A GUERRA COLONIAL

E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO

A GUERRA COLONIAL E OUTRAS MEMÓRIAS MAIORES QUE O PENSAMENTO Autor Capa : : Armando Sousa Teixeira Veladimiro Luciano sobre fotografias cedidas por António Manuel Marquês e Revisão : Composição : outras de autor desconhecido. Hélder Costa ( falecido ) e Nazaré Almeida João M. Fusto, António Pedro e filho, Apolónia, Catarina e Álvaro Teixeira, Tiragem Data : : Fátima Tereso. 5 exemplares manuscritos Junho de 2007

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ÍNDICE
PREFÁCIO ……………………………………………………... PRÓLOGO / ADVERTÊNCIA ………………………………...

1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11.

IR À GUERRA …………………………………………… REGRESSO DA ÍNDIA, PARTIDA PARA ANGOLA .. NÃO JURES CAMARADA ……………………………... A LENDA DO MONOMOTAPA ……………………….. A DEFESA DE CABORA BASSA ……………………… DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA ………………………………………………. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO ……………. DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS ………... A LENDA DOS MACONDES …………………………... JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO............... NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES ………………………………………….

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A Helder Costa, construtor e amigo deste livro de memórias, romance de muitas vidas.

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A todos os que fizeram a Revolução de Abril e acabaram com a Guerra Colonial.

PREFÁCIO
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Armando de Sousa Teixeira, cidadão do Barreiro, militante do Partido Comunista e veterano antifascista é, também, veterano nas lides da escrita. Nesse campo de luta ─ pois como é bem sabido, a escrita é uma arma … e das mais eficazes, tem publicada, sob o título geral, “ Barreiro, uma História de Trabalho, Resistência e Luta”, uma extensa e apaixonada monografia da vila/cidade onde nasceu, cresceu e se fez homem. São já quatro volumes (Partes, como lhes chama), todos publicados na Colecção Resistência das Edições Avante!, cobrindo o período de 1926 a 1969, sendo o último dos quais (1963-69) dado à estampa em 2005. Nos dois anos seguintes, dedicou o seu esforço e capacidades ao trabalho que aqui estamos prefaciando, com todo o gosto, admiração e estima. Creio que se torna fácil imaginar ─ como ─ porquê ─ e desde quando ─ o tema da Guerra Colonial vinha obcecando o autor, por ser uma importante parte da sua vida, sem dúvida, mas também pela razão básica de ser um dever a cumprir, memória a não deixar morrer esquecida. Talqualmente a consciência lhe impusera fazer em relação ao Barreiro, baluarte mítico da resistência antifascista. Ambas as vivências foram entendidas por Armando Teixeira desde sempre (desde o 25 d ´Abril, seguramente, para fixar uma data), como experiências colectivas dramáticas de amplitude, no mínimo, nacional, cuja importância e significado não podiam ficar confinados no limbo do esquecimento. No decurso das três décadas do regime democrático, foi crescendo a evidência de que a Guerra Colonial se estava a converter num dos maiores “buracos negros” da História de Portugal e dos portugueses. Se outra razão não houvesse, esse facto seria suficiente para decidir o autor a levantar o seu testemunho e contribuir para que alguma luz penetre no buraco da memória, onde a burguesia restauracionista do 25 de
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Novembro, esconde a derrota do sonho imperial e a má consciência das suas responsabilidades. Armando Teixeira escreve como homem de esquerda. Comunista por livre opção, militante do PCP por coragem e coerência, mesmo antes de ser arrastado no vórtice da guerra nas colónias, jovem estudante recrutado por força de lei. Raiava a década de 70. Terá justificação destacar opções ideológicas e/ou políticas, no acto de apreciar produções literárias, históricas ou sociológicas? Apetece responder como em relação à afirmação peremptória sobre o fim da distinção entre esquerda e direita. “Quem isso afirma é, sem dúvida alguma, um sujeito de direita”. Com efeito, do alto dos meus 80 anos de horizonte, pode detectar-se em todas as atitudes, acções e reacções do sujeito humano ─ diria, quase de imediato ─ de onde parte a motivação ideológica determinante: o individualismo, o egoísmo/hedonismo, caracterizam inconfundivelmente o sujeito que se situa na direita reaccionária; na esquerda, as decisões capitais resultam da atenção pelo interesse colectivo, pela realidade social da existência humana. Armando Teixeira confirma-se, nesta obra que temos presente, um autor de esquerda. Assumido. Nem outra coisa seria de esperar. Os seus personagens manifestam abertamente a aversão ao regime, à guerra que lhes está sendo imposta, assim como a muitos outros milhares de jovens portugueses. As denúncias da PIDE, dos seus crimes e dos seus torcionários, do terror que espalham pelas populações, dos massacres de nacionalistas nas colónias, ocupam dezenas de páginas. O militarismo e a insensibilidade das altas patentes aparece verberado em múltiplos parágrafos. As revelações destes e outros aspectos, as críticas e constantes denúncias que se cruzam no texto, ainda hoje continuam a ser ─ 30 anos após as independências das colónias ─ “politicamente incorrectas”! Razão decisiva para se reconhecer a actualidade da presente obra e saudar a sua utilidade no combate político contra as forças
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em particular quando o escritor/narrador procura evitar que os traços autobiográficos se sobreponham demasiado. Marcharam esses 8 . Estava-se numa fase já adiantada da guerra ─ início da década de 70.obscurantistas e branqueadoras do passado colonial fascista que. venham a alterar o quadro geral que pretendia desenhar. deixo ao leitor. que nisso estiver interessado. a luta pela libertação e independência dos povos colonizados. manifestava-se de forma clara o sentimento de rejeição. infelizmente. Respeitando essa intenção. A crónica acompanha a trajectória de um grupo de jovens estudantes mobilizados para frequentar o curso de quadros milicianos de exército. Trata-se de uma modalidade narrativa com forte tradição na literatura universal. quer na dinamização do 25 de Abril. o autor adoptou uma estrutura mista. No centro de instrução em Mafra. onde um esqueleto ficcional serve de suporte para a composição das “várias faces da morte”. ou não ir à guerra? Para o nosso herói real/fictício ─ e em muitos outros semelhantes casos ─ o dilema foi resolvido de acordo com a orientação do PCP clandestino: levar a luta política. Os mais preparados politicamente logo aí levaram a cabo acções de protesto e propaganda contra a doutrina colonial fascista que tiveram repercussões no meio militar e não só. indiscutivelmente. para dentro das fileiras das Forças Armadas. dominam o governo e a sociedade portuguesa neste “ano democrático” de 2007. Nesta obra de revisitação/acusação da Guerra Colonial. de nome real Armando Sousa Teixeira… cidadão militante que desde o primeiro momento – como tantos outros em anos sucessivos ─ se viu confrontado com o dilema: Ir. a linha política correcta consoante se veio a demonstrar. Essa foi. quer na rápida solução do conflito. a tarefa de adivinhar qual dos personagens fictícios que surgem no texto mais se aproxima do militar incorporado compulsoriamente. e que assim. de algum modo.

Na realidade. ignorando-os ou afeiçoando-os. De acordo com o seu propósito didáctico. perante as forças da novel República Indiana. deve fazer-se notar que o autor não se prende a um relato do tipo “testemunho cronológico”. Damão e Diu). relatar casos e episódios que contenham significado implícito. Exactamente ao invés do intelectual burguês. para presenciar a capitulação de Dezembro de 1961. assegurando-lhe lugar de destaque no conjunto da historiografia da Guerra Colonial e sua época.milicianos. a petição de princípio. para os três teatros de operações. mas sim de fornecer elementos e materiais de reflexão. O regresso dos militares feitos prisioneiros. tais como o começo da luta de libertação em Angola (4 de Fevereiro de 1961). Não se trata. Angola. Longe disso. nomeadamente o historiador académico professoral. o ciclo de Fim do Império e do Regime Fascista que o sustentava. Outros acontecimentos desses anos são mencionados. entenda-se. desprezando a evidência dos factos. graduados em oficiais ou sargentos. estende-se entre 1961 e 1974. isto é. O narrador acompanha-os. Guiné. etc. por norma. o autor intercala dezenas 9 . Logo no capítulo 2. por exemplo. a crise académica de Março de 1962. cujo método é. É esse o período de 13 anos e 3 meses. Na organização da obra o autor revela outra inconfundível característica do trabalhador intelectual de formação marxista. que mereceu a especial atenção e o estudo cuidado do episodiador. Moçambique. Refiro-me ao pendor didáctico: ao empenho e engenho em ajudar os outros a aprender. em Maio de 1962. leva-nos até à chamada Índia Portuguesa (os pequenos territórios de Goa. Entretanto. transformados por Salazar em bodes expiatórios da derrota. de ensinar. demonstrar aquilo que já vem expresso na premissa inicial. funcionou como aviso e prenúncio do que fatalmente iria acontecer nos territórios africanos.

por estes democratas da 25. Junta relatos de inúmeras emboscadas e operações. despidos de ambição pessoal. Confere a devida importância à omnipresença da PIDE na vida portuguesa da época fascista. nesses anos finais. pois repara muita injustiça). Em tempo de escuridão. devemos ter orgulho nesse 10 . como bem observa. por si só. Um estado dentro do Estado. “A Guerra Colonial e Outras Memórias Maiores que o Pensamento”. Contra esta onda contra-revolucionária e restauracionista que varre o a país desde o mal-agourado Novembro de 1975 – que criou na sociedade e no nosso povo um profundo cepticismo traumático em relação aos políticos e ao futuro que prometem . quer no país europeu.o livro agora publicado. quando se perfilam em Portugal e no mundo. Um precioso capital de coragem herdámos desse combate. contra a opressão fascista. reconforta a alma.ª hora que desfrutam o poder por que outros lutaram abnegadamente. Dos comunistas em primeiro lugar.de resenhas de carácter histórico. cuja memória parece também atirada para o buraco negro do olvido. Mas todos. que fazemos um povo. alastra entre o pessoal mobilizado e mesmo entre os profissionais de quadro permanente. Nos tempos presentes. quer nas colónias em guerra. tantas vezes heróico. é justo assinalar. invocar essa memória já constitui. algumas extensas de dez páginas. aos direitos do trabalho e à própria condição humana. referências e apontamentos estruturados sobre o passado colonizador nas três zonas de África onde a guerra procura eliminar os movimentos de libertação. novas e tremendas ameaças à liberdade dos povos. de massacres e excessos cometidos pela tropa portuguesa e dá claro sinal do clima de descrença e cansaço que. um acto de resistência. (Mais que justo. de forma modesta e aparente singeleza. o narrador vem provar que a resistência à tirania foi possível e nunca esmoreceu em condições de máxima repressão.

Ficaríamos todos com mais uma razão de orgulho. Para ficar devidamente rematado o presente prefácio. A esquerda política/ideológica na sua ingénita modéstia. mobilizado para uma Guerra Colonial. que nunca aceitou como causa sua. comunista de sempre. Lisboa. muito eu gostaria de o ver acrescentado ─ e decerto comigo. não tem por hábito exibir pergaminhos nem reclamar o que lhe é devido. permitam-me.passado pois é parte e espírito da nossa História. não devemos esconder esse orgulho. E. Maio 2007 Varela Gomes PRÓLOGO (ADVERTÊNCIA) 11 . todos os leitores ─ de uma nota biográfica ─ por pequena que seja ─ do cidadão Armando Sousa Teixeira.

compreender a guerra por dentro. dos seus incrimináveis mentores. vivê-la com as 12 . as lembranças sublimam-se e o esquecimento favorece o cerceador branqueamento da História. Hão-de passar muitos anos até a sociedade portuguesa conseguir dirimir os traumas do período mais aceso do velho conflito colonial. atirou para a fogueira africana mais de um milhão de jovens portugueses. numa guerra que sabiam nunca ir ganhar. as mágoas persistem. ficaram sequelas que o tempo não conseguiu sarar. porquê? As memórias esvaem-se. tentando aliená-los à partida com os clichés “da defesa da Pátria”. Nunca é tarde para perceber. a ficção baseada em factos reais. Negavam desta forma o direito inalienável dos povos autóctones de Angola. e da “vitória ser rápida”. É fundamental sobretudo saber dos seus principais protagonistas. não serão suficientes para contar a ferida em flor aberta. é necessário perceber a época do início dos anos 60 e as posições dos vários sectores e forças políticas intervenientes. o romance. definitiva.. Estes ensinamentos da nossa história. Do cortejo de horrores e crimes praticados durante 13 anos. “que cada um pode tanto em sua casa que mesmo depois de morto são precisas quatro pessoas para o levar!”. quando os nacionalistas africanos resolveram pegar em armas.Um livro sobre a guerra colonial passados mais de trinta anos. foram propositadamente ignorados nos anos 60 e 70. Guiné e Moçambique decidirem do seu futuro livre e independente.. Para isso é preciso conhecer melhor a história do colonialismo português e os seus fundamentos.. As memórias da realidade. perene. quando o regime fascista-colonialista de Salazar e depois Caetano. teimosamente persistente.

ajudar a recuperar o sentido da história-pátria.angústias. a cobardia. baseada na táctica da guerrilha e dos combatentes “invisíveis”. as solidariedades. inspirou os movimentos de libertação nos territórios africanos sob domínio português. as tristezas. o terror. mas agora. anulava toda a vantagem “branca” assente no poderio militar clássico. além do mais. que faziam emboscadas. * O legítimo desejo de independência dos povos das colónias portuguesas e o consequente eclodir das revoltas nacionalistas. foi ignorado e afogado em sangue nos três territórios africanos de Angola. o desiderato deste livro. a simples compreensão desta guerra revolucionária e o entendimento das lições e consequências retiradas do Vietnam (os poderosos franceses tinham sido derrotados e expulsos da antiga colónia em 1954) teria evitado o sofrimento de milhões de portugueses e a morte e o estropiamento de dezenas de milhares. os medos. O exemplo da luta do povo vietnamita contra a superioridade francesa. ouro sobre azul. movimentando-se em pequenos grupos como “peixe na água” entre as populações alvo de intensa acção política. Guiné e Moçambique. É este. a revolta e a coragem. 13 . A luta de novo tipo. a nobreza de carácter. dos homens a quem vestiram uma farda e fizeram soldados. e. contra os mesmos incorrigíveis franceses. e mais recentemente do povo argelino que pegara em armas em 1954. Foi a posse de espingardas e canhões que derrotou e submeteu os primitivos aborígenes. flagelações e punham minas nas picadas. a melhor compreender os conturbados e complexos tempos que correm. a amizade. seguindo o curso natural da história já escrita noutros países da África e da Ásia.

Em Portugal é tempo da História os julgar! * Quando em 1961 a guerra colonial começou em Angola. escravatura. os reaccionários e os defensores do neocolonialismo e do imperialismo parecem renascer das cinzas. Apelou simultaneamente à organização da resistência contra o aparelho militarista e à recusa da ida à guerra da juventude portuguesa: (... Guiné-Bissau e Moçambique! A História não se repete mas os tiranos. próceres de Salazar e de Caetano.. crescido e despertado politicamente no solo africano de Angola.) dos conflitos serem alimentados do exterior por “diabólicas forças comunistas”. Como se Agostinho Neto.. Primeiro desencadearam a histeria colectiva da punição exemplar dos “terroristas” que teriam iniciado a guerra “vindos do exterior”. Como se não existissem 400 anos de dominação. que queriam destruir a civilização cristã e ocidental. órgão central do Partido Comunista Português. mentindo e falsificando criminosamente a realidade africana.) “continua a espalhar-se nos quartéis a onda de agitação e descontentamento contra a guerra. na rádio e na televisão (também no cinema!. deturpando. iludindo os portugueses. atacando os “inocentes” fazendeiros e seus negros fiéis.Os fascistas e militaristas. exploração e opressão! Depois alimentaram a intoxicação popular com a tese repetida até à exaustão nos jornais. Os que regressam de África ─ os 14 . Amilcar Cabral e Eduardo Mondlane e seus seguidores. colocou desde logo a necessidade de um amplo movimento anticolonialista associando todas as forças antifascistas. procuraram elidir as questões fundamentais. em simultâneo com a denúncia das carnificinas então perpetradas. não tivessem nascido. o “Avante!”.

Os protestos. constituindo um feroz. amedrontar ou punir os varões lusitanos com idade para serem mobilizados como carne para canhão. o descontentamento e a revolta que se acumulam no peito de todos os soldados e marinheiros.. de Outubro de 1962.desmobilizados. as lutas e deserções multiplicam-se (. n. o Presídio Militar de Elvas. nomeadamente: fuga à tropa.º 322. recusa ao embarque ou deserção no próprio teatro de guerra. os feridos e também os presos ─ transmitem aos seus camaradas todo o horror da guerra colonial e o anseio de lhe pôr fim. O regime da ditadura fascista procurava punir severamente estas atitudes e inscreveu no RDM (Regulamento de Disciplina Militar) a pena de morte para a deserção no campo de batalha. autênticas prisões políticas por onde passaram milhares de refractários. até ao 25 de Abril de 1974. procura um caminho para se manifestar. a pena de morte existiu! Concomitantemente todo o aparelho repressivo militarista era reforçado. * 15 . A amargura. que depois estendeu à deserção em missão no estrangeiro. de presos por revolta ou protesto. que ousassem levantar a cabeça. Em Portugal. A recusa podia revestir diversas formas. o Batalhão Disciplinar de Penamacor.. tornando-se a Casa de Reclusão da Trafaria. Além disso foram aprofundadas as ligações entre os altos comandos das Forças Armadas e a PIDE/DGS. de objectores. promíscuo e indecoroso aparelho destinado a dissuadir.). É preciso ajudá-los a lutar e a organizar-se! ─ “Avante!”.

Mas não eram igualmente complicadas quaisquer formas de resistência nas fábricas. nas empresas. mesmo no terrível ambiente classificado por alguns de “infernal máquina de trituração”. profissionais do quadro permanente não desumanizados. nas ruas? Desde cedo se travaram acesas discussões à volta deste tema. Mas certamente muitos se evitaram quando a presença de jovens esclarecidos (oficiais. os comunistas desde sempre equacionaram uma importante nuance: os seus militantes. Ineludivelmente muitos e terríveis crimes foram cometidos em treze anos de chacinas. os melhores.. desempenhar um papel difícil e arriscado de esclarecimento junto dos restantes soldados ( o povo fardado!. o tratamento desumano de prisioneiros. Houve deserções espectaculares em grupo e até de pelotões completos.Na determinação emergente da sua orientação de resistência ao fascismo e ao colonialismo. Multiplicaram-se ao longo dos anos os exemplos de que valia a pena lutar contra a guerra “por dentro”. ou de uma forma mais geral os antifascistas mais esclarecidos. sob todas as formas. Tarefa complicada sem dúvida. nas escolas. entre os jovens fardados. massacres. de preferência em grupo. que tudo pervertia e até fazia assassinos. furriéis e soldados) ou de homens mais maduros. a violação de mulheres. o assassínio gratuito. torturas e morte. dependia a aceleração do fim da guerra.) a quem a verdade histórica e a realidade dos factos era subtraída. deviam ir à guerra e uma vez aí. organizadas com coragem e determinação no teatro de guerra. obstou o crime horrendo.. o aparelho militar fascista e a PIDE procuravam detectar e reprimir qualquer forma de protesto. e os que estavam convencidos que da sua acção. deturpada e mentida. As suas 16 . entre quem argumentava não valer a pena fazer nada contra a poderosa máquina militarista. cujas tiveram um significado político e psicológico relevante.

“anti-patriotas” por definição. por outro lado. A sua opinião crítica. Os comunistas. * É incontornável. seus inimigos figadais. com profundos sentimentos anti-guerra. assumindo com destaque o “Não à Guerra Colonial!”. tráfico de influências. contra um autoritarismo execrável e um conflito incompreensível e inaceitável. o papel desempenhado pelos jovens militares milicianos saídos da luta antifascista nas fábricas. Gerou-se aliás no princípio da década de 70 uma situação muito curiosa. As famílias tradicionais e nacionalistas afectas ao regime. às vezes mitificadas. nas escolas e nas ruas. alimentando um imaginário muito generalizado de resistência e revolta. compadrio. ajudando por dentro a subverter o sistema! 17 . o “Movimento de Capitães”. neputismo. as suas manifestações e lutas. tentavam por todos os meios (cunhas. a “soldo de potências estrangeiras”. Essa influência exerceu-se muito mais pela acção significante de quem estava na guerra. ainda que pouco (re)conhecido. fundada na discussão cada vez mais ampla nas academias. no movimento democrático. nas colectividades e associações. e o “Movimento das Forças Armadas”. tráfico de favores) “safar” os rebentos das guerras em África que estavam a “doer”. tiveram um efeito importante no alerta e na tomada de consciência dos militares do quadro que desenvolveram passo-a-passo. do que pelo exemplo meritório dos muitos milhares que lá não foram.histórias eram contadas e repetidas em todas as frentes. primeiro. e o. iam para a dita. culminando no derrubamento do regime em 25 de Abril de 1974. “Abaixo o Fascismo!”. suborno. nos locais de trabalho. depois.

com a incorporação forçada de centenas de dirigentes e activistas do Movimento Associativo Estudantil. foi a transformação da polícia política em polícia de informações militares. minaram profundamente a base de apoio do salazarismo/caetanismo. e em Lisboa em 1970/71 (já com Veiga Simão). lançou nos quartéis e nas frentes de guerra muitas sementes de discussão. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. despromovendo. o título de P. perseguiu. de contestação e de revolta. Uma questão central da guerra em África. (politicamente activo). excluindo. alguns jovens generosos e idealistas que levavam no processo militar “confidencial” circulando entre repartições. * Assume particular relevo no contexto repressivo em Portugal e nas Colónias o papel da PIDE/DGS. prendeu. torturas até à morte. vigiando. assassínios seleccionados (Eduardo Mondlane e Amilcar Cabral). fichando. a PIDE/DGS humilhou. colaboração e incentivo em massacres e morticínios. em 1969.Estas profundas contradições no seio do regime. castigando e quiçá matando. A repressão desencadeada por Marcelo Caetano e o seu ministro da Educação Hermano Saraiva. perseguindo. por falência dos serviços de informação que tinham essa incumbência. que via os seus filhos dilectos nas Universidades (onde só chegavam 4% de estudantes vindos das classes trabalhadoras) a discutirem o derrube do fascismo e o fim da guerra colonial. e por comodismo oportunista e conivente dos altos comandos que obtinham as “informações” necessárias de forma mais “rápida e eficaz”. Espancamentos brutais. Em África como em Portugal. 18 . sobre a Academia de Coimbra. em estreita ligação com os meios militaristas.A.

começou a preparação para uma guerra de novo tipo. mas perde-se pela inacção militar” – ensinava-se na Academia Militar. com o beneplácito e o apadrinhamento dos responsáveis da estrutura colonialista e militar. Argumentavam estes (e ainda hoje o fazem alguns “experts”) que desta forma se poupavam muitas vidas de soldados portugueses. A maioria dos notórios facínoras da PIDE. Salazar dera orientações nesse sentido. no Instituto de Altos Estudos Militares ou no CIOE (Centro de Instrução de Operações Especiais). ou com o degradante complemento de reforma dos ex-combatentes que ainda assim o actual poder político quer retirar! * “Não se ganha pela acção militar. fugiu logo após a revolução vitoriosa de 25 de Abril de 1974. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. fizeram-se cursos técnicos e tirocínios nos Estados Unidos e em Inglaterra. a guerra colonial foi calculadamente 19 . Perversão racista de quem tem uma discriminatória concepção nazi das vidas humanas de brancos e negros que teriam sido poupadas.guineenses e moçambicanos. porventura numa escala muito maior e com uma ferocidade e um zelo torcionário sem limites. Nos meios profissionais desde meados dos anos 50. se a guerra não tivesse sido prolongada durante tanto tempo. Escapuliram-se cobardemente à justiça democrática e foram oferecer os préstimos à África do Sul racista que os integrou de bom grado no seu aparelho repressivo. a chamada guerra subversiva. Significa que entre nós o crime compensa. Muitos desses criminosos voltaram depois a Portugal e juntaram-se aos seus pares. gozando hoje de confortáveis reformas da Função Pública.

A estratégia militar era refém das contradições do sistema político e das suas próprias perversões (“com uma mão dá. um grupo crescente de oficiais oriundos de uma academia que alargara a base social de recrutamento. redimiu a instituição militar que assim recuperava o seu desígnio ao serviço do povo português. e isso alguns oficiais subalternos começaram a perceber. e uma multidão de títeres do regime. A natureza do regime ditatorial não permitia vacilações. que outros países tinham prosseguido (Inglaterra. naturalmente. Bélgica. Silva Cunha. pelos valentes capitães com o apoio popular. a lógica do sistema económico capitalista num país simultaneamente colonizador e colonizado. França.preparada! Quando o cansaço de muitas comissões começou a deixar marcas no corpo militar. muitos destes nas Forças Armadas. Kaúlza de Arriaga. Silva Pais. também com a ajuda e o exemplo de milicianos empenhados. Holanda). Com determinação e sentido histórico. O derrube do regime fascista no glorioso dia 25 de Abril de 1974. para que o poder político encontrasse uma solução. por questões de classe e de interesses individuais. devido a interesses económicos e empresariais. o pensamento evoluiu para a filosofia do “ganhar tempo”. com a outra mata!”). organizou-se para pôr cobro “ao estado a que isto chegou”. honrando as melhores tradições patrióticas das Forças Armadas. Américo Tomás. Franco Nogueira. Mas que solução? Para o regime colonial-fascista o paradigma é a defesa da “Pátria una e indivisível”. Marcelo Caetano. Era assim para Oliveira Salazar. evidentemente. por certo. Só uma profunda e radical alteração poderia quebrar as cadeias. não permitia saídas do tipo neocolonialista. 20 . As razões da intransigência eram de ordem política e ideológica. Mário de Figueiredo.

* “A guerra é um lugar donde nunca se volta” – escreveu um jornalista recentemente. com as marcas irreversíveis no corpo. nos permita compreender melhor o mundo de ontem e de hoje e bem assim. África jamais será esquecida. verdadeira e mais paradoxal das vitórias dos ex-mancebos que “nunca voltaram” da guerra. Episódios significativos da guerra colonial pretendem transmitir todo o drama individual e colectivo de homens que foram vertidos num caldeirão da história. servindo a componente ficcional para a verdade ser mais segura e atingir maior profundidade. a guerra colonial não acabará nunca!. a derrotar todos os “senhores da guerra”. a narrativa baseia-se em factos reais e datados.. Que este livro de memórias ajude muitas consciências pesadas e sonos atormentados a recuperar um pouco de paz.. do passado ou da contemporaneidade. na tentativa de ajudar a compreender a guerra colonial. Construída a partir das vivências próprias e de outras de amigos e camaradas que percorreram caminhos simultâneos. os mercenários contratados como assassinos profissionais para espalharem o terror a troco de um soldo de sangue (pára-quedistas de 21 . naturalmente. onde se queimavam os “últimos cartuchos” de interesses retrógrados e opressores de um colonialismo serôdio e reaccionário. Para as centenas de milhares de portugueses mais ou menos traumatizados na alma e no espirito. Nos “flashes” das histórias contadas não ficam bem. Para os milhares de feridos e estropiados. Que este livro de inquietações. Essa seria a única.

perpetrando matanças descabeladas. ao longo de décadas de terrível opressão nas Forças Armadas. Pesada será também a factura das chamadas tropas especiais. concebidas e treinadas para formatar alienadas "“máquinas de matar”. etc. “Katangas”. auto-convencidos os mancebos-guerreiros que assim salvavam a honra da Pátria. será a nossa maior satisfação. Contribuir para o fim do “trabalho de luto” e para o apaziguamento de Portugal com a sua história.. Simbolicamente convidámos para prefaciar esta obra um desses heróicos militares resistentes. o coronel João Varela Gomes. Entre déspotas e tiranos havia muitos militares honrados. Maio de 2007 Armando Sousa Teixeira 22 . Flechas. apoucou a Pátria e enlutou a alma dos portugueses. Ajudar à compreensão plena do que foi a Guerra Colonial pelas novas gerações. seria a melhor de todas as compensações pelos muitos anos de trabalho de construção desta obra. Em última análise. que têm o direito a conhecer a tragédia autêntica vivida e sofrida pelos seus pais e avós. Barreiro.Jorge Jardim. para assim melhor entenderem o Mundo de hoje. na tradição daqueles que heroicamente se revoltaram e lutaram contra a ditadura fascista.). Certamente será também uma boa forma de agradecimento a tantos amigos e camaradas que nos apoiaram e ajudaram nesta obra. foi por sua inspiração que se desenvolveu o Movimento que derrubaria o regime e poria fim ao terrível conflito que exauriu a Nação.

1. IR À GUERRA O 28 RONCEIRO 23 .

É preciso voltar no recurso. quase ninguém na pequena leitaria de bairro. sempre com muita gente azafamada. num tempo fresco de Outono recente arrastando as primeiras nuvens cinzentas e tristes que empalidecem a cidade inquieta. A rua do Poço dos Negros é animadíssima durante o dia. mesmo em frente da paragem do eléctrico. momentos de tensão expressos no olhar perscrutador sobre os raros passantes. há iniciativas dependentes daquela conversa. inconsequentes na linguagem vernácula animando a freguesia: ─ Ó freguesas! Há bom tomate saloio! 24 . não vale a pena inventar fantasmas só porque o encontro falhou na primeira tentativa. Bom. à espera do sinal précombinado. não vá andar algum "bufo" nas imediações. ficar na paragem não é prudente. varinas e vendedeiras com pregões e dixotes. Os segundos escoam-se lentamente numa eternidade que a ansiedade inventa. o importante é organizar o tempo que resta num périplo atento pelas ruas das redondezas. Passam cinco minutos da hora combinada. mas as moedas no bolso são à conta para a viagem de regresso. aguarda com inquietação o encontro marcado para aquele local e hora. O condutor interroga com os olhos: " Entras ou não?".Horas de jantar. Um dos clientes de vez em quando olha para a rua por cima da página do jornal. discussões frequentes por "dá cá aquela palha".arranca desiludido. faiscando na catenária breve estalido e soando o "tlim-tlim" característico de passageiro em saída. O "28" chega vagarento e ronceiro. Pouca gente na rua. uma rápida mirada ao retirante idoso e uma vontade enorme de entrar no "amarelo" e voltar para casa depois de um dia longo e cansativo. Embora não seja novato naquelas andanças. Aquela é a única carreira que por ali passa. Seria bom entrar na leitaria ali a dois passos. a nova ligação é importante. só lá estão dois sujeitos sentados e o estômago avisa que o almoço já foi digerido há muitas horas.

abateu alguns aviões e helicópteros das forças portuguesas que perderam a vantagem aérea. ─ “Olhó” coirão! Tomates não me faltam lá em casa. a longa caminhada pelo quarteirão vai servindo para pôr os pensamentos em ordem e para sistematizar as informações recolhidas na reunião do organismo durante toda a manhã. Uf! Custa a subir a ladeira íngreme até à esquina 25 . porque não aparecem as obras prometidas para o desenvolvimento da região e para o propalado bem-estar das populações. amarfanhando os dias e tecendo as sombras da desconfiança e dos medos.. O populismo do governador do monóculo. meia dúzia de transeuntes com direcções definidas. onde é indisfarçável a tristeza nos olhares reprimidos dos que sabem ver para além da baía de Cascais. António de Spínola.. o telejornal está a começar. Rua dos Poiais de S. Sacudir as teias é preciso. a querer roubar-me os "tomates"!?. Grave desastre ocorreu no abandono de Madina do Boé. Bento. Por mares que voltam a ser o sal das nossas lágrimas. desoladora. mal iluminada. inóspita. Pelo som. capital de um império de "faz de conta". Bento. e uma companhia de "comandos" foi quase dizimada na região de Gadamael. vai caindo em descrédito. o PAIGC detém a iniciativa estratégica no terreno e com a utilização de mísseis terra-ar. partem soldadinhos e grumetes com destino certo e futuro incerto. o eterno mistério das trevas.─ “Olhá” desavergonhada. Sons inteligíveis chegam por uma janela entreaberta num rés-do-chão alto. duas ou três pessoas na paragem ascendente da carreira dos Prazeres. com dezenas de mortos durante a travessia do rio Corubal. a rua entristece-se. sua invejosa! Vida típica de um bairro popular da Lisboa do início da década de 70. Não dirá que a situação na Guiné está muito complicada. sorvedouro de homens e de recursos. Voltarão a ver as praias de Portugal? Na hora em que a noite chega. Calçada de S.

ouvem-se as palavras do noticiário oficial: " O senhor presidente do Conselho fala hoje ao País”. mas hoje precisamente. e passou a atacar o movimento histórico com o seu grupo tribal denominado UNITA. da chamada ala liberal.!? Bom! Carros pretos há muitos. Av. aproximando-se inexoravelmente da cidade. com escassos clientes mas com a moderna televisão a preto e branco no canto de uma parede. não sendo todavia de excluir tentativas de cariz neocolonialista apoiadas na vizinha e poderosa África do Sul onde perdura o famigerado "apartheid". em Lisboa como na guerra na longínqua e torturada África... Jonas Savimbi parece ter feito no Leste um acordo preferencial com a PIDE. Informações sobre o descalabro da operação “Nó 26 .. sobretudo no ponto referente à luta contra a guerra colonial. na reunião matinal. D. Do ponto de vista militar a situação pode considerar-se de impasse.. Não deve ser com certeza para dizer que em Angola o MPLA mantém a iniciativa em diversas zonas. circulam alguns carros arrastando as folhas amarelo-douradas dos plátanos frondosos do largo da Esperança. falouse na necessária atenção a carros pretos utilizados pela PIDE! Foi interessante a reunião. Era de jurar que aquele veículo preto de estilo oficial já passara há bocado no sentido contrário. embora se vá ressentindo do esforço de mais de dez anos de guerra continuada e da acção divisionista e mesmo provocatória de outros grupos de guerrilha. Contradições do sistema.donde se divisa o vetusto e imponente palácio com o mesmo nome e onde apareceram ultimamente algumas vozes dissonantes. durante o "minuto conspirativo". despindo-se gradualmente para o longo sono invernal. Carlos. Pela porta de uma taberna escura.

Górdio". ficou-se nos primeiros quilómetros e muito dinheiro foi desviado para bolsos assaz patrióticos!). praticada pelo homem que substituiu o velho ditador. no norte de Moçambique. condenações de Portugal na ONU. acabou afogada em sangue (milhares de nativos mortos ou presos na ilha do Ibo e na Machava) e terminou mergulhada em corrupção (a "auto-estrada" de Palma ao longo do rio Rovuma. e das imensas contradições em que o regime se atolou. O tom de preocupação que o ar autoritário não consegue disfarçar. O noticiário acabou e aparece no ecrã a figura crispada do presidente do Conselho para mais uma mensagem ao País. com populações civis sacrificadas. abrindo uma nova frente em Manica-Sofala (distrito da Beira) A pretensão de limpar o Norte a pente fino e ganhar à guerrilha militarmente. é a imagem do fracasso da “demagogia liberalizante”. falam num rotundo fracasso político e numa tragédia humana. congeminada pelo militarista governador e comandante-chefe. colocada num canto superior do estabelecimento. e a Frelimo a estender a sua acção cada vez mais para Sul. Marcelo Caetano fala da recepção concedida pelo Papa aos líderes 27 . relevando do incremento da luta política da Oposição Democrática e do envolvimento de cada vez mais sectores contra o regime ditatorial. centenas de soldados portugueses mortos e feridos. Estranho! Não muda de página nem olha para a televisão. O aumento da repressão nos inícios da década fez cair a máscara da “primavera marcelista”. Kaúlza de Arriaga. Na leitaria estão as mesmas pessoas de há meia hora atrás: o velhote na mesa do fundo atento às notícias. e o fulano de gabardina a ler o jornal voltado para a rua.

na tropa há seis meses. não!?..africanos dos movimentos de libertação: “…circulam falsidades dando como libertada uma parte do território da Província Ultramarina da Guiné e falando de uma auto-proclamada República Popular da Guiné. no Nordeste da Guiné-Bissau fora abandonada em Fevereiro de 1969.. numa operação que custou 44 mortos portugueses na travessia do rio Corubal. em Setembro de 1973. o rapaz magro e alto. ─ Se não estivermos entre a juventude fardada no terreno duro. ─ Existe um grande descontentamento nos milicianos. IR OU NÃO IR ? ─ Se calhar estão a pensar que “eles” me apanham lá.” Madina do Boé. quem o fará? ─ aduzia o moço de testa alta e cabelo tipo escova de arame. O PAIGC reuniria aí a primeira Assembleia Popular e proclamaria a independência da República Popular da GuinéBissau. será alienada. da incompreensão de quem tinha a obrigação de não receber terroristas e de saber que nenhuma parcela das terras portuguesas e cristãs de África. não sei se estão a perceber!?. convicto da orientação política traçada... 28 . ─ clamava exaltado no calor da discussão. envergando roupa de tons escuros. na Guiné. ─ Desculpa! Atirador de armas pesadas. que teria a capital em Madina do Boé... o jovem moreno e bem vestido. Tal atoarda é fruto da propaganda insidiosa do inimigo a soldo de potências estrangeiras. é preciso unir esforços para acabar com a guerra! ─ contrapunha mais calmo e idealista. Essa falsa república sem Madina e sem Boé. ajudando na consciencialização.

O mesmo sentimento alastrava nas repartições. a pele muito morena e a saia curta mostrando pernas bem torneadas com peúgas brancas e sapato raso.. Grande bronca! .. no país de marinheiros que tardava em concluir a tarefa iniciada na era de Quinhentos de “dar novos mundos ao mundo”. nos aquartelamentos. nos postos avançados. mostrando já ter reflectido demoradamente sobre o assunto.... Fora incorporado a meio do curso médio de engenharia (chumbara um ano!. e. sabia do que falava. ─ o camarada João. acendeu paixões e afivelou rivalidades. misteriosa e martirizada África: "Tem havido movimentações no seio dos jovens oficiais do quadro permanente. mas a coisa pode radicalizar--se!... ─ mantinha-se renitente e agressivo o jovem bem ginasticado. Este sentimento corria os quartéis. paradas. sentindo o cheiro a pólvora. Aquela forma de estar. mostrava muita relutância em aceitar a mobilização para a Guiné. bigode farfalhudo e sotaque nortenho. na distante. ─ Viram ontem o primeiro-ministro atirar-se ao Papa?!. mas simpática e graciosa. Não era fácil convencer quem. * Chegara ao grupo discretamente. o embuste da superioridade rácica e a mentira do falso desígnio histórico! “É preciso pôr fim à guerra!” ─ propugnavam as forças políticas mais consequentes..─ Isso é utopia! Ná! Desta vez não me convencem! Quando chegar a vossa vez. casernas.) como acontecia a milhares de outros jovens estudantes. motivadas por razões corporativas. algo distante e compenetrada. aceitasse de bom grado ir para o teatro de guerra tentar desmistificar o conceito de defesa da pátria. quero ver como é!. após ter feito a especialidade em Vendas Novas.regozijava-se a jovem de cabelo em franja sobre os olhos 29 .

─ Cá para mim a malta devia denunciar a porra da guerra. propiciava radicalismos. sorriso trocista e provocador nos lábios finos. incorporava o regime. ─ Calma aí! A nossa preocupação fundamental é a resolução dos problemas estudantis! ─ contrapunha o estudante de pêra e bigode com um tique de dirigente associativo e o ar convicto das razões idealizadas..escuros e sorridentes. ─ entusiasmava-se o Paco de cabelo muito comprido. teimando numa política de agressão aos povos africanos que até o Papa condena! ─ ponderava o jovem alto. ─ As freiras do nosso lar foram a correr para a capela rezar! ─ acrescentava a outra jovem de cabelo curto e olhos cintilantes. ─ Portugal é a última potência colonial europeia. voltando-se particularmente para a escassa plateia feminina. abertamente! E se for preciso fazem-se umas acções directas!. risonha e muito extrovertida. A sua tez bronzeada fazia intuir da origem em terras do Sul. cigarro nervoso entre os dedos. um aspecto tristonho e sério. as divergências ideológicas acentuaram-se no meio estudantil. A ditadura cometeu nessa altura dois erros capitais: Depois da feroz repressão sobre o movimento associativo estudantil em 1969/70. a educação tradicionalmente individualista das camadas médias que tinham acesso à universidade. de barbicha.. No pós Maio francês de 1968. Ir ou não ir … era a questão! ─ Sabes. o Reinaldo deu o “salto” durante o fim-de-semana! Disse-me o pai! ─ Era de prever! Afirmou convictamente que para a Guiné não ia! 30 agora compulsivamente no SMO (Serviço Militar Obrigatório) milhares de jovens estudantes que tinham aprendido a odiar .

─ Ora essa. não tenho experiência! Não quero precipitar as coisas e depois … dá-me algum tempo para pensar. ansiedade. sala sumptuosa de mobílias de estilo e cadeirões de pele. três vezes marcada e três vezes adiada até à final concretização. Cumprimentos da praxe. ainda não respondeste ao meu pedido. A luta era feita de vitórias e derrotas. uma penumbra agradável num tempo de quase verão. mas também o calor da paixão nas palavras do jovem vestido de tons escuros. ─ Escuta.. O sorriso bonito naquela cara morena ainda mais acendia a chama. Àquilo de que te falei sobre a ponte unindo as duas margens ─ havia atrapalhação. Naquele início de noite estavam só os dois. normalmente acompanhados..─ os dois jovens tinham-se encontrado tacitamente na cantina do grande instituto. como acontecera de outras vezes. de avanços e de recuos. Ficaram respeitosamente em pé à volta da mesinha de madeira trabalhada. ─ Fazem favor de se sentar. CINCO MIL ANOS DE ATRASO O propósito de realizar umas Jornadas do Ensino Médio de Engenharia levou uma delegação de estudantes e de antigos alunos a uma audiência com o Ministro da Educação. não temos pressa!.. como aprendera naquelas andanças da política desde muito novo. de perna curta. estejam à vontade enquanto recebo um telefonema de Coimbra. ─ Sabes? Eu … eu. senhor ministro. mas o momento era de grande frustração. ladeada por dois sofás baixos de pele castanha 31 ..

tivera uma evolução surpreendente e uma radicalização inesperada. iniciada com a proibida intervenção do presidente da Associação Académica durante a recepção ao Presidente da República. da GNR e da PIDE.e uma cadeira de espaldar alto.. Milhares de estudantes em desobediência civil. no início do ano lectivo de 1969/70. eram os filhos das melhores famílias em pé--de-guerra! ─ … Pois que sejam todos incorporados! Perdem o ano. no topo. Universidade. "IBM" e os seus companheiros puseram a cidade em polvorosa. telefone pousado. o fascismo estremeceu em raivosa impotência. vão para a tropa! Vai fazer-lhes muito bem! ─ uma última frase veemente. Uma actuação firme. lutando pelas liberdades fundamentais e por um ensino democrático. A crise académica na Universidade de Coimbra. acompanhada de abundantes gestos. não há exames em Setembro! ─ a voz nasalada do governante soava distinta e propositadamente para ser escutada.. sem vacilações! Fazem greve em Julho. exigindo a reforma do tentativas de aliciamento demagógico da parte do Ministério da Educação e do Governo. a que os estudantes chamavam 32 . Dias inesquecíveis na baixa coimbrã e dentro da própria universidade. boicotando os exames e repudiando as desafiando e desorientando a ordem estabelecida. Ao fim e ao cabo. enfrentaram durante meses as forças repressivas da Polícia. a entreolhar-se admirados com o que estavam a ouvir: ─ . contra a ditadura política. Uma envolvência algo atemorizadora para os novatos naquelas andanças. O Ministro da Educação. Ensino e da a fazer frente aos cães-polícia e aos "polícias-cães". O País animou-se em expectativa.

.satiricamente o "meio-istro" ou. ─ Mas fazem o favor de se sentar. "meio-nistro". são cinco mil anos! Aproximara-se finalmente da sua cadeira e fixava os circunstantes como que a saborear o efeito da sua extraordinária discorrência. 33 . Entretanto centenas de estudantes de Coimbra começaram a ser chamados para a tropa. ainda estão de pé?! ─ Faz favor. Os quase siderados visitantes. concluiu triunfante: ─ Cinco mil anos de atraso para Portugal! Os vossos colegas de Coimbra são responsáveis perante a História por cinco mil anos de atraso civilizacional! Com tantos “atrasos” as Jornadas de Engenharia ficaram para as calendas. ─ Sentem-se! ─ a voz autoritária soava a falsete e perdia a postura por uns momentos. mexendo-se incomodado. recuperando a pose teatral a uma altura superior à de todas as cabeças. mesmo do estudante barbudo que tinha mais de um metro e oitenta. congemina em voz alta percorrendo o vasto gabinete com as mãos na cabeça. ─ Sim! Porque cinco mil estudantes da Academia de Coimbra em greve aos exames. o "mini-istro". o ministro da “História” cairia pouco depois e iria aparecer o ministro da “reforma” e dos “gorilas”. devido à sua baixa estatura. vezes um ano perdido. ─ voltou-se para os estupefactos interlocutores olhando-o timidamente. outra forma de piropo estudantil.. teatralmente: ─ Ah! Aqueles vossos colegas de Coimbra! São cinco mil anos de atraso civilizacional para o País!.! ─ o decano Vieira fazia as honras do grupo. enfiaram-se nos sofás baixos e fofos. senhor ministro.. ainda em pé à beira dos sofás. ficando enterrados quase ao nível do chão. Do alto do espaldar da sua cadeira especial..

. ajudando a engrossar a corrente contra a criminosa imoralidade da situação. O Rolando tinha sofrido um acidente com uma granada e viera evacuado para o Hospital Militar sem ver dos dois olhos. chocante.SEM MADINA E SEM BOÉ A notícia chegou trágica. O responsável do organismo socorrera-se da história durante a participação da Rússia na I Grande Guerra. aguardando a chamada para fazer o serviço militar segundo a orientação partidaria tão discutida. quando o Partido Comunista da União Soviética. como furriel sapador de minas e armadilhas. na clandestinidade. tolhia os passos e os pensamentos ao atravessar o pequeno jardim ao lado da Basílica. espreitado entre as copas das árvores e o varandim de ferro. minarem a confiança dos soldados no Czar. por dentro. defendera a ida à guerra dos seus militantes para. na qual o Rolando também tinha participado. Pelo caminho. João.. junto do “povo fardado”. ia recordando a reunião em que tantas dúvidas se tinham manifestado sobre o papel da juventude mais consciente no teatro de guerra. uma especialidade tramada que fazia temer pelo futuro. Cego! Informara o comum amigo e avisador. Cansado de um dia cheio de actividades ligadas ao movimento estudantil e à resistência antifascista. preparando assim as condições para a Revolução Russa de 1917. no eléctrico subindo compassadamente a Calçada da Estrela. conhecido há muitos anos das caminhadas rua acima para o Instituto. ─ Isso é bom de dizer quando se tem uma especialidade de 34 . Embarcara para a Guiné há menos de três meses. resolveu que a solidariedade era mais urgente. mas logo assim em tão pouco tempo!?. Uma angústia feita suor frio.

─ Há por aí tantos! Veja na sala ao fim do corredor... também neste local não havia guardas.secretaria. O coração doía com aquela visão terrível. e com ferimentos perceptíveis sob ligaduras e pensos. enquanto mais adiante um soldado maqueiro dava a sopa a outro jovem militar acamado e sem mãos. Por instantes ficou paralisado. que se calhar nem foram ouvidas. Como não havia ninguém de guarda... ─ dissera o Rolando pouco antes do embarque para a Guiné. vários soldados em pijama regulamentar. com cotos ligados à altura dos cotovelos. é aí que estão esses casos! Já escurecera naquele tempo de fim de Verão. evacuado hoje da Guiné? Disseram-me que talvez aqui no Anexo…! ─ Aqui? Não!. Ao fim do corredor a porta aberta da pequena enfermaria deixava ver um homem jovem. estavam sentados em cadeiras de rodas. até encontrar um rapaz-cabo de bata branca: ─ Boa noite! Onde posso encontrar um furriel ferido. Não foi preciso perguntar a mais ninguém.. de cabelo encaracolado de um escuro característico. agora “minas e armadilhas”!?.º pavilhão. com múltiplos pavilhões disseminados. por estranhos e simultâneos sentimentos . fazendo esforços nervosos e inadaptados para levar a comida à boca. com uma absoluta angústia de ver o 35 . sentado numa cadeira de rodas com uma tigela de sopa numa das mãos e a colher na outra. ─ Obrigado! As melhoras … ─ as últimas palavras saíram tão sufocadas. contudo logo à entrada do 1.. Onde posso encontrar um furriel vindo da Guiné? … Cego por uma granada!. a emoção embargava a voz: ─ Boa noite!.. foi entrando pelo terreiro. É melhor procurar do outro lado da Avenida Infante Santo. revoltadas e envergonhadas.. Do guardanapo de protecção escorriam restos de caldo.

comovido até ao limite das forças. ─ Então rapaz. ─ o jovem muito moreno. Sem nada dizer. entrei porque não encontrei ninguém de guarda.. também estava emocionado e interrompera a tentativa de engolir a sopa.. as lágrimas saltavam e sentia uma vontade inadiável de fugir daquela visão trágica e fingir que nunca tinha existido. ─ Sim! Bem!. ─ o soldado maqueiro justificava-se no meio da curiosidade constrangida. Há esperança em conseguir recuperar da vista direita. começou a dar-lhe a sopa. ninguém dera pela sua presença. agressivo: ─ Vá! Dá-me lá o resto dessa merda! ─ quanta raiva e desespero naquele soldado desconhecido. a quem no círculo próximo chamavam “cigano”... ─ A esta hora está tudo ocupado. se soubesse a quantidade de gente ferida! O furriel não é dos piores em comparação!.. Os médicos já me viram!... O maqueiro atarefado não dera pela intrusão. estou sozinho!. ─ Ah! Ainda bem que chegou! É familiar? Não consigo fazer tudo. ─ Quando chegaste? Como estás? ─ Cheguei ontem á noite.amigo naquele estado. Era preciso quebrar a tensão: ─ Então o que te disseram os médicos Rolando? ─ Vou ser operado.. que te aconteceu!? ─ Coisas da guerra.. 36 . como custaram a dar aqueles três passos até pousar a mão no ombro do amigo: ─ Rolando! ─ Ah! És tu!. ─ apontava com a cabeça na direcção do ferido sem mãos que quebrou o silêncio. Sou amigo como se fosse irmão.. tirou-lhe devagar a malga e a colher e lentamente para a mão não tremer. salgada de certo pelas lágrimas que caíam silenciosas.

aproxima-se o "28"..". ─ Talvez…! Que mais poderia dizer? No pequeno ecrã toca o hino nacional e agita-se a bandeira a marcar o fim da “conversa em família”. O homem da gabardina já não está na mesa da leitaria. Os pensamentos correm velozes disfarçando a inquietação do desencontro: "Que teria acontecido?" Indisfarçáveis e reveladoras da incapacidade de resolver a questão colonial. Quando é a operação? E a outra? ─ Vão ser necessárias várias operações para limparem todos os grãos de areia. A outra vista não tem recuperação. ─ Talvez mais tarde. A cidade vai sossegando sob a paz aparente de um manto diáfano que encobre angústias e incertezas. com outros recursos consigam recuperar a outra!. a rua está agora quase deserta. é tempo de voltar para casa. ─ Não quero mais sopa. sentiu quão ridículas poderiam ser mais palavras. que tinha os dois olhos completamente vendados por compressas.. com 37 . obrigado! ─ só comera quatro ou cinco colheradas. Passa tempo demais em relação às normas de segurança. foram as palavras do professor.. filho dilecto do regime: ". e são muitos! A granada ofensiva rebentou no terreno de areia à minha frente.sem Madina e sem Boé.. rangente.─ Bom! Isso é uma boa notícia.. ─ Ora bem! Como diz o povo… Não completou a frase. devia estar com vergonha da sua situação. Com a mão no ombro do amigo. Sem vergonha! Apetece gritar ao homem que espalhara ilusões até entre alguns sectores da Oposição Democrática.. vagaroso.

os dois jovens partiram à descoberta do carinho e da dádiva mútua na exuberância dos 20 anos. não há veículos à vista. corridas curtas até ao eléctrico: ─ É ele! Agarrem-no! É ele! ALERTA CAMARADA! A paixão pela morena roliça ganhara raízes.. Não pensava tão cedo. atravessou-se bruscamente na sua frente! Sai gente agitada do veículo. um carro preto vindo da esquina próxima. O "amarelo" arranca com um tlim-tlim desnecessário. homens de gabardina e de pistola em punho: ordens. quando chegara à cadeira do poder de onde caíra Salazar. Afastada a concorrência. De repente estaca com outros "tlim-tlim" instantes.. gritos. ─ Posso interpretar como uma afirmativa? Queres ser minha 38 . ali perto. A experiência de uma primeira ocupação (mal) remunerada e precária..a chamada “primavera marcelista”.. a demagogia e o paternalismo não conseguiam esconder a realidade interna de acesa luta política e a verdade do agravamento da situação nas três frentes de guerra. no Instituto Nacional de Estatística. permitia manter o contacto e conquistar o namoro: ─ Sabes? Tens-me feito passar por uma grande aflição!. Mas os tempos estavam a mudar. Por vezes esqueciam as preocupações: ─ Já tomaste uma decisão? Posso saber qual é a tua resposta? ─ o jovem esperava de propósito nos degraus à saída da cantina do IST onde muitas vezes jantavam.

permitiu aprofundar o primeiro diálogo na nova condição de partilha de sentimentos. sem mais nada. Aproveitavam o fim-de-semana para se juntarem e trocarem impressões sobre as experiências das respectivas recrutas: ─ Aquilo nas Caldas é uma miséria de comida. Nascia e crescia um sentimento muito forte que em breve iria ser posto à prova.! Mas olha. O jovem alto e magro.. e o mundo revelava-se sorridente. prometo-te! Desceram a escadaria de mão dada. aparentava ser um paraíso em que a felicidade era abarcada pelas mãos entrelaçadas. Primeiro o jovem de cabelo tipo escova-de-arame foi para as Caldas da Rainha. que vestia roupa escura foi o último a ser chamado. ditava a incorporação em Mafra. porque nascera em Ceuta e tinha nacionalidade espanhola. Deram a volta ao quarteirão..namorada? ─ Sim. logo que acabe a semana de campo vamos para o barulho! 39 . depois o que tinha um ar de intelectual-triste foi para Tavira. Os corações abriam-se de forma sincera. Safava-se o rapaz magro de cabelo muito comprido. tudo à volta parecia perfeito e calmo. sem lamechices. Fala-se em fazer um “levantamento de rancho”. o edital publicado na Câmara Municipal no fim do Verão de 1971. alheados de tudo o que se passava em redor e o regresso ao ponto de partida. no COM. Um a um todos foram chamados para a tropa. em princípios de Outubro. O silêncio no pequeno e maltratado jardim das traseiras da Associação de Estudantes. é a sério! ─ Claro que é a sério! Gosto muito de ti! Haveremos de ser felizes. enlevados e trémulos de emoção.

º ciclo. partiram para a guerra. era moço de poucas falas como ele: ─ Avô. seguindo uma orientação conscientemente assumida. ─ E se denunciássemos tudo isto e muito mais sobre a guerra colonial? Assim nasceu um jornal.. de mão dada com o miúdo-neto que não parava de tagarelar. Durante muitos meses. pois o pai. ─ Pois não! Mas quando são nossos amigos é como se estivessem aqui connosco. necessariamente clandestino. vacilante. ─ Mas os mortos não se vêem avô!. a tantos e tantos quartéis onde se industriava a juventude portuguesa para ser “carne para canhão”. qualquer dia organizamos uma bronca! ─ Lá em Mafra andam mansinhos desde que morreram três cadetes na lagoa durante a instrução. levou as notícias. feito em moldes rudimentares num dos célebres duplicadores manuais. E morreu mais um no turno passado. trôpego. trazê-mo-los no coração. porque viemos aqui ao cemitério? ─ Vim visitar um amigo que já não vejo há muitos anos. do 2. Até que todos os seus mentores. Saía à mãe. os comentários. 40 . VIVER E MORRER NO TEMPO Ao fim de trinta anos continuava com dificuldade em acertar o passo. os relatos. o “Alerta Camarada!”. O pessoal anda revoltado com a dureza da instrução. durante exercícios com fogo real.─ Em Tavira obrigam-nos a andar pelas salinas com lama até aos “tomates”. nos inícios da década de 70.. o apelo à luta contra o militarismo e contra a guerra. o seu João Silveira.

Traquinas e esperto como poucos. ─ É este aqui. ─ Avô. com fotografias uns. Para mim a guerra nunca acabou!. como morreu o teu amigo na guerra? Também estiveste na guerra. ia pinoteando à medida que passava os olhos pelos inúmeros compartimentos dispostos em vários níveis. ─ Pois não. com nomes gravados outros. apenas com cinco anos sabia ler e utilizar o computador à-vontade. ele não quis! ─ Nem tem uma cruz como os outros!?. estas gavetas são todos mortos? ─ sem esperar pela resposta o miúdo muito mexido.. para quem o microprocessador era uma ferramenta de sobrevivência na invalidez provocada por um estilhaço de mina. * 41 . avô? Tem um capacete como nos filmes de guerra. Mas não tem nenhum nome?!. alguns com fantasias bizarras. “Raio de ganapo!” ─ pensou.. Era o culto dos mortos num país de católicos supersticiosos. alojado junto da coluna vertebral. melhor que ele próprio..─ Como se chama o teu amigo? ─ Pinto.. ─ Avô... não foi avô? ─ Foi.. foi!. muitos com flores artificiais.. José Pinto! Vê se descobres um gavetão com um capacete militar desenhado na pedra.

emboscadas ou minas na picada. a chamada rebenta-minas. sacudido por um imperceptível tremor de quem adivinhava um destino ruim. o grande temor pelos últimos dias de comissão. Há semanas que não havia flagelações. comandante da secção. um mau presságio acompanhando-o nos vinte e seis meses em que várias vezes 42 . magnetómetros à frente para detectar metais. sobretudo nas zonas de areia solta. conduzidas por mãos experientes de soldados em fim de comissão. o pessoal seguia com relativa descontracção. as picas atrás a furarem o terreno. espera! Calma carago! Afastem-se todos! ─ breves e concisas palavras do furriel-comandante. quando iniciavam a tarefa de detecção de minas à luz da “Berliet” de transporte. a coluna com a nova companhia pernoitara no aquartelamento mais próximo e logo pela manhã ia atravessar o grande rio. Pela enésima vez repetiam aquela operação e raramente tinham detectado engenhos explosivos. naturalmente porque o trilho era muito frequentado pela população local e a tensão de guerra estava ali bastante apaziguada.Dez quilómetros de picada para passar a pente fino. olhando o raiar da nova aurora pondo riscos avermelhados num horizonte de breu. ─ Furriel! Furriel! Está aqui qualquer coisa. são o nosso “abono de família”! ─ dissera sorridente e aparentemente bem disposto o furriel Silveira. sinto um objecto rijo! ─ Calma! Não levantes a pica. não tardava nasceria o Sol. À luz dos faróis começavam os gestos mecanizados e prudentes. Sempre comentara nas horas de ócio à volta de uns copos de whisky na palhota improvisada a que se convencionara chamar de “messe de sargentos”. A secção de sapadores levantara-se muito cedo e partira ainda de noite rumo à margem onde a corrente forte estava a ser domada pela monumental barragem em finais de construção. ─ Vamos lá buscar os “checas”! Tratem-nos bem.

devagar. 43 . ─ Não foi detectada pelo magnetismo.. que lhe trespassava a medula e agora quase o vencia. deve ser de plástico! ─ elucidava o furriel enquanto o soldado detector se afastava ainda a tremer.. vou tentar des.. ─ Buummm! O estrondo terrível levantou uma gigantesca nuvem de poeira cobrindo o céu e relançando as trevas na hora em que o Sol despertava num horizonte de pequenos montes avermelhados e de arborização pouco exuberante.. assim.fora obrigado a mostrar a sua coragem e sangue frio. dizia sempre o que pensava com frontalidade. leal e honesto. só queria ter um nome no túmulo (como cantava o Fernando Farinha) o nome de Portugal.. ─ Uf! Já está! Afaste-se furriel.. acabando rapidamente na mobilização para Moçambique. pá! Passa-me a pica. várias vezes dissera que se morresse na guerra.. viscoso. à custa de uma grande concentração e domínio do medo terrível. ─ Pinto! Chega aqui! Vamos tentar desmontar a “menina”!. Este tinha sido o melhor aluno do seu curso de sapadores. o que lhe valera sérios aborrecimentos com a hierarquia. Nascia tinto vermelho de sangue o dia 24 de Abril de 1974. com distinção e elogios.. carago! ─ o soldado tremia lívido e pegado ao chão com botas de chumbo. ─ Calma.. ─ Já vamos ver! Vou levantar a pica devagar. ─ chamava o seu melhor colaborador e amigo.. O Pinto era um rapaz corajoso. como dizia publicamente e sem rodeios. quem faz a guerra são os soldados e os milicianos!” Na sua simplicidade e grandeza de alma.. o 1º cabo José Pinto. “que não tirava o cu das cadeiras e só sabia cagar sentenças!”... sempre tinham evitado a transformação das “ameaças superiores” em castigos: “Eles sabem perfeitamente. Os seus vários exemplos de coragem e nobreza de carácter.

44 .em Moçambique.

PARTIDA PARA ANGOLA NO FIO DA NAVALHA (I) 45 . REGRESSO DA ÍNDIA.2.

. onde. juntam-se homens esclarecidos falando do Mundo e do País. não podemos abandoná-los !.Tarde de sábado. mas com as preocupações de um mundo em tensão.. o sobrinho Alfredo. nos fins da década de 50. interregno no ciclo triturante de trabalho diário na oficina-fábrica-obra-loja-repartição-escola. e com as ralações de um País “padrasto” a contas com a História. Damão e Diu para nós? Vamos defender o quê a tantos milhares de quilómetros de distância? ─ Mas já lá estamos há muitos séculos. lembrando as lições da escola primária. temos o nosso direito histórico! ─ objecta um bem intencionado interlocutor. na babel de mesteres que fazem o burgo fervilhar como um formigueiro imenso em tempo de laboração. dá o mote: ─ O que representam Goa. oriundo do Alentejo litoral. ─ Direito histórico? Isso diz esse “santarrão” de Santa Comba para nos enganar! Descobrimos o caminho marítimo para a Índia mas já lá existia uma civilização! ─ Deixá-lo! Está lá muita juventude a defender aquilo. frente à taberna do Arnaldo. No estabelecimento da esquina da rua Aguiar. como republicano e antifascista. A barbearia do senhor Joaquim Faria enche-se de clientes esperando a vez ou simplesmente animando-se em conversas e altercações ligeiras. se engajou na luta contra a ditadura. ─ interpunha outro circunstante que tinha lá um familiar. mau grado o receio de a conversa ser escutada por ouvidos indiscretos. num local privilegiado onde se lê e discute “O Século” e a “Vida Mundial”. há muitos anos radicado na vila operária. O dono da casa. ─ Ora amigos! Podemos fazer alguma coisa contra 300 milhões de indianos? São tantos que a cuspo corriam com os portugueses para o 46 . Pausa em dia de Primavera com o clima ameno da beira-Tejo.

barba ou cabelo? ─ Barba.. A barbearia era a sua sobrevivência difícil. ─ Então senhor Vaz. fora avisado pelo “senhor inspector” para não se meter mais em políticas se quisesse manter a porta aberta. claro!. ─ e o cliente Vaz não abriu mais o bico até ao fim da operação de escanhoamento. um lampejo trágico passa-lhe pelo espírito: “À malandro. 47 . perdeu de repente a chama quando entrou o Vaz. estalou uma discussão sem nexo iludindo a presença indesejável. O barbeiro estava na política desde os tempos do MUNAF (Movimento de Unidade Antifascista) ainda durante a II Guerra Mundial. travara anos depois os primeiros contactos com a polícia política. como lhe ia dizendo. desculpe. bom. notório situacionista. demoradamente. refastelado na cadeira. Joaquim Faria maneja a navalha de barbear bem junto ao pescoço do farsante.oceano! A conversa muito animada. ─ Sabe. de quem havia fortes suspeitas de ser informador da polícia política. quando estou concentrado no meu trabalho não gosto de distrair-me com outros assuntos ! ─ Ah.. a PIDE rondava-lhe a casa. quando atendo os fregueses não presto atenção às conversas! ─ aplicava com zelo a “pedra de estancar” sobre um pequeno corte. Na sala. nessa azáfama. merecias que te cortasse o pescoço !”. tendo passado alguns meses preso em Caxias. mas o pior era a rede de bufos sempre à espreita: ─ Pois. Embora saísse sem julgamento. julguei ter ouvido falar da Índia quando entrei. provocando intenso ardor que fazia o linguareiro torcer-se todo na cadeira: ─ Ahhh! Claro. e. se faz favor! Que me diz à ameaça do pandita Nheru sobre o Estado Português da Índia? ─ disparou à queima-roupa o suspeito-debufo.

foram castigados com o corte de dispensas. no mesmo ano. a Assembleia Mundial da Paz. em 1955. pondo o quartel em “estado de sítio”. juntaram-se na parada a protestar. Estados Unidos e União Soviética. usando a férrea censura dos jornais. a conferência dos Povos Asiáticos e Africanos. escondendo do povo português a sua vocação belicista. procurando perpetuar um domínio colonial que os povos autóctones repudiavam. em Helsínquia. insistia na via do confronto militarista. Na longínqua Ásia. foram mobilizados 150 soldados para a Índia. Já em número de 300. respondeu Salazar em Junho de 1955 com o envio de mais um contingente de tropas e mais material de guerra. Damão e Diu. em Évora. Inglaterra. que no regresso da licença regulamentar de 10 dias. de que deveria restar uma memória positiva. sob administração portuguesa. o fim das guerras da Coreia e da Indochina. Os governantes fascistas. com representantes de 68 países. ficou uma lembrança trágica. preparavam mais mobilizações numa altura histórica em que se registavam alguns sucessos nas relações entre as grandes potências: A realização da Conferência de Genebra entre a França. prenúncio de outras tragédias diminuindo Portugal aos olhos do mundo. Alimentando um conflito votado ao insucesso com a jovem e poderosa nação indiana. em Bandung. o governo salazarista.PARTIDA PARA A ÍNDIA Às propostas de negociação pacífica feitas pela União Indiana sobre a futura integração dos territórios de Goa. O 48 . No regimento de Artilharia 1. se manifestaram ruidosamente contra a mobilização: “Não queremos ir para a Índia! Não queremos ir para a Índia!” Como represália. qual falcão em plena guerra-fria. e assim teve início uma escalada repressiva “exemplar”.

