A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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que nisso estiver interessado. o autor adoptou uma estrutura mista. de algum modo. Marcharam esses 8 . Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. quer na dinamização do 25 de Abril. infelizmente. indiscutivelmente. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. e que assim. Essa foi. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. Respeitando essa intenção. No centro de instrução em Mafra. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. para dentro das fileiras das Forças Armadas. deixo ao leitor. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. quer na rápida solução do conflito. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir.

estende-se entre 1961 e 1974. relatar casos e episódios que contenham significado implícito. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. a petição de princípio. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. para os três teatros de operações. por norma. a crise académica de Março de 1962. Logo no capítulo 2. Angola. de ensinar. Guiné. graduados em oficiais ou sargentos. nomeadamente o historiador académico professoral. É esse o período de 13 anos e 3 meses. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. isto é. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961).milicianos. De acordo com o seu propósito didáctico. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. O narrador acompanha-os. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. perante as forças da novel República Indiana. Entretanto. o autor intercala dezenas 9 . o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. cujo método é. em Maio de 1962. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos. desprezando a evidência dos factos. Longe disso. Moçambique. entenda-se. O regresso dos militares feitos prisioneiros. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. Damão e Diu). ignorando-os ou afeiçoando-os. Exactamente ao invés do intelectual burguês. por exemplo. Não se trata. Na realidade. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. etc.

de forma modesta e aparente singeleza. Dos comunistas em primeiro lugar. pois repara muita injustiça).o livro agora publicado. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. nesses anos finais. Em tempo de escuridão. como bem observa. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. contra a opressão fascista. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. despidos de ambição pessoal. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . quando se perfilam em Portugal e no mundo. quer nas colónias em guerra. Mas todos. Um estado dentro do Estado. invocar essa memória já constitui. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. um acto de resistência. tantas vezes heróico. é justo assinalar. algumas extensas de dez páginas. reconforta a alma. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão.de resenhas de carácter histórico. quer no país europeu. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. (Mais que justo. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. que fazemos um povo. Nos tempos presentes. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. por si só. por estes democratas da 25. devemos ter orgulho nesse 10 .

Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. Lisboa. que nunca aceitou como causa sua. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo.passado pois é parte e espírito da nossa História. comunista de sempre. mobilizado para uma Guerra Colonial. E. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. permitam-me. todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira. não devemos esconder esse orgulho. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio.

Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente. Nunca é tarde para perceber. definitiva... porquê? As memórias esvaem-se. o romance. dos seus incrimináveis mentores. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. teimosamente persistente. as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. as mágoas persistem.. As memórias da realidade. e da “vitória ser rápida”. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas. vivê-la com as 12 .Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. compreender a guerra por dentro. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. perene. Estes ensinamentos da nossa história. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. a ficção baseada em factos reais. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar.

contra os mesmos incorrigíveis franceses. que faziam emboscadas. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa.angústias. além do mais. flagelações e punham minas nas picadas. a amizade. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. mas agora. É este. A luta de novo tipo. a nobreza de carácter. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. os medos. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. as tristezas. o desiderato deste livro. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. e. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. ajudar a recuperar o sentido da história-pátria. Guiné e Moçambique. as solidariedades. 13 . a revolta e a coragem. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. a cobardia. o terror. ouro sobre azul.

Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores... em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. não tivessem nascido. iludindo os portugueses.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. procuraram elidir as questões fundamentais. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. o “Avante!”. Como se não existissem 400 anos de dominação. Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. escravatura..Os fascistas e militaristas. órgão central do Partido Comunista Português. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. na rádio e na televisão (também no cinema!. Como se Agostinho Neto. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental.. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola. deturpando. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (. Os que regressam de África ─ os 14 . próceres de Salazar e de Caetano.

que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro.). promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir. n. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários.. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha.º 322. até ao 25 de Abril de 1974. de Outubro de 1962. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. constituindo um feroz. Em Portugal. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. * 15 . A amargura. de presos por revolta ou protesto..desmobilizados. que ousassem levantar a cabeça. É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”. procura um caminho para se manifestar. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. o Batalhão Disciplinar de Penamacor. nomeadamente: fuga à tropa. Os protestos. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. as lutas e deserções multiplicam-se (. de objectores. o Presídio Militar de Elvas. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. A recusa podia revestir diversas formas. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS.

Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. o assassínio gratuito. o tratamento desumano de prisioneiros.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. deviam ir à guerra e uma vez aí. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos. e os que estavam convencidos que da sua acção. que tudo pervertia e até fazia assassinos. massacres. torturas e morte. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. a violação de mulheres. obstou o crime horrendo. sob todas as formas. nas empresas.. entre os jovens fardados. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. dependia a aceleração do fim da guerra.. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. As suas 16 . profissionais do quadro permanente não desumanizados. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. deturpada e mentida. de preferência em grupo. os melhores. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. Tarefa complicada sem dúvida. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. nas escolas.

histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. nos locais de trabalho. tráfico de influências. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. nas colectividades e associações. A sua opinião crítica. neputismo. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram. as suas manifestações e lutas. “Abaixo o Fascismo!”. com profundos sentimentos anti-guerra. compadrio. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. suborno. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. e o. e o “Movimento das Forças Armadas”. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. seus inimigos figadais. a “soldo de potências estrangeiras”. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. Os comunistas. “anti-patriotas” por definição. às vezes mitificadas. * É incontornável. nas escolas e nas ruas. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. o “Movimento de Capitães”. depois. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. primeiro. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. iam para a dita. por outro lado. no movimento democrático. ainda que pouco (re)conhecido. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. tentavam por todos os meios (cunhas. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa.

despromovendo. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. perseguindo. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. de contestação e de revolta. sobre a Academia de Coimbra. lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. fichando. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. perseguiu. 18 . a PIDE/DGS humilhou. em estreita ligação com os meios militaristas. torturas até à morte. Em África como em Portugal.Estas profundas contradições no seio do regime. vigiando. Uma questão central da guerra em África. o título de P. prendeu. em 1969. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares.A. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). castigando e quiçá matando. (politicamente activo). A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. Espancamentos brutais. excluindo. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. colaboração e incentivo em massacres e morticínios.

A maioria dos notórios facínoras da PIDE. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. Salazar dera orientações nesse sentido. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. Significa que entre nós o crime compensa. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites.guineenses e moçambicanos. ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. começou a preparação para uma guerra de novo tipo. a guerra colonial foi calculadamente 19 . se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. a chamada guerra subversiva. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar.

Mário de Figueiredo. Era assim para Oliveira Salazar. para que o poder político encontrasse uma solução. com a outra mata!”).preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. não permitia saídas do tipo neocolonialista. França. muitos destes nas Forças Armadas. As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. Kaúlza de Arriaga. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. 20 . pelos valentes capitães com o apoio popular. evidentemente. organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. Américo Tomás. Com determinação e sentido histórico. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. Bélgica. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. devido a interesses económicos e empresariais. Holanda). Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. por questões de classe e de interesses individuais. Marcelo Caetano. Silva Pais. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. Franco Nogueira. por certo. Silva Cunha. naturalmente. e uma multidão de títeres do regime. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá.

Que este livro de inquietações. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. com as marcas irreversíveis no corpo. Essa seria a única. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . a guerra colonial não acabará nunca!. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. do passado ou da contemporaneidade. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos.. a derrotar todos os “senhores da guerra”. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário.* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. a narrativa baseia-se em factos reais e datados. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. África jamais será esquecida. Para os milhares de feridos e estropiados. naturalmente..

o coronel João Varela Gomes. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. Barreiro. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. “Katangas”. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações.Jorge Jardim. etc.). Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria.. Flechas. será a nossa maior satisfação. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista. Em última análise. perpetrando matanças descabeladas.

IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .1.

É preciso voltar no recurso. Aquela é a única carreira que por ali passa.Horas de jantar. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. Bom. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. Pouca gente na rua. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?". O "28" chega vagarento e ronceiro. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. à espera do sinal précombinado. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Embora não seja novato naquelas andanças. mesmo em frente da paragem do eléctrico. não vá andar algum "bufo" nas imediações. há iniciativas dependentes daquela conversa. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. ficar na paragem não é prudente. discussões frequentes por "dá cá aquela palha". aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. sempre com muita gente azafamada. Passam cinco minutos da hora combinada.arranca desiludido. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. a nova ligação é importante. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 .

Bento. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. inóspita. O populismo do governador do monóculo. a querer roubar-me os "tomates"!?. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. Rua dos Poiais de S. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . sorvedouro de homens e de recursos. Sacudir as teias é preciso. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. Bento. abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea.. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. o telejornal está a começar. mal iluminada. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos. António de Spínola. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. Calçada de S.. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. a rua entristece-se. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. Pelo som.─ “Olhá” desavergonhada. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. desoladora. vai caindo em descrédito. o eterno mistério das trevas. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. capital de um império de "faz de conta".

Av. D. em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África. da chamada ala liberal. Carlos. mas hoje precisamente. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA.. ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”... aproximando-se inexoravelmente da cidade. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". na reunião matinal. durante o "minuto conspirativo". Pela porta de uma taberna escura. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião.. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 . embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. despindo-se gradualmente para o longo sono invernal.!? Bom! Carros pretos há muitos. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. Contradições do sistema.

Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . colocada num canto superior do estabelecimento. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. no norte de Moçambique. Kaúlza de Arriaga. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. com populações civis sacrificadas. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. e das imensas contradições em que o regime se atolou. ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul.Górdio". é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua. condenações de Portugal na ONU.

Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras.. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. na tropa há seis meses. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969. o rapaz magro e alto. não sei se estão a perceber!?.africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné.. será alienada. na Guiné. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. Essa falsa república sem Madina e sem Boé.. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. não!?. o jovem moreno e bem vestido. em Setembro de 1973. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. 28 . é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. convicto da orientação política traçada.” Madina do Boé. que teria a capital em Madina do Boé. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá.. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. ajudando na consciencialização.. envergando roupa de tons escuros. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau.. ─ clamava exaltado no calor da discussão. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas.

. motivadas por razões corporativas.. ─ o camarada João. acendeu paixões e afivelou rivalidades. ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes. quero ver como é!. após ter feito a especialidade em Vendas Novas. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente.. mas simpática e graciosa.. mas a coisa pode radicalizar--se!. O mesmo sentimento alastrava nas repartições. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. sentindo o cheiro a pólvora.... * Chegara ao grupo discretamente.. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 . aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. na distante. sabia do que falava. casernas. Grande bronca! . Este sentimento corria os quartéis. nos aquartelamentos.─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. nos postos avançados. Aquela forma de estar. algo distante e compenetrada. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. Não era fácil convencer quem. paradas. e. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto.

Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas. cigarro nervoso entre os dedos. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar . voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. No pós Maio francês de 1968. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes.escuros e sorridentes. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. propiciava radicalismos. de barbicha.. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido.. ─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. risonha e muito extrovertida. um aspecto tristonho e sério. incorporava o regime. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade.

como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. ansiedade. ─ Fazem favor de se sentar. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. senhor ministro. de perna curta. normalmente acompanhados. ─ Ora essa. A luta era feita de vitórias e derrotas. mas o momento era de grande frustração. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. ─ Sabes? Eu … eu. Cumprimentos da praxe..─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 . estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação.. ─ Escuta. como acontecera de outras vezes. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. não temos pressa!. ainda não respondeste ao meu pedido. de avanços e de recuos.. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. Naquele início de noite estavam só os dois. uma penumbra agradável num tempo de quase verão..

telefone pousado. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. Universidade. Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada.. Uma actuação firme. acompanhada de abundantes gestos. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. Milhares de estudantes em desobediência civil. O País animou-se em expectativa. Ao fim e ao cabo..e uma cadeira de espaldar alto. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. da GNR e da PIDE. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. no início do ano lectivo de 1969/70. a que os estudantes chamavam 32 . exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. A crise académica na Universidade de Coimbra. tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. sem vacilações! Fazem greve em Julho. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". contra a ditadura política. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. O Ministro da Educação. no topo.

mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta.satiricamente o "meio-istro" ou. são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. mexendo-se incomodado. o "mini-istro". Do alto do espaldar da sua cadeira especial. outra forma de piropo estudantil. ainda em pé à beira dos sofás. Os quase siderados visitantes. senhor ministro. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. "meio-nistro". Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ainda estão de pé?! ─ Faz favor.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo.. vezes um ano perdido.. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!. ficando enterrados quase ao nível do chão. 33 .. ─ Mas fazem o favor de se sentar. o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”.. devido à sua baixa estatura.

Embarcara para a Guiné há menos de três meses. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro.. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. por dentro. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. na qual o Rolando também tinha participado. resolveu que a solidariedade era mais urgente. como furriel sapador de minas e armadilhas.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. Cego! Informara o comum amigo e avisador. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. Pelo caminho. quando o Partido Comunista da União Soviética. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . na clandestinidade. Uma angústia feita suor frio. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro.. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. chocante. minarem a confiança dos soldados no Czar. João. junto do “povo fardado”. mas logo assim em tão pouco tempo!?.

foi entrando pelo terreiro. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!.. agora “minas e armadilhas”!?. com uma absoluta angústia de ver o 35 . Por instantes ficou paralisado... é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. O coração doía com aquela visão terrível. contudo logo à entrada do 1. sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. ─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor.. por estranhos e simultâneos sentimentos .. com cotos ligados à altura dos cotovelos..secretaria. estavam sentados em cadeiras de rodas. com múltiplos pavilhões disseminados. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. vários soldados em pijama regulamentar. revoltadas e envergonhadas. também neste local não havia guardas. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!.º pavilhão.. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo. de cabelo encaracolado de um escuro característico. que se calhar nem foram ouvidas. Não foi preciso perguntar a mais ninguém.. Como não havia ninguém de guarda.

comovido até ao limite das forças.. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa.amigo naquele estado. Os médicos já me viram!. ─ Então rapaz. O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo.. ─ Sim! Bem!. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”. ─ A esta hora está tudo ocupado.... Sou amigo como se fosse irmão. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra. ─ o jovem muito moreno. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio.. estou sozinho!.. como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. entrei porque não encontrei ninguém de guarda... ninguém dera pela sua presença. começou a dar-lhe a sopa. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido.. 36 . se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. Sem nada dizer. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.

. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. aproxima-se o "28".. foram as palavras do professor. ─ Talvez mais tarde. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria.─ Bom! Isso é uma boa notícia. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. filho dilecto do regime: ". é tempo de voltar para casa. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas. ─ Não quero mais sopa. vagaroso. com 37 . Passa tempo demais em relação às normas de segurança.. ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. Com a mão no ombro do amigo.. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. a rua está agora quase deserta.sem Madina e sem Boé.. com outros recursos consigam recuperar a outra!. rangente. obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. A outra vista não tem recuperação.". e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. devia estar com vergonha da sua situação..

quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar.a chamada “primavera marcelista”. um carro preto vindo da esquina próxima. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. Não pensava tão cedo. não há veículos à vista. os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. Afastada a concorrência. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. ali perto. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. gritos.. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam. no Instituto Nacional de Estatística. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária.. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes... Mas os tempos estavam a mudar.

prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha.namorada? ─ Sim. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida.. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . em princípios de Outubro. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida.! Mas olha. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira.. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. enlevados e trémulos de emoção. Os corações abriam-se de forma sincera. ditava a incorporação em Mafra. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. sem mais nada. O jovem alto e magro. e o mundo revelava-se sorridente. tudo à volta parecia perfeito e calmo. permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. sem lamechices. Um a um todos foram chamados para a tropa. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. Deram a volta ao quarteirão. no COM.

o seu João Silveira. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. Saía à mãe. necessariamente clandestino. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. levou as notícias. pois o pai. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. os comentários. o “Alerta Camarada!”. partiram para a guerra. E morreu mais um no turno passado. VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. 40 . feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. vacilante. durante exercícios com fogo real. Durante muitos meses. trôpego..─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. os relatos.. Até que todos os seus mentores. seguindo uma orientação conscientemente assumida.º ciclo. do 2. trazê-mo-los no coração. nos inícios da década de 70.

apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. foi!. com nomes gravados outros. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. Traquinas e esperto como poucos..─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto. alojado junto da coluna vertebral. com fotografias uns. muitos com flores artificiais. ─ Pois não. Para mim a guerra nunca acabou!. alguns com fantasias bizarras. “Raio de ganapo!” ─ pensou. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. ─ Avô. * 41 . ─ Avô... ─ É este aqui. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra.. não foi avô? ─ Foi.. avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. melhor que ele próprio.. Mas não tem nenhum nome?!..

comandante da secção. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. não tardava nasceria o Sol. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. magnetómetros à frente para detectar metais. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. a chamada rebenta-minas. Há semanas que não havia flagelações. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. o pessoal seguia com relativa descontracção. o grande temor pelos últimos dias de comissão. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . as picas atrás a furarem o terreno. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. sobretudo nas zonas de areia solta. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. emboscadas ou minas na picada.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino.

à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo. assim. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma. pá! Passa-me a pica. ─ Calma. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia... deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer.. devagar. vou tentar des.. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”.. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores.. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. O Pinto era um rapaz corajoso.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel... o 1º cabo José Pinto. várias vezes dissera que se morresse na guerra. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal. ─ Não foi detectada pelo magnetismo. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia.. sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!.. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. como dizia publicamente e sem rodeios. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter. com distinção e elogios. 43 .. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante. dizia sempre o que pensava com frontalidade. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. viscoso... leal e honesto.

44 .em Moçambique.

2. PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.

Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. mas com as preocupações de um mundo em tensão. frente à taberna do Arnaldo. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração.. nos fins da década de 50. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. O dono da casa. se engajou na luta contra a ditadura.. não podemos abandoná-los !. oriundo do Alentejo litoral. dá o mote: ─ O que representam Goa. lembrando as lições da escola primária. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. há muitos anos radicado na vila operária. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos.Tarde de sábado. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. como republicano e antifascista. onde. o sobrinho Alfredo. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 .

─ Sabe. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante. barba ou cabelo? ─ Barba. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. a PIDE rondava-lhe a casa. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. ─ Então senhor Vaz. tendo passado alguns meses preso em Caxias. merecias que te cortasse o pescoço !”. refastelado na cadeira. como lhe ia dizendo. nessa azáfama. Na sala. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. demoradamente. desculpe. e. perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. notório situacionista. bom. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. claro!.. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial.oceano! A conversa muito animada. Embora saísse sem julgamento. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah. 47 ..

Já em número de 300. ficou uma lembrança trágica. insistia na via do confronto militarista. pondo o quartel em “estado de sítio”. sob administração portuguesa. usando a férrea censura dos jornais. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. escondendo do povo português a sua vocação belicista. foram castigados com o corte de dispensas. O 48 . Inglaterra. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. o governo salazarista. Estados Unidos e União Soviética. em Bandung. no mesmo ano. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. Os governantes fascistas. em Évora. Damão e Diu. com representantes de 68 países. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. juntaram-se na parada a protestar. a Assembleia Mundial da Paz. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. qual falcão em plena guerra-fria. em 1955. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Na longínqua Ásia. em Helsínquia. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. de que deveria restar uma memória positiva. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. No regimento de Artilharia 1.

Aumentou a revolta aos gritos de. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. mandou fazer uma marcha acelerada. Depois de mais alguns episódios repressivos. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. é hoje! É hoje!”. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. Exaustos e revoltados. em 30 de 49 .comandante. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. prometendo liberar os detidos no dia seguinte. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. dependia de outros embarques próximos. intimando toda a hierarquia. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã.

. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África..Maio de 1956. Na década de 50. Quando um povo. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa. sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”. É assim.analisa a questão colonial portuguesa. à sua subsistência”.) As tentativas para a reprimir de nada servirão. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. muitos povos”. necessário à sua vida.. cobiçadas pelos norte-americanos . “Uma Nação. Salazar afirmara que . de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. quando da negociação do plano Marshall. escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. à sua defesa. no campo democrático. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. Ainda no final da década de 40. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. etc. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas..

