Se perguntarmos .

1 um estudante universitário o que sabe <)o contributo da Igreja Católica para a sociedade, a sua res| x>sta talvez se resuma a uma palavra: "opressão", por exemplo, ou "oi>s- curantismo". No entanto, essa palavra deveria ser "civilizarão" O autor destas páginas. Thomas Woods. doutorado pela Universidade de Columbia, mostra como tcxla a Civilização Ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. Em concreto explica, entre muitas outras coisas: •Por que o milagre da ciência moderna e de uma lilosofla que levou a razão ã sua plenitude só puderam nascer sobre o solo da mentalidade católica; •Como a Igreja criou uma instituirão que mudou o mundo Universidade; •Como ela nos deu uma arquitetura e umas artes plásticas de beleza incomparável; •Como os filósofos escol.ísticos desenvolveram os conceitua básicos da economia moderna, que trouxe para o Ocidente uma riqueza sem precedentes; •Como o nosso Direito, garantia da liberdade e da justiça, nasceu em ampla medida do Direito canónico; •Como a Igreja criou praticamente Iodas as institui<,'M'v assistência que conhecemos, dos hospitais à previdência; •Como humanizou a vida, ao insistir durante séculos nos direitos universais do ser humano - tanto dos cristãos como dos pa- gãos - e na sacralidade de cada pessoa. Num momento em que se propaga uma imagem da lgre|a como inimiga dos progressos da ciência e da técnica, e da lilx-r- dade do pensamento, este é um livro que desfaz preconceitos, corrige clic hês e ensina inúmeras verdades teimosamente omitidas no ensino colegial e universitário.

IQUADRANTF.

OUTROS TÍTULOS RELACIONADOS AMOR E CASAMENTO, de Cormac Burke
DL US EM QUESTÕES, É RAZOÁVEL CRER?,

de André Frossard de Alíonso Aguiló A TRAUOE t)A VlNCl, de Miirk Shea e Edward Sri HA UM OUTRO MUNEJO, de André Frossard
I(,RE1A
E P< II ÍTICA ,

do losé Miguel Ibaflez Langlois I I SIORIA OA l(.RHA
110 VOEI MIS),

de Daniel-Rops PENSAR
CONTA PRÓPRIA,

W

do Enrique

Monasterio

COMO A IGREJA CATÓLICA CONSTRUIU A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

de lohannes Batista Torelló _______________________ ____

PSROIOCIA ABERTA,

THOMAS E. WOODS JR. COMO A IGREJA CATÓLICA CONSTRUIU A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL Tradução dc Élcio Carillo Revisão de Emérico da Gama .

Woods Jr. c Rcgncrv Publishing Inc. Woods.. revisão dc Emérico da Gama. Dados Internacionais dc Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do l. SP. Jr.□ QUADRANTE São Paulo 2008 Título original How lhe Calholic Church Built Western Civilization Copyright O 2008 Thomas E. Thomas E. Como a Igreja Católica construiu a civilização Ocidental / Thomas E.São Paulo : Quadranlc. . 2008 Título original: How lhe Calholic Church Built Weslem Civiliza. tradução dc Élcio Carillo. I. Ilustração da capa fornecida por Regnery Publishing Inc.ivro. .tion ISBN: 978-85-7465-125-5. Brasil) Woods Jr.. Civilização Ocidental 2..

Cristianismo c cultura 3.com. Igreja Católica .com. 604 .quadrante.SP www.Influência I. Título 08-10818 ____________________________________ CDD-282.br .Histórica 4.br I info@quadrante. Sociedade de Publicações Culturais Rua Ipcroig.São Paulo .Tel. Igreja católica .: 3873-2270 .Fax: 36730750 CEP 05016-000 .09 índice para catálogo sistemático: I.09 Todos os direitos reservados a QUADRANTE. Igreja Católica : Influência na Civilização Ocidental : História 282.

é fácil esquecer . a arte e a arquitetura. Porque. O propósito deste livro é precisamente mostrar essas influências decisivas. E a Igreja não só não repudiou nenhuma dessas tradições. ninguém pode negar a importância da antiga Grécia e de Roma. mostrar que devemos muito mais ã Igreja Católica do que a maior parte das pessoas . Pelo contrário. o Ocidente não deriva apenas do catolicismo. Philip Jcnkins. Cremos que a Igreja manterá a integridade da fé até o fim dos tempos. quando têm alguma noção a respeito dela. etc. sobre a qual ouviram intermináveis histórias dc duvidosa credibilidade dos seus professores do ensino médio.tudo aquilo que a nossa civilização deve à Igreja Católica.A IGREJA INDISPENSÁVEL I. ninguém fez o menor esforço por mostrar-lhe que a civilização ocidental deve à Igreja o sistema universitário. a música. a história do catolicismo pode ser resumida em três palavras: ignorância. Muitos reconhecem que ela influenciou. É difícil contestar esse juízo: nos nossos meios de comunicação c na nossa cultura popular. etc. Como nem é preciso dizer. enquanto instituição guiada pelo Espírito Santo. foi ela que construiu a civilização ocidental. para sermos exatos. os hospitais e a previdência.incluídos os católicos . as ciências. pouca coisa é inadmissível quando se trata de ridicularizar 011 de satirizar a Igreja. não que cada uma das ações de todos os papas c bispos que já houve esteja acima de qualquer censura. inúmeros princípios básicos do sistema jurídico. sem dúvida.costuma imaginar. rcnomado professor dc história e estudos religiosos da Pennsylvania State Univcrsity. A questão é que. no ambiente cultural da atualidade.ou não tomar conhecimento sequer . chamou ao anti•catolicismo "o último preconceito aceitável nos Estados Unidos". repressão c estagnação. c a natureza inevitavel- . ou das diversas tribos germânicas que sucederam ao Império Romano do Ocidente. como elementos formadores da nossa civilização. como na realidade aprendeu c absorveu delas o melhor que tinham para oferecer. mas não vão além disso. Nenhum católico sério pretende sustentar que os eclesiásticos tenham acertado em todas as decisões que tomaram. só sa bem mencionar a sua pretensa "corrupção". o direito internacional. Para o nosso estudante do ensino médio. distinguimos claramente entre a santidade da Igreja. Os meus alunos.

Essas afirmações contradizem frontalmentc muitos anos dc pesquisa séria. e no entanto os seus autores . por exemplo: "O estabelecimento da era cristã romani/. De qualquer modo. por força do preconceito e da ignorância reinantes. Deve ser frustrante lecionar história medieval! Por mais que se trabalhe e se publiquem evidências cm contrário.cretamcnic. E isto não é nenhuma alegação nossa. Hoje sabemos. por exemplo. Esse período durou até que o poder da Igreja Católica foi minado pela Reforma" \ E também: "Des. em que não havia um debate vigoroso de idéias nem um intercâmbio intelectual criativo. nâo foram milhões. Univcrsit. 1989.do que se afirmava anteriormente. c cm que se exigia implacavelmente uma estrita submissão aos dogmas. Podemos ler ali.que não são historiadores dc profissão repetem com inteira despreocupação esses velhos e gastos chavões. . Mas estudos recentes tôm submetido a revisão uma série de episódios históricos tradicionalmente citados como evidências I. do E.mente pccadora dos homens que a integram. ("O segundo Messias"]. deparei com um livro de Christophcr Knight c Robert Lomas intitulado Second Messiah (D Isto é. da iniqüidade dos eclesiásticos. 1 Christophcr Knight c Robcrl Lomas. mas que o público em geral "engole" sem hesitar.ada marcou o começo da Idade das Trevas. incluídos os que atuam em nome dela. Ainda hoje continua a haver autores que repetem essas afirmações. New Havcn. luqtiisition.prezou-se tudo o que era bom c verdadeiro e ignoraram-se todos os ramos do conhecimento humano cm nome de Jesus Cristo"1.cm várias ordens de magnitude!' . esse período da história ocidental cm que se apagaram todas as luzes do conhecimento c a superstição substituiu o saber.v Press. é difícil encontrar um único historiador capaz de ler semelhantes comentários sem rir. c a conclusão a que chegam depõe em favor da Igreja. Bcrkcley. cm que se traça um quadro da Idade Média que não poderia estar mais longe da realidade. Con. a maioria das pessoas acredita que os mil anos anteriores â Renascença foram um período de ignorância c de repressão intelectual. Numa das minhas pesquisas. como 5s vezes sc diz. Edward M.rical Revistou. Henry Kamen. Second Messiah. mas conclusão claramente expressa nos melhores e mais recentes estudos2. que a Inquisição não foi nem de longe tão dura como se costumava retratá-la c que o número dc pessoas levadas aos seus tribunais foi muito menor . The SpauisJi Inqiiisitiou: A llisio. Hoje em dia. por exemplo. Pctcrs. no numero dc zeros depois dos algarismos significa li vos. Yalc Univcrsit. pág. com exceção dos estudiosos da Europa medieval.) (2) Veja-se. 1999.v of Califórnia Press. 71. mas centenas (N.

quase ti<lo o mundo continua a acreditar firmemente que a Idade Média foi um período intelectual e culturalmente vazio e que a Igreja não legou ao Ocidente senão métodos de tortura e repressão. um luterano converso que se tornou sacerdote católico e é considerado o pai da geologia. 1999. a promoção da pesquisa intelectual e do intercâmbio entre os estudantes dessas universidades patrocinadas pela Igreja . da Universidade da Califórnia em Bcrkelev. I. The Suu iu lhe Church: Cathedrals as Solar Observa. dos quais receberam o nome. . David Lindbcrg. Giambattista Riccioli. o pe.lories. pai da egiptologia. provavelmente. considerado freqüentemente o pai da teoria atômica moderna. autêntico dom da civilização ocidental ao mundo. Muitos historiadores se maravilham diante da ampla liberdade e autonomia com que se debatiam as questões naquelas universidades. durante essa "Idade das Trevas". como Nicolau Stcno. Crombie.desde a recuperação dos antigos conhecimentos astronômicos durante a Idade Média até o Iluminismo -. Harvard Univcrsily Press. comentou que "durante mais dc seis séculos . apesar de cerca dc trinta e cinco crateras da Lua terem sido descobertas por cientistas c matemáticos jesuítas. a Igreja desenvolveu o sistema universitário europeu. O que Knight e Lomas não mencionam é que. ou ainda Rogério Boscovich. Heilbron. praticamente todos os historiadores da ciência . ou Athanasius Kircher. E foi a exaltação da razão humana e das suas capacidades. a Igreja Católica Romana deu mais ajuda financeira e suporte social ao estudo da astronomia do que qualquer outra instituição c. Stanley Jaki. Heilbron. Cambridgc. o compromisso com um debate rigoroso e racional. Nos últimos cinqüenta anos. A primeira pessoa a medir a taxa dc aceleração dc um corpo cm queda livre foi ainda outro sacerdote.ig.foi isso que forneceu as bases para a Revolução Científica. 3. E os jesuítas dominaram a tal ponto o estudo dos terremotos que a sismologia ficou conhecida como "a ciência jcsuítica". p. mais do que todas as outras juntas" 2. Heilbron . 2 John L. E isso não é tudo. muitos dos principais inovadores científicos foram sacerdotes.entre eles Alistair C. John L.incluídas as teológicas que tomaram possível o método cientifico. Edward Grani.chegaram à conclusão de que a própria Revolução Científica se deveu à Igreja. E a contribuição católica para a ciência não se limitou às idéias . o verdadeiro papel da Igreja no desenvolvimento da ciência continua a ser até hoje um dos temas mais completamente silenciados pela historiografia moderna. Mesmo assim. Poucos conhecem as contribuições da Igreja no campo da astronomia. Thomas Goldstcin c John L.

e foi Francisco dc Vitória. foi. zer a própria capacidade de ler e escrever o leitor descobrirá nesta obra que a sua contribuição foi. E foram esses pensadores que deram origem à idéia do direito internacional tal como hoje o concebemos. encontramos pela primeira vez esse conceito jurídico nas universidades espanholas do século XVI. E muitos 3 Róginald Grtfgoirc. Nashvillc..]. 1985. a arte de viver [. pSg. um sacerdote e teólogo católico e professor universitário. muito maior. Em face dos maus. centros de pesquisa. os monges preservaram a herança literária do mundo antigo. Foi a primeira a mostrar que costumes. The hueraction of Law and Religion. "a Igreja foi a primeira a ensinar ao homem ocidental o que é um sistema legal moderno.. New York. . foram os pais da civilização européia"3. demonstrando que era possível compilar um corpo de leis coerente a partir da barafunda de estatutos. o mais importante arquiteto do monacato ocidental. Vitória e outros filósofos c teólogos começaram a especulai acerca dos direitos humanos fundamentais c dc como deveriam ser as relações entre as nações. Praticamente não há ao longo da Idade Média nenhum empreendimento significativo para o progresso da civilização cm que a intervenção dos monges não fosse decisiva. quem mereceu o título de pai do direito internacional.. tradições. Léo Moulin c Ravmond Oursel.Embora a importância da tradição monástica seja reconhecida cm maior ou menor grau nos livros dc História . 1974. Na realidade. todo o direito ocidental é uma grande dádiva da Igreja. costumes locais etc. O desenvolvimento do conceito dc Direito Internacional é normalmente atribuído aos pensadores e teóricos do direito dos séculos XVII c XVIII. que caracterizava tanto a Igreja como o Estado medievais.] uma civilização avançada. fervor espiritual. mas ao direito canônico. 59. porém.-traios infligidos pelos espanhóis aos indígenas do Novo Mundo. 277. decisões judiciais c doutrinas conflitantes podem ser conciliados por meio de análise e síntese"4.. no rescaldo da queda de Roma. o pai da Europa. Abingdon Press. Tenncssee. [.] uma rede de indústrias-modelo.lodo o mundo sabe que. seus filhos. E os beneditinos. estatutos. Riy/oli. Berman... The Monasiic Realm. De acordo com Harold Berman. ou seja. centros de criação de gado. São Bento. Aliás. que emergiu das vagas caóticas da barbárie circundantc. na realidade. O direito canônico foi o primeiro sistema legal moderno a existir na Europa.como muitos poderiam pensar -. para não di- I. A própria idéia de que o ser humano tem direitos bem defi nidos não se deve a John Locke c Thomas Jcffcrson . 4 Harold J. a predisposição para a ação social. pàg. sem dúvida alguma. Os monges proporcionaram "a toda a Europa [.

Mesmo William Leckv. tendendo a ser indiscriminada c não dirigida especificamente àqueles que passavam necessidade. por procedimentos baseados na razão c em conceitos legais elaborados. Um recente livro de história da Igreja Católica tem por título Triumph ["Triunfo"]: é um título extremamente apropriado para resumir o percurso de uma instituição que tem no seu haver tantos homens e mulheres heróicos e tantas realizações históricas. particularmente dos teólogos espanhóis dos séculos XV e XVI. encontramos relativamente poucas dessas informações nos livros dc texto que a maioria dos estudantes tem de estudar no ensino médio e superior.assim o faz o grande economista do século XX Joscph Schumpetcr .como os fundadores da moderna economia científica. mas tratava-se de uma liberalidade que procurava fama c reco nhecimento para o doador. Em todas essas áreas. Dc acordo com a história econômica tradicional. A maior parte das pessoas tem uma vaga noção das obras assistcnciais da Igreja Católica. um historiador do século XIX sempre hostil à Igreja. graças ao empenho milenar dos eclesiásticos em substituir as provas cm juízo baseadas em superstições .como o ordálio -. Tem-se chegado até a designar esses pensadores . vêm enfatizando a importância do pensamento econômico dos últimos cscolásticos.outros princípios legais importantes do nosso direito também se devem à influência da Igreja. chegou a admitir que a dedicação aos pobres . Estudos mais recentes. que caracterizavam o ordena- I.constituiu algo novo no mundo ocidental e representou um avanço surpreendente com relação aos padrões da antigüidade clássica. mas muitas vezes não sabe como foi única a sua ação nesse campo. c a simples idéia dc ajudar os necessitados sem nenhuma expectativa de reciprocidade ou dc ganho pessoal era alheia à mentalidade da época. Por isso insistimos em que ela foi o cons- . a economia moderna teria sido criada por Adam Smith c outros teóricos do século XVIII. A Igreja Católica configurou a civilização em que vivemos c o nosso perfil humano de muitas maneiras além das que costumamos ter presentes. Até agora. mento legal germânico. a Igreja imprimiu uma marca indelével no próprio coração da civilização européia. O mundo antigo fornece-nos alguns exemplos dc liberalidade para com os pobres. Os pobres eram com excessiva freqüência tratados com desprezo. no entanto.tanto no seu espirito como nos seus objetivos .

c tornaram impossível a vida dos estudantes c dos cientistas. excluindo dela os séculos VIII. mas âs invasões bárbaras do fim da Antigüidade. não a ela . I. Catsar and Chríst. MJF Book». um agnóstico. não a religião. IX e X. New York. .não foi o cristianismo. No entanto. c é neles que nos detemos ao iniciarmos este livro.que fez de tudo para impedi-lo -. em conseqüência . bibliotecas. mas a invasão bárbara. os historiadores têm empurrado cada vez mais para trás essa duvidosa distinção. na produção literária c em outros âmbitos semelhantes. 79. tem crescido muito o reconhecimento das realizações da alta Idade Média. atribuindo a causa do declínio. Tudo começou pela educação dos bárbaros. o historiador Will Durant. porém. defendeu a Igreja dessa acusação. Mas a ruína talvez fosse muito maior se a Igreja não tivesse mantido uma cena ordem em uma civilização que se desintegrava"5.trutor indispensável da civilização ocidental. restam poucas dúvidas dc que foram marcados por um retrocesso cultural e intelectual. Quanto aos séculos VI e VII. entre os séculos VI e X. Terá sido culpa da Igreja? Já há décadas. Os aluviões humanos arruinaram ou empobreceram cidades. "A principal causa do retrocesso cultural explica Durant .como comenta David Knowlcs -. 5 Will Durant. Não só trabalhou para reverter aspectos moralmente repugnantes do mundo anligo . e. UMA LUZ NAS TREVAS "IDADE DAS TREVAS* A expressão "Idade das trevas" chegou a ser aplicada a todo o milênio que transcorreu entre o fim da Antigüidade e o Renascimento. mosteiros. escolas. 1930. pàg. mas a guerra.como o inlanlicidio c os combates de gladiadores mas restaurou e promoveu a civilização depois da queda de Roma. como se pode observar na educação.

O impacto das incursões bárbaras sobre o Império Romano variou de acordo com cada tribo germânica. começou a pressionar as fronteiras romanas no Reno c no Danúbio. embora não estivesse complelamcntc livre de resquícios bárbaros. Quando a divisão do Império Romano do Ocidente em uma colcha de retalhos de reinos bárbaros passou a ser um fato consumado e a ordem política quase desapareceu. o general godo que viria a saquear Roma em 410.meu. Essas invasões apressaram o colapso de Roma e puseram a Igreja diante de um desafio sem precedentes. eram . sacerdotes c religiosos lançaram-se a restabelecer sobre as ruínas os alicerces da civilização. A CONVERSÃO DOS PRIMEIROS BÁRBAROS Os "bárbaros" que tomaram o Império eram povos rurais ou nômades. não eram hostis aos romanos. de Platão*. Nos séculos seguintes. dedicou-se a explorar a famosa cidade. Os godos. romanos e gregos. no que se chamou a Võlkerwanderitng . mas se revoltaram contra as autoridades imperiais em 378. instaurando ali uma autêntica política de genocídio. os bárbaros começaram a infiltrar-se através dos vazios abertos nas defesas do Império. ao ouvirem as línguas desses povos. a admirar os seus monumentos. Na sua maioria.II IJMA LUZ NAS TREVAS 14 Por volta dos fins do século 11. sem literatura escrita e com pouca organização política afora a lealdade a um chefe. a assistir ao teatro e a ouvir a leitura do 77. bispos. que tinham sido autorizados a estabelecer-se dentro das fronteiras do Império cm 376. antes respeitavam e admiravam Roma c a cultura clássica: Alarico. ao invés dc protegerem as fronteiras. O homem que consideramos o "pai da Europa". depois de tomar Atenas. verdade e superioridade da religião católica que fez todo o possível para construir sobre ela a nova Europa pós-impcrial.a "migração dos povos" -. e por isso os apelidaram de barbari. Já os vândalos nutriam uma inimizade implacável por tudo o que não fosse germânico: saquearam a cidade de Roma cm meados do século V c depois conquistaram o norte da África. Carlos Magno. Dc acordo com algumas teorias etimológicas. como os generais romanos se dedicavam a fazer e desfazer imperadores. de língua germânica. a balbúrdia dc tribos germânicas que se deslocavam da Europa central para o Ocidente. só entendiam "bar bar bar". estava ao menos tão persuadido da beleza.