Aumentou a revolta aos gritos de. “Canalha! Cobarde! Se prendes dois. em 30 de 49 .comandante. e se acalmassem daria mais alguns dias de licença. dependia de outros embarques próximos. O COLONIALISMO TEM OS DIAS CONTADOS “No discurso perante o IV Congresso da União Nacional. Os delegados trazem a notícia e encontram a turba exaltada: “Não é amanhã. quando a marcha acabou muitos soldados vieram para a varanda do quartel que dá para a cidade. é hoje! É hoje!”. gritar: “Estamos presos e maltratados porque não queremos ir para a Índia!”. mandou fazer uma marcha acelerada. o comandante tenta uma manobra dilatória ao mandar chamar dois representantes dos soldados. na qual quem ficava para trás era sovado a cavalo marinho. Tal foi recebido como uma grande vitória pelos soldados de Évora. gritando de regozijo continuaram a afirmar a não aceitação da mobilização. intimando toda a hierarquia. Depois de mais alguns episódios repressivos. tens de prender todos!” Perante o estado de rebelião. como uma busca às casernas enquanto os soldados estavam formados na parada. No dia seguinte os dois soldados foram de facto libertados e recebidos em apoteose. Juntou-se muita gente cá fora e o oficial-de-dia tentou uma manobra dissuasiva dando ordem de prisão a dois “cabecilhas”. A gritaria durou muitas horas até à exaustão e à quebra pelo cansaço. foram finalmente informados que a mobilização não seria imediata. Exaustos e revoltados. prometendo liberar os detidos no dia seguinte.

escondida atrás de frases grandiloquentes como: “Portugal daquém e dalém mar”. havia diferenças assinaláveis entre sectores vacilantes com posições próximas de compromissos neocolonialistas ( que a ala mais liberal do regime também 50 . à sua subsistência”. Jogava as colónias e as suas imensas riquezas. “Pátria una e indivisível do Minho a Timor”. de forma premonitória que o “Avante!” de Junho de 1956. É assim. muito possivelmente a última que resta (à Europa) para que as sombras actuais não sejam nesta velha parte do mundo ─ sede da verdadeira civilização ─ crepúsculo definitivo”. Quando um povo. quando da negociação do plano Marshall.analisa a questão colonial portuguesa. “Uma Nação. Esta questão era desde há muito uma verdadeira pedra-de-toque da política pura e dura do regime salazarista. Ao mesmo tempo que intensificam a exploração das suas riquezas. decide lutar pela sua libertação arrasa todos os obstáculos levantados à sua frente”. como moeda de troca para as ajudas do “mal amado” amigo americano. pretendem integrá-las nos seus planos de guerra e reprimir o desejo latente de libertação desses povos que dia a dia despertam para a luta (. Há muito que os salazaristas e os imperialistas mostram esta preocupação pelas colónias e particularmente pela África. mesmo enfraquecido pelo longo jugo colonial.. Ainda no final da década de 40. Salazar dedicou grande espaço aos problemas coloniais e declarou que o Continente Africano é um “complemento natural da Europa.Maio de 1956. etc. Na década de 50. muitos povos”. “a África constitui para os países que a colonizaram uma tão vasta como legítima reserva.. Salazar afirmara que . necessário à sua vida. cobiçadas pelos norte-americanos . sob o título: “O Colonialismo tem os dias contados”... no campo democrático. à sua defesa.) As tentativas para a reprimir de nada servirão.

.perfilhava) e as posições mais firme e consequentemente elaboradas... significa a escravatura em pleno século XX! Conclui o já transcrito “Avante!”. organizam aquilo a que chamam “defesa” de África (. de Junho de 1956 : “(. Mas a intensificação da exploração e dos perigos da guerra 51 . O órgão central dos comunistas. há muito denunciava a política colonialista de Salazar e os seus preparativos para uma guerra cada vez mais inevitável do ponto de vista do movimento independentista que varria África. o ditador classifica caluniosamente este anseio de libertação dos povos oprimidos e explorados. instruía os meios humanos e adquiria os meios bélicos para sufocar a libertação almejada pelos povos da Índia e de África sob o jugo português. Por volta de 1954. Para os povos das colónias portuguesas esta “civilização” significa o trabalho forçado. o MUD Juvenil. social ou político. De resto não era a primeira vez que o assunto era abordado pelas forças antifascistas em Portugal. expressou de forma clara o seu apoio ao princípio da autodeterminação e da escolha livre do próprio futuro pelos povos das colónias portuguesas. isto é.). as fomes e epidemias devastadoras... O regime salazarista. generoso portador da civilização”. salários de 1$50 e 2$50 escudos por dia de trabalho. de costas para a História e numa corrida contra o tempo. em iniciativas abertas e unitárias.. já citado. . cinemas e lugares públicos.) E é preocupados pelo descontentamento que esta situação provoca (. “um movimento racista contra o branco. a “Autodeterminação e a Independência dos Povos das Colónias”. a ausência de qualquer direito. No referido discurso ao Congresso da União Nacional em 1956... acompanhadas de inscrições murais em Lisboa. a segregação racial nos transportes. na Margem Sul e noutros pontos do País. O Partido Comunista Português tinha inscrito no seu programa para o derrube do fascismo.) que os colonialistas portugueses e estrangeiros. como.

A luta nos quartéis iria durar todos os anos da guerra. nem a intensificação da repressão e da exploração o poderão salvar”..). mas nenhuma réstia de esperança alterara o terrível diagnóstico de um célebre professor especialista: ─ Trata-se de uma doença neurológica congénita.. e desde então todos os anos vai a Fátima. com quem tinha claras parecenças fisionómicas.. com que trabalhos e canseiras. como os valentes soldados de Évora. vigário da matriz: 52 .aumentam ainda mais a revolta dos povos africanos. nem os planos e as medidas de guerra. Muitos anos de sangue e morte iriam correr até ao seu fim inexorável. em Portugal não existem meios para minorar estes problemas ─ dissera o mais sapiente e honesto dos doutores. mais do que com qualquer outro membro da família. nem os discursos de Salazar. numa fé renovada e encomendada pelo pároco Costa.. (. O colonialismo tem os seus dias contados. quando o clube da terra jogava em casa. nós somos pobres!… A tia Clotilde não tomou à letra o diagnóstico do professor neurologista. na casa modesta da tia Clotilde. posto que irmãos não tinha. era tempo de visitar o primo Zé. que correra “seca e meca” com o filho ainda bebé. REGRESSO DA ÍNDIA Na tarde dos domingos de Inverno. Mas senhor doutor. admitindo no entanto os progressos feitos nesse domínio em Inglaterra: ─ Inglaterra? . muito sofrimento iria ser causado à juventude portuguesa que desde muito cedo dava sinais claros de insatisfação. O Zé vivia numa cadeira de rodas com grave deficiência neurológica desde a nascença. depois da “bola”.

com uma relativa consciência do mundo. havíamos de lá ir todos defender! ─ Ó tia Clotilde. “uma subscrição nacional para a compra de um porta-aviões para enfrentar as hordas do pandita Nheru!” ─ Esses bandidos querem tirar-nos o que é nosso. era a sua companhia de muitas horas. comprada a prestações com muitos sacrifícios. um luxo para as classes trabalhadoras. pois sinto que apenas pode haver soldados vitoriosos ou mortos”.─ Clotilde. sintonizada com as mãos encarquilhadas e trémulas. sem falar mas sorrindo docemente quando o primo João que com ele brincara em pequenos na casa dos avós paternos. Pela solenidade da fala percebia-se a gravidade da situação e o carácter imperioso da afirmação. para ouvir os relatos de futebol. olhe que os indianos são muitos.. A telefonia. naquele tempo dos princípios da década de 60. cresceu e viveu uma vida inteira na sua cadeira. Na Emissora Nacional era tempo de notícias e o locutor com voz colocada.. Em seguida o locutor dava conta da “iniciativa patriótica” de. hoje o nosso clube ganhou! ─ Gôoo! ─ gritava entusiasmado acenando com a cabeça e apontando para a telefonia. 300 milhões!. ─ contraditava com prazer o rapazote–sobrinho. como não haverá navios rendidos. entretanto já terminados. num assomo de inteligência que desenvolvera fragmentada no seu cérebro afectado. lembrando-se da afirmação 53 . dava conta do discurso do senhor Presidente do Conselho sobre a situação no “Estado Português da Índia”: … “Não prevejo possibilidades de tréguas nem prisioneiros portugueses. não percas a fé na senhora de Fátima. um dia receberás a graça para o teu filho! Nunca aconteceu tal milagre e o primo Zé. o ia visitar à casa térrea da rua Aguiar: ─ Então Zé.

. talvez!... Quanto custaria um porta-aviões? Dez ou vinte milhões.do barbeiro. ou nas terras misteriosas de sangue e morte. feitas 54 . “rapidamente e em força”. O locutor anunciava o acumulado na subscrição. numa atitude típica do seguidismo salazarista. em Dezembro de 1961. Eram agora raros os saltadores exímios. restavam os ganapos e as moçoilas. apenas se conservava a tradição do crepitar de chamas pequenas queimando lenha e trastes velhos. . ─ Deixá-lo! Não podemos abandonar aquela terra portuguesa a esse pandita! A tia Clotilde não sabia estar a referir-se a um título honorífico e religioso hindu.. comandados pelo general Vassalo e Silva. na Índia longínqua. Quando os militares portugueses. as tropas portuguesas na Índia. sem o esplendor e o entusiasmo de outrora. ─ o moço espigadote sentia-se bem a contrariar a familiar mais velha.. os jovens em idade de servidão militar estavam saltando sobre perigos bem maiores. se recusaram ao sacrifício patético e inglório que Salazar exigira aquando da invasão dos territórios de Goa. a sufocar a revolta nacionalista do povo angolano. rapaz! Parece que estás do lado deles! * Não voltaram as cantorias à volta da fogueira na esquina do Arnaldo. dez mil e tal contos. ─ Ah. de medos e angústias. Damão e Diu pela União Indiana. Em Maio de 1962. na altura dos Santos Populares. como mandara o ditador.. já muitos contingentes tinham embarcado para Angola. em África. por isso lhe dava uma carga pejorativa. ─ Não acha um bocado ridículo esta coisa do porta-aviões?!. Joaquim Faria.

na ausência de informações oficiais.prisioneiras depois da rendição assinada a 19 de Dezembro. oriunda da zona antiga da vila operária. vestes escuras e lágrimas doridas. Alguns em desespero tentam romper o cordão policial mas são impedidos à “cassetetada”. apupos. foram brutalmente impedidas de se aproximarem do . dado o seu isolamento. as mães de todos os soldados que tinham sido enviados cais: ─ Meu filho. instado por um grupo de familiares. iam finalmente regressar ao País. Os barcos “Pátria” e “Vera Cruz”. Gritos. grande algazarra entre as centenas de parentes. cada vez em maior número. É um senhor vestido civilmente. sendo logo cercados por enormes contingentes da PSP e da PIDE. após meses de cativeiro prolongado injustificadamente pela incapacidade do regime português em negociar na cena internacional. ─ Temos ordens para não deixar passar ninguém! ─ gritava um polícia meio desorientado. ansiosa por abraçar o ente querido. só acostaram em Lisboa já de madrugada. A mãe de Alfredo. fundeados desde manhã cedo ao largo de Cascais. conforme os boatos que iam surgindo. correu juntamente com muitas outras famílias. ─ implorava uma velha mãe. meu querido filho! Quero ver o meu filho!. a família de Alfredo Júnior. já não o vejo há dezoito meses!. e viceversa. com milhares de soldados a bordo (cerca de 4 mil!).... ausente há muito tempo. No dia 23. lenço modesto na cabeça. do cais da Rocha para o cais de Alcântara. ─ Só após a desmobilização nos quartéis! ─ esclarecia arrogante um oficial da Polícia. que orienta as operações: 55 à força para defenderem o império colonial em desmoronamento. ─ Mas eu preciso de abraçar o meu filho.. de gabardina e chapéu. vindos dos desenganos apesar da noite fria.

incutindo-lhes coragem para suportar aquele episódio ultrajante. Rompe o dia sobre a cidade com a brisa leve e fresca a afastar a neblina cobrindo o cais de Alcântara. centenas de familiares estoicamente resistentes a um dia de trapaças e enganos. A família de Alfredo não abraçou o ente querido mas leu o documento passado de mão em mão. povo de Portugal. Como povo livre. acenam com lenços brancos.. no âmbito de um inquérito “de traição à Pátria”.. por sua vez. onde os últimos camiões carregam os soldados proscritos para serem interrogados nas suas unidades. debaixo da mira de dezenas de espingardas. Ao longe. datada de 14 de Dezembro de 1961. está a lutar pela liberdade e justiça contra o inimigo comum (. a nossa eterna amizade e solidariedade” (…). salvos da cegueira e da arrogância que obrigava ao sacrifício extremo da 56 .─ Arrêem em quem tentar passar! Ninguém pode chegar junto daquela canalha! ─ berrou alto. antes de voltarem para casa. ─ Esses cobardes deviam ser todos fuzilados! ─ acrescentou outro “pide”. estenderemos a vós. onde se lia: “Neste momento de grande expectativa em que se vê próxima a nossa libertação de 450 anos de escravatura colonial portuguesa e a reunião com a Índia-mãe. alguns jovens esgueiram-se lestos. Na cauda da multidão que continuava a lamentar-se impotente. percebendo finalmente porque o regime não queria que os familiares fossem buscar os seus filhos. fora do olhar policial. virando-se para o lado do rio onde os soldados desembarcados eram empurrados para camiões militares em fila.) Por isso. não podemos esquecer o povo português que. mas contra o colonialismo e o fascismo. distribuindo dezenas de exemplares da “Mensagem do Povo de Goa ao Povo Português”. acompanhando zelosamente o senhor inspector. mais uma vez queremos assegurar ao povo português que a nossa luta não se dirige contra ele.

57 . talvez pela primeira vez. Regressaram à terra natal. compreendendo. cada vez mais pobre e mais isolada no contexto internacional. o profundo desprezo de Salazar pelo seu próprio povo. em troca de uma decantada pátria pluricontinental.juventude.

Damão e Diu. Um conjunto de acontecimentos significativos contribuiu para a queda inexorável dos impérios coloniais tornados empecilhos ao processo de desenvolvimento capitalista na Europa. nomeadamente nos territórios sob o domínio colonial português. Significativa foi a realização em 1956 em Bandung. em 1955. potência colonial. da I Conferência do Movimento dos Países Não Alinhados. foi determinante para o nascimento e implementação dos Movimentos de Libertação Nacional em África. em Diên Biên Phu. Ou a realização de um “referendo em Goa”. na Indonésia. inicia a primeira luta armada no Continente Africano. 58 colonialmente ocupados. contra o ocupante francês. o Vietname de Ho Chi Min derrotou a França. culminando a heróica luta de libertação de mais de 10 anos do povo vietnamita. Nesse ano a Frente de Libertação da Argélia. FNL. nomeadamente do PCP e do Movimento Democrático.A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM ÁFRICA A década de 50 do século XX. formado por países que não pertenciam a qualquer dos blocos militares (NATO ou Pacto de Varsóvia) onde se fez uma forte condenação do colonialismo. A ocupação militar extensiva era demasiado dispendiosa. como escreviam nas paredes os activistas unitários do MUD juvenil. Por essa altura também a Índia apresentava as primeiras reivindicações sobre os territórios de Goa. porém. Em 1954. a opinião dos meios de oposição ao regime. que tinham já formulado a exigência de “autodeterminação e independência para as colónias!”. que considerava proclamavaportuguesa”. Não era esta. enquanto Salazar -os parte integrante da grande “mãe-pátria .

culminando a discussão na “Declaração Universal contra o Colonialismo”. a resolução 1514 aprovada na Assembleia Geral de 13 de Dezembro de 1960. 59 . todos vivemos num único planeta. garantindo com vantagens a predação das matérias-primas e a manutenção. O texto inicial proposto para discussão em Setembro desse ano. Do que se passou nessa histórica assembleia. De Gaulle conferencia com Sekou Touré sobre a próxima independência da Guiné-Conacri. pela União Soviética. com grande receptividade da maioria das Nações Unidas. trabalhamos. começava assim: “Que todos os povos do globo oiçam as nossas palavras.. dos interesses económicos das grandes empresas multinacionais. com partilha reforçada e enriquecimentos escandalosos. Em relação às colónias portuguesas. Em 1958.. dá notícia o “Avante!” de Outubro de 1960. tal como a Inglaterra tinha criado a “Commonwealth”.)”.A França e a Inglaterra já tinham entretanto percebido como sopravam os ventos da História e que o colonialismo puro e duro era economicamente desvantajoso. os representantes dos países socialistas. e avança com a formação da comunidade de povos de Língua Francesa. fustigaram as misérias do colonialismo português e ridicularizaram os estafados argumentos com que os representantes de Salazar tentaram defender a podridão da política colonial da fascismo português. dos neutralistas e das jovens nações africanas. o Gana levantou a questão pela primeira vez na ONU em 1957. comentando a situação nos seguintes termos: “Na última Assembleia da ONU. Estavam lançadas as bases do futuro Neocolonialismo. privilegiando o domínio político e económico sobre governos-fantoche da burguesia negra corrupta. educamos os nossos filhos e lhes transmitimos tudo o que temos realizado na vida (. Neste planeta nascemos.

). com o apertar das algemas da opressão colonialista.. toda a gente vê a realidade cruel: na África e na Ásia. A continuação desta política envergonha a consciência nacional e enche de descrédito o País aos olhos dos outros povos”. oiçam. esbulhados dos mínimos direitos e liberdades. que procuram inverter os factos.Por detrás da fraseologia patrioteira dos salazaristas. ivuenu. Scalo Bengo (Angola)... Bissau. Os massacres dos povos de S. Tomé. A canção dos nacionalistas insurrectos que estiveram no “Levantamento de 4 de Fevereiro de 1961”. Em breve fariam prova estas palavras certeiras. como a mais severa condenação do seu domínio imperialista. ficarão assinalados na história sangrenta do colonialismo português. com o agravamento da exploração colonial. Timor. Os patriotas angolanos. Goa. Neves Bendinha. Mueda.. voltaremos aqui. 12 milhões de homens e de mulheres das colónias portuguesas são submetidos à mais dura escravidão. Paiva Domingos da 60 . Salazar responde com a mais sangrenta repressão. Cabinda.” (oiçam. Às sentidas reivindicações de liberdade e independência dos povos coloniais. dizimados por uma exploração desenfreada de um grupo de roceiros e monopolistas. em Luanda. mantidos na miséria e na ignorância mais profunda. turutuka dii. encerrava a mensagem premonitória da vitória final e era um grito de revolta contra a política colonialista portuguesa e o seu cortejo espantoso de crimes de quatro séculos de dominação. ANGOLA: 4 de Fevereiro de 1961 “ Ivuenu.

que embora considerasse a acção prematura e mal preparada. que Henrique Galvão havia tomado e rebaptizado de “Santa Liberdade”. perpetrados pela Força Aérea Portuguesa sobre os camponeses revoltados na Baixa do Cassange. tinha apoiado materialmente a aquisição das catanas e dos fardamentos. certamente por considerar que era a altura de denunciar a política colonial portuguesa de superexploração e terra queimada. (houve um piloto que se recusou e foi liminarmente afastado da Força Aérea). Contavam com o apoio espiritual de monsenhor Manuel Joaquim das Neves. o próprio. na Ilha de Santiago. iriam ser transferidos para o Campo de Concentração do Tarrafal. abençoou os revoltosos. sobretudo a presença em Luanda de dezenas de jornalistas estrangeiros. levaram os revoltosos a decidirem avançar em acções de grande bravura e sacrifício colectivo. Domingos Manuel Mateus. enquadrados em vários grupos. um cónego mestiço angolano. Na madrugada de 4 de Fevereiro. fazendo milhares de vítimas. De resto. As notícias chegadas a Luanda sobre os bárbaros bombardeamentos com “napalm”. Imperial Santana. Virgílio Francisco. mas decidiram avançar com as acções revolucionárias que dariam a conhecer ao mundo o drama do povo angolano. tinham a perfeita consciência das poucas ou nulas hipóteses de êxito contra a Polícia ou a Tropa armada de espingardas. a informação de que os presos políticos do chamado “Processo dos Cinquenta”. na expectativa de ver chegar o paquete “Santa Maria”. guardadas no campanário da Sé Catedral. à frente de cerca de 200 homens armados com catanas. denunciando ao mundo o regime fascista e colonialista de Salazar. missionário na arquidiocese de Luanda. os insurrectos atacaram os vários pontos previamente delineados: ─ Emboscada a uma patrulha da Polícia Móvel no bairro de 61 . em Cabo Verde.Silva. Raul Deão.

Foram mortos 7 polícias portugueses e morreram nos assaltos. À noite nos muceques. ou de trabalhadores numa oficina perto. feridos. levado a cabo por gente desvairada. ( dizia não ter tempo para instruir os “processos legais”!.ª esquadra da PSP (estrada de Catete).Sambizanga (foram mortos 4 polícias). Nenhum dos objectivos foi alcançado. onde estavam muitos presos políticos. ─ Cadeia da 7. começou a terrível “révanche”. eram os gritos das turbas exaltadas durante o dia. torturados e eliminados pela PIDE no Forte de S.). sendo os restantes. por forças tresloucadas de ódio rácico e “empurradas” por facínoras profissionais: rusgas. Pedro da Barra. presos.. dezenas de autóctones. com a perseguição. espancamento e morte de gente negra. mortes às dezenas. ─ Companhia Indígena. nas rusgas e cercos. ─ Cadeia da Administração e da PIDE no bairro de São Paulo. Estava iniciada a Guerra Colonial. empurrados logo de manhã para as valas comuns. ─ Assalto à Casa de Reclusão Militar. o mais terrível flagelo que ensombrou Portugal no século XX. filho da puta!”. correrias.. espancamentos. deixando centenas de cadáveres. ─ Emissora Oficial de Angola e no Bairro dos Correios no Musseque Rangel. junto à praia do Bongo. dirigido por uma ditadura retrógrada que não quis negociar a 62 . com poucas excepções. interrogados. Logo no dia dos funerais dos polícias brancos. uma autêntica “eliminação selectiva”. era a “limpeza étnica”. digna de verdadeiros herdeiros dos esclavagistas e negreiros do passado: “Mata que é turra!”. Depois foi um terrível massacre. que seguia num machimbombo (autocarro). indefesa. “Mata esse preto. com milhares de colonos europeus no cemitério de Sant´Ana. Agarra que é “lumunba!”.

sempre com conta e medida. Ao fim da tarde. O célebre fadista. patriótica mistura de emoções e de sentimentos de dádiva e de nobre sacrifício. na hora de ir comprar meio litro de tinto de fraca qualidade mas imprescindível nas refeições do progenitor. nascido no Barreiro e crescido no popular bairro da Bica em Lisboa. quando a avenida da Praia era mais frequentada. do café Beira-Mar. embargava-se a voz com um nó na garganta que nem a lágrima furtiva pela face imberbe. repetidos todos os dias nos programas de discos pedidos que enchem as rádios populares.tempo o legítimo direito dos povos africanos à autodeterminação e independência. PARTIDA PARA ANGOLA No Verão. instalava um altifalante na esplanada transmitindo uma música roufenha para animar os poucos clientes que apareciam para os caracóis. conseguia desatar. cantava com a sua voz timbrada de agudos a estrofe mais marcante: “ É se eu morrer na batalha só quero ter por mortalha a bandeira nacional. ouvem-se os fados cantados por Fernando Farinha. Anos e anos na Escola Primária a ouvir falar da 63 . e na campa de soldado só quero um nome gravado o nome de Portugal “ Produzia uma forte impressão mística. o João “Careca”.

Despertado o interesse e justificados os ralhos pelo provável atraso no regresso a casa.” A sensação desagradável. inquietante mesmo... um coro em crescendo entoando de forma compassada e profunda: “Angola. pela negação dos factos apresentados. à saída do café–taberna com a garrafa a meio daquele líquido escuro e viscoso. três ou quatro todos os dias para não assustar muito. porque a família real era dinástica e divina. vinha a seguir com o comunicado oficial do Estado–Maior General das Forças Armadas. Fazia vibrar de emoção e orgulho. vindas de países satânicos como a República de Pankov ou a Rússia dos Bolcheviques. sobre os militares mortos ao serviço da Pátria. ouve-se uma música característica e uma voz afectada no aparelho roufenho: “A verdade é só uma. A mística raiava o paroxismo quando se ouvia na Emissora Nacional. A curiosidade fora espicaçada. que nos queriam tirar as pertenças por direito sagrado. a rádio Moscovo não fala verdade! Um programa de Ferreira da Costa”. gritarei é carne e sangue da nossa grei. antes do noticiário rico em obras e inaugurações oficiais.. resultante dos feitos grandiosos dos reis-heróis e dos heróis que não foram reis. a ideia de defender a Pátria ameaçada por perversas forças do mal. cheirando intensamente e com sabor agressivo experimentado em breve afloramento aos lábios. é nossa.... da sua grandeza Além-Mar. deixando uma angustia de dúvida e receio. 64 . é nossa! Angola. Acabou o noticiário. sempre se ficava a saber alguma novidade. é nossa! Angola..multicontinentalidade da Nação.. tudo somado tínhamos o tamanho de metade da Europa! Era obra. quebrando a corrente emocional e patrioteira.

S.. Goa. onde num Kasbah assistira à “dança do ventre”. Vozes estrangeiras incompreensíveis. O Ferreira da Costa. nada! Finalmente ouviu-se uma voz em português. subindo rapidamente e obrigando a baixar o som do aparelho: “. Tomé. músicas estranhas que o velho vizinho. centenas de patriotas portugueses cujo crime foi a luta pela liberdade negada há mais de 36 anos. bem pronunciada. senhor Lobo.. Scalo Bengo . identificava com a sua atribulada viagem a Marrocos. deixando no seu lugar um zunido irritante e a expectativa do regresso. mas a realidade inevitável.. salazarista convicto.. sobrinho por afinidade.. Os bufos andam a escutar às portas! Tentava defender o miúdo. diz ser tudo mentira!. numa atitude paternalista de quem está ciente ser o mundo perverso. pela ditadura terrorista dos monopólios associada. três tentativas. mantém nas masmorras da PIDE. massacrando os povos das colónias com os crimes de Bissau. Mas é perigoso ouvir!. o regime 65 . duas.. idiomas complicados que a escola preparatória não ensinava. E voltava! “. Baixa do Cassange. O regime fascista. rapaz! Para que queres tu saber isso? ─ Para ouvir o que lá dizem. na Emissora Nacional.─ Tio Zé. imitada em dias de festa etílica pelo seu ventre proeminente. em que onda se ouve a Rádio Moscovo? ─ Ora. Uma. Timor. etc.... ─ Esse gajo é da situação.” Perdeu-se no éter o som que minguara até desaparecer.. Era espantosa a vitalidade e a boa disposição daquele homem-pequeno de mais de 70 anos. Lá foi dizendo o local do quadrante na sua velha telefonia onde se sintonizava em onda curta..

entre as 19. Naqueles anos da metade do século a ruína espreitava milhares de famílias e a única solução era sair à procura de vida melhor. Os dilemas da guerra e da paz.” Afinal não era a Rádio Moscovo. unanimemente apoiado pelos familiares percebendo as suas potencialidades.ª classe na Sertã natal. era outra voz da mesma liberdade procurada. Espera enervante.. pelos serviços da PIDE. a Rádio Portugal Livre transmite todos os dias na banda dos 26 metros.colonialista foi incapaz de negociar a paz e a autodeterminação atempada desses povos e massacra agora as gentes de Angola...00 horas. * A vida na agricultura tornara-se impraticável para as famílias numerosas no centro beirão. foi fazer o ciclo preparatório para Castelo Branco. para onde o ditador Salazar mandou embarcar rapidamente . certamente ciente das interferências intentadas na recepção longínqua... O primeiro grande solavanco no difícil equilíbrio de viver da terra. do sentido patriótico e de incomodidade e 66 . Manuel era o mais novo de quatro irmãos e bem cedo mostrou jeito para as letras.. o zumbido irritante e a voz só regressando alguns minutos depois: “. obstando a mensagem de denúncia e de luta. a braços com os custos elevados dos factores de produção e a acção espoliadora da rede de intermediários parasitas que sugavam através da imposição de baixos preços na produção. Depois da 4.” Lá se perdia outra vez a voz marcada do locutor. foi a ida para a tropa e a mobilização para a Índia do irmão mais velho. a mais-valia do trabalho de sol-a-sol de toda a família dedicada.00 e as 21.

por sugestão de um colega. o irmão mais velho ficara preso na Índia após a rendição em Dezembro de 1961. deixando a terra-mãe que nunca fora a sua vocação. abriam-lhe os horizontes. aliciado pela PIDE. Um segundo passo importante fora a mudança. A grande cidade dava outras oportunidades. para a outra-banda. por lá ficou mais de um ano. com um salário que mal dava para a renda do quarto. na Escola Fonseca Benevides. o futuro exige gente mais instruída ─ fora o melhor conselho do pai. as leituras recomendadas. chegando a casa à meia-noite para se levantar às 6 horas e iniciar uma longa jornada diária. promete continuares a estudar.incerteza no futuro. O convívio com operários mais velhos e experientes. e o clã familiar em desmoronamento: ─ Manuel. as conversas sobre a realidade do País. Entretanto o irmão a seguir já fora incorporado na vida militar e estava mobilizado para Moçambique. Um passo decisivo na sua vida fora a obtenção de um lugar de aprendiz de mecânico na companhia de telefones (antiga APT) levando-o a mudar para o Curso de Rádio-Montador. apanharam o jovem estudioso num tempo prematuro mas crucial. Manuel interrogava-se. o preço da contribuição familiar parecia-lhe demasiado. parco de palavras. A Pátria continuava a dar as maiores preocupações. Com 14 anos decidiu partir para Lisboa. matriculou-se no curso nocturno na Machado de Castro. em toda a sua vida. Aprendiz numa oficina de automóveis. embora exigisse muito sacrifício. e porque pertencera a um grupo que oferecera resistência. onde arranjara alojamento muito mais em 67 . a problemática da guerra da qual possuía uma experiência familiar. com uma sedimentada consciência de classe.

em casa de um velho ferroviário que lia o “República” e lhe passou. fora o alfa e o omega da sua tomada de consciência. mas chegara a sua vez. A experiência de participação. iniciadas pelo repúdio do Decreto-Lei 40. o “Avante!”. em 1966 numa grande manifestação em Lisboa. que fazer? * A notícia chegara perturbadora: “O Nana vai embarcar para Angola!” Embora já pouco se encontrassem. depois da incorporação e a recruta. mantinham a amizade da adolescência. onde com outros jovens da mesma idade falava sobretudo da guerra colonial. E agora. Ao fim de semana começou a frequentar a colectividade do bairro. que depois da questão da Índia. Ainda agora. que trouxeram para a rua centenas de estudantes do ensino nocturno. os caminhos tinham divergido entre a escola e a tropa. pela primeira vez. O terceiro irmão não fora mobilizado. de Xabregas à Veiga Beirão. As opiniões dividiam-se entre quem advogava o “salto” para fugir àquele terrível conflito. e os que defendiam a ida para a frente para desmascarar a guerra “por dentro”. tendo depois emigrado para Angola. a mobilização para Angola.conta.900. partilhada em muitos anos de brincadeiras. quando se encontravam uma vez por outra ao fim de semana. a conversa era fácil e fraterna: 68 . Contou a história do irmão preso durante quase dois anos e que já não parecia o mesmo quando regressou da Índia. nas lutas no Ensino Secundário. nunca mais parara de se agudizar. preocupações comuns e solidariedades.

As centenas de lenços a acenarem no cais de Alcântara. enquanto o “Niassa” se afastava lentamente. ─ Vou à partida do Nana na próxima semana ─ foi a resposta à notícia transmitida com preocupação pela progenitora .. em dar o “cava”?!. os gritos de desespero de mulheres a desmaiarem na emoção da despedida e na incerteza do regresso. um bom rapaz... até se leva bem.. mas o Nana era assim.─ Então a tropa como vai? ─ Tirando a recruta. agitando-se freneticamente na amurada. não! Mas quanto mais cedo melhor.. ─ Não. vamos todos lá parar!.. para onde vão muitos! Já viste. ─ Já sabes alguma coisa? ─ havia sincera ansiedade na pergunta. ─ “T’ás” maluco ou quê? Ia para onde? ─ Olha. ─ Está ali o cartaz! É ele! É ele!. O pior é a mobilização!. vestido de pequeninas velas brancas. encobre da vista o barco. eram um choque tremendo fazendo apertar o coração e abrir a consciência. incapazes de esconderem a sua mágoa e vergonha. filho da minha alma! Adeus que nunca mais te vejo! Uma névoa salgada de lágrimas teimosas. ─ Nunca pensaste em não ir. 69 .!? ─ Cruzes canhoto! Se Deus quiser não há-de ser nada! Era doloroso ouvir esta fé resignada. muito arreigado à educação tradicionalista da mãe que gostava muito de fardas militares. ir à guerra e ter lá um azar. o choro mudo e soluçado dos homens.. ─ Adeus filho. Sou atirador de infantaria... empurrando mais e mais o navio pela barra fora..

quiçá para sempre. constituía um arquétipo da candura nacional. com a conclusão de que aquela era uma causa injusta e excessivo o sacrifício exigido. A vontade nacional de agarrar o destino. o velhote certamente não foi ouvido pelo iludido parente. no silêncio do quarto.O grito triunfante do homem de samarra de camponês. alimentada de patranhas e de falsas ilusões imperiais . não garante que a carta seja recebida em vida do soldado assinalado! À noite. e o som do desespero dos gritos lancinantes dos familiares no cais. no meio do magote de gente lamuriosa. ─ Deve servir-lhe de grande coisa o cartaz! Parte ao mesmo tempo que os outros! Estão a dar cabo da juventude! ─ comentava um cavalheiro mais idoso com um sincero ar sério de zangado. Com a imagem do barco cinzento e do formigueiro de militares agitando-se na amurada. mas nunca de contrariá-lo. procurando manter os fios invisíveis da ligação prestes a quebrar-se. adormeceu finalmente inquieto e agitado. Ainda duraria até ao tempo de ir para a tropa? NO FIO DA NAVALHA (II) A barbearia do senhor Joaquim Faria estava cheia de uma clientela 70 . que irá escrever ingenuamente na primeira missiva a inaugurar a correspondência: “Vimos o teu cartaz até o navio se afastar para longe!”. alguns. João reflectia sobre aquele cenário pungente da partida de milhares de soldados servindo de “carne para canhão”: “Que guerra é esta que faz sofrer quem parte e angustia os que ficam?”. No meio de tanto burburinho e de alguma histeria.

recentemente. têm lá cabeça para se governarem. também houve nações e povos desenvolvidos. enfurecidas e instigadas por brancos racistas e vingativos. até chegarem os europeus escravatura. a UPA (União dos Povos de Angola) revoltou-se no mês seguinte no Norte contra o esclavagismo colonial reinante. perpetrado pelas tropas coloniais. 100 mil?). Como sempre os argumentos contraditavam-se: ─ Os pretos fizeram uma carnificina contra os brancos. ─ Mas não mostraram as muitas carnificinas feitas aos negros ao longo da História. chacinando colonos brancos (cerca de mil) e muitos negros “fiéis”(cerca de cinco mil ). O que se seguiu. por vingança.conversadora. que lia e com o colonialismo e a 71 . E mesmo mais para sul do deserto de Saara. e agora. ─ Os pretos são meio selvagens. ou para alguma coisa!?. Na zona velha de maioria operária.. foi uma terrível orgia de sangue num morticínio em que foram mortos dezenas de milhar de autóctones (40. pelos movimentos de libertação. Estes números indecorosos nunca foram rigorosamente apurados. nas zonas da savana e das florestas. Joaquim Faria não perdia a oportunidade para esclarecer os fregueses menos informados. um grupo de cariz tribalista. Eu bem vi na televisão os cadáveres esquartejados! Depois do levantamento de 4 de Fevereiro em Luanda. 80. Autodidacta e amante do saber. A televisão só mostra o que quer! – retorquiu um cliente menos crédulo.. havia muita gente esclarecida. no Norte de Angola. ─ A História ensina que as civilizações do Norte de África foram das primeiras da Humanidade. O tema central era a guerra desencadeada há algum tempo em Angola. como sempre acontecia aos sábados.

o jovem sentou-se na cama para olhar o relógio e confirmar. * Eis que entra o suspeito Vaz e vai logo direitinho para a cadeira do mestre.. quando estou a trabalhar não dou atenção às conversas dos clientes! ─ ríspido. e o sangue gorgolejou inundando o chão de ladrilhos brancos e negros. à volta do quarto pequeno e modesto. como era sua prerrogativa: ─ Então que me diz ao terrorismo em Angola? Temos de defender o que é nosso.acompanhava os problemas. não acha?!. 72 . Naquele tempo era grande a histeria nacionalista à volta da guerra em Angola. como lhe tenho dito. Daquela vez não ia escapar o malandro e cínico provocador. senhor Vaz. ─ Sabe.. E também lá foram vividos os primeiros amores. servindo simultaneamente como local de estudo e leitura. Não se tratava propriamente de um quarto mas de uma divisória criada na sala que permitira uma importante privacidade aos 18 anos. quando entrei!?. mas também existiam muitos outros de fraca instrução e alvo fácil das patranhas oficiais.. o barbeiro brandia a navalha da barba junto do pescoço do bufo. que tudo estava sossegado. de reflexão e de descanso. que todavia não se coibiu de contrapor: ─ Pareceu-me ouvir falar contra a nossa política em Angola. Um golpe rápido e certeiro com o fio da navalha no pescoço do patife. com os muitos clientes aplaudindo e gritando: “Bem feito! Foi muito bem feito!” Com uma sensação estranha e dolorosa de quem estava a sonhar um pesadelo. ─ lá estava outra vez a provocatória criatura a querer arranjar sarilhos.

um cheiro intenso a pólvora e a sangue. “Safa.. Sonho ou pesadelo premonitório? 73 . um precipício negro em que estava prestes a cair!. densa. correrias. como se propunha. luzes intensas.. ainda é muito cedo!”.“São seis horas da manhã. que sonho dramático!”. perseguições. com a lembrança inquietante das imagens dolorosas da despedida do amigo que partira para a guerra no dia anterior. A barbearia do senhor Joaquim Faria àquela hora ainda está fechada. João deixou-se dormir novamente. Depressa voltou a sonhar com uma zona escura. só abria às nove horas para cortar o cabelo. talvez uma floresta.

3. NÃO JURES CAMARADA 74 .

Na manhã seguinte. mas inteligente: ─ São dez quilómetros. Posso chamar um táxi. surgiam inóspitos e acabrunhantes os longos corredores de pedra à luz escassa da ainda madrugada. Era preciso esperar duas horas longas e contrariadas no largo fronteiro à estação. O chefe olhou-o com ar circunspecto. não temos transporte? ─ perguntavam quatro mancebos ao chefe da estação. ─ A vila fica muito longe? Não podemos ir a pé? ─ perguntava um expedito mas gordito rapazola de pesado malão no braço. ─ E agora. confundindo-se num emaranhado de escadarias iguais e 75 .. nada mais. já sem companhia. O bilhete-requisição fornecido pelo Estado aos incorporados que iam assentar praça terminava ali. o combóio ronceiro e vagaroso até à estação de Mafra que ninguém explicara ficar a uma dezena de quilómetros da vila. com duas ou três casas. ─ A próxima camioneta da carreira é só às oito horas da noite.LONGOS CORREDORES DE PEDRA A viagem de barco para Lisboa era a primeira etapa de uma longa caminhada repartida por muitos anos e por muitos lugares. fresca de Outono precoce. não me parece!. Seguia-se. a receber instruendos desde o início do dia 7 de Outubro de 1971. Chegaram ao monumental quartel já depois da hora de jantar.. primeira “lerpa” na nova vida e foram encaminhados para a caserna pequena no 1º andar. mas isso fica-vos muito caro e não têm obrigação. três horas de caminho. A caserna grande no 2º piso já estava lotada.

escondidos nos traumas de infância ou nos genes dos cromossomas da evolução humana. e já fizera a exploração dos itinerários. e então aumentavam o susto e a angústia por se saber ser aquele o treino para a guerra terrível e cruel que aleijava e matava a valer. Diziam ser assim nas matas cerradas em África. trazia medos e fantasmas. táctica. À noite a vegetação exuberante da tapada de Mafra. A frequência do COM estava reservada a quem tinha completado estudos superiores.. algumas conhecidas da universidade. da instrução sobre armamento. ─ Iam carregados com mochila e tudo! Nem todos têm a mesma capacidade e resistência ─ replicava um cadete com ar determinado. etc. depois das longas caminhadas durante o dia. começaram as marchas nocturnas. Pela capacidade de adaptação humana com o decorrer dos dias veio a habituação. passei por lá várias vezes e nunca me atolei! ─ gabava-se um aspirante baixote com sotaque serrano. gente avisada que chegara cedo no dia anterior. Muitas caras ensonadas. A estupefacção pela monumentalidade inimaginada do interior do grande convento. orientação. Ainda assim constava estar o treino mais suave desde os graves incidentes no 2º turno. em que tinham morrido três cadetes numa lagoa da Tapada. só era suplantada pela angústia da nova vida na tropa. em transporte próprio ou familiar. potencialmente apto a suprir a engrenagem de guerra que absorvia cada vez mais quadros nas três frentes de Angola. 76 . Havia quem soubesse os pormenores : ─ Os gajos foram burros. por isso punham “inimigos” a fingirem emboscadas. mas homens em luta empenhada pela libertação da sua terra. Guiné e Moçambique.trajectos labirínticos. lá longe onde os inimigos não eram papões a fingir.

quanto melhor o treino. fazendo jus ao ditado das águas mil e aos pergaminhos da região de Mafra/Torres Vedras. pois a carga era grande e a caminhada já ia longa. de boa compleição física e bom contador de histórias. devido às lamas nos caminhos. Tinha chovido torrencialmente nos finais de Abril. célebre desde as últimas invasões francesas.lançando a admiração no grupo que se entretinha a conversar depois do jantar no bar do cadete. ensopado em suor. anafado.. tornados amigos durante o 1º ciclo. fazia mais um exercício duro porque. em que os exércitos napoleónicos muito padeceram naquela zona para avançarem sobre Lisboa. vindo a ser derrotados na batalha das Linhas de Torres. “a tropa não é para maricas. pá! Vou dar o “salto”. pesadíssimas. ─ Não aguento mais isto. Rodrigo e Francisco. durante a progressão com todo o material de combate. andavam normalmente juntos e tinham ficado na cauda. O pelotão do 2º ciclo do COM. pertenciam ao meu pelotão!. por isso o bar tinha muita gente a cavaquear ou a jogar às cartas.. pá! Já falta pouco para o curso acabar ─ 77 . mais hipóteses têm de safar a pele!”. com a fama de “chicalhão” e prepotente. um dos interlocutores levantou o braço para dizer: ─ Eu sei em pormenor o que se passou. ─ Tens de ter calma. incluindo a arma e a mochila às costas. como ele dizia. Hoje não havia instrução nocturna como tinha acontecido ultimamente. comandado pelo alferes “Manaça”. isto não é vida para mim! ─ desabafava Rodrigo. No grupo formado espontaneamente a um canto do balcão. ─ o manifestante era um aspirante alto. daquelas que nunca mais se esquecem.

contrapunha o Francisco. vem avisar o cadete Aníbal a correr. gosta de fazer de porta-voz. A meio do percurso o fundão quase faz perder o pé.. com a lama já muito revolvida e as águas escuras com um aspecto assustador. só mais um esforço ! A água fria penetra na farda de trabalho. a mim não me apanham lá! ─ vociferava ofegante. Rodrigo inclina-se para a frente e mergulha na água barrenta de onde emerge uma primeira vez aos gritos. entra em contacto com a pele suada.. uma porra! Quando esta merda acabar vais parar com os costados a África e lá levas um tiro nos cornos! Manda-os f. magro de carnes. ─ Outra vez a porra da lagoa. Os mais expeditos fazem-no com êxito.. pá. por isso ganhou os favores do graduado.. quem não sabe nadar atrapalha-se.. Por feitio ou bajulice. dizes tu!.. relutantemente alguns ficam para o fim. Na margem da lagoa plena de águas barrentas. os braços que elevam a G3 acima da água tremem convulsos. procurando ajudar o amigo. ─ Depois logo se vê. o choque térmico agrava a indisposição do cadete já em dificuldades. tem lama até às partes. com um feitio solidário. 78 . pá. dando-se ares de importância. as pernas vacilam. hoje não me meto naquela trampa! ─ o cadete avantajado não conseguia dissimular uma visível tremura das pernas. ─ Falta pouco. começa a entrar em pânico. bem nutrido e de ventre proeminente. na cauda dos restantes caminhantes. agora é preciso acabar custe o que custar! “Ordem para atravessar a lagoa com todo o equipamento”... Uma porra. Francisco logo atrás anima-o: ─ Já chegámos a metade. e Rodrigo sente o fundo a fugir-lhe. o pessoal preparava-se para a travessia.

marche! ─ Sim. É apanhado por mãos desesperadas no redemoinho de pânico e de equipamentos inchados de água que arrastam para o fundo os corpos debatendo-se em estertor.grugluglu. perante o quadro terrível vence a inibição. lamentava-se: “Arre! Está gelada!” Só no dia seguinte mergulhadores da Marinha encontraram os 79 . Friccionando-se com a camisa de trabalho. qual nada! Não quero cá ninguém de fora.─ Socorro! Não sei nadar! Socor... Francisco apressa-se para ajudar o amigo. Três ou quatro mergulhos no centro da lagoa para concluir ser mais funda do que imaginara e com uma enorme camada de lama. meu alferes! ─ olhava embevecido para o corpo bem musculado do superior... o graduado continua a vociferar. volta para trás e tenta ajudar os outros dois.... tenta puxá-lo e é apanhado num turbilhão. Na margem os poucos assistentes gritam histericamente sem a coragem necessária para prestar o urgente auxílio.! O cadete Artur. ─ Qual bombeiros. eu próprio trato do assunto! ─ enquanto despe o camuflado e tira as botas. o peso da mochila com a água torna-se uma armadilha mortal. ─ novo mergulho gorgolejante no meio aquoso impróprio. vá em passo de corrida ao quartel pedir apoio.. com uma alma altruísta. O alferes chega a correr da cabeça do pelotão já em deslocação : ─ Burros! Burros! Afogam-se com água pelo joelho! Burros! ─ Era melhor chamar os bombeiros! ─ alvitra alguém ilustrando a desorientação cobarde e geral. arrastado no desespero do corpo que emerge uma segunda e última vez: ─ Francisco! Socor. com uma camiseta branca que perdera a cor imaculada. ─ Não se vê absolutamente nada! É impossível detectar o que quer que seja! Cadete Aníbal.

Baixa no anexo de Campolide. enterrados no lodo. está dispensado do treino matinal ─ talvez pela única vez em todo o curso. até os camaradas deficientes internados terem indicado a “porta dos fundos”.. que padeciam de graves deficiências. quer ir connosco amanhã? 80 . comandante do pelotão. teve uma atitude simpática . MALDITA GUERRA! Exames e mais exames no Hospital Militar Principal. tem algum problema cardíaco? ─ Sim. com permanência nocturna obrigatória. Entre a contestação anárquica da “maldita guerra” e a bazófia acerca dos feitos individuais. percebiam-se terríveis problemas humanos naqueles jovens de cadeira de rodas uns. onde tratavam por tu umas quantas mulheres da vida que lhes faziam passar uns momentos de descontracção por preços especiais: ─ Dois mil escudos a queca e cinco mil a noite. sim! Um sopro supra-sistólico e uma ligeira estenose aórtica!. ─ Algo não está bem. o jovem alferes Terras. juntando-se à volta de um acamado paraplégico. de bengala de invisual ainda mal manejada. cegos ou/e sem pernas ou/e sem braços. para conversarem sobre a (im)possibilidade de se ganhar a guerra em África. sempre muito elegantemente fardado. ─ Amanhã inscreva-se para a consulta. agarrados. outros. Constituíam um grupo curioso de cerca de uma dezena de milicianos graduados. ainda em tratamento.corpos dos malogrados cadetes no centro da lagoa.. ou sobre as suas saídas nocturnas para correrem em grupo bares e cabarés. depois de o cadete João ter tido problemas de recuperação no final de uma prova de marcha-corrida.

( os instrutores são uns nabos. No dia seguinte só tinham ficado o alferes acamado e um furriel sem braços que não alinhava nas paródias.. Conversavam calmamente depois de uma troca simpática de cumprimentos com o novel ocupante. obrigado! Sou casado!.. A conversa continuou animada. Embora já soubesse da porta que dava para a dependência do supermercado militar e 81 . distraído com a tradicional leitura nas entrelinhas do “DL”.─ Não. ─ Ah. (para irem em grupo ao estádio da Luz onde tinham entrada à borla).. já não tinha mais novidades.. ─ Pois é! E esses ursos não dizem nada de propósito. que avisaram logo não terem os cadetes internados direito a dispensas. Por fim desinteressaram-se quando o interlocutor. mas amanhã ensinamos-lhe o caminho. pouco falador. agarre-se a isso! Esses gajos não merecem sacrifícios! À necessidade de alargar a conversa juntava-se a curiosidade de “investigar” aquele estranho que lia o “Diário de Lisboa”. ─ Ah! É casado!.. só para chatear! ─ referiam-se certamente aos camaradas da secretaria do anexo. E o que o trás por cá? ─ Uns problemazitos no coração. sim!? Obrigado! Eu.. nunca cá tinha estado. voltando à conversa de grupo sobre a programada visita nocturna. ─ Então e não se desenfiou? Agora já não dá.. em cima da cama.. quando jogava o Benfica em casa. silencioso : ─ É de longe? Onde mora? ─ Vivo na outra margem. ─ Agarre-se a isso. quiseram saber o que dizia o jornal (não tinham paciência para ler) como era aquilo em Mafra. não ensinam o verdadeiramente importante).

A guerra tem de acabar! 7500 MORTOS JÁ BASTAM ! Na vida militar não se dão explicações. como aliás acontecia com os outros..! Não há ninguém de serviço. O jovem cadete estava perplexo e confuso: ─ Costuma ser fulano.. Só voltou a reparar no furriel quando foi à casa de banho e se apercebeu do seu esforço nervoso para urinar. Era grande o constrangimento. é uma forma de dizer. mas hoje foi para a farra! Não tarda mijo-me todo!. cumprem-se ordens. ─ Esse não acredito que pague!. preferiu ficar na enfermaria porque na manhã seguinte tinha exames médicos logo às oito horas. ─ Ah! Pois.. ─ Deus lhe pague! ─ rolavam lágrimas na cara do jovem deficiente. de emoção e também de alívio porque fez uma longa mijadela. aqui anda tudo às putas.daí para a rua. Com os cotos à altura dos cotovelos não conseguia. ─ soava angustiada a voz do jovem de cabelo grande. desculpe! ─ Não tem nada de pedir desculpas! Este país e os seus mandantes é que lhe devem um pedido de desculpas. as coisas acontecem e pronto! 82 ... como aprendera desde miúdo no círculo da malta do lado da praia. coitado de quem fica assim! Maldita guerra!. fora de qualquer regulamento. mesmo dobrado. abrir o fecho da braguilha. amanhã posso ser eu. ─ Mas .. um enfermeiro? ─ Esse também anda desenfiado. Foi também com a voz embargada pelo embaraço da situação que o jovem alto e magro respondeu : ─ Bom! Vamos lá a ver isso! Hoje é você...! ─ pila era tabu. Evocam-se regulamentos. “cada um com a sua”...

vem cantar a nossa canção tu sozinho não és nada juntos temos o mundo na mão” A iniciativa partira de um pequeno grupo do 2º pelotão mas quando a quadra acabou ouviu-se arrancar outra. caía a noite no Outono do descontentamento de centenas de jovens fardados. Caiu a noite e só então se percebeu não haver iluminação. a cantiga de protesto generalizou-se a toda a companhia de instrução quando alguém se lembrou de uns versos em voga na época. ai povo ai povo com sorte de mulher” A penumbra no longo corredor convidava à subversão. a aguardar no longo e frio corredor de pedra. falha de energia demorada de mais de uma hora. amigo canta. alinhados em pelotões de 30 unidades. As sombras encorajavam a audácia. repetidos com regozijo: “Só assim será poema só assim será razão só assim vale a pena 83 .A formatura para o jantar estava inabitualmente atrasada. a ordem para entrar para os refeitórios no rés-do-chão do vetusto convento adaptado a quartel militar: ─ Deixaram esturricar as “cabeças de sargento”! ─ Hoje é “filet-mignon”. a espera animava o pessoal. canta. dado tratar-se de uma falha no sistema rígido e no quotidiano prepotente. ai povo. um cântico rompeu tímido e logo várias vozes se elevaram em coro cantando uma estrofe conhecida: “Canta. ampliando-se o coro: “Quem o tem chama-lhe seu quem não tem para si o quer ai povo. estão a fritá-los um a um! Choviam as “bocas” de circunstância.

A companhia (quase) inteira. Os cinco ficavam como elementos de coordenação e cada um faria os seus contactos sem mais interligações. aproveitando o descanso que os próprios sacrificavam. estava unida numa acção de protesto que só acabou quando a luz voltou e se iniciou o jantar. Naquela tarde de Novembro de 1971. o episódio das cantorias foi revelador! ─ discorria o cadete João. o João. e no rescaldo das cantigas. ─ Concordo! Acho que devemos fazer qualquer coisa a denunciar o militarismo e a preparação para a guerra ─ corroborava o Luís Manuel. assumindo o compromisso. Reuniram-se na esplanada do Campo Grande numa tarde de domingo com sol. e para isso far-se-iam vinhetas autocolantes e um documento a enviar pelo correio. ─ Combinamos um encontro alargado no fim-de-semana para assentar ideias e convidamos alguns amigos de confiança. os dois amigos e conterrâneos sentiam-se espicaçados: ─ Existem boas condições para alargarmos o protesto de forma unitária e organizada. entre muitos citadinos divertidos. o Luís 84 . com a denúncia do número de vítimas da guerra. * Não era a primeira vez que conversavam sobre a situação. Combinaram o essencial da acção primeira. vieram colocar “petromaxes” ao longo do corredor e apareceram graduados a ameaçar entre assobios e apupos. para garantir a segurança conspirativa da operação.passá-lo de mão em mão!” Caiu no “goto” dos instruendos. quase toda a gente cantava quando alguns prontos.

pretextando uma guerra santa. substituídos por mancebos de hábito guerreiro a aprenderem a danação das almas e a diabolização do mundo. espalhados por várias mesas. feitas de pedra trabalhada. proveniente de quadrantes políticos muito diversos. mas também um convite à iniciativa no calmo e telúrico silêncio. seca-se a saliva necessária para colar a vinheta num local que irá dar nas vistas no dia seguinte com a claridade da manhã. é urgente terminar a “tarefa”. Todos estão em farda de trabalho. com uma decoração cuidada e um ambiente de bar citadino. Alguns homens beberricam num balcão apropriado. das salas.Manuel. constituindo um labirinto intrincado. A sala dos cadetes é acolhedora. rezando pela salvação das almas e a santidade do mundo. mas a maioria são cadetes. A temperatura amena contrasta com o frio da noite e a obscuridade nos longos corredores de pedra. jogam a trivial sueca ou o pouco elaborado dominó. Sempre acontece quando os nervos apertam. São contraditórios os sentimentos recolhidos da vetustez e da grandiosidade dos corredores. escassa a luz do luar de Novembro coada pelas janelas altas dos jardins interiores. Ouvem-se vozes ao cimo da escada alta de quatro lances conduzindo ao 1º piso. o Manuel. abraçaram-se num gesto simbólico de quem. a timidez. ou não fosse para cativar os futuros oficiais milicianos em preparação para enquadrar a agressão em África. 85 . enquanto outros. Curioso e paradoxal é o aproveitamento do convento de Mafra para fins militares. e o ar sobranceiro de alguns não dão para grandes convívios. com divisas que não vão além das duas barras de tenente. tão diversos daqueles para que foi concebido. dos refeitórios e das camaratas. estava unido na acção contra a guerra. com frades de hábito e penitência. o Fausto e o Duarte. As conversas giram à volta de temas banais. por um lado. Assim o regresso da breve viagem-pretexto vai permitir iniciar a acção. polido o chão pela usura dos anos.

um coro de guinchos: “Guim! Guim! Guim!” Os olhos 86 . vem uma “patente” com várias estrelas que responde com delicadeza. o desnorte nos caminhos desconhecidos. um local frio e terrível. nada. como um guincho. Mais escadas descendentes e por fim uma parede barrando o caminho.. um desvio apertado na primeira bifurcação. se faz favor!” – uma voz forte e peremptória cortou o passo e a respiração: “Estou lixado! Afinal os tipos viram!. o curso de oficiais milicianos é de primordial importância!. mal iluminado. um beco sem saída na desorientação dos sentidos. outros sons semelhantes. o ouvido à escuta de passos perseguidores. de porte elevado e cabelos brancos. em pânico..... olhando o cadete com curiosidade e continuando a conversa com a “entourage” embevecida: . recuperar a calma e fazer uma continência meio atabalhoada. “Safa!”.”. longos e frios. de alguém que vinha subindo a escada de pedra: “Tou feito! Descobriram as vinhetas! O melhor é “cavar”!.. quase não se lobrigava o chão que parecia mover-se.subir alguns degraus. depois um passo rápido por corredores e corredores de pedra. Um som agudo e estranho.” Uma corrida rápida pelo corredor deserto. Os fragmentos da conversa escoam-se nos segundos de ansiedade até o cortejo desaparecer ao virar o lanço de escada e continuar a descer... Não repararam no papel recém-colado onde se diz ─ “7500 mortos já bastam! Não à guerra!” ─ Toca a desandar dali! * “Senhor cadete! Venha aqui. enquanto a amígdala cerebral alertava: “Luta ou foge!” “Senhor cadete! Desça imediatamente!” ─ repetia a voz mais contundente e mais próxima. subir e descer escadas. “As instalações devem estar em boas condições. À frente de um séquito.” – pensava João.

aguardavam a ordem para entrar para o refeitório e tomar o pequeno-almoço de café com leite e carcaça com manteiga e/ou compota. correr.habituando-se à escuridão percebem dezenas. as célebres ratazanas do convento de Mafra! Fugir. centenas de formas em movimento. sair do pesadelo. Companhia de Instrução está tudo calmo. por detrás das lentes grossas. A alimentação era fraca mas apesar dos protestos em surdina. Há mais de meia hora que os pelotões em fato de trabalho. depois do regresso da sala de cadetes e do extraordinário encontro com o séquito oficial do tenente-coronel. ordenados no pátio na manhã gelada de Dezembro. comandante da unidade. excepto algumas respirações mais agitadas. são ratos. certamente devido a pesadelos também. pequenos arroubos não davam qualquer chance de organizar um levantamento de rancho como propusera o doutor Duarte no último encontro unitário: ─ Só as vinhetas e o documento são insuficientes. Custara a pegar no sono. Terão visto as vinhetas? Estavam mesmo à frente do nariz. porra! * A formatura e matinal não tivera das lugar segundas-feiras a habitual prolongava-se distribuição de inusitadamente correspondência. ─ Onde há condições para fazer uma coisa dessas? Não contem comigo para alinhar em aventuras! ─ o Manuel Carvalho arrumara a questão com o seu ar cândido e assertivo. ninguém se atrevia a levantar a voz. devíamos organizar um levantamento de rancho! ─ objectara com o ar convicto de um extremismo inconsequente. acordar no beliche superior inundado em suor. 87 . Na caserna pequena da 2ª.

outros não? : “Mas o que querem estes fulanos? De que estão à espera?! ” ─ Um burburinho de audíveis protestos percorria os pelotões ao ar livre das sete horas da manhã.. Uma sensação de frustração e impotência procurando um olhar amigo para disfarçar a ansiedade.. a minha namorada escreveu-me!. foram coladas nos corredores do convento. Alguns instruendos foram chamados à secretaria do comando. originando redobrados protestos do pessoal que esperava carta da família: “Então. dezenas de cartas dirigidas a cadetes-instruendos. Os alferes e os cabo-milicianos mostravam-se nervosos. Durante a semana tinham sido metidas no correio por mãos amigas. denunciara a patifaria. O Luís Manuel mantinha o ar bonacheirão do costume e piscou o olho em sinal de cumplicidade.”. uns voltavam logo. mas se alguém for apanhado com as vinhetas. Por fim vieram três ou quatro cartas. Um cadete que chegara atrasado da pernoita e fora directo à caserna grande. num pátio interior mal iluminado.. vulgares na época. não há nada para mim? Não pode ser. escondendo a timidez e uma pequena miopia. A acção tinha corrido muito bem. com o documento denunciando a situação insustentável de guerra atroz e prolongada. Passava uma hora quando finalmente se ouviu a voz de comando: 88 .. centenas de vinhetas dizendo: “7500 mortos! [20000 feridos e estropiados.” ─ pensava angustiado o cadete de óculos de aros pretos. não fala em nomes! ─ um alerta premonitório do João na despedida.─ Tem de haver muito cuidado. A espera interminável na manhã enregelada era mais dolorosa depois do fim-de-semana “quentinho”: “Apanharam as cartas!.] já bastam! Não à guerra colonial!”. eles andam a “farejar” a rapaziada! Vamos para a frente. “Estão a revistar a caserna!” ─ sussurrou alguém e depressa se espalhou a novidade inquietante.

” NÃO À GUERRA O trajecto era mais comprido do que supor se fazia. quando se entrava na vila vindo do fim-de-semana na boleia preciosa do Zé “Algarvio”. mais escuros à medida que o dia se apagava no céu em cores esvaídas a sul e com a predominância do anil e do púrpura. um sorriso breve e uma conversa cifrada dos dois amigos recompunham o ânimo e a disposição: “Não deu! Tudo bem! Esperem pela próxima!. Andava e pensava para distrair a ansiedade. a norte. instintivamente abrandava o passo quando passava algum carro raro na direcção da capital. Após o toque de ordem e a formatura de saída dirigida pelo inefável e sempre voluntário cadete Yota.. E se aparecesse a Polícia Militar? Diria que andava a passear vendo o pôr-do-sol e a paisagem estendendo-se por montes e vales verdejantes. que os havia a irem jantar e dormir todos os dias a casa. Tratava-se de uma espantosa estrada panorâmica mas faltava pouco tempo para a hora combinada. condutor de pé pesado e aceleração fácil que rapidamente vencia a estrada de Lisboa a Mafra no pequeno “Fiat” com cinco passageiros apertadinhos. certamente algum “menino” a caminho da cidade. havia excepções. porque apesar do sistema aperrado. Acelerando o passo arrependia-se de ter 89 . João precipitara-se para o exterior com passo estugado. pela aproximação do ocaso.“Companhia! Firme! Sen-op! Direita volver! Avançar!” À porta do refeitório quando a formatura se desfez. não se via vivalma no caminho. mal tendo tempo para olhar o horizonte outonal de nuvens com abertas de céu laranja-avermelhado..

esquerdistas.. existe um ambiente geral muito favorável. há medida que se avançava para o Solstício de Inverno. “Não jures. O ritmo da passada acompanhava o batimento do coração e os pensamentos em catadupa.. trata-se de uma acção verdadeiramente alargada: comunistas. ─ É o preço da unidade! Acrescentámos a consigna. em transição para 90 . ficara acordada a estratégia para a segunda fase da acção unitária de protesto. nas bandas da Malveira.. Quem seria o camarada que iria encontrar para partilhar preocupações e tarefas da iniciativa em marcha? No encontro com o responsável do Partido pelo sector militar. bom para a recruta. socialistas.. Boa sorte para a iniciativa. “Não à guerra!” ─ Muito bem! Vamos tentar alargar o protesto a outros quartéis. camarada!” ─ A palavra de ordem foi sugerida por um dos unitários. As nesgas do céu adquiriam um tom azul-acinzentado e as nuvens reflectiam uma luz alaranjada. envolvendo a negação do acto que o militarismo tanto considerava: ─ É uma ideia interessante pegar num dos símbolos mais prezados pelo sistema. os dias eram cada vez mais pequenos. ─ o camarada “Moura” parecia verdadeiramente preocupado. camarada! Não tardava o lusco-fusco de um Outono com pouca chuva e algum sol. embora arrefecesse a “sentidos vistos”.).. Trago a senha para o contacto que combinámos. cinco e meia da tarde e já não se distinguiam as árvores nas encostas escurecidas onde residia apenas a memória visual do verde. independentes. ─ Cuidado!. Depois da mudança da hora (não se percebia muito bem a vantagem!.sugerido aquele local. a aragem fria da noite próxima penetrava no blusão verde do uniforme da ordem..

Havia instruendos muito compenetrados e cheios de espírito guerreiro. Seria necessário um infinito talento para testemunhar a espectacular diversidade de ocasos na Natureza. mesmo que seja só em treino. a vista abarcando uma vasta zona com pinhais verde-escuro e campos saloios cultivados de tons mais claros a cada minuto mais indistintos porque do Sol só restava uma nesga e a noite homogeniza todas as cores. tal era a cunha com que contavam para uma boa especialidade. é sempre um momento angustiante. houve a ida à carreira de tiro para apurar a pontaria! O contacto com uma arma de guerra e de morte quando se preza a paz. para além do mar-oceano que fora do nosso contentamento e hoje levava barcos cheios de magalas da nossa preocupação. embora a maioria mostrasse enfado e desinteresse. com um tempo desagradável. * Durante a semana de campo. dizia-se. chuvoso e frio. O Sol caminhava pelo horizonte do fio de esperança. nos arredores de Torres Vedras. Se não fosse aquela malfadada tropa e a mais que provável maldita guerra. cada dia é sempre diferente. No miradouro não estava ninguém. orgulhosos da classificação na prova de tiro. Na repartição de colocações onde a introdução de modelos estatísticos. Finalmente o espaço arbustado que servia de miradouro aos viandantes da beira-estrada. esmerando a pontaria com o “olho director”. aquele seria um ocaso de alegria e esperança no nascimento de um novo dia melhor. tornara mais célere e isenta a atribuição de 91 .o violeta. Não há dois pôr-do-sol iguais. pelo menos nas costas dos instrutores. sabendo uns tantos que não iam dar um tiro em toda a vida militar.

mas não permitia. dirigentes da Legião e da Mocidade Portuguesa. a subversão aumenta!. ─ Não. porque precisava de carne para canhão.. Por isso o instruendo baixo e arredondado que se recusava a agarrar na G3. não! Não posso!. defendendo a abrangência da portaria perante o senhor Subsecretário do Exército: “Precisamos destes homens por perto. parentes. chovia o tráfico de influências dos mais variados quadrantes: políticos caciqueiros da União Nacional (partido único). naturalmente com boas especialidades que os isentavam da ida à guerra. uma numerosa “cáfila” de bons portugueses. * ─ Agarre lá nessa merda que não morde! ─ insistia o tenente instrutor com modos paternalistas. a fina flor do nacionalismo. como dizia o comandante da Legião Portuguesa. o oficial do quadro 92 . credores de favores. tinham um estatuto especial. ficando pelas repartições e gabinetes em Lisboa. E.”. empresários. latifundiários. Em requerimento ao Ministro da Defesa. generais. altos dignitários da Igreja. e muito menos a disparar. tentando safar os filhos. afilhados. podiam solicitar a isenção da recruta e a entrada directa no 2º ciclo do COM. Eram filhos de boas famílias. ─ Não pode porquê? Falta-lhe algum órgão vital? ─ o paternalismo escorregava rapidamente para a prepotência. Ah! Grandes patriotas! Particularmente os graduados da Mocidade Portuguesa. enfim.especialidades.... iria passar por um mau bocado. Alguns cadetes tinham uma sincera aversão àquelas máquinas de guerra e teriam sido objectores de consciência se o regime totalitarista o admitisse. gente importante e devota que deveria ser poupada aos desgostos dos conflitos. deputados da Assembleia Nacional. etc.

foi despromovido para soldado. os dois amigos trocaram olhares cúmplices enquanto faziam a higiene matinal e disseram breves palavras quando se cruzaram: ─ Está a correr bem!?. não o largando e gritando-lhe aos ouvidos: ─ Carregue no gatilho ! Atire ! Cobarde. normalmente sonolentas e ressacadas. só por milagre ninguém foi atingido. ─ Eh. O cadete gordo.permanente estava prestes a perder o “verniz”.. enquanto um grupo de curiosos rodeava a cena: ─ Não posso! Não quero! ─ tremendo dos pés à cabeça o cadete anafado não dizia mais nada. Procurando libertar-se o cadete virou-se em pânico. todo o mundo se atirou para o chão ou fugiu espavorido. a arma começou a disparar. e. as balas reais embatiam nas paredes do fosso e ricocheteavam. pá! Grande bronca! ─ o cadete “Porto”.. NÃO JURES CAMARADA A algazarra da alvorada parecia diferente. atire ! A tragédia estava eminente. sob pressão da intolerância militarista vigente. que não queria fazer fogo e quase ia matando o pelotão todo. ─ Cobarde ! Maricas ! Agarre a espingarda ! ─ acto contínuo o graduado obrigou o instruendo a pegar na G3 e a levantá-la na direcção do alvo. de repente. à beira de um ataque de nervos. ─ Tudo impecável! Nos corredores há uma agitação desusada para as manhãs de 2ª feira. Não servia para “oficial de guerra”. levantando e baixando a espingarda. forçado pelo instrutor. baixote e 93 .

