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Paul R.

Ehrlich Carl Sagan


Donald Kennedy Walter Orr Roberts

O INVERNO NUCLEAR
Tradução João Guilherme Linke

Editora Francisco Alves

1985

SUMÁRIO
Colaboradores
Prefácio
Advertência LEWIS THOMAS
Introdução DONALD KENNEDY

A Atmosfera e as Conseqüências climáticas da Guerra Nuclear


CARLSAGAN
Conseqüências Biológicas de uma Guerra Nuclear
PAUL R. EHRLICH
Painel sobre Conseqüências Atmosféricas e Climáticas
Painel sobre Conseqüências Biológicas
A Conexão Moscou: Diálogo entre Cientistas Norte-Americanos e
Soviéticos
Conclusão
WALTER ORR ROBERTS
Apêndice
Notas
Agradecimentos
Este livro é dedicado à memória de Robert W. Scrivner (1935-1984)

Com firmeza e brandura, a paixão de Robert pela paz idealizou a


conferência e a tomou realidade. Este livro é dele.
Comitê de Orientação, Conferência sobre o Mundo após a Guerra
Nuclear

PREFÁCIO
Em junho de 1982, dois executivos de fundações, Robert W. Scrivner
do Rockefeller Family Fund e Robert L. AlIen da Henry P. Kendall
Foundation, tiveram um encontro com Russell W. Peterson,
presidente da Sociedade Nacional Audubon, para tratar de uma
crescente preocupação comum: nos debates públicos sobre a guerra
nuclear e os efeitos destrutivos imediatos de explosões e radiações
sobre vidas humanas e cidades, estaria sendo dada atenção
suficiente aos efeitos biológicos de mais longo prazo? O que faria
uma guerra nuclear à atmosfera, à água, aos solos - aos sistemas
naturais de que toda a vida depende?
Allen, Peterson e Scrivner concordaram em que se deveriam buscar
meios de levar o movimento de defesa ambiental a examinar o
assunto, e se propuseram apurar que progressos estaria fazendo a
comunidade científica. Eles conheciam o relatório de 1975 da
Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, "Efeitos
Mundiais à Longo Prazo de Detonações Múltiplas de Armas
Nucleares", e o relatório de 1979 da Comissão de Avaliação
Tecnológica do Congresso dos Estados Unidos, "Os Efeitos de uma
Guerra Nuclear". Haviam também estudado uma edição especial da
revista Ambio (voI. XI, no. 2-3, 1982), órgão da Real Academia Sueca
de Ciências, que acabava de ser publicada e continha dados
científicos novos sobre os impactos climáticos e biológicos de uma
guerra nuclear.
Scrivner, Allen e Peterson reuniram alguns cientistas e ecologistas
para tratar da organização de uma conferência pública sobre os
efeitos a longo prazo de uma guerra nuclear. Entre eles estava Carl
Sagan, professor de Astronomia e Ciências Espaciais e diretor do
Laboratório de Estudos Planetários da Universidade Comell. Ele
informou que um pequeno grupo de cientistas estava empenhado num
estudo possivelmente importante ligado aos efeitos climáticos de uma
guerra nuclear. Esse estudo, "Conseqüências Atmosféricas e
Climáticas a Longo Prazo de um Conflito Nuclear", por Richard P.
Turco, Owen B. Toon, Thomas P. Ackerman, James B. Pollack e
Sagan, ficou depois conhecido como o relatório TTAPS, iniciais dos
sobrenomes dos autores.
O grupo TTAPS começara por examinar os efeitos atmosféricos de
grandes quantidades de poeira, e ampliara o estudo para incluir a
fumaça e a fuligem produzidas por incêndios extensos, depois de
verem dados sobre o tema publicados na Ambio por Paul J. Crutzen,
do Instituto de Química Max Planck de Mogúncia, República Federal
da Alemanha, e John W. Birks, da Universidade do Colorado ("A
Atmosfera depois de uma Guerra Nuclear: Crepúsculo ao Meio-Dia").
O novo e vital fator do estudo TTAPS foi o impacto da enorme
quantidade de pó e fumaça gerada por explosões nucleares e pelos
incêndios resultantes; esse manto de pó e fumaça, imaginaram eles,
teria efeitos atmosféricos que alterariam o clima e se propagariam a
grandes distâncias das áreas de explosão. O estudo quantificava,
através de modelos matemáticos, os efeitos de uma guerra nuclear
quanto ao grau em que partículas em suspensão impediriam a luz
solar de alcançar a Terra. Foram utilizados vários cenários para
indicar os níveis de megatonagem e locais de detonação, quer no ar
quer no solo. As respostas que vinham surgindo apontavam para
uma série potencialmente catastrófica de conseqüências
atmosféricas, climáticas e radiológicas. As temperaturas reduzir-se-
iam dramaticamente, mesmo no verão, a níveis bem abaixo do ponto
de congelamento da água; a luz do dia seria na maior parte reduzida;
essas condições poderiam durar vários meses e possivelmente
estender-se muito além das regiões atacadas, inclusive ao
Hemisfério Sul.
Allen, Scrivner, Peterson e o seu grupo animaram-se ao tomarem
conhecimento de que havia outro trabalho científico em curso. Um
novo estudo sobre o assunto estava sendo levado a efeito pela
Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. E o Comitê
Científico de Problemas do Meio Ambiente (SCOPE) do Conselho
Internacional de Uniões Científicas planejava um estudo sobre
"Conseqüências Ambientais de uma Guerra Nuclear".
Aquele grupo informal evoluiu para um Comitê de Orientação com o
fim de examinar a conveniência de promover uma grande conferência
pública através da qual o estudo TTAPS e as conclusões sobre as
conseqüências biológicas de uma guerra nuclear pudessem ser
conhecidas por educadores, cientistas, administradores de empresas,
autoridades civis e outros líderes comunitários e representantes de
outras nações, bem como por ecologistas. Entre os quais acederam
em formar o Comitê de Orientação estavam vários cientistas
altamente reputados: Paul R. Ehrlich, professor de ciências biológicas
e de estudos populacionais na Universidade Stanford; Peter H.
Raven, diretor do Jardim Botânico do Missouri, em Saint Louis;
Walter Orr Roberts, presidente emérito da Corporação Universitária
para Pesquisas Atmosféricas; Carl Sagan, e George M. Woodwell,
diretor do Centro de Ecossistemas do Laboratório Biológico Marinho
de Woods Hole, Massachusetts. Woodwell foi nomeado presidente
da Conferência. O Comitê designou Chaplin B. Barnes, ex-membro
da Sociedade Nacional Audubon e do Conselho de Qualidade
Ambiental, para diretor-executivo da Conferência e coordenador do
empreendimento.
Por sugestão do Dr. Sagan, resolveu-se submeter o relatório TTAPS
a um exame crítico minucioso num simpósio de eminentes
especialistas em ciências físicas. A seguir os dados seriam
mostrados a um grande número de experientes biólogos e
ecologistas para que estes se pronunciassem quanto à extensão dos
impactos mundiais à longo prazo sobre a espécie humana e os
sistemas de sustentação de vida do planeta. Ficou entendido que
somente se os dados fossem sancionados nesse exame a
conferência pública proposta seria programada.
Uma Junta Científica Consultiva composta de sessenta e um
cientistas dos Estados Unidos e de mais oito países foi constituída
para auxiliar na preparação da Conferência e colaborar na
disseminação de informações após a mesma. Preparando o programa
dos trabalhos, o Comitê de Orientação decidiu que discussões
políticas, referências a desarmamento, controle de armas e fatores
sociais, que de ordinário seriam relevantes num debate a respeito dos
impactos de uma guerra nuclear, não teriam lugar na conferência
proposta. Na organização do programa científico da Conferência,
ficou decidido que se trataria unicamente das conseqüências físicas,
atmosféricas e biológicas de uma guerra nuclear. O Comitê achou que
a inclusão de outras considerações como estratégia nuclear e
implicações econômicas, políticas e sociais desviariam a atenção da
mensagem científica central.
Em fins de abril de 1983, cerca de cem cientistas dos Estados Unidos
e de outros países reuniram-se para o processo do exame prévio na
Academia Americana de Artes e Ciências em Cambridge,
Massachusetts. Os cientistas convidados representavam uma grande
variedade de campos. Depois da primeira assembléia, organizada e
presidida pelo Dr. Sagan (que ainda convalescia das complicações
quase fatais de uma apendicectomia a que se submetera no mês
anterior), cerca de quarenta físicos e dez biólogos analisaram e
avaliaram a minuta preliminar do estudo TTAPS. Em termos gerais, o
grupo concordou com as conclusões do relatório quanto ao potencial
de reduções consideráveis na quantidade de luz solar que chega à
superfície da Terra e de alterações climatológicas de vulto, embora
sugerindo alguns pequenos ajustes. Em aditamento aos efeitos
climatológicos de temperaturas glaciais e virtual escuridão, o grupo de
ciências físicas discutiu agressões como a exposição à radiação e a
precipitações, exposição à radiação ultravioleta da luz solar devida ao
empobrecimento da camada de ozônio e ação deletéria de gases
tóxicos desprendidos pela combustão de materiais sintéticos.
Terminada a reunião dos especialistas em ciências físicas, o Dr.
Raven convocou um grupo de biólogos, juntamente com dez dos
cientistas presentes à reunião anterior, para examinarem os impactos
potenciais das condições de pós-guerra nuclear nos sistemas de
sustentação vital da Terra. Foram considerados a escuridão
prolongada e alterações climáticas extremas, e os respectivos efeitos
sobre o fitoplâncton e o zooplâncton, sobre outras formas vivas
vegetais e animais e sobre a agricultura. Trocaram-se idéias sobre os
efeitos sinérgicos das condições de pós-guerra nuclear sobre
elementos de ecossistemas marinhos, de água doce e terrestres.
Analisaram-se os efeitos sobre a vida,animal e vegetal da exposição
prolongada a radiação ionizante e à luz ultravioleta. Outras
discussões centraram-se na interrupção em grande escala dos
serviços normais de ecossistemas naturais, imprescindíveis à
sustentação da vida humana e da sociedade, inclusive a produção de
alimentos para o homem bem como para os animais de criação e para
os animais selvagens; clima e condições de tempo; eliminação de
resíduos e reciclagem de fertilizantes; preservação do solo e controle
de pragas das lavouras. Ao deixarem as reuniões de Cambridge, os
biólogos estavam todos de acordo em que esses efeitos sobre a
biosfera podiam ser devastadores num grau anteriormente não
previsto, e haviam concluído que não se podia afastar a possibilidade
de os efeitos biológicos a longo prazo de uma guerra nuclear virem a
acarretar a exterminação da humanidade e da maior parte das
espécies selvagens do planeta.
Com a afirmação dos cientistas congregados de que a análise era
válida, e de que as condições tinham de ser encaradas com muita
seriedade, o Comitê de Orientação decidiu levar avante os planos
para a Conferência, e trinta e uma instituições ou organizações
científicas, ambientais e populacionais, nacionais e internacionais,
dispuseram-se a contribuir para patrociná-Ia:
Amigos da Terra
Associação das Nações Unidas dos Estados Unidos da América
Associação Nacional dos Professores de Ciências
Causa Comum
Centro de Ligação do Ambiente
Coalizão Global Amanhã
Conselho de Defesa dos Recursos Naturais
Consórcio de Terras Públicas
Crescimento Demográfico Zero
Federação Americana de Paternidade Planejada
Federação Canadense da Natureza
Federação dos Cientistas Americanos
Federação Internacional de Institutos de Estudos Superiores
Federação Nacional da Vida Selvagem
Fundo de Defesa Ambiental
Instituto Americano de Ciências Biológicas
Instituto do Espaço Aberto
Instituto de Política Ambiental
Instituto de Recursos Mundiais
O Instituto de Ecologia (TIE)
Programa do Ambiente das Nações Unidas
Sierra Club
Smithsonian Institution
Sociedade Americana de Microbiologia
Sociedade Ecológica da América
Sociedade do Mundo Silvestre
Sociedade Nacional Audubon
União dos Cientistas Engajados
União Internacional de Ciências Biológicas
União Internacional para a Conservação da Natureza e dos
Recursos Naturais
Universidade das Nações Unidas
Durante o verão de 1983, um grupo de vinte biólogos sob a direção
do Dr. "Ehrlich ampliou a definição dos efeitos das alterações do
clima sobre a biosfera.Nesse mesmo intervalo, o grupo TTAPS
aprimorou seus dados e entregou-os à publicação científica. E nesse
ínterim, na União Soviética, o Dr. Vladimir V. Aleksandrov, do Centro
de Computação de Modelagem de Climas da Academia de Ciências
da URSS em Moscou (um dos cientistas que participaram das
reuniões de Cambridge), comprovou as principais projeções do
estudo TTAPS através de modelos de computador por ele próprio
elaborados.
Cerca de seis semanas antes da Conferência, Allen, do Comitê de
Orientação, em conversa com Kim Spencer e Evelyn Messinger da
Internews, desenvolveu a idéia de adicionar uma nova dimensão à
Conferência aproveitando a tecnologia disponível de um link
bidirecional de satélite com cientistas soviéticos em Moscou. Allen,
Spencer e Messinger propuseram-se organizar e produzir um
programa de noventa minutos que permitiria a cientistas de alto nível
dos Estados Unidos e da União Soviética debater as teses da
Conferência sobre as conseqüências climáticas e impactos biológicos
de uma guerra nuclear.
Spencer entabulou entendimentos com a Gosteleradio, a única rede
de televisão da União Soviética, e Allen promoveu diversas
comunicações pessoais de alto nível entre cientistas americanos e
soviéticos com o fim de obter a participação de especialistas da
Academia Nacional de Ciências da URSS.
Quando da abertura de O Mundo após a Guerra Nuclear, ou
Conferência sobre as Conseqüências Biológicas Globais a Longo
Prazo de uma Guerra Nuclear, em 31 de outubro, no Hotel Sheraton
Washington em Washington, D.C., estavam presentes mais de
quinhentos participantes e uma centena de representantes da mídia.
Entre os participantes contavam-se cientistas e embaixadores ou
outros representantes de mais de vinte países, bem como autoridades
civis, educadores, conservacionistas e líderes religiosos, cívicos,
empresariais, filantrópicos, diplomáticos, militares e de controle de
armas vindos de todas as partes do território americano. A
Conferência teve ampla cobertura dos meios de informação dos
Estados Unidos, da União Soviética e de outros países.
A Conferência foi oficialmente encerrada com a fala do Dr. Roberts
(ver p. 183), mas quase ninguém deixou o recinto. Pois, naquele
ponto, os participantes se reuniram para o histórico evento subsidiário
que foi a Conexão Moscou. Era a primeira vez que as comunicações
por satélite eram usadas para pôr em contato, ao vivo, um grupo de
cientistas de Moscou com um grupo de cientistas nos Estados Unidos
para um amplo intercâmbio de informações científicas.
Às 4h da tarde, hora de Moscou (8 da manhã em Washington), de 1º.
de novembro, as exposições de Sagan e Ehrlich no dia da abertura
foram transmitidas para um grupo de cientistas soviéticos, que a
seguir se reuniram para discutir seus comentários. Às 10 da noite,
hora de Moscou, teve início a Conexão Moscou entre o grupo
soviético, reunido num estúdio de TV em Moscou, e quatro cientistas
norte-americanos num salão de conferências em Washington.
Os participantes do grupo americano eram o Dr. Thomas Malone,
diretor emérito do Instituto de Pesquisas Holcomb, da Universidade
Butler, Paul Ehrlich, Walter Orr Roberts e Carl Sagan. Os principais
debatedores em Moscou eram o acadêmico Yevgeniy Velikhov, vice-
presidente da Academia de Ciências da URSS, Yuri Israel, membro da
mesma Academia e chefe da Comissão de Hidrometeorologia e
Controle do Meio Ambiente, Alexander Bayev, especialista em biologia
e genética molecular, secretário do Departamento de Fisiologia
Biofísica, Bioquímica e Química da Academia de Ciências da URSS, e
Nikolai Bochkov, acadêmico da Academia de Ciências Médicas e
diretor do Instituto de Genética da Academia de Ciências da URSS.
Durante os noventa minutos do link de satélite, os cientistas soviéticos
e americanos trocaram perguntas e comentaram trabalhos em curso.
E alguns dados sobre efeitos de uma guerra nuclear obtidos pelos
soviéticos complementaram e ampliaram as exposições feitas na
Conferência.
Georgiy Skryabin, primeiro-secretário científico da Academia de
Ciências da URSS, expressou sentimentos "ambivalentes". "Por um
lado", disse Skryabin, "há o sentimento de grande preocupação com
respeito à possível tragédia que nos defronta, que paira sobre todos
nós mulheres, crianças, velhos, e sobre toda a vida da Terra. Por
outro, há nesta Conferência um grande motivo de satisfação, que é o
fato de que os grandes cientistas aqui presentes - nossos colegas
americanos e cientistas russos - chegaram a um consenso. Estão
todos unidos na opinIão de que não deve haver uma guerra nuclear,
de que esta significaria desastre e morte para a humanidade. Eu,
pessoalmente, sinto-me contente e confortado com isso, pois hoje em
dia a autoridade dos cientistas é considerável, e todos nós devemos
procurar fazer valer nossa influência para pôr um termo à corrida
armamentista, para que não venha a ocorrer jamais uma guerra
nuclear".
Alexander Kuzin, membro correspondente da Academia de Ciências
da URSS, declarou: "É assim responsabilidade direta dos cientistas
da União Soviética e dos Estados Unidos levar ao conhecimento de
todos os enormes perigos que acompanhariam a deflagração de
qualquer espécie de conflito nuclear, de modo a prevenir a própria
possibilidade de uma guerra nuclear, que sem dúvida nenhuma não
só resultaria na ruína da atual civilização senão que ameaçaria a vida
como tal neste planeta que amamos." Quando a Conexão Moscou se
aproximava do final, Malone observou que a troca de opiniões
proporcionada pela Conferência "poderá vir a ser vista em anos
vindouros - justificadamente - como a virada decisiva nos rumos da
humanidade, e haverá de elevar o nível de consciência entre os
condutores da política".

Como seguimento à Conferência, foi fundado em Washington, D.C., o


Centro de Conseqüências da Guerra Nuclear, com o fim de dar
continuidade à disseminação das conclusões da ciência. Através do
Centro, estão sendo postos à disposição dos interessados materiais
impressos e audiovisuais sobre as conseqüências climáticas e
biológicas de uma guerra nuclear. O endereço do Centro é: 3244
Prospect Street, NW, Washington, D.C., 20007.

ADVERTÊNCIA
LEWIS TROMAS, M.D.
As descobertas científicas descritas neste livro poderão vir a revelar-
se, num mundo que tenha a boa sorte de continuar a sua história,
como tendo sido os mais importantes resultados de pesquisa em toda
a longa história da ciência.
A primeira descoberta já é largamente conhecida na comunidade
científica de climatologistas, geofísicos e biólogos aqui e no
estrangeiro, e foi confirmada em detalhe por cientistas soviéticos das
mesmas áreas. Modelos de computador demonstram que uma guerra
nuclear envolvendo o emprego de uma simples fração do total das
bombas americanas e russas poderia transformar o clima de todo o
Hemisfério Norte, mudando-o bruscamente do seu presente estado
sazonal para uma longa noite escura e gélida. Esta será seguida,
passados alguns meses, pelo assentamento da poeira e fuligem
nucleares, e depois por uma espécie nova e maligna de luz solar com
proporção aumentada da sua faixa ultravioleta, potencialmente capaz
de cegar muitos dos animais terrestres. O ozônio da atmosfera, que
normalmente protege a Terra da perigosa radiação ultravioleta, seria
substancialmente reduzido por uma guerra nuclear. Nas mesmas
pesquisas, novos cálculos da extensão e intensidade das
precipitações radioativas indicam a exposição de grandes extensões
de território a níveis de radiação muito mais altos do que se julgava.
O relatório é conhecido como TTAPS, sigla derivada dos nomes dos
pesquisadores: Turco, Toon, Ackerman, Pollack e Sagan.
O segundo trabalho, elaborado por Paul R. Ehrlich e outros dezenove
biólogos respeitados, demonstra que as predições do TTAPS
significam nada menos que a extinção de grande parte da biosfera
terrestre, muito possivelmente envolvendo o Hemisfério Sul tal como o
Norte.
Em conjunto, essas duas descobertas mudam radicalmente as
perspectivas de um conflito termonuclear. Elas foram submetidas a
um exame crítico minucioso por cientistas representantes das
disciplinas envolvidas, aqui e em outros países. Estudos paralelos e
suplementares vêm sendo feitos, e já se evidencia um grau de
concordância inusitado com respeito aos pormenores técnicos e às
conclusões tiradas. Na opinião de alguns juízes, o relatório TTAPS
teria até talvez minimizado os danos climatológicos implicados pelos
dados. O relatório dos vinte biólogos, sumariado pelo Professor
Ehrlich, representa o consenso a que chegaram quarenta
especialistas em ciências biológicas num simpósio realizado em
Cambridge, Massachusetts, na primavera de 1983.
É um mundo novo, a demandar uma nova diplomacia e uma nova
lógica.
Até aqui, a comunidade internacional de estadistas, diplomatas e
analistas militares tem-se inclinado a encarar a perspectiva de uma
guerra nuclear como um problema unicamente dos adversários
possuidores das armas. O controle de armamentos e as negociações
intermináveis visando à redução dos explosivos nucleares têm sido
considerados responsabilidade, e até prerrogativa, das poucas nações
em confronto definido. Agora tudo isso mudou. Nenhum país da Terra
está livre do perigo da destruição se duas nações quaisquer, ou
grupos de nações, se aventurarem num reencontro nuclear. Se a
União Soviética e os Estados Unidos, e seus respectivos aliados do
Pacto de Varsóvia e da OTAN, se pusessem a lançar seus mísseis
além de um mínimo dúbio e ainda indeterminado, estados neutros
como a Suécia e a Suíça sofreriam os mesmos efeitos dilatados, a
mesma morte lenta que os participantes diretos. A Austrália e a Nova
Zelândia, o Brasil e a África do Sul, têm quase tanto por que se
preocupar quanto a Alemanha Ocidental se uma conflagração em
grande escala se verificar no extremo norte.
Até aqui, todos temos tendido a ver num conflito com armas nucleares
um esforço de um par de opositores de resolver pendências como
domínio territorial ou disputa ideológica. Agora, com os novos
conhecimentos diante de nós, ficou claro que qualquer território
conquistado será ao cabo um deserto estéril, e que qualquer ideologia
será consumida na morte da civilização e na perda permanente da
memória humana da cultura.
Até agora, os riscos de uma guerra dessa espécie foram
convencionalmente calculados pelo número de mortos de um e de
outro lado ao final da batalha, soldados e não-combatentes somados.
As expressões "aceitável" e "inaceitável", significando tantos ou tantos
milhões de baixas humanas, têm sido utilizadas para estabelecer
julgamentos frios sobre a necessidade de novos e mais precisos
sistemas de armas. Daqui por diante, as coisas são diferentes. É
desnecessário falar da estimativa inquestionável de que em um
conflito total de, por exemplo, 5.000 megatons, algo como um bilhão
de pessoas morreriam imediatamente por ação das explosões, do
calor e da radiação. Por outro lado é desnecessário citar o fato
provável de que outro bilhão viria a morrer depois, em conseqüência
dos efeitos retardados sobre os sistemas de sustentação vital e da
precipitação radioativa.
Algo mais terá acontecido ao mesmo tempo, algo em que os seres
humanos deveriam ver um risco igual ao da perda de suas vidas. O
complexo, coerente, belamente organizado ecossistema da Terra -
aquilo que alguns denominam biosfera e a que outros chamam
natureza - terá sofrido um golpe mortal, ou quase. Algumas de suas
partes hão de persistir, é razoavelmente certo, e a vida do planeta irá
continuar, mas talvez unicamente em nível comparável ao que existia
por volta de um bilhão de anos atrás, quando os procariontes
(criaturas semelhantes às bactérias atuais) se uniram em
combinações simbióticas e criaram as células nucleadas de que nós
somos sem dúvida os descendentes diretos.
A última grande extinção de vida planetária ocorreu há cerca de 65
milhões de anos, quando os dinossauros e inúmeras outras criaturas
terrestres e marinhas desapareceram simultaneamente. Supõe-se
geralmente que esse evento tenha sido provocado por uma vasta
explosão de pó, que teria escurecido o sol por um período longo o
bastante para deter a fotossíntese, provavelmente em conseqüência
da colisão de um asteróide com a Terra. É esse gênero de evento que
predizem os modelos usados nestes estudos.
A persistência e multiplicação de armas nucleares, a provável
proliferação de tais armas em outros países que hoje não as
possuem, e os esforços bloqueados, adiados e fracassados de livrar-
nos dessas ameaças à vida do planeta, inclusive à nossa própria,
parecem-me hoje uma ordem de problemas diferente do que parecia
até recentemente. Já não é um assunto de política, a ser deixado à
sensatez e previdência de uns poucos estadistas e de uns poucos
chefes militares, nuns poucos Estados nacionais. É um impasse
global, que envolve toda a humanidade.
Minha esperança agora é que a comunidade científica internacional
em todos os países analise cuidadosamente os dados e conclusões a
que chegamos, que amplie esses estudos de todas as maneiras que
possa imaginar e que aconselhe seus governos adequadamente e
insistentemente. E espero que os jornalistas do mundo achem modos
de informar os cidadãos da Terra, em detalhe e reiteradamente, sobre
os riscos futuros.
Já não temos escolhas a fazer ou as opções de alguns meses atrás a
questionar. Simplesmente temos de parar, e logo, e livrar a Terra de
uma vez por todas dessas armas que na verdade não são armas,
senão instrumentos de pura danação. No pé em que estão as coisas,
nós colocamos em perigo muito mais que a humanidade em si.
Arriscamos infligir um dano permanente à vida de toda a admirável
criação.
A coisa mais linda que já vi numa fotografia, em toda a minha vida, é o
planeta Terra visto da Lua, suspenso no espaço, evidentemente vivo.
Embora à primeira vista ele pareça feito de uma multiplicidade de
coisas vivas diferentes, melhor reparando, cada peça que nele
trabalha, nós inclusive, está ligada por interdependência a todas as
demais. Segundo um modo de dizer, é o único ecossistema
autenticamente fechado que nos é dado conhecer. Em outras
palavras, é um organismo. Nasceu, calcula-se, há 3,8 bilhões de
anos, e eu lhe desejo feliz aniversário e uma longa existência futura,
para os nossos filhos, e os seus netos, e os netos de seus netos.
Tenho em alta conta a nossa espécie, com todo o seu verdor e
imaturidade como membro da biosfera. Na escala do tempo evolutivo,
nós só chegamos alguns instantes atrás e ainda temos muito que
crescer. Se formos bem-sucedidos, podemos tornar-nos uma espécie
de mente coletiva da Terra, o pensamento da Terra. No momento,
apesar da nossa juventude como espécie, somos sem dúvida a mais
engenhosa e inteligente das peças componentes do sistema. Confio
em que teremos a vontade de continuar funcionando, e de manter o
melhor que possamos a vida do planeta. Por isso, vejo estes
relatórios não apenas como uma advertência, mas também, se
devidamente divulgados e reconhecidos a tempo, como uma
extraordinária boa nova. Acredito que a humanidade como um todo,
conhecendo a verdade dos fatos, saberá o que tem de ser feito com
as armas nucleares.
Mas se os fatos permanecerem obscuros, ou forem erroneamente
tomados por fantasias teóricas arcanas, que se podem calmamente
desprezar, nesse caso não vejo esperança para nós.

INTRODUÇÃO
DONALD KENNEDY
Este não é um assunto agradável. Em primeiro lugar, as
conseqüências de uma guerra nuclear são realmente pavorosas, e
não é nada divertido dizer às pessoas que são mais pavorosas ainda
do que lhes disseram antes. Depois, infelizmente não existe uma
saída simples para as dificuldades em que nos colocam as armas
nucleares - embora alguns teimem que existe. Ao contrário, há uma
necessidade contínua de lidar com o perigo, e de enfrentar uma
política de segurança nacional que se mostra terrivelmente refratária
ao raciocínio lógico. É nessas circunstâncias desanimadoras que se
discutem as conseqüências biológicas a longo prazo de uma guerra
nuclear.
Antes de começar, quero levar ao conhecimento do leitor algumas
qualificações que me faltam para o meu papel de introdutor, e em
seguida expor uma ou duas convicções. Não sou um veterano do
movimento anti-nuclear, nem tenho experiência em matéria de
desarmamento ou de controle de armas. Ademais, é com prazer que
deixo a outros a proficiência técnica na disciplina inexata que é a
estratégia nuclear - a base tecnológica e aleatória da détente. Quanto
às convicções, devo dizer que conservo a crença antiquada de que
continuaremos a necessitar de um organismo de defesa no país, de
que, queiramos ou não, as armas nucleares continuarão por algum
tempo a exercer uma função integrante na nossa estratégia de
segurança nacional e na de outros, e de que, em vista disso, teremos
de seguir nos esforçando em compreender tais armas se quisermos
finalmente controlá-Ias e negociar racionalmente com a outra parte.
Estas revelações devem mostrar, penso eu, que não sou nem uma
fonte técnica indicada para uma conferência de controle de
armamentos, nem um candidato promissor a chefe de claque num
comício pela paz. Este volume não se destina a refletir nenhum
desses propósitos. É, sim, um relatório de análises científicas sérias
das conseqüências de uma guerra nuclear. E para introduzir esse
assunto eu tenho uma perspectiva que imagino relevante. Durante um
período em que prestei serviços ao governo, chefiei um órgão de
regulação que se ocupava em grande parte com os perigos ligados a
produtos químicos tóxicos, e de modo mais geral com as
conseqüências da introdução prematura de novas tecnologias. No
curso daqueles anos, e nos tempos imediatamente precedentes e
seguintes, estive intimamente envolvido em atividades de estimativa
de riscos: avaliação das conseqüências do uso de defensivos
agrícolas, definição de tolerâncias para contaminação por poluentes
industriais, estimativa de efeitos de aditivos alimentares, etc. Nessa
função, era uma preocupação considerável a forma de estimar os
riscos, tanto mais em circunstâncias em que os dados são
necessariamente incompletos.
Creio que três lições tiradas dessa experiência são aplicáveis ao
assunto em pauta. Primeiro, um dos grandes desafios da metodologia
de avaliação de riscos é formular decisões com o máximo de
segurança possível em face de grandes incertezas. Para levar a bom
termo esse princípio, é essencial que se tenha tanta consciência
daquilo que não se sabe quanto daquilo que se sabe.
Esse desafio torna-se muito mais difícil pela atitude do público em
relação ao risco. É esta a segunda lição: as pessoas são
ambivalentes com respeito ao risco. Aplicam-se enormes recursos
pessoais e sociais na salvação de uma vida identificada em perigo,
mas consigna-se muito menos para proporcionar uma proteção
estatisticamente muito maior a indivíduos não identificados da
população global. Aprovamos entusiasticamente leis que previnem
riscos involuntários de pequena monta; mas as revogamos
prontamente se elas restringem liberdades pessoais. Em suma, não
hesitamos em gastar grandes somas para tirar uma garotinha do poço
em que ela caiu, mas relutamos em diminuir o limite de velocidade, ou
até em proibir certos produtos cancerígenos se eles são do agrado
das pessoas.
Essa ambivalência torna-se ainda mais definida quando a
probabilidade e a gravidade dos riscos são consideradas
separadamente. Há uma diferença de atitudes em relação a riscos
estatísticos modestos amplamente distribuídos, como o aumento de
mortes por câncer devido a uma toxina ambiental, e a riscos de baixa
probabilidade com conseqüências desastrosas generalizadas, como
um conflito com armas nucleares. Embora estejamos apenas
começando a desenvolver uma ciência das atitudes humanas com
respeito à aversão ao risco, os resultados até aqui obtidos sugerem
que as pessoas tratam eventos de baixa probabilidade com
conseqüências altamente negativas de um modo que se afasta
acentuadamente das opções que seriam de prever com base nas
teorias correntes de "expectativa utilitária". Tais pesquisas podem vir a
revelar alguma coisa de grande utilidade sobre as atitudes da
população em relação à guerra nuclear. E podem ser mais
importantes ainda no que toca à questão crucial de como os
responsáveis pelas decisões, nos terríveis últimos momentos, irão
decidir.
A terceira e última lição que me seria dado tirar do domínio mais
convencional da estimativa de riscos tem a ver com a escala de tempo
em que nós reconhecemos as conseqüências. Aqui a analogia com o
mundo das substâncias tóxicas é de fato perfeitamente exata.
Quando, depois da guerra, a revolução da indústria química começou
a causar preocupação com os riscos humanos ligados a substâncias
tóxicas, a preocupação era quase inteiramente limitada aos efeitos
imediatos ou "agudos". Os primeiros programas de ensaios criados
para avaliar esses perigos foram os chamados testes LD50, que
mediam a quantidade de um determinado composto que se constituía
em dose letal para 50 por cento dos organismos utilizados no teste.
Mais tarde, foi-se aos poucos chegando à conclusão de que os efeitos
"crônicos" à longo prazo - a possibilidade de produzir câncer, ou de
aumentar a propensão de um indivíduo para cardiopatias e infarto, ou
de gerar defeitos congênitos na prole - eram muito mais importantes,
e inteiramente impossíveis de medir empregando os testes usuais de
curto prazo. A subseqüente experiência confirmou que esses riscos
crônicos são muitíssimo mais sérios que os agudos, e hoje em dia não
passa pela cabeça de ninguém avaliar a segurança de uma
substância nova sem realizar experiências de longa duração para
avaliar o seu potencial carcinogênico, efeitos fetais, etc.
É a posição em que nos encontramos com respeito à guerra nuclear:
estamos começando a compreender os efeitos retardados - os
equivalentes, para o ambiente, do câncer, das cardiopatias, do infarto.

Agora quero chamar atenção para um aspecto central na evolução


dos nossos conhecimentos sobre as conseqüências de uma guerra
nuclear: é o caráter errático e acidental das nossas descobertas. O
que sabemos hoje, e é certamente bem menos do que desejaríamos
saber, chegou-nos em grande parte através de revelação não
planejada, e não por estudo sistematizado. Em decorrência das armas
detonadas sobre cidades japonesas no final da Segunda Grande
Guerra, tivemos uma triste verificação de efeitos agudos - a
devastação causada pela explosão primária e pelas ondas de choque
e o impacto da radioatividade local em seres humanos. Mas só depois
dos testes do Atol de Biquini em 1954 foi que ficamos sabendo dos
perigos de contaminação a distância por precipitação radioativa após
transporte atmosférico. Ainda hoje, quase três décadas passadas,
causa-nos espanto a magnitude e alcance do fenômeno. Por exemplo,
o famoso vazamento de radiação de um reator avariado em Three
Mile Island - incidente que gerou desassossego generalizado e
centenas de páginas de depoimentos no Congresso - depositou
menos de um décimo da quantidade de radiação (em forma de 131 I)
depositada na mesma região da Pensilvânia pela precipitação da
nuvem produzida pelo teste de uma única bomba na China dois anos
antes. Entre outras descobertas tardias e fortuitas estão os efeitos no
cinturão de Van Allen, o pulso eletromagnético (EMP) e seus efeitos
nas comunicações eletrônicas e, mais recentemente, a injeção de
NOx (óxidos de nitrogênio) na camada de ozônio. Discorrendo sobre
esses eventos, um observador fez o seguinte comentário: "A incerteza
é uma das principais conclusões... como acentua a derivação
acidental e imprevista de muitas das nossas descobertas." Essas
palavras não foram escritas por um crítico acadêmico da política
governamental: são de um atual subsecretário da Defesa do governo
Reagan.
A conclusão é clara, e não muito tranqüilizadora. Nós temos de
aprender a esperar o inesperado. A presente Conferência coloca-nos
bem no meio de outro e ainda mais momentoso conjunto de
revelações sobre os riscos crônicos ligados a uma guerra nuclear.
Num sentido importante, a genealogia desta Conferência começa
com o trabalho extraordinário da organização denominada Médicos
pela Responsabilidade Social. Eles fizeram as primeiras avaliações
quantitativas das circunstâncias médicas que prevaleceriam
imediatamente após um ataque nuclear, e demonstraram a
insuficiência das atuais instituições, programas e planos médicos
para avir-se com essas circunstâncias. Tais revelações levantaram
sérios questionamentos com respeito a toda a estrutura da prontidão
da defesa civil e lançaram graves dúvidas sobre as asserções
confiantes dos planejadores da defesa de que a recuperação após
um conflito nuclear poderia completar-se num número de anos
relativamente curto.
Os resultados expostos nesta Conferência sumariam análises
científicas mais sérias das conseqüências ecológicas e climatológicas
duradouras de um conflito nuclear. Em particular, anteriormente os
riscos ecológicos receberam pouquíssima atenção na avaliação de
estratégias nucleares. Estudos mais antigos feitos sob o patrocínio do
Departamento da Defesa (por exemplo, o de Mitchell) consistiam em
pouca coisa mais que analogias com cataclismos naturais. O resumo
final do estudo Rand de Mitchell é ilustrativo: "Destruições em grande
escala produzidos por incêndios, secas, enchentes e outras
catástrofes já defrontaram o mundo com problemas de reconstrução e
reconstituição de comunidades bióticas, semelhantes aos que se
prefiguram para o meio ambiente de pós-ataque." De que modo essa
similaridade possa ser de serventia na avaliação dos riscos efetivos,
deixo ao leitor imaginar.
Na verdade, não é de todo justo condenar aqueles primeiros estudos:
nossa visão atual é mais clara e mais sinistra em virtude de uma série
de razões. Primeiro, certas verificações recentes (por exemplo, a
sensibilidade de alguns ecossistemas a chuvas ácidas, e em particular
a sensibilidade das plantas à radioatividade e à temperatura) foram no
sentido de piorar as previsões. Segundo, nossa visão geral da
complexidade e sutileza dos sistemas ecológicos mudou
profundamente ao longo das duas últimas décadas; hoje
compreendemos de forma muito mais completa a sua fragilidade. Por
fim, o número e a precisão dos nossos sistemas de armamentos
mudaram de tal modo que podem ampliar o caráter altamente
destrutivo de um conflito armado.
É surpreendente, portanto, que ainda hoje estejamos recebendo
informações tranqüilizadoras baseadas em estimativas há muito
superadas. Órgãos de emergência distribuem ainda hoje um folheto
redigido em 1979 pela Agência de Prontidão da Defesa Civil. Nele lê-
se a seguinte conclusão, em moldes idênticos à da metáfora do
relatório de 1963: "Nenhum peso lógico de ataque nuclear poderia
induzir no equilíbrio natural transformações de vulto que se
aproximassem em espécie ou grau das que a civilização humana até
aqui já produziu." Ainda que fosse verdade que a magnitude das
transformações ecológicas provavelmente resultantes do maior ataque
nuclear admissível fossem menores do que as produzidas pela
civilização humana ao longo de toda a sua história, existe certamente
uma enorme diferença entre o impacto de grandes mudanças
deflagradas em milissegundos e as que se consumaram ao longo de
milênios.
Em outro trecho, o mesmo folheto cita do estudo de 1963 da
Academia Nacional de Ciências e informação reconfortante de que
“não são de esperar desequilíbrios ecológicos capazes de
impossibilitar a vida normal". Não há qualquer menção a um estudo
muito mais recente da mesma Academia sobre os efeitos mundiais à
longo prazo de múltiplas detonações de armas nucleares. Este último
relatório é de 1975, quatro anos antes da elaboração dó folheto da
Agência de Prontidão. Suas conclusões são muito mais sombrias,
como era de esperar: os efeitos dos óxidos de nitrogênio sobre a
camada de ozônio foram reconhecidos, e as perspectivas de
alterações climáticas foram mais seriamente levadas em conta. No
entanto, o governo, prestando contas aos seus cidadãos, contornou a
informação mais recente para promover um falso sentimento de
tranqüilidade com base numa fonte ultrapassada. É de preocupar
quando se usam dados obsoletos para informar decisões de política
geral.
Por si mesmas, as estimativas ecológicas da Academia dão margem
substancial a uma apreensão ainda maior. Mas parece-me oportuno
acentuar que os dados novos mais impressionantes apresentados
nesta Conferência, na verdade os mais inquietantes dentre todos os
efeitos crônicos potenciais de uma guerra nuclear até hoje
enumerados, são as perspectivas de seqüelas climáticas de vulto.
Tais seqüelas são de tal modo profundas que provavelmente
eclipsariam todos os demais efeitos retardados até hoje conhecidos.
Esta nova ótica resulta em parte de um novo paradigma geral de
pensamento científico sobre os processos que influenciaram a história
da Terra e moldaram-lhe a forma atual. No século XVIII e início do
XIX, acreditava-se que as grandes formações terrestres houvessem
resultado de processos catastróficos, infligidos à Terra e seus
ocupantes por um Criador iracundo. Uma revolução importante contra
esse modo de ver, encabeçada pelo geólogo inglês Charles Lyell,
reconheceu a importância de processos graduais como a erosão, a
sedimentação e a formação de recifes, e substituiu a concepção
catastrofista por outra, baseada na doutrina do uniformitarismo. Hoje
as ciências da Terra estão passando por uma segunda revolução,
deflagrada pelas notáveis descobertas da tectônica de placas, e o
acento voltou a incidir sobre eventos mais dramáticos. Cresce
progressivamente a convicção de que grandes intervenções
descontínuas como erupções vulcânicas e colisões de asteróides
tiveram efeitos profundos na história da Terra e da vida nela existente.
Uma hipótese particularmente cativante, por exemplo, é a de que a
colisão de um asteróide com a Terra há 65 milhões de anos, e a
nuvem de poeira atmosférica que ela produziu, persistindo durante
longo tempo, levou a alterações climáticas que acarretaram as
extinções em massa do final do período cretáceo. Quando pela
primeira vez anunciada, a idéia de que os dinossauros teriam morrido
no escuro evocou um grande ceticismo por parte dos biologistas meus
colegas. Hoje, porém, é largamente admitido que eventos
significantes da mesma natureza, ainda que não da mesma
magnitude, têm ocorrido no tempo histórico por obra de erupções
vulcânicas. "Anos sem verão" registrados em anais antigos associam-
se no tempo a depósitos glaciais de chuvas ácidas, por exemplo, e
aberrações meteorológicas mais contemporâneas foram ligadas a
erupções como a do EI Chichón, no México, há dois anos.
Conclusões como essas tornaram-nos muito mais cônscios da
sensibilidade do clima do mundo a perturbações repentinas. Sabe-se,
faz algum tempo, que explosões nucleares podem introduzir poeira e
aerossóis em circulação duradoura na alta atmosfera. Cálculos
recentes indicam que incêndios de grandes dimensões acresceriam
um efeito sinérgico, suprindo partículas adicionais e aumentando
substancialmente as forças de convecção que injetam materiais na
circulação da alta atmosfera. Essa nova informação tornou real pela
primeira vez a probabilidade de que modificações de temperatura e
luz ambiente, prolongando-se por várias estações no Hemisfério
Norte, podem resultar de um conflito nuclear em grande escala. É
uma atuação de alarmante gravidade.
Consideradas em conjunto, todas essas informações deveriam
suscitar uma mudança radical no modo que nós como cidadãos
avaliamos nossos riscos, e no modo que os nossos estrategistas
nacionais os vêem. Já não é admissível pensar nas seqüelas de uma
guerra nuclear em termos de minutos, de dias, ou sequer de meses.
Seria como avaliar um produto tóxico, na época em que vivemos, em
termos do que ele faz a uma pessoa em cinco minutos. O que
ficamos sabendo a partir das coisas que os biólogos e físicos
atmosféricos nos estão dizendo hoje é que a escala de tempo
apropriada é anos, e que os processos que temos de considerar não
nos são familiares nem em espécie nem em escala. As estimativas de
risco sobre as quais os nossos estrategistas vêm trabalhando e que
vêm citando aos nossos cidadãos são grosseiramente otimistas.
Antes de terminar, quero focalizar um outro aspecto da análise de
riscos. É um aspecto que mencionei de passagem mais atrás: a
noção de "racionalidade" por parte dos detentores do poder de
decisão ao confrontar questões de probabilidade e gravidade de um
risco. Não apenas há motivos para duvidar que esses indivíduos,
confrontados com riscos de alta gravidade e baixa probabilidade, se
comportem de acordo com padrões utilitários racionais de opção,
como há precedentes históricos explícitos fazendo acreditar que se
comportarão de modo mais político - e humano - do que aquele que o
modelo do "agente racional" indicaria. Em seu excelente livro The
Essence of Decision, Graham Allison analisa o tratamento pelo
governo dos Estados Unidos da crise dos mísseis cubanos em 1962
do ponto de vista de diferentes modelos comportamentais. Ao lê-lo, é
impossível fugir à conclusão de que nenhum chefe de Estado,
nenhuma autoridade do governo, nenhum oficial militar superior se
comporta como "agente racional" ao tomar decisões quando o destino
de países e do mundo pende na balança. Estruturas burocráticas,
lealdades políticas e antecedentes - além de outras não-linearidades
comportamentais que mal estamos começando a sondar -
desempenham papéis ponderáveis. No entanto a estrutura da
prontidão militar e o equilíbrio estratégico fundam-se na expectativa
de resposta racional e contra-resposta racional. A racionalidade será
particularmente difícil de manter nos primeiros estágios de um conflito
nuclear quando a incerteza e a necessidade de decisões rápidas
predominarão. É por isso que se afigura tão improvável a chefes
militares experimentados e a outros que uma guerra nuclear possa
jamais manter-se limitada.
Seja como for, a avaliação de riscos deveria proceder-se sobre
hipóteses de pior caso. É por isso que os cenários adotados pelos
grupos de trabalho desta Conferência, como a maior parte dos
demais, envolvem a detonação de frações consideráveis do arsenal
nuclear do mundo. Mas há também uma razão adicional: a alta
probabilidade de que, no contexto real das decisões de um confronto
nuclear, será tão difícil confinar a retaliação e a reação que o curso
esperado de um conflito dessa espécie é que ele prossiga sem limite.
Finalizando, quero especificar o que é novo e o que não é neste
volume. É de extrema significação que um grande grupo de biólogos
ilustres tenha chegado a um consenso refletido sobre as
conseqüências ecológicas de um conflito nuclear. (Em geral não se faz
idéia de como é difícil que biólogos, principalmente ilustres,
concordem nalguma coisa.) O grupo que se ocupou dos efeitos
atmosféricos e climáticos, em seu relatório conjunto, levanta algumas
possibilidades desalentadoras com respeito a esses aspectos de um
pós-guerra nuclear. Mas, como eu tentei ilustrar, essas descobertas
são parte de um processo ordenado na evolução do pensamento
científico, através do qual pouco a pouco viemos deslocando o foco de
nossas atenções dos efeitos mais imediatos e mais óbvios para os
mais complexos e duráveis. Essa transição desloca-nos também para
uma zona em que os efeitos são possivelmente ainda mais sérios,
posto que muito mais difíceis de estimar com precisão. De fato, a
história do desenvolvimento da ciência nuclear e a complexidade de
muitos dos efeitos de maior alcance de que aqui se tratará sugerem
que a incerteza deveria ser uma advertência temática para os
planejadores de políticas. O que as nossas projeções mais
ponderadas mostram é que um choque nuclear em grande escala
haverá de produzir, entre os seus muitos efeitos plausíveis, as maiores
convulsões biológicas e físicas deste planeta nos últimos 65 milhões
de anos – um tempo mais de 30 mil vezes maior que o decorrido do
nascimento de Cristo, e mais de 100 vezes o tempo de existência até
aqui da nossa espécie. É preciso que a avaliação dos riscos prováveis
se constitua num pano de fundo para todos aqueles que detêm a
responsabilidade pelas decisões de segurança nacional, aqui e em
outros lugares.
Assim como existe uma continuidade entre as descobertas atuais e os
resultados de trabalhos científicos anteriores, quero ressaltar que
existe igualmente uma continuidade entre as opiniões dos cientistas
aqui apresentadas e as dos seus ilustres colegas não citados neste
livro. E quero encerrar enfatizando as últimas, já que é fácil muitas
vezes rejeitar más notícias desconfiando do mensageiro. Projeções
anteriores sobre os efeitos retardados de uma guerra nuclear,
baseadas nos conhecimentos então disponíveis, foram feitas em 1975
pela Academia Nacional de Ciências e em 1979 pela Comissão de
Avaliação Tecnológica do Congresso. A Academia, que foi instituída
por Abraão Lincoln para assessorar o governo dos Estados Unidos em
assuntos científicos, é composta por quase mil e trezentos dos mais
reputados cientistas do país. Em aditamento ao estudo de 1975 sobre
efeitos a longo prazo, ela está procedendo a uma análise de
conseqüências atmosféricas e climáticas, que esperamos venha
ampliar e manter sob atenção as conclusões descritas nesta
Conferência pelo Dr. Sagan. Em conseqüência dessa iniciativa, os
membros da Academia, em abril do ano passado, aprovaram uma
resolução insólita - insólita no sentido de que rompeu uma reserva
habitual da Academia em assuntos que pudessem ser considerados
objeto de controvérsia política. Embora este seja um livro de
descobertas científicas e não de recomendações de conduta, quero
levar ao conhecimento dos leitores o julgamento firmado pelos meus
colegas acadêmicos sobre a matéria, pelo que termino reproduzindo a
Resolução da Academia Nacional de Ciências sobre Guerra Nuclear e
Controle de Armamentos:

Considerando que a guerra nuclear é uma ameaça sem precedentes à


humanidade;

Considerando que uma guerra nuclear total poderia eliminar centenas


de milhões de vidas e destruir a civilização tal como a conhecemos;

Considerando que qualquer emprego de armas nucleares, inclusive


em assim chamadas "guerras limitadas", muito provavelmente
redundaria numa escalada para a guerra nuclear total;

Considerando que a ciência não aponta nenhuma possibilidade de


defesa eficaz contra uma guerra nuclear e mútua destruição;

Considerando que a proliferação de armas nucleares em outros


países com governos instáveis em áreas de alta tensão aumentariam
substancialmente o risco de uma guerra nuclear;

Considerando que por mais de dois anos não houve progressos no


sentido de obter limitações e reduções de armas estratégicas, quer
através da ratificação do SALT II quer da retomada de negociações
sobre armas nucleares estratégicas;
Fica resolvido que a Academia Nacional de Ciências pede ao
presidente e ao Congresso dos Estados Unidos, e aos poderes
correspondentes da União Soviética e de outros países que têm um
interesse similar nessas matérias vitais:

Que intensifiquem de modo considerável, sem precondições e com


urgência, esforços no sentido de alcançar um acordo eqüitativo e
comprovável entre os Estados Unidos, a União Soviética e outras
nações que têm um interesse similar nessas matérias vitais;

Que acionem todos os meios práticos possíveis capazes de reduzir o


risco de uma guerra nuclear por acidente ou erro de interpretação;

Que adotem todos as medidas práticas para inibir a proliferação


continuada de armas nucleares em outros países;

Que sigam observando todos os acordos existentes de controle de


armamentos, inclusive o SALT II; e

Que evitem doutrinas militares que considerem explosivos nucleares


como armas de guerra comuns.