UMA I.UZ NAS TREVAS 15 também guerreiros. os bispos gaulcscs vislumbraram a sua oportunidade. Quando os visigodos saquearam Roma. E. nem as fortalezas nas remotas alturas. Os francos que se instalaram na Gália (a atual França) eram o mais numeroso desses povos. Ao contrário da maior parte das tribos vizinhas. bispo de Auch. nem os confins do mar. manifestou-se profundamente triste e chocado: "Um terrível rumor chega do Ocidente. reduzindo-o a um "espirito superior" ou "primeira criatura" de Deus e por isso pareciam mais inclinados a receber a fé. "a Igreja teve que incumbir-se da tarefa de introduzir a lei do Evangelho e a ética do Sermão da Montanha entre povos que consideravam o homicídio como a mais honrosa das ocupações c a vingança como sinônimo de justiça". se estiveres cm 6 Jocdvn N. e a sua ferocidade chocava os romanos já cristianizados. quantas pessoas foram ceifadas pela violência da guerra. Assim. Foi tomada a Cidade que tomou o mundo inteiro!" 1 E Santo Oricncio. São Jerônimo. escreveu na primeira década do século V sobre a invasão da Gâlia pelos francos: "Vede como a morte se abateu de repente sobre o mundo inteiro.. nem os rios que se lançam impetuosamente pelas corredeiras. Não consigo continuar.copado: "Manifesta defcrência para com os teus bispos» recorrendo sempre a eles cm busca de conselho. lembrando-lhe como seria benéfico se colaborasse c cooperasse com o epis. mas. Roma está cercada. nem os buracos abertos no chão. não se tinham convertido ao arianis. Nem as densas e selvagens florestas. bispo de Rcims. os galoromanos cristãos ainda constituíam a imensa maioria dos seus súditos. cd. . depois dc espoliados. Hillgarth. No dizer de Christophcr Dawson. São Remígio. 70. escreveu uma carta de congratulações ao novo rei.mo . em 481. nem as altas montanhas. Os cidadãos salvam a vida a troco dc ouro. quando Clóvis (cerca dc 466-511) se tornou rei dos francos. nem a triste solidão do deserto. Christianiiy and Paganism 350 750. que se encontrava cm Belém. Além disso. os soluços interrompem o meu ditado [ao amanuense que escreve a carta]. pág. em 410.a heresia que negava a divindade de Cristo.II. nem as cidades protegidas pelas suas muralhas. nem as cavernas sob os íngremes rochedos conseguiram escapar aos ataques bárbaros"6. voltam a ser sitiados c perdem a vida depois de terem perdido as riquezas.

converter nominalmente os bárbaros.gio esposo. Ainda haviam de passar outros quatrocentos anos até que todos os povos bárbaros da Europa Ocidental se convertessem. no entanto. Ao cscolhercs para ti mesmo. cscolhcste para todos. mas finalmente recebeu o batismo. perdeu o seu vigor ao longo dos séculos VI e VII. Segundo São Grcgório de Tours.xâo. se eu tivesse estado ali com os meus francos!" Tardou uns três a quatro anos. o bispo São Remígio ter-lhe-ia dito antes dc balizá-lo: "Abaixa a cabeça. motivado pelo que ouviu sobre a vida de Cristo. Santo Avito. este canto do mundo resplandece com grande fulgor c a luz de uma nova estrela cintila no Ocidente. os gaulcscs foram equiparados aos seus conquistadores germânicos quanto a direitos e deveres. um destacado bispo gaulês. nos séculos seguintes. sob o seu reinado. Não bastava. mas era um inicio auspicioso. lutavam ferozmente entre si: não era incomum que queimassem vivos os membros de fa- . Clóvis parece ter tido uma conversão genuína. teria exclamado: "Ah. reconheceu a importância da conversão de Clóvis quando lhe disse: "Graças a ti. os sacerdotes católicos francos celebravam a missa para os seus. Efetivamente. piedosa c católica Clotilde teria sido inspirado e arranjado pelos bispos. Embora as considerações políticas tivessem certamente desempenhado o seu papel. Eram governantes incompetentes c. ó sicâmbrio! Adora o que queimaslc e queima o que adorasle". Alguns historiadores conjecturaram que o casamento de Clóvis com a bela. em geral bastava que o monarca sc convertesse para que todo o povo o seguisse. provavelmente em 496. mas continuavam a oferecer também sacrifícios aos antigos deuses da natureza. nem sempre se irnplaniava facilmente nem era homogêneo. além disso. ao contrário do que aconteceu nos demais reinos bárbaros. a tua terra prosperará". A linhagem dos reis merovíngios. visando converter à fé o seu ré.. Esse processo. conta-se que.II IJMA LUZ NAS TREVAS 16 harmonia com eles. pois. a Igreja teve que continuar a guiá-los. A tua fé é a nossa vitória!" Como os povos bárbaros se identificavam fortemente com os seus reis. tanto para garantir que a conversão se consolidasse como para assegurar que a fé começasse a transformar-lhes o modo de vida e as instituições. à qual pertencia Clóvis. quando lhe relataram a crucifi..

havia infligido a famosa derrota aos muçulmanos cm Tours . A Igreja franca só seria reformada por missionários irlandeses c anglo-saxões. os sacerdotes francos. Assim. mantivera esse bom relacionamento com a única reminiscência da autoridade "romana". os basileus bizantinos julgavam-se no dever de intervir constantemente na vida da Igreja em áreas que estavam claramente lora da competência do Estado. UMA I.que nunca chegou a ser conquistado pelos bárbaros germânicos vinha lutando pela sua própria sobrevivência contra os árabes e os persas. Infelizmente. foram caindo numa situação cada vez mais desesperadora. muitas vezes concediam aos aristocratas francos poder c territórios em troca de apoio. a Igreja abençoou a transferência oficial do poder da dinastia merovíngia para a família carolíngia: a família de Carlos Martel . no século VIII o Papado recorreu aos francos cm busca de proteção e de uma aliança que permitisse restaurar a civilização cristã. RENASCENÇA CAROLÍNGIA A A Igreja tomou entào a importante decisão de afastar-se dos imperadores de Constantinopla c procurar a proteção e cooperação dos francos. O estado do episcopado não era muito melhor. alguns eclesiásticos acharam que tinha chegado o momento dc procurar ajuda em outro lugar. ainda semi-bárbaros. que para eles representavam unicamente poder secular e riqueza. no século VII. O historiador Norman Cantor chegou a descrevê-los na sua última fase como um conjunto de mulheres.e .UZ NAS TREVAS 17 mílias rivais. que passara a ser o imperador do Oriente. No século VII.que. Mas. e deixara dc poder oferecer à Igreja uma proteção eficaz. Apesar dc tudo. e em conseqüência enfraqueciam-se cada vez mais. cm Constantinopla. em 732. que. crianças e débeis mentais. pois os homens competiam entre si para assumir o controle dos bispados. se haviam convertido ao catolicismo No século VIII. o Império do Oriente . a dcgenercscência dos merovíngios afetou também a Igreja. infecta dos pela depravação c imoralidade. No transcorrer das suas lutas pelo poder. que por sua vez tinham recebido a fé católica do continente. após o colapso do Império Romano do Ocidente. pior ainda. A Igreja tinha desfrutado dc um relacionamento especial com os últimos imperadores romanos e.II.

"a escritr as cópias dc livros. Desse modo. Pepino o Breve. esse povo bárbaro converteu-se em construtor da civilização. deu a sua bênção à mudança de dinastia no reino dos francos. cm meados do século VIII. fazendo uso da sua reconhecida autoridade espiritual. (Com as anexações territoriais que fez. o apresente corrigindo traduções bíblicas no último ano da sua vida fomentou vigorosamente a educação e as artes. Avocando para si o posto hereditário dc prefeito do palácio . ou Carlos Magno.II IJMA LUZ NAS TREVAS 18 de Carlos o Grande. solic* tando aos bispos que organizassem escolas ao redor das suas catedrais. com os quais. Carlos Magno (rei 768. já na posse do poder exercido pelos reis. através da França dos tempos modernos. claramente apócrifa. Entendendo muito bem aonde Pepino queria chegar. até ao norte da Itália. à Suí ça c a grande parte da Alemanha). os eclesiásticos viriam a trabalhar tão intimamente para a restauração da vida civilizada. Como explica o historiador Joscph Lynch. Foi assim que a Igreja facilitou a transferência pacifica do poder dos decrépitos merovíngios para as mãos dos carolíngios. O último rei merovíngio retirou-se silenciosamente para um mosteiro. o papa respondeu-lhe que a situação que descrevia não era boa e que os nomes das coisas deveriam corresponder à realidade. os trabalhos artísticos e arquitetônicos c o pensamento dos homens educados nas escolas das catedrais ou monásticas incentivaram uma mudança na qualidade e na intensidade da . o reino franco es-j tendeu-se da assim chamada Marca Espanhola. a tal ponto que. Embora não soubesse escrever . vinham resolvendo cada vez mais os assuntos ordinários dc governo. Os carolíngios tinham sabido beneficiar-se do declínio dos merovíngios. e um ho mem com poder estivesse privado desse título. talvez o maior de todos os francos.ainda que uma lenda popular. personificou esse ideal. nos anos seguintes. a leste. que viria a tornar-se o pai da Europa. Sob a influência da Igreja. escreveu ao papa Zacarias I perguntando-lhe se era bom que um homem sem poder fosse chamado rei. o prefeito do palácio cm 751. e demonstrando-se muito mais hábeis e competentes que os próprios reis.um cargo semelhante ao de primeiro ministro -. procuraram alcançar o título correspondente.-814).

Talvez a figura intelectual central da Renascença Carolingia tenha sido Alcuino (cerca de 735-804). Mas foi esse o terreno sobre o qual Viria a construir-se o futuro progresso intelectual.don. 7(5>• Joscph H Lynch. o Piedoso (rei 814-840). um anglo-saxão educado em York por um pupilo de Beda o Venerável.vumi da lógica.habilidade difícil dc adquirir durante os instáveis séculos VI e VII . O resultado desse estímulo ã educação c às artes é conheci do como Renascença Carolingia. e é por MKo que quase todos os textos clássicos que tinham sobrevivido ate o século VIII continuam vivos atualmente"6. Dada a especial urgência Mm fomentar a educação literária. nos quais se descobriram as sete artes liberais: o qua. Luis. The Medieval Church: A Brief Historv. 89. também sc destacava como professor dc latim.escreveu Kenneth Clark . o quadriviuni foi muitas vcabordado superficialmente nos primeiros anos desse rcflotvscimento da instrução. e o iri. e mais tarde tornou-se abade do mosteiro dc São Martinho de Tours. as mais antigas cópias da literatura romana que chegaram até nós datam do século IX.foi um elemento essencial da Renascença Carolingia. música. O conhecimento do latim tornou possível o estudo tanto dos Padres da Igreja latinos como do mundo da antigüidade clássica. Ensinar ao povo germânico um latim gramaticalmente correto . aritmética e geometria. p Outro resultado substancial da Renascença Carolingia foi a Inovação na escrita. Além dc dominar uma grande variedade dc assuntos. Longmun. gramática c retórica. pág. . 1992. uma das maiores inteligências do seu tempo. período em que os estudiosos carolingios resgataram essas obras do esquecimento. que ficou conhecida como a "minúscula curolingia".dnviuin da astronomia. tendo assimilado as bem-sucedidas técnicas dos seus predcccssorcs irlandeses e anglo-saxões. "As pessoas nem sempre são conscientes . UMA I. Alcuino era o diretor da escola da catedral de York. Lon.de que existem apenas três ou quatro manuscritos dos antigos autores latinos: todo o nosso conhecimento t)n literatura antiga se deve ao trabalho de compilação e transcrição iniciado durante o reinado de Carlos Magno. e estendeu-se do reinado de Carlos Magno ao de seu filho. t A educação carolingia inspirou-se nos modelos da antiga [Roma. o grande santo e historiador eclesiástico.UZ NAS TREVAS 19 vida intelectual"7. Com efeito.II.

Pcn. A minúscula carolingia . Dizem dois estudiosos modernos que passou a haver "insuperável graça e clareza. ! (7) Joscph II Lynch. como dois passos dccisivos para o progresso de uma civilização baseada na palavra escrita"9.. 57 . Clarendon Press. na verdade. c esse gradual acúmulo de livros escritos com mais clareza (e correção) foi de um valor inestimável quando. pág. pág.ilisntal. The E\t>. o isolamento geográfico havia contribuído para a proliferação de escritas por toda a Europa oci. 1991. chegou o ivnascimento mais amplo" (David Knowles.ondon. 8 Lcighion Durhum Reynolds c Nigcl G.t ti Intento em muitos mosteiros. montando ele próprio excelentes scriptoria cm muitos lugares". New York. Freilegiso (?-834).foi. 1969. CivlUwion: A Pitsohal Vicw. deve muito à escrita da Irlanda c do noile da Úmbria.II IJMA LUZ NAS TREVAS 20 Anteriormente.escreve Philippc Wolff . também não havia pontuação nem se deixavam espaços em branco entre as palavras*. pág. "Não haveria exagero . 18.em relacionar essa inovação com a invenção da própria imprensa. o sucessor de Alcuino como abade de São Martinho. Com Alcuino começou a grande era das cópias dos manus critos latinos. pois. dc modo mais metódico c com mais amplo al. Harpcr Pcrennial. 69). I988. 1968. pág. certamente decisivos para a sobrevivência da literatura clássica. além de não haver minúsculas. IXlhXIllh Centuries. Conferiu "um novo impulso c uma nova técnica à cópia de manuscritos. mais os es- ' (6) Kcnncth Clark. aceleraram tanto a leitura como a escrita.guin Books.desenvolvida pelos monges . New York. 3* cd. Oxford. pág. o que tornava difícil ler c compreender um texto 7.luiion of Medieval Thoughi. 95.iancc do que antes: c teve um instrumento dc grande poder na assim chamada minúscula carolingia. 9 Philippc Wolff. paços entre as palavras c outras medidas destinadas a aumentar a legibilidade. desempenhou um papel capital no desenvolvimento C na difusão da minúscula carolingia. patrísticos e clássicos. Scribes and Schofars: A Cuide Io lhe Transmission of Creek and IMIÍII Ulcralure. 95. t ed„ Longman. que prosseguiu sem dc. As letras minúsculas. dois séculos mais latdc. que. Wilson. (8) David Knowlcs escreve que foi Alcuino quem "insistiu na necessidade de hoas cópias dc iodos os melhores modelos no campo dos livros-texto. Tanto mais que. com o que a Europa Ocidental passou a dispor de textos que podiam ser lidos c escritos com relativa facilidade. que pôde assim plasmar-se numa forma que todos podiam ler com facilidade e prazer" 8. 7/x. The Awakening of Eumpe. I.Medieval Church.

em termos extravagantes. ma. o biógrafo de Carlos Magno.UZ NAS TREVAS 21 crucial para a difusão da cultura na civilização ocidental. mas estavam convencidos de que seriam maiores que Atenas. uma Atenas mais refinada que a antiga. Modclaram-se conforme a antiga Atenas. UMA I. porque. O espírito da Renascença Carolingia nunca arrefeceu. dc Suclònio. moldou claramente o seu trabalho pela Vida dos Césares. Mas de que outro modo poderia ele. eles possuíam um valor que os antigos não possuíam: a fé católica. que. Os historiadores da música falam com freqüência da desafortunada "ânsia dc prestígio" que leva muitos compositores a querer imitar os gênios e os prodígios. apesar dos terríveis golpes infligidos pelos invasores vikings. Einhard. sobre os cumes da civilização que ele achava possível atingir: "Sc muitos sc deixarem contagiar por essa aspiração. Fenômeno similar se deu no campo das letras durante a Renascença Carolingia. Mesmo nos dias mais tenebrosos dessas invasões. inspiradas nas sete artes liberais. chegando mesmo a plagiar parágrafos inteiros da obra do antigo romano.II. A LENTA RECONQUISTA DO CONHECIMENTO . superará toda a sabedoria da Academia. como dizia Alcuino. aspiravam ao nascimento de uma civilização muito maior que as da Grécia e da Roma antigas. o espírito de estudo permaneceu sempre vivo nos mosteiros e assim tornou possível o seu pleno renascimento cm tempos mais calmos. Os antigos tiveram por mestres apenas as disciplinas de Platão. apesar das suas notórias carências. ainda brilham com esplendor: mas os nossos estarão dotados também dos sete dons do Espírito Santo e superarão em brilho toda a dignidade da sabedoria secular"". apesar de todos os seus êxitos. enobrecida pelos ensinamentos dc Cristo.giares c muçulmanos nos scculos IX e X. pois possuíam uma pérola de grande preço que não estava ao alcance dos seus predcccssorcs gregos. porque. um bárbaro. alcançar a elegância c a mestria de uma civilização tão rica e completa? Mas os católicos da época dc Carlos Magno. criar-sc-á na França uma nova Atenas. O entusiasmo dc Alcuino era tão grande que o levou a escrever a Carlos Magno.

bispo dc Orleans c abade de Fleurv. nos séculos IX e X. "havia apenas uma tradição disponível: a que provinha das escolas fomentadas por Alcuino"'5. Como escreveu um erudito. também incitou a expandir a edu cação: "Nas aldeias e cidades.II IJMA LUZ NAS TREVAS 22 Depois da morte dc Carlos Magno. que sejam apenas pequenos presentes oferecidos pelos pais"11. págs. mais uma vez. Sc algum dos fiéis lhes confiar os seus filhos para que aprendam letras. A visão certeira e a determinação dos bispos. Porque.. se receberem alguma coisa. The Evoluiion of Medieval TJtoughi. foram as únicas ilhas remanescentes da vida intelectual no meio do refluxo do barbarismo que. 66. Desempenharão essa tarefa sem pedir nenhum pagamento c. a Igreja foi a única luz que sobreviveu às constantes invasões bárbaras dos séculos IV e V e.Saint Gall» Rcichcnau e Tcgcrnsce -. (Para se ter urna idéia do que loram estas invasões. 48-49. ameaçava submergir a Cristandadc. lhe Awakmlng ol Europe. como ocorreu num sínodo na Bavária (798) ou nos concílios de Chãlons (813) e Aix (816)10.. estudiosos e administradores civis católicos salvaram a Europa de um segundo colapsoTudo isso se deveu às sementes da instrução plantadas por Alcuino. os monges iniciaram a recuperação do saber: "Os grandes mosteiros. padres. demonstrou possuir um extraordinário poder de recu10 Philippc Wolff. Como educadora da Europa. como dissemos acima. usando de toda a caridade [. segundo o historiador Christophcr Dawson. magiares c muçulmanos. 11 David Knowlcs. pág. os sacerdotes devem abrir escolas.]. especialmente os do sul da Alemanha . Diversos concílios locais clamaram pela abertura de escolas. tenha-se em conta que um dos mais conhecidos guerreiros vikings era chamado Thorfin Qucbra-cránios). não devem recusar-se a instruir esses pupilos com absoluta clareza. Tcodulfo. O amigo de Alcuino. . monges. a iniciativa da difusão do conhecimento recaiu cada vez mais sobre a Igreja. às mais devastadoras ondas dc ataques. embora a vida monástica pareça à primeira vista uma instituição pouco apta para resistir à destruição material de uma época dc guerras c sem lei. desta vez dos vikings. Após o declínio do Império carolíngio.

literatura latina. que retomavam a tradição interrompida. Hordas de invasores saquearam muitas vezes os mosteiros c incendiaram bibliotecas. os mosteiros normandos c ingleses se contavam novamente entre os líderes da cultura ocidental"12. Uma das luminárias do primeiro estágio da reconquista foi Gerbcrto dc Aurillac. cujos volumes eram mais preciosos para a comunidade intelectual daquele tempo do que podem imaginar os leitores modernos. A partir dos anos 970. tcndo-sc tornado famoso pela vastidão dos seus conhecimentos. que mais tarde se tornaria o papa Silvestre // (999-1003). Era sem dúvida o homem mais culto da Eu ropa na sua época. música. "Noventa c nove de cada cem mosteiros podiam ser queimados e os seus monges assassinados ou expulsos. Esta preservação da herança clássica ocidental c das realizações da Renascença Carolingia não foi coisa simples. mas bastava que ficasse um único sobrevivente para que se reconstruísse toda a tradição. A sua fome de manuscritos antigos evoca-nos o entusiasmo do século XV.II. que abrangiam astronomia. UMA I. Foi assim que a vida monástica c a cultura monacal retornaram na época de São Dunstan à Inglaterra e i\ Normandia. depois de mais dc um século de completa destruição. vindos de Fleury c Ghent. quando a Igreja oferecia recompensas aos humanistas que recuperassem textos antigos. tão acostumados a ofertas baratas e abundantes de livros. dai resultou que. matemática.UZ NAS TREVAS 23 peração" Esse poder dc recuperação dos mosteiros manifestou-sc na rapidez e intensidade com que trabalharam para reparar a devastação das invasões e o colapso político. lendo os mesmos livros e tendo os mesmos pensamentos que os seus prcdecessores. cantando a mesma liturgia. Religion and lhe Rise of Western Ctdtttrc: grifo . um século mais tarde. seguindo as mesmas regras. filosofia e teologia. Gerbcrto dirigiu a escola cpiscopal de 12 Christophcr Dawson. c os lugares arrasados não tardavam a ser repovoados por novos monges. Dawson tem toda a razão cm dizer que foram os monges que preservaram da extinção a luz do conhecimento.