Quando eram arrancadas por brigadas de “prontos”. ─ Os “chicos” estão desorientados! Vi o capitão aos berros com o sargento da secretaria. reprimido como a alegria da criança a fazer travessuras. João veste calmamente a farda de trabalho como se o assunto lhe fosse indiferente. ‘tás a coçá-los!. isto começa a animar! ─ O que dizem os papeis? ─ reclamava um retardatário na fofoca. Sorriu para o interlocutor e vizinho de beliche que voltara com as notícias “fresquinhas”: 94 . Os comentários revelavam a grande receptividade entre os cadetes como se tinha previsto.empertigado no seu bigode farfalhudo regressava ao quartel após o fim de semana: ─ Há papeis colados por todo o lado a dizerem. Boa!. Afastado do pequeno grupo animado à volta do cadete “nortenho”... pá? Que aconteceu? ─ logo um grupinho curioso interrompe as tarefas matinais e rodeia o alcoviteiro. ─ Não jures camarada! Já disse!. ─ O quê.. com centenas de vinhetas coladas por toda a parte. ─ Ah! Pois.. No fundo da algibeira. “quero essa merda toda arrancada!”..! É boa! ─ Fazes a cama só com uma mão? Vê-se logo que não correu bem o fim de semana.. ─ o vizinho da cama inferior mostrava um entusiasmo desusado. “não jures camarada!”. O velho convento de Mafra estava em polvorosa. ─ Essa é boa. logo apareciam noutros locais. nas portas. A segunda vaga de agitação estava a ser um êxito. nas paredes lisas. ─ Ouviste? A barraca está armada... nas vitrines e até nas pautas. nas janelas. a mão acariciava os papelinhos restantes num entusiasmo infantil.

. Dava voltas ao estômago e aborrecia as meninges dos menos indiferentes. 95 . O major. A desorientação sobreveio. pá! Defender a Pátria é um dever sagrado. camarada!” Choviam as palestras transformadas em diatribes intimidatórias e as determinações em ordem de serviço. sendo fortemente chateados os seus possuidores numa manobra de intimidação inconsequente.. * Faltavam poucos dias para o juramento de bandeira. eu cá se apanhasse um tipo desses a colar vinhetas!. a primordial agitação. para fazer uma catilinária entre a ameaça e o paternalismo. encontraram “livros proibidos” e um “Avante!”. comandante da instrução apareceu depois do almoço e de uma longa espera numa tarde aquecida de um Dezembro risonho. propositadamente.! ─ o pensamento corria-lhe veloz imaginando a agitação provocada pelas vinhetas coladas pelos corredores desertos na madrugada de regresso do fim de semana ao entrarem mais cedo.. . pela intimidação subsequente. quando o velho quartel-convento recomeçou a ser inundado de vinhetas colantes com a palavra de ordem: “Não jures.. Na revista à caserna grande em que foram arrombados vários cacifos. fazendo um longo périplo pelos sítios onde já não se perdia. Tacteando a cola com os dedos. a hierarquia estava convencida de ter anulado.─ É do nervoso miudinho das segundas-feiras. pensava nos longos corredores de pedra que ainda não tinham a mensagem e saiu mais cedo para a formatura do pequeno-almoço. ! Não quero jurar nada! ─ Não concordo. comentando: ─ Os papeis têm razão! Quero que a guerra se f . . a coacção e a chantagem.

futuros oficiais do Exército Português. Depois do jantar saiu uma ordem de serviço muito especial. Notava-se a vaidade nalguns estratos sociais à volta dos rebentos fardados.. pelo menos enquanto não pagavam o preço de sangue de uma guerra longínqua de que mal ouviam falar.. Se as vinhetas de “reserva” tivessem ouvidos também escutavam a conversa!. já nem se sabia quem colava onde! Não jures camarada. Serão colocados vigilantes em todos os corredores e os prevaricadores que forem apanhados em flagrante na colocação de papéis colantes serão severamente punidos”.. pois o outro chuveiro estava avariado.. até na sala do cadete: “..─ O carago. Nessa noite foram outra vez inundados de vinhetas. com zonas mal iluminadas. era escutado pelos que aguardavam pacientemente a vez. Mas os corredores eram muitos. afixada em muitos sítios desusados.. pese embora a posição clara dos comunistas e da oposição democrática exigindo a autodeterminação e a independência das colónias. JURAMENTO DE BANDEIRA Estavam muitos familiares a assistir nos passeios circundantes como era tradição. menino! Falas assim porque tens uma “granda cunha”. Por este tempo. e a politização do movimento estudantil onde a problemática da 96 . Queria ver se fosses atirador como eu!. era um grito de alerta nos longos corredores do silêncio do vetusto e histórico convento. O animado diálogo em voz alta no banho da tarde dos ocupantes dos três chuveiros utilizáveis. Providencialmente.

segundo a filosofia do velho Adílio. Sabia mais quem tinha acesso aos jornais estrangeiros ou à literatura clandestina a circular de mão-em-mão. mas na “terra prometida”. Os jornais.guerra era debatida mais ou menos abertamente. a rádio e a televisão. as gorjetas de um só dia equivaliam ao lucro de uma semana no pequeno comércio e assim podia ajudar o neto a estudar no liceu para fazer o 7º ano. e a pequena venda mal dando para os encargos e os impostos. Como quem gosta de trabalhar fá-lo em qualquer coisa e em qualquer lugar. com particular destaque para o “Avante!”. num quotidiano difícil. levava uma vida de muito trabalho entre a courela cultivada com muito suor. a sobrevivência dos muitos imigrantes em aglomerados pobres. * Para garantir um melhor trato da filha casadoira. sobretudo o rapaz. mesmo a horas de ir para a tropa tirar o curso de oficiais: ─ Ainda hei-de vê-lo com duas aqui! ─ repetia o gesto o velhote de 97 . entre as grandes vilas burguesas e os palacetes luxuosos da costa do Estoril. havia camadas sociais com uma consciência “distante” dos conflitos que dilaceravam os territórios africanos sob administração portuguesa. Junto aos hotéis de luxo. Na origem natal beirã a miséria era inexorável. agora que a filha já estava amparada e tinha dois netos escorreitos. submetidos a feroz censura e controlo político. aos solavancos. porque a terra era ruim. era um gritante e duro contraste. o melhor era fechar a loja e dedicar-se à arrumação de carros. só informavam aquilo que o regime permitia ou em que tinha conveniência. noticiando amiúde sobre a situação nas frentes de guerra e sobre as lutas dos soldados e marinheiros nos quartéis e aquartelamentos. um moço bem constituído.

“Na medida das possibilidades e conforme os resultados da companhia”. Os empregados de escritório tinham um estatuto adequado ao seu trabalho intelectual. Sobretudo se associassem ao 98 . ganhavam ao mês ( os operários ganhavam à semana e depois à quinzena ) e. para dar confiança aos senhores do dinheiro que gostam de ser tratados com deferência: ─ Arrume aqui. de quem procurava eludir a sobre-exploração com uma assistência social curta e selectiva. senhor doutor! Fica muito bem aqui o carro de voxelência! ─ as maiores atenções são de homens maduros e bem vestidos. nem feriados. mal pagos. com um ar de arrumador encartado. de molde a que aqueles servissem de almofada ou tampão entre os patrões e os trabalhadores. em que aumentara o turismo estrangeiro de moeda forte. era menos “aquele” que entrava. nalguns casos. com poucas qualificações. era o discurso oficial. empregados e operários. * A empresa fizera sempre a clara estratificação entre quadros superiores. acompanhados de senhoras jovens em discretos adultérios.boné de pala “oficial”. podiam chegar a cargos de chefia. simbolizavam as divisas do sonho maior de uma modesta e híbrida família da “linha”. se fossem interessados e cordatos. ─ Paciência! Hoje vou ver o meu neto a marchar na parada! Qualquer dia já tem duas aqui! ─ os dois dedos juntos no ombro. ─ Hoje é um grande dia! Toca a irmos ao juramento de bandeira do meu neto! Num “ofício” em que não havia domingos. incluindo no campo desportivo. sempre generoso com os portugueses humildes. numerosos. numa época do início da década de 70.

5 contos/mês. porque a democracia ainda não chegara ao reino dos céus. o operário especializado de horário geral. Tudo rodava na boa harmonia do Senhor. claro! Um resto de bom dia. senhor director. 2. para que o pão não faltasse nos lares e os óbulos na igreja. o agente técnico de engenharia. pelos patrões e pelos bons resultados da companhia. o engenheiro-sénior. preferencialmente com o encontro ao domingo na missa dos “homens bons”. anda a concluir um curso superior.2 contos/mês.. Nas vésperas da Revolução de Abril. o engenheiro-júnior. uns mais à frente e outros mais atrás. minha senhora. garantes da regular entrada das comparticipações patronais. 19 contos/mês. 15 contos/mês. para rezarem em comum. 99 .8 a 2. talvez venha a ser prestável no nosso grupo desportivo. ─ Está a tirar Educação Física!. nunca concordara com aquela opção estapafúrdia do filho que tinha a mania das “independências”. em apoio aos “grandes dirigentes” indicados pela administração. trate disso! ─ Claro.5 a 3. ─ a resposta não tinha grande convicção. sem sobressaltos. um santo dia! Gostava de lhes apresentar o meu filho. o empregado de escritório. Orava-se em acção de graças. 18. chefe de serviço. ─ Senhor director. chefe de secção. ─ Ah! Se fosse engenharia ou economia…! Mas quem sabe.desempenho profissional uma boa convivência social no grupo desportivo da empresa. 25 contos/mês. 12 contos/mês. 14. a mulher operária têxtil. 1. não é verdade senhor Ramalho? Trate disso. onde até podiam desempenhar lugares subalternos nos corpos gerentes. 4/5 contos/mês.. ─ Ah! Muito bem! Então qual é a especialização? Pode ser que um dia nos seja útil na companhia. por classes sociais. 11. o engenheiro-chefe de zona ganhava 24. minha senhora.

mas o “tio” Fernando-pai!?. o seu filho sabe o que faz.. o filho teimoso nunca aceitaria tal proposta.. quer ir ver o juramento de bandeira do Fernando. que quis tirar um curso de cá-rá-cá-cá. ─ Por nada deste mundo perderia esse dia.O senhor director era simultaneamente o presidente do grupo desportivo da empresa pertencendo o senhor Ramalho aos corpos gerentes.. Mas não havia nada a fazer. por 100 . a vivência por um largo período nos meios operários dos Estaleiros Navais de Lisboa e das lutas aí partilhadas.. Entretanto fora chamado para a vida militar. ─ Víamos o horário da carreira e íamos os três. tão longe… E ter de arranjar roupa à altura. ─ Esteja descansada. seja oficial do Exército Português! Não são só os filhos dos senhores engenheiros e doutores que têm direito! * ─ Mãe Ema. ó homem!. prestes a terminar: ─ Alberta. só lhe faltava o estágio. A vida muito difícil de desempregado de longa duração aos quarenta e poucos anos. com o curso quase acabado. para o curso de oficiais milicianos.. nossa senhora! Vejam lá o que vão fazer. nem penses! Ao menos que o cabeça dura do teu filho. hem! ─ Mas ir a Mafra. Eles vão fazer um protesto! ─ Ai.. Combine lá com o “ti” Fernando. e de mais na tropa!. prepara-te que eu no Domingo quero ir ao juramento de bandeira do teu filho. no Domingo? ─ Eu gostava.

frente ao palanque improvisado pleno de fardas pomposas. De qualquer forma estarei sempre contigo! Aquela relação muito afectuosa. Depois. era um excelente contributo para o êxito da iniciativa. não morriam de amores pela situação. não é fácil a deslocação!. tinham um profundo sentimento anti-ditadura e a consciência de que a tropa servia o sistema. em alas amplas e espaçadas. quando o emprego e o salário eram certos.. eu não vou! Tornara-se um homem muito caústico. vou estar sujeito a uma grande tensão…! ─ discorreu. Gostava de assistir mas compreendo a situação. pondo-se o casal de acordo no fim-de-semana que antecedeu o juramento. os pelotões de cadetes do 1º ciclo do COM. Se queres ir vai tu e a tua nora. O carinho prodigalizado ao filho na infância. Mas numa coisa estavam pai e filho em acordo. davam uma consciência antifascista muito aguda: ─ Isso são coisas da tropa e do Salazar para preparar a juventude para a guerra. num pobre mister por conta própria. agravada a situação e o feitio por uma doença grave e prolongada. este ano precedido de 101 . em que era clara a empatia maternal e o afastamento do progenitor. preparando-se para o ritual mitificado. até que sobrevieram os “balões”. e pela luta diária pela sobrevivência.melhores salários e condições de trabalho. amor . ─ Talvez seja melhor não irem.. fora-se perdendo nas contigências da vida e no choque inevitável de personalidades diferentes. ─ Tu é que sabes. subsequente ao despedimento. iam formando segundo o que estava instruído. * As filas da frente eram ocupadas por soldados “prontos” que pela cor dos fardamentos deviam ir “jurar bandeira” pela quinta ou sexta vez! Nos arruamentos fronteiros ao monumental convento.

mais uma vez não se percebendo se era para prevenir se para amedrontar.acontecimentos muito interessantes. E a interrogação surgia legítima nos mais vacilantes ou timoratos: que instituição militar era aquela que recorria à PIDE/DGS para amedrontar os jovens cadetes em juramento? O altifalante começava a debitar alto o teor do discurso patrioteiro previamente conhecido. Tinha constituído um sucesso a divulgação do apelo. ─ O melhor é mexer os lábios a fingir. ─ os dois conterrâneos faziam um rápido ponto da situação em relação ao esforço de agitação desenvolvido.. olhavam ostensivamente para as formaturas fazendo-se notar propositadamente. era por outro lado a fonte que alimentava a revolta e a coragem da juventude generosa. entrecortado por algumas vozes voluntariosas entoando palavrões: “Juro defender a Pátria!” – conclamava a voz difundida pelo 102 .” ─ o alerta percorrera as casernas. originando um duplo sentimento de angústia e medo mas também de raiva e de determinação.. ─ Ou murmurando algo apropriado às circunstâncias!. havia uma grande expectativa em ambos os “campos”. “Estarão agentes da PIDE a fiscalizar as filas para ver quem não jura!. O aviso passou rápido e sussurado: ─ Atenção! Estão aí os gajos da PIDE! ─ Que se fo…! O sentimento contraditório de visceral receio provocado pelas forças repressivas. respondido à frente pelos soldados arvorados a plenos pulmões. a palavra de ordem seria ou não seguida? Postados entre os civis alguns fulanos esquisitos.. Cá para trás reinava um silêncio murmurado. Tratava-se de uma clara manobra intimidatória. provavelmente os tais “pides”.. certamente sobre a ameaça de represálias.

. reagindo como quem prezava a integridade de princípios: ─ Não se arme em espertinho! Nem que fosse filho do presidente da República. A hierarquia desorientada com a envergadura da contestação. O inquérito preliminar conduzido pelo alferes oficial-de-dia. resultava da determinação superior em castigar exemplarmente a subversão que alastrara como um vírus nos últimos dias do ano de 1971. ouviu! Se não se explica 103 . e esclarecer isto tudo? Não acreditam em mim!. . na Escola Prática de Infantaria de Mafra. O cadete Yota fora detido na noite anterior por um soldado de guarda a um corredor. O oficial miliciano sentiu a solicitação como uma ameaça pessoal e uma forma de pressão.. não telefona para ninguém.“Puta que os pariu!” – respondia a maior parte.sistema sonoro. ─ Posso telefonar ao meu futuro sogro que é coronel. tinha agora um bode expiatório. Estava só a ler! ─ Mas a ocorrência diz que estava com a mão na parede e quando foi interpelado tentou escapar-se!?.. MOSQUITOS POR CORDAS ─ Então estava a colar vinhetas numa parede segundo o relatório do soldado de vigilância? Ora isso constitui como sabe um acto gravíssimo! ─ o oficial miliciano encarregado de interrogar o cadete Yota estava visivelmente pouco à vontade.. ─ Já afirmei que o soldado é burro! Não estava a colar nada. sou contra isso...

escondiam atrás dos sorrisos deferentes a adulação pelas “patentes” e o temor pela poderosa hierarquia castrense. ─ Dá-me licença!. carnes frias e quentes.claramente apanha uma “porrada” que nunca mais se endireita! * A comida durante o curso fora sempre modesta. risos nervosos e traseiros espetados. Nem era tarde. ficara à beira de um ataque de nervos. de gastas pedras nos longos corredores. doces. no velho convento frio e austero. com a farda muito aprumada na hora em que o 4º turno de 1971 chegava ao fim. mas no jantar de encerramento com a participação de muitas famílias. etc. deslumbrados com as fardas de gala da hierarquia reluzente em medalhas e condecorações. as mesas brilhavam de iguarias. Pavoneavam-se alguns. A instituição militar EPI. acordada de madrugada. e senhores engravatados a rigor. algures na caserna pequena ainda restavam vinhetas dizendo: “7500 mortos já basta”! Não à guerra 104 . Debicados entre salamaleques de gente provinciana e da enfatuada burguesia citadina. acepipes. dá-me licença!! ─ o berro assustou os basbaques que tapavam a porta de saída. perna de frango na outra. servindo de escola de guerra para a elite da juventude portuguesa. Finalmente a frescura de um longo corredor deserto e mal iluminado. Senhoras de vestidos pomposos e cabelos vindos de pentear na cabeleireira da rua.. camarão. característicos da castrada burguesia nacional. frutas. agora disfarçado com aperitivos. qual banquete celebrando os laços de sangue e de lágrimas que não tardariam a apertar como garrotes. por vezes mesmo medíocre. poucos. nem era cedo.. em treino com vista a alimentar as insaciáveis fogueiras em África. muitos daqueles cadetes imberbes. bolos. etc. saladas. bebidas variadas. copo na mão. Desculpe.

com um ar tão cândido que o sargento-de-dia. farto de pivete a suor nem lá meteu a mão. quando o cansaço afrouxasse a vigilância. com pouca pinta de militar.. Na sombra vetusta do velho convento a noite fazia-se mais escura escondendo os últimos passos das botifarras dos cadetes escapulindo-se rapidamente rumo à “liberdade provisória” durante duas semanas de licença.. Significa que não descobriram nada!” – pensava o cadete alto e de óculos. afixada na vitrina da secretaria da companhia de instrução: “... agora mais pesado com a tralha coleccionada durante a recruta.. mais o “material sobrante”. ─ Boa noite! Por favor.). conheço.. Yota da Purificação” (.. o melhor era ficar para o fim. conhece o cadete Yota? Por acaso não o viu?. Transportava o mesmo saco da chegada. Suspeitava-se haver revista à saída.. De facto não o vi . o instruendo do 1º ciclo do curso de oficiais milicianos. ─ Sim.. João caminhava reflectindo na detenção absurda do fulano que mais se distinguira durante o curso pelos tiques militaristas. sempre voluntário para comandar as formaturas e coadjuvar nos salamaleques institucionalizados. enquanto mostrava o saco cheio de roupa suja. numa última passagem sem retorno. a última barreira foi assim passada calmamente.. sim. Um consolo de alma voltar a pôr a língua naquela cola acre e áspera e colar nas paredes lisas. Por ter sido encontrado a manipular uma tarjeta colante das que foram ultimamente espalhadas de forma irresponsável. Um sorriso irónico aflorou enquanto lia a “Ordem do dia da unidade”. “Certamente estaria a arrancar!. cujo conteúdo visa minar a confiança dos instruendos na Instituição Militar e pôr em causa os sagrados deveres de defesa da integridade da Pátria.! 105 .colonial!”. é punido com 5 (cinco) dias de detenção.

Nada de grave! Lá informam-na melhor. As duas dirigiram-se para a porta de armas. ─ Obrigado! ... há algum problema? Aconteceu-lhe alguma coisa? ─ Bem!. seria noticiada no “Avante”.. Mamã! Mamã! A mulher bonita e vestida com roupas caras. por onde tinham passado as centenas de cadetes em final de curso.. O cadete Yota sairia ainda nessa noite por empenho do senhor coronel. ─ Olhe! O melhor é perguntar além. naquele Dezembro de 1971. ─ Mas .─ É que já passaram todos.. último a deixar o convento.. no gabinete do oficial-dedia!. estamos aqui à espera .. sinal distintivo da origem de classe.. * A grande acção unitária de denúncia da guerra colonial e do militarismo desenvolvida em Mafra. em Janeiro de 1972. postada a alguma distância. 106 . ─ a jovem assentiu com a cabeça em sinal de agradecimento.. igualmente com ar distinto.. dirigiu-se com visível agitação à senhora de meia idade... lançando um último olhar preocupado ao retirante que repetiu balbuciando: ─ Nada de grave!.! A jovem de cabelo ruivo mostrava preocupação ao interpelar delicadamente o jovem cadete moreno e magro.

A LENDA DO MONOMOTAPA 107 .4.

Animistas. posteridade esculpiram de forma magnífica em grandes dimensões os deixando para testemunho grandioso do seu engenho e habilidade. muito antes da chegada dos portugueses no princípio do século XVI. tinham uma lenda muito curiosa segundo a qual os relâmpagos eram aves gigantes descendo rapidamente à terra em dias de tempestade. 108 . imaginários adoradores pássaros.ÁFRICA. ESSA DESCONHECIDA ( A Colonização de Moçambique I ) Os povos antigos que habitavam a África Oriental e Meridional. de animais e da a Natureza.

Quiloa e Mombaça. canais de irrigação. aprendida com os povos do Nilo médio e com os Axumitas da Etiópia. fugiram com os seus descendentes mais para Sul através do Quénia (onde o Islão nunca penetrou) e vieram para os planaltos centrais onde se desenvolveram até aos séculos XIV e XV. no interior da Rodésia. numa zona de ruínas ancestrais. socalcos à volta dos montes para a agricultura. forjas. subentendia uma organização social e política evoluída. pouco antes da chegada dos portugueses. a Zâmbia. Quem eram estes “azani” que deixaram todos estes símbolos históricos? Provavelmente uma civilização florescente nas áreas que hoje são o Quénia. estradas. minas. quando estes. habitantes da terra dos Azani – deixaram atrás de si muitos e significativos testemunhos: ruínas de estabelecimentos. surpreendeu-se com o nível de desenvolvimento das cidades costeiras de Sofala. o Zimbabwé e parte de Moçambique. muito para além da avaliação dos exploradores europeus que no século XIX descobriram tais heranças arqueológicas. a caminho da Índia. Estes povos sedentários praticando a agricultura. a Tanzânia. pressionados pelo Islame nos séculos VII e VIII. estes “azanienses” – segundo a denominação grega. sepulturas e pinturas rupestres. Vasco da Gama na sua passagem pela costa oriental africana em 1499. não muito longe das fronteiras ocidentais de Moçambique. enriquecidas pelo 109 . Melinde. possuindo uma tecnologia da idade do ferro. cidadelas de pedra.Esta actividade artística.

que já utilizavam inclusivé a moeda. especiarias. da Índia e até do Extremo Oriente. Quando os portugueses se instalaram nas costas do Índico. que não se distinguia basicamente das cidades costeiras da Europa medieval. Organizadas em cidades-estado. numa organização de tipo tribal-feudal. Evoluíra para a idade do ferro e para uma organização sócio-política de classes pela interpenetração com os povos conquistadores referidos. por ouro. Por sua vez os povos dos planaltos viviam em reinos. que já possuíam técnicas de trabalhar o ferro. vindos do Norte. O mais lendário desses reinos era o de Monomotapa. com uma economia assente na agricultura. trocando directamente tecidos. contas. com o 110 . primeiro em Sofala em 1505 e depois na ilha de Moçambique em 1507. possuindo uma estrutura de tipo feudal-esclavagista-capitalista de estado. mantendo há séculos uma intricada rede com as cidades do Golfo Pérsico.tráfego comercial com os países árabes e a Índia. feito através de numerosos intermediários “mouros”. cobre. situado no planalto abrangendo o Zimbabwé (antiga Rodésia) e parte do território de Moçambique. Foram muito interessantes estes primeiros tempos com os europeus entrando no comércio costeiro de trocas. ferro. estes em escala reduzida. encontraram um comércio progressivo. com quem comerciavam há mais de um milénio. faziam de entreposto com os reinos do interior. na pastorícia e na extracção mineira. marfim e escravos. essências e faiança chinesa.

os nacionais resolveram substituir-se aos circuitos tradicionais. Como um erro nunca vem só. escreve uma longa queixa para Lisboa acusando os “cafres e mouros” de só entregarem oiro sob formas de pequenas contas e jóias. tomando conta pela força do transporte marítimo costeiro e transoceânico como nos conta Basil Davidson no seu livro. retrógrada e oportunista. Até ao dia em que resolveram intrometer-se nos circuitos préexistentes para ganharem mais!. apesar da sua enorme coragem e da sua recusa em admitir a derrota. os homens da “cruz de Cristo” tentaram apoderar-se do tráfego comercial com o interior.. Os sonhos doirados acalentados pelos primeiros descobridores portugueses na costa Sudeste de África.. Por orientação da Coroa.beneplácito dos comerciantes locais de ascendência árabe vendo naqueles. Pedro Vaz de Soares.. agente real de Sofala. pela sua ignorância e pela sua ganância. mas neste intento viriam a ser derrotados.”. novas oportunidades de negócio. “Revelando a velha África”: “O seu primeiro cuidado tinha sido saquear e subjugar as cidades costeiras mais ricas. levaram pouco tempo a desvanecer-se. Em 1513. graças aos seus canhões tal tarefa tinha sido relativamente fácil. quiseram fazê-lo directamente para recolherem 111 . queriam muito e depressa!. Depois disso tentaram encarregar-se eles mesmos do tráfico entre África e a Índia.. Não se contentaram em comprar os artigos aos mercadores como sempre tinham feito as cidades-estado costeiras. Como todos os imperialistas.

o mais alto 112 . embarcava-se à meia-noite. no “Boeing” da Força Aérea. quente. familiar. e 50 anos depois da viagem de Vasco da Gama. Quando a guerra colonial começou em 1964. soldados de uma Pátria oprimida e triste que reclamava patéticos direitos históricos. Mas seria uma guerra justa? ─ Não há guerras justas! ─ afirmava peremptório o João. havia colonos e mercadores instalados no Baixo Zambeze. em Sena e em Tete. até dobrarem o Cabo da Boa Esperança no extremo sul de África e navegarem pela costa oriental do Índico. estranha. Em paz por pouco tempo! A CHEGADA Vasco da Gama e a sua armada. No início da década de 70. já lá encontrou um patrício a viver permanentemente. Era o início da mais marcante e terrível experiência daqueles jovens-adultos. quando frei Gonçalo da Silveira chegou a uma das cortes do reino de Monomotapa. no terminal militar de Figo Maduro. e ao meio-dia aterrava-se no aeroporto da Beira. situada nas colinas a Sudoeste de Tete. em 1498. Em 1561. levaram um ano a chegar à Índia e gastaram muitos meses desde a partida de Lisboa. nas margens do Zambeze. fresca. de Lisboa. e de um regime despótico que exigia o sacrifício e o sangue dos seus filhos. luminosa. as tropas expedicionárias levavam um mês até aos portos de Moçambique. húmida.lucros de ambas as partes! Com esse fito meteram-se para o interior.

impressiva e inesperada por não se distinguir muito das suas congéneres europeias. compunham um quadro de modernidade. sempre eloquente nas afirmações. ─ É a proclamada multirracialidade!.. entroncado e de estatura média. ─ Há aqui muito dinheiro da Rodésia e da África do Sul! A Beira. normalmente reservado. durante o passeio ao longo da estrada que conduzia do aeroporto até à pensão onde ficavam aboletados parte dos sargentos e furriéis.do grupo ligado por laços tecidos durante a formação do batalhão na Amadora. ─ desabafa o Eduardo. Era uma longa avenida ladeada de boas vivendas ao estilo europeu. à vista daquelas habitações onde vivia a burguesia citadina da Beira Num parque infantil com meia dúzia de brinquedos tradicionais. instalada numa vivenda ajardinada como muitas à beira do passeio de terra avermelhada. A Beira era uma cidade moderna.. ─ Lá estás tu com as tuas frases altissonantes! ─ a atitude do Carlos. ─ Já contei cem veículos e só uma carrinha era conduzida por um negro! ─ observa o António Manuel. moreno. alto de estatura e seco de carnes. O aeroporto com aspecto amplo e funcional e o enorme porto de mar divisado à distância. enquanto outros miúdos negros observam com olhos gulosos. pendurados no exterior da rede da vedação. baixo e já com acentuada falta de cabelo. o sulista trigueiro e magro. com avenidas largas como aquela por onde seguiam agora a caminho da Messe de Sargentos. ─ Vive-se bem por aqui! ─ constatava o Sousa. relembrava ao moço alto que teria de agir e falar com cuidado pois eram diversos os entendimentos da 113 . são portos por excelência do colonialismo e do nicísmo (apartheid) vigente. algumas crianças brancas divertiam-se sob a vigilância de uma negra fardada com atavios brancos. tal como Lourenço Marques.

─ Sim. O efeito pretendido teve todavia uma sequência inesperada. que já ia avançado. ─ Umas bestas! ─ comentou o Eduardo em voz baixa. sem qualquer cumprimento. por isso as coisas estão como estão! ─ Se não estiver bem. ─ considerou o Sousa encolhendo os ombros – é só “chicalhada”! 114 . volta para o mato! ─ rematou o outro graduado.. quando ficaram sós. Chegaram atrasados ao jantar da messe. o que lhe valeu uma reprimenda pública e um comentário para a plateia: ─ Além de preto é atrasado! ─ a ironia do homem na casa dos quarenta. enquanto se retirava após comer o pêro. ─ Rapaz! Traz-me a sobremesa. tinha como destinatários os militares de farda novinha e divisas amarelas reluzentes. ─ O jantar começa às sete. mais novo.. sim! Meu primeiro! Demorámo-nos no centro. que nem se dignara responder ao cumprimento inicial dos recém-chegados. O criado negro andava numa fona. ─ O que estavas à espera?. o António Manuel não se conteve: ─ Se calhar para o que lhe pagam até anda depressa! ─ o “chico” mais velho resolveu introduzir filosofia tropeira e barata: ─ Há quem nunca tenha pressa. e na única mesa com lugares disponíveis estavam sentados dois sargentos com ar carrancudo. não atendeu logo à chamada. não vos avisaram?! ─ entre o reparo e a reprimenda o militar de carreira com aspecto mais idoso. magro e de tez curtida pelo Sol dos trópicos.realidade. dava assim as “boas-vindas”.. foi a primeira vez que lá fomos!. olhando os jovens furriéis com ar arrogante.. estou com pressa ─ barafustava o outro sargento.

faziam um excelente cozido à portuguesa. Duplamente preocupado. pela animosidade e pelo grau de alienação em relação à verdade daquela guerra. rapazes humildes e simples... ─ Quando lá fores já a miúda casou com outro! Não te preocupes agora com essas coisas! ─ tornava o furriel algo paternalista. é verdade que há ataques todas as semanas no sítio para onde vamos? ─ perguntava meio risonho o soldado “Furnas”. oriundo da terra onde o interior do planeta se esfumava em gases sulfurosos quentes que. Ouviste a resposta do “Furnas”?. ─ Não é isso furriel! Quero pedir a miúda em casamento quando for de férias. convencido da mudança do mundo pela pedagogia da palavra. Esta situação não há-de durar para sempre! ─ a seu modo também o furriel João era paternalista. 115 . no regresso a pé. onde estavam os soldados aboletados. Miguel. cumprindo a norma de iludir a questão conforme fora ensinado na “Acção Psicológica”. até ao centro da cidade: ─ Aflige a mentalização militarista incutida nos nossos soldados. pouco certos do que os esperava nos próximos 24 meses.. ‘tá a perceber? ─ acentuava o sotaque açoriano com sons nasalados para dar mais colorido à conversa. ─ Pois claro. ─ Do que estavas à espera? Não é por isso que dizes teres vindo!?.. Havia descontracção e brincadeiras entre os açoreanos do batalhão formado em S. trocou impressões com o amigo recente mas confiável. ─ Pode ser que entretanto a sorte da guerra se decida. pensavas vir cá em passeio?! ─ sorria também o António Manuel. ─ Se calhar. furriel! A guerra só se ganha a matar pretos! ─ respondeu o “Furnas” ao arrepio da boa disposição anterior.Ao segundo dia já se conheciam os caminhos da cidade e os machimbombos da carreira incerta passando nos Adidos. ─ Furriel. diziam.

. dos dois lados! O ZAMBEZE ESPERA-NOS Alguém arranjara umas fotografias mostrando máquinas retorcidas e carruagens descarriladas. é essa a intenção. se saísse à tabela. a minha mãe viúva!. O drama é quanto mais tempo durar mais sofrimento vai causando. a acabar com a guerra! ─ Às vezes pareces um poeta. por dentro. ─ Quanto mais tarde melhor. preocupavam-se à volta de malas e sacos. ─ Bom! Estamos onde está o povo fardado. por dentro. ─ Olha o que nos espera!. à beira da linha de caminho de ferro. as duas horas de espera já contam para a comissão! ─ Vê-se bem que nunca cá estiveram! Em África não há horários...─ Sinto uma náusea ao pensar naquilo que nos espera e interrogo-me se não teria sido melhor “cavar”?!. como? ─ Por todas as formas possíveis! Esta é uma guerra perdida. por onde iniciariam a viagem dentro de menos de uma hora. É preciso ajudar.. parte quando estiver tudo arrumado ─ sorria com ar jovial um sargento de 116 .. disso não tenhas dúvidas. mas a família.. gosto de te ouvir! Acabar com a guerra. Vai ser bonito! ─ as armas tinham sido distribuídas e a inquietação transformava-se num sentimento viscoso convocando fantasmas da infância e fazendo um nó no estômago. espalhados na gare do edifício da estação de estilo vitoriano. ─ A que horas partimos? ─ a pergunta foi feita por hábito europeu pois era indiferente para o fim em vista. Dezenas de soldados e alguns graduados. ─ Também pensei nisso.. ─ o gesto de bater nas costas da mão completou a reflexão. Fica-se impossibilitado de regressar sabe-se lá por quanto tempo..

─ Dizem que levamos uma semana para chegar ao destino?! ─ questionava alguém do grupo. o ambiente pesado revelava a tensão marcada pelo ritmo dos saltos nas juntas dos carris: “Trum-trum. mal permitindo distinguir a paisagem pontuada por pequenos luzeiros. como muitas outras coisas naquela cidade influenciada pelos vizinhos anglófonos da Rodésia e do Transval.. Duas máquinas a vapor. tinham um aspecto sumptuoso. sobretudo mulheres de capulanas garridas. onde se juntavam dezenas de negros. o combóio pára. trumtrum. Alguns dormitavam outros congeminavam: “E se fossemos alvejados?”. simpático no trato e já em segunda comissão. o Zambeze espera-nos!” ─ observava o António Manuel com alguma solenidade. Os militares seguiam nas carruagens do meio. Patrulhas da Polícia Militar percorriam a extensa gare apinhada de gente junto das carruagens que. A viagem decorria na noite de sono. revestidas de madeira envernizada em estilo inglês. trum-trum”. As da parte da frente tinham uma aparência desbotada e atarracada. A velocidade aumentava. à volta de sacos e trouxas. aguardando a ordem para embarcar. sem resposta. onde talvez olhos atentos assinalassem a passagem. a marcha abranda. já passava das nove horas da noite do dia 8 de Outubro de 1972: “A guerra começou para nós. Eram tropas frescas a caminho da guerra.. Na noite de breu. atarefadas com filhos às costas. resfolgando.carreira. pois a atenção virava-se para o exterior obscurecido. na retaguarda. vê-se um céu estrelado magnífico e estranho de constelações desconhecidas. o inimigo haveria de registar esses movimentos!. puseram o longo combóio em marcha lenta. entrecortado pela incomodidade dos solavancos e por longas paragens em estações incaracterísticas. o coração salta: 117 .

é fresca a brisa que entra pela janela. embalados pelo andamento monocórdico da composição. Lá fora não se vê vivalma. Com o tempo e com as noites de medo mal dormidas. irão esquecer essa doce sensação. à beira de um ataque de nervos: ─ A guerra não foi iniciada por nós. formando esplendorosos contraluz. O cansaço vence a ansiedade. ─ É pena a riqueza não ser melhor repartida para acabar depressa com a guerra! ─ a resposta intempestiva do António Manuel deixou o homem de meia idade. despertando das trevas da noite o cérebro preguiçoso: ─ Ah! Vila Fontes! Ainda vamos aqui?!. Duas horas da madrugada.. sonhando com a cama quente no lar distante. só lá mais para a frente!. ninguém explica. vestido à maneira colonial com calças e camisa de caqui claro. mais duas que em Portugal. o pessoal vai adormecendo. bem vestido e curioso.. Um soldado de regresso de férias elucida conspirativo: ─ Por enquanto não há problema.. com ar de empresário bem sucedido: ─ Chegaram há pouco tempo? Para onde vão? ─ Para a zona de Cabora Bassa ─ respondeu o João cuidadoso. A manhã aparece com um Sol fulgurante. A janela de vidro deixa a radiação acariciar a pele.─ O que aconteceu? Ninguém sabe.. Durante uma paragem matinal organiza-se a primeira ida ao bar para o “mata-bicho” e a conversa alarga-se a um cavalheiro branco. mas nunca será ganha com essa mentalidade! 118 . ─ Infelizmente a guerra terrorista obriga-os a este sacrifício longe das famílias! A barragem é um grande empreendimento. vai ser um enorme benefício para a economia da província. num horizonte de tons avermelhados entrecortados pela vegetação. Poucos dão pelo recomeço da viagem.

a África do Sul?!. os ingleses. a Rodésia. Nós queremos continuar portugueses! ─ E quem fornece as armas ao nosso exército.─ A guerra é uma coisa terrível. ─ E quem se lixa sempre é o “mexilhão”! ─ o Sousa entrava na altercação.. danadinho para provocar o “machambeiro-colonialista”. vocês estão muito mal informados! Os portugueses de Moçambique mostrarão ao mundo que a Pátria não se vende! ─ De que Pátria estamos a falar? Antes de cá chegarmos já havia uma civilização que foi destruída. chegou à região escarpada de Penhalonga e à zona das minas de que havia 119 . o material de guerra é todo russo e chinês.. como depois foi baptizado. Abrindo caminho à força de espada. não há potências a apoiar Portugal? Então os alemães. onde todos perdem e ninguém ganha ─ tentou recompor o Eduardo. e acabou por se afastar: ─ Já vêm com a cabeça feita. ─ Quem sofre mais são os que cá vivem! Há interesses de potências estrangeiras por detrás do terrorismo. A menção do grande país da África Austral. os americanos. A nossa Pátria é Portugal no continente europeu! UMA CIVILIZAÇÃO PERDIDA ( A Colonização de Moçambique II ) Por volta de 1571. uma expedição militar partiu de Sofala dirigindo-se para o interior. produziu um efeito tremendo no branco bem trajado que se empertigou. remoeu frases-quase-ameaças com um rubor intenso de raiva mal disfarçada. onde reinava o odioso regime do “apartheid”.

. Verificando que o ouro era raro e difícil de obter ( não eram as célebres minas do rei Salomão!. Por volta de 1667. rigidamente autocráticos. destruíram o exército do Monomotapa matando a maioria dos nobres do império. foram repetidamente anuladas pela estupidez das suas instituições”. a coragem. ferro. Permaneceram sempre fora da grande corrente da democracia mercantil. na obra já referida. este foi obrigado a assinar um tratado aceitando a suserania dos portugueses. na condição de: “O rei de Portugal lhe garantir a sua posição e o apoiar no combate a um rival rebelde”. Ser protegido desta maneira é meio caminho para a subjugação e em 1629. os seus métodos de governo. A coberto das suas armas de fogo. os colonos portugueses pouco mais sabiam fazer que pilhar e conquistar. cobre. Como lhes faltava uma sólida classe mercantil. roído pelas guerras internas.. procurando enriquecer pela simples pilhagem. editada em 1960:. os europeus haviam-se apoderado de grandes áreas até Tete e territórios circundantes. chumbo e estanho no seu território. leva a impor ao imperador do reino do Monomotapa. após uma grande batalha em que 250 portugueses e 30 mil “cafres” vassalos. comportam-se como malfeitores. viriam a ditar a ruína. Deparando no Sudeste africano com povos confiantes e prósperos. não só deles próprios como de todos os povos que conquistaram. a concessão de todas as minas de ouro.. a ânsia fatal de monopolizar o comércio dos metais preciosos. espírito de invenção e capacidade de adaptação que tantas vezes demonstraram. como refere Basil Davidson. ) voltaram para a costa desiludidos e dizimados com as febres.. Em 1607. “A responsabilidade cabe ao seu antiquado sistema social. O génio individual que punham nas suas empresas. 120 .notícias fantasiosas.

segundo a documentação histórica. e também do máximo desenvolvimento das culturas da idade do ferro ao longo da orla costeira. no primeiro século e meio de ocupação? . Os seus vizinhos do interior de língua banto. destruíram cegamente toda a rede subtil de interesses comerciais.fortes pela dinâmica de uma civilização própria em curso de evoluir. glorificados descobridores.). quando este lhes começou a faltar começaram a procurar prata. o milénio de máxima actividade comercial entre a África Oriental e as potências marítimas do Oceano Índico. vários autores árabes deixaram contada a sua grandeza. ou mais provavelmente uma mistura de vários tipos africanos miscigenados com os povos conquistadores do Norte. Mas tratava-se inequivocamente de um povo puramente africano que possuía inegavelmente a tecnologia da idade do ferro e vivia num sistema tribal-feudalista. Mas existiu de facto tal civilização? O período que decorreu entre os anos 500 e 1500 da nossa era.. foi.. quando esta faltou também lançaram-se 121 . tecidos laboriosamente durante séculos de uma ponta a outra do Oceano Índico (.”Depois de se terem apoderado dos portos comerciais da índia e de África e de os terem arruinado pela estupidez das ordens reais e pela cupidez dos aristocratas. ou do tipo negróide. E o que fizeram afinal os portugueses. a que os swahili davam o nome genérico de Wa-Nyika (donde derivaria mais tarde Tanganika ) podem ter sido originalmente do tipo “boschimane”. lançaram-se desesperadamente à procura do ouro.. Os seus habitantes falavam swahili e embora não tivessem escrita.. os ocidentais degradaram-na gradualmente até os despenhar na mais negra miséria. Tendo depois verificado que a sua reestruturação era tarefa acima das suas forças.

perceberam-se os cuidados no avanço. um furgão “rebenta-minas” carregado de sacos de areia. Silêncio pesaroso enquanto o conjunto parava mais um longo 122 . ─ Basil Davidson. O primeiro dia de viajem terminou em Mutarara. acabando por se contentar com o comércio de escravos”. na obra já referida ─ .em busca de qualquer coisa que lhes desse lucros rápidos. Parecia uma longa serpente que levava agora à frente das locomotivas. FINALMENTE O GRANDE RIO Na parte da tarde a composição arrastou-se vagarosa por quilómetros de vegetação escassa e terra avermelhada. Logo no reinicio. À beira da linha jaziam as carcaças retorcidas da máquina e dos vagões de um combóio descarrilado pela guerrilha. O capitão apareceu pela primeira vez tentando tranquilizar os ânimos e explicando a lentidão: “É para permitir inspeccionar a linha nos pontos estratégicos e evitar as sabotagens”. qual cabeçorra disforme. a partir dali. O trem avançava lentamente enquanto toda a Companhia debruçada das janelas observava constrangida o espectáculo da guerra. manhã cedo. o comboio não circularia mais de noite. A preocupação acentuava-se nos rostos por barbear: “A guerrilha já está cá muito em baixo!” ─ observou alguém com propriedade.

─ Ei! Sou do Barreiro!.? Para onde vão? ─ notava-se certa agitação no cabo “Setúbal”. passando fome.. Como é a guerra aqui? ─ as perguntas tinham um efeito negativo no jovem militar que ia perdendo o entusiasmo inicial. ─ Isto é um buraco medonho. Pertence a Setúbal! ─ Viva! Eu sou da Baixa-da-Banheira! Como vai aquilo? Já de lá saí há oito meses. ─ Vai bem. ─ São os “turras” que põem minas! Filhos da puta. ─ Pode-se sair? Vou ter aí abaixo! ─ a porta da carruagem não estava distante mas o degrau ficava altíssimo.. Do chão.período em pleno campo inóspito. não penetrava brisa fresca que aplacasse o calor da tarde. tudo na mesma! Vamos para. calor.. todas as noites nos chateiam com rajadas de balas tracejantes. surgiu então um jovem trigueiro tostado do sol e do pó. onde em contrapartida.. a gritar esperançoso: ─ Setúbal! Vai aí alguém de Setúbal?! Setúbal!. ─ Vamos para Cabora Bassa! Onde estamos? ─ juntou-se um pequeno grupo à volta do animado cabo. mas o 123 .. Cinco homens num destacamento. onde se divisavam apenas pequenos arbustos. em relação ao solo arenoso daquela zona de aspecto desolador. frio. ─ Vimos dois comboios destroçados à beira da linha... só algumas saliências de terra vermelho-amarelada.. vivemos num abrigo cavado naquela elevação. ─ antes que respondesse levou um esticão e um aviso do Eduardo: “Essas coisas não se dizem à janela! Até o deserto tem ouvidos!”. como por encanto. O calor era intenso. mas não se viam construções no horizonte visual. A pergunta urgente como um pregão entrava pela janela aberta da carruagem-cama.

o menos falador dos cinco que escolheram seguir juntos. ─ Então adeus! Boa sorte. endureciam os semblantes. ─ Aqueles gajos vivem num autêntico buraco! ─ o lamento-constatação do Carlos.. venham cá eles fazê-la!. traduzia a preocupação comum que ninguém se atrevia a exprimir: “Que nos esperará?” 124 . Eram quatro barrotes e umas chapas ferrugentas cobertas por ramos secos na frente da elevação socavada. Lá fora a paisagem reverberava atingida em cheio pelo Sol inclemente. com uma abertura de vigia protegida com sacos de areia...pior era à noite. hem! Encontramo-nos na Baixa-da-Banheira! ─ Também não vos gabo a sorte! Na zona de Cabora Bassa tem havido porrada de “criar bicho”! Adeus! Aumentava a preocupação. barbados de dois dias. divisava-se o posto onde o “Setúbal” e mais quatro soldados guardavam a linha. pondo fim à conversa. com o medo de os irem “pegar à mão”. ─ ‘Tou farto disto. ─ Vamos retomar a marcha! ─ avisava alguém de dentro. ─ Têm havido muitos descarrilamentos? ─ Oh! Mais de meia dúzia! Agora há menos porque houve aí uma operação dos comandos e limparam o sebo a uma data de “turras”! Hoje podem ir à confiança. ─ pediu o Sousa para dentro da carruagem. pá! Calma. rebentam com um gajo! Todos os dias temos de fazer quinze quilómetros de picagem até ao próximo posto! O que vale é que nos baldamos. Após uma longa curva feita lentamente. fizemos a picagem logo de manhãzinha.. ─ Têm tabaco? ─ a voz tremia-lhe e perdera o ar descontraído de há pouco: ─ Calma rapaz! Arranjam aí um cigarro?!.

registando a chegada de dois “amigos do homem”. ─ É verdade! Ainda não tínhamos visto cães. coitados! ─ replicou o António Manuel em voz alta. * ─ Furriel! Empreste-me vinte paus! Pago-lhe quando chegarmos ─ o 125 . esperavam somente. organizando um serviço de ordem para recolher as latas sobrantes. algumas disputas e frases trocadas na língua local: ─ São miúdos! São iguais em todo o lado! ─ observou o Carlos com muito bom senso. o que atiraram fora fica para os cães! ─ ironizou o João. não barafustavam. não pediam. muitas. ─ Não te preocupes.Nas longas paragens nas pequenas povoações do caminho. e orientando no exterior a sua distribuição equitativa perante dezenas de olhos espantados. Esperavam pacientemente e não diziam nada. Da janela ao lado alguém gritou enquanto despejava os restos para a linha: “Puta que os pariu! Vêm aqui pedir comida e depois vão meter minas na picada!” ─ Eles têm é fome. ─ Vai dizer isso à besta aí do lado! ─ junto à janela aberta o Eduardo mandava o recado para o compartimento contíguo. Devia ser a primeira vez que não eram tratados a pontapé ou como animais. não riam nem brincavam. mesmo levando em conta o carácter racista da piada. juntavam-se grupos de miúdos andrajosos de olhos curiosos e suplicantes. pensava que os comiam todos! Risada geral. houve risos. O pessoal precisava de descomprimir. Penduravam-se ao longo das carruagens à espera dos restos das rações que constituíam as refeições da tropa. só então a ganilha animou.

em Tete. baixando a cabeça à passagem do homem branco fardado. “Só prisioneiro senta no chão!” ─ explicaria anos mais tarde o chefe guerrilheiro Matias. Risonho e desmiolado. moço robusto e bem parecido. grandes e brilhantes nas crianças. ensebadas pelo uso.. onde dois ou três soldados disfarçaram.. entre risadas machistas e abanos de cabeça indulgentes e foram todos em excursão confirmar a história bizarra. quando se abriram as portas de Abril. verdadinha! Se quiserem posso arranjar qualquer coisa para vocês. apareceu risonho e agitado.. ─ Verdade. o Edmundo lá reuniu os vinte paus.. com bancos curtos de ripas. ─ É para dar uma “martelada”! Estão ali umas gajas a aviar o pessoal!. estás a engatar-me!. surgido do mato. ─ Para que queres os vinte escudos? ─ questionava intrigado e curioso o seu chefe directo.soldado Edmundo. com divisas. Estão na casa de banho e a malta já faz bicha! ─ Estás maluco! Ainda agora saíste de casa e já estás assim? Vê lá o que arranjas! ─ A miúda não quis nada comigo sem eu prometer casamento!. As carruagens da frente eram muito velhas... quando viram aparecer o 126 . amontoados entre trouxas. mas ninguém estava sentado no chão. Olhavam surpresos com olhos esquivos. atravessaram várias carruagens até à parte da frente onde seguiam os indígenas. intensificavam um cheiro agridoce a suor e urina acentuado junto aos lavabos. ─ Aqui no comboio? Não pode ser. As más condições de higiene ao fim de dois dias de viagem. numa curiosidade furtiva feita de receio ancestral. O comboio era muito comprido. Muita gente seguia de pé ou agachada junto das paredes. malas velhas e caixotes com galinhas.

deixando no ocaso um rasto de luminosidade vermelho-púrpura. Medo da noite chegando azinha e trazendo a rajada. a mãe. mais intenso que o “outro” Sol no hemisfério norte. a emboscada. sobre a Serra de Monsanto nos dias de Verão quente em Portugal-pátria-saudade. entre árvores e arbustos por ali mais abundantes.grupo de furriéis. a mina. a companheira. produzia ali um céu alaranjado cobrindo-se célere de sombras. ─ Tem juízo. homem novo. os irmãos. pá! Ainda apanhas algum “escarépe”! ─ Mais vale um gosto que três vinténs. a morte! ─ Vamos à procura de jantar? ─ Tenham cuidado! Não se afastem muito do comboio . Afinal. furriel! * Moatize! Pôr-do-sol africano num horizonte vermelho e laranja. os amigos? Um sentimento doloroso abre o peito e esmaga a alma. o mesmo Sol que alegrava e aconchegava a terra natal distante. maravilhando os olhos na beira-rio. perante o espectáculo magnificente “deste” astro-rei a esconder-se rapidamente no horizonte. transportando espantação e medo nas trevas caindo breves. os pais. já na terceira experiência e com algum cansaço 127 . Onde estarão a esta hora a esposa. persistente.recomendava o capitão. a namorada. ─ As gajas estão lá dentro! ─ sorria triunfante o Edmundo que reconquistara o primeiro lugar na fila. a morteirada.

foi instituído o “Regime dos Prazos”. na divisão de classes ia comer à messe de oficiais por preço módico. correndo energicamente para o vale que. numa longa viagem que o vai fortalecendo até se tornar na parte final em território moçambicano. iniciou-se a derradeira etapa em camiões militares rumo a Tete. cerca de 100 quilómetros a norte da cidade da Beira. ciosamente guardada. ─ discorria o António Manuel. parecemos discípulos de Fidel!. A ESCRAVATURA ( A Colonização de Moçambique III ) Nos finais do século XVI. 128 . um tenente-coronel que. Claro. se tornou na zona mais fértil do país e por isso desde sempre cobiçada pelos colonizadores. uma semana era passada. Aí a guerra era pouca! Na manhã seguinte. sob a sua influência. sujos de pó. aproveitou “uma vaga” para passar a um comando operacional estratégico. concitando olhares curiosos. ─ Assim com esta barba de três dias. atravessando a grande ponte metálica sobre o Zambeze.. oportuno. Quantos naquele comboio saberiam quem era Fidel e a sua luta heróica pela libertação da ilha distante? E quantos entenderiam a guerra para a qual tinham sido empurrados? Quem saberia muito bem era o comandante do batalhão.exasperado. num poderoso e caudaloso rio alargando-se até à foz em delta na zona de Chinde. para chegar à costa oriental. Vimo-lo pela primeira vez com um aspecto terroso-escuro. Finalmente o grande rio! O Zambeze nasce no Nordeste de Angola e atravessa a África durante milhares de quilómetros.. muito cedo. tinha o seu problema resolvido como sempre.

separado definitivamente da dependência da Índia. O compromisso assinado pelo governo português em 1815. quando foi incrementado o tráfico de escravos. estando na mão dos “prazeiros” e prosperando na Zambézia e nos centros populacionais de Sena e Tete. no Congresso de Viena. pois aqueles só queriam de África um único artigo ─ trabalho escravo! Durante a segunda metade do século XVIII. com a criação em 1752 da Companhia Geral de Moçambique. O relativo malogro das experiências de colonização agrícola e militar e a descoberta dos campos auríferos e diamantíferos no Brasil. mas na Zambézia. foi um golpe rude no rotineiro comércio de escravos para o Brasil. entregues a cultivadores ( portugueses e goeses sobretudo ) que exploravam a força de trabalho de escravos indígenas. com muito pouco êxito. A situação só animou nos meados do século dezassete. dominada 129 . fizeram com que caísse a ruína económica em Moçambique. para administrar os territórios não ocupados pelas “prazos”. para a futura abolição da escravatura. Entretanto a Revolução Liberal de 1820. No final do século. mas aqui reside o ponto mais triste de toda a história. situação propícia à ideia separatista da “confederação brasileira”. Moçambique e Brasil. enxameou a colónia de deportados políticos. princípios do século XVIII. No começo do século XVII.consistindo no arrendamento pelo Estado de terras expropriadas aos nativos. formada por Angola. O Brasil viria a conferir à presença dos portugueses no Sudeste africano um significado mais permanente. Moçambique era um território arruinado. foi criada a Companhia de Comércio da Índia Oriental. o comércio de escravos descambou tristemente para um tráfego desenfreado de carne humana. Cabo Verde. fundamentalmente para o Brasil e foi criada a Junta do Comércio para explorar esse monopólio e o do marfim.

a ideia foi repudiada e não vingou. capitão-mor e senhor do prazo de Massangano ). no intuito da unificação do território ( a principal foi contra Bonga. Mzila. e com os próprios capitães-mor dos “prazos”. As pequenas colónias no interior. Seria nesta aridez que outros europeus viriam a penetrar nos fins do século XIX. NO REINO DO MONOMOTAPA Tete. Instalações 130 . Como testemunho do ódio e do desânimo inspirados pela penetração europeia. conta-nos Bryant: “Em 1860. pó vermelho e castanho. ruas largas. na Rodésia. cidade de passagem. não é de admirar terem imaginado diante dos seus olhos não o resultado de “ontem”. vindas do Sul. chefeguerreiro dos invasores zulus. pequenas árvores na zona residencial de vivendas burguesas. transformando num deserto essa vasta região”. fez com que todos os potenciais trabalhadores mineiros indígenas daquela zona fossem sumariamente executados. Por esta época travam-se lutas sangrentas com os nativos ( destruição de Lourenço Marques em 1833 pelos “cafres” ).pela aristocracia sertaneja dos “senhores dos prazos”. mas que assim permanecera em completa desolação desde os princípios do tempo. para evitar que as minas de ouro de Manica – onde Mxaba à sua passagem tinha exterminado todos os portugueses! – viessem jamais a constituir um atractivo tentador para outros aventureiros de pele branca. pouca gente nas ruas. casas brancas de estilo arabizado com terraços. que sobrepujaram as cidadelas históricas de Khani e Dhlo-Dhlo e as fortalezas de Inyanga e Penhalonga. eram varridas e destroçadas pelas mesmas invasões Nguni.

apostados no escoamento das riquezas mineiras da Rodésia. 131 .. ─ A barragem de Cabora Bassa é estratégica. em cuja construção e exploração estavam interessados portugueses. tornavam praticamente impossível a navegação mais além. mesmo com o rio a seus pés. Concluiu o excelso expedicionário. ingleses. na vizinhança da grande barragem de Cabora Bassa. na língua nativa.militares por todo o lado. Forma-se uma coluna de 46 veículos militares e civis. por isso a Frelimo quer destruí-la!. não acredito que a queiram destruir! ─ havia muita generosidade e idealismo naquela rapaziada de vinte anos. Grandes exploradores como o britânico Livingstone. que as grandes pedras e penhascos existentes um pouco acima de Tete. ocuparam-se durante anos a investigá-lo. foi ao longo de séculos prospectado na tentativa de avaliar da sua navegabilidade. tendo o eminente africanista descido até perto da foz. Comprido caminho de água. Este obstáculo natural viria a inspirar os engenheiros que conceberam a grande barragem. é uma cidade sem espaços verdes. rodesianos. em marcha rápida na estrada larga e alcatroada que liga ao Songo. sul-africanos. por onde circulam carros-betoneira que vão dar consistência ao grande paredão domador do velho rio. ─ o grupo embora reduzido não se tinha desfeito e a conversa durante a viagem em coluna continuava: ─ É uma obra estrutural com benefícios para o povo moçambicano. onde viria a falecer com febres. no lugar de Cahora Bassa. Meio-dia. muito calor. o Sol queima e há poucas sombras. outra vez a malfadada ração de combate. o Zambeze. entre outros. ditando o desinteresse dos ingleses. veículos da tropa num vaivém mostrando que a guerra estava próxima. alemães.

os semblantes apaziguados voltaram-se para a paisagem inesperada. O militarismo vertia mais carne na voragem duma guerra contra o sentido da história. O tom escuro e húmido da terra revolvida revelava a recente desmatação. ainda a trabalharem alguns quilómetros mais à frente. A via alcatroada era um luxo raro. percebendo o ligeiro frémito provocado nos “checas”. apoiava abertamente o encarniçamento do regime ditatorial português e dos seus comandantes militares fascizados. possuidora do regime mais racista do continente africano. ─ Há uma semana houve aqui uma emboscada logo à saída da cidade! – elucida o condutor experiente adivinhando a curiosidade dos três acompanhantes. No entanto a vista ficava ferida pelas clareiras laterais recentemente abertas até 50 metros de cada lado. garantiria muito mais energia do que Moçambique necessitava. ─ havia uma provocaçãozinha na intromissão do António Manuel. por máquinas da Engenharia Militar. acrescentou sabedor: ─ Uma “bazucada” num Unimog! Um furriel e três soldados. ao encontro do gigante em construção. na defesa da antiga colónia. Era para o “perímetro de defesa próxima” de Cabora Bassa que mais um batalhão se dirigia. ─ E se fosses à merda!... “pró 132 .. bem vão precisar! ─ surtiu efeito o bom senso do Sousa. percebes!? ─ como furriel de infantaria o Eduardo estava numa situação delicada. Se calhar julgas que venho aqui defender a Pátria. O projecto hidroeléctrico quando terminado. ─ Calma! Calma! Guardem as energias. Cheirava a vegetação verde esventrada e a lenha-celulose amputada. por isso a grande nação austral. A estrada continuava para o Songo. e.─ Mas se o conseguissem era uma grande vitória militar e política! ─ Até pareces regozijares-te!. só cá venho safar o “coirão”..

Era uma longa serpente de unidades móveis militares e civis ao longo de mais de um quilómetro. A via em terra pisada era estreita e os ramos das árvores batiam nos camiões avançando à vista. Diferente todavia de fazer a guerra! Agora o mato vinha até á beira da estrada. só se ouviam os motores roucos em aceleração.concluía ainda o soldado-condutor. árvores e arbustos endémicos e entrelaçados não deixavam ver o interior sob suspeita: ─ Esta devastação horrível será eficaz? ─ Duvido! Com o RPG podem fazer pontaria a mais de 100 metros. estávamos no reino da guerra. Sousa. E se houvesse uma emboscada? Os olhos perscrutavam as bermas luxuriantes à procura de algum sinal. mas pouco ou nada se divisava. os olhares trocados em silêncio revelavam o medo que ia nas almas da tropa inexperiente. Em sentido contrário o trânsito rareava. Estar na guerra aprende-se depressa. Soaram tiros longínquos. seria emboscada na frente da coluna? De novo o 133 . seria fácil montarem uma surpresa. incluindo algumas paragens para reagrupamento. coisa que os “checas” ainda não sabiam e que alguns nunca aprenderiam. lentamente. percorridos cerca de 120 quilómetros. com o ar sabichão de quem estava há muitos meses na guerra. respeitando as distâncias indicadas pelo comandante da coluna. a engenharia militar ainda ali não chegara. é mais o efeito psicológico de segurança! ─ opinava o furriel de “ armas pesadas”. sempre em grupos de vários veículos comandados por uma viatura militar. a estrada acabava e começava a picada. Ao fim de quase três horas de viagem. ─ Sempre evita que os “turras” venham atirar à beira da estrada como aconteceu dessa vez! . os camiões seguiam mais devagar.galheiro”! A mata era densa.

alguns rapazes-soldados de camuflado bem artilhado. poeirentos. Chicoa: num alto de terreno amarelo-avermelhado. vai começar a comissão num local muito pior! À volta de umas “Laurentinas” frescas. correndo escuro e caudaloso. símbolos da tropa especial. atreveu-se a responder timidamente: 134 .. essenciais para minorar o cansaço e o calor das quatro da tarde. e um deles. soturnos. Os recém-chegados. A alegria de uns era a apreensão de outros. ─ Com os “turras” só pode haver uma lei. domina a plateia despertando a curiosidade dos ouvidos “virgens”. saúdam efusivamente a passagem dos “checas”. ninguém saí dos trilhos. “já cá estamos há muito tempo. o veículo continuou a marcha devagar. a da bala! Preto no mato é preto abatido! ─ o homem de bigode e tez escura do sol. a partir daqui vamos seguir com muito cuidado.. do qual se avistava o Zambeze. agora outros que dêem o coiro!”. num portento de força impressionante. ─ Até aqui nunca houve problema de minas na picada. O Angelo já ali está há doze meses e nem se esforçou no curso. E a guerra ficava mais próxima.silêncio. A guerra é naturalmente o tema central. ninguém se atrevia a abrir a boca. Um furriel de fato de trabalho muito coçado de uso. confraternizam com alguns conhecidos que fazem as honras da casa e recordam histórias de recrutas e especialidades. sob pretexto nenhum! ─ o chefe da coluna era um alferes competente. parecia muito seguro de uma intocável autoridade. primeiro classificado. * Estima: um posto de defesa na picada. de nome Trindade. a lógica da campanha militar era. alargada a alguns civis presentes. e só agora o António Manuel. a conversa continua no bar. com granadas e fieiras de balas à vista. construído em paliçada de troncos.

Parece que mataram por lá muita gente e houve uns padres que denunciaram um massacre na aldeia de António. Tão autoritária linguagem fazia desconfiar do papel peremptório do senhor Trindade. e as populações! A acção psico. A todo poderosa PIDE/DGS!.─ Mas.. atreveu-se a meter a colherada: ─ Sendo assim só matando os pretos todos se ganha a guerra!?. ─ Ah! Cá como lá. ─ Mucumbura? Que sarilhos? ─ Fica para Sul.. quando cheirarem o sangue depressa aprenderão! Apetecia-lhe responder mas conteve-se ao perceber o sinal do Angelo: ─ Pá! O gajo é da DGS! ─ esclareceu o novel amigo mais tarde.. quando foram em pleno ocaso ao promontório do qual se observava o pontão e a barcaça de atravessamento do Zambeze. ─ Quem não está connosco. está contra nós! Vocês são novos aqui.. ─ Pois é! Conta-se por aí que ele esteve metido em grandes sarilhos. Já se iniciara a trasfega de material e pessoal da Companhia.. contudo o noviço João com o “bichinho a roer”.. ─ António? Que nome curioso! 135 . pelos vistos. ─ o outro não o deixou terminar: ─ As populações estão nos aldeamentos estratégicos! Quem está no mato é amigo dos terroristas! Há que limpar a zona para quebrar a influência da guerrilha. embora não a pudessem completar pois rapidamente anoiteceu. junto à fronteira com a Rodésia. para os lados de Mucumbura.

A DEFESA DE CABORA BASSA 136 .5.

Em resposta. na região de Mueda. Também o reino do Monomotapa no interior. causas profundas e raízes seculares no povo moçambicano. com um ataque ao posto de Chai. o comando das Forças Armadas portuguesas. construtores de grandes cidades comerciais no litoral do Índico. Quelimane. e os Macondes nos planaltos do Norte. que por medo ou convicção apoiavam os guerrilheiros. Durante este período inicial. Entre a surpresa e a desorientação. 137 . Cabo Delgado e Niassa. muitos comprometidos com o regime salazarista-colonialista. Sofala. tinham fortes tradições independentistas. a guerra de guerrilhas desencadeada pela Frelimo a 25 de Setembro de 1964. era clara a incapacidade dos altos comandos militares. Raízes mergulhadas nas ancestrais tradições de independência dos povos “Zani”. o movimento de libertação abriu uma terceira frente na região de Tete. Apostando muitas vezes no terror e nas atrocidades sobre as populações. antes dos portugueses chegarem na Idade Média (Chinde. esteve circunscrita aos distritos do norte. a par de uma intensa repressão sobre as populações envolvidas. várias vezes declarou vitória total e definitiva sobre o chamado “terrorismo”. nomeadamente bombardeamentos indiscriminados com “napalm”.Os Massacres de Mucumbura Nos primeiros anos. em 1968. Ilha de Moçambique). em lidar com uma guerra que tinha características diferentes.

