível à distância. em terras de mistério e desgraça. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. ou porventura devido à língua entaramelada. com um fardamento esquisito. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. em genuíno desabafo de revolta. magro. na África sedenta de liberdade. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor.João estava tentado a corrigir o vocabulário. só perturbada pela desgraça dos homens. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. qual dono de escrava.

Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. 312 . que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. onde este tipo de assuntos era mais propício. O “negócio” era do lado da aldeia macua. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. Os homens deviam estar a descansar da guerra. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. cercado de arame farpado e minas. mas nenhum queixume. visivelmente amedrontado. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!.. obrigado! Tenho outras preocupações. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde.. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. ─ O homem está com ciúmes. cor amarelenta e barba mal escanhoada.timorato o rapaz de estatura baixa. Notava-se pouca actividade. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul.

Nas circunstâncias. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. O cabo Carlos. a sua comissão fora penalizada em três anos. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida.─ Há lá velhotes porreiros. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. Só não sabia. não há pressa. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes.. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. ─ Porque se sujeitará Teresa. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. já os tinha mencionado. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. ─ Logo se verá. Se é que essa seria a “estória”. A frase soava ordinária. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. e por isso hesitou 313 . Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. não seria muito prudente. onde já anoitecera.. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. ocorreu à imaginação do soldado castigado. como degradante era todo o ambiente da guerra. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem.

que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. os homens estão muito desgastados. A hipótese de não rodarem. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. caramba. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. na perspectiva de descerem para Sul. a raiar a exasperação e a revolta. raramente encontravam alguém da guerrilha. somada à saturação de sucessivas saídas e. 314 . a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano.calado e pensativo. à enorme angústia pelos mortos. criava um estado de espírito muito negativo. era que de há anos àquela parte. gerava uma enorme frustração que. sobretudo. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. ─ Isto é uma guerra. ao fim de um ano de “trolha”. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão.

consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. sob o comando supremo de Samora Machel. caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. Raimundo Pachinwepa. contra o que chamavam. Alberto Chipande. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. militarista e reaccionário. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. Filomena Nashak. Bonifácio Gruveta. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. a relativamente inepta tradição colonialista. José Moiane. por um comando supremo todo poderoso. único do povo moçambicano. Armando Panguene. O movimento nacionalista. Em contrapartida. entre outros. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. Osvaldo Tazane. eram os outros 315 . Sebastião Mabote. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. “travestida” de serviços de informação militar. Monica Chitupila. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. Mariana Pachinwepa.

ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. em Julho de 1973. Grupos de soldados portugueses. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. ensanguentada e sedenta de liberdade.vectores fundamentais da situação político-militar. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. nos confins de uma África inóspita. “A fogueira do guerrilheiro”. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. A sorte da guerra estava traçada! 316 . em português. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. por milhares de manifestantes.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. apostólicos e romanos”. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. por oposição à guerra. muito “católicos. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. em protesto contra a “política ultramarina”. Domingos. da diocese do Porto. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. Dia Mundial da Paz. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. Felicidade Alves. atenta e preocupada com os ventos da História. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. em Lisboa. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. no dia 1 de Janeiro de 1969. Diminuía a base social de apoio ao regime. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. durante a campanha para a Assembleia Nacional. e em Portugal. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. MPLA e FRELIMO. 318 .

manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. Vendas Novas. Santarém.. Tavira. No início da década de 70. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. em 1971. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. Tavira.. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. nas escolas. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. 319 . publicado nos princípios da década de 70: . no 3º turno de 72. e outros mais No panorama internacional. entre outros. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. dentro do “ninho de víboras”. embora negando os factos. e os Estados Unidos. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. em 1971. nos quartéis. no 4º turno de 1971. organizada unitariamente. arrancados às escolas. na organização da resistência e do combate internos. “Não jures camarada!”. “Levantamento de rancho”.. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. Santarém. no 1º turno de 72. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. em 1972. protestos na parada. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques.. “Alerta camarada!”. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. ameaçando:. Lamego.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas.

da independência da Guiné. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. com o objectivo de “legitimar a guerra. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. ainda que por novas vias. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. António de Spínola. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. em Outubro de 1972. e em Abril. No essencial tudo fica na mesma. como resposta a agressões vindas do exterior”. com Leopold Senghor. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. Guiné e Moçambique. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. Em Outubro do mesmo ano. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. Mas a luta de libertação está muito avançada.“ajustando” a estratégia. a proclamação. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. Ainda assim. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. encontra-se. o combate não esmorece e. Entretanto. em Março de 1973. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. o Conselho de Segurança da ONU. próximo da fronteira. Enquanto isto. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. O alcance da iniciativa é inteligível. para breve. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. ao perceber o fim inexorável. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. os 320 . Na Guiné.