A ATMOSFERA E AS CONSEQÜÊNCIAS CLIMÁTICAS


DA GUERRA NUCLEAR

CARL SAGAN
Hoje é o Dia das Bruxas do ano que precede 1984, e sInceramente eu
gostaria que o que irei dizer-lhes em seguida fosse apenas uma
histÓria de fantasmas, apenas algo inventado para assustar crianças
por um dia. Infelizmente, não é uma simples história. Nossas últimas
pesquisas revelaram o fato surpreendente de que uma guerra nuclear
pode arrastar em sua esteira uma catástrofe climática, a que damos o
nome de "inverno nuclear", sem precedentes durante a ocupação da
Terra pelo homem.
Foi por acidente que esbarramos com esses resultados, por uma via
tortuosa, por uma dessas circunstâncias não raras na ciência em que
estudando alguma coisa pelo interesse puramente intelectual que ela
oferece se é levado a conclusões de inesperada utilidade prática.
Para mim, a coisa começou em 1971, com a exploração de Marte
pela Mariner 9. A Mariner 9 foi a primeira espaçonave a orbitar ao
redor de outro planeta. Os engenheiros do projeto garantiram que ela
só funcionaria por três meses após a entrada em órbita. Chegando a
Marte, a nave encontrou o planeta completamente coberto por uma
tempestade global de pó. Ao fim de um mês, durante o qual foi
fotografado um disco quase inteiramente desprovido de detalhes,
passamos a alimentar sérios receios de que quando a poeira
assentasse por completo, limpando a atmosfera marciana, a nave já
estaria inoperante. Com efeito, a tempestade levou três meses para
dissipar-se, mas a nave funcionou muito melhor do que disseram os
engenheiros - e por todo o ano seguinte foi-nos dado examinar o
planeta de um pólo a outro no primeiro reconhecimento orbital
detalhado de outro planeta.
Durante aqueles três primeiros meses, pouca coisa houve a observar,
além da poeira em suspensão. Havia a bordo da nave um instrumento
chamado espectrômetro interferométrico de infravermelho, capaz de
examinar a atmosfera em vários comprimentos de onda e assim
sondar os diferentes níveis da atmosfera - desde as grandes altitudes
até a superfície. Pudemos observar a temperatura da atmosfera e a
da superfície variarem com o tempo. Os resultados mostraram que a
atmosfera estava consideravelmente mais quente do que é
normalmente em Marte, e a superfície consideravelmente mais fria. À
medida que a poeira assentava, a atmosfera foi arrefecendo e a
superfície esquentando - ambas as temperaturas caminhando para os
seus valores usuais, ou "ambientes" - Não foi difícil entender as
razões disso. Os ventos haviam arrastado uma grande quantidade de
poeira dos desertos marcianos para a atmosfera. A luz do sol fora
absorvida pelo pó na alta atmosfera, que com isso se aquecera. Da
mesma forma, a luz do sol fora impedida de alcançar a superfície, e
esta esfriara. Um espectador em Marte teria observado, depois que a
tempestade de poeira se desencadeou, o frio e a escuridão se
propagando sobre a face do planeta. Após vários meses (a
tempestade começara alguns meses antes da chegada da Mariner 9 a
Marte), quase toda a poeira se depositara, e as condições voltaram ao
normal.
Essas tempestades de poeira são comuns em Marte, e por mais de
um século têm sido observadas da Terra. Caracteristicamente, elas
surgem sempre nos mesmos poucos locais do planeta, propagam-se
primeiro em longitude, depois em latitude, e em questão de poucas
semanas no máximo cruzam tipicamente o equador marciano,
passando ao outro hemisfério. Ora, a pressão atmosférica na
superfície de Marte é mais ou menos a mesma da estratosfera da
Terra. Marte gira, como a Terra, uma vez em 24 horas, e o seu eixo de
rotação é inclinado em relação ao seu plano orbital de um ângulo
quase igual ao da Terra. Há, é claro, diferenças entre Marte e a Terra -
entre elas a ausência de mares em Marte e o fato de ele estar mais
afastado do Sol. Mas pareceu-nos que a experiência marciana podia
ser relevante para a Terra.
Alguns de nós, tendo pouca coisa a ver nos primeiros três meses
depois da entrada em órbita além da tempestade de poeira, ocupamo-
nos em calcular o grau de aquecimento atmosférico e de esfriamento
superficial para uma dada quantidade de poeira levantada. Um cálculo
aproximado não era muito difícil, e vários diferentes grupos puderam
determinar não só qualitativa como quantitativamente as mudanças de
temperatura que a tempestade de poeira temporariamente produzira
em Marte. Meus colegas (e ex-alunos) James B. Pollack e O. Brian
Toon, ambos hoje no Centro de Pesquisas Ames da NASA, estavam
ansiosos por aplicar esse repositório computacional a problemas
terrestres. Aplicamo-nos a tentar compreender o que acontece com o
clima da Terra quando um grande vulcão entra em erupção e distribui
aerossóis estratosféricos à volta do planeta. Em alguns casos,
conhecemos a quantidade de poeira introduzida na alta atmosfera, as
dimensões das partículas de pó (em geral menos de um micro [um
décimo milésimo de centímetro]) e a sua composição (geralmente
ácido sulfúrico e silicatos). Como a estratosfera é muito seca, a chuva
não remove esses aerossóis; e como a convecção na estratosfera é
muito atenuada, os movimentos do ar não tendem a transportá-Ios
para fora. Dessa forma, eles descem lentamente pelo próprio peso
-lentamente porque as suas dimensões são muito reduzidas -,
levando mais de um ano para que a estratosfera fique limpa. Ao
mesmo tempo, existem medições, para muitas explosões vulcânicas,
de um declínio pequeno porém definido da temperatura global - para
todas as explosões vulcânicas dos últimos poucos séculos, um
esfriamento de um grau ou menos. Verificamos que era possível
calcular esses declínios de temperatura com razoável precisão; os
métodos desenvolvidos para Marte, e desde então consideravelmente
ampliados, funcionaram bastante bem para a Terra.
Foi proposto então por Alvarez e outros que a extinção dos
dinossauros e muitas outras espécies 65 milhões de anos atrás, no
limite entre os períodos cretáceo e terciário, ter-se-ia dado devido à
colisão com a Terra de um asteróide de 10 quilômetros de diâmetro, e
a conseqüente efusão na atmosfera de enormes quantidades de
poeira. Com o concurso de Richard Turco da R&D Associates de
Marina deI Rey, Califórnia, Pollack e Toon calcularam que essa
colisão teria acarretado um escurecimento e um esfriamento de
grandes proporções. Devo frisar, no entanto, que a nossa tese sobre
as conseqüências climáticas de uma guerra nuclear não está
vinculada a essa explicação das extinções do cretáceo/terciário. Os
dinossauros podem ter morrido de gripe sem afetar a validade das
nossas conclusões.
Nós sabíamos, naturalmente, que explosões nucleares arremessam
grandes quantidades de poeira fina na atmosfera, e durante anos
havíamos falado em calcular os efeitos climáticos prováveis que daí
adviriam. Num seminário realizado no Centro de Pesquisas Ames
(dedicado em parte à questão da origem da vida), em 1981, decidimos
dar andamento àquele estudo. Um ano mais tarde o nosso esforço
recebeu novo impulso por obra de um trabalho muito interessante
realizado por Paul Crutzen, do Instituto de Química Max Planck de
Mogúncia, República Federal da Alemanha, e John Birks, da
Universidade do Colorado. Crutzen e Birks tinham feito uma
estimativa preliminar da quantidade de fumaça produzida pela queima
de florestas e cidades que seria descarregada na atmosfera numa
guerra nuclear. Evidentemente esta seria uma importante fonte
adicional de partículas finas capazes de obscurecer a luz do sol.
Chego assim à questão dos efeitos de uma guerra nuclear. As
conseqüências imediatas da explosão de um único artefato
termonuclear são conhecidas e bem documentadas - radiação da bola
de fogo, emissão primária de nêutrons e raios gama, deslocamento de
ar e incêndios. A bomba de Hiroxima, que matou entre 100.000 e
200.000 pessoas, era um artefato de fissão com potência de cerca de
12 quilotons (o equivalente explosivo de 12.000 toneladas de TNT).
Uma ogiva termonuclear moderna emprega um mecanismo mais ou
menos parecido com o da bomba de Hiroxima como detonador - o
"fósforo" que acende a fusão nuclear. Uma arma termonuclear
americana típica pode ter uma potência em torno de 500 quilotons (ou
0,5 megaton, sendo um megaton o equivalente explosivo de um
milhão de toneladas de TNT). Hoje existem muitas armas na faixa de
9 a 20 megatons nos arsenais estratégicos dos Estados Unidos e da
URSS. A arma mais potente até hoje detonada tinha 58 megatons.
Armas nucleares estratégicas são aquelas projetadas para serem
transportadas por mísseis lançados de bases terrestres ou de
submarinos, ou por bombardeiros, até alvos situados nos territórios
inimigos. Numerosas armas de potência aproximadamente igual à da
bomba de Hiroxima são hoje reservadas para missões militares
"táticas" ou "de teatro", ou são designadas "munições" e relegadas a
mísseis ar-ar ou terra-ar, torpedos, cargas de profundidade e
artilharia. Se bem que as armas estratégicas tenham em geral maior
potência do que as armas táticas, nem sempre é este o caso Os
modernos mísseis (por exemplo, Pershing 2, SS-20) e aviões (por
exemplo, F-15, MIG-23) táticos ou de teatro têm raios de ação
suficientes para tornar cada vez mais artificial a distinção entre armas
"estratégicas" e ''táticas" ou "de teatro". Ambas as classes de armas
podem ser expedidas por mísseis lançados de bases terrestres, do
mar e de aviões, e por sistemas de alcance tanto intermediário como
intercontinental. Não obstante, pela contagem usual existem cerca de
18.000 armas termonucleares estratégicas e de teatro e um número
igual de detonadores de fissão nos arsenais estratégicos americano e
soviético, com uma potência total de cerca de 10.000 megatons. O
número total de armas nucleares (estratégicas mais táticas e de
teatro) nos arsenais dos dois países está próximo de 50.000, com
uma potência somada de quase 15.000 megatons. Para simplificar,
eliminaremos aqui a distinção entre armas estratégicas e de teatro e
adotaremos, sob a rubrica "estratégicas", uma potência acumulada de
13.000 megatons. As armas nucleares do resto do mundo -
principalmente Inglaterra, França e China - montam a muitas centenas
de ogivas e algumas centenas de megatons de potência total
adicional.
Ninguém sabe, é claro, quantas ogivas com que total de potência
seriam detonadas numa guerra nuclear. Em decorrência de ataques a
aviões e mísseis estratégicos, e em decorrência de falhas
tecnológicas, é certo que menos que a totalidade do arsenal do
mundo seria detonado. Por outro lado, é geralmente admitido, mesmo
entre a maioria dos planejadores militares, que seria quase impossível
conter uma "pequena" guerra nuclear antes que ocorresse uma
escalada no sentido de incluir grande parte dos arsenais mundiais.
(Fatores de aceleração são mau funcionamento de comandos e
controles, falhas de comunicações, a necessidade de decisões
instantâneas sobre os destinos de milhões de pessoas, medo, histeria
e outros fatores referentes a uma guerra nuclear real, travada por
homens de carne e osso.) Basta esta razão para que qualquer
tentativa séria de estudar as possíveis conseqüências de uma guerra
nuclear deva contemplar de preferência um conflito em grande escala,
na faixa de 5.000 a 7.000 megatons - entre aproximadamente um
terço e metade dos estoques estratégicos do mundo -, e é o que
várias investigações têm feito. Contudo, muitos dos efeitos adiante
referidos podem ser deflagrados por guerras muito menores.
Aeroportos estratégicos, silos de mísseis, bases navais, submarinos
no mar, fábricas e depósitos de armas, centros de comando e de
controle civil e militar, instalações de detecção de ataque e alarme
antecipado, etc., são objetivos prováveis ("ataque de contra-força").
Embora se declare com freqüência que cidades não seriam visadas
per se, muitos dos objetivos acima referidos estão localizados nelas
ou nos seus arredores, principalmente na Europa. Além disso, existe
a classe dos alvos industriais ("ataque de contra-valor"). As modernas
doutrinas nucleares requerem que instalações de "apoio bélico" sejam
atacadas. Muitas dessas instalações são necessariamente industriais
por natureza, e empregam uma força de trabalho de dimensões
consideráveis. Quase sempre estão localizadas nas proximidades de
grandes centros de transporte, de modo que matérias-primas e
produtos acabados possam ser eficientemente transferidos para
outros setores de indústria ou para tropas no campo. Assim, essas
instalações são, quase por definição, cidades, ou se encontram perto
ou no interior de cidades. Outros objetivos classificados como de
"apoio bélico" podem ser os próprios sistemas de transporte
(estradas, canais, rios, ferrovias, aeroportos civis, etc.), refinarias,
depósitos e dutos de petróleo, usinas hidrelétricas e nucleares,
emissoras de rádio e televisão, e assim por diante. Um ataque
cruzado de contra-valor poderia assim envolver a quase totalidade
das grandes cidades dos Estados Unidos e da União Soviética, e
possivelmente a maior parte das grandes cidades do Hemisfério
Norte. Existem no mundo menos de 2.500 cidades com população
acima de 100.000 habitantes, portanto a destruição de todas essas
cidades está perfeitamente dentro da capacidade dos arsenais
nucleares do mundo.
Estimativas recentes de mortes imediatas por efeito de explosão,
radiação primária e incêndios num conflito de grandes dimensões em
que cidades fossem alvejadas variam de algumas centenas de
milhões a - mais recentemente, num estudo da Organização Mundial
de Saúde em que se supôs que os objetivos não se restringiriam
exclusivamente aos países da OTAN e do Pacto de Varsóvia - 1,1
bilhão de pessoas. É possível, portanto, que algo como a metade da
população do planeta fosse morta ou seriamente lesada pelos efeitos
diretos de uma guerra nuclear. Anarquia social; falta de eletricidade,
combustíveis, transportes, abastecimento de alimentos,
comunicações e outros serviços civis; ausência de atendimento
médico; interrupção de medidas sanitárias; multiplicação de doenças
e de distúrbios psíquicos graves - fariam sem dúvida um número
considerável de vítimas a mais. Mas uma série de outros efeitos -
alguns inesperados, alguns impropriamente analisados em estudos
precedentes, alguns por nós só recentemente descobertos - torna o
quadro ainda muito mais sombrio.
A destruição de silos de mísseis, instalações de comando e controle e
outros locais resguardados requer - dadas as atuais limitações de
precisão dos mísseis - armas nucleares de potência bastante
apreciável detonadas no solo ou a pequena altura. Explosões de alta
potência no solo vaporizarão, fundirão e pulverizarão a superfície da
área de impacto e propelirão grandes quantidades de vapores
condensados e poeira fina para a região superior da troposfera e para
a estratosfera. As partículas são carreadas principalmente na bola de
fogo ascendente; algumas sobem pela coluna da nuvem em
cogumelo. Contudo, em sua maioria os alvos militares não são muito
resguardados. A destruição de cidades pode ser realizada, como se
viu em Hiroxima e Nagasáqui, por explosões de potência inferior a
menos de 1.000 metros acima da superfície. Explosões de baixa
potência no ar sobre cidades ou florestas próximas tenderão a
provocar incêndios extensos, em alguns casos cobrindo uma área
total de 100.000 quilômetros quadrados, ou mais. Incêndios em
cidades geram enormes quantidades de fumaça negra que se eleva
pelo menos à camada superior da baixa atmosfera, ou troposfera (Fig.
1A). Se ocorrerem tempestades ígneas, a coluna de fumaça sobe
vigorosamente, como a tiragem de uma chaminé, e possivelmente (a
questão ainda não foi esclarecida) arrasta parte da fuligem para a
parte inferior da alta atmosfera, ou estratosfera. A fumaça produzida
por incêndios em florestas ou capim ficaria a princípio restrita à baixa
troposfera.

Figura 1A Representação aproximada da estrutura habitual de


temperaturas da atmosfera da Terra nas latitudes médias norte (ou
sul). Na superfície, aquecida pelo sol, a temperatura média anual é de
13º.C. A temperatura decresce com a altitude até uma altura (h) de
cerca de 13 km, onde é de -55º.C. Essas baixas temperaturas são
conhecidas dos alpinistas e dos aviadores. A região inferior da
atmosfera terrestre, chamada troposfera, é agitada por ventos e
turbulências, e nela ocorre a formação de chuvas. Assim, na
troposfera partículas finas são dissipadas ou lavadas pela chuva com
relativa rapidez.
A troposfera (e as chamadas "variações do tempo") terminam na
tropopausa, a cerca de 13 km de altitude. Acima vem a estratosfera.
Nesta, as temperaturas são mais constantes com a altitude; os ventos
verticais e a turbulência são moderados; não há chuva; e partículas
finas se dissipam muito lentamente.
A fumaça de incêndios fica limitada em sua maior parte à troposfera, e
as partículas de fuligem se depositam em tempo relativamente curto.
Já a poeira produzida por detonações de alta energia no solo - em
silos e outras instalações resguardadas - é injetada em considerável
proporção na estratosfera e se precipita com relativa lentidão. A
energia explosiva apenas capaz de injetar algum material na
estratosfera é cerca de 10 quilotons, como mostra a figura. A bola de
fogo e a nuvem estabilizada produzidas por uma explosão de 1
megaton (MT) sobem quase totalmente à estratosfera.

A fissão do detonador (geralmente plutônio) existente em todo


engenho nuclear e as reações no revestimento (geralmente urânio
238) acrescentado como "reforçador" de energia de fissão produzem
uma salada de produtos radioativos que são também arrastados na
nuvem. Cada um desses produtos, ou radioisótopos, tem uma meia-
vida característica (definida como o tempo necessário para que se
reduza à metade, por desintegração, o seu nível original de
radioatividade). A maioria dos radioisótopos têm meias-vidas muito
curtas, e se desintegram em horas ou dias. Partículas introduzidas na
estratosfera, principalmente por explosões de alta energia (Fig. 1A),
precipitam-se muito lentamente - caracteristicamente em cerca de um
ano, sendo que ao fim desse tempo a maior parte dos produtos de
fissão, mesmo quando concentrados, ter-se-á reduzido a níveis bem
menos perigosos. Partículas introduzidas na troposfera por explosões
de baixa energia (Fig. 1A) e por incêndios precipitam-se mais
depressa - por coagulação, assentamento gravitacional, lavagem pela
chuva, convecção e outros processos - antes que a radioatividade se
tenha reduzido a níveis relativamente inócuos. Assim, a rápida
precipitação de resíduos radioativos troposféricos tende a produzir
doses maiores de radiação ionizante do que a precipitação mais lenta
de partículas radioativas da estratosfera.
Explosões nucleares de mais de um megaton de energia desprendida
geram uma bola de fogo radiante que sobe através da troposfera e
penetra em cheio na estratosfera (Fig. 1A). As bolas de fogo
produzidas por armas de potência compreendida entre 100 e 1.000
quilotons (1.000 quilotons = 1 megaton) atingem parcialmente a
estratosfera. As altas temperaturas da bola de fogo inflamam
quimicamente parte do nitrogênio do ar, produzindo óxidos de
nitrogênio, que por sua vez atacam quimicamente e destroem o gás
ozônio da média estratosfera. Mas o ozônio absorve a radiação
ultravioleta do sol, biologicamente perigosa. Assim, a exaustão parcial
da camada estratosférica de ozônio, ou ozonosfera, por explosões
nucleares de alta energia, aumentará o fluxo de radiação solar
ultravioleta na superfície da Terra (depois que a fuligem e a poeira
tiverem assentado). Depois de uma guerra nuclear em que milhares
de engenhos de alta potência fossem detonados, o aumento da luz
ultravioleta potencialmente prejudicial à vida poderia ser de várias
centenas por cento. Os maiores aumentos ocorreriam nas ondas de
menor comprimento, que são as mais perigosas. Os ácidos nucléicos
e as proteínas, que são as moléculas básicas da vida da Terra, são
especialmente sensíveis à radiação ultravioleta. Assim, um aumento
do fluxo de radiação solar ultravioleta na superfície da Terra seria uma
ameaça à vida.
Esses quatro efeitos - obscurecimento por fumaça na troposfera,
obscurecimento por poeira na estratosfera, precipitação de resíduos
radioativos e destruição parcial da camada de ozônio - constituem as
quatro principais conseqüências ambientais adversas que se
verificariam depois de "terminada" uma guerra nuclear. É bem
possível que haja outras que ainda não sabemos. A poeira e,
principalmente, a fuligem escura absorvem a luz visível do sol,
aquecendo a atmosfera (Figuras 1B e 1C) e esfriando a superfície da
Terra.
Figuras 1B e 1C. Quando a alta atmosfera se aquece (pela absorção
de luz do sol por partículas em suspensão levantadas numa guerra
nuclear), a superfície esfria, porque as mesmas partículas impedem a
luz de lá chegar. Na Figura 1B, construída de acordo com os cálculos
do TTAPS, vê-se a estrutura da atmosfera da Terra em latitudes
médias norte 30 dias depois de uma guerra nuclear "de referência"
(Quadro 1, Caso 1). Como na Figura 1A, o eixo vertical representa a
altura (h) e o eixo horizontal a temperatura do ar em graus
centígrados. A Figura 1C mostra a estrutura de temperaturas depois
de 120 dias. Em ambos os casos a estrutura atmosférica usual (Fig.
1A) se desfez, a temperatura na baixa atmosfera é mais constante
com a altitude, e surgiu uma nova região de inversão térmica.
Do mesmo modo que acontece com inversões térmicas sobre cidades
como Los Angeles, a estrutura alterada de temperatura é muito
estável, e as partículas que chegaram a essas altitudes se dissipam
muito mais devagar do que seria normalmente o caso. Como a
influência dessa inversão térmica não foi ainda introduzida nos
cálculos do TIAPS (os cálculos não são "totalmente interativos"), os
tempos de restauração das condições normais que aparecem na
Figura 2 podem ter sido grandemente subestimados. No caso de 30
dias, a região em que a temperatura quase não varia com a altitude
atingiu o solo, e nesse sentido pode-se dizer que a guerra nuclear traz
a estratosfera à superfície da Terra.
A comparação entre as três figuras serve também para explicar por
que correntes de partículas finas tendem, depois de algum tempo, a
transpor o equador e invadir o Hemisfério Sul. Considere-se, por
exemplo, uma altitude de 10.000 m no Hemisfério Norte. Algumas
semanas depois da guerra de referência, as temperaturas ali são da
ordem de 0º.C (Fig. 1B). À mesma altitude, no Hemisfério Sul por ora
livre de poeira e fumaça (Fig. 1A), as temperaturas são 500 mais
baixas. Porções de ar, e as partículas nelas contidas, fluirão "declive
abaixo", de regiões mais quentes para mais frias. Em física, fluxos
tendem a seguir gradientes. As grandes diferenças de temperatura
induzirão correntes ascendentes no sentido sul no Hemisfério Norte e
correntes descendentes no sentido norte no Hemisfério Sul. O efeito
resultante pode ser o de difundir o ar carregado de poeira à toda a
volta do globo e elevá-Io ainda mais acima da superfície.

Todos esses quatro efeitos foram considerados em nosso último


estudo, designado pelas iniciais dos seus autores, TTAPS. Pela
primeira vez se demonstra que temperaturas extremamente baixas, o
"inverno nuclear", se sucederiam por um tempo prolongado a uma
guerra nuclear. (O estudo também explica o fato de não terem sido
detectados efeitos climáticos do gênero após a detonação de algumas
centenas de megatons durante o período de testes atmosféricos de
engenhos nucleares pelos Estados Unidos e União Soviética,
encerrado pelo Tratado Limitado de Proibição de Testes em 1963: as
explosões se sucederam ao longo de vários anos, virtualmente não
simultâneas, e, como ocorreram sobre descampados, atóis de coral,
tundras e áreas desérticas, não provocaram incêndios.) Os novos
resultados foram submetidos a análises detalhadas, e muitos cálculos
confirmativos já foram feitos depois, inclusive pelo menos dois na
União Soviética.
Ao contrário do que se afirmou em estudos precedentes, os efeitos
parecem não limitar-se às latitudes médias do Hemisfério Norte, onde
basicamente ocorreria o intercâmbio nuclear. Existem hoje provas
substanciais de que o aquecimento pela luz solar da poeira e fuligem
atmosféricas sobre objetivos situados em latitudes médias norte
alteraria profundamente a circulação global (ver legenda das Figs. 1B
e 1C). Partículas finas seriam transportadas para o outro lado do
equador em questão de semanas, como acontece em Marte, levando
o frio e a escuridão ao Hemisfério Sul. (Além do mais, certos estudos
sugerem que mais de 100 megatons seriam destinados a objetivos
situados na faixa do equador e no Hemisfério Sul, gerando assim
partículas finas localmente.) Embora fossem menores o esfriamento e
o escurecimento superficiais no Hemisfério Sul do que no Norte,
também ali poderiam ocorrer perturbações climáticas e ambientais de
grandes proporções.
Em nosso estudo, selecionaram-se algumas dúzias de diferentes
cenários, cobrindo uma ampla gama de guerras possíveis, e em cada
parâmetro básico foi considerada a margem de incerteza (p. ex., ao
estabelecer a quantidade de partículas finas introduzidas na
atmosfera). Cinco casos representativos são mostrados, no Quadro 1,
variando de um ataque pequeno, de baixa energia, contra cidades
exclusivamente, utilizando em potência apenas 0,8% dos arsenais
estratégicos do mundo, a um conflito de grandes dimensões com o
emprego de 75% dos estoques mundiais. Os casos "nominais"
pressupõem os parâmetros alternativos mais prováveis; os casos
"severos" pressupõem parâmetros adversos, mas sempre na faixa do
plausível.
As temperaturas continentais no Hemisfério Norte previstas variam
conforme as curvas mostradas na Figura 2. A alta capacidade
calorífica de água garante que as temperaturas dos mares cairão no
máximo uns poucos graus. Sendo as temperaturas moderadas pelos
mares contíguos, as das regiões costeiras serão menos extremas que
as do interior dos continentes. Contudo, o acentuado contraste entre
os continentes gelados e os mares apenas ligeiramente esfriados
produzirá borrascas contínuas de extraordinária violência ao longo
das costas, e a lavagem e arrastamento preferencial de radioatividade
indicam que nem o interior dos continentes nem os litorais serão
poupados. As temperaturas mostradas na Figura 2 são valores
médios para as áreas continentais do Hemisfério Norte, sem levar em
conta até aqui a influência dos mares nem a descontinuidade inicial
das nuvens.
Sabe-se que mesmo quedas de temperatura bem menores trazem
conseqüências sérias. A explosão do vulcão Tambora na Indonésia
em 1815 foi a causa provável de um declínio na temperatura média
global de menos de 1º.C, devido ao obscurecimento do sol pela poeira
fina propelida para a estratosfera. O frio verificado no ano seguinte foi
de tal ordem que 1816 ficou conhecido na Europa e na América como,
respectivamente, "o ano sem verão" e "mil-e-oitocentos-e-morrer-de-
frio". Um esfriamento de 1º.C acabaria por completo com as lavouras
de trigo do Canadá. Pequenas variações globais estão geralmente
associadas a variações regionais muito maiores. Nos últimos mil
anos, os desvios máximos de temperatura global ou do Hemisfério
Norte foram da ordem de 1º.C. Numa glaciação, uma baixa
prolongada típica da temperatura global em relação às condições
preexistentes é de cerca de 10º.C. Mesmo os casos mais modestos
ilustrados na Figura 2 dão baixas temporárias dessa ordem. O caso
de referência é muito mais adverso. Diferentemente, porém, da
situação numa glaciação, as temperaturas globais após a guerra
cairiam bruscamente, e é provável que levassem apenas de alguns
meses a alguns anos para restabelecer-se, em vez de milhares de
anos. Não é de se esperar que um inverno nuclear induzisse a um
novo período glaciário, pelo menos de acordo com a nossa análise
preliminar.
Com o obscurecimento do sol, a luz diurna pode cair aos níveis de um
lusco-fusco crepuscular ou pior. Na zona dos objetivos de médias
latitudes do Hemisfério Norte, a escuridão pode ir ao ponto de não se
enxergar, mesmo ao meio-dia. Nos Casos 1 e 14 (Quadro 1), os níveis
médios hemisféricos de luz caem a uns poucos por cento dos seus
valores normais, sendo comparáveis aos que ocorrem na base de
nuvens de chuvas densas. Com essa iluminação, muitos vegetais
ficam próximos do chamado ponto de compensação, que é o nível de
luz em que a fotossíntese é apenas suficiente para manter o
metabolismo da planta. No Caso 17, a iluminação média de todo o
Hemisfério Norte cai durante o dia a cerca de 0,1% do normal, um
nível de luz em que na maior parte das plantas a fotossíntese cessará
de todo. Nos Casos 1 e, especialmente, 17, a restauração completa
da iluminação diurna normal leva um ano ou mais (Figura 2).

Figura 2. Nesta figura mostra-se como a temperatura média das áreas


continentais do Hemisfério Norte (afastadas das costas) varia com o
tempo após uma guerra nuclear. A temperatura é indicada no eixo
vertical, em graus centígrados à esquerda e em graus Fahrenheit à
direita. A temperatura "ambiente" é a média calculada de todas as
estações e latitudes. Assim, temperaturas normais de inverno em
latitudes norte temperadas serão inferiores às representadas, e
temperaturas normais tropicais serão mais altas que as
representadas. A linha tracejada horizontal superior indica a
temperatura média da Terra (13º.C ou 56º.F) e a linha tracejada
horizontal inferior indica o ponto de congelamento da água pura (0º.C
ou 32º.F). O eixo horizontal representa o tempo em dias a contar do
começo da guerra nuclear até quase um ano depois. Cada curva
representa um cenário diferente de guerra nuclear, com a energia total
despendida na guerra variando de 100 megatons (MT) a 10.000 MT. A
influência moderadora dos mares (provavelmente resultando em
baixas de temperatura de 50 a 70% das mostradas) não é
considerada, conforme exposto no texto.
Os casos aqui mostrados, tirados de uma compilação muito maior dos
relatórios TTAPS, são definidos com maior detalhe no Quadro 1.
Compreendem uma mistura de ataques de contra-valor contra
indústrias e cidades em que o principal efeito é a fumaça de incêndios
carreada para a troposfera, e ataques de contra-força a silos de
mísseis, nos quais supõe-se (de modo muito otimista) que não há
produção de fumaça, mas grandes quantidades de poeira invadem a
atmosfera a grandes altitudes. Os casos definidos como "nominais"
pressupõem os valores mais prováveis dos parâmetros (como as
dimensões das partículas de pó ou a freqüência de tempestades
ígneas) que são imperfeitamente conhecidos. Os casos denominados
"severos" representam valores adversos mas não implausíveis desses
parâmetros.
No Caso 14 a curva acaba quando a temperatura atinge, a menos de
um grau, os valores ambientes. Nos outros quatro casos, as curvas
terminam ao fim de 300 dias, mas simplesmente porque os cálculos
não foram levados adiante. Nesses quatro casos as curvas
prosseguirão nas direções indicadas pelas setas. Em termos
aproximados, o Caso 1 é a soma dos Casos 11 e 14. O Caso 16
pressupõe um conflito limitado a explosões no solo, de energia
razoavelmente alta, destinadas à destruição de silos, e alta
percentagem de poeira fina resultante. Segue-se uma descrição mais
detalhada de cada um dos cinco casos:
Caso 1: É o caso de referência do TTAPS, em que 4.000 megatons
são usados pelos dois lados em ataques de contra-força, e 1.000
megatons destinados a cidades e arredores. O efeito principal é o
derivado da fuligem produzida em conflagrações urbanas. A
temperatura mínima de -23ºC (-9ºF) é atingida algumas semanas após
o conflito, e as temperaturas voltam ao ponto de congelamento em
cerca de três meses. Contudo a recomposição das condições
ambientes não ocorre antes de um ano, em razão da lenta
precipitação da poeira atmosférica.

Caso 11: Neste os Estados Unidos e/ou a URSS detonam um total de


3.000 megatons sobre silos de mísseis e outros objetivos afastados de
cidades e florestas. Admite-se (irrealisticamente) que os incêndios
sejam desprezíveis. Nas áreas continentais as temperaturas caem
durante um período de três meses, e como a remoção da poeira
estratosférica é muito lenta, levam mais de um ano para retornar aos
seus valores usuais (ambientes).

Caso 14: O conflito é limitado a apenas 100 megatons consistindo


exclusivamente de engenhos de baixa potência detonados no ar sobre
cidades. Neste cAlculo não há produção de poeira - só fumaça das
cidades incendiadas, da qual pouca coisa alcança a estratosfera. A
temperatura mínima de -23ºC (-9ºF) é atingida em poucas semanas, e
as temperaturas normais se restabelecem em cerca de 100 dias. À
medida que a fuligem se deposita, a luz do sol volta a alcançar o solo.
Cem megatons corresponde aproximadamente a 0,8% dos arsenais
nucleares dos Estados Unidos e URSS.

Caso 16: Emprego de 5.000 megatons em que os ataques são


principalmente contra silos, com Maior produção de poeira fina por
megaton liberado do que no Caso 11, mais otimista, e em que a
queima de cidades é insignificante. Aqui, as temperaturas mínimas só
são atingidas depois de quatro meses, quando baixam a -25ºC (-13º
F). Como as grandes quantidades de poeira levadas à estratosfera se
precipitam muito lentamente, é preciso mais de um ano para que as
temperaturas em terra voltem ao ponto de congelamento, e muito mais
ainda para chegarem aos níveis normais.

Caso 17: Neste caso são empregados cerca de 3/4 dos arsenais
estratégicos americanos e russos, numa combinação de ataques a
silos e a cidades. Depois de mais de dois meses, atingem-se
temperaturas mínimas de -47ºC (-53ºF) - temperaturas típicas da
superfície de Marte. A fuligem assenta-se com relativa rapidez, sendo
que a lentidão da recuperação é devida à poeira estratosférica. As
temperaturas não voltam ao ponto de congelamento antes de um ano.

À medida que as partículas finas precipitam-se na atmosfera,


transportando radioatividade para o solo, os níveis de luz aumentam e
a superfície se aquece. Agora a camada empobrecida de ozônio
permite à luz solar ultravioleta chegar à superfície da Terra em maior
proporção. No caso de referência, de 5.000 megatons, verifica-se que
a precipitação primária, os penachos de radioatividade arrastados dos
objetivos na direção do vento, distribui em 30% das áreas continentais
de médias latitudes do Hemisfério Norte uma dose aproximada de
radiação de 250 rads. Além disso, uma dose de cerca de 100 rads é
descarregada mais ou menos uniformemente em todo o hemisfério.
Esta é uma combinação de emissores externos e matérias radioativas
ingeridas. Os conhecimentos correntes estabelecem a dose média
letal de radiação ionizante com exposição corporal entre
aproximadamente 400 e 500 rads. Isto se prestados cuidadOs
médicos amplos. No caso de crianças e velhos, de doentes ou vítimas
de outras agressões do meio ambiente por causa de uma guerra
nuclear, e especialmente na falta de assistência médica adequada, a
dose média letal é consideravelmente reduzida - talvez a 350 rads, ou
menos. Assim, a precipitação radioativa - particularmente nas médias
latitudes norte, que têm a maior densidade demográfica do planeta -
seria, por si mesma, extremamente perigosa num meio de pós-guerra
nuclear. O Quadro 2 mostra o cronograma relativo das várias
conseqüências adversas de uma guerra nuclear.
Talvez a conclusão mais surpreendente e inesperada do estudo que
fizemos seja a de que mesmo uma guerra nuclear de proporções
relativamente limitadas pode ter conseqüências climáticas funestas,
no caso de ataques a cidades (ver Caso 14 na Figura 2; neste, os
centros de 100 grandes cidades da OTAN e do Pacto de Varsóvia são
incendiados). Há indicação de um limiar muito próximo em que
conseqüências climáticas severas são desencadeadas - por 100 ou
mais explosões nucleares sobre cidades, em razão da fumaça gerada,
ou por 2.000 a 3.000 detonações de alta energia no solo ou a pequena
altura, em silos de mísseis por exemplo, em razão da poeira produzida
e de incêndios secundários. Partículas finas podem ser injetadas na
atmosfera em proporções crescentes com efeitos de pequena monta
até que esses limiares sejam transpostos. Daí por diante, os efeitos
crescem rapidamente de intensidade. Essas estimativas são, porém,
extremamente grosseiras.
Em cálculos dessa complexidade sempre existem incertezas. Há
fatores que tendem a influir no sentido de efeitos mais intensos ou
mais prolongados; outros tendem a moderar os efeitos. Os cálculos
detalhados do TTAPS aqui referidos são unidimensionais; isto é,
admitem o movimento vertical das partículas finas em conformidade
com as leis físicas aplicáveis, mas não levam em conta a dispersão
em latitude e longitude. Quando a fuligem ou a poeira se afasta do
local de referência, as coisas melhoram ali e pioram alhures. Além
disso, partículas finas podem ser transportadas por sistemas
meteorológicos para outros locais, onde são arrastadas mais depressa
para a superfície. Isto atenuaria o obscurecimento não apenas
localmente como em termos globais. É justamente esse afastamento
das latitudes médias setentrionais que envolve a zona equatorial e o
Hemisfério Sul nos efeitos da guerra nuclear. Seria conveniente
efetuar um cálculo tridimensional acurado da circulação atmosférica
geral após uma guerra nuclear. Estimativas preliminares sugerem que
a circulação geral poderia moderar a amplitude das variações
calculadas para o interior dos continentes em uns 30%, reduzindo um
pouco a intensidade dos efeitos, mas mantendo-os ainda em níveis
catastróficos (p. ex., uma baixa de 30ºC em vez de 40°C). Para
estabelecer uma certa margem de segurança, desprezaremos essa
correção em nossa exposição subseqüente.
Depois, existem os claros nas nuvens. Muito poucos alvos acessíveis
estão nos oceanos Atlântico e Pacífico. Se esses claros móveis (um
no Atlântico, outro no Pacífico) aparecessem a intervalos regulares
sobre a maior parte dos lugares do Hemisfério Norte, os efeitos do
escurecimento e do frio seriam até certo ponto amenizados. No
entanto, incêndios ateados, por exemplo, no oeste da América do
Norte ou nas taigas eurasianas continuariam a lavrar, alguns talvez
por semanas, e outros novos seriam provocados: lançamentos
retardados podem ser dirigidos contra alvos temporariamente situados
sob um claro para facilitar a verificação por satélite da destruição do
objetivo. De mais a mais, em diferentes altitudes os ventos se movem
com velocidades diferentes, e um claro a uma certa altitude pode estar
acima ou abaixo de uma camada espessa de nuvens em outra. A
poeira injetada na estratosfera pelo vulcão mexicano El Chichón, na
erupção de 4 de abril de 1982, levou 10 dias para chegar à Ásia, duas
semanas para chegar à África, e circunavegou o globo em três
semanas, deixado atrás de si uma delgada fita de partículas com
cerca de 100 de latitude de largura. (Em poucos meses, cerca de 10 a
20% dos resíduos estratosféricos foram transportados para o
Hemisfério Sul.) Havendo muitas fontes de partículas em vez de uma,
os claros irão fechar-se ainda mais depressa. Assim sendo, parece
improvável que os claros móveis permanecessem abertos ou
descobertos por mais de uma ou duas semanas, ou que
descontinuidades em grande escala pudessem minorar os efeitos
climáticos de modo sensível.
Há necessidade de estudar melhor vários outros aspectos do
problema: por exemplo, possíveis descontinuidades em pequena
escala; possibilidade de quedas rápidas de temperatura (como
sugerido por Covey e outros: ver as observações de Stephen
Schneider neste livro, pp. 122-127); o tempo que levam penachos
isolados de fumaça para espalhar-se (em nuvens densas as partículas
coagulam e sedimentam mais rapidamente que em nuvens difusas);
circulação atmosférica local em regiões costeiras e implicações para a
lavagem pelas chuvas (ver as observações de Georgiy Golitsyn neste
livro, pp. 120-122); variações diurnas de temperatura e movimentos
induzidos em nuvens de fuligem nas primeiras fases. Alguns desses
efeitos poderiam melhorar em parte as condições; outros poderiam
agravá-Ias até certo ponto.
Há também efeitos que podem piorar em muito os resultados: por
exemplo, em nossos cálculos admitimos que a lavagem de partículas
finas ocorreria em toda a extensão da troposfera. Em circunstâncias
reais, pelo menos a alta troposfera pode ser muito seca, e a poeira ou
fuligem inicialmente introduzida nessa região pode levar muito tempo
para ser lavada. Há ainda um efeito muito importante que deriva da
drástica alteração da estrutura atmosférica, promovida pelo
aquecimento das nuvens e esfriamento do solo. Com isso cria-se uma
região em que a temperatura é aproximadamente constante com a
altitude na atmosfera inferior, e encimada por uma inversão térmica de
grandes proporções (Figuras 1B e 1C). Depois disso, em toda a
extensão da atmosfera as partículas seriam transportadas para cima
ou para baixo muito lentamente - como na estratosfera atual. Este é
um segundo motivo para que a persistência das nuvens de fuligem e
poeira possa ser muito maior do que a por nós calculada. Neste caso,
as condições extremas de escuridão e frio podem prolongar-se por
prazos consideráveis, possivelmente ultrapassando um ano. Na
exposição subseqüente desprezaremos este efeito, assim como vários
outros - por exemplo, fenômenos de detonações múltiplas em que
uma primeira explosão nuclear amplifica a combustão e a altura de
transporte de fuligem de uma segunda explosão nuclear.
É possível conceber cenários de guerra nuclear muito piores do que
estes por nós apresentados. Por exemplo, se os centros de comando
e controle forem neutralizados logo no início da guerra - por exemplo,
por "decapitação" (ataque inicial de surpresa contra centrais de
operações civis e militares e sistemas de comunicações), é de
imaginar que a guerra se prolongaria por semanas, com comandantes
locais tomando decisões independentes e descoordenadas. Pelo
menos em parte, lançamentos retardados de mísseis seriam
possivelmente ataques retaliativos contra cidades inimigas
remanescentes. A geração de um manto adicional de fumaça por um
período de semanas ou maior depois do início da guerra ampliaria a
magnitude, e especialmente a duração, das conseqüências climáticas.
Ou é possível, dentro dos limites da plausibilidade, que cidades e
florestas fossem incendiadas em número maior do que o por nós
suposto, ou que as emissões de fumaça fossem maiores, ou que uma
fração maior dos arsenais mundiais (armas táticas e armas
estratégicas) fosse empregada. Naturalmente, dentro dos mesmos
limites, também são possíveis casos menos severos.
Portanto, esses cálculos não são, nem poderiam ser, prognósticos
seguros de todas as conseqüências de uma guerra nuclear. Poderão
ser aperfeiçoados em vários aspectos, e está-se trabalhando nisso.
Mas parece haver um consenso quanto às conclusões gerais: na
esteira de uma guerra nuclear é provável que haja um período, com
uma duração de meses pelo menos, de frio intenso e escuridão
radioativa, seguido - depois da precipitação da fuligem e poeira - de
um período longo de maior quantidade de radiação ultravioleta
atingindo a superfície.

Tem-se observado uma tendência sistemática de subestimar os efeitos


de armas nucleares e de uma guerra nuclear. A energia liberada na
primeira explosão nuclear perto de Alamogordo, no Novo México, em
16 de julho de 1945, foi subestimada por quase todos os que
projetaram e construíram a arma. A amplitude da precipitação
decorrente dos primeiros testes de artefatos nucleares foi
subestimada; a inutilização ou destruição de satélites por explosões
de armas nucleares no espaço foi uma surpresa; o empobrecimento
da ozonosfera por detonações de alta potência não foi prevista; e o
inverno nuclear foi para muitos - inclusive nós - motivo de assombro.
O que mais nos terá passado despercebido?
Um efeito adicional, possivelmente grave, é a produção de gases
tóxicos por incêndios em cidades. Hoje todo mundo sabe que nos
incêndios em arranha-céus modernos mais gente é vitimada pelos
gases tóxicos de combustão do que pelo fogo. A queima de uma
grande variedade de materiais de construção, matérias isolantes e
revestimentos gera grandes quantidades de pirotoxinas, entre elas
monóxido de carbono, cianetos, cloreto de vinil, óxidos de nitrogênio,
ozônio, dioxinas e furanos. Devido às diferentes práticas no emprego
de materiais sintéticos, o incêndio de cidades na América do Norte e
na Europa ocidental provavelmente geraria mais pirotoxinas do que na
União Soviética, e a de cidades com grande proporção de construções
recentes mais que a de cidades mais antigas não reconstruídas. Em
cenários de guerra nuclear nos quais uma grande quantidade de
cidades são incendiadas, um smog bastante denso de pirotoxinas
poderia persistir por meses. A extensão desse perigo é ignorada.
Outra conseqüência provavelmente ponderável e dificilmente avaliável
de uma guerra nuclear são os chamados sinergismos. Um exemplo
muito simples é o que diz respeito ao comprometimento do sistema
imunológico humano pelo duplo efeito da radiação ionizante imediata
e da radiação ionizante devida à precipitação, bem como pelo
aumento do fluxo ultravioleta após o inverno nuclear. Ao mesmo tempo
que os sobreviventes serão muito mais vulneráveis a doenças, os
serviços médicos terão entrado em colapso; predadores de insetos
como as aves terão sido dizimados preferencialmente pelo frio, pela
escuridão e pela radiação; os insetos terão proliferado
desmedidamente porque resistem melhor a essas agressões
ambientais e porque os predadores que restringem a sua multiplicação
terão sido grandemente reduzidos em número; a radiação pode
produzir variedades excepcionalmente virulentas de microorganismos
transmitidos por insetos vetores; e centenas de milhões ou bilhões de
cadáveres estarão começando a se descongelar. Em muitos outros
casos a interação de diversas agressões ambientais entre as
relacionadas no Quadro 2 produzirá conseqüências resultantes
adversas muito mais intensas do que a simples soma dos efeitos
componentes. Quase todos os sinergismos são de magnitude
ignorada; no entanto quase todos amplificarão conseqüências
adversas.
Visto isto, se o peso da evidência histórica e a natureza dos
sinergismos indicam que as conseqüências de uma guerra nuclear
seriam ainda mais graves do que as deduzidas no presente estudo do
inverno nuclear, que dizer da aplicação de critérios moderados?
Considerando a magnitude do que está em jogo na resposta, qual
será a postura adequada? Admitir que os efeitos de uma guerra
nuclear serão menos sérios do que geralmente se supõe, ou mais?
Já não é possível afirmar que os efeitos realmente sérios de uma
guerra nuclear ficariam limitados aos países combatentes. A biologia
das latitudes equatoriais, por exemplo, é muito mais vulnerável a
baixas de temperatura, mesmo pequenas, que a de latitudes maiores,
norte ou sul. A agricultura - pelo menos no Hemisfério Norte, que
produz o grosso da exportação de grãos do planeta - seria devastada
mesmo por uma "pequena" guerra nuclear. As conseqüências
ecológicas irradiadas pela Terra inteira seriam provavelmente de
grande envergadura, e se, como agora demonstrado pelo nosso
estudo e por vários outros, o frio e a escuridão se propagassem ao
Hemisfério Sul, a guerra nuclear significaria uma catástrofe global sem
precedentes. Já não é possível conceber que nações distantes do
conflito possam assistir de camarote à guerra, e herdar um ambiente
de pós-guerra livre das importunações da política das grandes
potências. Ao contrário, é muito mais provável que não haja em toda a
Terra um único refúgio a salvo da guerra nuclear. Esta é uma das
muitas implicações dos estudos mais recentes no que toca à doutrina,
à diplomacia e à política internacional. A discussão desses temas
transcende as metas deste encontro e o programa desta Conferência,
mas em outra oportunidade eu já fiz uma exposição preliminar dessas
implicações.
Se houver ataques a cidades, vemos (Figura 2) que mesmo uma
guerra que envolvesse apenas 100 megatons (em 1.000 detonações
de 100 quiIotons sobre 100 ou mais grandes cidades) pode produzir o
inverno nuclear. Mas 100 megatons é menos de 1 % dos arsenais
estratégicos globais. A Figura 3 mostra o crescimento do número de
armas estratégicas nos arsenais americano e soviético em função do
tempo. A área hachurada representa, muito aproximadamente, a zona-
limiar em que, ao que agora se afigura, poderia desencadear-se o
inverno nuclear. Bem abaixo desse limiar nenhuma combinação de
falhas de comunicações, erros de computador, interpretações
equivocadas, governantes psicopatas ou outros requisitos deflagraria
a catástrofe climática. Os Estados Unidos cruzaram esse limiar -
naturalmente sem sabê-lo - em princípios dos anos 50. A União
Soviética o transpôs - igualmente sem sabê-Io - em meados dos 60.
Durante todo esse tempo os governos dos Estados Unidos, da União
Soviética e de outras nações vêm tomando decisões fundamentais,
envolvendo a vida e morte de cada habitante do planeta, sem saber
das conseqüências de uma guerra nuclear, e na suposição de que
essas conseqüências seriam bem mais brandas do que agora se
mostra ser o caso. E os arsenais globais, hoje cerca de 20 vezes o
limiar do inverno nuclear, vêm crescendo. A Grã-Bretanha, a França e
a China têm arsenais estratégicos pelo menos próximos do limiar.
Outros países estão acumulando armas nucleares ou a capacidade de
fazê-Ias. As curvas da Figura 3 tornam-se mais e mais verticais.
Figura 3. A história da corrida de armas nucleares estratégicas (e de
teatro). O diagrama mostra três zonas: uma zona inferior em que o
inverno nuclear não seria provocado, uma superior em que quase
certamente ele ocorreria, e uma de transição, hachurada. Os limites
desta são mais incertos do que os representados, e dependem, entre
outras coisas, da estratégia de seleção de objetivos. Mas o limiar está
provavelmente compreendido entre uma centena e alguns milhares de
armas estratégicas contemporâneas.
Entre 1945 e o presente, o crescimento dos estoques soviético e
norte-americano é representado pelas linhas cheias. A linha ponto-
traço mostra a soma dos dois arsenais, que fica próxima da dos
arsenais totais do mundo. Se bem que a distinção entre armas táticas
e estratégicas ou de teatro tende a tornar-se imprecisa, aquelas não
são computadas nesta compilação. A redução dos estoques
estratégicos americanos nos anos 60 reflete principalmente a
crescente dominância dos mísseis balísticos sobre os bombardeiros.
Nem todas as fontes publicadas concordam perfeitamente quanto aos
números. Os dados aqui usados foram tirados de Harold Brown
(1981), "Relatório do Secretário da Defesa ao Congresso sobre o
Orçamento do Ano Fiscal de 1982, Pedido de Autorização do Ano
Fiscal de 1983 e Programas de Defesa para o Ano Fiscal de 1986" e
"Estimativa Orçamentária da Defesa Nacional, Ano Fiscal de 1983",
Gabinete do Subsecretário da Defesa, Contadoria, março de 1982,
entre outras fontes. As linhas tracejadas à direita da figura
representam extrapolações das tendências atuais.

E assim voltamos ao Dia das Bruxas. Este encontro sobre "O Mundo
após a Guerra Nuclear" está sendo realizado, em função de
circunstâncias corriqueiras como a disponibilidade de acomodações
de hotel em Washington, num 31 de outubro. O Dia das Bruxas é
comemorado hoje como um festival de duendes e fantasmas e coisas
que sabemos que não são reais. Os horrores da guerra nuclear, ao
contrário, não são fantasias, não são projeções do nosso inconsciente,
mas realidades que temos de enfrentar no mundo das emoções
pessoais e da prática política. A guerra nuclear merece, e muito, a
nossa preocupação, e não somente em 31 de outubro.
De qualquer modo, se devêssemos realizar esta reunião numa data de
significado simbólico, o Dia das Bruxas parece-me uma boa escolha.
Originalmente, na era pré-cristã, era um festival dos celtas chamado
Samhain. Assinalava o começo do inverno. Era celebrado com
enormes fogueiras. Tirava o seu nome do Senhor dos Mortos e era a
ele consagrado. O Dia das Bruxas em sua forma original combinava
os três elementos capitais do cenário TTAPS: fogo, inverno e morte.
As armas nucleares são feitas por criaturas humanas. O confronto
estratégico global entre os Estados Unidos e a União Soviética foi
concebido e executado por criaturas humanas. Não há nisso nada
inevitável. Se formos suficientemente motivados, poderemos livrar a
espécie humana dessa armadilha que insensatamente armamos para
nós mesmos. Mas o tempo é muito curto.

AGRADECIMENTOS
Este artigo não teria sido possível sem a alta competência científica e
dedicação dos meus co-autores do relatório TTAPS, Richard Turco,
Brian Toon, Thomas Ackerman e James Pollack. Também sou grato,
por estimulantes discussões e/ou cuidadosas revisões de uma versão
anterior deste artigo, a Hans Bethe, Mark Harwell, John P. Holdren,
Eric Jones, Carson Mark, Theodore Postol, Joseph Rotblat, Stephen
Schneider, Edward Teller e Albert Wohlstetter; e agradeço
encarecidamente o incentivo, as sugestões e as apreciações criticas
de Lester Grinspoon, Steven Soter e, especialmente, Ann Druyan.
Shirley Arden, Mary Maki, Mary Roth e Joanne Vago prestaram, com
sua habitual e grande competência, serviços logísticos essenciais à
preparação deste trabalho e à organização da conferencia
preparatória de Cambridge, Massachusetts. Finalmente, minha
gratidão aos companheiros do Comitê de Conseqüências Mundiais à
Longo Prazo de uma Guerra Nuclear.

Perguntas
DR. VIKAS SAINI (Junta Diretora, Nuclear Free America): Eu tenho
duas perguntas sobre as suposições do modelo. A primeira é quanto
aos efeitos no Hemisfério Sul: trata-se estritamente da transferência
de efeitos de detonações no Hemisfério Norte, ou o senhor inclui
objetivos no Hemisfério Sul?

SAGAN: Não, não estamos supondo nenhum ataque apreciável contra


objetivos no Hemisfério Sul. O cenário da revista Ambio prevê cerca
de 100 megatons dirigidos contra alvos no Hemisfério Sul e latitudes
tropicais. A poeira e fumaça produzidas em tais alvos atingiriam o sul
mais depressa do que aerossóis transportados do Hemisfério Norte.
Quaisquer ataques contra objetivos no Hemisfério Sul agravariam
ainda mais os nossos resultados.

SAINI: A segunda pergunta refere-se a certos resultados imprevistos


da detonação de armas nucleares em relação com o cinturão de
radiação de Van Allen. Gostaria de saber se o senhor está a par deste
assunto e de ouvir seus comentários sobre o que parece ser um dos
aspectos mais inquietantes da presente conjuntura: a saber, a
militarização do espaço.

SAGAN: A iminente introdução de armas no espaço é uma questão


política que foge aos propósitos desta reunião. É verdade que quando
um artefato nuclear é detonado em determinada altitude, partículas
carregadas são injetadas no cinturão de radiação de Van Allen. Mas
não creio que isso tenha efeitos climáticos da magnitude de que aqui
estamos falando.

DR. GEORGE B. FIELD (professor de Astronomia Aplicada da


Universidade Harvard e cientista senior do Observatório Astrofísico
Smithsonian): Eu gostaria de pedir um esclarecimento sobre um
ponto. Nos últimos minutos o senhor acenou com uma pequena
esperança aos que pensam em termos de controle de armas. Disse
que se pudéssemos limitar a 1.000 o número de armas nucleares nos
Estados Unidos e União Soviética, seriam evitadas algumas das
terríveis conseqüências que acaba de descrever. Por outro lado, numa
parte anterior da sua exposição, o senhor falou de um cenário em que
havia a aplicação de apenas 100 dessas armas, e os efeitos nesse
cenário eram ainda mais terríveis.

SAGAN: Lamento se não fui claro. Naquele caso eu falei de 100


megatons, em armas de 100 quilotons de potência cada. Portanto,
falei de 1.000 armas. Não há incoerência.

FIELD: Na sua opinião esse é o caso marginal?

SAGAN: Mais ou menos. Poderia ser menos em se tratando de


ataques a cidades, e poderia ser bem mais no caso de ataques de
contra-força a silos de mísseis com armas de alta potência. [Isto é
discutido com maior detalhe na Ref. 19.]

DR. LARRY SMARR (professor-adjunto de Física e Astronomia


da Universidade de Illinois): Os recentes relatórios da EPA (Agência de
Proteção Ambiental) e da revista Science sobre o efeito de estufa
mencionam os efeitos térmicos devidos ao CO2. Eu presumo que
enormes quantidades de CO2 seriam um subproduto dos incêndios.
De que modo o senhor levou em conta esse fato, e até que ponto
poderia o aquecimento devido ao CO2 contrabalançar o esfriamento
decorrente da poeira?

SAGAN: A pergunta é muito oportuna, pois este é um ponto que se


presta a confusão: a saber, dois relatórios, um dos quais afirma que a
queima de combustíveis fósseis lança na atmosfera gases que
aquecem a Terra, e outro, que acabam de ouvir, dizendo que uma
guerra nuclear impregnaria a atmosfera de partículas que esfriariam a
Terra. Alguém poderia imaginar que os dois efeitos se anulam. Mas
não é essa a nossa conclusão, por mais de um motivo.
Primeiro, mesmo o CO2 produzido por todos os incêndios em vista
não chegaria a contribuir apreciavelmente para o efeito de estufa. O
valor atual de 0,03% de CO2 em volume na atmosfera da Terra
representa cerca de três ordens de grandeza mais CO2 do que o que
seria desprendido no incêndio de cidades e florestas.
Veja-se também que o efeito de estufa devido ao CO2 é uma
tendência a longo prazo. Não há como revertê-Ia num intervalo de
décadas. Aqui estamos falando de um pulso repentino de baixa de
temperatura no sistema, provocado pela guerra nuclear, o qual em
seguida se irá amortecendo no curso de alguns anos, superposto ao
lento aumento de temperatura decorrente da queima de combustíveis
fósseis.

DR. ARNOLD W. WOLFENDALE (professor de Física da Universidade


de Durham, Inglaterra): Minha pergunta é relativa ao importante tópico
da análise crítica de resultados. Evidentemente, tudo que é novo e
surpreendente deve ser analisado por muitos especialistas. O
excelente relatório de 1975 da Academia Nacional de Ciências
recebeu apreciações mais favoráveis. Eu gostaria de saber se os
autores daquele relatório foram consultados ou solicitados a
pronunciar-se sobre as suas conclusões.

