A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. deixo ao leitor. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. quer na dinamização do 25 de Abril. para dentro das fileiras das Forças Armadas. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. e que assim. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. que nisso estiver interessado. de algum modo.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. o autor adoptou uma estrutura mista. No centro de instrução em Mafra. Respeitando essa intenção. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. Marcharam esses 8 . quer na rápida solução do conflito. indiscutivelmente. infelizmente. Essa foi.

perante as forças da novel República Indiana. O regresso dos militares feitos prisioneiros. Longe disso. Angola. De acordo com o seu propósito didáctico. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. desprezando a evidência dos factos. a petição de princípio. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. É esse o período de 13 anos e 3 meses. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. estende-se entre 1961 e 1974. de ensinar. Logo no capítulo 2. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). em Maio de 1962. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. ignorando-os ou afeiçoando-os. para os três teatros de operações. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. por norma. a crise académica de Março de 1962. Guiné. cujo método é. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. Damão e Diu). leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. Na realidade. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Entretanto. graduados em oficiais ou sargentos. entenda-se. isto é. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. etc. Não se trata. Exactamente ao invés do intelectual burguês. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. o autor intercala dezenas 9 . nomeadamente o historiador académico professoral. Moçambique. O narrador acompanha-os.milicianos. por exemplo.

cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. como bem observa. algumas extensas de dez páginas. contra a opressão fascista. por estes democratas da 25.o livro agora publicado. (Mais que justo. um acto de resistência. Dos comunistas em primeiro lugar. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . invocar essa memória já constitui. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. despidos de ambição pessoal. é justo assinalar. Nos tempos presentes. tantas vezes heróico.de resenhas de carácter histórico. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. de forma modesta e aparente singeleza. quando se perfilam em Portugal e no mundo. Um estado dentro do Estado. Mas todos. devemos ter orgulho nesse 10 . novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. quer no país europeu. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. Em tempo de escuridão. reconforta a alma. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. quer nas colónias em guerra. que fazemos um povo. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. pois repara muita injustiça). de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. nesses anos finais. por si só. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão.

muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. Lisboa. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. não devemos esconder esse orgulho. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . permitam-me.passado pois é parte e espírito da nossa História. mobilizado para uma Guerra Colonial. que nunca aceitou como causa sua. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. E. comunista de sempre.

atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. teimosamente persistente. vivê-la com as 12 . as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. compreender a guerra por dentro.. definitiva. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. porquê? As memórias esvaem-se. dos seus incrimináveis mentores. Estes ensinamentos da nossa história. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta.. Nunca é tarde para perceber. e da “vitória ser rápida”. a ficção baseada em factos reais.. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. As memórias da realidade. as mágoas persistem. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. o romance. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. perene. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos.

contra os mesmos incorrigíveis franceses. ouro sobre azul. a amizade. flagelações e punham minas nas picadas. É este. e. os medos. o terror. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. além do mais. mas agora. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. o desiderato deste livro. a nobreza de carácter. as tristezas. Guiné e Moçambique.angústias. as solidariedades. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. a cobardia. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. 13 . A luta de novo tipo. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. a revolta e a coragem. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. que faziam emboscadas.

o “Avante!”. iludindo os portugueses.. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. escravatura. Como se não existissem 400 anos de dominação. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. na rádio e na televisão (também no cinema!. procuraram elidir as questões fundamentais. Os que regressam de África ─ os 14 . os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas.. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. Como se Agostinho Neto. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola.Os fascistas e militaristas. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. não tivessem nascido.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. próceres de Salazar e de Caetano. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais..) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”.. órgão central do Partido Comunista Português. Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. deturpando. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas.

que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. * 15 . A amargura. procura um caminho para se manifestar.desmobilizados. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado.). Os protestos. A recusa podia revestir diversas formas. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários.. até ao 25 de Abril de 1974. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. de presos por revolta ou protesto. o Presídio Militar de Elvas. as lutas e deserções multiplicam-se (. Em Portugal. de objectores. que ousassem levantar a cabeça. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. de Outubro de 1962. n. constituindo um feroz. o Batalhão Disciplinar de Penamacor.º 322. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. nomeadamente: fuga à tropa..

cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. e os que estavam convencidos que da sua acção. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!.. deviam ir à guerra e uma vez aí. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. Tarefa complicada sem dúvida. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. nas escolas. As suas 16 . de preferência em grupo. o assassínio gratuito. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. a violação de mulheres. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. dependia a aceleração do fim da guerra. os melhores. o tratamento desumano de prisioneiros. sob todas as formas. obstou o crime horrendo. deturpada e mentida. profissionais do quadro permanente não desumanizados. massacres. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. torturas e morte. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. que tudo pervertia e até fazia assassinos.. entre os jovens fardados. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. nas empresas.

Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. às vezes mitificadas. neputismo. depois. iam para a dita. nos locais de trabalho. seus inimigos figadais.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. Os comunistas. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. as suas manifestações e lutas. e o. * É incontornável. e o “Movimento das Forças Armadas”. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. tentavam por todos os meios (cunhas. “anti-patriotas” por definição. a “soldo de potências estrangeiras”. nas escolas e nas ruas. o “Movimento de Capitães”. tráfico de influências. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. suborno. “Abaixo o Fascismo!”. A sua opinião crítica. com profundos sentimentos anti-guerra. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. ainda que pouco (re)conhecido. compadrio. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. por outro lado. nas colectividades e associações. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . no movimento democrático. primeiro. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta.

Em África como em Portugal. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. perseguiu.A. a PIDE/DGS humilhou. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. prendeu. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). de contestação e de revolta. excluindo. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. despromovendo. em 1969. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. perseguindo. sobre a Academia de Coimbra. fichando. castigando e quiçá matando. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral).Estas profundas contradições no seio do regime. o título de P. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. em estreita ligação com os meios militaristas. torturas até à morte. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. (politicamente activo). vigiando. Espancamentos brutais. Uma questão central da guerra em África. 18 .

Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50.guineenses e moçambicanos. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. a chamada guerra subversiva. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. Salazar dera orientações nesse sentido. Significa que entre nós o crime compensa. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. a guerra colonial foi calculadamente 19 . se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra.

Kaúlza de Arriaga. Bélgica. evidentemente. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. com a outra mata!”). Holanda). A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. Silva Pais. Américo Tomás. devido a interesses económicos e empresariais. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. por questões de classe e de interesses individuais. Marcelo Caetano. naturalmente. pelos valentes capitães com o apoio popular. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. muitos destes nas Forças Armadas. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. e uma multidão de títeres do regime. Era assim para Oliveira Salazar.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. por certo. França. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. Com determinação e sentido histórico. 20 . Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. não permitia saídas do tipo neocolonialista. para que o poder político encontrasse uma solução. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. Mário de Figueiredo. Franco Nogueira. Silva Cunha.

naturalmente.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem.. Essa seria a única. África jamais será esquecida. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. Que este livro de inquietações. do passado ou da contemporaneidade.. Para os milhares de feridos e estropiados. a derrotar todos os “senhores da guerra”. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. a guerra colonial não acabará nunca!. com as marcas irreversíveis no corpo.

Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. Em última análise. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. será a nossa maior satisfação. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes.Jorge Jardim. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. o coronel João Varela Gomes. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. etc. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Barreiro. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. perpetrando matanças descabeladas.. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. Flechas. “Katangas”.).

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 .Horas de jantar. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. Passam cinco minutos da hora combinada. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. É preciso voltar no recurso. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. O "28" chega vagarento e ronceiro. a nova ligação é importante. Aquela é a única carreira que por ali passa. mesmo em frente da paragem do eléctrico. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. não vá andar algum "bufo" nas imediações. sempre com muita gente azafamada.arranca desiludido. Bom. à espera do sinal précombinado. ficar na paragem não é prudente. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. há iniciativas dependentes daquela conversa. Pouca gente na rua. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. Embora não seja novato naquelas andanças. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes.

vai caindo em descrédito. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. O populismo do governador do monóculo.─ “Olhá” desavergonhada. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. Bento. o eterno mistério das trevas. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. Calçada de S. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. sorvedouro de homens e de recursos. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. o telejornal está a começar. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. a querer roubar-me os "tomates"!?. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. Bento. Sacudir as teias é preciso. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. mal iluminada. desoladora.. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. inóspita. António de Spínola. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. a rua entristece-se. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea.. Pelo som. Rua dos Poiais de S. capital de um império de "faz de conta".

Pela porta de uma taberna escura.. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. aproximando-se inexoravelmente da cidade.!? Bom! Carros pretos há muitos. mas hoje precisamente. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. Carlos. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid".. D. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. na reunião matinal. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial.. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. da chamada ala liberal. durante o "minuto conspirativo".. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. Contradições do sistema. Av. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 .

relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente.Górdio". Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. no norte de Moçambique. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. com populações civis sacrificadas. colocada num canto superior do estabelecimento. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . e das imensas contradições em que o regime se atolou. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. condenações de Portugal na ONU. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). Kaúlza de Arriaga. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”.

... IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. 28 . O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. na tropa há seis meses. convicto da orientação política traçada. o jovem moreno e bem vestido. não!?. será alienada. na Guiné... ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. envergando roupa de tons escuros. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras. não sei se estão a perceber!?. em Setembro de 1973. que teria a capital em Madina do Boé. o rapaz magro e alto. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame.. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. ajudando na consciencialização. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. ─ clamava exaltado no calor da discussão.” Madina do Boé.

─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. Este sentimento corria os quartéis. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. ─ o camarada João. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. mas simpática e graciosa. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. algo distante e compenetrada.. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. Grande bronca! . após ter feito a especialidade em Vendas Novas. sentindo o cheiro a pólvora.. nos aquartelamentos. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. mas a coisa pode radicalizar--se!. acendeu paixões e afivelou rivalidades. sabia do que falava. nos postos avançados. Não era fácil convencer quem. bigode farfalhudo e sotaque nortenho.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. casernas.. quero ver como é!... motivadas por razões corporativas. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 .. paradas. Aquela forma de estar. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. * Chegara ao grupo discretamente. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”.. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. na distante. e..

voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. de barbicha. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. No pós Maio francês de 1968.. um aspecto tristonho e sério. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . incorporava o regime. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes.escuros e sorridentes. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. cigarro nervoso entre os dedos. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade.. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. propiciava radicalismos. risonha e muito extrovertida.

─ Sabes? Eu … eu. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização... mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. ─ Fazem favor de se sentar. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . como acontecera de outras vezes. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. Cumprimentos da praxe. ansiedade.. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. de avanços e de recuos. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. normalmente acompanhados. A luta era feita de vitórias e derrotas. ─ Ora essa. não temos pressa!. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. ─ Escuta. Naquele início de noite estavam só os dois. ainda não respondeste ao meu pedido.─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. senhor ministro. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. mas o momento era de grande frustração. de perna curta..

"IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. O País animou-se em expectativa. acompanhada de abundantes gestos. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". a que os estudantes chamavam 32 . A crise académica na Universidade de Coimbra. Milhares de estudantes em desobediência civil. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. telefone pousado. no topo.. no início do ano lectivo de 1969/70.e uma cadeira de espaldar alto. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente.. O Ministro da Educação. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. contra a ditadura política. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. Uma actuação firme. Ao fim e ao cabo. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada. sem vacilações! Fazem greve em Julho. da GNR e da PIDE. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Universidade. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade.

senhor ministro. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. mexendo-se incomodado.. ficando enterrados quase ao nível do chão. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. 33 . concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. "meio-nistro". vezes um ano perdido.. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. ainda estão de pé?! ─ Faz favor.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. Do alto do espaldar da sua cadeira especial.satiricamente o "meio-istro" ou. Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. outra forma de piropo estudantil. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. Os quase siderados visitantes.. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. ainda em pé à beira dos sofás. ─ Mas fazem o favor de se sentar. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. o "mini-istro". devido à sua baixa estatura..

. na clandestinidade. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. chocante. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. na qual o Rolando também tinha participado. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. quando o Partido Comunista da União Soviética. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. como furriel sapador de minas e armadilhas. João. defendera a ida à guerra dos seus militantes para.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. minarem a confiança dos soldados no Czar. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. mas logo assim em tão pouco tempo!?. junto do “povo fardado”. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. resolveu que a solidariedade era mais urgente. por dentro. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. Embarcara para a Guiné há menos de três meses. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro.. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . Cego! Informara o comum amigo e avisador. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Uma angústia feita suor frio. Pelo caminho. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917.

revoltadas e envergonhadas.. por estranhos e simultâneos sentimentos . com múltiplos pavilhões disseminados. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. Como não havia ninguém de guarda... a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. que se calhar nem foram ouvidas.. estavam sentados em cadeiras de rodas. agora “minas e armadilhas”!?. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. de cabelo encaracolado de um escuro característico. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo.. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. O coração doía com aquela visão terrível. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem.. também neste local não havia guardas. com cotos ligados à altura dos cotovelos.. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo.. Não foi preciso perguntar a mais ninguém. vários soldados em pijama regulamentar. contudo logo à entrada do 1.º pavilhão.secretaria. com uma absoluta angústia de ver o 35 . e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. Por instantes ficou paralisado. foi entrando pelo terreiro.

.. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer.. Os médicos já me viram!. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa. 36 .. ─ A esta hora está tudo ocupado. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. ─ o jovem muito moreno. ─ Então rapaz. comovido até ao limite das forças. ─ Sim! Bem!. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite. Sou amigo como se fosse irmão. ninguém dera pela sua presença. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. começou a dar-lhe a sopa..amigo naquele estado. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. estou sozinho!. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita.. Sem nada dizer.. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio.... entrei porque não encontrei ninguém de guarda. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!.

e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. é tempo de voltar para casa. foram as palavras do professor. ─ Talvez mais tarde. rangente. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas.". com outros recursos consigam recuperar a outra!. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas.... ─ Não quero mais sopa. vagaroso. aproxima-se o "28". ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. Passa tempo demais em relação às normas de segurança.. a rua está agora quase deserta. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. Com a mão no ombro do amigo. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. A outra vista não tem recuperação. devia estar com vergonha da sua situação.. filho dilecto do regime: ".─ Bom! Isso é uma boa notícia. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia.sem Madina e sem Boé.. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. com 37 .

O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. no Instituto Nacional de Estatística. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar.a chamada “primavera marcelista”. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. Não pensava tão cedo. ali perto. não há veículos à vista. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. um carro preto vindo da esquina próxima. Mas os tempos estavam a mudar.. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. gritos. Afastada a concorrência. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes...

sem mais nada. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. enlevados e trémulos de emoção.namorada? ─ Sim. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos.! Mas olha. Os corações abriam-se de forma sincera. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Um a um todos foram chamados para a tropa.. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. no COM. e o mundo revelava-se sorridente. Deram a volta ao quarteirão. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. tudo à volta parecia perfeito e calmo. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes.. ditava a incorporação em Mafra. O jovem alto e magro. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. em princípios de Outubro. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . sem lamechices. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova.

de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. pois o pai. o seu João Silveira. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. do 2.º ciclo. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo.. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. trazê-mo-los no coração. partiram para a guerra. nos inícios da década de 70. os comentários. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. os relatos. durante exercícios com fogo real. vacilante. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. Até que todos os seus mentores. Saía à mãe. E morreu mais um no turno passado.. necessariamente clandestino. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. o “Alerta Camarada!”.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. levou as notícias. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. 40 . Durante muitos meses. trôpego. seguindo uma orientação conscientemente assumida. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução.

.. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos.─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. “Raio de ganapo!” ─ pensou. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. com nomes gravados outros. não foi avô? ─ Foi. ─ Avô.. com fotografias uns. ─ Pois não. Mas não tem nenhum nome?!. foi!. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. ─ Avô. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. Para mim a guerra nunca acabou!. melhor que ele próprio. ─ É este aqui. muitos com flores artificiais.. Traquinas e esperto como poucos. * 41 .. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis.. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. alojado junto da coluna vertebral. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?.. alguns com fantasias bizarras..

─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. o pessoal seguia com relativa descontracção. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. magnetómetros à frente para detectar metais. não tardava nasceria o Sol. Há semanas que não havia flagelações. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. a chamada rebenta-minas. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. o grande temor pelos últimos dias de comissão. as picas atrás a furarem o terreno. comandante da secção. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. sobretudo nas zonas de areia solta. emboscadas ou minas na picada.

o 1º cabo José Pinto. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel. como dizia publicamente e sem rodeios. vou tentar des. várias vezes dissera que se morresse na guerra. pá! Passa-me a pica. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974... Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. dizia sempre o que pensava com frontalidade.. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. leal e honesto... carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo.. ─ Calma. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. 43 .. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer. ─ Não foi detectada pelo magnetismo.. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. viscoso. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. devagar..fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio... “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”.. com distinção e elogios. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia.. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. O Pinto era um rapaz corajoso. assim.

44 .em Moçambique.

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.2.

e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. frente à taberna do Arnaldo. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. onde. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. mas com as preocupações de um mundo em tensão. se engajou na luta contra a ditadura. oriundo do Alentejo litoral. há muitos anos radicado na vila operária. lembrando as lições da escola primária. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”.Tarde de sábado. o sobrinho Alfredo. como republicano e antifascista.. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. dá o mote: ─ O que representam Goa. nos fins da década de 50. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo.. O dono da casa. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. não podemos abandoná-los !.

. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. como lhe ia dizendo. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. a PIDE rondava-lhe a casa. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. bom. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. ─ Sabe.. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. demoradamente. barba ou cabelo? ─ Barba. merecias que te cortasse o pescoço !”. nessa azáfama. e. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. claro!. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. ─ Então senhor Vaz. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. notório situacionista. refastelado na cadeira. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta.oceano! A conversa muito animada. Na sala. tendo passado alguns meses preso em Caxias. 47 . Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. Embora saísse sem julgamento. desculpe.

preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. Estados Unidos e União Soviética. insistia na via do confronto militarista. com representantes de 68 países. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. pondo o quartel em “estado de sítio”. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. No regimento de Artilharia 1. Os governantes fascistas. Inglaterra. ficou uma lembrança trágica. em Helsínquia. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. no mesmo ano. em Évora. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. em Bandung. juntaram-se na parada a protestar. foram castigados com o corte de dispensas. usando a férrea censura dos jornais.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. a Assembleia Mundial da Paz. qual falcão em plena guerra-fria. Já em número de 300. Na longínqua Ásia. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. escondendo do povo português a sua vocação belicista. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. O 48 . sob administração portuguesa. de que deveria restar uma memória positiva. o governo salazarista. Damão e Diu. em 1955.

o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. Exaustos e revoltados. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. em 30 de 49 . O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. Depois de mais alguns episódios repressivos.comandante. dependia de outros embarques próximos. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. Aumentou a revolta aos gritos de. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. mandou fazer uma marcha acelerada. intimando toda a hierarquia. é hoje! É hoje!”. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada.

etc. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. à sua subsistência”.. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. no campo democrático. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África.. Quando um povo. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”.. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas.Maio de 1956. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva.. Salazar afirmara que . É assim. Ainda no final da década de 40. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. à sua defesa. quando da negociação do plano Marshall. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. muitos povos”. “Uma Nação. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. Na década de 50. cobiçadas pelos norte-americanos .) As tentativas para a reprimir de nada servirão. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano.analisa a questão colonial portuguesa. necessário à sua vida. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista.

de Junho de 1956 : “(. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (.). acompanhadas de inscrições murais em Lisboa.. em iniciativas abertas e unitárias. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. “um movimento racista contra o branco. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. Por volta de 1954.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956..... a segregação racial nos transportes. O regime salazarista. a ausência de qualquer direito. O órgão central dos comunistas. social ou político. na Margem Sul e noutros pontos do País.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros.. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. já citado. cinemas e lugares públicos. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 .. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. isto é. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África.. como. o MUD Juvenil. as fomes e epidemias devastadoras. . generoso portador da civilização”. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal.