Em Tete. reconhecidos por Portugal na ONU”. uma companhia de “comandos”. “carrascos subsidiados num mundo de miséria”. tropas da Rodésia de Ian Smith. Nijs e John Paul. nas regiões de Niassa e Cabo Delgado. pouco escutadas no entanto. rapidamente a actividade da guerrilha alarga-se a toda a região.obrigando-as a sair das aldeias tradicionais onde tinham o sustento de pequenos agricultores. Trindade. O ódio instala-se. em Maio. e os Direitos do Homem. Os padres Alfonso Valverde e Martin Hernandez. na aldeia de António. controlada pelas tropas auxiliares africanas. acusado de colaboracionismo. passa o Zambeze e chega junto à fronteira sul com a Rodésia. entram em Moçambique e matam 18 aldeões na mesma região. à época bispo de Vila Cabral. em Abril de 1971. Em Setembro do mesmo ano. locais e nomes. chacinam 20 pessoas nas aldeias de Kapinga e Mahonde. rebentam as primeiras minas nas picadas e é morto o régulo do Buxo. para os aldeamentos cercados de arame farpado. Depois de descreverem em pormenor com datas. o regime colonial português retardava o fim do último dos impérios. nomeadamente de monsenhor Eurico Dias Nogueira. Calado de seu nome. a que os aborígenes chamavam “thanga ya nbudzi” (curvas de cabras) levando aí uma vida miserável. os massacres perpetrados entre Maio e Novembro de 1971. onde. Tropas portuguesas comandadas por um famigerado alferes de carreira. que alertam em vão o bispo de Tete e o governador Rocha Simões para tais atrocidades. Em Novembro. elaboram então o apelo: “Mucumbura 1971. Levantaram-se algumas vozes para denunciar as brutalidades e os massacres cometidos nos primórdios. e acicatadas pelo facínora da PIDE/GDS. queima vivas 16 mulheres e crianças! Na zona estão em várias missões os padres espanhóis da Congregação de Burgos. e dos padres anglicanos. Valverde e 138 .

porém. deveria estar a Igreja.) Cristo esteve sempre do lado dos oprimidos. mentalidade e até filosofia. que apoiam e defendem esta guerra totalmente injusta (. Cabora Bassa Em Março de 1968. Eduardo Mondlane denunciou os planos de Salazar para a construção da grande barragem de Cabora Bassa e para a fixação no Vale do Zambeze de um 139 . tem todo o direito à autodeterminação e independências totais. são perseguidos. Afonso Valverde e Martin Hernandez foram presos na Rodésia... Entregues pelas forças racistas de Ian Smith à PIDE/DGS. cultura.) O povo de Moçambique. sem qualquer ambiguidade. devido à sua língua. De hoje em diante. (. até Novembro de 1973.. Nesta data foram expulsos de Moçambique. raça.. costumes. e nós com quem estamos? Cremos que onde Cristo está..Hernandez escrevem: “Os verdadeiros responsáveis pelos massacres e morticínios de Mucumbura. são os governantes políticos e militares de Portugal. corajosa e claramente. É esta a raiz do problema que o nosso bispo não quer analisar porque diz que isso seria “meter-se em política” (. torturados e assassinados.) Os nossos bispos e nós próprios recebemos protecção do governo português. Os africanos. daremos passos muito definitivos para apoiar os oprimidos. numa conferência no Reino Unido. sem julgamento ou culpa formada. ficaram detidos na prisão da Machava em isolamento total durante quase dois anos. os guerrilheiros e todos aqueles que desesperam devido à exploração dos que estão por cima”.. e em Janeiro próximo contamos receber mais dinheiro do Estado. em 2 de Janeiro de 1972. onde iam de férias.

o conselho de ministros português decide a adjudicação provisória da construção da barragem. em Julho de 1968. No concreto.milhão de colonos brancos. pronunciando a célebre frase: “Cahora Bassa delenda est!” ─ Cabora Bassa deve ser destruída! Tratava-se de facto de uma (última) cartada do colonialismo com o fim de atrasar a marcha da História. a afirmar o desejo independentista. assente nos aquartelamentos de Chicoa. em 8 de Março de 1968. fez constar ser seu objectivo sabotar a grande construção. Cahora Bassa. Enquanto a Frelimo faz constar que irá impedir a construção da barragem e desencadeia a primeira acção armada na região de Tete. tem sede em Joanesburgo e a mão-de-obra é recrutada sobretudo na Rodésia. vertidos no caldeirão da guerrilha que. formando um triângulo intrincado constituindo o “perímetro de defesa próximo de Cabora Bassa”.) e fundamentalmente com o interesse da Rodésia e da África do Sul. que devia ser defendida a todo o custo. mas veio a consubstanciar a maior manobra táctica da guerra de libertação de 140 . constituindo o “perímetro de defesa imediata”. italianos. com o objectivo de tapar os corredores de infiltração na direcção da obra grandiosa em construção. e a assinatura definitiva do contrato de construção é feito em Setembro de 1969. são organizados aquartelamentos de um lado e do outro do grande rio. etc. e para isso. significava a afectação e o sacrifício de mais alguns milhares de homens. inteligentemente. contava com capitais nacionais e sobretudo estrangeiros. (alemães. rodeado por uma vedação de arame farpado. no dizer indígena. A declaração de Eduardo Mondlane tratava-se decerto de uma consigna política. Estima e Chipera. é um campo entrincheirado num meio hostil. ingleses. Construídos ou beneficiados com o apoio da Rodésia de Ian Smith. A empresa construtora Zamco.

Chicoa. No dia 9 de Novembro de 1972. que também possuía os poderosos morteiros de 82 mm. minas. numa fase superior da guerra subversiva de libertação nacional. aparentemente apontada para a grande obra que um dia será nossa. 15 de Novembro de 72. foi atacada com foguetes de 122 mm (voltaria a ser flagelada em Julho de 1973) e. “Façamos crer aos colonialistas que é esse o nosso objectivo. eis a nossa táctica. As notícias chegavam em catadupa. chegaram a Tete 15 evacuações! No dia 17. ataques com armas pesadas a quartéis e destacamentos.Moçambique. minas! Fuga e reagrupamento. com a ajuda da República Popular da China. minas. Depois atacou sucessivamente. foi enorme o efeito psicológico em toda a região. a somar ao tradicional e substancial apoio da União Soviética e de outros países do bloco socialista. em Tete. Vitória ou morte camaradas! Venceremos!” O apoio logístico e o armamento dos guerrilheiros fora muito melhorado. do Agrupamento de Tete do Movimento de Libertação. Assim vão trazer mais e mais homens para aqui. Fingué. tinham trazido um enorme poder táctico à guerrilha. flagelações. apoio na população. a linha de caminho-de-ferro 141 . concedendo à Frelimo decisiva vantagem estratégica sobre o maior poderio militar do exército português. emboscadas. O armamento pesado (canhões sem recuo) e os foguetes de 122 mm. Furacungo. num só dia. constituía-se em forças irregulares. embora os estragos não fossem de monta. deixando o espaço livre para caminharmos para Sul!” ─ o comandante Matias. A guerrilha dos pequenos grupos dos primeiros tempos. Temeu-se nos meios militares a destruição da barragem porque a Frelimo possuía foguetões orientáveis para atacar à distância qualquer objectivo com precisão até cinco quilómetros. instruía os seus comandantes de grupo: “Minas. a Base Aérea nº 7.

uma tarefa que o comandante-chefe. separando inexoravelmente as duas margens. desfalcando o Centro e o Sul de Moçambique. Entretanto. a construção da barragem prosseguia dentro da área construtiva completamente cercada por arame farpado. no eixo Beira-Vila Pery. Kaúlza de Arriaga. apenas algumas árvores de ramos retorcidos na encosta. com uma força desconhecida. a burguesia branca da Beira percebeu que a guerra estava perdida. O comandante-chefe. com algumas portas apenas. silenciosa e traiçoeira. pela primeira vez. considerara da mais alta importância e absolutamente inatacável. começaram as hostilidades no Distrito de Manica-Sofala. para não assustar os construtores e sobretudo os investidores. A Frelimo tinha 45% da sua actividade na região de Tete. A Travessia do Zambeze Do outeiro de terra desigual. viviam em discreta mas rigorosa segurança que a Zamco fazia questão de exigir. Deste lado a vegetação era escassa. enquanto a guerrilha avançava para Sul onde o terreno estava “livre". O pânico instala-se e. Assim se entretinham as forças portuguesas. divisava-se o rio escuro e caudaloso. e em 25 de Setembro de 1972. e os técnicos sul-africanos e europeus. A mão-de-obra rodesiana. reforçando o dispositivo militar a níveis extraordinários. Kaúlza de Arriaga. também assumira esse compromisso. foi sabotada na região de Moatize. 142 . cinzenta e castanha. ao longo de 8 quilómetros.que fazia o transporte das “cargas críticas” para a barragem. controladas e permanentemente patrulhadas. com raras excepções.

A sua força telúrica provocava um arrepio visceral e as suas águas turbulentas bramiam uma pergunta transcendente: “Porque estão aqui? Porque vieram?”. ─ Estamos a uns bons 40 quilómetros. com os ancoradouros desfasados uns bons 100 metros. O grande rio Zambeze resumia tudo aquilo que fora sentido na estadia breve em terras africanas. causando arrepios a viagem entre as duas margens. ─ Aqui não. conta-se a meia voz. Foi há uns três anos.deixando ver o ancoradouro onde já se iniciara o transporte de homens e viaturas numa barcaça-jangada motorizada. certamente para aproveitar o desvio provocado por tamanho caudal. mas sente-se o efeito do estreitamento na zona onde a barragem está a ser construída ─ esclarecia o Ângelo continuando a fazer de cicerone. companheiro de 143 . ─ O Zambeze tem aqui aparentemente mais força que em Tete! A que distância estamos de Cabora Bassa? ─ a constatação-interrogação mostrava a curiosidade dos noviços pelo empreendimento que alegadamente iriam defender. mecânico de armamento. A água de um castanho terroso. nascida e crescida sob a protecção das tágides. morreram mais de cem soldados! ─ esclarecia vivamente o furriel. límpidas (antes da poluição industrial!) e registadas na memória saudosa do grande rio peninsular unindo as margens de uma civilização milenar. ─ Com uma barcaça aparentemente tão frágil nunca houve problemas na travessia? ─ questionava um novato. musas inspiradoras dos sonhos ribeirinhos. mas mais acima houve um desastre terrível. e simultaneamente o respeito incutido pela grande estrada de água que atravessava África. A barcaça parecia frágil para enfrentar a torrente poderosa. nos quais não estava naturalmente incluída a vinda à guerra. era diferente das águas esverdeadas do Tejo natal.

Perto da margem a corrente ainda era mais forte. por certo deficientemente escorado. desequilibrando a embarcação e fazendo-a balançar perigosamente. o camião desliza mais um 144 . onde a água era mais agitada. descaiu para a frente a meio da viagem. o alferes Baptista resolve intervir. a jangada entra em estremeções. e aumenta também a trepidação. abrandando a marcha e dando indicações precisas: ─ Reforcem os calços! Aguentem o camião! O resto do pessoal vai mais para trás para equilibrar! Aumenta o burburinho humano sobrepondo-se ao matraquear do motor em marcha mitigada. ─ Se esta merda se vira vai tudo p’ró galheiro! ─ constata uma voz ansiosa e alterada. Em má hora o fez: ─ O 1º pelotão aguenta a viatura.formação do António Manuel. Porque o ambiente era de quase pânico e porque a cultura militarista não admitia ordens de pretos. * ─ Atenção! Cuidado! O camião está a descair! O grito de aviso urgente provocou um burburinho de apreensão nas dezenas de soldados que juntamente com duas viaturas faziam a travessia do Zambeze numa frágil jangada motorizada. aproximando-se da extremidade sem anteparo. o resto não sai dos seus lugares! Já não tiveram tempo de agir. ─ Porra de vida! ─ lamentou o maquinista negro sem largar a condução. ajoujado de carga militar. Um camião “Fargo”.

a jangada porém. e esta precipitou-se no rio com um fragoroso impacto da pesada carga. havia obediência cega! Na água a desgraça é quase total. permite perceber que a linha oblíqua da trajectória não passa pelo ancoradouro. produzindo um solavanco violento e descompensado que atirou pela borda fora grande parte da numerosa carga humana. Sem comando não havia acção. ficando suspensas no vazio.bocado e as rodas da frente ultrapassam o extremo. mas como a maioria não sabe nadar é arrastada pela corrente no meio de gritos desesperados: ─ “Socorro! Socorro! Acudam! Ajudem! Socorro!” No meio da desorientação dos que ficaram na embarcação. o abrandar fora fatal. a corda que prendia a viatura partiu-se. cinco ou seis homens. Na margem vários mirones já se tinham apercebido das dificuldades. outros procuram nadar energicamente para a margem. no meio de uma gritaria medonha. passa o ancoradouro e acaba por embater violentamente uns cinquenta metros 145 . ou pelas características atávicas da tropa portuguesa. era a sentença de morte da “Fargo” que já fizera aquela travessia muitas vezes. Na barcaça o murmúrio aumenta e a inclinação também. alguns soldados tentam agarrar-se desesperadamente à jangada. um cabo de origem africana puxa com o cinto firmemente manejado. com a segunda viatura também a ceder! A margem está a escassos metros. ─ Nossa Senhora nos ajude! Vai tudo à água! Um rápido olhar para a margem. ─ Agarrem a “Berliet”! Agarrem a “Berliet” ─ grita agora o alferes Baptista. com comando mesmo errado. Com um formidável estampido. ou porque não tinham meios de socorro. em desespero. e seguiam o acontecimento sem tomarem qualquer iniciativa.

soldados e nativos. Ao todo. Metade da Companhia tinha feito a travessia. a maioria desaparece na voragem das águas do rio impetuoso e implacável. Naquela zona do rio há muitos crocodilos. em poucos minutos. visto pelos olhos preocupados dos que iam para a guerra. Naquelas paragens a estrela-mãe do planeta comum. material de guerra. morreram naquele dia fatídico de Junho de 1969.Ao serão. . 101 soldados e graduados. e 146 . enquanto a outra metade ia pernoitar no aquartelamento sobranceiro ao grande rio de onde seguiria no dia seguinte.mais abaixo. que arrasta consigo mais alguns homens. o som surdo do rio correndo umas dezenas de metros mais abaixo provocavam um sobressalto intermitente. na messe. pairou como uma bola de amarelo intenso num horizonte alaranjado. o Sol quedou-se por um instante na colina sobranceira ao rio. Nos dias seguintes foram recuperados cerca de três dezenas de corpos. para logo desaparecer faiscando os últimos raios que afagavam a pele e animavam a alma. Alguns nadadores atingem a margem. * A tarde chegou ao fim. Por isso a trasfega não fora completada. era um sol diferente. provocando o deslizamento da segunda viatura. numa operação cuidada e lenta. Uma noite mal dormida em cama emprestada. Lá mais atrás o primeiro camião afunda-se com um formidável borbulhar. um sono em vigília despertando ao menor ruído. Tudo se passou rapidamente. a conversa voltara ao tema recorrente da travessia do Zambeze que povoava o imaginário de toda a gente. mas os restantes corpos nunca apareceram. O batelão motorizado fazendo a ligação entre as duas margens carregava tudo: camiões. mantimentos e munições.

147 . embora cada trajecto de ida e volta não demorasse mais de meia hora. mau grado o cheiro nauseante a óleo queimado.É um perigo! A barcaça quase se voltou há tempos!. de espingarda pronta e coração apertado pela ansiedade crescente da guerra anunciada. Mais mais para montante. ─ contava um furriel operacional da companhia local. com malas. os três amigos não se afastaram da zona do motor.. Cautelas e caldos de galinha não faziam mal a ninguém! Levou algumas horas para completar o transporte da CCS. mesmo que cheire a gasóleo. o melhor local durante a travessia é junto ao resguardo do motor. À frente da coluna colocava-se a “Berliet” rebenta-minas. onde mal penetravam os raios de sol subindo para o zénite do meio dia.. aguardava-se a chegada de um grupo de combate que vinha em sentido contrário vistoriando a picada. . houve um acidente com muitos mortos.. amigos. Seria outro ou tratava-se do mesmo incidente contado pelo Ângelo da parte da tarde? O contador percebeu um certo ar de preocupação nos novatos... A seguir alinhavam-se os restantes veículos de transporte. prestes a ser rendida ─ Sim. agarremse! Vão por mim! Seguindo o conselho. carregada de sacos de areia e apenas com o condutor. Numa das primeiras viaturas. Veículos e homens ficaram à espera na outra margem a ordem de avançar. Parece que não!.revelava o grande respeito pelo formidável curso de água. Se houver alguma coisa. ─ Assististe a isso? ─ questionava um dos interlocutores olhando interrogativamente o camarada ─ morreu alguém? ─ Foi antes de eu cá chegar. bagagens. aqui quando chove. são por vezes replicadas. o rio faz favor!. Histórias de guerra contadas no próprio teatro.. os três amigos olhavam silenciosos a vegetação abundante. homens e armas. por isso rematou paternalista: ─ Já sabem.

.. descendo a encosta pela picada ziguezagueante na direcção da margem baixa. ─ Não pode ser! Não iam berrar assim se viessem atacar! ─ tentava tranquilizar o Eduardo. que daí a pouco já se percebiam distintamente. Na luminosidade da contraluz matinal. pá! E se forem “turras”? ─ estremeceu o Sousa. ─ Mas. tão perto do quartel! ─ congeminava o João. Era o grupo que vinha fazer a segurança à coluna e inspeccionara os vinte quilómetros de picada 148 . meu alferes. com um timbre familiar. não-operacional mas com algum traquejo da vida. nem piar de pássaro nem som de animal. No silêncio ensurdecedor. Nada de facilitar! ─ dizia uma voz de comando. com um ligeiro tremor na voz traindo a emoção.” ─ pensava o jovem furriel que frequentara o Curso dos Oficiais Milicianos. metálica na extremidade. ─ Continuem a picar. ouvidos atentos às vozes imprecisas e ainda distantes. aqui o terreno é rijo! ─ respondia uma voz contrariada e cansada. peremptória. inquieto. embora ocultas pela folhagem densa. ─ Neste sítio não é provável. apareceram finalmente vários militares de camuflado e arma em punho e outros com uma comprida vara. vozes humanas vindas do mato despertam medos imaginados: ─ É. Calaram-se.* Reinava uma estranha calma na Natureza. ─ Vamos fazer o trabalho como deve ser feito. A responsabilidade pela segurança dos “checas” é nossa! ─ “Esta voz! Conheço esta voz!?.

vinha um homem de cabelos claros: “Será!?. era um passatempo de luxo no teatro de guerra. Sierra.. mesmo jogado com pouca convicção. propôs o empate.. três rebentamentos Baumm!. ─ Calcula que por momentos pensei estar na minha terra a ouvir os foguetes de uma festa na região.! Estamos debaixo de fogo de morteiro! Tinha anoitecido há pouco.” ─ um estremecimento percorreu a lembrança de tempos passados e de memórias estremes... Trrrr. sem divisas e de lenço verde ao pescoço.. ─ Meu alferes! ─ gritava-se em excitação ─ Aí estão os “checas”! Os “checas”! Os “checas”! ─ Mantenham a formação até eu mandar! A comandar a secção. o parceiro das partidas escaquísticas.. Trrrr... dos foguetes e morteiros da festa da Atalaia. Bravo ... Baumm!.. Tango .... enche a noite quente de Verão. dois..desde o destino final. A rádio relata com voz roufenha um acontecimento instante: Alfa. fundado na nostalgia e na boa disposição de um anoitecer calmo à beira-Tejo: Um. Baumm!. os rebentamentos são cada vez mais numerosos! O xadrez.. Trrrr. Mike. era 149 .. embora nítido.. António Manuel. a guerra continua O som distante e abafado.. Alfa. Sierra. ─ Parece estar a acontecer algo de grave.. para se dirigirem ao posto de onde saia a voz entrecortada e repetitiva: ─ Alfa. Alfa.. Sierra . O batuque vai começar. penetra-a como se dela fizesse um sonho de amor.. vestido a rigor de camuflado sarapintado.. o negrume cerrado da noite africana.

* Manhã cedo. e fazer o reconhecimento da zona. a cantina.salpicado pelo brilho débil das lâmpadas de filamento que assinalavam o refeitório. na noite anterior. Os “velhinhos” da Companhia Independente ( CI ). em Agosto. estão a apanhar “porrada” da grande! – comentava-se no pequeno ajuntamento. A 150 . aquele era o primeiro grande acontecimento: Baumm!. mas foi o suficiente para pôr tudo em alvoroço! ─ compunha outro “velhinho” já com muitos meses de experiência. foi o que aconteceu em Agosto passado! A CCS tinha chegado havia uma semana e os “checas” andavam nervosos. vozes abafadas. donde foi feito o ataque ao aquartelamento-destacamento do Machesso. ─ Pois é! Sinais repetidos com foguetes luminosos significa ataque. sussurros simultâneos! Um pelotão da Companhia Independente preparava-se para sair.... Baumm!. ─ Foi assim. Baumm!. cobravam dos conhecimentos vividos ou contados. madrugada ainda. ─ A seguir somos nós!. ─ Os rebentamentos estão a intensificar-se. iluminado por fraca luz interior. os “turras” mandaram só umas morteiradas... são tiros de obus! ─ explicava um soldado artilheiro. Os rebentamentos não cessavam.. No meio do atordoamento provocado pelo clima extremamente quente e da confusão dos primeiros tempos. Já há três dias que fazem sinais nos morros. a messe e a porta de armas. Juntou-se um pequeno grupo perto do posto de rádio.. com uma experiência de oito meses. Mas para os ouvidos mais experimentados já havia uma explicação suplementar: ─ Agora é a nossa rapaziada que está a responder..

Ah! Aí está. Mas. ouve-se distintamente a ordem de comando: ─ Partimos dentro de cinco minutos! Quero tudo em ordem para inspeccionar! Novamente a voz reconhecida do alferes de cabelos claros que comandara a coluna na viagem de chegada. Agora o sono cortado vencia a emoção.. Ao lado. a partir de Chicoa. João . fazia uma 151 . eram 4 horas da madrugada já não se ouvia ninguém. O pelotão saído de madrugada entrara numa zona minada. agora já cheirava a sangue. ─ Yota?..... ─ Tudo isto é deplorável e faz abrir um bocado os olhos.. esteve comigo na recruta em Mafra!.. eludia o sobressalto. ─ acrescentava o Sousa. o pelotão já partira. aquela voz! ─ Qual voz? ─ interpelava o Eduardo sem perceber a afirmação tão concludente. ─ É inacreditável mas há quem admita ser possível ganhar esta guerra!. concluira João. ao cruzarem-se junto à messe de oficiais há alguns dias atrás. levantando-se desaustinadamente.. À hora do jantar chegou a terrível notícia. com ar de desaprovação. ─ observava o António. nomeadamente o comandante. o alferes Yota. ─ com a metáfora. À noite. o Sousa e o Eduardo dormiam profundamente.. ─ Nada. que ficara sem um pé.formatura de partida é feita mesmo em frente dos quartos da CCS. cândido por feitio. ─ Consta ter-se proposto fazer a operação! Parece que tinha um castigo e queria ganhar uma medalha para limpar a caderneta!. havia dois feridos graves. O ar consternado de João surpreendeu os camaradas ─ maldita guerra! – disse. nada! É uma longa história! Malhas que o império tece!. a habitual conversa a quatro ficou mais séria. A fisionomia era-lhe familiar..

de estudos e vivência. o mais sulista do grupo..ideia diferente! ─ Sousa. ─ A realidade é tão chocante. Aos milicianos chantageiam com as férias. quando elas começarem a “cantar”. o 152 . ─ “Eles” têm isto muito bem controlado. crescera entre a resistência urbana antifascista e as lutas estudantis.. como faz o Movimento de Libertação!. a humilhação tão permanente e a miséria tão degradante. Os soldados ou estão aterrorizados ou alienados pelos ideais da defesa da fé e do império. o trabalho na fábrica. ─ o António Manuel nascera na beira-rio. violentados.. jovem bem disposto criado nos areais de sol e liberdade. Talvez mais cedo do que tarde!. parte maior das agruras da distância. Não há nada a fazer! ─ o citadino Eduardo. ─ o João fora para a guerra com a convicção de que algo poderia mudar “por dentro”. ─ A guerra colonial tem os dias contados... ─ Como se pode admitir esta miséria toda?! Os nossos soldados machucados.. embora algo sentimental. argumentava na sua inefabilidade de intelectual apanhado na roda dentada de quatro anos de chatices e sacrifícios. assumia a contradição. desde muito cedo. e estas crianças andrajosas e famintas!. nas populações e nas nossas tropas. ou matas ou morres! ─ Eduardo não gostava de ver as suas teses rebatidas. no interior de uma África estranha e quente. A História não pára e o Mundo avança. Já tivera uma pega séria com o sistema “tropeiro” e ainda não passavam duas semanas da chegada. a discussão prometia. onde deixara a esposa jovem. que o descontentamento brota como lava de um vulcão a despertar! Há que organizá-lo. convencido que o esforço militante poderia mudar o mundo. ─ Isso é utópico! Aqui neste “cu de Judas”. dava-lhe uma consciência aguda da situação. sofria a saudade da Pátria distante. No teatro de guerra. Idealista.

entre morros altos apertando a vista e a alma. enquanto os quatro jovens discutiam os caminhos do futuro. ao fim da tarde era sinal de alerta.medo misturava-se com a revolta. na dilacerante guerra de guerrilhas. tal como ao mundo chegou. punha tons azul-violeta por cima dos montes escuros que rodeavam o vale e onde já não se distinguiam os arbustos. a luminosidade 153 . indiferente aos dramas dos homens. fundamentado na tradição oral de que os ataques anteriores. * Havia um mês que ali estavam. em 1970 e 71. por isso de vez em quando repetiam os sinais: ─ “Very-light! Very-light!” O grito percorreu o aquartelamento. sujeitos a um medo atávico exacerbado pela falta de convicções. ainda que disso nem todos dessem conta. sempre esperado e sempre adiado para quando o inimigo quisesse. tentando detectar qualquer indício identificador. tinham sido precedidos de foguetes luminosos. pois era sua a decisão táctica. na expectativa de um ataque ao aquartelamento. de pele branca. aproximando-se a hora transcendente da reunião perfeita entre o Céu e a Terra. saltou para a protecção ténue da lage em cimento que servia de plataforma e caminho para os quartos: ─ É ataque! É ataque! ─ repetiam vozes próximas igualmente aflitas. O aparecimento de “very-lights”. Os guerrilheiros estavam instruídos sobre a idiossincrasia dos europeus. que também ali se construía. temendo o perigo iminente. Uma porta da “flat” dos furriéis abriu-se repentinamente e um corpo nutrido. Dezenas de olhos ansiosos perscrutavam os morros circundantes. A Natureza. repetido como um eco por várias gargantas em aflição. o desalento com a esperança e o pesadelo com o sonho. No local onde até há pouco tempo estivera o sol.

Pouco a pouco. segundo as directivas estratégicas da chamada contra-subversão. um dos principais corredores de infiltração da Frelimo para Sul. Era assim no coração de África. como um autêntico forno onde a actividade humana era quase impossível. como eram conhecidos na gíria militar. enquanto um ligeiro sopro secava os corpos húmidos do suor intenso da tarde escaldante. ou de zinco. que ganhavam rapidamente o tom castanho escuro das pedras e dos arbustos. Constava à boca pequena. 154 . cobertas com telhas de fibrocimento. os mais timoratos que se tinham aproximado dos abrigos. Depois das noites frescas exigindo a manta regulamentar. fora destruído e abandonado há alguns anos. devido à forte influência da guerrilha na zona. ainda não fora desta vez o famigerado ataque! O aldeamento fora construído paredes-meias com o aquartelamento para garantir o controle das populações. a temperatura subia em flecha quando o Sol aparecia cavalgando os morros. Deixava o interior das instalações militares. torturados pela inclemência solar. Ao meio dia a temperatura atingia os 40ºc e ainda não chegara o pino da estação quente. nos célebres “oito pontos de Kaúlza”. em terras que em tempos foram do reino do Monomotapa e hoje eram palco da mãe de todas as guerras anteriores de subjugação e/ou libertação. em pequenos grupos a tecer argumentos e conjecturas. Mais tarde saberse-ia que tal abandono não fora pacífico e que ali se perpetrara um dos primeiros massacres de populações na região de Tete. que o antigo aldeamento de Chipera-Velha distante alguns quilómetros. redefinida pelo novo comandante-chefe desde Março de 1970. obrigando a uma paragem dos Serviços entre o meio-dia e as três horas da tarde.quente impressionava ainda a retina. O alarme soara falso. começaram a voltar às casernas.

. Não se viam na aldeia rapazes ou homens em idade militar.O novo comandante do batalhão recém-chegado. Recentemente. Pela porta de armas não eram mais de 500 metros e a visão primeira das típicas palhotas de colmo. dispersos entre brincadeiras ocasionais. por questão de segurança. Ao quarto fim-de-semana de estadia. vestidas com capulanas de cores garridas. que na tropa não se podia abrir a boca!. combinou-se uma visita à aldeia. a olhar os visitantes-intrusos com um semblante de medo e um vislumbre de dignidade ferida e miúdos andrajosos. Ali não havia selvagens de tanga.. da saga “Tarzan. interpretados pelo imbatível campeão Johnny Weissmuller. tão-pouco adolescentes. em grupo. com o argumento de serem um perigo dentro do quartel. para manter o ânimo das populações!.. Envenenado estava tão-só o ambiente. para matar a fome. outra 155 . A excepção eram as moças novas. autorizara o batuque aos sábados. à espera da hora do rancho e da latinha com sopa. rigorosamente contidas dentro do arame farpado. Estavam em grupos. local mais calmo e “arejado”. vivendo do único negócio rentável em tempo de guerra – a prostituição. o homem macaco”. trazia à memória os célebres filmes da juventude. um major mal conhecido e mal encarado. remoendo as dúvidas e a desconfiança. com risinhos soezes à volta dos cipaios-tocadores. com corpos musculados e peles luzidias. nem havia setas envenenadas. deixando os subordinados baralhados numa prelecção justificativa. substituindo o original tenente-coronel entretanto colocado no CODCB (Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa). ” ─ interrogaram-se os soldados calados. Velhos aldeões de vestes esfarrapadas. “à posteriori”: “Mas então havia ou não havia APSIC (Acção Psicológica)?.. um graduado correra a pontapé um miúdo crescidote. Certamente estavam nos GE’s (Grupos Especiais) ou tinham fugido para a Frelimo e andavam na guerrilha.

com menos humidade. uma miséria se comparada com os cinco contos do furriel. rompendo o soluço. ─ Talvez tenhas razão. Onde iriam buscar o dinheiro para aquilo? ─ Negócios de proxenetismo. a noite chegou mansamente. pela forma interesseira como as jovens negras olhavam os recém-chegados. Afinal não tinham ficado para o batuque.. 156 . A memória da Pátria distante trouxe a pungente saudade que apertava o peito e punha um nó na garganta. anunciada por uma ligeira brisa que lembrava um fim de dia quente de Verão à beira-Tejo. prisioneiros de um sufoco impotente: ─ Como querem assim ganhar a guerra?! ─ balbuciou por fim o António Manuel. assediadas por alguns soldados brancos que já se movimentavam como velhos fregueses. ditaram o regresso prematuro e contristado ao quartel e ao isolamento da leitura e da escrita para a família. os dois grandes lenitivos para as angústias quotidianas. Porventura. Há tipos capazes de tudo! ─ os desabafos acompanhavam o desalento dos dois amigos.profissão rendosa.. eventualmente!?. diferente segundo constava de outras zonas do Centro e do Norte de Moçambique. Sabia-se que um soldado ganhava mil escudos por mês. aquele era um clima muito seco. com divisas. Aquele ambiente miserável e a atitude degradante de alguma tropa branca. Decerto clientes de “cuspo”. ─ O que anda esta gente a fazer? ─ interrogava o António Manuel a meia voz. os sete contos e quinhentos do alferes e os quinze contos do capitão. mais perto do Índico. cortando o diálogo e deixando os dois moços-homens de vinte e poucos anos. Enquanto conversavam no caminho de regresso ao quartel. ─ Maldita guerra! Ainda se concordássemos com ela! ─ João tinha muitas vezes este desabafo. a de lacaio da administração colonial.

vindos com a generosidade de alertar consciências: “O que estamos aqui a fazer?”. com uma única saída para a picada. patranhas e acção psicológica. aprendido há poucos dias. bem no interior do istmo central moçambicano. a alma aperta-se e os sentidos despertam. dispersos e muito afastados. poucos. O Sousa tinha recomendado: ─ É conveniente não usar a lanterna! ─ Como vou poder ver o caminho? ─ Segues o trilho! Não vá um “turra” chegar-se à vedação e dar-te um 157 . Desde essa data. só o som abafado dos próprios passos caminhando inseguros no trilho mal conhecido.E quem concordava? Muito poucos. na ilharga e na consciência: “O que estou aqui a fazer?”. O aquartelamento é grande. uma angústia permanente atou o nó do medo e da desventura nos que foram trazidos à força de leis. daqueles. desde a chegada ao planalto castanho-avermelhado e escaldante. Dias de Tempestade Nenhum ruído na madrugada silenciosa e no aquartelamento adormecido. num jogo de compensação mantendo o “estado de vigilância”. a guerra continuava. Na noite escura por caminhos esconsos. pelos vistos. inusitado acto de tropa para quem fez a especialidade dentro de secretarias. e para sul até ao aldeamento. o batuque ia começar na aldeia. Ao todo são oito postos de guarda. uma área enorme cercada de arame farpado. O coldre com a pistola Walter nunca antes experimentada é uma excrescência lateral pesando como chumbo. Um tum-tum milenar ouviu-se distante. É a primeira ronda de serviço. ligados por atalhos ainda não memorizados. bifurcando-se para norte até à pista de aviação. e.

─ Pois. não! Pois. o sobressalto aperta-lhe o peito. De repente a chuva 158 .. o pó vermelho que os remoinhos de vento tinham feito entrar pelas frinchas.tiro!?.. ─ É formidável! ─ comentou o Eduardo ─ nunca vi nada semelhante. Agora que se lixe”! O foco apontado para baixo iluminava o estreito trilho do caminho e aliviava a tensão da alma: “Se levar um tiro. não! Na Guiné. a sombra da paliçada de vigilância ora parece aproximar-se. uma violência inaudita e uma duração tão curta! ─ Com um calor destes e a chover!. Eu que gostava tanto de ouvir a chuva no Inverno! ─ nostálgico. distinto todavia daquele que vem à memória das raras chuvas de Verão na terra-pátria no hemisfério norte. antes de desabar uma curta tromba de água. O coração acelera desordenado.. ora se afasta: “Raios! Devia ter feito o reconhecimento durante o dia... Com os olhos fixos no perfil escuro e mais elevado do 1º posto. todos os acontecimentos. O barulho no telhado de lusalite era ensurdecedor: ─ Parece o matraquear de pequenas armas automáticas! ─ Mas porque terá o barulho da chuva de se parecer com o som de armas? ─ Certamente porque estamos na guerra! Toda a vida quotidiana.... deixou no ar o cheiro doce a terra molhada e quente. até entram nos aquartelamentos para fazerem pontaria de perto!.. reportavam à guerra. não quis dar parte de fraco!. João vai avançando de modo inseguro. Sousa olhava o tecto. eventos. acidentes ou fenómenos naquele local.. Uma chuvada torrencial ao fim da tarde. paciência!”. Abafava-se no quarto completamente fechado. fazia arder os olhos e sufocar os pulmões. pisando buracos e tropeçando em obstáculos invisíveis naquela escuridão assombrada. ─ Achas provável? Nunca constou!.

nenhuma claridade ofuscante. ou disparo! O grito na noite silenciosa fez regressar à realidade o jovem extasiado.. com o odor forte dos terrenos aquecidos pelo sol implacável da estação quente e da chuva caída durante a tarde. siderado. deixando soltar um suspiro de satisfação e de encantamento. Inebriada a vontade e paralisados definitivamente os passos. desvendava-se telúrica aos homens que vinham manchar de vermelho vivo. o vermelho escuro ancestral da terra-mãe-Natureza.. o coração deu um pulo e os olhos quedaram-se extasiados. com reflexos azulados e avermelhados. Quando o pequeno trilho entre arbustos rasteiros se elevou e virou a Sul. tão radicalmente como tinha começado. O peito abria-se num sorriso de esquecimento dos temores da guerra. ─ Quem vem lá? Alto. elevou-se como pássaro do tempo no espaço silencioso.”. 159 . apenas o fantástico espectáculo de dezenas de raios cruzando simultaneamente o horizonte acima dos morros a nascente. O receio esfumava-se. nenhum rumor distante. Nenhum som. dos relâmpagos de uma tempestade tropical longínqua.parou. no caminho do segundo posto de vigilância. Em poucos minutos a terra absorveu avidamente toda a água caída do céu e o Sol voltou abrasador. muitos quilómetros. coloridos em tons de prata e ouro. A velha África das origens humanas. rasgado a muitos. quebrando o espantamento e atrapalhando as ideias: “Bolas! Esqueci-me da senha! Flor de lotús? Não! Flor do campo!?. os olhos deslumbrados e os passos vacilantes prolongavam o espanto para dar tempo á compreensão do fenómeno inolvidável. por miríades de riscos ziguezagueantes. esfumou-se na noite. “Porque vieram?” ─ A interrogação saía do ventre da terra africana trazida pela brisa. Fundindo-se na terra. o jovem militar.

. apertavam como tenazes o coração dos homens. E é espantoso. Pregou-me um susto. ponho-me para aqui a contar os raios!. A saudade das origens e a vida miserável e perigosa naquelas inóspitas e magníficas terras. ao longe.─ Flor do campo! ─ gritou na direcção do posto de vigilância. ficou para aí parado e depois deixei de o ver!?.. nunca vi nada assim! Por isso parei e até me senti levitar …! ─ Como? Eu é que fiquei “àrrasca”! Senti passos e depois nada!. não! Saí a primeira vez de Portugal para vir para a guerra.. Pensei que não aparecia ninguém hoje! ─ Porquê? Não têm de se cumprir as rondas? ─ Ah! Normalmente não aparece ninguém à noite! Um “home” passa aqui cada cagaço! ─ Bom ! Mas hoje está uma noite fantástica.. * 160 . Ah! É o furriel da secretaria... não se ouve absolutamente nada! ─ Pois é! Faz lembrar as tempestades na minha terra. meu furriel! Conhece? ─ Não. fugaz.. ─ Isso é impossível! São tantos ao mesmo tempo. é um espectáculo absolutamente incrível e inesquecível! ─ Tem sido a minha distracção esta noite. ─ Estava a contemplar os raios da tempestade. ─ Aproxime-se para verificar!. é uma desgraça! Na ténue claridade dos astros uma estrelinha brilha. ─ É muito bonita! Isto aqui não presta. reflectindo-se nos olhos escuros do rapaz-soldado. açoriano como a maioria daquele batalhão.. no oceano! ─ Qual é a tua terra? ─ “Sã” Miguel.

Com tiques de vaidade pela promoção recente à classe de oficiais. certamente superior à poupança. depois da ronda pelos postos e da euforia produzida pelo fenómeno fantasmagórico da tempestade africana. a visita é logo à tarde! Não tivera oportunidade para tal. ligados a cenários terríveis de guerra e repressão.O sono era difícil de conciliar na madrugada fresca. deitei-me às cinco! E agora já não há electricidade para fazer a barba com a máquina. mostrava-se normalmente pouco compreensivo. O que estaria para acontecer? O descanso compensatório foi intento frustrado. Veio finalmente cheio de sonhos e pesadelos sobre perseguições e acontecimentos estranhos. e pronto! ─ Deixa lá. Valia o facto de ter combinado a compensação. Para poupar combustível o gerador de energia era desligado várias horas ao dia. agora é só ensaio. o correio era o elemento existencial mais 161 . toda a Companhia estava formada a ouvir a prelecção sobre a importância da visita e da exigida superior conduta perante o ilustre visitante. o que causava transtornos ao pessoal e situações caóticas nas arcas e frigoríficos. às nove horas o Eduardo veio transmitir o recado urgente do comandante da companhia: ─ O capitão mandou-te chamar! Formatura geral para preparar a visita logo á tarde do coronel comandante da ZOT! ─ Bolas! Não consigo descansar. Ainda não tinha terminado quando se ouviu o motor de uma pequena avioneta a fazer-se à pista e logo alguém gritou esperançado: ─ É o correio! Vem aí o correio! ─ Depois das balas e minas. suspeitosamente simpático. com o chefe da secretaria. com prejuízo dos alimentos perecíveis. Gestão tropeira. justificas ao capitão. olhando-o como se tivesse a vê-lo pela primeira vez. durante a manhã após o serviço de ronda.

O correio não vinha normalmente em DO (avioneta “Dornier” da Força Aérea) nem era trazido pela Polícia Militar. Após uma pequena entrevista no alpendre. No cérebro corre como um relâmpago o pensamento que o coração acelerado não quer adivinhar.”.. num circulo nauseante de imponderabilidade. exibindo-se papéis. como iria ser o dia? 162 . A desconfiança suplantou a curiosidade. quando o jipe do piquete parou frente à “flat” dos oficiais e saíram dois militares da PM. O centro de gravidade do corpo leve. e andava sempre atrasado! ─ Correio? A uma hora destas? Ná!. meneando a cabeça. mandadores sem lei. Abre-se um vazio de pânico e angústia como se estivesse à beira do precepício dos pesadelos da madrugada agitada de sono e tempestade.. “Pronto! Já estou feito! É comigo!. o comandante interino do batalhão chamou o capitão.. é agora um nó no peito que vai descendo para o estômago à medida que o graduado se aproxima com a sentença dos senhores da guerra.transcendente para aquela rapaziada.. Ambos olharam na direcção da formatura dos furriéis. Fora uma noite premonitória. comandante de companhia.

163 .. DO CORAÇÃO DE ÁFRICA À PRISÃO DA MACHAVA A DETENÇÃO ─ Ó homem! Deixe-me ir à casa de banho sossegado! Está com medo que fuja pelo buraco da sanita!?.6..

. Os escassos minutos de afastamento permitiram passar ao António Manuel. candidamente. o amigo ao receber religiosamente o material. Nada disso! Tinha havido uma troca de mensagens-rádio com o comando da ZOT (Zona de Operações em Tete). ─ observava. quando pela manhã aterrara o pequeno monomotor no aquartelamento pertencente ao triângulo de defesa próxima de Cabora Bassa. nada! Era a tropa em todo o seu esplendor regulamentar. percebendo que algo de 164 . ordenara laconicamente: “Acompanhe o senhor alferes da Polícia Militar!”. nem uma explicação.. ─ um outro soldado da Polícia ficara à esquina da caserna. o bornal com os livros e documentos utilizados nas animadas discussões nocturnas. Mau sinal a ausência de solidariedade daqueles graduados empedernidos. de G3 pronta.Fora o pretexto para afastar por alguns minutos o alferes “monhé” da Polícia Militar a segui-lo para todo o lado de G3 na mão. um major que mal conhecia. não fora a intervenção do capitão “oficial de operações”. ─ Achas que sim? Com a PM de espingarda em riste!?. com modos de polícia. amigo das ideias. ─ Tenho ordens para o seguir! ─ respondeu. mas ninguém tinha dito nada ao visado. depois do primeiro choque. Tinha até ordens para o algemar. Começava a ficar irritado.. Nem mais uma palavra. ─ Talvez te venham buscar para resolver algum problema da tropa!?. Alguns camaradas observavam atónitos.. nem um mandado. isso vai afectar o moral dos homens. chamando-o para uma breve conversa: ─ Não quero algemas. O comandante interino do Batalhão. o oficial alto e escuro. Tratava-se evidentemente de uma operação de detenção em forma.

. nas terras quentes dos longos planaltos centrais.grave se passava. que conhecera antecipadamente mas da qual não dera conhecimento ao colaborador directo. As actividades políticas são completamente proibidas a nível militar! ─ emendava o graduado. deve apanhar mais de dois anos de prisão maior!. ─ Perigoso? Um rapaz pacífico.. está enganado! ─ “Meu tenente”. ao fim da tarde igual. de que falava a mensagem. o que será feito dele? ─ Certamente impediram-no de escrever!. trata-se de um indivíduo perigoso. ─ comentava o António Manuel ao fim da tarde no quarto comum. ─ Nunca mais tivemos notícias do nosso amigo. camaradas! A detenção e partida do furriel da secretaria foi rapidamente badalada por todo o aquartelamento. Até sempre. se não se importa. “as actividades subversivas contra a segurança do Estado”. agora com uma cama vazia. em jeito de despedida.. a calma em pessoa. preocupavam-se com a sorte do camarada arrancado sob prisão daquele “buraco”. pelo despotismo do comando militarista.. ─ o chefe da secretaria dava-se ares de sapiência em Direito militar. Olhou-o com ar reprovativo. seguindo com o olhar espantado o gesto em V feito no jipe a caminho da pista. empertigado. denegrindo o conteúdo da “mensagem confidencial”. como se tivesse reparado pela primeira vez naquele jovem furriel. embora a hierarquia tentasse eludir a questão: ─ As acusações são muito graves. onde o dia-a-dia continuava tenso. sem coragem para comentar na hora da despedida. Em Chipera. sob o espectro dos acontecimentos militares que se sucediam preocupantes e das “notícias secretas” 165 . ─ ‘Tão a ver aquele chicalhão?! A falar em tom de ameaça e era o chefe do rapaz!...

fez um esgar de raiva numa cara feia e voltou olimpicamente as costas. vestido civilmente como lhe fora imposto na ZOT. No outro. A cela dos fundos da delegação. ocorreu-lhe perguntar ao “pide” por um parente por via conjugal que lhe constara estar para aquelas bandas e naqueles propósitos: “Por esse nome não conheço!” ─ foi a resposta pouco cordial. João estava frente a frente com o façanhudo chefe Sabino. era compartilhada por um negro ainda jovem. sem outro mobiliário para além de dois bancos feitos de troncos. com cor macilenta e sinais de cortes na cara. da delegação da PIDE/DGS em Tete. perturbantes e insidiosas. vestido de calças cinzentas e camisa branca de meia manga.. da barba feita com lâmina inusitada. muito perto do Zambeze que todavia não se avistava dali. * ─ Deve ter feito algo de muito grave para estar aqui! ─ Nem sei porque estou preso!. Era um homem já 166 .. o jovem alto e magro.circulando subterrâneas. com um ar distinto no ambiente despojado. afirmando também a voz. sentava-se um branco de calção de caqui e botas de lona semelhantes às da tropa. Por detrás da secretária da sua importância. de triste fama e berro fácil: ─ Não esteja armado em anjinho! ─ Não me entregaram nenhum mandado! ─ respondeu. o torcionário famigerado pôs-se vermelho. com um pequeno papel carimbado a óleo passando-o à disponibilidade. Horas depois. fazendo um sinal para o agente postado de atalaia: ─ Levem-no! No trajecto descampado e quente na tarde de sol de Novembro.

única abertura para o exterior. ─ Sim. ─ Fique nessa! Tem mais luz. sem qualquer divisória. a querer ser simpático e despertando a curiosidade do interlocutor. com um lençol de sarja e uma manta regulamentar debruada a verde e vermelho. né! ─ respondeu o jovem corpulento. deitando um breve olhar ao vindouro e continuando a conversar.maduro. chefe! Lhe arranjo uma caixa de sabão. nós ficamos naquelas ─ dissera o mais velho com ar bonacheirão. ─ Não tem mais tronco. Quem seriam aquele branco já entradote e o negro com ar distinto que evitava o olhar do novo ocupante desde a sua chegada? ─ Nhambo! Traga tronco para o senhor! Vá depressa minino! ─ tornava o branco de aspecto colonial. colocados a um canto. ─ Boa tarde! ─ responderam os dois residentes. Um mainato muito jovem. ─ Nhambo! Que tá fazendo. deixando ver a pele mais clara abaixo da linha do colarinho. Junto à parede contrária à porta de entrada. interrompida há pouco para mudar a água do latão-balde. pois o chão ainda estava molhado na zona do sanitário turco e do pequeno lavatório. Retomando a tarefa de limpeza do chão. com a camiseta da cor dos calções aberta à frente. mostrando ser o mentor da cela. entrava com um balde de água e sorria para o recém-chegado. curtido pelo sol africano. estavam estendidos três colchões de espuma fina. ─ Boa tarde! ─ dissera o jovem militar com um aparente ar calmo. senhô! Gosta de ver limpo. à excepção de um pequeno buraco redondo acima do sanitário com uma mão travessa de diâmetro. embora encorpado. com um tom acastanhado na pele exposta. rapaz ainda. acha? 167 . minino? Limpa a dobrar? ─ interpelou o branco de barriga proeminente descansada nos joelhos. rindo sempre e olhando para o mais recente “hóspede”.

o bloco de papel de carta e os apetrechos de higiene. De vez em quando. ─ Eu sou fulano de tal. que lhe tinham trazido há minutos. resplandecente e implacável.. saindo a menear o rabo nutrido.. ─ Eu sou Silveira. como permanecera a maior parte do tempo enquanto conversavam. furriel do Exército português . não seria conveniente.! ─ acrescentou.. cegando quem ousasse desafiá-la directamente. às voltas com uma mala preta de plástico. ─ interrompeu a resposta. Não se via o Sol no estreito enquadramento da abertura. num breve instante. a cara redonda e luzidia... na tarde quente e esplendorosa. técnico da Junta Autónoma de Estradas de Moçambique! Há quase trinta anos que olho o pôr-do-sol africano!. indicando o outro detido que voltou a cabeça pela segunda vez. ─ Você é militar? ─ não resistiu o gorducho. que não deixava perceber o “fio da meada”. Durante alguns segundos houve apenas silêncio: ─ Nosso amigo Malaquias está apenas de passagem . desempregado! Um ligeiro sorriso na cara bonacheirona registava a mensagem... num trejeito efeminado: ─ Vá. quase fugaz. passou-lhe um brilho estranho nos olhos. para de novo pousar os olhos no chão. o homem trigueiro deitava o olho para as manobras do recém-entrado. Aberta em cima da cama de circunstância. mas adivinhava-se uma bola magnífica.. ─ Furriel! Vim esta manhã do aquartelamento de . e 168 . com uma cor amarelo-alaranjada. O negro jovem de branco vestido teve um estremecimento e como num relâmpago.─ respondeu o miúdo a sorrir. manipulada para retirar o pijama. deixava ver a farda recentemente despida. A porta aberta deixava entrar uma intensa luminosidade. minino! Desbunde! Os dois continuaram a conversa num idioma misto de português e nativo.

desviando o olhar súbito. na direcção do mictório. Olhou na direcção do negro jovem que se levantara coxeando de uma perna. “Ah! Então aquele era o Malaquias!. Entretido a escrever em cima da caixa de sabão que Nhambo sorridente. ─ Perguntou por mim? ─ e sem necessitar de resposta. ─ Que é isto? Quem são estes homens? 169 .mais não disseram. nunca antes observado no aquartelamento rodeado de morros altos. depois de confirmar a identidade. ─ Como está a família? ─ perguntou com circunspecção o “pideparente”. provavelmente!. sendo possível desfrutar o espectáculo esplendoroso do entardecer. enquanto caminhavam de costas voltadas para o astro-rei em inolvidável declinação. ─ comentara João... de calça comprida conveniente para a bicharada não atacar.”. acrescentou ─ venha comigo.. lembrou-se de uma conversa recente do António Manuel. ─ Mais um traidor à causa! Embora isso signifique para nós menos ataques. ─ Chamava-se Malaquias Muquembe e era um quadro importante da Frelimo! ─ acrescentou o camarada e amigo de quem se despedira afectuosamente nessa manhã. não deu logo pela chegada do homem ainda novo. o comandante do subsector da guerrilha na área de Chipera passara-se para o “nosso” lado. como recomendara a jovem esposa com carinho. de cabelo cor de cenoura e olhos claros que na soleira da porta olhava na sua direcção. vamos conversar! Fora das quatro paredes estava uma tarde magnífica de sol. De súbito.. lhe arranjara. segundo lhe contara o camarada das “Operações”. Em cima da cama estava o pijama “grenat”.

então e o texto? ─ Ah! Pois! Escreva o texto. De dia andam cá fora a trabalhar e recolhem ao fim da tarde. ditaram a iniciativa intempestiva: ─ Preciso que me envie um telegrama e estas cartas à minha companheira e sua prima por afinidade. e aos meus camaradas de tropa.. é claro!.─ Chico. escreva só a morada de destino do telegrama.. ─ Como assim. com indicação de posterior devolução.. olhavam curiosos para aquele “luxo”. Os dois primitivos residentes da cela. Tenho ali na mala o dinheiro para os selos!.. não é necessário. ia ditando para o papel tirado da mala trazida por um funcionário negro da PIDE. estão em reeducação! O cinismo na voz alertava para o tipo de indivíduo em presença. ─ Deixe estar. percebendo certamente ser transitório. mais do que a cabeça. sem qualquer tipo de protecção superior: ─ São as “frigideiras”! Essa gente ligada aos “turras”. boa tarde! ─ o agente ruivo cumprimentou um negro alto e forte a dar ordens na língua nativa a umas dezenas de pretos. * Tão fortes emoções em tão poucas horas criavam a necessidade de desabafar toda a angústia amarfanhando a alma. preenchiam as linhas da folha suportada na superfície de madeira irregular: 170 . gosta de viver ao ar livre. mas a premência por um lado e uma certa candura por outro. O coração. menos bem desenhadas do que era costume. Uma emoção crescente embargava o peito enquanto as palavras. amontoados como animais à medida que iam entrando numas jaulas de ferro gradeadas.

“ (...) Queridos amigos, lamentavelmente não tivemos tempo para uma despedida formal, mas pedi ao António Manuel para tornar extensivo o abraço e desejar-vos boa sorte e saúde. Agradeço a amizade e a estima partilhada nesta curta estada comum, suficiente no entanto para cimentar laços que nenhuma situação, seja ela qual for, poderá quebrar. Não sei qual será o meu futuro próximo. Fui entregue sob escolta na delegação da DGS em Tete, onde me encontro neste momento. Entretanto nem à partida, nem à chegada, me foi apresentado qualquer mandado, não sei porque fui detido, não sei porque estou preso. (...) Não sei quando nem onde vos poderei voltar a escrever, nem tão pouco se esta missiva chegará ao destino. Desejo-vos de todo o coração que a vossa vida corra o melhor possível e transmitam os meus cumprimentos a quem por mim se interessar...”. As cartas nunca chegaram ao seu destino. Foi uma boa tentativa, com alguma ingenuidade à mistura. Só muitos anos mais tarde se percebeu, quando a democracia conquistada permitiu desvendar os arquivos da PIDE/DGS.

* ─ Por favor, aguarde um pouco! Vou buscar o seu processo para consultar, mas virá por partes, quando acabar uma devolve e recebe outra! O ambiente calmo na Torre do Tombo e a eficiência sóbria da funcionária, contrastam com a ansiosa expectativa de quem ia finalmente
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conhecer o seu “processo”, ao fim de trinta anos. A vida agitada da revolução não permitira a curiosidade, mas era chegada a altura de revisitar o passado, os seus fantasmas, as feridas dolorosas que se supunham saradas, mas que se mantêm como perenes rosas de sangue. A memória é uma coisa fantástica que distingue a condição humana e potencia a sua inteligência progressiva. Mas é também uma fonte inesgotável de emoções, umas positivas outras constrangedoras. Por isso tanta gente tem memória curta! Mas da guerra, ninguém esquece! Compulsar tantos documentos, tantas folhas, tantos relatórios, tantas informações “pidescas”, uma tarde a dedilhar memórias com a sensibilidade à flor da pele, alguns factos esquecidos, outros nunca suspeitados: “As cartas estão aqui! Filho da puta!” O telegrama nunca foi enviado e as cartas foram parar ao processo da polícia política. Certamente o “pide-Parente”, juntamente com os facínoras Joaquim Piçarra, Sabino e Chico Cachavi, estavam muito ocupados a organizar a maior matança de civis da história da guerra colonial em Moçambique que aconteceria daí a poucos dias em Wiriyamu!

BAPTISMO DE SANGUE
Os tiros na madrugada silenciosa puseram todo o aquartelamento em alvoroço. Gente em trajes menores, com a camisa ou os calções enfiados à pressa, uns com a G3 na mão outros sem nada, saía dos quartos e casernas, interrogando-se mutuamente: ─ O que foi? Onde foi? Que se passa?

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Os mais timoratos corriam para os abrigos, outros ficavam pelas esquinas, em grupos, comentando a situação que sucedia a dias de tensão na perspectiva de um ataque em força da guerrilha, como constava ter acontecido no lugar-quartel de Gago Coutinho, perto da fronteira com a Zâmbia, com foguetes 122 mm. Nem os mais dorminhocos, a preguiçarem na cama aos primeiros avisos, resistiram ao alarme, quando a metralhadora “Dreyse” começou a disparar no posto de vigilância junto à porta-de-armas. Então foi dar “às de Vila Diogo”, em debandada para os abrigos, porque o “coiro” custava muito a criar e não havia amor pátrio valendo uma bala perdida ou um estilhaço de projéctil. Para mais, a notícia de caserna sobre Gago Coutinho, dava três mortos e cinco feridos graves, desmentida, é claro, pelas “autoridades”. ─ É um ataque aos postos! ─ desabafava um arfante “aramista”, depois de fazer os 50 metros em tempo recorde. ─ Não tenho a certeza disso! Os disparos diferentes que se ouvem parecem-me de Mauser!... ─ contrapunha o furriel Fonseca com mais calma e bom-senso. Enquanto os operacionais corriam para os vários postos onde estavam indigitados como reforço, a fuzilaria acabou tão de repente como tinha começado e sobreveio o silêncio telúrico e trágico, próprio do mistério da noite africana e da tensão da guerra. Por algum tempo muita gente ficou nos abrigos, mas pouco a pouco os mais curiosos começaram a sair, juntando-se em grupos por perto, até chegar a explicação oficial: “Foram vistas luzes junto às machambas, perto do campo de futebol!”. ─ Então porque dispararam a metralhadora da porta d’armas, se não está para aí voltada? ─ ninguém respondeu à dúvida pertinente, mas toda a gente suspeitava da explicação; medo e precipitação. Com os nervos a distenderem-se e a excitação a diluir-se no cansaço,
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alguns voltaram para a cama. Muitos porém ficaram embrulhados em mantas, a dormir ao relento à beira dos abrigos. Com o fim da estação quente, já fazia frio de madrugada e, diziam os veteranos, lá para JunhoJulho seriam precisas duas mantas durante a noite. A interpretação oficial dos incidentes nocturnos veio no dia seguinte: os “turras” andavam com fome e por isso vieram procurar comida nas culturas da aldeia. * “Tão perto e com luzes?” ─ interrogava-se o António Manuel na sua missiva para o amigo em “paragens incertas”. “…É facto terem passado por aqui há algum tempo, na direcção do Fingoé a uns bons 100 quilómetros, aviões “Dakota” com uns “pózinhos” químicos para destruir as machambas em zonas controladas pela guerrilha. Ao mesmo tempo seguiam caças T6 com umas “bombitas”, e o heli-canhão para ataques surpresa. Só que a zona, segundo dizem, é densamente florestada e portanto a eficácia é duvidosa. De qualquer maneira estamos a imitar da pior forma os americanos no Vietnam, será assim que se ganha esta guerra?” Longe da vista, perto do coração, era o lema do furriel António Manuel. Mantinha uma intensa correspondência com amigos e familiares, pondo-os a par das histórias e factos, dos mais relevantes daquela guerra terrífica, que alguns procuravam esconder e outros fingiam não existir ou preferiam ignorar até lhes bater à porta. Sem pôr em causa a sua segurança e a dos seus camaradas, ia prevenindo! Aquilo que não podia ser contado por carta ia registando no seu diário, para a posteridade, em páginas por vezes prenhes de dramatismo e de intenso sofrimento humano.
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* “Faltavam poucos quilómetros para o destino e a coluna destinada ao transporte de víveres e munições, seguia normalmente para o destacamento, servindo de guarda avançada em zona de forte infiltração da guerrilha. Naquela parte do percurso, porém, não era habitual haver perigo. Os nervos começavam a distender-se quando de repente um formidável estrondo trazendo consigo o clarão da desgraça, sacudiu a pesada viatura dianteira, preparada dizia-se, para aquelas eventualidades. Algumas peças voaram, os sacos de areia lançaram uma tremenda nuvem de pó que tudo cobriu, a “Berliet” encabritou-se e abateu-se pesadamente na picada, meio desfeita. Ouviram-se gritos: ─ Ai minha rica mãezinha! Uuuuh! Aiiiih! Não sinto a minha cabeça!... ─ as exclamações de desespero do condutor da viatura fizeram aproximar-se alguns camaradas solidários. Ainda a poeira não se tinha dissipado, para desespero do furriel comandante da coluna, gritando: “Rebentou uma mina anticarro! Cuidado! Não se aproximem, pode haver…”. Baamm! Não teve tempo de terminar a frase, outro rebentamento de menor potência lançou o pânico entre os que acorriam em socorro, gerando o caos total. Mais gritos, mais confusão, mais desespero, alguém pisara uma mina antipessoal. ─ Não me toquem! Não me toquem! ─ gritava o novo acidentado, condutor da segunda viatura, caído no chão a olhar incrédulo, para o local onde deveriam estar as botas e restava agora uma massa ensanguentada. Mais ao lado, outro soldado estava caído e encolhido, agarrado à barriga, silenciosamente, tinha desmaiado com um estilhaço no ventre. O enfermeiro tentava os primeiros socorros. ─ Ninguém sai das viaturas! Ninguém sai das viaturas! ─ gritava o
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furriel correndo esbaforido rente às centro de evacuações:

ditas.

Pela

rádio

uma

mensagem-relâmpago era despachada para a sede do batalhão e para o ─ Alfa, Bravo, Tango, a responder! Quantas minas accionadas, quantas viaturas atingidas? Repito! Quantas viaturas atingidas? Escuto! ─ Alfa, Bravo, Tango! Três feridos graves, evacuação imediata! Retirado da viatura meio destruída e assistido pelo maqueiro, o condutor da “Berliet” continuava a gritar em estado de choque, depois de descobrir que perdera uma orelha. Com um lamento rouco que cortava a respiração, o outro ferido sem pés gemia: ─ Meu furriel dê-me um tiro! Dê-me um tiro! Quero morrer! Mais vale morrer! A voz embargava-se, o coração apertava-se no peito do jovem graduado, treinado para lidar com aquelas situações, as quais de facto lhe aconteciam pela primeira vez. Tinha de desabafar: ─ Malditos terroristas! Eu mato estes “turras” dum cabrão! O grito acima da vozearia, brandindo a arma na direcção do mato, onde imaginava em vão que alguém estaria a ouvi-lo, servia de escape e calava os circunstantes. Mas logo mudou a direcção da arma e da imprecação: ─ O filho da puta só está preocupado com o número de viaturas! “Chico” dum cabrão! O soldado com estilhaços no baixo ventre já não estava desmaiado, mas arfava silencioso, enquanto o infeliz condutor, garroteado e injectado, continuava o apelo-lamento: ─ Dêem-me um tiro! Quero morrer! Dêem-me um tiro! *

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Ansumé treme de cansaço, de sono, de fome, de medo. Aguardam há vinte seis horas a evacuação após o términus da operação, já sem água e sem comer. O helicóptero, alegadamente avariado, nunca mais chegava. Os olhos encovados e o rosto sombrio dizem bem do sofrimento interior sufocado em silêncio: “Não aguenta mais isto, qualquer dia dá um tiro nos miolos e pronto!”. A angústia contraditória tinha duas razões: por um lado, a sua religião mandava-o obedecer e não contestar o homem branco; por outro, a sua consciência dizia-lhe que estava a trair os irmãos de raça. Ao seu lado, alguns camaradas brancos conspiravam revoltados: ─ Os cabrões deixam-nos aqui a morrer à sede e à fome! ─ Quem dá o “coiro” somos nós! Os “chicos” só dão ordens e não saem dos gabinetes! ─ A culpa é dos “turras”! Se apanhar algum preto esfolo-o! A conversa ia prosseguir exasperada para desespero de Ansumé, calado, nem se atrevia a abrir a boca, quando veio a ordem para se prepararem para avançar. Estavam há muito tempo estacionados, tornara-se perigoso, o ponto de recolha fora alterado. Mas o caminho era complicado, a cada curva da picada estreita espreitava o perigo, e cada passo fora dos trilhos era um passaporte para ficar sem uma perna. Um medo suado atormentava os homens, carregados de mochila e arma, há dois dias no mato. O matraquear característico de uma espingarda “Kalashnikov” anuncia a emboscada, mas apenas por alguns segundos, os suficientes para todo o grupo se atirar para as bermas e iniciar um tiroteio de muitos minutos. A voz de comando custa a impor-se: “Cessar fogo! Cessar fogo!” Duas dezenas de tiros de ataque e milhares em resposta, tal era a desproporção de custos daquela guerra. Toda a gente se levanta após
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PRISÃO DA MACHAVA O centro da cidade de Lourenço Marques tinha um aspecto cosmopolita.! ─ concluía o furrielcomandante do grupo de combate. que sempre acompanha as tragédias e ninguém reagiu como era normal em casos tais.. Faltava uma bala no carregador.. Os “turras” já têm mulheres a combater? Os que foram fazer o reconhecimento do local da flagelação relatam ter visto sangue no chão de alguém atingido: ─ Levaram os feridos! Trata-se de um grupo pequeno e pouco experiente. desorientado.. A noite já diluíra a luz tórrida de tons amarelo-alaranjados que se vislumbrava da janela do avião na aproximação ao aeroporto. no Norte. sobretudo brancos. sim. “Se calhar fui eu que matou!? Não aguenta mais isto!” ─ repetia para si próprio. Ansumé ficara arrasado. mulheres combatendo pela libertação da sua terra e ele a descarregar a espingarda sobre elas!. No ar perpassava um fluído etéreo. Há tempos chegara a informação sobre a formação de destacamentos femininos da Frelimo. LOURENÇO MARQUES. com avenidas largas rasgadas ortogonalmente e raros transeuntes. Talvez sejam mulheres.. ─ Também ouvi. Ansumé jazia morto numa poça de sangue. com a G3 caída ao lado.. contudo não havia notícias da sua participação em acções naquela região de Tete.algum tempo e os comentários são desencontrados: ─ Era um grupo pequeno! ─ Pareceu-me ouvir gritos de mulheres?!.. A inquietação não permitia apreciar 178 . Finalmente chegou o helicóptero e foram transportados à origem. Na manhã do dia seguinte ouviu-se um tiro abafado no destacamento. activos e combatentes.