.nica c fomenta as coisas que herdei dos meus antepassados gregos. The Awakening of Eurotv. Desejando ardentemente a sabedoria. "Sendo grego por nascimento c romano pelo Império .onde estudara lógica avançada -.II IJMA LUZ NAS TREVAS 24 Reims . Gerbcrto acedeu alegremente ao pedido do rei. "A fé faz. págs. Despe-me da minha grosseria saxô. podes pedir por direito de herança os tesouros dos gregos c a sabedoria dos romanos. 177-178. O trabalho c as intenções da Igreja viriam a trazer os seus maiores frutos no desenvolvimento do sistema universitário. Não é verdade que há neles algo de divino?"13 A dedicação dc Gerbcrto ao ensino e a influencia que exerceu nos professores e pensadores posteriores foram emblemáticas na recuperação dc um século dc invasões da Europa.confessou e a mi nha educação foi cnormcmcntc negligenciada. não lhes negando o conhecimento . uma recuperação que teria sido impossível sem a inspiração da Igreja.escreveu -. Aqueles que não o possuem são chamados tolos" Em 997. Corrige o que esteja errado c dá-me conselhos para que governe o império com retidão. que não em vão foi dada ao homem por Deus: "A divindade concedeu um grande dom aos homens. Pós muita ênfase no cultivo da capacidade de raciocínio. viver o justo . ao mesmo tempo. 13 Philippc Wolff. mas é bom adicionar-lhe a ciência""1. Vem e ajuda-me. concedendo-lhes a fé c.di zia -. como veremos daqui a pouco. e pôde dedicar-se inteiramente ao estudo e ao ensino.assegurou-lhe -. Explica-me o livro dc aritmética que me enviaste". mas antes analisemos as semen tes da instrução plantadas pelos mosteiros. o imperador alemão Otto III escreveu-lhe implorando a sua ajuda. recorreu ao futuro papa: "Sou um ignorante .

c se fez eremita. habitavam em cavernas ou cm cabanas simples. A julgar pelas práticas dc ascesc a que se dedicavam. Mas esse fato histórico surpreende menos quando nos lembramos das palavras dc Cristo: Procurai primeiro o reino dos céus e tudo o mais vos será dado por acréscimo. o que não impediu que o seu grande exemplo tivesse levado milhares a juntar-se a ele. a fim dc poderem re nunciar às coisas mundanas c concentrar-se intensamente na j sua vida espiritual. dificilmente se poderia imaginar o enorme impacto que viriam a provocar no mundo exterior. Encontramo-las cm São Paulo dc Tcbas c no mais popularmcnte conhecido Santo Antão do Egito (também conhecido por Santo Antão do deserto). INÍCIOS DO MONAQUISMO As formas mais antigas da vida monástica surgem já no século III14. 140. que viveu entre os meados do século III c os do IV.. COMO OS MONGES SALVARAM A CIVILIZAÇÃO Os monges desempenharam um papel crucial no desenvolvimento da civilização ocidental. c susten14(2)'lbid. a história dos monges.III. cm poucas palavras. . A vida dos cremitas tinha por característica que se retiravam para um lugar remoto e solitário. pág. retirando-se para os desertos do Egito em busca da sua perfeição espiritual pessoal. Essa é. Viviam sozinhos ou cm grupos de dois ou i três.

que compôs a famosa Regra de São I lento. O monaquismo oriental influenciou o Ocidente de muitas maneiras: através das viagens de Santo Atanásio. os mosteiros beneditinos asseguravam nos seus monges alimentação e descanso adequados. cuja excelência se reflete no fato dc ter sido universalmente adotada em toda a Europa Ocidental nos séculos posteriores. desenvolveu-se cm parte como uma reação contra a vida dos cremitas c cm reconhecimento de que os homens devem viver em comunidade. O monaquismo ccnobilico . e dos escritos de João Cassiano . que desempenhou um papel importante no desenvolvimento do monaquismo oriental. O monge beneditino típico vivia num nível matc. um eremita foi eleito papa. facilitou a sua difusão pela Europa..monges que passaram a viver juntos num mosteiro -. assim como a sua estrutura c Iordem. Contrariamente nos mosteiros irlandeses. que eram conhecidos pelas suas severas privações (mas que. Foi aqui.i ial comparável ao dos camponeses italianos da época. o grande mosteiro pelo qual é lembrado. São Bento estabeleceu doze pequenas comunidades de monges em Subíaco. poi volta do ano 529. tavam-sc com o que pudessem produzir nos seus pequenos | campos ou com trabalhos como o fabrico manual de cestos. tenciais pouco comuns. mil anos depois de São Paulo dc Tebas. c outros que permaneciam imóveis por semanas a fio ou se fechavam cm tumbas c lá permaneciam durante anos. a trinta c oito milhas de Roma. a vida crcmítica nunca desapareceu completamente. apesar disso. De acordo com Philip Hughes. cinqüenta milhas ao sul. A moderação dessa Regra. c depois. ainda que durante os tempos penitenciais o regime pudesse tornar-se mais austero. um competente historiador da Igreja. A ausência de uma autoridade que dirigisse o seu regime espiri-1 tua! levou alguns deles a observar práticas espirituais c peni. Mas o monaquismo ocidental deve muito mais a um dos seus próprios monges: São Bento de Núrsia. por exemplo.III. com o nome dc Celestino V. com o qual estamos mais familiarizados. Essa foi a posição de São Basílio o Grande. atraíram um considerável j número de homens). Não obstante. j" Cada . "havia cremitas que mal comiam ou dormiam. foi fundar Monte Cnssino.um homem do Ocidente que conhecia bem as praticas orientais. recebendo apenas um mínimo de comida através dc fendas na parede"1.

pois dc cada uma dessas vezes os seus monges tomaram a reconstruí-lo16. mas a verdade c que. que a sua própria história refletiu essa permanência. embora tivesse chegado um momento cm que viriam a abraçar o trabalho para o qual os tempos pareciam chamá-los. Anteriormente. Ao retirar-se para um mosteiro. . destruída pelos sarraccnos cm 884. a tradição beneditina manteve-se intacta e as suas casas permaneceram como oásis dc ordem e de paz. os monges tinham a liberdade de pcrambular de um lugar para outro. mosteiro beneditino era independente de todos os outros c tinha um abade que cuidava dos assuntos da casa c da boa ordem. A intenção dos monges não era levar a cabo grandes façanhas cm benefício da civilização européia. 16 Will Duiant.]. intKxlu7. New York. Pode-se dizer de Monte Cassino. nos começos do 15 No início do s&ulo X. sejamos escravos ou livres. 1950. 519. As simples estatísticas dificilmente podem fazer justiça ás realizações beneditinas. quer tivesse sido dc grande riqueza ou de servidão c miséria. pág.III.. Porque.]. O abade de Cluny possuía autoridade sobre todos as mosteiros afiliados Aquela casa. a casa-mác dos beneditinos. porque todos eram iguais cm Cristo. The Age of Failh. pilhada pelas tropas francesas cm 1779 e arrasada pelas bombas da Segunda Guerra Mundial cm 1944. Durante um período dc grande turbulência.. mas São Bento concebeu um estilo de vida monástico em que cada um permanecia fixo no seu próprio mosteiro15. MJF Books. Monte Cassino recusou-se a desaparecer.. Um homem livre não deve ser preferido a outro nascido em servidão. São Bento também eliminou da existência do monge qualquer vestígio do seu passado no mundo. O abade beneditino "não deve fazer distinção entre as pessoas do mosteiro [. arrasada por um terremoto cm 1349. designando priores para dirigir as atividades cotidianas de cada um.iu-sc um certo grau de centralização na tradição beneditina. o monge propunha-se cultivar uma vida espiritual mais disciplinada e dedicada a trabalhar pela sua salvação num ambiente e sob um regime que favorecesse esse propósito.. Saqueada pelos bárbaros lombardos cm 589. somos todos um em Cristo [. Deus não faz acepção de pessoas". com o estabelecimento do mosteiro de Ciuny. a menos que haja alguma causa razoável.

em começos do século XIV. quarenta e sete reis c cinqüenta rainhas3. Amhcrst. AS ARTES PRÁTICAS Embora as pessoas instruídas pensem que toda a contribuição dos mosteiros medievais para a civilização ocidental se circunscrevcu à busca da erudição c da cultura. Goodell. exaltou "o trabalho daqueles grandes velhos monges ao longo dc 1500 anos. Univcrsit. Grande parte dos mais poderosos da Europa acolheram-se. cm The Goodell Papers. quando ninguém mais ousava empreendê-la"18.08. a Ordem já proporcionara à Igreja 24 papas. The Rise of lhe Mediex-al Church. The Inllucnce of lhe Monks in Agricullurc". 18 Hcnrv II. No inicio do século XX. 1909. número talvez exagerado.000 mosteiros. pág. Por eles a Alemanha tornou-se um pais fértil". É expressivo o testemunho dc outro especialista: "Devemos aos monges a recuperação agrícola dc grande parte da Europa". Eles salvaram a agricultura quando ninguém mais poderia fazê-lo. trabalharam com as suas próprias mãos. teria contado 37. o seu ideal monástico foi tão exaltado cm toda a sociedade que chegou a ser perfilhado por perto de vinte imperadores. à vida humilde c ao regime espiritual da Ordem beneditina.000 bispos e 1. 23. Outro historiador aponta que "todos os mosteiros beneditinos eram uma escola de 17*Alcxandcr Clarence Flick. Praticaram-na no contexto dc uma nora forma dc vida c dc novas condições. Burt Frank.500 santos canonizados: c.000 arcebispos. A agricultura c um exemplo particularmente significativo. .1901. converteram terra bravia cm campos cultivados: dedicaram-se à criação de gado c à agricultura.lin. presidente do que então era o Massachusctts Agricultural Collcge. drenaram pântanos e desmaiaram florestas. como tinha acontecido entre os bárbaros com figuras como Carlomano dos francos c Rochis dos lombardos17. discurso pronunciado diante do Massachusctts Siaie Board oí Agricullurc.III. New York. Outro acrescenta ainda: "Em qualquer lugar em que estiveram. não se deve passar por alto o impulso que deram às chamadas artes prãticas. 7. 216. E a sua influência não se deu somente dentro da Igreja. 1. 200 cardeais.v oí Massachusctts. século XIV. Henrv Goodell. pois. dez imperatrizes.

predominava a idéia de que não tinham nenhum valor c eram focos dc pcstilência. Ao desmaiarem as florestas para destiná-las ao cultivo e habitação. antes da fundação da abadia dc 19 Cfr. Grecn and Co. observou: "Os monges beneditinos foram os agricultores da Europa: transformaram-na em terras de cultivo cm larga escala. porque as encaravam como canais da graça c oportunidades de mortificar a carnc: isso era bem evidente no trabalho dc mondar e preparar a terra. "É impossível esquecer .. New York. Essas eram. No século XIX. 264-263. cobertas de florestas c cercadas de pântanos". Goodell. Um exemplo particularmente vivo da salutar influência dos monges no seu entorno físico é o que nos dão os pântanos de Southampton. A respeito dos pântanos. ed.como souberam aproveitar tão vastas terras incultas c desabitadas (um quinto de todo o território da Inglaterra). desempenhou um papel central na vida monástica. Montalembert. o político c historiador francês François Guizot.III. Longmans. Essays and Skeiches. "The Inllucnce oí lhe Monks in Agricullurc". as características da maior parte das terras que os monges ocupa vam.escreveu . . O trabalho manual. dentro do possível. em parte por serem lugares mais retirados c inacessíveis o que favorecia a vida em solidão -. c em parte por serem ter ras que os doadores leigos lhes ofereciam mais facilmente".rick Hairold. Ainda que a Regra fosse conhecida pela sua moderação c pela aversão a penitências exageradas. agricultura para toda a região na qual estavam situados"'. 20 Hcnry H. rendeu-lhes homenagem pelo grande trabalho agrícola que empreenderam. os monges abraçavam com gosto as tarefas mais difíceis c menos atraentes. c cm pouco tempo conseguiram transformar o que até então era uma fonte de doenças e imundícic cm fértil terra cultivada20. tinham o cuidado de plantar árvores e de conservar as matas. na Inglaterra. vol 3. 1948. Charles Fredc.. John Hcnry Ncwman.2. pág. Mas os monges assumiram o desafio que representava represá-los e drená-los. Um especialista descreve como era essa região no século VII. especialmente exigido pela Regra dc São Bento. associando agricultura e oração"19. o grande historiador dos monges do século XIX. págs. que não tinha especial simpatia pela Igreja Católica. com efeito.

que em outro tempo haviam crescido naquele solo baixo c fétido. Aqui o solo é escondido pelas árvores frutíferas. A natureza. nenhum palmo de terra está por cultivar. represando as águas sobre o terreno. os monges introduziram plantações. ate transformar todo o charco cm um lúgubre pântano" Cinco séculos depois. Aqui introduziam a criação de gado c dc cavalos. enormes extensões de juncos. grandes lagoas. Árvores derrubadas pelas inundações c tormentas flutuavam c sc acumulavam. atolciros submersos a cada maré da primavera. pelas vinhas estendidas sobre o chào ou puxadas para o alto sobre caramanchões. Até onde a vista alcança. ali a elaboração da cerveja. No meio das lagoas. a criação de abelhas ou a produção dc . onde parecem refletir-se a delicadeza c a pureza do céu. carriços e samambaias: grandes bosques de salgueiros.III. para que a sua vida mortal pudesse aproximá-los diariamente do céu" w. embora tudo conservasse.xos. eram provavelmente parecidos com as florestas da desembocadura do Mississipi ou as marismas das Carolinas: um labirinto dc errantes córregos negros. abandonada ao seu próprio curso. uma suprindo tudo o que a outra esqueceu de produzir. Aonde quer que tenham ido. er guem-se bosques dc árvores que parecem tocar as estrelas com as suas altas c csbcltas frondes: o olhar fascinado vagueia sobre o mar dc ervas verdejantes. amieiros e álamos cinzentos: florestas dc abetos c carvalhos. Ó profunda c amável solidão! Foste dada por Deus aos monges. Thorncy: "Não passava dc um enorme pântano.bury (cerca de 1096-1143) descreveu essa região: "É uma replica do paraíso. corria cada vez mais para uma selvagem desordem e caos. misturando limo e areia com o solo negro da turfa. frcixos e álamos. os pés pisam as amplas pradarias sem encontrar obstáculos no seu caminho. foi assim que William dc Malmes. que vagarosamente devorava tudo. Natureza c arte rivalizam. agora eram engolidas lentamente pela turfa flutuante. Os charcos. aveleiras c tei. indústrias ou métodos dc produção desconhecidos do povo. no século VII. acolá. Córregos desnorteados nas florestas mudavam de leito.

um missionário do século VI de notável eloqüência. expressamente permitido pela Regra 21 Hcnry H. The . 198-9. Os monges foram os primeiros a trabalhar na melhoria das raças do gado. a pesca do salmão e. estava agora coberto de charcos e os homens que deveriam ter cul tivado a terra rejeitavam o arado como algo degradante". que utilizavam tanto para a celebração da Santa Missa como para o consumo ordinário. 1921. esperando encontrá-lo entre os copistas. Na Lombardia. frutas.a sala destinada á cópia dos textos -. "A agricultura tinha entrado cm decadência . as vinhas dc alta qualidade. especialmente incentivando-os a respeitar e honrar o trabalho manual em geral c a agricultura cm particular. págs. O papa São Gregório Magno (590-604) conta-nos uma reveladora história sobre o abade Equitius. 5. a produção do queijo: na Irlanda. "esse empenho teve um efeito mágico. pág*. 23Ibid. Os camponeses retornaram a uma atividade nobre.rium . vof. Mas não eslava lá.. Os monges represavam as águas das nascentes a fim de distribuí-las cm tempos de seca. Na Suécia.. Monasiicism and Civilizalion. Em inúmeros casos. no vale.diz um estudioso -. os camponeses aprenderam dos monges a irrigação. em muitos lugares. 35-6. cm Parma. PJ. págs. 8-9. 10. 17)Charles Montalcmbcrt. págs. Quando um enviado pontifício foi ao mosteiro procurá-lo. mas desprezada-'22. o comércio de cereais deve a sua existência nos monges. 0'Connor.III. "The Influcnec of lhe Monks in Agricullurc". . cortando o feno" '23. observando as águas das fontes espalharem-se inutilmente pelos prados de Saint Gcrvais e Beileville.Uonks of (lie West. as canalizaram para Paris. o que contribuiu poderosamente para tornar a região tão famosa cm toda a Europa pela sua fertilidade e riqueza. Os caligrafos limitaram-se a dizer: "Está lá cm baixo. pág. em vez dc as deixar evoluir ao acaso21. New York. dirigiu-se imediatamente ao scnpto. Goodell. Mas quando os monges emergiram das suas celas para cavar valas e arar os campos. O que outrora tinham sido campos férteis. I Os monges também foram pioneiros na produção do vinho. 18)John B. Foram os monges dos mosteiros dc Saint Laurent e Saint Martin que. o bom exemplo dos monges serviu de inspiração a muitos. 22ti 5) Ibid. Kcnncdv & Sons.

esse monge descobriu o champanhe misturando diversos tipos de vinho. lavar a roupa e tratar o couro". estabelecida em Citcaux em 1098 .III. inicialmente o airoio lança-se de modo impetuoso no moinho. Rinchart. 5. pág. Jlte Medieval Machines The Industrial Revolulion of the Middlt Ages. Encarregado cm 1688 de cuidar da adega da abadia. Os monges também deram um contributo importante à tecnologia medieval. Cambridgc Univtrsity Press. datado do século XII. and Winslon.escreve um historiador eram verdadeiramente as unidades fabris mais produtivas dc todas as que haviam existido até então na Europa c talvez no mundo"10. um . Holt. de São Bento. 53-4. págs. que lhes servia para moer o trigo. já o mundo medieval o fez cm larga escala. um monge da abadia dc São Pedro. numa época de tumulto e desesperança generalizados. que. Weberian Sociológica! Theory. peneirar a farinha. Cambridge.uma Ordem beneditina reformada.eram muito conhecidos pela sua sofisticação tecnológica. 20)Randall Collins. Pode-se atribuir a descoberta do champanhe a Dom Pcrignon. O princípio fundamental que ele estabeleceu continua a nortear até hoje a produção desse espumante 1*. contorccndo-sc 119) Jean Gimpcl. qualquer avanço obtido difundia-se rapidamente graças à vasta rede dc comunicação que ligava os diversos mosteiros: é por isso que encontramos sistemas hidráulicos muito similares cm mosteiros situados a grande distância uns dos outros. Taivez nào lâo glamourosas como algumas contribuições intelectuais dos monges. 1976. Se o mundo da antigüidade clássica não adotou a mecanização para fins industriais em grau significativo. Os cistercicnscs . New York. essas tarefas cruciais foram quase tão im portantes como as que contribuíram para a construção c preservação da civilização do Ocidente. que descreve o modo como nele se usava a energia hidráulica: "Entrando por baixo do muro exterior da abadia. até mesmo a milhares de milhas"Esses mosteiros . 21)Como aponta Jean Gimpcl no sen livro The Medieval Machine. I9S6. como um porteiro. em Hautvillicrs-no-Marne. A comunidade monástica cistcrciensc tinha geralmente as suas próprias fábricas para a produção de energia hidráulica. como se vê por um relatório do mosteiro cistcrciensc de Claraval. lhe dá passagem.