A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra.. com que trabalhos e canseiras. Mas senhor doutor. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. quando o clube da terra jogava em casa. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. nem os discursos de Salazar. mais do que com qualquer outro membro da família. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. na casa modesta da tia Clotilde. e desde então todos os anos vai a Fátima.. depois da “bola”. com quem tinha claras parecenças fisionómicas. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. posto que irmãos não tinha. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. nem os planos e as medidas de guerra. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. vigário da matriz: 52 . (.. era tempo de visitar o primo Zé.aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos.). O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença.. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. O colonialismo tem os seus dias contados. como os valentes soldados de Évora.

lembrando-se da afirmação 53 . não percas a fé na senhora de Fátima. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. um luxo para as classes trabalhadoras. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. com uma relativa consciência do mundo. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. naquele tempo dos princípios da década de 60. comprada a prestações com muitos sacrifícios. para ouvir os relatos de futebol. era a sua companhia de muitas horas. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. entretanto já terminados. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. como não haverá navios rendidos. olhe que os indianos são muitos. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses.. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”.─ Clotilde. 300 milhões!. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. A telefonia..

O locutor anunciava o acumulado na subscrição.. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. por isso lhe dava uma carga pejorativa. de medos e angústias. em África. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. “rapidamente e em força”. comandados pelo general Vassalo e Silva. . dez mil e tal contos. restavam os ganapos e as moçoilas. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. Joaquim Faria.. na altura dos Santos Populares.. ─ Ah. talvez!. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. Damão e Diu pela União Indiana. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. as tropas portuguesas na Índia.. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. como mandara o ditador. numa atitude típica do seguidismo salazarista. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões. Em Maio de 1962. Eram agora raros os saltadores exímios.do barbeiro. na Índia longínqua. feitas 54 . em Dezembro de 1961.. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. Quando os militares portugueses.. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!.

É um senhor vestido civilmente.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. meu querido filho! Quero ver o meu filho!.. cada vez em maior número. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. instado por um grupo de familiares. ausente há muito tempo. vestes escuras e lágrimas doridas. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. e viceversa.. na ausência de informações oficiais. de gabardina e chapéu. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. já não o vejo há dezoito meses!. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. apupos. só acostaram em Lisboa já de madrugada. vindos dos desenganos apesar da noite fria.. ─ implorava uma velha mãe. conforme os boatos que iam surgindo. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. A mãe de Alfredo. dado o seu isolamento. No dia 23. grande algazarra entre as centenas de parentes. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. Gritos. oriunda da zona antiga da vila operária. lenço modesto na cabeça. iam finalmente regressar ao País. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. correu juntamente com muitas outras famílias.. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. a família de Alfredo Júnior. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . do cais da Rocha para o cais de Alcântara. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). ansiosa por abraçar o ente querido.

percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila. Ao longe. alguns jovens esgueiram-se lestos. por sua vez. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. debaixo da mira de dezenas de espingardas. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. acenam com lenços brancos. povo de Portugal. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. estenderemos a vós. datada de 14 de Dezembro de 1961..) Por isso. não podemos esquecer o povo português que. mas contra o colonialismo e o fascismo. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele. antes de voltarem para casa. fora do olhar policial.. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). Como povo livre.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. acompanhando zelosamente o senhor inspector. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 . centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos.

cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. compreendendo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental. 57 . Regressaram à terra natal.juventude. talvez pela primeira vez. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo.

em 1955. Em 1954. FNL. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. Ou a realização de um “referendo em Goa”. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. Não era esta. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. na Indonésia. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . Damão e Diu. que considerava proclamavaportuguesa”. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. a opinião dos meios de oposição ao regime. porém. potência colonial.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. 58 colonialmente ocupados. contra o ocupante francês. em Diên Biên Phu. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa.

privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. Em relação às colónias portuguesas. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. pela União Soviética. os representantes dos países socialistas. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. Em 1958. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960.)”. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. todos vivemos num único planeta. Do que se passou nessa histórica assembleia.. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri.. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. dos neutralistas e das jovens nações africanas. Neste planeta nascemos. 59 . trabalhamos.

Cabinda. Bissau. em Luanda. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. ivuenu. Mueda. que procuram inverter os factos. Neves Bendinha. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda.. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português.).Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. Os patriotas angolanos. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu.” (oiçam. Scalo Bengo (Angola). Goa. oiçam.. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Paiva Domingos da 60 . como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. com o agravamento da exploração colonial. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. com o apertar das algemas da opressão colonialista. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. Tomé. voltaremos aqui.. Os massacres dos povos de S. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”.. turutuka dii. Timor.

Virgílio Francisco. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. guardadas no campanário da Sé Catedral. enquadrados em vários grupos. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. De resto. na Ilha de Santiago. Na madrugada de 4 de Fevereiro. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). fazendo milhares de vítimas. um cónego mestiço angolano. Domingos Manuel Mateus. em Cabo Verde. abençoou os revoltosos. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. missionário na arquidiocese de Luanda. o próprio.Silva. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. Raul Deão. Imperial Santana. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”.

─ Cadeia da 7. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. Estava iniciada a Guerra Colonial. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. nas rusgas e cercos. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). onde estavam muitos presos políticos. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. ─ Companhia Indígena. empurrados logo de manhã para as valas comuns. Depois foi um terrível massacre. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. deixando centenas de cadáveres. junto à praia do Bongo. que seguia num machimbombo (autocarro). espancamentos. presos. espancamento e morte de gente negra. filho da puta!”. interrogados. correrias. ou de trabalhadores numa oficina perto. feridos. mortes às dezenas. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. com a perseguição. Pedro da Barra. era a “limpeza étnica”. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S. Agarra que é “lumunba!”.). “Mata esse preto.. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. indefesa. com poucas excepções. dezenas de autóctones. começou a terrível “révanche”.. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. sendo os restantes. À noite nos muceques. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. levado a cabo por gente desvairada. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. Nenhum dos objectivos foi alcançado. uma autêntica “eliminação selectiva”.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas.

repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. do café Beira-Mar. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. sempre com conta e medida. Ao fim da tarde. o João “Careca”. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. conseguia desatar. quando a avenida da Praia era mais frequentada. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. O célebre fadista.

um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais.. A curiosidade fora espicaçada. é nossa! Angola.” A sensação desagradável. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. é nossa. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”.. pela negação dos factos apresentados.. gritarei é carne e sangue da nossa grei. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. 64 .. quebrando a corrente emocional e patrioteira.multicontinentalidade da Nação. porque a família real era dinástica e divina. Fazia vibrar de emoção e orgulho. inquietante mesmo. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. da sua grandeza Além-Mar. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. Acabou o noticiário.. deixando uma angustia de dúvida e receio. sempre se ficava a saber alguma novidade.. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques.. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional.. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. é nossa! Angola. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra.

o regime 65 . Vozes estrangeiras incompreensíveis. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Uma. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. mas a realidade inevitável. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. etc.. músicas estranhas que o velho vizinho. Mas é perigoso ouvir!..... sobrinho por afinidade. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. E voltava! “. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. O Ferreira da Costa. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. Timor. Tomé. Baixa do Cassange. senhor Lobo.. pela ditadura terrorista dos monopólios associada.─ Tio Zé. diz ser tudo mentira!.. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo.. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. bem pronunciada. Goa. três tentativas. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. mantém nas masmorras da PIDE. duas. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. S. O regime fascista... imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. Scalo Bengo . salazarista convicto.. ─ Esse gajo é da situação. na Emissora Nacional.

obstando a mensagem de denúncia e de luta.00 e as 21. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. Espera enervante. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco.. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor..” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor..00 horas. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. era outra voz da mesma liberdade procurada. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção..ª classe na Sertã natal. Depois da 4..” Afinal não era a Rádio Moscovo.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. pelos serviços da PIDE. entre as 19. certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua. Os dilemas da guerra e da paz. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente .

na Escola Fonseca Benevides. por sugestão de um colega. com um salário que mal dava para a renda do quarto. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. as conversas sobre a realidade do País. embora exigisse muito sacrifício. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado.incerteza no futuro. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. A grande cidade dava outras oportunidades. Aprendiz numa oficina de automóveis. aliciado pela PIDE. O convívio com operários mais velhos e experientes. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. Um segundo passo importante fora a mudança. as leituras recomendadas. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. abriam-lhe os horizontes. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. com uma sedimentada consciência de classe. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. Manuel interrogava-se. para a outra-banda. por lá ficou mais de um ano. em toda a sua vida. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. promete continuares a estudar. parco de palavras.

que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. E agora. de Xabregas à Veiga Beirão. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro.900. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. mantinham a amizade da adolescência. que depois da questão da Índia. O terceiro irmão não fora mobilizado. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. nunca mais parara de se agudizar. o “Avante!”. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. depois da incorporação e a recruta. preocupações comuns e solidariedades. tendo depois emigrado para Angola. mas chegara a sua vez.conta. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. nas lutas no Ensino Secundário. a mobilização para Angola. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. Ainda agora. A experiência de participação. partilhada em muitos anos de brincadeiras. pela primeira vez. a conversa era fácil e fraterna: 68 .

para onde vão muitos! Já viste.. ─ Nunca pensaste em não ir. empurrando mais e mais o navio pela barra fora.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. encobre da vista o barco. Sou atirador de infantaria. vestido de pequeninas velas brancas. não! Mas quanto mais cedo melhor. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso... mas o Nana era assim. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. vamos todos lá parar!. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. ─ Adeus filho... um bom rapaz. ─ Não. o choro mudo e soluçado dos homens. em dar o “cava”?!.. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. O pior é a mobilização!. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. agitando-se freneticamente na amurada.. ir à guerra e ter lá um azar. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. até se leva bem.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente... 69 . ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência.

no meio do magote de gente lamuriosa. A vontade nacional de agarrar o destino. mas nunca de contrariá-lo. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. constituía um arquétipo da candura nacional. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. alguns. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. adormeceu finalmente inquieto e agitado. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. quiçá para sempre. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. no silêncio do quarto.

. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. perpetrado pelas tropas coloniais. como sempre acontecia aos sábados. E mesmo mais para sul do deserto de Saara.. 80. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos.conversadora. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. havia muita gente esclarecida. ou para alguma coisa!?. pelos movimentos de libertação. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. um grupo de cariz tribalista. também houve nações e povos desenvolvidos. ─ Os pretos são meio selvagens. nas zonas da savana e das florestas. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). Autodidacta e amante do saber. recentemente. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. O que se seguiu. 100 mil?). no Norte de Angola. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. até chegarem os europeus escravatura. têm lá cabeça para se governarem. e agora. Na zona velha de maioria operária. por vingança. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. que lia e com o colonialismo e a 71 .

mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador.. que tudo estava sossegado. senhor Vaz.acompanhava os problemas. E também lá foram vividos os primeiros amores. ─ Sabe. como lhe tenho dito. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. quando entrei!?. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. 72 .. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo.. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. à volta do quarto pequeno e modesto. não acha?!. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. de reflexão e de descanso. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola.

um cheiro intenso a pólvora e a sangue. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . perseguições. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. “Safa. talvez uma floresta. luzes intensas. João deixou-se dormir novamente.. que sonho dramático!”. um precipício negro em que estava prestes a cair!. só abria às nove horas para cortar o cabelo. ainda é muito cedo!”. como se propunha. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. densa.“São seis horas da manhã. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior.. correrias.

NÃO JURES CAMARADA 74 .3.

primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. nada mais.. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. fresca de Outono precoce. já sem companhia. ─ E agora.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. Na manhã seguinte. O chefe olhou-o com ar circunspecto. não me parece!. três horas de caminho. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. Posso chamar um táxi. Seguia-se. com duas ou três casas.. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite.

só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. da instrução sobre armamento. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. táctica. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. 76 . À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros.. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. trazia medos e fantasmas. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. Guiné e Moçambique. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. em transporte próprio ou familiar. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. começaram as marchas nocturnas. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. orientação. depois das longas caminhadas durante o dia.trajectos labirínticos. algumas conhecidas da universidade. e já fizera a exploração dos itinerários. etc. Muitas caras ensonadas. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir.

um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. fazia mais um exercício duro porque. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. devido às lamas nos caminhos. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. comandado pelo alferes “Manaça”. pertenciam ao meu pelotão!. daquelas que nunca mais se esquecem. O pelotão do 2º ciclo do COM. durante a progressão com todo o material de combate. mais hipóteses têm de safar a pele!”. como ele dizia. pá! Vou dar o “salto”. ─ Não aguento mais isto. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. ─ Tens de ter calma. Rodrigo e Francisco. pesadíssimas.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. ensopado em suor. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. ─ o manifestante era um aspirante alto. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. “a tropa não é para maricas. incluindo a arma e a mochila às costas. anafado. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. quanto melhor o treino. de boa compleição física e bom contador de histórias. com a fama de “chicalhão” e prepotente.. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. célebre desde as últimas invasões francesas. tornados amigos durante o 1º ciclo. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres..

. com um feitio solidário. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. ─ Outra vez a porra da lagoa.. começa a entrar em pânico. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. pá. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. o pessoal preparava-se para a travessia... Os mais expeditos fazem-no com êxito. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. procurando ajudar o amigo. gosta de fazer de porta-voz. vem avisar o cadete Aníbal a correr. na cauda dos restantes caminhantes. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. por isso ganhou os favores do graduado.. Por feitio ou bajulice. entra em contacto com a pele suada. as pernas vacilam. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades.contrapunha o Francisco. tem lama até às partes. relutantemente alguns ficam para o fim. 78 . Na margem da lagoa plena de águas barrentas.. pá.. bem nutrido e de ventre proeminente. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. dando-se ares de importância.. dizes tu!. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. Uma porra. ─ Depois logo se vê. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. quem não sabe nadar atrapalha-se. ─ Falta pouco. magro de carnes. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador.

.. com uma alma altruísta. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. Friccionando-se com a camisa de trabalho. Francisco apressa-se para ajudar o amigo. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio. volta para trás e tenta ajudar os outros dois.. perante o quadro terrível vence a inibição. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão.. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . ─ Qual bombeiros. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada.grugluglu..! O cadete Artur..─ Socorro! Não sei nadar! Socor... marche! ─ Sim. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. o graduado continua a vociferar.

até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”. de bengala de invisual ainda mal manejada. tem algum problema cardíaco? ─ Sim.. o jovem alferes Terras. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. enterrados no lodo. ainda em tratamento. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. que padeciam de graves deficiências. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. Baixa no anexo de Campolide. quer ir connosco amanhã? 80 . MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. teve uma atitude simpática . com permanência nocturna obrigatória. sempre muito elegantemente fardado. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. comandante do pelotão. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. ─ Algo não está bem.. outros. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. agarrados.

A conversa continuou animada. ( os instrutores são uns nabos. ─ Ah! É casado!. em cima da cama... pouco falador. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor... ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá. obrigado! Sou casado!. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. ─ Ah. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. sim!? Obrigado! Eu.. não ensinam o verdadeiramente importante). (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). nunca cá tinha estado. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. quando jogava o Benfica em casa. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna... ─ Agarre-se a isso.─ Não. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”.. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. já não tinha mais novidades.

─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. “cada um com a sua”.. é uma forma de dizer. mesmo dobrado. Era grande o constrangimento.daí para a rua. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. aqui anda tudo às putas.! Não há ninguém de serviço. ─ Ah! Pois. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações...! ─ pila era tabu. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela.. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar.. abrir o fecho da braguilha. amanhã posso ser eu.. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. Evocam-se regulamentos. como aliás acontecia com os outros. ─ Esse não acredito que pague!... um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. cumprem-se ordens.. ─ Mas .. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. fora de qualquer regulamento. as coisas acontecem e pronto! 82 . Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia.

estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . alinhados em pelotões de 30 unidades. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. a espera animava o pessoal. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. ai povo. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. As sombras encorajavam a audácia. canta. amigo canta. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. falha de energia demorada de mais de uma hora.

para garantir a segurança conspirativa da operação. A companhia (quase) inteira. o João. e no rescaldo das cantigas. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. com a denúncia do número de vítimas da guerra. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. Combinaram o essencial da acção primeira. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. o Luís 84 . os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. entre muitos citadinos divertidos. Naquela tarde de Novembro de 1971. assumindo o compromisso. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio.

mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. é urgente terminar a “tarefa”. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. mas a maioria são cadetes. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. tão diversos daqueles para que foi concebido. A sala dos cadetes é acolhedora. estava unido na acção contra a guerra. feitas de pedra trabalhada. o Manuel. Todos estão em farda de trabalho. 85 . com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. o Fausto e o Duarte. das salas. a timidez. espalhados por várias mesas. polido o chão pela usura dos anos. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. As conversas giram à volta de temas banais. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. Sempre acontece quando os nervos apertam.Manuel. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. por um lado. com frades de hábito e penitência. dos refeitórios e das camaratas. enquanto outros. constituindo um labirinto intrincado. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. pretextando uma guerra santa. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção.

de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!.. em pânico.. o desnorte nos caminhos desconhecidos.. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. outros sons semelhantes. “Safa!”. Um som agudo e estranho.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto.. um desvio apertado na primeira bifurcação. “As instalações devem estar em boas condições... recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra.”. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. mal iluminado. longos e frios. nada. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.subir alguns degraus. À frente de um séquito. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. de porte elevado e cabelos brancos. subir e descer escadas. vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . um local frio e terrível. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. um beco sem saída na desorientação dos sentidos..” – pensava João. o ouvido à escuta de passos perseguidores. como um guincho.. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!.

porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. por detrás das lentes grossas. são ratos. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. ninguém se atrevia a levantar a voz. centenas de formas em movimento. Custara a pegar no sono. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. excepto algumas respirações mais agitadas. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho.habituando-se à escuridão percebem dezenas. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. acordar no beliche superior inundado em suor. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. certamente devido a pesadelos também. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. Na caserna pequena da 2ª. correr. sair do pesadelo. comandante da unidade. Companhia de Instrução está tudo calmo. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. 87 .

. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 .. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. denunciara a patifaria.─ Tem de haver muito cuidado. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida. Por fim vieram três ou quatro cartas. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. não há nada para mim? Não pode ser. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande.”. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas.. mas se alguém for apanhado com as vinhetas.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!. uns voltavam logo. vulgares na época. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante.. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. foram coladas nos corredores do convento. A acção tinha corrido muito bem. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. num pátio interior mal iluminado. escondendo a timidez e uma pequena miopia. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. a minha namorada escreveu-me!. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando.] já bastam! Não à guerra colonial!”.

Andava e pensava para distrair a ansiedade.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. não se via vivalma no caminho. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. porque apesar do sistema aperrado. pela aproximação do ocaso. João precipitara-se para o exterior com passo estugado. havia excepções. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada.. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota.. a norte. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado. certamente algum “menino” a caminho da cidade.