SAGAN: A questão da análise crítica é essencial. Foi por isso que


retardamos tanto a divulgação pública desses resultados alarmantes.
Os resultados que os senhores ouviram hoje aqui foram submetidos
durante cinco dias a uma reunião, na Academia Americana de Artes e
Ciências em Cambridge, Massachusetts, em abril de 1983, de quase
uma centena de biólogos, meteorologistas e físicos nucleares -
indivíduos de variadas convicções políticas, entre eles representantes
dos laboratórios bélicos do governo.
Tanto o estudo físico que acabei de expor como o estudo biológico de
que irá falar o Dr. Ehrlich passaram igualmente pelo processo de
análise crítica para publicação na revista especializada Science. Além
disso, houve mais uns seis ou oito estudos diferentes - dois deles na
União Soviética - buscando confirmar ou contestar as nossas
conclusões. Todos eles corroboram os nossos resultados.
WOLFENDALE: Quer dizer que os autores do relatório de 1975
retrataram as suas conclusões?

SAGAN: Tenho grandes esperanças de que o novo painel da


Academia Nacional se ocupará dessa importante matéria. Vou explicar
em poucas palavras o motivo das diferenças entre os nossos
resultados respeitantes ao inverno nuclear e os do estudo de 1975 da
Academia.
Primeiro, os efeitos climáticos fundaram-se em argumentos tirados da
analogia com a explosão vulcânica do Cracatoa, não na construção
efetiva de modelos. Em 1883, alegou-se, a explosão de um vulcão
teve como únicos efeitos globais um declínio de temperatura de cerca
de meio grau, e belos pores-do-sol em todo o mundo. A energia
explosiva total naquele evento foi (possivelmente) comparável à
energia total que estamos considerando para o caso de uma guerra
nuclear; logo, não há o que temer.
Esse argumento deixa de levar em conta vários fatos: primeiro, o
grosso do material ejetado na explosão do Cracatoa caiu por lá
mesmo, no estreito da Sonda. Segundo, ejetos vulcânicos,
principalmente silicatos e ácido sulfúrico, têm coeficientes de absorção
muito menores que a fumaça escura produzida numa guerra nuclear.
Terceiro, as funções de distribuição de tamanhos de partículas são
diferentes, e, quarto, trata-se aqui de milhares de fontes simultâneas
de partículas finas. O evento do Cracatoa foi um evento isolado. Há
outras diferenças importantes. Tudo considerado, o evento do
Cracatoa é compatível com os cálculos aqui referidos.

DR. ROBERT EHRLICH (presidente do Departamento de Física da


Universidade George Mason, Virgínia): O fato de que um ataque de
100 megatons, menos de 1% do total dos arsenais, acarrete
resultados tão catastróficos indica que a causa principal do problema
climático advém da fumaça produzida por incêndios das cidades. Eu
me pergunto se os senhores terão considerado - num ataque nuclear
que envolvesse todas as cidades de mais de 100.000 habitantes do
Hemisfério Norte - qual a probabilidade de que a metade da área das
cidades se convertesse em fumaça e de que os incêndios se
prolongassem por semanas ou meses. E se a sua estimativa dessa
probabilidade coincide com as de outros.

SAGAN: Sim. Esta é uma das muitas partes do nosso estudo a que o
Dr. Turco emprestou a sua grande competência. Creio que a resposta
é, possivelmente, uma semana; meses, não. As proporções dos
incêndios seriam consideráveis por causa da enorme concentração de
depósitos de combustíveis nas cidades.

RALPH NADER (defensor dos direitos do consumidor): Carl, permita-


me que lhe pergunte sobre as inferências técnicas das suas
conclusões. Supondo um ataque inicial bem-sucedido de um Inimigo A
contra um Inimigo B, em que nível um ataque inicial bem-sucedido, de
acordo com os seus cálculos, implicaria suicídio para o agressor?

SAGAN: Ou, dito de outro modo, haveria um sublimiar de ataque


inicial, abaixo daquele limiar de inverno nuclear de, digamos, 1.000
ogivas? Seria um ataque inicial eficaz auto-dissuasório? Desculpe,
Ralph, mas penso que tenho de considerar este ponto como
pertencente ao domínio da política. Não desejo estender-me sobre
ele; mas creio que para assegurar a neutralização dos principais
objetivos estratégicos fixos, seria preciso ultrapassar o limiar do
inverno nuclear.

NADER: Acho que você está exagerando em suas reservas. A minha


pergunta foi basicamente em termos do efeito de ricochete. Para
colocá-Ia de modo mais simples, qual seria o limiar de um efeito de
ricochete no período de um primeiro lançamento, num ataque inicial?

SAGAN: Há uma grande probabilidade de que se a Nação A atacar a


Nação B com um primeiro ataque eficaz, de contra-força apenas, a
Nação A cometerá suicídio, ainda que a Nação B não levante um dedo
em retaliação.

MASON RUMNEY (secretário-executivo da First Steps Foundation):


Eu tenho uma pergunta. Por que supor que o ataque de 100 metagons
seria contra cidades, onde há combustíveis estocados, e não contra
bases de ICBM, onde não há?

SAGAN: Este é simplesmente um entre uma vasta gama de cenários


possíveis.

DR. HERBERT SCOVILLE, JR. (presidente da Associação de Controle


de Armas, ex-diretor-substituto da Agência Central de Inteligência):
Que proporção do efeito de longo prazo requer que a fumaça alcance
a estratosfera?

SAGAN: Normalmente a fumaça de incêndios não atinge a


estratosfera, e nós não admitimos que isto ocorra em grau apreciável.
Praticamente todos os nossos efeitos devidos à fumaça são
troposféricos. No caso de referência, admite-se que a fumaça
presente na baixa troposfera seja lavada pelas chuvas em tempo
bastante curto.
Na hipótese, provável ou improvável, de um penacho de fumaça
alcançar a estratosfera, os efeitos serão muito piores e muito mais
persistentes do que os calculados. Não foi suposta qualquer
proporção apreciável de fuligem estratosférica. Segundo pelo menos
algumas opiniões autorizadas, entre elas a de George Carrier da
Harvard, é um efeito improvável. Eu, pessoalmente, diria que é ainda
uma questão em aberto.

DR. MICHAEL J. PENTZ (deão da Faculdade de Ciência, The Open


University em Milton Keynes, Reino Unido, e presidente da SANA,
Cientistas contra as Armas Nucleares): Tenho uma pergunta relativa
ao Quadro 1 do artigo principal, o conjunto de cenários que os
senhores estudaram. Interessaram-me muito os números 11 e 16. O
senhor pode explicar as hipóteses subjacentes, isto é, com respeito
aos ataques de contra-força de 3.000 e 5.000 megatons
respectivamente? O número que me interessa é o da coluna
"Percentagem de energia, objetivos urbanos ou industriais" , que em
ambos os casos o senhor dá como zero.
O motivo por que isso me deixa curioso é que recentemente a SANA
elaborou um modelo de computador de um ataque
predominantemente de contra-força contra objetivos no Reino Unido
envolvendo 343 objetivos e uma energia total de 220 megatons,
combinando explosões no solo e no ar. Para nós era de imediato
evidente que uma grande proporção desses objetivos de contra-força
estão situados no centro ou nas proximidades de cidades grandes e
áreas densamente povoadas. Creio que isto é bastante típico da maior
parte da Europa. Por isso me intriga o zero. Talvez haja um ponto
decimal que os senhores possam inserir para incluir no quadro a Grã-
Bretanha e a Europa.

SAGAN: Tudo o que o senhor diz, menos no que se refere à omissão


do ponto decimal, é correto. O que nos propusemos fazer está na
tradição científica da separação de variáveis. O que estamos dizendo
é: imagine-se um ataque só de contra-força na faixa de milhares de
megatons. Que efeitos se produziriam se não houvesse a queima de
uma única árvore nem de uma única casa? É um limite inferior para os
efeitos.
O que cabe fazer, creio, é examinar o Caso I, o caso de
referência, com 5.000 megatons, que leva em conta o incêndio de
cidades.

PENTZ: Em 20% apenas?

SAGAN: Sim, de fato.


PENTZ: Entendo que isso possa ser realista com respeito à
localização dos principais objetivos de contra-força nos Estados
Unidos e talvez na União Soviética. Mas não seria realista com
respeito à Grã-Bretanha.

SAGAN: Absolutamente certo. Vê-se, portanto, que a situação da


Europa é bem pior do que a que descrevemos. Este é mais um
exemplo de como os nossos cálculos são cautelosos.

SRA. MYRTLE JONES (presidente da Sociedade Audubon de Mobile


Bay): Esta é uma conferência oportuna, e o seu artigo na Parade de
ontem [30 de outubro de 1983] foi muito bem-elaborado e ajudou-me a
compreender o que o senhor disse hoje. O senhor mencionou de
passagem o fato de que esteve no Congresso hoje de manhã. Eu
gostaria de saber se em ambas as Casas, e como foi recebido.

SAGAN: Foi um encontro informal com membros das duas Casas,


apenas para transmitir-lhes uma idéia das últimas conclusões. Eu diria
que eles se interessaram.

SRA. JONES: Interessaram-se positivamente?

SAGAN: Não sei bem o que isso significa. Mas não há dúvida que
o inverno nuclear traz fortes implicações políticas, embora, ao
começarmos o estudo, não tivéssemos idéia de que isto iria acontecer.

J. SALATUN (vice-marechal-do-ar reformado da Força Aérea


Indonésia e membro do Parlamento em Jacarta): Eu tenho duas
perguntas.
Primeira: em que pese o pessimismo, não devemos esquecer que se
passaram 38 anos desde a Segunda Guerra Mundial, com bombas
nucleares e sem outra guerra mundial. Minha pergunta é: qual a
probabilidade de uma guerra nuclear?
SAGAN: A arte da profecia é uma arte perdida. Se houvesse um meio
preciso de fazer tal previsão, ela seria extremamente importante. Mas
veja como é precária a nossa capacidade de prever até mesmo os
aspectos menores da política mundial, como, por exemplo, que
pequeno país será invadido amanhã.
Portanto, esperar algum prognóstico exato quanto à probabilidade de
uma guerra nuclear, parece-me que é querer demais. É verdade que
passamos 38 anos sem uma guerra nuclear. É possível, quem sabe,
que venhamos a sobreviver por um período mais longo. Mas o senhor
se disporia a apostar a sua vida nisso? Não garanto que seja uma
perfeita analogia, mas a situação me faz lembrar um homem caindo
do alto de um edifício e dizendo a um funcionário de escritório, ao
passar por uma janela aberta: "Até aqui, tudo bem.”

SALATUN: A segunda pergunta é: o que me diz da possibilidade de


que as suas conclusões venham a incitar um novo esforço e
simplesmente forçar a destruição?

SAGAN: Acho que também esta é uma questão política. Posso


perguntar-lhe, vice-marechal, qual o senhor crê seja a probabilidade,
ante o conhecimento do inverno nuclear e a descoberta de que a
Indonésia é fundamentalmente ameaçada ainda que nem um único
engenho nuclear caia em seu território, de que a Indonésia de repente
passe a interessar-se muito mais no confronto nuclear entre as
grandes potências?

SALATUN: Bem, tudo que podemos fazer é rezar a Deus que a


coisa não aconteça. Mas no meio tempo devemos preparar-nos para o
pior.

SAGAN: Na minha opinião, os senhores podem fazer mais do


que rezar.
Dr. GERALD O. BARNEY (presidente da Barney and Associates, Inc.):
No curso da preparação do Relatório Global 2000 ao Presidente, ficou
claramente evidente para mim, e creio que para muitos outros, que é
aconselhável quando da elaboração de estudos importantes dar
acesso aos modelos detalhados empregados no processo, já que
muitas vezes há coisas escondidas nos modelos de computador que
não são de imediato compreensíveis nas publicações que informam os
resultados.
Eu gostaria de saber se o modelo utilizado no trabalho em causa está
disponível, e qual o procedimento para obter fitas ou cópias do
programa detalhado.

SAGAN: É um pedido perfeitamente legítimo e, é claro, acolheremos


com prazer essas solicitações. Está sendo preparada uma exposição
bem mais extensa dos resultados do TTAPS, na qual serão fornecidos
detalhes mais completos. Mas sem dúvida teremos a maior satisfação
em atender ao seu pedido.
Entretanto, faço notar mais uma vez que todos os cálculos
independentemente realizados empregaram códigos completamente
diferentes. Como todos convergiram para a mesma direção, não creio
que as nossas conclusões tenham advindo de algum dado capcioso
embutido no programa de computador. Mas, é claro, cada segmento
do programa pode ser investigado.

H. JACK GEIGER, M.D. (professor de Medicina Comunitária do City


College da City University de Nova York): Eu tenho uma preocupação
baseada em alguma experiência da engenhosidade com que aqueles
cujo objetivo é defender a idéia da possibilidade de vitória e de
sobrevivência numa guerra nuclear podem tentar distorcer ou
reinterpretar esses dados, particularmente no que toca a conceitos
como limiar. Que elementos determinam o limiar tal como o senhor o
define: número total de armas, potência total, ou uma função mista
dos dois?
SAGAN: É uma função mista dos dois, e também envolve fortemente
a estratégia de seleção de objetivos. Note que nas condições atuais
de precisão e de potência estocada, quando se passa muito abaixo de
20 quilotons esbarra-se em dificuldades significativas para destruir
objetivos resguardados. Creio que de fato existe uma limitação inferior
nas condições atuais, se as várias nações estão pretendendo
preservar a opção de um ataque de contra-força plausível.

Dr. ED PASSERINI (presidente da Carrying Capacity, Inc., de


Washington, D.C.; professor de Humanidades e Ambiente da
Universidade do Alabama): Esta pergunta mais ou menos
complementa a de Jack. Há uma tendência no sentido de menores
potências e maior precisão de direcionamento. O senhor vê
necessidade de realizar um estudo adicional para verificar qual seria o
efeito de um ataque de sublimiar com direcionamento de alta
precisão?

SAGAN: Bem, como eu disse a Ralph Nader, duvido muito da


possibilidade de um ataque de sublimiar, com a presente configuração
de precisão e potências, ter eficácia plausível para um primeiro ataque
decisivo contra objetivos fixos. [Essas possibilidades futuras são
discutidas na Ref. 19.]

DR. FRANCIS B. PORZEL (Fundação para a Dinâmica Unificada):


Não posso deixar passar esta oportunidade para dizer-lhe que faz
quase exatamente 32 anos que foi detonada a primeira bomba de
hidrogênio.
Creio que seria de grande utilidade para o relatório se o senhor fizesse
referência a experiências passadas, aos testes atômicos. Observando
os gráficos, eu noto que houve vários períodos na década de 50 em
que a União Soviética e os Estados Unidos realizaram operações de
teste que somadas chegaram perto da faixa de 100 megatons; só a
primeira, Bravo, em 1954, produziu 14 megatons.
O senhor disse que o modelo é unidimensional e por isso não se
aplica ao caso. Mas eu gostaria que o senhor esclarecesse que
precauções deveriam ser adotadas em relação ao seu modelo se se
quisesse aplicá-Io àquela experiência.

SAGAN: Dito de outra forma, o que prediz o modelo para as explosões


atmosféricas de armas nucleares nos anos 50? A resposta é que não
prediz nenhum efeito detectável. O motivo é, lembre-se, que os 100
megatons têm de ser consagrados em atear uns 100 incêndios
urbanos. Não foi o que se fez. Houve poeira mas não fuligem. A
maneira mais fácil de explicar isso é por meio do conceito de
profundidade ótica. A luz transmitida através de uma cobertura
absorvente pura é aproximadamente e, a base dos logaritmos
naturais, elevado a menos profundidade ótica. Quando a profundidade
ótica é em torno de um décimo, a atenuação é um menos
profundidade ótica. É muito pequena.
Quando a profundidade ótica chega a um, o que ficou longe
de acontecer nos anos 50, a atenuação passa a ser apreciável. E
quando a profundidade ótica é por volta de 10, a atenuação torna-se
critica. Sendo este um processo não-linear, o que aconteceu na
década de 50, deduzimos, não teria quaisquer efeitos sobre o clima. e
de fato não se observou nenhum. Mas o que ocorre pelos nossos
cálculos é uma profundidade ótica de muitas unidades. Os efeitos
conseqüentes são importantes.

SRA. MARION EDEY (diretora-executiva da Liga dos Eleitores


Conservacionistas): Minha pergunta é: quais os efeitos da camada de
ozônio no Hemisfério Sul?

SAGAN: No meu entender, as soluções de continuidade da


ozonosfera deslocam-se rapidamente e se propagam do Hemisfério
Norte para o Sul.
PHILLIP GREENBERG: As opiniões hoje manifestadas levam-me a
fazer um breve comentário. Estou levando na devida conta a decisão
de evitar debates de natureza política e, considerando as
circunstâncias, acho-a justa e compreensível.
Ademais, creio que todos entendemos que há certas implicações
políticas que fluem desse estudo, e noto em vários casos, da parte
dos interpelantes e da parte do senhor aí na tribuna, uma tendência a
questionar a cautela das suposições.
Acho que seria um erro mesmo da parte dos senhores da comunidade
científica preocupar-se em demasia com a questão da cautela das
suposições. Pois embora ela seja apropriada num trabalho científico,
no campo político, quando se consideram eventos de grande
conseqüência, ainda que de baixa probabilidade, a questão da cautela
se inverte.
Portanto direi simplesmente que acho importante nos debates, e
certamente nas críticas que o senhor terá de suportar dos seus
colegas que defendam pontos de vista diferentes sob o prisma
político, ter em mente que cautela é coisa diferente segundo a
consideramos no contexto científico ou no político.

SAGAN: Concordo plenamente. É um truísmo na administração de


crises e na estatística atuarial que o importante não é só a
probabilidade do evento, e nem só o custo do evento se ele vier a
ocorrer, e sim o produto dos dois. Nós estamos bem conscientes disso
e na verdade, até aqui, deparamos com muito poucas críticas do tipo a
que o senhor se refere.

DR THOMAS C. HUTCHINSON (professor do Departamento de


Botânica da Universidade de Toronto, Canadá): Que proporção dos
oceanos do Hemisfério Norte é provável que viesse a congelar-se por
efeito de um ano de menos 25 graus centígrados?

SAGAN: Em sistemas de água doce, a profundidade típica de


congelamento será de um metro, um metro e meio, por aí. Sem dúvida
haverá no mar mais massas de gelo flutuantes, mas não há
possibilidade de que os mares propriamente venham a congelar-se,
dada a sua grande capacidade calorífica e elevada inércia térmica.
Vemos assim que talvez algumas coisas não irão tão mal entre a vasta
ladainha das que irão, se formos insensatos o bastante para permitir
que aconteça a guerra nuclear.

CONSEQÜÊNCIAS BIOLÓGICAS DE UMA


GUERRA NUCLEAR
PAUL R. EHRLICH
É um privilégio, ainda que melancólico, poder apresentar-lhes o
consenso de um grande e ilustre grupo de biólogos sobre os efeitos
biológicos prováveis de uma guerra nuclear em grande escala. Esse
consenso foi alcançado durante um simpósio realizado logo em
seguida ao dos físicos referido por Carl Sagan, e no curso da
preparação de dois documentos sobre os impactos de uma guerra
nuclear. Aqueles dos senhores que conhecem bem o mundo da
ciência sabem que conseguir o assentimento de mais de 50 cientistas,
sem qualquer divergência de monta, a um amplo conjunto de
conclusões é em si mesmo um fato inusitado. Conseguir que
concordem sobre conclusões que dizem respeito a uma questão de
enorme e grave interesse público é extraordinário.
Para os senhores, depois da exposição do Professor Sagan a razão
desse consenso deve ter ficado clara. O ambiente que a maior parte
dos seres humanos e dos outros organismos depois de um holocausto
nuclear terá de enfrentar será tão modificado, e tão maligno, que
danos extremos e generalizados aos sistemas vivos são inevitáveis.
Por exemplo, é perfeitamente possível que os impactos biológicos de
uma guerra, sem contar os diretamente resultantes de explosão, fogo
e radiação instantânea, viessem a ocasionar o fim da civilização no
Hemisfério Norte. Para um biólogo é tão fácil concordar com isso
como é para todos nós concordar que o uso acidental de cianeto em
vez de sal de cozinha no molho teria grandes probabilidades de pôr
fim a um jantar.
Minha principal missão neste momento é apresentar-lhes alguns
fundamentos técnicos para explicar por que muitos biólogos -
especialmente ecologistas - estão convencidos de que aqueles que
em nações diversas detêm o poder de decisão subestimam
grandemente os riscos de uma guerra nuclear.

Efeitos Diretos
Vou-me concentrar de modo especial nas conseqüências indiretas
geralmente ignoradas de uma guerra dessa espécie para o ser
humano, as quais se transmitiriam através de efeitos em sistemas
ecológicos. Mas não vou minimizar os efeitos diretos possíveis, por
bem conhecidos que sejam, pois estes serão realmente horríveis.
Vejam o que estudos recentes indicam que aconteceria numa grande
guerra termonuclear, em que entre 5.000 e 10.000 megatons de armas
fossem detonados - a maior parte no Hemisfério Norte. (para pôr essa
guerra em perspectiva, consideram que isso equivaleria grosso modo
à explosão de entre meio e três quartos de milhão de bombas
atômicas do tamanho da de Hiroxima, o que representa não mais que
uma fração dos arsenais nucleares atuais dos Estados Unidos e União
Soviética.)
Até certo ponto, os efeitos irão depender da dimensão da guerra,
distribuição das explosões, número de explosões no solo e de
explosões no ar, e outros fatores. Mas quero frisar novamente o que o
Dr. Sagan tão bem sublinhou: que os resultados biológicos são
pujantes. Isto significa que é sumamente difícil conceber uma guerra
nuclear em grande escala que não levasse a um desastre ecológico
de dimensões sem precedentes.
Em nosso artigo para a revista Science, nós nos concentramos mais
que o relatório TTAPS numa guerra de 10.000 megatons, porque
achamos que a população devia ser informada dos efeitos dessa
hipótese plausível. Por isso demos atenção especial ao caso de
10.000 megatons. Mas as descrições gerais dos efeitos aplicam-se a
todos os cenários de guerra em grande escala.
A previsão, segundo uma das estimativas, é de que somente as
explosões causariam 750 milhões de mortes. Um número de pessoas
igual ao que existia no planeta quando a nossa nação foi fundada
seria vaporizado, desintegrado, esmagado, reduzido a polpa e
espalhado na paisagem pela força explosiva das bombas. Outro
estudo prediz que 1,1 bilhão de pessoas seriam mortas e outras tantas
lesadas pelas explosões, pelo calor e pela radiação. Vale dizer, quase
a metade da atual população do mundo - compreendendo a maior
parte dos habitantes das nações ricas do Hemisfério Norte - poderia
converter-se em baixas no espaço de poucas horas.
Também é cristalinamente claro que a própria estrutura da sociedade
industrial seria destruída por um tal tipo de guerra. Praticamente todas
as áreas metropolitanas - que são os centros políticos, industriais,
financeiros, de transportes, de comunicações e culturais das
sociedades simplesmente deixariam de existir. Grande parte do saber
da humanidade desapareceria com elas. Atendimento médico e outros
serviços de socorro essencialmente não mais existiriam - não haveria
de onde partir assistência. Os sobreviventes das nações um dia ricas
não somente enfrentariam as cargas psicológicas esmagadoras de
terem testemunhado a maior catástrofe da história humana, como
saberiam não haver esperança de remédio.
Uma situação como essa é de tal modo estarrecedora que muitos a
entenderão como uma estimativa de pior hipótese do mal potencial
causado ao Homo sapiens na Terceira Guerra Mundial. Ao contrário,
como veremos a seguir, eu descrevi somente a ponta visível do
iceberg. Os destinos dos dois ou três bilhões de pessoas que não
morressem imediatamente inclusive as de nações muito distantes dos
objetivos - poderiam sob vários aspectos ser piores. Essas, é claro,
sofreriam a ação direta das temperaturas glaciais, da escuridão e da
precipitação radioativa à médio prazo de que falou o Dr. Sagan. Mas
os efeitos de maior alcance à longo prazo seriam produzidos
indiretamente pelo impacto destes e de outros fatores sobre os
sistemas ambientais do planeta.

Ecossistemas
Para entender isso, é preciso saber alguma coisa a respeito de
sistemas ecológicos - ecossistemas na forma abreviada da biologia.
Um ecossistema é uma comunidade biológica - todos os vegetais,
animais e micróbios que vivem numa certa área - combinada ao meio
físico em que vivem esses organismos. O meio abrange a radiação
solar, os gases da atmosfera, águas correntes, fragmentos de rocha
no solo, e assim por diante. E a essência de um ecossistema é uma
teia de processos que ligam os organismos uns aos outros e ao seu
ambiente físico.
Esses processos incluem um fluxo unidirecional de energia através do
ecossistema e um movimento cíclico de materiais no seu interior.
Muitos dos senhores estão familiarizados com o processo da
fotossíntese, pelo qual as plantas verdes "captam" a energia do sol.
Parte dessa energia é a seguir transferida ao longo de "cadeias
alimentares", sendo utilizada primeiro pelas plantas no seu
crescimento e para acionar seus outros processos vitais, depois pelos
herbívoros que comem essas plantas, depois pelos carnívoros que
comem os herbívoros e uns aos outros, e finalmente por agentes de
decomposição que desagregam resíduos e organismos mortos.
A energia do sol alimenta todos os ecossistemas importantes, não
apenas através da fotossíntese como também de processos
puramente físicos, como o de evaporar a água da superfície dos
mares e das terras de modo que esta continue a circular. Assim, vê-se
de imediato por que qualquer evento que impeça o acesso da luz solar
à superfície da Terra pode ter efeitos catastróficos sobre o
funcionamento dos ecossistemas.
Mas, e daí? É preciso entender que todos os seres humanos estão
encerrados em ecossistemas e deles dependem totalmente para a
produção agrícola e para uma série de outros "serviços públicos"
gratuitos. Esses serviços incluem a regulação dos climas e
manutenção da composição gasosa da atmosfera; suprimento de
água doce; remoção de resíduos; reciclagem de elementos nutrientes
(inclusive os indispensáveis à agricultura e à silvicultura); geração e
preservação de solos; controle da grande maioria das pragas
potenciais das lavouras e vetores de enfermidades humanas;
suprimento de alimentos do mar; e manutenção de uma vasta
"biblioteca" genética, da qual a humanidade já tirou a própria base da
civilização - inclusive todas as plantas cultivadas e animais de criação.
A danificação de ecos sistemas significa a interrupção desses
serviços. E os dois ou três bilhões de indivíduos que sobrevivessem
aos efeitos instantâneos de uma guerra termonuclear precisariam
deles mais ainda do que precisamos hoje.

Agressões aos Ecossistemas


A que espécies de agressões estariam sujeitos os ecossistemas na
eventualidade de um conflito nuclear em grande escala entre os
Estados Unidos e a URSS? O Professor Sagan realçou as duas que
provavelmente seriam as mais importantes - escuridão generalizada e
frio intenso nas áreas continentais. Entre as demais, que não seriam
desprezíveis, teríamos incêndios florestais; neblina tóxica (que poderia
engolfar todo o Hemisfério Norte); enriquecimento da luz solar
(quando voltasse a penetrar) em comprimentos de onda da faixa
perigosa do ultravioleta (UV-B), que, entre outras coisas, danificam o
material genético (ADN); níveis acrescidos de radiação nuclear;
chuvas ácidas; contaminação por substâncias tóxicas de águas
subterrâneas, superficiais e litorâneas; assoreamento e poluição por
resíduos de lagos, rios e orlas marítimas e tempestades violentas em
regiões costeiras.
Quando da descrição de alguns dos impactos desses fenômenos,
convirá ter em mente que a maioria deles estarão ocorrendo
simultaneamente em muitas regiões. Além disso, em muitos casos os
impactos de duas ou mais agressões simultâneas serão
provavelmente sinérgicos - isto é, maiores que a simples soma dos
efeitos isolados. Por exemplo, os níveis de radiação remanescente
provinda de precipitações globais (ou seja, exposição à radiação não
atribuível à precipitação local devida a uma determinada bomba)
poderão ser muito mais altos do que os estimados em análises
anteriores, porque as precipitações da alta troposfera foram de modo
geral desprezadas.
Também é importante entender que as conclusões dos biólogos
quanto aos efeitos ecossistêmicos são muito menos dependentes das
características particulares das detonações do que o são as
conseqüências diretas de explosão, calor e radiação inicial. Só no
caso de uma guerra nuclear de pequena escala, realmente limitada,
haveria a probabilidade de os nossos cálculos não serem aplicáveis.
Guerras desse tipo são possíveis, mas que uma guerra nuclear, uma
vez iniciada, possa ser contida, é duvidoso; para muitos analistas,
guerras nucleares limitadas são altamente improváveis. Seja como for,
os detentores do poder de decisão devem ser completamente
informados das conseqüências possíveis de conflitos nucleares
generalizados, que têm toda a probabilidade de causar a longo prazo
efeitos devastadores.
É bem possível que as nossas conclusões subestimem essas
conseqüências, visto que ainda sabemos muito pouco a respeito do
funcionamento detalhado dos ecossistemas globais para avaliar todas
as interações sinérgicas entre os insultos a que os seres humanos e
os ecossistemas seriam submetidos. O fato é que, mesmo se os
efeitos climáticos não abarcassem todo o Hemisfério Norte ou todo o
globo, os impactos de uma guerra nuclear sobre os ecossistemas do
planeta seriam consideráveis.

Gelo e Trevas
Temperaturas reduzidas teriam efeitos dramáticos sobre populações
animais, muitas das quais seriam aniquiladas pelo frio inusitado.
Contudo o fator central dos efeitos nos ecossistemas é o impacto da
guerra sobre as plantas verdes. A atividade destas dá origem à
chamada produção primária - a apropriação de energia (através da
fotossíntese) e a acumulação de substâncias nutritivas necessárias ao
funcionamento de todos os componentes biológicos dos ecossistemas
naturais e cultivados. Sem a atividade fotossintética das plantas,
virtualmente todos os animais, seres humanos inclusive, cessariam de
existir. Toda carne é na verdade "erva".
Tanto o frio como a escuridão são adversos às plantas e à
fotossíntese. O Quadro 1 mostra as modificações de luz e temperatura
que podem decorrer de uma guerra nuclear. Note-se que, por
exemplo, as temperaturas superficiais nos continentes, longe das
costas, podem ficar abaixo do ponto de congelamento da água em
todo o Hemisfério Norte durante um ano inteiro, e que um frio próximo
desse ponto também pode assolar o Hemisfério Sul durante meses.
Os impactos de temperaturas tão baixas sobre as plantas
dependeriam, entre outras coisas, da época do ano em que
ocorressem, da sua duração, e da tolerância das diferentes espécies
vegetais ao resfriamento. Um resfriamento brusco é particularmente
prejudicial. Depois de uma guerra nuclear, prevê-se que as
temperaturas cairiam verticalmente em curto espaço de tempo; assim,
é improvável que plantas normalmente resistentes ao frio se
aclimatassem antes de serem expostas a temperaturas letais. Além
disso, mesmo temperaturas bem acima do ponto de congelamento
podem ser nocivas a algumas plantas, e outras agressões não
mostradas no Quadro 1 intensificariam os danos infligidos à vegetação
pelo resfriamento ou congelação. Acresce que plantas doentes ou
lesadas têm uma capacidade reduzida de aclimatar-se ao frio.
Tudo isso se resume em que virtualmente todas as plantas terrestres
no Hemisfério Norte seriam lesadas ou destruídas numa guerra que
ocorresse durante a estação do crescimento ou pouco antes.
Provavelmente a maior parte das culturas anuais seria prontamente
exterminada, e muitas plantas perenes sofreriam igualmente danos
graves se a guerra ocorresse no período do seu crescimento ativo.
Obviamente, os danos seriam menores se ela acontecesse na fase de
hibernação.
Se fosse no outono ou no inverno, as fontes principais de alimento
para a humanidade - trigo, arroz, milho e outros cereais - teriam sido
colhidas. Mas provavelmente o tempo permaneceria anormalmente
frio por muitos meses, impedindo o cultivo na primavera e no verão
subseqüentes, ainda que outras condições fossem favoráveis.
Outrossim, como as temperaturas de inverno estariam muito abaixo
das mínimas normais, muitas plantas perenes (por exemplo, árvores
frutíferas e componentes importantes da vegetação natural)
provavelmente morreriam. De modo geral, as sementes estocadas de
plantas de zonas temperadas não seriam afetadas pelo frio, mas as de
muitas plantas tropicais o seriam.
Se bem que em latitudes mais setentrionais uma guerra no outono ou
no inverno teria provavelmente um impacto menos violento sobre as
plantas do que na primavera ou no verão, ainda assim poderia haver
um sério impacto nos trópicos, onde as plantas crescem o ano inteiro.
As únicas partes do Hemisfério Norte onde as plantas não seriam
devastadas por um frio intenso seriam zonas costeiras e ilhas, onde a
temperatura seria moderada pelos oceanos. As faixas costeiras,
porém, experimentariam condições atmosféricas de extrema
turbulência, em vista das enormes diferenças de temperatura que se
criariam entre a terra e o mar.
Lembrem-se de que o frio é apenas um dos castigos a que as plantas
verdes seriam submetidas. O bloqueio da luz solar, causa do frio,
também reduziria ou eliminaria a atividade da fotossíntese. Isto traria
inúmeras conseqüências, que se transmitiriam em cascata através das
cadeias de alimento, inclusive as que dão sustento à espécie humana.
A produtividade primária diminuiria mais ou menos na proporção da
diminuição da luz, ainda que a vegetação não sofresse outras
espécies de danos. Se o nível de iluminação caísse a 5% ou menos
dos níveis normais - como provavelmente aconteceria por vários
meses nas latitudes médias do Hemisfério Norte -, a maioria das
plantas teria o seu crescimento interrompido. Assim, mesmo se as
temperaturas permanecessem normais, a produtividade das culturas e
dos ecossistemas naturais seria enormemente reduzida pela
intercepção da luz do sol decorrente de uma guerra. Combinados, o
frio e a escuridão constituiriam uma catástrofe sem precedentes para
esses sistemas.

Luz Ultravioleta
Quando o frio e a escuridão abrandassem, as plantas verdes
passariam a sofrer outro sério insulto. As bolas de fogo nucleares
introduziriam na estratosfera grandes quantidades de óxidos de
nitrogênio. A conseqüência seria uma forte redução do escudo protetor
estratosférico de ozônio - da ordem de 50%. Normalmente, o ozônio
filtra a radiação UV-B. Nas semanas ou meses imediatamente
seguintes à guerra, a fuligem e a poeira em suspensão impediriam
essa UV-B acrescida de alcançar o solo. Mas a escassez de ozônio
persistiria por mais tempo que a fuligem e a poeira, e, quando a
atmosfera limpasse, os organismos seriam submetidos a níveis de
radiação UV-B muito mais altos que os considerados perigosos para
os ecossistemas e para os seres humanos.
Uma das respostas das plantas ao aumento da UV-B é a redução da
fotossíntese. Além disso, folhas que se desenvolvem em baixa
luminosidade são duas ou três vezes mais sensíveis à UV-B do que as
desenvolvidas em plena luz do sol. Dessa forma, a UV-B irá potenciar
os danos antes causados por baixos níveis de luz. Sabe-se que os
sistemas imunológicos do Homo sapiens e de outros mamíferos são
suprimidos mesmo por doses baixas de UV-B. Assim, os mamíferos
submetidos a radiação ionizante acrescida (que também inibe o
sistema imunológico), a doenças e a uma série de outras agressões
num mundo de pós-guerra teriam comprometida uma de suas
principais defesas. Há também indicações de que a exposição
prolongada a um excesso de UV-B poderia provocar de modo
generalizado a perda da visão. As pessoas e outros animais
sobreviventes poderiam ver-se novamente em trevas pouco tempo
depois que o céu tivesse clareado.

Precipitação Radioativa
Os ecos sistemas do Hemisfério Norte seriam também submetidos a
níveis muito mais altos de radiação ionizante originada da precipitação
radioativa do que se imaginava antes. Uma estimativa sugere que um
total de uns 5 milhões de quilômetros quadrados estendendo-se dos
pontos de detonação na direção do vento ficariam expostos a 1.000 ou
mais rems de radiação, principalmente nas primeiras 48 horas. Esses
níveis de radiação seriam letais para todas as pessoas expostas e
para muitas outras espécies animais e vegetais sensíveis.
Até 30% das áreas continentais de médias latitudes do Hemisfério
Norte seriam expostas a mais de 500 rems de radiação no primeiro
dia. Tal dose causaria a morte de cerca de metade dos indivíduos
adultos sadios a ela expostos. No entanto, submetidos a outros fatores
de debilitação, poucos adultos nessas áreas se manteriam sadios, e a
radiação poderia acabar de liquidar muitos milhões de sobreviventes
feridos, doentes, enregelados, famintos e sedentos. Os que não
morressem ficariam doentes por semanas e propensos ao câncer pelo
resto de suas vidas. O número total de pessoas afetadas certamente
passaria de um bilhão, podendo mesmo abranger a totalidade das
populações do Hemisfério Norte - dependendo dos detalhes do
conflito nuclear.
Níveis mais baixos de exposição anormal, ainda centenas de vezes
maiores que a radiação normal "de fundo", ocorreriam em metade ou
mais do hemisfério, tornando os sobreviventes mais suscetíveis à
doença, acarretando a produção de câncer e provocando mutações
genéticas.
Os efeitos ecossistêmicos de níveis elevados de radiação são mais
difíceis de prever. Organismos não-humanos são diferentemente
suscetíveis a lesões por radiação. Entre os mais vulneráveis estão a
maioria das coníferas que formam florestas extensas nas zonas mais
frias do Hemisfério Norte. É possível que sobreviesse a morte de
coníferas numa superfície equivalente a 2% de toda a área de terras
do Hemisfério Norte. Isto, por sua vez, criaria condições propícias à
propagação de incêndios de enorme extensão.
Além das coníferas, aves e mamíferos destacam-se entre os grupos
mais sensíveis. Combinada a outras agressões, a precipitação, em
muitas regiões, poderia agravar a ruptura da mecânica normal de
ecossistemas. Além do que, isótopos radioativos entrariam em ciclos
alimentares, ganhando no processo maior concentração, e talvez
somando novos riscos para os sobreviventes humanos.
Fogo, Smog e Sinergismos
Essa narrativa de modo algum esgota os impactos que os
ecossistemas experimentariam. É claro que muitos deles seriam
destruídos ou lesados pelas explosões, pelo fogo e pela radiação de
milhares de detonações de armas nucleares. Poços de petróleo,
jazidas e depósitos de carvão, turfeiras, etc., poderiam continuar
queimando por meses ou anos. Incêndios florestais secundários,
cobrindo talvez 5% ou mais da área continental do Hemisfério Norte,
teriam efeitos devastadores diretos sobre os ecossistemas -
especialmente aqueles não adaptados a queimas periódicas.
Explosões múltiplas no ar sobre a Califórnia no fim do verão ou
princípio do outono poderiam calcinar grande parte do estado,
ocasionando enchentes e erosão de dimensões calamitosas durante a
estação chuvosa subseqüente. Assoreamento, escoamentos tóxicos e
chuvas radioativas poderiam causar a mortandade de uma grande
parte da fauna de águas doces e costeiras. Sobreviventes humanos
procurando alimentar-se de mariscos como mexilhões a beira-mar
provavelmente verificariam estarem eles mortos ou com radioatividade
concentrada de tal ordem que seria letal consumi-los.
Há grande incerteza com respeito à extensão de tempestades ígneas,
porque as condições de combustível e de inflamação que as originam
são pouco conhecidas. Em certas circunstâncias, essas conflagrações
gigantescas podem aquecer o solo o suficiente para matar as
sementes dormentes nele contidas - os "bancos de sementes" dos
quais depende a regeneração da flora. A tempestade ígnea
relativamente pequena que destruiu Hamburgo na Segunda Guerra
Mundial lançou labaredas no céu a 4.500 metros de altura e fumaça a
12.000 metros. A temperatura do fogo foi suficiente para fundir
alumínio, e abrigos subterrâneos ficaram tão quentes que quando se
abriram, dando entrada ao oxigênio, materiais inflamáveis e até
cadáveres explodiram em chamas. Essa tempestade cobriu cerca de
15 quilômetros quadrados; as muitas tempestades ígneas produzidas
numa guerra nuclear provavelmente seriam cada qual cem ou mais
vezes maior.
Os incêndios e as tempestades ígneas gerariam um smog hemisférico
de espessura variável, enriquecido a sotavento de cidades
incendiadas por diversas substâncias altamente tóxicas, como os
cloretos de vinil. Uma provável conseqüência da injeção na atmosfera
de óxidos de enxofre e nitrogênio produzidos por incêndios seriam
chuvas fortemente ácidas localizadas. E a modificação da dinâmica da
atmosfera poderia resultar em estiagens prolongadas noutras regiões.
Em geral, a sujeição de ecossistemas a várias combinações de
escuridão, frio, fogo, radiação ultravioleta, smog, chuvas ácidas e seca
seria de molde a provocar surtos sem precedentes de doenças e
pragas das plantas, os quais poderiam estender-se, no espaço e no
tempo, muito além da devastação direta produzida pela guerra.
Em muitos casos, como dito atrás, o impacto de dois fatores adversos
simultâneos seria muito maior que a soma dos seus efeitos se eles
ocorressem separadamente. Alguns desses sinergismos são fáceis de
identificar. Por exemplo, a falta de luz solar é de molde a intensificar
os efeitos de outros fatores adversos sobre as plantas porque se
requereria energia (e portanto insolação) adicional para resistir a
esses efeitos e para reparar os danos por eles provocados. Não temos
meios de quantificar outros sinergismos que sem dúvida nenhuma
ocorreriam em ecossistemas radicalmente alterados em virtude de um
ataque. No entanto tudo indica que podemos prever com segurança
que haveria muitos deles - e que de modo geral eles se revelariam
muito mais destrutivos do que alguns dos efeitos isolados.

O que Aconteceria aos Vertebrados e aos


Organismos do Solo
O desastre que acometeria grande parte ou a maioria das espécies
vegetais do Hemisfério Norte por obra dos efeitos de uma guerra
nuclear concorreria para um desastre comparável ou maior para os
animais superiores. Herbívoros e carnívoros selvagens e animais de
criação ou sucumbiriam prontamente ao frio ou morreriam de fome ou
de sede porque as águas superficiais ficariam congeladas. Se a
guerra ocorresse no outono ou no inverno, animais hibernantes em
regiões mais frias talvez sobrevivessem, só para enfrentar condições
extremamente hostis numa primavera e num verão de frio e escuridão.
Os animais necrófagos que resistissem às temperaturas glaciais
previstas teriam condições de florescer no período de pós-guerra,
tendo em vista os bilhões de corpos insepultos de homens e animais.
Com as altas taxas de multiplicação que os caracterizam, depois do
degelo, ratos, moscas e baratas poderiam, pouco tempo decorrido da
Terceira Grande Guerra, ocupar o lugar de espécies dominantes.
Os organismos do solo não dependem diretamente da fotossíntese, e
em muitos casos podem manter-se em estado de vida latente por
períodos prolongados. Esses estariam relativamente imunes ao frio e
à escuridão. Mas em muitas regiões a perda da vegetação de
superfície exporia o solo a um intenso processo de erosão pelo vento
e pela água. Com isso, ainda que os organismos do solo não sejam
excessivamente suscetíveis aos efeitos retardados sobre a atmosfera
de uma guerra nuclear, é provável que ecossistemas inteiros do solo
fossem de qualquer maneira destruídos.

Impactos em Sistemas Agrícolas


Os ecossistemas agrícolas seriam submetidos aos mesmos tipos de
impactos que os ecossistemas naturais, mas merecem atenção
especial porque atualmente sustentam populações humanas muito
acima das cargas suportáveis pelos ecossistemas naturais.
As reservas de alimentos básicos nos centros de população humana
são pequenas, e a maior parte da carne e dos gêneros é suprida pela
produção corrente. Somente os cereais são armazenados em
quantidades maiores, mas os locais de armazenagem situam-se
geralmente em pontos distantes. Por isso, depois de uma guerra
nuclear, as reservas de alimentos do Hemisfério Norte estariam
destruídas ou contaminadas, guardadas em locais inacessíveis, ou em
pouco tempo esgotadas. As pessoas que sobrevivessem aos outros
efeitos da guerra logo estariam morrendo de fome. Além disso, países
que hoje dependem de grandes importações de alimentos, ainda que
intocados por explosões nucleares, sofreriam a imediata e completa
cessação do ingresso de suprimentos. Teriam de voltar-se para os
ecossistemas agrícolas e naturais locais. Para muitos países em
desenvolvimento, isso poderia significar a inanição de grandes
parcelas dos seus habitantes.
A recuperação da agricultura após a guerra seria com certeza
muitíssimo difícil. Em sua maioria as culturas requerem complementos
substanciais de energia e de fertilizantes. Além disso, safras
aproveitáveis requerem insolação integral, água adequada, supressão
de pragas e ausência relativa de agentes adversos como poluição do
ar e UV-B. Poucos desses requisitos estariam presentes no mundo do
pós-guerra imediato.
Depois que as condições ambientais voltassem mais ou menos ao
"normal" (exceto pela perda de solos irrecuperáveis), a facilidade da
restauração da agropecuária em escala apreciável iria depender da
possibilidade de reorganização dos sistemas sociais (determinada por
fatores como disponibilidade de energia e condição psicológica da
população) e da proporção em que sementes e animais de criação
reprodutores houvessem sobrevivido. Como as sementes destinadas
à grande maioria das culturas norte-americanas, européias e
soviéticas não são colhidas e armazenadas em fazendas individuais, a
variedade genética já limitada de plantas cultivadas seria ainda mais
reduzida por perdas inevitáveis de sementes estocadas. Além disso, é
provável que as variedades que sobrevivessem se adaptassem mal
aos meios ambientes de pós-guerra em que seriam plantadas.
Nas primeiras estações, o mais certo é que o clima permanecesse
mais hostil e imprevisível do que de costume, resultando em colheitas
incertas e, com freqüência relativa, em frustrações de safras. Mesmo
alterações climáticas pequenas podem ter grandes efeitos sobre a
agricultura. Por exemplo, uma simples queda de 3ºC na temperatura
média de julho empurraria o limite norte da produção confiável de
milho vários graus de latitude para o sul, até o sul do Iowa e o centro
do Illinois.
Por fim, deve-se observar que os ecossistemas agrícolas dependem
inevitavelmente dos ecossistemas naturais em que estão embutidos.
Alterações causadas nestes pela guerra, especialmente se afetando a
sua capacidade de prestar serviços de suprimento de água doce,
controle de pragas e polinização, também poderiam retardar a
recuperação da agricultura.

O que Aconteceria com os Trópicos


Até aqui, concentrei minhas observações nos efeitos produzidos na
Zona Temperada Norte, terreno provável da guerra. Mas o que
aconteceria nos trópicos e no Hemisfério Sul? Naturalmente, isso
dependeria em grande parte da exata configuração dos alvos
escolhidos e de quantas tempestades ígneas se produzissem (pois
estas poderiam injetar enormes quantidades de material na
estratosfera, onde ele seria facilmente transportado do Hemisfério
Norte para o Sul).
Em qualquer cenário de guerra, a propagação do frio e da escuridão
às extensas áreas tropicais do Hemisfério Norte é altamente provável,
e é pelo menos possível que se estendesse igualmente às áreas
tropicais do Hemisfério Sul. Ainda que o frio e a escuridão ficassem
em grande parte confinados às regiões temperadas do norte, pulsos
de ar frio poderiam penetrar bastante fundo nas zonas tropicais.
Portanto é oportuno mencionar as prováveis conseqüências de tal
propagação.
Muitas plantas de zonas tropicais e subtropicais não possuem
mecanismos de liberação que lhes permitam suportar estações frias.
Nessas regiões, danos em grande escala seriam infligidos às plantas
pelo esfriamento, ainda que as temperaturas não chegassem a cair ao
ponto de congelamento. Além disso, considera-se que vastas áreas de
vegetação tropical estão muito próximas do "ponto de compensação"
fotossintético - a quantidade de dióxido de carbono que absorvem é
apenas ligeiramente maior que a que liberam. Se o nível de luz caísse,
essas plantas definhariam, mesmo em ausência de resfriamento. Se a
luz permanecesse escassa por um tempo prolongado, ou se a baixos
níveis de iluminação se combinassem baixas temperaturas, florestas
tropicais poderiam desaparecer em grande parte, levando consigo
quase por inteiro um dos recursos não-renováveis mais preciosos da
Terra: suas reservas de diversidade genética, compreendendo a
maioria das espécies animais e vegetais. Animais tropicais, seres
humanos neles incluídos, são também muito mais sujeitos a morrer de
frio que os seus semelhantes das zonas temperadas. Em resumo:
onde regiões tropicais fossem afetadas por alterações climáticas, as
conseqüências poderiam ser muito mais sérias do que as provocadas
por mudanças similares numa zona temperada.
Mais que isso, mesmo na ausência de frio e escuridão, a dependência
dos povos tropicais de alimentos e fertilizantes importados criaria
problemas de suma gravidade. Um grande número de habitantes seria
forçado a deixar as cidades e a tentar cultivar áreas remanescentes de
floresta tropical úmida, acelerando a sua destruição na medida em que
os sistemas fossem levados muito além da sua capacidade de carga.

O que Aconteceria aos Sistemas Aquáticos


Finalmente, o que aconteceria às partes do planeta que são cobertas
de água? Os organismos aquáticos tendem a ser protegidos de
variações dramáticas da temperatura do ar pela lentidão com que as
variações se propagam à água. Assim, em geral, os sistemas
aquáticos sofreriam ruptura menos acentuada que os terrestres. Não
obstante, muitos sistemas de água doce se congelariam a
profundidades não pequenas (ou completamente). Por exemplo, após
uma guerra nuclear na primavera, formar-se-ia um metro ou mais de
gelo em todas as massas de água doce, pelo menos na Zona
Temperada Norte. Isto reduziria ainda mais os níveis de iluminação em
lagos, charcos, rios e arroios num mundo escurecido. Haveria baixa
de oxigênio, e muitos organismos aquáticos seriam exterminados.
Além disso, a profundidade de congelamento tornaria extremamente
difícil o acesso de pessoas e outros animais sobreviventes à superfície
da água.
Nos mares, a escuridão inibiria a fotossíntese nas minúsculas plantas
verdes (algas) que formam a base de todas as cadeias alimentares
marinhas importantes. A reprodução dessas plantas, conhecidas
coletivamente como fitoplâncton, seria retardada ou interrompida em
muitas regiões, e o fitoplâncton que sobrevivesse seria em pouco
tempo devorado pelos pequenos animais flutuantes (zooplâncton) que
dele se alimentam. Próximo à superfície do mar, a produtividade do
fitoplâncton é reduzida pelos níveis atuais de UV-B; depois de uma
guerra, um aumento dessa espécie de radiação seria uma agressão
adicional. No Hemisfério Norte, as cadeias alimentares marinhas
poderiam ser rompidas por um lapso suficientemente longo para
causar a extinção de muitas espécies valiosas de peixes,
principalmente após uma guerra nuclear de primavera ou de verão.
Não apenas a vida marinha seria dizimada em águas costeiras ricas
como as de Georges Bank, como as águas seriam agitadas por
tremendos temporais. Na proporção em que se encontrassem no porto
ao ocorrer a guerra, as frotas pesqueiras e os pescadores de ofício
que hoje colhem as riquezas do oceano teriam sido em grande parte
convertidos em partículas dispersas, que contribuiriam para sombrear
os mares. Os sobreviventes aptos e dispostos a pescar teriam grande
dificuldade em encontrar combustível e instalação portuárias e de
processamento utilizáveis. De modo geral, não há muito por que
acreditar que, pelo menos no Hemisfério Norte, as formas de vida
marinha que servem de importante fonte de alimento para o homem
fossem acessíveis aos sobreviventes.
O que Aconteceria com a Terra
Podem-se elaborar cenários de guerra plausíveis em que os efeitos
atmosféricos predominantes, frio e escuridão, se estenderiam
virtualmente à totalidade do planeta. Nessas circunstâncias, a
sobrevivência humana se restringiria quase que exclusivamente a
ilhas e faixas costeiras do Hemisfério Sul, e a população humana
poderia reduzir-se aos níveis da pré-história.
Muitos de nós, lendo o livro de Jonathan Schell The Fate of the Earth,
nos comovemos fortemente pelo modo impressionante em que ele
apresenta a sua tese, mas eu desconfio que os biólogos em sua
maioria, como eu mesmo, acharam um tanto exagerado imaginar que
a nossa espécie viesse a desaparecer literalmente da face do planeta.
Com base no que sabíamos então, não parecia verossímil.
Depois, os biólogos tiveram de considerar a possibilidade de que o frio
e a escuridão se espalhassem sobre a Terra inteira e sobre todo o
Hemisfério Sul. Ainda assim pareceu-Ihes improvável que isso
resultasse de pronto na morte de todas as pessoas do Hemisfério Sul.
Imaginou-se que em ilhas, por exemplo, longe das fontes de
radioatividade e onde as temperaturas seriam moderadas pelos
oceanos, alguns habitantes haveriam de sobreviver. De fato, é
provável que restassem sobreviventes esparsos em várias partes do
Hemisfério Sul, e mesmo numas poucas partes do Hemisfério Norte.
Mas cabe inquirir sobre a persistência a longo prazo desses pequenos
grupos de população, ou de indivíduos isolados. O ser humano é
um animal social por excelência. Depende em alto grau das estruturas
sociais que construiu. Terá de arrostar um meio enormemente
alterado, que não apenas lhe será estranho senão muito mais adverso
do que jamais enfrentou. Os sobreviventes retornarão a uma espécie
de estágio de caçador-apanhador. Mas os caçadores e apanhadores
do passado possuíram sempre um íntimo conhecimento cultural do
ambiente em que viviam; sabiam como tirar o seu sustento da terra.
Depois de um holocausto nuclear, populações sem essa espécie de
bagagem cultural estarão de repente se esforçando por viver num
ambiente que jamais foi experimentado por ninguém em parte alguma.
Com toda a probabilidade, enfrentarão um meio totalmente novo,
condições meteorológicas sem precedentes e altos níveis de radiação.
Se forem grupos muito reduzidos, haverá a possibilidade de
cruzamento consangüíneo. E, é claro, os sistemas sociais,
econômicos e de valores serão completamente esfacelados. O estado
psicológico dos sobreviventes não é fácil de imaginar.
É consenso do nosso grupo que, nessas condições, não há como
excluir a possibilidade de os sobreviventes dispersos simplesmente
não serem capazes de reconstruir suas populações, de, num lapso de
dezenas ou mesmo centenas de anos, acabarem por desvanecer-se.
Em outras palavras, não há como excluir a possibilidade de uma
guerra nuclear acarretar a extinção do Homo sapiens.