regar ou lavar sem se recusar nunca a colaborar em qualquer tarefa. O mesmo nível de conquistas tecnológicas podia observar-se praticamente cm todos eles (Randall Collins. No início do século XI.cozinhar. No moinho. era esse o numero de mosteiros cistercicnscs que existiam na Europa. Mas o arroio ainda não concluiu a sua tarefa.. carrega para fora os resíduos. peneirar. onde sc mostra ainda mais aplicado c diligente no preparo do couro para o calçado dos monges. Levanta c deixa cair um a um os pesados pilões. depois para agitar a fina peneira que separa a farinha do farelo. agora cuida-lhes da roupa. poderia ter sido escrito 742 vezes. dividc-sc em uma multidão de pequenos veios e prossegue o seu curso para cumprir os deveres que lhe são confiados.relatório do século XII sobre a utilização da energia hidráulica no mosteiro de Claraval. 53-4). os grandes martelos de madeira. naquela época. quantos homens não ficariam com os braços extenuados. postados perto do moinho. realizando uma façanha que seria re- . Em seguida. sejam eles quais forem . Weberian Sociitloglcal Theory. A perícia dos monges ia das inovações de grande valor prático às curiosidades interessantes. III. que o aquecem para preparar a cerveja ou o licor dos monges. moer. c como sc ele próprio se deixasse triturar pelo moinho. girar. na França. não trabalhasse por nós! "Depois dc fazer girar o eixo a uma velocidade muito superior à que qualquer roda é capaz de se mover. poupando assim aos monges grandes fadigas. por exemplo. primeiro para moer o trigo sob o peso das pedras. Convocam-no os lavadores. enche os tanques c entrega-se às chamas. desaparece em um frenesi dc espuma. Quantos cavalos não cairiam esgotados. deixando tudo imaculado"*'-'. entra no curtume. Finalmente.. um monge chamado Eilmer voou mais dc 180 metros com um planador. se esse gracioso rio. já que. ocupara-se cm preparar alimento para a irmandade. ao qual devemos roupas e comida. Depois dc alcançar a construção seguinte. cm um movimento revolto. págs. depois. Nunca se esquiva nem se recusa a fazer qualquer coisa que lhe seja pedida. sempre atento a todos os trabalhos que requerem a sua participação. quando as vinhas recompensam o duro trabalho dos vinicultorcs com uma colheita pobre.

os monges recebiam em doação minas de ferro. Richard dc Wallingford.(2£) Citado cm David Luckhurst. 6: citado cm Gimpcl. Posteriormente. O primeiro relógio de que temos notícia foi construído pelo futuro papa Silvestre II para a cidade germânica de Magdcburgo. outros monges foram aperfeiçoando essa técnica. no Museu de Ciência dc Londres. era uma maravilha para a sua época. Houve também entre os monges consumados fabricantes de relógios. eles próprios compravam as minas e os fornos. da metade do século XII1 até o I século XVII. III. pelo menos nos dois séculos seguintes. Peter Lightfoot. Embora precisassem do ferro para uso próprio. OS MONGES COMO CONSULTORES TÉCNICOS Os cistercicnscs também eram conhecidos pela sua perícia cm metalurgia. da abadia beneditina de Saint Albans (c um dos precursores da trigonometria no Ocidente). n. cordada durante os três séculos seguintes 11. um abade do século XIV. conseguia prever com precisão os eclipses lunares.ondon. construiu no século XIV um dos mais antigos relógios que chegaram até nós e que agora se encontra. Diz-se que. "Monastic Walcrmills".escreve Jean Gimpcl -. porque o alto nível da sua tecnologia agrícola se cquiparava à sua tecnologia industrial. com diversas máquinas no subsolo movidas a energia hidráulica"De vez em quando.. os cistcrcicnses foram os lideres cm produção de . págs. cm excelentes condições. por volta do ano 996. s. Socicty for lhe Protcction oí Ancicnt Buildings.d. é famoso pelo relógio astronômico que projetou para o seu mosteiro. Mas as notas deixadas pelo abade permitiram fazer um modelo e uma réplica desse relógio em escala real. t. Todos os mosteiros possuíam a sua fábrica . 5-6. Além de marcar o tempo. 8. os cistercicnscs vieram a desempenhar um papel significativo na difusão dc novas técnicas.freqüentemente tão espaçosa como a igreja e a pouca distância dela -. um monge dc Glastonbury. Não sobreviveu muito tempo: talvez tenha desaparecido entre os objetos dos mosteiros confiscados por Henrique VIII. houve um momento cm que os mosteiros cistercicnscs estiveram em condições de oferecer os seus cxccdentes para venda: com efeito. quase sempre juntamente com os fornos necessários para extrair o metal: outras vezes. pág. não apareceu outro relógio que sc igualasse a esse em sofisticação tecnológica. "Na sua rápida expansão pela Europa .

A escória ou subproduto desses fornos continha uma concentração significativa de ferro. do alumínio ou da cal. Em fins da década de 1990. Explorando as ruínas de Rievaulx e Laskill. E os monges. E prossegue: "Com efeito.j dadc-\ Esses avanços eram parte de um fenômeno mais amplo dc { conquistas tecnológicas.isto é. já que não se conseguia atingir temperaturas suficientemente altas para extrair todo o ferro do minério. quer na mineração do sal. j nào havia nenhuma atividade cm que os monges não demonstrassem a sua criatividade c um fértil espirito de pesquisa. foram "os hábeis consultores técnicos não remunerados do terceiro mundo daqueles tempos . evidencias de um grau de sofisticação tecnológica que apontava para as grandes máquinas da revolução industrial do século XVIII. Sempre empenhados em melhorar a eficiência dos seus mosteiros. segundo outro estudo. da Universidade de Bradforf. cm North Yorkshire. Inglaterra. O tipo de forno que existia no século XVI progrediu relativamente pouco em comparação com os seus antecessores e era notavelmente ineficiente para os padrões modernos. encontrou nas proximidades da abadia de Ricvaulx. na cutclaria. usavam a escória [ das suas fornalhas como fertilizante.III. pois pela sua alta conccntraçào de fosfato eram especialmente úteis para essa finali. McDonnell descobriu a cerca dc quatro milhas do mosteiro um forno construído pelos monges para extrair ferro do minério. na extração do mármore. e o seu know-how viria a espalhar-se por toda a Europa" Os arqueólogos ainda continuam a pesquisar o alcance da perícia e engenhosidade tecnológica dos monges. quer na metalurgia. na vidraria ou na forjaria. ( ferro na região francesa da Champagne. Mas a escória que McDonnell descobriu em Laskill continha uma baixa quantidade dc ferro. o arqueólogo-mctalurgista Gcrry McDonnell. do chumbo. Desenvolveram c aprimoraram o seu trabalho até alcançarcm a perfeição. semelhante à . (A abadia dc Rievaulx foi um dos mosteiros que o rei Henrique VIII mandou fechar por volta de 1530). Observa Gimpcl que "a Idade Média introduziu a mecanização na Europa em uma escala que nenhuma civilização havia conhecido até então"*. do j ferro. j da Europa após as invasões bárbaras"17.

Era cm obediência ao espírito de Cristo que davam abrigo e conforto a qualquer forasteiro.res de abades. Dc acordo com essa Regra. veremos com mais detalhe quais foram . os monges teriam chegado aos umbrais da era industrial.III. Em Aubrac. um sino especial locava todas as noites para chamar qualquer viandan- j . em fins do século XVI. limitemo-nos a mencionar que a Regra beneditina exortava os monges a ser esmolcres e a cultivar a hospitalidade. peregrinos e pobres. Os monges eram igualmente conhecidos pelo empenho i com que saíam em busca dos infelizes que. Um antigo historiador da abadia normanda de Bcc escreveu: "Perguntem como espanhóis. necessitavam de um abrigo. perdidos ou isolados quando caía a noite. escória hoje produzida por um moderno alto-forno. McDonnell acha que os monges estiveram perto dc construir fornos paro uma produção dc ferro fundido em larga escala . onde tinham fundado um albergue no meio das montanhas do Rouerguc. por exemplo.| tuita. "Um dos pontos-chave foi que os cistercicnscs tinham todos os anos encontros regula. Km vez disso. burgúndios ou quaisquer outros viajantes têm sido recebidos em Bec. Os monges "tinham capacidade para fabricar altos-fornos que não produzissem nada além dc ferro fundido. esse avanço te que esperar mais de dois séculos c meio. Estavam cm condições de fazé-lo em larga escala. as obras assistcnciais da Igreja. mas. população c expectativa dc vida.tal como aconteceria na era industrial -. todos os que chegavam deviam ser recebidos como se fossem Cristo. OBRAS DE CARIDADE Em outro capítulo. Os mosteiros davatn hospedagem gra. Responderão que as portas do mosteiro estão sempre abertas a todos e que a todos se oferece pão gratuitamente"w. proporcionavam um lugar dc descanso calmo c seguro a viajantes estrangeiros. c que o forno de Laskill foi o protótipo desses fornos. e isso permitia-lhes compartilhar os avanços tecnológicos que sc alcançavam em qualquer parte da Europa disse cie A dissolução dos mosteiros rompeu essa rede de transferencia de tecnologia". com a sua explosão de riqueza. como vimos. Henrique VIII quebrou esse potencial"2*. Por agora. ao suprimir os mosteiros da Inglaterra. Não fosse pela cobiça do rei em apossar-se dos bens da Igreja.

III.
te que se tivesse extraviado ou fosse surpreendido pela intimidante escuridão da floresta. Era um sino conhecido pelo povo como "o sino dos caminhantcs",'. Também não era infreqüente que os monges que viviam junto do mar montassem dispositivos para avisar os marinheiros dos obstáculos perigosos, ou que os mosteiros próximos tivessem provisões resci"vadas para acolher os náufragos. Dizse que a cidade de Copcnhague deveu a sua origem a um mosteiro estabelecido pelo seu fundador, o bispo Absalon. para socorrer os náufragos. Em Arbroath. na Escócia, os monges fixaram um sino fluiuanlc numa rocha traiçoeira, muito conhecida na costa dc Forfarshire. Em determinadas fases da maré. a rocha quase não se via. escondida pelas águas, c muitos marinheiros se apavoravam, temerosos de chocar-se contra ela. As ondas faziam soar o sino c os marinheiros sc acautclavam para fugir do perigo. Até hoje. a rocha é conhecida como a "Rocha do Sino"". Estes exemplos são uma pequena amostra da preocupação dos monges pelas pessoas que viviam nas redondezas. Acrescente-se a isso o contributo que deram para a construção ou reparação de pontes, estradas c outros elementos da infraestrutura medieval. O trabalho monástico com que estamos mais familiarizados é a cópia dc manuscritos, tanto sagrados como profanos. Era uma ocupação considerada especialmente honrosa para os que a realizavam. Um prior cartuxo escreveu: "O diligente trabalho exigido por esta tarefa deve ser umas das principais ocupações dos cartuxos na sua clausura [...]. Pode-se dizer que, em certo sentido, é um trabalho imortal, que nunca passa c permanece para sempre: um trabalho que, por assim dizer, não é trabalho: uma tarefa que se destaca por cima de todas as outras como a mais apropriada para a educação religiosa dos homens" JJ.
A PAl-AVRA ESCRITA

A honrosa tarefa dos copistas era difícil e exigente. Em um manuscrito monástico. lemos estas palavras: "Quem não sabe escrever pensa que não é um trabalho; mas a verdade é que. embora sc sustente a pena só com três dedos, ttxlo o corpo sc cansa". Os monges tinham de trabalhar freqüentemente no meio do frio mais cortante. Ao concluir uma cópia que fez do comentário de São Jerônimo ao Livro de Daniel, um copisla

III.
monástico pedia a nossa simpatia: "Rogo aos leitores que fizerem uso deste trabalho que tenham por bem não se esquecerem daquele que o copiou: era um pobre irmão chamado Luis que, enquanto transcrevia este volume trazido de um país estrangciro, suportou o frio c foi obrigado a terminar de noite o que não conseguiu escrever à luz do dia. Mas Tu. Senhor, serás a plena recompensa do seu esforço" No século VI, um senador romano já retirado da vida pública, que se chamava Cassiodoro, teve um primeiro vislumbre do papel cultural que os mosteiros viriam a desempenhar. Em meados desse século, fundou o mosteiro dc Vivarium no sul da Itália, dotando-o dc uma refinada biblioteca - a bem dizer, a única biblioteca desse período dc que hoje sc tem noticia - c insistiu na importância de copiar manuscritos. Parece que alguns importantes manuscritos cristãos desse mosteiro sc encontram hoje na Biblioteca Laterancnse. à disposição dos papas". Surprecndcntemente, não é a Vivarium. mas a outras bibliotecas monásticas e scriploria, que devemos a maior parte da literatura latina antiga que chegou até nós. Nos casos cm que não foram conservadas c transcritas pelos monges, essas obras sobreviveram graças às bibliotecas c escolas associadas às grandes catedrais medievaisu>. A par das suas próprias contribuições originais, a Igreja cmpcnhou-sc em preservar livros c documentos que foram de seminal importância para salvar a civilização antiga. Descrevendo o acervo da sua biblioteca cm York, o grande Alcuino referiu-se a obras dc Aristóteles, Cícero, Lucano. Plínio. Estácio. Pompeu Trogo e Virgílio. Na sua correspondência, cita ainda outros autores clássicos, como Ovídio. Horácio c Tcrôncio24. E não eslava sozinho na sua familiaridade com os escritores antigos c no apreço por eles. Liipo (cerca de 805-862), o abade de Fcrriòres. cita Cícero. Horácio. Marciáo, Suctônio e Virgílio. Abbon dc Fleury (cerca dc 950-1004). que foi abade do mosteiro de Fleury, demonstra estar particularmente familiarizado com Horácio, Salustiano, Terêncio c Virgílio. Dcsidério - tido como o maior dos abades de Monte Cassino. depois do próprio Bento, c que. em 1086. veio a tornar-sc o papa Vítor III - supervisionou a transcrição dc Horácio e de
24 Charles Monialembert. The Monks of lhe West, vol. 5. pág. 145.

III.
Séncca, assim como a do De natura deorum, de Cícero, e dos Fasios dc Ovídiow. O seu amigo, o arcebispo Alfano, que também tinha sido monge em Monte Cassino, manejava com similar fluência as obras dos escritores antigos, e citava freqüentemente Apolônio, Aristóteles, Cícero, Platão, Varrão e Virgílio, além de imitar Ovídio e Horácio nos seus versos. Santo Anselmo, enquanto foi abade dc Bcc, recomendou aos seus alunos a leitura dc Virgílio c outros escritores clássicos, embora os aconselhasse a passar por alto trechos moralmente censuráveis25. O grande Gerbcrto dc Aurillac não sc limitou a ensinar lógica; também analisava com os seus alunos passagens de Horácio, Juvenal, Lucano, Pérsio, Terêncio, Estácio e Virgílio; sabemos dc conferências sobre autores clássicos que pronunciou em lugares como Saint Albans e Paderborn. Conserva-se dc Santo Hildcberto um exercício escolar que compôs juntando excertos de Cícero, Horácio, Juvenal, Pérsio. Sêneca, Terêncio e outros: o cardeal John Henry Newman - o grande converso do anglicanismo do século XIX e talentoso historiador - dá a entender que Santo Hildcberto conhecia Horácio praticamente dc cor26. O certo é que a Igreja apreciou, preservou, estudou c ensinou as obras dos antigos, que de outro modo se teriam perdido27.
25 Charles Monialembert. The Monks of lhe West. vol. 5. pág. 146. Sobre todo este tema. veja-se também John Henry Newman. Essavs and Skeiches. vol. 3. págs. 320-21. 26Cíccro (John Henry Newman. Essays and Sketches, vol. 3. pág. 321). Sabemos que Sáo Maveul de Cluny apreciava lanto a leitura que sempre tinha um livro entre as irtfios quando viajava a cavalo. Também Halinard. que era abade dc Silo Benigno dc Dijon antes de sc tomar arcebispo dc Lyon. cultivava os mesmos gostos c fala-nos com oigulho do seu interesse pelos filósofos da Antigüidade (Charles Monialembert. The Monks of lhe West. vol. 5. pág. 143). "Sem estudo c sem livros", dizia um monge dc Muri, "a vida dc um monge náo é nada". Sáo Hugo dc Lincoln, quando era prior dc Witham. a primeira casa cartuxa da Inglaterra, teve palavras parecidas: "Os nossos livros sáo o nosso deleite c a nossa riqueza em tempos dc paz. as nossas armas dc ataque e defesa em tempos dc guerra, o nosso alimento quando passamos fome c o nosso remédio quando estamos doentes" (Ibid., pág. 142). 27 No século XI. Monte Cassino experimentou uma revivescéncia cultural que foi qualificada como "o mais espetacular evento singular na história do conhecimento latino do século XI" (Leighton D. Reynolds c Nigcl G. Wilson. Scribes and Scliolars. pág. 109). Além desse transbordar dc empenho artístico c intelectual. Monte Cassino renovou o interesse pelos textos da antigüidade clássica: "De um só golpe, recuperou um grande número dc textos que. dc outra forma, se teriam perdido para

III.
Além da cuidadosa conservação dc obras do mundo clássico c dos Padres da Igreja, umas e outras primordiais para a civilização ocidental, os monges realizaram outro trabalho de incomensurável importância com a sua habilidade de copistas: a preservação da Bíblia41. Sem a sua dedicação a essa tarefa e as numerosas cópias que produziram, não se sabe como o texto sagrado teria podido sobreviver aos ataques dos bárbaros. Era freqüente embelezarem os Evangelhos com primorosas iluminuras artísticas, como nos famosos Evangelhos dc Lindau e Lindisfarnc - obras dc arte e de fé.
CENTROS DE EDUCAÇÀO

Mas os monges fizeram mais do que simplesmente preservar as capacidade de ler e escrever. Até mesmo um historiador sem qualquer simpatia pela educação monástica reconheceu: "Os monges estudavam os poemas dos poetas pagãos c os escritos dos historiadores c dos filósofos. Os mosteiros e as esco las monásticas tornaram-se, não apenas centros florescentes dc vida religiosa, mas também dc ensino"43. Outro cronista não simpatizante escreveu: "Os monges não apenas fundaram escolas c foram professores, mas também lançaram as bases das futuras universidades. Eram os pensadores e filósofos da época, e moldaram o pensamento político e religioso. A eles sc deveu. tanto coletiva como individualmente, que o pensamento e a civilização do mundo antigo passassem para a Idade Média c

já na sua época (347-407). Santo Agostinho dc Cantuária c os seus monges . Em maior ou menor escala. ao longo dos séculos. São Bonifácio criou uma escola cm cada mosteiro que fundou na Alemanha. as famílias de Antioquia costumavam confiar a educação dos seus filhos aos monges. para o período moderno"28. São João Crisóstomo conta-nos que. na Inglaterra.III. São Bento instruiu os filhos dos nobres romanos 41. os monges sempre foram professores. e.

Atribui-se a São Patrício o estímulo aos estudos na Irlanda e o fato dc os mosteiros irlandeses se terem convertido cm importantes centros dc ensino. abriam escolas onde quer que se fixassem29. proporcionando instrução tanto a monges como .III.