─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna.. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa.. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. socialistas. nas bandas da Malveira. Boa sorte para a iniciativa. Trago a senha para o contacto que combinámos. bom para a recruta. “Não jures. existe um ambiente geral muito favorável.. os dias eram cada vez mais pequenos. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. esquerdistas.. embora arrefecesse a “sentidos vistos”. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol.. ─ Cuidado!. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. em transição para 90 . Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!.sugerido aquele local. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema.). a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. independentes.. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis.

embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. Não há dois pôr-do-sol iguais. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. orgulhosos da classificação na prova de tiro. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. dizia-se. com um tempo desagradável. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. No miradouro não estava ninguém. nos arredores de Torres Vedras. cada dia é sempre diferente. * Durante a semana de campo. chuvoso e frio.o violeta. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. mesmo que seja só em treino. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. pelo menos nas costas dos instrutores. esmerando a pontaria com o “olho director”. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. é sempre um momento angustiante. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos.

a subversão aumenta!.”.. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. deputados da Assembleia Nacional. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). latifundiários. generais. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. Em requerimento ao Ministro da Defesa. porque precisava de carne para canhão. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. a fina flor do nacionalismo. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. iria passar por um mau bocado. altos dignitários da Igreja. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência.especialidades. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. E. afilhados. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto.. credores de favores. tentando safar os filhos. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. não! Não posso!. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. tinham um estatuto especial. o oficial do quadro 92 . como dizia o comandante da Legião Portuguesa. Eram filhos de boas famílias. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. e muito menos a disparar. etc. parentes. empresários. enfim. mas não permitia. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3.. ─ Não..

─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. de repente.. atire ! A tragédia estava eminente. sob pressão da intolerância militarista vigente. forçado pelo instrutor. levantando e baixando a espingarda. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. O cadete gordo. baixote e 93 . normalmente sonolentas e ressacadas. e. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”. foi despromovido para soldado. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. Não servia para “oficial de guerra”. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. só por milagre ninguém foi atingido. a arma começou a disparar. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente.. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. à beira de um ataque de nervos.permanente estava prestes a perder o “verniz”. ─ Eh. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo.

nas paredes lisas. ‘tás a coçá-los!. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca.. ─ Ah! Pois. “quero essa merda toda arrancada!”. ─ Ouviste? A barraca está armada. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”.. nas portas. Boa!.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana.. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . ─ Essa é boa. No fundo da algibeira. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. ─ Não jures camarada! Já disse!. ─ O quê. nas janelas.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. logo apareciam noutros locais.. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. “não jures camarada!”. nas vitrines e até nas pautas. O velho convento de Mafra estava em polvorosa.. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”... ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito.. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras.

pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . Tacteando a cola com os dedos. pela intimidação subsequente. . fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo.. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. a coacção e a chantagem. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. a hierarquia estava convencida de ter anulado.. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes.. propositadamente.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. O major. 95 . * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. A desorientação sobreveio. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. a primordial agitação.. .

─ O carago. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. futuros oficiais do Exército Português.. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar.. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. Queria ver se fosses atirador como eu!. pois o outro chuveiro estava avariado. Por este tempo.. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. até na sala do cadete: “. afixada em muitos sítios desusados. com zonas mal iluminadas. Providencialmente.. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!... pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. Mas os corredores eram muitos.

Junto aos hotéis de luxo. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. num quotidiano difícil. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. era um gritante e duro contraste. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. aos solavancos. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. segundo a filosofia do velho Adílio. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . submetidos a feroz censura e controlo político. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. mas na “terra prometida”.guerra era debatida mais ou menos abertamente. um moço bem constituído. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. a rádio e a televisão. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. com particular destaque para o “Avante!”. sobretudo o rapaz. Os jornais. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. porque a terra era ruim. entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano.

─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. nem feriados. Sobretudo se associassem ao 98 . de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. empregados e operários. nalguns casos. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. com poucas qualificações. incluindo no campo desportivo. era o discurso oficial. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. era menos “aquele” que entrava. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. mal pagos. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual.boné de pala “oficial”. com um ar de arrumador encartado. sempre generoso com os portugueses humildes. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. numerosos. podiam chegar a cargos de chefia. se fossem interessados e cordatos. numa época do início da década de 70. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui.

Nas vésperas da Revolução de Abril. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”.. chefe de secção. 1. 18. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. anda a concluir um curso superior. o engenheiro-júnior. 14. 11. 25 contos/mês.8 a 2. 15 contos/mês. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. claro! Um resto de bom dia. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. minha senhora.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. 19 contos/mês.5 contos/mês. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. 99 . a mulher operária têxtil. Orava-se em acção de graças. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. o operário especializado de horário geral. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. chefe de serviço. 2. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração.2 contos/mês. uns mais à frente e outros mais atrás. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. 12 contos/mês. o engenheiro-sénior. trate disso! ─ Claro.. sem sobressaltos. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. por classes sociais. ─ Senhor director. ─ Está a tirar Educação Física!. para rezarem em comum. 4/5 contos/mês. minha senhora. o agente técnico de engenharia. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24.5 a 3. o empregado de escritório. senhor director. ─ a resposta não tinha grande convicção.

no Domingo? ─ Eu gostava. mas o “tio” Fernando-pai!?. hem! ─ Mas ir a Mafra. Combine lá com o “ti” Fernando.. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. ó homem!. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho.. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. só lhe faltava o estágio. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. o seu filho sabe o que faz.. Entretanto fora chamado para a vida militar.. e de mais na tropa!. ─ Esteja descansada. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. para o curso de oficiais milicianos. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura.. com o curso quase acabado. Mas não havia nada a fazer. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três.. por 100 . que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. prestes a terminar: ─ Alberta.

não é fácil a deslocação!. num pobre mister por conta própria. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. iam formando segundo o que estava instruído. ─ Tu é que sabes. preparando-se para o ritual mitificado. ─ Talvez seja melhor não irem. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema.. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. O carinho prodigalizado ao filho na infância. não morriam de amores pela situação. Depois. até que sobrevieram os “balões”. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. quando o emprego e o salário eram certos. Se queres ir vai tu e a tua nora. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. em alas amplas e espaçadas. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. amor . Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu.melhores salários e condições de trabalho. Gostava de assistir mas compreendo a situação. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. e pela luta diária pela sobrevivência. subsequente ao despedimento. este ano precedido de 101 .. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada.

havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir.. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. Cá para trás reinava um silêncio murmurado..” ─ o alerta percorrera as casernas. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões.. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação. provavelmente os tais “pides”.acontecimentos muito interessantes. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . certamente sobre a ameaça de represálias.. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.

. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada.. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. ouviu! Se não se explica 103 .. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?.. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação... O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. na Escola Prática de Infantaria de Mafra. e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!.sistema sonoro. sou contra isso. não telefona para ninguém. . tinha agora um bode expiatório.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971.

perna de frango na outra. muitos daqueles cadetes imberbes. bolos. e senhores engravatados a rigor. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. frutas. Nem era tarde.. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina.. A instituição militar EPI. poucos. de gastas pedras nos longos corredores. acordada de madrugada. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. ficara à beira de um ataque de nervos. nem era cedo. carnes frias e quentes.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. doces. saladas. bebidas variadas. copo na mão. acepipes. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . característicos da castrada burguesia nacional. Pavoneavam-se alguns. no velho convento frio e austero. risos nervosos e traseiros espetados. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. as mesas brilhavam de iguarias. ─ Dá-me licença!. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. etc. etc. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. camarão. agora disfarçado com aperitivos. por vezes mesmo medíocre. Desculpe. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África.

agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. com pouca pinta de militar. De facto não o vi . com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. “Certamente estaria a arrancar!. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos.. a última barreira foi assim passada calmamente. Yota da Purificação” (.. ─ Boa noite! Por favor. conheço. o melhor era ficar para o fim. Suspeitava-se haver revista à saída. mais o “material sobrante”. ─ Sim. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “.). Transportava o mesmo saco da chegada. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?.. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos.. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas... sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados.. sim.. numa última passagem sem retorno. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”.. é punido com 5 (cinco) dias de detenção. quando o cansaço afrouxasse a vigilância.colonial!”. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria.! 105 ..

. estamos aqui à espera ... ─ Olhe! O melhor é perguntar além. sinal distintivo da origem de classe. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. Nada de grave! Lá informam-na melhor... ─ Mas . último a deixar o convento. seria noticiada no “Avante”.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!. postada a alguma distância. naquele Dezembro de 1971..─ É que já passaram todos.. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. no gabinete do oficial-dedia!... As duas dirigiram-se para a porta de armas. igualmente com ar distinto. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel.. em Janeiro de 1972.. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. ─ Obrigado! . 106 . * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra.

4. A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .

de animais e da a Natureza. 108 .ÁFRICA. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. Animistas. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. imaginários adoradores pássaros.

surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. no interior da Rodésia. sepulturas e pinturas rupestres. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. subentendia uma organização social e política evoluída. socalcos à volta dos montes para a agricultura. Melinde. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. Quiloa e Mombaça. a Tanzânia. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia.Esta actividade artística. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. minas. o Zimbabwé e parte de Moçambique. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. a caminho da Índia. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. cidadelas de pedra. numa zona de ruínas ancestrais. pouco antes da chegada dos portugueses. Estes povos sedentários praticando a agricultura. forjas. estradas. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. canais de irrigação. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. a Zâmbia. enriquecidas pelo 109 . quando estes.

vindos do Norte. marfim e escravos. faziam de entreposto com os reinos do interior. cobre. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. da Índia e até do Extremo Oriente. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. feito através de numerosos intermediários “mouros”. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. estes em escala reduzida. na pastorícia e na extracção mineira. ferro. Organizadas em cidades-estado. encontraram um comércio progressivo. com uma economia assente na agricultura. trocando directamente tecidos. numa organização de tipo tribal-feudal. com o 110 . contas. essências e faiança chinesa. com quem comerciavam há mais de um milénio. especiarias. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. por ouro. que já utilizavam inclusivé a moeda. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico.tráfego comercial com os países árabes e a Índia.

novas oportunidades de negócio. pela sua ignorância e pela sua ganância. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. levaram pouco tempo a desvanecer-se. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. queriam muito e depressa!. Por orientação da Coroa. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia.. Pedro Vaz de Soares. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras.. Como um erro nunca vem só.”. mas neste intento viriam a ser derrotados. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. retrógrada e oportunista.. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. Como todos os imperialistas. agente real de Sofala. Em 1513.. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais.

até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. luminosa. o mais alto 112 . situada nas colinas a Sudoeste de Tete. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. Em 1561. de Lisboa. em Sena e em Tete. quente. no “Boeing” da Força Aérea. no terminal militar de Figo Maduro. fresca. húmida. estranha. No início da década de 70. embarcava-se à meia-noite. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. familiar. em 1498. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. nas margens do Zambeze. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. Quando a guerra colonial começou em 1964.

relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. sempre eloquente nas afirmações.. alto de estatura e seco de carnes.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. normalmente reservado. compunham um quadro de modernidade. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. ─ desabafa o Eduardo. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ É a proclamada multirracialidade!. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. pendurados no exterior da rede da vedação. o sulista trigueiro e magro.. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. moreno. A Beira era uma cidade moderna. entroncado e de estatura média. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. tal como Lourenço Marques.

sem qualquer cumprimento. foi a primeira vez que lá fomos!. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. quando ficaram sós. não atendeu logo à chamada.realidade. mais novo. dava assim as “boas-vindas”. enquanto se retirava após comer o pêro. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. ─ O que estavas à espera?. que já ia avançado. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 .. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem.. O criado negro andava numa fona. ─ O jantar começa às sete. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. Chegaram atrasados ao jantar da messe.. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. ─ Sim. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos.. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados.

pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. ─ Se calhar. faziam um excelente cozido à portuguesa. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?.. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. no regresso a pé. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. Miguel. rapazes humildes e simples. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. ─ Furriel.. onde estavam os soldados aboletados. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. ─ Pois claro. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior.. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. diziam.. Duplamente preocupado. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. Ouviste a resposta do “Furnas”?. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. 115 . ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista.

. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. por dentro. é essa a intenção.. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora.. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. ─ Também pensei nisso. ─ Olha o que nos espera!. disso não tenhas dúvidas. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta.. É preciso ajudar. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista.. à beira da linha de caminho de ferro. preocupavam-se à volta de malas e sacos.─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. mas a família. se saísse à tabela. ─ Quanto mais tarde melhor. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. por dentro. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida... a minha mãe viúva!. Dezenas de soldados e alguns graduados..

─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. trum-trum”. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. a marcha abranda. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros.. na retaguarda. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. simpático no trato e já em segunda comissão. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. trumtrum.. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. atarefadas com filhos às costas. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. onde se juntavam dezenas de negros.carreira. aguardando a ordem para embarcar. o combóio pára. Os militares seguiam nas carruagens do meio. Duas máquinas a vapor. à volta de sacos e trouxas. o coração salta: 117 . A velocidade aumentava. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. Na noite de breu. resfolgando. tinham um aspecto sumptuoso. Eram tropas frescas a caminho da guerra. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. sem resposta. A viagem decorria na noite de sono. sobretudo mulheres de capulanas garridas. puseram o longo combóio em marcha lenta.

Duas horas da madrugada. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. só lá mais para a frente!. ninguém explica. O cansaço vence a ansiedade. mais duas que em Portugal. Poucos dão pelo recomeço da viagem. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . é fresca a brisa que entra pela janela. vai ser um enorme benefício para a economia da província. formando esplendorosos contraluz. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso..─ O que aconteceu? Ninguém sabe. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. bem vestido e curioso. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade.. embalados pelo andamento monocórdico da composição. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. A manhã aparece com um Sol fulgurante. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. sonhando com a cama quente no lar distante. irão esquecer essa doce sensação.. o pessoal vai adormecendo. Lá fora não se vê vivalma..

produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação.. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. Abrindo caminho à força de espada. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . a África do Sul?!. A menção do grande país da África Austral. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”.─ A guerra é uma coisa terrível. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. como depois foi baptizado. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. o material de guerra é todo russo e chinês. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. a Rodésia. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. os ingleses. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada.. os americanos.

não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram.. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. chumbo e estanho no seu território. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. viriam a ditar a ruína. na obra já referida. A coberto das suas armas de fogo. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil.notícias fantasiosas. a concessão de todas as minas de ouro.. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. como refere Basil Davidson. Por volta de 1667. os seus métodos de governo. 120 . ferro. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. a coragem. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Em 1607. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres.. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. roído pelas guerras internas. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. rigidamente autocráticos. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. cobre. editada em 1960:.. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. O génio individual que punham nas suas empresas. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. comportam-se como malfeitores.

. quando esta faltou também lançaram-se 121 . a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. no primeiro século e meio de ocupação? . segundo a documentação histórica. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. ou do tipo negróide.. E o que fizeram afinal os portugueses. Os seus vizinhos do interior de língua banto..fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. glorificados descobridores. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. foi.. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza.). o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças.

O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. na obra já referida ─ . o comboio não circularia mais de noite. perceberam-se os cuidados no avanço. Logo no reinicio. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . manhã cedo.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. ─ Basil Davidson. a partir dali. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. qual cabeçorra disforme. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha.

calor. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha.. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. tudo na mesma! Vamos para. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. como por encanto. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. Cinco homens num destacamento. mas não se viam construções no horizonte visual. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada... O calor era intenso.... mas o 123 . ─ Isto é um buraco medonho..período em pleno campo inóspito.. ─ Vai bem. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. Do chão. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. passando fome. onde em contrapartida. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama. frio. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. ─ Ei! Sou do Barreiro!.

. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. ─ ‘Tou farto disto. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. endureciam os semblantes. com o medo de os irem “pegar à mão”. ─ Então adeus! Boa sorte. o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. barbados de dois dias. pondo fim à conversa. venham cá eles fazê-la!. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 .pior era à noite... Após uma longa curva feita lentamente.. pá! Calma. fizemos a picagem logo de manhãzinha. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro.

esperavam somente. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. não riam nem brincavam. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. O pessoal precisava de descomprimir. ─ Não te preocupes. Esperavam pacientemente e não diziam nada. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. não pediam. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . pensava que os comiam todos! Risada geral. só então a ganilha animou. não barafustavam. muitas. houve risos. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. registando a chegada de dois “amigos do homem”.

amontoados entre trouxas. surgido do mato. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. ─ Verdade. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. As carruagens da frente eram muito velhas. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. malas velhas e caixotes com galinhas. onde dois ou três soldados disfarçaram. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem.. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. ensebadas pelo uso. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. Olhavam surpresos com olhos esquivos. Risonho e desmiolado.. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. estás a engatar-me!. quando viram aparecer o 126 .. moço robusto e bem parecido.. O comboio era muito comprido. quando se abriram as portas de Abril. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. grandes e brilhantes nas crianças.. mas ninguém estava sentado no chão. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. com divisas. com bancos curtos de ripas. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. em Tete.. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo.soldado Edmundo. apareceu risonho e agitado.

a namorada. a morteirada. a emboscada. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. homem novo. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. a companheira. os pais. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. ─ Tem juízo.recomendava o capitão. persistente. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. os irmãos. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. Afinal. maravilhando os olhos na beira-rio. a mina. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. a mãe.grupo de furriéis. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . Onde estarão a esta hora a esposa.

sob a sua influência. uma semana era passada. ─ Assim com esta barba de três dias.exasperado. um tenente-coronel que. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. correndo energicamente para o vale que. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano.. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. parecemos discípulos de Fidel!. concitando olhares curiosos. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. tinha o seu problema resolvido como sempre. para chegar à costa oriental.. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. Claro. sujos de pó. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. ─ discorria o António Manuel. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. muito cedo. oportuno. 128 . foi instituído o “Regime dos Prazos”. ciosamente guardada. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico.

estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. A situação só animou nos meados do século dezassete. Moçambique e Brasil. Cabo Verde. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. princípios do século XVIII. separado definitivamente da dependência da Índia. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. dominada 129 . formada por Angola. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. enxameou a colónia de deportados políticos. Moçambique era um território arruinado. No começo do século XVII. mas na Zambézia. quando foi incrementado o tráfico de escravos. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. para a futura abolição da escravatura. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. No final do século. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. no Congresso de Viena. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. com muito pouco êxito. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. O compromisso assinado pelo governo português em 1815.

transformando num deserto essa vasta região”. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. na Rodésia. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. Mzila. As pequenas colónias no interior. Instalações 130 . eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. casas brancas de estilo arabizado com terraços. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. pó vermelho e castanho. a ideia foi repudiada e não vingou. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. chefeguerreiro dos invasores zulus. conta-nos Bryant: “Em 1860. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). pouca gente nas ruas. cidade de passagem. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. vindas do Sul. ruas largas.

é uma cidade sem espaços verdes. entre outros. Comprido caminho de água. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. 131 . Meio-dia. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. ingleses.. Concluiu o excelso expedicionário. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis.militares por todo o lado. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. ditando o desinteresse dos ingleses. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. outra vez a malfadada ração de combate. rodesianos. na língua nativa. o Zambeze. o Sol queima e há poucas sombras. por isso a Frelimo quer destruí-la!. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. alemães. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. sul-africanos. no lugar de Cahora Bassa. onde viria a falecer com febres. muito calor. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. mesmo com o rio a seus pés.

Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. A estrada continuava para o Songo. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. na defesa da antiga colónia. A via alcatroada era um luxo raro. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado.. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. ─ E se fosses à merda!. por isso a grande nação austral. e.. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. “pró 132 .. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada.. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. possuidora do regime mais racista do continente africano. O projecto hidroeléctrico quando terminado. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. ao encontro do gigante em construção. só cá venho safar o “coirão”. por máquinas da Engenharia Militar.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!.

Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. seria fácil montarem uma surpresa. Soaram tiros longínquos. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar.galheiro”! A mata era densa. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista.concluía ainda o soldado-condutor. a estrada acabava e começava a picada. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. percorridos cerca de 120 quilómetros. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . Estar na guerra aprende-se depressa. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . lentamente. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. Sousa. Ao fim de quase três horas de viagem. os camiões seguiam mais devagar. a engenharia militar ainda ali não chegara. incluindo algumas paragens para reagrupamento. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. só se ouviam os motores roucos em aceleração. estávamos no reino da guerra. Em sentido contrário o trânsito rareava. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. mas pouco ou nada se divisava.

a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. correndo escuro e caudaloso. * Estima: um posto de defesa na picada. A guerra é naturalmente o tema central. ninguém saí dos trilhos. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. alargada a alguns civis presentes. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei.. com granadas e fieiras de balas à vista. o veículo continuou a marcha devagar. atreveu-se a responder timidamente: 134 . E a guerra ficava mais próxima. “já cá estamos há muito tempo. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. símbolos da tropa especial. poeirentos. a conversa continua no bar. de nome Trindade. do qual se avistava o Zambeze. ninguém se atrevia a abrir a boca. construído em paliçada de troncos. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. soturnos. A alegria de uns era a apreensão de outros. Os recém-chegados. primeiro classificado. e um deles. e só agora o António Manuel. a lógica da campanha militar era.. num portento de força impressionante. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso.silêncio. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. agora outros que dêem o coiro!”.

para os lados de Mucumbura. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. ─ Ah! Cá como lá. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul... ─ António? Que nome curioso! 135 . contudo o noviço João com o “bichinho a roer”.. pelos vistos. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. está contra nós! Vocês são novos aqui. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia.─ Mas. A todo poderosa PIDE/DGS!.. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. ─ Quem não está connosco.. junto à fronteira com a Rodésia. e as populações! A acção psico. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu..

5. A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .

em 1968. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. esteve circunscrita aos distritos do norte. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Também o reino do Monomotapa no interior. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. Durante este período inicial. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. Sofala. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. o comando das Forças Armadas portuguesas. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. tinham fortes tradições independentistas. Em resposta. na região de Mueda. e os Macondes nos planaltos do Norte. Entre a surpresa e a desorientação. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. Ilha de Moçambique). várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. 137 . muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. com um ataque ao posto de Chai. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. Cabo Delgado e Niassa. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. Quelimane.

e dos padres anglicanos. Calado de seu nome. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. para os aldeamentos cercados de arame farpado. tropas da Rodésia de Ian Smith. O ódio instala-se. Em Setembro do mesmo ano. Em Tete. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. reconhecidos por Portugal na ONU”. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. à época bispo de Vila Cabral. controlada pelas tropas auxiliares africanas. onde. Valverde e 138 . locais e nomes. na aldeia de António. Depois de descreverem em pormenor com datas. Em Novembro. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. em Abril de 1971. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. e os Direitos do Homem. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. Nijs e John Paul. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. pouco escutadas no entanto. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. em Maio. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. uma companhia de “comandos”. Trindade. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. acusado de colaboracionismo. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez.

cultura. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos... sem qualquer ambiguidade. porém. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. (. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está. Nesta data foram expulsos de Moçambique. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. são perseguidos.Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (.. deveria estar a Igreja. De hoje em diante. costumes. até Novembro de 1973. devido à sua língua... raça. torturados e assassinados. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. mentalidade e até filosofia. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . corajosa e claramente. numa conferência no Reino Unido. Os africanos.. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português.) O povo de Moçambique. Cabora Bassa Em Março de 1968. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. em 2 de Janeiro de 1972.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. onde iam de férias. são os governantes políticos e militares de Portugal. sem julgamento ou culpa formada.

rodeado por uma vedação de arame farpado. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. constituindo o “perímetro de defesa imediata”. e para isso. é um campo entrincheirado num meio hostil. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. a afirmar o desejo independentista. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. que devia ser defendida a todo o custo.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. em 8 de Março de 1968. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. etc. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. Estima e Chipera. inteligentemente. vertidos no caldeirão da guerrilha que. em Julho de 1968. ingleses. A empresa construtora Zamco. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. no dizer indígena. assente nos aquartelamentos de Chicoa. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. italianos. No concreto.milhão de colonos brancos. Cahora Bassa. (alemães. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem.

minas. a Base Aérea nº 7. constituía-se em forças irregulares. As notícias chegavam em catadupa. Fingué. minas! Fuga e reagrupamento. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. embora os estragos não fossem de monta. minas. a linha de caminho-de-ferro 141 . flagelações. apoio na população. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. em Tete. num só dia.Moçambique. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. No dia 9 de Novembro de 1972. com a ajuda da República Popular da China. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. emboscadas. 15 de Novembro de 72. Chicoa. Furacungo. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. eis a nossa táctica. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. Depois atacou sucessivamente. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos.

enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. uma tarefa que o comandante-chefe. silenciosa e traiçoeira. foi sabotada na região de Moatize. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. ao longo de 8 quilómetros. Kaúlza de Arriaga. e os técnicos sul-africanos e europeus. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. com uma força desconhecida. O pânico instala-se e. Deste lado a vegetação era escassa. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. com raras excepções. 142 . Assim se entretinham as forças portuguesas.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. divisava-se o rio escuro e caudaloso. e em 25 de Setembro de 1972. separando inexoravelmente as duas margens. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. controladas e permanentemente patrulhadas. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. Kaúlza de Arriaga. cinzenta e castanha. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. com algumas portas apenas. A mão-de-obra rodesiana. também assumira esse compromisso. no eixo Beira-Vila Pery. O comandante-chefe. Entretanto. pela primeira vez.

A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. companheiro de 143 . ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. nascida e crescida sob a protecção das tágides. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. A água de um castanho terroso. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. Foi há uns três anos. ─ Aqui não. mas mais acima houve um desastre terrível. conta-se a meia voz.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. mecânico de armamento. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. causando arrepios a viagem entre as duas margens. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros.

Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. ajoujado de carga militar. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. por certo deficientemente escorado. e aumenta também a trepidação. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. aproximando-se da extremidade sem anteparo. onde a água era mais agitada. o camião desliza mais um 144 . descaiu para a frente a meio da viagem. Perto da margem a corrente ainda era mais forte. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada.formação do António Manuel. o alferes Baptista resolve intervir. Um camião “Fargo”. a jangada entra em estremeções.

e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. o abrandar fora fatal. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. Com um formidável estampido. em desespero. Sem comando não havia acção. ficando suspensas no vazio. com comando mesmo errado. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. a jangada porém. ou porque não tinham meios de socorro. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. no meio de uma gritaria medonha. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. a corda que prendia a viatura partiu-se. outros procuram nadar energicamente para a margem. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. cinco ou seis homens. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades.

Ao serão. mas os restantes corpos nunca apareceram. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. Por isso a trasfega não fora completada. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. numa operação cuidada e lenta. era um sol diferente. que arrasta consigo mais alguns homens. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente.mais abaixo. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. 101 soldados e graduados. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Metade da Companhia tinha feito a travessia. material de guerra. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. e 146 . O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. em poucos minutos. provocando o deslizamento da segunda viatura. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. um sono em vigília despertando ao menor ruído. soldados e nativos. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. * A tarde chegou ao fim. mantimentos e munições. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. Tudo se passou rapidamente. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. na messe. Ao todo. Alguns nadadores atingem a margem. .

agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. houve um acidente com muitos mortos. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. prestes a ser rendida ─ Sim. 147 . mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. Se houver alguma coisa.. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. Numa das primeiras viaturas. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. o rio faz favor!.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. Parece que não!.. com malas. amigos. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. são por vezes replicadas. homens e armas. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia. os três amigos não se afastaram da zona do motor. aqui quando chove.. ─ contava um furriel operacional da companhia local.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. . bagagens.. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte.. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. mesmo que cheire a gasóleo.. Mais mais para montante.

─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. embora ocultas pela folhagem densa. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. Na luminosidade da contraluz matinal. meu alferes. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. ─ Neste sítio não é provável.. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. nem piar de pássaro nem som de animal. metálica na extremidade. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo..* Reinava uma estranha calma na Natureza. não-operacional mas com algum traquejo da vida. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . ─ Mas. que daí a pouco já se percebiam distintamente. inquieto. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. ─ Continuem a picar. Calaram-se. com um timbre familiar. peremptória. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. No silêncio ensurdecedor.

propôs o empate. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa.. Alfa. Alfa. era um passatempo de luxo no teatro de guerra. era 149 .. ─ Parece estar a acontecer algo de grave. o negrume cerrado da noite africana. dois.. três rebentamentos Baumm!. Trrrr. a guerra continua O som distante e abafado... dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia.. embora nítido.. Baumm!.. Trrrr.. Tango .. O batuque vai começar. Trrrr... Bravo .. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um.. Mike. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor. vestido a rigor de camuflado sarapintado..desde o destino final.. Sierra. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. enche a noite quente de Verão.. o parceiro das partidas escaquísticas. mesmo jogado com pouca convicção... ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção.. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região. Sierra ..! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco. vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa.. Baumm!. António Manuel..” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes. Sierra. sem divisas e de lenço verde ao pescoço.

Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). em Agosto. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. Os rebentamentos não cessavam. ─ A seguir somos nós!. os “turras” mandaram só umas morteiradas. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. a messe e a porta de armas. ─ Foi assim. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados.. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. A 150 .. Baumm!. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência.. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se.. e fazer o reconhecimento da zona. madrugada ainda.. Baumm!. a cantina....salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. iluminado por fraca luz interior. * Manhã cedo. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. na noite anterior. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. vozes abafadas. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. com uma experiência de oito meses. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. Já há três dias que fazem sinais nos morros.

João . À noite. cândido por feitio. com ar de desaprovação.. a partir de Chicoa. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. agora já cheirava a sangue. A fisionomia era-lhe familiar. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. o pelotão já partira. o alferes Yota. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!.. Mas. ─ Yota?. a habitual conversa a quatro ficou mais séria.. Agora o sono cortado vencia a emoção. concluira João. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!... levantando-se desaustinadamente. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. que ficara sem um pé. fazia uma 151 . O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. Ah! Aí está.. ─ observava o António.. ─ Nada. ─ com a metáfora. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém.. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente.. eludia o sobressalto.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS.. nomeadamente o comandante. Ao lado. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. havia dois feridos graves. À hora do jantar chegou a terrível notícia. ─ acrescentava o Sousa. esteve comigo na recruta em Mafra!.

que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. a discussão prometia. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. violentados. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis.. quando elas começarem a “cantar”..ideia diferente! ─ Sousa. o trabalho na fábrica. e estas crianças andrajosas e famintas!.. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. sofria a saudade da Pátria distante. como faz o Movimento de Libertação!. Idealista. onde deixara a esposa jovem. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. o mais sulista do grupo. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. de estudos e vivência. parte maior das agruras da distância. No teatro de guerra. A História não pára e o Mundo avança. ─ A guerra colonial tem os dias contados. Aos milicianos chantageiam com as férias... desde muito cedo. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. ─ A realidade é tão chocante. nas populações e nas nossas tropas. Talvez mais cedo do que tarde!. assumia a contradição. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”.. no interior de uma África estranha e quente. embora algo sentimental. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. o 152 . dava-lhe uma consciência aguda da situação. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante.

a luminosidade 153 . Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. que também ali se construía. na dilacerante guerra de guerrilhas. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. A Natureza. temendo o perigo iminente. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. tal como ao mundo chegou. * Havia um mês que ali estavam. entre morros altos apertando a vista e a alma.medo misturava-se com a revolta. tentando detectar qualquer indício identificador. O aparecimento de “very-lights”. ainda que disso nem todos dessem conta. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. ao fim da tarde era sinal de alerta. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. indiferente aos dramas dos homens. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. pois era sua a decisão táctica. em 1970 e 71. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. de pele branca. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. na expectativa de um ataque ao aquartelamento.

em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. Deixava o interior das instalações militares. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. como eram conhecidos na gíria militar. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. cobertas com telhas de fibrocimento. Era assim no coração de África. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. fora destruído e abandonado há alguns anos. ou de zinco. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. começaram a voltar às casernas. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. torturados pela inclemência solar. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. Constava à boca pequena. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar.quente impressionava ainda a retina. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. O alarme soara falso. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. 154 . os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. Pouco a pouco. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. devido à forte influência da guerrilha na zona.

” ─ interrogaram-se os soldados calados. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. outra 155 . em grupo.. Envenenado estava tão-só o ambiente. vestidas com capulanas de cores garridas. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. tão-pouco adolescentes... Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. com corpos musculados e peles luzidias. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. autorizara o batuque aos sábados. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. para matar a fome. que na tropa não se podia abrir a boca!. nem havia setas envenenadas. combinou-se uma visita à aldeia.. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. Ali não havia selvagens de tanga. o homem macaco”. por questão de segurança. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. um major mal conhecido e mal encarado. da saga “Tarzan. trazia à memória os célebres filmes da juventude. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. para manter o ânimo das populações!. A excepção eram as moças novas. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). Estavam em grupos. Ao quarto fim-de-semana de estadia. remoendo as dúvidas e a desconfiança. Recentemente. dispersos entre brincadeiras ocasionais. local mais calmo e “arejado”.

Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. rompendo o soluço. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. a noite chegou mansamente. a de lacaio da administração colonial. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. ─ Talvez tenhas razão. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca.. Porventura. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. eventualmente!?. com menos humidade.profissão rendosa. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. com divisas. aquele era um clima muito seco.. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. Afinal não tinham ficado para o batuque. 156 . Decerto clientes de “cuspo”. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. mais perto do Índico.

na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. É a primeira ronda de serviço. bem no interior do istmo central moçambicano. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. o batuque ia começar na aldeia. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. ligados por atalhos ainda não memorizados. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. e. O aquartelamento é grande. poucos. pelos vistos. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. Na noite escura por caminhos esconsos. com uma única saída para a picada. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. uma área enorme cercada de arame farpado. e para sul até ao aldeamento.E quem concordava? Muito poucos. dispersos e muito afastados. aprendido há poucos dias. a guerra continuava. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. daqueles. patranhas e acção psicológica. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . Desde essa data. Ao todo são oito postos de guarda. a alma aperta-se e os sentidos despertam.

De repente a chuva 158 . uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas. ─ Pois... Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!. não quis dar parte de fraco!. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana... reportavam à guerra. O coração acelera desordenado. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se.. ─ Achas provável? Nunca constou!. o sobressalto aperta-lhe o peito. Sousa olhava o tecto. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. eventos. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante.. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. antes de desabar uma curta tromba de água..tiro!?. não! Na Guiné. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. todos os acontecimentos... não! Pois. João vai avançando de modo inseguro.. acidentes ou fenómenos naquele local. paciência!”. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. Abafava-se no quarto completamente fechado.

siderado. 159 . com reflexos azulados e avermelhados.. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. O receio esfumava-se. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. ─ Quem vem lá? Alto. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. rasgado a muitos.parou. esfumou-se na noite. muitos quilómetros. por miríades de riscos ziguezagueantes. nenhum rumor distante. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador.. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. Nenhum som. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. A velha África das origens humanas. Fundindo-se na terra. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza.”. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. coloridos em tons de prata e ouro. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. tão radicalmente como tinha começado. nenhuma claridade ofuscante. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. o jovem militar. no caminho do segundo posto de vigilância. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua.

fugaz. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade.. meu furriel! Conhece? ─ Não. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. ponho-me para aqui a contar os raios!. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!.. açoriano como a maioria daquele batalhão.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel... ─ Aproxime-se para verificar!. Ah! É o furriel da secretaria.. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. apertavam como tenazes o coração dos homens. ao longe.. * 160 . é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. Pregou-me um susto. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras. E é espantoso. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra...

agora é só ensaio.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. Valia o facto de ter combinado a compensação. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. com o chefe da secretaria. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. durante a manhã após o serviço de ronda. justificas ao capitão. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. e pronto! ─ Deixa lá. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. Gestão tropeira. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. com prejuízo dos alimentos perecíveis. certamente superior à poupança. suspeitosamente simpático. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. o correio era o elemento existencial mais 161 .

. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar. comandante de companhia. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. mandadores sem lei. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra. Após uma pequena entrevista no alpendre... “Pronto! Já estou feito! É comigo!.transcendente para aquela rapaziada. meneando a cabeça. O centro de gravidade do corpo leve. A desconfiança suplantou a curiosidade. Fora uma noite premonitória. como iria ser o dia? 162 . e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!.”. num circulo nauseante de imponderabilidade. exibindo-se papéis.

6.. 163 . DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?..

─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. nem um mandado. depois do primeiro choque.. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. o oficial alto e escuro. Tinha até ordens para o algemar. Alguns camaradas observavam atónitos.. amigo das ideias. nem uma explicação.. O comandante interino do Batalhão. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. de G3 pronta. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”.. um major que mal conhecia. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. ─ observava. Nem mais uma palavra. candidamente. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. com modos de polícia. percebendo que algo de 164 . o amigo ao receber religiosamente o material. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. mas ninguém tinha dito nada ao visado. Começava a ficar irritado. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. isso vai afectar o moral dos homens.

deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. de que falava a mensagem. Até sempre. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. empertigado. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. agora com uma cama vazia. trata-se de um indivíduo perigoso. a calma em pessoa. nas terras quentes dos longos planaltos centrais. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. pelo despotismo do comando militarista. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”.. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar... está enganado! ─ “Meu tenente”. se não se importa. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento.. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!..grave se passava. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. onde o dia-a-dia continuava tenso. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. ao fim da tarde igual. Olhou-o com ar reprovativo. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . Em Chipera. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel.. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. em jeito de despedida. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. sem coragem para comentar na hora da despedida. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico.

de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. da delegação da PIDE/DGS em Tete. afirmando também a voz. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. A cela dos fundos da delegação. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro.circulando subterrâneas. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. Era um homem já 166 . Horas depois. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. com um ar distinto no ambiente despojado. perturbantes e insidiosas. No outro. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. da barba feita com lâmina inusitada. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. o jovem alto e magro. Por detrás da secretária da sua importância. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade.. era compartilhada por um negro ainda jovem.. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos.

Junto à parede contrária à porta de entrada. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. Um mainato muito jovem. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. única abertura para o exterior. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. ─ Nhambo! Que tá fazendo. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. né! ─ respondeu o jovem corpulento. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde.maduro. curtido pelo sol africano. Retomando a tarefa de limpeza do chão. colocados a um canto. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. acha? 167 . com um tom acastanhado na pele exposta. embora encorpado. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. ─ Sim. senhô! Gosta de ver limpo. estavam estendidos três colchões de espuma fina. rapaz ainda. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. sem qualquer divisória. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. ─ Não tem mais tronco. ─ Fique nessa! Tem mais luz. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. mostrando ser o mentor da cela. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório.

que lhe tinham trazido há minutos. na tarde quente e esplendorosa.. deixava ver a farda recentemente despida. num trejeito efeminado: ─ Vá. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez.. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado.! ─ acrescentou. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . resplandecente e implacável. para de novo pousar os olhos no chão. ─ Eu sou Silveira. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. mas adivinhava-se uma bola magnífica. furriel do Exército português . não seria conveniente. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem.. manipulada para retirar o pijama. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!.. De vez em quando. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. ─ Eu sou fulano de tal. quase fugaz.. que não deixava perceber o “fio da meada”. num breve instante. Aberta em cima da cama de circunstância. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. com uma cor amarelo-alaranjada..─ respondeu o miúdo a sorrir. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho.. a cara redonda e luzidia. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. e 168 . saindo a menear o rabo nutrido. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade.. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . ─ interrompeu a resposta. às voltas com uma mala preta de plástico. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo.

