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A IDADE MÉDIA NAS RELAÇÕES ENTRE CINEMA E HISTÓRIA

Fernando Gralha de Souza
Prof. Graduado pelas Faculdades Integradas Simonsen Pós-Graduado em História do Brasil pela UCAM Mestre em História pela Universidade Federal de Juiz de Fora E-mail: fgralha@hotmail.com

Introdução

Desde muito tempo, a História vem servindo de inspiração para muitas formas de representação, sejam elas lendárias, teatrais, literárias, plásticas e várias outras. Com o surgimento do cinema e sua rápida popularização1, essa característica teve um grande aumento de suas possibilidades, podemos observar isto ao percebermos o elevado número de filmes com referencial histórico na produção mundial. Dito isto, podemos considerar que o "filme histórico", como possuidor de um discurso sobre o passado, coincide com a História no que se refere à sua condição discursiva. Portanto, não seria um exagero considerar que o autor cinematográfico, quando produz um "filme histórico", ganha contornos de historiador, mesmo não carregando consigo o rigor metodológico do trabalho historiográfico. A proposta aqui é que se "re-pense" a História dentro dos novos valores, que já não tão recentemente, estão surgindo, no sentido de transformá-la. Estamos falando aqui da necessidade de se incorporar o universo da emoção (que é o âmago da linguagem audiovisual) ao processo de análise historiográfica para que ela se liberte do domínio da razão e que possa dar vazão a um debate mais participativo, problematizador e instigador. O grande público, atualmente, tem mais contato com a História por meio das telas de cinema e vídeo do que através da leitura ou mesmo do ensino nas escolas secundárias. Essa é uma verdade inegável no mundo contemporâneo, que tem como uma de suas características a predominância da imagem no cotidiano do indivíduo urbano. E, em grande parte, esse fato se deve ao surgimento e popularização do cinema. Fazendo uma analogia numa perspectiva de comparação histórica, podemos dizer que a imagem está para o mundo contemporâneo como a religião está para o

primeiro a teorizar e aplicar o estudo da relação cinema-história. assim. seja ele qual for.mundo medieval. muitas vezes. nem mesmo aqueles que produziram essas películas têm consciência. e a segunda à leitura do filme enquanto discurso sobre o passado. O valor documental de cada filme está intimamente ligado com o olhar e a perspectiva adotados pelo "analista". como sentencia Marc Ferro. qualquer reflexão sobre a relação cinema-história toma como verdadeira a premissa de que todo filme é um documento. com o desenrolar de um processo de renovação dos objetos de estudo do historiador. para além da representação desses elementos audiovisuais. Esta empreitada foi marcada pela publicação de um artigo chamado "O filme: uma contra-análise da sociedade". A primeira corresponde à leitura do filme à luz do período em que foi produzido. por exemplo. em “zonas ideológicas nãovisíveis da sociedade”3. incluindo a sua ideologia. dos “filmes históricos”5. . da arquitetura e dos costumes do período retratado. São múltiplas as possibilidades de leitura de cada filme. seja ele imediato ou remoto2. principalmente aproveitar as suas possibilidades na função de pesquisador e professor. Um filme diz tanto quanto for questionado. isto é. o filme lido através da história. Segundo Marc Ferro. Trabalhar com imagens e. iniciado na França e que foi intitulado de “Nova História”. O principal precursor deste projeto foi o historiador Marc Ferro. Mas. mas que tende a se expandir. Algumas obras. podem ser de grande utilidade na reconstrução do gestual. assim. não só como um simples instrumento mas também no intuito de transcendê-la para um fundamento do processo educativo. a história lida através do cinema e. ou seja. Concluí-se. sempre vai além do seu conteúdo. O cinema só começou a ganhar importância histórica e historiográfica no final da década de 1960. constituindo-se. através da presença de elementos dos quais. desde que corresponde a um vestígio de um acontecimento que teve existência no passado. na obra coletiva Faire de l’histoire. em particular. Mas para tanto. refletir a função da educação e pensar a relação cinema-história são passos indispensáveis desse trabalho ainda pioneiro. escapando mesmo a quem faz a filmagem. são encargos do historiador atual. que um filme. Neste artigo Marc Ferro elaborou a definição dos dois métodos de leitura do filme acessíveis ao historiador: a leitura histórica do filme e a leitura cinematográfica da história. do vocabulário. do vestuário. elas “refletem” a mentalidade da sociedade. dirigida por Jacques Le Goff e Pierre Nora4.