O regime salazarista. O órgão central dos comunistas. generoso portador da civilização”. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho.. as fomes e epidemias devastadoras. isto é. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas.. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. a segregação racial nos transportes. na Margem Sul e noutros pontos do País. o MUD Juvenil. como. de Junho de 1956 : “(. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . em iniciativas abertas e unitárias. . já citado. social ou político. cinemas e lugares públicos.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros.). “um movimento racista contra o branco.. Por volta de 1954. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas.. a ausência de qualquer direito.. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados.. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”...

aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . O colonialismo tem os seus dias contados. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. Mas senhor doutor. quando o clube da terra jogava em casa. posto que irmãos não tinha. como os valentes soldados de Évora. nem os planos e as medidas de guerra. mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”. (.. A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. na casa modesta da tia Clotilde. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença.. com que trabalhos e canseiras.). REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa. vigário da matriz: 52 . mais do que com qualquer outro membro da família... com quem tinha claras parecenças fisionómicas. muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. depois da “bola”. era tempo de visitar o primo Zé. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. nem os discursos de Salazar. e desde então todos os anos vai a Fátima.

─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. um luxo para as classes trabalhadoras. não percas a fé na senhora de Fátima. dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”.─ Clotilde. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. entretanto já terminados. era a sua companhia de muitas horas. como não haverá navios rendidos. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. com uma relativa consciência do mundo. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. para ouvir os relatos de futebol. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada. olhe que os indianos são muitos.. A telefonia. comprada a prestações com muitos sacrifícios. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. 300 milhões!. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira.. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. naquele tempo dos princípios da década de 60. lembrando-se da afirmação 53 .

numa atitude típica do seguidismo salazarista. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões.. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. na altura dos Santos Populares.. por isso lhe dava uma carga pejorativa. Em Maio de 1962. Quando os militares portugueses. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. talvez!.. na Índia longínqua. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. comandados pelo general Vassalo e Silva.do barbeiro. ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu. Eram agora raros os saltadores exímios. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores.. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. em África. feitas 54 .. Damão e Diu pela União Indiana. de medos e angústias. as tropas portuguesas na Índia. Joaquim Faria. restavam os ganapos e as moçoilas. . ou nas terras misteriosas de sangue e morte. ─ Ah. em Dezembro de 1961. dez mil e tal contos.. como mandara o ditador. “rapidamente e em força”. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa.

grande algazarra entre as centenas de parentes. de gabardina e chapéu.. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. vindos dos desenganos apesar da noite fria. na ausência de informações oficiais. ansiosa por abraçar o ente querido. ─ implorava uma velha mãe. dado o seu isolamento. a família de Alfredo Júnior. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!). Gritos. conforme os boatos que iam surgindo. correu juntamente com muitas outras famílias.. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho. só acostaram em Lisboa já de madrugada. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”... ausente há muito tempo. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. vestes escuras e lágrimas doridas. É um senhor vestido civilmente. No dia 23. instado por um grupo de familiares. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. e viceversa. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . meu querido filho! Quero ver o meu filho!. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. lenço modesto na cabeça. apupos. cada vez em maior número. oriunda da zona antiga da vila operária. já não o vejo há dezoito meses!. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. iam finalmente regressar ao País. A mãe de Alfredo.

estenderemos a vós. alguns jovens esgueiram-se lestos. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 .. incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. Como povo livre. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. acenam com lenços brancos. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele.─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. acompanhando zelosamente o senhor inspector. por sua vez. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe.) Por isso. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. debaixo da mira de dezenas de espingardas. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. mas contra o colonialismo e o fascismo. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”. Ao longe. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. não podemos esquecer o povo português que. datada de 14 de Dezembro de 1961. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila.. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. antes de voltarem para casa. fora do olhar policial. povo de Portugal.

Regressaram à terra natal.juventude. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. talvez pela primeira vez. 57 . cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. compreendendo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental.

em Diên Biên Phu. que considerava proclamavaportuguesa”.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. 58 colonialmente ocupados. contra o ocupante francês. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. na Indonésia. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. Ou a realização de um “referendo em Goa”. Não era esta. em 1955. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria . FNL. porém. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. Em 1954. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. potência colonial. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático. Damão e Diu. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. a opinião dos meios de oposição ao regime.

começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras. Em relação às colónias portuguesas. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. Do que se passou nessa histórica assembleia. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. trabalhamos. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos.. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. pela União Soviética. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. todos vivemos num único planeta. 59 . o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. Em 1958. dos neutralistas e das jovens nações africanas.. os representantes dos países socialistas. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. Neste planeta nascemos. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU.)”.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção.

oiçam. ivuenu. Cabinda. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. em Luanda. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. Os patriotas angolanos. Goa. Paiva Domingos da 60 .” (oiçam. Timor. Tomé. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. turutuka dii. Os massacres dos povos de S. Scalo Bengo (Angola). ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu.. com o apertar das algemas da opressão colonialista.). que procuram inverter os factos. com o agravamento da exploração colonial. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. voltaremos aqui.. Bissau. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão.. Mueda. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português..Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Neves Bendinha.

Domingos Manuel Mateus. De resto. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. na Ilha de Santiago. fazendo milhares de vítimas. enquadrados em vários grupos. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. Imperial Santana. Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . missionário na arquidiocese de Luanda. o próprio. guardadas no campanário da Sé Catedral.Silva. abençoou os revoltosos. um cónego mestiço angolano. em Cabo Verde. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. Na madrugada de 4 de Fevereiro. que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. Virgílio Francisco. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. Raul Deão.

. junto à praia do Bongo. sendo os restantes. ou de trabalhadores numa oficina perto. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. Depois foi um terrível massacre.ª esquadra da PSP (estrada de Catete). por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. “Mata esse preto. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. deixando centenas de cadáveres. Estava iniciada a Guerra Colonial. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!. dezenas de autóctones. Pedro da Barra. feridos. Agarra que é “lumunba!”. interrogados. com poucas excepções. empurrados logo de manhã para as valas comuns. nas rusgas e cercos. ─ Cadeia da 7. uma autêntica “eliminação selectiva”. indefesa.. filho da puta!”. começou a terrível “révanche”. presos. espancamentos. levado a cabo por gente desvairada. com a perseguição. mortes às dezenas. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S.). À noite nos muceques. Nenhum dos objectivos foi alcançado. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. correrias.Sambizanga (foram mortos 4 polícias). era a “limpeza étnica”. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. ─ Companhia Indígena. que seguia num machimbombo (autocarro). ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . espancamento e morte de gente negra. onde estavam muitos presos políticos. Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos.

PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. O célebre fadista. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. Ao fim da tarde. conseguia desatar. do café Beira-Mar. o João “Careca”. quando a avenida da Praia era mais frequentada. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. sempre com conta e medida. e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência.

porque a família real era dinástica e divina.. pela negação dos factos apresentados. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. é nossa. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas.” A sensação desagradável. é nossa! Angola. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais.. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. inquietante mesmo.multicontinentalidade da Nação. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. A curiosidade fora espicaçada. Acabou o noticiário. Fazia vibrar de emoção e orgulho. quebrando a corrente emocional e patrioteira.. gritarei é carne e sangue da nossa grei.. Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa. da sua grandeza Além-Mar. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. 64 . deixando uma angustia de dúvida e receio. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. é nossa! Angola. sempre se ficava a saber alguma novidade. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques.... um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola..

idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos.. Baixa do Cassange. E voltava! “. Timor. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. mantém nas masmorras da PIDE. bem pronunciada. Tomé.. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. S. O Ferreira da Costa.. identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. na Emissora Nacional. diz ser tudo mentira!.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer. o regime 65 .─ Tio Zé.. Mas é perigoso ouvir!. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. Uma. salazarista convicto. músicas estranhas que o velho vizinho. Scalo Bengo . mas a realidade inevitável. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau... Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. sobrinho por afinidade. duas.. Goa. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso.. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. O regime fascista. etc. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos.. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. senhor Lobo. ─ Esse gajo é da situação. três tentativas. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso.. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta. Vozes estrangeiras incompreensíveis. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora..

do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . Espera enervante. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. era outra voz da mesma liberdade procurada. Os dilemas da guerra e da paz. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros. entre as 19. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades..00 e as 21. pelos serviços da PIDE. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor.. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola. O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente ..00 horas. Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras. obstando a mensagem de denúncia e de luta... certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua.ª classe na Sertã natal.. Depois da 4. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “.” Afinal não era a Rádio Moscovo.

Manuel interrogava-se. Aprendiz numa oficina de automóveis. na Escola Fonseca Benevides. com um salário que mal dava para a renda do quarto. as leituras recomendadas. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. parco de palavras. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. por lá ficou mais de um ano. A grande cidade dava outras oportunidades. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. abriam-lhe os horizontes. com uma sedimentada consciência de classe.incerteza no futuro. a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. aliciado pela PIDE. promete continuares a estudar. Um segundo passo importante fora a mudança. embora exigisse muito sacrifício. por sugestão de um colega. as conversas sobre a realidade do País. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . para a outra-banda. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. O convívio com operários mais velhos e experientes. em toda a sua vida. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado.

quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. preocupações comuns e solidariedades.900. mas chegara a sua vez. E agora. A experiência de participação. pela primeira vez. Ainda agora. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. nas lutas no Ensino Secundário. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. que depois da questão da Índia. o “Avante!”. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. a conversa era fácil e fraterna: 68 . fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. de Xabregas à Veiga Beirão.conta. nunca mais parara de se agudizar. a mobilização para Angola. depois da incorporação e a recruta. em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. O terceiro irmão não fora mobilizado. partilhada em muitos anos de brincadeiras. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. tendo depois emigrado para Angola. Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. mantinham a amizade da adolescência.

filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas... até se leva bem. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. empurrando mais e mais o navio pela barra fora... ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. O pior é a mobilização!.. mas o Nana era assim. para onde vão muitos! Já viste. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora . ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. ─ Nunca pensaste em não ir. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. encobre da vista o barco. ─ Não. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. vestido de pequeninas velas brancas.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta.. Sou atirador de infantaria. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. ─ Adeus filho. 69 .. ir à guerra e ter lá um azar.. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. agitando-se freneticamente na amurada. o choro mudo e soluçado dos homens. não! Mas quanto mais cedo melhor. vamos todos lá parar!.!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. em dar o “cava”?!... um bom rapaz.

O grito triunfante do homem de samarra de camponês. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . no silêncio do quarto. quiçá para sempre. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria. constituía um arquétipo da candura nacional. no meio do magote de gente lamuriosa. alguns. que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. mas nunca de contrariá-lo. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. adormeceu finalmente inquieto e agitado. A vontade nacional de agarrar o destino. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado.

nas zonas da savana e das florestas. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo. O que se seguiu. recentemente. ou para alguma coisa!?. que lia e com o colonialismo e a 71 . O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. um grupo de cariz tribalista. Autodidacta e amante do saber. pelos movimentos de libertação. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. E mesmo mais para sul do deserto de Saara. por vingança.conversadora. e agora. havia muita gente esclarecida. Na zona velha de maioria operária.. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. como sempre acontecia aos sábados. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. perpetrado pelas tropas coloniais. 80. até chegarem os europeus escravatura. ─ Os pretos são meio selvagens. no Norte de Angola. também houve nações e povos desenvolvidos. têm lá cabeça para se governarem. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ).. 100 mil?).

com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. à volta do quarto pequeno e modesto. o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos. ─ Sabe.. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre. que tudo estava sossegado. E também lá foram vividos os primeiros amores.acompanhava os problemas. de reflexão e de descanso. não acha?!. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador.. como lhe tenho dito. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido.. 72 . senhor Vaz. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. quando entrei!?. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife.

perseguições. João deixou-se dormir novamente. ainda é muito cedo!”.“São seis horas da manhã. um precipício negro em que estava prestes a cair!. talvez uma floresta.. “Safa. luzes intensas. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. correrias.. densa. como se propunha. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. que sonho dramático!”. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. só abria às nove horas para cortar o cabelo. um cheiro intenso a pólvora e a sangue.

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 . a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. três horas de caminho. nada mais. já sem companhia.. ─ E agora. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite.. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. não me parece!. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. fresca de Outono precoce. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. A caserna grande no 2º piso já estava lotada. Na manhã seguinte. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. O chefe olhou-o com ar circunspecto. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. Posso chamar um táxi. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. Seguia-se. com duas ou três casas.

e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. orientação. trazia medos e fantasmas. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir. táctica. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. Guiné e Moçambique. 76 . A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. e já fizera a exploração dos itinerários. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. começaram as marchas nocturnas. Muitas caras ensonadas. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. em transporte próprio ou familiar. algumas conhecidas da universidade. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana.trajectos labirínticos. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. depois das longas caminhadas durante o dia. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas.. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. etc. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. da instrução sobre armamento.

em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. mais hipóteses têm de safar a pele!”. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. com a fama de “chicalhão” e prepotente. comandado pelo alferes “Manaça”. ensopado em suor. O pelotão do 2º ciclo do COM. Rodrigo e Francisco. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. devido às lamas nos caminhos. durante a progressão com todo o material de combate. quanto melhor o treino. pertenciam ao meu pelotão!. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . ─ Não aguento mais isto. ─ o manifestante era um aspirante alto.. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras.. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. anafado. ─ Tens de ter calma. célebre desde as últimas invasões francesas. pá! Vou dar o “salto”. “a tropa não é para maricas. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas. tornados amigos durante o 1º ciclo. fazia mais um exercício duro porque. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. daquelas que nunca mais se esquecem. pesadíssimas.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. de boa compleição física e bom contador de histórias. incluindo a arma e a mochila às costas. como ele dizia. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres.

. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. dando-se ares de importância. pá. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé. na cauda dos restantes caminhantes. começa a entrar em pânico. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. ─ Falta pouco. quem não sabe nadar atrapalha-se. ─ Outra vez a porra da lagoa. magro de carnes.. pá.contrapunha o Francisco.. procurando ajudar o amigo. dizes tu!. vem avisar o cadete Aníbal a correr. Os mais expeditos fazem-no com êxito. o pessoal preparava-se para a travessia.. entra em contacto com a pele suada. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. as pernas vacilam. ─ Depois logo se vê. tem lama até às partes. Por feitio ou bajulice. por isso ganhou os favores do graduado. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. gosta de fazer de porta-voz. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. bem nutrido e de ventre proeminente.. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. Uma porra. relutantemente alguns ficam para o fim.... 78 . com um feitio solidário.

arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral.. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio. perante o quadro terrível vence a inibição. ─ Qual bombeiros. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.... Francisco apressa-se para ajudar o amigo. qual nada! Não quero cá ninguém de fora. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor. tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão.! O cadete Artur.. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas.grugluglu.─ Socorro! Não sei nadar! Socor. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada.. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama.. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio. com uma alma altruísta. volta para trás e tenta ajudar os outros dois. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. Friccionando-se com a camisa de trabalho. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 .. o graduado continua a vociferar. marche! ─ Sim.

ainda em tratamento.. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. comandante do pelotão. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. enterrados no lodo. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. teve uma atitude simpática . com permanência nocturna obrigatória. ─ Algo não está bem. de bengala de invisual ainda mal manejada. quer ir connosco amanhã? 80 . outros. sempre muito elegantemente fardado. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. o jovem alferes Terras. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. que padeciam de graves deficiências. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”..corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. Baixa no anexo de Campolide. agarrados.

─ Ah. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. não ensinam o verdadeiramente importante). pouco falador. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. em cima da cama.. quando jogava o Benfica em casa. ─ Agarre-se a isso. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra.. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor.─ Não. distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias. nunca cá tinha estado. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito.. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. ─ Ah! É casado!. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. A conversa continuou animada. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna.. obrigado! Sou casado!.. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla). Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. ( os instrutores são uns nabos... sim!? Obrigado! Eu. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho.. já não tinha mais novidades. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá.

preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas.daí para a rua.. “cada um com a sua”. como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia.. amanhã posso ser eu. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano. mesmo dobrado... abrir o fecho da braguilha..! Não há ninguém de serviço. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. cumprem-se ordens. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. fora de qualquer regulamento.. A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. é uma forma de dizer. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar.. Era grande o constrangimento.. as coisas acontecem e pronto! 82 .! ─ pila era tabu. ─ Ah! Pois. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela.. Evocam-se regulamentos. aqui anda tudo às putas. como aliás acontecia com os outros. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você. ─ Mas . coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. ─ Esse não acredito que pague!..

falha de energia demorada de mais de uma hora. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. a espera animava o pessoal. ai povo. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. As sombras encorajavam a audácia. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. amigo canta. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância.A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 . alinhados em pelotões de 30 unidades. canta. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente.

estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. assumindo o compromisso. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. quase toda a gente cantava quando alguns prontos. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. com a denúncia do número de vítimas da guerra. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. para garantir a segurança conspirativa da operação. o João. e no rescaldo das cantigas. entre muitos citadinos divertidos. o Luís 84 . vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. Naquela tarde de Novembro de 1971. A companhia (quase) inteira. Combinaram o essencial da acção primeira. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel.

A sala dos cadetes é acolhedora. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. constituindo um labirinto intrincado. é urgente terminar a “tarefa”. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. das salas. As conversas giram à volta de temas banais. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. estava unido na acção contra a guerra. por um lado. espalhados por várias mesas. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. Sempre acontece quando os nervos apertam.Manuel. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. 85 . tão diversos daqueles para que foi concebido. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. Todos estão em farda de trabalho. com frades de hábito e penitência. polido o chão pela usura dos anos. a timidez. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. pretextando uma guerra santa. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. feitas de pedra trabalhada. o Manuel. mas a maioria são cadetes. dos refeitórios e das camaratas. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. enquanto outros. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. o Fausto e o Duarte.

um local frio e terrível.subir alguns degraus. o ouvido à escuta de passos perseguidores. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!..... Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se. “Safa!”. um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . de porte elevado e cabelos brancos. recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada.”. subir e descer escadas. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer. Um som agudo e estranho. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra.. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. como um guincho. um desvio apertado na primeira bifurcação. outros sons semelhantes.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. longos e frios.. mal iluminado.. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!. “As instalações devem estar em boas condições.” – pensava João. À frente de um séquito. o desnorte nos caminhos desconhecidos. em pânico. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. nada..

Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. Na caserna pequena da 2ª. Companhia de Instrução está tudo calmo. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. certamente devido a pesadelos também.habituando-se à escuridão percebem dezenas. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. são ratos. ninguém se atrevia a levantar a voz. 87 . comandante da unidade. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. Custara a pegar no sono. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. centenas de formas em movimento. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. por detrás das lentes grossas. acordar no beliche superior inundado em suor. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. excepto algumas respirações mais agitadas. sair do pesadelo. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. correr. aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota.

A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!.”... Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. A acção tinha corrido muito bem. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade. a minha namorada escreveu-me!. num pátio interior mal iluminado.─ Tem de haver muito cuidado. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. vulgares na época. escondendo a timidez e uma pequena miopia. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida..] já bastam! Não à guerra colonial!”.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande.. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 . uns voltavam logo. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. foram coladas nos corredores do convento. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. denunciara a patifaria. outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade. Por fim vieram três ou quatro cartas. não há nada para mim? Não pode ser.

não se via vivalma no caminho. João precipitara-se para o exterior com passo estugado. pela aproximação do ocaso. porque apesar do sistema aperrado. Andava e pensava para distrair a ansiedade.” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. a norte. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 .. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. havia excepções. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado.. certamente algum “menino” a caminho da cidade. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa.

O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. independentes. socialistas. “Não jures. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. bom para a recruta.. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. em transição para 90 .. os dias eram cada vez mais pequenos. Trago a senha para o contacto que combinámos. existe um ambiente geral muito favorável.). Boa sorte para a iniciativa. ─ Cuidado!. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem.. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. nas bandas da Malveira. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. embora arrefecesse a “sentidos vistos”.. esquerdistas. ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto.. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis.sugerido aquele local..

Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. Não há dois pôr-do-sol iguais. chuvoso e frio. dizia-se. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. cada dia é sempre diferente. esmerando a pontaria com o “olho director”. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. No miradouro não estava ninguém. orgulhosos da classificação na prova de tiro. com um tempo desagradável. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. * Durante a semana de campo. é sempre um momento angustiante. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar. Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. pelo menos nas costas dos instrutores. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade.o violeta. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. mesmo que seja só em treino. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 . nos arredores de Torres Vedras. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação.

ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. ─ Não. deputados da Assembleia Nacional.especialidades.. naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. não! Não posso!. parentes. tinham um estatuto especial. o oficial do quadro 92 . como dizia o comandante da Legião Portuguesa. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. Eram filhos de boas famílias. generais. altos dignitários da Igreja. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. porque precisava de carne para canhão. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas.”. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse... e muito menos a disparar. mas não permitia. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. a fina flor do nacionalismo. etc. a subversão aumenta!. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. latifundiários. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. tentando safar os filhos.. Em requerimento ao Ministro da Defesa. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). empresários. afilhados. E. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. credores de favores. iria passar por um mau bocado. enfim.

foi despromovido para soldado. Não servia para “oficial de guerra”. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. à beira de um ataque de nervos. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo.permanente estava prestes a perder o “verniz”. levantando e baixando a espingarda. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. forçado pelo instrutor. a arma começou a disparar. sob pressão da intolerância militarista vigente. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. normalmente sonolentas e ressacadas.. de repente. ─ Eh. O cadete gordo. e. só por milagre ninguém foi atingido. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. baixote e 93 . atire ! A tragédia estava eminente. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam.. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”.

─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria... ─ Não jures camarada! Já disse!. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 .. No fundo da algibeira. ─ Essa é boa. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”.. nas portas. Boa!.. Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto. logo apareciam noutros locais. nas janelas. ─ O quê.. Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. ─ Ouviste? A barraca está armada. pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. nas vitrines e até nas pautas.. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado.! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana. ─ Ah! Pois. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente.. ‘tás a coçá-los!. “não jures camarada!”. “quero essa merda toda arrancada!”. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. nas paredes lisas.

pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. a hierarquia estava convencida de ter anulado. . Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. a coacção e a chantagem. propositadamente. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho... .─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras.. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira.. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. a primordial agitação. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . O major. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. A desorientação sobreveio. 95 . Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. Tacteando a cola com os dedos.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo. pela intimidação subsequente.

já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição.. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. Por este tempo. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. afixada em muitos sítios desusados...─ O carago. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. futuros oficiais do Exército Português.. até na sala do cadete: “. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento.. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. Queria ver se fosses atirador como eu!. Mas os corredores eram muitos. Providencialmente. com zonas mal iluminadas. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados.. pois o outro chuveiro estava avariado. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas.

entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril.guerra era debatida mais ou menos abertamente. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. submetidos a feroz censura e controlo político. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. a rádio e a televisão. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . Os jornais. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. sobretudo o rapaz. era um gritante e duro contraste. porque a terra era ruim. segundo a filosofia do velho Adílio. um moço bem constituído. Junto aos hotéis de luxo. mas na “terra prometida”. aos solavancos. num quotidiano difícil. com particular destaque para o “Avante!”. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos.

com um ar de arrumador encartado. mal pagos. se fossem interessados e cordatos. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. “Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. era menos “aquele” que entrava. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. nem feriados. numerosos. era o discurso oficial. podiam chegar a cargos de chefia. numa época do início da década de 70. com poucas qualificações. sempre generoso com os portugueses humildes. incluindo no campo desportivo. empregados e operários. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte.boné de pala “oficial”. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. nalguns casos. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. Sobretudo se associassem ao 98 .

─ a resposta não tinha grande convicção. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. o engenheiro-sénior. 19 contos/mês. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor.5 contos/mês. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. 14. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. o agente técnico de engenharia. minha senhora.2 contos/mês. o empregado de escritório. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. 18. minha senhora. ─ Senhor director. 2. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. chefe de secção. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”.5 a 3. por classes sociais. sem sobressaltos. trate disso! ─ Claro. ─ Está a tirar Educação Física!. 11. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. 25 contos/mês. a mulher operária têxtil. claro! Um resto de bom dia. o engenheiro-júnior. para rezarem em comum. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24.8 a 2. uns mais à frente e outros mais atrás. 15 contos/mês.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. senhor director. 99 . anda a concluir um curso superior. chefe de serviço. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”.. Orava-se em acção de graças.. Nas vésperas da Revolução de Abril. 4/5 contos/mês. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. o operário especializado de horário geral. 12 contos/mês. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe. 1.

.. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá.. para o curso de oficiais milicianos. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas. Mas não havia nada a fazer.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta. o seu filho sabe o que faz.. ─ Esteja descansada. só lhe faltava o estágio. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. e de mais na tropa!. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. mas o “tio” Fernando-pai!?. hem! ─ Mas ir a Mafra. Entretanto fora chamado para a vida militar. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia.. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. no Domingo? ─ Eu gostava. com o curso quase acabado. prestes a terminar: ─ Alberta. ó homem!. Combine lá com o “ti” Fernando. por 100 .. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer.

e pela luta diária pela sobrevivência. quando o emprego e o salário eram certos. este ano precedido de 101 . De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. até que sobrevieram os “balões”. Depois.melhores salários e condições de trabalho. num pobre mister por conta própria. ─ Talvez seja melhor não irem. ─ Tu é que sabes. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada.. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento. frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. preparando-se para o ritual mitificado. amor . subsequente ao despedimento. Se queres ir vai tu e a tua nora. não morriam de amores pela situação. iam formando segundo o que estava instruído. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. em alas amplas e espaçadas. O carinho prodigalizado ao filho na infância. não é fácil a deslocação!. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico.. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. Gostava de assistir mas compreendo a situação.

a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. certamente sobre a ameaça de represálias. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória.acontecimentos muito interessantes.. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 . Cá para trás reinava um silêncio murmurado. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido. mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”.. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo.” ─ o alerta percorrera as casernas.. provavelmente os tais “pides”. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação.

sou contra isso. . na Escola Prática de Infantaria de Mafra. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor.. ouviu! Se não se explica 103 . e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão.sistema sonoro. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. tinha agora um bode expiatório... reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República... Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?. não telefona para ninguém..

Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. no velho convento frio e austero. muitos daqueles cadetes imberbes. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. Nem era tarde. camarão. bolos. perna de frango na outra. ─ Dá-me licença!.. acordada de madrugada. poucos. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . doces. carnes frias e quentes. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. agora disfarçado com aperitivos. e senhores engravatados a rigor.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. as mesas brilhavam de iguarias. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. nem era cedo. A instituição militar EPI. de gastas pedras nos longos corredores. Pavoneavam-se alguns. ficara à beira de um ataque de nervos. etc. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua. frutas. escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. Desculpe. característicos da castrada burguesia nacional. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. saladas. acepipes. por vezes mesmo medíocre. risos nervosos e traseiros espetados. copo na mão. bebidas variadas. etc.. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações.

.. mais o “material sobrante”. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. com pouca pinta de militar. De facto não o vi . Yota da Purificação” (. quando o cansaço afrouxasse a vigilância. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “. com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença... sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. ─ Sim. ─ Boa noite! Por favor.colonial!”.). João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. sim. o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. Transportava o mesmo saco da chegada. “Certamente estaria a arrancar!. o melhor era ficar para o fim. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”... conheço. agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta. a última barreira foi assim passada calmamente. é punido com 5 (cinco) dias de detenção.. numa última passagem sem retorno. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. Suspeitava-se haver revista à saída. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja...! 105 . cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria..

O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. último a deixar o convento.. seria noticiada no “Avante”.. 106 ...... As duas dirigiram-se para a porta de armas.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro. ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. Nada de grave! Lá informam-na melhor. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra.. estamos aqui à espera . sinal distintivo da origem de classe.─ É que já passaram todos. em Janeiro de 1972. lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!.. postada a alguma distância. ─ Obrigado! . Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. naquele Dezembro de 1971. igualmente com ar distinto. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade. no gabinete do oficial-dedia!. há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. ─ Mas .. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso...

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. imaginários adoradores pássaros.ÁFRICA. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. Animistas. 108 . muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. de animais e da a Natureza.

minas. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. a caminho da Índia. numa zona de ruínas ancestrais. a Tanzânia. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. Melinde.Esta actividade artística. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. Estes povos sedentários praticando a agricultura. sepulturas e pinturas rupestres. forjas. estradas. pouco antes da chegada dos portugueses. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. Quiloa e Mombaça. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. o Zimbabwé e parte de Moçambique. enriquecidas pelo 109 . cidadelas de pedra. no interior da Rodésia. canais de irrigação. socalcos à volta dos montes para a agricultura. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. a Zâmbia. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. subentendia uma organização social e política evoluída. quando estes.

situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. trocando directamente tecidos. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. por ouro. feito através de numerosos intermediários “mouros”. da Índia e até do Extremo Oriente. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. ferro. com o 110 . Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. essências e faiança chinesa. com uma economia assente na agricultura. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. especiarias. numa organização de tipo tribal-feudal. contas. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. Organizadas em cidades-estado. primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. estes em escala reduzida. na pastorícia e na extracção mineira. cobre. com quem comerciavam há mais de um milénio. encontraram um comércio progressivo. vindos do Norte. faziam de entreposto com os reinos do interior. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico. que já utilizavam inclusivé a moeda. marfim e escravos.

os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. Por orientação da Coroa. levaram pouco tempo a desvanecer-se. novas oportunidades de negócio.. pela sua ignorância e pela sua ganância. Como todos os imperialistas. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. queriam muito e depressa!. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia.. Como um erro nunca vem só. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. Em 1513.”. Pedro Vaz de Soares.. os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas..beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. retrógrada e oportunista. mas neste intento viriam a ser derrotados. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África. agente real de Sofala.

em Sena e em Tete. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. húmida. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. nas margens do Zambeze. de Lisboa. quente. Quando a guerra colonial começou em 1964. no “Boeing” da Força Aérea. Em 1561. estranha. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. em 1498.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. familiar. embarcava-se à meia-noite. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. fresca. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. o mais alto 112 . até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. No início da década de 70. no terminal militar de Figo Maduro. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. luminosa. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos.

pendurados no exterior da rede da vedação. compunham um quadro de modernidade. alto de estatura e seco de carnes. sempre eloquente nas afirmações. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . ─ desabafa o Eduardo. tal como Lourenço Marques. entroncado e de estatura média. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. normalmente reservado. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. baixo e já com acentuada falta de cabelo. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. o sulista trigueiro e magro. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis. são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente.. A Beira era uma cidade moderna. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. ─ É a proclamada multirracialidade!.. moreno. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa.

que já ia avançado.. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . volta para o mato! ─ rematou o outro graduado. ─ O jantar começa às sete. dava assim as “boas-vindas”.realidade.. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. não atendeu logo à chamada. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. olhando os jovens furriéis com ar arrogante. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. ─ Sim. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso.. ─ O que estavas à espera?. mais novo. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. quando ficaram sós. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento. enquanto se retirava após comer o pêro. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. O criado negro andava numa fona. foi a primeira vez que lá fomos!. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. sem qualquer cumprimento. Chegaram atrasados ao jantar da messe..

─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias.. Duplamente preocupado. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. 115 . ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida.. diziam. onde estavam os soldados aboletados. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?. Ouviste a resposta do “Furnas”?. ─ Se calhar..Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. ─ Pois claro. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados.. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. Miguel. no regresso a pé. ─ Furriel. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. rapazes humildes e simples. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior. ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. faziam um excelente cozido à portuguesa. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”.

espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano..─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. ─ Também pensei nisso. disso não tenhas dúvidas. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 . gosto de te ouvir! Acabar com a guerra.. por dentro... por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários.. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. à beira da linha de caminho de ferro. a minha mãe viúva!. ─ Olha o que nos espera!. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo. por dentro. Dezenas de soldados e alguns graduados.. É preciso ajudar. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago.. se saísse à tabela. ─ Quanto mais tarde melhor. é essa a intenção. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. mas a família. preocupavam-se à volta de malas e sacos..

A velocidade aumentava. a marcha abranda. resfolgando.. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. o coração salta: 117 . já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. sem resposta. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. Duas máquinas a vapor.. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. atarefadas com filhos às costas. trumtrum. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. sobretudo mulheres de capulanas garridas. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. Eram tropas frescas a caminho da guerra. ─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. aguardando a ordem para embarcar. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval. A viagem decorria na noite de sono. à volta de sacos e trouxas. o combóio pára. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. simpático no trato e já em segunda comissão. tinham um aspecto sumptuoso. puseram o longo combóio em marcha lenta. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. Os militares seguiam nas carruagens do meio. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade.carreira. trum-trum”. na retaguarda. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. onde se juntavam dezenas de negros. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. Na noite de breu.

sonhando com a cama quente no lar distante. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. A manhã aparece com um Sol fulgurante. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. só lá mais para a frente!. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . O cansaço vence a ansiedade. é fresca a brisa que entra pela janela.. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. irão esquecer essa doce sensação. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. Duas horas da madrugada. bem vestido e curioso. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. Lá fora não se vê vivalma. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele. formando esplendorosos contraluz. embalados pelo andamento monocórdico da composição. mais duas que em Portugal. o pessoal vai adormecendo..─ O que aconteceu? Ninguém sabe. Poucos dão pelo recomeço da viagem. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. ninguém explica. vai ser um enorme benefício para a economia da província.. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós.. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro.

A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. onde reinava o odioso regime do “apartheid”. Abrindo caminho à força de espada.─ A guerra é uma coisa terrível. a África do Sul?!. A menção do grande país da África Austral. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída.. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. os ingleses. os americanos. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação. o material de guerra é todo russo e chinês. a Rodésia. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo.. como depois foi baptizado.

na obra já referida. Por volta de 1667. roído pelas guerras internas. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. a concessão de todas as minas de ouro. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. comportam-se como malfeitores.notícias fantasiosas.. rigidamente autocráticos. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. chumbo e estanho no seu território. 120 . na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. Em 1607. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. editada em 1960:. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629.. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. O génio individual que punham nas suas empresas. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. viriam a ditar a ruína. cobre. procurando enriquecer pela simples pilhagem. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. A coberto das suas armas de fogo. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres. os seus métodos de governo.. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram.. como refere Basil Davidson. a coragem. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. ferro.

quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. Os seus vizinhos do interior de língua banto. foi. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro. segundo a documentação histórica. ou do tipo negróide. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era. quando esta faltou também lançaram-se 121 . E o que fizeram afinal os portugueses.. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista... no primeiro século e meio de ocupação? . tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (. glorificados descobridores. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte.)..”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza.

O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. a partir dali.em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. na obra já referida ─ . perceberam-se os cuidados no avanço. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. Logo no reinicio. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. qual cabeçorra disforme. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. manhã cedo. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. o comboio não circularia mais de noite. ─ Basil Davidson. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada.

. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha. mas não se viam construções no horizonte visual. mas o 123 .. onde em contrapartida.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. ─ Vai bem.. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. passando fome. O calor era intenso.. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes... ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. ─ Ei! Sou do Barreiro!.. ─ Isto é um buraco medonho. como por encanto. Do chão. tudo na mesma! Vamos para. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. só algumas saliências de terra vermelho-amarelada. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. calor. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. vivemos num abrigo cavado naquela elevação.. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama.período em pleno campo inóspito. Cinco homens num destacamento. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. frio.

─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. ─ ‘Tou farto disto.. pá! Calma. endureciam os semblantes. com o medo de os irem “pegar à mão”. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. Após uma longa curva feita lentamente. venham cá eles fazê-la!. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos. fizemos a picagem logo de manhãzinha. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. pondo fim à conversa. ─ Então adeus! Boa sorte.. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia..pior era à noite. barbados de dois dias. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente.. Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada.

Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. não barafustavam. não pediam. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. não riam nem brincavam. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. muitas. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. pensava que os comiam todos! Risada geral. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. registando a chegada de dois “amigos do homem”. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. só então a ganilha animou. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. houve risos. Esperavam pacientemente e não diziam nada. esperavam somente. O pessoal precisava de descomprimir. ─ Não te preocupes.

Olhavam surpresos com olhos esquivos. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. quando se abriram as portas de Abril.. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes.soldado Edmundo. estás a engatar-me!. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. amontoados entre trouxas. O comboio era muito comprido. o Edmundo lá reuniu os vinte paus. moço robusto e bem parecido. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. com bancos curtos de ripas.. onde dois ou três soldados disfarçaram. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. grandes e brilhantes nas crianças. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. malas velhas e caixotes com galinhas. quando viram aparecer o 126 . intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. apareceu risonho e agitado. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. com divisas. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo... ─ Verdade. ensebadas pelo uso. em Tete. As carruagens da frente eram muito velhas. surgido do mato. mas ninguém estava sentado no chão. Risonho e desmiolado... As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem.

a companheira. Onde estarão a esta hora a esposa. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. os pais.recomendava o capitão. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. ─ Tem juízo. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes. a morteirada. maravilhando os olhos na beira-rio. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . a mãe. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. homem novo. a mina. a namorada. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. Afinal. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. a emboscada. persistente. os irmãos. deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura.grupo de furriéis. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada.

uma semana era passada. ─ Assim com esta barba de três dias. Claro. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. oportuno. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros. ─ discorria o António Manuel. tinha o seu problema resolvido como sempre. 128 .. para chegar à costa oriental. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. concitando olhares curiosos. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. um tenente-coronel que. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. correndo energicamente para o vale que. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. foi instituído o “Regime dos Prazos”. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. sujos de pó.exasperado. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. sob a sua influência. muito cedo. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze. parecemos discípulos de Fidel!. ciosamente guardada. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro..

foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. Moçambique era um território arruinado. A situação só animou nos meados do século dezassete. No começo do século XVII. com muito pouco êxito. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. quando foi incrementado o tráfico de escravos. para a futura abolição da escravatura. enxameou a colónia de deportados políticos. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. separado definitivamente da dependência da Índia. princípios do século XVIII. Moçambique e Brasil. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. dominada 129 . formada por Angola. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. no Congresso de Viena. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. mas na Zambézia. No final do século. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. Cabo Verde.

conta-nos Bryant: “Em 1860. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni. Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. Mzila. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. casas brancas de estilo arabizado com terraços. na Rodésia. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. pó vermelho e castanho. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. transformando num deserto essa vasta região”. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. pouca gente nas ruas. chefeguerreiro dos invasores zulus. cidade de passagem. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. vindas do Sul. a ideia foi repudiada e não vingou.pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. Instalações 130 . ruas largas. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ). As pequenas colónias no interior.

por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses.. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. Comprido caminho de água. entre outros.militares por todo o lado. ditando o desinteresse dos ingleses. o Sol queima e há poucas sombras. no lugar de Cahora Bassa. onde viria a falecer com febres. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. é uma cidade sem espaços verdes. muito calor. mesmo com o rio a seus pés. alemães. Concluiu o excelso expedicionário. Meio-dia. na língua nativa. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. outra vez a malfadada ração de combate. ingleses. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. por isso a Frelimo quer destruí-la!. rodesianos. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. sul-africanos. 131 . o Zambeze. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano.

por máquinas da Engenharia Militar. e. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. “pró 132 . ─ Calma! Calma! Guardem as energias. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado..─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. por isso a grande nação austral. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. na defesa da antiga colónia. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. O projecto hidroeléctrico quando terminado. possuidora do regime mais racista do continente africano. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. só cá venho safar o “coirão”. A estrada continuava para o Songo.. ao encontro do gigante em construção. ─ E se fosses à merda!. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada.. A via alcatroada era um luxo raro. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação..

respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. lentamente. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. a estrada acabava e começava a picada. incluindo algumas paragens para reagrupamento. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. percorridos cerca de 120 quilómetros. mas pouco ou nada se divisava. Sousa. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente.concluía ainda o soldado-condutor.galheiro”! A mata era densa. os camiões seguiam mais devagar. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. só se ouviam os motores roucos em aceleração. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . Ao fim de quase três horas de viagem. Estar na guerra aprende-se depressa. Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. a engenharia militar ainda ali não chegara. seria fácil montarem uma surpresa. estávamos no reino da guerra. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. Em sentido contrário o trânsito rareava. Soaram tiros longínquos.

o veículo continuou a marcha devagar. com granadas e fieiras de balas à vista. agora outros que dêem o coiro!”. alargada a alguns civis presentes. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”.silêncio. a conversa continua no bar. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. A alegria de uns era a apreensão de outros. E a guerra ficava mais próxima. soturnos. “já cá estamos há muito tempo. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. primeiro classificado. num portento de força impressionante. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. e só agora o António Manuel. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. de nome Trindade. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. do qual se avistava o Zambeze. alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. ninguém se atrevia a abrir a boca. símbolos da tropa especial. construído em paliçada de troncos. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. atreveu-se a responder timidamente: 134 . ninguém saí dos trilhos.. correndo escuro e caudaloso. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. a lógica da campanha militar era. Os recém-chegados. A guerra é naturalmente o tema central. * Estima: um posto de defesa na picada. poeirentos.. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. e um deles. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado.

para os lados de Mucumbura. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. ─ António? Que nome curioso! 135 .. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia. e as populações! A acção psico. junto à fronteira com a Rodésia.. ─ Quem não está connosco. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu.─ Mas... contudo o noviço João com o “bichinho a roer”. ─ Ah! Cá como lá. A todo poderosa PIDE/DGS!. Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. está contra nós! Vocês são novos aqui. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha... pelos vistos.