Sumário
Permitam-me uma breve recapitulação. Uma guerra nuclear em
grande escala, ao que nos é dado prever, deixaria quando muito
sobreviventes esparsos no Hemisfério Norte, e esses sobreviventes
enfrentariam frio intenso, fome, falta de água, smog espesso, etc.,etc.,
e enfrentariam tudo isso na penumbra ou no escuro, e sem o apoio de
uma sociedade organizada.
Os ecossistemas de que em grau extremo eles seriam dependentes
sofreriam fortes distorções, transformando-se em modos que
dificilmente podemos predizer. Seus processos seriam entravados. Os
ecologistas não conhecem suficientemente esses sistemas
complicados para poderem prever a sua exata condição depois de
"recuperados". Se a biosfera voltaria a ser um dia algo parecido ao
que é hoje, ninguém é capaz de dizer.
É altamente improvável que a sociedade do Hemisfério Norte
perdurasse. Na zona tropical do Hemisfério Sul, os eventos
dependeriam em grande parte do grau de propagação dos efeitos
atmosféricos do norte para o sul. Mas podemos estar certos de que,
ainda que não houvesse essa propagação, as populações que vivem
nessas áreas seriam fortissimamente afetados pelos efeitos da guerra
- pelo simples fato de ficarem isoladas do Hemisfério Norte.
E, repetindo, se os efeitos atmosféricos se alastrassem por todo o
planeta, não podemos ter certeza de que o Homo sapiens
sobreviveria.
Figura 1. Deslocamento urbano provável: Uma semana após uma
guerra nuclear, a quantidade de luz solar ao nível do solo a grandes
distâncias dos objetivos do Hemisfério Norte possivelmente se
reduziria a uma pequena percentagem da normal. Os sobreviventes
urbanos defrontar-se-iam com frio intenso, falta de água, falta de
alimentos e de combustíveis e pesadas cargas de radiação, poluentes
e doenças. Provavelmente tentariam abandonar as cidades em busca
de comida.

Figura 2. Impacto na agricultura: No caso de uma guerra de primavera


ou de verão, temperaturas abaixo do ponto de congelamento
destruiriam ou comprometeriam praticamente todas as culturas no
Hemisfério Norte. Os baixos níveis de iluminação inibiriam a
fotossíntese, e as conseqüências propagar-se-iam em cascata ao
longo de todas as cadeias alimentares. Os animais de criação
morreriam ou se debilitariam grandemente por efeito da radiação: Os
que sobrevivessem em pouco tempo morreriam de sede, pois as
águas doces superficiais estariam congeladas no interior dos
continentes.

Figura 3. Vazamentos químicos: Explosões nucleares nas vizinhanças


de cidades incendiariam instalações de armazenagem de petróleo e
gás e romperiam tanques contendo produtos tóxicos, que se
derramariam nas águas correntes, matando os organismos aquáticos.
Figura 4. O frio e a escuridão que se seguiriam a uma guerra nuclear
no Hemisfério Norte provavelmente haveriam de estender-se às zonas
sub-tropicais e tropicais de ambos os hemisférios, causando danos
generalizados às plantas e animais daquelas regiões e afetando
seriamente ou destruindo florestas tropicais úmidas, o grande
reservatório da diversidade orgânica da Terra. Em lugares como a
América Central (figura) as populações teriam de perambular à
procura de abrigo e alimento.

Figura 5. Aqui se mostra uma paisagem tranqüila nas matas do norte.


Um castor acabou de construir a sua represa, dois ursos pretos
vagueiam à cata de comida, uma borboleta do gênero Papilio adeja no
primeiro plano, um mergulhão passa nadando calmamente, um
martim-pescador espreita um peixe suculento.
Figura 6. Depois de uma guerra nuclear, formar-se-Ia nos si temas de
água doce uma camada de gelo de considerável espessura, acabando
com o alimento dos animais selvagens. A precipitação radioativa
mataria as coníferas.
Figura 7. Coníferas mortas e secas serviriam de acendalhas para
extensos incêndios florestais.
Figura 8. Uma vista em corte do oceano em condições normais
mostra representantes da vida marinha em várias profundidades.
Entre eles, arraias-do-mar, cavalas, arenques, meros: atuns,
caranhos-vermelhos, jubarte, polvo gigante e tubarão. As águas rasas
da plataforma continental sustentam estrelas-do-mar e -corais. Um
barco de pesca apanha camarões. Os pequenos organismos do
plâncton servem de alimento a outros seres marinhos.

Figura 9. Aqui se vê a mesma seção de oceano da Figura 8 depois de


uma guerra nuclear. Em conseqüência do escuro e da cessação da
fotossíntese, o fitoplâncton em pouco tempo se extingue, as cadeias
alimentares se rompem e a vida marinha degenera. Silte e toxinas
drenados da terra contaminam a zona costeira. O diferencial térmico
entre as massas continentais intensamente frias e os oceanos mais
quentes origina violentas tempestades ao longo do litoral. As fontes
marinhas de alimento para a humanidade se perdem e o acesso às
remanescentes é muito dificultado.

Perguntas
DR. OWEN CHAMBERLAIN (professor de Física da Universidade da
Califórnia em Berkeley; Prêmio Nobel de Física de 1959): O senhor
pode fazer o favor de repetir alguns pontos capitais sobre a cultura do
trigo? Que queda de temperatura se requer para eliminá-Ia? Imagino
que é fácil perder-se a produção de um ano simplesmente porque o
sol foi insuficiente para operar um ciclo vital completo do trigo, mas o
senhor mencionou alguns dados com respeito à queda de
temperatura.

EHRLICH: Eu me referi ao cenário do Dr. Sagan de 3.000 megatons


de contra-força - creio que algo em torno de 80C de queda. Veja que
não se trata. apenas da temperatura que uma planta em pé pode
suportar num dado espaço de tempo. Por exemplo, se a temperatura
média cai, o período de crescimento é abreviado. Na verdade, é uma
questão complicada, a que os ecologistas têm dificuldades em
responder com precisão. Mas eu julgo razoável afirmar que esse grau
de declínio de temperatura, em termos de média em toda a área, é
mais que suficiente para estancar a produção de trigo. Além disso, as
variedades hoje cultivadas são altamente adaptadas às exatas
condições em que são cultivadas. Assim, ainda que fosse
teoricamente possível cultivar o trigo, depois da guerra não haveria
tempo para reformular a agricultura e desenvolver e plantar
variedades ajustadas às novas condições.

ARTHUR KUNGLE, JR. (presidente do Library Tree Project): Além dos


problemas de suprimento de grãos, o senhor ou os seus colegas
consideraram os efeitos das modificações de luz, temperatura e
radioatividade nos organismos do solo, nos micorrizos e em diferentes
categorias de algas?

EHRLICH: Eu prefiro parafrasear a pergunta: consideramos o que


aconteceria ao sistema ecológico enormemente complexo existente
nos solos? A resposta é sim, consideramos, e estamos convencidos
de que haveria uma larga variedade de efeitos. O solo não é
simplesmente rocha decomposta. É um sistema vivo, que inclui, por
exemplo, os fungos micorrízicos, que desempenham uma função
capital no transporte de substâncias nutritivas do solo para muitas
árvores. Quando se olha uma floresta, pode parecer que as plantas
dominantes são árvores. Na verdade, são micorrizos. Se os fungos
micorrízicos morressem, as árvores desapareceriam. Infelizmente,
nosso conhecimento dos ecos sistemas do solo é ainda muito
precário. A química é muito complexa, a biologia é mal compreendida.
Não há dúvida de que haveria problemas, mas ninguém sabe dizer
exatamente quais seriam. Esse é um assunto muito sério, e eu
desconfio que é um dos aspectos em que os nossos prognósticos
foram moderados.
WARD MOREHOUSE (presidente da Council on International and
Public Affairs, Inc.): Mesmo num mundo sem guerra nuclear, muitos
biólogos, ao que me consta, estão preocupados com a perda
acelerada e aparentemente irreversível das reservas mundiais de
material genético. No caso de uma guerra nuclear, qual seria o
impacto provável sobre essas reservas genéticas, em que medida elas
seriam irreparavelmente perdidas e até que ponto isso afetaria a
capacidade dos ecossistemas agrícolas de se regenerarem?

EHRLICH: Em nossa opinião, haveria a perda de uma grande parte da


variedade genética das plantas de cultivo, obviamente, pela perda de
estoques de sementes, e também, se os eventos se estendessem às
zonas tropicais, uma enorme perda de variedade. Mas creio que cabe
observar que na opinião de muitos - embora neste caso eu fale por
mim mesmo - basicamente o que uma guerra nuclear faria em talvez
uma hora e meia é o que o Homo sapiens aparentemente está em
vias de fazer dentro dos próximos 50 a 150 anos. O efeito de uma
guerra nuclear em todas essas frentes é condensar a ação num tempo
muito menor.

DR. GERALD O. BARNEY (Barney and Associates, Inc.): Para levar o


público em geral e os nossos governantes a entenderem a gravidade
deste assunto, é importante examinar as coisas com base na hipótese
pior. E a sua análise, se bem entendo, aplica-se principalmente ao
caso de 10.000 megatons...

EHRLICH: Não é verdade.

BARNEY: Poderia dizer-nos alguma coisa sobre a variação de


caso para caso e de que modo as conclusões a que os senhores
chegaram variam de um cenário para outro?

EHRLICH: A conclusão básica dos biólogos é que mesmo o cenário de


100 megatons com ataque a cidades, ou o ataque de contra-força de
3.000 megatons, teriam conseqüências biológicas incrivelmente
desastrosas. O ataque "cirúrgico" de 3.000 megatons, destruindo a
agricultura de grãos em grande parte do Hemisfério Norte, poderia,
mesmo que nem uma única pessoa fosse diretamente morta ou
lesada, produzir uma catástrofe sem precedentes na história da nossa
espécie. Alguns números, por exemplo os níveis de radiação, foram
tirados do caso de 10.000 megatons porque nos pareceu conveniente
apresentar aos biólogos as condições-limite, e alertar os detentores do
poder de decisão sobre os riscos máximos plausíveis.
Mas, como observado pelo Dr. Sagan e como agora eu quero
sublinhar, esses resultados subsistem ao longo de uma ampla gama
de cenários. Os detalhes podem variar. Mas, em qualquer cenário,
enormes perturbações afetariam os sistemas ecológicos do Hemisfério
Norte pelo menos. E isto por sua vez afetaria em grau catastrófico os
sobreviventes humanos. Para os biólogos a principal incerteza não é o
que aconteceria nas latitudes médias do Hemisfério Norte, mas que
proporção desses efeitos invadiria inicialmente as zonas tropicais do
Hemisfério Norte e em seguida as do Hemisfério Sul. Dada a maneira
como funciona o mundo do ponto de vista biológico, se se considera o
comércio de alimentos e outras coisas, os resultados seriam terríveis
mesmo sem a propagação dos efeitos atmosféricos ao sul do equador.

DR. PETER SHARFMAN (Comissão de Avaliação Tecnológica do


Congresso dos Estados Unidos): Aceitando que a sua conclusão mais
importante é a contestação da afirmativa do estudo de 1975 da
Academia Nacional de Ciências, de que com toda a probabilidade a
espécie humana sobreviveria, parece-me ainda assim que o senhor
deveria focalizar melhor algumas das variações, como aparentemente
fizeram o Dr. Sagan e seus colaboradores. Olhando rapidamente, pois
não tive tempo para mais, a família de curvas gerada pelos relatórios
TTAPS, noto que algumas delas são fortemente onduladas, e outras
mais suaves. Evidentemente faz muita diferença para a agricultura
quando o senhor fala de uma guerra no verão, que é provavelmente o
pior caso, ou logo após a colheita, que provavelmente é o melhor. E a
simples afirmativa de que os resultados subsistem para quase todas
as variações não é tão convincente quanto seria a análise de alguns
efeitos ou ausência de efeitos em algumas das variações mais
definidas.

EHRLICH: Ninguém disse que não vamos prosseguir aprofundando o


assunto. É claro que, estudando mais, provavelmente encontraremos
situações em que se 5.000 megatons explodissem numa certa época
do ano os efeitos seriam menos graves que se os mesmos 5.000
megatons explodissem em outra época do ano. Por exemplo, uma
guerra de inverno pode ter efeitos piores nos trópicos, e os
desdobramentos podem ser piores, pois na primavera a agricultura é
muito mais sensível que em qualquer
outra época do ano. É certo que haverá variações dos efeitos
biológicos. O que subsiste é que eles serão terríveis, e que haverá
tantos, e de tal modo superpostos, e de tal modo sinérgicos, que é
difícil ver em qualquer desses cenários uma situação em que o
impacto sobre as populações por intermédio dos sistemas ecológicos
não fosse pelo menos tão brutal quanto os efeitos diretos.
Eu não estou dizendo que todos os cenários produziriam os mesmos
efeitos. Nem poderia dizê-lo, pois os próprios físicos não são ainda
capazes de proporcionar-nos todos os detalhes. E ainda que os
tivéssemos, o conhecimento de como funcionam os sistemas
ecológicos é tão incipiente que previsões detalhadas do que
aconteceria se eles fossem perturbados de diferentes maneiras são
sumamente difíceis. Afinal, normalmente não podemos realizar
experiências - e no caso da guerra nuclear não desejamos fazê-lo.
Desconfio que este é um desses casos, tanto em relação a efeitos
atmosféricos como a efeitos sobre ecossistemas, em que teremos de
nos contentar com generalidades,. pois nestas próximas décadas não
teremos resultados mais precisos, se é que os teremos um dia.

DR. JACK VALLENTYNE (cientista senior do Centro Canadense


de Águas do Interior em Burlington, Ontário): Desejo fazer um
comentário e uma pergunta. O comentário é que eu acho que muitos
aspectos da sua exposição são terríveis, e não acho que o senhor os
tenha exagerado. Mas em diversas passagens o senhor empregou os
verbos no futuro. E isto implica uma certeza que em realidade não
existe.

EHRLICH: Mea culpa. Eu tenho esperança de que as coisas não


"acontecerão". Espero que, com informações como estas, os povos do
mundo se reunirão e encontrarão meios de acertar suas diferenças
por maneiras outras que não a de explodir o planeta. É claro que
concordo com o senhor. Não devemos usar o tempo futuro.

VALLENTYNE: Minha pergunta é que não é para mim intuitivamente


óbvio que o ambiente marinho viesse a sofrer conseqüências tão
graves. Provavelmente uma grande quantidade de substâncias
nutritivas é despejada nele. Existem coisas como os pesqueiros de
16cios no lago Erie que, tão logo cessasse a pesca comercial,
voltariam a multiplicar-se. Da mesma forma os do Mar do Norte. Os
predadores - os pescadores humanos estariam menos presentes.

EHRLICH: Estou de acordo. A recuperação será provavelmente mais


rápida nos ambientes marinhos. Mas de imediato eles sofrerão muito
com a diminuição da luz, que exterminará o fitoplâncton.
É de presumir que o fitoplâncton não será uniformemente eliminado
em toda parte. Haverá de reconstituir-se, e alguns dos sistemas
recompor-se-ão. É opinião dos biólogos marinhos neste estudo que se
perderia um bom número de espécies, ou pelo menos grandes
populações, de peixes comerciais. É provável que os sistemas
marinhos se restaurassem mais depressa, mas não estariam imunes
só pelo amortecimento térmico da água.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Eu gostaria de observar que,


se o senhor não vai discutir política, nós teremos de entregar o
assunto à Providência divina. E não está certo o senhor impor o seu
ponto de vista político se nós não vamos discuti-Io. Os pressupostos
referentes ao nível de 100 megatons envolvem uma série de
questões.

EHRLICH: Nós não vamos tratar de política nesta conferência. Mas,


pelo que sei, todos os biólogos que participaram deste estudo, sem
exceção, e creio que todos os físicos igualmente, têm idéias próprias
em matéria de política. Imagino que todos eles teriam muito prazer em
discuti-Ias em reuniões apropriadas. Aqui, não pretendemos impor
nenhum ponto de vista político. O ataque de 100 megatons a cidades
não é uma previsão. O grupo TTAPS fez simplesmente o que os
cientistas sempre fazem quando abordam um assunto muito
complicado - tomou alguns casos hipotéticos para analisá-Ios de
forma mais detida. Este é simplesmente um caso hipotético. Ninguém
imagina que haverá uma guerra nuclear em que exatamente 100
megatons (1.000 bombas de 100 quilotons cada) serão
distribuídos por exatamente 1.000 cidades como é o caso no cenário.
Nem ninguém imagina que haverá um ataque cirúrgico de exatamente
3.000 megatons. Mas para elaborar modelos é preciso partir de algum
ponto.
Eu, pessoalmente, acho que a equipe TTAPS fez um trabalho brilhante
selecionando uma série de modelos que cumprem a função
dos modelos em ciência, que é a de proporcionar uma maneira de
refletir sobre o mundo, de raciocinar a respeito de questões
complexas, com um certo grau de simplificação. Na reunião anterior
de físicos e climatologistas que examinaram o estudo TTAPS,
basicamente não houve reclamações quanto ao modo como foram
escolhidos os modelos, embora tenha havido uma porção de
perguntas cuidadosamente formuladas a respeito de outros pontos.
Mas ao término da reunião, todos os presentes acharam que o grupo
TTAPS realizou um magnífico trabalho analisando com bom senso,
embora com recursos limitados, um tema de importância capital, com
base num conjunto de modelos perfeitamente razoáveis.
Mas o emprego dos modelos nada tem a ver com política. Eles
estão aí, qualquer um é capaz de entender os resultados, e os
condutores da política podem fazer uso deles e tirar suas próprias
conclusões.

DR ROBERT EHRLICH (Universidade George Mason, Virgínia): Pelo


que entendi, os principais danos biológicos são causados pelo frio e
pela escuridão. Mas o senhor disse, em sua exposição, que os demais
efeitos - em particular a precipitação radioativa, a destruição da
camada de ozônio, etc. - também seriam, individualmente,
catastróficos para o ambiente. Não é verdade?

PAUL EHRLICH: Em graus variáveis. Depende do efeito e do lugar,


mas é verdade.

ROBERT EHRLICH: Creio que o Dr. Sagan mencionou que o efeito


relativo à camada de ozônio é basicamente o mesmo referido no
estudo de 1975 da Academia Nacional de Ciências, e que naquele
estudo o efeito da destruição da camada de ozônio, ou da fração da
mesma que se deduziu seria destruída, foi dado como significante
mas certamente não catastrófico.

PAUL EHRLICH: Eu não vou argumentar com o senhor a respeito de


palavras como significante e catastrófico. Mas não conheço nenhum
ecologista que ache possível expor ecos sistemas naturais a um tal
fluxo de UV-B e esperar que não ocorra toda uma série de graves
alterações, muitas das quais ainda não somos capazes de prever.
Esse é um dos efeitos significantes que poderia ser, por si só,
catastrófico.

DR. ED PASSERINI (Carrying Capacity, Washington, D.C.): O senhor


deu a entender que um aspecto favorável era a possibilidade de que
algumas árvores de folhas grandes sobrevivessem. Mas nem o senhor
nem o Dr. Sagan, embora mencionando frio, escuridão e tempestades
no mar, falaram muito de chuva. Ora, considerando os perfis de
temperatura em função da altitude que temos diante de nós, e a
quantidade de poeira que teremos, parece lógico que em pouco tempo
haveria lavagem pela chuva. Isto é, que a evaporação dos mares
produziria precipitações locais e grande parte das chuvas que
normalmente se deslocam para terra não chegariam lá. Os senhores
analisaram estes aspectos e qual a sua influência nos efeitos?

EHRLICH: Isso foi examinado e discutido. É certo que algumas


árvores poderiam mudar as folhas e sobreviver por possuírem
reservas, por exemplo. Mas provavelmente seriam castigadas pela
seca. Provavelmente seriam afetadas pelo frio. Quando tentassem
lançar novas folhas, é provável que estas fossem comidas. Não há
garantia de que as árvores sobrevivessem muito tempo. Elas estariam
lançando renovos frágeis e delicados num ambiente em que estariam
presentes herbívoros inusitados. Pessoas ameaçadas de morrer de
inanição lançariam mão de brotos tenros. Ratos e coelhos famintos
buscariam alimentos que normalmente não consomem.
Além do mais, a vegetação que não morresse pelo frio, pela falta de
luz e pela radiação enfrentaria uma atmosfera enfumaçada contendo
muitos poluentes fitotóxicos, especialmente nocivos a folhas novas e
frágeis. Não cabe muito conjeturar se a W-B desorientaria tantos
polinizadores que os ecos sistemas passariam a sofrer sérios
distúrbios quando a maior parte das plantas tivesse sido eliminada
pelo frio, e o restante pela escuridão e pelo smog. Restariam muito
poucos animais e plantas para serem desorientados, cegados,
privados de defesa imunológica, queimados, etc., pela UV- B.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: O senhor arriscaria um palpite


sobre quanto tempo seria necessário, admitindo-se que o homem
sobrevivesse, para que se restaurasse uma civilização comparável,
por exemplo, à de 5.000 anos atrás? E depois, possivelmente, uma
comparável à de hoje? A minha impressão é de que isso levaria da
ordem de centenas de milhares de anos, se é que viria a acontecer.
Não umas poucas gerações, nem mesmo dez gerações. Eu gostaria
de ouvir a sua opinião.

EHRLICH: Eu diria simplesmente que isso dependeria em grande


parte do cenário, e de coisas que nós não sabemos. O que importa,
penso eu, para a maior parte dos seres humanos, é que o mundo em
que vivemos hoje simplesmente deixaria de existir. Quanto ao que
viria substituí-lo e quanto a qual seria o curso da evolução biológica e
social, é matéria de adivinhação, e iria depender basicamente de
quantos artefatos e que parcela de conhecimentos fossem
conservados. Se todos os artefatos, todo o conhecimento e todos os
recursos explorados se perdessem, de fato a humanidade teria
recuado, em tempo evolutivo, centenas de milhares de anos. E uma
nova evolução cultural, se viesse a processar-se, é bem possível que
seguisse um curso totalmente diferente.
Contudo, se alguns centros importantes de estudo fossem
preservados, e se algumas metrópoles organizadas subsistissem no
Hemisfério Sul, a cultura humana poderia retornar bem mais depressa
a níveis "adiantados". Mas eu diria que há nisso uma boa dose de
arrogância e atitude pessoal. Eu vivi entre os esquimós, e poderia
demonstrar que em muitos sentidos a cultura deles é bem mais
adiantada do que a nossa hoje.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Eu gostaria de fazer uma


pergunta a respeito do que muitos considerariam um aspecto
secundário do modelo. Nos anos 60 e 70, a maior parte dos estudos
sobre ecossistemas naturais não levava em conta a possibilidade de
tempestades ígneas, ou a considerava remota - ou que não temos
dados suficientes, ou que pouco sabemos a respeito de tempestades
ígneas. O senhor comentou que o seu grupo foi cauteloso em relação
a esse ponto. E eu gostaria de saber se essa cautela foi a mesma dos
anos 60 e 70.
EHRLICH: Bem, acho que é basicamente um problema de falta de
dados. Uma questão de como conduzir a experimentação. Há na
literatura tentativas de determinar o volume de combustíveis requerido
para produzir uma tempestade ígnea. Há muitas informações coligidas
sobre incêndios florestais em termos de aquecimento do solo, etc., e
sabe-se que mesmo em ecossistemas de chaparral, que são
adaptados ao fogo, em certas circunstâncias, quando o solo é úmido,
pode haver perdas importantes de nitrogênio do solo, destruição de
sementes, etc. Talvez o que realmente nos falte saber é o que
acontece se houver incêndio simultâneo em grandes extensões de
território. Ocorreria urna tempestade ígnea em vez de urna
propagação de frentes de fogo? Isto, que me conste, ninguém sabe.

INTERPELANTE: Mas os melhores exemplos que temos de


tempestades ígneas são as explosões de Hiroxima, Nagasáqui e
Dresda.

EHRLICH: Não, isso não é exato. As observações in loco não foram


imediatas nem suficientemente completas em Nagasáqui e Hiroxima.
E há controvérsias quanto à exata natureza dos incêndios nesses
casos. As melhores observações que temos são de Dresda e
Hamburgo, onde havia grandes depósitos de combustíveis e as áreas
incendiadas foram relativamente limitadas. Nós tiramos muito poucas
conclusões, em relação ao que seria teoricamente possível, dos
eventos de Hiroxima e Nagasáqui. Até hoje se discute na literatura a
respeito das seqüelas médicas, e se houve de fato uma tempestade
ígnea.

VICE-MARECHAL-DO-AR J. SALATUN (membro do Parlamento da


Indonésia): Pouco depois das bombas de Hiroxirna e Nagasáqui,
lembro-me de ter lido nos jornais declarações de cientistas dizendo
que nos próximos 75 anos nada cresceria naquelas duas cidades. A
história mostrou que estavam enganados, pois um ano depois houve
colheita de melões, horti-granjeiros e outras plantas. Em face disto,
minha pergunta é: qual o grau de precisão das suas conclusões?

EHRLICH: Creio que são perfeitamente sólidas. É possível que alguns


cientistas tenham feito declarações como essa, se bem que não
consigo imaginar em que se teriam baseado, considerando o estado
da ciência naquela ocasião. Mas sempre houve cientistas fazendo
declarações absurdas, individualmente, em diferentes lugares. No
entanto, o que aqui apresentamos representa pelo menos o consenso
de um grupo muito grande de cientistas. Há que ter em mente que
nada deixa um cientista mais feliz do que mostrar que as conclusões
de outros são falsas. Eu tenho grande confiança nestes resultados.
Nós os estamos expondo e continuaremos a fazê-Io sob rigorosa
crítica científica. Se houver mudanças significativas - o que parece
extremamente improvável -, é assim que a ciência marcha. Mas o fato
de terem crescido melões em Hiroxima e Nagasáqui depois das
bombas não tem muito a ver com a natureza dos efeitos de que
estamos falando.

THOMAS M. LEVENSON (repórter da revista Discover): Existe um


limiar no número de extinções de qualquer gênero, além do qual as
extinções se sucederão em cascata ao longo da cadeia alimentar?

EHRLICH: Pelo que sabemos com base em modelos de


ecossistemas, parece provável que haveria limiares em certas
extinções. O problema é que não sabemos onde; não temos como
fixar números. Os biólogos ainda não determinaram se existem no
planeta entre 2 e 5 milhões de espécies diferentes, ou 30 milhões.
Nossa ignorância é profunda. Mas, pelo que sabemos a respeito de
sistemas ecológicos, é de supor que haja limiares dessa natureza, e
em sistemas menores nós os encontramos. Se certas espécies
chamadas fundamentais são exterminadas, segue-se de imediato a
extinção de outras espécies na mesma área.
DR. THOMAS C. HUTCHINSON (Universidade de Toronto): De que
ordem seria a acumulação de poeira ou de solo em termos de campo
aberto?

EHRLICH: A acumulação de poeira no Hemisfério Norte dependeria,


entre outras coisas, do padrão dos ventos. Evidentemente haveria
uma enorme precipitação de pó em várias áreas, e o pó por si mesmo
é muitas vezes biocida, como o senhor deve saber. Esta seria apenas
uma agressão a mais que as plantas e os insetos sofreriam.

PAINEL SOBRE AS
CONSEQÜÊNCIAS ATMOSFÉRICAS E CLIMÁTICAS
DR. GEORGE M. WOODWELL (presidente da Conferência): Neste
momento tenho o prazer de abrir este tópico a novos debates, como
parte do processo geral de apressar a difusão e verificação das
conclusões. Agora será a vez das perguntas difíceis.
O primeiro painel é presidido pelo meu colega Dr. Thomas F. Malone.

DR. THOMAS F. MALONE (presidente do Painel sobre Conseqüências


Atmosféricas e Climáticas): Em prosseguimento às magníficas
exposições gerais proferidas por Carl Sagan e Paul Ehrlich,
passaremos a examinar alguns detalhes e embasamentos importantes
dessas apresentações.
Tendo em vista o impacto quase inacreditável das armas nucleares,
vale a pena relembrar que na Segunda Guerra Mundial a arma de
maior poder, isoladamente, foi a bomba arrasa-quarteirão de 10
toneladas. Quando a bomba atômica foi lançada em Hiroxima, esse
poder explosivo foi multiplicado por mil. A invenção da bomba H
elevou a carga útil outras mil vezes. Agora estamos falando de uma
arma única de poder um milhão de vezes maior que as empregadas
na Segunda Guerra Mundial. É por isso que há conseqüências
globais. Está em jogo a sobrevivência da espécie humana. Ao longo
de bilhões de anos, as espécies da Terra tiveram em média uma
duração de 10 milhões de anos. Este é simplesmente um valor médio,
e nós já percorremos a metade dele. A pergunta é: será que
venceremos mais cinco milhões de anos de modo a cumprir a outra
metade?

DR. JOHN P. HOLDREN (membro do painel): Não falo como um dos


autores responsáveis pelas conclusões apresentadas nesta
Conferência, mas como participante convidado, com algum
conhecimento de arsenais nucleares, seleção de objetivos e cálculo
de precipitações. Gostaria de abordar aqui duas questões que talvez
lhes tenham ocorrido.
A primeira é se os modelos apresentados constituem uma base
verossímil para a análise das conseqüências de possíveis guerras
nucleares, dadas as dimensões dos arsenais existentes e o
conhecimento disponível de como esses arsenais poderiam ser
usados.
A segunda questão é se os vários números que ouvimos com
referência a doses de radiação oriunda de precipitação radioativa são
de fato intrinsecamente coerentes e compatíveis com os calculados
por outros analistas.
Em 1983 os arsenais mundiais de armas nucleares estratégicas
utilizáveis consistiam de 19.000 ogivas, ou cerca de 10.000 megatons
(Quadro 1). O termo "utilizáveis" refere-se ao número de ogivas
instaladas em mísseis e bombas carregadas em aviões de
bombardeio que poderiam ser lançadas se os dois lados utilizassem
todos os seus projéteis e veículos transportadores uma única vez. Isto
é, recarga de mísseis e vôos múltiplos de bombardeios não são
considerados.

QUADRO 1. ARSENAIS NUCLEARES MUNDIAIS, 1983


Categoria No. De Ogivas Megatons
"Estratégicas" utilizáveis EUA 9.800 4.000
URSS 8.600 6.000
Outro 300 200
Sub-Total 19.000 10.000

Teatro, Navais e Reserva EUA 16.000 2.000


URSS 14.000 3.000
Outro 600 150
Sub-Total 30.000 5.000

Totais 50.000 15.000

Nessa categoria, os Estados Unidos têm 9.800 ogivas somando cerca


de 4.000 megatons, a União Soviética tem 8.600 ogivas somando
cerca de 6.000 megatons. Os números soviéticos incluem os mísseis
de médio alcance SS-4, SS-5 e SS-20 apontados para a Europa e
para a Ásia, pois essas armas têm funções principalmente
estratégicas. Analogamente, os números para os Estados Unidos
incluem os bombardeiros supersônicos FB-111 de asas retráteis, que
são arrolados na parte estratégica das forças nucleares norte-
americanas.
Arsenais nucleares menores são mantidos pela França, Reino Unido e
China. Embora sejam arsenais modestos comparados aos das
superpotências, as megatonagens são ainda menores se lembrarmos
que mesmo um conflito na faixa de 100 megatons pode, em certas
circunstâncias, produzir as terríveis conseqüências atmosféricas e
biológicas examinadas nesta assembléia.
A segunda categoria inclui armas nucleares "de teatro", de campo de
batalha, de defesa aéreas e navais, bem como as reservas de ambos
os lados não-instaladas no momento em sistemas de lançamento.
Nesta categoria estão 16.000 bombas e ogivas dos arsenais dos
Estados Unidos, totalizando 2.000 megatons, e aproximadamente
14.000 bombas e ogivas da União Soviética; não temos dados
seguros sobre a megatonagem do arsenal de teatro da URSS, mas
ela deve ser da ordem de 3.000 megatons.
A França, o Reino Unido e a China têm cerca de 600 ogivas com
talvez 150 megatons, embora estes sejam números bastante incertos.
As somas totalizam aproximadamente 30.000 ogivas e 5.000
megatons nas várias categorias não-estratégicas.
Chega-se assim a um total global em torno de 50.000 bombas e
ogivas - representando cerca de 15.000 megatons.
Ora, neste contexto vemos que o cenário de referência apresentado
nesta Conferência nada tem de extravagante. O cenário de referência
do relatório TTAPS, de 5.000 megatons, corresponde ao uso de mais
ou menos um terço dos estoques mundiais totais, ou cerca de metade
dos estoques estratégicos. Está na mesma classe de outros cenários
de referência elaborados e usados por outros grupos há vários anos.
Por exemplo, o cenário do estudo publicado no número "The
Aftermath" da revista Ambio, publicação internacional sobre meio-
ambiente da Real Academia Sueca de Ciências (que é de certo modo
um precursor do presente trabalho) era de 5.700 megatons. Um
conjunto recente de cenários organizados no Laboratório Nacional
Lawrence Livermore para análise das mesmas questões adota como
cenário de referência 5.300 megatons.
Pode-se perguntar se números mais altos que também já foram
explorados - por exemplo, 10.000 megatons - são plausíveis, isto é, se
há cenários realistas em que se pudessem atingir totais tão elevados.
Infelizmente, a resposta é afirmativa. Em circunstâncias adversas,
pode-se conceber uma guerra nuclear começando com o emprego de
armas nucleares de campo de batalha, ao que se seguiria uma
escalada para o emprego de armas de teatro e finalmente para o dos
arsenais estratégicos. Se isso acontecesse, as piores circunstâncias
poderiam com efeito resultar numa guerra nuclear envolvendo totais
da ordem de 10.000 megatons ou mais.
Planos atuais de "modernização" dos arsenais nucleares estratégicos,
se executados, resultarão no aumento do número de ogivas,
possivelmente sem aumento da megatonagem total. Nas duas últimas
décadas, a megatonagem diminuiu enquanto o número de ogivas
aumentava, porque a potência média reduzida das ogivas modernas
supercompensa o crescimento do número de unidades. Seja como for,
a multiplicação de incêndios produtores de fuligem é mais sensível ao
número de ogivas detonadas que à megatonagem total.
Outra questão importante que pode ter sido suscitada pela exposição
do Dr. Sagan é a da dose de radiação produzida por precipitação.
As pessoas podem absorver radiação de fontes externas e internas.
Geralmente a dose externa é calculada contando apenas a dose
recebida em todo o corpo de fontes externas de raios gama. A
radiação também pode ser absorvida pela ingestão de alimentos e
água contaminados por substâncias radioativas.

O Quadro 2 mostra algumas estimativas de radiação por precipitação


tiradas do estudo TTAPS e as compara com números obtidos em
outros estudos.

QUADRO 2. DOSES DE RADIAÇÃO DAS PRECIPITAÇÕES À


MÉDIO PRAZO

Dose externa
corporal
Estudo Área e Tipo de Radiação (rems)
_______________________________________________________

TTAPS Hemisfério Norte, Média, só gama 20


5.000 megatons Hemisfério Norte, Médias Latitudes
só gama 40-60
Hemisfério Norte, Médias Latitudes
Total 100
Knox, LLNL Hemisfério Norte, Médias Latitudes
5.300 megatons Só gama 20
Hemisfério Norte, áreas críticas
Só gama 40-100
Hemisfério Norte, Médias Latitudes,
Ataque contra instalações de energia
Nuclear +200-300

TTAPS Curto Prazo, 30% da área


Continental de Médias Latitudes Maior 500

(Caso exposto por Ehrlich e outros)

No cenário de 5.000 megatons do TTAPS, a dose externa corporal de


raios gama à médio prazo foi calculada em 20 rems, em média, para o
Hemisfério Norte.
A dose à médio prazo não inclui a dose a curto prazo proveniente das
precipitações isoladas de milhares de explosões nucleares.
Representa unicamente a contribuição da precipitação à médio prazo,
definida como a que ocorreria no período compreendido entre alguns
dias e mais ou menos um mês após o conflito nuclear. A maior parte
dos cálculos precedentes concentrou-se ou na precipitação à curto
prazo (dentro dos primeiros dias) ou na de longo prazo (mais de um
mês depois do conflito) vinda da estratosfera. A precipitação
intermediária é produzida pelo material radioativo em partículas
elevado à alta troposfera e baixa estratosfera que cai no intervalo
compreendido entre alguns dias e um mês depois das explosões.
As doses hemisféricas estimadas devem-se à categoria intermediária
anteriormente desprezada, e contribuem adversamente para a dose
total a que os sobreviventes das explosões e dos efeitos térmicos
seriam submetidos.
Nas latitudes médias do Hemisfério Norte, ocorreriam precipitações
locais à médio prazo muito mais intensas como resultado da
concentração de explosões nucleares nessa região. O grupo TTAPS
estimou que nessas latitudes a dose externa corporal seria de 40 a 60
rems. E, considerando tudo, não apenas a exposição corporal aos
raios gama mas também a possibilidade de doses internas fornecidas
por emissores radioativos ingeridos com alimentos e água, a dose
média total para os habitantes das latitudes médias chegou à faixa de
100 rems.
Para efeito de comparação, podemos tomar um estudo recente
realizado por Joe Knox no Laboratório Nacional Lawrence Livermore
(LLNL). No cenário de 5.300 megatons do LLNL, a dose de radiação
gama para latitudes médias do Hemisfério Norte foi de 20 rems, a
comparar com o valor de 40-60 rems do estudo TTAPS para as
mesmas latitudes.
Temos assim uma concordância bastante aproximada, se
considerarmos a ampla faixa de disparidades possíveis entre os
pressupostos adotados com relação à distribuição das explosões. Os
pressupostos dizem respeito ao número de explosões no solo, a baixa
altura e a grande altura, à distribuição de potências das bombas, etc.
Para mim, esse grau de concordância é bastante expressivo. Ao incluir
nos cálculos as áreas críticas do Hemisfério Norte, o grupo de Knox
obteve números na faixa de 40 a 100 rems. E, em comunidades
informais, Knox e seus colegas do Laboratório Livermore sugeriram
que a contribuição das doses internas poderia ser algo maior do que a
admitida pelo grupo TTAPS. Isso tenderia a reduzir a talvez a metade
a discrepância inicial entre os resultados do TTAPS e os do LLNL com
respeito à dose de radiação gama nas latitudes médias do Hemisfério
Norte.
Finalmente, quero colocar em perspectiva o número a que Paul
Ehrlich se referiu ontem ao falar nos estudos dos biólogos. Lembrem-
se de que os biólogos consideraram um cenário de 10.000 megatons,
e que o número mais alto a que chegaram, 500 rems em cerca de
30% da área continental do Hemisfério Norte, resultou de incluir-se
como fator a precipitação a curto prazo oriunda dos penachos. de
explosões isoladas. É claro que um cenário de 10.000 megatons
envolve um grande número de explosões. Esses números são
perfeitamente coerentes em método e em contexto geral com os
outros números aqui mencionados.
Repetindo: tanto os números do TTAPS como os de Knox
representam tentativas de calcular não a precipitação à curto prazo
dos penachos individuais de milhares de armas detonadas, mas a
precipitação a médio prazo ocorrente entre alguns dias e um mês.
Esse tipo de precipitação é a que foi mais desprezada em cálculos
anteriores. Essa precipitação da escala intermédia de tempo contribui
substancialmente para a dose total.
Knox e seus colegas calcularam um número terrificante para uma
hipótese não considerada no estudo TTAPS. A do que aconteceria se
as instalações de força nuclear do Hemisfério Norte - reatores, usinas
de reprocessamento e depósitos de rejeitos - fossem deliberadamente
alvejados com armas de poder suficiente para vaporizar esses
repositórios de materiais nucleares. A resposta é uma contribuição
adicional à dose de exposição corporal nas latitudes médias de 200 a
300 rems, o que representa uma cifra realmente atordoante.
DR. RICHARD P. TURCO (membro do painel): Tratarei em termos
gerais de alguns aspectos dos incêndios produzidos num ataque
nuclear. Um dos efeitos mais impressionantes de uma explosão
nuclear é a sua capacidade de queimar e carbonizar uma vasta área à
sua volta. Cerca de um terço do total da energia de uma explosão
nuclear a baixa altura é emitido pela bola de fogo em forma de uma
intensa pulsação de "luz de bomba". Sob o aspecto espectral, essa luz
é muito semelhante à luz solar, salvo pelo fato de ser altamente
concentrada. Por exemplo, a uma distância de 10 quilômetros de uma
explosão aérea de 1 megaton a baixa altura, o brilho da bola de fogo
atingiria 1.000 vezes o do sol em um ou dois segundos, para em
seguida enfraquecer rapidamente. Mas nesse breve intervalo, tecidos,
papel e outros materiais irradiados pela luz de bomba seriam
calcinados e se inflamariam. A pele exposta sofreria queimaduras de
terceiro grau.
O único emprego bélico de armas nucleares ocorreu em Hiroxima e
Nagasáqui em agosto de 1945. Duas bombas relativamente pequenas
na faixa de 10 a 20 quilotons de força explosiva - foram detonadas no
ar sobre os centros daquelas cidades. O que podemos dizer sobre as
características dos incêndios nucleares urbanos com base nas
experiências japonesas? Primeiro, as áreas queimadas foram muito
extensas: cerca de 13 quilômetros quadrados em Hiroxima e de 7
quilômetros quadrados em Nagasáqui. Dentro das zonas de fogo, a
maior parte dos materiais combustíveis foi consumida. Enormes
penachos de fumaça ergueram-se acima dos incêndios, e na direção
do vento caíram chuvas negras oleosas. Segundo uma narração, em
Hiroxima "a temperatura caiu rapidamente em meio à chuvarada, e em
pleno verão as pessoas tremiam de frio". Isso sugere que já de início
houve um forte efeito sobre a luz e o aquecimento, com sensível
queda de temperatura sob o penacho de fumo do incêndio.
As fotografias das duas cidades ilustram graficamente a imensa área
que pode ser reduzida a cinzas e escombros por uma bomba nuclear
mesmo pequena.
Em Hiroxima e Nagasáqui, vários efeitos nucleares concorreram para
o vulto dos incêndios. A luz de bomba provocou em vários pontos a
combustão com ou sem chamas de materiais diversos numa extensa
área. O jato de ar da explosão apagou alguns desses focos primários,
mas ateou incêndios secundários espalhando detritos incandescentes,
derramando combustíveis e produzindo fagulhas. A geração de
incêndios em seguida a um terremoto é muito semelhante à geração
dos incêndios secundários produzidos por uma explosão nuclear. O
pé-de-vento também destroçou estruturas, espalhou materiais
inflamáveis e impediu combate eficiente ao fogo causando baixas nas
equipes, estrago de equipamentos, ruptura de encanamentos de água
e obstrução de ruas. A bola de fogo nuclear em ascensão produziu
atrás de si uma tiragem, e a forte circulação assim estabelecida ativou
as chamas.
Os efeitos observados das explosões nucleares e incêndios no Japão
corroboram a nossa concepção das conseqüências de um ataque
nuclear maciço. É perfeitamente razoável extrapolar a destruição
registrada em Hiroxima e Nagasáqui para figurar a produzida num
ataque contra uma cidade moderna muito maior. Essa extrapolação
também se justifica através de avaliações teóricas detalhadas -
efetuadas por órgãos de governo - dos efeitos de explosões nucleares
em grandes centros urbanos. Deve-se notar que as tempestades
ígneas da Segunda Guerra Mundial em Hamburgo, Dresda e outras
cidades alemãs pressagiam a ferocidade dos incêndios nucleares que
ocorreriam em metrópoles modernas. Contudo os incêndios
prefigurados numa guerra nuclear futura seriam numa escala inédita e
muito mais intensos, deixando longe as conflagrações da Segunda
Guerra.
Há cinco estágios na evolução de um incêndio nuclear urbano. No
primeiro estágio, o relâmpago de luz de bomba vaporiza e incendeia
matérias inflamáveis numa extensa área. No segundo - o estágio de
sopro - a onda de pressão explosiva propaga-se pela cidade,
derrubando edifícios, ateando incêndios secundários e criando
condições adversas ao trabalho dos bombeiros. Neste ponto a bola de
fogo começa a subir, criando fortes correntes de convecção sobre a
área incendiada. O terceiro estágio do incêndio desenvolve-se na
esteira da explosão. Em meio à devastação geral, muitos dos
pequenos incêndios iniciais crescem de intensidade, produzindo
densos penachos de fumaça. Há certas dúvidas sobre o curso deste
estágio. É possível que, na maioria dos casos, os incêndios
continuariam a intensificar-se e a propagar-se, talvez por vários dias.
Essa queima destrutiva acabaria consumindo uma grande parte da
cidade.
Nas cidades mais compactamente edificadas, poderia, ocorrer o
quarto e mais espetacular estágio - uma "tempestade ígnea". Nesta,
muitos incêndios grandes independentes se fundem numa única e
violenta massa de fogo que envolve todo o núcleo da cidade. Numa
tempestade ígnea há um rápido desprendimento de energia térmica e
um poderoso fluxo de ar acima do fogo, com ventos ao nível do solo
soprando impetuosamente para o centro com a força de um furacão.
As tempestades ígneas criam gigantescos cúmulos sobre a área
incendiada. e densas chuvas negras na direção dos ventos. No quinto
e último estágio de um incêndio nuclear urbano, só resta o esqueleto
abrasado da cidade, coberto por um manto de fumaça acre.
Estes são apenas alguns rápidos vislumbres do que poderia acontecer
logo após um ataque nuclear. Embora uma grande soma de trabalho
já tenha sido aplicada em estimar os efeitos do fogo nuclear, entre
outros por Paul Crutzen, John Birks e o grupo TTAPS, é necessário
ainda muito mais para apurar a nossa compreensão. Não obstante,
todas as informações científicas aqui referidas levam a crer que a
inimaginável destruição imediata de um ataque nuclear pode ser
apenas um prelúdio de conseqüências retardadas ainda mais
catastróficas para os sobreviventes.

DR. PAUL J. CRUTZEN (membro do painel): Meu interesse neste


assunto começou há cerca de três anos, quando fui convidado a
escrever um artigo para a Ambio, a revista internacional de estudos do
ambiente da Real Academia Sueca de Ciências.
Devo confessar que, ao receber o convite para pôr-me a refletir nas
conseqüências atmosféricas de uma guerra nuclear senti uma grande
relutância; até tentei passar adiante a incumbência. Mas a editora-
chefe, Jeannie Peterson, insistiu em que eu escrevesse a respeito, e
eu por fim capitulei e passei a trabalhar no tema, junto com o Dr. John
Birks.
Começamos, por reexaminar a questão da perturbação do ozônio.
Sabia-se pelo estudo de 1975 da Academia Nacional de Ciências dos
Estados Unidos que haveria empobrecimento de ozônio quando os
óxidos de nitrogênio produzidos por explosões nucleares atingissem a
estratosfera. Depois disso, porém, viemos a verificar que os óxidos de
nitrogênio, embora destruam o ozônio na estratosfera, quando
depositados na troposfera têm o efeito oposto, produzindo ozônio. Foi
este o primeiro ponto por nós considerado. Quando NO e NO2 entram
em ação, a oxidação do monóxido de carbono com duas moléculas de
oxigênio dá origem a CO2 e ozônio como produtos finais.
Isso constituía uma importante modificação em relação ao que se
conhecia a partir do relatório de 1975. Tendo conseguido assim
alguma coisa sobre que trabalhar, estabelecemos novas estimativas
da formação de ozônio na troposfera pelas reações do smog
anteriormente mencionadas nesta Conferência.
Enquanto esse trabalho prosseguia, voltamos também nossa atenção
para a absorção de luz solar pelo dióxido de nitrogênio, que é parte do
esquema. Apuramos que os resultados eram significativos. Entretanto,
trabalhando nesse assunto, ocorreu-nos de repente que no caso de
ataques a cidades, pressuposto no cenário de guerra nuclear
elaborado pela Ambio, seriam ateados inúmeros incêndios. O fumo,
naturalmente, invadiria a atmosfera. E assim passamos a raciocinar
sobre a absorção de luz solar pelas partículas de fuligem negra em
suspensão.
A idéia ocorreu-nos apenas três meses antes da data aprazada para a
entrega do artigo à Ambio. Havíamos levantado uma questão
momentosa a respeito da qual tínhamos pouquíssimas informações,
elevamos cerca de dois meses à procura de estudos que tratassem do
problema. Não encontramos nenhum (sabemos hoje que nada existia
na literatura). A princípio isso deixou-nos muito, nervosos. Imaginamos
que os militares já deviam ter investigado o assunto, mas que não
teríamos acesso às conclusões. Não somos especialistas em física de
aerossóis e transferência de radiação; mesmo assim, resolvemos
enveredar por esse rumo. Na primeira fase da análise, examinei
principalmente um fenômeno de que possuía algum conhecimento:
incêndios florestais. Juntamente com alguns colegas, eu andara
pesquisando efeitos atmosféricos de incêndios florestais nas regiões
tropicais do Brasil.
Estimamos a quantidade de fuligem que seria produzida numa guerra
nuclear. Para grande surpresa nossa, verificamos que a fumaça e
fuligem dos incêndios interceptaria uma grande porção da luz solar
que normalmente chega à superfície da Terra.
Darei ciência aos senhores de alguns resultados de outro estudo que
realizei com o Dr. lan Galbally da CSIRO na Austrália, em que
procuramos estimar a quantidade de fumaça que seria produzida por
incêndios urbanos e industriais. Embora na memória original de
Crutzen-Birks esse ponto fosse mencionado como potencialmente de
enorme importância, estes novos resultados não constaram daquele
trabalho.
No novo estudo, o Dr. Galbally e eu consideramos a coagulação e as
propriedades ópticas das partículas de aerossol. As partículas que nos
interessam são principalmente as da faixa compreendida entre um
décimo de micro e um micro. Em sua maior parte, as partículas
produzidas por incêndios florestais têm inicialmente cerca de um
décimo de micro de diâmetro. Por coagulação, elas aumentam de
tamanho. Enquanto não ultrapassam um micro, são eficientes no
bloqueio da luz solar; e as partículas dessa faixa de tamanho são as
que persistem por mais tempo na atmosfera. Calculando as
propriedades ópticas efetivas das partículas em função das suas
dimensões (relação entre os tamanhos das partículas e os
comprimentos de onda), aplicamos fatores de eficiência medidos para
absorção e dispersão da luz. Consideramos também a coagulação de
partículas, pois quando estas se agregam tornam-se menos eficientes
por grama de material em absorver e dispersar a luz.
Ao calcular a quantidade de material que queimaria no caso de
incêndios em cidades, admitimos que um pulso de calor de 20 calorias
por centímetro quadrado seria suficiente para iniciar incêndios
extensos. Pode ser uma estimativa moderada. Coincide com a
experiência no caso de Nagasáqui, mas no de Hiroxima um pulso de
calor da ordem de apenas 7 calorias por centímetro quadrado foi
suficiente para atear incêndios em massa.
Nossos cálculos, baseados no cenário de guerra nuclear da Ambio,
mostram que mais ou menos meio milhão de quilômetros quadrados
de cidades queimariam. Admitiu-se que a massa de matérias
combustíveis em cidades fosse da ordem de 40 quilos por metro
quadrado. Parece-me que esse valor foi consideravelmente
subestimado, pois na maior parte das grandes cidades, pelo menos no
leste dos Estados Unidos e na Europa, a massa de matérias
combustíveis deve ser em torno de 200 quilos ou mais por metro
quadrado.
Admitiu-se também que só metade do material queimaria, porque o
sopro das detonações apagaria incêndios. Como esse sopro também
pode atear outros incêndios, esta é uma área de incerteza. Em razão
dessa indeterminação, é possível que tenhamos calculado por baixo.
Isto reflete uma decisão consciente que adotamos no trato da questão.
Mesmo partindo de hipóteses moderadas, os resultados são tão
impressionantes que não há risco de exagero, principalmente quando
demonstrando a importância de um estudo desse alcance. Nossa
intenção era evitar que as nossas estimativas pecassem por excesso.
No total, nossa análise mostrou uma produção de 300 a 400 milhões
de toneladas de fumaça, das quais 30% seriam de carbono elementar,
que absorve fortemente a luz (Quadro 1).
Nosso estudo indica que na faixa situada entre 30 e 60 graus
de latitude norte, onde de início ocorreriam os incêndios (área total de
aproximadamente 6 x 10 elevado a 13 metros quadrados),
praticamente nenhuma luz solar penetraria. A luz solar ao nível do solo
seria menos de um milionésimo da normal.
Em seguida, a fumaça seria transportada em grandes extensões, da
troposfera, e depois de um mês cobriria a maior parte do Hemisfério
Norte. Entrando na atmosfera, as partículas têm uma vida de 10 a 30
dias, e quando alcançam a estratosfera a sua duração é ainda maior,
resultando em diferentes graus de transmissão da luz solar à
superfície da Terra.
Nossos cálculos mostram que ao fim de um mês, considerando uma
vida de 30 dias das partículas em suspensão na atmosfera, e também
o efeito da coagulação, não mais que 10% da luz solar alcançariam o
solo. Com persistência mais curta das partículas, é claro, a quantidade
de luz atingindo a superfície seria maior. Mas mesmo nesses casos,
de 10 a 20% da luz solar seriam interceptados.
Inversamente, se a persistência das partículas em suspensão fosse
maior, a situação seria muitíssimo pior. Neste ponto eu encerro a
minha intervenção, pois o grupo TTAPS dispõe dos modelos para
prosseguir daqui. Eles já apresentaram os seus impressionantes
resultados, e com relação a esse trabalho eu nada tenho a criticar.
São especialistas de alta competência em pesquisas climáticas, e
dispõe dos melhores modelos no campo da radiação. Por isso, suas
conclusões devem ser vistas com grande seriedade.