vincula-se. a título de exemplo. de Umberto Eco. Ao emocionar os estudiosos. esses filmes encontram uma certa resistência por parte do público dito “culto”. Ao fazer com que estudantes sintam necessidade de refletir sobre a vida. Entretanto. a exemplo do que acontece em filmes como “O Nome da Rosa” (de Jean-Jacques Annaud) em que os espectadores são transportados. envolvendo-os na trama do real. nem se colocar à margem desse meio de propagação do saber histórico através do filme. dessa forma. para os subterrâneos dos mosteiros medievais. a constatação do inevitável: pensar a história como ação inerente ao homem. a partir de obras cinematográficas. selecionamos para ilustrar. É exatamente dessa maneira que a emoção pode e deve-se ligar à razão. pois se não bastasse ser baseado no não menos famoso livro. o diretor Jean- . e podemos incluir neste grupo uma boa parcela dos historiadores. Filme este. acto continuum. se é lançado para outros tempos e espaços. centrando nossa análise sobre o chamado “filme histórico”. contribuindo. para o desenvolvimento de uma leitura cinematográfica da história eficiente e formadora de conhecimento científico e consciência histórica. o filme obriga-os. mas sim aproveitar o seu potencial didático. que vê nestas obras somente um meio de vulgarização da História. numa crítica verdadeira. na sua totalidade. Como retratar a vida sem refletir a história? Através da vida representada numa tela. de mesmo título. Olhá-lo e utilizá-lo é o desafio que se coloca a todos os que estão preocupados com o processo de aprendizagem contemporâneo. à busca do método científico como condição sine qua non da superação das dúvidas e da construção do distanciamento histórico como único meio possível a uma compreensão objetiva. o historiador não deve desprezar. o que não se constitui. O filme é um recurso que toma de assalto os indivíduos e suas razões. professores e agentes culturais da comunidade. Somente a disciplina e o afastamento conscientemente elaborados permitem analisá-lo minuciosamente. um dos maiores intelectuais e medievalistas contemporâneos. O Filme O filme “O nome da Rosa” traz em si uma carga de credibilidade historiográfica que por si só já bastaria para justificar a sua utilidade como fonte secundária. Contrariando esta posição. do mesmo modo. as possibilidades que a análise de “filmes históricos” pode proporcionar. onde a mão de ferro obscurantista da Santa Inquisição domina implacavelmente.Nosso objetivo neste texto é dar visibilidade à relação cinema-história. que não por acaso.

de imediato. consumar a comunhão com o Criador No filme este confronto é representado metaforicamente nos personagens Willian de Baskerville. foram de extrema relevância no período. as posses de Jesus Cristo e da Igreja. que definiu e coordenou sob rigorosa pesquisa a confecção de objetos de cena. onde o mundo medieval assistiu um grande debate filosófico-religioso. o local um mosteiro Beneditino no norte da Itália. São colocados em oposição a verdade revelada a partir da interpretação bíblica e a verdade alcançada com base na razão. e os monges Beneditinos com destaque para o Frei Jorge de Burgos.Jacques Annaud teve como consultor outro grande medievalista. mobiliário. A película tem como personagens principais o monge Franciscano William de Baskerville (Sean Connery) e seu noviço e pupilo de Adso de Melk (Christian Slater). . Ordem esta que vivia um momento de crise. todas estas características nos servem de referência para que possamos analisar o domínio cristão no medievo. E neste cenário estão ocorrendo dois fatos que servirão de pano de fundo para o desenrolar do filme: 1º: O debate entre Frades franciscanos e delegados representantes do Papa. numa clara alusão a Guilherme de Ockham. Do outro os místicos que defendiam a justificação da fé pela própria fé e asseguravam a legitimidade suprema da experiência íntima. ninguém menos que o eminente historiador francês Jacques Le Goff. passa a tentar desvendar o mistério. e se passa no ano de 1327. música e vestuário de toda a produção. apartou fé e razão e apontou o caminho do progresso das ciências naturais com sua ênfase sobre a extensa distinção entre o homem e o incognoscível e onipotente Deus . Willian de Baskerville conhecido por sua argúcia. a dos oratores – os clérigos. A história é contada pelo discípulo do frade franciscano. de evidências dos crimes contrasta com a atribuição a forças do além dos beneditinos. Desta forma o filme faz um recorte espaço-temporal que limita nossa análise a apenas uma das três ordens do mundo medieval6. intelectual alentado e de grande influencia. além de ajudar na escolha das locações e mesmo da fotografia que foi realizada em tons lúgubres para dar um tom escuro e úmido ao mosteiro. Até então. uma única possibilidade de interpretação é colocada na atuação do demônio. cujo tema. De um lado os humanistas racionalistas como o Frei Guilherme de Ockham. 2º: monges beneditinos aparecem motos em circunstâncias estranhas. tentando apreender a essência divina ou realidade última das coisas e. A diferença de atitude do recém-chegado William que nos lança numa investigação em busca de provas.