Mas. sendo já mestre das disciplinas ensinadas cm sua própria casa. Como acabamos de ver. o cultivo do espírito pela leitura c pela escrita sobreviveu à catástrofe política e social. o resultado foram os trés séculos dc completo analfabetismo conhecidos como a Era Negra da Grécia: a escrita simplesmente desapareceu no meio do caos e da desordem. Assim. a leigos30. Este apanhado da contribuição dos monges mal arranha a superfície de um tema imenso. c remetia continuamente os seus leitores para as referências nas notas de pé dc página. como as escolas das catedrais fundadas sob o império dc Carlos Magno. c ouvimos histórias similares sobre o arcebispo Rábano dc Mogúncia. lamentou a sua incapacidade de oferecer algo mais que um esboço sumário dc grandes figuras e grandes obras. Abbon dc Fleury.C. . nas décadas de 1860 c 1870. por exemplo.uma invasão dos dórios. foi estudar Filosofia e Astronomia em Paris c Rhcims. não teria sido um feito desprezível.III. hebreu c árabe411. segundo alguns historiadores -. graças aos monges. uma história dos monges ocidentais em seis volumes. Era normal os monges complementarem a sua educação freqüentando uma ou mais das escolas monásticas estabelecidas. Desta vez. Quando os gregos micénicos sofreram uma catástrofe no século XII a. Certos mosteiros ficaram também conhecidos pela sua proficiência em determinados ramos particulares do conhecimento. a contribuição monástica para a civilização ocidental foi imensa. mesmo que a contribuição dos mosteiros tivesse sido apenas a de ensinar os seus monges a ler c escrever. o mosteiro de Saint Gall tinha uma escola dc pintura c gravura. É verdade que a maior parte da educação ministrada aos que não iam professar votos monásticos sc deu em outros lugares. os monges dc São Benigno (cm Dijon) davam conferências sobre medicina. Mas o empenho com que os monges fomentaram a escrita c a educação evitou que a terrível destruição que sc abateu sobre os gregos micénicos viesse a repetir-sc na Europa após a queda do Império Romano. Os monges ensinaram as téc- . Quando Comtc de Monialembert escreveu. São Wolfgang e Gerberto (papa Silvestre II)4». c certos mosteiros ale mães davam palestras em grego.

assim como a distinção entre estudos secundários c superiores. A Universidade foi um fenômeno completamente novo na história da Europa. Mas podemos dizer com segurança que começaram a ganhar forma na segunda metade do século XII. que deu ao Ocidente os seus monges.III. A IGREJA E A UNIVERSIDADE UMA INSTITUIÇÃO ÚNICA NA HISTÓRIA Embora muitos colegiais de hoje não sejam capazes dc situar cronologicamente a Idade Média. com palavras do historiador Lowrie Daly. cm Paris e Bolonha.contribuição intelectual da civilização ocidental para o mundo: o sistema universitário. inventaram o champanhe!.c inigualável . A Igreja desenvolveu o sistema universitário porque. introduziram novos plantios. superstição c repressão intelectual. Nada mais longe da verdade. visto que tiveram os seus primórdios nas escolas das catedrais c nas posteriores reuniões informais de professores e alunos. com as suas Faculdades. pois é à Idade Média que devemos a maior . 319. nicas da metalurgia. preservaram a educação. Oxford c Cambridgc. mudaram a paisagem européia. Não podemos estabelecer com precisão as datas em que as universidades surgiram. A instituição que conhecemos atualmente. resgataram extraviados c (49) Ibid. pág. era "a única instituição na Europa que manifestava um interesse consistente pela preservação e cultivo do saber"-. acudiram aos viajantes. chegaram-nos diretamente do mundo medieval. também criou a Universidade. foram pioneiros cm tecnologia. náufragos. exames c títulos.. cursos. Quem mais na história da civilização ocidental pode ostentar um tal elenco de realizações? Vejamos agora como a Igreja. . Nada de parecido existira na Grécia ou na Roma antigas'. copiaram textos antigos. estão convencidos dc que foi um período dc ignorância.

em Calholic Encyclopedia. DC. ISO c 158. Havia consenso em que uma universidade não podia conceder diplomas sem a aprovação do papa. do Dc língua latina dc Varrüo. 222-23. "The Bcncdictinc Ordcr". págs. quinze estatuto real ou imperial. vinte gozavam dc ambos. cm Calholic Encyclope30 Thomas Cahill. As universidades que careciam de estatutos haviam. Uma vez obtido o reconhecimento de uma ou outra dessas autoridades. devemos atentar para algumas características. geralmente conseguiam-na. University Press oí America. havia oitenta e uma universidades.IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE Para identificarmos determinada escola medieval como universidade. com base nos quais os professores faziam as suas prcleções e. dos Diálogos dc Séneca.se constituído espontaneamente ex cortsuetttdine. págs. assim como por conferir diplomas. How lhe Irish Sawd Clvilizption. O Papado desempenhou um papel capital na fundação e incentivo das universidades. Já os diplomas conferidos apenas com a aprovação de sempre. assim como o seu reconhecimento legal como corporações31. Caracterizava-se também por estabelecer currículos acadêmicos bem definidos. 208. 45 . do De aquis de Fronti. e treze não tinham nenhuma credencial 32. Cyprian Alston. New York.. Embora muitas vezes as universidades tivessem de batalhar junto das autoridades externas pela sua autonomia. The htlellectual Life of Western Etimpe in lhe Middle Afco. ao mesmo tempo. 32 "Universitics". 109-10). os diplomas universitários eram respeitados por toda a Crislandadc. Washington. 31 Richard C. 1980. O papa Inocêncio IV concedeu oficialmente esse privilégio à Universidade de Oxford em 1254. págs. 28 Alcxandcr Clarcncc Flick. tal como um artesão elevado a mestre era admitido no grêmio da sua profissão. Doublcday. c d* trinta linhas raras da sexta Sátira de Juvenal. A concessão do título de "mestre" permitia a quem o recebesse o acesso ao grêmio dos docentes. Como o Pontífice (de fato) c o Imperador (cm teoria) possuíam autoridade sobre toda a Crisiandade. Nos tempos da Reforma. que nfto foram encontradas cm nenhum outro manuscrito" (ibid. A esse único mosteiro devemos a preservação dos Anais e das Histórias de Tácito. expunham idéias próprias. pág. que duravam um número de anos mais ou menos fixo. do Asno Dourado de Apuleio. Trinta c três delas possuíam estatuto pontifício. 1995. do rei ou do imperador. The Ris* of lhe Medieval Church. Dalcs.no. era a eles que a universidade costumeiramente linha de recorrer para obter o direito de emitir diplomas. Uma universidade possuía um núcico dc textos obrigatório. 29 G.

Paris and Oxford Universities in lhe Thirteenth and Four. Em fins do século XIII. 18. e que se tornou um modelo para o futuro. Como resultado. os habitantes das cidades cm que se si tuavam as universidades medievais amaram o dinheiro. pág. mas odiavam os estudantes. 167. The Mediewl University. como o das Universidades dc Bolonha. esse privilégio concedido pelos papas contribuiu significativamente para a disseminação do conhecimento e para a formação do conceito de uma comunidade acadêmica internacional. datado de 1233. Daly.teenth Centuries: Ari hislitulional and Intclkctual Historv. Os habitantes da cidade nutriam com freqüência sentimentos ambivalentes em relação aos estudantes universitários: por um lado. na prática. Oxford c Paris. esses professores podiam dar aulas em qualquer centro universitário da Europa Ocidental. mas. a universidade era um presente para os comerciantes locais e para a atividade econômica em geral. pág. WOODS JR. Em certos casos. De qualquer modo. o ius ubique docendi tomou-se "o selo jurídico distintivo da Universidade"34. ouvia-se muitas vezes os estudantes e os seus professores queixarem-se de que eram "tratados com abuso pelos cidadãos locais. Vemo-lo pela primeira vez em um documento do papq Gregório IX. 35'Lowrie J. alimentos e livros"5. monarcas nacionais eram considerados válidos unicamcntc no reino no qual eram emitidos33. 1968. Um olhar de relance sobre a história da universidade medieval revela que não eram incomuns os conflitos entre a universidade c o povo ou o governo local.46 TIIOMAS E. o título dc mestre dava a quem o possuía o direito de lecionar em qualquer lugar do mundo: era o ius ubique doceridi. No meio dessa atmosfera tensa. desatendidos nas suas demandas legais e ludibriados no preço dos aluguéis. esses estudantes podiam ser irresponsáveis e indisciplinados. una vez que os estudantes traziam di nheiro para gastar. com dureza pela polícia. a Igreja rodeou os esludan 33 Ibid. CIDADE E TOGA A participação dos papas no sistema universitário estendeu-sc a muitos outros assuntos. relativo à Universidade de Tou lousc. Como explicava um comentarista moderno. John Wilev and Sons New York. Teoricamente. . 34 Gordon Lcff. cada instituição preferia examinar o candidato antes de admiti-lo35. mas por outro lado.

concedcndo-lhes o chamado beneficio do clero. permitindo-lhes ler as suas causas julgadas por um tribunal especial. O Papado. o papa Ino. mediante a concessão de um privilégio conhecido como cessatio o direito dc os alunos entrarem cm greve. "Com esse documento . Em 1231. com a qual podia elaborar as suas próprias regras a respeito dos cursos e pesquisas. a Universidade de Paris atingiu a maioridade e entrou na história do direito como uma corporação intelectual plenamente formada. 1975. Os governantes civis também lhes estenderam muitas vezes uma proteção similar: em 1200. e submeteu-a diretamente à jurisdição pontifícia. 82 3). que protestavam contra as violações das suas liberdades. o papa Gregório IX lançou a bula Parens scientiarwn.cêncio III (1198-1216) interveio. Nesse documento. destinada ao preparo c aperfeiçoamento acadêmicos"37. o papa Honório 111 (1216-1227) pôs-se do lado dos professores de Bolonha. Quando o chanceler de Paris insistiu em que se jurasse lealdade à sua pessoa. Os estudantes universitários. 163-4. The Medieval University. Cobban. Methucn & Co.IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE tcs universitários dc uma proteção especial. 22. págs. "deve ser considerado a principal influência responsável pela liberdade de que gozava a guilda (isto é. passaram lambém a gozar desses privilégios. Os papas intervieram em defesa da universidade cm numerosas ocasiões. concedeu efetivamente à Universidade de Paris o direito à autonomia de governo. escreve Cobban. Foi ainda nesse mesmo documento que o papa procurou zelar pela justiça c concórdia no ambiente universitário.wrsities: Thtir Development and Organization. ernancipando-a da interferência diocesana. perante a intromissão das autoridades diocesanas locais na autonomia institucional da universidade. pág. como atuais ou potenciais candidatos ao estado clerical. 37 Ibid.. que certamente lhes seria mais simpático do que os tribunais da cidade36. The Medieval Uni. Em 1220. Consideravam-se justa causa para a greve os preços extorsivos fixados para o alojamento. págs. 47 . cm favor dos mestres de Paris. a injúria ou muti36 Lowrie J. Os clérigos gozavam na Europa medieval de um estatuto especial: maltratá-los era um crime extraordinariamente grave. Filipe Augusto da França concedeu e confirmou esses privilégios aos estudantes da Universidade de Paris. Daly. e não pelo civil. o corpo acadêmico organizado) de Paris" (Alan B. se fossem tratados de modo abusivo. Londres. tinham o direito de que as suas causas fossem julgadas por um tribunal eclesiástico..escreve um historiador -.

Tornou-se comum que as universidades remetessem as suas queixas ao Papa11. muitos estudantes universitários medievais provinham de famílias dc poucas posses. cm Catholic Eitcychpedia. bem como a prisão ilegal de um estudante"". Clemente VI e Gregório IX". A maior parte dos estudantes dc artes (cm sentido amplo) tinha entre catorze e vin te anos de idade. aumentou e protegeu um estatuto privilegiado em um mundo dc freqüentes conflitos de jurisdições"'4. Paris and Oxford Universities in lhe Thirieenih and Four• teeitíh Ctnturies. Daly. e teria sido difícil adquirir significativas coleções de livros. Não é de admirar. Muitos matriculavam-se na universidade com o objetivo dc se prepararem para uma profissão.cff. assim o fizeram Bonifácio VIII. Alan B. pois. foram as felizes beneficiárias dos frutos daquilo que al- . 13)"Univcrsiiícs". 202.48 TIIOMAS E. O que é que se estudava nessas instituições? Começava-se pelas sete artes liberais. Não havia bibliotecas. 15)Gortlon l. Os livros absolutamente necessários aos estudantes eram em geral alugados. não em um local específico. que um historiador tenha declarado que "o mais sólido e confiável protetor [das universidades] foi o Papa de Roma. The Medieval Uithvnities. No seu estágio inicial. Foi ele quem lhes concedeu. Cobhan. para os principiantes. 10. Quando as universidades ganharam forma no século XII. 168. Clemente V. a medicina e a teologia. pág. Em várias ocasiões. Ao que parece. 57. c prosseguia-se com o direito civil c canônico. pág. The Medieval Uniwrsilv. lação de um estudante sem que houvesse uma satisfação adequada dentro do prazo de quinze dias. mesmo que as universidades possuíssem instalações próprias. os pontífices intervieram para obrigar as autoridades universitárias a pagar aos professores os seus salários. As aulas eram mi nistradas em catedrais ou em salas privadas. Consistia em um corpo dc professores e alunos. cm Catholic Ivicwlopedia. em vez de comprados. WOODS JR. a universidade carecia dc edifícios ou dc um carnptts próprio. pág. e por isso não 6 de surpreender que o curso mais freqüentado fosse o dc Direito. 11)Lowrie J. Havia também frades entre os estudantes: eram homens que desejavam simplesmente ampliar os seus conhecimentos ou contavam com o patrocínio de um superior eclesiástico15. The Medieval University. 14)Lowrie J. Daly. a filosofia natural. 12)"Universilics".

4-5. que possuía a preparação adequada e que estava apto para ser avaliado. Esta foi a origem do método escolástico dc argumentação por meio da discussão de argumentos contrapostos. assistia a conferências. os professores passaram a incluir gradualmente uma série dc questões que deviam ser resolvidas pelo recurso ao pensamento lógico. coleção das decisões dos jurisconsultos romanos mais célebres. tal como a encontramos na Summa theologiac de São Tomás de Aqui no. E. quando foi descoberto o Digesto. transformadas em lei e integradas no Corpus júris civilis pelo imperador Justiniano no século VI. a filosofia natural e a ética aristotélicas bem como as obras de medicina de Galeno. The Renaissance of lhe Twelfih Cenlury: veja-se também ui. O graduando ou artista (isto é.IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE guns historiadores denominaram "a Renascença do século XII"38. a lógica. participava dos debates que eventualmente sc organizavam nas aulas e assistia aos que eram cntabulados por outros. Com o tempo. e que está na base de todos os códigos civis modernos. o aluno devia resolver satisfatoriamente uma questão perante os examinadores. 49 VIDA ACADÊMICA A distinção que hoje fazemos entre os estudos dc gradua ção c os dc pós-graduação seguia mais ou menos os padrões de hoje. The Rise of Universilies. Também os estudos jurídicos começaram a florescer. o estudante das artes liberais). cabia ao professor "definir" ou resolver a questão. depois de provar. O mestre designava alunos para defenderem aspectos contrários de uma questão.sobre a geometria euclidiana. Bolonha tornou-se famosa pelo seu curso de direito c Paris pelos de teologia c de artes. Além dos comentários sobre esses textos. Quando acabava a interação entre as partes. algumas universidades eram especialmente conhecidas pelo seu alto nível em determinadas áreas: assim. Essa ênfase na 38 O estudo clássico c dc Charles Homcr Haskins. a análise dessas questões substituiu basicamente os comentários dc textos. a metafísica. Os intensos esforços de tradução permitiram recuperar muitas das obras do mundo antigo . também como hoje. Para obter o diploma dc bacharel em artes. particularmente cm Bolonha. págs. As prelcções versavam geralmente sobre textos importantes. naturalmente. muitas vezes dos clássicos da Antigüidade. .

50

TIIOMAS E. WOODS JR.

argumentação meticulosa, na exploração dc um "caso" (um exemplo) pela discussão de cada um dos seus aspectos com argumentos racionais, soa como o oposto daquilo que sc costuma associar à vida inteleetua! do homem medieval. Mas era assim que funcionava o processo para a obtenção de um diploma. Uma vez que o examinando dirimia satisfatoriamente a questão, era-lhe conferido o diploma de bacharel em artes. O processo levava normalmente quatro ou cinco anos. Chegado a este ponto, o estudante podia simplesmente dar por terminada a sua formação, como faz hoje cm dia a maior parle dos bacharéis. e sair em busca de um trabalho remunerado (até mesmo como professor nalguma das escolas menores da Europa), ou decidir continuar os seus estudos e obter um diploma de pós-graduação, o que lhe conferiria o título de mestre e o direito de lecionar cm uma universidade39. É difícil determinar o intervalo dc tempo exato que costumava transcorrer entre a obtenção da licenciatura e a do mes trado. mas uma estimativa razoável 6 que oscilava entre seis meses e três anos. Sabe-se dc um candidato que. certamente por ter lido todos os livros requeridos, recebeu os dois diplomas cm um mesmo dia14. Contrariando a impressão geral de que as pesquisas estavam impregnadas de pressupostos teológicos, os estudiosos medievais tinham um grande respeito pela autonomia dc tudo quanto se referisse à filosofia natural, um ramo que se ocupava dc estudar o funcionamento do mundo físico e. particularmente. as mudanças e o movimento nesse mundo. Procurando

39 Para fazer uma idéia da vastidão dos conhecimentos que se exigiam para obter o titulo de mestre, vejamos o que diz um historiador moderno n respeito dos textos corri que o mcslrando devia estar familiarizado: "Depois do bacharelado c antes de requerer a licença para lecionar, o estudante devia ter •aprendido cm Paris ou em outra universidade» as seguintes obras aristotéli- cas: Física. Da geração e da ct>rritpçâo, Do céu e o Pan.-a naluratia\ especialmente. os tratados de Aristóteles Da sensação e do sensível. Do sono e da vig{- lia. Da memória e reminiscincia. Da longevidade e brevidade da vida. Também devia ter estudado (ou ter planos de fazé-lo) Da metafísica, além de ter assistido a conferências sobre os livros matemáticos. (O historiador) Rashdall. falando do currículo dc Oxford, dá a seguinte lista de obras que deviam ser lidas pelo estudante no período entre a conclusão do bacharelado e a iniciação no mestrado: livros sobre as artes liberais: cm gramática, Priseiano; cm retórica, a Retórica de Aristóteles (três períodos) ou Tópicos (livro IV). de Boécio. ou a Nova Retórica, de Cícero, ou Metamorfose, de Ovfdio. ou Poetria VirgUir, em lógica. De Interpretatione. de Aristóteles, (três trimestres), ou Tópicos (livros I 111). de Boécio. ou Analíticos Anteriores, ou Tópicos, de Aristóteles; cm arit-

IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE

explicações naturais para os fenômenos da natureza, esses pesquisadores mantinham os seus estudos à margem da teologia. Como escreve Edward Grani cm Deus e a razão na Idade Média. "exigia-se dos filósofos naturais das faculdades de artes que se abstivessem dc introduzir teologia e temas de fé na filosofia natural"40. Esse respeito pela autonomia da filosofia natural, em relação à teologia, também se observava entre os teólogos que escreviam sobre ciências físicas. Um irmão dominicano pediu a Alberto Magno, o mestre de São Tomás de Aquino. que escrevesse um livro dc física que os pudesse ajudar a entender as obras dc física dc Aristóteles. Temendo que esperassem um trabalho entremeado de idéias teológicas. Alberto Magno rejeitou antecipadamente a idéia, esclarecendo que as idéias teológicas pertenciam aos tratados de teologia, e não aos de física. O estudo da lógica na Idade Média fomecc-nos mais um testemunho do compromisso com o pensamento racional nessa época. "Através dos sólidos cursos de lógica - escreve Grant os estudantes medievais eram instruídos acerca das sutilezas da linguagem e das armadilhas da argumentação. Dai o grande peso que se dava ã importância c utilidade da razão na educação universitária". Edith Sylla, uma especialista em filosofia natural, lógica c teologia dos séculos XIII c XIV, escreve que deveríamos "maravilhar-nos com o nível de sofisticação lógica que com certeza atingiram os universitários de Oxford do século XIV"». Naturalmente, os mestres guiavam-se por Aristóteles, um gênio da lógica, mas também compunham os seus próprios textos de lógica. Quem escreveu o mais famoso deles? Um futuro papa, Pedro de Espanha (João XXI), na década de 1230. Por centenas de anos, a sua Summulae logicales serviu de texto-basc. c lá pelo século XVII já tinha atingido 166 edições.

51

A IDADE DA ESCOlASTICA

Sc a Idade Média tivesse sido realmente um período em que as questões eram resolvidas pelo mero recurso aos argumentos de autoridade, esse rigor no estudo da lógica formal
40Ibid. pág. 136 19)Edward Grane. Cod and Reason in lhe Middle Ages. Camhridgc Uni- versity Press. Cambridge. 2001. pág. 184.