DR. GEORGIY S. GOLITSYN (membro do painel): Há cerca de meio


ano, pediram-me que refletisse nas conseqüências atmosféricas e
climáticas de um conflito nuclear global.
Por muitos anos eu me ocupei de estudos planetários e participei nos
programas espaciais da União Soviética para Marte e Vênus. Dediquei
cerca de um ano e meio ao estudo das tempestades de poeira.
As tempestades de poeira de Marte originam-se numa faixa bastante
estreita, temperada, de latitudes do hemisfério sul do planeta. Em
poucas semanas uma tempestade de poeira espalha-se sobre o
planeta inteiro. Esse efeito de expansão deve-se principalmente à
forte realimentação não linear. A luz solar é absorvida pelas nuvens de
poeira, aquecendo a atmosfera no seu interior, ao passo que nas
regiões adjacentes a atmosfera é limpa e permanece fria. Em
conseqüência, cria-se uma circulação local de mesoscala que
concorre para espalhar a nuvem por sobre todo o globo com grande
rapidez.
O próximo membro do painel irá mostrar como isso atua nos modelos
de circulação geral. Mas os modelos devem ser verificados, e eu
penso que o exemplo de Marte serve bem para aferir as nossas
previsões.
O exame dos resultados do estudo, marciano suscitou esta pergunta:
Que importância tem isso para a humanidade? Vemos agora que eles
servem a uma necessidade básica: têm relação com a nossa
sobrevivência. Mostram o que poderia acontecer.
Durante uma tempestade de poeira a temperatura cai
consideravelmente; isto foi registrado por sondas Viking ao longo de
vários anos na superfície de Marte. Com a chegada de uma
tempestade de poeira a temperatura baixa entre 10 e 15ºC. Nosso
modelo simples mostra claramente essa queda de temperatura.
Com o advento de tempestades de poeira, o gradiente vertical de
temperatura da atmosfera marciana torna-se muito estável. A
atmosfera torna-se quase isotérmica. E isso tem uma profunda
influência na estrutura da circulação geral. Com o aumento da
estabilidade estática, a chamada instabilidade baroclínica da
atmosfera, responsável pela formação de ciclones, é amortecida. Na
atmosfera limpa de Marte os ciclones são muito regulares, muito mais
regulares que na Terra. Mas quando chega a poeira, os ciclones
deixam de existir, em conformidade com a teoria. É de esperar que o
mesmo acontecesse na Terra, com a nuvem de fumaça e pó cobrindo
o nosso planeta.
Como foi mencionado por Carl Sagan, eu tenho algumas concepções
sobre como e por que uma nuvem dessa espécie poderia influir
seriamente no ciclo hidrológico. Esse ciclo é importantíssimo - e não
só para nós seres humanos - porque continuamente recicla o
suprimento de água da Terra. E é principalmente pelas chuvas que a
poeira, fuligem e outros aerossóis são eliminados da atmosfera.
No caso da formação de uma nuvem nuclear de fumaça e poeira, o
que sucederia ao ciclo hidrológico? Haveria muito maior estabilidade
estática - um gradiente quase isotérmico - e até mesmo inversões.
Com isso, o ritmo de trocas de água entre a superfície e a atmosfera
por efeito de calor poderia ser seriamente afetado. Isto está bem claro,
porque a micrometeorologia da camada limítrofe é bem conhecida.
Há uma outra observação que eu fiz quando estudava as tempestades
de poeira, há uns 10 ou 12 anos. A atmosfera, quando carregada , de
partículas pesadas, como poeira, adquire estabilidade adicional
porque a poeira é mantida em suspensão pelas turbulências. Deste
modo a estabilidade atmosférica é aumentada, reduzindo
grandemente as trocas de calor e água com a superfície subjacente.
Por esta simples razão, haverá menos umidade absoluta, isto é,
menos vapor de água na atmosfera. A atmosfera se aquecerá, como
foi demonstrado por Carl Sagan, e como o nosso modelo também
mostra. A umidade relativa da atmosfera diminuirá consideravelmente,
e as condições necessárias à condensação de gotículas de água
estariam praticamente ausentes.
As condições de condensação seriam ainda menos favoráveis numa
atmosfera densamente carregada de partículas de aerossol. A
competição entre os centros de condensação, se os dois primeiros
efeitos estivessem operando, impediriam as gotículas de água de
atingir as dimensões de gotículas de chuva.
Outro efeito climático potencial que me ocorreu relaciona-se com a
diferença de temperatura entre os mares e os continentes. Os mares
não esfriariam tanto quanto os continentes, e assim se conservariam
mais quentes que estes. Isto poderia resultar numa circulação do tipo
da monção, no caso a monção de inverno.
Eu concordo com as pessoas que disseram aqui haver razões para
esperar muitas outras conseqüências negativas que ainda não nos
ocorreram.

DR. STEPHEN H. SCHNEIDER (membro do painel): Eu gostaria de


falar-lhes sobre "solidez". É uma palavra que os senhores ouviram
várias vezes nesta Conferência, principalmente na sessão de
perguntas e respostas. Refere-se ao fato de que os cálculos resistem
a críticas.
Os senhores também ouviram Paul Crutzen, Carl Sagan e outros
declararem que houve em cada um dos elementos grandes
incertezas, as quais se traduziram em divergências com respeito a
detalhes, mas em concordância quanto aos princípios gerais. "Como é
possível?", ouvi várias pessoas murmurarem no auditório. Por isso
abordarei esse ponto.
Mostrar-lhes-ei também os pressupostos básicos adotados num
modelo tridimensional de cálculo que desenvolvemos. Começamos
com o nosso modelo de circulação geral, e introduzimos nele um
aerossol de fumaça. O valor que aplicamos é de 200 milhões de
toneladas métricas, distribuídas uniformemente entre 300 e 700 de
latitude norte. Esse valor baseia-se no "caso de referência" do último
estudo da Academia Nacional de Ciências, presidido por George
Charrier. Essa quantidade de fumaça leva a uma profundidade ótica
de absorção igual a três.
A profundidade ótica é um valor determinado pela quantidade de
partículas em suspensão na atmosfera no trajeto de um feixe luminoso
diretamente incidente. Nossa profundidade ótica de absorção de três
foi aplicada a uma faixa entre 30 e 70 graus de latitude norte. Se a
nuvem de fumaça cobrisse o hemisfério inteiro, a profundidade ótica
seria cerca de 1,5. E se certos processos, de que falarei adiante,
fizessem a fumaça espalhar-se globalmente sem nenhuma forma de
eliminação, a profundidade óptica seria da ordem de 0,7.
Diria alguém: "Então o que há de sólido? A profundidade óptica parece
estar diminuindo muito rapidamente." Mas agora deve-se considerar a
quantidade de luz que passaria; é o que se chama transmissão. Como
os raios do sol têm uma trajetória oblíqua, o ângulo típico multiplica o
percurso dos raios por dois. Assim, para uma profundidade ótica de
absorção igual a três entre 30ºN e 70ºN, apenas cerca de 0,2 a 1% da
luz do sol atravessaria a nuvem de fumaça no cenário de latitudes
médias, o que quase certamente resultaria em escurecimento e frio,
como foi dito. Em base hemisférica, passariam cerca de 5% da luz
solar, pois no Hemisfério Norte 95% seriam absorvidos pela nuvem de
fumaça. Isto é perfeitamente coerente com o cenário de referência do
TTAPS.
Em base global, 200 milhões de toneladas de fumaça resultam em
que a transmissão seria da ordem de 25%, significando que 75% da
luz solar seriam absorvidos acima da superfície. Isto ainda implica um
distúrbio climático de grandes proporções.
Os resultados mostram-se sólidos porque o valor de 200 milhões de
toneladas métricas adotado para a quantidade total de fumaça está
longe de representar o pior caso; um caso pior pode envolver uma
quantidade várias vezes maior de fumaça e pó. Há quem argumente
que processos de eliminação e outros fenômenos poderiam reduzir
esse valor. No entanto, dada a natureza exponencial da profundidade
ótica, fica ainda uma boa probabilidade, pelo menos em extensas
áreas do Hemisfério Norte, de que a maior parte da luz solar seria
absorvida acima da superfície durante as primeiras semanas depois
dos incêndios.
O que significam essas profundidades óticas de absorção no cálculo
de um modelo de clima? Existem diferenças entre modelos de uma,
duas e três dimensões, e o tempo não me permite abordar mais que
um ou dois detalhes dessas diferenças. Os modelos unidimensionais
usados nos relatórios TTAPS supõem a atmosfera passiva, isto é, que
basicamente ela fica como está e irradia energia para cima e para
baixo. Introduz-se a fumaça, ou a poeira, e calculam-se as
temperaturas com base na troca de energia radiante. O que acontece
no mundo real, é claro, é que a fumaça e a poeira se dispersarão
absorvendo energia solar que modificará as temperaturas
atmosféricas, o que, por sua vez, causará uma perturbação nos
movimentos da atmosfera, que transportarão a fumaça em diversas
direções. Isso pode agravar ou reduzir os efeitos climáticos; isto é,
pode produzir realimentação negativa ou positiva dos resultados do
modelo de clima. O que agora podemos fazer com o nosso modelo
tridimensional é contar apenas metade da história. Podemos introduzir
a fumaça, que então perturba os movimentos; podemos observar
como os movimentos são perturbados, como isso influi na temperatura
e a probabilidade de a fumaça ser transportada para fora da zona de
guerra. Infelizmente, nem nós do NCAR (Centro Nacional de
Pesquisas Atmosféricas) nem ninguém mais foi ainda capaz de tomar
essa fumaça e transportá-Ia de um lado para outro no modelo de
modo realista, o que, como eu disse antes, poderia melhorar ou piorar
a situação. Falarei agora de alguns resultados de modelo que dão
margem a especulações quantitativas com relação a uma e outra
possibilidade.
Trabalhando com um modelo tridimensional, meus colegas Curt Covey
e Starley Thompson e eu consideramos primeiro um caso de julho em
que 200 milhões de toneladas métricas de fumaça se distribuíssem
uniformemente entre aproximadamente 30 e 70 graus de latitude no
Hemisfério Norte. Verificamos que haveria perturbações importantes
da temperatura da atmosfera. Haveria altas temperaturas atmosféricas
no plano superior da nuvem, e intenso esfriamento abaixo dela,
próximo à superfície, nas áreas continentais. A temperatura na nuvem
aumentaria da ordem de 80ºC, e o ar abaixo da nuvem ficaria mais
frio. Nesse caso a temperatura máxima na alta atmosfera seria de uns
300 graus Kelvin (27ºC) e ocorreria entre 50 e 70 graus de latitude e a
uns 8.000 metros de altitude. Também isto é coerente com os
resultados do TTAPS, ainda que os números sejam diferentes, porque
o nosso modelo é sazonal e tridimensional, levando em conta os
efeitos dos ventos, e o TTAPS é um modelo unidimensional, com base
em médias anuais e sem efeitos dos ventos.
Vejamos agora as temperaturas superficiais, ainda para um caso de
julho. Temos três ilustrações (Fig. 1). A primeira (t = 0) é o caso de
controle, representando as temperaturas normais típicas de um dia de
julho. Nas áreas hachuradas as temperaturas são inferiores a 270
graus Kelvin ou menos três graus centígrados.
A segunda ilustração mostra o que acontece dois dias depois da
injeção de uma nuvem de fumaça entre as latitudes de 30ºN e 70ºN.
Há temperaturas de congelamento da água no noroeste dos Estados
Unidos, bem como em bolsões na Europa central, no planalto tibetano
e numa parte da URSS. O que aconteceu, naturalmente, é que a luz
do sol foi em grande parte interceptada e as temperaturas de julho
caíram abaixo do ponto de congelamento no espaço de apenas dois
dias. A princípio esses resultados nos surpreenderam, até que nos
lembramos de que a diferença de temperatura da noite para o dia é da
ordem de 5 a 20ºC. Assim, dois dias sem quase nenhuma luz
alcançando a superfície da Terra equivalem mais ou menos a quatro
noites contínuas; portanto não chega a ser tão espantoso que as
temperaturas caiam tão depressa.
Figura 1: Temperatura superficial no modelo NCAR de perturbação
por fumaça: simulação de julho, em três instantes dados. t = 0 dias é o
tempo imediatamente anterior à introdução de fumaça na atmosfera.
As isotermas são traçadas de 10 em 10 graus K. As áreas com
temperaturas inferiores a 2700K (i.e., abaixo do ponto de
congelamento da água) são hachuradas. O valor máximo das
isotermas na zona tropical é de 300ºK (27ºC). (Fonte: C. Covey, S.H.
Schneider e S. L. Thompson, "Global Atmospheric Effects of Massive
Smoke Injections from a Nuclear War: Results from General
Circulation Model Simulations", Nature, Vol. 308, pp. 21-25, março de
1984.)

A terceira ilustração representa a situação 10 dias após a introdução


da fumaça na atmosfera do modelo. A essa altura o frio se espalhou e
a temperatura caiu bem abaixo do ponto de congelamento em regiões
extensas da América do Norte e da Eurásia. Na Europa faz menos frio
que no Dia 2, em parte porque a perturbação resultou em ventos mais
fortes do mar para a terra, o que tende a reduzir o efeito de
esfriamento. Em média, as temperaturas na superfície das terras
caem 20ºC em julho, e talvez metade disso no caso de abril.
Também usamos o modelo para estudar as alterações dos ventos.
Considere-se, por exemplo, o mês de abril (ver Fig. 2). Em condições
normais, o ar sobe na faixa do equador e zona tropical, depois inflete
para fora e desce nas zonas subtropicais dos dois hemisférios. Essa é
a maneira normal, e recebe o nome de circulação tropical de Hadley.
Mas 16 a 20 dias depois do aparecimento da fumaça, o
comportamento dos ventos seria muito diferente. Daqui a pouco,
Vladimir Aleksandrov irá mostrar-lhes uma simulação russa que é
bastante semelhante à nossa no NCAR.
Em contraste com a circulação normal de Hadley, o comportamento
alterado dos ventos de julho, ou de abril, seria como o de um outro
planeta. Em razão das mudanças na circulação atmosférica,
provavelmente a fumaça subiria nas latitudes médias e em seguida
seria arrastada para o Hemisfério Sul. Sem dúvida isto vem reforçar
quantitativamente certas especulações do ano passado de que a
fumaça ou poeira seria carreada para o alto, atingindo a estratosfera e
passando para o outro lado do equador. Infelizmente no modelo NCAR
a fumaça não interage com os ventos, de modo que é difícil dizer se a
nuvem se espalharia mais depressa ou mais devagar do que indicam
os nossos mapas de ventos alterados. Também, a resolução do nosso
modelo é muito grosseira para permitir uma simulação realista dos
efeitos da chamada "mistura de mesoscala", que poderiam remover e
dispersar a fumaça em tempos diferentes dos previstos.
Nossos estudos também mostram que as mudanças de circulação
variam consideravelmente de uma estação para outra. São muito mais
pronunciadas em julho e menos em janeiro, embora sejamos levados
a crer que uma parte da fumaça poderia ser transportada para fora
das latitudes médias do Hemisfério Norte em qualquer estação. É
preciso examinar os resultados obtidos de modelos tridimensionais
com processos interativos de radiação, remoção e transporte para
chegar a um grau razoável de segurança quantitativa. No entanto tudo
que até aqui vimos sugere que, embora os detalhes dos diversos
estudos atmosféricos das conseqüências de uma guerra nuclear
variem, o quadro básico de grave preocupação subsiste. E nós
continuamos trabalhando para comprovar com precisão a solidez dos
resultados finais.

DR. VLADIMIR ALEKSANDROV (membro do painel): Eu gostaria de


exibir alguns dos resultados por nós obtidos com emprego de um
modelo tridimensional hidrodinâmico de clima no Centro de
Computação da Academia de Ciências da URSS. O programa de
clima que usamos foi criado alguns anos atrás. O trabalho que vou
apresentar foi inspirado pela minha participação num seminário em
Cambridge em abril de 1983, promovido pela Conferência sobre o
Mundo após uma Guerra Nuclear.
Aplicando o cenário TTAPS, nós espalhamos os poluentes - fuligem e
poeira - uniformemente sobre o Hemisfério Norte no tempo zero, isto
é, imediatamente após uma guerra nuclear. A fuligem e a poeira em
suspensão absorvem energia, de modo que a nuvem de poluentes se
aqueceria; mas embaixo, próximo à superfície da Terra, haveria queda
de temperatura.
Quarenta dias depois da formação da nuvem de fuligem e poeira (Fig.
3), a temperatura no Hemisfério Norte teria caído em 20 graus
centígrados. E ao fim de oito meses, 243 dias após o Dia 0, a baixa de
temperatura ainda seria da ordem de 10 graus centígrados.
A taxa de declínio, ou o gradiente vertical de temperatura do ar, mostra
como a temperatura atmosférica varia com a altitude. Nosso modelo
demonstrou que haveria fortes desvios da taxa normal de declínio em
seguida a uma guerra nuclear. Isto poderia alterar a circulação geral,
suprimindo consideravelmente o movimento vertical da atmosfera. O
ciclo hidrológico seria interrompido, impedindo a lavagem natural da
poeira e fuligem da atmosfera pelas chuvas.
Figura 2: Circulação atmosférica no modelo do INCAR para a
simulação de abril. As setas indicam a direção do movimento. O tempo
médio corresponde aos Dias 16 a 20. A área da carga de fumaça
introduzida é indicada pelo retângulo tracejado. São mostrados o caso
de controle (simulação sem fumaça) e o caso de perturbação (ensaio
de fumaça). O padrão circulatório normal é drasticamente alterado no
caso de perturbação (Fonte: S. L. Thompson, V. V. Aleksandrov, G. L.
Stenchikov, S. H. Schneider, C. Covey e R. M. Chervin, “Global
Climatic Consequences of Nuclear War: Simulations with Three-
Dimensional Models”, no prelo, Ambio).

Figura 3: A variação das temperaturas do ar na superfície (graus


centígrados) com a latitude, do Pólo Norte ao Pólo Sul, nos Dias 40,
243 e 378 após o começo de uma guerra nuclear.
Figura 4: Circulação atmosférica nos Dias 0 (a) e 297 (b).

Figura 5: A mudança de temperatura do ar na superfície no Dia 40.


Linhas cheias – temperatura de 0ºC ou menos. Cada isoterma
representa uma diferença de cinco graus para mais ou para menos em
relação à vizinha.

Figura 6: A mudança de temperatura do ar na superfície no Dia 243.


As linhas cheias indicam temperatura de 0ºC ou menos. As linhas
interrompidas indicam temperaturas acima de 0ºC.

Também estudamos a função fluxo; Stephen Schneider já mostrou os


resultados análogos do seu estudo. Verificamos que os padrões de
circulação geral da atmosfera mudariam drasticamente: mesmo 297
dias após a injeção da fuligem e poeira (Fig. 4b), os padrões de
circulação natural ter-se-iam alterado a um ponto tal que a fuligem e a
poeira atmosféricas produzidas no Hemisfério Norte seriam
transportadas para o Hemisfério Sul. Assim, a situação do Hemisfério
Sul, incluídas as zonas tropicais, seria tão má quanto a do Hemisfério
Norte.
Num espaço de 40 dias a contar do Dia O (Fig. 5), a temperatura
superficial na parte ocidental dos Estados Unidos teria baixado em até
30 graus centígrados, no leste dos Estados Unidos em até 40ºC, na
Europa em até 50ºC, no golfo Pérsico em até 50ºC e no Ártico em até
15ºC.
Oito meses (242 dias) após a injeção de poeira e fumaça na
atmosfera, a temperatura nos Estados Unidos e na União Soviética
ainda estaria 30ºC abaixo da normal (Fig. 6). Na Arábia Saudita estaria
20ºC abaixo da normal; na África, até 10ºC abaixo da normal. Ao
fazermos esses cálculos, nós não levamos em conta o transporte de
fuligem e poeira dos Hemisférios Norte e Sul (embora devêssemos tê-
Io feito). Se tivéssemos considerado esse efeito em nossos cálculos, a
situação no Hemisfério Sul seria ainda mais séria que a mostrada nas
ilustrações.
Eu gostaria de ressaltar a importância de um certo efeito que
descobrimos quando trabalhávamos nessa simulação. Oito meses
depois do surgimento da fuligem e poeira, a parte superior da
troposfera torna-se muito quente e altitudes menores muito frias. Em
conseqüência, os sistemas de montanhas altas seriam submetidos a
um aquecimento intenso: o ar no planalto tibetano ficaria até 20ºC
mais quente que o normal, e nas Montanhas Rochosas até 7ºC mais
quente que o normal. Isso causaria a fusão da neve e das geleiras das
montanhas, provavelmente resultando em enchentes de dimensões
continentais - repito, para frisar: de dimensões continentais.
Agora voltamos nossa atenção para a dinâmica da função fluxo da
circulação geral. Devido às perturbações causadas pela fuligem e
poeira, o ramo sul da Célula de Hadley aumentaria de intensidade e
Se deslocaria para o sul em 35 dias a contar do Dia 0. Em
conseqüência, a fuligem e poeira do Hemisfério Norte seriam
carreadas para o Hemisfério Sul. Ao mesmo tempo, a intensidade do
ramo norte da Célula de Hadley de circulação geral reduzir-se-ia umas
10 vezes. A mesma tendência continuaria até o Dia 70. Até o Dia 105,
o padrão da função de fluxo normal estaria completamente alterado.
Eu gostaria de frisar que as nossas experiências foram extremamente
simples. O meio que estudamos, o ar, é fluido, portanto procuramos
calcular como esse fluido reagiria à variação de densidade ótica induzi
da pelas conseqüências de uma guerra nuclear.
Foi nesta Conferência que vi pela primeira vez as ilustrações
apresentadas por Steve Schneider relativas ao trabalho feito no
Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica. Tive grande satisfação em
ver que embora os seus experimentos sejam completamente
diferentes dos nossos - os modelos são diferentes e os computadores
também - os resultados são basicamente os mesmos.

Perguntas
DR. THOMAS MALONE: Este painel mostrou que existem análises
científicas amplas e diversificadas que corroboram a apresentação de
Carl Sagan.

DR GEORGE M. WOODWELL: Estamos todos impressionados pelo


caráter óbvio dessas revelações. Ao mesmo tempo que
impressionado, sinto-me um tanto curioso quanto ao porquê de não
termos sabido isso antes. É raro alcançar uma tal unanimidade entre a
comunidade científica, e isto deve significar que estamos tratando de
matéria de senso comum. Por que, então, terão sido precisos 38 anos
para que essa brilhante e capacitada comunidade científica se
pusesse de acordo num tema de tanta importância e magnitude?

MALONE: Estávamos à espera de que um Paul Crutzen nos


estimulasse as idéias.
JOHN STEINBACK: Se a temperatura sobe radicalmente, rompendo o
ciclo hidrológico, não ocorreria uma acumulação gradual de
evaporação na atmosfera? E após um tempo, quando as partículas de
pó começassem a assentar, não sobreviriam a certa altura, bem
depois do cataclismo, chuvas torrenciais de grande intensidade que
desnudariam por completo a vegetação?

DR. STEPHEN SCHNEIDER: Eu confio muito pouco nas projeções


dos nossos modelos além de uma ou duas semanas, simplesmente
porque eles não são interativos: não misturam a fumaça a outras
coisas. Portanto, qualquer coisa que eu dissesse seria pura
especulação intuitiva. E a resposta intuitiva que eu lhe daria é:
"Depende." As temperaturas dos mares não mudariam muito. A
evaporação poderia diminuir. Nosso modelo sugere que as camadas
inferiores da atmosfera teriam maior umidade relativa, mas menor
umidade absoluta, e as camadas mais altas muito pouca umidade e
ausência de nuvens. O que aconteceria em relação a chuvas é muito
difícil de prever, se bem que, em ocorrendo modificações de tamanha
envergadura, quase tudo pode acontecer.

DR. ALAN ROBOCK (professor de Meteorologia do Departamento de


Meteorologia da Universidade de Maryland): Recentemente, Cliff Mass
e eu fizemos um estudo que, penso eu, constitui um bom análogo para
o que aconteceria com a nuvem de poeira. Nós examinamos as
temperaturas superficiais depois da erupção vulcânica do Monte St.
Helens, quando a atmosfera ficou saturada de pó por vários dias.
Verificamos que as temperaturas superficiais não baixaram, mas que
permaneceram relativamente constantes. As noites foram mais
quentes do que seriam sem a poeira, e os dias mais frios do que seria
de esperar. Interpretamos o fato como significando que a superfície
estava entrando em equilíbrio com a atmosfera saturada de pó, e que,
completamente isolada da radiação solar provinda do espaço exterior,
não esfriava porque era aquecida pela radiação infravermelha da
poeira.
Eu perguntaria aos elaboradores do modelo: os senhores levaram em
consideração a radiação de ondas longas em seus cálculos? Porque
se se elimina a radiação de ondas curtas haverá, naturalmente, um
efeito de esfriamento. Mas a camada quente de poeira em suspensão
deveria produzir um efeito de aquecimento na superfície.

SCHNEIDER: Eu gostaria de comentar esse ponto. A situação de pós-


guerra nuclear não seria, a meu ver, análoga à do Monte St. Helens.
As propriedades dos aerossóis de fumaça nuclear, ao que nos é dado
observar, são tais que a opacidade ao infravermelho é uma ordem de
grandeza inferior à opacidade à luz visível. Para uma profundidade
ótica de 3 a 5 no espectro visível, a profundidade ótica no
infravermelho é menos de 1. Por isso a luz solar é bloqueada em
grandes altitudes, e a superfície ainda esfria pela irradiação de energia
de infravermelho para o espaço através da camada de fumaça. Daí
resulta uma inversão progressiva, e esta é a explicação para o
esfriamento da superfície.
De fato, se houvesse dez vezes mais fumaça, talvez se evitasse um
esfriamento pronunciado da superfície, pois se a opacidade da
atmosfera ao infravermelho é suficientemente grande, a atmosfera
torna-se quase isotérmica, como no caso da nuvem de cinzas do
Monte St. Helens. É irônico que, no caso peculiar de um excesso de
fumaça, o efeito de esfriamento da superfície poderia desaparecer.
(posteriormente, quando parte da fumaça se dissipasse, o esfriamento
ocorreria.) Só quando a opacidade visível da fumaça está na faixa de
1 a 10 é que a opacidade ao infravermelho é tão baixa que na verdade
deixa de ser um fator importante. Pelo menos é o que mostram os
modelos unidimensionais de radiação-convecção.

DR. PETER SHARFMAN (Comissão de Avaliação Tecnológica do


Congresso dos Estados Unidos): Refletindo a exposição anterior do
Dr. Sagan, não consigo perceber de que forma a quantidade de
fuligem na atmosfera responde a diferentes fatores: número de armas,
megatonagem total, ou talvez megatonagem equivalente total; ou
percentagem de explosões sobre áreas urbanas, florestas ou silos de
mísseis; ou explosões de superfície em silos de mísseis. Alguém do
painel poderia explicar como essas coisas se relacionam?

DR. RICHARD TURCO: Os valores relativos à quantidade de fuligem


são função da potência explosiva total sobre áreas urbanizadas e
sobre florestas; naturalmente, isso depende dos cenários. No estudo
TTAPS nós levamos em conta um grande número de cenários e uma
ampla gama de suposições com respeito a ataques dirigidos a cidades
ou arredores de cidades. As emissões de fuligem dependem em alto
grau do número de explosões sobre áreas urbanas, as quais contêm a
maior concentração de matérias inflamáveis que produzem a fumaça
mais escura. Não obstante, explosões sobre florestas e pastagens
podem gerar quantidades adicionais de fumaça. Outros fatores
importantes são a carga de materiais combustíveis e a probabilidade
de queima, e quanto a isto os dados disponíveis são limitados.

DR. J. ALLAN KEAST (professor de Biologia da Universidade Queens


em Kingston, Ontário, Canadá): Poderia o Dr. Schneider ou o Dr.
Aleksandrov pormenorizar o mecanismo de transferência de material
do Hemisfério Norte para o Sul? Segundo o Dr. Aleksandrov, uma
transferência substancial começaria em cerca de 35 dias. O Dr.
Sagan, se bem entendi, mencionou uma diferença de temperatura que
afetaria em grau considerável esse movimento. De acordo com o
cenário que nos foi apresentado, haveria a formação inicial de uma
frente de fumaça no Hemisfério Norte, que em seguida se deslocaria
rapidamente para o Sol. Que mecanismo determinaria isso, e o
deslocamento não seria de penachos em vez de em massa?

ALEKSANDROV: Nossos enfoques iniciais deste problema mostram


que a transferência deve refletir-se no modelo elaborado. Embora os
resultados possam até certo ponto variar, a variação deve-se a que a
transferência da nuvem de fuligem e poeira para o Hemisfério Sul
produziria resultados bastante diferentes na situação por mim
apresentada e na que foi apresentada pelo Dr. Schneider. Portanto é
essencial considerar a transferência para o Hemisfério Sul.

SCHNEIDER: O cavalheiro da Universidade Queens está


absolutamente certo; o mecanismo de transporte que encontramos
não é um movimento meridional médio de baixa velocidade. Lembre-
se, também, de que o nosso modelo não é interativo. Nós verificamos
que o movimento médio em direção ao Sul em abril e julho é da ordem
de 3 a 5 metros por segundo no ramo superior da Célula de Hadley
alterada, de modo que levaria três semanas para deslocar a fuligem
das latitudes médias para a zona tropical se fosse esse o mecanismo
de transporte.
O movimento médio é o resíduo de muitos jatos pequenos, e
esses jatos têm velocidades entre 20 e 50 metros por segundo. Isto
significa que feixes ou manchas de fuligem poderiam partir, por
exemplo, da costa leste dos Estados Unidos ou da Sibéria e chegar
aos trópicos em tempo bastante curto.
Nós estudamos feixes a 500 e 200 milibares (cerca de 5 e 12 mil
metros de altitude, respectivamente). Aliás, em um dos casos que
estudamos, uma mancha de fumaça poderia ter alcançado a Austrália
em mais ou menos três dias. É certo que isto não bastaria
necessariamente para cobrir de fumaça todo o Hemisfério Sul, mas se
grandes nuvens de fuligem fossem transportadas milhares de
quilômetros e persistissem ainda que por poucos dias, poderiam
resultar quedas bruscas de temperatura no espaço de alguns dias. O
quadro geral seria a princípio bastante descontínuo; haveria um
grande número de feixes, que acabariam por misturar-se.

DR. PAUL CRUTZEN: De início, nas nuvens de fumaça,


principalmente na parte superior das nuvens, o aquecimento pela
radiação solar seria tão desmedido que se formariam sistemas locais
de circulação intensa. Eu calculei uma taxa de aquecimento de 40
graus por hora na parte de cima das nuvens. Pode-se imaginar o que
aconteceria então: a fumaça subiria rapidamente para a alta
atmosfera.

ALEKSANDROV: Os penachos projetados da nuvem de pó e fuligem


podem formar gradientes de temperatura fortemente acentuados,
dependendo da latitude. No caso mencionado pelo Dr. Schneider, o
quadro será absolutamente tridimensional, e só modelos
tridimensionais podem resolver essas questões.

DR. MARTIN H. EDWARDS (diretor do Departamento de Física do


Colégio Real Militar do Canadá; ex-presidente da Federação
Canadense da Natureza): Os que não querem acreditar nos
resultados destes estudos irão recorrer ao que esperam seja uma
única falha fatal na argumentação, e eu estou certo de que alegarão o
fato de já ter havido milhares de testes de armas nucleares. Houve até
casos de um único teste produzindo 58 megatons, e não ocorreu
nenhum efeito climático catastrófico. Acho que deve ser esclarecida a
improcedência dessa crítica potencial, e pediria ao painel que o
fizesse.

DR. JOHN HOLDREN: Como foi dito várias vezes ontem, os testes
realizados, embora somando uma megatonagem bastante
considerável, representam eventos isolados e foram todos levados a
efeito em condições que não produziram grandes incêndios. Um dos
pontos capitais que deve ser repetidamente enfatizado é a fonte
primária da diferença entre os cálculos apresentados nesta
Conferência e cálculos anteriores. Os novos cálculos levam em conta
os incêndios em grande escala e a grande produção de fuligem que,
naturalmente, não ocorreu nas circunstâncias de nenhum teste
nuclear, mas que ocorreria numa ampla gama de circunstâncias em
caso de uma guerra nuclear real.
DR. JOSEPH ROTBLAT (professor emérito de Física da Universidade
de Londres; Conferências do Conselho Pugwash sobre Ciência e
Assuntos Mundiais): Que hipóteses foram adotadas com respeito à
duração do conflito nuclear? Levaria uma hora, dias, semanas? E qual
a sensibilidade do seu modelo à duração do conflito?

TURCO: Nossa suposição foi de que uma guerra nuclear duraria um


tempo muito curto, da ordem de dias. Embora haja outros conceitos de
guerra nuclear, em que o conflito se estenderia por meses,
consideramos mais realista supor que a troca de ataques seria
bastante breve. O efeito de uma guerra prolongada dependeria da
duração absoluta. Se o conflito durasse uma semana, os efeitos óticos
e climáticos seriam provavelmente piores porque o material seria mais
extensamente dispersado pelos ventos atuantes durante um maior
período de injeção. Se o conflito se estendesse por meses ou anos -
se é que um tal conceito de guerra nuclear sequer mereça ser
considerado -, os efeitos do inverno nuclear seriam possivelmente
reduzidos, porque haveria tempo para que nuvens isoladas de fumaça
e poeira fossem eliminadas por processos naturais antes que outras
fossem injetadas, e não ocorreria a acumulação de detritos.

ROTBLAT: Minha observação é que, no seu cenário, 43% das


explosões são no ar. Ora, se se começasse por outras armas que
produzissem uma certa carga de partículas, especialmente na
atmosfera, e depois ocorressem explosões no ar, os produtos seriam
aprisionados na troposfera e poderiam resultar ulteriormente numa
precipitação atmosférica maior. Também devemos considerar as
informações apresentadas pelo Dr. Golitsyn, que podem
contrabalançar este aspecto.
Os cálculos aqui apresentados dão um nível de radiação secundária
de cerca de 50 rads. Esses 50 rads, em raios gama externos,
distribuir-se-iam por um espaço de tempo mais longo. Portanto não
produziriam sintomas sérios. A taxa de degeneração das células
sanguíneas é maior do que a taxa em que seria recebida a radiação.
Assim, creio que não devemos incluir esse efeito como causa de
afecções iniciais. Por quê? Porque há efeitos sérios à longo prazo -
efeitos carcinogênicos e possivelmente genéticos. A mim me parece
que os efeitos aqui descritos já são tão sérios que a consideração dos
efeitos da radiação pouco acrescenta às conclusões.

TURCO: O comentário sobre a exposição à precipitação radioativa é


justo. Nós só enfatizamos os valores da exposição retardada à
radiação porque a sua ordem de grandeza é maior que a
anteriormente estimada. Isto faz ressaltar a necessidade de contínua
reavaliação e atualização dos efeitos potenciais de uma guerra
nuclear.

JOHN A. HARRIS (Clube de Roma): Em sua exposição, o Dr. Sagan


disse que se A atacasse e destruísse B, A seria apanhado em sua
própria rede. Eu gostaria de saber o que o painel pensa a respeito,
pois isso tem implicações políticas tremendas, como os senhores
obviamente sabem. Também gostaria de saber se os soviéticos
pensam do mesmo modo.

MALONE: Haverá alguém neste painel que discorde da afirmação de


Carl Sagan de que um primeiro ataque seria de fato suicida? Não foi o
que você disse, Carl?

SAGAN: Alguns primeiros ataques não seriam suicidas. Um primeiro


ataque pode não ultrapassar o limiar. Mas a essência da maioria dos
cenários de primeiro ataque, como eu os entendo, é neutralizar
decisivamente uma fração considerável da capacidade de retaliação
do outro lado. De pronto isto sugere o emprego de grande potência
explosiva, que excederia o limiar.
Há pouco, George Woodwell colocou uma questão importante, pois,
pelo que sei, os conhecimentos básicos de física e química
necessários à previsão do inverno nuclear já existiam entre 10 e 20
anos atrás. Afinal, existem grandes departamentos nos órgãos de
defesa dos Estados Unidos e da União Soviética, com verbas de
centenas de milhões de dólares por ano, cuja responsabilidade é
analisar as conseqüências de uma guerra nuclear. Ademais, é função
deles informar ao presidente dos Estados Unidos e ao presidente da
União Soviética o que pode acontecer se tais ou quais linhas de ação
forem seguidas.
É portanto uma boa pergunta, para a qual também eu gostaria de ter a
resposta: por que não era tudo isso do conhecimento dos órgãos de
defesa 20 anos atrás?

SCHNEIDER: Eu gostaria de responder à pergunta sobre se nós do


painel concordamos com a declaração de que um primeiro ataque
seria suicida. Vários dos doutores meus colegas e eu discutimos este
ponto; é o que chamamos de "cenário de feedback de primeiro
ataque", em que o atacante é vencedor durante duas semanas, até
que a nuvem nuclear de fumaça e poeira volta sobre ele. Mas,
naturalmente, a afirmação só vale se a escala do primeiro ataque for
suficientemente grande para ultrapassar o limiar de que falamos aqui.
Só que não devemos tomar o termo "limiar" muito literalmente, pois
não existe uma linha mágica subitamente cruzada quando se passa
dos 100 megatons. Como foi dito ontem, os números correspondentes
aos efeitos de super-esfriamento baseiam-se em toda uma série de
suposições; e se estas forem exageradamente otimistas, o "limiar"
para efeitos climáticos sérios pode situar-se abaixo de 100 megatons.
Em suma, eu vejo a questão dos efeitos climáticos como um espectro
contínuo com probabilidade decrescente de conseqüências
agravadas, isto é, quedas rápidas localizadas de temperatura no
extremo mais favorável do espectro, e inverno nuclear global
prolongado no outro extremo.
Mas se a megatonagem total atingir ou ultrapassar as vizinhanças do
chamado limiar, e muitas cidades forem atingidas, não há motivo para
duvidar que o atacante sofra os mesmos efeitos ambientais de
escuridão e frio que o atacado.
DR. KARL Z. MORGAN (professor-adjunto do Departamento de Física
e Astronomia da Universidade Estadual dos Apalaches; antes, do
Laboratório Nacional de Oak Ridge): Com respeito à radiação, a
ênfase parece ter sido colocada na exposição corporal, talvez em
relação direta com a leucemia. Contudo dever-se-ia dar mais atenção
às afecções malignas que atacariam órgãos específicos, como os
pulmões, o cólon e a tiróide.
Eu gostaria de comentar outro ponto relativo à radiação. Ouvimos
várias vezes que a dose letal para 50% dos indivíduos expostos
(LD50) seria em torno de 400 a 450 rems. No entanto, havendo lesão
do sistema imunológico ou do sistema reticular do endotélio, há bons
motivos para crer que a LD50 seria por volta de 50 a 100 rems.
Por enquanto há poucos dados em relação ao homem; só há registro
de 10 casos de morte por síndrome de radiação, e num desses casos,
a dose estimada de radiação foi de menos de 200 rems.

HOLDREN: Eu gostaria de frisar que o objetivo central do trabalho


apresentado nesta Conferência não foi analisar as conseqüências
relativamente imediatas de altas doses de radiação, tendo sido este
um dos aspectos mais exaustivamente estudados da guerra nuclear
em pesquisas precedentes. Os novos valores no tocante à exposição
à radioatividade surgiram mais ou menos como um resultado
inesperado do estudo dos efeitos retardados. Foi o cálculo da
precipitação à médio prazo, em particular, que concorreu para valores
de dose total maiores que os anteriormente estimados. Um estudo
detalhado da adição da precipitação à médio prazo às conseqüências
já bem estudadas da precipitação imediata exigiria uma grande soma
de trabalho.
Eu concordo que as questões que o senhor levantou devem ser
examinadas. E acrescentaria que as doses de radiação são
importantes no contexto deste estudo, não apenas em termos de
efeitos diretos no homem câncer, alterações genéticas, etc. - como
são de alto interesse para o ecologista, em termos de conseqüências
para os sistemas ecológicos de doses de radiação na faixa de
dezenas e centenas de rems atuando em grande escala e em vastas
extensões. Há muitos detalhes a serem estudados no futuro. No
entanto transcenderia os fins deste estudo inicial entrar nos
pormenores deste tema.

SRA. MYRTLE JONES (Sociedade Audubon de Mobile Bay): É com


grande satisfação que vejo o comparecimento dos soviéticos aqui e
sua participação neste evento. Minha pergunta é: seria possível uma
conferência desta natureza na Rússia, com pessoas das mais
diversas profissões discutindo este tema? E haveria a possibilidade de
os seus governantes e os nossos e os governantes da China e da
Inglaterra se reunirem em tomo de uma mesa, serem cientificados
destas descobertas e chegarem a soluções razoáveis?

DR. GEORGIY GOLITSYN: Em maio último tivemos em Moscou uma


conferência semelhante a esta, em que várias conseqüências -
biológicas, climatológicas e sócio-psicológicas - foram debatidas. Os
trabalhos foram divulgados nas Atas da Academia de Ciências de
setembro.

SRA. JONES: Em inglês?

GOLITSYN: Por enquanto só em russo, mas eu tenho comigo


algu mas cópias, caso alguém se interesse. Imaginei que poderiam
ser traduzidas neste país.

PAINEL SOBRE CONSEQÜÊNCIAS BIOLÓGICAS


DR. GEORGE M. WOODWELL (presidente do Painel sobre Efeitos
Biológicos): Em se tratando de problemas complexos como estes, que
afetam a Terra inteira, e em que a experimentação e a própria coleta
de dados são difíceis, requerem-se equipes de especialistas e
equipamentos complicados para incrementos aparentemente
insignificantes de progresso. Num mundo cada vez mais complicado,
cada vez mais intensivamente explorado, é essencial que haja muitas
dessas equipes realizando pesquisas redundantes. É esse o custo do
uso intensificado da biosfera: pesquisa e análise constantes de modo
a assegurar que as informações fundamentais, as idéias, os fluxos de
perguntas e respostas se mantenham, e a evitar surpresas, como
estamos fazendo no momento. A matéria é tão nova para os biólogos
quanto para os meteorologistas. A comunidade científica está criando
um começo, uma nova partida para um Grande Problema.
Nós congregamos um grupo de cientistas ilustres para iniciar esse
processo.

DR. JOHN HARTE (membro do painel): Todos nós dependemos dos


ecossistemas que nos cercam como um doente em tratamento
intensivo depende de frascos de soro e equipamentos médicos de
sustentação de vida. Empreender uma guerra nuclear seria como
atirar uma banana de dinamite acesa numa unidade de tratamento
intensivo, rompendo as ligações vitais que garantem a sobrevivência.
Entre as funções essenciais de sustentação de vida exercidas por um
meio ambiente natural normal e saudável está a regulação do ciclo
hidrológico, que minimiza a ocorrência de chuvas excessivas e secas
prolongadas; um exemplo são as encostas revestidas de vegetação,
que moderam as enxurradas e abrandam a correnteza dos rios. Outra
dessas funções é a minoração da poluição do ar e das águas e o
tratamento de resíduos sólidos por processos naturais atmosféricos e
microbiais. Uma terceira é a moderação do clima, de novo
exemplificada pelo papel das grandes reservas de vegetação viva,
capazes de criar um micro-clima essencial à sua própria existência.
Nos primeiros três a seis meses após uma guerra nuclear, estas e
outras funções ecológicas seriam virtualmente suspensas. A perda de
um ano de produção agrícola será discutida por outros oradores.
Quanto a mim, quero abordar vários aspectos relacionados à água e
em seguida tecer alguns comentários gerais sobre as perspectivas de
restabelecimento à longo prazo de funções ecológicas prejudicadas.
Ao tomar conhecimento, ano passado, dos resultados do estudo
TTAPS com respeito às baixas violentas de temperatura superficial,
ocorreu-me que os reservatórios de água doce que abastecem as
populações humanas e os animais de criação ficariam congelados.
Meus cálculos mostraram que haveria a formação de uma camada de
gelo de aproximadamente um metro nas águas superficiais de regiões
interiores. Sem combustível nem eletricidade para derreter o gelo ou
bombear água de poços para a superfície, muitas pessoas e animais
de criação morreriam de sede. Os níveis reduzidos de precipitação
pluviométrica previstos agravariam o problema. Nesse contexto é
oportuno observar que os sinergismos parecem trabalhar a nosso
favor nas situações normais, e voltar-se contra nós quando nós e a
natureza sofremos uma debilitação. Outro exemplo disto: com as
canalizações congeladas, não haveria o escoamento dos dejetos,
exacerbando o problema das epidemias, já agravado pela redução
das resistências às moléstias e infecções induzida pela radiação.
O efeito de um período de escuridão prolongada em organismos
aquáticos foi estimado através de experiências em meu laboratório e
de modelos matemáticos elaborados pelos Drs. Chris McKay e Dave
Milne. Os dois tipos de pesquisa produziram resultados semelhantes.
Cadeias alimentares compostas de fitoplâncton, zooplâncton e peixes
devem sofrer grandemente com a extinção da luz. Com apenas alguns
dias de escuridão, o fitoplâncton - base da cadeia alimentar - morreria
ou entraria em estado de vida latente. Na zona temperada, em cerca
de uns dois meses no fim da primavera ou no verão, e em três a seis
meses no inverno, os animais aquáticos mostrariam drásticos
declínios de população, que para muitas espécies poderiam ser
irreversíveis. Essas estimativas (baseadas na redução da luz)
provavelmente subestimam as conseqüências para a vida marinha
das condições de pós-guerra nuclear, pois não levam em conta os
efeitos térmicos, nem os do aumento de turbidez das águas provocado
pela erosão das costas e pela deposição de fuligem e poeira. A
sensibilidade da vida marinha à escuridão prolongada seria
provavelmente maior nos trópicos do que na zona temperada, porque
nos trópicos as reservas nutritivas são menores e as necessidades
metabólicas maiores. Nas regiões polares, onde a adaptação a
invernos escuros é uma condição de vida, a sensibilidade seria
reduzida. Os lagos de água doce tornar-se-iam altamente anóxicos
depois que a poeira assentasse e a temperatura subisse. Grandes
quantidades de resíduos orgânicos, inclusive cadáveres em
decomposição, tornariam letal a água de abastecimento. Há poucas
razões para pensar que as principais formas de vida aquática que hoje
nos servem como fontes de alimento viessem a sobreviver a uma
guerra nuclear de primavera ou de verão em número suficiente para
serem de proveito para o homem, pelo menos nos primeiros anos do
pós-guerra.
Anos depois da guerra, a capacidade de sustentação de vida do
meio terrestre estará ainda grandemente reduzida, ainda que os níveis
de luz e temperatura estejam próximos das condições de antes da
guerra. A favorabilidade do clima local, a arabilidade do solo, a
constância e qualidade da água e a disponibilidade de recursos
gênicos seriam seriamente degradadas pelos meses de condições
extremas que se seguiriam à guerra. A destruição de extensas áreas
de vegetação pelo fogo ou pela escuridão resultaria em condições
locais alteradas de clima e de solo que muito dificilmente seriam
propícias ao replantio. Com muitos de seus inimigos naturais
exterminados, pragas de insetos frustrariam as tentativas de retomada
da produção agrícola, como o faria a erosão do solo nas terras
escalvadas e desprotegidas. A radiação ultravioleta provavelmente
persistiria como agressão ecológica por bem mais de um ano.
Seriam os poucos sobreviventes restantes capazes de restabelecer
com os ecossistemas sustentadores de vida as ligações vitais
necessárias à sobrevivência? Esse restabelecimento só poderia
ocorrer depois de recuperados os ecossistemas, e somente se os
remanescentes da sociedade fossem capazes de mobilizar a
organização social e a tecnologia requeridas para a exploração dos
ecossistemas restaurados. O tempo necessário para que ocorresse a
segunda condição é difícil de estimar, mas certamente seria no
mínimo tão longo quanto para a primeira, pois sem ecossistemas que
assegurem as necessidades básicas da vida, é impossível uma
sociedade tecnológica organizada. Provavelmente a restauração dos
ecossistemas devastados exigiria não menos de um decênio -
estimativa baseada na experiência de ecologistas com dados tirados
de exemplos históricos de ecossistemas muito combalidos. Sendo a
recuperação tão demorada, o mais provável é que a pequena
população humana remanescente continuaria a minguar, aumentando
assim as probabilidades de extinguir-se por completo.

DR. OWEN CHAMBERLAIN (Universidade da Califórnia em Berkeley):


O senhor sabe se existem planos para testar a sensibilidade do fito-
plâncton às mudanças de temperatura?

HARTE: Os únicos planos de que tenho conhecimento, pelo menos


para o futuro próximo, são planos de examinar os efeitos da escuridão
prolongada. Os efeitos das mudanças de temperatura na vida marinha
não são de tão grande interesse em vista da grande capacidade
térmica dos oceanos, que impediria oscilações maiores na
temperatura das águas oceânicas.

INTERPELANTE NÃO IDENTIFICADO: Os senhores examinaram a


possível proliferação de bactérias, fungos e organismos inferiores,
bem como de insetos?

HARTE: Isso deverá ser feito. Muitos ecologistas estão hoje


interessados em estudar essas questões experimentalmente. Pelo
menos com respeito a pequenos organismos, como o plâncton e os
fungos, pode-se iniciar esse estudo no laboratório. Espero que isso
venha a acontecer futuramente, mas por ora não posso anunciar
resultados sobre efeitos de escuridão prolongada em organismos do
solo.
DAVID MCGRATH (diretor-adjunto da Global Tomorrow Coalition em
Washington, D.C.): Até aqui ninguém mencionou especificamente a
questão de se a ausência de fotossíntese por um período longo
reduziria de forma apreciável a quantidade de oxigênio na atmosfera,
e quais as conseqüências disso.

HARTE: Isso não nos preocupa muito. Os números sugerem que as


variações do oxigênio, bem como do dióxido de carbono (C02), seriam
insignificantes. São efeitos de importância terciária, por isso não nos
empenhamos muito em analisá-los.

WOODWELL: Eu os promoveria a secundários.

DR. JOSEPH A. BERRY (membro do painel): Minha incumbência aqui


hoje é examinar algumas das bases técnicas da previsão de que a
fotossíntese seria fortemente inibida em escala global pelas condições
da atmosfera do pós-guerra. E eu gostaria de lembrar-lhes que, como
foi salientado repetidamente nas exposições, a fotossíntese constitui o
principal suprimento de energia química à biosfera e a principal força
motriz para a operação dos ecossistemas naturais e cultivados.
Para que se dê a fotos síntese, duas coisas são basicamente
necessárias. Primeiro, a luz tem de penetrar até a superfície da Terra,
onde as plantas estão localizadas. E, segundo, a luz deve ser
absorvida pelos pigmentos fotossintéticos das plantas em condições,
sob outros aspectos, favoráveis. Vejamos a pergunta: de que modo a
redução da luz que penetra a atmosfera afetaria a fotossíntese?
Muitas experiências demonstraram que a fotossíntese total de
florestas e culturas é proporcional à intensidade da luz recebida (Fig.
1). Mesmo em dias normais, a fotossíntese varia com a luz, atingindo
o seu máximo ao meio-dia com céu limpo e decrescendo em períodos
nublados e de manhã ou de noite. A soma total de fotossíntese num
dado intervalo de tempo é proporcional à soma total de luz recebida.
Segue-se que uma redução de luz causaria uma redução proporcional
do total de fotossíntese. Essa relação não leva em conta o fato de que
as plantas têm de manter-se a si mesmas e produzir excedentes que
sirvam de alimento para o homem ou forragem para os animais.

Figura 1: A fotossíntese total de plantas cultivadas (expressa sob a


forma de energia equivalente dos produtos formados, em watts por
metro quadrado) é proporcional à energia luminosa absorvida. Estes
dados são de algodoais, medidos em condições de campo num dia
típico de verão sem nuvens. (Reproduzido de Baker e outros, Crop
Science 12: 431 [1972].)

Em geral, requerem-se pelo menos 15 a 20% da fotossíntese total


diária para suprir a demanda respiratória das plantas. Em
ecossistemas complexos, que compreendem grandes quantidades de
biomassa permanente e muitos consumidores neles encerrados, como
é o caso das florestas tropicais úmidas, essa fração ainda é maior,
correspondendo quase à fotossíntese total. Sendo a fotossíntese total
proporcional à luz, se a intensidade da luz se reduz a 15 ou 20% da
normalmente recebida, a produtividade liquida das plantas cultivadas
cessará. E em florestas úmidas cessará mesmo antes disso.
Naturalmente, isso importa na interrupção do crescimento de brotos,
frutos e sementes, que são as partes mais nutritivas e comestíveis das
plantas. Sendo as plantas consumidas pelos animais, a biomassa
vegetal poderia ser drasticamente reduzida por um período extenso de
escassez de luz. Quando os níveis de iluminação voltassem ao
normal, haveria menos biomassa para absorver a luz e portanto
menos fotossíntese até que a cobertura vegetal fosse restabelecida.
Outro fator a influenciar a densidade da biomassa vegetal é o frio
extremo que segundo as previsões se seguiria a um conflito nuclear, já
que as baixas temperaturas podem lesar ou mesmo matar as plantas
(Quadro 1). Existem no mundo regiões térmicas muito diferentes, e as
plantas dessas regiões têm sensibilidades correspondentes a baixas
temperaturas. As plantas tropicais, por exemplo, vivem em áreas onde
raramente ou nunca ocorrem temperaturas de congelamento, e estas
podem matá-las. Em áreas de invernos rigorosos, os gomos
dormentes das plantas, quando convenientemente pré-condicionados,
toleram temperaturas de até -80ºC. Em qualquer habitat, a tolerância
das plantas à temperatura corresponde de modo geral às
temperaturas mais baixas passíveis de ocorrerem neste habitat (ver
Fig. 2). É provável que as temperaturas no ambiente de pós-guerra
cairiam abaixo das mínimas normais. E é provável que as baixas
temperaturas matassem as plantas, especialmente nas áreas em que
o frio não é um fator ecológico normal.
Nos habitats mais frios, o efeito das baixas temperaturas dependeria
de estarem as plantas em hibernação ou em seu estado ativo de
verão. As folhas ativas das plantas de qualquer região são muito
sensíveis às baixas temperaturas. Temperaturas de 4 ou 5ºC já podem
afetar seriamente o desempenho de plantas tropicais. Espécies de
coníferas nativas em regiões alpinas podem ser prejudicadas no
verão, quando estão crescendo ativamente, por temperaturas de
-10ºC. Assim, numa guerra de verão, em que essas espécies
experimentariam um rápido declínio de temperatura, é provável que
suas folhas fossem lesadas, deixando menos biomassa disponível
para continuar a fotossíntese quando a luz voltasse ao normal.
O que aconteceria com a fotossíntese em base mundial nos anos
seguintes a um conflito nuclear? A produtividade fotossintética do
mundo tem sido provavelmente muito constante ao longo do tempo
geológico, mais ou menos 5% do valor de 100%. No primeiro ano, em
razão da forte redução da luz que alcança a superfície da Terra, é de
prever que a produtividade fotossintética do Hemisfério Norte cairia
para uns 10-20% da normal. Muito provavelmente, a que restasse
ocorreria nos trópicos. No segundo ano, embora a luz, a força motriz
essencial da fotossíntese, tivesse re tomado, a biomassa - as folhas
das plantas, as algas do oceano - seria menos densa, donde
absorveria menos luz e operaria menos fotossíntese. Com isso, tenho
a impressão de que a fotossíntese não se restabeleceria tão depressa
quanto a luz. A continuação de baixas temperaturas e a presença de
luz ultravioleta (UV-B) também retardaria o desenvolvimento de folhas
e algas. Imagino que a cobertura vegetal e a fotossíntese acabariam
por voltar aos níveis normais de antes da guerra, levando talvez entre
uma e algumas décadas. É muito difícil prever como se apresentariam
finalmente os ecossistemas contendo essa biomassa.
DR. THOMAS C. HUTCHlNSON (Universidade de Toronto): Supõe-se
que todas as plantas que existem no momento estariam no
lugar, prontas para recuperar-se?

