You are on page 1of 9

1. Qual a diferença entre cópia e imitação(mímesis)?

Explique por que a mímesis (arte) é capaz de realizar o falso discurso. Dê um exemplo do perigo da mímesis na publicidade. 2.Considerando a diferença entre o mundo sensível e inteligível em platão estabeleça uma relação entre verdade e mentira no mundo da comunicação,através das reflexões contidas no filme Matrix.

Platão e a mentira
PLATÃO E A MENTIRA

Amarildo Pessoa “Inventamos a maior parte da vivência e dificilmente somos coagidos a não contemplar como ‘inventores’ algum evento. Ou, para exprimi-lo de modo mais virtuoso e hipócrita, em suma, mais agradável: somos mais artistas do que sabemos”. (Nietzsche) A primeira referência de um discurso sobre a arte se encontra na obra de Platão. A beleza como objeto de reflexão da filosofia no intuito de elaborar uma ontologia do belo, não encontra aqui um objeto autônomo, isso só vai acontecer no século XVIII quando Baugarten define a estética como ciência do Belo. O discurso de Platão tem o objetivo epistemológico de assegurar o conhecimento da verdade. Ao reduzir as artes ao nível da ilusão Platão estaria protegendo os cidadãos da principal fonte de engano que é Fundamento de toda fruição estética: O mundo dos sentidos. No último capítulo da República, Platão elogia os poetas pela sua capacidade de imitar todas as coisas e embora conseguissem fazer coisas admiráveis, na cidade ideal não existe e nem deve existir pessoas como eles. O que chama atenção no texto é o elogio e a reverência a figura do Poeta e em seguida sua expulsão da cidade. Ao identificar o perigo que o artista pode representar percebemos o reconhecimento da força do fenômeno artístico. Para os desavisados o poeta copia para o Filosofo ele imita, realiza uma mímesis. Buscar a diferença entre cópia e imitação nos possibilitará a pensar a mímesis, o conceito moderno de arte. Na obra de Platão não há explicitamente uma teoria da arte pois sua manifestação primordial,a aparência, não tem lugar na sua filosofia. O belo aparente é mencionado para demonstrar como as coisas

mas digo que começa. e conheça enfim o que em si é belo. mesmo assim as obras de Platão nos dá indícios de uma forte paixão pelas artes.participam da idéia perfeita de belo. em vista daquele belo. em que consiste o proceder corretamente nos caminhos do amor ou por se deixar conduzir em começar do que aqui é belo e. No Ion. isto é? Platão diz que sim desde que exista algo perfeito e imutável. tal dialética encontramos no banquete: “Eis. Em quase todos os seus Diálogos ele recorre a imagem para explicar a “Idéia”. devido o seu caráter poético. na República diz nutrir. dos belos ofícios para as belas ciências. como que servindo-se de degraus. É o que ele chama de idéia que identifica o ser. que a estética começa com Platão. além da citação de vários escultures e pintores. Isto pode parecer estranho à maioria dos seu leitores. . Se diante da multiplicidade e da precariedade do mundo sensível eu digo “Tudo muda”. subir sempre. desenvolvidos posteriormente pelos modernos como uma ciência autônoma que tem o belo como objeto específico. desde criança uma rever~encia a Homero. Os sofistas questionavam o princípio da identidade através do argumento da mobilidade. com efeito. poderia afirma sobre alguma coisa. A partir da coisa que contém o reflexo do belo podemos chegar de uma forma ascendente à idéia perfeita. que por sua vez participa da idéia das idéias: o “Sumo Bem “ . porque embora reprimidos encontramos na sua obra não só uma atração pelas belas artes. Os objetos fabricados. mas elementos básicos da estética. ao belo em si. O indício mais forte de sua proximidade com a arte se assenta no fato de que os Diálogos são considerados hoje como autênticas obras de arte. que de nada mais é senão daquele próprio belo. de um só para dois e dois para todos os belos corpos.” O processo dialético aqui apresentado justifica a rejeição da aparência como suporte de conhecimento. com exemplos citados acima. como é o caso do mito da caverna na República. Podemos dizer . com certa reserva. Tais elementos se encontram sufocados em seu projeto filosófico que tem como objeto demonstrar a existência de verdades universais e necessárias e a possibilidade de conhecê-las. atéque das ciências acabe naquela ciência. e dos belos corpos para os belos ofícios. ele elogia os poetas: seres alados.