. no coração de África. mas o avião não seguia muito alto e o tempo estava limpo. ─ a juventude é uma idade de ideias muito generosas.. sou militar e não matei nem roubei ninguém!?. Ah! De repente parecera-lhe ver uma cara conhecida dos tempos de adolescência..pormenorizadamente a paisagem. Talvez fosse. 179 . com a cor verde dos vales do centro e depois o seu rarear a caminho do Sul. nem sempre concretizadas. Um grande rio serpenteava entre planícies e pequenos aglomerados ─ o Limpopo. Ao longe a mancha escuro-acinzentada do oceano Índico anunciava o fim da transferência. vigiada por dois agentes com cara-de-pau. que finalmente apareceu rasgada na frente: ─ Olhem para esta desgraça! Tudo rasgado!. Os “pides” não se tinham afastado um segundo.. a sede da PIDE/DGS. mesmo na longa espera pela mala de viagem de plástico a imitar pele. roubando o ângulo de visão e a serenidade. com prédios altos e alinhados na harmonia das avenidas do centro. ─ Temos de ir. a longa permanência do jovem à beira do “tapete rolante”. onde a geografia era mais agreste.. ladeado pelos dois homens tornara-se notada por alguns circunstantes curiosos: “E se lhes gritasse que estou preso pela PIDE.” ─ por momentos o rapaz-homem sentiu-se animado com a ideia: “Bah! Se fosse lá em Portugal! Agora aqui no meio destes “machambeiros” colonialistas!. até à sede em Lourenço Marques. O polícia dava mostras de nervosismo. desde Tete. mas a ilusão desfez-se rapidamente na mudança de direcção.. rumo à “Vivenda Algarve”. ─ exclamou o jovem militar há dois dias detido sem qualquer documento legitimador. faz-se tarde! Depois apresenta reclamação. nem sempre concretizáveis. percebendo-se as sucessivas modificações da flora. Pela janela de vidro aramado do carro celular adivinhava-se a cidade desconhecida e impressiva.

recordando a primeira vez que ouvira aquela manifestação indígena no “aldeamento estratégico”. em Tete. nem asseios. 180 . na confusão dos dias de angústia da prisão. Uma vontade enorme de descomprimir a tensão permanente dos últimos dias fez aflorar algumas lágrimas logo reprimidas. a prisão da PIDE/DGS em Lourenço Marques. uma cama tipo militar e uma enxerga com uma manta regulamentar. “E agora? O que me farão estes filhos da puta? O que terá acontecido para me prenderem?”. A cela com 2 x 4 metros. que substituíram os dias de angústia da guerra. Pelo volume do som dir-se-ia não muito longe dali.Era domingo! Quase perdera a noção do calendário.. Mas a solidão e a insegurança presentes. que nunca se apagava: “Batuque?! Onde será?”. onde tinham enfiado à força os sobreviventes do massacre aquando da destruição da aldeia original. nem utensílios. Adormeceu com o “tam-tam” ritmado. protegida por uma rede metálica. num canto. mais a premeditada hostilidade do chefe de posto da PIDE. nada!. tinha ao fundo uma janela alta e gradeada. onde estava enfiado há mês e meio. * A porta fechou-se com o som metálico do fecho de correr e os passos do guarda prisional afastaram-se no longo e silencioso corredor de cimento do Pavilhão 3 da Machava. Era todo o mobiliário existente. Curiosamente chegara a experimentar um certo alívio na hora da despedida do “buraco”. não podia fraquejar. pusera-lhe um perene nó no estômago e um definitivo aperto no coração. O som característico de tambores percutidos cadenciadamente embalou os pensamentos constrangidos. pois não queria. no silêncio do cubículo abafado e mal iluminado por uma lâmpada fraca no tecto alto.. Chipera Velha.

Apurou o ouvido. puxado entretanto.Acordou (quanto tempo depois?).. Reinava de novo o silêncio. humanamente insuportáveis. Tal. até que o assobio reapareceu. não seria prudente. Teria sonhado? * Como um “filme no cérebro”. fracamente iluminado no lusco-fusco de uma lâmpada distante. 181 . mas com o agradável enlevo de despertar com um som familiar.” Seria uma provocação? Sufocava no peito uma vontade terrível de assobiar também e libertar as mágoas acumuladas nos últimos dias. paralelo e gémeo. fazendo recobrar o ânimo e dar um salto no catre. O ângulo de visão era limitado à parede branca fronteira do comprido pavilhão C. porém.. com a sensação desagradável de estômago vazio (avisando não ter alimento há muitas horas). Voltou o silêncio profundo. recordava as noites memoráveis em que cantara com o Zeca Afonso e mais umas centenas de vozes em uníssono. Do lado de fora alguém assobiava uma melodia ímpar. que reconheceria em qualquer parte do mundo. até permitir espreitar pela janela alta gradeada e aramada. Quem seria? Lá fora estava escuro e não se lobrigava vivalma. as estrofes inolvidáveis daquela música marcante que animou gerações: “Se alguém se engana com seu ar sisudo e lhes franqueia as portas à chegada.Batendo as asas na noite calada. suscitando recordações indeléveis e um sorriso involuntário (há quanto tempo não sorria!?): “No céu cinzento sob o astro mudo.

encetando uma arenga de justificações radicalizantes.eles comem tudo.!”. com centenas de gargantas abertas pela coragem dos que lutando venciam o medo. tocaram. que tinha a coragem de ter medo. à rua da Escola Politécnica. até à comoção das lágrimas. cortada por um grito oportuno: “Se tens medo vai-te embora e compra um cão!”. ─ Amigos! Companheiros! ─ “arrancara” saltando para o palco improvisado com as mesas da cantina. o Ary. cantaram e recitaram. Recordava com um sorriso ( já era o segundo…) aquela noite memorável de Novembro de 1970: ─ É por termos medo que estamos aqui a lutar para o medo acabar! Levantou-se toda a plateia com palmas entusiásticas e a sessão continuou com Ary dos Santos. o Braga. a dizer a sua magistral poesia: “SARL. O Zeca. Só um jovem de bigode farfalhudo ia estragando o início da sessão inesquecível: “Não digo poesia porque tenho medo!”. O anúncio de um título bem imaginado. 182 . terão pensado as centenas de ouvintes em silêncio expectante: “Pronto! Já disse! Não digo poesia porque tenho medo!” ─ repetiu o mais tarde laureado dizedor. aquela noite de coragem e fervor antifascista. eles comem tudo. o Paredes.. encostadas precariamente.. na Faculdade de Ciências. Zeca Afonso cantou “Os Vampiros” em apoteose. de solidariedade com a luta dos estudantes do Instituto Industrial de Lisboa. com a Polícia e a PIDE lá fora a cercarem o edifício. eles comem tudo e não deixam nada!” Lembrava com meridiana clareza. SARL. SARL.

pá! Isto não é nenhum festival de “rock”. um militarão! ─ Pá! Onde vais tu. Andando de quartel em quartel. um tenente-coronel. ─ Vou até à secretaria dos reabastecimentos.. Fizera a Academia Militar da forma mais tradicional e estava convencido que o essencial na vida militar era a disciplina firme e o estrito respeito pelas hierarquias. de “guerra em guerra”.NOTÍCIAS DA FRENTE Não tivera muita sorte o Batalhão de Caçadores destacado para a frente de guerra na área de Cabora Bassa. meu comandante. O segundo. o fundamental na condução da guerra passava pelo cumprimento indiscutível das ordens superiores e o seguidismo acéfalo dos ditames dos homens predestinados. que mobilizava todas as atenções do alto comando em Moçambique.. não aquecera o lugar e deixara a recordação de querer mandar um condutor numa “Berliet” tipo “arrebenta-minas”.. mal tinham acabado de chegar. acarretava mais trabalho de protecção aos já sacrificados soldados da companhia. O tenente-coronel nascera e crescera em ambiente familiar prussiano. quando do ataque com morteiros ao primeiro destacamento. fora um major que estranhamente trazia a família consigo. ─ Põe o barrete. era o terceiro.. Felizmente foi dissuadido pelos oficiais subalternos. por ordem cronológica. em meados de Outubro. tratando-se de uma nomeação interina. pá?. em menos de quatro meses. A sua actuação sobranceira quando da detenção do furriel da secretaria. Argumentava que se houvesse problemas seria só um homem!. O primeiro comandante. numa estranha itenerância nómada. pá! O 183 . Em suma. fora reveladora da mentalidade militarista. O novo comandante. era como a maioria dos oficiais-generais.

procurando neste caso dividendos imediatos. finalmente testada na deflagração de minas anticarro e antipessoal. Quantas vezes ficaram grupos de combate horas e horas no mato à espera de transporte de retorno.barrete é para usar. pôs os soldados sobrecarregados com as acções de guerra e até prisioneiros. Infelizmente ocupou definitivamente o lugar e a vida interna piorou com os tiques tropeiros de “ordem e disciplina”. “o heroísmo e o sacrifício por uma causa justa”. outro sem orelha e outro com estilhaços nos intestinos. meu comandante! O manguito a uma distância conveniente. sem que tivesse aumentado a eficácia combatente do batalhão. Chiça!”. era uma forma de aliviar os pensamentos exaltados motivados por tão indesejável e exasperante encontro. foi muito elogiada a “fachada”. quatro helicópteros. até 184 . general Kaúlza de Arriaga. passasse a haver um prémio para o levantamento de minas! Outra preocupação máxima do novo maioral. “Filho da puta. com três feridos graves como primeiras baixas. era o aspecto exterior do aquartelamento. Por isso. Para estes. Na visita ilustre do responsável do Comando Operacional de Defesa de Cabora Bassa (CODCB). Não se preocupa com a vida miserável dos soldados nem com a falta de géneros frescos. feridos graves a sofrerem na picada à espera do heli de evacuação. Tal como na visita histórica em Abril de 1973. do comandante-chefe. e. de pouco ou nada valia o reconforto do discurso oficial sobre. composta por duas secções de “comandos” e os outros dois com a comitiva. sem disciplina não se ganham as guerras! ─ Com certeza. a trabalharem nas limpezas. dois com a guarda pessoal. Interessante foi que a partir daquele acontecimento. com um soldado sem pés. noutras. Chegou no meio de um formidável aparato de segurança. as meias a três quartos e a continência. as únicas preocupações são o barrete. já com “guia de marcha” para regressar a Portugal.

a guerra não parava de evoluir. demasiado cuidadosos para o seu gosto! Esperava em breve convencê-los de viva voz e demonstrar que a guerra em Moçambique estava ganha! Dos oficiais presentes na sessão. Aliás. Não acreditavam naquele optimismo todo. Impunha-se naquele momento histórico uma decisão de unificação de comando das duas províncias ultramarinas. “da garrafa meio cheia ou meio vazia!?”. e quanto aos meios. muitos ficaram entusiasmados com o discurso persuasivo. no Niassa a actividade terrorista era residual. questionava-se a redistribuição daqueles que já eram desnecessários em Angola. com o êxito das operações “Nó Górdio” e “Fronteira”. Os militares cumpriam o seu papel.sucumbirem!?. questionavam-se segundo o velho aforismo. em Manica e Sofala. era uma questão de tempo e de meios. não passando.. Alguns.. Os objectivos em curso seriam cumpridos. aliás. apesar da 185 . todos os grandes objectivos militares por si traçados tinham sido cumpridos: A guerrilha tinha sido desalojada das suas bases em Cabo Delgado. Sinceramente necessitavam de se convencer que a vitória estava próxima. contudo não tinham coragem de abrir a boca: “Com o comandante Kaúlza. a FNLA quase já não existia e a UNITA estava controlada. tratavam-se de “pequenos focos” e não de guerrilha organizada. como estrategicamente se tinha proposto. agora o resto era com o poder político. onde a subversão estava derrotada! O MPLA estava destroçado. Sinal evidente da vitória próxima ─ dizia Kaúlza ─ era a incapacidade da Frelimo de impedir a construção da barragem de Cabora Bassa. O “briefing” foi rápido mas muito afirmativo. a barragem em breve seria um facto. estavam cansados de tantas comissões. O tempo jogava a nosso favor. analisando com consciência a realidade conhecida. Deus me livre!”. porém. Todavia os políticos em Lisboa estavam muito renitentes. Contraditoriamente. para sul do rio Messalo.

atacou Estima com foguetes de 122 mm. e. O general ultranacionalista. A africanização era uma das sete ideias-chave de Kaúlza de Arriaga para ganhar a guerra. Machava. como todas as outras. a Frelimo atacou Nangade e Mueda com foguetes de 122 mm. minou viaturas no Fingoé e em Chicoa. atacou Zala com morteiros e canhão sem recuo. Não era grande coisa. mas. para aliviar o esforço de guerra sobre os “metropolitanos” brancos. por essa altura. afinal. na direcção da cidade da Beira. chegaram a estar em treino 3000 “GE’s” (Grupos Especiais com soldados do recrutamento provincial) no centro de preparação nos arredores da cidade da Beira. em Março de 1973. foi substituído pelo general Basto Machado no meio de forte polémica. face ao ponto a que as coisas tinham chegado.fraqueza anunciada. em Junho. prisão da 186 . a herança do general fascista! Em Junho de 1973. A guerrilha atacou Vila Gamito. Nessa altura “explodia” a nova frente de Manica e Sofala. em Maio. de concepções totalitaristas sobre a guerra e a política. em Abril. não isenta de grandes contradições e inconsequências. Realce-se a importância dada pela administração portuguesa a este recrutamento. havia em Moçambique 57170 militares dos três ramos das Forças Armadas. No Norte. onde Arriaga dizia ter sido destroçada. em Maio de 1973. chamado a Lisboa em Julho de 1973. O GUARDA PRISIONAL CERQUEIRA Silêncio absoluto no sepulcro de vivos. as quais contribuíram para que muitos militares do quadro ganhassem consciência da necessidade de mudanças radicais. megalómano. tomando os desejos por realidades. em Cabo Delgado. e.

nem o jantar me trouxeram!.. bateu com força na porta de madeira. Não obteve resposta. falando de bons modos. entre as quatro paredes caiadas. ─ Coma.. O guarda prisional. Não era o mesmo da chegada.. A conversa continuou durante alguns minutos. ─ Boa noite! Não sei que horas são?! Deixei-me dormir e não me trouxeram o jantar! ─ disparou o jovem prisioneiro num tom azedo: ─ Não lhe deram jantar? É o costume à chegada! Estamos na mudança de turno da meia-noite. composto de muitos dramas solitários e isolados. ─ Pronto! Coma! Trago sempre uma bucha avantajada!. de bigode fino e voz nortenha. Mas deixe estar. Mas. causava alguma perplexidade. por enquanto deveria haver algum cuidado. ─ Boa noite! É novo por cá?! ─ perguntou. de tão inesperada. regressou algum tempo depois com um púcaro metálico cheio de café com leite e um naco de pão com manteiga. porventura maiores que o seu.” À primeira tentativa de chamar o guarda de serviço. A inesperada solidariedade tornava menos penoso o isolamento total dos dias sem fim.PIDE/DGS em Lourenço Marques. diálogos breves. de estatura média. magro. obrigado! Não se incomode. constatando. portas abrindo-se e fechando-se. Dava-se conta que a prisão era um mundo concentracionário. Pensamentos dolorosos: “Querem matar-me à fome. ─ Deixe estar. Novembro de 1972. eu já volto quando terminar a ronda.. o guarda prisional quando abriu a porta devagar. 187 . de muito sofrimento atrás daquelas portas cerradas. Passou muito tempo até se ouvir barulho no corredor. a esta hora já não se pode fazer nada. mas passaram-me à disponibilidade para me deterem. tanto ou mais reconfortantes que a bebida quente. coma! Bem vai precisar! Disseram-me que é militar!? ─ Sim! Sim1 Furriel miliciano.

. ─ Que pessoas? Não tenho cá ninguém conhecido! ─ reagiu intempestivamente. ─ no limiar da porta. como exigiam as regras. não ouviu contar? ─ Ah! Sim!..”. Vagamente. a desconfiança emergia: “Quem seriam as visitas.. baixou novamente a voz: ─ Mais logo trago as bananas e temos uma surpresa. ─ Alguém tem gritado lá para os fundos.. trouxe bananas (a comida era péssima). papel de carta e esferográfica (depositando depois as cartas para a família em mão amiga de parentes solidários) e um encorajamento todas as vezes que estava de serviço: ─ Boa noite! Como vai isso hoje. Estão aí duas pessoas que querem vê-lo... Os pensamentos em relâmpago foram cortados pela resposta apaziguadora: ─ São dois camaradas seus da tropa. ─ Cá estamos.. mal conseguia entender aquela solidariedade num sítio tão terrível. recomendou de forma muito tranquila: ─ Não conte a ninguém! Alguns colegas não são de confiança! Nos dias seguintes esperava com ansiedade o turno da meia noite e a voz amiga do guarda prisional. que se passará? ─ a questão 188 . Já percebo o assobio! ─ Bom! Depois passo por cá mais tarde. querem ver que está feito com a PIDE?!. ontem fiquei preocupado. por terem organizado uma rebelião no quartel da Ponta da Xefina.Quando voltou a recolher o púcaro. grande militar? Se tivéssemos muitos como “vocês” já tinha acabado a carnificina ─ baixara cautelosamente a voz. Estão cá presos há uma mão-cheia de meses. esperando melhores dias!. A seu tempo.. ─ Sim senhor! Ainda bem que está mais bem disposto.

ficava um calor insuportável. ─ Vou ver o que se passa. Quem seria? Porque seria? A dada altura ouviram-se passos no corredor. abafado e húmido. Quantos seriam? Como estariam? Mas o grito profundo. logo abafadas por a porta ter sido fechada. anjo ou demónio?”. 189 . provocando uma enorme tensão.devia ser muito ignara. intensas bátegas de água como é característico na África sub-equatorial. deixando o interlocutor a matutar: “Quem é este homem. trancados e isolados em pequenos espaços. O tratamento normal da polícia é não dar comida!. De facto. lamentoso. como um eco da sua própria angústia: “Se fico aqui muito tempo. porque o guarda não mostrou surpresa. sem esperança. * Chovia amiúde da parte da tarde na estação quente. que obrigava a reabrir as estruturas metálicas rangentes e a deixar entrar o ar com cheiro agradável a terra molhada. dou em doido!”. Vindo do fundo do corredor. uma porta a abrir e vozes alteradas ininteligíveis. As rajadas e remoinhos de vento levantavam uma poeirada vermelha que entrava em lufadas e obrigava a fechar às pressas as duas metades envidraçadas da janela gradeada e alta. durante toda a tarde e início da noite. Em pouco tempo.. ─ explicava com voz magoada o guarda prisional. Depois fez-se silêncio. martelava de forma desesperante o cérebro e a alma inquietos. porém. permaneceu martelando no cérebro quando João se estendeu no catre.. um grito gutural encheu de tempos a tempos todo o pavilhão celular de cobertura oval e assinalável comprimento. voltando a calma aparente àquele túmulo de vivos.

no quartel da Xefina! ─ E você..Num momento de nostalgia e saudade. com as listas vermelha e verde muito desbotadas da usura. De resto. ─ Estamos a fazer alfabetização aos “internados”. acompanhado de dois jovens aparentemente bem dispostos. de costas na enxerga.. escrevera recordando a companheira carinhosa e distante: “Há doce Pó no meu caminho”. é um mundo de ignomínia e perversidades ─ uma nuvem toldou o semblante do alferes. a sonhar com a liberdade roubada. de mão estendida cumprimentando à vez: ─ Alferes Lage. isto aqui não interessa a ninguém. era necessário cobrir as pernas com a manta cinzenta. ─ Estamos a cumprir pena por rebelião militar! ─ tomava a iniciativa o oficial miliciano fardado. As noites eram bastante frescas apaziguando a incomodidade das tardes quentes. aparecendo o guarda com um sorriso. mais velho de aparência.. muito prazer! ─ Furriel Ferreira. correu o ferrolho exterior e a porta abriu-se de novo. na janela. porque nos veio fazer companhia? ─ Estou em trânsito para a metrópole. Mesmo agora. a aguardar as visitas prometidas. era nítido o desenho das palavras na contraluz. Olhando para o exterior. 190 . e para dormir era necessária a manta a garantir o conforto adequado ao metabolismo basal. mas o furriel acrescentava com vivacidade: ─ Tivemos um canhão apontado para a cidade.! ─ completava o furriel. por isso nos dão alguma liberdade de movimentos. muito gosto! ─ Muito prazer também! Mas porque estão cá?. o costume! ─ Ainda bem que vai para Portugal. Quando já descria.. muito abalado pela alimentação deficiente.. por “actividades políticas”. aproveitando o pó que colmatava a rede de arame de malha fina. acordado..

sorrindo. o padre Teles Sampaio e tantos outros! São centenas de presos. sim! Foi o “comité” de boas-vindas. Estava abafada a pequena sala do primeiro andar nas traseiras do edifício da PIDE/DGS. não quero que vos vejam juntos! ZEDEQUIAS MANGANHELA O rosto negro tinha adquirido um tom escarlate. ─ Ah! Foram vocês que assobiaram os “Vampiros” na noite da minha chegada?. com comiseração e espanto. ─ Sim.. ─ Não! Não! Você.─ São do melhor que cá temos! ─ referia. procuraram transmitir algo. o guarda prisional. não pudemos abusar da sorte. O calor húmido nos princípios de Dezembro pesava no silêncio vigiado da meia-dúzia de presos sentados em bancos de madeira corridos. Os olhos faiscaram um fugaz terror. postado na porta entreaberta não fosse aparecer algum colega metediço. ao 191 . tornaram-se vítreos e afastaram-se para um ponto indefinido e distante. ─ Bom! Temos de acabar. O corpo caiu desamparado no chão de cimento. é o nosso anjo da guarda! ─ os dois homens expressavam sincera gratidão. passando lestos pelos circunstantes.. guarda Cerqueira. não fora o paradoxo de cores. ─ Infelizmente está cá muita gente boa! Os padres espanhóis Valverde e Hernandez. dir-se-ia uma acentuada palidez. ficando sem expressão. prestando atenção. o pastor Manganhela.

Franziu ligeiramente o sobrolho e 192 . a fazer-se desentendido. eu trato disso!”. fumando boquilha. bigode fino de pontas ligeiramente retorcidas. reteve por instantes o olhar no único branco. esticou no chão o corpo inerte. colocando-a por debaixo da enxerga. fazendo ressaltar a barbicha branqueada e as feições correctas. com óculos verdes graduados. com ar assustado de quem desperta de um pesadelo para a dura realidade. satisfazendo a curiosidade mimada pelo vizinho da frente. sentado junto da porta onde terminava a escada exterior de cimento.. Nessa altura o pide interrompeu com voz de comando: ─ Atenção! Vem aí o senhor director! O agente pôs-se de pé quando se entreabriu a porta e fez sinal para todos se levantarem. o prisioneiro branco fez menção de ajudar o jovem negro desmaiado. o velhote de barbicha branca explicava por gestos como mantinha a roupa tão direita. Os restantes presos ganharam alento. o jovem quase recuperado ficou sentado no chão. Ao percorrer em silêncio a sala. À excepção do jovem branco. ─ Já disse.homem preto que acabava de cair abruptamente. abriu-se num ligeiro e enigmático sorriso. grossas bagas de suor correndo pelo rosto. Autoritário e brusco. olhando sobranceiro os detidos. maduro de idade. A voz agreste do agente-vigilante cortou a iniciativa: “Deixe estar. não há conversas! É proibido “falarem”! O incidente tinha distendido um pouco o ambiente constrangido. a face de outro homem negro.! Ao dizer isto. já bastante enrugadas.. os restantes presos ergueram-se quando surgiu com solenidade um homem de meia-idade. lembrando hábitos solidários do seu bairro operário distante. Instintivamente. A desatenção momentânea foi aproveitada para algumas frases brevemente sussurradas: ─ É da fraqueza! Esta gente nova.

responsável pelas atrocidades perpetradas pela policia política.. senhor director ─ notava-se um tremor na voz e na mão. ─ Sim. Está a perceber Manganhela!! ─ a última frase foi gritada junto ao ouvido do idoso que tremia quando se voltou a sentar. senhor director.. por certo inspirado na rábula do superior: 193 .. deixando um penoso sentimento geral de humilhação nos restantes presos a remexerem-se nos bancos. célebre director da PIDE/DGS em Moçambique. presidente do Conselho Sinodal da Igreja Presbiteriana. O pide-chefe saiu simulando um ar furioso. interrompida de forma abrupta.. aparentando uns prováveis sessenta anos. conhecido pelas brutalidades consumadas em Vila Cabral nos primeiros anos de guerra. ─ não pode completar a frase. ─ Bom sabe. Acompanhava directamente. suspensa no curso da resposta. branco nas suíças. O director continuava a cirandar na pequena sala. precisa de ocupação!?. ─ Ora isso é o que iremos ver!.continuou o périplo até se fixar num homem negro de aspecto distinto. ─ Isso não se resolve com pedidos! Basta que o senhor se disponha a colaborar connosco... fazendo sinal para os restantes se sentarem: ─ A sua família diz que está deprimido. cabelo grisalho. nomeadamente o assassínio de Eduardo Mondlane. o processo do pastor Zedequias Manganhela. coadjuvado pelo famigerado inspector Lontrão.. detido desde Junho de 1972. ─ Para a próxima vez levante-se quando entrar o senhor director. ─ ameaçava António Vaz. Percebeu-se a sua inquietação quando a inesperada figura se lhe dirigiu de forma altiva: ─ Manganhela! Então o senhor solicitou autorização para receber livros e papel?!.. alto e de barriga algo proeminente. ouviu?! ─ o agente de serviço tinha um renovado semblante ameaçador.

regressava finalmente após alguns dias de ausência por folgas. escondia o esforço evidente para lidar com um preso branco e ainda por cima militar. ─ Voltaremos a chamá-lo antes da transferência.. ─ Só pode levar roupa e artigos de higiene! Boa tarde! Regressado à Machava... vindo do teatro de guerra. ─ Mas afinal do que me acusam para me prenderem? ─ Actividades subversivas contra a segurança do Estado! Em Lisboa logo lhe explicam em pormenor! O grosseiro cinismo ameaçador do agente de má-cara-larga. Cerqueira.. Na minha mala.. por agora é tudo! ─ Preciso de artigos de higiene.! O diálogo azedo iria prosseguir não fosse ter assomado à porta interior um outro agente de cara larga e aspecto antipático: ─ Fulano de tal! Acompanhe-me! O “circulo de feras” ia começar! ─ É sempre a mesma conversa! São uns anjinhos. onde se trocavam breves frases com o companheiro de ocasião em retirada. quente e envolta na ligeira 194 . Não era decerto a forma normal dos interrogatórios naquele antro de ignomínia. de roupa.. Na manhã de 11 de Dezembro de 1972. nunca se meteram em nada! ─ o ar bronco associava-se como uma luva a uma cínica maneira de lidar com um detido “não tradicional”. o que tinha aumentado a ansiedade e a exasperação. O “anjo da guarda”. aguardava a nova chamada na angústia dos longos dias de completo isolamento.─ É a primeira vez que cá venho. quebrado apenas pela rotina diária da ida aos lavabos. de alguns livros!.

humilhações permanentes sobre um homem idoso. Seguiu-se o reencontro silencioso na carrinha celular com algumas caras já conhecidas: lá estava o velhote da roupa impecável. de colaboração com a Frelimo. Zedequias Manganhela era um pastor. com quem trocara algumas palavras na casa de banho. onde Manganhela permanecia em isolamento. Suicídio. protagonista do episódio constrangedor com o director de boquilha e atitude ameaçadora. muito estimado na sua zona dos arredores de Lourenço Marques. Um lugar no banco lateral ficara estranhamente vazio. conforme a versão oficial. um negro nutrido e simpático (vizinho da cela fronteira no Pavilhão C). e as suas veleidades no ensino das línguas nativas. sobretudo junto da Igreja Presbiteriana Suíça. numa zona onde não havia guerra. alguns tinham ficado detidos para justificar as suspeições da polícia política. nunca provada. ameaças.neblina africana que aplacava a inclemência. terror psicológico. ou um tenebroso 195 . onde anteriormente viajara o negro com ar distinto. Que ameaça poderia constituir? O que se passou nessa madrugada na cela do pavilhão B da prisão da PIDE/DGS na Machava. A relação do Estado português com as igrejas protestantes nunca foi brilhante. o guarda-fiscal. nunca se saberá. Embora a maioria dos pastores tivesse sido libertada pouco a pouco. pairando sempre a desconfiança sobre as posições demasiado “independentistas” daquelas. Foram seis meses de interrogatórios. o jovem que desmaiara devido à tortura da fome. e com grande prestígio na Europa. devotado à sua missão. “passada a ferro” sob a enxerga da cama. Fora preso com cerca de cem outros pastores e chefes leigos das Igrejas Protestantes do Sul de Moçambique (excepto a Anglicana) por suspeita. sevícias. um guarda chamou João para a derradeira ida à sede antes da transferência para Lisboa.

foi um crime de morte matada. de que aquela tenebrosa instituição do colonial-fascismo foi responsável e pelo qual deveriam ser criminalizados os seus executantes. os seus mentores e os seus mandantes. LONGOS CORREDORES DO SILÊNCIO 196 .assassinato? Em qualquer dos casos. 7. pela situação criada ao velho pastor presbiteriano.

tortura e condenação às mãos da PIDE/DGS. que abriram as condições para a independência de Moçambique em 25 de Junho de 1975. quiçá salvar. denunciado em meados de 1973.16 DE DEZEMBRO DE 1972 : “PHANI WENSE” Despedira-se fraternalmente do guarda Cerqueira durante o turno da noite: ─ Muito obrigado por tudo! Pode ser que um dia nos reencontremos num futuro melhor…! ─ Com jovens como vocês acredito nesse futuro. já depois do cessar-fogo e dos acordos de Lusaka. muitos presos políticos na cadeia da Machava. a 9 de Setembro de 1974. soube-se a dramática história da prisão. A 197 . do guarda prisional Cerqueira. O resto por aí não presta para nada! Dois anos mais tarde. por ajudar.

entrou em velocidade de cruzeiro rumo a Lisboa. fumos. A despedida parecia de quem vai viajar em negócios. agora com o futuro tão incerto. com uma sensação de trágica incomodidade: “Que estará a acontecer?” Os motores em desaceleração indicavam a aproximação da primeira escala: Luanda. um DC-6 da TAP. na sua incansável solidariedade. Quando o avião. Aproveitara o breve lapso em que o agente de má-cara-larga fora dizer adeus a uns familiares em ambiente de regozijo. João fechou os olhos e adormeceu de forma agitada. num pesadelo de tiros. não! Não posso! ─ lá se ia a esperança de um último contacto com a família. a lançar-lhe um olhar recriminatório deixando-o algo encavacado. esteja descansado! A resposta em voz alta levou a mulher do agente que assim ganhava umas férias na metrópole “à conta”. gritos. muito sangue!. Com a recusa da carta propositadamente escrita. perseguições e sangue. o pide de má fronha olhava-o de soslaio. Despertou apreensivo já passava do meio-dia de 16 de Dezembro. falhava o apoio do parente que o guarda Cerqueira “desencantara” algures na cidade..polícia do regime era implacável com as suas “ovelhas tresmalhadas”. correrias. * ─ Se se portar bem não precisa de ir algemado ─ pronunciara o “pide” em voz baixa. sentado no lugar ao lado com ar de bovina vigilância: “Que me irá acontecer?” 198 . Abriu os olhos. com escala em Luanda. quando se encaminhavam ao longo do aeroporto para a área de embarque.. ─ Não. chamas. ─ Porquê? Está com medo que me atire do avião? Tenho mulher e filha à minha espera.

Tratava-se de uma área muito povoada. não levou a conclusões. Os aldeões são divididos em dois grupos. lançaram fogo às cubatas entretanto abandonadas pelos habitantes prevenidos. e. embora se suspeitasse há muito da crescente influência da Frelimo na região. como represália. “phany wense!” (matai todos!) do agente da PIDE/DGS. Naturalmente os indígenas “não sabiam de nada”. foi alvejado a partir da zona formada pelo triângulo onde o rio Luenha encontra o Zambeze.* Um pequeno avião comercial vindo da Beira para Tete. quando procura o mato. caiu numa emboscada perto do aldeamento de Corneta. homens de um lado. com muitos aldeamentos dispersos. O dia 16 de Dezembro era um sábado quente. portanto era dia de descanso e andavam muitas pessoas nas ruas das povoações. Nessa altura um pelotão vindo de Tete em patrulha. é cercada por tropas aerotransportadas do 6º Grupo de Comandos trazidas em helicópteros. Por volta das 14 horas surgem. um tenebroso 199 . distantes entre si poucos quilómetros. havia gente a trabalhar na cidade que se regulava pelo tempo ocidental. As cabanas são incendiadas e aos gritos de “phany wense!”. Chawola e Juwau. e. Chico Cachavi. O comando militar identificou a origem dos disparos antiaéreos. num triângulo formado pelas aldeias de Wiriyamu. num repente. aeronaves militares que lançam bombas e disparam metralhadoras sobre a população de Wiriyamu que foge espavorida em todas as direcções. a investigação feita nos dias seguintes pela PIDE/DGS. mulheres e crianças do outro sentados no chão. próprio da época das chuvas. Embora no calendário indígena tal data não tivesse especial significado.

um afluente do Luenha. Os que procuram fugir são empurrados para as habitações a arder. é a fraca e perversa justificação para uma carnanifícina organizada. mutiladas e mortas. uma mulher grávida é esventrada. Em Chawola identificaram-se posteriormente 42 assassinados. à entrada de Tete. Foram os padres daquela congregação. cobriram-nas com capim e deitaram fogo. que organizaram o primeiro relatório 200 . Mas aqui houve sobreviventes que saindo feridos da pira humana. a implorar socorro e a relatar as atrocidades aos padres de Verona. crianças chorando são mortas a pontapé. Juntaram depois as vítimas numa pilha. enquanto o facínora Cachavi urra como desvairado feiticeiro dos infernos africanos ancestrais. violadas. surpreendendo os habitantes incrédulos. não há sobreviventes e os corpos ficam por enterrar. sendo mais tarde apuradas 138 vítimas. que depois as diriam ao mundo. A tropa completamente ensandecida. jovens donzelas são arrastadas para o mato. andaram quase vinte quilómetros até à missão de S.torcionário do recrutamento provincial. em volta do infeliz ajuntamento lamuriante: “Matai todos! Matai todos! São ordens do chefe!”. absolutamente horrorizados com a dimensão dos massacres. distante cerca de quatro quilómetros. repete o massacre com o pormenor macabro de obrigarem os autóctones a baterem palmas à medida que os iam abatendo a tiro. O rio Nyamtawatawa. perante a passividade de sargentos e oficiais. o aldeamento é completamente destruído. Pedro. O sangue enlouquece a soldadagem. “Por não dizerem quem alvejou o avião”. dirige-se de seguida à aldeia de Chawola. são abatidos a tiro dezenas de indígenas à medida que são mandados pôr em pé. fica juncado de cadáveres. para além do que pode entender a razão humana. e.

em Julho de 1973. desumanizados e corrompidos até à medula. mas o coração apertava-se na ansiedade das horas ruins que se vislumbravam. O único tributo de honra para as mais de 400 vítimas apuradas posteriormente com mais rigor nas três aldeias. Neste episódio capital da guerra em Moçambique. três dias depois dos acontecimentos. aconteceu quando. participantes coniventes mas horrorizados com o fardo de bestialidade que transportavam. Teria a companheira recebido a notícia? Estaria à espera para um aceno de coragem. e sobre Wiriyamu. João vinha mal protegido pela camisa leve de cores garridas. 16 DE DEZEMBRO DE 1972: LISBOA Em Lisboa estava uma tarde de sol radioso. coronel Videira. os massacres vieram ao conhecimento do mundo e assim contribuíram para a tomada de consciência da situação pelos jovens oficiais do quadro que. mesmo que fosse de longe? Fora do avião sentia-se um arrepio gelado. revela-se a terrível dimensão de um conflito em que os altos comandos militares e a alta hierarquia da Igreja Católica. traje alegre vestido para afugentar 201 . ano e meio depois. que o governo colonialista-militarista de Marcelo Caetano procurou esconder. finalmente. em 19/12/1972. depois de inspeccionarem o local e constatarem o espectáculo horrendo dos corpos insepultos. haveriam de pôr cobro “ao estado a que isto chegou!”. nomeadamente ao comandante da ZOT.sobre Chawola. “abafaram” os relatórios e testemunhos posteriores de membros das Forças Armadas. alegrando a vista na aproximação ao aeroporto da Portela. O relatório foi enviado nos princípios de Janeiro ao bispo de Tete e às autoridades militares.

para iniciar uma nova e derradeira viagem... O “pide-católico” iria aparecer mais vezes com aquela conversa de fé.. agora tinha iniciado o interrogatório.. certamente a mais importante e transcendente nas suas vinte e três primaveras: destino. sobressaltando o jovem alto e magro a aguardar atrás da porta gradeada. por isso está como está!. percebeu com algum atraso e candura que o “baile” já tinha começado.. o círculo de feras ia recomeçar agora no ninho das víboras. com uma calva enorme e ruivo o cabelo restante. Cuidado! ─ É para confirmar se tem um crucifixo! Se é católico como diz. puxara com veemência o fio de prata em volta do pescoço. mas insuficiente para o frio de Dezembro na capital do Império. Da companheira não havia sinal.. 202 . ─ Desculpe. Ficaram para o fim. Lá em baixo à espera. onde acabara de ser identificado e fotografado. estava uma carrinha da PIDE/DGS.! O agente. depois de todos os passageiros terem saído. estaria bem? A PIDE certamente não lhe dera a notícia para manter o secretismo da transferência e assim dispor do detido a belo prazer. a ordem para avançar no longo corredor silencioso do reduto norte da prisão da PIDE/DGS. ─ Vá-se acostumando à ideia de que aqui não há segredos! Aqui só a fé nos pode salvar! Acredita na fé? O preso manteve-se em silêncio.. ─ Deixe-me ver esse fio! ─ Que é isto?.“maus olhados”. o mundo está cheio de ateus. na natureza e no seu coração. em Caxias. ─ Eu só disse que era baptizado pela igreja. nada mais! ─ Ah! Uma estrela! Temos mais um ateu.. essa é uma matéria reservada. Saíra de África em pleno Verão e chegava no “Inverno em Portugal”. Caxias.

você é militar. e o meu tipo de sangue. ─ O “tropa” fica entregue! ─ dirigia-se ao colega que devia ter menos 203 . não concorda? Naquele instante soou uma campainha e surgiu das trevas outro polícia a abrir a porta de ferro. outra campainha. para o caso de me acontecer alguma coisa na guerra. porque não responde? Isso é má educação! ─ elevara o tom da voz. Por detrás tem as minhas iniciais. não há nada! Em Angola sim! É preciso evangelizar aquela gente sem fé e destruir o comunismo. o olhar insistente tinha um brilho malévolo. interrompido por outra porta de ferro gradeada. as da minha esposa. ─ Ah! É verdade. ─ Já lhe respondi! ─ Pois é! Estrela de cinco pontas é a estrela dos comunistas! Você é comunista?! ─ Essa é uma estrela da amizade e da esperança. A obscuridade do ambiente transformava-se numa imensa negritude da alma. o grande responsável. passagem para um longo corredor fracamente iluminado. De repente o pide parou e abriu-se uma das portas laterais. o som metálico da lingueta da fechadura. apenas o corredor comprido e silencioso. pintadas impecavelmente numa cor creme escurecida pelas sombras da interioridade. Ainda seria dia lá fora? Ou já seria noite? Não havia nenhum ponto de referência. Divisavam-se várias portas fechadas. assomando uma cara redonda e feia ao cimo de um corpo atarracado: ─ Vamos! ─ o “católico” apontava o interior da sala que se vislumbrava mal iluminada para além do “hall” obscurecido. Também estive na guerra do Ultramar.─ Fiz-lhe uma pergunta. em que província estava? ─ Em Moçambique! ─ Ah! Aí não há guerra.

temos toda a matéria necessária para o levar a tribunal.um palmo e fazia uma cara-de-mau. No centro uma mesa-secretária tosca e duas cadeiras de madeira como único mobiliário. No escuro há medos ancestrais e atávicos que perturbam o comportamento humano. ─ Então você foi o organizador responsável pela agitação na Escola Prática de Infantaria... ─ Ah! Não sabe!. isolado do mundo. acabara de entrar num antro do famigerado reduto norte do Forte-Prisão de Caxias. com taipais de madeira sempre cerrados de noite e de dia. propício à desmoralização psicológica do preso. fraca. Por cima da mesa. quando à “tortura do sono” juntavam a “tortura da estátua”. numa fisionomia naturalmente ruim. uma lâmpada de filamento.. ─ Trata-o bem porque é baptizado à Igreja! ─ um esgar cínico substituía o sorriso que certamente já não sabia fazer. Só se safa se disser quem lhe deu as orientações no Partido! 204 . Não vale a pena fingir! O seu amigo “doutor” contou tudo em pormenor.. em Mafra. como depois se perceberia. ─ Nós damos-lhe o baptismo! Entre e fique de pé. aguarde o nosso chefe-de-brigada! Ao fim da tarde do dia 16 de Dezembro de 1972. criando um ambiente soturno. Nas paredes laterais dois supostos candeeiros de parede. A TORTURA ÍA COMEÇAR Uma sala a seguir à entrada estreita com uma única janela alta. gradeada. em Dezembro de 1971?!. por onde eram emitidos sons gravados. ─ Não sei do que está a falar. por vezes reduzido.

comuna de merda! ─ Trate-me com respeito. Horas e horas intermináveis de cansaço acumulado. Falava com um acinte de cinismo e ameaça. cabrão? Queres dar-me lições! ─ avançou ameaçador com o punho no ar. impedem o “fechamento” completo do cérebro. sobretudo na alta madrugada.─ Já disse que não sei nada desse assunto! ─ Não sabe!? Muito bem! Então vai ficar o resto da noite até se lembrar! Ajuda a refrescar a memória! O chefe-de-brigada António Cavaleiro. criando uma pressão terrível. ─ Não durma! Já sabe que não pode dormir! ─ o berro ou a voz monótona do pide de serviço. Doutro modo vai cá ficar o tempo necessário até mudar de ideias. por vezes o safanão. um aspecto de símio de pernas arqueadas. tinha o aspecto de um funcionário subalterno. chamava-se o “moínho”. parando no último momento com o braço suspenso sobre a cabeça do preso que mantivera o olhar firme: 205 . a palmada na mesa ou o tamborilar dos dedos. faz favor! Eu não o ofendi. Os agentes são rendidos de quatro em quatro horas. a tosse de catarro ou o pigarrear. À meia-noite reentra o policial baixo e de feia cara-larga. o preso é sempre o mesmo. polícia manhoso à maneira antiga. para além da fracção de segundo. e começaram logo as sevícias: ─ Não há filho da puta que saia daqui sem ter vomitado tudo! ‘Tá a ouvir. Começava a tortura do sono. que nunca levantam a voz mas sabem agir com crueldade. somado aos dias anteriores de angústia e ansiedade. ─ Respeito o quê. Na gíria de tantos e tantos milhares de portugueses submetidos ao longo dos anos a esta cruel tortura. acrescentando antes de se retirar: ─ Amanhã vem cá o senhor inspector! Veja se se porta bem e nos conta tudo.

O efeito é terrível. * 206 . com uma estrondosa palmada do sádico polícia no tampo da mesa de madeira. ─ uma tremenda bofetada completa o discurso ”moralizante” do agente atarracado. seu cabrão! A pôr em causa o meu emprego! Olhem se alguém visse!?. Ainda não tinham decorrido 24 horas desde a chegada!.. A partir daí a tortura é dupla.. o cérebro fica em completa desordem: ─ Com que então a dormir. com um sorriso cruel a gozar o esforço do preso para não adormecer. Fazendo um esforço sobrehumano para não dar parte de fraco perante aquele facínora.. o preso desfalece instantaneamente. a respiração é travada num doloroso nó na garganta. uma dor aguda ferra-se no sítio onde parece já não estar. Mas a natureza humana tem as suas fraquezas e o sono vence outra vez. os ouvidos zunem ensurdecidos. hem! O mundo desmorona-se... o sono e o medo de dormir e ser acordado daquela forma bárbara. Àquela hora o sono apertava.─ Não levas para não ires fazer queixinhas ao inspector! Tens sorte com o inspector. o cansaço produzia suores esquisitos numa sala fria. para acordar logo de seguida em sobressalto. desaba como um terramoto ensurdecedor e terrível sobre o torturado. o coração “salta do peito”. Paammm!! ─ Apanhei-te! Novamente a dormir.. O sádico pide continua a sua nova táctica.! O agente sentou-se estranhamente calado. instantaneamente parado. o coração começava a palpitar as primeiras taquicardias. silencioso. mas desperta o detido do caos de angústia e de revolta sufocada.

A entrada do “senhor inspector” revestiu-se de toda a solenidade. ─ Lá chegaremos! Lá chegaremos! Vai ter muito tempo para reflectir! O seu colega de subversão. encarregou-se de clarificar a situação. quando fez a implícita ameaça de prolongamento da tortura. e quase gritou: ─ Levante-se! Vem aí o senhor inspector! Era um homem de estatura baixa e aspecto maduro.. gravata e sapatos reluzentes.. mas não tinha a certeza. Parou por uns momentos a olhar para o preso e fez um sinal quase imperceptível. nunca levantando a voz. Adelino Tinoco.. Queremos é saber quem no Partido orientou essa acção! ─ Desconheço o assunto de que está a falar. Um grosso anel de ouro destacava-se no dedo quando pôs as mãos em jeito de rezar. não é verdade? ─ Furriel miliciano! ─ E como militar permitiu-se desenvolver acções contra a segurança do Estado? Estamos em muito maus lençóis!. o “senhor doutor”. ter saído 207 . A quem se estaria a referir? Desde a primeira hora desconfiava do autor da denúncia que o levara à prisão.. o agente de vigilância afastou-se: ─ O senhor é militar. um porte de alto funcionário do Estado. e por um ligeiro sorriso cínico. ─ Não sei porque estou preso. O chefe-de-brigada chegado no séquito. Durante todo o discurso manteve uma postura benigna. numa saudação que podia ter tanto de autêntica como de encenação. no Curso de Oficiais Milicianos. quando mencionou o senhor doutor. não me entregaram mandado! ─ Não se faça de inocente! Conhecemos em pormenor a sua participação na agitação levada a cabo em Mafra. depois do inspector superior da PIDE/DGS. preocupado com a aparência para infundir respeito. impecavelmente vestido com um fato de cor castanho escuro. não precisou de muito!. O agente de quarto de serviço pôs-se em sentido. só traída por um pequeno esgar.

não! Por favor. ─ Ah! O senhor doutor do MRPP? Esteve aqui no Verão passado. ─ Já disse que ia visitar uns parentes a França! Como não me deram licença militar. era o que era! Cobarde! A desertar com medo da guerra! Vai contar o resto ou é preciso um empurrãozito! ─ o pide gordo fez o gesto de mão em cutelo cujo significado universal é “dar porrada”. se não conta tudo não vai dormir hoje. ─ Canalha! Andavas em provocações no MRPP e vens falar em civilização!?. foi uma pessoa simpática e colaboradora. desferiu uma palmada forte nas costas do detido.. a responsabilidade da estadia é sua! ─ Não sei a que doutor se referem?.. O senhor é uma pessoa inteligente.. não vale a pena perdermos tempo. ─ Afastei-me de tudo quando fui para a tropa! Deixei a actividade política. O SENHOR DOUTOR O Verão estava anormalmente quente. ─ Violências. ─ o pide calmeirão..! ─ Ia dar o salto. a não ser.com a mesma solenidade com que entrara: ─ Agora já sabe a acusação em concreto! Se quer continuar a negar.. desembucha grande cabrão! Estás a fazer-nos perder tempo! ─ 208 . propositadamente: ─ “Senhor doutor”. vamos tratar como pessoas civilizadas.. ─ Vá. fazendo saltar os óculos que por milagre não se partiram ao caírem desamparados no chão.. abafava-se no interior da sala de interrogatório sem ventilação..

por favor! ─ Mas!.. Fora detido quando se preparava para passar a fronteira a “salto”. prostrado de joelhos. perto de Vilar Formoso. Estamos de visita! Não podem. o resto fiava mais fino..uma nova e mais forte palmada nas costas cortou-lhe a respiração. Foram interceptados quando se preparavam para continuar o caminho. doutor! Conte o resto! Não quer ser acusado de desertor. Estava muito calor em pleno Agosto..! A brigada da Guarda Fiscal. Um pequeno prurido de remorsos. que mora na outra margem e foi o responsável pela agitação.. apesar das suas reticências.. pois não?! ─ incentivava um dos membros da brigada. tem corrido sempre bem!” Precisamente por não ser a primeira vez e dado o seu aspecto degradado. o carro foi topado por um agente de vigilância que deu o alerta. cada um com o seu papel específico: ─ Sabe o que se faz aos desertores? Fuzilam-se! ─ o pide altarrão 209 . um sujeito fulano de tal. rumo a um sítio ermo: ─ Alto! A vossa identificação. Calou-se. ─ Não têm licença militar? Acompanhem-nos faz favor! Nessa mesma tarde foram entregues à PIDE/DGS e transferidos para Caxias. fazia o papel legal.. Encontrei-o uma vez em Lisboa. o correligionário insistira em parar na vila para beberem uma cerveja fresca: “Não há problema! Já não é a primeira vez que faço este serviço. deixando-o ofegante. fugaz rebate de quem vende a alma ao diabo. Não foram precisas mais nem maiores violências: ─ Havia em Mafra. até onde fora conduzido num carro mal conservado por um amigo da organização. ─ Vá. avisada.

─ Ponha-se direito na cadeira! Se quer dormir tem bom remédio. A conversa em voz alta com o substituído no moinho. gaba-se sempre no início do serviço de ter “comido” mais uma das “gajas” presas.levantou os braços em imitação de espingarda a disparar na direcção do preso. 210 . ─ … Encontrei-o perto da minha casa no Lumiar. são figuras de bichos. todo encolhido. ao visualizar todo aquele novo mundo de criaturas com formas definidas. O ódio visceral aos algozes confunde-se perante o contraste de atitudes benévolas ou ferozes dos agentes que se revezam. onde antes só estavam manchas indistintas... pinturas-quadros humanizados. em Dezembro de 1971. Numa noite contou toda a sua história desde pequenino. dois dias sem dormir! As manchas do revestimento do chão em oleado de tonalidades escuras ganham formas. em Mafra. pequenos baixo-relevo estilizados. é claramente provocatória para impressionar o detido. O pavor físico das primeiras horas dá lugar a uma tensão angustiante provocada pela privação do sono. denunciando nomeadamente a grande acção de agitação unitária que tão bem tinha corrido.. penteadinho e bem vestido. O pide de serviço está atento ao comportamento do preso que olha insistentemente para o chão e esboça um sorriso. O “SENHOR INSPECTOR” Um. disse-me que fora excluído do curso de Oficiais na EPAM e que andavam a persegui-lo! ─ Nós sabemos bem quem é esse “passarão”! Nunca o deixaríamos chegar a oficial do Exército Português! E o resto? Vá lá para irmos todos dormir. fale! ─ este é dos “pides maus”.

não nos obrigue a mudar de figurino! 211 . em Dezembro de 1971. ali estava um exemplar do “Avante!”. é a primeira alucinação. surpreendentemente. ─ Desconheço esse assunto. não vale a pena negar! Além disso. ─ Está referenciado há muito tempo como membro do Partido Comunista. Estamos a tratá-lo de uma forma lisonjeira. ─ Ah! Então confirma! Muito bem! É um bom começo! ─ Não tenho nada para confirmar! ─ Sendo assim. Repetiam-se os salamaleques do resto da brigada sempre acompanhando o superior: ─ Então você é contra a guerra e estava no Ultramar? ─ Sou furriel miliciano e estava em Moçambique.. Se não quer falar vai continuar a fazer-nos companhia! ─ despedia-se com o cinismo do costume e uma ameaça explícita: ─ Está a perder o seu tempo e a fazer-nos perder o nosso.” ─ Esse canalha!.. desdobrou uma folha de papel fininho e. aberta certamente porque o ambiente tétrico afligia os visitantes.. a dar a notícia das acções na Escola Prática de Infantaria. não foi o “senhor doutor” do MRPP que deu a notícia para o “Avante!.. O torturado surpreende-se com as figuras-bicho no chão a começarem a mover-se. não resta alternativa. ainda só passaram 48 horas! O “senhor inspector” regressava sempre ao fim da tarde. nunca vi esse papel! ─ Não nos tome por tolos! ─ o verniz parecia prestes a estalar. como se podia deduzir da luminosidade na janela alta e gradeada. fazia precisamente um ano.“Onde estou? Que faço aqui? Quem é este sujeito na minha frente?”. ─ Uma pessoa que é contra a guerra não vai defender a soberania nacional em África! Queremos saber quem foi o responsável do Partido que lhe deu as orientações para a agitação e para a ida para o Ultramar! Calmamente.

Passaram as horas. Adelino Tinoco. com um bafo acentuado de álcool. a polícia política adaptava a táctica da tortura a cada caso concreto e analisado pelos “especialistas” internos. caminhando. Como uma mola. continuou a gritar: “Estás desgraçado! Ficas aqui a apodrecer. o agente mal-encarado levantou-se com um gesto eloquente: ─ Se te sentas no chão esfolo-te a pontapé! Nesse preciso momento. que até os tinha formados em Psicologia. Com muitos anos de experiência e uma perfídia e um sadismo inultrapassáveis.Tem mais 24 horas para pensar no assunto. já a madrugada ia alta. O pide pequeno e feio. o que permitia ir calculando o tempo). entrou um polícia encorpado a correr na direcção do preso aos berros: “Bombista! Bombista!”. aludira. Junto da sua cara. entrado às 24 horas (normalmente faziam a “rotação do moinho” a horas certas. Um empurrão violento e o jovem militar magro e debilitado desfaleceu tentando agarrar-se em vão à parede lisa: ─ De pé! Está aqui o senhor inspector! De pé. ─ A partir de agora fica sem cadeira. Até amanhã. Encostado às paredes foi caminhando. já disse! ─ sacudindo-o 212 . não se ouvia vivalma naquele sepulcro de vivos e violentados. bombista!”. trazia novas instruções: ─ Ponha-se de pé! ─ inesperadamente um empurrão violento quase fez o preso estatelar-se. Silêncio! Não entrou ninguém. Aquele cenário de tortura do sono a entrar na terceira noite. a “dança” vai começar! Instintivamente olhou para a porta à espera de ver uma matilha entrar e iniciar o arraial de pancada atavicamente temido. até ficar completamente esgotado e fez menção de se sentar no chão. como o torcionário-mor. era suficientemente terrível e nada lisonjeiro.

a um distender de nervos expresso num incontrolável sorriso: ─ De que se está a rir? Respeito! O senhor inspector está a falar 213 . diria mais tarde que o senhor inspector Mortágua tinha um filho na guerra! Adelino Tinoco entrou ao fim da tarde. indistinto no meio da nebulosa em que o cérebro ía mergulhando.violentamente. pretendendo ser uma resposta: ─ Respeitinho. ─ o torturado continuava a olhá-lo nos olhos. no instante seguinte. o “superior” teve uma ligeira hesitação. deu origem.. voltou as costas e desandou. ─ Se não vomitas tudo e depressa mando cá a minha brigada e trituram-te os ossos! O senhor inspector Tinoco é muito benevolente!. bem vestido num fato azul-esverdeado. Provavelmente havia mais gente recentemente presa em interrogatóriotortura: ─ O seu nome está referenciado como pertencendo à rede bombista do Partido Comunista! Agora o caso torna-se muito sério! O sobressalto inicial. e com um emblema na lapela. com ar muito solene. como de costume. alto e de meia idade. O preso balbuciou qualquer coisa ininteligível.. hem! O senhor inspector está a falar! ─ o agente recentemente entrado deu uma palmada na nuca do preso o que teve um efeito contraditório. mas cheio de pressa porque tinha muito trabalho.. não tem cara para levar uma bofetada!. de bom corte. os dois polícias soergueram o preso que devia estar com um aspecto deplorável quando entrou um outro “senhor inspector”. fazendo-o empertigar-se e encarar o novel inspector com firmeza. Um “pide-bom”. quando o homem baixo e sempre impecavelmente vestido com fato escuro e gravata começou a falar com solenidade. ─ Ah! É este o célebre agitador que anda para aí a pôr bombas?! Coitado..

abatem-se sobre o torturado ou afastam-se. quatro dias. Agora na década de 70. não tenho nada a ver com isso.consigo! ─ acorreu o chefe de brigada Cavaleiro. e a sala fica virtualmente aberta para o exterior. o preso ganhava alento: ─ Tragam quem quiserem! Já agora gente mais civilizada que os visitantes desta noite! O inspector pareceu embatucar e foi o chefe António Cavaleiro a interceder mais uma vez: ─ Continua aqui por sua exclusiva responsabilidade. que dirigia a polícia política com mão-de-ferro desde 1962. de onde chega uma luz de sol 214 .. dizendo no seu eloquente e expressivo silêncio: “Vozes de carcereiro e torturador não chegam ao céu!” * Três. desaparecem. no quarto dia consecutivo. sob o mando directo de Salazar até 1968. continuava com poderes ilimitados de um autêntico estado dentro do Estado. ─ A ver vamos! Se for preciso trazemos alguém para tirar isso a limpo. com Marcelo Caetano no poder. Normalmente à tarde os efeitos da tortura do sono. muito íntimo do director Silva Pais. eram mitigados. a marcar as distâncias: ─ Sou uma pessoa pacífica. Não parecia muito convicto o funcionário do Estado Novo ao serviço da PIDE/DGS há mais de vinte anos e inspector superior há uma boa meia dúzia. por se recusar a colaborar! O preso olhou o esbirro com olhos de raiva e de ódio.! Alucinações frequentes. ameaçador. as paredes deslocam-se..

vinha um 215 .magnífica. mais um passo ansioso e .. O vigilante calou-se.... O café da noite tinha um gosto esquisito. aparentemente indiferente aos dramas vividos ali no monte de Caxias. Todas as noites. deixando passar um pequeno jorro de luz do pôr do sol. única saída para a liberdade urgente.. semiaberta. A cabeçada fez despertar da semi-inconsciência.” Passa o tempo a olhar para o preso. pouco antes da mudança de turno. onde a vida continua. só abre a boca para ditar ordens e regras.. Quem dera poder dormir um pouco!. pam! Uma tremenda pancada com a cabeça na portada de madeira da janela gradeada. acima do mundo. o cérebro está tão sobreexcitado que não há botão para o “desligar”! Apenas conseguia descansar um pouco com a cabeça nos joelhos e mil pensamentos agitavam-se contraditórios. não conseguia adormecer. Ao fim de quatro dias de privação do sono.. já lhe disse! É a voz imperiosa do “pide-vaidoso” que botou mais bazófia na hora da rendição: “Já tenho encontro marcado para esta noite com uma do 1º andar!. com raios que ofuscam e obrigam a tapar os olhos com o braço. mentecapto. por isso bebeu só uns goles. com ar arrogante e meio imbecil. impressionado com aquela das “funções fisiológicas”. mas não consegue meter medo como seria certamente o seu desejo: ─ Na casa de banho são só cinco minutos! Não quero que vá para aí dormir! ─ As funções fisiológicas não têm relógio de controlo! Mesmo que tentasse. a alucinação foi vencida mas ficou uma sensação atroz de frustração: “Quem dera estar lá fora a apanhar este sol de Inverno afagando a pele!. O preso avança às cegas para um precipício. sobre o rio..” ─ Afaste-se da janela. além do oceano.

─ Isso é porque está a dormir quando cá venho. já não sabia bem há quantos dias estava naquele sofrimento: “Meu Deus. vamos é saber da sua disposição. sem querer.. ─ Interessa. conversar!. Sabia bem aquela bebida quente. vindo não sabia de onde..sujeito com um púcaro de esmalte onde deitava o café de uma cafeteira fumegante. Estava a chegar o Inverno! O solstício estava próximo: “Mas que dia é hoje? Quantos dias já passaram? Quatro ou cinco?” À confusão do espaço. fazia frio à noite. estou a enlouquecer!” Deve ter falado em voz alta. daí as alucinações. juntava-se a confusão do tempo. ─ A dormir? Deve estar a gozar! Que dia é hoje? ─ Também não sei. quase euforia.. o ambiente na sala de tortura do reduto norte estava desagradável. embora os polícias garantissem haver aquecimento central. Como entrou? ─ Ora! Estou cá todos os dias. A falta de descanso do cérebro. Desta vez fora particularmente simpático: ─ Quer mais cheio? ─ Está bem assim.. juntando-se agora a confusão espacio-temporal.. sim senhor! Preciso de saber há quanto tempo deixei a guerra. obrigado. produzia a perda da noção tridimensional. calha bem!. não me tem visto? ─ Nunca mais o vi desde a chegada. com as paredes a afastarem-se ou a caírem. Hoje é o primeiro dia de Inverno. ─ Ah! É você! Há dias que não o via. não é? Sentia uma tremenda excitação. 216 .. Mas isso não interessa. apetecia-lhe conversar. apareceu na sua frente o “pide-católico”: ─ Evocar em vão o santo nome de Deus é um sacrilégio! A menos que seja um homem de fé!?. porque de repente.

. contava todos os pecados.. Mesmo à luz fraca da lâmpada viu-se ruborizado até à raiz dos pêlos na calva ruiva. não estou a par! Mas. qual buraco negro suspenso num universo de angústia e pavor. Mas talvez mereça mais consideração dele que certos homens bons católicos.─ Não sei. a sala alongava-se num corredor onde portas metálicas se abriam e fechavam com sons aflitivos. já nem sei! O “pide-católico” pareceu hesitar.. também foi à guerra? Os católicos têm um mandamento: não matarás! ─ Também os comunistas como você. ─ Se fosse um homem de fé confiava em Deus. ─ Você é um grande sacana! Está aqui a enganar-nos a todos! Mas desta. Deixou de ser pacifista? ─ Fui à guerra por minha decisão e da minha companheira. ─ Você. nem o Deus em que não acredita. que não me deixam dormir há quatro ou cinco dias. não é verdade? ─ Sempre fui pacifista. desde pequeno que não gosto de guerras! Quando havia batalhas entre a malta vinha-me embora! ─ Mas agora foi à guerra mandado pelo Partido. um homem católico.. “Mas porque estive a falar com este gajo da PIDE?”… ─ Sentia217 . A alucinação recorrente mostrava um caminho escuro. Já temos uma filha!. resolvia a situação e ia ter com a família! ─ Evocar o nome de Deus. fazem agitação contra a guerra. dizem-se pacifistas. e no entanto vão lá. ninguém me mandou.. sabe. onde a lâmpada mortiça suspensa a meio era agora o centro de um vórtice sugando tudo à volta. o safa! Desapareceu tão misteriosamente como tinha aparecido. não respondeu logo. foi uma força de expressão. em Angola!?.. também estive na guerra. por onde vultos furtivos se escapavam. sumiu nas trevas da sala mal iluminada.

O receio de adormecer e sobressaltar-se com a pancada terrível no tampo da mesa. restam longos períodos de prostração e dúvida: “Se dissesse alguns nomes talvez me mandassem embora. atarracado e brutal: ─ Ainda cá está? Já lhe trato da saúde! Bendita imbecilidade que faz despertar a consciência embotada pelo sofrimento.” martelava-lhe o cérebro doído. * Desta vez o “senhor inspector” não compareceu ao fim da tarde.” Mas eis que começa o turno do “pide mau”. O cansaço e a sobreexcitação do cérebro inibem o sono.. A terrível solidão de horas e horas de pensamentos dilacerantes. ─ Sentado na sua frente já está agora outro carrasco que todos os dias vem fazendo o papel de “bom”: ─ Diga o que sabe. impedido de dormir há muitos dias. Por agora as dúvidas foram vencidas. por estar para ali a falar com aquele carrasco.. enfraquece a vigilância e diminui a vontade. faz ultrapassar o período de fragilização. senhor João! Porque está aqui a sofrer? Conte tudo para ir ter com a família. Restava uma angústia enorme e uma tristeza infinita: “Não vou conseguir aguentar.se tremendamente deprimido e desesperado consigo próprio. tantos que tinha alucinações tremendas. Nem o chefe-de-brigada. ninguém! Parecia terem esquecido o preso. o “moinho” continua o movimento triturante num tempo sem espaço.. ─ Cale-se! Cale-se! 218 . não vou!..

há muito que acontecera a rotação do “moinho”. e agentes) parecia ter-se clareado a luz ambiente. ou seria apenas a mente mais desperta? ─ Encontrámos documentos comprometedores em sua casa. quando a revolução esmoreceu). comprometido. Fizera a tropa em Moçambique e fora depois para ali. Calou-se o agente de cara redonda. com a entrada triunfal do inseparável séquito. quase euforia. segundo dizia. em períodos alternados com uma enorme tristeza e prostração: “Ah! Já percebi. SETE DIAS DE TORTURA DO SONO A quinta noite de tortura do sono reservava outra experiência dolorosa. quando Adelino Tinoco apareceu com um ar muito “zangado”. Depois de dias e dias de sevícias tendentes ao esmagamento da 219 .. O preso sentia outra vez uma enorme excitação. (inspector.. ligados ao Partido Comunista. anos mais tarde. Há muito tempo que temos referências suas e também da sua mulher! Se não explica tudo isto rapidamente.Ficou surpreendido o pide nascido em Lisboa. por não ter arranjado melhor!. Passava largamente da meia-noite.. Era a desculpa do costume dos torcionários cobardes que se borraram todos na hora da libertação em Abril. (mas ficaram quase todos bem na vida. chefe-de-brigada.. vamos buscá-la para esclarecer. agitando na mão papéis não identificáveis na obscuridade da sala. em Alcântara. SEIS. Um tremendo impacto deixa o detido completamente aturdido. e assim ir-se-ia sentir até ao fim da madrugada. Facto curioso. o coração acelera de forma tão violenta que as pancadas devem ser audíveis na sala. o café! Os bandidos puseram qualquer droga no café!” CINCO.

. ─ Se os documentos não são seus. despedaça-se o coração! Estão a fazer chantagem psicológica. quando acrescentou: ─ Não tenho mais nada a dizer! ─ Pois não que não tem! Não sai daqui enquanto não contar a história toda! ─ com um sorriso sádico o chefe Cavaleiro fazia agora o resto do 220 . aproveitando o facto de o preso não ter contacto com a família há mais de um mês. Nascia um estranho sentimento novo. pavor. quase gritava num acesso de raiva e de desespero. medo! Dúvidas dilacerantes do preso. e desespero por se ter deixado enredar nas malhas tecidas pelos esbirros do império.. não teremos outro remédio senão trazê-la! ─ insistia manhoso o tenebroso inspector da PIDE/DGS. misto de revolta e de desalento. se não vamos mesmo buscá-la! Talvez seja menos teimosa!. Que angústia! Que aflição! É insuportável a ideia de prenderem a doce e carinhosa companheira.vontade. ─ Eu assumo a responsabilidade pelo que está em minha casa.. não posso!. subindo pelo peito até ao cérebro. A minha mulher não tem nada a ver com isso e tem uma filha para criar! ─ Ah! Confirma então ser membro do Partido Comunista! Finalmente estamos a entender-nos! Conte tudo então direitinho. os esbirros provocam uma situação de desorientação e de pânico iminente. a aprofundar a angústia dilacerante. 21 ou 22 de Dezembro? Que papéis são aqueles na mão de Tinoco? Terão apanhado de facto alguma coisa? Confusão.” ─ Sou membro do Partido Comunista Português! A minha mulher não tem nada a ver com isto! – o preso torturado física e psicologicamente. manhas experimentadas da polícia.. Raiva. pela impotência perante a situação. Que dia seria hoje. mas como sair desta situação terrível? “Encostaram-me à parede! Não posso deixar que prendam a minha companheira.