BERRY: Não é o que se supõe. É claro que se todas as plantas


estivessem aí e prontas para recuperar-se, a perspectiva seria de que
a fotossíntese retornaria em pouco tempo aos níveis anteriores, já que
a previsão é de que a luz se restabeleceria bastante rapidamente no
segundo ano. Acho que basicamente a demora na recuperação do
potencial fotossintético é na verdade a demora na restauração da
cobertura vegetal na superfície da terra.

HUTCHINSON: O senhor sugere então que haveria uma demora


de uns quatro anos no restabelecimento de uma cobertura vegetal?

BERRY: Sim, mas isto é uma simples conjetura. Depende do grau em


que as plantas fossem afetadas no primeiro ano.

MARK A. HARWELL (membro do painel): Esta Conferência


concentrou-se nas conseqüências de médio e longo prazos de uma
guerra nuclear, com atenção especial para as novas e surpreendentes
análises das alterações climáticas previstas para o caso de uma
guerra nuclear em grande escala e para as óbvias e inevitáveis
catástrofes biológicas que adviriam de tais agressões à biosfera
global. Uma vez percebidas a natureza e a magnitude das
conseqüências atmosféricas, foi fácil para o grande grupo de
ecologistas e biólogos que se reuniu em Cambridge em abril de 1983,
para uma discussão preliminar dessas questões, concordar com o que
diz respeito às conseqüências biológicas correspondentes. Esse
consenso foi apresentado aqui por Paul Ehrlich e detalhado no artigo
composto por um comitê biológico, que trata das conseqüências
retardadas e indiretas em particular. Minha intenção aqui não é repetir
esses relatos, mas enfatizar alguns pontos referentes à interação
homem-ecossistema e apresentar uma breve descrição geral dos
impactos totais sobre o homem, pelos efeitos imediatos de detonações
nucleares e no período mais longo subseqüente a uma guerra nuclear,
com base numa série de análises a que procedi nos últimos meses.
Primeiro, quero assinalar as íntimas vinculações que existem entre o
homem e o meio. Praticamente toda a vida da Terra depende em
última análise da luz solar para obter a energia que passa através dos
sistemas ecológicos e impulsiona a multiplicidade de fluxos de matéria
necessários à manutenção dos organismos vivos. As plantas e os
animais são essencialmente máquinas movidas à energia solar,
inclusive a espécie que mais nos interessa, o Homo sapiens.
O homem depende dos sistemas ecológicos para a maior parte das
suas funções de conservação. Em primeiro lugar, é claro, estão o
alimento e a água incontaminada. Também são essenciais abrigo,
energia, melhoramento do clima, purificação do ar, controle de pragas
e doenças e uma série de outros serviços.
Há que fazer distinção entre dois tipos de ecos sistemas - naturais e
manipulados. Estes são principalmente os sistemas agrícolas, mas
também compreendem outros sistemas de manipulação de recursos
como as florestas e os minerais. Em geral, esta classe pode ser
definida de modo aproximado como sistemas de base biológica que
são diretamente controlados pelo homem e pelos sistemas societários.
Eu faço essa distinção pelo seguinte: hoje a população do mundo é de
mais de 4,5 bilhões. Embora possa não haver consenso entre os
ecologistas e outros quanto à capacidade de carga da Terra para
sustentar a espécie humana mediante ecossistemas naturais e
manipulados, uma coisa é certa: a capacidade de carga dos
ecossistemas naturais, por si sós, é muito inferior à população
humana atual. Quer dizer, os ecossistemas naturais simplesmente não
podem sustentar 4,5 bilhões de caçadores-colhedores; não há o que
caçar ou colher em quantidade bastante para alimentar tantos
indivíduos - mesmo com ecossistemas sadios.
Os sistemas biológicos manipulados que sustentam os seres humanos
dependem totalmente da sociedade humana organizada para
manutenção e reforço. Obviamente, um sistema não produzirá
alimentos se o homem não suprir as sementes, o cultivo, os adubos e
em muitos casos a água, além de várias outras atividades que
mantêm produtivos os ecos sistemas manipulados. Além disso,
mesmo com produção adequada de alimentos, a população humana
não poderia ser abastecida sem uma extensa rede de sistemas de
transporte e distribuição. O problema é que esse apoio humano aos
sistemas manipulados deixaria de ser operativo após uma guerra
nuclear da escala considerada nesta Conferência.
Assim, após uma guerra nuclear, o homem perderia o sustento dos
sistemas manipulados mesmo sem as agressões climáticas e outras
até aqui mencionadas. Os sobreviventes humanos seriam obrigados a
recorrer ao mundo natural em busca de um nível de sustento que a
Terra não poderia fornecer mesmo em condições saudáveis,
justamente quando os sistemas naturais estariam padecendo
distúrbios sem precedentes. Em suma, os sistemas naturais hoje só
poderiam sustentar uma pequena fração da população do mundo;
depois de uma guerra nuclear, esses sistemas não estariam em boa
forma, e sua capacidade de prover às necessidades humanas estaria
drasticamente reduzida.
Um tópico relacionado diz respeito às vinculações entre o homem e o
meio depois de passado o pior, isto é, nos anos subseqüentes ao
inverno nuclear do que falamos. Dependendo de quanto se tenha
reduzido o nível de população humana, e de até que pontos os
sistemas ecológicos tenham regredido, é provável que a recuperação
humana não possa operar-se mais depressa que o ritmo de
recuperação dos sistemas naturais, e a dependência acrescida do
homem em relação a esses sistemas naturais pode levar a um
retardamento dos processos de recuperação. Para dar apenas um
exemplo, um grupo de sobreviventes famintos poderia despojar
sistemas ecológicos da sua energia excedente a custo captada para
crescimento, reprodução, reservas nutritivas, etc., dessa forma
retardando os processos naturais requeridos para o restabelecimento
e recuperação dos ecossistemas.
Já foram mencionados os problemas que seriam encontrados pelos
sobreviventes que tentassem recorrer aos ecossistemas costeiros
para sustento. Foi dito que as regiões costeiras seriam batidas por
tempestades de grande violência, produzidas pelo acentuado
gradiente de temperatura entre as massas de ar continentais e
marítimas; elas receberiam um quinhão desigual de radionuclídeos e
destruição de habitats por várias razões, entre as quais: porque as
áreas urbanas localizam-se predominantemente em regiões costeiras;
devido às táticas de barragem da guerra anti-submarina; e porque os
estuários ficam a jusante da maioria dos sistemas e recebem uma
parte desproporcionada das águas de escoamento. Acresce que os
ecossistemas marinhos são particularmente vulneráveis tanto às
reduções de luz como aos aumentos de UV-B, o que poderia resultar
na devastação da base alimentar do fitoplâncton. Concluiu-se que
essas perturbações, conjugadas à insuficiência de energia e de barcos
para pesca ao largo, indicam pequena capacidade de sustentação do
homem depois de uma guerra nuclear. A questão agora é que com os
ecossistemas terrestres as coisas não seriam muito melhores.
Por exemplo, praticamente todos os sistemas de água potável nas
áreas continentais do Hemisfério Norte congelariam por completo, a
profundidades de 1 a 1,5 metro. E seriam cobertos por precipitação de
radionuclídeos, fuligem e substâncias tóxicas, de modo que água de
beber para os seres humanos e outra biota seria escassa. Além disso,
quando finalmente viesse o degelo, haveria enchentes de grandes
proporções, possivelmente agravadas pelo aumento de temperatura
que ocorreria à médio prazo em regiões de montanha, como sugerido
nesta Conferência por Aleksandrov da URSS.
Entre outros fatores, haveria um impacto desproporcionado nos
componentes comestíveis das plantas terrestres. Por exemplo, o solo
congelado inutilizaria tubérculos e raízes. Frutos, bagas e brotos não
seriam produzidos em condições de pouca luz e baixas temperaturas.
Assim, praticamente toda a biomassa permanente dos ecossistemas
terrestres seria constituída por compostos de celulose. Infelizmente,
os seres humanos não podem consumir nem digerir troncos de
árvores.
Tal como o homem, a maior parte dos outros vertebrados terrestres
sofreria mortalidade em massa. Suas carcaças congeladas só
temporariamente forneceriam alimento aos homens. As populações
animais, ao se restaurarem, provavelmente seriam dizimadas para
servir de alimento tão rapidamente quanto se reproduzissem,
mantendo muito baixos os níveis de população, já que os humanos
despenderiam quantidades incomuns de energia na obtenção de
carne. Somente as espécies capazes de multiplicação rápida
reconstituiriam em tempo curto as suas populações; mas estas são as
espécies nocivas, que não se prestam a fornecer energia e que
trazem consigo uma série de influências negativas, entre elas a
propagação de doenças.
Mesmo sem outras formas de intervenção humana, a recuperação de
ecossistemas poderia levar mais tempo do que à primeira vista pode
parecer. Perda de solos e substâncias nutrientes, perda de sementes,
efeitos continuados de UV-B acrescida, temperaturas relativamente
baixas com possível redução de chuvas, exposição continuada ao
ozônio, a radionuclídeos e a outros fatores adversos, tudo isso
tenderia a retardar a recuperação. Reações à longo prazo a alguns
anos de luz e temperatura alteradas poderiam resultar em menor
produtividade florestal e alterações nas composições de espécies
durante dezenas de anos. Numa palavra, os ecossistemas terrestres
não proporcionariam sustento fácil aos sobreviventes.
Vejamos agora um panorama das baixas humanas causadas por
efeitos diretos e indiretos de uma guerra nuclear. Um estudo recente
da Organização Mundial de Saúde prevê 1,1 bilhão de mortes e 1,1
bilhão de lesões diversas em todo o mundo como decorrência de
explosões e outros efeitos imediatos. O estudo da Ambio indicou três
quartos de bilhão de casos fatais em toda a Terra. Meus colegas e eu
analisamos em maior detalhe os efeitos na população americana.
Utilizando um cenário muito semelhante ao proposto pela Ambio de
uma guerra nuclear representativa em grande escala, envolvendo
aproximadamente 5.700 megatons de energia total, eu considerei os
efeitos de um ataque combinado de contra-força (i.e., contra objetivos
militares) e contra-valor (contra alvos civis e industriais) aos Estados
Unidos, em que todas as áreas urbanas de mais de 100.000
habitantes e a maior parte das instalações militares e principais
concentrações industriais fossem alvejadas. Preparei um diagrama
sintético dos efeitos resultantes (ver Quadro 2).
As mortes produzidas pelas explosões poderiam atingir de 50 a 80
milhões de americanos, de uma população em risco (i.e., dentro
das áreas urbanas atacadas) de 110 milhões, com mais 30 milhões de
feridos graves em conseqüência de explosões. A exposição direta à
radiação infravermelha e as queimaduras resultantes poderiam matar
outros 1 a 15 bilhões, e de 1 a 7 milhões poderiam morrer nos
incêndios e tempestades ígneas nas áreas urbanas. A radiação
ionizante inicial não aumentaria o número de mortos e feridos, pois
para as armas consideradas no cenário (100 quilotons a 1 megaton de
potência cada) as áreas letais determinadas por explosão e radiação
térmica excedem aquelas em que os nêutrons rápidos e raios gama
das detonações nucleares seriam fatais; os que em outras condições
morreriam por radiação inicial aguda já estariam mortos. No entanto a
precipitação local poderia matar entre 12 e 18 milhões de pessoas que
tivessem sido expostas no primeiro dia, e mais 40 ou 50 milhões
seriam expostas a níveis mortais de precipitação nos dias e semanas
subseqüentes.
No total, uns 125 a 170 milhões de americanos morreriam no nosso
cenário de referência, e mais 30 a 50 milhões sofreriam lesões
exigindo cuidados médicos, tudo isso pelos efeitos imediatos e diretos
das detonações. Portanto, restariam entre 10 e 75 milhões de
americanos e entre 2 e 3 bilhões de habitantes do mundo para
enfrentar o inverno nuclear e os anos seguintes.
A maior parte dos outros efeitos relacionados no citado Quadro 2 (i.e.,
a prazo mais longo e por mecanismos indiretos) já foi referida neste
livro e não será repetida aqui. Alguns outros aspectos devem ser
comentados.
A poluição do ar poderia produzir efeitos dilatados; por exemplo, o
estudo TTAPS prevê concentrações médias de ozônio durante vários
meses, nas latitudes médias, de 150 partes por bilhão em volume,
próximas dos níveis que em exposições de apenas duas horas
causam lesões evidentes à maior parte das espécies vegetais.
A escassez de alimentos resultante do inevitável colapso dos sistemas
agrícolas, da paralisação dos sistemas de transporte e distribuição e
da incapacidade das plantas cultivadas de sobreviver às alterações de
clima poderia levar à morte pela fome centenas de milhões ou bilhões
de pessoas em todo o mundo. Isto abarcaria não apenas as nações
diretamente envolvidas na guerra, como também países distantes do
conflito direto mas fortemente dependentes das exportações de
alimentos da América do Norte. A demora no restabelecimento de
agroecossistemas, devida a impedimentos físicos e societários, teria
grandes reflexos no ritmo de recuperação das populações humanas
durante muitos anos depois de uma guerra nuclear.
Os sistemas médicos também deixariam de existir, como declarou a
organização dos Médicos pela Responsabilidade Social, e pouca ou
nenhuma assistência restaria para os milhões de indivíduos afetados.
Com o passar do tempo, grandes surtos de moléstias contagiosas
matariam milhões, especialmente nas primeiras fases do pós-guerra,
quando as pessoas se aglomerariam em abrigos para proteger-se das
intempéries, da radiação e de bandos de outros indivíduos, numa
ocasião em que sistemas sanitários e água incontaminada teriam
virtualmente desaparecido. Com isso, ocorreriam principalmente
doenças entéricas. Mais tarde, alastrar-se-iam epidemias e pandemias
veiculadas por animais transmissores, como peste bubônica e
hidrofobia.
Finalmente, um fator importante para os sobreviventes humanos seria
a tremenda sobrecarga psíquica que afetaria a todos em todo
o mundo. Concomitantemente, haveria o colapso dos sistemas
societários em geral, na medida em que a civilização organizada
deixaria de existir, e em que a espécie humana, reduzida ao nível do
indivíduo ou de pequenos grupos, seria lançada de repente num
mundo de condições extremamente hostis, em que estaria em
competição sem precedentes por recursos drasticamente reduzidos. É
quase impossível prever que condutas os sistemas societários iriam
adotar, mas sem dúvida nenhuma a competição intensa por recursos
limitados imporia à espécie um conseqüente tributo adicional.
O quadro evidente que resulta dessas considerações é que o mundo
de pós-guerra nuclear seria um lugar inóspito para a maioria ou para a
totalidade dos homens da Terra. Uma guerra nuclear de qualquer
categoria que não a mais limitada constitui não simplesmente uma
guerra entre os combatentes, mas uma guerra contra a biosfera e
contra todos os seus habitantes humanos. As conseqüências
humanas dificilmente se restringiriam às mortes imediatas nas
proximidades das detonações; ao contrário, uma guerra nuclear
afetaria fundamentalmente todos os seres humanos existentes e todas
as gerações previsíveis que se seguissem, se, aliás, o Homo sapiens
não chegasse ao estado irreversível da extinção.

WOODWELL: Os efeitos aqui descritos como produto inevitável de


quase qualquer uso hostil de armas nucleares constituem não apenas
uma transformação fundamental do habitat do homem, como uma
transformação do habitat de todos os organismos da Terra, uma
transformação radical e irreversível da biosfera. Nós não conhecemos
nenhum outro lugar onde ocorra vida - não há vida em Vênus, nem em
Marte, nem em Júpiter, nem na Lua - em parte alguma. As
circunstâncias físicas de cada um desses vizinhos mais próximos da
Terra estão muito além dos limites compatíveis com a sustentação da
vida, em cada um deles por motivos diferentes. E está claro agora
como seria fácil libertar na biosfera uma quantidade de energia
suficiente para modificar radicalmente a Terra, limitando, e talvez
eliminando, grandes segmentos da biota. Que espécies de
transformações ocorreriam de início? O que sobreviveria? O que
desapareceria primeiro?
Nós pensamos no homem como ocupando na biosfera um posto
dominante. No entanto a sua agricultura cobre não mais de 10% da
superfície das terras; o resto do planeta é constituído por
comunidades naturais, afetadas mas não manipuladas pelo homem. A
biosfera é fortemente influenciada por essas comunidades. Por
exemplo, o teor de dióxido de carbono da atmosfera foi e continua
sendo modulado, talvez determinado, pelo menos dentro de certos
limites, pelo metabolismo das florestas.
Em todas as concepções de como a biosfera opera, as florestas têm
papel preponderante; são elas a principal vegetação da maior parte da
porção da Terra habitada pelo homem; elas contêm de duas a três
vezes mais carbono do que a atmosfera; são elas o principal
reservatório de diversidade biótica em termos globais. As florestas
oferecem um foco apropriado para a compreensão do caráter das
alterações bióticas que seriam de esperar. Qual seria esse caráter? O
que representariam tais alterações para o homem, se a essa altura ele
ainda existisse? Apesar da falta de experiência direta, é possível inferir
como seria esse mundo. Paul Ehrlich sugeriu que extinções seriam
comuns. Extinção, é claro, significa a eliminação de uma espécie - a
eliminação do pool gênico. As extinções são irreversíveis; geralmente
ocorrem quando o habitat é drasticamente alterado. A experiência,
pelo menos nesse contexto, é limitada. Que espécies são vulneráveis?
Quais são resistentes? Se o homem sobrevivesse, como se
apresentaria o mundo?
Alguns exemplos podem ser usados como base de dedução. Entre
elas, as devastadoras deformações da paisagem produzidas pela
fusão de minérios de cobre e outros em Copperhill no Tennessee, em
Palmerton na Pensilvânia e em Sudbury no Ontário. Mas um dos
estudos mais pertinentes e mais facilmente interpretados é uma
análise, ao longo de 15 anos, das mudanças provocadas numa
floresta de carvalhos e pinheiros na região central de Long Island,
Estado de Nova York, por exposição crônica a radiação ionizante. A
exposição variou de alguns milhares de roentgens por dia a níveis
residuais, que são de menos de 1/10 de roentgen por ano no meio
normal. Exposições de alguns roentgens por dia produziram
alterações drásticas na floresta. Essas alterações, embora produzidas
por radiação ionizante, uma agressão incomum na maior parte da
biosfera, foram semelhantes às observadas em outras partes em
resposta a gradientes de exposição a condições climáticas extremas,
como na transição de floresta para tundra, e à poluição, como em
Sudbury e outros lugares. Tais alterações são hoje reconhecidas como
causadas por uma larga gama de perturbações; constituem o que
chamamos de empobrecimento biótico. Em termos hemisféricos, e
talvez globais, os princípios gerais do empobrecimento biótico,
definidos principalmente nesses exemplos, aplicar-se-iam após
praticamente qualquer uso de armas nucleares numa guerra.
O estudo de Long Island, realizado no Laboratório Nacional
de Brookhaven, tinha por fim examinar os efeitos ecológicos da
radiação ionizante. Uma fonte potente de raios gama, que são
semelhantes aos raios X, foi colocada no centro de uma floresta
cuidadosamente escolhida. No primeiro ano da experiência
determinou-se o padrão de alteração em torno da fonte. Nos anos
seguintes as alterações simplesmente tornaram-se mais pronunciadas
e o círculo de danos, maior.
A floresta foi afetada sistematicamente. As árvores em geral
mostraram-se mais vulneráveis; o pinheiro, Pinus rigida, de todas as
espécies era a mais sensível, mas pinheiros e carvalhos foram
eliminados em conjunto, deixando intacta uma comunidade de
arbustos, ervas e gramíneas, musgos e líquens. Com exposições mais
altas foram eliminados os arbustos lenhosos; depois as ervas e
gramíneas; e com exposições ainda mais altas só restaram certos
musgos e líquen. E no interior de cada um desses grupos houve uma
seleção; as formas de menor corpo e crescimento mais lento
mostraram-se mais resistentes. Líquens crustáceos resistiram mais
que as formas eretas folhosas e fruticosas.
Os princípios gerais extraídos dessa experiência e de outras similares
com empobrecimento biótico sistemático são simples mas
importantes. Em geral, as espécies mais vulneráveis a qualquer tipo
de alteração crônica ou aguda do habitat são as de grande corpo e
ciclos reprodutivos longos. As mais resistentes são as de pequeno
corpo e alto potencial reprodutivo. Neste grupo reconhecemos
espécies que competem eficazmente com o homem e lhes damos o
nome de "pragas". São as ervas daninhas e os insetos dos jardins, as
espécies de beira de estrada e de outros locais cronicamente
perturbados. Todo meio crônica ou intensamente perturbado é sujeito
a esse padrão de alteração - e no nosso mundo existem hoje muitos
desses locais. O olho exercitado percebe constantemente ao nosso
redor essa contínua sucessão de transições.
Uma guerra nuclear acarretaria uma série de transições quase
inimagináveis. Num mundo de pós-guerra as espécies pequenas e de
multiplicação rápida seriam grandemente favorecidas; as grandes se
extinguiriam. O homem é vulnerável a essa espécie de mudança; são-
no igualmente a maior parte dos mamíferos, as árvores, muitos
arbustos e muitas plantas superiores. As mais resistentes são as
formas inferiores: bactérias, fungos, certos musgos, líquens, algas e
protozoários.
As florestas seriam raras nesse novo mundo, inicialmente destruídas
em grandes extensões por explosões, fogo e radiação, e mais tarde,
em escala continental, pela escuridão e pelo frio prolongado. É difícil
exagerar a gravidade do desastre, mas é provável que em alguns
bolsões as florestas fossem preservadas e sobrevivessem indivíduos
de uma diversidade de espécies: refúgios, talvez.
A questão é vasta, fundamental e premente, e requer análises muito
mais profundas. Mas, a este primeiro exame, os efeitos possíveis
estendem-se muito além dos limites dos estudos objetivos correntes
da ecologia e entram num novo domínio, suficientemente incerto para
levar a supor que as extinções previstas nessa onda de
empobrecimento venham a incluir, pelo menos potencialmente, o
Homo sapiens.

DR. THOMAS EISNER (membro do painel): Inicialmente, minha


intenção, como último expositor deste painel, era apresentar um
sumário das conseqüências biológicas de uma guerra nuclear. Mas
isso seria repetitivo, tendo em vista o que foi dito pelos que me
antecederam. Portanto, vou falar de dois pontos específicos, e
terminar fazendo um apelo.
O primeiro ponto diz respeito à conceituação de uma grandeza. Qual a
dimensão do arsenal nuclear do mundo, perguntam-nos com
freqüência, e como é possível "sentir" essa magnitude? Vamos
expressá-lo assim. A bomba de Hiroxima tinha um poder explosivo
(equivalente de TNT) de 13.000 toneladas. Sabemos o que a bomba
fez, pois vimos as fotografias. O estoque nuclear estratégico do
mundo, em contraste, tem um poder explosivo potencial de mais de
13.000 megatons. Quer dizer, nós temos hoje a capacidade de
desencadear o equivalente a um milhão de Hiroximas. Tentem
imaginar o que isso significa. Suponham que eu começasse a largar
bombas do tamanho da de Hiroxima, uma de cada vez, a partir deste
momento, à razão de uma por segundo, 60 por minuto, 3.600 por
hora. Quando acabariam as minhas bombas? A resposta espantosa é:
11,6 dias. Para esgotar o arsenal mundial nas 48 horas de duração
desta Conferência, eu precisaria lançar as minhas bombas num ritmo
ininterrupto de seis por segundo! Não admira que uma guerra nuclear
- mesmo uma guerra limitada em que menos da metade do arsenal do
mundo fosse detonada - deva produzir uma catástrofe de amplitude
inaudita.
Meu segundo ponto diz respeito ao grau em que nós, os biólogos
que participamos desta Conferência, concordamos com as conclusões
aqui expressas. Repetidamente têm-me perguntado no curso destes
trabalhos se nós estamos de acordo com os prognósticos dos físicos
especialistas em atmosferologia, e se as nossas opiniões coincidem
em todos os aspectos relativos às implicações biológicas dessas
previsões. Em primeiro lugar, deve ficar claro que não existem
divergências quanto aos efeitos à curto prazo de um conflito nuclear,
isto é, quanto aos efeitos das explosões, do fogo e da radiação, que
num conflito de 5.000 a 10.000 megatons devem resultar em mais de
um bilhão de mortes imediatas e em número igual de feridos graves.
E, segundo, deve ficar clara a nossa convicção de que um "inverno
nuclear", com todo o seu cortejo de calamidades biológicas, é sem
dúvida nenhuma uma perspectiva bem real como decorrência de uma
guerra nuclear. Estamos convencidos de que um período prolongado
de temperaturas glaciais e baixos níveis de iluminação, conjugado à
exposição acrescida a radiação ionizante e ultravioleta, pode destruir o
sistema de sustentação biológica da civilização, com certeza no
Hemisfério Norte e possivelmente, pelo extravasamento dos efeitos
climáticos e biológicos, em áreas não alvejadas do Hemisfério Sul.
Embora estejamos de acordo nos pontos principais, alguns de nós
conjeturam se não estaríamos subestimando os efeitos biológicos.
Sinergismos e efeitos em cascata são uma conseqüência comum de
rupturas ambientais, e tendem a ser imprevisíveis e só verificáveis a
posteriori. O que é previsível em matéria de conseqüências biológicas
de uma guerra nuclear já é bastante mau; não seriam as
conseqüências reais ainda piores? Por 40 anos nós permanecemos
na ignorância da possibilidade de um inverno nuclear. O que mais nos
terá passado despercebido? Chegaremos a ver a extinção da espécie
humana como conseqüência inevitável de uma guerra nuclear? E a
essa altura, com a contínua escalada das armas, não teremos
avançado para ainda mais perto do abismo?
O apelo que quero fazer é simples. Há muitos anos tenho pensado na
guerra nuclear, mas não me pareceu que a questão devesse suscitar
o meu envolvimento direto na qualidade de biólogo. Tenho-me
ocupado de conservação, e como ecologista e naturalista entusiasta,
tenho dedicado meu tempo a iniciativas educacionais e a esforços de
preservação da Terra. Agora dei-me conta de que o impacto de uma
guerra nuclear é abrangente e fundamentalmente biológico. Daí o meu
apelo, que quero estender aos eleitores americanos que alguns anos
atrás me nomearam presidente da AAAS (Associação Americana para
o Progresso da Ciência), bem como aos biólogos de todo o mundo. Já
não creio que um único biólogo possa permanecer isento de
envolvimento na questão da guerra nuclear. Não importa qual a
especialidade ou quais os cursos ministrados, o envolvimento se
impõe, pois tanto a especialidade como os cursos relacionam-se
inevitavelmente a algum aspecto das conseqüências biológicas de
uma guerra nuclear. Nas suas aulas e nos seus escritos, os biólogos
têm de manifestar-se. O que ficamos sabendo sobre o inverno nuclear
precisa ser divulgado, e a preocupação expressa nesta Conferência
tem de ser transmitida ao mundo inteiro. Só pelo esclarecimento
poderemos impedir o "escurecimento" nuclear. A questão não é de
confronto político, mas de sobrevivência biológica. O inimigo não é a
União Soviética, nem os Estados Unidos, mas as próprias armas
nucleares.

A CONEXÃO MOSCOU
UM DIÁLOGO ENTRE CIENTISTAS NORTE-
AMERICANOS E SOVIÉTICOS
DR. THOMAS F. MALONE (presidente): A Conferência sobre o Mundo
após a Guerra Nuclear é uma iniciativa científica que visa reunir
conclusões existentes e novas sobre os efeitos atmosféricos e
climáticos globais à longo prazo de uma guerra nuclear e suas
conseqüências para a vida. Os organizadores da Conferência
evitaram rigorosamente extrair quaisquer implicações políticas das
suas conclusões. Nosso objetivo é esclarecer questões e não advogar
tal ou qual ponto de vista. Todos os participantes deste programa
entendem e concordam que a Conferência não é um fórum para
discutir linhas de ação ou temas de política. Um compromisso
semelhante está subentendido nesta troca de pareceres entre
Cientistas reunidos em Washington e em Moscou.
Comigo na tribuna estão o Dr. Carl Sagan, astrônomo e cientista
espacial da Universidade Cornell; o Dr. Paul Ehrlich, ilustre biólogo da
Universidade Stanford; e o Dr. Walter Orr Roberts, meu velho amigo,
astrônomo, meteorologista e ex-presidente da Associação Americana
para o Progresso da Ciência.
Essa comunhão de preocupações entre cientistas e entre a
comunidade científica e o público é mais um passo num processo que
começou há mais de um ano em Roma, quando os líderes científicos
do mundo fizeram em uníssono esta declaração: “A partir de 1945 a
natureza da guerra mudou tão profundamente que o futuro da espécie
humana, de gerações ainda por nascer, está em risco". O debate das
questões científicas relevantes terá prosseguimento brevemente em
Estocolmo, sob os auspícios do Conselho Internacional de Uniões
Científicas.
Agora tenho o prazer de apresentar um velho amigo, o
acadêmico Yevgeniy Velikhov, vice-presidente da Academia de
Ciências da URSS.

VELIKHOV (em Moscou): Está aqui comigo hoje o Dr. Yuri Israel,
membro correspondente da Academia de Ciências da URSS e diretor
do Comitê de Hidrometeorologia e Controle do Ambiente. Quero
apresentar também o acadêmico Alexander Bayev, especialista em
biologia e genética molecular e secretário do Departamento de
Fisiologia Bioquímica, Biofísica e Química da Academia de Ciências
da URSS; e Nikolai Bochkov, acadêmico da Academia Médica de
Ciências e diretor do Instituto de Genética da Academia de Ciências
da URSS. Agora gostaríamos de ouvir o Dr. Carl Sagan, do outro lado
do Atlântico.

SAGAN: Fui incumbido de recapitular as conclusões físicas e


climáticas do estudo apresentado no início desta Conferência, estudo
esse realizado juntamente com meus colegas Drs. Turco, Toon,
Ackerman e Pollack, e conhecido como TT APS, iniciais dos autores.
Nós investigamos uma série de conseqüências de diversos cenários
de guerra nuclear.
Por exemplo, analisamos o perfil atmosférico da estratosfera e da
troposfera (ver Fig. 1A, p. 43). O material injetado na estratosfera por
uma explosão nuclear precipita muito lentamente; o injetado na
troposfera precipita mais rapidamente. Assim, explosões de armas
nucleares de alta potência transportam poeira na bola de fogo
ascendente e no penacho da nuvem em cogumelo e elevam-na à
estratosfera, donde ela precipita lentamente, ao passo que armas
nucleares de baixa potência introduzem poeira na troposfera, donde
ela precipita com relativa rapidez. Se uma guerra nuclear resulta na
queima de cidades e florestas, partículas finas partículas de fumaça,
fuliginosas, muito escuras - entram na baixa atmosfera. Essa
combinação de poeira levantada por explosões nucleares de alta
potência e fuligem de cidades e florestas incendiadas por detonações
aéreas de qualquer potência produz, segundo os nossos cálculos, um
manto de material em suspensão que escurece e esfria
acentuadamente a Terra. A estrutura do que era anteriormente a
troposfera seria profundamente alterada.
Entre os cenários que estudamos há o caso de referência de uma
guerra de 5.000 megatons, em que a temperatura no interior dos
continentes cai abruptamente em poucas semanas a algumas
dezenas de graus abaixo do ponto de congelamento da água, e leva
meses para retornar às condições ambientais (ver Quadro 1, p. 49).
Outro cenário considerado foi um ataque só de contra-força de 3.000
megatons, em que não há queima de cidades. É um ataque bastante
modesto no contexto das doutrinas estratégicas modernas. Nesse
cenário a temperatura baixa uns 7 ou 8 graus e leva cerca de um ano
para voltar ao normal.
Uma queda de 7 a 8 graus na temperatura global já é suficiente para
destruir a produção de trigo e milho dos Estados Unidos, Canadá e
União Soviética, e por si só representaria urna agressão
extremamente desastrosa ao meio do planeta. Também estudamos
alguns casos bem piores. Talvez o fato mais interessante a surgir foi
que um ataque de 100 megatons, em que armas de centenas de
quilotons sejam detonadas sobre áreas metropolitanas, pode produzir
fumaça suficiente para provocar sérias catástrofes climáticas com a
duração de muitos meses.
Além do escurecimento e da queda de temperatura, uma guerra
nuclear teria outras conseqüências. Haveria gases tóxicos produzidos
nos incêndios de cidades. Haveria a radioatividade, que em grandes
áreas do Hemisfério Norte atingiria níveis perigosos para o homem -
100 rads ou mais. E quando a fumaça e a poeira se dissipassem,
haveria o fluxo de radiações ultravioleta da faixa UV-B aumentado de
duas a quatro vezes, dependendo do total de energia liberada.
Tendo em mente as indicações recentes de que também o Hemisfério
Sul seria gravemente afetado, concluímos que após uma guerra
nuclear, ainda que em escala relativamente reduzida, haveria um
conjunto de agressões simultâneas de magnitude sem precedentes.
contra a biosfera (ver Quadro 2, pp. 55-56).
O limiar para produção dos efeitos climáticos situa-se de modo muito
aproximado em torno de mil armas nucleares detonadas, dependendo
principalmente da estratégia de seleção de objetivos. Sabemos que os
arsenais estratégicos somados dos Estados Unidos e União Soviética
superam de muito - cerca de 17 vezes - esse limiar. Sabemos agora
que desde o começo dos anos 50 os dirigentes das duas nações têm
tomado decisões sobre os negócios mundiais na ignorância das
conseqüências climáticas possivelmente funestas do emprego de
armas nucleares. E agora percebemos pela primeira vez que as
conseqüências de uma guerra nuclear poderiam ser absolutamente
arrasadoras para países muito afastados do conflito. Note-se,
finalmente, que essas conclusões são apoiadas por uma ampla série
de estudos, tanto nos Estados Unidos como na União Soviética.
Agora passo a palavra ao Dr. Paul Ehrlich, ilustre professor de Biologia
da Universidade Stanford.

EHRLICH: É meu desagradável dever informar-lhes algo que imagino


não constituirá surpresa para os meus colegas da União Soviética, a
saber, que um grupo muito grande de proeminentes biólogos nos
Estados Unidos, inteirado dos cenários que o Dr. Sagan acaba de
descrever, chegou a urna conclusão unânime sobre as conseqüências
para os sistemas biológicos. Tal unanimidade é rara em nossa ciência
aqui, e estou certo de que na dos senhores também.
Estamos falando do que acontece após uma guerra nuclear, depois
que as bombas explodiram e causaram talvez um bilhão de mortes
imediatas. O que acontece é que os sobreviventes - os sobreviventes
humanos, assim como as plantas e os outros animais do planeta - são
submetidos simultaneamente a uma série de agressões sem
precedentes.
A temperatura cai algumas dezenas de graus, descendo abaixo do
ponto de congelamento, mesmo no verão; se a guerra ocorrer no
inverno, as baixas temperaturas prolongam-se pela primavera. Ao
mesmo tempo, a luz solar é bloqueada, de modo que a fotossíntese é
reduzida ou eliminada. Os níveis de radiação alcançam valores
suficientes para matar coníferas em grandes extensões, que podem
chegar a 2% da área continental do Hemisfério Norte.
Depois uma névoa tóxica - uma camada venenosa de poluição do ar -
espalha-se por todo o Hemisfério Norte. Quando os efeitos
atmosféricos começam a dissipar-se, quando avança o processo de
remoção da fuligem, a Terra é inundada por um fluxo de luz
ultravioleta, de UV-B.
Assim, a base da produtividade do planeta, pelo menos no Hemisfério
Norte, terá sido acometida por uma série de agressões, cada uma
delas extraordinariamente deletéria.
É evidente para todos nós, por exemplo, que a produtividade agrícola
após uma guerra nuclear em grande escala se anularia no Hemisfério
Norte por I um ano pelo menos, e provavelmente por muito mais
tempo. Além disso, grande parte das disponibilidades existentes de
alimentos seria destruída. E em muitas áreas seria difícil obter água
porque as massas de água doce do interior dos continentes estariam
congeladas a uma profundidade de talvez 1 a 2 metros.
Em geral, é de prever um colapso dos sistemas de sustentação de
vida, pelo menos nas zonas temperadas do Hemisfério Norte, levando
a uma situação em que a sobrevivência da civilização nessas zonas
seria extremamente difícil ou impossível.
Há menos certeza quanto à propagação dos efeitos ao Hemisfério Sul.
É praticamente certo que a nuvem de fumaça e fuligem penetraria as
grandes áreas tropicais do Hemisfério Norte, o que em si já seria
muito grave, visto que essas áreas constituem o maior reservatório de
diversidade orgânica deste planeta. Plantas, outros animais e
microorganismos são uma biblioteca genética inestimável da qual nós
já retiramos a própria base da nossa civilização, e essa biblioteca
seria ameaçada ou em grande parte destruída se os efeitos se
estendessem para o sul.
E se os efeitos se disseminassem generalizadamente no Hemisfério
Sul, nossa conclusão é que por certo alguns grupos humanos
sobreviveriam - talvez em áreas costeiras ou ilhas -, mas enfrentariam
uma situação ecológica e social absolutamente insólita e
extremamente maligna. Ao que nos parece, não se pode excluir a
possibilidade de que a espécie humana, após um tal evento, venha a
declinar aos poucos e finalmente extinguir-se.
Achamos que as conclusões biológicas são óbvias e perfeitamente
sólidas para toda a gama de cenários, desde um ataque de 100
megatons a cidades até um conflito de 10.000 megatons, com ataques
de contra-força e contra-valor.
Impressionou-nos muito uma das conclusões óbvias: teoricamente é
possível à União Soviética ou aos Estados Unidos lançar um primeiro
ataque de 3.000 megatons contra os silos do outro país e destruí-Ios,
sem - em teoria, pelo menos - lesar um 11nico fio de cabelo de
qualquer cidadão do país atacado, não receber fogo de resposta e, em
o fazendo, destruir ambas as nações pela destruição da sua
produtividade agrícola, resultante do escurecimento e baixa de
temperatura. Não é preciso lembrar-lhes que o bastião alimentar do
mundo é a produção de grãos do Hemisfério Norte, principalmente nas
planícies centrais dos Estados Unidos e do Canadá, e que a sua
anulação, num só ano que fosse, seria para a humanidade um
desastre nunca visto.
Basicamente, é fácil para um biólogo concluir dos resultados expostos
pelos físicos e climatologistas que uma guerra nuclear oferece quase
certamente perigos bem maiores que os já catastróficos efeitos
instantâneos e mortes imediatas.

ISRAEL: O uso intensivo dos recursos naturais e o desenvolvimento


industrial acelerado em muitos países nas circunstâncias de uma
crescente corrida armamentista já vem criando uma série de
problemas ecológicos globais. É evidente que no caso de uma guerra
nuclear a biosfera será comprometida em proporções multiplicadas, e
que isso trará conseqüências catastróficas para a humanidade e para
a biosfera como um todo. Hoje as conseqüências de uma possível
guerra nuclear estão sendo discutidas em todas as partes do mundo.
Na avaliação dos resultados, admite-se que a energia total liberada
poderia alcançar de 6.000 a 15.000 megatons.
Em meu pronunciamento eu gostaria de abordar sucintamente
as conseqüências geofísicas e geológicas de vários fatores de
exposição.
Primeiro, uma grande quantidade de produtos radioativos seria
descarregada na atmosfera. Esses produtos radioativos causarão
danos por radiação nos sistemas ecológicos, alterações nas
propriedades elétricas da atmosfera e alterações na ionosfera. E isso
acarretará efeitos biológicos diversos.
O segundo fator é a poluição da atmosfera por uma enorme
quantidade de partículas de aerossol produzidas por explosões
nucleares de alta potência, ou pelo desprendimento maciço de fuligem
e poeira dos incêndios ateados pelas explosões. As partículas em
suspensão modificarão as propriedades da atmosfera e dificultarão a
entrada dos raios solares, através da atmosfera. Desse modo os
sistemas ecológicos serão neutralizados, e ha. verá perturbações
meteorológicas e climatológicas.
Terceiro, os produtos gasosos dos incêndios - metano, ozônio
troposférico e outros - também poluirão a atmosfera. Essa poluição
influirá nas propriedades de absorção da atmosfera e por conseguinte
no clima. Haverá formação de óxidos na bola de fogo das explosões, o
que destruirá uma parte substancial da camada de ozônio. O resultado
será um aumento de radiação ultravioleta que trará efeitos biológicos
indesejáveis e mudanças climáticas.
Para prever um dos maiores efeitos da produção de aerossóis, é
importante estimar a quantidade de partículas que permanecerá na
atmosfera por tempo prolongado. Os aerossóis troposféricos são de
curta duração até duas semanas, aproximadamente -, portanto é
necessário calcular que fração de aerossóis de alta dispersão
alcançará a estratosfera. Pela nossa estimativa, essa fração será da
ordem de 1%. Esse valor é comparável ao dos aerossóis de alta
dispersão que entram na estratosfera por ocasião de erupções
vulcânicas de grande intensidade.
Não há dúvida de que os aerossóis troposféricos levarão a uma queda
de temperatura superficial durante as primeiras semanas após as
detonações. E isso terá conseqüências catastróficas para os
ecossistemas e para a produção das plantações.
Efeitos ainda piores poderiam advir, ao nosso ver, de uma possível
elevação subseqüente de temperatura atmosférica após a
precipitação, causada pela absorção de radiação de ondas longas.
Esta resultará da presença na atmosfera de admistões gasosas, como
ozônio troposférico, etano, metano e outras. A duplicação de CO2
elevará a temperatura em 3 ou 4 graus centígrados. A duplicação de
ozônio na troposfera causará um aumento de temperatura de quase
um grau centígrado. Atualmente, a concentração de ozônio na
troposfera é de cerca de três partes por bilhão, e durante uma guerra
nuclear essa concentração aumentará de três a quatro vezes. Haverá
um aumento grande de metano, e a concentração de etano será 30 ou
40 vezes maior. Só o aumento de concentração dessas admistões
gasosas resultará num aumento de temperatura de três ou quatro
graus centígrados. Haverá um efeito de estufa, que pode levar a
sérias alterações climáticas a longo prazo e ao colapso das atividades
agrícolas da sociedade humana.
Os efeitos da introdução dessas admistões gasosas na atmosfera
também se farão sentir no Hemisfério Sul. Haverá de imediato uma
queda de temperatura, e subseqüentemente um aumento gradual,
com conseqüências ecológicas a longo prazo. No estágio inicial, com
temperaturas baixas, haverá destruição de vegetação. Depois a
temperatura subirá e haverá alterações climáticas duradouras, que
destruirão a possibilidade de renovação de recursos biológicos.
Eu gostaria de lembrar mais uma vez que as propriedades elétricas da
atmosfera serão consideravelmente alteradas, principalmente na
primeira fase após as explosões, devido à radioatividade. A
concentração de produtos radioativos de um nanocurie por metro
cúbico modificará a condutividade atmosférica em cerca de 10%, e
isso levará a sérias alterações. Como já foi dito, haverá danos
ecológicos porque a turbidez da atmosfera interromperá a luz solar. E
haverá destruição da camada estratosférica de ozônio.
Sabe-se que num conflito nuclear de 10.000 megatons haverá a
produção de 10 elevado a 32 moléculas de óxidos de nitrogênio por
megaton. Dependendo da altura alcançada pela nuvem na explosão,
haveria uma destruição estável de cerca de 7% do ozônio por meses
ou anos depois da explosão. Uma única explosão nuclear produz
destruição na camada de ozônio, a qual em seguida se reconstitui em
alguns dias. Havendo muitas explosões não haverá difusão e o ozônio
não se reconstitui; a mudança na concentração de ozônio fica estável.
Com exposição em altitudes de 25 a 30 mil metros, cerca de 60% do
ozônio são destruídos. Deve ser lembrado que esse efeito se
propagaria em pouco tempo ao Hemisfério Sul, mesmo que as
explosões se limitassem ao Hemisfério Norte.
De tudo que foi dito, deve ter ficado claro que explosões nucleares,
principalmente em grande escala, levarão não apenas a
conseqüências muito destrutivas localmente, mas também a
destruição e a alterações em escala global. Levarão a mudanças
irreversíveis do clima e à destruição da camada de ozônio, e
comprometerão os ecos sistemas da Terra. Além do mais, os efeitos
serão sinérgicos. Os efeitos ecológicos poderão levar ulteriormente a
um número maior de mortos e vítimas que os efeitos diretos
e imediatos, e isto tanto se aplica aos que forem diretamente
envolvidos numa guerra nuclear como aos que forem envolvidos
indiretamente, e mesmo numa guerra dita limitada. Isto sublinha o fato
de que numa guerra nuclear não pode haver vitoriosos nem vencidos.
Em última análise, todos os lados sofrem fatalmente. O Dr. Sagan já
falou sobre isso. Portanto, a questão que estamos levantando é a da
própria existência da vida na Terra.
BAYEV: A opinião de biólogos e médicos especialistas sobre a guerra
nuclear é perfeitamente definida: a guerra nuclear é imoral e
inaceitável, tendo em vista os enormes prejuízos que infligiria à
espécie humana. É inaceitável porque põe em dúvida a própria
possibilidade de sobrevivência da humanidade e a própria continuação
da vida da Terra nas formas que conhecemos.
Eu gostaria de dizer alguma coisa sobre a morte de pessoas, a perda
de vidas humanas. No caso de uma guerra nuclear, a avaliação
quantitativa dos nossos cientistas coincide com a dos nossos colegas
americanos. As perdas imediatas entre a população resultantes de um
ataque nuclear podem ser calculadas com bastante exatidão, porque
temos a triste experiência de Hiroxima e Nagasáqui e os testes
nucleares até hoje realizados. Temos assim cálculos teóricos que nos
fornecem os números e a possibilidade de estimar que cerca de um
quarto da população na região do ataque nuclear perecerá.
Quanto aos indivíduos queimados, feridos ou expostos à radiação,
seus destinos serão obviamente trágicos. A maioria não sobreviverá,
simplesmente porque não receberá socorro médico; não haverá meios
de proporcionar conforto, nem suprimento normal de alimentos e água
e haverá exposição continuada a fatores altamente hostis, como
radiação e as perturbações meteorológicas que se seguirão. Essas
condições resultarão na morte de outro quarto da população; portanto,
perto da metade das pessoas expostas a um ataque nuclear perecerá
quase imediatamente.
Quanto aos que sobreviverem a esses primeiros efeitos, por tudo que
ouvimos dos nossos colegas americanos, e por tudo que sabemos,
sua vida subseqüente será difícil e problemática, e provavelmente a
maioria dos remanescentes não terá como sobreviver. Haverá fome;
haverá transformações meteorológicas; haverá rupturas em toda a
estrutura social. Obviamente, isso só poderá levar a conseqüências
desastrosas. Nossa previsão é pois que, na melhor das hipóteses, as
populações de áreas submetidas a um ataque nuclear só sobreviverão
como pequenas ilhas de humanidade num ambiente hostil e
despojado de vida.
Deve-se frisar que todas essas modificações terão efeitos sinérgicos;
haverá exposição simultânea a muitos fatores adversos e nocivos.

BOCHKOV: Quando falamos das conseqüências ecológicas e


biológicas de uma guerra nuclear, é claro que temos em mente a
humanidade. Portanto, ao pensarmos nas possibilidades da
sobrevivência humana após uma catástrofe nuclear, não devemos
recuar ante a conclusão de que as condições reinantes não
permitiriam a sobrevivência do homem como espécie. Devemos partir
da suposição de que o ser humano adaptou-se ao seu meio no correr
de um longo processo evolutivo e pagou o preço da seleção natural.
Só nos últimos milhares de anos ele adaptou o meio às suas
necessidades e criou, por assim dizer, um meio artificial para
proporcionar-lhe alimento, abrigo e outras necessidades. Sem este, o
homem moderno não pode sobreviver. Em comparação com as
dramáticas transformações do ambiente tecnológico, a natureza
biológica não mudou no passado recente. Nas declarações do Dr.
Ehrlich e do acadêmico Bayev, foram-nos apontadas as muitas
limitações que se oporiam à sobrevivência do homem depois de uma
catástrofe nuclear. Como também temos de considerar o futuro mais
distante, cabe observar que a maior parte dos efeitos de uma guerra
nuclear será de ordem genética. Se ilhas de humanidade ou como
disse o Dr. Ehrlich, grupos de pessoas em alguma parte do oceano -
sobrevivessem, o que iriam defrontar em termos de conseqüências
genéticas? Se a população declinar drasticamente, surge a questão
do número crítico de indivíduos necessário para assegurar a
multiplicação. Por um lado, haverá um número mínimo de seres
humanos; por outro, em razão desse pequeno número, haverá
isolamento, Inevitavelmente haverá cruzamento consangüíneo, e com
isso mutações letais se manifestarão devido à exposição fetal e
neonatal à radiação e à precipitação. Novas mutações hão de surgir,
genes e cromossomos serão danificados por obra da radiação, e com
isso haverá um ônus genético a mais a suportar. Haverá deformidades
naturais e mortes ao nascer, de tal modo que o ônus das afecções
hereditárias será apenas parte de uma grande sobrecarga.
Certamente isso conduzirá à eliminação da humanidade, porque o
homem não será capaz de reproduzir-se como espécie.
Eu gostaria de frisar que, em termos de reprodução humana, os
efeitos sinérgicos desempenharão um papel particularmente deletério,
porque o cruzamento consangüíneo, as mutações resultantes e as
condições de vida extremamente difíceis não serão de molde a
favorecer a sobrevivência do homem.
Na seqüência de uma guerra nuclear, o futuro da humanidade deve
evidentemente ser visto na perspectiva de um mundo em que os
ecossistemas e os recursos ecológicos terão sido alterados ou
destruídos. Assim, as condições biológicas e sociológicas não seriam
de molde a permitir ao homem manter-se como espécie.

MALONE: Agradeço aos nossos colegas de Moscou. Um dos


cientistas soviéticos que está hoje em Washington conosco é o Dr.
Nikita Moiseev, membro correspondente da Academia de Ciências da
URSS e diretor-adjunto do Centro de Computação da Academia. Eu
pediria ao Dr. Moiseev que informasse alguns dos resultados
relevantes obtidos no estudo de computador da Academia Soviética -
resultados que acreditamos confirmarão as conclusões fornecidas
pelos nossos modelos meteorológicos.

MOISEEV: Em primeiro lugar quero agradecer aos nossos colegas


americanos por esta oportunidade de participar desta magnífica
Conferência aqui em Washington. Nós partilhamos as preocupações
dos nossos colegas americanos, e achamos que o estudo das
conseqüências possíveis de um conflito nuclear é um dos principais
objetos de interesse para os cientistas de todo o mundo.
Também nós em nosso país estamos realizando várias pesquisas e
estudos nessa área. No Centro de Computação da Academia de
Ciências, que eu represento, estamos realizando estudos em três
áreas principais.
Primeiro, estamos estudando as possíveis conseqüências de uma
guerra nuclear para o clima. Segundo, estamos estudando processos
biológicos e alterações na produtividade da biota. Depois há um
terceiro ponto e um terceiro problema. De modo geral, somos
otimistas e esperamos que um dia a humanidade mostrará suficiente
sensatez para abandonar de uma vez por todas qualquer idéia de
empregar armas nucleares. Mas se isso acontecer, novos problemas e
dúvidas irão surgir: como irá a humanidade utilizar o seu novo poderio
e despender a sua nova riqueza? Se formos otimistas, devemos
aplicar o nosso esforço em refletir também neste problema.
Eu disse que esta Conferência é magnífica e falei sinceramente. Ela é
magnífica não apenas pelas questões que levantou, mas também
pelas oportunidades técnicas que nos proporcionou. Aqui em
Washington eu vejo na tela dois dos meus colegas de Moscou que
participaram diretamente em alguns dos cálculos de diferentes efeitos
climáticos levados a efeito no Centro de Computação da Academia de
Ciências da URSS: Drs. Georgi Stenchikov e Valeri Parkhomenko.
Nossos estudos indicam que uma catástrofe nuclear global acarretará
uma forte redução da temperatura média da Terra. Só depois de uns
cinco ou seis meses haverá modulação da temperatura em base
global. No entanto localmente as mudanças de temperatura serão
muito mais pronunciadas. Ainda 240 dias (oito meses) após a guerra
nuclear, a temperatura permanecerá em muitas regiões muito abaixo
da temperatura anterior à guerra. Os senhores podem imaginar as
conseqüências ecológicas de tal situação.
Também estudamos a perturbação da circulação atmosférica que
resultaria de um conflito nuclear global. Verificamos que o caráter da
circulação se modificaria por completo. Em vez da circulação clássica,
restaria uma única célula, e toda a poluição - todas as impurezas da
atmosfera do norte - se deslocaria em direção ao Hemisfério Sul. Vê-
se claramente que não haveria nenhum lugar da Terra que não
sofresse as conseqüências de um conflito nuclear global.
MALONE: Aos nossos colegas de Moscou quero dizer o quanto as
nossas deliberações foram enriquecidas pelas contribuições dos Drs.
Moiseev, Golitsyn e Aleksandrov. Também apreciamos esta
oportunidade de trocar opiniões através da nova tecnologia de
satélites.
O Professor Moiseev colocou um ponto interessante ao mencionar a
dramática alteração do que os meteorologistas chamam de circulação
geral. Alguns de nós pensam ver fortes indicações de que haveria
trocas inter-hemisféricas consideráveis. Esse tema recebeu uma boa
dose de atenção nesta Conferência. Talvez um dos mais destacados
meteorologistas do mundo, o Dr. Israel, queira comentar os pareceres
que ele e seus colegas possam ter sobre a propagação dos efeitos
cataclísmicos do Hemisfério Norte para o Hemisfério Sul. Suas idéias
seriam bem-vindas, mesmo que conjeturais, pois é claro que ainda há
um grande trabalho de análise a ser completado.

ISRAEL: De fato, ocorreriam mudanças de temperatura depois de um


conflito nuclear, compreendendo tanto a queda de temperatura logo
após as explosões como, mais tarde, um possível aquecimento devido
ao efeito de estufa. Sem dúvida isso afetaria a circulação da
atmosfera. Mas eu concordo com o Dr. Malone em que são
necessários estudos complementares e cálculos adicionais.
Quanto à troca de massas de ar, e portanto também de poluentes e
admistões gasosas, entre os Hemisférios Norte e Sul, estudos de
radioatividade residual em experiências nucleares mostraram que
essa troca entre os dois hemisférios realmente ocorre. Ocorre num
período de meses e às vezes até de anos, mas ocorre, e eu estou
completamente convencido de que, após uma catástrofe, as
alterações verificadas no Hemisfério Norte certamente transferir-se-
iam ao Hemisfério Sul.