”.. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. provavelmente!. ─ comentara João. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar.mais não disseram. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. acrescentou ─ venha comigo. depois de confirmar a identidade. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna.. na direcção do mictório. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. como recomendara a jovem esposa com carinho. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. desviando o olhar súbito.. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. “Ah! Então aquele era o Malaquias!.. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. De súbito. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. lhe arranjara.

Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. ─ Deixe estar. mais do que a cabeça. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos.. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma.. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. é claro!.. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 .. não é necessário. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. ─ Como assim.─ Chico. e aos meus camaradas de tropa. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. menos bem desenhadas do que era costume. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. gosta de viver ao ar livre. percebendo certamente ser transitório. olhavam curiosos para aquele “luxo”. Os dois primitivos residentes da cela. O coração. escreva só a morada de destino do telegrama. com indicação de posterior devolução.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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.. Faltava uma bala no carregador. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. desorientado.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate.. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. activos e combatentes. No ar perpassava um fluído etéreo. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. Talvez sejam mulheres. LOURENÇO MARQUES.. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. no Norte.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. sim. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita.. A inquietação não permitia apreciar 178 . que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. ─ Também ouvi. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento.. Ansumé ficara arrasado. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. sobretudo brancos. com a G3 caída ao lado.

─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas..” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. Talvez fosse. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção. roubando o ângulo de visão e a serenidade. no coração de África. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. 179 .. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. nem sempre concretizáveis. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. rumo à “Vivenda Algarve”. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. O polícia dava mostras de nervosismo. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. desde Tete.pormenorizadamente a paisagem.. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. nem sempre concretizadas... a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. ─ Temos de ir. onde a geografia era mais agreste. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo.. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. Os “pides” não se tinham afastado um segundo. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. até à sede em Lourenço Marques. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. a sede da PIDE/DGS. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo.

mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. não podia fraquejar. 180 . pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. em Tete. A cela com 2 x 4 metros. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. nem utensílios. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali. Mas a solidão e a insegurança presentes. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto. protegida por uma rede metálica. Chipera Velha. Era todo o mobiliário existente. onde estava enfiado há mês e meio. que substituíram os dias de angústia da guerra. nada!. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. na confusão dos dias de angústia da prisão.. nem asseios. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. pois não queria. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. num canto. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada.. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos.

humanamente insuportáveis. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. até que o assobio reapareceu. puxado entretanto.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias.. Reinava de novo o silêncio. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. Voltou o silêncio profundo. não seria prudente. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.Batendo as asas na noite calada. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. Tal. paralelo e gémeo. porém.. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). 181 .Acordou (quanto tempo depois?). Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. que reconheceria em qualquer parte do mundo. Apurou o ouvido. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre.

SARL. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. o Paredes. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo.eles comem tudo. na Faculdade de Ciências. cantaram e recitaram. o Braga.. que tinha a coragem de ter medo. aquela noite de coragem e fervor antifascista. SARL.. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. O anúncio de um título bem imaginado. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. tocaram. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. eles comem tudo. encostadas precariamente. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. à rua da Escola Politécnica. o Ary. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. até à comoção das lágrimas. O Zeca. 182 .!”.

acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. numa estranha itenerância nómada. de “guerra em guerra”. Em suma. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique. por ordem cronológica.. O segundo. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. pá?. tratando-se de uma nomeação interina.. pá! O 183 . O primeiro comandante. em menos de quatro meses. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. ─ Põe o barrete. fora reveladora da mentalidade militarista. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. mal tinham acabado de chegar. Andando de quartel em quartel.. em meados de Outubro. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. um tenente-coronel. O novo comandante. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. era como a maioria dos oficiais-generais.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa.. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. meu comandante. era o terceiro.

Por isso. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. foi muito elogiada a “fachada”. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. com um soldado sem pés.barrete é para usar. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. noutras. do comandante-chefe. Para estes. dois com a guarda pessoal. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. até 184 . com três feridos graves como primeiras baixas. a trabalharem nas limpezas. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. as meias a três quartos e a continência. quatro helicópteros. era o aspecto exterior do aquartelamento. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. as únicas preocupações são o barrete. general Kaúlza de Arriaga. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. “Filho da puta. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. procurando neste caso dividendos imediatos. Chiça!”. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. e. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral.

Alguns.. como estrategicamente se tinha proposto. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. questionavam-se segundo o velho aforismo. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. Deus me livre!”. aliás. analisando com consciência a realidade conhecida. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão.sucumbirem!?. a guerra não parava de evoluir. Os objectivos em curso seriam cumpridos. a barragem em breve seria um facto. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. e quanto aos meios. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. Os militares cumpriam o seu papel. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. não passando. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. agora o resto era com o poder político. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. era uma questão de tempo e de meios. apesar da 185 . Aliás. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado.. O tempo jogava a nosso favor. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. no Niassa a actividade terrorista era residual. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. porém. Não acreditavam naquele optimismo todo. Contraditoriamente. estavam cansados de tantas comissões. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. para sul do rio Messalo. em Manica e Sofala.

face ao ponto a que as coisas tinham chegado. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. No Norte. em Abril. em Maio. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. prisão da 186 . foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. afinal. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. A guerrilha atacou Vila Gamito. por essa altura. em Março de 1973. em Maio de 1973. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. O general ultranacionalista. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. como todas as outras. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. em Cabo Delgado. em Junho.fraqueza anunciada. e. e. mas. tomando os desejos por realidades. não isenta de grandes contradições e inconsequências. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. chamado a Lisboa em Julho de 1973. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. na direcção da cidade da Beira. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. Machava. megalómano. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. atacou Estima com foguetes de 122 mm. Não era grande coisa. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas.

de bigode fino e voz nortenha. entre as quatro paredes caiadas. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. por enquanto deveria haver algum cuidado. diálogos breves. ─ Coma.PIDE/DGS em Lourenço Marques. eu já volto quando terminar a ronda. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. portas abrindo-se e fechando-se. falando de bons modos. nem o jantar me trouxeram!. porventura maiores que o seu. Não era o mesmo da chegada. A conversa continuou durante alguns minutos. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou.. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente.. Não obteve resposta. de tão inesperada. O guarda prisional. Mas. bateu com força na porta de madeira. composto de muitos dramas solitários e isolados. a esta hora já não se pode fazer nada. constatando. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. Mas deixe estar.. de estatura média.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. Novembro de 1972. magro. ─ Deixe estar. 187 .. causava alguma perplexidade. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim. obrigado! Não se incomode.

. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos.. ─ Cá estamos. A seu tempo.Quando voltou a recolher o púcaro. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde.. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses.. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. Vagamente. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. trouxe bananas (a comida era péssima). que se passará? ─ a questão 188 . por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina..”. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente.. ontem fiquei preocupado. esperando melhores dias!. ─ no limiar da porta.. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo.. como exigiam as regras. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. querem ver que está feito com a PIDE?!. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.

durante toda a tarde e início da noite.. lamentoso. ficava um calor insuportável. Depois fez-se silêncio. anjo ou demónio?”. abafado e húmido. provocando uma enorme tensão. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. ─ Vou ver o que se passa. porém. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente.devia ser muito ignara. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. porque o guarda não mostrou surpresa. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. logo abafadas por a porta ter sido fechada. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos. trancados e isolados em pequenos espaços. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre.. De facto. Em pouco tempo. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. Vindo do fundo do corredor. dou em doido!”. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. sem esperança. 189 . ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis.

─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. a sonhar com a liberdade roubada. na janela. aparecendo o guarda com um sorriso..Num momento de nostalgia e saudade. isto aqui não interessa a ninguém. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina.. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. por “actividades políticas”. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. 190 . é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. no quartel da Xefina! ─ E você. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage... De resto. de costas na enxerga. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. a aguardar as visitas prometidas. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. muito abalado pela alimentação deficiente.. Olhando para o exterior. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. acordado. Quando já descria. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. era nítido o desenho das palavras na contraluz. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes.! ─ completava o furriel. mais velho de aparência. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. Mesmo agora..

é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. ao 191 . O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. passando lestos pelos circunstantes. dir-se-ia uma acentuada palidez. não fora o paradoxo de cores. sorrindo. ─ Bom! Temos de acabar. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez.. procuraram transmitir algo. o guarda prisional.. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. o pastor Manganhela. ─ Sim. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. ficando sem expressão. guarda Cerqueira. ─ Não! Não! Você. com comiseração e espanto. não pudemos abusar da sorte. prestando atenção. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. Os olhos faiscaram um fugaz terror.

reteve por instantes o olhar no único branco. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. Ao percorrer em silêncio a sala. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova. colocando-a por debaixo da enxerga. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. Os restantes presos ganharam alento. fumando boquilha. esticou no chão o corpo inerte. eu trato disso!”. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. ─ Já disse. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita.. Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. já bastante enrugadas.homem preto que acabava de cair abruptamente. olhando sobranceiro os detidos.. À excepção do jovem branco. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. a fazer-se desentendido. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. Autoritário e brusco. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. Instintivamente. a face de outro homem negro. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. com óculos verdes graduados. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. maduro de idade.! Ao dizer isto.

O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. aparentando uns prováveis sessenta anos. ─ Bom sabe. O director continuava a cirandar na pequena sala... presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. precisa de ocupação!?. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. ─ Ora isso é o que iremos ver!. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão.. por certo inspirado na rábula do superior: 193 . interrompida de forma abrupta. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. suspensa no curso da resposta. o processo do pastor Zedequias Manganhela.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. senhor director. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. cabelo grisalho. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. ─ não pode completar a frase... ─ Sim. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director.. ─ ameaçava António Vaz. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. Acompanhava directamente. detido desde Junho de 1972. branco nas suíças. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. alto e de barriga algo proeminente. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política..

─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. de roupa. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. Na minha mala.. quente e envolta na ligeira 194 . ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação... aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.─ É a primeira vez que cá venho.. vindo do teatro de guerra. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. O “anjo da guarda”. de alguns livros!..! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. Cerqueira..

devotado à sua missão. nunca provada. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. nunca se saberá. sevícias. Foram seis meses de interrogatórios. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. Zedequias Manganhela era um pastor. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. ou um tenebroso 195 . pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. de colaboração com a Frelimo. conforme a versão oficial. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. Suicídio. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. e com grande prestígio na Europa. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. o guarda-fiscal. onde Manganhela permanecia em isolamento. numa zona onde não havia guerra. ameaças. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. humilhações permanentes sobre um homem idoso. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio.neblina africana que aplacava a inclemência. terror psicológico. com quem trocara algumas palavras na casa de banho.

os seus mentores e os seus mandantes. 7. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes.assassinato? Em qualquer dos casos. foi um crime de morte matada.

quiçá salvar. muitos presos políticos na cadeia da Machava. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. por ajudar. a 9 de Setembro de 1974. soube-se a dramática história da prisão. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. do guarda prisional Cerqueira. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. A 197 . denunciado em meados de 1973.

fumos. com escala em Luanda. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa.. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. um DC-6 da TAP. agora com o futuro tão incerto. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. Com a recusa da carta propositadamente escrita. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. perseguições e sangue. num pesadelo de tiros. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade. ─ Não. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . Abriu os olhos. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. chamas. muito sangue!. gritos. na sua incansável solidariedade.. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. Quando o avião. correrias.

Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. como represália. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. com muitos aldeamentos dispersos. mulheres e crianças do outro sentados no chão. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. e. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. e. Chawola e Juwau. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. distantes entre si poucos quilómetros. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. homens de um lado. próprio da época das chuvas. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. Os aldeões são divididos em dois grupos. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. Tratava-se de uma área muito povoada. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. num repente.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. não levou a conclusões. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. quando procura o mato. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. Chico Cachavi. Por volta das 14 horas surgem. um tenebroso 199 .

é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. jovens donzelas são arrastadas para o mato. violadas. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. O rio Nyamtawatawa. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. surpreendendo os habitantes incrédulos. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. mutiladas e mortas. um afluente do Luenha. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. Foram os padres daquela congregação. Juntaram depois as vítimas numa pilha. que organizaram o primeiro relatório 200 . Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. uma mulher grávida é esventrada. perante a passividade de sargentos e oficiais. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. Pedro. Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. crianças chorando são mortas a pontapé. O sangue enlouquece a soldadagem. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. distante cerca de quatro quilómetros. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. fica juncado de cadáveres. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. à entrada de Tete.torcionário do recrutamento provincial. e. o aldeamento é completamente destruído. para além do que pode entender a razão humana. que depois as diriam ao mundo. A tropa completamente ensandecida.

mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. e sobre Wiriyamu. coronel Videira. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam.sobre Chawola. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. desumanizados e corrompidos até à medula. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. nomeadamente ao comandante da ZOT. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. ano e meio depois. três dias depois dos acontecimentos. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. em 19/12/1972. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. em Julho de 1973. aconteceu quando. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. traje alegre vestido para afugentar 201 . 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. finalmente. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado.

percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. por isso está como está!. essa é uma matéria reservada. onde acabara de ser identificado e fotografado...“maus olhados”. para iniciar uma nova e derradeira viagem. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino.! O agente. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS.. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. 202 . o mundo está cheio de ateus... em Caxias. depois de todos os passageiros terem saído. agora tinha iniciado o interrogatório. ─ Desculpe. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. Da companheira não havia sinal. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante.. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. na natureza e no seu coração.. Lá em baixo à espera.. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. Caxias. estava uma carrinha da PIDE/DGS. Ficaram para o fim. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu.

De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. outra campainha. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. você é militar. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. e o meu tipo de sangue. Também estive na guerra do Ultramar. o grande responsável. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. o som metálico da lingueta da fechadura. Divisavam-se várias portas fechadas.─ Fiz-lhe uma pergunta. apenas o corredor comprido e silencioso. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. ─ Ah! É verdade. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . Por detrás tem as minhas iniciais. as da minha esposa. interrompido por outra porta de ferro gradeada. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido.

como depois se perceberia.. isolado do mundo. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. gradeada. Por cima da mesa. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. fraca.um palmo e fazia uma cara-de-mau. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 .. uma lâmpada de filamento. em Mafra. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”.. por onde eram emitidos sons gravados. numa fisionomia naturalmente ruim.. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. em Dezembro de 1971?!. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. por vezes reduzido. criando um ambiente soturno. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. ─ Ah! Não sabe!. propício à desmoralização psicológica do preso. ─ Não sei do que está a falar.

impedem o “fechamento” completo do cérebro. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. sobretudo na alta madrugada. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. criando uma pressão terrível. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. polícia manhoso à maneira antiga. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. faz favor! Eu não o ofendi. o preso é sempre o mesmo. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. por vezes o safanão. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. ─ Respeito o quê. Falava com um acinte de cinismo e ameaça.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. para além da fracção de segundo. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. um aspecto de símio de pernas arqueadas. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. a tosse de catarro ou o pigarrear. chamava-se o “moínho”. Começava a tortura do sono.

o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. o preso desfalece instantaneamente. instantaneamente parado.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector.. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. hem! O mundo desmorona-se. os ouvidos zunem ensurdecidos. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer.. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. para acordar logo de seguida em sobressalto. O sádico pide continua a sua nova táctica.. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. O efeito é terrível. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira.. Àquela hora o sono apertava. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. A partir daí a tortura é dupla. * 206 ..! O agente sentou-se estranhamente calado. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. o coração “salta do peito”. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. silencioso. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar.. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada.

não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. gravata e sapatos reluzentes. e por um ligeiro sorriso cínico. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. encarregou-se de clarificar a situação. mas não tinha a certeza.. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. nunca levantando a voz. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. ─ Não sei porque estou preso. A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. O chefe-de-brigada chegado no séquito. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar.. ter saído 207 . não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra.. o “senhor doutor”. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro.. não precisou de muito!. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. só traída por um pequeno esgar. um porte de alto funcionário do Estado. depois do inspector superior da PIDE/DGS. quando mencionou o senhor doutor. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. no Curso de Oficiais Milicianos. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. preocupado com a aparência para infundir respeito. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. Adelino Tinoco. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro.

não! Por favor. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. ─ Vá. O senhor é uma pessoa inteligente. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar.. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão. não vale a pena perdermos tempo. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”.. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar.. a não ser. vamos tratar como pessoas civilizadas. se não conta tudo não vai dormir hoje... foi uma pessoa simpática e colaboradora. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . ─ Violências.! ─ Ia dar o salto. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado.. ─ o pide calmeirão. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente.. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?.. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação.

tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. ─ Vá. um sujeito fulano de tal.uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias.! A brigada da Guarda Fiscal. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Estamos de visita! Não podem. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. deixando-o ofegante.. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . o resto fiava mais fino.. Um pequeno prurido de remorsos. prostrado de joelhos. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. apesar das suas reticências. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. Calou-se. por favor! ─ Mas!. perto de Vilar Formoso. fazia o papel legal. avisada. Encontrei-o uma vez em Lisboa.. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação.. Estava muito calor em pleno Agosto...

ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. todo encolhido. A conversa em voz alta com o substituído no moinho.. em Mafra. fale! ─ este é dos “pides maus”.. 210 . O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. é claramente provocatória para impressionar o detido. onde antes só estavam manchas indistintas. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. são figuras de bichos. pinturas-quadros humanizados. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. O “SENHOR INSPECTOR” Um. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio.. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. em Dezembro de 1971. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. pequenos baixo-relevo estilizados. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas. penteadinho e bem vestido. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino.

em Dezembro de 1971. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. surpreendentemente.. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente. ─ Desconheço esse assunto. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. não vale a pena negar! Além disso. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada... não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria.. ali estava um exemplar do “Avante!”. desdobrou uma folha de papel fininho e. não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . fazia precisamente um ano. não resta alternativa.” ─ Esse canalha!. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. é a primeira alucinação. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar.

já a madrugada ia alta. Até amanhã. com um bafo acentuado de álcool. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. bombista!”.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. Junto da sua cara. Adelino Tinoco. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. Passaram as horas. Como uma mola. Encostado às paredes foi caminhando. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. O pide pequeno e feio. como o torcionário-mor. já disse! ─ sacudindo-o 212 . o que permitia ir calculando o tempo). caminhando. que até os tinha formados em Psicologia. aludira. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. Silêncio! Não entrou ninguém. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. ─ A partir de agora fica sem cadeira. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se.

deu origem.. Um “pide-bom”. alto e de meia idade. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. e com um emblema na lapela. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho.. de bom corte. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. com ar muito solene. não tem cara para levar uma bofetada!. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. no instante seguinte. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. voltou as costas e desandou.. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório.. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. como de costume. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial.violentamente. bem vestido num fato azul-esverdeado. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. o “superior” teve uma ligeira hesitação. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 .

que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. as paredes deslocam-se. eram mitigados. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. muito íntimo do director Silva Pais. de onde chega uma luz de sol 214 .consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica.! Alucinações frequentes. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado.. ameaçador. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. com Marcelo Caetano no poder. sob o mando directo de Salazar até 1968. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. no quarto dia consecutivo.. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. não tenho nada a ver com isso. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. desaparecem. quatro dias. Agora na década de 70.

magnífica. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. semiaberta. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. mentecapto.” ─ Afaste-se da janela. mais um passo ansioso e . Quem dera poder dormir um pouco!.. Todas as noites. pouco antes da mudança de turno.” Passa o tempo a olhar para o preso. única saída para a liberdade urgente. onde a vida continua. O café da noite tinha um gosto esquisito... o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios.. não conseguia adormecer. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. vinha um 215 . além do oceano. Ao fim de quatro dias de privação do sono.. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência. O preso avança às cegas para um precipício.. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!.. acima do mundo. com ar arrogante e meio imbecil. por isso bebeu só uns goles.. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. O vigilante calou-se. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. só abre a boca para ditar ordens e regras. sobre o rio.

obrigado.. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. porque de repente. Hoje é o primeiro dia de Inverno. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. juntava-se a confusão do tempo. conversar!. não é? Sentia uma tremenda excitação. Sabia bem aquela bebida quente.. A falta de descanso do cérebro. quase euforia. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. sem querer. vindo não sabia de onde. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável.. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus.. ─ Interessa. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. vamos é saber da sua disposição. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. produzia a perda da noção tridimensional. calha bem!. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. Mas isso não interessa. apetecia-lhe conversar.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. 216 . Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. embora os polícias garantissem haver aquecimento central.. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. fazia frio à noite. daí as alucinações.. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta.

. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. um homem católico. foi uma força de expressão. Já temos uma filha!. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você.. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. e no entanto vão lá. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos. ninguém me mandou. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. dizem-se pacifistas. fazem agitação contra a guerra. sabe.. também estive na guerra. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias.─ Não sei. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. nem o Deus em que não acredita. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. não estou a par! Mas. contava todos os pecados. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. por onde vultos furtivos se escapavam. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos.. em Angola!?. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. ─ Você... A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. não respondeu logo. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido.

Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. Por agora as dúvidas foram vencidas. tantos que tinha alucinações tremendas. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes.. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. faz ultrapassar o período de fragilização. impedido de dormir há muitos dias.. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. Nem o chefe-de-brigada. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono..” martelava-lhe o cérebro doído. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . não vou!. por estar para ali a falar com aquele carrasco. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. ninguém! Parecia terem esquecido o preso..

Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. vamos buscá-la para esclarecer. anos mais tarde. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala... SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. Passava largamente da meia-noite. (inspector. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. ligados ao Partido Comunista.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa.. (mas ficaram quase todos bem na vida. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. SEIS.. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. quase euforia. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. em Alcântara. por não ter arranjado melhor!. segundo dizia. com a entrada triunfal do inseparável séquito. quando a revolução esmoreceu). ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. Calou-se o agente de cara redonda. chefe-de-brigada. Facto curioso. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. comprometido.

misto de revolta e de desalento.vontade. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. pela impotência perante a situação. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira.. Raiva. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. Que dia seria hoje. a aprofundar a angústia dilacerante.. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS.. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . não posso!. manhas experimentadas da polícia. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. pavor. Nascia um estranho sentimento novo. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. ─ Se os documentos não são seus. subindo pelo peito até ao cérebro. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira..

O inspector Tinoco retirara-se impante. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. a investigação ia no “bom caminho”. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. desfaço-o a pontapé!”. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão. ─ Comigo. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada.. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. A respiração pela boca torna-se ofegante.papel sujo. como você. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. há muito perdera a perspectiva tridimensional. a tortura do sono ia continuar. O detido já não liga às provocações. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. eu logo lhes dizia!. já lhe disse! Se insiste. O preso caminha encostado às paredes. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. os comunistas de merda. Sem cadeira para se sentar. o “vaidoso” e o “atarracado”. Apetece-lhe vomitar. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. julgando-a mais distante. desritmado. sob constantes ameaças dos pides. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas.. entrado a meio da tarde. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. bate desamparado contra a parede. em pé horas e horas a fio.

. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros. já meio recuperado. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. a confusão. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. Não há milagre. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. Muito tempo depois. Sim. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. Estava sinceramente assustado. hoje celebrados como heróis.. Ah! Se pudesse saber que a companheira. Sentia-se verdadeiramente mal.. não tem o traquejo dos “duros”. claro. mas nem todos tinham essa fibra. firme e 222 .O pide agressor ajuda-o a levantar-se. ─ Sofro do coração. corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. talvez. mas com os pés cada vez mais inchados. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas.. gente de excepcional coragem.. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura.... a família!. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. é ainda um homem novo.

o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. Não tardou de facto. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. chantagista. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. ─ Sofro do coração. criminoso. carrasco. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. fascista . com o ar mais angelical do mundo. o “senhor inspector”. jamais olvidado. ─ Então... nazi. ontem ao 223 . Devido ao cansaço. embora verdadeiramente ameaçada. facínora. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. poupando energias. canalha. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. torcionário. hipócrita. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. até porque na altura outros apoios foram recusados. tinha obtido do “seu” médico e amigo. torturador requintado. Na tarde do 6º dia.determinada. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.

“unha com carne” com o director Silva Pais. sem interferir. o coração desritmiza-se. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. O torturado levanta-se em grande sobressalto.. ouvem-se gritos humanos lancinantes. : “Prenderam a minha companheira!”. Este pensamento produz uma angústia terrível. Até o agente de serviço já não implicava. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. De repente. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. e se for preciso. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram.. a olhar interessado.. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. mas não estava”. Descalço.serviço de Salazar e agora de Caetano. com esgares de riso. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . estava atrás do chefe pronta para saltar. não dizia nada. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. gritos de mulher!. o peito sufoca. A matilha de macabéus e hienas. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira.. trago um médico comigo!. parecem-lhe gritos familiares. Já não conseguia levantar-se. a qualquer hora do dia ou da noite.

uma história de comunista já assumido. 225 . muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. O pide de serviço. nas longas fases depressivas. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede.). Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. sem sol (ou ainda não terá nascido?). Muitos. contra o que era habitual. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País.. frio. cinzento. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. Ganhara forma no cérebro. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. A PIDE aceitou a história. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972.─ Não está a ouvir? São gritos. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude..

8. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .

para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. repartido por várias sessões. Sobre estes causídicos. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . milhares de portugueses. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. houve intervenções brilhantes. amigos. Das primeiras. corajosas.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. entre familiares e amigos. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. defenderam em tribunal. fazia-se de propósito em voz alta. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. a título gracioso. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo.

caso raro.. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. 228 . ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. As alegações iniciais e finais do réu. seco de carnes e cenho ruim. durante sete dias e seis noites sem dormir. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. pelo doutor Manuel. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. mas falando em voz alta e explícita. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. O próprio juiz o admoestou. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. Riram de forma alarve. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. fingindo ignorar o detido. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa.. com o Carlos e o Pedro. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. quando foi apertado como testemunha de acusação. anafado e exibicionista no fato de fantasia. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas.

às 16. com uma pena de prisão remível a multa. além do mais.. na sala de interrogatório!. O fascismo.. que lutavam pela liberdade. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. proveniente da Beira. Costa Saraiva. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita.. ─ É fácil comprovar. Nos registos da prisão-sul de Caxias. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. Embatucou o procurador do Ministério Público.00h do dia 23 de Dezembro. com permissão do juiz. a sentença constituíu uma pequena vitória. senhor doutor! Nos registos da TAP. era rancoroso.. a interromper o réu. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. Ao fim de três sessões. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. há-de constar a minha entrada cerca das 20. ─ agora era o acusador público. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. 229 . como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. onde eu nunca tinha estado antes.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa.

Fernando Fragoso. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. Vicente Bolina. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. Maia. Suzel. José Caria. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. os antigos colegas Baptista. Eduardo Fernandes. tal era a acusação. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. 230 . algumas intervenções foram particularmente conseguidas. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. os amigos José Lucas. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. Hélder e Ventura. No mínimo. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. Zaida. Conduto e Pimenta. Eugénio Torres. Os colegas de escola e também dirigentes associativos.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. O apoio necessário vinha da família. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. Manuel Felizardo. ficarão registadas para a posteridade.

AMADORA. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. cidade dormitório às portas de Lisboa. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. vê logo o quartel. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora.. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. aplacando a angústia e educando o espírito. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. Desfazendo por fim o ar de admiração. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. a reflexão. não há 231 . que encheu o dia-a-dia. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. organizado. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). fraternal e dinâmico. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. em rápida expansão. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. disfarçando a saudade. o estudo. ─ Bom dia. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. quase vazio no início da manhã.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final.

─ Deixe estar. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. o rio era um espelho plano e calmo. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. mãe e madrasta. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. Um cabo e um praça da GNR... bordado a ouro e esperança de melhores dias. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. adivinhando a má nova e o destino ruim. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . na Amadora. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. indiferente aos dramas dos homens.. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. o batente de ferro da casa térrea. com caras de poucos amigos.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973.. situada numa magnífica frente para o rio. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. indicada no 232 . senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. o desemprego na grande indústria.

a humanidade com que lidava com os 233 . Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. tudo era diferente naquele homem de idade madura. ─ Processo disciplinar. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. O capitão Luís. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso.. ─ Entre. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. era preocupante e inabitual.. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa. oficial do SGE.. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal. já fui julgado e condenado em tribunal!?. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. até aí conhecidos. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano.gabinete do oficial-de-dia. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. gordinho como era da praxe. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. esse cretino!.. ─ Sabe?!.. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. se tinha levantado para o receber. é um cepo redondo com dois olhos. ─ Andamos à sua procura há oito dias. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada.. Não queremos criar problemas a ninguém.

deixava os interlocutores espantados. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. também com um problema militar complicado por razões políticas.. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. gerava uma nova expectativa. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. 234 . embrulhado em “maus lençóis”. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!.. repetia-se ao princípio da manhã. ─ Eu sei. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. formado em Direito. intuía com reprimida alegria na alma. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. Todos os dias desde a primeira vez. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares.

. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. deu para partilhar mágoas e esperanças. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. Tomara eu!. mas não se comia nada mal. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. o que. ando a pagar viagem a viagem!. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. para quem tinha um curso de engenharia. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. furriel “estacionado”. não constituía dificuldade.. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa.Não tinha. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias.. 235 . convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. tristezas e expectativas..

.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. redondo de aspecto e de alcunha.. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro.. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. foram obtidas sob 236 . ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. deve ter sido complicado!?. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. então não vale a pena perder tempo. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”..Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. ─ Bom! Ainda está muito quente. em Dezembro de 1971. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal.

por isso não são válidas e não têm nenhum valor. ─ Quem não está. Era curioso. falta um companheiro de viagem. e tal. Não ficaria por aqui. estivesse. se sentara num banco traseiro.tortura. já o mês de Julho ia avançado. ─ Só mais um minuto. Por mais de uma vez. Depois chamo-o para assinar. Isso não pode recusar. o processo-fantoche. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. nos dias tal. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. como mandavam as regras tropeiras. dando como provadas as acusações. sufocava-se no interior da camioneta. senão tem faltas injustificadas. Os documentos apresentados para assinatura. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. O horário é para cumprir. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. ─ Isto é um veículo militar. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. porém. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . Certamente por isso. não é um transporte público.

entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. seco de carnes e de sorriso franco. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. ª. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. é furriel! Qualquer coisa da Silva. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança.o compasso de espera solicitado. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Ex. ruivo e sardento. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. na secretaria dos “Adidos”. o “chefe da viatura”. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. a PIDE/DGS. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . pelo contrário. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. com a conivência do militarismo reaccionário. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. por determinação de S. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. o furriel miliciano. Era um estado dentro do Estado. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. Acácio da Silva”.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. casado há pouco tempo e aqui preso!. ─ Foi o bom e o bonito. mas num domingo foi aí uma barraca.. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. mostrava-se loquaz. 246 . porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. tentou esganá-la.. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada. ─ A doença dele é outra. ─ O tipo está doido varrido.. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então.... ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. mas o alentejano não se deu de achado. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. até já cortou os pulsos para se matar!. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. desatou aos pontapés às cadeiras.. e o moço de bigodão negro. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão..

Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. A notícia surgiu brutal. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. fundado em colaboracionismos vários.─ Então a situação é grave. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. se tinha suicidado na cela. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. tem de se compreender. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . sempre a caminho da enfermaria. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. ─ Pois sim. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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255 . talvez mais cedo do que tarde!...da filhinha! Prometo que voltarei.

malas. homens. sacos. 256 . DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos.A LENDA 9. velhos conhecidos.

sobre as preocupações com a mobilização iminente. grupos barulhentos jogando às cartas. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.). Encostado ao taipal. Beliches a cinco de altura. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. 257 .. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. que para aquele lado era de terra batida. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. cruza-se outro camião com soldados a granel.. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. Algures. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. o “canhão” esperava a carne fresca. O camião carregado de soldados.. como gado para matadouro.. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. gente deitada semi-nua. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado.

paleio animado e boina na mão. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. rua abaixo direito ao centro da cidade. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . nossos soldados? ─ Desculpe. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. se não houver problemas com a saída!. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. moço alto e magro. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. ─ Se calhar vou contigo. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação.. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado.. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. isto é um país em guerra.. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. que por perto ouvia a conversa. ─ A vossa identificação. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço.. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. falta de hábito!.

. Devem vir fardados. pá! ─ Não te metas com esse gajo.de colocações e a escala de serviço. é um exagero!.. ─ Isso deve ser história. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. mas sem fim à vista.. limparam.. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. lá foram saindo os magalas mal ataviados. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo.. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. sem pés. ordens do sargento! Resmungando e refilando. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. ─ Há aí vassouras e pás. também não a pedi nem a desejo! 259 . ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. sem braços ou sem vida. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. tecendo laços de solidariedade circunstancial. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. algures naquela guerra oficialmente já ganha. entretanto voltou de avião para a metrópole!. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. não deve ser limpa há um ano!. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. O resto do tempo podem ir para onde quiserem... “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída.

porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. Os homens ocupam-se da máquina militar. pelo contrário. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. ─ conversava-se à mesa do 260 . o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”.. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. pois a guerrilha não diminuiu. assim se chamavam.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. elogiando o trabalho feito. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. que consome enormes recursos da Pátria distante. característica daquela região. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico.. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. e a economia da região sobrevive do conflito. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. veículos militares correndo pelas ruas. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. Na conclusão da empreitada. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. com o sol nebulado e uma humidade elevada. com uma eficácia muito baixa. As vivendeiras. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte.. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”..

os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!.. o militarismo sufoca! . quase não há serviçais do género feminino. Têm inúmeros criados pretos. Ganham uma bagatela. Passam carros de boas marcas com condutor militar. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. Esta “chicalhada” irrita. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. falam mal o português. Também alguns milicianos trouxeram a família.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos.Café Central no fim da tarde quente.. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando. Longe dos teatros de operações.. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. mas têm comida certa: ─ António. não sabem ler nem escrever..tal como sufocava o calor de Dezembro. a fim de conhecer tanto quanto possível. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. a 261 . as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. a história da terra moçambicana. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação.

protegidos pela lei do condicionamento industrial. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. Uma planície de cor castanho-avermelhada. que não se vende em Portugal.. porque Salazar não gosta muito dos americanos. Quando se saía da cidade. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. e aos industriais de refrigerantes. a prestar serviço nas “Informações Militares”. viam-se grandes embondeiros. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. ao fim do dia. ─ insistia o jovem bem parecido. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. oriundo da burguesia alentejana. com bons conhecimentos. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. deixavam-no intranquilo. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. e potenciando o vício pela bebida americana. quartel-general da guerra. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. à beira do milagre da “tomada 262 . Nem vou. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. a perder de vista. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada.. A sua formação era claramente conservadora. onde tudo era demasiado no estilo europeu. mas o que te estão a fazer é inacreditável!.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde.

Ia para dois meses. Automóveis de boas marcas. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. deixam gente de pele escura. entre silêncios e goles de mistura fresca. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. Não tardam aí melhores dias!. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. 263 . a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. mais depressa os homens que os montes. ─ Quando vim. revelando a comum ascendência asiática.de consciência”. Pelo que tenho visto. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. muitos sacrifícios e muitas vidas. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. já tinha a chave. Prestes a mudarem. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais.. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. ainda que tal custasse muitas angústias. Para o mais distante. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. acreditava na justeza deste conflito. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas.. réplica da arquitectura europeia.

─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. normalmente.. chegavam famílias inteiras. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. À noite. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. no Golfo Pérsico.. por bastante comum. o movimento à porta da mansão!. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. com as leituras ou as idas à biblioteca. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. com o infelizmente célebre. Estavam muitos orientais. na Índia e até na China. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. O descontentamento emergia.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. como na gíria é conhecida. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . ─ Ah! Então era isso. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. a servirem como desabafos da alma. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. se notava um grande sossego.

“Os brancos antigamente eram peixes. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. que encontraram sempre forte resistência. E desde então até hoje.. nunca mais deixou de nos tratar mal”. viviam na água. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. Durante a I Grande Guerra. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. Esta é uma lenda do povo maconde. 265 . internando-se no mato. em 1918.. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. a que o povo das tatuagens e dentes limados.. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. nos princípios do século XVI. e se ele o dizia. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. Os pretos cuidaram dele até crescer. Datam do século XX. começou a fazer-nos sofrer muito. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. habitando o Norte de Moçambique.. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. possuía um carácter forte e indómito. A etnia maconde. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. entre os rios Lúrio e Rovuma.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. se furtava.

No início do século XX. fronteira à ilha de 266 . A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. alunos sem escolas e sem professores. Em 1895 e 96. da costa de Angola à costa de Moçambique.. A nova expedição de Serpa Pinto. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. de traficantes e de entidades coniventes. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. Este último escreveu o livro “Mozambique”.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). em 1885. em 1882. “de Angola à contra-costa”. no Sul.. e de Capelo e Ivens. em 1878. em 1889. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. hospitais sem médicos!”.”Batalhões sem soldados. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . escolas sem alunos. doentes sem hospitais.

Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. numa série de campanhas iniciadas em 1908. com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. a Companhia do Niassa.. a norte. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . entre os rios Rovuma. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). À medida que se desenvolviam as campanhas militares. que iam completando a ocupação militar. em 1879. e o cultivo do algodão e da borracha. criada em 1888.. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. submissão das populações e pilhagem dos recursos. criada em 1894. com capitais metade ingleses e metade franceses. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. Lúrio e o lago Niassa. são finalmente controladas (oficialmente.Moçambique. ferro e ouro. a Companhia de Moçambique. com capital inglês e francês. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. procedendo à exploração mineira nesta área.!).

não se mobilizavam voluntariamente. foi criado o primeiro código do trabalho. nunca teve grandes resultados. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. Por outro lado.país colonizador.. na sua área a 268 . para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. ao abrigo desta lei. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. que funcionaram até 1942. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. No período de 1910 a 1923. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. ao seu sustento próprio”. Em 1878. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. subindo para 2 mil no início do século XX. fundamentalmente para Angola. Já a Companhia do Niassa. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. aumentando para 20 mil em 1926. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro.) está sujeito. entre pessoal militar e administrativo. conseguiam um tráfego internacional crescente. mantém-se o regime de trabalho forçado. muito depois da abolição oficial da escravatura. Ou seja. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. sua sede. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados..