52

TIIOMAS E. WOODS JR.

não faria sentido. O empenho com que se ministrava essa disciplina revela, pelo contrario, uma civilização que almejava compreender e persuadir. Para esse fim, os professores procuravam alunos capazes de detectar as falácias lógicas c de formular argumentos logicamente sólidos. Foi a idade da Escolástica. É difícil chegar a uma definição da Escolástica que se possa aplicar a todos os pensadores a quem tem sido atribuída essa designação. Por um lado, o termo foi atribuído âs obras cinditas produzidas nas escolas, isto é. nas universidades da Europa. Por outro, presta-se menos a descrever o conteúdo do pensamento dos autores dessas obras do que a identificar o método que usavam. Geralmente, a Escolástica estava ligada ao uso da razão como ferramenta indispensável para os estudos teológicos c filosóficos c para a dialética - confronto dc proposições opostas, seguido da solução da questão em debate pelo recurso à razão e à autoridade -. e como método de tratar assuntos de interesse intelectual. Com o amadurecimento dessa tradição, tornou-se comum que os tratados escolásticos seguissem uma pauta fixa: enunciado de uma questão, exposição dos argumentos de ambos os lados, manifestação do ponto de vista do autor e resposta às objeções. Talvez o primeiro dos escolásticos tenha sido Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109), o abade do mosteiro de Bec c depois arcebispo de Cantcrbury que. ao contrário dos demais, não ocupou nenhum cargo de docência, mas compartilhou com eles do empenho em usar da razão para analisar questões filosóficas e teológicas. Por exemplo, o seu Cur Deus homo examina de um ponto de vista racional por que era conveniente e adequado que Deus se fizesse homem. Nos círculos filosóficos, no entanto. Santo Anselmo é bem mais conhecido pela sua prova racional da existência dc Deus o chamado argumento ontológico -, que intrigou e estimulou mesmo aqueles que dele discordavam. Para Anselmo, a existência de Deus era uma conseqüência lógica da própria definição dc Deus. Tal como um bom conhecimento e profunda compreensão da idéia dc "nove" implica que a sua raiz quadrada é "três", assim também a profunda compreensão da idéia dc Deus implica que esse ser deve existir necessariamente41.
41 Esta formulação do argumento de Santo Anselmo é do Dr. William Marra (t 1998). um velho ami^o que ensinou filosofia durante década* na Ford ha m University e que pertenceu à tradiçáo

IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE

Anselmo postulou como definição inicial de Deus "aquilo em relação ao qual nada maior se pode conceber" (para simplificar, modificaremos essa formulação para "o maior ser conce- bívcl"). O maior ser concebívcl deve possuir todas as perfei- çôes; caso contrário, nâo seria o maior ser concebívcl. Ora. a existência é uma perfeição, afirmava Anselmo, porque é melhor existir do que nâo existir. Suponhamos que Deus existisse apenas na mente das pessoas, mas não na realidade. Isso significaria admitir que o maior ser concebívcl existe unicamente como uma idéia nas nossas mentes e não tem existência no mundo exlra-mental (o mundo fora das nossas mentes). Nesse caso, nào poderia ser o maior ser concebívcl, uma vez que poderíamos conceber outro maior: um que existisse nas nossas mentes e também na realidade. Assim, a própria noção de "o maior ser concebívcl" implica imediatamente a existência de tal ser. porque. sem existência no mundo real. não seria o maior ser concebívcl. A prova de Anselmo nào convenceu muitos dos filósofos posteriores, incluindo São Tomás de Aquino - embora uma minoria tenha insistido em que Anselmo estava certo -. mas. ao longo dos cinco séculos seguintes c até mais além, a grande maioria dos filósofos viu-se compelida a levar em conta o raciocínio do santo. Muito mais significativo que as seculares reverberações desse argumento é, no entanto, o compromisso com o uso da razão que os cscolásticos posteriores assumiram de modo ainda mais efetivo. Outro dos primeiros cscolásticos importantes foi Pedro Abe' lardo (1079-1142). um mestre muito admirado que lecionou durante dez anos na escola da catedral de Paris. Em Sic et non ("Sim c nâo", cerca dc 1120), Abelardo elaborou uma lista de aparentes contradições, citando passagens dos primeiros Padres da Igreja c da própria Bíblia. Qualquer que fosse a solução para cada caso, cabia à razão humana - e mais concrcta- mente aos discípulos dc Abelardo - resolver essas dificuldades intelectuais. O prólogo de Sic et uon contém um belo testemunho da importância da atividade intelectual e do zelo com que devia ser realizada: "Apresento aqui uma coleção de afirmações dos Santos Padres pela ordem em que delas me lembrei. As discrepâncias que esses textos parecem conter levantam certas questões que devem constituir um desafio para que os
minoritária dc filósofos ocidentais convencidos de que essa prova racional era capa/, de demonstrar a necessidade da existência de Deus

53

no século seguinte. a plena c perfeita sabedoria de Deus. quando cito passagens das Escrituras.usaram argumentos da razão para atacar a fé c. era muito conveniente e apropriado que os fiéis da Igreja fizessem uso da razão paia defender a fé'4.). nem um Aristóteles. Abelardo estava em grande sintonia com a vitalidade intelectual do seu tempo c partilhava com ela da confiança na capacidade da razão que Deus conce deu ao homem. Embora o seu trabalho sobre a Trindade lhe tenha acarretado uma censura eclesiástica. pela pesquisa. sc isso significasse separar-se dc Cristo"". quis. Embora tenha feito levantar algumas sobrancelhas na sua época. pelas suas perguntas. Aquele que é a própria Luz. balei e abrir-se-vos-á. sentado no meio dos doutores. começamos a pesquisar e. aos doze anos de idade. Ele demonstrou-nos isso pelo seu próprio exemplo moral. Aristóteles. Disse ele: «É tolice que alguém faça afirmações rotundas sobre estes assuntos. é para estimular e incitar os meus leitores a pesquisar. uma obra que se tornou um . como disse Aquele que é a própria Verdade: Buscai e acha. cresçam em perspicácia. É prática muito útil questionar todos os detalhes». Ao levantarmos questões. Nota-se claramente a sua influencia em Pedro Lombardo (1100. culminando. Os hereges .. dentre da verdade e da maior autoridade dessas passagens. sc nâo lhes dedicou muito tempo. Era ele um filho fiel da Igreja e o seu trabalho sempre sc orientou para a construção e fortalecimento do grande edifício da verdade sustentada pela Igreja. encorajou os seus alunos a assumir essa tarefa com todo o peso da sua curiosidade [.disse também . meus jovens leitores concentrem todo o seu zelo em estabelecer a verdade c. Pedro Lombardo escreveu as Sentenças. Portanto. a primeira fonte dc sabedoria é a inquirição constante c profunda.54 TIIOMAS E. dar exemplo aos seus discípulos antes dc tornar-se modelo de mestres com as suas pregações. O mais brilhante dos filósofos. Disse certa vez que não "desejava ser um filósofo. Arcebispo de Paris durante um breve período. com a maior seriedade que essa pesquisa possa ter"". o uso que fez da razão para refletir sobre os assuntos teológicos viria a ser assumido por escolásticos posteriores.-1160).reis. em São Tomás dc Aquino. quando foi encontrado. WOODS JR. sc isso significasse rebelar-se contra o Apóstolo Paulo. por isso mesmo.. atingimos a verdade. Como já foi definido. assim agindo. que deve ter sido seu aluno. ouvindo-os e fazetulo-lhes perguntas.

desenvolveu na Stonrna theo. São Tomás. c tomando por empréstimo um pedaço do argumento sobre a contingência e a necessidade43. Philosophv of Religion: A Cuide and Anthobgy. a Encarnaçào. De modo significativo. levantou c respondeu a milhares de questões cm teologia e filosofia. a graça. prefiro concentrar aqui o foco na existência de Deus. a Redenção. Mostrou que Aristóteles . na realidade. A sua imensa obra. Para se ter alguma idéia do caráter c da profundidade da sua argumentação neste ponto. procura combinar a confiança na autoridade com a disposição de empregar a razão na explanação dos temas teológicos42. uma das maiores inteligências dc todos os tempos foi São Tomás de Aqttino (1225-1274).logiae cinco vias para demonstrar a existência de Deus. os sacramentos c os novíssimos (morte. 239-42. 43 Vcja-sc o cxccicnte artigo dc James A. O livro é uma exposição sistemática da fé católica. que vão da teologia dos sacramentos alé à guerra justa ou à questão de saber se todos os vícios deveriam ser considerados crimes (São Tomás disse que não). por sua vez. "Can Thcrc Be an l-ndlcss Regivss of Causes?".. cd. Os escolásticos discutiram muitos temas significativos. Sadowsky. Entenderemos melhor a visão de São Tomás sc começarmos com uma experiência imaginária da nossa vida corrente. nos casos de Anselmo e Tomás dc Aquino. e des.IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE texto básico para os alunos dc teologia dos cinco séculos seguintes. deve-se ver como aborda a questão pelo ângulo do que é conhecido tecnicamente como o argumento da causalidade eficiente. (A existência dc Deus pertence àquela categoria dc conhecimentos que São Tomás considerava poderem ser atingidos tanto por meio da razão como da revelação divina). talvez por ser o exemplo clássico do uso da razão cm defesa da fé. pág. Suponhamos que eu queira comprar meio quilo dc peito dc 42 Lowrie J. cm que se abordam numerosos assuntos. as virtudes. Oxforxl University Press. 55 .tido por ele c por muitos dos seus contemporâneos como o ponto alto do pensamento profano podia ser facilmente harmonizado com os ensinamentos da Igreja. 105. pág. Já vimos o argumento de Santo Anselmo. desde os atributos divinos até questões como o pecado. 200Ó. O maior dos escolásticos e. Daly.creveu-as ainda mais amplamente na Sttmma contra gentiles. The Medieval Uitivtrsity. juízo céu e inferno). mas. a Summa iheologiae. New York. cm Brian Davies.

Este exemplo pode parecer muito distante da questão da existência de Deus. a prova de São Tomás é de certo modo análoga a ambos. saberei instantaneamente que. Portanto. sabemos perfeitamente que ela não apareceu espontaneamente. Mas agora C precisa igualmente dc uma causa D para existir. cuja existência é parte da sua própria essência. nunca chegarei ao balcão. Por todo o sempre. E se tivermos uma série infinita. dizem-me que tenho de pegar outra senha para poder pegar a senha anterior. por exemplo. na realidade. então nada poderia jamais ter chegado à existência. Começa pela idéia de que todo o efeito requer uma causa c de que nada do que existe no mun do físico é causa da sua própria existência: é o chamado princípio da razão suficiente. Deve a sua existência a algo mais: a um construtor e a uma matéria-prima anteriormente existente. a série tem de ser finita. a fim de poder fazer o meu pedido no balcão da mercearia. Mas B. Uma coisa A deve a sua existência a alguma causa B. dê inicio à seqüência de causas. Esta primeira causa .56 TIIOMAS E.é Deus.uma causa que cm si mesma não necessite dc causa. Mas se eu vir alguém que vem saindo da mercearia com meio quilo de rosbife comprado no balcão. Nessas condições. Deste modo. para pegar uma senha. justamente quando estou a ponto dc pegar essa senha. não é um ser que exista por si mesmo. e que. por sua vez. São Tomás explica que tem de haver. estarei correndo atrás de senhas. em conseqüência. porque nesse caso ninguém poderia jamais ser atendido ao balcão. E que. Ao chegar lá. Nenhum ser humano deve existir necessariamente. justamente quando estou para pegar esta última. por conseguinte. tenho de pegar uma senha. sou informado de que tenho de pegar uma senha antes dc poder fazer o meu pedido. No entanto. daqui até o final dos tempos. que de cada vez que pego uma senha descubro que existe uma senha anterior c devo tê-la em meu poder antes de pegar a seguinte. devo pegar ainda outra. deparamos com as dificuldades levantadas por uma série infinita. isto é. Suponhamos ainda que a série de senhas requeridas é infinita. na qual cada causa requeira ela própria uma causa. a série dc senhas não pode continuar para sempre.diz São Tomás . uma Causa sem causa . WOODS JR. Quando vemos uma mesa. para pegar uma senha. Tal como no exemplo da mercearia. houve um tempo antes dc cada um de nós ter vin- . peru em uma mercearia. Deus é um ser que existe por si mesmo. c tem também necessidade de uma causa C. mas nào o é.

Mas com Deus é diferente: Ele não pode não existir. E não depende de nada anterior a si mesmo para explicar a sua existência. A existência não é parte da essência de nenhum ser humano. A Igreja das catedrais e das cruzadas. c o papa Alexandre IV (1254-1261) chamou-as "lâmpadas que iluminam a casa de Deus".uma designação que evoca as ambições dc Alcufno quando. vol.criaram uma ampla tradição intelectual. São Paulo. "Os mestres da Idade Média . trad. UM -RIO DE CIÊNCIA" 57 Este tipo dc rigor filosófico caracterizou a vida intelectual das primeiras universidades. onde os acadêmicos podiam debater c discutir as proposições apoiados na certeza da utilidade da razão humana. A Igreja foi sem dúvida a matriz de onde saiu a Universidade. Contrariamente ao retrato grosseiramente inexato que sc tem feito da Idade Média.IV A IGKKJA E A UNIVERSIDADE do à existência.concluiu David Lindberg em The Beginnings of Western Science (1992) . vários séculos antes. 348. O papa Inocêncio IV (1243. Ouadranic. dc Emérico da Gama. observou que. cm História da Igreja de Cristo. desde os tempos das primeiras universidades. 3. sem a qual o subseqüente progresso na filosofia natural teria sido inconcebível" Christophcr Dawson. "os mais altos estudos eram dominados pela técnica 44 Hcnri Danicl-Rops. . "Graças a essas intervenções pontifícias . se propunha estabelecer uma nova Atenas no reino dos francos. É um fato comprovado que uma das mais importantes contribuições medievais para a ciência moderna foi a liberdade dc pesquisa no mundo universitário. Não é dc estranhar que os papas e outros homens da Igreja situassem as universidades entre as grandes jóias da civilização cristã.-1254) descreveu as universidades como "rios de ciência cuja água fertiliza o solo da Igreja universal".escreve o historiador Henri Daniel. Era comum ouvir descrever a Universidade de Paris como a "nova Atenas"44 . 1993. no período carolíngio. E é ao apoio dado pelos papas que sc devem o crescimento e o êxito do sistema universitário. a vida intelectual medieval prestou contribuições indispensáveis à civilização ocidental. um dos grandes historiadores do século XX. e o mundo continuará a existir depois de cada um dc nós ter morrido. pág.-Rops o ensino superior foi capaz de expandir-se. o ninho dc onde ela levantou vôo"".

e a tendência a submeter todas as questões. da discussão lógica: a questio c o debate público. consideravam muito natural empregar a razão para pesquisar as áreas do conhecimento que não haviam sido exploradas anteriormente. págs 190-1.. «Nada pode ser perfeitamente conhecido .disse Roberto dc Sorbonnc .se nâo tiver sido mastigado pelos dentes do debate.58 TIIOMAS E. assim como discutir possibilidades que antes não haviam sido consideradas seriamente"31. A criação da Universidade. 45 Christopher Dawson. sobretudo nos seus principais expoentes.). que tão amplamente determinaram a forma da filosofia medieval. o compromisso com a razão c com a argumentação racional e o abrangente espirito de pesquisa que caracterizou a vida intelectual medieval representaram "um dom da Idade Média latina ao mundo moderno [. . a razão era entronizada nas universidades medievais como árbitro decisivo para a maior parte dos debates e controvérsias intelectuais. desenvolvia o espírito crítico c a dúvida metódica a que a cultura c a ciência ocidentais tanto devem»"45. Talvez esse dom conserve para sempre a condição de segredo mais bem guardado que a civilização ocidental teve durante os quatro séculos passados"31. acima dc tudo. WOODS JR. da mais óbvia à mais abstrusa. ainda que nunca se venha a reconhecê-lo. imersos em um ambiente universitário. Foi um dom da civilização cujo centro era a Igreja Católica. O historiador da ciência Edward Grani concorda com esse juízo: "O que foi que tornou possível ã civilização ocidental desenvolver a ciência c as ciências sociais de um modo que nenhuma outra civilização havia conseguido até então? Estou convencido de que a resposta está no penetrante e profundamente arraigado espírito de pesquisa que teve início na Idade Média como conseqüência natural da énlase posta na razão. Os estudantes. a esse processo de mastigação não só estimulava a perspicácia c a exatidão do pensamento como.. Com exceção das verdades reveladas. Religion and lhe Rise of Western Cnhure.

o certo que nasceu e sc criou cm uma família profundamente religiçj sa. Copérnico era uma figura de renome nos meios eclesiásticos. ainda que esse caso tenha sido bem menos ruim do que as pessoas pensam. Alguns estudiosos modernos de Copérnico afirmam que era padre. O caso Galilcu. a associação de fiéis vinculada à Ordem que estendera aos leigos a oportunidade dc participar da espiritualidade c da tradição dominicanas1. Fosse qual fosse o seu estado clerical. é largamente responsável pela crença tão difundida de que a Igreja obstruiu o avanço da pesquisa científica. na qual todos pertenciam ã Ordem Terceira de São Domin gos. I Não é um assunto secundário.VI. k0ALIL. achou revelador <|iie seja esse praticamente o único exemplo que sempre açode •I mente das pessoas quando se pensa na relação entre a Igreja fc a ciência. o cardeal John Henry Newman. embora tivesse sido nomeado cóncgo do cabido de Fraucnburg no final da década dc 1490. mas não existe nenhuma evidência direta de que tivesse chegado a receber as ordens maiores. Na mentalidade popular. No entanto. famoso converso do anglicanismo do século XIX. são cada vez em maior número os estudiosos que a levantam. c as suas respostas podem surpreender-nos. porém. A IGREJA E A CIÊNCIA I Terá sido apenas coincidência que a ciência moderna se de senvolvesse em um ambiente em ampla medida católico. Como cientista. Porém. a alegada hostilidade da Igreja Católica para com a ciência talvez constitua o seu principal ponto fraco. na | tycrsáo deturpada com a qual a maior parte das pessoas está familiarizada. ou houve alguma coisa no próprio catolicismo que possibilitou o seu progresso? O simples fato de levantarmos esta questão já significa transgredir as fronteiras da opinião cm voga.HU A controvérsia de Galileu centrou-se cm torno do trabalho do astrônomo polonês Nicolau Copémico (1473-1543). tendo sido consultado pelo V Concilio dc .

este convidaria o humanista c advogado Johann Albe VVidmanstadt a dar uma conferência pública no Vaticano sobré o lema. tinha redigido para os amigos um sumário do seu sistema heiiocêntricô que viria a atrair as atenções até do papa Clemente VII. tais como a perfeita esferiei dade dos corpos celestes. acima dc tudo. mas também que um planeta. com o que derrubava a velha certeza de que os corpos celestes eram perfeitamente esféricos. 35. A pedidoj dos amigos. em 1531. Observou montanhas na lua.C. Galileu Galilei (1564-1642). fez com o seu telescópio algumas observações (!) Cfr. Calileo. Copérnico conservou muito da astronomia convencional da sua época. (Um dos argumentos contrários ao movimento da Terra era o dc que a . demonstrando não só a presença dc fenômenos celestes que Ptolomcu c os antecessores não haviam percebido. pág. Descobriu as quatro luas que orbitam cm torno dc Júpiter. movendo-se na sua órbita. Mas introduziu uma diferença signifi cativa ao situar o Sol. Latrão (1512-1517) sobre a reforma do calendário. não deixa para trás os seus satélites. Science and lhe Church. Langford OP. Copérnico acabou por ceder c publicou Seis Uvros sobre as Revoluções das Órbitas Celestes. "Nicolaus Copcrnicus". Antes ainda. dc colegas acadêmicos c de vários prelados. que dedicou ao papa Paulo III. um brilhante astrônomo grego para quem o universo era gcocêntrico. em 1543. Hagcn.VI.C. Dcscléc. ao invés da Terra. cm Cailiolie F. as órbitas circulares c a velocidade constante dos planetas. no centro do sistema no seu modelo. além dos seus trabalhos no campo da física. A astronomia copcrnicana partilhou com a dos seus precursores gregos alguns aspectos. a Ptolomeu (87-150 d. astronômicas importantes que contribuíram para abalar o sistema ptolomaico. ficando muito bem impressionado com o que ouviu2 No seu trabalho. (2) Jcrome J. a qual se devia quase por complct a Aristóteles e. que instavam a publicar o seu trabalho. por exemplo J. New York.ncyolopedia. 1966.). que viam no siste ma copemicano uma frontal oposição ã Sagrada Escritura esse sistema não foi objeto dc uma censura católica formal até que surgiu o caso Galileu. Apesar do feroz ataque dos protestantes. a Terra c os outros planetas moviam-se em tomo do Sol.

com o pêndulo que Lcon Foucault pendurou do ápice do domo do Pantcáo de Paris (N. Quando. Galileu estava encantado: perante uma audiência dc cardeais. em 1612. Science and lhe Church. A descoberta das fases de Vénus foi outra peça de evidência cm favor do sistema copcrnicano. Langford. O papa Paulo V conccdeu-lhc uma longa audiência c os jesuítas do Colégio Romano organizaram um dia de atividades em homenagem às suas descobertas. alguns alunos dos pes. Gricn. . Inicialmente. como uma hipótese cuja verdade literal nào linha sido comprovada 48. Galileu. Em fins de 1610. Calileo. Escreveu a um amigo: "Tenho sido recebido e favorecido por muitos cardeais ilustres.).borger46 c Clavius discorreram sobre as descobertas do astrônomo.). prelados c príncipes desta cidade". 47 Cfr. 48 É precisamente o que era na época. A rotação da (erra c «■ lielioccn-j trtsmo só vieram a ser compiovados experimentalmente cm 1851. que fazia girar um telescópio sobre um eixo paralelo ao da Terra. Lua seria deixada para trás). Cristóvão Clavius' comunicava por carta a Galileu que os seus amigos astrônomos jesuítas haviam confirmado as suas descobertas. -45 a 52. uma das muitas e entusiásticas cartas de congratulação que recebeu veio de ninguém menos que o cardeal Maffco Barbcrini. acreditava que o sistema copernicano era literalmente verdadeiro. que comprovou pessoalmente a descoberta das luas de Júpiter por Galileu. o pc. Cristoph GnenUrger (1531-1636). porém. Quando foi a Roma no ano seguinte. J A Igreja nào fazia objeção ao uso do sistema copernicano como um modelo teórico. Também contribuiu para o desenvolvimento do telescópio dc refração que se utiliza hoje em dia Ubid.VI. luturo papa Urbano VIII47. Tudo parecia favorecê-lo. cm que pela primeira vez aderia publicamente ao sistema copernicano. do E. pois efetivamente explicava os fenômenos celestes de maneira mais elegante e precisa que o sistema ptolcmaico. Pensava-se que nào havia nenhum mal cm apresentá-lo e usá-lo como um sistema hipotético. Galilcu c a sua obra foram bem acolhidos c festejados por eminentes eclesiásticos. Jcrome J. inventor da montagem equatorial. matemáticos e líderes civis. c nào uma simples hipótese que for46 O pe. era um competente astrônomo. págs. publicou o seu História e demonstrações em tonto das manchas solares e dos seus acidentes. o astrônomo foi saudado com entusiasmo tanto pelos religiosos como por personalidades leigas.

as es . Quando foi mais longe ainda c sugeriu que. É uma completa injustiça afirmar. um dos mais judiciosos estudiosos modernos deste assunto. pelo contrário. Galileu insistiu na verdade literal do sistema copernicano c recusou-se a aceitar um compromisso pelo qual o copemicanismo deveria ser ensinado como hipótese até que pudesse apoiar-se em evidências conclusivas.de que. acrescenta Langford. fomccc-nos um sumário muito útil da posição de Galileu: "Galileu estava convencido dc possuir a verdade. sem provas 49 Paralaxe é o deslocamento aparente que se deveria observar na posição de umas estrelas cm relação às outras por causa da mudança dc posição do observador. como fazem alguns historiadores.VI. argumento que hoje. mas não tinha provas objetivas suficientes para convencer os homens de mente aberta. curiosamente. mas tinham de esperar por mais provas". "Como é evidente. argumentava que o movimento das marés constituía uma prova do movimento da Terra. Muitos eclesiásticos influentes acreditavam que Galileu devia estar ccrto. Assim. por exemplo. Jcromc Langford. Os astrônomos jesuítas tinham confirmado as suas descobertas c esperavam ansiosamente por provas ulteriores para poderem abandonar o sistema dc Tycho* e passarem a apoiar com segurança o copcrnicanismo. não é inteiramente correto pintar Galileu como uma vítima inocente do preconceito e da ignorância do inundo". apesar da falta dc provas estritamente cientificas. se a Terra sc movia. O argumento diz que. coisa que não acontecia 49. os cientistas consideram ridículo. necesse previsões precisas. que ninguém ouvia os seus argumentos e que nunca teve uma oportunidade. eram os versículos da Sagrada Escritura que deviam ser rcinterprclados. mas não dispunha dc evidências adequadas que respaldassem a sua crença. "Parte da culpa dos acontecimentos subseqüentes deve ser atribuída ao próprio Galileu. se a Terra se move cm tomo do Sol.que vinha de Aristóteles . passou a ser visto como alguém que usurpara a autoridade dos teólogos. então deveria ser possível observar uma mudança de paralaxe quando observássemos as estrelas. Não era capaz de responder à objeção dos gcoccntristas . que recusou qualquer ressalva e. No entanto.