tinha mais inimigos do que julgar se pensava. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. de aquartelamento em aquartelamento. fartos de guerra e do militarismo fascista. sem nunca o confessar abertamente. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. conversando e trocando novidades. Spínola. no entanto. Quanta gente. as forças guineenses combatem por todo o lado. A guerra entrava numa fase derradeira. derrotado. havia o “inimigo interno”. organizadas como um “exército regular”. KAIOMBE DE JIMBE. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. ficaria ainda ferida ou estropiada. Havia o In. que a guerra de libertação é invencível.. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. a independência da Guiné. acossado. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. reparando rádios e antenas. perigosamente de terra em terra. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. percebendo finalmente. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. em Agosto de 1973. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. numa zona libertada. empenhado há tantos anos na luta pela independência. o PAIGC proclama em Madina do Boé. Um mês depois.“Strella”. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. não pode satisfazer. em Setembro. que Marcelo Caetano. em aumento crescente. todos aqueles que iam 321 . passando a uma fase superior da luta de libertação nacional.

na vila de Jimbe.. nos princípios de 1974. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. mas como muitos outros. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. Mas ainda havia quem. besta contrariada. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . – Bem. carroça mal puxada! revolta-se!. bem. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!.. Além da agricultura de subsistência. procurasse puxar a “carroça”. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. Não era mau rapaz o furriel.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!).. Já se sabe o resultado.. na Região Militar Leste. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. foi só um desabafo. arreando forte na besta. furriel. pertencente ao subsector do Cazombo. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial.

o problema não era do rádio propriamente dito. com duas ruas paralelas. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício.e políveis. com frequências próprias. – Esperem aqui. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. solicitaram a reparação. era uma realidade também em África. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. onde aquela estava montada. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. os chamados “flechas”. permitindo comunicar inclusivé com Portugal.. onde vivia pobremente a população indígena. – Venham comigo. trabalhado na feitura de peças artesanais. agradado com a tarefa.. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. Afinal. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. Devia ser problema na antena. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial.! – o furriel. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus.

jovens militares estarrecidos. solicitado para outro qualquer assunto. Vaz. que deviam doer horrivelmente. completamente expostos aos elementos. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. rumo à África do Sul racista. ou no célebre batalhão “Búfalo”. alegadamente à caça. o agente António Camelo. Morreu passado pouco tempo. de nome Kaiombe. Trindade. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. tratava-se de um habitante da zona. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. Perturbados e confundidos. momentaneamente. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. autênticas jaulas de guarda-bichos. Lontrão. e outros. Laia. No caso vertente. participante na invasão do solo angolano independente. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. Casimiro. causando-lhes horríveis queimaduras. tinha por desporto nos interrogatórios. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. apanhado no mato pelos “flechas”. ficaram a saber que o chefe do posto. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. Alguns meses depois o pide Camelo. 324 . ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. com as O pide da retirou-se antena. De volta ao quartel. mas suspeito de apoiar o MPLA. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. apagar os charutos no corpo dos presos.

com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos.. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. guineenses e moçambicanos. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. Significa que entre nós o crime compensa.. Essas vidas poupavam-se. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. da revolta activa de muitos milicianos 325 . se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. ou reforma dos ex-combatentes. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar.Face hedionda do sistema colonial fascista. Neste sentido. que em África. e as de dezenas de milhares de autóctones. perseguiu. porventura numa escala muito maior. prendeu. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. como em Portugal.

Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. homem da sua confiança pessoal. Dezembro de 1973. Regressado de Moçambique. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. – Em Fevereiro de 1974. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. António de Spínola. em Óbidos. futuro militar de Abril.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. mais meios logísticos. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. composta por 19 elementos. conservadores e liberais. embora unidos no essencial. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. – Em 1 de Dezembro. com mais homens. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. o general derrotado na 326 . ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. o general fascista não parava de conspirar. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. cada vez em maior número. como ministro do Ultramar. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. entre ultra-reaccionários. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. – Por esta altura. em Julho. com o conluio do recente ministro Silva Cunha.

declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. o “Movimento dos Capitães”. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. transmitida pela RTP. – No dia 5 de Março. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. a assumirem o governo. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. publica o livro “Portugal e o Futuro”. a chamada “brigada do reumático”. Pátria. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. Vinha de um retiro no Buçaco. Costa Gomes e Spínola. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. – No início de Março. em vão. – Nesse mesmo dia. para reflexão. O professor fascista “demo-liberal”. Família. A “coisa” está para breve. 327 . criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. reúne-se em Cascais. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. para todo o país. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. reafirmando a disposição de não ceder em África. os oficiais-generais. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). em directo. convidando-os.Guiné.

faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. em fins de Março. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. naquele promissor Março de 1974. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. animadas pelos comunistas.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. Os amigos. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. – Cartas de amor e guerra. solidários.. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. Caetano. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. chalaceara à partida. livro de António de Spínola. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . greves na cintura industrial de Lisboa. no regresso de férias. com frequentes “extravios”. meu sargento. e prisões. amor e esperança. O velho sargento. Desta vez. “Portugal e o Futuro”. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. divertido e perspicaz. o sargento-ajudante “Mafra”. em trânsito ocasional. grande dinâmica unitária do movimento CDE. – Deixa lá a guerra. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. com as missivas dissimuladas..

) Amor querido. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim..). foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. apesar de inconsequente. com um enorme impacto 329 ... depois de castigo disciplinar).. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. Não foi ainda!. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª.(. como costumas dizer”(. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. Mais cedo do que tarde. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica.. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. Margarida. em Julho de 1973. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972.. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. INHAMINGA A SUL. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. refere a coragem dos revoltosos. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.... Hastings. denunciados ao mundo pelo padre inglês A. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. (..

Havia notícias desde Julho de 1972. no caminho estratégico para a Beira..) “Afinal tinhas razão amigo. acompanhados por dois cineastas e um repórter. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. sempre a alinhar! – Boa sorte. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra.. amigo. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra.! – Nada que se compare com este inferno. era ou mato ou morro.. 330 . chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. Oficialmente configurava uma acção por focos. A situação é deplorável. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. Algumas semanas depois.. esta zona onde aquartelámos. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973.mediático. é palco de uma crescente perturbação subversiva. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. para onde a companhia independente tinha rodado: (. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo.

São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. lançava o pânico. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. em Tete. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Entravam e saíam carros civis e militares. Depois do Verão de 1973. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. A tropa regular. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. massacrando ferozmente populações. onde o terreno estava relativamente “livre”. em autênticos massacres. nas hostes colonialistas. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. A sanha perseguidora. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. Estas denúncias referem milhares de 331 . vinda da guerra no mato. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. Nos últimos dias de Julho de 1973. prendendo sobas e régulos. torturando e eliminando patriotas. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. iria assistir e nalguns casos participar. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga.

por cegueira.mortos. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. originando dezenas de milhares de deslocados. 332 . atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. No estratégico caminho da Beira. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. geralmente odiada. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. conveniência ou por convicção. a alta hierarquia militar. como na localização das bases Nampula. e nas Colónias. Gungunhana e Moçambique. pela PIDE. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. durante a operação Nó Górdio. adivinhado naquele início do ano de 1974. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. com homens de “antes quebrar que torcer”. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. terem essa atribuição).

da Namíbia. cinzentas e verdes. podiam ver-se muitas estrelas. de 19 a 22 de Abril de 1974. da Rodésia. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira.. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra.. – Têm fardamentos bonitos!. azuis.“Strella”. Mesmo tendo diminuído as 333 . chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando.. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. – São “patentes” da África do Sul. amarelas. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? .. em plena luz do Sol.. padre José de Sousa àquela área. dada pelo chefe da secretaria. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação.. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. a norte de Moçambique. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. com foguetes terra-terra de 122 mm. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras.... De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. incluindo aquele. A explicação não tardou. significando tratar-se de militares de patente elevada. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. do Brasil.

encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. em 1971. tal como há três meses atrás.. comia-se em dois turnos. após a operação “Nó Górdio”. Na messe dos sargentos. Manica e Sofala. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. o correio andava atrasado quase um mês. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 .. os aviões de abastecimentos tinham rareado. digna de registo. Zambézia. de serviço à pista. onde João fora aboletado por determinação do comandante. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde.. após uma grave crise de desnutrição. arroz com feijão frade e um ovo estrelado.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. Com as últimas garfadas. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. não estava pronta: – É um “Dakota”. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. retiraram-se à procura da refeição frugal. depois do caldo aguado. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. a comida escasseava. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra..