DR. KIRILL KONDRATYEV (membro correspondente da Academia de


Ciências da URSS e ex-reitor da Universidade de Leningrado): Eu
gostaria de juntar algumas observações às interessantes conclusões
dos estudos sobre os efeitos retardados de explosões nucleares sobre
o clima. Elas dizem respeito à análise de observações da luz solar.
Medindo a radiação solar por meio de balões em altitudes de até 30
mil metros e em seguida analisando os dados, nós verificamos que um
dos fatores importantes no enfraquecimento da radiação solar era o
NO2, formado na atmosfera após explosões nucleares de grande
potência nos testes realizados em 1962 e 1963. Ficou demonstrado
que o NO2 contribuía em grau considerável para impedir a penetração
da radiação solar até o nível do solo. Procuramos estimar o
esfriamento produzido pelos testes de 1962-63 e verificamos que a
contribuição do NO2 pode ter sido responsável por meio grau de
esfriamento. Depois utilizamos o cenário publicado pela Ambio
em 1982 e extrapolamos para ver o que aconteceria no caso de uma
guerra nuclear. Os resultados mostraram um esfriamento global de 9,5
graus centígrados, o que, naturalmente, é em si mesmo significativo.
Mas ainda mais significativo a meu ver é o fato de que o NO2 é um
gás, e nós estamos falando da estratosfera, portanto esse é um
fenômeno a longo prazo, muito mais longo que partículas de smog ou
poluição na troposfera. A transferência desse efeito ao Hemisfério Sul
é muito grave, e pode significar que as conseqüências retardadas
serão tão nocivas para o Hemisfério Sul quanto para o Hemisfério
Norte. Nós percebemos esse efeito do NO2 observando a radiação
solar em 1963, e também o percebemos muito claramente em 1964 e
65. E isso foi em circunstâncias de circulação normal da atmosfera. No
entanto nossos colegas mostraram que se houver circulação
transequatorial, o efeito será ainda mais sensível.

MALONE: Evidentemente nós inauguramos uma era em que é


possível exprimir através de métodos de análise científica a impressão
intuitiva que muitos de nós vínhamos tendo há vários anos. Agora
temos a oportunidade de trocar pontos de vista sobre os modos de
prosseguir nos caminhos abertos por esta Conferência e através desta
Conexão Moscou. Espero que agora possamos ter alguns debates.
EHRLICH: Eu pediria ao Dr. Kondratyev que esclarecesse um biólogo
sobre um ponto de física. Pelo que entendi, o senhor disse que o
efeito do NO2 na camada de ozônio criaria um esfriamento superficial
de 8 a 9 graus centígrados?
KONDRATYEV: Não, não foi disso que eu falei; eu me referi ao fato de
que o NO2 tem uma raia de absorção muito intensa em
aproximadamente meio micro, de modo que o NO2 atmosférico
absorve radiação solar muito intensamente na banda de absorção do
NO2 . É exatamente onde está o máximo no espectro da radiação
solar. Portanto, isso nada tem a ver com o ozônio. É um aspecto
diferente da ação do óxido de nitrogênio na atmosfera.

SAGAN: Talvez eu possa levantar uma questão de ordem geral. Antes,


permitam-me dizer que é muito gratificante ver que pesquisas mais ou
menos independentes nos Estados Unidos e na União Soviética
chegaram a conclusões tão semelhantes sobre um assunto tão grave
como as conseqüências retardadas de uma guerra nuclear. Existe
nesses estudos uma série de incertezas: nos cenários escolhidos, na
questão da quantidade de fuligem introduzida na atmosfera pelos
incêndios e da quantidade de poeira produzida por explosões de
grande potência no solo, nas questões da aglomeração de partículas
na atmosfera e do tempo que elas levarão para precipitar, questões de
circulação atmosférica e questões das doses de radiação, instantânea
e a médio e longo prazos. Em parte elas dependem de critérios de
cálculo, e em parte dos dados introduzidos. Dependem, por exemplo,
dos dados relativos à distribuição de dimensões das partículas
resultantes de incêndios ou da explosão de armas nucleares, e do
coeficiente de absorção e índice de refração dessas partículas.
Nossos colegas soviéticos acham possível fornecer-nos dados sobre a
função de distribuição de dimensões de detritos, obtidos nos testes
soviéticos de armas nucleares antes do Tratado limitado de Proibição
de Testes de 1963, e informações sobre dimensões e coeficientes de
absorção de partículas produzidas em grandes incêndios na União
Soviética? E mais, estariam dispostos a eventualmente transmitir-nos
uma gama de cenários de guerra nuclear que consideram prováveis?

ISRAEL: Acho que o nosso diálogo e o debate dessas


importantíssimas questões devem ter prosseguimento, provavelmente
por ocasião de encontros de cientistas em conferências. De minha
parte, tenho muitas perguntas a fazer a colegas americanos com
respeito aos dados iniciais empregados na construção dos seus
modelos. Em particular, tenho perguntas relativas à distribuição de
partículas por dimensões, e a quantidades e dimensões de partículas
de aerossol injetadas na atmosfera. Por exemplo, posso dizer que em
nossos cálculos da quantidade de partículas de aerossol de alta
dispersão nós calculamos em cerca de 1% ou pouco menos a
proporção de partículas de menos de um micro. Esse número,
provavelmente próximo do que o senhor, Dr. Sagan, citou no seu
trabalho - creio que o senhor adotou 0,5% de aerossóis de alta
dispersividade (pequenas dimensões) - é inferior a 1%. Esses são
aspectos estritamente científicos, e certamente o senhor desejará
discuti-Ios no futuro com maior detalhe. Também concordo com o Dr.
Sagan em que um aspecto muito interessante deste nosso encontro é
o fato de que os cálculos feitos, de forma basicamente independente,
levaram-nos a conclusões muito semelhantes com respeito às linhas
gerais das conseqüências ecológicas, geofísicas e biológicas de uma
guerra nuclear.

ACADÊMICO ROALD SAGDEYEV (diretor do Instituto de Estudos


Cósmicos da Academia de Ciências da URSS): Eu gostaria de dizer
que a elaboração de cenários da evolução da biosfera e da atmosfera
após uma guerra nuclear, que se vem fazendo nos últimos 20 anos,
deu-nos finalmente um modelo muito sério, cujos resultados foram
relatados por dois grupos independentes, o representado pelo Dr.
Sagan e o formado pelos nossos cientistas. A seriedade que vemos
nesses modelos hoje atesta o fato de que nós aprendemos a aplicar o
enfoque planetário - um enfoque interdisciplinar - no desenvolvimento
dos modelos. Acho que devemos concordar em manter estreita
cooperação no desenvolvimento adicional desses modelos. Talvez os
dados que nós obtivemos em testes nucleares nos últimos 10 anos,
por exemplo sobre a dispersão e composição de aerossóis, possam
ser utilizados nesses estudos. Agora temos a tecnologia espacial à
nossa disposição. Temos também alguns fenômenos naturais que,
embora ocorram em pequena escala, podem ser úteis para modelar
as conseqüências de uma guerra nuclear. Temos observações não só
de atividade vulcânica, que ejeta partículas de aerossol, como também
de erupções solares que provocam modificações na estratosfera - por
exemplo, a formação de óxidos nitrosos. Acredito que se fizermos
disso uma atividade conjunta e empregarmos novos métodos
planetários, especialmente usando a tecnologia espacial, será muito
proveitoso.

MALONE: Haverá oportunidade no futuro para intercâmbio de dados e


desenvolvimento conjunto de cenários, para os quais muitos países
podem contribuir, como ponto de partida no estudo das conseqüências
de uma guerra nuclear. Eu aguardo com grande interesse um encontro
com o acadêmico Scriabin, primeiro-secretário científico da Academia
da URSS, e com o Professor Velikhov no fim deste mês, quando
cientistas de muitos países se reunirão em Estocolmo para tratar
justamente das questões que foram aqui levantadas com respeito à
permuta de dados.

SAGAN: Foi um grande prazer para mim ouvir as observações


do acadêmico Roald Sagdeyev. O acadêmico Sagdeyev é diretor do
Instituto de Pesquisas Cósmicas da Academia de Ciências da URSS,
e responsável pelo programa soviético de exploração não-tripulada.
Parece-me um fato extremamente interessante que um campo
aparentemente tão distanciado das nefastas questões de vida e morte
suscitadas pela guerra nuclear tenha desempenhado um papel tão
importante na iniciativa destes estudos.
Tanto o nosso trabalho, que começou pelo estudo da tempestade de
poeira de 1971 em Marte, observada pela Mariner 9, como alguns dos
trabalhos aqui mencionados pelo Dr. Golitsyn, foram estimulados por
explorações planetárias não-tripuladas. Se é que existem dúvidas
quanto ao valor prático da exploração planetária, penso que este
trabalho basta para dissipá-Ias.

EHRLICH: Desejo agradecer ao acadêmico Bochkov por abordar a


questão genética, que nós não enfatizamos, em parte pelo fato de os
efeitos biológicos imediatos e à curto prazo (um período de meses ou
anos) serem tão esmagadores, pelo menos para os sobreviventes do
Hemisfério Norte, no que se refere aos riscos enormemente
aumentados de câncer e de anomalias genéticas em gerações futuras.
Mas parece-me que ele tocou num ponto que também nós
consideramos importantíssimo. A saber: os sobreviventes dispersos
poderão sofrer sérios efeitos do cruzamento consangüíneo e
incidência acrescida de câncer. Outro fator importante podem ser os
efeitos das alterações genéticas . nos sistemas ecológicos. Não é
claro para nós a que condições eles retornarão após uma guerra
nuclear. As populações que os compõem terão sido submetidas a toda
espécie de novas pressões seletivas, de modo que os pequenos
grupos de sobreviventes humanos irão se deparar com um meio
totalmente novo, com o qual talvez não tenham os recursos culturais
para avir-se. Eles não serão como as antigas civilizações de
caçadores e colhedores, que conheciam intimamente o meio em que
viviam e eram capazes de extrair o seu sustento à nível de
subsistência com grande facilidade. Os sobreviventes serão em sua
maioria indivíduos afeitos a uma existência "civilizada", que tentarão
subsistir num ecossistema radicalmente transformado. Isso deverá
tornar os seus problemas extremamente difíceis, tanto econômica
como psicologicamente.

BOCHKOV: Eu gostaria de complementar o que disse o Dr. Ehrlich.


Esperar uma renovação da humanidade para uma nova espiral de
evolução seria. ingênuo, porque o homem entrará nessa nova era com
as mesmas qualidades biológicas que tinha antes, mas haverá
deficiências. As pessoas do pós-guerra nuclear terão deficiências
somáticas e psíquicas, e o meio a que terão de adaptar-se será muito
mais hostil que em qualquer tempo precedente.

ACADÊMICO GEORGIY SCRYABIN (primeiro-secretário científico da


Academia de Ciências da URSS): Meu velho amigo Professor Malone
disse que voltaremos a ver-nos. Mas eu gostaria de dizer uma coisa
hoje. Meu sentimento em relação a esta Conferência é um tanto
ambivalente. Por um lado, há um sentimento de grande preocupação
em face da possível tragédia que nos ameaça, que paira sobre todos
nós - sobre crianças, mulheres, velhos, e todos os seres vivos da
Terra. É uma tragédia potencial terrível, que não pode deixar de
incomodar e desassossegar qualquer ser humano normal.
Por outro lado, há nesta Conferência um grande motivo de satisfação:
é o fato de que os grandes cientistas neste momento reunidos -
nossos colegas americanos e cientistas russos - chegaram a um
consenso. Estão unidos em sua opinião de que não deve haver uma
guerra nuclear, de que esta representaria desastre e morte para a
humanidade. Eu pessoalmente sinto-me satisfeito e confortado com
isso porque, hoje em dia, a autoridade dos cientistas é grande, e todos
nós devemos procurar fazer valer nossa influência no sentido de pôr
fim à corrida armamentista e para que jamais venha a ocorrer uma
guerra nuclear.

VELIKHOV: Talvez algum dos nossos colegas americanos queira


acrescentar alguma coisa.

EHRLICH: Que mais podemos dizer senão que todos nós aqui
partilhamos esse desejo ardentemente? Esperamos que os povos do
mundo e os dirigentes do mundo prestem atenção ao fato de que o
confronto Leste-Oeste ameaça não só a União Soviética, os Estados
Unidos e seus aliados diretos, como ameaça todos os seres humanos
do planeta, pelo menos com grandes sofrimentos e provavelmente,
para a grande maioria, com a morte.
Acho que esta deve ser a base de considerações para os chefes polí-
ticos do mundo.

MALONE: Eu tenho a impressão de que esta Conferência e esta troca


de idéias poderão vir a ser vistas em anos futuros - justificadamente -
como a virada decisiva nos rumos da humanidade.
Lembra-me o incidente de 1954, quando as cinzas da explosão
experimental de uma bomba de hidrogênio caíram no Dragão Feliz -
um barco pesqueiro japonês. Criou-se em todo o mundo uma onda de
grave preocupação porque os testes nucleares estavam pondo em
risco a atmosfera, que é propriedade comum de todos os povos do
mundo. Pouco depois adotaram-se medidas políticas no sentido de
estabelecer um controle mais rigoroso sobre a realização de testes.
Espero portanto que esta Conferência, que teve por finalidade o
esclarecimento dessas questões e um intercâmbio cordial entre
colegas, elevará o nível de conscientização dos faze dores de política
e marcará a mudança de rumos que todos com tanto empenho
esperamos.

DR. ALEXANDER KUZIN (membro correspondente da Academia de


Ciências da URSS): Como radiobiólogo, eu gostaria de chamar a
atenção dos senhores para outro problema. Se uma catástrofe nuclear
vier a acontecer, naturalmente haverá uma séria precipitação global de
radionuclídeos e uma elevação do nível de radiação residual. Como
radiobiólogo, eu sei como varia entre espécies diferentes a
sensibilidade à radiação. O homem é uma das espécies mais
sensíveis. A maior exposição à radiação provocará muitas mudanças;
o sistema imunológico do homem será destruído. Ao mesmo tempo,
microorganismos patogênicos que nós classificamos geralmente como
pestes são muito resistentes a essa espécie de radioatividade. Com
isso haverá um novo desequilíbrio ecológico, que contribuirá para a
exterminação da pequena população humana que haja sobrevivido às
conseqüências imediatas de uma catástrofe nuclear.
É assim responsabilidade direta dos cientistas da União Soviética e
dos Estados Unidos levar ao conhecimento de todos, os grandes
perigos que seriam desencadeados por qualquer espécie de conflito
nuclear, de modo a prevenir a própria possibilidade de uma guerra
nuclear, cujo desfecho não apenas seria certamente o fim da
civilização, senão que ameaçaria a vida como tal neste planeta que
amamos.

EHRLICH: Há mais um ponto. Se os efeitos se propagarem ao


Hemisfério Sul e nós nos reduzirmos a pequenos grupos, e Caso
alguns desses pequenos grupos consigam, a longo prazo, sobreviver
a todos os efeitos de que aqui falamos, inclusive os apontados pelo
Dr. Kuzin, devemo-nos lembrar - e devemos alertar os nossos
governantes - de que uma vez perdida a civilização tecnológica, é
altamente improvável que jamais venhamos a recuperá-Ia.
Quando a humanidade se tornou civilizada e enveredou pelo caminho
da industrialização, havia grande quantidade de minérios ricos à flor
da terra, e para furar um poço de petróleo bastava enfiar uma vara no
chão. Hoje temos de fundir minérios de baixíssimo teor metálico, e
perfurar milhares de metros para extrair petróleo. Se as
conseqüências de uma guerra nuclear se prolongarem por um tempo
tal que a tecnologia se perca, e os estoques de ferro e de outros
recursos importantes sejam destruídos pela corrosão e dispersados, é
altamente improvável que um grupo de caçadores-colhedores ou
lavradores de subsistência possa jamais refazer o 'caminho que 'leva
à civilização tecnológica.

VELIKHOV: Parece-me haver um consenso de que a Conferência é


um passo importantíssimo; talvez ela dê de fato um novo impulso no
sentido do desarmamento nuclear. Ela forneceu conclusões
científicas, dados e informações a todos nós. Atualmente, todos
deveriam ser capazes de tirar conclusões práticas dessas
informações.
Quanto a mim, penso que uma das conclusões importantes da nossa
Conferência é que mesmo o emprego de uma pequena parte dos
arsenais nucleares teria resultados catastróficos, não apenas pela
morte imediata de multidões de inocentes como pelas drásticas
transformações que causariam no meio e no clima, que poderiam
trazer conseqüências infinitamente negativas. Falando em geral,
mesmo hoje a humanidade existe num siso tema ecológico muito
instável, de modo que qualquer desvio porá em risco a continuação
dessa existência.
Portanto, todas as colocações políticas que falam de guerras locais ou
ditas "limitadas", de guerras "controladas", de reação flexível ou
de guerra prolongada, são conceitos que, à luz do que agora
sabemos, carecem de base totalmente. Todas elas trazem consigo os
resultados horríveis e catastróficos que acabamos de ver.
Entendemos que nenhum armamento militar ou psicológico - e há
muitos - pode refutar esses resultados. A meu ver, a única conclusão
possível é que os nossos artefatos nucleares não podem ser usados
como armas de guerra ou como instrumentos de guerra; nem como
instrumentos de política. São instrumentos de suicídio.
Eu diria que as análises aqui apresentadas não se basearam no pior
caso possível, pois não levaram em conta alguns fatores
possivelmente envolvidos num conflito nuclear. Por exemplo, nós não
consideramos os imensos depósitos de resíduos tóxicos e não
calculamos o impacto resultante no caso de eles serem atingidos. Não
consideramos os efeitos de serem atingidas usinas nucleares.
Certamente isso viria agravar os resultados, principalmente à longo
prazo. Conclui-se assim que a própria superioridade nuclear é uma
ilusão, tendo em vista a enorme quantidade de armas nucleares que já
acumulamos. Sabemos agora que as armas nucleares não são
músculos do Estado moderno. São, sim, uma excrescência cancerosa
que ameaça a própria vida do planeta. Assim como o doente de
câncer não tem chance de viver uma vida longa e feliz, também a
humanidade não tem chance de continuar coexistindo com a bomba
para sempre. Ou nós destruímos o câncer, ou o câncer nos destruirá.
Essa é uma decisão fundamental, e todas as decisões provisórias só
podem ser provisórias. A meu ver, essa é a principal conclusão desta
Conferência, e a mais fundamental.

ROBERTS: Para mim é uma grande honra participar deste evento.


Partilho com Tom Malone a impressão de que este debate com nossos
colegas da União Soviética pode marcar uma mudança de rumo nos
nossos modos de pensar e de agir com relação à guerra nuclear. Foi
um diálogo muito produtivo, acadêmico Velikhov, e eu lhe agradeço e
aos seus colegas por se juntarem a nós.
Durante a nossa Conferência sobre o Mundo após a Guerra Nuclear, o
Dr. Ehrlich fez um comentário muito interessante para o grupo aqui de
Washington, a saber, que o que vier a acontecer como conseqüência
de uma guerra nuclear pode incluir alguns perigos e possibilidades
não previstos. Ouvi com grande interesse a exposição do Dr. Israel
sobre a possibilidade de ocorrer um aquecimento subseqüente ao
esfriamento. Parece-me que poderia ser mais um efeito imprevisto. E,
considerando a perspectiva de uma guerra nuclear, lembramos as
palavras do Dr. Sagan:
"O que mais teremos deixado de levar em conta?”
Mas mesmo deixando de levar em conta algumas outras
conseqüências, é claro para mim que temos diante de nós evidências
bastantes para demonstrar o imperativo que é para a humanidade
evitar a guerra nuclear. E eu sinto que o debate aberto e franco que
tivemos aqui em Washington, na Conferência sobre o Mundo após a
Guerra Nuclear, e neste importante diálogo com nossos colegas
soviéticos foi extremamente útil e gratificante.
Todos nós temos consciência de que muitas questões científicas ainda
não foram completamente resolvidas. É minha esperança sincera que
possamos pensar juntos e combinar nossos esforços para esclarecer
algumas dessas questões, reduzir as incertezas e assegurar que o
que possamos ter esquecido não é tão importante, na perspectiva das
coisas que sabemos. Entretanto, já sabemos o suficiente para nos
darmos conta de que é imperioso, em nome de toda a humanidade,
acelerar a busca da segurança do mundo no domínio da política,
assim como no domínio da ciência.
Como cidadãos de nossas nações, e como residentes desta frágil
espaçonave que é a Terra, devemos conceber e pôr em prática novas
políticas que garantam um futuro estável para o planeta e para todos
os seus habitantes. Agradecemos aos nossos colegas soviéticos a sua
participação neste debate de hoje.

MALONE: Muito obrigado. Com essas palavras prudentes, declaramos


encerrada esta Conexão Moscou. Eu me despeço com um
pensamento. Nosso desafio é o da razão. Duzentos anos atrás,
Emanuel Kant disse que a razão humana tende a centrar-se em três
perguntas: "O que posso saber?" (ou o que me é possível conhecer),
"O que devo fazer?" (ou quais são os imperativos morais) e,
fInalmente, "O que posso esperar?" Nesta troca de idéias, eu vejo
uma base de esperança.
Levemos conosco esses pensamentos, principalmente o de que esta
troca de idéias proporciona uma base de esperança.

CONCLUSÃO
WALTER ORR ROBERTS
William D. Ruckelshaus, diretor da Agência de Defesa Ambiental dos
Estados Unidos, em recente artigo na revista Science, disse que o
debate de questões ambientais é freqüentemente dominado por um
clima de medo. Ele recomenda aos cientistas que façam maiores
esforços no sentido de explicar ao público de modo simples e
fundamentado as conclusões subjacentes das pesquisas, incluindo a
exposição das incertezas das noções fundamentais, e portanto dos
riscos estimados. Entre as opções com que a humanidade se
defronta, nenhuma ilustra melhor essa recomendação que as
conseqüências biológicas de uma guerra nuclear em escala mundial.
Nenhum prejuízo ambienta! para a vida do planeta representa uma
ameaça potencial maior, principalmente quando combinada à
consideração da destruição e da perda de vidas diretamente
decorrentes de uma guerra nuclear.
Em seu artigo, Ruckelshaus cita estas palavras de Thomas Jefferson:
"Se julgamos [o povo] insuficientemente esclarecido para exercitar o
seu controle com discrição razoável, o remédio não é arrebatá-Io dele,
mas informar a sua discrição.”
Esse propósito norteou magnificamente a Conferência sobre o Mun .
do após a Guerra Nuclear. Nosso objetivo foi informar os povos do
mundo, na convicção de que o esclarecimento levará ao exercício de
uma discrição universal razoável. Nós nos propusemos ater-nos
estritamente a questões científicas, explicar algumas descobertas
novas, não previstas, de alta relevância para a higiene do planeta, e
reexaminar, na perspectiva de trabalhos mais recentes, algumas das
pesquisas precedentes sobre o assunto. Basicamente estamos de
acordo no que diz respeito aos temas físicos e biológicos tratados na
Conferência.
Provavelmente há menos unanimidade quanto a como lidar com as
questões políticas levantadas por essas verificações científicas. Estou
certo de que muitos de nós divergem quando se trata de optar entre
as alternativas sociais, econômicas, políticas e mesmo éticas que nos
defrontam como membros que somos de nações-Estados e da
comunidade universal dos povos. Por isso evitamos propositalmente o
debate de questões e opções de ordem política nesta Conferência. É
claro que as questões políticas são de suma importância, e devem ser
profundamente meditadas, extensamente discutidas e finalmente
aplicadas à ação. E o que é mais, há urgência em mudar para um
novo terreno na área da política.
Thomas W. Wilson, Jr. enfatizou recentemente a prioridade dessas
questões políticas numa excelente análise intitulada "Conceitos
Modificados de Segurança Nacional", da qual citarei uma breve
passagem:
Finalmente esse tema [segurança nacional] corre solto no domínio
público - mais ou menos fora dos limites estritos do isolamento
burocrático, do sigilo oficial e da complexidade esotérica dos cálculos
estratégicos... ainda estamos nos estágios preliminares de um
reexame cabal das nossas crenças, teorias, tradições, doutrinas e
idéias feitas em que se baseiam a política e a estratégia no campo da
segurança das nações e dos povos. e provável que este venha a
revelar-se um processo doloroso, demorado e turbulento - às vezes,
talvez, raiando pelo trauma - pois o que está em jogo é muito grande,
e os temas muito emocionais...
No mundo real de hoje os interesses nacionais dos diferentes Estados
convergem na necessidade de suster e defender os sistemas vivos do
planeta Terra - e isso nos inclui. O que vale dizer que o único modo de
salvar a nossa própria pele a tornar a Terra segura. E assim a
segurança do mundo é uma política para pragmáticos - e também
para poetas. Oferece uma estratégia talhada para santos e também
para soldados.

É importante, na medida do possível, que esse "processo doloroso,


demorado e turbulento" de debate nasça de um terreno comum de
compreensão dos conhecimentos físicos e biológicos subjacentes. Foi
o que o Comitê de Orientação desta Conferência definiu como nosso
objetivo, e eu louvo os participantes e o auditório por sua adesão a
essas normas básicas.
O cenário principal de referência de guerra nuclear envolve um
intercâmbio de 5.000 megatons, que projeta uma porção considerável
da poeira e da fuligem produzidas por incêndios de cidades e florestas
na alta troposfera (parte superior da baixa atmosfera) e na baixa
estratosfera (parte inferior da alta atmosfera), acima do nível normal
das nuvens. Essa tonelagem é bem menos da metade dos arsenais
somados dos Estados Unidos e URSS. É também aproximadamente a
escala de conflito nuclear analisada no relatório publicado em junho de
1982 pela revista Ambio, da Real Academia Sueca de Ciências, e em
vários outros estudos preliminares.
Conflitos nucleares mais limitados parecem produzir da mesma forma
grandes perturbações ambientais e grandes danos biológicos, além e
acima dos causados pelas explosões e pela radiação. Parece que as
perturbações ambientais não guardam muita proporção com a escala
da guerra, desde que a tonelagem seja suficiente para provocar
grandes incêndios. Estudaram-se modelos com tonelagens de apenas
100 megatons, e mesmo nestes demonstrou-se a probabilidade de
efeitos adversos importantes no caso de ataques a concentrações
urbanas. Muitos dos efeitos descritos no cenário de 5.000 megatons
fizeram-se presentes em conflitos bem menores.
Com o cenário de 5.000 megatons para definir as condições iniciais,
pelo menos três grupos analisaram modelos meteorológicos globais
na tentativa de estimar as conseqüências do ponto de vista da
meteorologia e climatologia. Esses modelos matemáticos alcançaram
um tal nível de sofisticação que a maioria dos cientistas dedicados ao
problema inclina-se a acreditar que eles simulam de forma realista as
características gerais do mundo real da meteorologia quando as
hipóteses básicas são bem compreendidas. As últimas conclusões são
bastante alarmantes. As enormes tempestades ígneas produzidas
numa guerra nuclear desempenham um papel considerável nos danos
ambientais, em função do smog e da fuligem transportados às
camadas altas da atmosfera. Essas nuvens de partículas alteram
dramaticamente o equilíbrio da radiação na atmosfera. Podem não
apenas produzir "trevas ao meio-dia" como primeiro sugerido por
Crutzen e Birks em 1982, mas também modificar radicalmente os
padrões globais dos ventos, das chuvas e das neves.
O cenário utilizado representa uma guerra em grande escala no
Hemisfério Norte (mas não numa escala implausível, em termos dos
arsenais mundiais de armas nucleares). Em conseqüência de uma
guerra como essa, como os senhores ouviram, é quase certo que a
quantidade média de luz solar a atingir a superfície da Terra no
Hemisfério Norte será drasticamente reduzida, talvez a uma diminuta
percentagem dos níveis diurnos normais. Nesse cenário, as
tempestades cairão bruscamente nos primeiros dias seguintes à
guerra. O tempo de recuperação para a radiação solar, temperatura,
chuvas e ventos será de alguns meses a alguns anos.
O principal estudo físico apresentado nesta Conferência por Carl
Sagan baseia-se no modelo construído por Turco, Toon, Ackerman,
Pollack e Sagan - designado como modelo TTAPS. Na primavera
passada um grupo de físicos debateu e criticou uma primeira minuta
do relatório TTAPS. O principal estudo biológico foi apresentado por
Paul Ehrlich, e também se baseia num amplo consenso de um grande
grupo de eminentes biólogos que se reuniram na primavera passada,
logo após o seminário dos físicos.
O modelo TTAPS nos diz que se a guerra ocorrer no verão do
Hemisfério Norte, as temperaturas cairão muito abaixo do ponto de
congelamento em extensas áreas de cultura de latitudes médias como
os cinturões de trigo e milho da América do Norte, principal fonte
mundial de exportação de grãos. Segundo o modelo, um conflito
nuclear limitado de apenas 100 megatons que envolvesse centros
urbanos poderia produzir, mesmo no verão, temperaturas continentais
abaixo do ponto de congelamento durante vários meses.
A energia solar necessária à fotossíntese de matéria vegetal será
radicalmente reduzida - a maior parte das plantas cultivadas
simplesmente não produz na sombra, mesmo que haja calor
suficiente. Ao que parece, a fumaça responsável pelo escurecimento
pode ser rapidamente transportada para o outro lado do equador.
Assim, os efeitos meteorológicos e os efeitos sobre a vida vegetal
produzidos pela guerra nuclear podem propagar-se globalmente em
tempo relativamente curto.
Mesmo em áreas tropicais, como a bacia amazônica, segundo
modelos paralelos e suplementares trabalhados por Schneider, Covey
e Thompson do NCAR, que usaram o mesmo cenário, é provável a
ocorrência de temperaturas glaciais já nos primeiros dias após a
guerra. Suas conclusões, como as do TTAPS, indicam frio extremo em
regiões agrícolas de latitudes médias mesmo após uma guerra de
verão. No seu modelo, o rápido esfriamento dos dias imediatamente
seguintes à guerra é sucedido em tempo relativamente curto por urna
recuperação da temperatura nas vizinhanças das costas ocidentais
produzida pelo efeito moderador dos oceanos, termicamente estáveis,
na medida em que ventos fortes transportarão o calor dos oceanos a
grandes distâncias terra à dentro. Mas danos sérios já terão sido
causados às lavouras e a outras fontes de alimentos.
É provável que grande parte da produção de alimentos agrícolas e
silvestres no Hemisfério Norte seja quase anulada no período de um
ano, e também nos trópicos e no Hemisfério Sul a produção de
alimentos pode ser consideravelmente reduzida. Mesmo com reservas
normais de alimentos, é possível que um terço da população do
mundo venha a morrer de doenças ligadas à desnutrição, somando-se
ao terço que pode morrer pelos efeitos diretos das explosões e da
radiação local instantânea numa guerra nuclear mundial em grande
escala. Novas calamidades serão provocadas pela escuridão e pelo
frio intenso. Perdas adicionais resultarão da falta de água potável e
outros serviços em virtude do congelamento, estrago ou poluição de
sistemas naturais de suprimento e falta de apoio infra-
estrutural humano. Mesmo as populações de países em
desenvolvimento situados em zonas tropicais distantes dos cenários
da guerra enfrentarão terríveis problemas de alimentação. A região
africana do Sael, que já sofre grave escassez de alimentos e depende
em alto grau da importação de produtos agrícolas, não escapará aos
efeitos adversos de uma conflagração remota.
Além do mais, com toda a probabilidade as bolas de fogo da guerra
nuclear gerarão óxidos de nitrogênio (NOx) em quantidade suficiente
para reduzir a camada de ozônio e com isso aumentar várias vezes a
radiação solar ultravioleta durante vários anos, impedindo a
recuperação de plantas e animais por um longo período. Até o
plâncton marinho pode ser afetado, e por conseqüência os alimentos
tirados do mar. Pode haver grande incidência de cegueira em homens
e animais em razão de cataratas e lesões da córnea induzidas pela
radiação ultravioleta. Outro perigo ê a redução das defesas
imunológicas do homem e de outros mamíferos, e conseqüente
alastramento de doenças. A multiplicação de insetos e outras pragas
adaptadas de forma oportunista às novas condições ambientais é uma
possibilidade definida.
Ehrlich explicou que "todos os sistemas humanos estão contidos em
ecossistemas e dependem totalmente deles para a produção agrícola
e para uma série de outros 'serviços públicos' gratuitos. Esses
serviços incluem a regulação dos climas e manutenção da
composição gasosa da atmosfera; suprimento de água doce; remoção
de resíduos; reciclagem de elementos nutrientes (inclusive os
indispensáveis à agricultura e à silvicultura); geração e preservação de
solos; controle da imensa maioria das pragas potenciais das lavouras
e vetores de enfermidades humanas; suprimento de alimentos do mar;
e manutenção de uma vasta 'biblioteca' genética da qual a
humanidade já tirou a própria base da civilização - inclusive todas as
plantas cultivadas e animais de criação". E fez notar que uma guerra
nuclear truncaria esses serviços gratuitos prestados pela natureza
numa ocasião em que as pessoas mais precisariam deles.
Em todos os modelos meteorológicos e climáticos existem incertezas.
O modelo TTAPS, o do NCAR e o apresentado pelos nossos colegas
da URSS diferem em alguns detalhes - como se viu nos debates do
painel. Por exemplo, o modelo soviético mostrou que depois do
esfriamento brusco as temperaturas poderão subir acima do "normal"
anterior. Mas todos eles mostram o esfriamento imediato e desastroso.
Além disso, as conseqüências biológicas não somente guardam
dependência dos modelos físicos, que têm suas limitações, como têm
igualmente suas incertezas próprias. Mas as conclusões gerais são
sólidas mesmo em face dessas diferenças e incertezas, e quando
menos dão o que pensar. Se é que ainda precisamos de outros
incentivos para prevenir um holocausto nuclear além dos que
encontramos nas conseqüências diretas da guerra, eles nos dão
dados em abundância. Esta Conferência não tratou das medidas
políticas necessárias ao controle do confronto nuclear global. Mas
forneceu evidências de que as ameaças à sobrevivência dos sistemas
biológicos são maiores do que anteriormente se supunha, e que
realmente podem pôr em risco tudo quanto conquistamos em milênios
de civilização.
Como disse Carl Sagan, "é possível que a população do Homo
sapiens se reduza a níveis pré-históricos ou a menos ainda, e a
própria extinção da espécie humana não pode ser excluída". Paul
Ehrlich disse mais ou menos a mesma coisa em palavras um pouco
diferentes.
Donald Kennedy abriu a nossa Conferência com uma exposição
brilhante. Nela, ele observou que há grandes incertezas no que foi
apresentado, mas também que "estas descobertas são parte de um
processo ordenado na evolução do pensamento científico, através do
qual pouco a pouco viemos deslocando o foco de nossas atenções
dos efeitos mais imediatos e mais óbvios para os mais complexos e
duráveis". Disse a seguir que esses novos efeitos são ainda mais
sérios, posto que muito mais difíceis de estimar com precisão. E disse
mais, que "... a incerteza deveria ser uma advertência temática para
os planejadores políticos. O que as nossas projeções mais
ponderadas mostram é que um choque nuclear em grande escala
haverá de produzir, entre os seus muitos efeitos plausíveis, as maiores
convulsões biológicas e físicas deste planeta nos últimos 65 milhões
de anos - um período mais de 30 mil vezes maior que o tempo
decorrido do nascimento de Cristo, e mais de 100 vezes o tempo de
existência até aqui da nossa espécie". "É preciso que a avaliação dos
riscos prováveis", disse ele, "se constitua numa base de
considerações para todos aqueles que de têm a responsabilidade
pelas decisões de segurança nacional, aqui e em outras partes."
Esperamos que as nossas apresentações venham contribuir
definitivamente para o objetivo da exortação de Thomas Jefferson no
sentido de informar a discrição do povo, para que ele possa exercitar
tal discrição de modo esclarecido e razoável.
As questões científicas, é óbvio, ainda não foram plenamente
resolvidas. Eu tenho a satisfação de saber que organismos
internacionais como o SCOPE, Comitê Científico para Problemas do
Ambiente, entre outros, têm planos para dar continuidade seriamente
ao estudo desses pontos. A parte científica do processo deve
prosseguir, para que as incertezas se reduzam. Mas nós já sabemos o
suficiente com respeito aos riscos para compreender que é imperioso,
em nome da humanidade, acelerar a busca da segurança do mundo
no campo da política. Como cidadãos de nossos Estados nacionais, e
como residentes da "espaçonave Terra", devemos de fato conceber e
praticar políticas que assegurem um futuro estável ao planeta, aos
seus pragmáticos, poetas, santos, soldados e enfim, a todos os seres
vivos sencientes.

APÊNDICE

O INVERNO NUCLEAR:
CONSEQÜÊNCIAS GLOBAIS DE EXPLOSÕES MÚLTIPLAS
NUCLEARES

Tem-se manifestado Uma preocupação com respeito às


conseqüências a curto e a longo prazos da poeira, fumaça,
radioatividade e gases tóxicos que seriam produzidos numa guerra
nuclear. A descoberta de que nuvens densas de partículas de solo
podem ter desempenhado um papel importante em extinções em
massa ocorridas na Terra no passado incentivou a reconsideração dos
efeitos de uma guerra nuclear. Também, recentemente, Crutzen e
Birks sugeriram que grandes incêndios ateados por explosões
nucleares poderiam gerar quantidades de fumaça fuliginosa que
atenuariam a luz solar e perturbariam o clima. Essas circunstâncias
levaram-nos a calcular, utilizando novos dados e modelos
aperfeiçoados, os possíveis efeitos ambientais globais de nuvens de
poeira e fumaça (daqui por diante designadas poeira nuclear e fumaça
nuclear) geradas numa guerra nuclear. Provavelmente a maior parte
da população do mundo sobreviveria ao conflito nuclear inicial e
herdaria o meio de pós-guerra. Dessa forma, os efeitos retardados e
globais de uma guerra nuclear poderiam vir a revelar-se não menos
importantes que as conseqüências imediatas da guerra.
Para estudar esses fenômenos, nós utilizamos uma série de modelos
físicos: um modelo de cenário de guerra nuclear, um modelo de
microfísica de partículas e um modelo de radiação-convecção. O
modelo de cenário de guerra nuclear especifica a poeira, a fumaça e a
radioatividade em função da altitude, e as injeções de NOx para cada
explosão num conflito nuclear (supondo a potência, número e tipo das
detonações, inclusive altura de explosão, local geográfico e fração de
energia de fissão liberada). O modelo-fonte de fixação de parâmetros
é explicado adiante e numa memória mais detalhada. O modelo físico
unidimensional prediz a evolução no tempo das nuvens de poeira e
fumaça, que por hipótese se dispersariam rápida e uniformemente. O
modelo unidimensional de radiação-convecção (1-D RCM) aplica as
distribuições calculadas de dimensões de partículas de poeira e
fumaça, as constantes óticas e a teoria de Mie para calcular
propriedades óticas nas faixas visível e infravermelha, fluxos de luz e
temperaturas do ar em função do tempo e da altura. Como as
temperaturas do ar calculadas são sensíveis às capacidades térmicas
superficiais, elaboram-se simulações distintas para meios terrestres e
oceânicos, para definir possíveis contrastes de temperatura. As
técnicas empregadas nos cálculos do nosso 1-D RCM estão bem
documentadas.
Os modelos por nós empregados, embora podendo fornecer
estimativas aproximadas dos efeitos médios de nuvens de poeira e
fumaça disseminadas em grandes extensões, não permitem prever
com precisão efeitos locais ou a curto prazo. A aplicabilidade dos
nossos resultados depende da velocidade e da extensão da dispersão
das nuvens de explosões e dos penachos produzidos por incêndios.
Logo após um conflito nuclear de grandes dimensões, milhares de
nuvens isoladas de poeira e fumaça distribuir-se-iam em toda a faixa
de latitudes médias setentrionais e em altitudes de até 30.000 metros.
Difusão horizontal turbulenta, arrastamento vertical pelo vento e
emissão continuada de fumaça poderiam espalhar as nuvens de
detritos nucleares pela zona inteira, tendendo a preencher os claros
entre as nuvens em uma a duas semanas. As simulações desse
período inicial de dispersão das nuvens com base em valores
espaciais médios devem ser vistas com cautela; os efeitos seriam
menores em certos locais e maiores em outros, e variariam com o
tempo em qualquer local determinado.
Os presentes resultados também não refletem a forte conjugação
entre os movimentos atmosféricos em todas as escalas de extensão e
as taxas modificadas de aquecimento e esfriamento atmosféricos por
radiação solar e infravermelha computadas com o 1-D RCM. É quase
certo que os padrões de circulação global se alterariam em resposta
às grandes perturbações das forças agentes aqui calculadas. O 1-D
RCM, embora só possa predizer condições correspondentes a valores
horizontais, diurnos e sazonais médios, é capaz de estimar as
respostas climáticas de primeira ordem da atmosfera, que constituem
o objeto deste estudo.

Cenários
Um balanço dos arsenais nucleares do mundo mostra que as armas
primárias estratégicas e de teatro representam 12.000 megatons (MT)
de potência transportados por 17.000 ogivas. Em potência explosiva
esses arsenais equivalem aproximadamente a um milhão de bombas
de Hiroxima. Embora o número total de ogivas de alta potência esteja
diminuindo com o tempo, cerca de 7.000 MT ainda correspondem a
ogivas de mais de 1 MT. Existem também 30.000 ogivas táticas e
munições de baixa potência, que não são consideradas nesta análise.
Os cenários de emprego possível de armas nucleares são complexos
e discutíveis. Historicamente, os estudos dos efeitos à longo prazo de
uma guerra nuclear têm-se concentrado num conflito em grande
escala, na faixa de 5.000 a 10.000 MT. Esses conflitos são possíveis,
tendo em vista os arsenais atuais e a natureza imprevisível de uma
guerra, particularmente de uma guerra nuclear, em que poderia
ocorrer uma escalada maciça do conflito.
O Quadro 1 mostra um sumário dos cenários adotados neste estudo.
Nosso cenário de referência supõe um conflito de 5.000 MT. Os
demais casos cobrem uma gama de potência total de 100 a 25.000
MT. Muitas instalações industriais e militares de alta prioridade
localizam-se nas vizinhanças ou dentro de zonas urbanas. Em vista
disso, a fração da potência total atribuída a objetivos urbanos ou
industriais (15-30%) é modesta. Tendo em vista a grande potência das
ogivas estratégicas (em geral mais de 100 quilotons [KT]), ataques
"cirúrgicos" contra objetivos isolados são difíceis; por exemplo, uma
explosão aérea de 100 KT pode arrasar e queimar uma área de 50
km2, e uma explosão aérea de 1 MT, uma área 5 vezes maior, o que
implica estragos colaterais extensos em quaisquer ataques de "contra-
valor", e em muitos dos de "contra-força".
As propriedades da poeira e da fumaça nucleares são fatores críticos
para a presente análise. A fixação dos parâmetros básicos é mostrada
nos Quadros 2 e 3, respectivamente; detalhes podem ser encontrados
na Ref. 15. Para cada cenário de detonações, as quantidades
fundamentais que têm de ser conhecidas para efeito de previsões
óticas e climáticas são as injeções atmosféricas totais de poeira fina
(raio menor ou igual a 10 u) e fuligem.
Explosões nucleares no solo ou próximas do solo podem gerar
partículas finas por vários mecanismos: (i) ejeção e desagregação de
partículas de solo, (ii) vaporização e renucleação de terra e rocha, e
(iii) assopramento e arrastamento vertical de poeira e fumaça da
superfície. Análises de dados de testes nucleares indicam que
aproximadamente 1 x 10 elevado a 5 a 6 x 10 elevado a 5 toneladas
de poeira por megaton de potência explosiva são contidas nas nuvens
estabilizadas de detonações superficiais em terra.
Além disso, a análise de dimensões de amostras de poeira recolhidas
em nuvens nucleares indica uma fração submicrométrica substancial.
Detonações nucleares na superfície podem ser muito mais eficientes
em gerar poeira fina do que erupções vulcânicas, que foram
impropriamente utilizadas no passado para estimar os impactos de
uma guerra nuclear.

A intensa luz emitida pela bola de fogo nuclear é suficiente para iniciar
a combustão de matérias inflamáveis numa extensa área. As
explosões sobre Hiroxima e Nagasáqui atearam incêndios de grandes
proporções. Em ambas as cidades, a região pesadamente destruída
pelo sopro foi também consumida pelo fogo. Avaliações feitas nestes
últimos 20 anos sugerem fortemente que ocorreriam incêndios
extensos na maior parte dos casos de detonações sobre florestas e
cidades. O Hemisfério Norte tem 4 x 10 elevado a 7 km2 de áreas
florestais, que contêm matérias combustíveis na proporção média de
2,2 g/cm2. As zonas urbanas e suburbanas do mundo cobrem uma
área de 1,5 x 10 elevado a 6 km2. Os centros de cidades, que ocupam
entre 5 e 10% da área urbana total, contêm entre 10 e 40 g/cm2 de
matérias combustíveis, enquanto as áreas residenciais contêm
entre 1 e 5 g/cm2.
A emissão de fumaça de incêndios florestais e de incêndios urbanos
de grandes proporções situa-se provavelmente na faixa de 2 a 8% em
massa do combustível queimado. A fração fuliginosa, de alto
coeficiente de absorção (principalmente carbono grafítico) pode
chegar a 50% da emissão em peso. Em incêndios florestais, e
provavelmente em incêndios urbanos, mais de 90% da massa de
fumaça são constituídos de partículas de menos de 1u de raio. Nos
cálculos relativos à faixa de luz visível, atribuiu-se à parte imaginária
do índice de refração da fumaça o valor 0,3 elevado a 50.

Simulações
De modo geral, as previsões de modelo aqui referidas representam
efeitos médios no Hemisfério Norte (HN). As explosões nucleares e
incêndios iniciais seriam na maior parte circunscritos às latitudes
setentrionais médias (30º a 60ºN). Assim sendo, a opacidade média
prevista por efeito da poeira e fumaça poderia ser duas a três vezes
maior nas latitudes médias, e menores em outras partes. As
profundidades óticas médias hemisféricas nos comprimentos de onda
visíveis para as nuvens mistas de poeira e fumaça nucleares
correspondentes aos cenários do Quadro 1 são mostradas na Figura
1. A profundidade ótica vertical é um diagnóstico útil das propriedades
da nuvem nuclear, e pode ser utilizada de modo aproximado para
calcular os níveis de luminosidade e temperatura atmosféricas para os
diversos cenários.
No cenário de referência (Caso 1, 5.000 MT), a profundidade ótica
inicial no HN é 4, sendo 1 devido à poeira estratosférica 3 à fumaça
troposférica. Depois de um mês a profundidade ótica ainda é 2. Ao fim
de dois a três meses, a poeira domina os efeitos óticos, pois a maior
parte da fuligem é arrastada ou lavada pela chuva. No caso de
referência, cerca de 240.000 km2 de áreas urbanas são parcialmente
queimados (50%) por 1.000 MT de explosões (apenas 20% da energia
total liberada). Isso corresponde aproximadamente a 1/6 da área
continental urbanizada do mundo, a 1/4 da área desenvolvida do HN e
à metade da área dos centros urbanos de mais de 100.000 habitantes
dos países da OTAN e do Pacto de Varsóvia. A quantidade média de
matérias combustíveis consumidas na área incendiada é1,9 g/cm2.
Incêndios florestais ateados pelos restantes 4.000 MT de energia
queimam outros 500.000 km2 de árvores, campos e pastos,
consumindo dessa forma 0,5 g/cm2 de matérias combustíveis

Figura 1: Profundidades óticas verticais (dispersão mais absorção,


médias hemisféricas) de nuvens de poeira e fumaça nucleares no
comprimento de onda de 550 nm, em função do tempo. Profundidades
óticas menor ou igual a 0,1 são desprezíveis, 1 são significativas, e
maior que 2 implicam a possibilidade de conseqüências de vulto. Em
profundidades óticas maior ou igual a 1 a transmissão da luz solar
torna-se altamente não-linear. São mostrados resultados para vários
casos do Quadro 1. Profundidades óticas calculadas para a nuvem da
erupção do El Chichón em expansão são mostradas para efeito
comparativo.

A emissão total de fumaça no caso de referência é de 225 milhões de


toneladas (desprendidas no correr de vários dias). Em comparação, a
emissão global anual de fumaça hoje é estimada em 200 milhões de
toneladas, mas o grau de perturbação da atmosfera por ela produzido
é provavelmente menos de 1% do da fumaça nuclear.
As simulações de profundidade ótica para os Casos 1, 2, 9 e 10 na
Figura 1 mostram que uma gama de energia liberada entre 3.000 e
10.000 MT poderia produzir efeitos semelhantes. Mesmo os Casos 11,
12 e 13, ainda que menos severos em seu impacto absoluto,
produzem profundidades óticas comparáveis ou superiores às de uma
grande erupção vulcânica. É interessante notar que erupções como a
do Tambora em 1815 podem ter causado perturbações climáticas
significativas, mesmo com uma redução média de temperatura
superficial inferior a 1ºK.
Figura 2: Variações da temperatura superficial (médias hemisféricas)
após um conflito nuclear. São mostrados resultados para vários casos
do Quadro 1. (Note-se que, diferentemente da Fig. 1, a escala de
tempo é linear.) Em geral, as temperaturas aplicam-se ao interior das
massas continentais. Somente nos Casos 4 e 11 são desprezados os
efeitos dos incêndios.

O Caso 14 representa um ataque de 100 MT a cidades, com 1.000


ogivas de 10 KT. No ataque, 25.000 km2 de áreas urbanas
construídas são incendiados (essa área corresponderia
aproximadamente a 100 grandes cidades). A emissão de fumaça é
calculada com parâmetros de incêndios diferentes dos do caso de
referência. A carga média de matérias combustíveis em áreas urbanas
centrais é de 20 g/cm2 (contra 10 g/cm2 no Caso 1) e o fator médio de
emissão de fumaça é 0,026 g de fumaça por grama de material
queimado (contra o valor moderado de 0,011 g/g adotado para
incêndios em centros de cidades no caso de referência). Cerca de 130
milhões de toneladas de fumaça urbana são injetadas na troposfera
em cada caso (no Caso 14 nenhuma fumaça alcança a estratosfera).
No caso de referência, só cerca de 10% da fumaça urbana se
originam de incêndios em áreas urbanas centrais (Quadro 3).
O limiar de injeção de fumaça para perturbações óticas importantes
em escala hemisférica parece situar-se em 1 x 10 elevado a 8
toneladas. Com base no Caso 14, pode-se esperar o desprendimento
de 1 x 10 elevado a 6 toneladas de fumaça de cada uma das 100
grandes cidades incendiadas, consumindo 4 x 10 elevado a 7
toneladas de matérias combustíveis por cidade. Esses incêndios
podem ser ateados por 100 MT de explosões nucleares.
Inesperadamente, menos de 1% dos arsenais estratégicos existentes,
se empregado contra cidades, poderia produzir distúrbios óticos (e
climáticos) muito maiores que os anteriormente associados a um
conflito nuclear maciço de 10.000 MT2.
A Figura 2 mostra a perturbação da temperatura superficial em áreas
continentais do HN calculada a partir das profundidades óticas de
poeira e fumaça para diversos cenários. O mais Impressionante são
as temperaturas extremamente baixas que ocorrem em três a quatro
semanas após um conflito em grande escala. No caso de referência
de 5.000 MT, prediz-se uma temperatura mínima em áreas
continentais de 250ºK (-23°C) ao fim de três semanas. Temperaturas
abaixo de 0ºC persistem por
Figura 3: Perturbações das temperaturas troposféricas e
estratosféricas no Hemisfério Norte (em graus Kelvin; 1ºK = 1°C) após
o conflito nuclear de referência (Caso 1). A área hachurada indica
esfriamento. Também são dadas. as pressões ambientes em milibars.
vários meses. Entre os casos mostrados, as menores quedas de
temperatura em terra são de 5º a 10ºC (Casos 4, 11 e 12), suficientes
para transformar o verão em inverno. Assim, são de esperar
conseqüências climáticas severas em todos esses casos. O cenário
de 100 MT de explosões aéreas sobre cidades (Caso 14) produz um
intervalo de dois meses de temperaturas abaixo de 0ºC em terra, com
um mínimo também aqui, próximo de 250ºK. O restabelecimento da
temperatura neste caso é acelerado pela absorção da luz solar em
nuvens de fuligem remanescentes oticamente tênues (ver abaixo).
Cenários comparáveis com e sem emissão de fumaça (p. ex., Casos
10 e 11) mostram que as camadas troposféricas de fuligem causam
um esfriamento superficial abrupto de curta duração, ao passo que a
poeira fina estratosférica é responsável por esfriamento prolongado,
durando um ano ou mais. (Do ponto de vista do clima, um esfriamento
superficial de apenas 1ºC já é significativo.) Em todos os casos, a
poeira nuclear age no sentido de esfriar a superfície da Terra; a
fuligem também tende a esfriar a superfície, salvo quando a nuvem de
fuligem é oticamente tênue e localizada próximo à superfície (um caso
pouco importante, pois com isso não se obtêm mais que pequenos
aquecimentos transitórios de menos de 20K).
As variações preditas de temperatura do ar sobre os oceanos ligadas
às alterações do transporte atmosférico de radiação são sempre
pequenas (esfriamento inferior a 3ºK) por causa do grande conteúdo
de calor e rápida mistura das águas superficiais. No entanto, variações
nos padrões de circulação atmosférica zonal (ver abaixo) podem
alterar de modo considerável as correntes e vagas marinhas, como
ocorreu há pouco tempo em menor escala no leste do Pacífico (El
Niño). O reservatório oceânico de calor também moderaria os
declínios preditos de temperatura continental, principalmente em
regiões costeiras. Esse efeito é difícil de estimar em vista da
probabilidade de distúrbios da circulação atmosférica. Os declínios
efetivos de temperatura no interior dos continentes poderiam ser uns
30% menores que os aqui preditos, e ao longo dos litorais uns 70%
menores. No caso de referência, portanto, as temperaturas
continentais podem cair a 260ºK antes de voltar aos níveis ambientes.
As variações preditas no perfil vertical de temperaturas para o cenário
de referência são Ilustradas em função do tempo na Figura 3. As
características dominantes da perturbação de temperatura são um
grande aquecimento (até 80ºK) da baixa estratosfera e alta troposfera,
e um grande esfriamento (até 400K) da superfície e baixa troposfera.
O aquecimento é causado pela absorção da radiação solar na parte
superior das nuvens de pó e fumaça; persiste por um período longo
em razão da residência prolongada das partículas na alta atmosfera,
da sua baixa emissividade de infravermelho e das temperaturas
inicialmente baixas nas grandes altitudes. O esfriamento superficial é
o resultado da atenuação do fluxo solar incidente pelas nuvens de
aerossol (ver Figura 4) durante o primeiro mês da simulação. O efeito
de estufa deixa de ocorrer em nossos cálculos porque a energia solar
é depositada acima da altura em que a energia de infravermelho é
irradiada para o espaço.
A Figura 4 mostra os declínios de insolação para vários cenários de
guerra. O caso de referência indica fluxos solares médios hemisféricos
no solo Inferiores a 10% dos valores normais durante várias semanas
(não considerando descontinuidades nas nuvens de pó e fumaça).
Além de causar as quedas de temperatura acima mencionadas, a
insolação atenuada pode afetar o ritmo de crescimento das plantas e o
vigor das cadeias alimentares marinhas, litorâneas e terrestres. No
caso "severo" de 10.000 MT, os níveis médios de luz ficam abaixo do
mínimo requerido para a fotossíntese por cerca de 40 dias em grande
parte do Hemisfério Norte. Em vários outros casos a insolação pode
cair durante mais de dois meses abaixo do ponto de compensação em
que a fotossíntese é apenas suficiente para manter o metabolismo
vegetal. Dada a probabilidade de as nuvens nucleares se manterem
descontínuas nas primeiras uma ou duas semanas após o conflito, a
passagem da luz solar por claros nas nuvens pode permitir a atividade
de crescimento das plantas acima do nível predito para condições
médias das nuvens; no entanto, é provável que em pouco tempo os
claros se fechem.
Figura 4: Fluxos de energia solar ao nível do solo no Hemisfério Norte
após uma guerra nuclear. São mostrados resultados para vários casos
do Quadro 1. (Note-se que a escala de tempo é linear). Os valores são
médios para o ciclo diurno e para o hemisfério. Nos Casos 4 e 16
desprezam-se os incêndios. Indicam-se também o nível de fluxo
aproximado para o qual a fotossíntese deixa de acompanhar o ritmo
respiratório da planta (ponto de compensação) e aquele em que a
fotossíntese cessa. Esses limites variam para espécies diferentes.
Figura 5: Profundidades óticas verticais (absorção mais dispersão em
550 nm) de nuvens nucleares em função do tempo, numa análise de
sensibilidade. As profundidades óticas são valores médios para o
Hemisfério Norte. Todos os casos mostrados correspondem a
variações de parâmetros do modelo em referência (Caso 1) e
consideram a poeira aplicável a cada qual: Caso 3, não há
tempestades ígneas; Caso 4, não há incêndios; Caso 22, tempo de
lavagem pelas chuvas reduzidos de um fator 3; Caso 25, fumaça
inicialmente confinada aos primeiros 3.000 m da atmosfera; Caso 26,
fumaça inicialmente distribuída entre 13.000 e 19.000 m em todo o
globo; e Caso 27, parte imaginária do índice de refração da fumaça
reduzida de 0,3 para 0,1. Para efeito de comparação, no Caso 4, só se
considera a poeira do modelo de referência (não se consideram os
incêndios).