De acordo com o veredicto.Dispondo de recursos “sofisticados” para os padrões da época (a seqüência em que William cobre seus instrumentos é extremamente significativa. sir Conan Doyle e baseando suas ponderações nos princípios aristotélicos. responde seu mestre. pois peças como o astrolábio e o quadrante que eram utilizadas pelos mouros e desconhecidas da maioria dos cristãos tem "participações especiais" no filme). que examinava o caráter herético ou não das obras. os livros eram colocados no Index. O seguinte diálogo ocorrido no filme dá uma idéia do perigo que representava. utilizando-se de uma lógica aparentada a de Sherlock Holmes (não é a toa o sobrenome) muito tempo antes do nascimento do criador do imortal detetive. que o acesso ao conhecimento fosse impedido a quem quer que seja. que tem fundamental participação tanto na trama como na história. mais uma vez dando um ganho de credibilidade à obra que foi o de compor o grupo de figuras dramáticas com personagens fictícios e reais como Ubertino de Casale e próprio Bernardo Gui. na visão da Igreja. É a mais importante de suas obras escritas. “Porque contém uma sabedoria diferente da nossa. salvo os escolhidos. pergunta Adso. que tem a ver com o pensamento dominante da Idade Média. ambos representam o pensamento dominante. dominado pela igreja. quando o caso era considerado grave o próprio autor era julgado. lista de obras proibidas. a biblioteca do mosteiro. que poderiam nos fazer duvidar da infalibilidade da palavra Deus. E a dúvida é inimiga da fé”. a obra recebia a chancela Nihil obstat (nada obsta). É uma alegoria de Umberto Eco. consolidando os . William de Baskerville se contrapõe ao personagem Jorge de Burgos. Este controle fica evidente a partir da segunda metade do filme. chamado “Prática da Inquisição na Perversidade Herética”. Só alguns tinham acesso. que queria continuar dominante. e aqui cabe um parênteses para citar um artifício usado por Umberto Eco. Se a leitura fosse permitida. a livre circulação de cultura: “Por que estes livros estão escondidos?”. produziu um opúsculo por volta de 1325. A informação restrita a alguns poucos representava dominação e poder. pois o Frade Dominicano que atuou como inquisidor em Toulouse desde 1307 até meados de 1320. personagem este que tem uma relação quase que simbiótica com outro personagem do filme. quando a Santa Inquisição surge juntamente com o personagem de Bernardo Gui. Em “O nome da Rosa”. O rigor do controle da Igreja era evidenciado nos julgamentos feitos pelo Santo Ofício. a biblioteca era um labirinto e quem conseguia chegar ao final sem a devida autorização geralmente era morto.