cores. Poderíamos dizer apressadamente que o simulacro por ser cópia da cópia é uma distorção do real. ela é cópia da cópia. nela uma idéia progride a outra sem depender da experiência sensível. da idéia. Gilles Delleuze aponta na filosofia de Platão uma supremacia da cópia ícone sobre o simulacro. Neste caso a obra do artista está num terceiro grau abaixo da verdade. de uma forma limitada. . Considerando esta teoria do conhecimento. um mero reflexo de uma determinação do real. a geometria é uma prova. os sapatos pintados por Van Gogh não é apenas uma cópia . sendo que por isso mesmo. Mas se os sapatos pintados por Van Gogh parece ser mais sapatos do que aqueles fabricados pelo sapateiro. As coisas sensíveis são cópias sem força própria e só se mantém pela sua relação de lembrança com a matriz. são apenas reflexo do mundo das idéias inteligíveis. mas isto não impede que o reconheçamos como sapato. pois o sapateiro ao fabricá-lo mantém seus olhos fixos na idéia de sapato. Platão faz questão de deixar bem claro a diferença entre cópia e simulacro. por só atingir parte mínima de cada coisa. como explicar a força dessa imagem . simples simulacro”. nela se expressa o opaco. por ser a primeira resultado de uma relação interna da cópia com a idéia: “A cópia não parece verdadeiramente a alguma coisa senão na medida em que parece à idéia da coisa”. Da possibilidade de tais idéias. materiais e modelos. dá a impressão de poder fazer tudo. quetem por essência a mímesis. quase sem sentido. um par de sapatos se apresenta em uma variação infinita de tamanhos. a idéia. pois tal mímesis se define pela distãncia do verdadeiro. ele pinta apenas um aspecto do que os sapatos representam e acaba criando um fantasma: “logo a arte de imitar está muito afastada da verdade.por exemplo. os objetos fabricados pelo homem são cópias e como tais. vamos perceber o esboço do que os modernos vão chamar de belas artes. O operário não produz a idéia mas subordina seu trabalho a ela. Deste modo o sapateiro é um bom imitador pois torna sensível. Se a cópia é uma imagem que tem semelhança. e nesta distinção.

não-ser. pois entra em contato apenas com um dos seus significados que é o sema da semelhança. diremos que são seres. proposta no diálogo do do sofista. e ao contrário. O perigo da mimeses visto por Platão. da qual depende o sucesso de Orestes. a sua verdade que é ser outro. podemos dizer: isto é um par de sapatos.distanciada em terceiro grau da verdade? Os sapatos estão tão realísticamente pintados.” O sentinela não percebe o caráter duplo da mímesis realizada. está em não ser cópia. sem ser percebido como grego. para passar pelo sentinela. uma aparência com o ser estrangeiro. onde Platão através dos dois tipos de mimeses define o não-ser como outro do ser: “segue-se pois necessariamente. A mímesis deve conter a semelhança. que ao olharmos para a tela. Luiz costa Lima capta muito bem este momento da mímesis na interpretação de uma passagem da tragédia Choephore de Ésquilo: quando Orestes tenta entrar no palácio e realizar sua vingança. exterior. mas é um efeito de conjunto. não somente no movimento. produzido por meios completamente diferentes daqueles que se acham em ação no modelo. pois conserva a diferença. Neste empreendimento notamos o caráter duplo da mímesis. em todos eles a natureza do outro faz cada um deles outro que não o ser e. corretamente. sobre uma diferença. A obra de arte cria um momento de duplicidade e nos deparamos com a questão do ser e do não-ser. Tal diferença não ocorre na cópia uma vez que o seu motivo é a essência do modelo: “Sem dúvida. e esconder por uma “certa semelhança” com o modelo. podemos encontrar no falso discurso e na obra do artista. enquanto que o “sema” da diferença passa despercebido. Se o não-ser é definido como outro do ser. ele produz ainda um efeito de semelhança. Assim universalmente por essa relação. por isso mesmo. pelo fato de eles participarem do ser. chamaremos a todos. mas em toda a série de gêneros. finge de estrangeiro imitando a língua e o sotaque dos Fócios. que há um ser do não ser. não sendo o mesmo. que não é nada mais que sua força. pois na verdade. ele interioriza uma dissimilitude. A tradução do termo grego grego mimeses para o latim . o outro do ser. apenas como efeito externo. O simulacro é construído sobre uma disparidade. não-ser. Mas não é.