A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .5.

Cabo Delgado e Niassa. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. em 1968. e os Macondes nos planaltos do Norte. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. Ilha de Moçambique). era clara a incapacidade dos altos comandos militares. esteve circunscrita aos distritos do norte. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. Entre a surpresa e a desorientação. Também o reino do Monomotapa no interior. Quelimane. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. em lidar com uma guerra que tinha características diferentes. Durante este período inicial. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. tinham fortes tradições independentistas. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”. Sofala. Em resposta. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. com um ataque ao posto de Chai. 137 . construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. o comando das Forças Armadas portuguesas. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. na região de Mueda. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964.

em Maio. Em Setembro do mesmo ano. Nijs e John Paul. reconhecidos por Portugal na ONU”. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. O ódio instala-se. tropas da Rodésia de Ian Smith. Valverde e 138 . para os aldeamentos cercados de arame farpado. à época bispo de Vila Cabral.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. Trindade. controlada pelas tropas auxiliares africanas. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. uma companhia de “comandos”. pouco escutadas no entanto. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. Em Novembro. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. Depois de descreverem em pormenor com datas. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. locais e nomes. onde. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. e dos padres anglicanos. em Abril de 1971. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região. Em Tete. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. acusado de colaboracionismo. na aldeia de António. Calado de seu nome. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. e os Direitos do Homem.

onde iam de férias. Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. em 2 de Janeiro de 1972. Cabora Bassa Em Março de 1968. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está...Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. deveria estar a Igreja. Nesta data foram expulsos de Moçambique. torturados e assassinados. são os governantes políticos e militares de Portugal.. devido à sua língua. sem qualquer ambiguidade. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. corajosa e claramente.. numa conferência no Reino Unido.) O povo de Moçambique. mentalidade e até filosofia. sem julgamento ou culpa formada. Os africanos..) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. (. até Novembro de 1973.. costumes. porém. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”. são perseguidos. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia. De hoje em diante. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. raça. cultura.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos.

rodeado por uma vedação de arame farpado. vertidos no caldeirão da guerrilha que. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção.milhão de colonos brancos. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”. e para isso. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. em Julho de 1968. No concreto. em 8 de Março de 1968. etc. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . Cahora Bassa. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. A empresa construtora Zamco. Estima e Chipera. inteligentemente. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. italianos. é um campo entrincheirado num meio hostil. no dizer indígena.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. que devia ser defendida a todo o custo. a afirmar o desejo independentista. (alemães. assente nos aquartelamentos de Chicoa. ingleses. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. constituindo o “perímetro de defesa imediata”.

15 de Novembro de 72. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. No dia 9 de Novembro de 1972. concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas.Moçambique. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. Chicoa. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. com a ajuda da República Popular da China. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos. emboscadas. Depois atacou sucessivamente. flagelações. em Tete. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. a linha de caminho-de-ferro 141 . As notícias chegavam em catadupa. eis a nossa táctica. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. apoio na população. Furacungo. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. Fingué. num só dia. minas. constituía-se em forças irregulares. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. a Base Aérea nº 7. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. minas. embora os estragos não fossem de monta. minas! Fuga e reagrupamento.

que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. A mão-de-obra rodesiana. com raras excepções. uma tarefa que o comandante-chefe. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". controladas e permanentemente patrulhadas. foi sabotada na região de Moatize. O pânico instala-se e. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. Kaúlza de Arriaga. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. pela primeira vez. no eixo Beira-Vila Pery. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. ao longo de 8 quilómetros. 142 . O comandante-chefe. Assim se entretinham as forças portuguesas. com algumas portas apenas. e os técnicos sul-africanos e europeus. com uma força desconhecida. divisava-se o rio escuro e caudaloso. também assumira esse compromisso. Entretanto. silenciosa e traiçoeira. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. e em 25 de Setembro de 1972. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. separando inexoravelmente as duas margens. cinzenta e castanha. Kaúlza de Arriaga. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. Deste lado a vegetação era escassa. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários.

certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. Foi há uns três anos. ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. ─ Aqui não.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. conta-se a meia voz. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. nascida e crescida sob a protecção das tágides. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. mecânico de armamento. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. companheiro de 143 . e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. A água de um castanho terroso. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. mas mais acima houve um desastre terrível. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. causando arrepios a viagem entre as duas margens.

o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. o alferes Baptista resolve intervir. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. ajoujado de carga militar. por certo deficientemente escorado. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. Um camião “Fargo”. onde a água era mais agitada. Perto da margem a corrente ainda era mais forte.formação do António Manuel. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. e aumenta também a trepidação. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. aproximando-se da extremidade sem anteparo. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. o camião desliza mais um 144 . a jangada entra em estremeções. descaiu para a frente a meio da viagem.

─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. outros procuram nadar energicamente para a margem.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. a jangada porém. a corda que prendia a viatura partiu-se. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. cinco ou seis homens. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . Com um formidável estampido. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. Sem comando não havia acção. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. no meio de uma gritaria medonha. ou porque não tinham meios de socorro. com comando mesmo errado. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa. ficando suspensas no vazio. em desespero. o abrandar fora fatal. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro.

Naquela zona do rio há muitos crocodilos. um sono em vigília despertando ao menor ruído. Metade da Companhia tinha feito a travessia. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte. que arrasta consigo mais alguns homens.mais abaixo. em poucos minutos. e 146 . Tudo se passou rapidamente. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. mas os restantes corpos nunca apareceram.Ao serão. 101 soldados e graduados. . Alguns nadadores atingem a margem. Uma noite mal dormida em cama emprestada. * A tarde chegou ao fim. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. provocando o deslizamento da segunda viatura. material de guerra. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. soldados e nativos. Ao todo. mantimentos e munições. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. era um sol diferente. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. numa operação cuidada e lenta. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. Por isso a trasfega não fora completada. na messe.

o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. Se houver alguma coisa. embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. . são por vezes replicadas. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar.. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. o rio faz favor!. com malas.. 147 . aqui quando chove. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. prestes a ser rendida ─ Sim. ─ contava um furriel operacional da companhia local. houve um acidente com muitos mortos. mesmo que cheire a gasóleo. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. Numa das primeiras viaturas.. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia.. Histórias de guerra contadas no próprio teatro. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado. os três amigos não se afastaram da zona do motor. Mais mais para montante. homens e armas. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. bagagens. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada.. amigos. Parece que não!.. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem. A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos.

com um timbre familiar.. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. embora ocultas pela folhagem densa. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. Calaram-se. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. peremptória. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. inquieto. ─ Continuem a picar. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. Na luminosidade da contraluz matinal. ─ Mas. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. não-operacional mas com algum traquejo da vida. nem piar de pássaro nem som de animal.* Reinava uma estranha calma na Natureza. ─ Neste sítio não é provável. No silêncio ensurdecedor.. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. meu alferes. metálica na extremidade.

embora nítido. Sierra. dois. era 149 . enche a noite quente de Verão.desde o destino final. o parceiro das partidas escaquísticas. António Manuel. Alfa.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco.. propôs o empate. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um.. Trrrr. Trrrr. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez. Baumm!. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa.. Trrrr.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes.. Tango . dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia.. ─ Parece estar a acontecer algo de grave.. Baumm!. era um passatempo de luxo no teatro de guerra.. Sierra. três rebentamentos Baumm!.. o negrume cerrado da noite africana. mesmo jogado com pouca convicção. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor.. Bravo ... vestido a rigor de camuflado sarapintado... a guerra continua O som distante e abafado. O batuque vai começar.. Mike. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. Sierra .. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa.... vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. sem divisas e de lenço verde ao pescoço..... Alfa.. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.

. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. A 150 . cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. os “turras” mandaram só umas morteiradas. com uma experiência de oito meses. a messe e a porta de armas.. vozes abafadas. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. iluminado por fraca luz interior. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. * Manhã cedo. aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se.. são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. madrugada ainda.. Já há três dias que fazem sinais nos morros. em Agosto. Baumm!.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. ─ Foi assim. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio. e fazer o reconhecimento da zona. a cantina. ─ A seguir somos nós!. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder. Os rebentamentos não cessavam.. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento... Baumm!. na noite anterior..

. havia dois feridos graves. que ficara sem um pé. ─ Nada. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. nomeadamente o comandante.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS.. ─ Yota?. a partir de Chicoa. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente. fazia uma 151 . João . o pelotão já partira. o alferes Yota. ─ observava o António... ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. À hora do jantar chegou a terrível notícia.. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!... ─ com a metáfora. eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. À noite. ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos. Ah! Aí está. Agora o sono cortado vencia a emoção. A fisionomia era-lhe familiar. agora já cheirava a sangue. concluira João.. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. levantando-se desaustinadamente. ─ acrescentava o Sousa. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. eludia o sobressalto. Mas. Ao lado.. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. cândido por feitio. com ar de desaprovação.. esteve comigo na recruta em Mafra!.

─ A realidade é tão chocante. Talvez mais cedo do que tarde!.. quando elas começarem a “cantar”.. o trabalho na fábrica. onde deixara a esposa jovem. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo.. No teatro de guerra. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. sofria a saudade da Pátria distante. desde muito cedo. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. dava-lhe uma consciência aguda da situação. ─ A guerra colonial tem os dias contados.. violentados. assumia a contradição. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo.. o 152 . A História não pára e o Mundo avança.ideia diferente! ─ Sousa. a discussão prometia.. Aos milicianos chantageiam com as férias. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. Idealista. no interior de uma África estranha e quente. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. nas populações e nas nossas tropas. embora algo sentimental. ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. parte maior das agruras da distância. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. como faz o Movimento de Libertação!. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. o mais sulista do grupo. e estas crianças andrajosas e famintas!. de estudos e vivência.

pois era sua a decisão táctica. entre morros altos apertando a vista e a alma. na expectativa de um ataque ao aquartelamento.medo misturava-se com a revolta. de pele branca. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. tentando detectar qualquer indício identificador. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. A Natureza. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. na dilacerante guerra de guerrilhas. * Havia um mês que ali estavam. que também ali se construía. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. ainda que disso nem todos dessem conta. temendo o perigo iminente. indiferente aos dramas dos homens. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. em 1970 e 71. ao fim da tarde era sinal de alerta. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. No local onde até há pouco tempo estivera o sol. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. O aparecimento de “very-lights”. tal como ao mundo chegou. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. a luminosidade 153 .

como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. Era assim no coração de África.quente impressionava ainda a retina. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. começaram a voltar às casernas. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. ou de zinco. O alarme soara falso. Deixava o interior das instalações militares. Constava à boca pequena. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. como eram conhecidos na gíria militar. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. Pouco a pouco. devido à forte influência da guerrilha na zona. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. torturados pela inclemência solar. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. fora destruído e abandonado há alguns anos. 154 . Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. cobertas com telhas de fibrocimento.

nem havia setas envenenadas. que na tropa não se podia abrir a boca!. Ali não havia selvagens de tanga. local mais calmo e “arejado”. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). vestidas com capulanas de cores garridas. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. um major mal conhecido e mal encarado. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. por questão de segurança.. A excepção eram as moças novas. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. ” ─ interrogaram-se os soldados calados. dispersos entre brincadeiras ocasionais. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. para manter o ânimo das populações!. da saga “Tarzan. autorizara o batuque aos sábados. combinou-se uma visita à aldeia. Ao quarto fim-de-semana de estadia. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar. rigorosamente contidas dentro do arame farpado.. tão-pouco adolescentes. outra 155 .. para matar a fome. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa.. em grupo.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. Envenenado estava tão-só o ambiente. Recentemente. trazia à memória os célebres filmes da juventude. com corpos musculados e peles luzidias. o homem macaco”. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. remoendo as dúvidas e a desconfiança. Estavam em grupos. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha.

─ Talvez tenhas razão. 156 . rompendo o soluço. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. com divisas. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. mais perto do Índico. a noite chegou mansamente.profissão rendosa. a de lacaio da administração colonial. eventualmente!?. Porventura. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel... com menos humidade. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. aquele era um clima muito seco. Afinal não tinham ficado para o batuque. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. Decerto clientes de “cuspo”. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo.

Um tum-tum milenar ouviu-se distante. É a primeira ronda de serviço. vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. Ao todo são oito postos de guarda. O aquartelamento é grande. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. o batuque ia começar na aldeia. uma área enorme cercada de arame farpado. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. a alma aperta-se e os sentidos despertam. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. dispersos e muito afastados. ligados por atalhos ainda não memorizados. pelos vistos.E quem concordava? Muito poucos. a guerra continuava. e para sul até ao aldeamento. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. e. aprendido há poucos dias. Desde essa data. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. bem no interior do istmo central moçambicano. patranhas e acção psicológica. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . daqueles. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. poucos. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. Na noite escura por caminhos esconsos. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido. com uma única saída para a picada.

pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada..tiro!?. ─ Pois... antes de desabar uma curta tromba de água. acidentes ou fenómenos naquele local. eventos. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!.. paciência!”. Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. De repente a chuva 158 . Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante.. Abafava-se no quarto completamente fechado.. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana. João vai avançando de modo inseguro. o sobressalto aperta-lhe o peito.. não! Pois. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia. Sousa olhava o tecto.. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. ─ Achas provável? Nunca constou!.. não quis dar parte de fraco!. deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. não! Na Guiné. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!. O coração acelera desordenado. todos os acontecimentos. reportavam à guerra. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde.. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas.

dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua. no caminho do segundo posto de vigilância. nenhuma claridade ofuscante.. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. muitos quilómetros. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado. por miríades de riscos ziguezagueantes. 159 . o jovem militar. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. A velha África das origens humanas.. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. com reflexos azulados e avermelhados. nenhum rumor distante. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. Nenhum som. esfumou-se na noite. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. siderado. O receio esfumava-se. ─ Quem vem lá? Alto. rasgado a muitos. tão radicalmente como tinha começado. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde.parou. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. Fundindo-se na terra. coloridos em tons de prata e ouro.”.

não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. meu furriel! Conhece? ─ Não.. não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. ─ Aproxime-se para verificar!. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo.. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?. E é espantoso. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta.. açoriano como a maioria daquele batalhão. Ah! É o furriel da secretaria.. ao longe. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado.. Pregou-me um susto. apertavam como tenazes o coração dos homens. ponho-me para aqui a contar os raios!. * 160 ... fugaz.

deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. agora é só ensaio. Valia o facto de ter combinado a compensação. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. suspeitosamente simpático. Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. com o chefe da secretaria. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. e pronto! ─ Deixa lá. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. mostrava-se normalmente pouco compreensivo.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. com prejuízo dos alimentos perecíveis. durante a manhã após o serviço de ronda. o correio era o elemento existencial mais 161 . certamente superior à poupança. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. Gestão tropeira. justificas ao capitão. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado.

e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. Após uma pequena entrevista no alpendre. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. A desconfiança suplantou a curiosidade. O centro de gravidade do corpo leve.”. num circulo nauseante de imponderabilidade. O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. exibindo-se papéis. mandadores sem lei. comandante de companhia.. o comandante interino do batalhão chamou o capitão. Fora uma noite premonitória.. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.transcendente para aquela rapaziada... Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. como iria ser o dia? 162 . meneando a cabeça. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra.

. 163 ..6. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.

. ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. O comandante interino do Batalhão. o oficial alto e escuro. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. um major que mal conhecia. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. percebendo que algo de 164 .. nem uma explicação. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. depois do primeiro choque. nem um mandado. Começava a ficar irritado. candidamente. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. com modos de polícia. Alguns camaradas observavam atónitos. isso vai afectar o moral dos homens. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna..Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. amigo das ideias. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. o amigo ao receber religiosamente o material. ─ observava. Nem mais uma palavra. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa.. mas ninguém tinha dito nada ao visado. de G3 pronta. Tinha até ordens para o algemar. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel.

. nas terras quentes dos longos planaltos centrais.. em jeito de despedida.. Em Chipera. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. pelo despotismo do comando militarista. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum.. Olhou-o com ar reprovativo.grave se passava. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico. empertigado. sem coragem para comentar na hora da despedida.. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. onde o dia-a-dia continuava tenso. de que falava a mensagem. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. se não se importa. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. trata-se de um indivíduo perigoso. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 .. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. está enganado! ─ “Meu tenente”. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. ao fim da tarde igual. a calma em pessoa. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. agora com uma cama vazia. Até sempre.

de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. Era um homem já 166 . com um ar distinto no ambiente despojado. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. da delegação da PIDE/DGS em Tete. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga. Por detrás da secretária da sua importância. o jovem alto e magro. Horas depois. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa.circulando subterrâneas. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. da barba feita com lâmina inusitada. A cela dos fundos da delegação. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos.. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro.. era compartilhada por um negro ainda jovem. perturbantes e insidiosas. fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. afirmando também a voz. No outro.

─ Não tem mais tronco. ─ Nhambo! Que tá fazendo. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. ─ Fique nessa! Tem mais luz. ─ Sim.maduro. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. única abertura para o exterior. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. mostrando ser o mentor da cela. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. Um mainato muito jovem. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. com um tom acastanhado na pele exposta. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. né! ─ respondeu o jovem corpulento. minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. embora encorpado. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. senhô! Gosta de ver limpo. curtido pelo sol africano. sem qualquer divisória. Junto à parede contrária à porta de entrada. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. Retomando a tarefa de limpeza do chão. estavam estendidos três colchões de espuma fina. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. colocados a um canto. acha? 167 . rapaz ainda.

técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. quase fugaz. para de novo pousar os olhos no chão. o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. resplandecente e implacável. a cara redonda e luzidia. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. Aberta em cima da cama de circunstância..! ─ acrescentou.. desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem.─ respondeu o miúdo a sorrir. passou-lhe um brilho estranho nos olhos.. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam.. com uma cor amarelo-alaranjada. e 168 . furriel do Exército português . manipulada para retirar o pijama. na tarde quente e esplendorosa. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. que não deixava perceber o “fio da meada”... De vez em quando. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. num breve instante... deixava ver a farda recentemente despida. ─ Eu sou Silveira. ─ Eu sou fulano de tal. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . cegando quem ousasse desafiá-la directamente. não seria conveniente. às voltas com uma mala preta de plástico. mas adivinhava-se uma bola magnífica. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . que lhe tinham trazido há minutos. saindo a menear o rabo nutrido. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo. num trejeito efeminado: ─ Vá. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago. ─ interrompeu a resposta.