O inspector Tinoco retirara-se impante. a investigação ia no “bom caminho”. tenta agarrar--se e desfalece num semidesmaio sem perder completamente a consciência. desdobrando-se o primeiro em ameaças e o segundo em ofensas. o “vaidoso” e o “atarracado”. A respiração pela boca torna-se ofegante.papel sujo. em pé horas e horas a fio. o que proporciona um precioso alívio: ─ Saia do pé da janela. lançando um olhar de desprezo tal que o pide não disse mais nada. eu logo lhes dizia!. Sem cadeira para se sentar. desritmado. entrado a meio da tarde. não tem educação! Não sabe que nas mesas não se “senta-se”! O torturado cambaleia. agarrando-se por momentos aos taipais de madeira da janela. atingiu um estado de insensibilidade auditiva àquelas baixezas. Pânico! ─ Preciso de um médico! Preciso de um médico! 221 . já lhe disse! Se insiste. Apetece-lhe vomitar. a tortura do sono ia continuar.. os pés começaram a inchar: “Se se sentar. vêm abundantes suores frios e sente o coração a fraquejar. O preso caminha encostado às paredes. julgando-a mais distante. desfaço-o a murro! Agora só fazem serviço os pides “maus”. desfaço-o a pontapé!”. os comunistas de merda. sob constantes ameaças dos pides. lhe prega um violento empurrão: ─ Cabrão.. como você. bate desamparado contra a parede. uma tontura tremenda fálo encostar-se à mesa e logo o agente mal-encarado. eram todos fuzilados! A fazerem a propaganda dos “turras”. sai da dolorosa convulsão do estômago um líquido viscoso esverdeado pois já mal toca na comida. ─ Comigo. O detido já não liga às provocações. na lógica policial de explorar ao máximo a brecha aberta. há muito perdera a perspectiva tridimensional.

Demorou-se a observar atentamente o depauperado prisioneiro: ─ Então!? Pediu um médico? … Acabe o que começou e levamo-lo ao seu médico.. gente de excepcional coragem. já meio recuperado. mas com os pés cada vez mais inchados. O senhor inspector não tarda aí! Que quereria dizer com “levar ao seu médico?”.O pide agressor ajuda-o a levantar-se. Sim. Talvez inventando uma história com qualquer coisa de verdade à mistura.. recebeu a visita do “chefe” Cavaleiro.. Mas o que pode fazer a família nesta situação? Ainda são capazes de “prender-me” a companheira! Tenho de sair disto. conhecia as histórias de camaradas mortos nas torturas.. claro. a confusão.. mas nem todos tinham essa fibra. Ah! Se pudesse saber que a companheira. quem vai preocupar-se com o que me acontecer? Bom. Não há milagre. talvez. o medo e o cansaço geravam a desorientação: “Estou aqui isolado do mundo. é ainda um homem novo. exactamente o pretendido pela polícia política com a tortura continuada e o completo isolamento.. Muito tempo depois. hoje celebrados como heróis.. não tem o traquejo dos “duros”. Estava sinceramente assustado. ─ Sofro do coração. arranjar uma forma de sair daqui sem comprometer os camaradas. Sentia-se verdadeiramente mal. firme e 222 . corro perigo de vida! ─ Também eu! Até tenho de ser operado!. a família!. entregue àqueles abutres prontos a saltarem-lhe em cima da carcaça. parece ter ficado preocupado com o aspecto do preso. com uma expressão cínica aprendida com o superior hierárquico.. ou simplesmente ficou assustado perante a hipótese de um desenlace grave: ─ Tenha calma ! Vou comunicar ao chefe-de-brigada.!” Perdia pouco a pouco a confiança em si próprio e nos outros.

mas isso depende fundamentalmente de si! Certamente por imperceptível indicação do superior.. ─ Se dependesse de mim já me teria ido embora! De tão evidente a frase parecia irónica e dita de forma tão honesta que os polícias esboçaram um sorriso. torturador requintado.. se me acontecer alguma coisa os senhores serão responsabilizados! ─ sentia uma raiva e um desespero enormes. ─ Sofro do coração. ─ Então. fascista . por isso o protesto-advertência saiu com tal força e convicção que o próprio se surpreendeu e o superior da PIDE acusou o toque: ─ Calma! Calma! Não queremos que lhe aconteça nada.determinada. hipócrita. com o ar mais angelical do mundo. queixou-se do coração e diz precisar de um médico?!. um atestado-declaração em como a sua vida correria real perigo se não fosse devidamente assistido! Foi um acto de verdadeira dignidade profissional e deontológica. o “senhor inspector”. o inspector terminava a conversa com o mesmo ar cândido inicial: ─ Mas pode ir embora quando quiser! Basta contar-nos tudo! ─ Não tenho mais nada para contar! Apetecia-lhe chamar cínico. carrasco. jamais olvidado. o agente de serviço devolvera a cadeira onde o preso se sentou extenuado. criminoso. Não tardou de facto. Devido ao cansaço. todos os nomes que definiam aquele títere do regime. torcionário. Na tarde do 6º dia. o mesmo que em adolescente lhe detectara um pequeno problema cardíaco. poupando energias. ontem ao 223 . nazi. embora verdadeiramente ameaçada. canalha. até porque na altura outros apoios foram recusados. o cérebro despira-se de constrangimentos e raciocinava de forma mais simples. chantagista. nem parecia o mesmo esbirro de há umas horas atrás. tinha obtido do “seu” médico e amigo. facínora.

parecem-lhe gritos familiares.. com períodos de longa prostração e de pensamentos sem nexo. com esgares de riso. Os pés tinham inchado de tal maneira que não podia voltar a calçar os sapatos. nem com coragem para suportar a provável violência punitiva. ─ Já sabe! Quando quiser mande-me chamar. Este pensamento produz uma angústia terrível.. sem interferir. mas este fez-lhes um sinal de aquietação. O pide mantém-se mudo e quedo na sua cadeira. pondo em grande aflição o detido que interroga o agente de turno com veemência: 224 . Já não conseguia levantar-se. gritos de mulher!.. a qualquer hora do dia ou da noite. tirados para massajar depois de lhe terem devolvido a cadeira. De repente. já percebera (sabia de experiência feita!) que o preso “estava. caminha na hipotética direcção dos sons que estranhamente cessam tão repentinamente como começaram. : “Prenderam a minha companheira!”. o coração desritmiza-se. a olhar interessado. Descalço. no terrível silêncio da 6ª noite de tortura. Todavia não se sentia com forças para uma altercação acesa.. estava atrás do chefe pronta para saltar. como se se ausentasse de si próprio e o corpo não lhe pertencesse. mas não estava”. não dizia nada. A matilha de macabéus e hienas. o prisioneiro especado no meio da sala com ar desorientado e apreensivo: “Serão alucinações auditivas?” Por mais duas ou três vezes ao longo da noite os gritos repetem-se. o peito sufoca. que orientava superiormente toda esta actividade tenebrosa da PIDE/DGS copiada da Gestapo de Hitler.serviço de Salazar e agora de Caetano. “unha com carne” com o director Silva Pais. ouvem-se gritos humanos lancinantes. Até o agente de serviço já não implicava. trago um médico comigo!. O torturado levanta-se em grande sobressalto. e se for preciso.

Ganhara forma no cérebro. O pide de serviço.─ Não está a ouvir? São gritos. 225 . o 7º dia da tortura e da desconstrução de um mundo de generosos ideais e de sonhos de esperançosa juventude. Estranhamente já não tinha manifestações truculentas. muitos camaradas e amigos puderam continuar a dormir descansados. onde factos reais eram protagonizados por figuras ficcionadas. uma história de comunista já assumido. Muitos. nas longas fases depressivas. limitava-se a observar atento o arrastar doloroso dos pés descalços e disformes do depauperado prisioneiro. Não tardou a visita habitual do inspector Tinoco com o ar seráfico de quem não faz mal a uma mosca ( mas é capaz das maiores crueldades sobre os humanos!. frio. cinzento.. A PIDE aceitou a história. contra o que era habitual. alguém pede socorro! ─ Como? Não ouvi nada! Isso é da sua cabeça! Madrugada e alucinação ou mentira programada? Parece virem através da parede. abriu cedo os taipais por onde entra uma luz coada.). obrigando a manter a lâmpada acesa: ─ Importa-se de abrir os portais totalmente e fechar a luz eléctrica!? ─ o vigilante baixote aquiesceu espantado com a convicção. e outros inventados com gente há muito inequivocamente afastada do País. produzindo um efeito devastador e tornando urgente uma saída para a situação: “Ou morro ou enlouqueço aqui!” * Amanhece o dia 23 de Dezembro de 1972. sem sol (ou ainda não terá nascido?)..

DO CHILE À TRAFARIA COM LÁGRIMAS 226 .8.

saíra às oito da manhã do reduto sul de Caxias.NO PLENÁRIO DA BOA-HORA Foi um julgamento memorável. amigos. no contexto intimidatório que rodeava a sala de audiência. assegurada a título solidário pelo advogado Manuel. entre familiares e amigos. Sobre estes causídicos. ocupando as primeiras filas e todas as laterais das restantes. milhares de portugueses. A carrinha celular especialmente adaptada com vidros aramados e portas reforçadas. Das primeiras. recaía o ódio da PIDE/DGS que não raro descarregou sobre muitos a sua ira: ─ Outra vez o doutor Manuel de serviço aos comunas? Anda a abusar! ─ o diálogo entre os dois agentes de segurança no transporte do preso de Caxias para o tribunal. professores) e as duas testemunhas de acusação (dois pides). antes da admissão controlada de vinte assistentes no máximo. com um condutor-polícia sempre calado e dois agentes muito animados a transmitirem avisos: 227 . A sala do Tribunal Plenário da Boa-Hora era preenchida por bufos e arregimentados. e da pressão que o regime exercia sobre quem se dispunha a enfrentar a prepotência e a arrogância do procurador Costa Saraiva e do juiz Morgado Florindo. defenderam em tribunal. a título gracioso. homens e mulheres corajosos e íntegros que durante todo o regime de 48 anos de ditadura fascista-colonialista. O ambiente era propositadamente tenso para afastar os apoios e intimidar o réu e a sua defesa. para serem ouvidas todas as vinte testemunhas de defesa (colegas. fazia-se de propósito em voz alta. corajosas. repartido por várias sessões. houve intervenções brilhantes.

Centraram-se à volta da denúncia da guerra colonial. caso raro. ─ Mas estamos em Portugal e não num julgamento em Inglaterra! Se não corrige o vocabulário termina as alegações imediatamente! A seguir o réu centrou a intervenção nas torturas físicas. fingindo ignorar o detido. psicológicas e morais e na chantagem sobre a família. Riram de forma alarve. ─ É assim que os ingleses denominam os seus territórios nos livros de História Universal! ─ esclareceu o réu com sapiência.. quando substituíu as respostas contraditórias pelas ameaças ao advogado de defesa. durante sete dias e seis noites sem dormir. sofridas no reduto norte de Caxias às mãos da PIDE. grossos “cachuchos” nos dedos de cor igual aos aros dourados dos óculos. tinham sido cuidadosamente preparadas no colectivo da cela. não tem colónias! ─ interrompeu ríspido o juiz desembargador Florindo.─ Qualquer dia acontece-lhe como ao outro doutorzeco. sem se vislumbrar uma solução militar possível ou uma saída pacífica como fizeram outros países com as suas colónias: ─ Portugal tem províncias ultramarinas. O próprio juiz o admoestou. à saída de casa cai-lhe uma viga em cima e pronto!. uma terrível desgraça para a juventude portuguesa. anafado e exibicionista no fato de fantasia. Esta figura sinistra iria acobardar-se e meter os pés pelas mãos. morta e ferida aos milhares há mais de 10 anos. O pide-chefe da viatura tinha um ar trauliteiro. mas falando em voz alta e explícita. quando foi apertado como testemunha de acusação. seco de carnes e cenho ruim. durante os meses em que viveram em comum no regime concentracionário do reduto sul de Caxias. com o Carlos e o Pedro. As alegações iniciais e finais do réu. pelo doutor Manuel.. 228 .

É só fazer as contas ao tempo que estive no reduto Norte. proveniente da Beira.. a interromper o réu. com uma pena de prisão remível a multa. Ao fim de três sessões. onde eu nunca tinha estado antes. que lutavam pela liberdade. SOLIDARIEDADES Ser solidário não era fácil naquele tempo de trevas e grilhetas.. às 16.00h do dia 23 de Dezembro. estará decerto o meu nome no voo que chegou a Lisboa. a sentença constituíu uma pequena vitória. era rancoroso.. dos “crimes” forjados pela PIDE/DGS nos antros de tortura e morte. Embatucou o procurador do Ministério Público. senhor doutor! Nos registos da TAP. abro-a agora para sair! ─ dito com uma raiva mal contida significava a PIDE não ter ficado satisfeita. ─ agora era o acusador público. além do mais. torcionário encartado que conduzira o processo de tortura e levara o preso à barra do tribunal: ─ Abri-lhe a porta para entrar. Costa Saraiva. O fascismo. que durante anos se prestou ao miserável papel de acusar os presos antifascistas. ─ É fácil comprovar. Nos registos da prisão-sul de Caxias. na sala de interrogatório!. iriam manobrar para o processo persecutório ser retomado em breve. perante o evidente desagrado do chefe-de-brigada António Cavaleiro.. como se alguém aguentasse sete dias sem dormir!. há-de constar a minha entrada cerca das 20.00h do dia 16 de Dezembro de 1972. com permissão do juiz. 229 .─ A PIDE já não existe! A Direcção Geral de Segurança alega nos autos que prestou declarações de livre vontade! Os senhores vêm aqui sempre com a mesma conversa.

os amigos José Lucas. mas todos estiveram à altura de mostrar que não se é criminoso por se lutar pela liberdade. Manuel Felizardo. Enfrentando os fantoches de toga ao serviço dos esbirros. Na vivência dos dias ruins atrás das grades do Forte-Prisão de Caxias. Por isso a coragem e a dignidade dos que testemunharam no processo do futuro ex--furriel miliciano. 230 . Zaida.Testemunhar a favor de um “perigoso” agitador subversivo contra a segurança do Estado. as testemunhas abonatórias no Tribunal Plenário. Vicente Bolina. Maia. algumas intervenções foram particularmente conseguidas. contra a guerra e por um futuro de paz e amizade com os povos africanos. Eduardo Fernandes. Fernando Fragoso. Os colegas de escola e também dirigentes associativos. Joaquim Brito e Miguel de Sousa ( com o relatório médico) ficarão para sempre no coração e na memória de um período negro tornado menos ruim pelo calor da solidariedade e da fraternidade de tanta gente boa. * A grande solidariedade antifascista aumentava à medida que se refinava o sistema repressivo. tal era a acusação. fazia recrudescer o ânimo e a coragem para enfrentar o tribunal dos inquisidores e próceres do fascismo. O apoio necessário vinha da família. Suzel. a nesga do rio da infância correndo ao fundo da encosta. os antigos colegas Baptista. Eugénio Torres. Conduto e Pimenta. José Caria. os professores Dias Agudo e Simões do Reis. embora restassem ainda muitos e de muito sofrimento. ficavam fichadas na PIDE/DGS como “simpatizantes comunistas”. No mínimo. ficarão registadas para a posteridade. poderia causar “transtornos” nos locais de trabalho privados e sérias retaliações no emprego público. Hélder e Ventura. sendo um sinal de que o regime tinha os dias contados.

onde não faltava uma estrelinha a brilhar na certeza de que outros viriam melhores. cidade dormitório às portas de Lisboa. organizado. com a ginástica no recreio matinal (meia-hora). onde coexistem casas antigas de um primitivo núcleo histórico. em rápida expansão. a discussão em comum e a partilha dos bens materiais. lá foi respondendo de forma um pouco acintosa: ─ Vá até ao fundo desta rua e vire à direita. não há 231 . que encheu o dia-a-dia. quase vazio no início da manhã. fraternal e dinâmico. porque mesmo na prisão podem os homens fazer-se melhores. a reflexão. Não existem placas indicativas no burgo em reconstrução na década de 70. Em Caxias partilhavam-se os dias difíceis. com obras no largo da estação onde chega o comboio que parte do Rossio. cruzando-se com vários outros apinhados em sentido oposto. o estudo.da companheira determinada e firme dos pais trabalhadores honrados. com algumas construções modernas de duvidosa harmonização. os arranjos urbanos estendem-se às ruas limítrofes da praça central. Desfazendo por fim o ar de admiração. por favor! Diz-me para que lado fica o Regimento de Infantaria nº 1? Deve ter parecido algo estranho ao transeunte alguém fardado a perguntar pelo quartel da tropa. Durante os meses de cárcere foi a camaradagem e a convivência do pequeno colectivo da sala. disfarçando a saudade. REGIMENTO DE INFANTARIA Nº 1 Amadora. aplacando a angústia e educando o espírito. ─ Bom dia. dos amigos solidários que arranjaram o dinheiro da multa no dia da sentença final.. AMADORA. vê logo o quartel.

A tarde em vésperas de Verão estava magnífica. bordado a ouro e esperança de melhores dias. faz favor! ─ instar a assinatura sem deixar ler o conteúdo. Estou há uma semana em casa à espera! ─ É o que diz a comunicação via rádio recebida no posto há menos de uma hora! Assine aqui . ecoara com fragor: ─ Pam! Pam! Pam! ─ Já vai! Quem é está com pressa! ─ é o comentário habitual do progenitor. pai! Eu trato disso! De um salto interrompera o repouso. era próprio da conduta prepotente das forças militarizadas. situada numa magnífica frente para o rio. na Amadora. o desemprego na grande indústria. Durara pouco a liberdade vigiada! * A apresentação directa ao comandante da unidade. indicada no 232 .. o rio era um espelho plano e calmo. ─ Mora aqui fulano de tal? ─ Sim! Sim! Mas. com caras de poucos amigos. mãe e madrasta. adivinhando a má nova e o destino ruim.. Um cabo e um praça da GNR. a recuperar dos longos meses de cárcere terminados há poucos dias. o batente de ferro da casa térrea. exibiam um documento branco sem o entregarem: ─ Deve apresentar-se imediatamente no Regimento de Infantaria nº 1. interrompendo contrariado o trabalho artesanal a substituir como último recurso. ─ Deixe estar.. senão será considerado desertor! ─ Desertor?!. indiferente aos dramas dos homens.que enganar! * Na tarde de meados de Junho de 1973..

se tinha levantado para o receber. João ficara perplexo desde o primeiro encontro.. ─ Andamos à sua procura há oito dias.. ─ Não entendo qual será o conteúdo do processo disciplinar. será ele o instrutor do processo disciplinar que lhe foi instaurado. tudo era diferente naquele homem de idade madura. esse cretino!. Tratando-se de um tenente-coronel era algo de espantoso. pensávamos já não o encontrar! ─ Estive sempre em casa.. ─ Firmeza e olhos bem abertos com esse oficial sabujo! De resto. A sua vivacidade a tratar os assuntos do quotidiano. a humanidade com que lidava com os 233 . é um cepo redondo com dois olhos. sobretudo quando não têm a ver com esta unidade. gordinho como era da praxe. meu comandante? ─ As determinações vêm directamente do Ministério do Exército. O capitão Luís. meu comandante! Só ontem à tarde recebi a convocatória pela GNR. Apresente-se ao capitão Luís! Boa tarde! ─ Então o instrutor do processo é o capitão “Bolinhas”? Teve azar. Espero que esteja disposto a colaborar com o nosso oficial de justiça. entre! Fique à vontade! ─ desfeita a continência um pouco atabalhoada.gabinete do oficial-de-dia. − dissera o oficial de carreira de estatura média e trato simpático e frontal.. era a completa negação da imagem estereotipada dos oficiais do quadro permanente. reparou que o militar alto e de aspecto aprumado.. ─ Entre. oficial do SGE. enquanto estiver aqui connosco fique à vontade. ─ Sabe?!. Começará a ser ouvido amanhã e ficará adstrito ao Batalhão de Adidos. Não queremos criar problemas a ninguém. já fui julgado e condenado em tribunal!?. até aí conhecidos. ─ Processo disciplinar.. era preocupante e inabitual.

gerava uma nova expectativa. eu sei! É para acabar com estas situações que o oficialato novo se está a juntar. que o fim do regime da ditadura já não vinha longe! “Finalmente!”. com um processo em que o inquiridor-oficial melhor teria sido oficial de diligências da PIDE! ─ Connosco está bem! Junte-se aí ao furriel Afonso e se tiver alguma coisa para estudar aproveite o tempo! ─ franqueava o capitão Luís. ─ Há pouco tempo esteve cá um colega seu. Mesmo conhecendo mal a dimensão da conspiração. também com um problema militar complicado por razões políticas. intuía com reprimida alegria na alma. repetia-se ao princípio da manhã. deixava os interlocutores espantados. Todos os dias desde a primeira vez. embrulhado em “maus lençóis”. com uma palavra amiga para o jovem miliciano. Isto não pode continuar assim por muito mais tempo! ─ Deus o oiça.. capitão Luís! ─ Deus e estes governantes! Tratando assim a juventude empurram-nos para um beco sem saída. com o nosso apoio! Ouvir falar claramente da movimentação de oficiais em embrião. formado em Direito. 234 . gritava-lhe o coração num sussurro de voz simultânea. e a forma desassombrada como abordava os temas tabu. a viagem e a cordial recepção do “bom” capitão. ─ Eu sei.problemas de tanta gente atrapalhada nas teias burocráticas do militarismo. em lugar de negociarem uma solução política! ─ Por dizer algo parecido fui preso e condenado!. O veterano militar (já estivera em três comissões!) adiantava alguns pormenores do movimento em início dos jovens oficiais do quadro. A guerra não tem solução militar e os dirigentes da Nação entretêm-se com questões disciplinares..

. Tomara eu!. o que. convém chegar um pouco antes! Assim se iniciou um contacto diário. furriel “estacionado”. ─ Óptimo! Isso resolve o problema de regresso. ando a pagar viagem a viagem!.. conhecido da adolescência e que lhe ensinou alguns truques de sobrevivência naquele meio corporativo. Há um autocarro militar que sai às 17h30m e pára no Terreiro do Paço.Não tinha. não constituía dificuldade. A classe tratava-se bem cá no continente! Uma tarde encontrara por acaso o conterrâneo Acácio. comparando com a experiência no “teatro de guerra”. em que estava sinceramente empenhado e para o qual gostaria de companhia: ─ Se quiseres arranjo-te os livros de Matemática e Sociologia e estudamos os dois?! Passavam a manhã a resolver problemas de Matemática do 7º ano do Liceu. tristezas e expectativas. já naquele tempo com algum trânsito pelo meio. mas não se comia nada mal. 235 . * O almoço na messe de sargentos não era sempre canja. deu para partilhar mágoas e esperanças.. ─ Os “chicos” são iguais em todo o lado mas aqui estão mais descontraídos e têm mais mordomias. ─ Parte do jardim em frente ao Comando. ─ Pá! Para ti vai ser “canja”. mas em breve o camarada convenceu-o a preparar um hipotético exame de admissão a “Económicas”. para quem tinha um curso de engenharia. ─ o futuro atribulado nunca permitiria tal desiderato.. em que o tempo da viagem da Amadora até Lisboa.

se se recusa a responder terei de dar as acusações como provadas! ─ Se o problema é inventar matéria para acusação. as acusações constantes do “despacho de pronúncia” elaborado pela PIDE/DGS para o tribunal. organizou e participou na agitação subversiva? ─ Fui julgado em Tribunal Plenário com base nessas acusações! Ninguém pode ser acusado duas vezes pelos mesmos acontecimentos! ─ Mas confirma ter recebido orientações do chamado Partido Comunista Português.Qualquer dia! * ─ Na Escola Prática de Infantaria em Mafra. foi retomado na semana seguinte por imposição legal. para “virar o disco e tocar o mesmo!” ─ Praticou ou não os actos de agitação de que está acusado? ─ Como já declarei. ─ o Acácio parecia nervoso e agitado. ─ Bom! Ainda está muito quente. deve ter sido complicado!?. fazia a encomendada inquirição com zelo policial. foram obtidas sob 236 . damos a fase de inquérito por concluída ! Pode retirar-se! O processo disciplinar dado por concluído ao fim da primeira semana pelo inenarrável capitão “Bolinhas”... redondo de aspecto e de alcunha... indiferente e surdo aos argumentos do inquirido. para efectuar com outros a referida agitação? O capitão do quadro. ─ Não respondo a acusações pelas quais sofri na PIDE/DGS torturas físicas e psicológicas durante sete dias e seis noites sem dormir! ─ Estou só a cumprir os parâmetros do processo disciplinar. basta copiar o “despacho de pronúncia” da PIDE! ─ Se não quer colaborar. então não vale a pena perder tempo. em Dezembro de 1971.─ Tens de me contar essa história da passagem pela PIDE.

Depois chamo-o para assinar. sufocava-se no interior da camioneta. acontecera estar o autocarro à espera cinco ou mais minutos por algum dos “lateiros” atrasado. Não ficaria por aqui. Isso não pode recusar. falta um companheiro de viagem. algumas caras de sargentos voltaram-se para trás e parecia terem reparado pela primeira vez naquele furriel alto e magro que. se sentara num banco traseiro. por isso não são válidas e não têm nenhum valor. dando como provadas as acusações. nos dias tal. ─ Isto é um veículo militar. Denunciei isso no Tribunal Plenário! ─ Bom! Bom! É melhor ficar por aqui. Certamente por isso. o soldado motorista fez orelhas moucas continuando 237 . o senhor não quer colaborar e o processo já está instruído. estivesse. o processo-fantoche. Era curioso. e tal. deve estar a chegar! Apesar de utilizar aquele meio de transporte há mais de um mês. senão tem faltas injustificadas. eram uma intolerável provocação: ─ Não assino esses papéis tal como estão redigidos! ─ Não tem importância! Basta que assine esta folha de rosto em como esteve presente na fase de instrução.tortura. ─ Quem não está. ─ Só mais um minuto. Por mais de uma vez. O horário é para cumprir. cozinhado à moda do militarismo fascista e instruído por um diligente oficial comprometido. Os documentos apresentados para assinatura. já o mês de Julho ia avançado. não é um transporte público. porém. cortam-lhe o vencimento e tem outro processo disciplinar! * Naquela tarde. como mandavam as regras tropeiras. Chegaram as cinco e meia e o Acácio não aparecia.

onde costumava aparecer o jovem de média estatura. todo o aparelho militarista assentava em profundas desigualdades institucionalizadas. Acácio da Silva”. ─ Parta imediatamente senão mando-lhe instaurar um processo disciplinar! ─ berrou um sargento barrigudo.o compasso de espera solicitado. é furriel! Qualquer coisa da Silva. contava-se à boca pequena ter a PIDE estado na tarde anterior no quartel a efectuar uma detenção. ruivo e sardento. vem aqui na “Ordem do Dia”: “Afim de ser presente à Direcção Geral de Segurança. Por isso o Acácio não aparecera na viagem do fim da tarde anterior! 238 . ª. o furriel miliciano. Angústia e constrangimento! As regras do jogo continuavam as mesmas. Sobressalto! Pressentimento! ─ Como se chama o soldado detido? ─ Não é soldado. por determinação de S. o “chefe da viatura”. na secretaria dos “Adidos”. O soldado condutor olhou pelo espelho interior e encolheu os ombros como que a dizer não poder fazer mais nada. entrara no quartel e prendera “in loco” um militar fardado. o Director da Repartição de Sargentos e Praças. Uma última olhadela para a porta do modelar edifício do comando. foi passado à disponibilidade e posto à disposição daquela Direcção Geral. sob a acusação de desenvolver actividades subversivas contra a segurança do Estado. Era um estado dentro do Estado. a PIDE/DGS. Mas a equidade na tropa era coisa que não existia. mas não pareceu muito preocupado com as ameaças. seco de carnes e de sorriso franco. Nada! Que teria acontecido? No dia seguinte de manhã. Ex. pelo contrário. com a conivência do militarismo reaccionário.

JULHO DE 73, ALÉM FRONTEIRAS
A participação sempre voluntariosa de Ana Vinagre, arrostava um sério obstáculo familiar, porque o marido, dado a “nacionalismos ciumentos”, não gostava da sua actividade política e criava constantes problemas: ─ ‘Tás mais preocupada com a merda da política do que com as tuas filhas! ─ serrazinava o operário, retrógrado, em tom ameaçador. Não era justo, fartava-se de trabalhar na fábrica agarrada a quatro teares, e ainda vinha fazer toda a lida da casa, pois “sua excelência” não mexia um prato. Quando calhava ter alguma reunião deixava as filhas bem tratadinhas aos cuidados da vizinha Olívia, sempre prestável. Farta daquele purgatório resolveu afastar-se e colaborar mais activamente, levando as duas filhas consigo. O homem, raivoso, pôs um anúncio no jornal a badalar o desaparecimento e foi denunciar à PIDE:... “A manobra do Partido Comunista para lhe roubar a mulher e as filhas”. Operária têxtil, sempre na vanguarda das lutas na fábrica, militante entusiasta, Ana Vinagre despediu-se da CUF e resolveu emigrar para junto da irmã, em Inglaterra, para fugir àquele desvario. Com muita mágoa deixou o trabalho e os camaradas, mas lá longe, depressa descobriu que também havia muito a fazer, na denúncia da Guerra Colonial e na recolha de apoios para os presos da feroz ditadura portuguesa, que o governo de Sua Majestade não condenava e o povo inglês conhecia mal.

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* Julho era um mês muito agitado. Pelo mundo além fronteiras cerradas, ia-se sabendo finalmente da guerra que um triste país de sol e boa gente (e outra muito ruim!...) arrastava no último dos impérios africanos. O Comité Anglo-Português de Solidariedade iria viver dias de grande exaltação enquanto preparava a resposta à anunciada visita de Marcelo Caetano a Londres. Acabavam de ser denunciadas por um padre Inglês, Adrian Hastings, na “Times” de Londres (10/07/73), as atrocidades cometidas em Moçambique pela tropa colonial. A guerra desenvolvida por Portugal há 12 anos em África, começava finalmente a ser conhecida e a população da capital inglesa a ser elucidada. ─ Mário Soares virá discursar na sessão de repúdio pela visita de Marcelo Caetano. Vamos ter cá a imprensa internacional! ─ entusiasmava-se Manoel, um dos principais dirigentes do comité. ─ Mais importante que os discursos é a manifestação durante a visita, para essa é que temos de mobilizar muita gente! Como sempre, Ana, era a principal animadora do trabalho prático, fazia o contacto com a comunidade portuguesa espalhada pelos arredores, a maioria da qual trabalhava em serviços de limpeza. ─ Está certo, Ana! O protesto na rua é importante mas e o aspecto político da sessão?!... Também discursa um representante do Partido Trabalhista! ─ Com certeza, amigo! Mas se não sensibilizarmos os ingleses, quem estará lá para ouvir? Assegurados os contactos com os portugueses, a grande preocupação era chegar aos londrinos, à gente anónima e esclarecida, aos intelectuais
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progressistas e isso era mais difícil. Os ingleses já tinham dado provas de certa sensibilidade à causa dos povos das colónias portuguesas em luta pela libertação e a independência, naturalmente porque já se tinham desfeito das suas. Em 1965, na Universidade de Cambridge, após uma brilhante conferência de Eduardo Mondlane, presidente da Frelimo, centenas de estudantes tinham feito uma vigília com velas acesas no “campus” universitário, deixando admirado o célebre antropologista social. Formado nos Estados Unidos, onde era professor antes de se dedicar à causa de libertação do seu povo, Mondlane era um grande comunicador, mas havia uma evidente simpatia pelos desejos de independência do jugo colonial na África Setentrional. Ana Vinagre trabalhava em limpezas em instituições particulares londrinas, e, por este trabalho indiferenciado, ganhava o triplo do salário de operária têxtil especializada na CUF do Barreiro. Todavia a vida não era fácil, teve de aprender a língua inglesa no “desenrasca” do dia-a-dia, e adaptar-se a outros hábitos e a outra cultura. Por vezes sentia uma vontade terrível de voltar à sua terra, à sua fábrica, à sua luta… A experiência de muitos anos no meio operário, feita de tantas angústias e privações, fortalecera-lhe o espírito, dando-lhe a facilidade de relacionamento com a numerosa comunidade portuguesa e com os novos amigos ingleses das classes trabalhadoras. Foi um dos principais elos na cadeia de agitação que levaria ao protesto nas ruas de Londres, no dia 17 de Julho de 1973, de milhares de pessoas a gritarem as “boas-vindas”: “Caetano, fascista!”; “Liberdade para os presos políticos”; “Independência para as colónias!”. Era comovente ouvir simultaneamente milhares de gargantas: “Freedom”, freedom!”; “Liberdade, liberdade!”, com os olhos rasos de lágrimas do sal da diáspora.
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─ O padre Adrian Hastings tem feito um formidável trabalho de denúncia nos jornais e televisões de toda a Europa! ─ Bom seria que estivesse connosco na rua!... ─ Bem vê! Trata-se de um padre católico, tem a hierarquia... ─ Pois é! De facto é pena não termos mais padres connosco, católicos, protestantes, anglicanos. As igrejas, todas elas, estão muito longe do mundo! ─ Ah! Ah! Deixe lá o seu anticlericalismo militante. É a sua escola do Barreiro. Mas temos ainda um pequeno problema a resolver. ─ Mais problemas camarada Manoel? ─ Queremos que a Ana faça um discurso em nome das mulheres portuguesas emigrantes. ─ Eu, amigo? Mal sei português quanto mais inglês!... No dia 18 de Julho de 1973, Ana Vinagre, operária e emigrante trabalhadora em Londres, discursou para uma plateia distinta de personalidades inglesas e portuguesas, na sessão organizada pelo Comité Anglo-Português: “O fascismo e o colonialismo português que nos empurram para a diáspora dolorosa, mantém presos centenas de patriotas em Portugal, mata os nossos jovens nos trilhos de África e massacra os povos africanos! É isso que o ditador Marcelo Caetano representa, e Sua Majestade e o governo inglês ao receberem-no como amigo, são coniventes com o regime ditatorial. Exijamos o repúdio e a condenação da situação em Portugal pela Grã-Bretanha, e o fim do apoio em armamento! Liberdade para os presos políticos! Fim à guerra colonial e independência para os povos africanos!”

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PENA E CASTIGO NO FORTE-PRISÃO DA TRAFARIA
As malhas que o império tecia eram como tenazes num país de injustiças e de arbitrariedades, de guerras e de desgraças. A própria instituição militar caminhava nestes processos miseráveis, poucos meses antes do 25 de Abril. Mas há muito que os fazedores da teia tinham começado a enredarse nela, o crescente claudicar da engrenagem fascista decorria do aumento da resistência e da luta de mais e mais portugueses com coragem e dignidade, incluindo muitos militares honrados. No dia 30 de Julho de 1973 foi publicado na Ordem de Serviço do Regimento de Infantaria 1: “É punido com 40 dias de prisão disciplinar agravada, o furriel miliciano fulano de tal, porque, enquanto cadete do 1º ciclo do COM, na Escola Prática de Infantaria em Mafra, desenvolveu actividades de agitação subversiva, blá, blá, blá... Irá recolher à casa de reclusão militar da Trafaria, a fim de cumprir o castigo que lhe foi imposto de acordo com os artigos nºs tal e tal do Regulamento de Disciplina Militar”. * O tempo estava quente e luminoso, o ar prenhe de cheiro a iodo e a maresia vindo do Tejo ali mesmo à beira-fortaleza. Aqueles fins de tarde de Agosto eram um hino cantado veementemente pela passarada que livre, livre,... voava de ramo em ramo nas árvores do jardim-prisão. A natureza madura e tranquila, naquele Verão de 1973, seguia o seu curso, indiferente às angústias, esperanças e tristezas dos homens encerrados
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entre muros altos, pintados de amarelo ocre. Ténue cortina a separar a realidade vivida do lado de lá das coisas do mundo ─ também com aves chilreantes, com vistas do rio-mar Atlântico e com gente apressada no cais ─ barreira enorme e intransponível, para os que de uma forma ou de outra, vítimas do militarismo, ficavam do lado de dentro. Chegara a meio da tarde de um dia de sol, apaziguado pela brisa fresca do rio mesmo ali ao lado. A recepção na secretaria da Casa de Reclusão Militar da Trafaria, fora proporcional ao ambiente a tresandar a mofo, resultado da corrosão centenária da humidade salgada roendo as paredes, os móveis e até as pessoas de respeitáveis cabelos brancos e com proeminentes barrigas: ─ Então nosso furriel, chega a estas horas? ─ A ordem de apresentação não especifica a hora de entrada! ─ Mas o nosso furriel sabe muito bem que o dia começa às 00.00 horas! Ora são 16.30, este dia já não conta para o cumprimento do castigo! ─ Faça como entender, meu capitão! Quem faz 40 dias, também faz 41! ─ Bom! Bom! Depois logo vemos isto! Traz a família toda para lhe darem apoio moral? ─ o aparecimento em cena da esposa jovem e graciosa, fez o “milagre” da transformação machista e interesseira. ─– O sargento de serviço à porta de armas, disse que podíamos entrar. Têm instalações antigas muito interessantes, tratando-se de um forte militar!... ─ a jovem mulher com a mini-saia em moda à época, deixava os canastrões babados. ─ Ah! Sim! Sim! Pode ir visitar a ala dos sargentos, mas não demorem. Que idade tem o vosso filho? ─ o velho capitão do SGE mudara de semblante e amaciara a voz. ─ É uma menina! Fez um ano em Junho!
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─ Ah! Bom! Também tenho netos pequenos! No regresso breve as contas já estavam feitas, entrada a 6 de Agosto, saída a 14 de Setembro. Afinal o dia da entrada contava! * O “alentejano” de forte bigodaça negra, moço trigueiro de vinte e poucos anos, fazia a guarda na cancela interior, zelando para que os soldados presos não transpusessem o limite, protegendo o sossego na área do comando, não fosse o diabo tecê-las!... ─ Já disse! Ai o caraças! Preciso de ir à enfermaria ─ teimava o soldado magro, de olhos com profundas olheiras e uma palidez no rosto revelando sofrimento. ─ Não podes passar, pá! Só com ordens do sargento! ─ Vai à merda, pá! És dono disto ou quê? ─ Não sou dono, mas aqui mando eu! Tu é que és uma merda de homem e aqui não passas! O alentejano cresceu e enfunou-se como fazem os felinos. Fazia dois do outro que, lançando um olhar furibundo onde o brilho fazia adivinhar lágrimas nascentes, afastou-se humilhado e revoltado. Ao passar pelas sebes baixas do jardim, atirou um olhar ao único ocupante onde faiscava ódio e angústia, tão profundos que fez estremecer o observador. ─ Já viu, meu furriel, este gajo passa o dia a caminho da enfermaria, parece ter lá algum amante...! O furriel João, quando não tinha visitas, vinha ler para o pequeno jardim, aproveitando os raios menos agressivos do Sol ao entardecer, num momento em que tudo parecia aquietar-se, e os sons da gente apressada no cais da Trafaria desfaleciam nas altas paredes do forte-prisão.
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Casou-se! ─ Ora aí está uma boa razão para não se ir à guerra!. mostrava-se loquaz. ficou tão desvairado que foram precisos quatro homens para o agarrar! Compreendia agora melhor o olhar angustiado do soldado e nascia um misto de simpatia e comiseração. a família veio contar-lhe que a mulher andava a pôr-lhe os “palitos”! ─ Coitado do rapaz. porque quer ele ir à enfermaria tantas vezes? ─ retornava ao assunto na esperança de abrir uma brecha naquela couraça de zelo embotado. ─ tinham encetado conversa breve num fim de tarde anterior. ‘tá na cabeça! Tem os cornos pesados por isso anda doido! ─ e fazia o gesto característico em honra dos bovinos identificando os mal-amados.. ─ Foi o bom e o bonito. mas num domingo foi aí uma barraca. eram todos prisioneiros das mesmas malhas que o império colonial tecia! ─ Mas então.. 246 . desatou aos pontapés às cadeiras.. ─ O tipo está doido varrido.─ Se calhar o homem está doente e precisa de remédios!.... tentou esganá-la. A expressão de curiosidade do interlocutor animou o sulista a prosseguir: ─ Sabe furriel!? ─ baixou a voz aproximando-se ─ quando estava para embarcar para Angola foi a casa num fim-de-semana e não voltou. casado há pouco tempo e aqui preso!. ─ A doença dele é outra. e o moço de bigodão negro. ─ Ao princípio era um moitão de visitas.. Ao fim e ao cabo não estando ali pela mesma razão. mas o alentejano não se deu de achado. ─ saiu-lhe de espontâneo e logo se arrependeu da tirada.. até já cortou os pulsos para se matar!.

outras vezes experimentada pela vida fora: “Não poderia ter feito qualquer coisa para ajudar o companheiro em dificuldade?”… Daí a poucos dias.─ Então a situação é grave. fundado em colaboracionismos vários. a caminho do regresso anunciado à guerra detestada que o 247 . ─ Na cela? Como foi isso possível? ─ Dizem que se enforcou com o cinto! Nessa noite. na insónia excitada que sempre perturba os presos com ganas de libertação. inexcedível em voluntarismo e com a curiosa alcunha de “Inguila”. Contou consternado que o soldado “esgazeado”. Não abundava o estro mas as quadras tinham um sentido muito utilitário da situação. lembrando a infância e a adolescência à beira-rio. nunca mais voltara ao jardim ao entardecer. Nessa manhã clara sentia-se no ar o cheiro fresco e lodoso da maré vaza. onde sempre tinha vivido até ser encarcerado como refractário. mas o sargento deu ordens terminantes para não o deixar passar! O soldado intentou versejar ao jeito ancestral das gentes da peneplanície morena. se tinha suicidado na cela. despertando ganas de liberdade no reminiscente piar agudo das gaivotas. nem que fosse tomar conta de uma cancela para garantir a tranquilidade das “instituições” internas do presídio. A notícia surgiu brutal. entretido a contar os dias em falta para cumprir a punição. Os pequenos serviços eram sempre recompensados pelo sistema. Na euforia das visitas quase diárias quando a companheira podia. as portas do forte abrir-se-iam para a liberdade efémera. ─ Pois sim. sempre a caminho da enfermaria. rolou pela face do rapaz-furriel uma lágrima amarga de frustração e remorso. tem de se compreender. trazida pelo soldado-faxina da ala dos sargentos.

soldado magro e pálido jamais conheceria, por opção desesperada e corajosa.

DO CHILE, COM LÁGRIMAS
Na pequena sala-refeitório modestamente mobilada com mesa, cadeiras e armário da tradição militar, comiam o sargento-de-dia, o “velho” cabo da Guarda Republicana, que só lá estava alguns dias, num regime muito especial, e o jovem miliciano chegado há mais de um mês e ainda mal adaptado àquele ambiente de falsa harmonia: ─ Então, estão a correr com os comunas do Chile?! ─ a frase provocatória partia do sargento entroncado, com fama de brutamontes e responsável pela aplicação dos “correctivos” aos recalcitrantes. Ainda não há muito tempo contava-se que um soldado com uma licença precária, não regressado no fim-de-semana previsto, fora capturado por um “grupo especial” comandado pelo sargento-operacional. Duramente castigado nos “curros”, celas-segredo para as punições, situadas exactamente por baixo da ala prisional dos sargentos, a gritaria foi de tal ordem que se ouvia lá em cima. O jovem castigado sobrevivendo como “travesti” na vida civil, com “rodas” de homossexual, permanecia uma semana depois do tareão, triste e sentado no chão da cela entrevista da porta gradeada, que dava para a escada de acesso ao 1º andar dos sargentos. ─ Não me diga! Então os “populares” estão a recuar no seu bastião da América do Sul? ─ curiosa a terminologia do cabo com pronúncia nortenha, apostado em impressionar os circunstantes com os seus conhecimentos de geografia política. O coração apertava-se. No Chile as manifestações dos “tachos” da

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burguesia agitada e os boicotes dos camionistas arregimentados, prenunciavam grandes dificuldades. ─ Aqui o nosso furriel deve estar furioso a ver os amigos a perderem terreno. Parece já haver combates de rua!... A provocação e as más notícias, amarfanhavam o coração mas despertavam a mente, a fervilhar por uma resposta adequada: ─ Meus amigos são todos aqueles que prezam a dignidade do homem, fazendo como Cristo ensinou, quer sejam impressionar os ouvintes: ─ Tenho apreço por esta juventude cheia de boas convicções. É bom para o futuro da Pátria que está em perigo! ─ dizia o guarda “ratinho”, numa asserção com tanto de ambígua, como de cínica. Constava nos corredores que o cabo e ex-chefe de posto da GNR, tinha sido condenado por “utilização indevida de fundos”. A sua presença na ala de sargentos e o seu regime excepcional, constituíam um mistério e indiciavam um tratamento especial. Não se sabia exactamente a pena, mas devia andar por ali há muito tempo, dada a familiaridade. O regime facilitava a redenção a algumas ovelhas tresmalhadas, desejosas de agradar ao pastor e voltarem ao rebanho. ─ Tenha calma furriel! Não se amofine, eu até não antipatizo consigo! Olhe que sou um homem de armas mas sei respeitar as ideias dos outros! Pela resposta percebia-se ter sido excessivo o tom da argumentação, era necessário corrigir o tiro: ─ Não estou aqui por ter roubado ou morto alguém. Tão pouco por ter faltado às obrigações militares, e tenho muito orgulho em ser português! O “Inguila”, em apuros legais por ter faltado á incorporação, piscou
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ou não católicos! ─ o

rapaz-miliciano conseguira recolocar a discussão nos termos correctos e

o olho em sinal de cumplicidade, enquanto levantava os pratos de conduto e se preparava para pôr a fruta na mesa. ─ Vê lá se andas mais depressa, ‘tou de serviço! Qualquer dia regressas ao “hotel” a tempo inteiro! ─ o sargento Dias fazia sempre ameaças e remoques na hora da refeição, vincando a autoridade; o serviçal conhecia-lhe os tiques: ─ Ora meu sargento, desde que cá estou o serviço melhorou, não melhorou? E a comida também, o senhor o diz! ─ um grande pêro, o melhor da fruteira, selava a questão e fazia sorrir o homem fardado de camiseta de manga curta e justinha, reminiscências de África. Setembro estava quente e a vaidade era uma característica do corpo militar. O “Inguila” era bom rapaz e não era tolo. Facilitara o contacto e o convívio com outros soldados presos, nomeadamente com o Saldanha, um moço inteligente e culto que ajudara a organizar um torneio interno de xadrez. Com uma dúzia de inscrições e partidas disputadas alternadamente no quarto do furriel e nas pequenas celas dos soldados, decorreu até ao dia em que alguém foi “bufar” e o capitão-comandante proibiu o trânsito dos soldados, matando o torneio. Ainda assim mantiveram-se conversas prolongadas, o jovem magro de estatura média que frequentara a Universidade e sofria a falta de apoio da família, tinha como coroa de glória a história da fuga sem mácula de um jornalista preso por refractário: ─ Quem lhes passou a perna com uma “grande pinta” foi o Júlio Pinto. Ganhou a confiança do director apoiando na secretaria, até conseguir uma licença precária. Nunca mais apareceu! Comunicaram à PIDE/DGS mas nunca o apanharam! Deixou ficar aí alguns livros interessantes, talvez possas levá-los quando saíres?!... Talvez, depois de folheá-los e deitar-lhes uma vista de olhos, a seguir ao jantar, na saleta ao lado da cozinha, com a televisão a preto e branco
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passando o “spot” publicitário da Sacor, um longo filme muito bem feito com imagens e sons de Portugal jardim-oceânico, tão bonito visto do ar, tão triste e pobre quando assentes os pés na terra dura e maltratada. O sargento e o cabo “gnr” tinham-se retirado, o moço-faxina fazia a arrumação da cozinha, o telejornal estava a começar: “Estas são as imagens do assalto ao palácio presidencial em Santiago do Chile, por forças do exército sublevadas, comandadas pelo general Augusto Pinochet. O presidente Salvador Allende, que se recusou a abandoná-lo, está dado como desaparecido depois do bombardeamento que quase destruiu o palácio. Ouvem-se ainda tiroteios em vários pontos da cidade...” 13 de Setembro de 1973. As lágrimas correm dos olhos perturbados pelas terríveis cenas da ignominiosa contra-revolução, e o coração aperta-se num nó soluçante, numa angústia abafando o grito de desespero na garganta: “Eu aqui preso sem nada poder fazer!” .

NOVAMENTE, IR OU NÃO IR?
No dia da partida, o 40º do castigo, incluindo a chegada ao forte-prisão, a presença da companheira e da filha bebé suscitou o mesmo tipo de comportamento hipócrita: ─ Espero que não vá dizer mal “d’agente”, foram quase uma férias!... ─ babava-se o sargento gordo. ─ É verdade, não me trataram mal, mas também não causei problemas. A não ser a questão da data...! ─ Bom! Bom! Essa questão era meramente burocrática, não valia a pena o advogado!... Faço votos que tudo lhe corra pelo melhor ─ despedia-se o capitão com o semblante a transparecer hipocrisia.

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Obrigara à intervenção sempre solidária do causídico Manuel, ao dar o dito por não dito, sobre o início do cumprimento do castigo. ─ Infelizmente não foram férias, foi a primeira parte de um processo de punição iníqua e ilegal. ─ Bom! Isso já não é da nossa responsabilidade! ─ Minha senhora os meus cumprimentos, boa tarde e boa sorte para a bebé ─ os salamaleques faziam parte das aparências do sistema, eludindo a realidade. No regresso ao RI-1 foi tempo de publicação em “Ordem de Serviço” da sequência punitiva:... “Despromoção para soldado, com a especialidade de básico, do furriel miliciano fulano de tal, sendo mobilizado para a Região Militar de Moçambique, a fim de completar a comissão de serviço de dois anos, agravada de mais um ano, de acordo com o disposto no número tal do Regulamento de Disciplina Militar. Será de imediato transferido para a Direcção Geral de Adidos, na Ajuda, onde aguardará a data de embarque. Amadora, Setembro de 1973”. A pena e o castigo continuavam, e novamente punha-se a questão: ir ou não ir? Agora a situação era mais séria, com a despromoção e o agravamento da comissão para três anos. A perseguição assumia aspectos de ferocidade, com ofícios reservados e confidenciais pelo meio, a pedirem urgência e exemplaridade. Havia que prevenir a alternativa e o amigo António de Montelavar, tinha oferecido solidariedade: ─ Ó queridos amigos, temos ajudado outros sem o melindre da vossa situação!... A gente do caminho-de-ferro da raia, é séria e solidária. Quando quiserem, tratamos disso! Sair do país era dar um grande “salto no escuro” e faltava ouvir a opinião dos camaradas: “A decisão final é tua! Mas mesmo nas condições
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difíceis que sem dúvida vais enfrentar, ir significa continuar a denúncia da prepotência militarista”. Esta era a “voz oficial”, nem todos os amigos porém tinham a mesma opinião: “Na tua situação estás sujeito a apanhar uma bala perdida pelas costas. Eles têm gajos da PIDE em todas as Companhias!...” ─ dizia, sério, o Luís Manuel. A ponderação e a decisão final foi tomada com a companheira dedicada e compreensiva. Apesar dos graves reveses, o idealismo generoso era mais forte, a aventura guerreira ia recomeçar! Ordem para apresentação imediata no quartel da Ajuda, despedida da Amadora, um adeus ao bom capitão Luís, indignado: ─ Esta gente anda a dar cabo do melhor capital da Nação, a juventude. Mesmo que ganhássemos a guerra, de todo impossível, perdemos o futuro do País! ─ Obrigado por tudo, capitão Luís! Parto com a convicção de que se todos os militares fossem como o senhor, por certo não estaríamos como estamos! ─ Confiança e coragem, rapaz! Esta situação não vai durar eternamente. A “coisa” já mexe!… - referia-se ao movimento de Capitães, do qual dera boas notícias. * Numa tarde de Outono, a avisar cinzenta o tempo triste em aproximação, com a mesma roupa dos últimos anos, calça verde, blusão ligeiramente mais claro, queimado pelo sol da usura, concretizou-se a apresentação na Ajuda, um quartel de passagem onde tudo era provisório: ─ Quer ficar desarranchado? Assine aqui este papel! Quer ir dormir a casa? Vem todos os dias às dez da manhã a esta secretaria para saber a data de embarque. Essas manchas aí no ombro, tinha divisas?...
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─ Furriel! Fui despromovido. ─ Ah! Andam para aí mais castigados, não se preocupe. A guerra faz-se melhor sem divisas! ─ Não será o caso... ─ nada mais valia a pena dizer, do profundo sentimento de humilhação de quem trouxera as estrelas de cadete, o losango de furriel e agora nada de soldado! Difícil de aguentar, não fora a generosa convicção de ajudar a História na senda dos caminhos do futuro. Chegou o dia (a noite) da partida, com transporte da Ajuda em camião de caixa fechada com lona preta, reminiscências dos tempos contados da “Ramona” ou “Viúva”, transportando presos e deportados. Os caminhos para o aeroporto militar de Figo Maduro, são escuros e tristes, a novidade é o Palácio da Ajuda, visto de relance pela primeira vez, francamente iluminado. Tudo o resto é sombrio naquela viagem, os rostos, os caminhos, a disposição, as conversas: ─ Não sei se a minha irmã vem à despedida?... Não veio, o soldado baixo e com ar provinciano, não teve ninguém na despedida. Bom rapaz, humilde, solícito, um português às direitas, mal sabendo ler, sem cheta na algibeira, pronto para todo o serviço e para todas as missões. ─ Eu ajudo a levar esta mala! É pesada!... ─ Levo aí muitos amigos! Vai aí dentro uma parte do mundo!... ─? ─ Livros! ─ Ah! A companheira era a única “autorizada” na despedida. ─ Sabes que estarei sempre contigo! Vais ter cuidado. Estarei sempre à tua espera, amor da minha vida! ─ Querida companheira! Sem o teu apoio não sei se aguentaria. Cuida

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da filhinha! Prometo que voltarei. 255 . talvez mais cedo do que tarde!...

velhos conhecidos.A LENDA 9. tudo para cima de um camião de caixa aberta e toca a andar para os Adidos. sacos. homens. 256 . malas. DOS MACONDES O REGRESSO Agora sem as mordomias inerentes às divisas.

─ Ei! Morgadinho! Morgadinho! O soldado de camuflado ouviu o chamamento mas não localizou a origem. cruza-se outro camião com soldados a granel. o “canhão” esperava a carne fresca. enquanto os veículos se afastavam em sentidos diferentes. montes de papéis e de embalagens vazias espalhadas pelo chão. que para aquele lado era de terra batida. encolheu os ombros num jeito característico e continuou a olhar vagamente o horizonte. Beliches a cinco de altura. ─ Vais para a guerra? ─ Quero lá saber! Têm de me dar de comer!. pena o João Morgadinho andar sempre com a cabeça nas nuvens (e ainda pior depois da guerra!. grupos barulhentos jogando às cartas. que entrará na estatística da guerra para substituir um morto ou um desafortunado.. * O mesmo lixo e a mesma confusão na imensa nave-caserna do Quartel de Adidos.).. envolta num cheiro desagradável a pó e a suor. sobre as preocupações com a mobilização iminente. esfumou-se na distância e na poeira da estrada. gente deitada semi-nua. 257 . ainda não há muito tempo conversámos nas ruas do comum bairro natal. a indignidade e o desamor de quem está reduzido a um número. O camião carregado de soldados.No primeiro entroncamento da longa estrada do aeroporto para a cidade da Beira.. Nas encruzilhadas da vida um rosto conhecido é sempre um lenitivo. Para onde irá? Como o mundo é pequeno. Em menos de 12 horas de viagem a guerra está presente.. Encostado ao taipal. como gado para matadouro. Algures.

que viajara no avião ao lado do jovem soldado alto e trigueiro de óculos e cabelo escuro.. falta de hábito!. apareceu uma patrulha da PM num jipe característico: ─ Vieram cá passar férias. ─ Leva assim tanto tempo? ─ Oh! Há casos em que esperam três meses! Logo que puseram o pé fora do quartel. meu furriel! Chegámos há pouco tempo. se não houver problemas com a saída!. ─ A vossa identificação.. estava há quarenta dias na cidade à espera de colocação. acompanhava o abaixamento momentâneo da voz ─ Eu indico-vos um local se quiserem.─ Não vou ficar aqui nesta enxovia! Alugo um quarto na cidade. filho de boas famílias da cidade noiva do Sado. levam uma porrada! E não se afastem muito do quartel. isto é um país em guerra. que por perto ouvia a conversa.. recomendando com um ar bonacheirão: ─ Têm de cá estar todos os dias às nove horas para consultar as listas 258 . rua abaixo direito ao centro da cidade. também pernoito fora! ─ o camarada de tez clara e cara redonda simpática.. paleio animado e boina na mão. a conversar longamente sobre a sorte anunciada. moço alto e magro. ─ Tomara o sargento que a tropa vá ficar fora! Mais dinheiro do rancho lhe vai parar ao bolso! ─ a mímica adequada dos dedos a rodarem. nossos soldados? ─ Desculpe. ─ Se calhar vou contigo. nem se dignou sair do veículo: ─ Se vos apanho mais alguma vez de boina na mão. não se esqueçam! Tinham-se esquecido. pela ilusão criada pelo sargento-de-serviço. por uns instantes! Aliviara-se um pouco a tensão da chegada. fazem favor! ─ o militar-polícia mostrando um ar severo como era da praxe. pá! ─ refilava com a má recepção o “Alcácer”.

lá foram saindo os magalas mal ataviados.. ─ Borrifamos primeiro para não incomodar ali sua excelência ─ orientava o moço alto de óculos. apanharam e carregaram cinco latões de lixo. animando o grupo a tarde inteira até concluírem a tarefa: ─ Não me chateies a molécula. mas quem sair não pode voltar à hora do rancho! ─ Claro. ─ Há aí vassouras e pás. o “chico” barrigudo quer poupar na comida. pá! ─ Não te metas com esse gajo... O resto do tempo podem ir para onde quiserem. algures naquela guerra oficialmente já ganha. é um rufia da naifada! ─ avisava um dos moços solícitos fazendo parte do grupo de cinco que deu a volta à caserna: varreram. Os serviços escalonados lá foram aparecendo: ─ Limpeza da caserna! Quem não quiser colaborar vai lá para fora! Vamos varrer a caserna. ─ Isso deve ser história. que pagou para lhe fazerem os serviços e o avisarem da colocação. tecendo laços de solidariedade circunstancial. ─ Não és tu que me tiras daqui! Não mandas nada. ─ Conta-se haver um “gajo” rico. ─ Sei lá! Se calhar deu o “cava”?!. Devem vir fardados. esta guerra não é minha! – Lá nisso estamos de acordo. ordens do sargento! Resmungando e refilando.. sem braços ou sem vida. mas sem fim à vista. “ólhó” macacão! ─ comentavam à saída.de colocações e a escala de serviço.. não deve ser limpa há um ano!.. sem pés. limparam. preguiçosamente à espera de tomarem o lugar de outros. é um exagero!. entretanto voltou de avião para a metrópole!. também não a pedi nem a desejo! 259 ...

acompanhados na retaguarda por mulheres para todo o tipo de serviços. e a economia da região sobrevive do conflito. característica daquela região.. e o rufia levantou-se da cama e foi apanhar ar. As vivendeiras. porque as tarefas domésticas são feitas por criados negros – os mainatos.. veículos militares correndo pelas ruas. assim se chamavam. dos tempos actuais trabalham para o “bolo” familiar aumentando o pé-de-meia. ─ conversava-se à mesa do 260 .Sorriram ambos numa cumplicidade inesperada. pelo contrário. Antigamente os grandes exércitos clássicos deslocavam-se em enormes moles fardadas... pois a guerrilha não diminuiu. indo e vindo na direcção do centro nevrálgico. Na conclusão da empreitada. o Quartel-General onde comandam os “senhores da guerra”. as mulheres empregam-se nas empresas que alimentam a engrenagem. o grupo exultou e o pessoal que ficara a preguiçar na rua por lá se manteve em conversas e brincadeiras. A parte moderna de Nampula é um imenso bairro militar. com uma eficácia muito baixa. elogiando o trabalho feito. centenas de famílias de profissionais transferiram-se da metrópole e vivem do negócio da morte. A tarde de princípio de Dezembro estava quente. com o sol nebulado e uma humidade elevada. Alguém comentou a meia-voz: “O homem foi despromovido de oficial!”. QUARTEL-GENERAL EM NAMPULA Gente fardada. ─ Mais uma comissão e acabo a casita!. detém cada vez mais a iniciativa estratégica. Toda a vida da cidade gira à volta da “indústria bélica”. que consome enormes recursos da Pátria distante. Os homens ocupam-se da máquina militar.

Esta “chicalhada” irrita. Longe dos teatros de operações. sinhor! * Além da visita diária regulamentar à secretaria dos “Adidos” de Nampula para saber novidades. Ganham uma bagatela. os homens de verde bebem “Laurentina” fresquinha e discutem economia política-familiar na paz podre da retaguarda. casaram-se antes da tropa e acostumaram-se ao “bem bom”!. as “patentes” bem instaladas moram na zona das vivendas. Também alguns milicianos trouxeram a família. a guerra destruiu a economia rural tradicional e os homens não têm outra ocupação. a 261 . a história da terra moçambicana. Têm inúmeros criados pretos. ou vão para a guerra (para qualquer um dos lados. a fim de conhecer tanto quanto possível. o militarismo sufoca! . não sabem ler nem escrever.. o que faz a tua mulher? ─ Meu mulher tratar dos filho e fazer machamba. São mais raros e têm problemas de consciência: ─ Se soubesse que isto era assim não tinha trazido a Maria. Passam carros de boas marcas com condutor militar. os dias passam ansiosos entre a esplanada do “Central” a escrever para a família e a Biblioteca Municipal. falam mal o português. Agora a solidariedade é possível: “Ficas connosco o tempo que for necessário!”.!) ou tornam-se “mainatos” dos senhores brancos. A cidade parecia uma imensa caserna estiolando... mas têm comida certa: ─ António..Café Central no fim da tarde quente. Há gente conhecida na Repartição de Colocações. quase não há serviçais do género feminino.tal como sufocava o calor de Dezembro.

onde tudo era demasiado no estilo europeu. estava reservado um passeio para conhecer os arredores e desvendar o mistério dos limites da cidade militarizada. ao fim do dia. mas o que te estão a fazer é inacreditável!. A sua formação era claramente conservadora. mas a verdade da guerra que conhecia como poucos e a companhia de amigos esclarecidos mais a sua honestidade idiossincrática. afogam-se as mágoas com coca-cola e vinho tinto! ─ uma mistura fresca e adocicada. entrecortadas por zonas com árvores e arbustos de um verde escuro intenso. quartel-general da guerra. oriundo da burguesia alentejana. protegidos pela lei do condicionamento industrial. a perder de vista. a prestar serviço nas “Informações Militares”. Quando se saía da cidade.estacionaridade parece alcançável ao fim de muitos meses: “Vamos arranjar-te uma colocação por aqui!” ─ Obrigado amigos! Para o fim da tarde. Nem vou. ─ insistia o jovem bem parecido. que não se vende em Portugal. conhecia muitos “segredos”: ─ Não percebo de política e até me dou bem com os gajos da DGS. Uma planície de cor castanho-avermelhada. senão já não volto! ─ os copos começavam a aquecer os ânimos e o alferes Alfredo. em cuja sombra se instalavam vendas de beiraestrada. não lhes convém nada! ─ Estou farto disto! Estou cá há catorze meses e ainda não fui de férias. à beira do milagre da “tomada 262 . e aos industriais de refrigerantes. e potenciando o vício pela bebida americana. deixavam-no intranquilo. viam-se grandes embondeiros.. como aquela em que pararam para beber “catembe”: ─ Aqui. porque Salazar não gosta muito dos americanos. facilitando uma grande “cunha” para a especialidade.. com bons conhecimentos. ponteada por elevações escalavradas e aplainadas pela erosão dos séculos. poupando no tinto caro vindo da metrópole com protecção pautal.

─ Quando vim.. mais depressa os homens que os montes. notava-se um movimento desusado à volta de uma vivenda de traços orientais. já tinha a chave. Prestes a mudarem. João retornara a Moçambique e ainda não sabia o que lhe reservavam para o futuro próximo. ─ Talvez não tenham tempo de me cobrar o castigo. acreditava na justeza deste conflito. Para o mais distante. declinando os raios sobre um horizonte de montes cortados pela plaina dos ventos milenares que há muito moldavam a paisagem e os homens da África Oriental. mas também de indeclinável convicção num mundo melhor. actores ou testemunhas de uma época histórica transformando a face ancestral de África. revelando a comum ascendência asiática. Não tardam aí melhores dias!. Rolavam os pensamentos na roda de amigos da “tropa”.de consciência”. a destacar-se do fundo constituído por prédios simétricos de quatro andares. aquietando as gargantas secas e apaziguando a ansiedade de um tempo de incertezas. ainda que tal custasse muitas angústias. 263 . deixam gente de pele escura. réplica da arquitectura europeia. isto é uma grande jogada a encher uns quantos bolsos “patrióticos”! ─ Não rima mas é verdade! ─ divertia-se o Carlos. entre silêncios e goles de mistura fresca. muitos sacrifícios e muitas vidas. Riram! O Sol espreitava por entre os ramos fortes e intrincados da árvore de porte secular. no átrio da habitação onde se cumprimentavam com modos reverenciais. * No caminho de regresso ao “bairro militar”.. Pelo que tenho visto. Ia para dois meses. Automóveis de boas marcas.

O resto da tarde era entretido com a correspondência para a família e os amigos. rebentamento de um dilagrama montado numa espingarda G3. inexcedíveis amigos que tornavam mais suportável a humilhação permanente: ─ Houve um acidente grave durante a instrução no quartel de Nampula. Percebia-se um ambiente pesado à volta da mansão onde. Estavam muitos orientais. mantendo um fundamental diálogo de palavras interrompidas e entrecortadas. por bastante comum. morreu um furriel “monhé” e mais dois soldados ─ Carlos contava as novidades do dia. como na gíria é conhecida. nas tardes de idas e vindas aos Adidos. tratando-se de um acidente durante exercícios com fogo real de preparação para a guerra. valiam as conversas com os anfitriões Carlos e Lurdes. o movimento à porta da mansão!.. ─ Ah! Então era isso. À noite. a servirem como desabafos da alma. A comunidade “monhé” parece estar muito agitada! ─ A guerra chegou à cidade! O conflito cobrava o seu tributo numa camada normalmente pouco atingida. com as leituras ou as idas à biblioteca.Conhece-se a importância da comunidade indu-afro-asiática na história de Moçambique desde tempos imemoriais. chegavam famílias inteiras. quando comandava o comércio marítimo em toda a costa Oriental de África.. se notava um grande sossego. com o infelizmente célebre. no Golfo Pérsico. tinha um peso importante na economia e nos negócios da “província”. na Índia e até na China. ─ Sim! Sim! O furriel era aqui dos arredores mas a família mora cá. normalmente. O descontentamento emergia. ─ Cada vez mais sectores da população tomam consciência da 264 . Nos tempos contemporâneos a etnia “monhé”.