Testes de Sensibilidade
Um grande número de testes de sensibilidade foi efetuado como parte
deste estudo. Os resultados são resumidos a seguir. Variações
razoáveis nos parâmetros da poeira nuclear no cenário de referência
produzem profundidades óticas médias hemisféricas iniciais de poeira
que variam aproximadamente de 0,2 a 3,0. Assim, a poeira nuclear por
si só poderia produzir um impacto climático importante. No caso de
referência, a opacidade da poeira é muito maior que a opacidade total
de aerossol associada às erupções do El Chichón e do Agung; mesmo
quando se atribuem aos parâmetros de poeira os seus valores menos
adversos dentro da faixa plausível, os efeitos são comparáveis aos de
uma grande explosão vulcânica.
A Figura 5 compara profundidades óticas de nuvens nucleares para
algumas variações dos parâmetros de fumaça do modelo de
referência (com a poeira incluída). No caso de referência, admite-se
que tempestades ígneas injetem somente uma pequena fração (5%)
da emissão total de fumaça na estratosfera. Assim, os Casos 1 e
3 (sem tempestades ígneas) são muito semelhantes. Numa digressão
extrema, toda a fumaça nuclear é injetada na estratosfera e
rapidamente difundida a toda a volta da Terra (Caso 26);
profundidades óticas elevadas podem persistir por um ano (Fig. 5).
Também se obtém um prolongamento dos efeitos óticos no Caso 22,
em que o tempo de eliminação troposférica das partículas de fumaça
aumenta de 10 a 30 dias próximo do solo. Em contraste, quando a
fumaça nuclear se mantém inicialmente próximo do solo e se supõem
processos dinâmicos e hidrológicos de remoção inalterados, a
eliminação da fumaça ocorre muito mais depressa (Caso 25). Mas,
mesmo neste caso, parte da fumaça ainda se difunde para a alta
troposfera e ali permanece durante vários meses.
Num grupo de cálculos ópticos, fez-se variar o índice de refração
imaginário da fumaça entre 0,3 e 0,01. As profundidades ópticas
calculadas para índices entre 0,1 e 0,3 praticamente não mostram
diferenças (Casos 1 e 27 na Fig. 5). Com um índice de 0,05, a
profundidade ótica de absorção se reduz em apenas 50%, e com 0,01
em 85%. Por outro lado, a opacidade total (absorção mais dispersão)
aumenta em 5%. Esses resultados mostram que a absorção de luz e o
aquecimento nas nuvens de fumaça nuclear permanecem elevados
até que a fração de carbono grafítico da fumaça caia abaixo de uns
poucos pontos percentuais.
Um dos testes de sensibilidade (Caso 29, não figurado) considera os
efeitos óticos no Hemisfério Sul (HS) da poeira e fuligem
transportadas da estratosfera do HN. Nesse cálculo, a fumaça do
Caso 13 (300 MT, HS) se soma à metade da poeira e fumaça
estratosféricas do caso de referência (com dispersão global rápida na
estratosfera). A profundidade ótica inicia! é 1 no HS, caindo para 0,3
em três meses. As temperaturas médias preditas nas superfícies
continentais do HS caem 8ºK em algumas semanas e permanecem
pelo menos 4ºK abaixo do normal por quase oito meses. No entanto, a
influência sazonal deve ser levada em conta. Por exemplo, as piores
conseqüências para o HN resultariam de um conflito de primavera ou
de verão, quando as plantações são vulneráveis e o perigo de fogo é
maior. O HS, que estaria então no outono ou no inverno, seria nesse
caso menos sensível ao escurecimento e esfriamento. Não obstante,
as implicações deste cenário para as regiões tropicais de ambos os
hemisférios parecem sérias e merecedoras de uma análise
suplementar. Fatores sazonais também podem modular a resposta
atmosférica às perturbações pela fumaça e poeira, e devem ser
consideradas.

Figura 6: Profundidades óticas verticais (absorção mais dispersão em


550 nm) em função do tempo para casos ampliados de energia
explosiva ou produção de poeira e fumaça nucleares. As condições
são detalhadas noutro lugar. As quantidades de energia explosiva
liberada são as mesmas dos casos nominais de igual total constantes
do Quadro 1 (os Casos 16 e 18 também estão relacionados). Os
casos “severos” consideram geralmente um aumento de seis vezes na
injeção de poeira fina e de duas vezes na emissão de fumaça. Nos
casos 15, 17 e 18, a fumaça é responsável pela maior parte da
opacidade durante os primeiros um, dois meses. Nos casos 17 e 18, a
poeira contribui com a principal parcela para os efeitos óticos depois
de um, dois meses. No Caso 16 desprezam-se os incêndios e toda a
opacidade é produzida pela poeira de explosões na superfície.

Alguns testes de sensibilidade para casos mais severos foram levados


a efeito com liberações de energia variando de 1.000 a 10.000 MT e
valores mais adversos, mas não implausíveis, atribuídos aos
parâmetros de poeira e fumaça. Os efeitos preditos são
consideravelmente piores (ver abaixo). As menores probabilidades
desses casos mais severos devem ser pesadas contra os desfechos
catastróficos que eles pressupõem. Seria política prudente medir a
importância desses cenários em termos do produto das suas
probabilidades pelos custos dos efeitos respectivos. Infelizmente, não
temos meios de quantificar com precisão as probabilidades aplicáveis.
No entanto, pela sua própria natureza, os casos mais severos devem
ser os mais importantes a considerar com vistas ao emprego de armas
nucleares.
Com essas reservas, apresentamos na Figura 6 as profundidades
óticas para alguns dos casos mais severos. Opacidades elevadas
podem persistir por um ano, e temperaturas superficiais continentais
podem cair a 230-240ºK, ou seja, cerca de 50ºK abaixo do normal.
Combinados a baixos níveis de luz (Fig. 4), esses cenários severos
levantam a possibilidade de conseqüências ecológicas catastróficas e
generalizadas.
Dois testes de sensibilidade foram efetuados para determinar
aproximadamente as propriedades óticas da aglomeração de aerossol
nas nuvens em início de expansão. (As simulações já levam em conta
a coagulação contínua das partículas nas nuvens dispersas.) Admitiu-
se uma dispersão muito lenta nas nuvens iniciais estabilizadas de
poeira e fumaça, levando cerca de oito meses para cobrir o HN. A
coagulação de partículas reduziu a opacidade média ao fim de três
meses em cerca de 40%. Quando a eficiência adesiva das partículas
em colisão também foi maximizada, a opacidade média ao fim de três
meses reduziu-se em 75%. Na situação mais provável, porem, a
aglomeração e coagulação imediata reduziria as profundidades óticas
médias hemisféricas das nuvens em 20 a 50%.

Outros Efeitos
Foram considerados também, com menos detalhe, os efeitos à longo
prazo da precipitação radioativa, do NOx gerado pelas bolas de fogo,
e dos gases tóxicos e pirogênicos. A física da precipitação radioativa é
bem conhecida. Nossos cálculos referem-se principalmente à
acumulação externa na escala intermediária de tempo da precipitação
devida ao arrastamento e deposição seca da poeira nuclear dispersa.
Para estimar níveis possíveis de exposição, adotamos uma fração de
energia de fissão de 0,5 para todas as armas. Quanto à exposição
apenas à emissão gama da poeira radioativa, que no cenário de
referência (5.000 MT) começa a precipitar depois de dois dias, a dose
total média hemisférica acumulada por humanos em alguns meses
seria de 20 rads, supondo-se ausência de abrigo e de remoção da
poeira por agentes meteorológicos. Durante esse tempo a precipitação
ficaria restrita principalmente às latitudes médias do HN; ali, portanto,
a dose poderia ser 2 a 3 vezes maior. Considerando a ingestão de
radionuclídeos biologicamente ativos e exposição ocasional a
precipitação localizada, a dose crônica total média nas latitudes
médias de radiação ionizante no caso de referência seria mais de 50
rads de radiação gama externa no corpo inteiro, somados a mais de
50 rads em órgãos internos específicos, provenientes de emissores
internos de radiações beta e gama. No caso de 10.000 MT, com as
mesmas suposições, as doses médias seriam multiplicadas por dois.
Estas doses sõao mais ou menos uma ordem de grandeza maiores
que as das estimativas precedentes, que desprezaram o arrastamento
e precipitação na escala intermediária de tempo de resíduos nucleares
troposféricos produzidos por detonações de baixa potência (menos de
1 MT).
O problema do NOx produzido nas bolas de fogo das explosões de
alta potência, e da resultante redução do ozônio atmosférico, foi
tratado em vários estudos. No nosso caso de referência, encontrou-se
para o empobrecimento médio hemisférico de ozônio um valor máximo
de 30%. Este seria bem menor se as potências das ogivas individuais
fossem todas reduzidas a menos de 1 MT. Considerando a relação
entre o acréscimo da radiação UV-B e o decréscimo de ozônio, são
previstas doses de UV-B aproximadamente iguais ao dobro do normal
no primeiro ano após o conflito no caso de referência (depois de
dissipadas a poeira e a fuligem). Efeitos maiores de UV-B resultariam
de ataques com ogivas de maior potência (ou artefatos
multidetonantes).
Os incêndios nucleares gerariam uma grande variedade de gases
tóxicos (piratoxinas), inclusive CO e HCN. Segundo Crutzen e Birks,
uma densa capa de poluição atmosférica, incluindo concentrações
aumentadas de ozônio, poderia recobrir o HN durante vários meses.
Preocupam-nos também as dioxinas e os furanos, compostos
extremamente tóxicos e persistentes que são liberados na combustão
de substâncias orgânicas sintéticas de largo emprego. Num conflito
nuclear poderiam ser geradas centenas de toneladas de dioxinas e
furanos. As conseqüências ecológicas à longo prazo dessas
pirotoxinas nucleares merecem estudos mais aprofundados.

Perturbações Meteorológicas
Variações horizontais da absorção de luz solar na atmosfera e na
superfície são as forças impulsoras básicas da circulação atmosférica.
Em vários dos casos considerados neste estudo são indicadas
modificações de vulto nessas forças. Por exemplo, desigualdades de
temperatura superiores a 10ºK entre áreas continentais do HN e os
oceanos contíguos podem induzir uma forte circulação do tipo
monção, análoga em certos aspectos ao padrão de inverno nas
vizinhanças do subcontinente Indiano. Do mesmo modo, o contraste
de temperaturas entre regiões atmosféricas carregadas de resíduos e
regiões adjacentes ainda não ocupadas pela fumaça e poeira deve
produzir novas modalidades de circulação.
Assim, pois, as nuvens de poeira e fumaça nucleares poderão
ocasionar perturbações climáticas de monta e efeitos
correspondentes, através de mecanismos variados: reflexão de
radiação solar para o espaço e absorção de luz solar na alta
atmosfera, resultando em esfriamento superficial generalizado;
modificação dos padrões de absorção da luz solar e aquecimento que
promovem a circulação atmosférica em pequena escala e em grande
escala; introdução de maior quantidade de vapor de água e de
núcleos de condensação de nuvens, que afetam a formação de
nuvens e o regime de chuvas; e alteração do albedo superficial por
incêndios e fuligem. Esses efeitos conjugam-se intimamente para
determinar a resposta atmosférica geral a uma guerra nuclear. Por ora
não é possível prever em detalhe as alterações nos campos
combinados da circulação atmosférica e da radiação, e no
comportamento do tempo e dos microclimas, que resultariam das
injeções maciças de poeira e de fumaça aqui analisadas. Portanto, a
especulação tem de limitar-se a considerações muito gerais.
A evaporação dos oceanos é uma fonte contínua de umidade para a
camada marinha Iimítrofe. Uma camada densa semipermanente de
bruma ou nevoeiro poderia recobrir grandes porções de água. As
conseqüências para a precipitação pluviométrica marinha não são
claras, principalmente se os ventos dominantes normais
forem grandemente alterados pelo agente solar perturbado. Algumas
regiões continentais poderiam sofrer nevadas contínuas durante vários
meses. As chuvas podem promover a remoção da fuligem, se bem
que o processo possa não ser muito eficiente no caso de nuvens
nucleares. É provável que, em média, as taxas de precipitação
pluviométrica fossem em geral menores que na atmosfera ambiente: a
principal fonte restante de energia para a formação de tempestades é
o calor latente da evaporação oceânica, e a atmosfera superior fica
mais quente que a inferior, o que elimina a convecção e a formação de
chuvas.
Apesar da possibilidade de grandes nevadas, não é provável que uma
guerra nuclear desencadeasse uma glaciação. O período de
esfriamento (menos de um ano) provavelmente é curto demais para
vencer a considerável inércia do sistema climático da Terra. O
reservatório de calor que são os oceanos haveria de forçar o clima no
sentido dos padrões contemporâneos nos anos seguintes à guerra. Do
ponto de vista climatológico, a introdução de CO2 pelos incêndios
nucleares não é expressiva.

Transporte Inter-Hemisférico
Em estudos anteriores foi admitido que um transporte inter-hemisférico
significativo de detritos nucleares e radioatividade demandaria um ano
ou mais. Isto com base em observações de transporte em condições
ambientes, inclusive a dispersão de nuvens de detritos produzidas por
testes nucleares atmosféricos isolados. No entanto, nuvens densas de
poeira e fumaça produzidas por milhares de explosões quase
simultâneas seriam de molde a provocar distúrbios dinâmicos intensos
em seguida a uma guerra nuclear. Podo-se estabelecer uma analogia
aproximada com a evolução das tempestades de poeira de escala
global em Marte. A baixa atmosfera marciana assemelha-se em
densidade à estratosfera da Terra, e o período de rotação é quase
igual ao da Terra (embora a insolação seja apenas metade da
terrestre). As tempestades de poeira que se formam em um dos
hemisférios de Marte não raro se intensificam e se propagam
rapidamente ao planeta inteiro, cruzando o equador num tempo médio
de 10 dias. Aparentemente, a explicação está no aquecimento da
poeira levantada, que passa a suplantar outras fontes de calor e a
determinar a circulação. Haberle e outros empregaram um modelo
bidimensional para simular a evolução das tempestades de poeira em
Marte e concluíram que a poeira em baixas latitudes, no núcleo da
circulação de Hadley, é o fator mais Importante de modificação dos
ventos. Num conflito nuclear, a maior parte da poeira e fumaça seria
injetada em latitudes médias. Entretanto, Haberle e outros não
conseguiram encaixar em seus cálculos as ondas de escala
planetária. Perturbações da amplitude de ondas planetárias podem
influir consideravelmente no transporte de detritos nucleares entre
médias e baixas latitudes.
Efeitos atmosféricos de vulto poderiam produzir-se no HS (i) pela
injeção de poeira e fumaça resultante de explosões em objetivos do
HS, (ii) pelo transporte de detritos do HN através do equador meteoro
lógico por ventos do tipo monção 4, e (iii) por transporte inter-
hemisférico na alta troposfera e na estratosfera, promovido pelo
aquecimento solar das nuvens de poeira e fumaça nucleares.
Observações fotométricas da nuvem produzida pela erupção do
vulcão El Chichón (origem 14ºN) pelo satélite Solar Mesosphere
Explorer mostraram que 10 a 20% do aerossol estratosférico foram
transportados para o HS após 7 semanas.

Discussão e Conclusões
Os estudos aqui esboçados sugerem efeitos climáticos sérios à longo
prazo como conseqüência de um conflito nuclear de 5.000 MT. Apesar
das incertezas no que se refere às quantidades e propriedades da
poeira e da fumaça produzidas por explosões nucleares, e das
limitações dos modelos usados para análise, podem tirar-se em
primeira aproximação as seguintes conclusões:

(1) Em desacordo com a maior parte dos estudos anteriores (p. ex.,
Ref. 2), nós concluímos que uma guerra nuclear global produziria um
grande impacto sobre o clima - manifestado em escurecimento
considerável da superfície durante muitas semanas, temperaturas
continentais glaciais persistindo por até vários meses, grandes
perturbações nos padrões de circulação global e alterações
dramáticas de condições meteorológicas locais e regimes de chuvas -
um rigoroso "inverno nuclear" em qualquer estação. Transporte inter-
hemisférico acelerado de detritos nucleares na estratos fera também
poderia ocorrer, embora se façam necessários estudos de modelo
para quantificar esse efeito. Com a rápida mistura inter-hemisférica, o
HS poderia sofrer grandes injeções de detritos nucleares pouco tempo
depois de um conflito no HN. Antes, supunha-se que os efeitos no HS
seriam de pouca monta. Embora se preveja que os distúrbios
climáticos durem mais de um ano, parece improvável que fosse
deflagrada uma transformação climática de vulto à longo prazo, como
uma glaciação.

(2) Efeitos climáticos relativamente grandes poderiam resultar mesmo


de um conflito nuclear relativamente pequeno (100 a 1.000 MT) se os
ataques se concentrassem em áreas urbanas, pois 100 MT já são
suficientes para arrasar e incendiar algumas centenas de grandes
centros urbanos do mundo. Um limiar tão baixo de energia para
emissões maciças de fumaça, embora dependendo do cenário,
implica que mesmo conflitos nucleares limitados podem deflagrar
conseqüências graves. Tanto menos provável é que a liberação de
5.000 a 10.000 MT tivesse apenas efeitos leves.

(3) Prevê-se que o impacto climático da fumaça negra de incêndios


nucleares ateados por explosões aéreas será mais importante que o
da poeira levantada por detonações na superfície (quando os dois
efeitos ocorrerem). A fumaça absorve eficientemente a luz solar, ao
passo que a poeira de solo é geralmente não-absorvente. As
partículas de fumaça são extremamente pequenas (tipicamente raio
inferior a 1 u), o que prolonga o seu tempo de residência atmosférica.
Há também uma alta probabilidade de que explosões nucleares sobre
cidades, florestas e campos ateariam incêndios de grande extensão,
mesmo em ataques limitados a silos de mísseis e outros alvos
militares estratégicos.

(4) A fumaça de incêndios urbanos pode ser mais importante que a de


incêndios florestais colaterais por duas razões pelo menos: (i) num
conflito em grande escala, é provável que cidades contendo grandes
depósitos de matérias combustíveis sejam diretamente atacadas; e (ii)
tempestades ígneas intensas poderiam bombear fumaça para a
estratosfera, onde o tempo de residência é de um ano ou mais.

(5) A poeira nuclear também pode contribuir para o impacto climático


de um conflito nuclear. O efeito climático da poeira é muito sensível à
maneira de condução da guerra; é de esperar um efeito menor se
forem empregadas armas de menor potência e se houver
predominância de detonações aéreas sobre detonações no solo. A
ocorrência de detonações múltiplas poderia agravar os efeitos
climáticos da poeira nuclear, mas não há dados suficientes para
avaliar esta questão.

(6) A exposição à precipitação radioativa pode ser mais intensa e


generalizada do que o predito por modelos empíricos de exposição
que desprezam a precipitação intermediária, a qual pode estender-se
por dias e semanas, tanto mais se grandes quantidades de detritos de
fissão fossem bruscamente liberadas na troposfera por explosões de
potência abaixo de 1 MT. Num conflito de 5.000 MT, podem verificar-
se em latitudes médias do HN doses médias de raios gama
(exposição corporal) de até 50 rads; doses maiores podem ocorrer nos
penachos de precipitação que partindo dos objetivos se estenderiam
centenas de quilômetros na direção do vento. Essa estimativa deixa
de levar em conta uma dose provavelmente não insignificante de
radiação interna devida a radionuclídeos biologicamente ativos.

(7) Sinergismos entre efeitos à longo prazo de uma guerra nuclear -


como baixos níveis de luz, temperaturas glaciais, exposição à
precipitação radioativa intermediária, alto grau de poluição pirogênica
do ar e fluxo acrescido de UV-B -, agravados pela supressão de
socorros médicos, suprimento de alimentos e serviços civis, poderiam
aumentar em muito o número de baixas e afetar seriamente o
ecossistema global. Uma avaliação das possíveis conseqüências
biológicas à longo prazo dos efeitos de uma guerra nuclear
quantificadas neste estudo foi feita por Ehrlich e outros.

Nossas estimativas dos impactos físicos e químicos de uma guerra


nuclear são necessariamente imprecisas porque nós utilizamos
modelos unidimensionais, porque os dados básicos são incompletos e
porque o problema não é passível de investigação experimental.
Também não nos é possível prever a natureza exata das alterações da
dinâmica atmosférica e da meteorologia apontadas pelos nossos
cenários de guerra nuclear, nem o efeito de tais alterações na
manutenção ou dispersão das nuvens iniciais de poeira e fumaça. Não
obstante, sendo tão grande a magnitude dos efeitos de primeira
ordem, e tão sérias as implicações, esperamos que as questões
científicas aqui levantadas sejam enérgica e criticamente examinadas.

CONSEQÜÊNCIAS BIOLÓGICAS À LONGO


PRAZO DE UMA GUERRA NUCLEAR
Estudos recentes de uma guerra nuclear em grande escala (liberação
de 5.000 a 10.000 MT) estimaram que haveria 750 milhões de mortes
imediatas somente por ação das explosões; um total de 1,1 bilhão de
mortes provocadas pelos efeitos combinados de explosões, fogo e
radiação e aproximadamente outro tanto de feridos necessitando
cuidados médicos. Assim, as baixas imediatas de uma guerra nuclear
poderiam representar de 30 a 50% da população do mundo. A grande
maioria das baixas ocorreria no Hemisfério Norte, principalmente nos
Estados Unidos, URSS, Europa e Japão. Esses números enormes
têm sido tipicamente citados para definir em toda a sua magnitude o
potencial catastrófico de uma guerra dessa espécie. No entanto
elementos novos aqui apresentados sugerem que os efeitos biológicos
à mais longo prazo resultantes de alterações climáticas podem ser
pelo menos tão graves quanto os imediatos. Nossa preocupação
neste artigo é com os dois ou três bilhões de pessoas não
imediatamente mortas, inclusive as de países situados a grandes
distâncias do conflito nuclear.
Consideram-se principalmente os resultados de uma guerra nuclear
em que poeira e fumaça são injetadas na atmosfera em quantidade
bastante para interceptar a maior parte da radiação solar incidente,
possibilidade esta inicialmente sugerida por Ehrlich e outros, e
inicialmente quantificada e divulgada por Crutzen e Birks. Numa ampla
gama de cenários de conflito nuclear, com liberação de energia
variando de 100 a 10.000 MT, sabemos agora que a luz solar poderia
ser absorvida e dispersada em grau suficiente para provocar
escuridão e frio em áreas extensas, (esses trabalhos são
coletivamente designados TTAPS). Em todos os casos as
computações indicam conseqüências biológicas de extrema
gravidade. Todos os cenários estão perfeitamente enquadrados nas
possibilidades atuais, e do ponto de vista estratégico não parecem
improváveis. Além disso, é possível que a probabilidade de uma
guerra nuclear com altíssima liberação de energia tenha sido de modo
geral subestimada. Examinam-se também as conseqüências da
propagação de efeitos atmosféricos ao Hemisfério Sul.
Consideramos como caso de referência o Caso 17 dos cenários
estudados no TTAPS. É o caso de um conflito de 10.000 MT em que
aos parâmetros que definem as propriedades dos aerossóis de poeira
e fuligem são atribuídos valores adversos mas não implausíveis, e em
que 30% da fuligem são carreados por tempestades ígneas a altitudes
estratosféricas. As perturbações ambientais resultantes, com as
respectivas margens de incerteza, estão relacionadas para os
Hemisférios Norte e Sul no Quadro 1, A e B.
Tomando valores médios para o Hemisfério Norte, independentemente
da estação do ano, os fluxos calculados de luz visível reduzir-se-iam a
aproximadamente 1% do normal, e as temperaturas superficiais no
interior dos continentes poderiam cair a aproximadamente -40°C.
Seria necessário no mínimo um ano para que a luz e a temperatura
retornassem às condições normais. Em zonas de objetivos, de início a
escuridão poderia ser total, mesmo ao meio-dia. Uma porção estimada
de 30% das áreas continentais de latitudes médias do Hemisfério
Norte receberia uma dose de radioatividade superior a 500 R
imediatamente após as explosões. Essa dose, produzida por
emissores gama externos da precipitação radioativa, igualaria ou
excederia a dose aguda média letal (LD50) para adultos sadios. Nos
dias e semanas seguintes, a precipitação contribuiria uma dose
externa adicional superior a 100 R em 50% das latitudes médias norte.
Doses internas contribuiriam outros 100 R ou mais concentrados em
sistemas orgânicos específicos como a tiróide, os ossos, o trato
gastrointestinal e o leite das lactantes. Após o assentamento da poeira
e da fumaça, o fluxo superficial de radiação solar ultravioleta (UV-B,
320 a 290 nm) seria aumentado várias vezes durante alguns anos em
virtude do empobrecimento da ozonosfera por ação do NOx gerado
pelas bolas de fogo. Os efeitos no Hemisfério Sul envolveriam níveis
mínimos de luz inferiores a 10% do normal, temperaturas mínimas
continentais na superfície inferiores a -18ºC e aumentos de UV-B de
dezenas de pontos percentuais durante anos. Os impactos potenciais
das alterações climáticas induzidas por uma guerra nuclear são
sumariados no Quadro 2.
Evidentemente são possíveis guerras termonucleares menos adversas
para o meio, mas efeitos climáticos semelhantes aos aqui delineados
poderiam resultar de conflitos muito mais limitados, de não mais de
algumas centenas de megatons, no caso de ataques a cidades.
Mesmo que não houvesse efeitos climáticos globais, as
conseqüências regionais de uma guerra nuclear poderiam ser sérias
(Quadro 3). Achamos, no entanto, que os detentores do poder de
decisão devem ser plenamente informados das conseqüências
potenciais dos cenários mais prováveis de desencadear efeitos
prolongados. Por isso, concentramo-nos; neste artigo, no caso
"severo" de 10.000 MT, em vez de no caso de referência de 5.000 MT
do TTAPS. De qualquer modo, por causa dos sinergismos, as
conseqüências de qualquer dado cenário de guerra nuclear podem ser
mais graves que as que abaixo se descrevem. Nosso conhecimento
do funcionamento detalhado dos ecossistemas globais é ainda muito
incompleto para podermos avaliar todas as interações, e por
conseguinte os efeitos cumulativos, dos muitos fatores adversos a que
as populações humanas e os ecossistemas seriam submetidos. Cada
sinergismo não avaliado é provavelmente um fator negativo
multiplicador.

Temperatura
O impacto de temperaturas dramaticamente reduzidas sobre as
plantas dependeria da época do ano em que elas ocorressem, da sua
duração e dos limites de tolerância de cada espécie vegetal.
Particularmente importante é a queda brusca de temperatura. O trigo
de inverno, por exemplo, pode suportar temperaturas de até -15º a
-20ºC quando pré-condicionado a baixas temperaturas (como ocorre
naturalmente nos meses de outono e de inverno), mas uma
temperatura de -5ºC pode matar as mesmas plantas se expostas
durante o crescimento ativo de verão. Até plantas de regiões
alpinas, como por exemplo o Pinus cembra, que toleram temperaturas
de até -50ºC no meio do inverno, podem ser mortas por temperaturas
de -5ºC a -10ºC ocorridas no verão. Os cálculos do TTAPS indicam
que as temperaturas cairiam em tempo curto aos seus níveis mínimos
(Quadro 1); nessas circunstâncias é improvável que plantas
normalmente resistentes ao frio pudessem "endurecer" (desenvolver
tolerância ao congelamento) antes de alcançadas temperaturas letais.
Outros traumas infligidos às plantas pela radiação, por poluentes do ar
e por baixos níveis de iluminação imediatamente após a guerra
multiplicariam os danos provocados pelo esfriamento. Além disso,
plantas doentes ou danificadas têm reduzidas a sua capacidade de
suportar condições de frio extremo.
Mesmo temperaturas bem acima do ponto de congelamento podem
ser danosas para certas plantas. Por exemplo, a exposição do arroz
ou do sorgo a uma temperatura de apenas 13ºC na época crítica pode
inibir a formação de grãos porque o pólen produzido é estéril. O milho
(Zea mays) e a soja (Glycine max), duas culturas importantes na
América do Norte, são muito sensíveis a temperaturas de menos de
10ºC.
Se bem que uma guerra nuclear no outono ou no inverno teria
provavelmente efeitos menores sobre as plantas do que na primavera
ou no verão, a vegetação tropical é vulnerável às baixas temperaturas
em todas as épocas do ano. As únicas regiões em que as plantas
terrestres poderiam escapar à devastação pelo frio extremo seriam
aquelas situadas junto às costas e em ilhas, onde as temperaturas
seriam moderadas pela inércia térmica dos mares. Contudo, essas
áreas experimentariam condições meteorológicas excepcionalmente
violentas devido ao forte gradiente lateral de temperatura entre os
oceanos e o interior dos continentes.

Luz Visível
A ruptura da fotossíntese pela atenuação da luz solar incidente teria
conseqüências que se propagariam em cascata ao longo das cadeias
alimentares, muitas das quais incluem o homem como consumidor. A
produtividade primária se reduziria mais ou menos na proporção do
grau de atenuação da luz, mesmo na hipótese pouco realista de que a
vegetação não fosse afetada de outros modos.
Vários estudos têm examinado os efeitos do escurecimento sobre o
ritmo da fotossíntese, o crescimento das plantas e o rendimento das
safras. Embora folhas individuais possam ser saturadas por níveis de
luz abaixo da metade da luz solar normal, plantas inteiras, que têm
várias camadas de folhas orientadas em diferentes ângulos em
relação ao sol e sombreando parcialmente umas as outras,
geralmente não são saturadas. Assim, uma redução de luz de apenas
10%, ainda que não reduzisse a fotossíntese numa folha inteiramente
exposta, poderia reduzi-la no conjunto da planta devido à presença de
folhas não saturadas no folhame. Aliás, visto que as plantas também
respiram, é provável que na maioria dos casos todo crescimento seria
interrompido se o nível de luz caísse uns 5% abaixo dos níveis
ambientes normais do habitat (ponto de compensação). Nos níveis
previstos para os primeiros meses seguintes a um conflito nuclear de
vulto, as plantas seriam seriamente afetadas e muitas morreriam pela
redução substancial de sua produtividade causada unicamente pela
redução de luz.
Radiação lonizante
A exposição à radiação ionizante num conflito nuclear seria o
resultado direto do fluxo de nêutrons e raios gama da bola de fogo,
dos detritos radioativos depositados na direção do vento. e da parte
dos detritos que seria transportada pelo ar e circularia globalmente.
O grau de dano dos organismos dependeria do tempo e intensidade
da exposição, sendo os efeitos tanto mais graves quanto maiores o
tempo e a exposição total. A exposição letal média para o homem é
geralmente calculada em 350 a 500 R recebidos no corpo inteiro em
menos de 48 horas. Para a maior parte dos outros mamíferos e para
algumas plantas a exposição letal média é inferior a 1.000 R. Se o
tempo de exposição diminui, a dose letal média aumenta.
A área submetida à radiação intensa produzida pela bola de fogo
também seria diretamente afetada pelo sopro e pelo calor. O raio
dentro do qual a pressão do sopro ultrapassa cinco libras por
polegada quadrada é definida como a zona letal de sopro, e a área em
que o fluxo térmico ultrapassa 10 cal/cm2, como a zona letal de calor.
O raio dentro do qual se calcula que a radiação ionizante da bola de
fogo seria letal para o homem é menor que os raios de letalidade
definidos pela pressão ou pelo calor. Não se deu aqui atenção
especial adicional aos efeitos da radiação ionizante produzida pelas
bolas de fogo.
Uma estimativa, baseada no cenário da revista Ambio e parecida com
o caso de referência do TTAPS, envolve a liberação de 5.742 MT e
cerca de 11.600 detonações, sem superposição de campos de
precipitação; sugere que cerca de 5 x 10 elevado a 6 km2 seriam
expostos a 1.000 R ou mais em áreas situadas na direção do vento.
Cerca de 85% dessa exposição total seriam recebidos em 48 horas.
Essa exposição é letal para todas as pessoas expostas, e pode causar
a morte de espécies vegetais sensíveis como a maioria das coníferas -
árvores que formam florestas extensas na maior parte das zonas mais
frias do Hemisfério Norte. Se reatores, depósitos de rejeitos
radioativos e usinas de reprocessamento de combustível nuclear
fossem atingidos num ataque, a área afetada e os níveis de radiação
ionizante poderiam ser ainda maiores.
Na hipótese de que mais ou menos a metade da área afetada por
radiação de precipitação na faixa de 1.000 a 10.000 R fosse coberta
de florestas, seriam aproximadamente 2,5 x 10 elevado a 6 km2
dentro dos quais ocorreria extensa mortalidade de árvores e muitas
outras plantas. Com isso criar-se-ia a possibilidade de incêndios de
grandes proporções. A maior parte das coníferas morreria numa área
equivalente a cerca de 2,5% de toda a superfície terrestre do
Hemisfério Norte.
A possibilidade de até 30% da área continental de latitudes médias ser
exposta a 500 R ou mais de radiação gama acentua a escala e a
gravidade do perigo (Quadro 1A). Uma exposição total de 500 R,
embora tivesse pouco efeito sobre a maior parte das populações
vegetais, provocaria mortalidade generalizada entre todos
os mamíferos, seres humanos inclusive. Os sobreviventes expostos
ficariam doentes por semanas, e mais propensos ao câncer pelo resto
de suas vidas. O total de pessoas afetadas excederia um bilhão.

Radiação UV-B
Nas semanas seguintes ao conflito, a poeira e fuligem troposféricas e
estratosféricas absorveriam o fluxo de UV-B que sem isso seria
transmitido pela ozonosfera parcialmente destruída. Mas quando,
alguns meses passados, a poeira e a fuligem se dissipassem, os
efeitos da rarefação de O3 far-se-iam sentir na superfície. No
Hemisfério Norte, o fluxo de UV-B aumentaria aproximadamente duas
vezes no caso de referência do TTAPS e quatro vezes no da guerra de
10.000 MT considerado no Quadro 1A. Tal como acontece no caso de
uma ozonosfera inaIterada, a dose de UV-B seria bem maior nas
latitudes equatoriais do que nas temperadas.
Mesmo empobrecimentos bem menores de O3 são considerados
perigosos para os ecossistemas e para o homem. Se a banda inteira
de UV-B aumentasse em cerca de 50%, a quantidade de UV-B no
extremo de energia mais alta da banda, em torno de 295 nm,
aumentaria umas 50 vezes. Essa região tem importância biológica
especial devido à fone absorção de energia nesses comprimentos de
onda pelos ácidos nucléicos, pelos aminoácidos aromáticos e pela
ligação peptídica. Em grandes doses, a UV-B é muito destrutiva para
as folhas, enfraquecendo as plantas e reduzindo a sua produtividade.
Sabe-se que a produtividade do plâncton marinho próximo à superfície
é consideravelmente deprimida por níveis ambientes atuais de UV-B;
aumentos mesmo pequenos poderiam ter "conseqüências profundas"
para a estrutura das cadeias alimentares marinhas.
Em pelo menos quatro outros modos, níveis acrescidos de UV-B são
sabidamente prejudiciais aos sistemas biológicos: (i) sabe-se que os
sistemas imunológicos do Homo sapiens e de outros mamíferos são
suprimidos mesmo por doses relativamente baixas de UV-B18.
Particularmente em condições de radiação ionizante aumentada e
outras sobrecargas fisiológicas, essa supressão dos sistemas
imunológicos conduz a um aumento de incidência de doenças. (ii)
Folhas que atingem a maturidade sob baixas intensidades de luz são
duas ou três vezes mais sensíveis à UV-B do que as que se
desenvolvem sob iluminação intensa. (iii) A sensibilidade das bactérias
à UV-B é aumentada por temperaturas baixas, que suprimem o
processo normal de reconstituição do ADN, processo esse que
depende da luz visível. (iv) Exposição prolongada a doses excessivas
de UV-B pode induzir danos da córnea e cataratas, produzindo
cegueira no homem e em mamíferos terrestres. Assim, os efeitos
do aumento de UV-B podem estar entre as mais sérias conseqüências
antes não previstas de uma guerra nuclear.

Efeitos Atmosféricos
Numa guerra nuclear, grandes quantidades de poluentes do ar, entre
eles Co, O3, NOx, cianetos, cloretos de vinil, dioxinas e furanos,
seriam liberadas junto à superfície. Haveria smog e chuvas ácidas em
extensas áreas depois do conflito. Talvez essas toxinas não tivessem
efeitos imediatos significativos sobre uma vegetação já devastada;
entretanto, dependendo da sua persistência, poderiam certamente
obstar a sua recuperação. Por outro lado, o seu transporte pelos
ventos para ecossistemas mais distantes, de início não afetados,
poderia ser um importante efeito adicional. Incêndios em grande
escala conjugados a uma interrupção da absorção do CO2
fotossintético produziriam um aumento a curto prazo da concentração
atmosférica de CO2. A quantidade atual de CO2 na atmosfera
equivale à que é consumida por vários anos de fotossíntese e recebe
a influência estabilizadora das reservas de carbono inorgânico dos
oceanos. Dessa forma, se o clima global e a produtividade
fotossintética dos ecossistemas se restabelecessem em níveis
próximos do normal no curso de alguns anos, é improvável que viesse
a ocorrer uma alteração de longo prazo na composição da atmosfera.
Contudo, não é fora dos domínios do possível que um evento
abrangendo os dois hemisférios, com os conseqüentes danos aos
organismos fotossintéticos, causasse um brusco aumento de
concentração de CO2 e assim alterações climáticas duráveis. Para
efeito de comparação. o tempo de reciclagem de O2 através da
biosfera é de aproximadamente 2.000 anos.

Sistemas Agrícolas
As reservas de alimentos básicos nos centros de população humana
são pequenas, e a maior parte da carne e dos produtos frescos é
suprida diretamente pelas fazendas. Somente grãos de cereais são
armazenados em quantidades expressivas, mas os locais de
armazenagem situam-se com freqüência em pontos distantes dos
centros urbanos. Em seguida a uma guerra na primavera ou no
princípio do verão, as safras do ano seriam quase certamente
perdidas. Numa guerra de outono ou de inverno os grãos teriam sido
colhidos, mas como o clima permaneceria extremamente frio por
muitos meses, a época seguinte de plantio seria também desfavorável
ao crescimento das plantas.
Em suma, após uma guerra nuclear as fontes potenciais disponíveis
de alimentos no Hemisfério Norte seriam destruídas ou contaminadas,
ou estariam em locais inacessíveis, ou logo se esgotariam. Nos países
diretamente envolvidos na guerra haveria escassez de alimentos em
muito pouco tempo. Outrossim, países que hoje precisam de grandes
importações, ainda que não atingidos por explosões nucleares,
sofreriam uma pronta interrupção de abastecimento, o que os
obrigaria a contar unicamente com seus ecossistemas agrícolas e
naturais locais. Este seria um seríssimo problema para muitas nações
menos desenvolvidas, principalmente nas regiões tropicais.
Em sua maior parte, as principais culturas são anuais, e dependem
em alto grau de subsídios energéticos e nutritivos fornecidos por
sociedades humanas. Além disso, a fração da sua produção utilizável
para consumo humano requer a fixação de um excesso de energia
acima das necessidades respiratórias das plantas, o que exige
insolação abundante e minimização de agressões ambientais por
pragas, insuficiência de água, partículas em suspensão no ar,
poluição, etc. Depois de uma guerra nuclear, proporcionar tais
condições seria muitíssimo difícil, se não impossível, na maior parte
da Terra ou possivelmente em toda ela. Portanto, para todos os efeitos
práticos, a agricultura tal como a conhecemos deixaria de existir.
Como na maior parte das culturas norte-americanas, européias e
soviéticas as sementes são colhidas e armazenadas não em fazendas
individuais mas predominantemente em áreas-objetivos ou em seus
arredores, os estoques de sementes para anos subseqüentes seriam
quase com certeza seriamente desfalcados, e é provável que a
variabilidade genética dessas culturas, já limitada, fosse drasticamente
reduzida. Além do mais, as áreas potenciais de cultura
experimentariam modificações climáticas locais, altos níveis de
contaminação radioativa e solos empobrecidos ou erodidos. A
recuperação da produção agrícola teria de ocorrer na ausência de
subsídios maciços de energia (especialmente sob a forma de
combustível de trator e de fertilizantes) aos quais a agricultura das
nações desenvolvidas veio a adaptar-se.
Exceto ao longo das costas, os regimes continentais de chuvas
reduzir-se-iam substancialmente durante algum tempo após um
conflito nuclear. Mesmo hoje, a precipitação pluviométrica é o principal
fator condicionante da produção agrícola em muitas áreas, e a
irrigação, com seus requisitos de energia e de sistemas de suporte
humano para bombeamento de água do solo, não seria exeqüível
depois de uma guerra. Ademais, nos meses seguintes à guerra a
maior parte da água disponível estaria congelada, e o
restabelecimento das temperaturas em seus níveis normais seria
lento.

Ecossistemas Terrestres Temperados


Na medida em que decaísse a agricultura organizada, os 2 ou 3
bilhões de sobreviventes aos efeitos imediatos da guerra seriam
obrigados a voltar-se para os ecossistemas naturais. E justamente
quando estes seriam solicitados a prover sustento a uma população
humana muito acima da sua capacidade de carga, o funcionamento
deles próprios seria entravado seriamente pelos efeitos da guerra
nuclear.
A ação sobre os ecossistemas de baixas temperaturas, fogo, radiação,
tempestades e outras agressões físicas (muitas delas ocorrendo
simultaneamente) resultaria em sua maior suscetibilidade a surtos de
pragas e doenças, provavelmente prolongados. A produtividade
primária reduzir-se-ia dramaticamente nos baixos níveis de luz
reinantes; e, por causa da UV-B, do smog, dos insetos, da radiação e
de outros fatores adversos, é improvável que voltasse em pouco
tempo aos níveis normais, mesmo depois de restabelecidos os valores
de luz e temperatura. Ao mesmo tempo em que teriam o seu
suprimento de alimentos vegetais seriamente limitado, quase todos, se
não todos, os vertebrados não imediatamente mortos pelas explosões
e pela radiação ionizante ou morreriam congelados, ou enfrentariam
um mundo de escuridão em que sucumbiriam de fome ou de sede, já
que as águas superficiais estariam congeladas e portanto
inaproveitáveis. Muitos dos sobreviventes estariam isolados, e em
muitos casos doentes, resultando na extinção ligeiramente retardada
de muitas outras espécies.
A par de alimento e abrigo, os ecossistemas naturais suprem a
civilização de uma série de serviços essenciais. Entre estes, a
regulação da composição atmosférica, a moderação do clima e das
intempéries, a regulação do ciclo hidrológico, a geração e preservação
de solos, a degradação de resíduos e a reciclagem de substâncias
nutrientes. Do ponto de vista humano, entre os papéis mais
importantes dos ecossistemas estão a sua função direta no
fornecimento de alimento e a manutenção de um vasto acervo de
espécies do qual o Homo sapiens retirou as bases da civilização. A
perda acelerada desses recursos genéticos pela extinção seria uma
das conseqüências potenciais mais sérias de uma guerra nuclear.
Incêndios florestais seriam um efeito importante nos ecossistemas
temperados do norte, sua escala e distribuição dependendo de fatores
como o cenário de guerra e a estação do ano. Outra incerteza
ponderável é a extensão das tempestades ígneas, que poderiam
aquecer as camadas profundas do solo em grau suficiente para lesar
ou destruir bancos de sementes, principalmente em tipos de
vegetação não adaptados a queimas periódicas. Detonações aéreas
múltiplas em áreas sazonalmente secas como a Califórnia no fim do
verão ou princípio do outono poderiam calcinar grande parte das áreas
de mata e de campo do Estado, ocasionando inundações e erosões
catastróficas na estação chuvosa subseqüente. Aluvionamento,
escoamentos tóxicos e chuvas radioativas poderiam matar grande
parte da fauna de águas doces e costeiras, e níveis concentrados de
radioatividade em populações de mariscos sobreviventes poderiam
tornar perigoso o seu consumo por períodos prolongados.
Outras conseqüências importantes de uma guerra nuclear para
ecossistemas terrestres compreendem (i) desintoxicação mais lenta
do ar e da água, como resultado secundário dos danos em plantas
que são hoje importantes eliminadores metabólicos de toxinas; (ii)
evaporação-transpiração reduzida nas plantas, contribuindo para uma
taxa menor de entrada de água na atmosfera, principalmente em
regiões continentais, e portanto para um ciclo hidrológico mais lento; e
(iii) alterações consideráveis da superfície do solo, resultando em
erosão acelerada e, provavelmente, grandes tempestades de areia.
A recuperação da vegetação poderia assemelhar-se superficialmente
à que se segue a incêndios locais. No entanto, os efeitos da radiação,
do smog, da erosão, da poeira e das chuvas tóxicas sobrepor-se-iam
aos do frio e da escuridão, prolongando e modificando a sucessão do
pós-guerra de modos que retardariam a restauração das funções
ecossistêmicas. É provável que as alterações de ecossistemas fossem
em sua maior parte, passageiras. Certas alterações estruturais e
funcionais, porém, poderiam ser mais duradouras, e possivelmente
irreversíveis, na medida em que os ecossistemas sofressem
mudanças qualitativas para estados alternativos estáveis. As perdas
de solos por erosão seriam sérias em áreas de ocorrência de
incêndios extensos, morte das plantas e condições climáticas
extremas. Tudo dependeria em grande parte das características de
ventos e chuvas que se desenvolvessem durante o primeiro ano
após a guerra. A diversidade de muitas comunidades naturais seria
quase com certeza substancialmente reduzida, e numerosas espécies
de plantas, de animais e de microorganismos se extinguiriam.

Ecossistemas Terrestres Tropicais


O grau em que as regiões tropicais seriam submetidas a condições
dos gêneros acima descritos dependeria de fatores como a seleção de
objetivos, prevalência de tempestades ígneas, ruptura da distinção
entre troposfera e estratosfera e taxa de mistura inter-hemisférica em
função da altitude. A propagação de nuvens densas de poeira e
fuligem e de temperaturas glaciais às regiões tropicais do norte é
altamente provável, e ao Hemisfério Sul pelo menos possível, portanto
é propositado examinar as conseqüências prováveis dessa
propagação (Quadro 1B).
Por exemplo, as sementes das árvores de matas tropicais tendem a
ter vida bem mais curta que as das zonas temperadas. Se a escuridão
ou as baixas temperaturas, ou ambas, atingissem os trópicos em
grande escala, as florestas tropicais poderiam desaparecer em grande
parte. E isto redundaria na extinção da maioria das espécies vegetais,
animais e microbianas da Terra, com conseqüências prolongadas da
maior importância para a adaptabilidade das populações humanas.
Se a escuridão se estendesse aos trópicos, vastas áreas de
vegetação tropical, que se consideram muito próximas do ponto de
compensação, entrariam em definhamento. Além disso, muitas plantas
de climas tropicais e subtropicais não possuem mecanismos de
dormência que lhes permitam suportar estações frias, mesmo em
temperaturas bem acima do ponto de congelamento. Ainda que a
escuridão e o frio se limitassem principalmente às regiões
temperadas, ondas de ar frio e fuligem poderiam induzir quedas
bruscas de temperatura em grandes extensões da faixa tropical. Isso
corresponderia a uma intensificação do fenômeno conhecido como
"friagem", termo empregado para descrever os efeitos de frentes frias,
originadas na América do Sul temperada, que penetram na Bacia
Amazônica equatorial, onde produzem a morte de grandes
quantidades de aves e peixes. Pelos indícios existentes dos efeitos de
esfriamento no plistoceno e suas conseqüências, pode-se prever que
áreas continentais de baixas latitudes seriam seriamente afetadas por
baixas temperaturas do ar e redução de chuvas.
A dependência de populações tropicais em relação a alimentos e
fertilizantes importados teria conseqüências graves, mesmo que os
trópicos não fossem diretamente afetados pela guerra. Grandes
números de pessoas seriam forçadas a abandonar as cidades e a
tentar cultivar as áreas remanescentes de floresta, acelerando a sua
destruição e conseqüente velocidade de extinção. Tais atividades
também aumentariam grandemente a quantidade de fuligem na
atmosfera pela prática improvisada de derrubada e queima em grande
escala. Não importa qual a exata distribuição dos efeitos imediatos da
guerra, ao cabo todos os habitantes da Terra seriam profundamente
afetados.

Ecossistemas Aquáticos
De modo geral, os organismos aquáticos são protegidos contra
oscilações extremas de temperatura do ar pela inércia térmica da
água. Não obstante, muitos sistemas de água doce congelariam a
profundidades consideráveis ou totalmente em virtude das alterações
climáticas causadas por uma guerra nuclear. O efeito da escuridão
prolongada em organismos marinhos já foi estimado. Produtores
primários na base da cadeia alimentar marinha são particularmente
sensíveis a níveis baixos de luz demorados; níveis tróficos superiores
sofrem com retardo efeitos propagados de menor intensidade. Além
disso, a produtividade do plâncton marinho próximo à superfície é
consideravelmente deprimida pelos níveis atuais de UV-B; mesmo
pequenos aumentos de UV-B podem ter conseqüências profundas
para a estrutura das cadeias alimentares marinhas. Muitos imaginam
que as margens Oceânicas seriam uma fonte importante de sustento
para os sobreviventes de uma guerra nuclear; no entanto, os efeitos
combinados da escuridão, da UV-B, das tempestades litorâneas, da
destruição de navios na guerra e da concentração de radionuclídeos
em sistemas marinhos de águas rasas lançam fortes dúvidas sobre
essa possibilidade.

Conclusões
Os prognósticos de mudanças climáticas são bastante sólidos, e
indicam que, qualitativamente, de uma guerra limitada de 500 MT ou
menos em que se atacassem cidades decorreriam os mesmos tipos
de agressões que de uma guerra em grande escala de 10.000 MT. Em
essência, todos os serviços de suporte dos ecossistemas seriam
seriamente comprometidos (Quadros 2 e 3). Acentue-se que os
sobreviventes, ao menos no Hemisfério Norte, enfrentariam frio
extremo, escassez de água; falta de alimentos e de combustíveis,
fortes cargas de radiação e poluentes, doenças e enormes tensões
psíquicas - tudo isso em penumbra ou em completa escuridão.
Existe a possibilidade de que o escurecimento e as baixas
temperaturas se propagassem ao planeta inteiro. Se isso
acontecesse, poderia resultar um processo acentuado de extinção,
que deixaria uma Terra grandemente transformada e biologicamente
empobrecida. Poder-se-ia esperar a extinção da maior parte das
espécies vegetais e animais tropicais, da maior parte dos vertebrados
terrestres das regiões temperadas do norte, de um grande número de
plantas, de muitos organismos de água doce e de alguns marinhos.
Parece, entretanto, improvável que mesmo nessas circunstâncias o
Homo sapiens fosse de pronto levado à extinção. Quanto à
possibilidade de alguns indivíduos persistirem muito tempo em face de
comunidades biológicas grandemente alteradas, de climas
modificados, de sistemas agrícolas, sociais e econômicos desfeitos,
de tensões psíquicas inusitadas e de todo um séquito de outras
dificuldades, é uma questão em aberto. É evidente que os efeitos de
uma guerra termonuclear em grande escala sobre os ecossistemas
seriam por si sós suficientes para destruir a civilização presente, pelo
menos no Hemisfério Norte. Somada às baixas diretas, em número
superior a um bilhão, a combinação dos efeitos intermediários e a
longo prazo de uma guerra nuclear sugere que ao fim de algum tempo
poderiam não restar sobreviventes no Hemisfério Norte. Além do mais,
o cenário aqui descrito não é em absoluto o pior que se possa
imaginar, tendo em vista os arsenais mundiais existentes e os
previstos para um futuro próximo. Qualquer conflito nuclear em grande
escala entre as superpotências seria de molde a produzir
modificações ambientais globais suficientes para causar a extinção de
uma fração considerável das espécies animais e vegetais da Terra.
Nesse caso, a possibilidade da extinção do Homo sapiens não pode
ser excluída.
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