o seu caráter “demoníaco” fantasmagórico. mas construída. uma vez que por ardil. consegue ser o outro e estremecer o mesmo numa dança de mil possibilidades na relação com o expectador. e com isso a compreensão do fazer artístico ficou resumido á mera cópia e por muito tempo o homem relacionou com a obra de arte a partir da sua semelhança externa com o mundo. o observador faz parte do próprio simulacro. um devir ilimitado. A filosofia de Nietzsche é a expressão dessa busca no caos do avesso. é o que aparece. É porque não as domina que ele experimenta uma impressão de semelhança. ‘domina o poder subversivo do outro” enquadra-o no limite do mesmo como uma mera ressonância do modelo. que vemos.” Platão com o zelo de tecelão ao tramar sua teoria das idéias. o ilusório. uma polissemia de formas.imitácio empobrecu o sentido originário da palavra. Gilles Deleuze chama de Devir louco: “O simulacro implica grandes dimensões. a possibilidade de interpretar o mundo como um expectador artista que furi a obra de arte compreendendo-a como um mosaico. Trata-sede disciplinar a aparência para garantir ao pensador o fio que permeia a trama do início ao fim. O simulacro . no mimético. consegue que os nós da mímesis fique do avesso. a possibilidade da investigação deuma linha indireta do discurso platônico sobre a arte. O simulacro inclui em si o ponto de vista diferencial. A tal astúcia do simulacro. A arte é uma mentira e como tal recalcada nos labirintos da trama como o menos ser. profundidades e distâncias que o observador não pode dominar. Em suma há no simulacro um devir louco. os nós cegos. a diferença. ou seja. Correspondendo ao modelo. É por inspiração de Nietzsche. de uma aparência comportada. onde os elementos não estão viceralmente ligados e que por isso permite uma compreensão que não é dada. que se transforma e se deforma com seu ponto de vista. O que deve emergir e o semelhante. A cópia pode remeter o filósofo à trama essencial seguindo os rastros do vem à superfície. não percebendo o que Platão já havia resentido. Neste tecido linear bem arrematado. a cópia por ser imitação ganha uma superioridade sobre o simulacro. ainda que apenas um reflexo do que está interiormente tramado. escapa do lado do avesso o embaraço. mesmo que afastada do real ela mantém com ele uma ligação direta.

na arte a mentira se santifica. porém de alguma utilidade para os homens. desde que estejam dosadas. de maneira correta pelo legislador. pois.” A música e dança exercem. que surge com a necessidade de sustentar a existência fraca. as quantidades corretas para curar ou manter a saúde: “Se estávamos certos no que dissemos há pouco ea mentira é. também. pois a vontade de ilusão fica justificada se ela é portadora de valor.que em Platão éreprimido. esqueceu que o conhecimento foi inventado como uma forma de conservar a vida. que conduzisse além da . Nietzsche dá crédito ao simulacro. Não se reconhecendo como mentira. O homem na sua vaidade de saber tudo a qualquer preço. Para Nietzsche. que em dose correta pode ter um efeito benéfico. O intelecto desde Sócrates se impôs como vontade de clareza sobre o ser não só com a intenção de penetrá-lo. não como uma força negativa. como ocorre na crítica da razão pura de Kant. Ao contrário de Platão. É na arte que ele encontra modelo para tal crítica. nada terá acontecido. é evidente que seu uso deve ser reservado aos médicos. Platão. mas de afirmação da vida. ele desmascara esta pretensão e realiza uma critica à metafísica tradicional que tem como princípio a dicotomia entre matéria e forma. um efeito positivo na educação dos jovens cidadãos. na República. Em “Sobre verdade e mentira no sentido extra-moral”. conforme as suas necessidades. invenção. se sabe que o cria. à guisa de medicamento. O filósofo é considerado aqui um farmacêutico que conhece as drogas e administra para os pacientes. em que ele não estava. quando de novo tiver passado. A elaboração dessa crítica é feita de fora do intelecto. ele supõe ser o centro em torno do qual o Universo gira: “houve eternidades. Pois não há para aquele intelecto nenhuma missão mais vasta. inútil para os deuses. modelo e cópia ou verdade e aparência. que cira desvairadamente. é o que Nietzsche chama de instinto de conhecimento. realmente. mas também de modificá-lo. reconhece a necessidade da mentira como um veneno. para Nietzsche seria ridículo intelecto se toma como objeto de si mesmo. se impõe sobre a vida como princípio único e de maior valor. aflora em Nietzsche como um modelo de força impetuosa da vida. mas uma vez esquecendo que é criação. sem que os leigos nem de leve ponham a mão em cima dela.