De súbito. não deu logo pela chegada do homem ainda novo.mais não disseram.. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar. provavelmente!. Em cima da cama estava o pijama “grenat”. desviando o olhar súbito.. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. lhe arranjara. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. acrescentou ─ venha comigo. depois de confirmar a identidade. como recomendara a jovem esposa com carinho.. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado.. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos.”. ─ comentara João. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 . ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. na direcção do mictório.

estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. e aos meus camaradas de tropa. então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. ─ Deixe estar. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!. não é necessário. escreva só a morada de destino do telegrama. ─ Como assim.. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. mais do que a cabeça. Os dois primitivos residentes da cela. O coração. percebendo certamente ser transitório. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. menos bem desenhadas do que era costume.. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE.. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas. gosta de viver ao ar livre. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma.─ Chico. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. é claro!. olhavam curiosos para aquele “luxo”. com indicação de posterior devolução.. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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LOURENÇO MARQUES. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes.. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. desorientado. Ansumé jazia morto numa poça de sangue.. ─ Também ouvi. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais. No ar perpassava um fluído etéreo.. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. com a G3 caída ao lado. sobretudo brancos. sim. no Norte.. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. Faltava uma bala no carregador. activos e combatentes.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!. PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita... Ansumé ficara arrasado. Talvez sejam mulheres. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. A inquietação não permitia apreciar 178 . contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete. Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem.

.. O polícia dava mostras de nervosismo. roubando o ângulo de visão e a serenidade. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. rumo à “Vivenda Algarve”. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção. até à sede em Lourenço Marques. nem sempre concretizáveis. ─ Temos de ir.. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. 179 . desde Tete..pormenorizadamente a paisagem. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. Talvez fosse.. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. a sede da PIDE/DGS. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva. no coração de África. nem sempre concretizadas. Os “pides” não se tinham afastado um segundo.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. onde a geografia era mais agreste. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro.. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul.

. num canto. pois não queria. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. A cela com 2 x 4 metros. protegida por uma rede metálica. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. em Tete. nada!. 180 . nem utensílios. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali.. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. não podia fraquejar. onde estava enfiado há mês e meio. na confusão dos dias de angústia da prisão. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário. Era todo o mobiliário existente. que substituíram os dias de angústia da guerra. Mas a solidão e a insegurança presentes. nem asseios. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. Chipera Velha. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada.

humanamente insuportáveis.Batendo as asas na noite calada.Acordou (quanto tempo depois?).” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre.. não seria prudente. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo. Apurou o ouvido. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. porém. até que o assobio reapareceu. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Reinava de novo o silêncio. mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.. paralelo e gémeo. Voltou o silêncio profundo. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. Tal. 181 . O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada. puxado entretanto. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. que reconheceria em qualquer parte do mundo. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada.

SARL. eles comem tudo.!”. SARL. na Faculdade de Ciências. tocaram. O Zeca.. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. o Ary. até à comoção das lágrimas. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor.eles comem tudo. encostadas precariamente. à rua da Escola Politécnica. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. 182 . cantaram e recitaram. o Braga.. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. o Paredes. encetando uma arenga de justificações radicalizantes. que tinha a coragem de ter medo. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. aquela noite de coragem e fervor antifascista. O anúncio de um título bem imaginado.

fora um major que estranhamente trazia a família consigo. O primeiro comandante. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. tratando-se de uma nomeação interina. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. mal tinham acabado de chegar. pá! O 183 . de “guerra em guerra”.. O segundo. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. meu comandante. pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. pá?. fora reveladora da mentalidade militarista. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. Em suma. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. em menos de quatro meses. por ordem cronológica. ─ Põe o barrete. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias.. um tenente-coronel. numa estranha itenerância nómada. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. em meados de Outubro. Andando de quartel em quartel.. O novo comandante. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano.. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”. era o terceiro. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos. era como a maioria dos oficiais-generais. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!.

Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. general Kaúlza de Arriaga. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). as meias a três quartos e a continência. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. a trabalharem nas limpezas. com um soldado sem pés. Para estes. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal. era o aspecto exterior do aquartelamento. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. e.barrete é para usar. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. do comandante-chefe. procurando neste caso dividendos imediatos. Chiça!”. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. as únicas preocupações são o barrete. foi muito elogiada a “fachada”. Por isso. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. noutras. “Filho da puta. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno. até 184 . dois com a guarda pessoal. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. com três feridos graves como primeiras baixas. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. quatro helicópteros. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal.

. Deus me livre!”. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. questionavam-se segundo o velho aforismo. estavam cansados de tantas comissões. no Niassa a actividade terrorista era residual. a guerra não parava de evoluir. em Manica e Sofala. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. Os militares cumpriam o seu papel. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. porém. Contraditoriamente. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. Alguns. como estrategicamente se tinha proposto. agora o resto era com o poder político. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. era uma questão de tempo e de meios. Os objectivos em curso seriam cumpridos.. a barragem em breve seria um facto. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. Não acreditavam naquele optimismo todo. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. e quanto aos meios. aliás. não passando. apesar da 185 . O tempo jogava a nosso favor. Aliás. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. analisando com consciência a realidade conhecida.sucumbirem!?. para sul do rio Messalo. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas.

e. por essa altura. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. A guerrilha atacou Vila Gamito. em Cabo Delgado. No Norte. mas. Machava. prisão da 186 . chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política.fraqueza anunciada. Não era grande coisa. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. atacou Estima com foguetes de 122 mm. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. e. tomando os desejos por realidades. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. chamado a Lisboa em Julho de 1973. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. não isenta de grandes contradições e inconsequências. megalómano. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. na direcção da cidade da Beira. em Junho. em Maio. O general ultranacionalista. em Março de 1973. face ao ponto a que as coisas tinham chegado. afinal. em Maio de 1973. como todas as outras. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. a herança do general fascista! Em Junho de 1973. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. em Abril. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica.

diálogos breves. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem.PIDE/DGS em Lourenço Marques.. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. entre as quatro paredes caiadas. por enquanto deveria haver algum cuidado. eu já volto quando terminar a ronda. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. Novembro de 1972. magro. falando de bons modos. Não obteve resposta. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. nem o jantar me trouxeram!. ─ Deixe estar. obrigado! Não se incomode. Não era o mesmo da chegada. de tão inesperada. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. de estatura média. Mas deixe estar. de bigode fino e voz nortenha. bateu com força na porta de madeira. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. portas abrindo-se e fechando-se. A conversa continuou durante alguns minutos. de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. 187 . composto de muitos dramas solitários e isolados. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. O guarda prisional. ─ Coma. a esta hora já não se pode fazer nada. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim..” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite.. causava alguma perplexidade.. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. Mas. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano. porventura maiores que o seu. constatando.

Quando voltou a recolher o púcaro. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos. Vagamente. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível.. que se passará? ─ a questão 188 . trouxe bananas (a comida era péssima). Estão aí duas pessoas que querem vê-lo.. ontem fiquei preocupado. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz.. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina. Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa.. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. esperando melhores dias!. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. ─ no limiar da porta. A seu tempo. ─ Cá estamos. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde...”.. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas. papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje.. querem ver que está feito com a PIDE?!. como exigiam as regras. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!.

logo abafadas por a porta ter sido fechada. Vindo do fundo do corredor. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos.. dou em doido!”. ─ Vou ver o que se passa. trancados e isolados em pequenos espaços. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. durante toda a tarde e início da noite.devia ser muito ignara. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. Em pouco tempo. lamentoso. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. porque o guarda não mostrou surpresa. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem.. abafado e húmido. De facto. 189 . As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. provocando uma enorme tensão. Depois fez-se silêncio. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. anjo ou demónio?”. porém. ficava um calor insuportável. sem esperança.

por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. a aguardar as visitas prometidas.. 190 .. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. mais velho de aparência. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. Quando já descria. era nítido o desenho das palavras na contraluz. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. isto aqui não interessa a ninguém.. de costas na enxerga. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. a sonhar com a liberdade roubada. Olhando para o exterior. acordado..! ─ completava o furriel. na janela. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. no quartel da Xefina! ─ E você. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. por “actividades políticas”. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage..Num momento de nostalgia e saudade. muito abalado pela alimentação deficiente. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado.. De resto. Mesmo agora. aparecendo o guarda com um sorriso. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina.

sim! Foi o “comité” de boas-vindas. tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. ao 191 .. sorrindo. procuraram transmitir algo. ─ Não! Não! Você. ─ Bom! Temos de acabar. prestando atenção. com comiseração e espanto. Os olhos faiscaram um fugaz terror. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. o pastor Manganhela. passando lestos pelos circunstantes. dir-se-ia uma acentuada palidez. guarda Cerqueira. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. o guarda prisional. não fora o paradoxo de cores. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. ficando sem expressão. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. ─ Sim.. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. não pudemos abusar da sorte.

Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . Os restantes presos ganharam alento. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. ─ Já disse. fumando boquilha. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. Instintivamente.homem preto que acabava de cair abruptamente. maduro de idade. já bastante enrugadas. com óculos verdes graduados. a fazer-se desentendido. À excepção do jovem branco. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova.. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. colocando-a por debaixo da enxerga. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento. reteve por instantes o olhar no único branco. Autoritário e brusco.! Ao dizer isto.. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. olhando sobranceiro os detidos. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. a face de outro homem negro. Ao percorrer em silêncio a sala. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. eu trato disso!”. esticou no chão o corpo inerte.

por certo inspirado na rábula do superior: 193 .. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. ─ Sim. o processo do pastor Zedequias Manganhela... ─ Bom sabe. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão.... O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco. alto e de barriga algo proeminente. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. precisa de ocupação!?. senhor director. ─ ameaçava António Vaz. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. suspensa no curso da resposta. branco nas suíças. cabelo grisalho. aparentando uns prováveis sessenta anos. O director continuava a cirandar na pequena sala. ─ Ora isso é o que iremos ver!. responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. ─ não pode completar a frase. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão. fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. Acompanhava directamente. detido desde Junho de 1972. interrompida de forma abrupta. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador...

o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava. vindo do teatro de guerra. quente e envolta na ligeira 194 .... de alguns livros!. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. Cerqueira. de roupa.. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972.. O “anjo da guarda”. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas.. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. Na minha mala. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento.─ É a primeira vez que cá venho.

sevícias. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. devotado à sua missão. terror psicológico. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa. numa zona onde não havia guerra. onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. nunca se saberá. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. ameaças. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. Foram seis meses de interrogatórios. e com grande prestígio na Europa. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. ou um tenebroso 195 . conforme a versão oficial. o guarda-fiscal. de colaboração com a Frelimo. Zedequias Manganhela era um pastor. nunca provada. Suicídio. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. onde Manganhela permanecia em isolamento. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante.neblina africana que aplacava a inclemência. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. humilhações permanentes sobre um homem idoso.

foi um crime de morte matada. os seus mentores e os seus mandantes. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 . pela situação criada ao velho pastor presbiteriano. 7. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes.assassinato? Em qualquer dos casos.

que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. a 9 de Setembro de 1974. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. soube-se a dramática história da prisão. por ajudar.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. do guarda prisional Cerqueira. quiçá salvar. A 197 . denunciado em meados de 1973. muitos presos políticos na cadeia da Machava.

perseguições e sangue. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. Com a recusa da carta propositadamente escrita. agora com o futuro tão incerto. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. na sua incansável solidariedade. chamas. correrias. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa.. Abriu os olhos. gritos. com escala em Luanda. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . Quando o avião. num pesadelo de tiros. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera. muito sangue!. ─ Não. um DC-6 da TAP. fumos. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo.. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios.polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade.

* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. Por volta das 14 horas surgem. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado. e. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. quando procura o mato. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. distantes entre si poucos quilómetros. Chico Cachavi. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. como represália. Chawola e Juwau. Tratava-se de uma área muito povoada. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. e. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. um tenebroso 199 . é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. homens de um lado. Os aldeões são divididos em dois grupos. próprio da época das chuvas. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. mulheres e crianças do outro sentados no chão. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. com muitos aldeamentos dispersos. não levou a conclusões. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. num repente. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções.

Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. jovens donzelas são arrastadas para o mato. que organizaram o primeiro relatório 200 . surpreendendo os habitantes incrédulos. um afluente do Luenha. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. distante cerca de quatro quilómetros. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados.torcionário do recrutamento provincial. O rio Nyamtawatawa. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. crianças chorando são mortas a pontapé. à entrada de Tete. violadas. fica juncado de cadáveres. uma mulher grávida é esventrada. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. Pedro. o aldeamento é completamente destruído. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. A tropa completamente ensandecida. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. Juntaram depois as vítimas numa pilha. O sangue enlouquece a soldadagem. mutiladas e mortas. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. Foram os padres daquela congregação. que depois as diriam ao mundo. e. para além do que pode entender a razão humana. perante a passividade de sargentos e oficiais. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona.

“abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. aconteceu quando. finalmente. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. em 19/12/1972. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. ano e meio depois. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. em Julho de 1973. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. três dias depois dos acontecimentos. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. e sobre Wiriyamu. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. traje alegre vestido para afugentar 201 . que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. coronel Videira. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. nomeadamente ao comandante da ZOT.sobre Chawola. desumanizados e corrompidos até à medula. Neste episódio capital da guerra em Moçambique.

! O agente. em Caxias.. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. estava uma carrinha da PIDE/DGS. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império.. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. o mundo está cheio de ateus. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio. por isso está como está!... Caxias. 202 . estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. Da companheira não havia sinal. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. agora tinha iniciado o interrogatório. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu. na natureza e no seu coração. essa é uma matéria reservada. Ficaram para o fim.. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. para iniciar uma nova e derradeira viagem...“maus olhados”. onde acabara de ser identificado e fotografado. depois de todos os passageiros terem saído. ─ Desculpe. O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé. Lá em baixo à espera.. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante.

─ Ah! É verdade. Por detrás tem as minhas iniciais. passagem para um longo corredor fracamente iluminado.─ Fiz-lhe uma pergunta. as da minha esposa. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. e o meu tipo de sangue. não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. o grande responsável. interrompido por outra porta de ferro gradeada. Também estive na guerra do Ultramar. o som metálico da lingueta da fechadura. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. você é militar. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. outra campainha. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. Divisavam-se várias portas fechadas. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . apenas o corredor comprido e silencioso.

. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. criando um ambiente soturno. propício à desmoralização psicológica do preso. em Mafra.. por onde eram emitidos sons gravados. Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. em Dezembro de 1971?!.um palmo e fazia uma cara-de-mau. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria. uma lâmpada de filamento. temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal. ─ Não sei do que está a falar. isolado do mundo.. gradeada. fraca. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia.. numa fisionomia naturalmente ruim. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. ─ Ah! Não sabe!. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. como depois se perceberia. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. Por cima da mesa. por vezes reduzido. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”.

somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . chamava-se o “moínho”. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. por vezes o safanão. impedem o “fechamento” completo do cérebro. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. sobretudo na alta madrugada. faz favor! Eu não o ofendi. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. para além da fracção de segundo. criando uma pressão terrível. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. o preso é sempre o mesmo. a tosse de catarro ou o pigarrear. comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. polícia manhoso à maneira antiga. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. um aspecto de símio de pernas arqueadas. Começava a tortura do sono. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. ─ Respeito o quê.

! O agente sentou-se estranhamente calado. Àquela hora o sono apertava. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora.. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada.. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir. instantaneamente parado. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector... o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. silencioso. o preso desfalece instantaneamente. os ouvidos zunem ensurdecidos. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. O sádico pide continua a sua nova táctica. O efeito é terrível.. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. A partir daí a tortura é dupla. hem! O mundo desmorona-se. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. o coração “salta do peito”. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez.. para acordar logo de seguida em sobressalto. * 206 . Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!.

O chefe-de-brigada chegado no séquito. o “senhor doutor”. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. Adelino Tinoco. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro.. no Curso de Oficiais Milicianos. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro.. ter saído 207 . A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão. um porte de alto funcionário do Estado. preocupado com a aparência para infundir respeito. depois do inspector superior da PIDE/DGS.. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. só traída por um pequeno esgar. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão.. ─ Não sei porque estou preso. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. nunca levantando a voz. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. não precisou de muito!. quando mencionou o senhor doutor. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. encarregou-se de clarificar a situação. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. e por um ligeiro sorriso cínico. mas não tinha a certeza.A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. gravata e sapatos reluzentes.

─ Violências.. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. desferiu uma palmada forte nas costas do detido. O senhor é uma pessoa inteligente. foi uma pessoa simpática e colaboradora. vamos tratar como pessoas civilizadas. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . se não conta tudo não vai dormir hoje.. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente. propositadamente: ─ “Senhor doutor”. ─ o pide calmeirão.. a não ser. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política.. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação.! ─ Ia dar o salto. ─ Vá... não vale a pena perdermos tempo.. não! Por favor.. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”.

rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação.! A brigada da Guarda Fiscal. por favor! ─ Mas!.. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. fazia o papel legal. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. Encontrei-o uma vez em Lisboa. Calou-se.. o resto fiava mais fino. apesar das suas reticências. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. ─ Vá. deixando-o ofegante. perto de Vilar Formoso. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. Um pequeno prurido de remorsos. avisada..uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração.. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . Estamos de visita! Não podem. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. Estava muito calor em pleno Agosto.. um sujeito fulano de tal. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. prostrado de joelhos.. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”.

penteadinho e bem vestido. são figuras de bichos.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. 210 . O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. pequenos baixo-relevo estilizados. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. todo encolhido. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. pinturas-quadros humanizados. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. é claramente provocatória para impressionar o detido.. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas.. em Mafra. ─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. em Dezembro de 1971. O “SENHOR INSPECTOR” Um. ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. fale! ─ este é dos “pides maus”. onde antes só estavam manchas indistintas..

não nos obrigue a mudar de figurino! 211 .. ─ Desconheço esse assunto. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique. ali estava um exemplar do “Avante!”. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. fazia precisamente um ano. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente.” ─ Esse canalha!. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada... não resta alternativa. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes. surpreendentemente. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. não vale a pena negar! Além disso.. em Dezembro de 1971. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. desdobrou uma folha de papel fininho e. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. é a primeira alucinação. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso.

não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. como o torcionário-mor. com um bafo acentuado de álcool. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Como uma mola. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. que até os tinha formados em Psicologia.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. Passaram as horas. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. Até amanhã. bombista!”. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. já a madrugada ia alta. Adelino Tinoco. O pide pequeno e feio. Encostado às paredes foi caminhando. Junto da sua cara. o que permitia ir calculando o tempo). aludira. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. caminhando. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis. Silêncio! Não entrou ninguém. já disse! ─ sacudindo-o 212 . ─ A partir de agora fica sem cadeira. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer.

deu origem. com ar muito solene.. alto e de meia idade.violentamente. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando. voltou as costas e desandou.. como de costume. no instante seguinte. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!.. a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado. de bom corte. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. e com um emblema na lapela. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível. bem vestido num fato azul-esverdeado. o “superior” teve uma ligeira hesitação.. Um “pide-bom”. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. não tem cara para levar uma bofetada!.

a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. ameaçador. abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio. com Marcelo Caetano no poder. quatro dias...consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. de onde chega uma luz de sol 214 . desaparecem. não tenho nada a ver com isso. no quarto dia consecutivo. eram mitigados. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. muito íntimo do director Silva Pais.! Alucinações frequentes. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. Agora na década de 70. as paredes deslocam-se. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. sob o mando directo de Salazar até 1968. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três.

acima do mundo. mais um passo ansioso e ... sobre o rio. única saída para a liberdade urgente. O vigilante calou-se. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. O café da noite tinha um gosto esquisito. pouco antes da mudança de turno. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. O preso avança às cegas para um precipício. Ao fim de quatro dias de privação do sono. além do oceano. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. com ar arrogante e meio imbecil. por isso bebeu só uns goles. só abre a boca para ditar ordens e regras. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol..” ─ Afaste-se da janela. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. Quem dera poder dormir um pouco!. mentecapto. semiaberta. onde a vida continua. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios...... não conseguia adormecer. vinha um 215 .magnífica. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência.” Passa o tempo a olhar para o preso. Todas as noites. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço.

embora os polícias garantissem haver aquecimento central. ─ Interessa. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. Hoje é o primeiro dia de Inverno. quase euforia. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. daí as alucinações.. Sabia bem aquela bebida quente. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. obrigado.. fazia frio à noite.sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante.. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada.. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim. juntava-se a confusão do tempo. 216 . sem querer. vamos é saber da sua disposição. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. vindo não sabia de onde.. conversar!. calha bem!. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. Mas isso não interessa. juntando-se agora a confusão espacio-temporal. apetecia-lhe conversar. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. A falta de descanso do cérebro. porque de repente. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. ─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. não é? Sentia uma tremenda excitação.. produzia a perda da noção tridimensional. com as paredes a afastarem-se ou a caírem.

resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. dizem-se pacifistas. Já temos uma filha!. não respondeu logo. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias.. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. ninguém me mandou..─ Não sei. A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. fazem agitação contra a guerra. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. por onde vultos furtivos se escapavam. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. sumiu nas trevas da sala mal iluminada. não estou a par! Mas.. um homem católico.. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos.. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. contava todos os pecados. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. ─ Você. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. em Angola!?. e no entanto vão lá.. foi uma força de expressão. sabe. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. nem o Deus em que não acredita. também estive na guerra.