É muito recente. tinha em 1925. Porto Amélia. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. amendoim. no Centro e no Sul do território. canade-açúcar. segunda cidade. Holanda) estava em declínio. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. copra). mandioca. oleaginosas (caju. 1500 habitantes (só 50 brancos!). Alemanha. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores.penetração europeia era mínima. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. em 1925. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. já do século XX. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. Bélgica. No segundo quartel do século XX. destinados à exportação: algodão. França. assiste-se. milho. tinha 30 mil habitantes e a Beira. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. o esforço português de colonização efectiva. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. chá. a capital. mesmo nas suas próprias terras! 269 . e nunca foram construídas vias férreas. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. atinge 20 mil. todavia. criadas por decreto obrigatório. sisal.

que assim funcionam como mercado protector.. Inglaterra e União Sul Africana. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. e em particular com o capital britânico. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. fundamentalmente para Portugal. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951.. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. constituída em 1948 com capital luso-belga. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. originariamente para a exploração das minas de Moatize. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. a mais importante açucareira da colónia. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. Curiosamente. em 1945. Presente desde há muito. que cessaram a actividade por volta de 1942. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. pertencente ao grupo Champallimaud. do Niassa e de Moçambique. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. perícia. concessão feita a capitais luxemburgueses. Sena Sugar States. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. cultivava 45% da produção algodoeira total. Companhia de Algodões de Moçambique. a que se 270 . técnica e espírito empreendedor estrangeiro. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. No caso da exportação de algodão. Além das referidas Companhias do Zambeze. criada em 1921 com capitais ingleses. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital.

irmandade dos povos que.. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. desmentida desde 271 . no período áureo do chamado Estado Novo: . se cultivam e se elevam. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. etc.associaria o grupo Melo. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. também presente na indústria dos óleos.“No meio das convulsões presentes.. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. em 1943.. 520 mil contratados do algodão. Em complemento. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. metade do total. se auxiliam. incluindo: 400 mil emigrantes. sejam quais forem as suas diferenciações.

A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. Todavia. três ou quatro nos finais do século XIX. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. traficando em escravos. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. ou seja. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. dez em 1825.6 milhões. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . com a política de “fomento colonial”. no século XVIII. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. organizadas em ensino primário e liceal. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana.5%). e as escolas elementares das missões católicas.sempre pela escassíssima presença portuguesa. à data dos inícios da guerra de libertação. em decréscimo) num universo de 6. Da mesma forma. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. asiáticos e “assimilados”. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. em 1950. ano da publicação do Acto Colonial. espalhados ao longo da costa moçambicana. 1. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. em 1960.

. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. etc. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. ao arrepio do ensino do Português. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. subjectivamente. educar. 1970). pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. 95% da população africana se encontrasse na 273 . “Não é mais que um método de domesticar o indígena..território colonial. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. nacionalizar e civilizar a população nativa”. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. fomentando o espírito nacionalista latente. reflectindo a miséria da missão colonizadora. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. sobretudo depois da II Guerra Mundial.. Não admira pois que em 1960. padres de Burgos.. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . confluindo no desejo independentista. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. Por este tempo.). padres de Verona.. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE.

a Lurdes. o António. o Melo. os Casimiro.. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. a Lena. o Ivo. o Fausto. como na afirmação do Presidente da República. ok?!. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. o Castro. A colónia funcionou até 1960. em 1956. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”.. o Muradali. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico.. 274 . sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. A humilhação permanente da despromoção. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. Craveiro Lopes. o Monteiro.. ). disciplinando os seus instintos rudimentares”(. Precisas de te distrair! O Carlos. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!).situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. são gente boa. o Santos. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. quando começar a luta de libertação nacional.

. é mais uma questão de integridade. sempre muito sensível. A seguir a uma curva. por isso te despromoveram e te castigaram. entretanto a revolução. que até nem foi extraordinária... preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. estava um negro deitado na estrada. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. como morto. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam.. muito apertado pela PIDE em Caxias. ─ questionava a esposa. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. Ciclo do COM. 275 . sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. este tipo é incrível. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. ─ Não é tanto uma questão de coragem. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. atravessado.

. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . De vez em quando vou tendo notícias.. sim! Com dezoito meses. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. se estivessem aqui comigo!. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. carregada pela angústia da separação física. Estão bem. por isso tu és a minha vida. O tempo não pára. (. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. a minha luz. ─ Nunca foram referenciados! A não ser. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. felizmente. mas nós havemos de vencer haja o que houver.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram... tu ensinaste-me a viver. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante.. me dá vida. O mais custoso é a separação.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito.. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. cada vez maiores.

Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas.. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. ─ uma carga de trabalhos. a nossa ligação temse fortalecido. Por outro lado. diz o nosso fruto pequenino. amor da minha vida”. que faz amanhã 18 meses. O “carocha” quebrou o transe emocional. não sei se aguentaria. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. o casal ainda não tinha filhos.criaram. Nós esperamos por ti.. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos... é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura.. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 .) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. durante quase seis meses. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. o amor constrói-se também com sofrimento. e agora?. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona.. (. Como disse um grande poeta.

MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. as de jovens oficiais do quadro. pelo parente morto em exercício militar. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. alto e bem parecido. à entrada. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. desassombradamente. que há pouco. no início da década de 70. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique.. onde vinha em luto familiar. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. ou mais uma tentativa de “putch” militar. ─ Um movimento autêntico. Juntamente com outros dirigentes estudantis.. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. e de sectores ligados ao general Spínola. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. foi bastante mais João. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. fora apresentado como Ivo.G. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. também ex-dirigente associativo. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. também alferes no Q. era um jovem mulato. fora compulsivamente incorporado. em Outubro passado. genuíno. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . natural da cidade-quartel-general.G.

desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . ─ Como sabem. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. chegando e partindo constantemente. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. que não renegavam. falava no assunto tabu. Fixados há muito em Nampula. Se isto dura mais uns meses. o mulato quase formado em Medicina. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. A casa de família da classe média. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. que fazia a interface entre muita gente. alimentando a célula da resistência em Moçambique. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. para ajudar a acabar com isto. trazendo e levando notícias e materiais.

. que venha por bem! ─ Por cá. ─ Talvez não haja tempo para isso. ─ A própria igreja de Moçambique. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. nos quartéis. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas.. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. depois do fracasso das operações no Norte. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. muito simpática e delicada. tantos anos de mão dada com o colonialismo. Tenho a convicção que o fim se aproxima. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia... Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda.. em plena época quente no Hemisfério Sul. mostrara uma insuspeita clarividência. num fim de tarde africano. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. também dirigente académico perseguido. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. nas escolas!. mas creio que já não têm tempo!.. assume-se agora do lado dos oprimidos.. oriundo de famílias militares.. concitou a atenção dos presentes. ─ o jovem Melo.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. ─ a senhora de Casimiro.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%... mas se é contra o regime. O julgamento do 280 .

Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. por orientação do Vaticano. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. Sebastião Soares de Resende. prevendo e prevenindo o futuro. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. é paradigmático do papel da igreja católica em África. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. Completa esta imagem do século XVIII. no curso do século XX. terra de esperança. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. Depois da concordata de 1940. parte integrante da máquina colonial. num contexto de declínio do colonialismo. o ambiente ganhava optimismo. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. uma voz clara que 281 . os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). assumia-se de forma muito mais contraditória. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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a meio caminho da cidade portuária. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. nada de atrasos!”. Percorridos em visita. a praia do “Relamzapo”. negros na maior parte. cada vez menos. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 .30h. num “Aviso” da Marinha de Guerra. imaculada. agarrado às vantagens do passado. aparentemente descurando o futuro. ainda acreditavam. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. e. Agora na sua senda. quase escrava. A praia das “Chocas”.do oceano de águas escuras e algo agitadas. de medusas da “Cruz de Cristo”. Na conjuntura actual. tinha uma areia fina de tacto agradável. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. rumo ao Norte. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. com “cabrinhas” de espuma branca. semeada de pedaços de algas escuras. aqui e acolá. duas dezenas de soldados. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. os colonos emigrados. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. como gostavam de dizer. A partida é às 20. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. espraiando-se levemente na areia branca.

. Num jipe oficial. ─ Há poucos dias estava óptimo. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. branco. Ele contar-vos-á os pormenores. Tratem-no como se fosse um de nós. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. impecavelmente fardado. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. Marcelo. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. também vou?.. um jovem alferes moçambicano. estivemos a conversar em casa de uns amigos.. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. Caíra a noite.bigode sobranceiro. é melhor não te verem por 290 . Tinha razão o Ivo. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade.. logo me contas o resto da história. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. ao jantar. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão.

─ Olha quem ele é!. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. Antes. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. com o furriel “recepcionista”. à saída. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio.perto. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida.. ex-dirigente estudantil. já eram velhos amigos. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. de camuflado. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. em serviço à pista. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. instruiu o condutor de serviço: 291 .. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes.

cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. era uma zona de casas. Do avião. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. Verdes e impenetráveis. Diferente...─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. parecia ser gente “importante”. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!.. com telhados de fibrocimento. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. bem vestidos ao modo africano. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. para onde vai o professor. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. que passava rapidamente. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”.. num vale em depressão. desde Porto Amélia. arrasando os nervos. único utente até hoje! Ao longe. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. a poente. pintadas de branco. a rasar a copa das árvores.

293 . de ataques com foguetes de 122mm?. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. ─ Contava-se. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde.. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. Mais distante. de madrugada. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada.adiante. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. de contornos envoltos em bruma. ou talvez mesmo de há muitos dias. em Porto Amélia. interpelou-os: ─ Meu furriel.. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. destoava do verde constante da paisagem. até se diluírem no horizonte. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno.

os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. em fila. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. Por instantes. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. ao calor escaldante do meio-dia. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. porventura. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. sem higiene. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. Em tempo de Equinócio. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. confundindo-se à distância com a neblina circundante. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção.Fim de tarde ameno. Ali na África Setentrional. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. sem gosto. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . sem vontade. a recolha da sopa numa lata de folha. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente.

do outro lado do rio. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. o nosso direito e o nosso interesse.da pátria. Mais distantes. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. Mina. em cenas de caça na terra de ninguém. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. falso alarme. a angústia do afastamento familiar. despejada a eito. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. ataque? Nada. Novamente o mundo sem sons. em cujas margens coexistem por vezes. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. É Naschinguyeia. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. e o manto escuro caindo sobre o lago. minas anti-pessoal. projéctil. A respiração suspende-se por segundos. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. da personagem mal conhecida por recém-chegada. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. a miséria do rancho. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . o medo da guerra. caçadores nativos. crocodilos. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. encosta abaixo. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão.

propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos.impérios asiáticos. em 1964. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. em Junho de 1960. quando as ex-colónias inglesas. transferindo-se para Dar-es-Salaam. em 1961. francesas. Franco Nogueira. em 1963 e por último em Moçambique. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. Uma contínua e continuada mistificação. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. acediam à independência. depois na Guiné-Bissau. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. belgas. em véspera da 296 . holandesas. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. o mito da defesa do mundo ocidental. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. em Abril de 1961. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. primeiro em Angola. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. afogou as pretensões num banho de sangue. com mais de 50 mortos. um ex-ministro de Salazar. no Tanganica. piscando o olho aos americanos e à NATO.

se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. tratava-se de um movimento heterogéneo. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. independente desde 1958. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. foi criada a UNAMI . Em Nairobi. segundo os próprios. da 1ª. A realização em Marrocos. No final desse ano.União Nacional de Moçambique Independente. moçambicanos da etnia maconde. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. Como nos restantes casos. começando a derrocada do império colonial português. No interior de Tete. em Maio de 1961. Damão e Diu. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. em 19 de Dezembro de 1961. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. Marcelino dos Santos e Uria Simango. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. com mais ou menos expressão. no Quénia. em inícios de 1961. futuro grande estratega militar da luta de 297 . com diferentes sensibilidades e perspectivas. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique.

um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . * Eduardo Mondlane. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. com um ataque ao posto militar de Chai. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. em 1971. Ao fim de quase 500 anos. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. Após 298 . O conflito iniciou-se em 1964. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. e no vizinho distrito de Niassa. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. unificado a partir do 1º. pelas tropas em acções de represália. primeiro presidente da Frelimo. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. Congresso em Setembro de 1962. capital do Niassa. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. finalmente. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. bispo de Vila Cabral. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. simultaneamente em Cabo Delgado. de monsenhor Eurico Dias Nogueira.libertação: Samora Machel.

Tinha chegado a Dar em 1963. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. Por essa época. seguiu Samora Moisés Machel. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. Joaquim Chissano. entre outros. iniciando com Marcelino dos Santos. moçambicano de origem 299 . mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. um período de grande vitalidade da Frelimo. após uma espectacular deserção. Instalada em Dar-es-Salaam. Leo Millas. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. em Março de 1964. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. nomeadamente Julius Nyerere. em risco de ser preso pela PIDE. que casara com uma americana branca. o tenente Jacinto Veloso das FAP. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. capital do Tanganica. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. no extremo nordeste de Cabo Delgado. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. Janette. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. Eduardo Mondlane. Pascoal Mocumbi. a Frelimo teve um início de vida agitado. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. só em Março de 1963 se radicou em Dar. Professor na Universidade de Siracusa.breve passagem por Lisboa.

um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. outro moçambicano branco. em Setembro de 1964. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Mondlane convidou Helder Martins. comum na região setentrional africana. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. de passagem por Argel em Março de 1963. a funcionar na capital argelina. Também por esse tempo. em Fevereiro 300 . O seu líder tribal mais carismático. Mais tarde em 1965. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. O seu presidente Banda. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra.branca a juntar-se ao movimento. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. Lázaro Nkavandame. Perseguido e preso pela PIDE. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. para se juntar à Frelimo. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia.

Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. a 301 . Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana. onde reza a lenda. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. No mês de Fevereiro de 1965. por não terem armamento pesado). os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. Desde o primeiro ataque a Mueda. conta a história do movimento de libertação. base da alimentação. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. a luta alargou-se rapidamente.

em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. ─ Independência de Moçambique. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. Foram então nomeados. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo. e à exemplar democracia americana. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. total e completa. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. que garante a sua unidade interna. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. num Moçambique livre e independente.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. EUA e URSS. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno.

ZANU e ZAPU. em Moçambique. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). em Novembro de 1965. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. condenada internacionalmente. 303 . A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. na Rodésia. Salazar fazendo jogo duplo. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. Neste contexto. decretando sanções económicas e políticas. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. na Namíbia. em Moçambique. onde o regime do “apartheid”. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. a sul. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. É a resposta às forças portuguesas que. veio complicar o xadrez político na África Meridional. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. Em Abril de 1966. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. uma nova frente na região de Tete. em 1967.

a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. enquanto um soldado ganham um!). quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. no célebre campo de Naschingwea. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. Mtwara. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. Viveu-se à época deste congresso. alvo por vezes de assaltos surpresa. Kingwa. (ganham dezasseis contos por mês. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. passando a partir de 1966. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo.Na região de Cabo Delgado. o padre católico negro Mateus Gwandgere. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. O movimento moçambicano está já então bem organizado. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. Em Fevereiro de 1968.

).. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. As palavras só têm significado para os 305 . África do Sul. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. Em Portugal. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente.. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. Em visita às colónias em Abril de 1969. são um imenso caldeirão prestes a entornar. sem sentido histórico e sem significado real. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. onde vivia com a mulher e três filhos menores. E foi a PIDE. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. Moçambique. em Dar-es-Salaam. Namíbia. sem um claro vencedor. Em Fevereiro de 1969. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas.

No dia 1 de Julho de 1970. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. coeso e organizado. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. custou esta 306 . respectivamente.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. para Angola e Moçambique. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. O movimento de libertação está mais forte. morte. A história e o tempo jogam a seu favor. sacrifícios extremos. em Maio de 1970. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. e. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. é eleito presidente Samora Moisés Machel. um militarista ultrareaccionário. para comandante-chefe. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). sangue. um dos fundadores. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. em Moçambique. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga.

mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. de centenas de estropiados.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. Praticando o extermínio por onde passava. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul. também houve muitas vitórias. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. muitas apreensões de armas. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. pomposamente exibidas na RTP. milhares de combatentes. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. 307 . dinâmica. na acepção militarista. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). bem organizada e com uma forte retaguarda.

montada debaixo do grande embondeiro. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). Como resposta. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. o ministro do Ultramar. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. diria outro retinto situacionista. prometendo acabar com o “terrorismo”. Silva Cunha. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas.). a fingir de refeitório. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. O conflito colonial em Moçambique. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). “Um murro de boxe num ninho de vespas”.. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos).A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. ficou-se pelo quilómetro vinte!.. Aguardavam os restos garantidos da refeição. finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. 308 . descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973). a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. crime (milhares de mortos civis e militares).

Lava. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. eram raros os garotos vindos do lado maconde.. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”.. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. sobretudo os da “fofoca”.. ─ Então não conheces a história? O pai deste. sinhô! ─ desviou a cara. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. o pai morreu na guerra. ─ Mas é tão pequeno ainda!?.. com as suas tatuagens características. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. que também está de partida. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”.. precisam de ajuda!. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. oito ou nove anos. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. dez escudos por mês! Vive com a mãe. ─ E o pai?.entretidos em brincadeiras de ocasião. outros nada. Vinham quase todos da aldeia macua. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. Como te chamas? ─ João. passa a ferro e não leva caro. Quatro. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa.. Alguns já tinham comido sopa do rancho. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado.. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. 309 .. de carapinha escura. cinco anos.

Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. radiante na sua prometida função de cicerone... ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. que está nos GE´S. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”... com telhado de colmo como as outras. ─ Pois é. mas com paredes rectangulares de madeira. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. de forma menos tradicional. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico.. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. repuxada pelo filho mais pequeno. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões.─ Curioso!. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. transportado às costas como era uso. consta que ele é casado na metrópole.. aflito com o rumo do negócio. ─ É a Teresa! Não te dizia!. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.

consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. com um fardamento esquisito. Já escondido. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. qual dono de escrava. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. a metrópole era Portugal. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. mas achou prudente não se manifestar. Gritava de modo incompreensível à distância. sempre a gritar e a gesticular. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. magro. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor. em terras de mistério e desgraça.João estava tentado a corrigir o vocabulário. só perturbada pela desgraça dos homens. na África sedenta de liberdade. em genuíno desabafo de revolta. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. ou porventura devido à língua entaramelada. ─ O furriel tem andado desorientado. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. calças pretas. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação.

eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. mas nenhum queixume. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. obrigado! Tenho outras preocupações.. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. Notava-se pouca actividade. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. 312 . visivelmente amedrontado. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. cor amarelenta e barba mal escanhoada.. O “negócio” era do lado da aldeia macua. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. cercado de arame farpado e minas. onde este tipo de assuntos era mais propício. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate.timorato o rapaz de estatura baixa. ─ O homem está com ciúmes. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. Os homens deviam estar a descansar da guerra. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!.

passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. A frase soava ordinária. já os tinha mencionado. não há pressa.. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. onde já anoitecera. não seria muito prudente. Nas circunstâncias. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos.─ Há lá velhotes porreiros. ─ Porque se sujeitará Teresa. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. ocorreu à imaginação do soldado castigado. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. O cabo Carlos. a sua comissão fora penalizada em três anos. e por isso hesitou 313 . No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. Se é que essa seria a “estória”. como degradante era todo o ambiente da guerra. Só não sabia. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso.. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. ─ Logo se verá.

A hipótese de não rodarem. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. raramente encontravam alguém da guerrilha. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. à enorme angústia pelos mortos. ao fim de um ano de “trolha”. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. ─ Isto é uma guerra. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez.calado e pensativo. era que de há anos àquela parte. caramba. criava um estado de espírito muito negativo. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. na perspectiva de descerem para Sul. somada à saturação de sucessivas saídas e. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. 314 . os homens estão muito desgastados. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. sobretudo. a raiar a exasperação e a revolta. gerava uma enorme frustração que. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua.

caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. Bonifácio Gruveta. “travestida” de serviços de informação militar. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. por um comando supremo todo poderoso. Raimundo Pachinwepa. a relativamente inepta tradição colonialista. Sebastião Mabote. contra o que chamavam.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. O movimento nacionalista. Filomena Nashak. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. único do povo moçambicano. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. militarista e reaccionário. José Moiane. Armando Panguene. sob o comando supremo de Samora Machel. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. Osvaldo Tazane. Alberto Chipande. eram os outros 315 . entre outros. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. Mariana Pachinwepa. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Em contrapartida. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. Monica Chitupila.