” Portanto. Sem medo não pode haver fé. mas estarão privando a Igreja dos recursos para combater os infiéis!”. a situação contrastante do camponês em relação ao clero. tentava trazer as heterodoxias para dentro da doutrina. outros temas podem ser abordados através da obra realizada em conjunto pelo escritor Umberto Eco. que foi o que acabou acontecendo com os franciscanos. Se não houver medo do Diabo. mas a experiência prática de Bernardo adicionou componentes impressionantes à descrição da temida e arbitrária instituição. antes de classificar como heresia. fica bem caracterizado. Além destes. ou seja. ou quando muito uma adaptação. a prática da tortura nas confissões. a forma como age. Deus não precisa mais existir. além de fornecer esclarecimentos acerca das crenças de valdenses. beguinos e judeus7. Todo este currículo justifica no filme o domínio total da situação pelo personagem. os signos que indicavam a presença do demônio naquela sociedade. apesar de não terminar devido aos crimes ocorridos e ao incêndio na biblioteca. “A questão não é se Cristo era ou não pobre. pelo historiador Jacques Le Goff e o diretor de cinema Jean-Jacques Annaud. para decidir se a Igreja deve doar parte de suas riquezas. sua justificação. No filme o debate. que em um primeiro momento. Outro fator interessante da película é o motivo inicial da presença dos monges franciscanos: “Jesus possuía ou não todas as roupas que vestia?” Resposta do delegado papal. pois muito foi aproveitado de outros autores que versaram sobre o tema. como por exemplo o papel da mulher na sociedade medieval. O tipo de conclave que ocorre na trama. cátaros. tanto no filme como na historiografia Bernardo Gui foi a figura personificada do Santo Ofício. da ortodoxia católica.procedimentos da Inquisição. era um procedimento relativamente comum à Igreja católica. Vocês querem que a Igreja distribua suas riquezas. o voto de pobreza foi permitido a Ordem enquanto para a Igreja como um todo continuava a ser lícito o direito de propriedade. as decisões que toma e principalmente o temor que provoca em todos à sua volta. "O Nome da Rosa" constitui-se igualitariamente em uma grande aula de história e de filosofia e nos permite transitar por um diversificado leque de tópicos e . pois toda liturgia e tensão do processo são demonstrados no decorrer do enredo. ou seja. O opúsculo não é de todo produção original. mas se a Igreja deve ser pobre. o papel do medo como evidenciado no diálogo entre Willian e Jorge de Burgos: –“O que há de tão errado com o riso?” Venerável Jorge – “O riso acaba com o medo.

onde a emoção converte-se num veículo valiosíssimo. Portanto. universais ao processo de elaboração do conhecimento e à sua difusão. É inevitável o percurso se existe motivação e condições minimamente favoráveis. SOUZA. tratando inclusive. Além do que. da análise e da síntese.etapas da história.br/textos. Fernando Gralha de. altamente disciplinada. Levanos a percorrer a filosofia antiga. a relação cinemahistória tem um relevante papel no sentido de desenvolver instrumentos do trabalho intelectual. dos fatores que levaram ao surgimento da Reforma do século XVI. Da vida à história. passa-se à história da vida. além das outras já mencionadas possibilidades de estudo. dependente da razão. que deve pulsar nos livros e nas discussões. UFRJ / IFCS. 347. p.htm Notas . A Idade Média nas relações entre Cinema e História. medieval e antever a moderna. In: Atas da V Semana de Estudos Medievais.ifcs.ufrj. Disponível em http://www.pem. Apresenta perspectivas para buscar na literatura do período as fontes de compreensão dessa fase tão rica que é a Idade Média. a trama policialesca criada por Umberto Eco dá sustentação para um grande filme de suspense. 2004.

1 2 3 4 5 6 7 Leia-se transformação dos meios de comunicação de massa. Inquisicion and Lyberty. 1938.R.(organização). Aqueles em seu enredo se reporta a épocas passadas. G. Lisboa. Paris. Paz e Terra.. 1974. Pierre. Marc. Jorge Zahar Ed. DUBY. 1992. Marc. FERRO. Paz e Terra. COULTON.G. Rio de Janeiro. Faire de l’historie: Nouveax objets. 1982. Jacques. Cinema e História. Estampa. Éditions Gallimard. Georges. Rio de Janeiro. H. in LOYN. Rio de Janeiro. As três ordens ou o imaginário do feudalismo. NORA. Cinema e História. . Dicionário da Idade Média. 1992. 1997. LE GOFF. FERRO.