O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. por estar para ali a falar com aquele carrasco. ninguém! Parecia terem esquecido o preso.. tantos que tinha alucinações tremendas. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”.. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento..” martelava-lhe o cérebro doído. Nem o chefe-de-brigada.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. impedido de dormir há muitos dias. faz ultrapassar o período de fragilização. Por agora as dúvidas foram vencidas. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. não vou!.. O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. ─ Cale-se! Cale-se! 218 .

ligados ao Partido Comunista. Passava largamente da meia-noite. quando a revolução esmoreceu). (inspector. em Alcântara. comprometido.. quase euforia. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa.. por não ter arranjado melhor!.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. há muito que acontecera a rotação do “moinho”. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. Calou-se o agente de cara redonda. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. chefe-de-brigada. Facto curioso. vamos buscá-la para esclarecer. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. segundo dizia. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. (mas ficaram quase todos bem na vida.. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. SEIS. O preso sentia outra vez uma enorme excitação.. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 . com a entrada triunfal do inseparável séquito. anos mais tarde. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa.

não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. não posso!. aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês.. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 .” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. a aprofundar a angústia dilacerante. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão. pavor. pela impotência perante a situação.. subindo pelo peito até ao cérebro. misto de revolta e de desalento. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. Que dia seria hoje. ─ Se os documentos não são seus.. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira..vontade. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império. Nascia um estranho sentimento novo. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. Raiva. manhas experimentadas da polícia.

Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . já lhe disse! Se insiste. o “vaidoso” e o “atarracado”. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. Apetece-lhe vomitar. A respiração pela boca torna-se ofegante. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela..papel sujo. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. entrado a meio da tarde. O detido já não liga às provocações. a investigação ia no “bom caminho”. ─ Comigo. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. sob constantes ameaças dos pides. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. desritmado. a tortura do sono ia continuar. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão.. desfaço-o a pontapé!”. Sem cadeira para se sentar. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. O inspector Tinoco retirara-se impante. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. O preso caminha encostado às paredes. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. eu logo lhes dizia!. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. como você. julgando-a mais distante. há muito perdera a perspectiva tridimensional. bate desamparado contra a parede. em pé horas e horas a fio. os comunistas de merda.

corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. Sim. Sentia-se verdadeiramente mal. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”. Muito tempo depois.. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura.. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. não tem o traquejo dos “duros”. Estava sinceramente assustado... ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo.. Ah! Se pudesse saber que a companheira. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico. firme e 222 .O pide agressor ajuda-o a levantar-se. Não há milagre. mas com os pés cada vez mais inchados. já meio recuperado. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. claro. hoje celebrados como heróis. ─ Sofro do coração. Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico. a família!. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro.. gente de excepcional coragem.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros.. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. a confusão. talvez. é ainda um homem novo.. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. mas nem todos tinham essa fibra.

. ontem ao 223 . chantagista. poupando energias. facínora. ─ Então. Não tardou de facto. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. embora verdadeiramente ameaçada. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico.determinada. torturador requintado. criminoso. Devido ao cansaço. fascista . até porque na altura outros apoios foram recusados. hipócrita. com o ar mais angelical do mundo. nazi. canalha. o “senhor inspector”. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco.. carrasco. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. Na tarde do 6º dia. por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada. tinha obtido do “seu” médico e amigo. jamais olvidado. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. ─ Sofro do coração. torcionário. mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.

com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa. não dizia nada. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. estava atrás do chefe pronta para saltar. trago um médico comigo!. “unha com carne” com o director Silva Pais. gritos de mulher!. Até o agente de serviço já não implicava. Descalço. o peito sufoca.. sem interferir. parecem-lhe gritos familiares. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. o coração desritmiza-se. ouvem-se gritos humanos lancinantes.. mas não estava”. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . Já não conseguia levantar-se.serviço de Salazar e agora de Caetano. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. com esgares de riso. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler. Este pensamento produz uma angústia terrível. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva.. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. e se for preciso. : “Prenderam a minha companheira!”. De repente. a qualquer hora do dia ou da noite. a olhar interessado. O torturado levanta-se em grande sobressalto. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira.. A matilha de macabéus e hienas. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos.

Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. 225 ..─ Não está a ouvir? São gritos. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. O pide de serviço. sem sol (ou ainda não terá nascido?). abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede.. A PIDE aceitou a história.). frio. nas longas fases depressivas. contra o que era habitual. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. cinzento. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. Muitos. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. uma história de comunista já assumido. Ganhara forma no cérebro.

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. repartido por várias sessões. defenderam em tribunal. A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. amigos. antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. a título gracioso. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. Sobre estes causídicos. entre familiares e amigos. milhares de portugueses. saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias. corajosas. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . Das primeiras. houve intervenções brilhantes. fazia-se de propósito em voz alta. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo.

não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!.. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência. quando foi apertado como testemunha de acusação. Riram de forma alarve. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. pelo doutor Manuel. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. anafado e exibicionista no fato de fantasia. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. seco de carnes e cenho ruim.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. caso raro.. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. durante sete dias e seis noites sem dormir. As alegações iniciais e finais do réu. com o Carlos e o Pedro. fingindo ignorar o detido. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. mas falando em voz alta e explícita. O próprio juiz o admoestou. 228 .

com permissão do juiz. ─ É fácil comprovar. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. que lutavam pela liberdade. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. ─ agora era o acusador público... a sentença constituíu uma pequena vitória. era rancoroso.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. na sala de interrogatório!.00h do dia 23 de Dezembro. onde eu nunca tinha estado antes. O fascismo. com uma pena de prisão remível a multa. Embatucou o procurador do Ministério Público.. senhor doutor! Nos registos da TAP. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas. a interromper o réu. Nos registos da prisão-sul de Caxias. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. Costa Saraiva. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. 229 .. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. às 16. há-de constar a minha entrada cerca das 20. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. Ao fim de três sessões. proveniente da Beira.─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa. além do mais.

Fernando Fragoso. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. Conduto e Pimenta. Hélder e Ventura. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. Eugénio Torres. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. Maia. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Suzel. Manuel Felizardo. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. tal era a acusação. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. Zaida. Vicente Bolina. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. 230 . fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. os amigos José Lucas. No mínimo. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. José Caria. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. ficarão registadas para a posteridade. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. O apoio necessário vinha da família. Eduardo Fernandes. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados. os antigos colegas Baptista. Os colegas de escola e também dirigentes associativos.

a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. cidade dormitório às portas de Lisboa. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. AMADORA. a reflexão. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. vê logo o quartel. o estudo. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. em rápida expansão. onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. aplacando a angústia e educando o espírito. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. não há 231 . ─ Bom dia. quase vazio no início da manhã. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. organizado..da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. disfarçando a saudade. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. Desfazendo por fim o ar de admiração. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final. que encheu o dia-a-dia. fraternal e dinâmico.

o batente de ferro da casa térrea... era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. na Amadora. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. mãe e madrasta. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui .. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. com caras de poucos amigos. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973. adivinhando a má nova e o destino ruim. situada numa magnífica frente para o rio.. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. ─ Deixe estar. o desemprego na grande indústria. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. indicada no 232 . ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. o rio era um espelho plano e calmo. A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. Um cabo e um praça da GNR. indiferente aos dramas dos homens. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. bordado a ouro e esperança de melhores dias.

─ Entre.. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade.. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. ─ Sabe?!.. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa... Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. se tinha levantado para o receber. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. oficial do SGE. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. O capitão Luís.gabinete do oficial-de-dia. ─ Andamos à sua procura há oito dias. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. Não queremos criar problemas a ninguém. ─ Processo disciplinar. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. tudo era diferente naquele homem de idade madura. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. a humanidade com que lidava com os 233 . entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. era preocupante e inabitual. até aí conhecidos. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. é um cepo redondo com dois olhos. já fui julgado e condenado em tribunal!?. gordinho como era da praxe. João ficara perplexo desde o primeiro encontro. esse cretino!.

O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. também com um problema militar complicado por razões políticas. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. 234 . gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. embrulhado em “maus lençóis”. gerava uma nova expectativa.. intuía com reprimida alegria na alma. formado em Direito. Todos os dias desde a primeira vez. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. deixava os interlocutores espantados. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu.. repetia-se ao princípio da manhã. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. ─ Eu sei.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo.

. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço. mas não se comia nada mal.Não tinha. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. Tomara eu!. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. tristezas e expectativas. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio.. 235 . ando a pagar viagem a viagem!. o que. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. não constituía dificuldade. * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. deu para partilhar mágoas e esperanças. furriel “estacionado”. para quem tinha um curso de engenharia. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. ─ Parte do jardim em frente ao Comando.. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa..

então não vale a pena perder tempo. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. ─ Bom! Ainda está muito quente.. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português. fazia a encomendada inquirição com zelo policial.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra.. foram obtidas sob 236 . em Dezembro de 1971. se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação... ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. redondo de aspecto e de alcunha. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. indiferente e surdo aos argumentos do inquirido.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE. damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. deve ter sido complicado!?.

Depois chamo-o para assinar. O horário é para cumprir. ─ Isto é um veículo militar. já o mês de Julho ia avançado. senão tem faltas injustificadas. não é um transporte público. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. sufocava-se no interior da camioneta. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. Por mais de uma vez. Os documentos apresentados para assinatura. nos dias tal.tortura. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. o processo-fantoche. estivesse. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. dando como provadas as acusações. ─ Só mais um minuto. se sentara num banco traseiro. porém. Era curioso. Não ficaria por aqui. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. ─ Quem não está. como mandavam as regras tropeiras. Isso não pode recusar. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução. Certamente por isso. e tal. falta um companheiro de viagem.

Ex. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. na secretaria dos “Adidos”. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã.o compasso de espera solicitado. o furriel miliciano. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. Acácio da Silva”. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. ruivo e sardento. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. pelo contrário. ª. onde costumava aparecer o jovem de média estatura. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. seco de carnes e de sorriso franco. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. o “chefe da viatura”. Era um estado dentro do Estado. com a conivência do militarismo reaccionário. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. a PIDE/DGS. por determinação de S. é furriel! Qualquer coisa da Silva. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!. casado há pouco tempo e aqui preso!. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. ─ A doença dele é outra. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração.... até já cortou os pulsos para se matar!.. mostrava-se loquaz. mas num domingo foi aí uma barraca. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então. ─ Ao princípio era um moitão de visitas. e o moço de bigodão negro. ─ Foi o bom e o bonito.. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. mas o alentejano não se deu de achado. Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. ─ O tipo está doido varrido. 246 . ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada.... a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. tentou esganá-la. desatou aos pontapés às cadeiras.

onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia.─ Então a situação é grave. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. se tinha suicidado na cela. outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. tem de se compreender. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. ─ Pois sim. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . sempre a caminho da enfermaria. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. A notícia surgiu brutal. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos. fundado em colaboracionismos vários.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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da filhinha! Prometo que voltarei. 255 . talvez mais cedo do que tarde!...

velhos conhecidos. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas. homens. sacos. malas. 256 .A LENDA 9. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos.

. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. 257 . grupos barulhentos jogando às cartas. como gado para matadouro. O camião carregado de soldados. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão.). pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. cruza-se outro camião com soldados a granel. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos. esfumou-se na distância e na poeira da estrada.. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. Beliches a cinco de altura. ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal.. o “canhão” esperava a carne fresca. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. Algures. gente deitada semi-nua. sobre as preocupações com a mobilização iminente.. que para aquele lado era de terra batida. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado. Encostado ao taipal. ─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo.

acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. paleio animado e boina na mão. rua abaixo direito ao centro da cidade. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . se não houver problemas com a saída!.. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão.. que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. que por perto ouvia a conversa.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. moço alto e magro. nossos soldados? ─ Desculpe.. isto é um país em guerra. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. ─ A vossa identificação. ─ Se calhar vou contigo. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”.. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. falta de hábito!.

“ólhó” macacão! ─ comentavam à saída... pá! ─ Não te metas com esse gajo. sem braços ou sem vida. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna... o “chico” barrigudo quer poupar na comida. ─ Há aí vassouras e pás. entretanto voltou de avião para a metrópole!. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. ordens do sargento! Resmungando e refilando. é um exagero!. sem pés. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. lá foram saindo os magalas mal ataviados.. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. limparam. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. mas sem fim à vista. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. algures naquela guerra oficialmente já ganha. ─ Isso deve ser história. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. Devem vir fardados. tecendo laços de solidariedade circunstancial. também não a pedi nem a desejo! 259 ..de colocações e a escala de serviço. não deve ser limpa há um ano!. O resto do tempo podem ir para onde quiserem. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!.. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula..

pelo contrário. característica daquela região. Os homens ocupam-se da máquina militar. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico.. Na conclusão da empreitada. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. veículos militares correndo pelas ruas. com uma eficácia muito baixa. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. As vivendeiras. assim se chamavam.. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. que consome enormes recursos da Pátria distante. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte.. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. com o sol nebulado e uma humidade elevada.. e a economia da região sobrevive do conflito. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. ─ conversava-se à mesa do 260 . porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. pois a guerrilha não diminuiu. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada.Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. elogiando o trabalho feito.

quase não há serviçais do género feminino. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. Têm inúmeros criados pretos. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. a 261 .. Passam carros de boas marcas com condutor militar. Longe dos teatros de operações.tal como sufocava o calor de Dezembro. a fim de conhecer tanto quanto possível. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas.. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda.. falam mal o português. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. Também alguns milicianos trouxeram a família. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. a história da terra moçambicana.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando.. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”. Esta “chicalhada” irrita. Ganham uma bagatela. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. o militarismo sufoca! .Café Central no fim da tarde quente. mas têm comida certa: ─ António. não sabem ler nem escrever.

com bons conhecimentos. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. A sua formação era claramente conservadora. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. Nem vou. viam-se grandes embondeiros. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. à beira do milagre da “tomada 262 . a perder de vista.. que não se vende em Portugal. Quando se saía da cidade. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. deixavam-no intranquilo. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. e aos industriais de refrigerantes. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. onde tudo era demasiado no estilo europeu. protegidos pela lei do condicionamento industrial.. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. ─ insistia o jovem bem parecido. oriundo da burguesia alentejana. a prestar serviço nas “Informações Militares”. quartel-general da guerra. Uma planície de cor castanho-avermelhada. e potenciando o vício pela bebida americana. porque Salazar não gosta muito dos americanos. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. ao fim do dia.

revelando a comum ascendência asiática. acreditava na justeza deste conflito. Pelo que tenho visto. Para o mais distante.de consciência”. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos.. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. Não tardam aí melhores dias!. * No caminho de regresso ao “bairro militar”. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. muitos sacrifícios e muitas vidas. mais depressa os homens que os montes. já tinha a chave. ainda que tal custasse muitas angústias. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. deixam gente de pele escura. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. Ia para dois meses. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. Automóveis de boas marcas. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. réplica da arquitectura europeia. 263 . ─ Quando vim. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo.. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. Prestes a mudarem. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”. entre silêncios e goles de mistura fresca.

Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. o movimento à porta da mansão!. ─ Ah! Então era isso. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. como na gíria é conhecida.. Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África. com as leituras ou as idas à biblioteca. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. À noite. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . no Golfo Pérsico. a servirem como desabafos da alma. com o infelizmente célebre.. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. se notava um grande sossego. O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. normalmente. O descontentamento emergia. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. chegavam famílias inteiras. por bastante comum. Estavam muitos orientais. na Índia e até na China. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. nas tardes de idas e vindas aos Adidos.

A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. “Os brancos antigamente eram peixes. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. Esta é uma lenda do povo maconde. nunca mais deixou de nos tratar mal”.. em 1918. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. começou a fazer-nos sofrer muito. A etnia maconde. internando-se no mato.. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . habitando o Norte de Moçambique. possuía um carácter forte e indómito. se furtava. 265 .gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. Os pretos cuidaram dele até crescer. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. no remanso da biblioteca municipal de Nampula.. nos princípios do século XVI. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. viviam na água.. que encontraram sempre forte resistência. Datam do século XX. a que o povo das tatuagens e dentes limados. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. e se ele o dizia. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. Durante a I Grande Guerra. E desde então até hoje. entre os rios Lúrio e Rovuma.

no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . escolas sem alunos.”Batalhões sem soldados. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. em 1878. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. em 1889. alunos sem escolas e sem professores. fronteira à ilha de 266 . da costa de Angola à costa de Moçambique. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. A nova expedição de Serpa Pinto.A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. em 1882. confinando os limites do território moçambicano (e angolano). Este último escreveu o livro “Mozambique”. No início do século XX. de traficantes e de entidades coniventes. “de Angola à contra-costa”. no Sul. Em 1895 e 96. em 1885... e de Capelo e Ivens. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. doentes sem hospitais. hospitais sem médicos!”. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar.

criada em 1894. Lúrio e o lago Niassa. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas.. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. e o cultivo do algodão e da borracha. a norte. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 . correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. são finalmente controladas (oficialmente. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. a Companhia de Moçambique. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. que iam completando a ocupação militar. entre os rios Rovuma. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. a Companhia do Niassa.. procedendo à exploração mineira nesta área. com capitais metade ingleses e metade franceses.Moçambique. ferro e ouro. com capital inglês e francês. criada em 1888. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save. em 1879. numa série de campanhas iniciadas em 1908. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros.!). submissão das populações e pilhagem dos recursos. tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia.

Já a Companhia do Niassa. subindo para 2 mil no início do século XX. fundamentalmente para Angola. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (. foi criado o primeiro código do trabalho. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. na sua área a 268 . Por outro lado. que funcionaram até 1942. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. o porto e o caminho-de-ferro da Beira. sua sede.. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. nunca teve grandes resultados. Em 1878. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano.. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. não se mobilizavam voluntariamente. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência.país colonizador. ao seu sustento próprio”. entre pessoal militar e administrativo. aumentando para 20 mil em 1926. conseguiam um tráfego internacional crescente. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. No período de 1910 a 1923. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. Ou seja. muito depois da abolição oficial da escravatura. mantém-se o regime de trabalho forçado. ao abrigo desta lei.) está sujeito. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados.

ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. tinha em 1925. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. o esforço português de colonização efectiva. já do século XX. milho. tinha 30 mil habitantes e a Beira. Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. oleaginosas (caju. destinados à exportação: algodão. França. todavia. chá. Holanda) estava em declínio. cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. mandioca. copra). sisal. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. atinge 20 mil. mesmo nas suas próprias terras! 269 . 1500 habitantes (só 50 brancos!).penetração europeia era mínima. criadas por decreto obrigatório. Bélgica. segunda cidade. no Centro e no Sul do território. É muito recente. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. Porto Amélia. e nunca foram construídas vias férreas. No segundo quartel do século XX. a capital. amendoim. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. em 1925. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. assiste-se. canade-açúcar. Alemanha.

cultivava 45% da produção algodoeira total. fundamentalmente para Portugal. a mais importante açucareira da colónia. do Niassa e de Moçambique. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. que cessaram a actividade por volta de 1942. criada em 1921 com capitais ingleses. constituída em 1948 com capital luso-belga. Presente desde há muito. Curiosamente. originariamente para a exploração das minas de Moatize. em 1945. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. a que se 270 . Companhia de Algodões de Moçambique.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão.. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras.. Inglaterra e União Sul Africana. pertencente ao grupo Champallimaud. Além das referidas Companhias do Zambeze. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. Sena Sugar States. que assim funcionam como mercado protector. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. perícia. No caso da exportação de algodão. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. concessão feita a capitais luxemburgueses. e em particular com o capital britânico. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial.

etc. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército.associaria o grupo Melo. se auxiliam. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. metade do total. incluindo: 400 mil emigrantes. desmentida desde 271 . a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante.. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. no período áureo do chamado Estado Novo: . O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores. também presente na indústria dos óleos. sejam quais forem as suas diferenciações. irmandade dos povos que. 520 mil contratados do algodão. se cultivam e se elevam..“No meio das convulsões presentes. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. em 1943.. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. Em complemento.

em 1950. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus.6 milhões. e as escolas elementares das missões católicas. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. dez em 1825.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. à data dos inícios da guerra de libertação. espalhados ao longo da costa moçambicana. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que.5%). em 1960.sempre pela escassíssima presença portuguesa. ano da publicação do Acto Colonial. asiáticos e “assimilados”. 1. no século XVIII. traficando em escravos. Da mesma forma. Todavia. três ou quatro nos finais do século XIX. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. em decréscimo) num universo de 6. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário. organizadas em ensino primário e liceal. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). ou seja. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. com a política de “fomento colonial”.

pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração.território colonial. subjectivamente.). O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. confluindo no desejo independentista. 95% da população africana se encontrasse na 273 . Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. Não admira pois que em 1960. Mas apesar do Estado pagar aos bispos.. pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e.. fomentando o espírito nacionalista latente. padres de Verona. “Não é mais que um método de domesticar o indígena.. padres de Burgos.. sobretudo depois da II Guerra Mundial. educar.. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. etc. Por este tempo. ao arrepio do ensino do Português. nacionalizar e civilizar a população nativa”. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. liberta o europeu do seu medo pelo africano (. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. reflectindo a miséria da missão colonizadora. 1970).

mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). a Lurdes.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime.. o Santos. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. Craveiro Lopes. como na afirmação do Presidente da República.. o António. ). havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. ok?!. quando começar a luta de libertação nacional. disciplinando os seus instintos rudimentares”(.. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. o Fausto. 274 . o Muradali. os Casimiro. o Castro. são gente boa.. o Ivo. A humilhação permanente da despromoção. A colónia funcionou até 1960. o Monteiro. o Melo. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo. em 1956. Precisas de te distrair! O Carlos. a Lena. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”.

sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que. por isso te despromoveram e te castigaram.. que até nem foi extraordinária.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. sempre muito sensível. muito apertado pela PIDE em Caxias. este tipo é incrível. atravessado. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam. é mais uma questão de integridade. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. Ciclo do COM. cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!. como morto. arrostando sozinho as penas da insubmissão. ─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. entretanto a revolução. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia.. ─ Não é tanto uma questão de coragem. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. ─ questionava a esposa. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos. estava um negro deitado na estrada. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. A seguir a uma curva. 275 ...

─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. O tempo não pára.. ─ Nunca foram referenciados! A não ser.. me dá vida. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos.. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa. se estivessem aqui comigo!. ─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta. a minha luz. tu ensinaste-me a viver. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. cada vez maiores. sim! Com dezoito meses. Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. carregada pela angústia da separação física. De vez em quando vou tendo notícias. felizmente. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito. Estão bem.. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo.. O mais custoso é a separação. mas nós havemos de vencer haja o que houver. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. por isso tu és a minha vida. (.. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo.

a nossa ligação temse fortalecido. Por outro lado. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! . que faz amanhã 18 meses. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos.. diz o nosso fruto pequenino. O “carocha” quebrou o transe emocional.. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. (.. Como disse um grande poeta.) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. não sei se aguentaria. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. o amor constrói-se também com sofrimento. durante quase seis meses. o casal ainda não tinha filhos.criaram. ─ uma carga de trabalhos. e agora?. Nós esperamos por ti. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha.. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias.. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil.. amor da minha vida”.

havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal. natural da cidade-quartel-general. as de jovens oficiais do quadro. Juntamente com outros dirigentes estudantis.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais.. concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. também ex-dirigente associativo. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique. era um jovem mulato.G. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. onde vinha em luto familiar.G. e de sectores ligados ao general Spínola. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. à entrada. que há pouco.. genuíno. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. foi bastante mais João. no início da década de 70. desassombradamente. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . alto e bem parecido. ou mais uma tentativa de “putch” militar. ─ Um movimento autêntico. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. pelo parente morto em exercício militar. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. em Outubro passado. fora compulsivamente incorporado. também alferes no Q. fora apresentado como Ivo.

para ajudar a acabar com isto. desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. o mulato quase formado em Medicina. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. chegando e partindo constantemente. A casa de família da classe média. os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. falava no assunto tabu. Fixados há muito em Nampula. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. que fazia a interface entre muita gente. trazendo e levando notícias e materiais. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. que não renegavam. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. ─ Como sabem. alimentando a célula da resistência em Moçambique. Se isto dura mais uns meses.

. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não. ─ o jovem Melo. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia.. O julgamento do 280 . Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. Tenho a convicção que o fim se aproxima. assume-se agora do lado dos oprimidos. concitou a atenção dos presentes.. também dirigente académico perseguido. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. ─ a senhora de Casimiro. depois do fracasso das operações no Norte. que venha por bem! ─ Por cá.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. mas creio que já não têm tempo!.. nas escolas!. muito simpática e delicada. mostrara uma insuspeita clarividência. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim. mas se é contra o regime.. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda. ─ Talvez não haja tempo para isso. ─ A própria igreja de Moçambique. nos quartéis.. num fim de tarde africano.. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. oriundo de famílias militares. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento... não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. em plena época quente no Hemisfério Sul.

Sebastião Soares de Resende. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. prevendo e prevenindo o futuro. parte integrante da máquina colonial. é paradigmático do papel da igreja católica em África. no curso do século XX. assumia-se de forma muito mais contraditória. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. o ambiente ganhava optimismo. num contexto de declínio do colonialismo. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. terra de esperança. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). uma voz clara que 281 . Depois da concordata de 1940. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. por orientação do Vaticano. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). Completa esta imagem do século XVIII. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação.

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite.do oceano de águas escuras e algo agitadas. imaculada. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. num “Aviso” da Marinha de Guerra. nada de atrasos!”. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. como gostavam de dizer. ainda acreditavam. Percorridos em visita. tinha uma areia fina de tacto agradável. a praia do “Relamzapo”. a meio caminho da cidade portuária. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. rumo ao Norte. aqui e acolá. A partida é às 20. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. quase escrava.30h. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. Agora na sua senda. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. agarrado às vantagens do passado. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. semeada de pedaços de algas escuras. e. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. os colonos emigrados. duas dezenas de soldados. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. aparentemente descurando o futuro. negros na maior parte. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. cada vez menos. A praia das “Chocas”. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. Na conjuntura actual. de medusas da “Cruz de Cristo”. espraiando-se levemente na areia branca. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. com “cabrinhas” de espuma branca.

─ Desculpe! O meu destino é Nangade. um jovem alferes moçambicano. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!. Tratem-no como se fosse um de nós.. ─ Há poucos dias estava óptimo. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. Num jipe oficial.. logo me contas o resto da história.. Tinha razão o Ivo. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático.bigode sobranceiro. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto. ao jantar. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. Marcelo. impecavelmente fardado. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. estivemos a conversar em casa de uns amigos.. Ele contar-vos-á os pormenores. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”. é melhor não te verem por 290 . o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora. Caíra a noite. também vou?. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. branco.

─ Olha quem ele é!. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo. Antes. és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. à saída. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. já eram velhos amigos. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. em serviço à pista.. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques.perto. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. com o furriel “recepcionista”. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. instruiu o condutor de serviço: 291 .. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. de camuflado. ex-dirigente estudantil.

para onde vai o professor..─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”. Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. Verdes e impenetráveis.. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor . com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. arrasando os nervos.. e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. Diferente. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. parecia ser gente “importante”. a rasar a copa das árvores. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas. pintadas de branco. que passava rapidamente. era uma zona de casas. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. único utente até hoje! Ao longe. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. num vale em depressão. Do avião. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. desde Porto Amélia. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. a poente. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. bem vestidos ao modo africano. com telhados de fibrocimento..

temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. em Porto Amélia.. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. de contornos envoltos em bruma. até se diluírem no horizonte. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde.adiante. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. interpelou-os: ─ Meu furriel. ou talvez mesmo de há muitos dias.. Mais distante. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. ─ Contava-se. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. destoava do verde constante da paisagem. 293 . de madrugada. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. de ataques com foguetes de 122mm?.

confundindo-se à distância com a neblina circundante. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. Em tempo de Equinócio. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. sem vontade. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação.Fim de tarde ameno. porventura. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. a recolha da sopa numa lata de folha. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. sem higiene. Ali na África Setentrional. ao calor escaldante do meio-dia. Por instantes. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. em fila. sem gosto.

É Naschinguyeia. falso alarme. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. ataque? Nada. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. a angústia do afastamento familiar. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. A respiração suspende-se por segundos. Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. caçadores nativos. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. do outro lado do rio. a miséria do rancho. projéctil. o nosso direito e o nosso interesse. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . despejada a eito. o medo da guerra. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. minas anti-pessoal. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. Novamente o mundo sem sons. e o manto escuro caindo sobre o lago. encosta abaixo. em cujas margens coexistem por vezes. Mina.da pátria. Mais distantes. da personagem mal conhecida por recém-chegada. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. crocodilos. em cenas de caça na terra de ninguém.

que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. piscando o olho aos americanos e à NATO. o mito da defesa do mundo ocidental. depois na Guiné-Bissau. no Tanganica. em 1964. em Junho de 1960. holandesas. acediam à independência. Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. quando as ex-colónias inglesas. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. francesas. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. com mais de 50 mortos. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. Franco Nogueira. transferindo-se para Dar-es-Salaam. em 1961. em Abril de 1961. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. em véspera da 296 . Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. um ex-ministro de Salazar. primeiro em Angola. Uma contínua e continuada mistificação. afogou as pretensões num banho de sangue. belgas. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. em 1963 e por último em Moçambique.impérios asiáticos. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes.

Damão e Diu. interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961).União Nacional de Moçambique Independente. tratava-se de um movimento heterogéneo. Como nos restantes casos. em 19 de Dezembro de 1961. futuro grande estratega militar da luta de 297 . começando a derrocada do império colonial português. no Quénia. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. em inícios de 1961. foi criada a UNAMI . independente desde 1958. da 1ª. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. Marcelino dos Santos e Uria Simango. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões. com diferentes sensibilidades e perspectivas. É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. Em Nairobi. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. No final desse ano. em Maio de 1961. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. moçambicanos da etnia maconde. com mais ou menos expressão. No interior de Tete. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. segundo os próprios. A realização em Marrocos.

da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. com um ataque ao posto militar de Chai. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. simultaneamente em Cabo Delgado. Após 298 . unificado a partir do 1º. em 1971. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. primeiro presidente da Frelimo. finalmente. * Eduardo Mondlane. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude.libertação: Samora Machel. e no vizinho distrito de Niassa. pelas tropas em acções de represália. e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos. e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. Ao fim de quase 500 anos. bispo de Vila Cabral. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. capital do Niassa. Congresso em Setembro de 1962. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. O conflito iniciou-se em 1964. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica .

capital do Tanganica. nomeadamente Julius Nyerere. Pascoal Mocumbi. Professor na Universidade de Siracusa. Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. Janette. Por essa época. Tinha chegado a Dar em 1963. em Março de 1964. Instalada em Dar-es-Salaam. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. após uma espectacular deserção. Joaquim Chissano. o tenente Jacinto Veloso das FAP. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. que casara com uma americana branca. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. Leo Millas. só em Março de 1963 se radicou em Dar.breve passagem por Lisboa. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. a Frelimo teve um início de vida agitado. Eduardo Mondlane. entre outros. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. iniciando com Marcelino dos Santos. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. moçambicano de origem 299 . sobretudo pela acção de um negro norte-americano. no extremo nordeste de Cabo Delgado. seguiu Samora Moisés Machel. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. em risco de ser preso pela PIDE. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. um período de grande vitalidade da Frelimo.

branca a juntar-se ao movimento. de passagem por Argel em Março de 1963. Mondlane convidou Helder Martins. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Lázaro Nkavandame. outro moçambicano branco. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. em Fevereiro 300 . Perseguido e preso pela PIDE. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. a funcionar na capital argelina. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. para se juntar à Frelimo. Mais tarde em 1965. comum na região setentrional africana. em Setembro de 1964. O seu líder tribal mais carismático. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. O seu presidente Banda. promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. Também por esse tempo.

Desde o primeiro ataque a Mueda. No mês de Fevereiro de 1965. os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. conta a história do movimento de libertação. verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). a 301 . Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca.de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. onde reza a lenda. a luta alargou-se rapidamente. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. por não terem armamento pesado). base da alimentação. devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana.

a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. que garante a sua unidade interna. ─ Independência de Moçambique. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. total e completa. Foram então nomeados. Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. EUA e URSS. Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. num Moçambique livre e independente. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. e à exemplar democracia americana. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo.

Em Abril de 1966. onde o regime do “apartheid”. ZANU e ZAPU. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. (o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. em Novembro de 1965. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. Salazar fazendo jogo duplo. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. condenada internacionalmente. na Namíbia. Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. É a resposta às forças portuguesas que. Neste contexto. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas. veio complicar o xadrez político na África Meridional. a sul. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. decretando sanções económicas e políticas. em Moçambique. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). em 1967. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. em Moçambique. uma nova frente na região de Tete. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. 303 .colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. na Rodésia.

a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. (ganham dezasseis contos por mês. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. Em Fevereiro de 1968. passando a partir de 1966. no célebre campo de Naschingwea. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim.Na região de Cabo Delgado. alvo por vezes de assaltos surpresa. o padre católico negro Mateus Gwandgere. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa. O movimento moçambicano está já então bem organizado. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . Viveu-se à época deste congresso. Kingwa. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. enquanto um soldado ganham um!). entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. Mtwara. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações).

Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. sem sentido histórico e sem significado real.. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. África do Sul. dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Em Portugal. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. em Dar-es-Salaam. onde vivia com a mulher e três filhos menores. são um imenso caldeirão prestes a entornar. sem um claro vencedor.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. As palavras só têm significado para os 305 . E foi a PIDE.). Moçambique. Em visita às colónias em Abril de 1969. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães. Namíbia.. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. Em Fevereiro de 1969.

coeso e organizado. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. para comandante-chefe. respectivamente. um dos fundadores. sacrifícios extremos. e. em Maio de 1970. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens. A história e o tempo jogam a seu favor. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. sangue. crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. O movimento de libertação está mais forte. morte. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). um militarista ultrareaccionário. é eleito presidente Samora Moisés Machel. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. em Moçambique. custou esta 306 . No dia 1 de Julho de 1970. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. para Angola e Moçambique.

a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. na acepção militarista. muitas apreensões de armas. 307 . Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. pomposamente exibidas na RTP. também houve muitas vitórias. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). milhares de combatentes. o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. de centenas de estropiados. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. dinâmica. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. bem organizada e com uma forte retaguarda. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. Praticando o extermínio por onde passava. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses.

finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso. prometendo acabar com o “terrorismo”. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). Como resposta. a fingir de refeitório.). com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas. Aguardavam os restos garantidos da refeição.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). O conflito colonial em Moçambique. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. 308 . porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. crime (milhares de mortos civis e militares). derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). diria outro retinto situacionista. montada debaixo do grande embondeiro. afundaram-se em ignomínia (condenação internacional).. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973).. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. ficou-se pelo quilómetro vinte!. o ministro do Ultramar. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. Silva Cunha. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra.

─ E o pai?. Lava. Quatro. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos.. Como te chamas? ─ João. 309 .. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. com as suas tatuagens características. sinhô! ─ desviou a cara. de carapinha escura. dez escudos por mês! Vive com a mãe. oito ou nove anos. Alguns já tinham comido sopa do rancho.. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”.. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?..entretidos em brincadeiras de ocasião. sobretudo os da “fofoca”. passa a ferro e não leva caro. eram raros os garotos vindos do lado maconde. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”.. cinco anos. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. que também está de partida. ironicamente baptizado de “chispes de sargento”.. ─ Então não conheces a história? O pai deste. precisam de ajuda!. Vinham quase todos da aldeia macua. o pai morreu na guerra. outros nada.. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa.

três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”... consta que ele é casado na metrópole. aflito com o rumo do negócio. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. ─ É a Teresa! Não te dizia!.─ Curioso!. de forma menos tradicional. repuxada pelo filho mais pequeno. mas com paredes rectangulares de madeira. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. que está nos GE´S. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. com telhado de colmo como as outras... em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!. transportado às costas como era uso. e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”.. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.. ─ Pois é. caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. radiante na sua prometida função de cicerone. mas parece ser ela a não querer ir! 310 .

consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. em terras de mistério e desgraça. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor.João estava tentado a corrigir o vocabulário. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. Gritava de modo incompreensível à distância. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. ou porventura devido à língua entaramelada. qual dono de escrava. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro. com um fardamento esquisito. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. sempre a gritar e a gesticular. “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. na África sedenta de liberdade. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. Já escondido. mas achou prudente não se manifestar. magro. em genuíno desabafo de revolta. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. calças pretas. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. a metrópole era Portugal. só perturbada pela desgraça dos homens. ─ O furriel tem andado desorientado. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave.

312 . Notava-se pouca actividade. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. ─ O homem está com ciúmes. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça. visivelmente amedrontado. mas nenhum queixume. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. cor amarelenta e barba mal escanhoada. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. onde este tipo de assuntos era mais propício. O “negócio” era do lado da aldeia macua. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde.. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. obrigado! Tenho outras preocupações. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. cercado de arame farpado e minas. Os homens deviam estar a descansar da guerra. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas.timorato o rapaz de estatura baixa. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa.. A cena degradante repetiu-se à porta da casa.

Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo. e por isso hesitou 313 . já os tinha mencionado. Só não sabia. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. O cabo Carlos. a sua comissão fora penalizada em três anos. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. não seria muito prudente. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. Se é que essa seria a “estória”. A frase soava ordinária. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética. como degradante era todo o ambiente da guerra. Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo.. Nas circunstâncias. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. ─ Logo se verá. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. ─ Porque se sujeitará Teresa. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. onde já anoitecera.. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. não há pressa. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. ocorreu à imaginação do soldado castigado.─ Há lá velhotes porreiros. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso.

se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos. ─ Isto é uma guerra. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. caramba. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. 314 . o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. sobretudo.calado e pensativo. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. raramente encontravam alguém da guerrilha. na perspectiva de descerem para Sul. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona. os homens estão muito desgastados. gerava uma enorme frustração que. era que de há anos àquela parte. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. ao fim de um ano de “trolha”. a raiar a exasperação e a revolta. somada à saturação de sucessivas saídas e. criava um estado de espírito muito negativo. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. à enorme angústia pelos mortos. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. A hipótese de não rodarem. Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações.

caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. O movimento nacionalista. contra o que chamavam. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. Armando Panguene. Sebastião Mabote. sob o comando supremo de Samora Machel. caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. José Moiane. entre outros. Mariana Pachinwepa. único do povo moçambicano. militarista e reaccionário. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. “travestida” de serviços de informação militar. a relativamente inepta tradição colonialista.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. por um comando supremo todo poderoso. Osvaldo Tazane. Alberto Chipande. Monica Chitupila. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. eram os outros 315 . Filomena Nashak. Raimundo Pachinwepa. Em contrapartida. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. Bonifácio Gruveta.

nos confins de uma África inóspita. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. A sorte da guerra estava traçada! 316 . por milhares de manifestantes. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. “A fogueira do guerrilheiro”. Grupos de soldados portugueses. em português.vectores fundamentais da situação político-militar. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista. em Julho de 1973. ensanguentada e sedenta de liberdade.

11. NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .

OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. atenta e preocupada com os ventos da História. no dia 1 de Janeiro de 1969. 318 . apostólicos e romanos”. por oposição à guerra. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. em protesto contra a “política ultramarina”. da diocese do Porto. MPLA e FRELIMO. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. Diminuía a base social de apoio ao regime. Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. Dia Mundial da Paz. muito “católicos. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. Felicidade Alves. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. e em Portugal. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. em Lisboa. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. Domingos. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. durante a campanha para a Assembleia Nacional.

no 1º turno de 72. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. No início da década de 70. protestos na parada. no 3º turno de 72. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. organizada unitariamente. “Não jures camarada!”. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. entre outros. arrancados às escolas. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. Vendas Novas. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. em 1971. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. na organização da resistência e do combate internos. embora negando os factos. Tavira. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português. “Levantamento de rancho”.. “Alerta camarada!”.. nas escolas. Santarém. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. e os Estados Unidos. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. no 4º turno de 1971. nos quartéis. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques.. dentro do “ninho de víboras”. ameaçando:. publicado nos princípios da década de 70: .. e outros mais No panorama internacional. Santarém. Tavira. em 1971. 319 . ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. em 1972. Lamego. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”.

para breve. da independência da Guiné. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. Na Guiné. Entretanto. o Conselho de Segurança da ONU. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. a proclamação. ainda que por novas vias. encontra-se. ao perceber o fim inexorável. como resposta a agressões vindas do exterior”. Guiné e Moçambique. com o objectivo de “legitimar a guerra. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. Enquanto isto. próximo da fronteira. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. No essencial tudo fica na mesma. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. Mas a luta de libertação está muito avançada. O alcance da iniciativa é inteligível. Ainda assim. e em Abril. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. com Leopold Senghor. o combate não esmorece e. em Outubro de 1972. os 320 . o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. António de Spínola.“ajustando” a estratégia. Em Outubro do mesmo ano. em Março de 1973. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC.

reparando rádios e antenas. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. que Marcelo Caetano. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. não pode satisfazer. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. que a guerra de libertação é invencível. havia o “inimigo interno”. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. Quanta gente. no entanto. perigosamente de terra em terra. organizadas como um “exército regular”.. percebendo finalmente. Havia o In. empenhado há tantos anos na luta pela independência. fartos de guerra e do militarismo fascista.“Strella”. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. derrotado. numa zona libertada. Um mês depois. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. o PAIGC proclama em Madina do Boé. as forças guineenses combatem por todo o lado. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. em aumento crescente. em Setembro. a independência da Guiné. ficaria ainda ferida ou estropiada. conversando e trocando novidades. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. Spínola. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis. de aquartelamento em aquartelamento. acossado. todos aqueles que iam 321 . em Agosto de 1973. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. KAIOMBE DE JIMBE. sem nunca o confessar abertamente. A guerra entrava numa fase derradeira.

. Além da agricultura de subsistência. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. Mas ainda havia quem. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. furriel. arreando forte na besta. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. procurasse puxar a “carroça”. foi só um desabafo. carroça mal puxada! revolta-se!. Já se sabe o resultado. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente. – Bem. besta contrariada... na vila de Jimbe. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. pertencente ao subsector do Cazombo. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS. nos princípios de 1974. na Região Militar Leste. Não era mau rapaz o furriel. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. por serôdias convicções ou por maldade intrínseca.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). bem. Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. mas como muitos outros..

embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. os chamados “flechas”. Afinal. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. agradado com a tarefa. Devia ser problema na antena. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. trabalhado na feitura de peças artesanais. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. onde aquela estava montada. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. o problema não era do rádio propriamente dito. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa. com duas ruas paralelas.. onde vivia pobremente a população indígena. era uma realidade também em África.e políveis. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 . que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio.. com frequências próprias. – Venham comigo. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância.! – o furriel. solicitaram a reparação. – Esperem aqui. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local.

o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. tinha por desporto nos interrogatórios. mas suspeito de apoiar o MPLA. completamente expostos aos elementos. 324 . rumo à África do Sul racista. apagar os charutos no corpo dos presos. alegadamente à caça. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. o agente António Camelo. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. ficaram a saber que o chefe do posto.jovens militares estarrecidos. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. Casimiro. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. Trindade. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. autênticas jaulas de guarda-bichos. solicitado para outro qualquer assunto. Vaz. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. participante na invasão do solo angolano independente. De volta ao quartel. e outros. momentaneamente. que deviam doer horrivelmente. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. Alguns meses depois o pide Camelo. apanhado no mato pelos “flechas”. Perturbados e confundidos. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. com as O pide da retirou-se antena. Lontrão. No caso vertente. Laia. causando-lhes horríveis queimaduras. de nome Kaiombe. tratava-se de um habitante da zona. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. ou no célebre batalhão “Búfalo”. Morreu passado pouco tempo. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas.

têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. Neste sentido. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. Essas vidas poupavam-se. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. porventura numa escala muito maior. ou reforma dos ex-combatentes. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar.. que em África. perseguiu. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. como em Portugal. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. da revolta activa de muitos milicianos 325 . se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. e as de dezenas de milhares de autóctones. prendeu. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. A situação de tensão decorrente da guerra interminável.. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África. Significa que entre nós o crime compensa. guineenses e moçambicanos.Face hedionda do sistema colonial fascista.

conservadores e liberais. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. entre ultra-reaccionários. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. em Julho. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Dezembro de 1973. – Em 1 de Dezembro. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial. em Óbidos. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. o general fascista não parava de conspirar. – Por esta altura. mais meios logísticos. com mais homens. António de Spínola. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. composta por 19 elementos. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa. futuro militar de Abril. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. Regressado de Moçambique. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. embora unidos no essencial. – Em Fevereiro de 1974. homem da sua confiança pessoal. como ministro do Ultramar. o general derrotado na 326 . cada vez em maior número.

em directo. publica o livro “Portugal e o Futuro”. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. convidando-os. Pátria. os oficiais-generais. Vinha de um retiro no Buçaco. reúne-se em Cascais. em vão. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. o “Movimento dos Capitães”. 327 . estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. Costa Gomes e Spínola. para reflexão. O professor fascista “demo-liberal”. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. para todo o país. a chamada “brigada do reumático”. a assumirem o governo. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. A “coisa” está para breve. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. – No início de Março. reafirmando a disposição de não ceder em África. Família. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. transmitida pela RTP.Guiné. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. – Nesse mesmo dia. – No dia 5 de Março.

greves na cintura industrial de Lisboa. meu sargento. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. com as missivas dissimuladas. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. Desta vez. – Deixa lá a guerra. animadas pelos comunistas. em trânsito ocasional. e prisões. grande dinâmica unitária do movimento CDE. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. “Portugal e o Futuro”. em fins de Março. no regresso de férias. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. O velho sargento. solidários. Caetano.. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . naquele promissor Março de 1974. livro de António de Spínola. amor e esperança. o sargento-ajudante “Mafra”. divertido e perspicaz. – Cartas de amor e guerra. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura.. chalaceara à partida. Os amigos. com frequentes “extravios”. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. a cachopa precisa é de palavras carinhosas.

. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. denunciados ao mundo pelo padre inglês A.. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação...(. Margarida.) Amor querido. Não foi ainda!. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua. Hastings.... que custara três comandantes (um capitão miliciano morto. depois de castigo disciplinar).). sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto.) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. com um enorme impacto 329 .. como costumas dizer”(. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. Mais cedo do que tarde.. em Julho de 1973. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. apesar de inconsequente. refere a coragem dos revoltosos.. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. INHAMINGA A SUL. (. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.

sempre a alinhar! – Boa sorte. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. acompanhados por dois cineastas e um repórter. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio.. amigo. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira. é palco de uma crescente perturbação subversiva.. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973. para onde a companhia independente tinha rodado: (.) “Afinal tinhas razão amigo. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias).. Oficialmente configurava uma acção por focos. esta zona onde aquartelámos. Algumas semanas depois. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. era ou mato ou morro. 330 .mediático. no caminho estratégico para a Beira. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. Havia notícias desde Julho de 1972. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. A situação é deplorável. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote..! – Nada que se compare com este inferno. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”.

trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. A tropa regular. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. iria assistir e nalguns casos participar. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. lançava o pânico. onde o terreno estava relativamente “livre”. Entravam e saíam carros civis e militares. São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. torturando e eliminando patriotas. Estas denúncias referem milhares de 331 .mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. vinda da guerra no mato. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. Nos últimos dias de Julho de 1973. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. A sanha perseguidora. em autênticos massacres. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. em Tete. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. Depois do Verão de 1973. nas hostes colonialistas. massacrando ferozmente populações. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. prendendo sobas e régulos.

nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. como na localização das bases Nampula. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. conveniência ou por convicção. a alta hierarquia militar.mortos. revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. adivinhado naquele início do ano de 1974. e nas Colónias. geralmente odiada. Gungunhana e Moçambique. originando dezenas de milhares de deslocados. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. por cegueira. terem essa atribuição). atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. 332 . mesmo depois dos seus rotundos fracassos. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. com homens de “antes quebrar que torcer”. durante a operação Nó Górdio. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. No estratégico caminho da Beira. pela PIDE. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”.

“Strella”. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia. azuis. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira.. em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. da Namíbia. de 19 a 22 de Abril de 1974. amarelas. padre José de Sousa àquela área. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. A explicação não tardou. O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. do Brasil. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. significando tratar-se de militares de patente elevada. a norte de Moçambique. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação.. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante... Mesmo tendo diminuído as 333 .. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. incluindo aquele. – Têm fardamentos bonitos!. dada pelo chefe da secretaria. De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. cinzentas e verdes. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa. – São “patentes” da África do Sul. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!..O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. podiam ver-se muitas estrelas. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . da Rodésia... Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. com foguetes terra-terra de 122 mm. em plena luz do Sol.. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas.

Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos.. Manica e Sofala. depois do caldo aguado. em 1971..?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação.. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. o correio andava atrasado quase um mês. os aviões de abastecimentos tinham rareado. retiraram-se à procura da refeição frugal. de serviço à pista. tal como há três meses atrás. não estava pronta: – É um “Dakota”. a comida escasseava. Zambézia. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra. digna de registo. onde João fora aboletado por determinação do comandante. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. após uma grave crise de desnutrição. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. após a operação “Nó Górdio”. Com as últimas garfadas.. comia-se em dois turnos. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. Na messe dos sargentos.

quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. ainda fumegante. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. atingira-se uma situação alimentar muito precária. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Num repente. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. os “Strella”. Por favor. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. com o 335 . são 13 horas e o almoço arrefece!. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes.. – Calha bem. virando-se para a comitiva tagarelando. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se. Agarrados aos frágeis bancos de lona. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. Em princípios de Abril de 1974.. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação. vamos tentar uma aterragem de emergência. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. Depois de levantar voo na pequena pista. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. a aeronave subiu muito alto.

gritando o desespero da hora derradeira. 336 . A pista de terra batida e cheia de buracos. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. a exigir a elevação do “nariz”. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. e a falta do motor. o avião meio destruído. prevenindo-a da emergência. a unidade militar mais próxima. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos.. não permitiram uma boa travagem. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. em rápida aproximação da terra. travando a fundo os rodados. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande.motor restante acelerado ao máximo. em Diaca . difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. imobilizou-se por fim. obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. – Tenente. fora feita para receber os pequenos monomotores. Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. No interior andavam todos aos trambolhões. abandonadas à pressa pelos indígenas. quando se aperceberam da situação. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. vamos “dançar” um bocado. A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. O piloto-chefe informou via rádio.. fazendo um barulho ensurdecedor. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado.

por não haver condições democráticas. a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. onde decorria uma participada assembleia de democratas. 337 .POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. o Movimento Democrático ficara particularmente activo. da intelectualidade progressista. Coordenando a luta legal e semi-legal. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. No dia 6 de Abril de 1974. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva. recebidas com grande apoio popular. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. dos estudantes. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. vinda do Sul para estudar. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. dos trabalhadores. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. e desmultiplicava-se em acções de rua. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. depressa se envolvera na luta pela democracia. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura.

gostava de escrever um poema assim. Custava-lhe magoadas. mas se soubesse fazer poesia. Amo-te querida esposa. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade. tê-lo-ei sempre comigo.: “. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (.. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. à porta da cela onde 338 .. dependurado à cabeceira.. escrito na pedra ou no vento.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(.) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. doendo no corpo e na alma. cresce o amor.)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. tão Não teve tempo de completar a leitura.. será o grito de revolta.. – Minhas senhoras. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. A morena de olhos escuros dos genes árabes. não sei qual a sua fonte de inspiração.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade... sublime e autêntico. o desejo.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar.. onde quer que viva onde quer que morra. Faremos dele a nossa canção de luta. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação.

igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. Não tivera tempo para mais hesitações. a morena de cabelos em franja.! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. o estrato humano em presença. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. entretanto regressada dos lavabos. – É o regulamento. mudando o tom. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. apenas recebemos ordens para as transferir. – São cartas do meu marido que está na guerra.. minha senhora. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. porém. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. a ala dos interrogatórios e das torturas... Decisão temerária e esforço inglório. 339 ... Eram ordens. Muito interessante. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro. – Isso não sabemos. completamente.. “Poemas de amor e revolução”?!. intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se... Era outro. A carcereira às ordens da PIDE.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas. como era uso. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza.

com data de há dois dias. prostrado. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. por minutos ou por horas. Depois ressuscitou! É verdade. – Foi detida no princípio do mês. – Se pudesse ia para lá já hoje!.. – Vais ver. nem sabia bem. Era preciso arrumar as ideias. não vão detê-la por muito tempo. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. sinto-me atado de pés e mãos. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. numa reunião da CDE. Aqui neste fim do mundo. analisar a situação.. que vais fazer? – questionava o Pedro. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. com a miúda pequena!.. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. em Lisboa. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. – E agora.– Depois logo explica isso ao senhor inspector. 340 . produto da fé dogmática. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão. Lágrimas reprimidas mas teimosas. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo.. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia.

frustrações e medo. de quem tinha um filho também pequenito. que avançavam lentamente. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. agravado por um quotidiano de misérias. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. lançada à dois anos pelo general fascista.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho. Aquilo lá está complicado. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. nas mesmas picadas.. – É da idade do meu. – Pedro referia-se à esposa. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. sem saída previsível... as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. 341 .. Algo paira no ar!.. greves nas fábricas!. a guerra prosseguia sem fim à vista. Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas. mal a conheço!. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. – É tempo de derrubar o fascismo.. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. com o parlatório de permeio.

que não matavam mas moíam bastante. No presente.. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. mas que era por vezes motivo de incidentes.. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. mal instalados. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”. mal alimentados. perdidos no meio da burocracia conveniente.entretanto afastado. fazia parte da orientação do In. apto a receber grandes aviões. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. da contestação e da revolta. diziam as vozes do desânimo. talvez o enorme campo de aviação. Já quase chegavam para a casita nova. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens.”. a bem da moral psicológica das populações. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. Aliás. em 25 de Junho de 1975. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. somados na terceira ou quarta comissão..

mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. debruçados no parapeito da vala.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974.. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª. desde que começou o ataque às 8. Companhia de Caçadores. mas às vezes não!. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. – Ai minha rica mãezinha. quando o pânico perturba a racionalidade. com a arma cruzada entre os braços. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. estão em calções 343 . à espera de uma hipotética tentativa de penetração. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. É o décimo. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. encarregada da segurança daquela área. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes.. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna. Pela primeira vez em pleno dia.

de 8 e 14mm. arrancando resoluto no jipe. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia.. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. na direcção do posto de artilharia da unidade.. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. a responderem ao bombardeamento: 344 . Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. na direcção da pista de aviação em eterna construção. Na reacção. ser um normal rebentamento na pedreira. a meia encosta. enquanto o chefe não chegava. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. tinha decerto instruções hierarquizadas.e tronco nu porque o tempo contínua quente. Restava a vala-trincheira já superlotada. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. Na secretaria do comando. A excepção foi o comandante do aquartelamento. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. onde psicologicamente o susto era menor. pensava-se inicialmente. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. entretido a escrever à máquina um aerograma.

Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 .. sempre de cócoras. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. é relativamente inofensivo. Outra vez a voz calma do furriel Costa...– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. permitia concluir que ainda estavam vivos. a mais de cinco quilómetros. com a G3 entre os braços. – Ena.. ao fim da tarde. não morreu um gajo no ataque a Palma! . – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa. pá! Por pouco!. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. O furriel Costa continuava imperturbável. que “quando se ouve é bom sinal!”. a menos de 50 metros. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. Olha se caísse aqui?!. Havia uma pequena pausa no ataque. – Pois não. “arrancado” à escola superior de agronomia.. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. ribatejano.. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. Aprendia-se nas conversas de caserna. mas a tremenda e instantânea confusão. filho de pequenos agricultores. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente.. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo..

rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade.os anteriores... AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. as munições deviam estar a escassear. já se via muita gente de pé. traduziam um intenso pavor. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas. No dia 4 de Abril de 1974. durante uma hora e vinte minutos. – Venho estafada. Nove horas da manhã. como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. parecendo nunca levar as coisas muito a sério. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . Os olhares cruzados naquele instante. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. só estragos materiais. a pontaria estava agora muito alta. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias. A resposta da artilharia esmorecia também. fica atenta às notícias da telefonia!. No seu jeito brincalhão característico. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque.

enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro.. mesmo em dias de borrasca. Amanhã logo saberás quando acordares.... onde começara o namoro e. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. sem objectivar. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. Não te preocupes. sempre lindo. rapariga! Descansa. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa.. bem precisas. distendendo os nervos. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. no “Abril em Portugal”. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. a jovem mulher com ar cansado. a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista.. ao rever o local à beira-rio. nos novos caminhos da liberdade precária. em vias de se tornar definitiva. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. pela primeira vez em muitos 347 . Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. – Como foram os interrogatórios. se se cumprisse a movimentação preparada. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço.e não queres que durma? Sorria. Conhecendo o ditado das “águas mil”. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política. – Vai-te deitar. O comboio da linha fora a primeira etapa.

o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito.. – Responsáveis fomos todos. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica. sorriu. “visita” diária desde o primeiro dia. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco. desde a partida do marido para a guerra.dias. nada mais tenho para dizer! – Ah. a esta hora já estão em casa com as famílias. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. Novamente a insídia do inspector superior. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. – empertigou-se o chefe de brigada. sobre as 348 .. Como estaria o seu João. onde vivia com os sogros. horas e horas de angústia. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. a mostrar serviço na presença do superior. – Não tenho nada a declarar. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!.

* – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias.insinuações em relação ao companheiro. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. e só regressou exausta de madrugada. Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. onde cabia toda a candura do mundo. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia.. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. houve qualquer coisa em Lisboa!. em catadupa. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. Um último pensamento foi para o companheiro distante. Numa das vezes. a saudade roendo o corpo e a alma. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. na hora de tentar conciliar o sono. com um sorriso como não via há muito tempo. Finalmente! 349 . após quase vinte dias de interrogatórios. prestes a levar um bom e muito desejado abanão.. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. Por fim desistiram. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. alegre por rever a mãe.

.. 350 .– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!.

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