I cm vez dc declarar como falsa uma opinião que sc provai verdadeira. mas a Terra em torno do Sol. que permanecia estacioná. Triumph. A abertura dc princípio do cardeal Belarmino a novas interpretações da Escritura à luz dos acréscimos feitos ao universo do conhecimento humano não era nada dc novo. Roscvillc. Harpcr Collins. 309-11 .W. o céu ou outros elementos deste mundo. Como comentou na época o célebre cardeal Robertdfl Belarmino. 68-69. giravam cm torno do Sol.para acomodar uma teo- 8)Tycho Brahe (1546-1601) propôs um sistema astronômico que sc situava mais ou menos entre o gcoccnlrismo ptolomaico c o lielioccntrismo copcr.i crcvcu certa vez. fez derivar o debate para o terreno próprio dos teólogos"50. Science and lhe Church. Mesmo assim. pág. aqui a Igreja não foi inflexível. c admitir que não as havíamos entendido. A Igreja. New York.nicano. Mas eu mesmo não devo acreditar que existam tais provas enquanto nào me sejam mostradas"". Langford. 40. sensível às acusações protestantes de que os católicos não faziam muito caso da Bíblia. Crockcr III. iodos os planetas. I Foi. Prima. aparentemente. de que a Terra está no terceiro céu e ! dc que o Sol nào gira em torno da Terra. Jcromc J. às vezes. portanto. uma vez que. Jacqucs Bar/. hesitou em acolher a sugestão de que sc pusesse de lado O sentido literal da Escritura . a insistência de Galileu sobre a verdade literal do copcrnicanismo que causou a dificuldade. o modelo hcliocêntricô parecia contradizer certas passagens da Escritura. 51 Cfr. "que surge alguma questão sobre a terra. cntào deveríamos agir com grande circunspeJ çào ao explicar passagens da Escritura que parecem ensinar o contrário. Frtnn Dawn to Decadence. 50 Cfr. a respeito da qual um ' não-cristào possui conhecimentos derivados dos mais acurados I raciocínios ou observações. suficientes. 2001. Califórnia. um bom resumo deste assunto aparece cm H. 2001. com exceção da Terra. "Sc houvesse uma verdadeira prova de que o Sol é o centro do universo.ria científica sem provas51.un.VI. Nesse sistema. parecia implicar na ausência de movimento da Terra . pág. págs. es. Galilco.que. mas o Sol girava cm tomo da Terra. Santo Alberto Magno era do mesmo parecer: "Acontece com freqüência".

The Popes and Science. Fordham Univcrsitv Press. que a Igreja não tinha declarado herético o copcrnicanismo e que nunca o faria. New York. 53 Anos mais tarde. que um cristão. Gricmbcrger comentou que. deve-se evitar cuidado. ignorou a instrução de que o copcrnicanismo devia ser tratado como hipótese c não como verdade estabelecida 53. págs. 1911. os náo-crentcs despreza. embora fosse livre para apresentá-la como hipótese. Segundo. O papa Urbano VIII deu-lhe muitos presentes valiosos c emitiu um bieve dc recomendação ao gráo-duque da Toscana cm que o reconhecia como um homem "cuja fama brilha no céu c sc espalha por todo o mundo". é preciso crer que a verdade da Escritura é I inviolável. ao falar dessas matérias dc acordo com o que pensa que di/. Comentou com ele.I samente.VI. esse ainda é o sentido P correto do texto. [ Em 1616. 296-97.. Neste caso. Galileu foi avisado pelas autoridades da Ineja dc que devia parar dc sustentá-la como verdade. alguém P ouse insistir cm que. sc I argumentos convincentes mostrarem que é falsa. poderia ter escrito . | Em 1624. 52(1*2) James J. mesmo assim. o Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo.P ráo a Sagrada Escritura c o caminho da fé se fechará para P . o pe. fez outra viagem a Roma. se Galileu tivesse tratado as suas conclusões como hipóteses. Walsh. Caso contrário. cm particular. onde foi novamente recebido com grande entusiasmo e procurado por influentes cardeais desejosos de discutir com ele questões científicas. quando há diferentes maneiras dc cx[ plicar um texto da Escritura.em as Sagradas Escrituras. Também São | Tomás de Aquino advertiu sobre as conseqüências de sc querer sustentar uma determinada interpretação da Sagrada Escritura a respeito da qual tivessem surgido sérios motivos para pensar ] que não era correta: "Primeiro. Galileu concordou c prosseguiu com os seus trabalhos. depois dc ter ensinado pública c insistentemente o teoria copcrnicana. [' No entanto. clcs'' . nenhuma das interpretações I particulares deve ser sustentada com tanta rigidez que.percebendo | que o outro está tão afastado da realidade como o leste o está do oeste quase nào conseguisse conter o riso" 52. porque seria muito desonroso e prejudicial para a fé. seja ouvido por um não-crcntc a dizer tais tolices que esse não-crcnte . que Galileu publicou cm 1632 c fora escrito a pedido do papa.

pouco posterior ao processo.. particularmente os seus Discursos e demonstrações matemáticas em torno de duas novas ciências (1635). ). Dc qualquer modo. muitos deles jesuí ou membros de outras Ordens religiosas. Joseph MacDonnell. no entanto. R S. 1961. Em 1642. Continuou a produzir outras obras. 6-7). Baldigiai». S. em 1675. a condenação dc Galileu. Mengoli declarou que as interpreta ções da Escritura só podem obrigar os católicos se forem aprovadas em um concilio geral. excluiu das discussões acadêmicas qualquer menção ao movimento da terra. cd. É importante.. Para sua infelicidade. porém. em 1651. criou embaraços à Igreja c qualquer coisa que quisesse (cfr. continuaram a fazer as suas pesquisas sem nenhum tipo de entraves. cuidando apenas dc tratar como hipótese o movimento da terra. como aliás já o tinha recomendado o decreto da Santa Sé dc 1616. mesmo que enquadrada no seu contexto. Heilbron: "Os contemporâneos bem informados foram da opinião de que a alusão à heresia no caso dc Galileu ou Copérni" nâo linha nenhum alcance geral ou teológico. cm 1633 o astrônomo foi declarado suspeito de heresia c proibido de publicar escritos sobre o tema. c por isso os historiadores especulam que se tratava apenas dc um reforço da censura original c era "dirigido a Galileu Galilci pessoalmente". Apêndice I. cientistas como o pe. I7I/-I787.. não exagerar o que aconteceu. F. cm Lancclot Law Whytc. "The Conlribution of Boscovich lo Astronomy and Geodcsv". 175. . nào aos cientistas católicos como um todo54. não teve a categoria de um artigo de fé. Gassendi observou que a decisão dos cardeais. Riccioli afirmou que o helioccntrismo não era uma heresia.. Fordham University Press. Rogério Boscovich continuaram a usar nas suas obras a idéia de uma terra em movimento. New York. tão distante da colocação exagerada e sensacionalista da mídia. Jesuil Ceomelers. aliás ainda melhores e mais Importantes. Roger Joseph Boscovich. Mas essa censura insensata manchou por muito tempo a reputa" da Igreja. 54 Zdcnek Kopal. acrescentou que não havia ninguém que nào soubesse disO certo é que os cientistas católicos. c em 1678.L.VI. pág. embora importante para os fiéis. Um decreto dc 1633. Co explica J.

a trajetória infalível das estrelas. é unicamente porque Ele existe de eternidade em eternidade (Sir 42. as idéias cristãs contribuíram para torná-lo possível. por exemplo. cujos profundos conhecimentos ajudaram a dar ao catolicismo c á Escolástica o seu devido valor em relação ao desenvolvimento da ciência ocidental. Muitos dos seus livros anteciparam a provocativa afirmação dc que.com doutorados cm teologia c em física e prêmios internacionais -. Infelizmente. . o verdadeiro papel da Igreja no desenvolvimento da ciência moderna continua a ser uma espécie de segredo para o público em geral. quando. Por isso. a harmonia dos planetas. por extensão. o movimento das forças da natureza segundo ordenamentos fixos -. Essa ordem é evidente em tudo o que nos cerca. "A regularidade das estações. QUANTIDADE E PESO" A partir da obra dc Pierre Duhcm. "O mundo. . Aliás. muito pouco desse trabalho acadêmico tem penetrado na consciência popular. a criação . os historiadores da ciência tendem cada vez mais a desta car o papel crucial da Igreja no desenvolvimento da ciência. o padrão médio de vida se elevou 14. É isso mesmo que diz Jeremias quando cila a recorrente fidelidade das colheitas como prova da bondade de Deus. tudo isso sào resultados do Único cm quem sc pode confiar incondicionalmente". DEUS "DISPÔS TODAS AS COISAS COM MEDIDA. longe dc obstruírem o progresso da ciência. Ao longo de toda a Bíblia.como uma realidade racional e ordenada. como também depois . 21). está dotado dc ordem e propósito".escreve Jaki. a maior parte das pessoas. O pe. a regularidade dos fenômenos naturais é descrita como reflexo da bondade. Stanley Jaki é um historiador da ciência . Do mesmo modo.VI. se Deus "impôs uma ordem às magníficas obras da sua sabedoria".c. deu origem ao mito de que ela seria hostil à ciência'7. e quando traça o paralelo "entre o amor sem falhas dc Yavé c a ordem eterna pela qual estabelece o curso das estrelas c das marés"". ainda acredita que a Revolução Industrial reduziu drasticamente o padrão de vida dos trabalhadores. condensando o testemunho do Antigo Testamento . beleza e ordem de Deus. na realidade.concebe Deus . nos comcços do século XX. Jaki dá grande importância ao falo de que a tradição cristã desde a sua pré-história no Antigo Testamento e através de toda a Idade Média. essas falsas imagens populares não são incomuns.como obra artesanal que é dc uma Pessoa sumamente racional.

a hindu e a maia . a investir em pesquisas quantitativas como caminho para entender o universo.e conclui que em iodas elas a ciência sofreu um "aborto espontâneo". . 56 A única exccçâo. Em Science and Creation. e a maometana (árabe).tory of Science 15 (1982). dentre as sele mencionadas. que o mal passasse a ver bem. Uma das teses centrais dc Jaki é a de que nào foi uma coincidência que o nascimento da ciência.). a chinesa. A razão disso é que. Jaki examina à luz dessa tese sete grandes culturas . morte c renascimento. 7. Uma vez que l. onde sc diz que Deus dispôs todas as coisas com medida.VI. -. tivesse ocorrido cm um meio católico. que concebe um Deus único. não apenas deu suporte aos cristãos que defenderam a racionalidade do universo nos fins da Antigüidade.a árabe. essas culturas conceberam o universo de modo panlcista. Certas idéias cristàs fundamentais . British Journal for lhe His. de acordo com Jaki. nos começos da ciência moderna. As culturas nãocristâsj nào possuíam as mesmas ferramentas filosóficas e.sugere ele . como um gigantesco organismo dominado por um panteão de divindades e destinado a um ciclo sem fim dc nascimento.determinar que o que era verdade até entáo deixasse de sé-lo. como um campo dc esforço intelectual permanente.escapou a civilizações inteiras. o animismo. do E. Isto pode parecer tão óbvio que desperte pouco interesse. tinham estruturas conceituais que dificultavam o desenvolvimento da ciência. Por sua vez. como também incentivou os cristãos que viveram um milênio mais tarde. que caracterizou as culturas mais 55 David Lindberg cita diversas ocasiões cm que Santo Agostinho sc refere a esse versículo: ver David C. Mas a idéia de um universo racional c ordenado . quantidade e peso55. pelo con-' trário. a babilônica.enormemente fecunda c na realidade indispensável para o progresso 1 da ciência .foram indispensáveis ao surgimento do pensamento cientifico. a egípcia. náo faria sentido tentar averiguá-las (N. mas táo soberanamente livre que nâo se submetei ia nem mesmo às leis da racionalidade que Ele mesmo criou. a grega. Isso tornou impossível o desenvolvimento da ciência56. Esse versículo.le poderia mudar a todo o momento as "regras do jogo" da Criaçáo . etc. Lindberg. 20). "On lhe Applicability oi Mathcma* ties to Nature: Roger Bacon and his Prcdcccssors". por carecerem da crença em um Criador transcendente que dotou a sua criação de leis físicas consistcnics. Jaki chama a nossa atenção para o livro da Sabedoria (II.

coligindo dados astronômicos c desenvolvendo os rudimentos da álgebra. técnica. segundo padrões fixos que era possível averiguar. Virgínia. "o universo era o monogenes ou o «uni. é significativo que. dc prevenir o caos cósmico. engenharia ou. Os babilônios pensavam que a ordem natural era tão fundamentalmente incerta que somente uma cerimônia anual dc cxpiação seria capaz. É por isso que. 35. dentro da visão gre. 1991. sc pôde afirmar que "as primeiras inovações tecnológicas grcco-romanas. para o cristianismo o divino repousa estritamente cm Cristo c na Santíssima Trindade. ou seja. conhecimento"". muito pelo contrário. cxclui-sc assim qualquer tipo de imanentismo ou panteísmo. cm outra obra recente sobre este assunto. pelo seu ambiente espiritual c filosófico. A cosmogonia babilônica era sumamente inadequada ao desenvolvimento da ciência e. habilidade.o "unigênilo" . dificilmente sc poderia esperar que dirigisse esses dons práticos para o desenvolvimento dc alguma coisa que merecesse a sério o nome dc ciência 57. primitivas. chegava a desencorajá-la positivamente. Por contraste. tradição. .Filho de Deus. Creation and Scieniiftc Creativitv. Jaki não nega que essas culturas tenham alcançado notáveis feitos tecnológicos. da China Imperial.co-romana do mundo. Cristo é o mono. do Islã. Aqui temos uma civilização que sc destacou pela observação do céu. mas da qual. Froni Roval. emanação de um princípio divino que não seria realmente distinto desse mesmo universo"". pág. na 57. sem mencionar as realizações dos tempos pré-históricos. A doutrina cristã da Encamação opõe-se firmemente tanto a um como ao outro desses modos de pensar.Paul llafíner.genes .VI. tecnologia. A antiga Babilônia é um exemplo ilustrativo. não constituem ciência c podem ser descritas mais adequadamente como artesanato. mas mostra que não vemos surgir dai nenhum tipo de pesquisa cientifica formal e sustentável.uma idéia que impedia dc pensar que cias pudessem ter um comportamento ditado por leis. impediu o crescimento da ciência por imaginar que as coisas criadas possuíam mente e vontade próprias .gênito». treinamento. Chrislcndom Press. mais ainda. c não se impede os cristãos. que transcende o mundo. simplesmente. Sc. de enxergarem o universo como um reino de ordem c previsibilidade -. cm ultima análise como o domínio próprio da ciência. savoirfaire.

esfera da lua. embora tenham acabado por ficar muito aquém. for lhe Glory of God. 58 Ibid. etc. 1954. Os intelectuais chineses.prossegue -. que deu passos enormes na aplicação da razão humana ao estudo de diversas disciplinas. 151. .VI. pois a observação procede de um ideólogo que teria preferido encontrar explicações econômicas ou materialistas . Segundo ele. mas. a culpa foi da estrutura religiosa c filosófica cm que os pensadores chineses sc moviam. Cambridgc Univcrsilv Pre». 50. E acrescenta . mais exatamente. que não havia uma ordem estabelecida por um ser racional e pessoal. os gregos foram os que chegaram mais perto dc desenvolver uma ciência de tipo moderno. vol I. cm Rodncv Stark. 581: cil. com efeito. eram incapazes dc aceitar a idéia de umas leis da natureza. pág. foi um historiador marxista. pág. criação cristã. Aristóteles explicava o movimento circular dos corpos celestes pela "afeição" que os "primeiros motores" dc cada esfera celeste .para nossa surpresa. tal como é descrita no Gênesis. Joscph Ncedham. Particularmente desafiador é o caso da antiga Grécia. por exemplo. teriam desprezado essa idéia como ingênua demais para a sutileza e complexidade do universo. não existia a convicção dc que uns seres racionais pessoais lossem capazes dc transpor para as suas linguagens terrenas inferiores o divino código de leis decretado antes de todos os tempos. tal como o intuíam"59. no que diz respeito ao progresso da ciência. Cambridgc. Science and Cvilization in China. para os chineses. Os taoistas. Fatores culturais similares tenderam a inibir a ciência na China. Jaki sustenta que. afirma.que essa incapacidade resultou de "nunca se ter desenvolvido a concepção de um divino legislador celestial que tivesse imposto ordem à natureza fi"Não é que. Curiosamente. De todas as culturas antigas analisadas |x>r Jaki. pág. Os gregos atribuíam um propósito aos agentes imateriais do cosmos material (assim. coube aos escolásticos da idade Média levar a cabo uma autêntica despersonalizaçâo da natureza. esfera do sol. . 59 Joscph Nccdham. não houvesse ordem na natureza .teriam por esse tipo dc movimento). quem chegou realmente ao fundo desse malogro. o caos esteja completamente sujeito à soberania dc Deus58.. por isso.

sempre aceitou que a natureza opera de acordo com padrões fixos c inteligíveis. c podemos confiar em que sc manterá coerentePor volta dos séculos XIII e XIV. de traduções dos clássicos da antiga Grécia (Hipócratcs e Aristóteles. No entanto. Mi chigan. mais do que por causa dele. só faz sentido falar em milagre cm contraste com o pano dc fundo dc um mundo naturalmente ordenado. no século XII. Foi na realidade São Tomás de Aquino quem encontrou o ponto dc equilíbrio entre a liberdade que Deus tem de criar 60 Stanlcv L. c poderiam ser modificadas a qualquer momento2*. mas. The Savior of Science. pelo contrário. via de regra. mas a própria idéia de milagre já sugere que sc trata dc algo incomum. Jaki. por isso mesmo obrigou-se a seguir determinado comportamento. particularmente no campo da medicina c no da ótica. i O catolicismo admite a possibilidade dc milagres e reconhece o papel do sobrenatural. É sem dúvida inegável que uma parte importante da história intelectual do Ocidente se deve à difusão por todo o mundo ocidental. Grand Rapids. aliás. porque a absoluta autonomia dc Alá não podia ser cerceada pelas leis naturais60. Os estudiosos muçulmanos ortodoxos rejeitaram totalmente qualquer concepção do universo que envolvesse leis físicas estáveis. por assim dizer. o pensamento cristão dava por ccrta a ordem fundamental do universo. As leis naturais aparentes não passariam de meros "hábitos". essa distinção tinha criado raízes profundasw. sobretudo) feitas por estudiosos árabes. Grande parte da atenção acadêmica mais rcccntc tem-se concentrado sobre as contribuições dos estudiosos muçulmanos à ciência. uma vez que Deus nos quis revelar algo sobre a sua natureza. dc Alá. Dc acordo com cie. a linha principal do pensamento cristão nunca retratou Deus como fundamentalmente arbitrário. 2000. Isto é o que Santo Anselmo quis dizer quando falou da distinção entre o poder ordenado de Deus {potentia ordinala) c o seu poder absoluto (potentia absoluta). Eerdmans. págv 77-78 . a verdade é que essas contribuições dos cientistas muçulmanos se deram apesar do Islã. sobre a ordem moral c sobre os seus planos dc redenção. é verdade que um Guilherme de Ockham enfatizou a potentia absoluta dc Deus cm um grau tão elevado que não ajudava em nada ao desenvolvimento da ciência. Mais ainda.VI.