Grupos de soldados portugueses. por milhares de manifestantes. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. “A fogueira do guerrilheiro”.vectores fundamentais da situação político-militar. nos confins de uma África inóspita. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. ensanguentada e sedenta de liberdade. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. em português. A sorte da guerra estava traçada! 316 . em Julho de 1973.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. atenta e preocupada com os ventos da História. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Felicidade Alves. Domingos. e em Portugal. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). muito “católicos. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. da diocese do Porto. MPLA e FRELIMO.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. 318 . apostólicos e romanos”. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. Dia Mundial da Paz. no dia 1 de Janeiro de 1969. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. em protesto contra a “política ultramarina”. Diminuía a base social de apoio ao regime. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. por oposição à guerra. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. em Lisboa. durante a campanha para a Assembleia Nacional.

Tavira. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. em 1972.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. nos quartéis. e os Estados Unidos.. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. e outros mais No panorama internacional. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista.. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. em 1971. no 1º turno de 72. embora negando os factos. dentro do “ninho de víboras”.. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. Tavira. “Levantamento de rancho”. Santarém. Santarém. no 3º turno de 72. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. arrancados às escolas. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. Lamego. “Alerta camarada!”. organizada unitariamente. “Não jures camarada!”. ameaçando:. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. no 4º turno de 1971.. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. publicado nos princípios da década de 70: . entre outros. em 1971. na organização da resistência e do combate internos. nas escolas. protestos na parada. 319 . ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. No início da década de 70. Vendas Novas.

uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. os 320 . presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. com Leopold Senghor. António de Spínola. ao perceber o fim inexorável. o combate não esmorece e. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. No essencial tudo fica na mesma. ainda que por novas vias. Enquanto isto. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. em Março de 1973. como resposta a agressões vindas do exterior”. e em Abril. com o objectivo de “legitimar a guerra. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. Guiné e Moçambique. Na Guiné. para breve. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. em Outubro de 1972.“ajustando” a estratégia. Entretanto. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. encontra-se. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. O alcance da iniciativa é inteligível. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. a proclamação. Ainda assim. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. da independência da Guiné. Mas a luta de libertação está muito avançada. próximo da fronteira. o Conselho de Segurança da ONU. Em Outubro do mesmo ano.

celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. numa zona libertada. reparando rádios e antenas. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. empenhado há tantos anos na luta pela independência. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. a independência da Guiné. KAIOMBE DE JIMBE. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. Um mês depois. em Setembro. as forças guineenses combatem por todo o lado. que Marcelo Caetano. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. em Agosto de 1973. todos aqueles que iam 321 . tinha mais inimigos do que julgar se pensava. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. percebendo finalmente. o PAIGC proclama em Madina do Boé. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. ficaria ainda ferida ou estropiada. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. acossado. havia o “inimigo interno”. sem nunca o confessar abertamente. fartos de guerra e do militarismo fascista. organizadas como um “exército regular”. no entanto. de aquartelamento em aquartelamento. em aumento crescente. A guerra entrava numa fase derradeira. perigosamente de terra em terra. Quanta gente. Spínola. conversando e trocando novidades. derrotado.“Strella”. que a guerra de libertação é invencível. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. Havia o In.. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. não pode satisfazer.

Não era mau rapaz o furriel. pertencente ao subsector do Cazombo. na Região Militar Leste. Além da agricultura de subsistência. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. procurasse puxar a “carroça”. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. bem. Já se sabe o resultado. Mas ainda havia quem. nos princípios de 1974.. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. besta contrariada. foi só um desabafo. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. mas como muitos outros. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. arreando forte na besta. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe.. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”.. furriel. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. – Bem..percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). na vila de Jimbe. carroça mal puxada! revolta-se!.

– Venham comigo. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.e políveis. com frequências próprias. solicitaram a reparação. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade.. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. trabalhado na feitura de peças artesanais. com duas ruas paralelas. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. agradado com a tarefa.. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. era uma realidade também em África. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. o problema não era do rádio propriamente dito. Devia ser problema na antena. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. Afinal. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. – Esperem aqui. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. onde aquela estava montada. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. onde vivia pobremente a população indígena.! – o furriel. os chamados “flechas”. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista.

Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. No caso vertente. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. completamente expostos aos elementos. solicitado para outro qualquer assunto. tinha por desporto nos interrogatórios. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. participante na invasão do solo angolano independente. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. apagar os charutos no corpo dos presos. apanhado no mato pelos “flechas”. alegadamente à caça.jovens militares estarrecidos. com as O pide da retirou-se antena. De volta ao quartel. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. tratava-se de um habitante da zona. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. Alguns meses depois o pide Camelo. 324 . o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. causando-lhes horríveis queimaduras. Trindade. o agente António Camelo. ficaram a saber que o chefe do posto. autênticas jaulas de guarda-bichos. de nome Kaiombe. e outros. Laia. rumo à África do Sul racista. que deviam doer horrivelmente. Lontrão. mas suspeito de apoiar o MPLA. ou no célebre batalhão “Búfalo”. momentaneamente. Casimiro. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. Morreu passado pouco tempo. Perturbados e confundidos. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. Vaz.

Significa que entre nós o crime compensa. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. porventura numa escala muito maior.Face hedionda do sistema colonial fascista. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. A situação de tensão decorrente da guerra interminável.. perseguiu. ou reforma dos ex-combatentes. que em África. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. guineenses e moçambicanos. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. prendeu. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. como em Portugal. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar. e as de dezenas de milhares de autóctones. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. Neste sentido. Essas vidas poupavam-se. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados.. da revolta activa de muitos milicianos 325 . estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar.

mais meios logísticos. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. o general derrotado na 326 . – Por esta altura. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. cada vez em maior número. António de Spínola. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. embora unidos no essencial. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. – Em Fevereiro de 1974. protagonizada por Kaúlza de Arriaga.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. – Em 1 de Dezembro. conservadores e liberais. entre ultra-reaccionários. Dezembro de 1973. com mais homens. em Julho. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. futuro militar de Abril. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. o general fascista não parava de conspirar. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. em Óbidos. homem da sua confiança pessoal. Regressado de Moçambique. composta por 19 elementos. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. como ministro do Ultramar.

declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. O professor fascista “demo-liberal”. Família. a chamada “brigada do reumático”. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). 327 . – No dia 5 de Março. reúne-se em Cascais. para reflexão. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. o “Movimento dos Capitães”. – No início de Março. A “coisa” está para breve. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. em vão. numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. reafirmando a disposição de não ceder em África. Costa Gomes e Spínola. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. em directo. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. Vinha de um retiro no Buçaco. convidando-os. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros.Guiné. publica o livro “Portugal e o Futuro”. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. os oficiais-generais. a assumirem o governo. para todo o país. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. transmitida pela RTP. – Nesse mesmo dia. Pátria.

meu sargento. animadas pelos comunistas. solidários. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. com as missivas dissimuladas. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!.. o sargento-ajudante “Mafra”. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. em fins de Março. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . “Portugal e o Futuro”. naquele promissor Março de 1974.. – Deixa lá a guerra. O velho sargento. grande dinâmica unitária do movimento CDE. Caetano. no regresso de férias. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. e prisões. greves na cintura industrial de Lisboa.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. livro de António de Spínola. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. – Cartas de amor e guerra. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. chalaceara à partida. divertido e perspicaz. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. Desta vez. Os amigos. amor e esperança. com frequentes “extravios”. em trânsito ocasional.

O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. refere a coragem dos revoltosos.. como costumas dizer”(.... O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. Margarida.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. Mais cedo do que tarde... (. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. apesar de inconsequente. Não foi ainda!. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.. em Julho de 1973.. com um enorme impacto 329 . Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. Hastings. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. INHAMINGA A SUL. depois de castigo disciplinar).(.) Amor querido.. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.). A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua.. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto.

infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias). um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote. A situação é deplorável. esta zona onde aquartelámos.. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada.. amigo. Oficialmente configurava uma acção por focos. 330 . é palco de uma crescente perturbação subversiva. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. sempre a alinhar! – Boa sorte. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra.) “Afinal tinhas razão amigo. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. Havia notícias desde Julho de 1972.. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”..! – Nada que se compare com este inferno. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. para onde a companhia independente tinha rodado: (.mediático. era ou mato ou morro. acompanhados por dois cineastas e um repórter. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. no caminho estratégico para a Beira. Algumas semanas depois. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel.

vinda da guerra no mato. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. onde o terreno estava relativamente “livre”. massacrando ferozmente populações. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. lançava o pânico. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. Depois do Verão de 1973. iria assistir e nalguns casos participar. Entravam e saíam carros civis e militares. em autênticos massacres. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. Estas denúncias referem milhares de 331 . uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. A tropa regular. A sanha perseguidora. nas hostes colonialistas. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. torturando e eliminando patriotas. em Tete. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. prendendo sobas e régulos. Nos últimos dias de Julho de 1973. sobretudo depois da chegada das tropas especiais.

geralmente odiada. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. conveniência ou por convicção. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. como na localização das bases Nampula. durante a operação Nó Górdio. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. adivinhado naquele início do ano de 1974. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. e nas Colónias. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. 332 . Gungunhana e Moçambique. por cegueira.mortos. terem essa atribuição). No estratégico caminho da Beira. originando dezenas de milhares de deslocados. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. pela PIDE. a alta hierarquia militar. com homens de “antes quebrar que torcer”. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar.

incluindo aquele. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando.... Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. cinzentas e verdes. azuis. padre José de Sousa àquela área. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. em plena luz do Sol. Mesmo tendo diminuído as 333 .“Strella”. – Têm fardamentos bonitos!... sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte... com foguetes terra-terra de 122 mm. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. da Rodésia. significando tratar-se de militares de patente elevada. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. amarelas. dada pelo chefe da secretaria. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. A explicação não tardou. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!. podiam ver-se muitas estrelas... tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. a norte de Moçambique. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. da Namíbia. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. de 19 a 22 de Abril de 1974. do Brasil. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. – São “patentes” da África do Sul.

. Na messe dos sargentos. Manica e Sofala. onde João fora aboletado por determinação do comandante. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. o correio andava atrasado quase um mês. depois do caldo aguado.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. digna de registo. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. Zambézia. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação.. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. não estava pronta: – É um “Dakota”. a comida escasseava.. comia-se em dois turnos.. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. os aviões de abastecimentos tinham rareado. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. após a operação “Nó Górdio”. retiraram-se à procura da refeição frugal. Com as últimas garfadas. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. tal como há três meses atrás. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. em 1971. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. após uma grave crise de desnutrição. de serviço à pista.

Num repente. Depois de levantar voo na pequena pista. virando-se para a comitiva tagarelando. a aeronave subiu muito alto. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. Em princípios de Abril de 1974. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. são 13 horas e o almoço arrefece!. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. Agarrados aos frágeis bancos de lona. ainda fumegante.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes.. vamos tentar uma aterragem de emergência. – Calha bem. os “Strella”. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. com o 335 . numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. Por favor.. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. atingira-se uma situação alimentar muito precária.

O “Dakota” seguia agora mais equilibrado. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. abandonadas à pressa pelos indígenas. não permitiram uma boa travagem. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. A pista de terra batida e cheia de buracos. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. travando a fundo os rodados. – Tenente.motor restante acelerado ao máximo. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. O piloto-chefe informou via rádio. prevenindo-a da emergência. imobilizou-se por fim. a exigir a elevação do “nariz”. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. a unidade militar mais próxima. quando se aperceberam da situação. gritando o desespero da hora derradeira. em Diaca . fazendo um barulho ensurdecedor. em rápida aproximação da terra. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. vamos “dançar” um bocado. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. o avião meio destruído. e a falta do motor.. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. 336 . O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. fora feita para receber os pequenos monomotores. No interior andavam todos aos trambolhões..

a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. dos trabalhadores. e desmultiplicava-se em acções de rua. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. por não haver condições democráticas. No dia 6 de Abril de 1974. da intelectualidade progressista. dos estudantes. onde decorria uma participada assembleia de democratas. Coordenando a luta legal e semi-legal. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. 337 . vinda do Sul para estudar. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. recebidas com grande apoio popular. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. depressa se envolvera na luta pela democracia.

) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. à porta da cela onde 338 . multidão na verdade Lutaremos meu amor”. Custava-lhe magoadas. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair.. tão Não teve tempo de completar a leitura.. mas se soubesse fazer poesia. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. Faremos dele a nossa canção de luta. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (.. A morena de olhos escuros dos genes árabes.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. Amo-te querida esposa. o desejo. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. escrito na pedra ou no vento. não sei qual a sua fonte de inspiração.. gostava de escrever um poema assim. cresce o amor. onde quer que viva onde quer que morra.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar... será o grito de revolta. dependurado à cabeceira. sublime e autêntico. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade.: “. tê-lo-ei sempre comigo. – Minhas senhoras..cada dia que passa vai-se acumulando a saudade..” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. doendo no corpo e na alma.

A carcereira às ordens da PIDE. apenas recebemos ordens para as transferir... igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. porém. 339 . como era uso. o estrato humano em presença. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. entretanto regressada dos lavabos. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. completamente. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza. minha senhora. – É o regulamento. “Poemas de amor e revolução”?!. Muito interessante. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. mudando o tom. Eram ordens.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE... Não tivera tempo para mais hesitações. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. – São cartas do meu marido que está na guerra.. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. a ala dos interrogatórios e das torturas. Decisão temerária e esforço inglório.. Era outro. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. a morena de cabelos em franja.. – Isso não sabemos. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!..

na caserna pobre e alheia às vicissitudes. numa reunião da CDE. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. em Lisboa.. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. analisar a situação. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. Depois ressuscitou! É verdade. – Vais ver. – E agora. por minutos ou por horas. Era preciso arrumar as ideias. prostrado.. produto da fé dogmática. não vão detê-la por muito tempo.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. Lágrimas reprimidas mas teimosas. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. nem sabia bem. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. 340 . sinto-me atado de pés e mãos. com data de há dois dias. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão.. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. que vais fazer? – questionava o Pedro.. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. – Foi detida no princípio do mês. Aqui neste fim do mundo. com a miúda pequena!. – Se pudesse ia para lá já hoje!.

de quem tinha um filho também pequenito. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. – É da idade do meu. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. – É tempo de derrubar o fascismo. Aquilo lá está complicado. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. nas mesmas picadas. – Pedro referia-se à esposa... lançada à dois anos pelo general fascista. sem saída previsível. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. a guerra prosseguia sem fim à vista.. greves nas fábricas!. que avançavam lentamente. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. 341 . a Manuela conta-me de uma grande agitação social.. agravado por um quotidiano de misérias.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. mal a conheço!.. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. frustrações e medo.. Algo paira no ar!. com o parlatório de permeio.

”. Já quase chegavam para a casita nova. diziam as vozes do desânimo. mal instalados. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. Aliás. mal alimentados.. mas que era por vezes motivo de incidentes. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”.. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. apto a receber grandes aviões. No presente. perdidos no meio da burocracia conveniente. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. somados na terceira ou quarta comissão. fazia parte da orientação do In. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. em 25 de Junho de 1975. talvez o enorme campo de aviação. da contestação e da revolta. que não matavam mas moíam bastante. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde.entretanto afastado. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. a bem da moral psicológica das populações. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo..

– Estão a cair com intervalos de 30 segundos. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. mas às vezes não!. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. quando o pânico perturba a racionalidade. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento... É o décimo. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. estão em calções 343 . Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. encarregada da segurança daquela área. Pela primeira vez em pleno dia. Companhia de Caçadores. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. debruçados no parapeito da vala. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. desde que começou o ataque às 8. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. – Ai minha rica mãezinha. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. com a arma cruzada entre os braços.

Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. enquanto o chefe não chegava. Na secretaria do comando. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. na direcção do posto de artilharia da unidade. tinha decerto instruções hierarquizadas. a meia encosta. A excepção foi o comandante do aquartelamento. arrancando resoluto no jipe. onde psicologicamente o susto era menor. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada.e tronco nu porque o tempo contínua quente. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. na direcção da pista de aviação em eterna construção. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. pensava-se inicialmente. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco... Restava a vala-trincheira já superlotada. ser um normal rebentamento na pedreira. entretido a escrever à máquina um aerograma. de 8 e 14mm. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. a responderem ao bombardeamento: 344 . pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. Na reacção.

atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. que “quando se ouve é bom sinal!”. ao fim da tarde.. Outra vez a voz calma do furriel Costa. – Ena. Havia uma pequena pausa no ataque.. com a G3 entre os braços. a mais de cinco quilómetros. – Pois não. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. mas a tremenda e instantânea confusão. é relativamente inofensivo. filho de pequenos agricultores. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. O furriel Costa continuava imperturbável. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. Olha se caísse aqui?!. a menos de 50 metros... Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência.. imperturbável no seu montículo a animar as hostes.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além.. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. pá! Por pouco!. sempre de cócoras. “arrancado” à escola superior de agronomia. ribatejano. não morreu um gajo no ataque a Palma! ... permitia concluir que ainda estavam vivos. Aprendia-se nas conversas de caserna.

rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. Os olhares cruzados naquele instante. No seu jeito brincalhão característico. já se via muita gente de pé.os anteriores.. Nove horas da manhã. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. durante uma hora e vinte minutos. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. No dia 4 de Abril de 1974. as munições deviam estar a escassear. só estragos materiais. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. A resposta da artilharia esmorecia também. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. fica atenta às notícias da telefonia!. – Venho estafada. traduziam um intenso pavor.. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . a pontaria estava agora muito alta. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas.

bem precisas. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. onde começara o namoro e. sempre lindo. nos novos caminhos da liberdade precária. a jovem mulher com ar cansado. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. – Como foram os interrogatórios.. distendendo os nervos. ao rever o local à beira-rio. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa. Não te preocupes. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído.e não queres que durma? Sorria.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. rapariga! Descansa.... mesmo em dias de borrasca. O comboio da linha fora a primeira etapa. Conhecendo o ditado das “águas mil”. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária.. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. Amanhã logo saberás quando acordares. se se cumprisse a movimentação preparada.. no “Abril em Portugal”. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. – Vai-te deitar. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo. pela primeira vez em muitos 347 . em vias de se tornar definitiva. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. sem objectivar.

Novamente a insídia do inspector superior.. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. a esta hora já estão em casa com as famílias. a mostrar serviço na presença do superior. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário.. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. sorriu. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito.dias. – Não tenho nada a declarar. nada mais tenho para dizer! – Ah. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. – Responsáveis fomos todos. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. “visita” diária desde o primeiro dia. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. desde a partida do marido para a guerra. horas e horas de angústia. onde vivia com os sogros. – empertigou-se o chefe de brigada. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. Como estaria o seu João. sobre as 348 . – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!.

Finalmente! 349 . contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias.. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. em catadupa. alegre por rever a mãe. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. Por fim desistiram. a saudade roendo o corpo e a alma. prestes a levar um bom e muito desejado abanão.insinuações em relação ao companheiro. onde cabia toda a candura do mundo.. e só regressou exausta de madrugada. após quase vinte dias de interrogatórios. houve qualquer coisa em Lisboa!. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. Numa das vezes. com um sorriso como não via há muito tempo. Um último pensamento foi para o companheiro distante. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. na hora de tentar conciliar o sono. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias.

..– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!. 350 .

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