Os pretos cuidaram dele até crescer. Esta é uma lenda do povo maconde. se furtava. entre os rios Lúrio e Rovuma.. habitando o Norte de Moçambique.. paradigmática da acção colonizadora dos europeus desde a sua chegada à África Setentrional. E havia livros interessantes sobre a história de Moçambique: . Datam do século XX. possuía um carácter forte e indómito. A LENDA DOS MACONDES Custava menos a passar a tarde quente. que a manteve longe dos circuitos da escravatura. Um dia um preto pegou no anzol foi pescar e quando tirou o anzol da água saiu um peixe que se transformou num branco. deram-lhe coisas boas e quando se viu senhor delas. Durante a I Grande Guerra.. as primeiras tentativas de subjugação pelas armas. começou a fazer-nos sofrer muito.gravidade e da inconsequência desta guerra! ─ concluía o amigo bem informado. que encontraram sempre forte resistência. no remanso da biblioteca municipal de Nampula. a que o povo das tatuagens e dentes limados. nos princípios do século XVI. A dominação do povo dos planaltos de Mueda só se concretizou após aquela data. A etnia maconde. “Os brancos antigamente eram peixes. ainda assim limitando-se a presença portuguesa às “praças fortes” e às incursões no interior. internando-se no mato. a região de Cabo Delgado foi invadida e ocupada pelos alemães que só se retiraram no fim do conflito. e se ele o dizia. E desde então até hoje.. muito habilidoso no trabalho escultórico com o pau preto. 265 . em 1918. com raros contactos com os conquistadores brancos ao longo dos séculos. nunca mais deixou de nos tratar mal”. viviam na água.

em 1885. A pressão internacional a partir da Conferência de Berlim. fronteira à ilha de 266 . “de Angola à contra-costa”. no Sul. Este último escreveu o livro “Mozambique”. A nova expedição de Serpa Pinto. no qual faz a curiosa e elucidativa caracterização da situação encontrada: . a escravatura no Império Português manteve-se contudo de uma forma encapotada até praticamente ao fim do século XIX. sem qualquer preocupação de ordem étnica ou cultural. que retalhou o território africano dividindo-o pelas potências imperialistas. António Enes e Mouzinho de Albuquerque dominaram a zona de Gaza. Em Moçambique as primeiras expedições de Serpa Pinto. de traficantes e de entidades coniventes. tiveram resultados bem mais espectaculares do que militares e económicos. escolas sem alunos..A COLONIZAÇÃO DE MOÇAMBIQUE IV Abolida legalmente em 1839. em 1878. continuando a ser privilegiada fonte de lucros. da costa de Angola à costa de Moçambique. hospitais sem médicos!”. prosseguiu a campanha de subjugação militar: em 1906 é submetida a área setentrional. No início do século XX. em 1882. doentes sem hospitais. obrigou Portugal a procurar a efectiva ocupação militar. deu origem ao célebre “Ultimatum” inglês do qual resultou a imposição pela Inglaterra do Tratado de 1891. confinando os limites do território moçambicano (e angolano)..”Batalhões sem soldados. alunos sem escolas e sem professores. derrotando as pretensões portuguesas de soberania. e de Capelo e Ivens. Em 1895 e 96. em 1889.

com capital inglês e francês. ocupando um território limitado a norte e noroeste pelo rio Zambeze e a sul pelo rio Save.!). a Companhia de Moçambique. À medida que se desenvolviam as campanhas militares. os territórios iam sendo entregues a companhias concessionárias. criada em 1888. ESCRAVATURA E EXPLORAÇÃO Em Moçambique. com capitais metade ingleses e metade franceses. numa série de campanhas iniciadas em 1908. e o cultivo do algodão e da borracha. criadas por grandes interesses económicos estrangeiros. abrangendo toda a região de Tete até à Niassalândia (Malawi). com uma área de intervenção de 250 mil quilómetros quadrados. correspondendo a um sexto da área total da colónia e dedicando-se à extracção mineira (mais tarde também a agricultura). tendo como principais actividades a extracção de recursos mineiros: hulha. Foram sucessivamente formadas: a Companhia da Zambézia. ferro e ouro. a norte. as tribos vizinhas do rio Rovuma e do lago Niassa. procedendo à exploração mineira nesta área.. entre os rios Rovuma. Mais de metade do território moçambicano estava na mão das três companhias majestáticas. a Companhia do Niassa. criada em 1894.. que iam completando a ocupação militar. são finalmente controladas (oficialmente. em 1879. como em qualquer colónia de outro qualquer 267 .Moçambique. gozando de autonomia administrativa em estreita ligação com as autoridades portuguesas e prosseguindo os mesmos objectivos: máximos lucros. submissão das populações e pilhagem dos recursos. Lúrio e o lago Niassa.

Já a Companhia do Niassa. para a exploração dos recursos era fundamental a disponibilidade de mão-de-obra abundante. foi criado o primeiro código do trabalho. Em 1878. ao abrigo desta lei. A economia do território foi dominada durante mais de meio século. pelas três grandes concessionárias todo-poderosas. Em 1914 foi publicado um novo código de trabalho indígena. Por outro lado. muito depois da abolição oficial da escravatura. o porto e o caminho-de-ferro da Beira.. agravado pelo facto de em 1909 ter sido assinada uma convenção entre Moçambique e o Transval. na sua área a 268 . A média da emigração para as colónias entre 1850/1890 é de 400 indivíduos por ano.país colonizador. Em 1900 a população branca em Moçambique era de 5 mil pessoas. fundamentalmente para Angola. subindo para 2 mil no início do século XX. a Companhia de Moçambique obteve grandes lucros. a colonização exigia a presença branca efectiva para o enquadramento dessa mão-de-obra. No período de 1910 a 1923. Ou seja. autorizando a contratação coerciva dos africanos “vagabundos”. tratando-se na prática de um regime de trabalhos forçados. contudo os indígenas vivendo há séculos uma economia rural de subsistência. não se mobilizavam voluntariamente. nunca teve grandes resultados. em cujo preâmbulo se lia: “todo o nativo em boas condições físicas (.) está sujeito. conseguiam um tráfego internacional crescente.. mantém-se o regime de trabalho forçado. segundo a qual um contingente anual de nativos iria trabalhar para as minas de ouro. que funcionaram até 1942. sua sede. aumentando para 20 mil em 1926. ao seu sustento próprio”. à obrigação moral e legal de prover pelos meios de trabalho. entre pessoal militar e administrativo.

cujo chamamento à nossa civilização cristã é uma das concepções mais arrojadas e das mais altas obras da colonização portuguesa”. ao fenómeno novo de um significativo urbanismo e à acentuação da diferença entre a cidade e o campo: a capital Lourenço Marques. Alemanha. 1500 habitantes (só 50 brancos!). França. o esforço português de colonização efectiva. copra). sisal. no Centro e no Sul do território. assiste-se. oleaginosas (caju. chá. canade-açúcar. num tempo em que o colonialismo das grandes potências (Inglaterra. tinha 30 mil habitantes e a Beira. Os indígenas foram obrigados a cultivar aqueles produtos nas chamadas “zonas de influência”. atente-se na realidade económica e social moçambicana na primeira metade do século XX: Com o aparecimento das grandes empresas no final do século XIX. atinge 20 mil. já do século XX. Dizia Salazar em 1933: “Devemos organizar cada vez mais eficazmente e melhorar a protecção das raças inferiores. No segundo quartel do século XX. Porto Amélia. segunda cidade. e nunca foram construídas vias férreas. em detrimento dos produtos tradicionais africanos destinados ao autoconsumo: arroz. Bélgica. Holanda) estava em declínio. destinados à exportação: algodão. mandioca. Para perceber melhor o tremendo cinismo e a infinita hipocrisia destas palavras. É muito recente. em 1925. milho. assiste-se ao aumento dos produtos cultivados nas grandes plantações dirigidas por europeus. particularmente depois de 1930 e da publicação do Acto Colonial. criadas por decreto obrigatório. amendoim. todavia. mesmo nas suas próprias terras! 269 . Embora de forma incipiente as novas relações capitalistas penetram o colonialismo. tinha em 1925.penetração europeia era mínima. a capital.

dispondo de uma fábrica moderna de têxteis. concessão feita a capitais luxemburgueses. constituída em 1948 com capital luso-belga. a sociedade Algodoeira do Fomento Colonial. só nos anos 40 a burguesia industrial portuguesa começou a interessar-se pela exploração efectiva da colónia. que tem sido um importante factor de bem-estar de Portugal metropolitano e das nossas colónias”!. (267 mil toneladas em 1950 e 681500 t em 1960) a maior parte vem alimentar a indústria têxtil portuguesa. sendo transformado e depois reexportado para as colónias. Curiosamente. perícia. No caso da exportação de algodão. pertencente ao grupo Champallimaud. Companhia de Algodões de Moçambique. Além das referidas Companhias do Zambeze. Foram então constituídas: a Companhia dos Cimentos de Moçambique. Presente desde há muito. fundamentalmente para Portugal. originariamente para a exploração das minas de Moatize. do Niassa e de Moçambique. existiam as seguintes mais significativas: Companhia Carbonífera de Moçambique. que assim funcionam como mercado protector. está subjacente à orientação colonialista expressa na afirmação de Salazar. Inglaterra e União Sul Africana.. a mais importante açucareira da colónia.Os principais produtos exportados eram o açúcar e o algodão. em 1947: “Nós expressamos lealmente a nossa gratidão para com o capital. técnica e espírito empreendedor estrangeiro. foram aprovados regulamentos permitindo constituir em Moçambique empresas inteiras ou maioritariamente estrangeiras. cultivava 45% da produção algodoeira total. que cessaram a actividade por volta de 1942. a que se 270 . em 1945. Esta total liberdade de acesso à exploração das riquezas do território. criada em 1921 com capitais ingleses. o capital estrangeiro reforçou-se quando em Abril de 1951. Sena Sugar States. e em particular com o capital britânico..

. incluindo: 400 mil emigrantes. a vertente da exploração da força de trabalho indígena reveste nesta altura duas formas fundamentais: o trabalho contratado e o trabalho emigrante. desmentida desde 271 . 520 mil contratados do algodão. metade do total.associaria o grupo Melo. se auxiliam. O primeiro foi regulamentado em 1945 e abrangia a população nativa empregada no comércio ou a laborar na indústria. trabalhando por conta do Estado ou reservista do exército. sejam quais forem as suas diferenciações. está sujeita a todo o tipo de trabalho deslocado e mesmo forçado! CIVILIZAÇÃO OU COLONIZAÇÃO Atentemos noutra afirmação do ditador. Em 1954 o universo da força de trabalho é de cerca de dois milhões e cem mil trabalhadores. 100 mil assalariados agrícolas e mais 60 mil na indústria. A restante massa de cerca de um milhão de trabalhadores.. orgulhosos do mesmo nome e qualidade dos portugueses”.. em 1943. envolvia um contingente de 100 mil africanos/ano para as minas de ouro. também presente na indústria dos óleos.“No meio das convulsões presentes. no período áureo do chamado Estado Novo: . irmandade dos povos que. constituindo estes um pequeno proletariado industrial. etc. se cultivam e se elevam. Salazar insistia na tremenda mistificação e no insidioso logro da colonização pacífica e da evangelização altruísta. o trabalho emigrante resultante da renovação sucessiva da convenção Moçambique-Transval. Em complemento. nós apresentamo-nos como uma comunidade de povos cimentada por séculos de vida pacífica e compreensão cristã.

Da mesma forma. Havia dois tipos de sistema escolar no território: as escolas governamentais para europeus. à data dos inícios da guerra de libertação. dez em 1825. Alguns preferiram mesmo “converter-se ao negócio” mais rentável da carne humana. em 1960. em decréscimo) num universo de 6. ano da publicação do Acto Colonial. no século XVIII. só havia 25 missões em 1910 e existiam 350 mil nativos católicos em 1930. os colonos brancos são 97245 (17241 de origem asiática. espalhados ao longo da costa moçambicana. com a política de “fomento colonial”. como aconteceu com o franciscano Pedro da Trindade que. em mais de 6 milhões de moçambicanos recenseados só 4% sabiam falar português!). organizadas em ensino primário e liceal. e as escolas elementares das missões católicas. 1.5% do total da população de moçambicana! Raros foram também os religiosos e missionários ao longo dos séculos na tarefa da “dilatação da fé”. e nenhum se dedicava à evangelização! Sobretudo era fraquíssima a penetração da cultura e da instrução ditas europeias.6 milhões. Todavia. em 1950. asiáticos e “assimilados”. três ou quatro nos finais do século XIX.5%). tinha um exército pessoal no vale do Zambeze. A evolução do número de colonos é a seguinte: em 1930 há 17842 europeus (registam-se também 8475 “hindus”) num total de 4 milhões de recenseados (0. cuja principal função era a de educar os africanos ao nível primário.sempre pela escassíssima presença portuguesa. fundamentalmente pela discriminação e desigualdades no acesso à educação e à tecnologia (em 1960. era reduzido o número de sacerdotes católicos na colónia. Este concedeu um estatuto legal à Igreja Católica na “civilização” do 272 . ou seja. traficando em escravos. os números passam para 48219 (25149 “afro-asiáticos”) num total de 5738000 habitantes.

reflectindo a miséria da missão colonizadora. numa altura em que os outros países colonizadores vão concedendo a independência às suas colónias. Não admira pois que em 1960... sobretudo depois da II Guerra Mundial. Nas suas escolas ensinam as línguas nativas. ameaçaria directamente o sistema de desigualdade sobre o qual repousa o sistema de exploração colonial” (In Colonialismo Português – ISE.. realizam então um trabalho novo de apoio às populações. sendo dada especial protecção ao seu programa missionário: “Cristianizar. para fins de manutenção da ordem e consequentemente da exploração. padres de Burgos. Por este tempo. pagar as viagens aos missionários e financiar as missões. etc. padres de Verona. educar.. o Vaticano deu orientação para que um conjunto de congregações religiosas estrangeiras penetre no território moçambicano: padres Brancos. nacionalizar e civilizar a população nativa”. os religiosos portugueses não gostavam muito de ir para África! Uma interrogação legítima se coloca: Qual afinal o significado da cristianização nos territórios africanos? . liberta o europeu do seu medo pelo africano (. Um nível de “assimilação excessivo” da cultura e técnicas europeias. Mas apesar do Estado pagar aos bispos. “Não é mais que um método de domesticar o indígena. subjectivamente. eram destinados menos de 4% do Orçamento de Moçambique ao desenvolvimento do Ensino. 95% da população africana se encontrasse na 273 .). pois objectivamente atrai o africano para o pensamento e costumes europeus e. Com a Concordata e o Acordo Missionário em 1940. confluindo no desejo independentista. 1970). fomentando o espírito nacionalista latente..território colonial. O colonialismo necessita de uma população nativa com um nível mínimo de europeização. ao arrepio do ensino do Português.

havia ligações aos meios democráticos e revolucionários que em Portugal e nas colónias. em 1956. A humilhação permanente da despromoção. mas doem as saudades e a angústia da incerteza no futuro de uma comissão de 3 anos (um por castigo!). ). fundamentalmente como um território de exploração directa de recursos agrícolas e minerais pelo capital estrangeiro e nacional. a Lurdes.. 274 . A colónia funcionou até 1960. são gente boa. SOLIDARIEDADE Estamos longe das “batalhas”. o Santos. sendo a presença portuguesa quase exclusivamente na organização administrativa e seu respectivo enquadramento policial-militar. o Fausto.. disciplinando os seus instintos rudimentares”(. Faziam parte de uma rede de apoios e resistência. a Lena. os Casimiro. o Ivo. o Muradali.. também apanhada nas encruzilhadas do colonialismo em fim de tempo.situação de iletrada! Quão longe da mistificação repetidamente feita pelos próceres do regime. E será este o seu papel fundamental daqui para a frente. como na afirmação do Presidente da República. só é minorada pela camaradagem: – No próximo fim-de-semana vamos conhecer as praias do Índico. ok?!. o Monteiro. o António. o Melo. Craveiro Lopes. o Castro.. Precisas de te distrair! O Carlos. em visita à cidade da Beira: “Ensinando e educando a rude massa dos indígenas. quando começar a luta de libertação nacional.

─ Que é aquilo? Está ali um tipo na estrada! ─ o grito do condutor interrompeu a conversa. sempre metido em “alhadas” e safando-se com enorme coragem! Bestial! ─ comentava Fausto após ouvir atentamente o relato dos últimos meses em que.trabalhavam para derrubar o regime da ditadura e acabar com a guerra. sempre muito sensível. preservara a organização do formidável protesto no final do 1º. companheiro de recruta em Mafra onde tinham vivido entusiasticamente os acontecimentos extraordinários de Dezembro de 1971: ─ Estás a ver Lena. atravessado. arrostando sozinho as penas da insubmissão. Era sincera a preocupação do ex-trabalhador estudante e dirigente associativo na Faculdade de Direito de Lisboa. pela estrada de alcatrão em direcção ao oceano. entretanto a revolução. é mais uma questão de integridade.. ─ O pior são os três anos de comissão! Mas espero não os ter de cumprir na íntegra. ─ questionava a esposa. por isso te despromoveram e te castigaram. era um breve hiato num tempo de incertezas e angústia. que até nem foi extraordinária. estava um negro deitado na estrada. muito apertado pela PIDE em Caxias. este tipo é incrível. ─ Lá estás tu! Mesmo nesta situação não perdes o hábito de conspirar! Este fulano é um optimista incorrigível! ─ riram divertidos.. ─ Não é tanto uma questão de coragem. 275 . cumprindo a promessa de dar a conhecer novas terras e novas paisagens de uma África sempre surpreendente. A seguir a uma curva.. Partiram num “carocha” emprestado por um camarada da Força Aérea. ─ Não foi exemplar? Safa! Tremi na altura em que foste preso! Os tipos não te perdoam.. como morto. ─ Não pares! ─ instintivamente o alferes Fausto desviou-se do obstáculo e acelerou o barulhento veículo de motor à retaguarda. Ciclo do COM. ─ Se calhar era alguém a precisar de ajuda!.

─ Não há por aqui problemas com a guerrilha? ─ questionava o amigo em alerta.. O tempo não pára. me dá vida. mitigada pela lembranças carinhosas da companheira distante.─ Achas? O melhor é irmos ver então! ─ travagem. felizmente. ─ Então a companheira e a filha? Têm uma filhota não têm? ─ Sim. Tu foste verdadeiramente o meu caminho. No local onde se vislumbrara o corpo já não estava ninguém. Da minha parte hei-de vencer com a ajuda do amor que me dá coragem.) Amor não te deixes vencer pelo desânimo. O mais custoso é a separação. (. mas nós havemos de vencer haja o que houver.. se estivessem aqui comigo!. sim! Com dezoito meses.. inversão de marcha naquela estrada imensa onde raramente passava trânsito... Afinal nós temos consciência de quem são os culpados disto tudo e das consequências desta maldita situação que estes bandidos nos 276 . ─ Nunca foram referenciados! A não ser. tu ensinaste-me a viver. a minha luz. por isso tu és a minha vida.. O nó górdio das emoções sufocava na garganta o grito doloroso da alma e o momentâneo e consequente silêncio pesava como chumbo. Uma sombra acentuava-se no rosto do militar. o sentimento solidário era uma herança dos tempos associativos. ─ Safa! Já temos que contar! ─ retomou-se a conversa quando os ânimos acalmaram. Mesmo nesta altura em que não estamos juntos não me considero infeliz. cada vez maiores. carregada pela angústia da separação física. Estão bem. Só a memória das palavras conseguia romper a cortina: “As saudades são muitas. De vez em quando vou tendo notícias. custa muito a passar mas ainda havemos de ser muito felizes porque eu tenho o amor mais maravilhoso do mundo. há uma história confusa de assaltos nesta estrada! ─ nova inversão de marcha e toca a acelerar a caminho da costa.

) Às vezes sinto-me tão triste por tu não poderes ver a nossa filhinha que está tão linda e tão marotona! “Dijinhos para o papá”. * Tchink! Tchink! Tchink! Tchink! ... Sobrou mais de uma hora de conversa com a esposa sobre as famílias respectivas. Nós esperamos por ti. diz o nosso fruto pequenino. Como disse um grande poeta. durante quase seis meses. o casal ainda não tinha filhos.. a nossa ligação temse fortalecido. que faz amanhã 18 meses. ─ Espero que esses dias venham depressa! 277 . (.criaram. com uns guinchos desalmados de assustar a paisagem plana e monótona... e agora?. Por outro lado. amor da minha vida”. ─ Anima-nos a convicção de contribuir para uma causa justa e temos a certeza de que virão melhores dias. de terra avermelhada e esparsos tufos verdes de árvores e arbustos. vista depois ao colo da mãe no parlatório de Caxias. ─ Vocês têm tido uma vida muito difícil. não sei se aguentaria. o Fausto teve de ir de boleia à localidade próxima e voltar com um mecânico e uma correia nova. ─ uma carga de trabalhos. o amor constrói-se também com sofrimento.. O “carocha” quebrou o transe emocional. é preciso muita coragem! ─ concluía a senhora com uma característica candura. O militar castigado tinha uma filhota nascida pouco antes do primeiro embarque para Moçambique. alongando-se na sombra do ocaso próximo: ─ Diabos! Deve ser a correia da ventoinha.

desassombradamente. em Outubro passado. alto e bem parecido. genuíno. Existe um grande descontentamento com a situação de guerra sem solução política. pelo parente morto em exercício militar.G. com uma particular necessidade de partilhar o desejo de a guerra acabar quanto 278 . concluindo da impossibilidade da querela se resolver sem aquelas o estarem! O jurista Monteiro. natural da cidade-quartel-general. no início da década de 70. Santos interveio longamente teorizando à volta da situação político-militar e sobre o envolvimento da África do Sul e da Rodésia. havia notícias de reuniões conspirativas com centenas de jovens oficiais! ─ um entusiasmo autêntico animava antes.G.. também alferes no Q. e de sectores ligados ao general Spínola. para acabar como os precedentes? ─ quem assim falava. à entrada. Juntamente com outros dirigentes estudantis. Menos entusiasta e mais preocupado com os pergaminhos de oficial miliciano bem colocado no Q. ou mais uma tentativa de “putch” militar. as de jovens oficiais do quadro. fora apresentado como Ivo. preste a formar-se em Direito na Universidade de Lisboa. porque militar já sabemos que não tem! ─ enunciava o jovem de ascendência asiática e pele escura. foi bastante mais João. ─ Um movimento autêntico. após uma significativa movimentação reivindicativa na Universidade de Lourenço Marques. que há pouco. ─ Já vem de meados deste ano a movimentação de capitães! Quando saí de Portugal.. também ex-dirigente associativo.MURADALI MAMADUSSEN ─ Nas Forças Armadas registam-se duas movimentações principais. era um jovem mulato. fora compulsivamente incorporado. onde vinha em luto familiar. ex-dirigente da Associação Académica de Moçambique.

desorientou completamente os militaristas que diziam estar a ganhar a 279 . os Casimiro tinham construído aí a vida e a família. ─ Não podemos ficar à espera que caia de podre! Temos de abanar o sistema com força! ─ aduzia o jovem furriel Carlos. que fazia a interface entre muita gente. pá! Não trazia apenas boas notícias o Muradali. no distrito de Manica-Sofala e está às portas da cidade da Beira. o mulato quase formado em Medicina. Fixados há muito em Nampula. falava no assunto tabu.objectivo: ─ Vamos mas é ver o que podemos fazer por cá. ─ Como sabem. era um ponto de encontro de quem procurava apoio solidário ou simplesmente de quem precisava de conversar sobre a situação cada dia mais delicada: ─ Na verdade a Frelimo detém a iniciativa estratégica! A grande actividade em Tete e a abertura da frente de Manica ─ Sofala. levara a algumas detenções: ─ Foi um golpe duro na luta democrática. Se isto dura mais uns meses. trazendo e levando notícias e materiais. a prisão recente de um quadro comunista ligado ao sector estudantil e intelectual. mas ainda assim nota-se uma animação sem precedentes! ─ concluiu com ênfase o luso-afroasiático. alimentando a célula da resistência em Moçambique. trazendo de Portugal a herança familiar de republicanismo liberal. a Frelimo abriu uma nova frente no ano passado. chegando e partindo constantemente. qualquer dia estamos com a guerrilha em Lourenço Marques! ─ destemidamente. para ajudar a acabar com isto. que não renegavam. na situação muito complicada criada pelo militarismo colonialista. A casa de família da classe média.

Tenho a convicção que o fim se aproxima. estão referenciadas movimentações da burguesia neocolonialista chefiada por Jorge Jardim.. ─ a senhora de Casimiro.! ─ a afirmação do soldado a caminho do castigo na zona de 100%. nos quartéis. assume-se agora do lado dos oprimidos.. tantos anos de mão dada com o colonialismo.. também dirigente académico perseguido. ─ Eles sabem muito bem qual é a situação. eu bem os oiço! ─ Casimiro era médico civil a trabalhar para as Forças Armadas ─ Hoje em dia. o fascismo tem os dias contados! ─ E o movimento spínolista não será determinante? ─ Não creio que se possa falar propriamente em movimento. em plena época quente no Hemisfério Sul. que venha por bem! ─ Por cá.. ─ Há alguma coisa que não nos contou?!. de portas e janelas abertas para o pequeno jardim da vivenda.. oriundo de famílias militares. não! Já vos contei sobre o Movimento dos Capitães! De referir o grande descontentamento nas fábricas. depois do fracasso das operações no Norte. muito simpática e delicada. apesar dos rudes golpes sofridos ao longo dos anos. ─ A própria igreja de Moçambique.. É a tentativa desesperada para uma saída tipo Rodésia. nas escolas!.. já ninguém acredita em ganhar a guerra! ─ É espantosa a capacidade da Frelimo. O julgamento do 280 . ─ o jovem Melo. entrava na sala com um pequeno lanche para os convivas: ─ Não.guerra! ─ a análise objectiva do António obteve concordância geral. ─ Talvez não haja tempo para isso. Qualquer dia a guerrilha chega às cidades! Isto vai transformar-se num novo Vietname!. mostrara uma insuspeita clarividência. mas se é contra o regime.. mas creio que já não têm tempo!. num fim de tarde africano... concitou a atenção dos presentes.

prevendo e prevenindo o futuro. aqueloutra de religiosos com exército próprio para “caçarem” escravos. um mister que mobilizava toda a aristocracia indígena. nomeadamente os padres de Verona e da Consolata (italianos). Completa esta imagem do século XVIII. Estes últimos estavam instalados sobretudo na diocese da Beira. por orientação do Vaticano. num contexto de declínio do colonialismo. o ambiente ganhava optimismo. tinham-se instalado em Moçambique várias ordens missionárias estrangeiras.padre Sampaio foi um libelo contra a guerra e o militarismo! A conversa generalizava-se. durante a ascensão e esplendor do colonialismo. a segunda criada em território moçambicano nos anos 40 e dirigida durante 25 anos por D. A IGREJA CATÓLICA EM MOÇAMBIQUE O cenário dos sucessivos bispos de Luanda. Sebastião Soares de Resende. durante mais de um século a abençoar no porto os navios negreiros carregados de escravos que demandavam o Brasil. assumia-se de forma muito mais contraditória. Depois da concordata de 1940. num tenebroso negócio de carne humana implicando os mais altos dignitários de Deus e do Reino. no curso do século XX. é paradigmático do papel da igreja católica em África. os padres de Burgos (espanhóis) e os padres Brancos (padres do mundo). parte integrante da máquina colonial. terra de esperança. uma grande e inesquecível empatia ficaria sempre na memoria daquela tarde-noite em Nampula. A Igreja Católica que ao longo dos séculos tinha sido um instrumento de submissão e dominação. os mandatários régios nas colónias e tinha a bênção divina dos poucos representantes da fé. quartel-general e recordação da guerra em África dolorosa. uma voz clara que 281 .

não era propriamente pelo domínio colonial português. Durante vários anos dirigiu o “Diário de Moçambique”, e, em 1965, ficou célebre o conflito à volta deste jornal devido aos protestos do bispo contra as autoridades que faziam censura e cortes nos textos, tendo a publicação sido suspensa por 10 dias. D. Sebastião morreu em 1967, sucedeu-lhe D. Manuel Ferreira Cabral, um bispo conservador que em pouco tempo vendeu o jornal ao testa-de-ferro do neocolonialismo, engenheiro Jorge Jardim, possuidor de um “exército pessoal” e com múltiplas ligações à PIDE/DGS e aos círculos reaccionários em Portugal e na África do Sul. Entretanto a maior parte dos padres portugueses (nunca foram muitos!...) que tinham trabalhado à volta de D. Sebastião de Resende, foram forçados a voltar para Portugal. Os padres brancos, sempre da confiança do seu bispo, são agora denunciados como pró-africanos, vêem os seus paroquianos e catequistas serem presos, torturados e levados para a prisão para não mais serem vistos. São incomodados pala polícia política por pregarem contra a injustiça social, a favor dos direitos dos trabalhadores e até mesmo por usarem no culto a língua africana em vez da portuguesa. Ao todo eram quarenta religiosos; canadianos, alemães, italianos, espanhóis, belgas. Protestavam contra um sistema profundamente ofensivo da dignidade humana dos nativos, com o qual grande parte da hierarquia catolica se identificava a troco de migalhas. Decidiram sair de Moçambique tornando pública a seguinte posição: “A situação dos padres brancos está cada vez mais marcada por forte ambiguidade (…) sentimos em consciência ter o direito de não ser considerados cúmplices de um apoio oficial que os bispos parecem dar ao regime que se serve astutamente da igreja, para consolidar e perpetuar em África uma situação anacrónica”.
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Logo que essa decisão foi tornada pública os padres brancos foram expulsos por ordem da PIDE/DGS, com um aviso de 48 horas. No mesmo dia, 30 de Maio de 1971, também foi expulso monsenhor Duarte de Almeida, que fora o braço direito de D. Sebastião Resende e editor do “Diário de Moçambique”. As contradições do regime colonial vinham à luz do dia, o mundo começava a perceber melhor o estado de coisas em Moçambique e em Portugal. Aquelas não foram as primeiras expulsões feitas pela PIDE/DGS, nem as últimas: em Novembro de 1970 foi expulso o padre Cecílio Regoli, dos padres da Consolata; em Novembro de 1973 foram expulsos os padres espanhóis Afonso Valverde e Martin Hernandez, da congregação dos padres de Burgos, detidos desde Janeiro de 1972 na prisão de Machava. No dia 1 de Janeiro de 1972 o padre Joaquim Sampaio à frente da paróquia de Macúti, na cidade da Beira, pregou na missa sobre a paz e a justiça, referindo-se aos massacres de Mucumbura de Novembro de 1971. A assistência era maioritariamente constituída por brancos da classe média: “Nada fazemos – concluiu – não protestamos perante estas barbaridades, alguns por medo, outros por causa dos seus interesses económicos!” Poucos dias mais tarde, Joaquim Sampaio e o seu coadjutor, padre Fernando Mendes, foram presos pela PIDE/DGS e mais tarde levados a julgamento, depois de meses de interrogatórios e isolamento. Condenados a penas já cumpridas, receberam ordem de expulsão para Portugal. O vigário-geral da diocese da Beira, padre José de Sousa, declarou no julgamento: “Quem á a autoridade que tem o direito de julgar padres que dizem a verdade no púlpito? Os bispos ou a DGS? O que temos diante de nós é uma sociedade de escândalo.” A Conferência de Estudos Cristãos, realizada em Assis, Itália, em
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Outubro de 1973, aprovou o seguinte apelo ao Papa Paulo VI: “A igreja católica adoptou uma posição de grave compromisso e corresponsabilidade; pela aliança que dura há séculos entre evangelização e colonização, pela sua adesão ao poder colonial português, consolidada pela Concordata, por cumplicidade na destruição da cultura local, pela identificação da mensagem cristã com a cultura ocidental (…) por não ter ainda condenado expressamente a exploração colonial e a guerra”. Tardiamente, a Igreja Católica tentava acertar o passo com a história, embora marchando a dois tempos, porque em Portugal a hierarquia continuava a abençoar a guerra.

NOTÍCIA DE UMA DECISÃO ANUNCIADA
Foi uma noite memorável! Abordar daquela forma o movimento de libertação, a guerra colonial e a luta pelo derrubamento do fascismo, era reconfortante. Estaria mesmo o fim próximo? ─ Vamos estreitar as ligações com os animadores locais do movimento de oficiais do quadro, Afonso e Tomé. ─ concluíram. ─ Bom ano de 1974 para todos e boa sorte para quem partir para o mato! ─ desejou-se no fim da reunião, num clima de solidariedade inesquecível. Era um fim de ano triste, longe da família e da Pátria, mas com fundadas expectativas de mudança. As escassas buzinadelas dos “machambeiros” brancos na meia-noite de 31 de Dezembro de 1973, faziam aflorar uma lágrima amarga, num soluço de raiva e esperança: “Talvez seja a última vez que aqui comemoram!...” *

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Finalmente a notícia de uma decisão anunciada. Na tarde mais quente de todas as tardes, quase um mês decorrido desde a chegada à capital da “tropa”, o capitão miliciano Castro tinha com um estranho ar de preocupação: ─ Desculpe, falamos lá fora, não quero que nos oiçam! ─ Com certeza, não se preocupe! ─ era a primeira vez, de muitas visitas similares, que o soldado alto e magro era tratado por você. ─ Ontem chegou o seu processo. O tenente-coronel chamou-me e disse-me que tratava ele próprio daquele assunto!... ─ Sou muito importante, está bom de ver!... ─ ironizava o jovem de óculos e sorriso amarelo escondendo a angústia que lhe ia na alma. ─ Ainda referi tratar-se do processo de um soldado, temos aí tantos processos de furriéis, oficiais!... Respondeu-me ter instruções para tratar deste caso especial. ─ A PIDE, claro! Diga-me onde me vão colocar? ─ Nangade, Cabo Delgado! Não posso fazer nada, nunca aqui tinha acontecido nada assim, desculpe. ─ Nangade?!... Planalto dos Macondes, estava escrito! Obrigado pela atenção, não se apoquente. A pena e o castigo vão continuar... até um dia!...

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10. JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO

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ENTARDECER EM NANGADE
Subsistia uma náusea permanente ao ritmo dos solavancos do pequeno avião militar que fazia a ligação de Nampula a Porto Amélia, voando a baixa altitude, completamente cheio de militares, de baixa patente, regressando à guerra ou a ela acedendo pela primeira vez. Percebiam-se os semblantes carregados e alguma ansiedade nos rostos jovens, sobretudo naqueles que tinham medo das alturas ou receavam o colapso da estrutura envelhecida do bimotor “Dakota”, uma preciosidade dos tempos da II Guerra Mundial, rangendo na carcaça desgastada. Tempo de poucas nuvens, solarengo e quente na estação própria, princípios de Fevereiro no Hemisfério Sul. A paisagem vista do alto, pontuada de verde abundante da floresta do norte, passava nublada pelos olhos turvos do enjoo, agravado pelo efeito dos comprimidos de “Cloroquina” que um atencioso enfermeiro dos Adidos insistira em recomendar : “Tomas primeiro três comprimidos, passadas seis horas, mais dois, e vinte e quatro horas depois o último. Vais ficar um bocado tonto mas vale a pena, nunca terás paludismo!” ─ bem dito e bem certo. Agora estava tão agoniado, a vista toldada e a cabeça tão zonza que
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já se arrependia de ter tomado a segunda dose a caminho do aeroporto, engolida sem água nem nada. O companheiro do lado sentado na cadeira de lona do velho transporte aéreo, dizia algo sobre a viagem que mal conseguia entender. ─ “ Está-se” a sentir bem? Tinha a cabeça a andar à roda, fechou os olhos e sentiu-se desfalecer ouvindo a voz distante, vinda do fundo de um túnel, qual buraco negro profundo e mal iluminado onde acabou por mergulhar. Perdeu a consciência durante largos minutos ou terá adormecido profundamente como supôs o parceiro do lado quando lhe tocou no ombro? ─ Então? Acorde!... Estamos quase a chegar! Os piores momentos de um voo são a partida e a chegada, quando estatisticamente acontecem mais acidentes. O jovem militar magro e olheirento, sobressaltou-se com o regresso à realidade num “tamanco voador”, rangendo por todo o lado na descida de aproximação à pista. O medo emergente que fazia lhe apertar o estômago ajudava a desanuviar a mente. Tinha a sensação de não ter dormido mas de ter permanecido num estado de semiconsciência do qual regressava lentamente. ─ Ena! Fartou-se de dormir, hem! Até parecia ter desmaiado, estava muito branco. ─ Ah! Sim?! Enjoo nas viagens de avião, dormi durante muito tempo? Fincou com força as mãos no banco e olhou para a parte da frente onde os pilotos da Força Aérea conduziam calmamente o avião, sem problemas. Aquietou-se. ─ P’raí meia hora ou mais!... A cidade de Porto Amélia era pequena quando comparada com as já conhecidas Beira e Nampula, embora fosse a capital de Cabo Delgado. Tinha todavia uma novidade, divisavam-se praias de areia clara na orla
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quase escrava. semeada de pedaços de algas escuras. Nessa zona ficava a fábrica de cimentos de António Champalimaud. nada de atrasos!”. tinha uma areia fina de tacto agradável. com “cabrinhas” de espuma branca. a meio caminho da cidade portuária. rumo ao Norte.30h. encontrava-se depois de muitos quilómetros em terra batida. aqui e acolá. a instância balnear da burguesia europeia do distrito de Nampula. aparentemente descurando o futuro. A partida é às 20. espraiando-se levemente na areia branca.do oceano de águas escuras e algo agitadas. imaculada. aqueles não pareciam caminhos de um país em guerra. Mas o encantamento de um verde-claro a perder de vista num mar esmeralda. de medusas da “Cruz de Cristo”. ouviam com ar resignado as indicações dadas por um furriel de aparência madura e 289 . cada vez menos. O industrial começou a investir em África nos finais da década de 40. diminuindo a pátria que achavam desnecessária. quando percebeu o interesse dos potenciais mercados emergentes e a mais valia da mão-de-obra barata. como gostavam de dizer. negros na maior parte. a praia do “Relamzapo”. mais nítidas com a aproximação do pássaro de ferro em mergulho triunfante. os colonos emigrados. duas dezenas de soldados. e. ainda acreditavam. um dos homens fortes da burguesia capitalista do “puto”. desvendavam-se os verdadeiros trilhos do já longo e terrível conflito. Em rigor tratava-se de uma meia novidade porque a costa oceânica do Índico já fora visitada quando do fim-de-semana em Nacala com a família Leite. participava objectivamente no esforço de guerra imperial em que alguns. num “Aviso” da Marinha de Guerra. Na chegada aos Adidos de Porto Amélia a recepção não foi muito calorosa: “ Quem vai para o norte segue esta noite até Palma. agarrado às vantagens do passado. A praia das “Chocas”. Na pequena instalação militar junto ao porto oceânico. Agora na sua senda. Na conjuntura actual. Percorridos em visita.

um jovem alferes moçambicano. branco. mostrava uma ponta de emoção ao acabar a leitura da mensagem: ─ Vamos lá tratar do assunto porque já temos pouco tempo. logo me contas o resto da história. Ele contar-vos-á os pormenores. também vou?. Caíra a noite. Tinha razão o Ivo. magro e de óculos com um ar intelectual e simpático. ─ Desculpe! O meu destino é Nangade. ao jantar. Tratem-no como se fosse um de nós.bigode sobranceiro. estivemos a conversar em casa de uns amigos. colocados compulsivamente algures no norte da guerra instante: “ Se qualquer um de vocês ler esta missiva. o Depósito ficava distante e o embarque estava marcado para daí a menos de uma hora.. onde fora destinada a viagem: ─ Deixa-te estar! Eu trato do assunto.. Marcelo. O militar olhou longamente o soldado recém-chegado como a certificar-se de alguma coisa e respondeu com acinte na voz e no olhar: ─ Claro! Vai de barco até Palma e depois de coluna até ao destino! Mais alguma questão? Não havia muito tempo para localizar o “ponto de apoio”.. à vista do pequeno “Aviso” da Marinha ancorado no pontão. bem merece! É preciso que esta terra valha mais do que aquilo que querem fazer dela”. quando insistira em dar-lhe a carta dirigida aos outros camaradas do Movimento Associativo de Lourenço Marques. ─ Há poucos dias estava óptimo. entraram pelos Adidos e só pararam junto da secretaria do comando. o Depósito de Intendência ficava fora da cidade. façam o que puderem pelo amigo que está em muito maus lençóis. é melhor não te verem por 290 . Num jipe oficial.. impecavelmente fardado. ─ Então trazes uma carta do Ivo Garrido? Deixa cá ver! Como está esse gajo? Não o vejo há quase um ano!.

. à saída. já eram velhos amigos. Foram conversando pelo caminho em direcção ao aquartelamento. ex-dirigente estudantil. de camuflado. Antes. se faz favor! A caminho da casa onde ficaria uns dias. Que fazes tu aqui? ─ o “velho” amigo e colega de escola também ficara surpreendido. ─ Como vieste parar a este fim do mundo? Era uma longa história. ─ É a primeira coisa agradável que me acontece hoje. do lado de fora do “portão de armas”: ─ Deixaste ali a tua bagagem? Não há dúvida. com o furriel “recepcionista”.perto. ─ Olha quem ele é!. tinha recolhido a mala de viagem “guardada” atrás de um monte de caixas e caixotes. tem de embarcar hoje! ─ Chame o sargento responsável. A conversa prolongava-se e adivinhava-se tensa: ─ Não posso fazer isso! Tenha paciência meu alferes. o novo amigo comentava risonho: ─ Safa! Custaste três garrafas de “Whisky”! Nunca tinha pago um preço tão alto! Antes. o furriel de cabelo ondulado e rosto simpático. em serviço à pista. instruiu o condutor de serviço: 291 . és maluco como nós! Em menos de uma hora de convívio. * ─ Valter!? … O mundo é pequeno! A exclamação saíra a meia voz quando reconheceu o homem baixo.. Pela janela aberta ouvia-se o diálogo do alferes de Intendência. enfiado na tropa para “ganhar juízo” como dissera o reitor da Universidade de Lourenço Marques.

e encobriam as principais zonas de infiltração da guerrilha. quebravam a monotonia do vasto planalto desde a costa. distinguia-se o azul cinzento de uma linha de água às voltas e voltas em meandros que pareciam acabar num espelho largo e mais claro. desde Porto Amélia. mas depois voltavam a aparecer mais 292 de cor .─ Leva o senhor professor e a família à casa nova e depois traz-me o jipe! Ah! Tratava-se então do professor primário! Bom. Diferente. ─ Como é isto por aqui? Em Nampula dizem-se cobras e lagartos!. arrasando os nervos. pintadas de branco. onde fizeram juntos toda a viagem de mais de uma hora. num vale em depressão. com duas aldeias distintas caracterizadas pelas suas palhotas de colmo. com telhados de fibrocimento. certamente ao reparar no aspecto frágil do antigo condiscípulo. era uma zona de casas. parecia ser gente “importante”. ─ Bom! Há por aí buracos bem piores. que passava rapidamente. Do avião. ─ esclarecia o conterrâneo segurando o saco pesado que fizera questão de levar. bem vestidos ao modo africano. cortada aqui e acolá por breves clareiras castanho-terrosa. ─ É por causa das flagelações! Já foram abatidos alguns aviões!. O soldado em transferência mostrava-se aparentemente calmo e atento à paisagem verde. único utente até hoje! Ao longe... Mandados entrar em primeiro lugar no pequeno avião de oito lugares da Força Aérea. a poente. abonados quase todas as semanas! Apontava na direcção dos morros. Verdes e impenetráveis. avistava-se uma grande clareira com poucas árvores e edificações dispersas.. a rasar a copa das árvores. alinhadas ao longo de uma estrada de terra. para onde vai o professor.. no extremo norte do vasto campo militar: ─ É a cidade do “Arriaga”! Faz parte da “Operação Fronteira”.

foram conversando descontraidamente até chegarem à área construída. em Porto Amélia. destoava do verde constante da paisagem. Mais distante. até se diluírem no horizonte. barba por fazer mas atitude simpática e despachada. os limites da fronteira com a Tanzânia! Afinal já conheces os locais turísticos! ─ ouviram-se os primeiros risos daquela tarde. interpelou-os: ─ Meu furriel. estendia-se por muitos quilómetros o grande rio do Norte. de ataques com foguetes de 122mm?. Mas conta-me a tua história! Pela vereda estreita no meio de vegetação aparada. Estamos cá há um ano e já fomos várias vezes atingidos com morteiradas. confundiam-se ao longe com o escuro da vegetação.. ─ Essa será uma longa conversa! Depois te conto! … ─ Cá estamos! Um soldado com ar pouco cuidado. ─ Contava-se. 293 . As árvores e arbustos cerravam-se a perder de vista em densa florestação que escondia os trilhos vitais de penetração da Frelimo. de madrugada. No limite do aquartelamento um corte abrupto na geologia do terreno. Abrindo-se por vezes em clareiras lagunares de águas e lamas cinzento-terrosas. ou talvez mesmo de há muitos dias. serpenteando um largo caminho de meandros de água azulada rumo ao oceano distante. ─ Sim! Sim! O último foi em Novembro..adiante. orienta o meu amigo e conterrâneo! Andámos juntos na escola primária. criava a depressão pronunciada onde a grande mancha líquida do lago com o mesmo nome da povoação. ─ São o rio Rovuma e o lago Nangade. temos visitas? Já constava vir aí gente nova! ─ Carlos. de contornos envoltos em bruma.

Em tempo de Equinócio. agora com suaves reflexos azul-acinzentados na superfície da água do lago. É naquele enorme artefacto que fabricam a mistela diária possível para dar de comer à soldadagem e alimentar a “ Acção Psicológica”. sem higiene. sem vontade. Ali na África Setentrional. espelhando a miséria da tropa colonial portuguesa. os climas das zonas temperadas dos Hemisférios Norte e Sul aproximam-se por um curto lapso temporal. Por instantes.Fim de tarde ameno. a Natureza omnipresente fazia esquecer as saudades 294 . O cimo da encosta era um ponto de observação privilegiado em zona desmatada. o ambiente é um pouco mais húmido e quente. porventura. vivendo praticamente enclausurados no vasto complexo militar. distribuída pela garotada negra que pulula por ali na hora das refeições. dilui-se pelas casernas e pela sombra das árvores em mesas improvisadas. a estação quente e chuvosa está prestes a findar no curso do mês de Março. constituindo um autêntico miradouro natural mesmo atrás da cozinha do rancho geral. confundindo-se à distância com a neblina circundante. Daqueles morros partiam os ataques com foguetes de 122mm que aterrorizavam de vez em quando as cinco centenas de homens da guarnição. O pessoal militar sem divisas e sem refeitório onde comer com dignidade. a recolha da sopa numa lata de folha. onde dois soldados-cozinheiros se esforçavam a lavar o panelão da sopa que exalava um cheiro rançoso e desagradável. em fila. ao calor escaldante do meio-dia. É a hora mais humilhante para o soldado no cumprimento do castigo-despromoção. sem gosto. Ao fim da tarde o Sol já debilitado da fogueira escaldante de horas e horas de intensa irradiação. que na Pátria distante traz a Primavera e a esperança. vai-se escondendo atrás dos morros frondosos que limitam o vale a ocidente.

A LUTA DE LIBERTAÇÃO EM MOÇAMBIQUE “ Nós estamos em África porque é o nosso dever. o nosso direito e o nosso interesse. esmagados pelo grandioso quadro bruscamente cortado pelo cheiro gordurento e enjoativo da água suja das lavagens. minas anti-pessoal. caçadores nativos. projéctil. Um rebentamento distante quebrou o enlevado silêncio e gerou o sobressalto. A respiração suspende-se por segundos. crocodilos. ia-se diluindo no cinzento do lusco-fusco. É Naschinguyeia. Nunca reparara que aquele era o melhor local para desfrutar a paisagem. Numa altura em que as grandes potências já tinham perdido os 295 . Escondera-se por fim o astro-rei e o caminho líquido-claro do Rovuma serpenteando. Mais distantes. Mina. em cenas de caça na terra de ninguém. despejada a eito. encosta abaixo. surgem saltitantes as luzes de veículos aparentemente jogando às escondidas com o arvoredo ou tropeçando nos buracos dos caminhos onde circulam. a miséria do rancho. guerrilheiros infiltrados e tropas coloniais. o medo da guerra. falso alarme.da pátria. amanhã há mais! O sorridente soldado devia estar intrigado com a inusitada presença num sítio daqueles. Mas nós estamos também em África porque é o interesse do mundo livre”. Novamente o mundo sem sons. e o manto escuro caindo sobre o lago. ─ Desculpe lá o mau jeito! Tá na hora de acabar. em cujas margens coexistem por vezes. ataque? Nada. do outro lado do rio. nem isso o preocupava muito na luta diária com o panelão. uma grande base de treino e apoio da Frelimo na Tânzania. acelera-se depois pela emoção dos sentidos num silencioso êxtase. a angústia do afastamento familiar. da personagem mal conhecida por recém-chegada.

Acrescentava-lhe num contexto de “guerra fria”. historicamente fundada no número superior de espingardas e canhões. quando as ex-colónias inglesas. em 1961. no Tanganica. Cresceu ainda mais o desejo de independência entre os moçambicanos. propunham-se discutir os seus problemas com as autoridades administrativas portuguesas numa reunião em Mueda. primeiro em Angola. Uma contínua e continuada mistificação. apoiados por uma multidão de produtores de algodão com Lázaro NKavandame à cabeça. que tinha ficado afastado das teias coloniais ao longo dos séculos. No grande país da África Oriental o acto primordial da luta de libertação ocorreu no planalto dos macondes. em véspera da 296 . transferindo-se para Dar-es-Salaam. Franco Nogueira. convencido da sua superioridade e vantagem rácica. Os dirigentes tradicionais da comunidade maconde. em 1963 e por último em Moçambique. holandesas. por “coincidência” nessa altura administrador dos Caminhos de Ferro de Benguela (no governo da ditadura saiam das pastas para as postas…!) insistia no embuste propalado durante séculos. com mais de 50 mortos. em Junho de 1960.A cegueira e a intransigência criminosa do colonialismo branco. piscando o olho aos americanos e à NATO. em 1964. depois na Guiné-Bissau.impérios asiáticos. francesas. e onde a vontade nacionalista e independentista tinha uma expressão mais forte. um ex-ministro de Salazar. e assim entre emigrantes e exilados na clandestinidade é formado em Bulawayo (Rodésia) a UDENAMO ─ União Democrática Nacional Moçambicana ─ em Outubro de 1960. quando os povos das colónias tinham pegado em armas para lutar pela autodeterminação e a independência. afogou as pretensões num banho de sangue. belgas. sobre o direito e o dever histórico dos portugueses no continente africano. o mito da defesa do mundo ocidental. em Abril de 1961. acediam à independência.

unidas no supremo objectivo de lutar pela independência do país. começando a derrocada do império colonial português. No final desse ano. em inícios de 1961. tratava-se de um movimento heterogéneo. Damão e Diu. futuro grande estratega militar da luta de 297 . no Quénia. Nela participou o UDENAMO representando Moçambique. criaram em finais de1960 o MANU ─ Maconde African National Union ─ a exemplo do Kanu dos anfitriões.União Nacional de Moçambique Independente. que por acção fundamental de Eduardo Mondlane. com diferentes sensibilidades e perspectivas. independente desde 1958. No interior de Tete. a Frelimo já vinha preparando os quadros militares e os combatentes para a guerra de libertação nacional há quase dois anos. foi criada a UNAMI . interesses e obsessões ideológicas cinicamente disfarçadas de desígnio histórico nacional. em Maio de 1961. a União Indiana invadiu e anexou os territórios de Goa. Em Nairobi. Como nos restantes casos. da 1ª. Quando a acção armada foi desencadeada em 25 de Setembro de 1964. moçambicanos da etnia maconde. Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas ─ CONCP ─ trouxe uma solidariedade e coesão importantes entre os vários movimentos de libertação. A realização em Marrocos. quando se tornou claro que o regime colonial português não ia abrir mão de vantagens. segundo os próprios. em 19 de Dezembro de 1961.independência deste importante vizinho do Norte (Dezembro de 1961). É do compromisso daquelas três organizações moçambicanas. com mais ou menos expressão. se constitui em 25 de Junho de 1962 a FRELIMO ─ Frente de Libertação de Moçambique. então sob o comando de um enfermeiro formado numa escola pública em Lourenço Marques. Marcelino dos Santos e Uria Simango.

pelas tropas em acções de represália. com o padre holandês Nijs a denunciar: “gente queimada viva numa aldeia”. em 1971. Mondlane revelara particulares capacidades desde a juventude. primeiro presidente da Frelimo. com um ataque ao posto militar de Chai. Ao fim de quase 500 anos. um sinal diferente de um alto dignitário da Igreja Católica . e bem cedo apareceram as primeiras denúncias de atrocidades cometidas contra os nativos.libertação: Samora Machel. simultaneamente em Cabo Delgado. e no vizinho distrito de Niassa. de monsenhor Eurico Dias Nogueira. O religioso depôs no julgamento dos padres do Macúti-Beira. mas a sua atitude corajosa foi silenciada. apoiado nos estudos pela Igreja Protestante moçambicana e suíça. É o tempo dos bombardeamentos com “napalm”. bispo de Vila Cabral. das atrocidades desencadeadas pelos militares portugueses naquela região contra populações indefesas. * Eduardo Mondlane. São também dessa época as primeiras referências a massacres perpretados por tropas coloniais com o apoio de tropas auxiliares africanas. finalmente. foi uma personalidade-chave na evolução do movimento de libertação de Moçambique. O conflito iniciou-se em 1964. Mas mais significativa foi a denúncia em tribunal. capital do Niassa. da criação dos “aldeamentos estratégicos” (uma invenção copiada dos americanos no Vietnam) a que os indígenas chamam “curvas de cabras” (thanga ya mbudzi) cercadas de arame farpado e campos de minas. Após 298 . e o padre John Paul a enunciar o cortejo de brutalidades praticadas no Norte!”. unificado a partir do 1º. Congresso em Setembro de 1962.

Seria tempos depois nomeado comandante militar do movimento e em 1970 seu presidente. a Frelimo teve um início de vida agitado. fugido de Lourenço Marques onde era enfermeiro. com início do treino militar na Argélia tendo em vista a guerra de libertação inevitável devido ao autismo do governo de Salazar. Professor na Universidade de Siracusa. Por essa época. Num dos primeiros grupos que foi treinar na Argélia.breve passagem por Lisboa. Janette. moçambicano de origem 299 . visitou em 1961 o sul de Moçambique no âmbito de uma missão da ONU. fez a licenciatura e o doutoramento em Antropologia Social nos Estados Unidos da América. o tenente Jacinto Veloso das FAP. despertando enorme entusiasmo entre o povo moçambicano sedento de liberdade. só em Março de 1963 se radicou em Dar. onde frequentou a Casa dos Estudantes do Império e contactou com Agostinho Neto e Amílcar Cabral. Joaquim Chissano. em risco de ser preso pela PIDE. Tinha chegado a Dar em 1963. Instalada em Dar-es-Salaam. Nessa altura contactou vários dirigentes africanos. sobretudo pela acção de um negro norte-americano. mais tarde expulso por suspeita de ligação à PIDE. convidado por Mondlane e eleito secretário para a publicidade. Leo Millas. entre outros. Eduardo Mondlane. que casara com uma americana branca. após uma espectacular deserção. em Março de 1964. no extremo nordeste de Cabo Delgado. capital do Tanganica. iniciando com Marcelino dos Santos. chega à capital do Tanganica ( depois Tanzânia após a independência do Zanzibar em 1964 ) num avião militar saído de Palma. Pascoal Mocumbi. um período de grande vitalidade da Frelimo. nomeadamente Julius Nyerere. seguiu Samora Moisés Machel. chefe da TANU (União Nacional Africana de Tanganika) que teria um papel central no apoio ao movimento moçambicano.

outro moçambicano branco. * Não foi por acaso que a luta armada foi desencadeada no planalto de Mueda. comum na região setentrional africana. O seu presidente Banda. de passagem por Argel em Março de 1963. a funcionar na capital argelina. Mais tarde em 1965. Com uma tradição cultural progressista ( não tinham por exemplo o conceito de virgindade) uma enorme habilidade no trabalho do pau-preto e um espírito livre e independente. para organizar no Centro de Estudos Moçambicanos. Perseguido e preso pela PIDE. Os macondes eram uma etnia muito aguerrida e organizada falando uma língua própria e também o Swali. Lázaro Nkavandame.branca a juntar-se ao movimento. O seu líder tribal mais carismático. médico da Reserva Naval Portuguesa que desertara durante uma missão da NATO em Inglaterra. protagonizaram nos primeiros tempos revoltas corajosas com armamento muito modesto e pesadas baixas. em Setembro de 1964. mas a falta de apoio do Malawi (independente em Julho de 1964) inviabilizou tal desiderato. A insurreição inicial deveria ter-se estendido aos distritos de Tete e Zambézia. Mondlane convidou Helder Martins. Helder Martins seria o responsável em Dar-es-Salaam da organização de saúde do movimento. Também por esse tempo. em Fevereiro 300 . promovera a criação de cooperativas agrícolas para a produção do algodão “obrigatório” e a defesa dos pequenos agricultores dos abusos e fraudes colonialistas. conseguiu fugir para o Tanganica em 1963. para se juntar à Frelimo. um Manual de Alfabetização em língua portuguesa que a Frelimo considerava ser a língua nacional do futuro Moçambique independente.

de 1965 protestava por via diplomática contra a incursão de tropas portuguesas. conta a história do movimento de libertação. criando machambas colectivas onde plantavam milho e mandioca. mas algo tenso na discussão dos assuntos estratégicos. Proibiu qualquer actividade armada da Frelimo a partir do seu território que no entanto nunca deixou de o fazer à revelia com o apoio dos povos da antiga Niassalândia. a 301 . verificou-se a visita célebre de Ernesto “Che” Guevara à sede da Frelimo na Tanzânia. a luta alargou-se rapidamente. base da alimentação. mas viria a colaborar estreitamente com as autoridades militares (mesmo a nível policial com a PIDE ) certamente com receio que a subversão alastrasse e pusesse em causa o seu regime tribal-ditatorial. ou pelos terríveis bombardeamentos com “napalm”. Desde o primeiro ataque a Mueda. No mês de Fevereiro de 1965. No fim ficou uma memória saudosa de um encontro histórico. Nessa altura a Frelimo considerava ter nas zonas semi-libertadas 280 000 pessoas organizadas em novos moldes. onde reza a lenda. por não terem armamento pesado). os macondes vinham armados de varapaus e com poucas armas de fogo (pouco depois. Em Novembro de 1965 a frente inicial do Niassa subdividiu-se em Niassa Ocidental (ao longo do lago até ao sul de Lichinga ) e Niassa Oriental (das montanhas de Cabo-Delgado e do rio Rovuma até Cuemba) sob o comando do legendário Sebastião Mabote. os guerrilheiros não tomaram um barco-patrulha na margem do lago Niassa. num encontro descrito como útil de ensinamentos no tratamento das questões de propaganda. Esta “vida nova” era interrompida por vezes pelas incursões destrutivas da tropa especial (já que a “normal” estava remetida aos aquartelamentos). devido a uma certa impaciência do grande revolucionário argentino-cubano que conhecia mal a realidade moçambicana.

Num mundo extremamente bipolarizado entre as duas grandes superpotências. ─ Independência de Moçambique. que as despejava também aos milhões de toneladas no heróico Vietnam. ─ Garantir a felicidade do povo moçambicano. Produtos aliás adquiridos nos “neutrais” e mui-cristãos mercados europeus. EUA e URSS. Foram então nomeados. ─ Pôr fim à exploração do homem pelo homem. num Moçambique livre e independente. que garante a sua unidade interna. total e completa.partir de certa altura também com bombas de fragmentação) proibidas pelas Convenções Internacionais mas usadas profusamente na guerra colonial. Eduardo Mondlane teve novamente um papel destacado de grande inteligência na resolução desta crise e o movimento saiu reforçado com as decisões do Comité Central em Outubro. * Com a independência do Malawi em Julho de 1964. em nome da civilização ocidental e dos direitos do homem ! A Frelimo viveria nesse ano de 1966 um segundo período de grande agitação. e da Zâmbia em Outubro do mesmo ano. a Frelimo mantém-se num complicado equilíbrio equidistante. e à exemplar democracia americana. a linha de separação dos países sob o jugo 302 . Marcelino dos Santos (Organização Política) Samora Machel (Defesa) Joaquim Chissano (Segurança) Armando Guebusa (Educação) entre outros. com uma tentativa de “golpe-de-estado” interno. numa época de intenso confronto ideológico sino-soviético e dos consequentes alinhamentos. e define os principais objectivos programáticos que animarão a luta até à libertação final: ─ Libertação do Colonialismo e do Imperialismo.

(o petróleo era normalmente descarregado em Lourenço Marques ) queixa-se da “velha aliada” por violação das águas e do espaço aéreo de Moçambique. aumentando mais e mais o contingente militar (na altura atingia os 40 mil homens). onde o regime do “apartheid”.colonialista desloca-se cada vez mais para Sul. Salazar fazendo jogo duplo. veio complicar o xadrez político na África Meridional. em Moçambique. A Grã-Bretanha como potência administrativa reage à secessão. em 1967. É a resposta às forças portuguesas que. baseadas na superioridade em armamento anunciam recorrentes vitórias definitivas. a Frelimo intensifica a luta em três frentes (Niassa Oriental e Ocidental e Cabo-Delgado) e abre. a declaração unilateral de independência da Rodésia pela minoria branca chefiada por Ian Smith. em Novembro de 1965. na África do Sul! Com diferentes graus de desenvolvimento e de intensidade mas com iguais objectivos de liberdade e independência. 303 . Ao mesmo tempo Keneth Kaunda (presidente da Zâmbia) solicita a Portugal facilidades no trânsito de mercadorias para aquele país interior. Em Abril de 1966. uma nova frente na região de Tete. condenada internacionalmente. Ganhavam alento as lutas de libertação em Angola. ZANU e ZAPU. Neste contexto. decretando sanções económicas e políticas. reprimia violentamente a maioria negra e a guerra de guerrilha avançava nos restantes países. em Moçambique. na Namíbia. a sul. na Rodésia. e a armada britânica bloqueia o porto da Beira para impedir o fornecimento de petróleo à Rodésia. a crise agudiza-se entre Lisboa e Londres devido à atracação na Beira de um petroleiro com combustível para Salisbúria. Enquanto se desenvolve uma nova área de combate pela libertação do Zimbabwé (Rodésia) com dois movimentos nacionalistas.

A isto chamam os militaristas pomposamente “iniciativa estratégica”. autênticos mercenários bem pagos para fazer o trabalho sujo. Viveu-se à época deste congresso. quando em Julho desse ano realiza o seu II Congresso no interior do Niassa.Na região de Cabo Delgado. organizados pelos comandos militaristas em estreita ligação com a PIDE/DGS ( que tortura e mata para arrancar informações). o padre católico negro Mateus Gwandgere. Entretanto amontoam as populações sobreviventes dos massacres em aldeamentos / aquartelamentos rodeados de minas e arame farpado. aderente recente que lançou uma tremenda confusão no movimento a propósito da participação de moçambicanos 304 . no célebre campo de Naschingwea. aparentemente ultrapassadas pelos êxitos no terreno ─ em 8 de Março de 1968 concretizara-se a primeira acção armada em Tete. O movimento moçambicano está já então bem organizado. a guerrilha estende-se até Montepuez e às margens dos rios Messala e Lúrio. alvo por vezes de assaltos surpresa. Mtwara. Eduardo Mondlane visita as “zonas libertadas” de Cabo Delgado e a Frelimo fala de um milhão de pessoas envolvidas. a possuir armamento pesado e a dispor em 1967 de um destacamento feminino treinado na Tanzânia. Kingwa. Em Fevereiro de 1968. passando a partir de 1966. enquanto um soldado ganham um!). (ganham dezasseis contos por mês. com vários campos de treino e apoio na retaguarda (Baganoyo. reflectindo as contradições no interior do movimento nacionalista. a terceira grande crise interna à volta de uma personagem no mínimo controversa. chegando-se a criar grupos pára-quedistas de assalto financiados pelo testa-de-ferro colonialista Jorge Jardim. entre outros) com uma táctica militar assente em bases nas “zonas libertadas”. Debatem-se duas diferentes teses para a evolução futura.

sem um claro vencedor. os meios afectos ao regime e ao militarismo fascista cantaram vitória. Lisboa ignora! Marcelo Caetano chegara recentemente ao poder devido à “queda” do velho ditador. são um imenso caldeirão prestes a entornar. As palavras só têm significado para os 305 . onde vivia com a mulher e três filhos menores. que teve a responsabilidade principal no assassinato de Eduardo Mondlane. com uma encomenda-bomba em Fevereiro de 1969. África do Sul. * No fim da década de 60 a luta de libertação está ao rubro em toda a África Austral . dirigentes negros da África Central manifestam no chamado “Manifesto de Lusaka”. a disposição para intermediar e pôr termo às carnificinas nas colónias portuguesas e ajudar a sair do impasse militar que se poderia prolongar “ad eternum”. discursa em Lourenço Marques e defende falaciosamente. Namíbia.. Em visita às colónias em Abril de 1969.brancos (muitos desconfiaram ter sido infiltrado pela PIDE!. um projecto de “autonomia progressiva” para as províncias ultramarinas. Falou-se na altura da colaboração dos serviços secretos alemães.. Rodésia ( Zimbabwé ) Angola. Trata-se da mesma “demagogia liberalizante” usada em Portugal para esconder a continuidade do regime totalitário e para eludir alguns sectores sociais mais vacilantes. perante a chama viva do desejo de pôr fim ao jugo colonial e à dominação branca minoritária. Em Portugal. sem sentido histórico e sem significado real.). Em Fevereiro de 1969. na conivência de meios reaccionários da Tanzânia e em cumplicidades dentro da própria Frelimo. Moçambique. em Dar-es-Salaam. E foi a PIDE.

em Maio de 1970. organizam-se as “frentes de propaganda e acção psicológica” (aqui procura-se imitar os “sucessos” de António de Spínola na Guiné-Bissau). crise interna originada pelo assassinato de Eduardo Mondlane. vítima de uma desmesurada ambição pessoal. O movimento de libertação está mais forte. um verdadeiro adepto das teorias nazis da guerra total : Kaúlza de Arriaga. A OPERAÇÃO NÓ GÓRDIO A fasquia é então colocada muito alta. No dia 1 de Julho de 1970. e. Marcelo Caetano nomeia em 31 de Março de 1970. morte. a operação “Nó Górdio” está em marcha! Quantos horrores. um dos fundadores. coeso e organizado. reforçam-se as componentes económica e social de apoio às populações “pacificadas” (mantidas nos aldeamentos estratégicos). em Moçambique. é eleito presidente Samora Moisés Machel. sangue. custou esta 306 . Entretanto a Frelimo ultrapassa a sua 4ª. respectivamente. sacrifícios extremos. mobilizam-se meios logísticos e milhares de homens.ultrareaccionários Santos e Castro e Jorge Jardim que sonham (e conspiram!) com uma independência “à Rodésia”. O grande estratega militar congrega apoios à sua volta. Provando a razão dos que denunciavam a não correspondência entre as palavras e os actos. para Angola e Moçambique. um militarista ultrareaccionário. fazem-se preparativos para uma grande ofensiva militar em todo o Norte. e em breve abrirá nova frente de guerra em Manica e Sofala. ao mesmo tempo que é expulso Uria Simango. para comandante-chefe. A história e o tempo jogam a seu favor.

o próprio general foi à televisão cantar vitória no dia 19 de Março de 1971: “Está eminente a vitória definitiva das nossas forças armadas e a destruição completa do inimigo terrorista” – disse na altura o militar fascista. de dezenas de mortos de jovens militares portugueses. transformou a derrota anunciada numa vitória definitiva. embora pouco beliscassem numa guerrilha flexível. a “Wermatch” fez milhões de vítimas mas acabou sendo derrotada depois de muitas vitórias. Possuía apoio logístico na Zâmbia e apoios clandestinos no Malawi. Pura mistificação e muita prosápia de quem foi responsável por milhares de mortos civis. mais de um milhão de apoiantes nas zonas libertadas e outros cinco milhões de simpatizantes em todo o território. 307 . milhares de combatentes. na acepção militarista. também houve muitas vitórias. Praticando o extermínio por onde passava. A decisão de extraordinário alcance que tomou de abandonar as bases do Norte. muitas apreensões de armas. pomposamente exibidas na RTP. Também o exército hitleriano utilizou estratégias inovadoras para a época. quando invadiu a Europa e a União Soviética na II Guerra Mundial. furtar-se ao combate directo e caminhar com a guerrilha para Sul.famigerada operação militar? Haverá porventura especialistas militares a reconhecer méritos estratégicos e rigores tácticos. bem organizada e com uma forte retaguarda. dinâmica. além de uma rede de células secretas nas principais cidades. Na operação em que foi passado a “pente fino” o Norte de Moçambique. nomeadamente a “blitzkrieg”(a guerra relâmpago). desejando à séculos libertar-se do jugo colonial. de centenas de estropiados. A Frelimo possuía na época oito campos de treino na Tanzânia. Os bombardeamentos criminosos com “napalm” e bombas de fragmentação causaram inenarráveis sofrimentos às populações das zonas libertadas.