são 13 horas e o almoço arrefece!. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. – Calha bem. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo.. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. atingira-se uma situação alimentar muito precária. os “Strella”. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. Depois de levantar voo na pequena pista. com o 335 . um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. Em princípios de Abril de 1974. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se.. a aeronave subiu muito alto. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. Num repente. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. Agarrados aos frágeis bancos de lona.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. vamos tentar uma aterragem de emergência. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. ainda fumegante. Por favor. virando-se para a comitiva tagarelando. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados.

em Diaca . todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”.motor restante acelerado ao máximo. não permitiram uma boa travagem. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. A pista de terra batida e cheia de buracos. vamos “dançar” um bocado. a exigir a elevação do “nariz”. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. e a falta do motor. a unidade militar mais próxima. No interior andavam todos aos trambolhões. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. – Tenente. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. travando a fundo os rodados. prevenindo-a da emergência. 336 . abandonadas à pressa pelos indígenas. O piloto-chefe informou via rádio. em rápida aproximação da terra.. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. o avião meio destruído. quando se aperceberam da situação.. gritando o desespero da hora derradeira. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. fazendo um barulho ensurdecedor. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. imobilizou-se por fim. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. fora feita para receber os pequenos monomotores.

recebidas com grande apoio popular. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. 337 . Coordenando a luta legal e semi-legal.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. dos trabalhadores. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. depressa se envolvera na luta pela democracia. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. e desmultiplicava-se em acções de rua. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. dos estudantes. No dia 6 de Abril de 1974. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. onde decorria uma participada assembleia de democratas. vinda do Sul para estudar. por não haver condições democráticas. da intelectualidade progressista. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes.

– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. não sei qual a sua fonte de inspiração. gostava de escrever um poema assim.: “.. A morena de olhos escuros dos genes árabes. o desejo. será o grito de revolta. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. Faremos dele a nossa canção de luta..)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. Amo-te querida esposa. tão Não teve tempo de completar a leitura...) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos.. tê-lo-ei sempre comigo. Custava-lhe magoadas. mas se soubesse fazer poesia.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. escrito na pedra ou no vento. doendo no corpo e na alma.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. – Minhas senhoras. cresce o amor. dependurado à cabeceira. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos.. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. sublime e autêntico. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade. à porta da cela onde 338 . estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. onde quer que viva onde quer que morra. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação...

.. entretanto regressada dos lavabos. 339 . mudando o tom. Era outro.. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. “Poemas de amor e revolução”?!. porém. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. completamente. Decisão temerária e esforço inglório. minha senhora..normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. como era uso. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. o estrato humano em presença. Muito interessante. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. – São cartas do meu marido que está na guerra. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. apenas recebemos ordens para as transferir. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. – É o regulamento.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. a morena de cabelos em franja.. a ala dos interrogatórios e das torturas... A carcereira às ordens da PIDE.. Não tivera tempo para mais hesitações. Eram ordens. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. – Isso não sabemos.

analisar a situação. com data de há dois dias. produto da fé dogmática. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. 340 . – Foi detida no princípio do mês. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. Aqui neste fim do mundo. que vais fazer? – questionava o Pedro.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. com a miúda pequena!... Depois ressuscitou! É verdade. – Vais ver.. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. nem sabia bem. prostrado. numa reunião da CDE. não vão detê-la por muito tempo.. por minutos ou por horas. em Lisboa. – Se pudesse ia para lá já hoje!. Era preciso arrumar as ideias. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. Lágrimas reprimidas mas teimosas. sinto-me atado de pés e mãos. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. – E agora.

as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. Algo paira no ar!. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares.. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. – É da idade do meu. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. a guerra prosseguia sem fim à vista.. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. mal a conheço!. sem saída previsível. de quem tinha um filho também pequenito. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. agravado por um quotidiano de misérias. lançada à dois anos pelo general fascista. greves nas fábricas!. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. – Pedro referia-se à esposa. nas mesmas picadas. 341 . Aquilo lá está complicado. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem.. frustrações e medo.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho.. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”.. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. com o parlatório de permeio. que avançavam lentamente. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. – É tempo de derrubar o fascismo..

Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. mal instalados. seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. que não matavam mas moíam bastante.. a bem da moral psicológica das populações. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. somados na terceira ou quarta comissão. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . No presente. perdidos no meio da burocracia conveniente..”. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. mal alimentados. da contestação e da revolta. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. Já quase chegavam para a casita nova. apto a receber grandes aviões. diziam as vozes do desânimo. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. mas que era por vezes motivo de incidentes. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). Aliás. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. fazia parte da orientação do In. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. em 25 de Junho de 1975. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter.entretanto afastado. talvez o enorme campo de aviação. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas.. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente.

onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. – Ai minha rica mãezinha. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. quando o pânico perturba a racionalidade. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. encarregada da segurança daquela área. Pela primeira vez em pleno dia. mas às vezes não!. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. É o décimo. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. com a arma cruzada entre os braços.. debruçados no parapeito da vala. Companhia de Caçadores. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm.. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. estão em calções 343 . desde que começou o ataque às 8.

. na direcção da pista de aviação em eterna construção. A excepção foi o comandante do aquartelamento. enquanto o chefe não chegava. na direcção do posto de artilharia da unidade. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. ser um normal rebentamento na pedreira. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. Na secretaria do comando. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. Na reacção. arrancando resoluto no jipe. a responderem ao bombardeamento: 344 . Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. onde psicologicamente o susto era menor. a meia encosta. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. pensava-se inicialmente. tinha decerto instruções hierarquizadas. entretido a escrever à máquina um aerograma. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido.e tronco nu porque o tempo contínua quente. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. Restava a vala-trincheira já superlotada.. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. de 8 e 14mm.

– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. é relativamente inofensivo. – Ena. Olha se caísse aqui?!. permitia concluir que ainda estavam vivos. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. não morreu um gajo no ataque a Palma! . sempre de cócoras. ao fim da tarde.. O furriel Costa continuava imperturbável.. “arrancado” à escola superior de agronomia. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. Outra vez a voz calma do furriel Costa. a menos de 50 metros.. ribatejano.. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. mas a tremenda e instantânea confusão. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. pá! Por pouco!.. a mais de cinco quilómetros. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. com a G3 entre os braços. Havia uma pequena pausa no ataque... – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. que “quando se ouve é bom sinal!”. – Pois não. filho de pequenos agricultores. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. Aprendia-se nas conversas de caserna..

Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. a pontaria estava agora muito alta.. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. durante uma hora e vinte minutos. A resposta da artilharia esmorecia também. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. No dia 4 de Abril de 1974. já se via muita gente de pé. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. fica atenta às notícias da telefonia!. traduziam um intenso pavor.os anteriores. – Venho estafada. só estragos materiais. No seu jeito brincalhão característico. as munições deviam estar a escassear. Os olhares cruzados naquele instante.. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . Nove horas da manhã. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros.

rapariga! Descansa. Conhecendo o ditado das “águas mil”.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. nos novos caminhos da liberdade precária. sempre lindo.. distendendo os nervos. Amanhã logo saberás quando acordares. Não te preocupes. a jovem mulher com ar cansado. sem objectivar.... em vias de se tornar definitiva. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. pela primeira vez em muitos 347 . O comboio da linha fora a primeira etapa. se se cumprisse a movimentação preparada. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. onde começara o namoro e. ao rever o local à beira-rio. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré.e não queres que durma? Sorria. bem precisas. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. no “Abril em Portugal”. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária.. mesmo em dias de borrasca. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. – Vai-te deitar. – Como foram os interrogatórios. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando.. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política.

sorriu.. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. onde vivia com os sogros. Novamente a insídia do inspector superior. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. nada mais tenho para dizer! – Ah. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. – Não tenho nada a declarar. Como estaria o seu João. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. desde a partida do marido para a guerra.dias. a esta hora já estão em casa com as famílias. sobre as 348 . – empertigou-se o chefe de brigada. “visita” diária desde o primeiro dia.. – Responsáveis fomos todos. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. a mostrar serviço na presença do superior. horas e horas de angústia.

Por fim desistiram. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. e só regressou exausta de madrugada.. em catadupa. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. com um sorriso como não via há muito tempo. após quase vinte dias de interrogatórios. alegre por rever a mãe. na hora de tentar conciliar o sono. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. houve qualquer coisa em Lisboa!..insinuações em relação ao companheiro. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. a saudade roendo o corpo e a alma. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. Numa das vezes. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. Finalmente! 349 . Um último pensamento foi para o companheiro distante. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. onde cabia toda a candura do mundo. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono.

.– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.. 350 .

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