Ao contrário. O fenómeno não é um exclusivo do processo artístico. Heródoto foi o primeiro a utilizar o conceito e Aristófanes. onde o artista se destaca pela forma como consegue imitar a realidade. etc. a aprendizagem de línguas. já o aplica. a imitação do simbolismo de um ícone ou a imitação de um acto musical. os rituais religiosos. Os conceitos de mímesis e poeisis são nucleares na filosofia de Platão. na República. O instinto de conhecimento é sustentado por uma crença na verdade e tal crença não é resultado da ligação direta entre sujeito e objeto. Por esta razão. Não se parte da ideia de uma construção imitativa passiva. como se os gonzos do mundo girassem nele. mímesis. como acontece na diegesis platónica. na poética de Aristóteles e no pensamento teórico posterior sobre estética. o que constitui. ele é humano. em Tesmofórias (411). e somente seu possuidor e genitor o toma tão pateticamente.vida humana. MÍMESIS ou MIMESE Do gr. designa a acção ou faculdade de imitar. a imitação retórica de uma personagem conhecida. na filosofia aristotélica. tal relação só pode ser possível estéticamente. em latim). que diante do objeto cria. para quem a imitação é sobretudo produção de imagens . quando o cientista se entender como artista. Estes exemplos podemos colhê-los facilmente na literatura grega clássica. pois para Nietzsche. o fundamento de toda a arte. a prática desportiva. o domínio das novas tecnologias. Aristóteles defendia que era a mímesis que nos distinguia dos animais. reprodução ou representação da natureza. a música e a dança. perceberíamos então que ela bóia no ar com esse páthos e sente em si o centro voante deste mundo. cópia. “imitação” (imitatio. mas de uma visão do mundo necessariamente dinâmica. pois toda actividade humana inclui procedimentos miméticos como a dança. A mímesis pode indiciar a imitação do movimento dos animais ou o seu som. Mas se pudéssemos entendernos com a mosca. O primeiro termo aplica-se a artes tão autónomas e ao mesmo tempo tão próximas entre si como a poesia. referindo-se à criação da obra de arte e à forma como reproduz objectos pré-existentes. As posições iniciais de Platão.

em Anatomy of Criticism(1957). que se relaciona com o conceito de verosimilhança. em síntese. Northrop Frye. função que compete ao cientista. sobretudo na imitação da obra de mestres de gerações anteriores. e de Aristóteles. expresso na própria linguagem. Barthes. são artes de imitação. se aceitarmos que todo o mundo representado ou logos está em causa e que não resta ao artista outra coisa que não seja descrever o mundo das coisas possíveis de acontecer.e resultado de pura inspiração e entusiasmo do artista perante a natureza das coisas aparentemente reais (o que se vê em particular na comédia e na tragédia). mas recusando definir o que seja a imitação. Jakobson. falamos de imitação enquanto forma de representação do mundo e não como uma forma de copiar uma técnica (imitatio. a estética de Georg Lukàcs presta particular atenção às artes não figurativas. na Poética. coisas a que chamamos verosimilhanças e não propriamente representações directas do real? Os tratadistas latinos. Vygotski. Em todos os casos. a literatura e a pintura modernas imitam essa ordem primordial. por exemplo. mas seu intérprete. uma replicação do que já está descrito. foram largamente discutidas até hoje. discutido por autores como Ingarden. Sklovski. É talvez Jacques Derrida quem propõe uma reflexão mais radical sobre o conceito de mímesis: o real é. para quem o poeta é um imitador do real por excelência. vão defender o princípio aristotélico. recontado. Genette ou Hamon. Vários teóricos contemporâneos tentaram recuperar esta questão. para quem o mundo real imitava a ordem cósmica das relações numéricas. Falar neste caso . em Mimesis (1946). a história da representação poética da realidade na literatura ocidental. onde o herói domina por completo a acção das restantes personagens) e a mímesis inferior (domínio onde o herói se coloca ao mesmo nível de representação das restantes personagens). que o teórico marxista considerava a exteriorização mais verdadeira da intimidadade do artista. a questão da poesia ainda permance em aberto: seguimos com Platão se aceitarmos que a imitação fica ao nível da lexis. O alemãoErich Auerbach traça. reclamando que a pintura como a poesia (ut pictura poesis). Hans Georg Gadamer retoma a filosofia de Pitágoras. na retórica latina). Em particular. analisando a relação do texto literário com o mundo. ou seguimos com Aristóteles. para defender que a música. o que foi prática corrente a partir do Império Romano. como Horácio. retoma a distinção aristotélica entre mímesis superior (domínio superior de representação.

.de imitação do mundo é aceitar que estamos apenas a repetir uma visão aprendida na linguagem. A semiótica contemporânea substituiu o conceito de imitação pelo conceito de iconicidade nos estudos literários.