O conflito colonial em Moçambique. Aguardavam os restos garantidos da refeição. agudizou-se e aprofundou-se em consequência desta famigerada operação. diria outro retinto situacionista. prometendo acabar com o “terrorismo”. ficou-se pelo quilómetro vinte!.A operação “Nó Górdio” e a subsequente “Operação Fronteira”. desenvolveu a maior acção terrorista da história da guerra. Silva Cunha. monstruosidade (a PIDE torturou e matou milhares de moçambicanos). afundaram-se em ignomínia (condenação internacional). a fingir de refeitório. conspiração (Jorge Jardim manobrava com a África do Sul racista para uma solução “à rodesiana”). crime (milhares de mortos civis e militares).. derrota (o MFA tinha grande apoio em Moçambique antes do 25 de Abril). 308 . finalmente cientes da envergadura da guerra de libertação em curso.. porque a má qualidade permitia a divisão oportunista. Como resposta. A NEGRA TERESA À hora do jantar a miudagem borboleteava em volta da mesa tosca de madeira. corrupção (a estrada alcatroada de Palma a Nangade. descrédito (Kaúlza de Arriaga foi afastado do comando em Julho de 1973).). a Frelimo abriu a frente de Manica e Sofala em 1972. Uma cabecita loura e a tez mais clara do rosto distinguiam-se no meio dos cabelos negros e encarapinhados dos restantes ganapos. montada debaixo do grande embondeiro. ridículo (a “cidade fantasma” desabitada em Nangade). o ministro do Ultramar. uma aventura militarista em que o comandante de Arriaga. “Um murro de boxe num ninho de vespas”. com cerca de 200 quilómetros ao longo da fronteira Norte. trazendo a guerrilha até perto da cidade da Beira e pondo em histeria os meios colonialistas.

ironicamente baptizado de “chispes de sargento”.. Vinham quase todos da aldeia macua. só se estivessem com muita fome! Havia um miúdo negro.entretidos em brincadeiras de ocasião. sobretudo os da “fofoca”. sinhô! ─ desviou a cara. ─ É filho da Teresa! O cabo Carlos era entendido em todos os “assuntos sociais” do quartel. Lava. o pai morreu na guerra. ─ Mas é tão pequeno ainda!?. dez escudos por mês! Vive com a mãe. precisam de ajuda!. Quatro.. outros nada. estava ensinado a não olhar o branco nos olhos. com uns olhos grandes e meigos: ─ Podes comer o resto! Traz-me o prato bem lavado. 309 . cinco anos. oito ou nove anos. que também está de partida.. de carapinha escura. já se foi embora há muito! Mas tem outro mais pequeno do furriel “Alhandra”.. Alguns já tinham comido sopa do rancho.. A cor do cabelo e da pele tornavam evidente a sua distinta condição de filho de branco loiro e de mãe preta. ─ Então não conheces a história? O pai deste.. ─ o anfitrião Carlos era de facto o homem dos “sete negócios”. uma feijoada de produto enlatado e uns pedaços de gordura de porco salgado. com as suas tatuagens características. estava um pouco à parte e mais sossegado que os outros a brincarem em magote. ─ Aquele miúdo louro é diferente!?. passa a ferro e não leva caro.. ─ E o pai?. hem! O resto era quase tudo daquela comida intragável. Como te chamas? ─ João. eram raros os garotos vindos do lado maconde.. ─ Se quiseres ele trata-te da roupa.

com telhado de colmo como as outras. três filhos! Este agora é do furriel “Alhandra”. tens razão! Isto é tudo uma desgraça! * Uma mulher negra ainda jovem e muito bonita. mas parece ser ela a não querer ir! 310 . Tinha cabelito claro contrastando com o negro azeviche da mãe. Levara o recém-chegado a visitar a aldeia macua. Pago-te doze escudos! ─ Não faças isso! Se não os outros também querem ─ prevenia o cabo rádio-montador. aflito com o rumo do negócio... e os filhos? ─ É um de cada pai! Três comissões... caminhava desenvolta com o corpo escultural moldado pela capulana de tons vermelhos. transportado às costas como era uso. ─ Pois é. ─ É a Teresa! Não te dizia!. radiante na sua prometida função de cicerone. hem! Já tem dono! ─ comprazia-se o Carlos com um sorriso amalandrado característico. repuxada pelo filho mais pequeno. em cuja entrada ficava a casa de Teresa. ─ É uma negra muito bonita de facto! Disseste ter “dono”.. É a preta mais bela de Nangade! Mas não fiques com ideias.─ Curioso!. em fim de comissão! ─ Mas então ele não leva a mulher e o filho? Não assume a paternidade? ─ Tem sido um drama. mas com paredes rectangulares de madeira.. de forma menos tradicional. consta que ele é casado na metrópole. que está nos GE´S. ─ Dez escudos são uma miséria! ─ Julgas que a malta pode pagar mais? Há aí quem mande o pré todo para casa e fique sem tostão! Nem dá p´rá cerveja!.

mas achou prudente não se manifestar. em genuíno desabafo de revolta. Já escondido. sempre a gritar e a gesticular. Apenas os olhos ficaram mais brilhantes na luz alaranjada do entardecer luminoso e suave. Gritava de modo incompreensível à distância. ─ Chiu! O tipo pode ouvir! É o furriel mais “operacional” do aquartelamento. ─ Olha! Não é tarde nem é cedo! Lá vem o furriel “Alhandra”! Um jovem alto e louro.João estava tentado a corrigir o vocabulário. e apagaram o sorriso do especialista rádio-montador da companhia CCS. aproximava-se da negra Teresa gesticulando. consta que já matou pretos à porrada! ─ também era 311 . “t-shirt” branca e casaco de camuflado sem mangas. em terras de mistério e desgraça. O Sol percorrera rapidamente o último pedaço de céu que o separava da copa das árvores nos morros a Ocidente. formando um halo transcendente de luz e sombras em hora perfeita quase mágica. deve ter-se metido nos copos! O “Alhandra”. magro. onde um olhar atento perceberia o local menos desbotado de umas antigas divisas. ou porventura devido à língua entaramelada. com um fardamento esquisito. ─ Aquele gajo é um canalha! ─ disse de forma audível o soldado alto. com os braços no ar cambaleava de uma forma quase imperceptível. emitia uns raios brilhantes por cima dos montes. Os GE´s chegaram de madrugada de uma operação. calças pretas. qual dono de escrava. a metrópole era Portugal. ─ O furriel tem andado desorientado. só perturbada pela desgraça dos homens. na África sedenta de liberdade. desatou às bofetadas no rosto de traços harmoniosos com uns olhos lindíssimos e lábios sensuais que não pronunciaram palavra. As cenas que se seguiram deixaram espantado o soldado de calção e camisa verde regulamentar. tinha chegado há pouco tempo e não conhecia bem o interlocutor.

312 . obrigado! Tenho outras preocupações. situada no outro extremo norte do grande aquartelamento. A cena degradante repetiu-se à porta da casa. porque eram diferentes os hábitos e a cultura tribal do povo autóctone do planalto maconde. onde este tipo de assuntos era mais propício.. já anda um sargento a arrastar a asa à Teresa!. cor amarelenta e barba mal escanhoada. Notava-se pouca actividade. enquanto continuava o passeio pelo território macua a sul. O lusco-fusco da tarde criava sombras nos recantos da aldeia de palhotas. Se quiseres trata cá com o “jones”! ─ Não. que tivera ali a grande base de recrutamento quando se iniciou a luta armada. eram quase todos soldados dos GE´s e apenas algumas mulheres transportavam recipientes com água à cabeça.timorato o rapaz de estatura baixa. A conversa fez a agulha para a aldeia maconde. sobretudo pela profunda penetração da doutrina da guerrilha.. Os homens deviam estar a descansar da guerra. à confiança! ─ aquele fulano não parava de espantar. ─ O homem está com ciúmes. visivelmente amedrontado. mas nenhum queixume. recolhida no depósito elevado abastecido pela tropa. O “negócio” era do lado da aldeia macua. cercado de arame farpado e minas. ouviam-se os sons dramáticos das bofetadas. igual a tantas outras na terra africana carente de desenvolvimento. Mas és tu o “manager” do negócio? ─ Arranjam-se umas coisas. O ganapo às costas da mãe choramingou e entraram todos de roldão. ─ Então é assim o negócio de mulheres aqui em Nangade? ─ Bom! Há por aí algumas a viverem por conta! Mas há outras que dão umas “quecas” a troco de rações de combate.

A frase soava ordinária. já estiveram na Frelimo e tudo! Um dia destes vou apresentar-tos. Nas circunstâncias. já os tinha mencionado. do Batalhão de Caçadores sediado em Nangade. Fruto da indignação e da candura dos primeiros tempos naquele ambiente perverso. a sua comissão fora penalizada em três anos. como degradante era todo o ambiente da guerra. Só não sabia. como grosseiro era o comportamento do militar das forças coloniais “especiais”. No regresso do passeio de reconhecimento pelo aldeamento onde se faziam os reforços da guarda. não seria muito prudente. ─ É a despedida! Está a “abastecer-se” para a viagem. mas a conversa deslizava para um campo perigoso. quando os gemidos se transformaram em sonora manifestação gutural de um clímax masculino agitado. sabia responder à questão sobre os novos pretendentes. uma mulher tão bonita a este ultraje permanente? ─ E só escolhe operacionais dos GE´s! O anterior também era! ─ E o próximo?. falar com gente que estivera na guerrilha e voltara ao aldeamento. ─ Logo se verá. e por isso hesitou 313 . Temos muito tempo… No sentido figurado e na realidade tinha de facto muito tempo. ocorreu à imaginação do soldado castigado. O cabo Carlos. porque o camarada Carlos era de facto algo imprevisível. ─ Porque se sujeitará Teresa. não há pressa. passaram à porta da casa de colmo onde há ida se tinham sumido as duas personagens da história patética..─ Há lá velhotes porreiros. Se é que essa seria a “estória”. quando se ouviram distintamente gemidos roucos. onde já anoitecera. Depressa percebeu o equívoco ao ver o sorriso malandreco do cabo.. uma cena de choro de mulher humilhada e agredida.

era que de há anos àquela parte. se quiserem salvar a pele! ─ Bom! Num ano esta companhia independente teve três mortos e sete feridos graves evacuados! Já pagaram um preço muito elevado e os homens andam desorientados com a falta de clarificação sobre a rotação! ─ o tenente miliciano era um homem firme mas muito causticado com a mobilização forçada aos 30 anos.calado e pensativo. feridos graves e estropiados nas emboscadas sofridas e nas minas rebentadas. caramba. A hipótese de não rodarem. a raiar a exasperação e a revolta. não é uma estância de repouso! Se não atacamos nós. para impedir esse objectivo da Frelimo! ─ Meu capitão. somada à saturação de sucessivas saídas e. na perspectiva de descerem para Sul. criava um estado de espírito muito negativo. 314 . Temos de intensificar o controlo de itinerários e aumentar o número de nomadizações. ao fim de um ano de “trolha”. o Grupo Especial formado sobretudo por negros de etnia macua. ─ Isto é uma guerra. a companhia tem sido severamente castigada! ─ contrapunha o oficial miliciano. à enorme angústia pelos mortos. desde quando a Teresa “casara” pela primeira vez. gerava uma enorme frustração que. sobretudo. raramente encontravam alguém da guerrilha. sensível ao estado anímico muito degradado dos soldados. os homens estão muito desgastados. fazendo as principais “despesas” da guerra naquela zona. qualquer dia vêm buscar-nos “à mão”! Têm de perceber isto. que todavia continuava activa! JUNTO À FOGUEIRA DO GUERRILHEIRO ─ A nossa informação militar fala de um aumento de efectivos nesta zona.

caminhava com a História para a libertação e a independência de Moçambique. contanto com um grupo de experimentados comandantes formados na dureza de quase dez anos de luta. Mariana Pachinwepa. José Moiane. Bonifácio Gruveta. Alberto Chipande. Raimundo Pachinwepa. Osvaldo Tazane. Em contrapartida. por um comando supremo todo poderoso. contra o que chamavam. forças especiais com intervenções brutais e quase sempre ineficazes. centenas de colonos manifestaram-se nas cidades da Beira e de Vila Pery. O movimento nacionalista. entre outros. a relativamente inepta tradição colonialista. e o aprofundamento da aliança militar com a África do Sul e a Rodésia racistas (com o colaboracionismo do Malawi). Monica Chitupila. eram os outros 315 . caiu como uma autêntica bomba! * Em Janeiro de 1974. “travestida” de serviços de informação militar. Filomena Nashak. militarista e reaccionário. A burguesia colonial percebia finalmente a gravidade do conflito e temia a perspectiva de uma derrota. único do povo moçambicano.O boato-notícia surgido por uma das vias habituais (transmissão rádio ou alguém em trânsito) de que com o alargamento da guerra à província Manica-Sofala (Beira) acabariam as rotações. Sebastião Mabote. consubstanciava-se no presente por um exército de ocupação numeroso e praticamente impotente. A crescente dependência económica portuguesa do capitalismo internacional. Armando Panguene. e uma polícia secreta (PIDE/DGS) tenebrosa e implacável. “a passividade das forças armadas perante o avanço do terrorismo!”. sob o comando supremo de Samora Machel.

A sorte da guerra estava traçada! 316 . Grupos de soldados portugueses. nos confins de uma África inóspita. por milhares de manifestantes. ouvem a versão dos factos e da História que o obscurantismo fascista lhes nega. “A fogueira do guerrilheiro”. em português. em Julho de 1973. a BBC dedica-lhe um programa semanal especial. ensanguentada e sedenta de liberdade. e a rádio Moscovo transmite diariamente um programa em ondas curtas. O cansaço e o descontentamento aumentavam entre os militares subalternos do quadro permanente! No plano internacional é cada vez maior o isolamento e o descrédito de Portugal. Os meios de comunicação internacional denunciam os crimes de uma guerra universalmente condenada. Marcelo Caetano foi vaiado em Londres. alvo de acções de repúdio e de humilhação da sua política colonialista.vectores fundamentais da situação político-militar.

NA VÉSPERA DE CONTECIMENTOS IMPORTANTES 317 .11.

Em Dezembro de 1970 foi julgado o padre Mário de Oliveira. em Lisboa. o papa Paulo VI recebeu no Vaticano os líderes do PAIGC. Em Fevereiro do ano seguinte foi preso o pároco de Belém. muito “católicos. Diminuía a base social de apoio ao regime. Felicidade Alves. atenta e preocupada com os ventos da História. em Outubro de 1970 a ARA (Acção Revolucionária Armada) inicia uma série de atentados atingindo o aparelho militarista que alimenta a guerra (explosão no navio Cunene que transportava material militar para as colónias). Domingos. Havia inclusivé sectores da igreja católica sinceramente preocupados com os crimes do colonialismo. durante a campanha para a Assembleia Nacional. no dia 1 de Janeiro de 1969. um grupo de católicos progressistas tinha ocupado a igreja de S. 318 . em protesto contra a “política ultramarina”. Dia Mundial da Paz. a Oposição Democrática reclama abertamente a “Autodeterminação e a Independência para as Colónias”. da diocese do Porto.OS ÚLTIMOS COMBATES Em Julho de 1970. por oposição à guerra. solidarizando-se com os movimentos de libertação das colónias portuguesas e originando uma tremenda onda de choque. forçando a pequena abertura da demagogia de Marcelo Caetano. que denunciara no púlpito as atrocidades da guerra em África. aumentava o tom da contestação da oposição ao fascismo pseudo-liberalizado: Em Outubro de 1969. e em Portugal. apostólicos e romanos”. escandalizados com “o apoio do Papa aos terroristas!” Não era propriamente novidade a posição de maior abertura da Igreja. que atingiu em cheio os meios colonialistas e militaristas. MPLA e FRELIMO.

no 4º turno de 1971. em 1971. Tavira.. revolta no aquartelamento de Lourenço Marques. Como conclamava o jornal unitário de mobilização e combate. No início da década de 70. nervosamente à procura de suspeitos para picarem”. “Punir exemplarmente os inimigos da Nação que tentam subverter por dentro a instituição militar”. publicado nos princípios da década de 70: . e os Estados Unidos. organizada unitariamente. “Não jures camarada!”.Aumentava também a resistência entre a juventude portuguesa nas fábricas. Vendas Novas. aos empregos recentes ou ao início de carreiras promissoras. Difícil era coordenar as lutas e integrar esforços. nas escolas. “Levantamento de rancho”. multiplicam-se os conflitos nas unidades de treino e preparação militar: Mafra. 319 . em 1971. deserção organizada de um grupo de combate na Guiné. com uma acção destacada dos comunistas desde sempre intransigentes opositores à guerra. no 1º turno de 72. em 1972. A resposta foi a eloquente multiplicação das acções de resistência e de manifestação de descontentamento: Mafra. entre outros. arrancados às escolas. manifestação de descontentamento dos sargentos do quadro em Angola. Tavira. no 3º turno de 72.. O descontentamento entre os milicianos recrutados “à força”. protestos na parada. embora negando os factos. Santarém. ingleses e alemães fornecem armas ao governo português.. Santarém. ameaçando:. ultrapassando a discussão sobre a deserção “à priori”. “Agora a luta é no interior do aparelho militarista. crescia na razão directa do agravamento nas frentes africanas. nos quartéis. O general Chefe-do-Estado-Maior do Exército dava o mote na alocução no final de 1971. na organização da resistência e do combate internos. Lamego. dentro do “ninho de víboras”.. “Alerta camarada!”. e outros mais No panorama internacional.

Em Junho de 1972 é publicada a nova Lei Orgânica do Ultramar. reunido em Adis-Abeba em Fevereiro de 1972. que deixe abertos os caminhos para a subjugação política e a continuação da exploração económica dos recursos. Enquanto isto. Em Outubro do mesmo ano. a proclamação. Na Guiné. António de Spínola. por ter sido assassinado em Conacri em Janeiro de 1973. o combate não esmorece e. o Conselho de Segurança da ONU. ainda que por novas vias. O alcance da iniciativa é inteligível. presidente do Senegal e um dos primordiais mentores das soluções neocolonialistas na África Ocidental. Guiné e Moçambique. em Outubro de 1972. anunciam cinicamente a venda de equipamento militar “não letal”. e Amílcar Cabral anuncia no plenário da ONU. e em Abril. uma missão da ONU visita as zonas libertadas pelo PAIGC. preconizando “uma maior autonomia para as províncias ultramarinas”. da independência da Guiné. a mando da PIDE e com cumplicidades internas. para breve. como resposta a agressões vindas do exterior”. com Leopold Senghor. de que foi o principal animador mas à qual não assistirá. a Assembleia Geral da ONU reconhece o PAIGC como legítimo representante do povo da Guiné-Bissau. com o objectivo de “legitimar a guerra. os 320 . joga as últimas cartadas: em Maio de 1972. há em Portugal quem defenda uma “solução honrosa”. o PAIGC abate os primeiros aviões portugueses com mísseis terra-ar de fabrico soviético. mas a alteração dos preceitos constitucionais é mero expediente administrativo. manobra para ganhar tempo e iludir alguns sectores liberais. ao perceber o fim inexorável. próximo da fronteira. Mas a luta de libertação está muito avançada. o regime de Marcelo Caetano e os seus títeres. aprovou uma resolução de apoio aos movimentos nacionalistas de Angola. Ainda assim. Entretanto. No essencial tudo fica na mesma. em Março de 1973.“ajustando” a estratégia. encontra-se.

não pode satisfazer. sem nunca o confessar abertamente. ficaria ainda ferida ou estropiada. fazendo o máximo divisor comum da desesperança numa guerra. a independência da Guiné. acossado. organizadas como um “exército regular”. reparando rádios e antenas. todos aqueles que iam 321 . A guerra entrava numa fase derradeira. imediatamente reconhecida por muitos países africanos. Spínola. Havia o In. celebrizados no Vietnam e disparados de bases móveis.“Strella”. percebendo finalmente. fartos de guerra e do militarismo fascista. conversando e trocando novidades. passando a uma fase superior da luta de libertação nacional.. tinha mais inimigos do que julgar se pensava. em Agosto de 1973. e quantos mortos mais até à assinatura em Argel do cessar-fogo. empenhado há tantos anos na luta pela independência. Quanta gente. NO LESTE DE ANGOLA De coluna ou de avioneta. fizessem a revolta militar e a revolução popular de 25 de Abril de 1974. Um mês depois. no entanto. de aquartelamento em aquartelamento. O promovido general do monóculo deixa a Guiné-Bissau. que Marcelo Caetano. em Setembro. em aumento crescente. numa zona libertada. em Agosto de 1974? Para isso foi necessário que os militares progressistas e o povo português. o PAIGC proclama em Madina do Boé. o grande trunfo do militarismo neocolonialista. faz exigências incomensuráveis em homens e em material. perigosamente de terra em terra. KAIOMBE DE JIMBE. que a guerra de libertação é invencível. que mesmo esmorecida nas terras do Leste. derrotado. havia o “inimigo interno”. as forças guineenses combatem por todo o lado.

Manuel! Vê lá como falas! – Desculpe. Já se sabe o resultado. furriel. na Região Militar Leste. na vila de Jimbe. pertencente ao subsector do Cazombo. Mas ainda havia quem... foi só um desabafo. * – Temos de ir ao posto da DGS arranjar o rádio! – Eh! Furriel! Não quero nada com esses gajos! – São ordens do comandante! Além disso “esses gajos” estão a fazer um bom trabalho no apoio à tropa. mas como muitos outros. carroça mal puxada! revolta-se!. um mineral com características moldáveis 322 E um dia a besta . – Bem. Assim contava o Manuel num aerograma do Leste de Angola. Além da agricultura de subsistência. Não era mau rapaz o furriel. procurasse puxar a “carroça”. arreando forte na besta. em tarde de pouco sol e céu enevoado lá foram com a mala das ferramentas às costas cumprir as instruções superiores até ao posto da PIDE/DGS.percebendo ser aquela uma guerra injusta (como todas as guerras!). por serôdias convicções ou por maldade intrínseca. besta contrariada. bem. os nativos faziam a extracção da chamada “pedra de sabão”. Na zona Leste de Angola era a época seca e menos quente.. – Bom trabalho? Safa! A PIDE faz o trabalho sujo!. para o amigo e camarada noutra frente da mesma guerra colonial. numa situação de impasse militar à custa de enormes sacrifícios humanos. por interesses mesquinhos ou alienados códigos de honra. tão temeroso a Deus como à “sagrada” hierarquia militar. nos princípios de 1974..

mostrava-se acanhado perante o vigilante da toda-poderosa polícia política. onde vivia pobremente a população indígena. Devia ser problema na antena. trabalhado na feitura de peças artesanais. com duas ruas paralelas. que não conseguia fazer funcionar eficazmente os seus departamentos de informação. A sua famosa autonomia e poder de “estado dentro do Estado”. agradado com a tarefa. solicitaram a reparação. A viagem não era grande e a recepção não foi cordial.! – o furriel. faz favor! A PIDE/DGS possuía rádios “Marconi” para comunicações de longa distância. onde aquela estava montada. embora aqui gozasse do estatuto especial de polícia de “informações militares”. preenchidas com o comércio de colonos asiáticos e alguns europeus. o problema não era do rádio propriamente dito. o que lhe granjeava o apoio interesseiro e cúmplice da hierarquia militarista. com frequências próprias. era uma realidade também em África. apesar do furriel e do cabo rádio-montador irem devidamente fardados. os chamados “flechas”. Existiam no aldeamento pequenas oficinas de trabalhar a pedra que melhoravam a economia da pequena localidade. rodeadas das tradicionais palhotas de colmo.. para isso tinham de deslocar-se às traseiras do edifício. Afinal.. Possuía ainda uma rede organizada de facínoras de recrutamento local. permitindo comunicar inclusivé com Portugal. – Esperem aqui. nada de conversas! O cenário que se abriu quando transpuseram a porta deixou os 323 .e políveis. O agente de serviço mediu os jovens militares desconhecidos dos pés à cabeça e só permitiu a entrada depois de consultar o chefe invisível: – Vimos por causa do rádio. – Venham comigo. de muito melhor qualidade que os “Racal” distribuídos à tropa.

Vaz. solicitado para outro qualquer assunto. De volta ao quartel. não raro conduzindo à morte no meio do sofrimento mais atroz. Como ele fugiram à justiça dezenas de criminosos como: Sabino. apagar os charutos no corpo dos presos. No caso vertente. e comentando o sucedido com os camaradas residentes. autênticas jaulas de guarda-bichos. o agente António Camelo. momentaneamente. participante na invasão do solo angolano independente. tratava-se de um habitante da zona. quando se tornou claro que António de Spínola tinha sido ultrapassado pelos jovens oficiais do Movimento das Forças Armadas. causando-lhes horríveis queimaduras. apanhado no mato pelos “flechas”. Casimiro. o sádico torcionário símbolo da verdadeira natureza terrorista da PIDE/DGS. 324 . Trindade. de nome Kaiombe. que os acolheu com simpatia e lhes deu guarida. Lontrão. Morreu passado pouco tempo. Perturbados e confundidos. enquadrando-os na repressão policial da maioria negra. tinha o corpo coberto de chagas não tratadas. que deviam doer horrivelmente. mas suspeito de apoiar o MPLA. completamente expostos aos elementos. o suficiente para ouvirem uma voz desesperada: “Nossos! Dá um tiro nossos! Não asguenta mais! Dá um tiro!” Um negro ainda jovem. Dezenas de prisioneiros negros estavam metidos em gaiolas metálicas. e os “rádio-reparadores” manobrando posições aproximaram-se das jaulas. tinha por desporto nos interrogatórios. fugiu cobardemente poucos dias depois do 25 de Abril de 1974. ou no célebre batalhão “Búfalo”. rumo à África do Sul racista. os militares despacharam-se rapidamente daquele antro terrível. com as O pide da retirou-se antena.jovens militares estarrecidos. alegadamente à caça. ficaram a saber que o chefe do posto. e outros. ao ponto do desespero expresso na voz suplicante. Alguns meses depois o pide Camelo. Laia.

das atrocidades que se vão acumulando na consciência dos profissionais menos alienados e embotados. se tivessem mais cedo acabado com a guerra! Muitos desses criminosos regressaram a Portugal e juntamente com os que cá estavam. torturou e matou milhares de compatriotas angolanos. para muitos milhares de portugueses traumatizados no corpo ou/e na alma. Essas vidas poupavam-se. como em Portugal. com o degradante complemento de Esta é uma página da história-pátria ainda por encerrar. estes notórios facínoras foram “travestidos” pelos generais militaristas de “conveniente” polícia de informação militar. que em África. têm hoje confortáveis reformas de aposentação da Função Pública. prendeu. guineenses e moçambicanos. ou reforma dos ex-combatentes. porventura numa escala muito maior. Significa que entre nós o crime compensa. da revolta activa de muitos milicianos 325 . Neste sentido. Justificam-na ainda hoje com o único argumento de terem ajudado a poupar muitas vidas militares?!. perseguiu. se compararmos com as pensões miseráveis de alguns estropiados e traumatizados da guerra. A situação de tensão decorrente da guerra interminável. a guerra colonial não acabou! NOTÍCIAS DA VIL TRISTEZA E DE ESPERANÇA Os acontecimentos principais estavam centrados na Pátria distante mas os ecos chegavam aos confins de África.Face hedionda do sistema colonial fascista. com o sentimento muito generalizado de que algo tinha de mudar... e as de dezenas de milhares de autóctones.

em Óbidos. fez precipitar um conjunto de acontecimentos nos finais de 1973. Marcelo Caetano substitui Sá Viana Rebelo por Silva Cunha no Ministério da Defesa e nomeia Baltazar Rebelo de Sousa.decididos a denunciar a situação criminosa e insustentável. em Julho. cada vez em maior número. O problema era arranjar outro que fosse de confiança. António de Spínola. As contradições e clivagens dentro do próprio sistema. o general fascista não parava de conspirar. Na denúncia da conspiração distinguiu-se na altura o major Carlos Fabião. juntando os comandos militares e os recursos existentes em Angola e Moçambique. – Em Fevereiro de 1974. Rebelo de Sousa visita Angola em Dezembro e promove contactos com forças neocolonialistas para negociar saídas para a politica colonial que chegou a um beco sem saída. Para isso já tinha convencido o presidente Américo Tomás a afastar Marcelo Caetano. Dezembro de 1973. – Em 1 de Dezembro. é desmontada uma tentativa de golpe de Estado ultra-reaccionário. com mais homens. composta por 19 elementos. protagonizada por Kaúlza de Arriaga. – Por esta altura. mais meios logísticos. tentando reunir “espingardas” para levar avante a sua obsessão de ganhar a guerra. com o conluio do recente ministro Silva Cunha. futuro militar de Abril. Regressado de Moçambique. e estruturam a comissão coordenadora do Movimento das Forças Armadas. como ministro do Ultramar. ameaçam a ditadura repressiva e inalterável há 48 anos. entre ultra-reaccionários. embora unidos no essencial. princípios de 74: – Em Novembro de 1973. o general derrotado na 326 . conservadores e liberais. reúnem-se novamente os oficiais subalternos. homem da sua confiança pessoal. Ensaiam-se medidas demagógicas para encobrir a natureza da tragédia colonial.

em vão. 327 . – No início de Março. estava enredado nas próprias contradições e embora soubesse de há muito não haver saída. o “Movimento dos Capitães”. O professor fascista “demo-liberal”. em directo. – Nesse mesmo dia. o núcleo duro irá decidir o definitivo avanço depois de analisar os apoios seguros. Marcelo Caetano discursa na Assembleia Nacional. convidando-os. criando nalguns sectores conservadores das Forças Armadas expectativas e esperanças e o repúdio simultâneo dos mais reaccionários. declaram o seu venerando apoio ao governo de Caetano. Pátria. não queria que o regime fosse destruído e com ele os seus sagrados princípios de Deus. – No dia 5 de Março.Guiné. chefe e vice-chefe do Estado-Maior não estão presentes e são demitidos do EMGFA. a assumirem o governo. após ter chamado Costa Gomes e Spínola. reafirmando a disposição de não ceder em África. A “coisa” está para breve. transmitida pela RTP. Vinha de um retiro no Buçaco. para todo o país. os oficiais-generais. após ultrapassada uma fase de algum desânimo. na cidadela do CIAC (Centro de Instrução de Artilharia de Costa). numa recepção beija-mão na Assembleia Nacional. publica o livro “Portugal e o Futuro”. para reflexão. e aprova o embrião do Programa do Movimento das Forças Armadas. Família. reúne-se em Cascais. a chamada “brigada do reumático”. Costa Gomes e Spínola. contestando a política ultramarina do regime numa linha neocolonialista que fora o cerne do seu pensamento e acção. CARTAS DE AMOR E GUERRA Graças ao sentimento muito generalizado anti-regime e anti-guerra.

o sargento-ajudante “Mafra”. prenunciando grandes acontecimentos: prisão e deportação de elementos do “Movimento de Capitães”. livro de António de Spínola. levara dois livros já lidos e trouxera dois livros novos. em fins de Março. O velho sargento.. a cachopa precisa é de palavras carinhosas. Desta vez. divertido e perspicaz. no regresso de férias.era possível uma correspondência paralela e “subterrânea” onde circulavam as notícias. vassalagem dos velhos generais da “brigada do reumático” a M. alguns camaradas em viagem profissional e até homens do quadro. levantamento do regimento das Caldas da Rainha. amor e esperança. repressão e mais prisões! As palavras chegavam cheias de carinho. pela mão solidária do sargento do quadro numa carta premonitória: “Meu querido amor 328 . – Cartas de amor e guerra. faziam a “ponte” que alimentava o ânimo e a militância anti-guerra. naquele promissor Março de 1974. Os amigos. com frequentes “extravios”.. solidários. meu sargento. grande dinâmica unitária do movimento CDE. com as missivas dissimuladas. greves na cintura industrial de Lisboa. e prisões. animadas pelos comunistas. Caetano. * Escrita nos últimos dias do mês a missiva da companheira relatava a grande agitação em curso nas terras de Portugal. longe do circuito oficial de cartas e aerogramas sujeitos à vigilância e à censura. “Portugal e o Futuro”. em trânsito ocasional. – Deixa lá a guerra. chalaceara à partida. percebendo o seu papel de mensageiro que evidentemente comportava riscos: – Vá! Manda lá as cartas de amor!.

(.. Mais cedo do que tarde. INHAMINGA A SUL.. sendo posteriormente espalhados por várias unidades do país para não voltarem a “conspirar” em conjunto. A rotação da Companhia Independente criara demasiadas expectativas de terminar o pesadelo de 14 meses de grande sacrifício e “porrada” contínua.. denunciados ao mundo pelo padre inglês A. Nas Caldas os soldados foram detidos e enviados para Stª. apesar de inconsequente. foi um claro sinal do descontentamento dos militares do quadro. depois de castigo disciplinar)..) Os últimos acontecimentos trazem-nos muito animados. em Julho de 1973. Não foi ainda o resultado da inquietação dos profissionais mais jovens (o Movimento dos Capitães!) que há meses vêm construindo a revolta.. mas alerta para a necessidade absoluta da unidade com vista ao derrube do regime. o meu coração transborda de esperança de que esta separação e castigo terríveis possam em breve chegar ao fim. Margarida. Os oficiais foram sob prisão para a Madeira e os Açores.) Amor querido.. Hastings. O “Avante!” da 2ª quinzena de Março. com um enorme impacto 329 . como costumas dizer”(. O levantamento das Caldas da Rainha em 16 de Março. embora a angústia da repressão nos encha de raiva o coração impotente. criando uma tremenda onda de choque entre a classe e fazendo alastrar a indignação. O teatro de guerra na zona de Tete estava um desvario após os massacres de Dezembro de 1972...(. um alferes estropiado e um tenente com baixa psiquiátrica. que custara três comandantes (um capitão miliciano morto.). refere a coragem dos revoltosos. Não foi ainda!...

é palco de uma crescente perturbação subversiva. um grupo de 100 guerrilheiros comandados por Sebastião Mabote.. Havia notícias desde Julho de 1972. – Não te quero desiludir mas olha que as últimas informações. agora isto aqui é uma merda!” O alargamento da guerrilha ao Distrito de Manica e Sofala. contraditava as afirmações sempre reiteradas do alto comando português da derrota inexorável dos “terroristas”. para onde a companhia independente tinha rodado: (. para não contrariar objectivamente a versão da vitória iminente sobre o inimigo. no caminho estratégico para a Beira. acompanhados por dois cineastas e um repórter. e nem convinha que fosse interpretado doutra maneira.. dá notícias! – um forte abraço selou a solidariedade desenvolvida nos meses de partilha das agruras da guerra. Multiplicam-se os incidentes e o que exigem da tropa é uma inaceitável e repugnante colaboração com a polícia política a prender todos os suspeitos de apoiarem os “turras”. Oficialmente configurava uma acção por focos. sempre a alinhar! – Boa sorte.. ao menos aí andávamos no mato a fazer a guerra. esta zona onde aquartelámos.. O forte investimento táctico da Frelimo nesta frente (em Maio de 1973.) “Afinal tinhas razão amigo. Algumas semanas depois. A situação é deplorável. – Finalmente vamos ter alguns meses de sossego até ao fim da comissão – exultava na despedida o furriel. era ou mato ou morro.mediático. camarada de tantas conversas angustiadas e de alguns bons momentos de convívio. chegavam os primeiros aerogramas do suposto “paraíso”. 330 . amigo.! – Nada que se compare com este inferno. de episódios subversivos no Distrito de Manica-Sofala (Beira) mas não era claro tratar-se de guerrilha organizada. infiltrou-se na zona de Cabora Bassa e por lá andou sem ser interceptado durante muitos dias).

Nos últimos dias de Julho de 1973. Depois do Verão de 1973. Constituía assim uma assinalável vitória estratégica do movimento de libertação. Ao mesmo tempo que aumentava a simpatia pela causa da independência entre os autóctones. torturando e eliminando patriotas. só foi possível porque as forças portuguesas tinham sido concentradas à volta da grande barragem. alvo de intensa acção de propaganda da Frelimo. prendendo sobas e régulos. A tropa regular. iria assistir e nalguns casos participar. foi aumentar a espiral de violência enquanto continuava a falar em ganhar a guerra. trazendo e levando gente numa corrida fatídica contra o tempo. apenas conseguia aumentar as simpatias pela causa da independência. em Tete. sobretudo depois da chegada das tropas especiais. lançava o pânico. Entravam e saíam carros civis e militares. tudo se iria complicar com a chegada à região de uma companhia de comandos e outra de pára-quedistas. em autênticos massacres. Podia-se justamente concluir que a sua passagem para sul do Zambeze. marcado pela rápida expansão das ideias da libertação do colonialismo. massacrando ferozmente populações. o alastramento da guerra até ao importantíssimo eixo Beira-Vila Pery. A sanha perseguidora. A resposta do aparelho políticorepressivo associado ao alto comando militarista. Estas denúncias referem milhares de 331 . São uma vez mais os missionários a denunciarem ao mundo as atrocidades cometidas na região de Inhaminga. onde o terreno estava relativamente “livre”. à semelhança do que tinha sido perpetrado no meio da década de 60 no Niassa e em Cabo Delgado e no princípio da década de 70. a azáfama aumentara no posto da PIDE/DGS de Inhaminga. uma povoação importante no caminho para a capital do distrito. vinda da guerra no mato. nas hostes colonialistas.mostrava claramente que o movimento de libertação não só não estava em perda como mantinha a iniciativa militar.

originando dezenas de milhares de deslocados. continuava a manter a polícia política do fascismo como “serviço de informação militar” (apesar dos inoperantes SCCIM – Serviços Centrais de Informação Militar. durante a operação Nó Górdio. geralmente odiada. atribuindo-lhe uma bondade que abria as portas para as maiores atrocidades. terem essa atribuição). a alta hierarquia militar. 332 . revestindo à sua actuação um carácter de genocídio em tempos de estertor do último dos impérios coloniais. Gungunhana e Moçambique. Fazia-se assim uma pérfida e dramática distinção entre a PIDE/DGS em Portugal. nas torturas e execuções sumárias e nos bombardeamentos da FAP com napalm. com o sacrifício de milhares de indígenas no altar da sua extrema ferocidade. a Frelimo escrevia um último capítulo da luta de libertação nacional. Reflectindo a arrogante impotência do fim do ciclo imperial. com homens de “antes quebrar que torcer”.mortos. como na localização das bases Nampula. enquanto o exército português se atolava no compromisso com a ditadura que não quisera (não queria!) resolver o problema colonial. por cegueira. adivinhado naquele início do ano de 1974. quando grandes acontecimentos já estavam em marcha na Pátria da “vil tristeza”. Consideravam os oficiais-generais ser a acção da PIDE/DGS vital para o êxito das operações militares. e nas Colónias. pela PIDE. mesmo depois dos seus rotundos fracassos. conveniência ou por convicção. No estratégico caminho da Beira.

do Brasil. sempre atento e bem informado: – É uma comitiva de adidos militares de vários países em visita à região norte. pormenoriza a terrível carnificina naquela região e termina referindo a visita do vigário-geral da diocese da Beira. chamavam a atenção para a importância da embaixada encaminhando-se para o edifício do comando. significando tratar-se de militares de patente elevada. dada pelo chefe da secretaria. – São “patentes” da África do Sul.“Strella”. padre José de Sousa àquela área.. E não têm medo de vir para estes lados!? – a constatação foi feita em voz baixa.. Continuava-se a prender e a matar desvairadamente e assim foi até ao último dia.. Tantas fardas bonitas e diferentes: brancas. podiam ver-se muitas estrelas... em tom prudente: – Ora! Por aqui já quase não há guerra!. a norte de Moçambique. amarelas.. – Têm fardamentos bonitos!. Vêm observar “in loco” para informarem com verdade os respectivos países. Quem prestou contas à justiça por tudo isto? . O “Chico” parecia convicto mas o discurso “oficial” não eludia a realidade. com foguetes terra-terra de 122 mm. azuis. Ainda há poucos dias tinham sido atacados vários aquartelamentos em Cabo Delgado. A explicação não tardou. algo raro por aquelas bandas dos confins da guerra. de 19 a 22 de Abril de 1974. Observada à distância conveniente para evitar saudações constrangedoras. da Namíbia.. cinzentas e verdes. Mesmo tendo diminuído as 333 . incluindo aquele. da Rodésia.O relatório dos missionários que deixaram a missão de Inhaminga em 19 de Março de 1974. E até aí está um comodoro da marinha britânica! – A velha “santa aliança”!... De que países? – a interrogação visava despertar a esperada vaidade de quem gosta de exibir conhecimentos. Vão ter um “briefing” com o nosso comandante. tendo-se verificado que nada tinha mudado na horrorosa situação. em plena luz do Sol.

. – Só agora acabaram a reunião? Já vão atrasados para o almoço em Mueda! – Vão tarde. quando João ali tinha aterrado pela primeira vez.emboscadas e as minas por aqueles sítios da fronteira do Rovuma. e o Tenente do SGE a dizer que quase não havia guerra.. encaminhou muitos passos na hora do almoço para a pista de terra batida. os aviões de abastecimentos tinham rareado.. Zambézia. um bimotor de transporte militar usado pelos americanos na II Guerra Mundial! – esclarecia o amigo e conterrâneo Valter. onde João fora aboletado por determinação do comandante. em 1971. A beligerência estendera-se cada vez mais para o Sul: Tete. tal como há três meses atrás.?! A curiosidade de ver o avião onde tinha chegado tão ilustre deputação. Recentemente havia notícias da “nova guerra aérea”. a comida escasseava. a iniciativa estratégica pertencia ao movimento de libertação. arroz com feijão frade e um ovo estrelado. depois do caldo aguado. porque a nova de alcatrão e com outra dimensão. Era o maior avião por ali estacionado nos últimos tempos e os vários mirones que se tinham aproximado para ver a nave de perto.. comia-se em dois turnos. de serviço à pista. retiraram-se à procura da refeição frugal. digna de registo. após a operação “Nó Górdio”. mas decerto terão um almoço melhor que o nosso! – o 334 . Na messe dos sargentos. cada vez mais fraca à míngua de géneros frescos. chegam os sons roncantes de dois motores em aceleração. não estava pronta: – É um “Dakota”. após uma grave crise de desnutrição. Manica e Sofala. Com as últimas garfadas. o correio andava atrasado quase um mês.

Agarrados aos frágeis bancos de lona. quando o avião começou a trepidar fortemente ameaçando desintegrar-se. já utilizados na Guiné pelo PAIGC. deixando ver um enorme buraco na fuselagem da asa. No pequeno avião não havia porta de separação do “cockpit”. – Fomos atingidos! Fomos atingidos! O motor do lado esquerdo entrou num curto estertor e calou-se.. quando o coronel abria a boca para repetir a chalaça em inglês. Por favor. um extraordinário impacto e um grande estrondo sacudiram o “Dakota”. a aeronave subiu muito alto. A nave começou rapidamente a perder altura: – Fomos atingidos por um míssil! Perdemos o motor esquerdo. com o 335 . os “Strella”. vamos tentar uma aterragem de emergência. virando-se para a comitiva tagarelando. Num repente.“Alcácer” trabalhava na messe e lamentava não haver géneros para fazer refeições decentes. Todo o esforço dos dois pilotos para manter o avião militar equilibrado era presenciado pelos viajantes. espreitavam pelas vigias a perda permanente e constante de altitude do avião. – Chegamos a Mueda dentro de vinte minutos – informava sorridente o piloto-chefe. prevenidos os pilotos para a existência de foguetes terra-ar. – Calha bem. Depois de levantar voo na pequena pista. numa angústia terrível que transparecia nos rostos transfigurados. – ironizava o coronel que chefiava aquela missão de uma dezena de militares estrangeiros convidados. arrancando gritos de espanto e surpresa que em breve se transformaram em pavor. mantenham a calma! – a voz forte do comandante sobrepôs-se ao burburinho de pânico disfarçado das “patentes” a não quererem mostrar a desorientação.. são 13 horas e o almoço arrefece!. ainda fumegante. atingira-se uma situação alimentar muito precária. Em princípios de Abril de 1974.

A pista chegava ao fim e a aeronave não travara o suficiente. – Tenente. em rápida aproximação da terra. Arrastando o bojo mais uns metros e torcendo para a direita no meio de uma nuvem de pó.. todos os ocupantes saíram incólumes do “Dakota”. salvou uma situação em que as hipóteses de sobrevivência eram muito reduzidas. difícil de conseguir devido à falta do motor atingido: – Meus senhores! Agarrem-se o melhor que puderem. imobilizou-se por fim. 336 . Com alguns arranhões apenas e umas tantas nódoas negras. travando a fundo os rodados. O incrível sangue frio e a perícia daqueles dois experimentados pilotos. O desequilíbrio do bimotor quando tocou o solo. a seguir começava a aldeia de palhotas e o depósito ainda tinha muito combustível!. nunca ali tinha aterrado uma nave tão grande. a exigir a elevação do “nariz”. O piloto-chefe informou via rádio. faça-o afocinhar! Faça-o afocinhar! O capitão-aviador acelerou ao máximo o motor restante em contramarcha. fora feita para receber os pequenos monomotores. quando se aperceberam da situação. a unidade militar mais próxima. o avião meio destruído. no fim da manhã de graça de 7 de Abril de 1974. não permitiram uma boa travagem. e a falta do motor. No interior andavam todos aos trambolhões. O “Dakota” seguia agora mais equilibrado.motor restante acelerado ao máximo. vamos “dançar” um bocado. A pista de terra batida e cheia de buracos. fazendo um barulho ensurdecedor. em Diaca . obrigando a nave a baixar a frente na precisa altura em que atingia as primeiras cabanas do aldeamento. enquanto o tenente puxava os “ailerons”. prevenindo-a da emergência.. abandonadas à pressa pelos indígenas. gritando o desespero da hora derradeira.

a CDE arrostava o ódio das forças repressivas. depressa se envolvera na luta pela democracia. dos trabalhadores. Uma dezena de mulheres compartilhavam a mesma sala no Governo Civil. recebidas com grande apoio popular. 337 . o Movimento Democrático ficara particularmente activo. dos estudantes. – Pois! E aproveitam tudo para nos incriminar – a morena roliça de olhos castanhos. Intensificava-se a luta antifascista nos primeiros meses de 1974. e desmultiplicava-se em acções de rua. cada dia mais assanhadas na defesa da ditadura. concitando maiores apoios e socavando as bases do regime. vinda do Sul para estudar. a Polícia de Segurança Pública invadiu as instalações de um prédio em construção na zona de Benfica. Foram detidos mais de seis dezenas de participantes. preocupadas com o futuro imediato: – É previsível que nos entreguem à PIDE – considerava a São com experiência no assunto. Coordenando a luta legal e semi-legal. onde decorria uma participada assembleia de democratas. preparando a luta próxima que em Maio se deveria intensificar. Mantendo as estruturas criadas para as frustradas “eleições” para a Assembleia Nacional. Esta força política abrangia cada vez mais sectores sociais. No dia 6 de Abril de 1974. enclausurados no Governo Civil de Lisboa e posteriormente entregues à PIDE/DGS.POEMAS DE AMOR E REVOLUÇÃO Depois de Outubro de 1973. da intelectualidade progressista. por não haver condições democráticas. Tinha consigo vários papéis dos quais não se queria desfazer – cartas do companheiro na guerra. a CDE (Comissão Democrática Eleitoral) desiste das mesmas nas vésperas. enfrentando o regime caduco e despótico que recrudescia na acção repressiva.

sublime e autêntico. mas se soubesse fazer poesia. – Minhas senhoras. será o grito de revolta. não sei qual a sua fonte de inspiração. esta amarra indestrutível que nos une e pode mais que toda a injustiça e iniquidade. escrito na pedra ou no vento. doendo no corpo e na alma..)” separar-se daquelas palavras tão apaixonadas. molhada em lágrimas de saudade e de angústia pela separação prolongada. tão Não teve tempo de completar a leitura.: “. sentimentos e emoções de uma vivência difícil. Daniel Filipe é o autor destes versos magníficos. tê-lo-ei sempre comigo.” Eram cartas-testemunho de um período muito doloroso.. que toda a arbitrariedade e prepotência que sobre nós fizeram recair. A morena de olhos escuros dos genes árabes..) “Pela dádiva mútua da nossa carne mártir Pela alegria em teu sorriso claro pelo teu sonho imaterial Pela cidade escravizada pela doçura de um beijo de despedida Lutaremos meu amor Na aparência sozinhos. será a espada da justiça apontada aos homens que nos fazem sofrer(. estava decidida a não desfazer-se delas e continuou a leitura-saudade: (.cada dia que passa vai-se acumulando a saudade. à porta da cela onde 338 . cresce o amor. Faremos dele a nossa canção de luta. onde quer que viva onde quer que morra.. Amo-te querida esposa.. gostava de escrever um poema assim.– Vou pedir para ir à casa de banho! – hesitava na decisão a tomar. Custava-lhe magoadas. dependurado à cabeceira. multidão na verdade Lutaremos meu amor”. preparem-se para sair! – anunciava uma voz autoritária com requebros de satisfação. onde quer que obriguem o sacrifício humilhante. o desejo....

intimou com acinte discricionário na voz: – Dispa-se. “Poemas de amor e revolução”?!. minha senhora. A carcereira às ordens da PIDE. – É o regulamento. surpreendendo o graduado: – Para onde vamos? Para onde nos levam? – indagou a Manuela com firmeza...! – Afinal o senhor sabe para onde vamos! Vão-nos entregar à PIDE. Não tivera tempo para mais hesitações.. apenas recebemos ordens para as transferir... completamente. Eram ordens. porém. 339 . mudando o tom. foi o supremo vexame do exame minucioso do “regulamento”. fazia agora o papel cínico do saber de manha feito. por favor! – Também tenho de tirar a roupa interior? – Tudo! Não se aflija que só cá estamos as duas! – É uma humilhação!. entretanto regressada dos lavabos.. pois a primeira coisa que lhe fizeram à chegada ao reduto norte de Caxias. como era uso. Era outro. igual para todas que cá entram! – Não pedi para vir para cá! – Chega de conversa! Ora vamos lá a ver o que temos aqui?. – Isso não sabemos. doía-lhe o coração separar-se das palavras do companheiro.normalmente pernoitavam as prostitutas apanhadas nas rusgas.. Decisão temerária e esforço inglório. a morena de cabelos em franja.. decidiu arriscar escondendo cuidadosamente as missivas em “papel de avião”. Muito interessante. o estrato humano em presença. não é?! É esse o vosso papel miserável! – atirava com convicção à cara ruborizada do polícia. – São cartas do meu marido que está na guerra. Quando lá chegarem dão-vos todos os esclarecimentos! – o subcomissário. a ala dos interrogatórios e das torturas.

– Se pudesse ia para lá já hoje!. – Vais ver. A minha companheira foi presa! – Não pode ser! Quando? – reagia na circunstância o conterrâneo e amigo. sinto-me atado de pés e mãos. Era preciso arrumar as ideias. no habitual convívio de fim de tarde atarantado com a notícia. – E agora. com a miúda pequena!. nem sabia bem. 340 . em Lisboa.. desabafar: – Recebi um telegrama de Portugal. prostrado. por minutos ou por horas. analisar a situação. produto da fé dogmática. Lágrimas reprimidas mas teimosas. – Foi detida no princípio do mês. que vais fazer? – questionava o Pedro. * A notícia chegou fulminante em telegrama lacónico: – Meu Deus! Detida na PIDE/DGS e eu aqui neste desterro! – quase gritou na solidão da caserna. na caserna pobre e alheia às vicissitudes. numa reunião da CDE. o ser humano tem a capacidade de ressuscitar. Depois ressuscitou! É verdade.. João deixou-se ficar com a carta-telegrama na mão. Ao pânico seguiu-se a angústia e a confusão..– Depois logo explica isso ao senhor inspector. sem conseguirem desatar o nó na garganta e a funda vertigem cavada de repente no peito sufocado. onde se precipita e desorienta a consciência da situação: “Que vou fazer agora? Que posso eu fazer?” Sentado na beira do beliche. não sendo tal apenas uma prerrogativa transcendente de um Deus-feito-homem. não vão detê-la por muito tempo. Aqui neste fim do mundo. com data de há dois dias..

. mal a conheço!.. NA VÉSPERA DE ACONTECIMENTOS IMPORTANTES.. – É tempo de derrubar o fascismo. UM GRANDE ATAQUE Entre patrulhas inspeccionando os mesmos lugares. Estou farto desta guerra! – a raiva e a esperança seguiam-se à angústia inicial. Algo paira no ar!. Aquilo lá está complicado. agravado por um quotidiano de misérias. operações envolvendo quase só os Grupos Especiais formados por indígenas que pagavam as “favas” de uma situação racista. a guerra prosseguia sem fim à vista. 341 . Estamos todos fartos! Até os “chicos” andam nervosos e inquietos depois do levantamento das Caldas.. com o parlatório de permeio. Via-a ao colo nas visitas à prisão em Caxias. que avançavam lentamente. tanto quanto sabia o senso comum da caserna. intermináveis e desnecessárias: um expoente da “Operação Fronteira”. frustrações e medo. Igual era a situação das obras da nova pista de aterragem. nas mesmas picadas. o que significava um progresso assinalável no estado de espírito de João. lançada à dois anos pelo general fascista. as flagelações e ataques à distância para manter a tropa aquartelada em permanente sobressalto. – É da idade do meu.. de quem tinha um filho também pequenito.. sem saída previsível. a Manuela conta-me de uma grande agitação social. greves nas fábricas!. nos primeiros meses do quarto ano da década de 70. – Pedro referia-se à esposa.Que idade tem a tua filha? – Faz dois anos em Junho.

seriam assinados daí a meia dúzia de meses (a 7 de Setembro de 1974) e que a independência de Moçambique seria celebrada pouco mais de um ano depois. talvez o enorme campo de aviação.. da contestação e da revolta. Aliás. naquele momento ninguém suspeitava que os acordos de cessar-fogo (Acordos de Lusaka). Algumas casernas tinham mesmo uma intercomunicação com a 342 . No presente. no atropelo dos saltos ensonados nas madrugadas caóticas e estonteadas. Às quintas-feiras havia um batuque para os lados da aldeia maconde. entretidos a vigiarem as férias uns dos outros e a contarem os escudos do medo. viesse a ser útil um dia no futuro de Moçambique independente. Embora houvessem esperanças e convicções nalgumas consciências. com deficientíssimas condições de higiene porque a água era escassa: “Assim nunca se ganharia a guerra!. Já quase chegavam para a casita nova. um pensamento roía a consciência de muita gente militar presente. sobretudo porque a Frelimo não gostava muito daquelas “festas”. os pensamentos ruins atormentavam a psique de muitos “chicos”.. apto a receber grandes aviões. Embora ninguém se atrevesse a admitir verbalmente. em 25 de Junho de 1975. diziam as vozes do desânimo. perdidos no meio da burocracia conveniente. a bem da moral psicológica das populações. mas que era por vezes motivo de incidentes.entretanto afastado. fazia parte da orientação do In. que não matavam mas moíam bastante.”. somados na terceira ou quarta comissão. na procura da G3 obrigatória e na fuga para o abrigo mais próximo. manter o super-aquartelamento em permanente “stress”. mal alimentados. mal instalados. uma tradição que a orientação da APSIC recomendara manter. Subsistiam as misérias diárias de centenas de homens. Rebentamentos ocasionais punham as casernas em pé-de-guerra e os corações a baterem ao “pé da boca”..

com a arma cruzada entre os braços. * Uma nuvem de poeira e uma chuva de terra acompanharam o formidável rebentamento. desde que começou o ataque às 8. Os ouvidos zuniam numa surdez momentânea e num atordoamento que fazia perder a noção da realidade: vivos ou mortos? É ténue a fronteira. encarregada da segurança daquela área. – Estão a cair com intervalos de 30 segundos. a escassas dezenas de metros da vala pouco profunda. esta caiu muito perto! Um silvo agudo semelhante à aproximação de um avião de reacção. dando instruções breves aos homens com espingardas aperradas. estão em calções 343 . Companhia de Caçadores. Pela primeira vez em pleno dia. debruçados no parapeito da vala. É o décimo.10 da manhã do dia 4 de Abril de 1974. mas às vezes não!. – Ai minha rica mãezinha. a FRELIMO dispara foguetes sobre o grande aquartelamento. Felizmente a maior parte eram falsos alarmes. – Só disparam com minha ordem! Calma! Alguns foram surpreendidos a dormir na caserna.. servindo de fraca protecção aos soldados saídos a correr das casernas e dos edifícios administrativos. anuncia a aproximação de mais um foguete de 122mm.. que não resistiriam a uma boa “morteirada”. à espera de uma hipotética tentativa de penetração. quando o pânico perturba a racionalidade. mantém-se calmo e agachado sobre um montículo de terra. onde centenas de homens correm à procura de protecção urgente.fraca protecção do abrigo feito de troncos cruzados e cobertos com terra batida. Têm mais de uma rampa de lançamento! O furriel comandante de um grupo da 2ª.

entretido a escrever à máquina um aerograma. saindo do seu gabinete tenso mas determinado. Quanto tempo passara? Dez minutos? Uma hora? Ao barulho assustador dos foguetes-granada a rebentarem regularmente. a responderem ao bombardeamento: 344 . A excepção foi o comandante do aquartelamento. arrancando resoluto no jipe. ser um normal rebentamento na pedreira. tinha decerto instruções hierarquizadas. de 8 e 14mm. na direcção da pista de aviação em eterna construção.. enquanto o chefe não chegava.. pensava-se inicialmente. onde era extraída a pedra para a construção da pista: – Hoje começam cedo! – comentava o soldado de serviço. – BUMMM!! – É um ataque! É um ataque! – gritava-se na parada em correria assustada na direcção dos locais de segurança pré-destinados. os “chicos” foram os primeiros a “desertar” para o único abrigo com protecção de troncos. com óculos antiquados que davam ao tenente-coronel um ar de padreco. juntava-se o som potente e rouco dos obuses da Artilharia. Um estrondo mais distante assinala o rebentamento do projéctil que passou por cima a sibilar. pois o número de graduados não dava para encher o local protegido. onde psicologicamente o susto era menor. Não completara a frase quando se ouviu um segundo e mais poderoso estrondo: “Caro amigo Júlio”. a meia encosta. Os administrativos da secretaria reagiram atávica e tardiamente à debandada dos chefes: – O abrigo está cheio! Não pode entrar mais ninguém! – o soldado de guarda à entrada. Na secretaria do comando. na direcção do posto de artilharia da unidade. Na reacção. Restava a vala-trincheira já superlotada.e tronco nu porque o tempo contínua quente.

Olha se caísse aqui?!. – O sopro do rebentamento tem um efeito em leque.. Aprendia-se nas conversas de caserna.. a mais de cinco quilómetros. os nossos canhões não têm precisão a essa distância. mas a tremenda e instantânea confusão. que “quando se ouve é bom sinal!”. atreveu-se um soldado quando a situação voltou a acalmar transitoriamente. com o ar grave e amadurecido de pouco mais de 20 anos corajosos. Ninguém depois da morte pôde relatar a experiência. – Ena.. sempre de cócoras.. – Toca a todos! – comentava-se na relativa segurança da vala. filho de pequenos agricultores.. Outra vez a voz calma do furriel Costa. algumas cabeças atreviam-se a espreitar acima do bordo.. é relativamente inofensivo.– Os “frelimos” estão a disparar daqueles morros além. com a G3 entre os braços. Um novo silvo ainda mais intenso e trepidante sobrepôs-se a todos 345 . O furriel Costa continuava imperturbável. “arrancado” à escola superior de agronomia. pá! Por pouco!. não morreu um gajo no ataque a Palma! . a menos de 50 metros. – Pois não.. Sol de pouca dura pois um silvo intensíssimo aproximava-se rapidamente. Havia uma pequena pausa no ataque. após a colossal explosão que fez voar o telhado de uma das primeiras casas da “cidade nova”. ao fim da tarde. ribatejano.. contudo calou-se quando se tornou distinto o sopro agudo de outra aproximação: – Esta castanha é para os lados da aldeia maconde. imperturbável no seu montículo a animar as hostes. permitia concluir que ainda estavam vivos. – Esse apanhou com um ferro do telhado do armazém que foi pelos ares! – Em pleno dia é um arrojo! Estes “turras” estão mais destemidos! – o tom dos comentários traduzia o estado de espirito da tropa.

durante uma hora e vinte minutos. A resposta da artilharia esmorecia também. Luís Manuel compunha um sorriso enigmático que tanto podia ser de satisfação pela libertação da amiga. – Venho estafada. O ritmo dos rebentamentos ia diminuindo depois das formidáveis explosões à segunda passagem dos caça-bombardeiros. acabada de chegar da prisão-fortaleza de Caxias.. No dia 4 de Abril de 1974. até sobrevir um final silêncio ensurdecedor. Os olhares cruzados naquele instante.. parecendo nunca levar as coisas muito a sério.os anteriores. há quase um mês que não me deito na minha cama 346 . como podia encobrir de facto algum acontecimento importante irrevelável. só estragos materiais. fica atenta às notícias da telefonia!. as munições deviam estar a escassear. No seu jeito brincalhão característico. AQUI POSTO DE COMANDO DO MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS – Esta noite não te deites. rebentaram mais de cento e cinquenta foguetes de 122mm no perímetro militar de Nangade. já se via muita gente de pé. passando fugidios para deixar a sua carga de morte nos morros de onde vinha o ataque. a pontaria estava agora muito alta. traduziam um intenso pavor. Nove horas da manhã. caindo os últimos foguetes lá para os lados da “pista nova”. até que da extrema da vala alguém gritou: – Os “fiates”! Vêm aí os “fiates”! – Hurra! Hurra! Finalmente! – dezenas de cabeças levantaram-se na pequena trincheira para saudar os pássaros de guerra esverdeados. Por um bambúrrio de sorte não houve vítimas.

ao rever o local à beira-rio. sempre lindo.. bem precisas. O inspector Tinoco falava muito do meu companheiro. distendendo os nervos.. Tarde chuviscosa com o Sol a espreitar de vez em quando.e não queres que durma? Sorria. enfrentava prudentemente o Cais do Sodré. – Lá estás tu a brincar! É o “Movimento”? Se me disseres talvez não durma mesmo!. no “Abril em Portugal”. pela primeira vez em muitos 347 . a jovem morena que trocara o Sol das terras de nascimento pela participação activa na luta antifascista. nos novos caminhos da liberdade precária. Saíra a porta de Caxias às quatro e meia da tarde do dia 24 de Abril com uma caução paga pela família. sempre muito movimentado em hora de regresso a casa dos muitos portugueses que atravessam diariamente o Tejo.. Amanhã logo saberás quando acordares. Conhecendo o ditado das “águas mil”. aprendida no movimento estudantil e aprofundada na vila operária. trataram-te mal? – questionava a Leonor companheira do Luís. a jovem mulher com ar cansado. prometido pelo turismo incipiente ao turista distraído. – Como foram os interrogatórios. rapariga! Descansa. – o camarada divertido procurava dar um sentido à conversa.. – Fizeram-me muitos interrogatórios prolongados. em vias de se tornar definitiva. Não te preocupes.! – Pois é! Lá tinha de te calhar o mesmo. O comboio da linha fora a primeira etapa. sem objectivar. – Vai-te deitar.. mesmo em dias de borrasca. que também tivera uma curta e desagradável experiência na polícia política.. onde começara o namoro e. se se cumprisse a movimentação preparada. sem imaginar os grandes acontecimentos em marcha na pátria-jardim triste à beira-mar plantado. o Tinoco também não vai dormir esta noite!. Emocionava-se em direcção ao Terreiro do Paço.

horas e horas de angústia. Como estaria o seu João. a mostrar serviço na presença do superior. demasiado tempo! Fora um transe muito difícil. para além da participação na reunião para a formação de uma associação cultural em Benfica.. desde a partida do marido para a guerra. onde vivia com os sogros. com a insistência da PIDE durante horas e horas na sua ligação ao Movimento Democrático e ao Partido Comunista. o companheiro escolhido para partilhar a vida e as ideias que tão longe penava o preço da luta pela liberdade contra a opressão colonial? De regresso à casa modesta. sobre as 348 . não! Então esta noite não vai dormir para refrescar as ideias! – E para ganhar juízo! Os que foram presos consigo já se despacharam todos. a esta hora já estão em casa com as famílias. – empertigou-se o chefe de brigada. sorriu. “visita” diária desde o primeiro dia. comoveu-se com o reencontro da filhota de dois anos que não via há muito. – Responsáveis fomos todos.. Novamente a insídia do inspector superior. – Isso sabemos nós! Queremos é saber quem foram os responsáveis da reunião e quem no Partido lhe deu as instruções!. cínico inveterado mas mais polido: – O melhor é dizer o que sabe sobre esta reunião em Benfica. para ir ter com a filha de dois anos a precisar de si! – insistia pela enésima vez no tom característico que lhe dava a fama de requintado torcionário. – Não tenho nada a declarar. na dúvida sobre o que os outros presos teriam dito. nada mais tenho para dizer! – Ah. Os outros esbirros iam rodando em “moinho”. mais as ameaças de ficar sem dormir e as referências insidiosas ao companheiro na África longínqua: – Está na guerra em Moçambique?! Uma bala perdida e resolve-se o problema! – insinuava um dos facínoras que acolitava o inspector Tinoco.dias.

Tinha vencido a batalha! Tudo isto lhe passava pelo cérebro. Na telefonia a voz conhecida e bem timbrada de Luís Filipe Costa vem dar um outro melhor bom dia. alegre por rever a mãe.. após quase vinte dias de interrogatórios. prestes a levar um bom e muito desejado abanão. filha de uma vida de muito sacrifício e sofrimento. na hora de tentar conciliar o sono. Por fim desistiram. com a convicção de que algo de importante estava para acontecer. a saudade roendo o corpo e a alma.insinuações em relação ao companheiro. onde cabia toda a candura do mundo. Um último pensamento foi para o companheiro distante. * – Acorde! Acorde! Estão a dar na rádio. ao lado da filhita a dormir cansada da brincadeira. com o renovado ânimo para o próximo embate no dia seguinte ou daí a algumas horas apenas. Finalmente! 349 . em catadupa. sobre a sua própria capacidade de resistir à prometida tortura do sono. vieram buscá-la para interrogatório quando se preparava para se deitar. Numa das vezes. uma esperança secreta do castigo terminar rapidamente com a derrota dos castigadores: “Que quereria o Luís dizer com aquilo de não me deitar esta noite?” Adormeceu vencida pelo desgaste físico e pelas terríveis emoções dos últimos dias. contente consigo própria por ter resistido a mais um enfrentamento. houve qualquer coisa em Lisboa!. com um sorriso como não via há muito tempo. Sete horas da manhã do dia 25 de Abril de 1974. O rosto generoso da sogra dava-lhe os bons dias. e só regressou exausta de madrugada..

350 ..– Aqui posto de comando do Movimento das Forças Armadas!..

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