Chegou a essa conclusão por uma simples indução.girita coligissc muitos dados empíricos ao longo das suas pesquisas. previsível c inteligívelu. é por meio da experiência . persistiu na crença dc que a filosofia natural podia ba.ingrcdicntechavc do método científico . ora. desfere um golpe extremamente importante contra os argumentos a priori acerca de como o universo "tinha dc" ser assim ou assado ou de como "era conveniente" que fosse deste ou daquele jeito.sear-se unicamente no trabalho da razão. que um objeto duas vezes mais pesado que outro cairia duas vezes mais depressa. Esta abordagem evita dois possíveis erros. sc ambos fossem lançados da mesma altura. encontrou um apoio cm . qualquer tipo de universo que deseje e a sua coerência no go verno do universo que efetivamente criou. "foi somente dentro dessa matriz conceituai que a ciência pôde nascer efetivamente c depois crescer dc maneira sustentada" Esta posição. Com isso.cd-lo porque é racional. isso seria incoerente com a ordem e a racionalidade do seu comportamento. Em primeiro lugar. Como afirmou um estudioso. o universo eterno era um universo necessário. previne contra as especulações sobre o universo físico divorciadas da experiência em que os antigos caíam freqüentemente. mas ela não é verdadeira. a visão católica tomista considerava importante saber que universo Deus criou a fim de evitar clucubraçõcs abstratas sobre que universo deveria ter criado. Para ele. Aristóteles sustentava. deu aos modernos cientistas a confiança filosófica necessária para se dedicarem aos estudos científicos. Ainda que o esta. e os seus princípios físicos poderiam ser alcançados por meio dc um processo intelectual desvinculado da experiência Em segundo lugar. Como explica Jaki. E podemos chegar a conhe. como qualquer um de nós pode comprovar facilmente. pois. desligada da pesquisa estritamente empírica.VI. surpreendentemente. cm primeiro lugar. embora Ele tenha cm tese o po der dc instaurar o caos cm um mundo físico sem leis. A completa liberdade criadora dc Deus significa que o universo não tinha de ser de um certo jeito. por exemplo. implica que o universo criado por Deus é inteligível e ordenado. Foi precisamente este sentido de racionalidade c previsibilidade do mundo físico o que.que chegamos a conhecer a natureza do universo que Deus decidiu criar.

Segundo ele..]. Era particularmente difícil para Aristóteles encontrar uma explicação para o movimento dos projeteis. cap. a terra. Marvland. Genealogta da Moral.. aos projéteis e ao impulso. tendia por natureza a mover-se para algum ponto acima de nós.cal Importancc of a Theory of Impctus". um significado. Brian Bcncstad. pág. Frcc Press. ed. em J. e foi o que Aristóteles tentou fazer. também pode ser aplicada ao modo como os estudiosos ocidentais resolveram importantes questões relativas ao movimento.três dos quatro elementos que. Quando um objeto que era largado de uma árvore se precipitava no chão. Continua hoje a ser uma fé metafísica o que sustenta a nossa fé na ciência"61. ver Hcrbcrt Butterfield. vol. da região "abaixo da lua")62. Para os antigos gregos. pelo chão). ISOO-1800. Rowman & Littlcficld.. é claro.tions ou Religion and Politcs. O itálico é do original dc Nictzschc. conforme sc dizia. uma «fé». Por isso. um direito de existir [. Aristóteles falava de dois movimentos: o natural e o violento. 3: Hwnan Rights.VI.]. A sua teoria parecia suge61 Cit. Virtue and lhe Common Good: Untimelv Medita. esse movimento devia-se à sua natureza. O exemplo de movimento natural era o das chamas que sc elevam c o das pedras que cacm. um método. um limite. Science and lhe Environmcni". que o fazia buscar o centro da terra (no que seria impedido.. I: "The Histori. de que foi a teologia cristã que sustentou a aventura científica no Ocidente. um dos maiores críticos do cristianismo do século XIX. 62 Sobre todo este tema. a água c o ar . compunham o mundo terrestre . O exemplo clássico de movimento violento era o dos projéteis. Sempre tem de vir em primeiro lugar uma filosofia. Unham. Emest Fortin: Colected Essays. o estado natural de todos os corpos era o repouso. o movimento pedia uma explicação. ainda que dentro dos limites da região sublunar (isto é. rcv. Nc\v York. O PROBLEMA DO MOMENTO INERCIAL A tese de Jaki. Quanto ao fogo. cd. 23-24. casos cm que o objeto em movimento procurava o seu lugar natural de repouso. The Origins of Modem Science. III. "Estritamente lalando . pois contraria a sua tendência natural para o ccntro da terra.afirma ele -. ...tendiam naturalmente para o centro da terra. para que a partir dela a ciência possa adquirir uma direção. 1996. cm Ernest L Fortin. Fricdcrich Nietzschc. "The Bible Made Mc Do It: Christianitv. 1957. não existe uma ciência «sem nenhum tipo de pressupostos» [. 122.

foi um profundo avanço teórico".pois esta é a sua natureza e só continuaria a subir se estivesse sendo empurrado por alguma for ça externa. puderam começar a mover-se c permanecer cm movimento na ausência de uma força que os continuasse a propelir. . Buridan rejeitava a idéia aristotélica de que o universo é eterno por si mesmo: cm vez disso.nc no século XIV. então o movimento celeste. cuja eternidade Aristóteles também havia sustentado. na época medieval. portanto. então o movimento planetário também tinha dc ter começado em um dado momento do tempo. E sc o universo nào era eterno. A sua resposta foi que Deus. Mas os estudiosos modernos observaram que essa idéia do movimento inercial já teve precedentes muito antes de Newton. se os planetas tinham começado a existir em um dado momento do tempo. O que Buridan procurou descobrir foi de que modo os corpos celestes. cm um momento determinado. Incapaz de resolver o impasse. Isaac Newton descreveria esse conceito na sua primeira lei do movimento. sacerdote e professor da Sorbon. 1295-1358). era porque havia no seu percurso uma espécie de vibrações que o empurravam. tinha que ser concebido dc outra maneira. segundo a qual os corpos em repouso tendem a permanecer em repouso e os corpos em movimento tendem a permanecer em movimento. quando o projétil voava pelo ar. No século XVII1. Em outras palavras. movendo-se no espaço exterior. Particularmente importante neste sentido foi o trabalho de Jean Buridan (ca. Aqui estão contidas em germe as idéias dc momento físico c dc inércia '*. uma vez criados. Como qualquer católico. Embora não tenha chegado a livrar-se inteiramente dos limites da física aristotéiica c a sua concepção dc momento permanecesse embaraçada cm alguns equívocos da Antigüidade. lhes havia conferido o movimento. Aristóteles sugeriu que. sustentava que o universo fora criado por Deus a partir do nada. e que esse movimento nunca se havia dissipado porque os corpos celestes. rir que o projétil deveria cair ao chão no instante cm que deixasse a mão da pessoa . Um elemento essencial da transição da física antiga para a moderna foi a introdução do conceito de inércia: a resistência de um objeto a alterar o seu estado dc movimento. não encontravam atrito e. após ter criado os corpos celestes.VI. não sofriam nenhuma força contrária que pudesse diminuir a sua velocidade ou interromper o seu movimento.

Como explicou Jaki. É importante ter em mente o contexto teológico c religioso cm que Buridan chegou a essa conclusão. págs. and . que tendiam 63 Stanley L. Jaki. Outro aspecto importante é que o conceito de momento inercial de Buridan era uma tentativa dc descrever o movimento. mas também nào cita as fontes: é bastante provável que a tenha aprendido na Universidade de Cracóvia. leve um profundo efeito sobre a ciência ocidental c culminou na primeira lei de Newton. "Medieval Crialivily in Science Technology". 76-77. essa percepção decisiva. mas «cristã»"*.. Isaac Newton. 64 Ibid. sem começo nem fim. J Seja como for. por serem pagãs. Desde a Antigüidade. todas essas culturas. As culturas não-ocidcntais. Os sucessores dc Buridan nào sc destacaram especialmente pelo seu empenho cm reconhecer as suas dividas intelectuais. em tomo da qual havia "um consenso bastante generalizado na Idade Média cristã. pág. Descartes não revelou a dívida para com a teoria medieval do momento física. resultado direto da fé católica dc Buridan. por exemplo. tinha-se por certo que as leis que governam o movimento cclcstc eram fundamentalmente diferentes daquelas que governam o movimento terrestre. Do mesmo modo.de-se dizer que a ciência nào é propriamente «ocidental». "Na medida cm que a ciência é um estudo quantitativo dos objetos cm mo vimento. essencial para as suas teorias63. cm Paliems or Principiei and Olher Essays. podemos sem dúvida falar dc uma origem fundamentalmente medieval da ciência moderna"41.VI. 76. E acrescenta: "Uma vez que esse consenso amplo se apóia no credo ou na teologia. e a primeira lei de Newton foi a base dc inúmeras outras leis . ao passo que a crença na criação ex mhilo . por meio de um sistema mecânico único4'. tanto na terra como nos céus.conclui Jaki -. quando já mais velho dedicou um tempo considerável a apagar o nome dc Descartes dos seus cadernos dc notas. já que foi pela inexistência desse contexto que as grandes culturas antigas não chegaram à idéia do momento incrcial. agarravam-se à crença dc que o universo c os seus movimentos eram eternos. po. tornou quase natural que surgisse no seu seio a idéia do movimento incrcial"1*. Copérnico menciona a teoria do momento na sua obra. onde facilmente podia obter cópias manuscritas dos comentários de Buridan e do seu continuador Nicolau dc Oresme64.

para o panteísmo ou encaravam os corpos celestes como algo dc ccrto modo divino. associados ou influenciados por Chartres*4. Pelo seu próprio exemplo. representa outro capítulo importante na história intelectual do Ocidente c na história da ciência ocidental. c mantinha contacto com o ensino dos muçulmanos da Espanha.VI. cada uma delas representada por um antigo mestre: Aristóteles. Podcm-sc captar na fachada oeste da catedral dc Chartrcs alguns traços da orientação da sua Escola: ali sc vêem personificadas cm esculturas as sete tradicionais artes liberais. Euclidcs. Criada dentro dessa preocupação. Mas Buridan já havia pavimentado a estrada. uma instituição de ensino que alcançou a sua plena maturidade no século XII. sob a direção de Fulberto (7-1028). Desde o século VIII. Quase todos os que contribuíram substancialmente para o desenvolvimento da ciência nesse período estiveram. A ESCOLA CATEDRAL DE CHARTRES A escola da catedral de Chames. Donato (ou talvez Prisciano). brilhante luminária dc fins do século X. Cícero. Ptolomcu . matemática c astronomia. Estava familiarizado com os mais recentes progressos em lógica. Além de ser um médico competente. cm um momento ou em outro. Era um fino exemplo de erudito católico: qualquer pensamento de menosprezo pelas ciências seculares ou pelas obras dos antigos pagáos estava muito longe da sua mentalidade. tanto terrestre como cclcstc. também compôs vários hinos. Foi somente com Newton que sc demonstrou finalmente que um conjunto simples de leis podia explicar todo o movimento do universo. a escola dc Chartrcs deu passos importantes para a excelência no século XI. Boécio. que havia sido aluno dc Gerberto de Aurillac. também pressupunham que os movimentos desses corpos celestes deviam ser explicados dc maneira diferente do movimento terrestre. Fulberto transmitia um espírito dc curiosidade intelectual c versatilidade. a Igreja empenhava-se cm que toda a catedral tivesse anexa uma escola dc ensino médio. o futuro papa Silvestre II.

Segundo Adelardo de Bath (cerca de 1080-1142). Dnvid C. 1961. porque tudo o que existe provém dElc [. l. no dizer de um estudioso moderno.indbcrg. 71 c 74. págs. New York. que encarava a natureza como algo autônomo.VI. 200. música c astronomia . pág.. Assim. Mas devemos dar ouvidos aos verdadeiros horizontes do conhecimento humano. E o irivium .permitia que as pessoas exprimissem dc modo convincente c inteligível essa ação da sabedoria divina.. retórica c lógica . As suas convicções religiosas enchiam-no de zelo pelas artes liberais. Da Capo Press. as artes liberais "revelaram ao homem o seu lugar no universo c ensinaram-no a apreciar a beleza do mundo criado"66. "é pela razão que somos homens. . geometria. Univcrsitv of Wisconsm Press.]. 1995 [1980]. para só explicar as coisas por meio dc Deus depois que o 65 Thomas Goldstcin.convidavam os estudantes a contemplar os padrões segundo os quais Deus ordenou o mundo c a apreciar a bela arte da obra divina. Thicrry converteu Chartres na mais procurada escola dessas vcncrávcis disciplinas. in Marshall Clagelt. que opera de acordo com leis fixas e disccmívcis pela razão. e talvez tenha sido nisto que Chartres deu a sua contribuição mais significativa: os que participavam dessa escola estavam ansiosos por desenvolver explicações baseadas em causas naturais67. as disciplinas do quadrivium aritmética. Gaines Post. 77i«? Beginnings of Western Science. 67 Cfr. Uma das características centrais da filosofia natural do século XII é. "The School oí Chartres*. na década dc 1140. Por último. que era o chanceler da escola naquela época. Homem profundamente dedicado ao estudo das artes liberais. A construção dessa fachada foi supervisionada. assim como para a grande maioria dos intelectuais da Idade Média. eds. mereceríamos sem dúvida ser expulsos dele. por Thicrry de Chartres (tl050?). and Rolxrrt Reynolds. sc virássemos as costas para a surpreendente beleza racional do universo cm que vivemos. como um hóspede que se comporta mal na casa em que foi recebido" 45. Twelfih Ceniury Etirope and lhe Foun■ dulions of Modem Society. Dawn of Modem Science: From lhe Anciem Greeks lo lhe Renaissance. págv 9-10. Madison. Para ele..gramática. 66 Raytnond Klibansky. um estudante de Chartres. como vimos. li conclui: "Não pretendo tirar nada de Deus. c Pitágoras65.

[. Mas a natureza da qual dotou as suas criaturas leva a cabo todo um plano dc operações. Rejeitaram a idéia dc que a investigação racional das causas poderia supor uma afronta a Deus ou que eqüivaleria a subordinar a ação divina aos limites das leis naturais que fossem descobertas. 82. de acordo com a perspectiva acima descrita. pág. nor- 68 Cil. Essas pessoas. sem necessidade dc recorrer a explicações sobrenaturais. Guilherme olhava com escárnio c desdém todos aqueles que menosprezassem a pesquisa científica: "Como eles próprios ignoram as forças naturais e desejam ter todos os homens por companheiros da sua ignorância. . mas ao mesmo tempo afirmavam que. Dawn of Modem Science. 70 David C. Naturalmente. O que significa dizer que a estrutura da natureza que Deus criou basta normalmente para justificar os fenômenos que observamos. Guilherme de Conques (cerca dc 1090-após 1154) concordava com ele: "Não considero que haja nada à margem dc Deus . 69 Thomas Goldstcin. afirmamos que sc deve procurar a causa de todas as coisas [. God and Reason in the Middle Ages. c essas também sc dirigem à sua glória... Deus podia certamente ter criado qualquer espécie dc universo que desejasse. o que esses pensadores fizeram foi precisamente manter a harmonia entre os dois aspectos.. não querem que ninguém as investigue.] sc têm noticia dc alguém que pesquise. pág. excetuado o mal. The Beginnings of Western Science. porém.escreve Ele é o autor de todas as coisas. Lindberg. Nós. permitiu que operasse de acordo com a sua natureza e. e não perguntemos pelas causas [naturaisj das coisas.. posições como essas levantavam suspeitas: poderiam esses filósofos católicos manter o seu compromisso de pesquisar a natureza em termos de causas secundárias e como realidade racional por essência. sem eliminar completamente o sobrenatural e o miraculoso? No entanto. conhecimento racional tiver fracassado"68.VI. proclamam-no herege"70. mas preferem que acreditemos como sc fôssemos camponeses.]. Esses pensadores reconheciam que. em Edward Grani. já que foi Ele quem criou essa mesma natureza"69. tendo criado este cm concreto. 200. pelo contrário.

VI. um punhado de homens empenhou-se conscicnciosamcntc cm lançar as bases do progresso da ciência ocidental c deu todos os principais passos necessários para atingi-lo"71. Dawn of Modem Science. Muitos textos gregos inacessíveis durante séculos aos europeus. tomados em conjunto. descreve a importância fundamental da Escola dc Chartres: "Formularam as premissas filosóficas. Descreveu as estrelas c o firmamento como compostos de água e ar. À medida que os conquistadores muçulmanos começaram a recuar na Espanha c foram derrotados na Sicília. cm um período de quinze ou vinte anos. por volta de meados do século XII. Pelo contrário. e que tinham sido vertidos para o árabe na esteira das conquistas muçulmanas 71 Thomas Goldstcin. mais do que dc uma substância semi-divina cujo comportamento devesse ser explicado segundo princípios fundamentalmente diferentes dos que governam as coisas da terra".. importantes centros de ensino árabes caíram nas mãos dos cristãos. . Essa conccpçào foi crucial para o desenvolvimento da ciência. 72 Ibid. 77. Thomas Goldstcin. um historiador moderno da ciência. malmente. porque todas estão sujeitas a mudanças e podem perecer". Goldstcin prognostica que. definiram o conceito básico do cosmos a partir do qual viriam a desenvolver-se todas as ciências particulares posteriores. Na sua discussão sobre a descrição bíblica da criação. não sujeita às leis terrestres. pág. nào interferiria na sua estrutura básica". Thicrry dc Chartres nào admitia nenhuma proposição que implicasse que os corpos celestes tivessem algo de divino ou fossem compostos dc uma matéria imperecível. Cada um desses passos parece tão crucial que. explicou que todas as coisas "têm a Deus como criador. no futuro "Thicrry será provavelmente reconhecido como um dos verdadeiros fundadores da ciência ocidental"72. reconstruíram sistematicamente o conhecimento cicntífico do passado c lançaram assim uma sólida base tradicional para a futura evolução da ciência ocidental. O século em que a escola dc Chartres mais sc distinguiu foi uma época dc grande animação intelectual. ou ainda que o universo fosse cm si mesmo um grande organismo. só podem significar uma coisa: que. 82. pág.

New York. Na Itália. foram agora recuperados c traduzidos para o latim. a Criação derasc a partir do nada. Esses textos vieram a mostrar que havia sérias contradições entre as verdades da fé c o melhor da filosofia antiga. que a transcendia?73 73 Sobre. graças às relações com Bizâncio estabelecidas pelas Cruzadas. Pois bem. o Do céu e do mundo c o Da geração e da corrupção. como a da eternidade do mundo. Charles Scribners Sons. Acreditavam que as afirmações de Aristóteles. ao passo que a Igreja ensinava que Deus havia criado o mundo cm um momento determinado do tempo. conforme fossem consideradas do ponto de vista da religião ou da filosofia.os averroístas latinos. Na verdade. Aristóteles tinha proposto um universo eterno.o poder criador de Deus. porem. Um grupo de estudiosos conhecidos como "averroístas latinos" . de modo impreciso. . E havia ainda outras afirmações problemáticas no corpus aristotélico que precisariam ser enfrentadas. como filósofos. págs. ver Étiennc Gilson. como a doutrina da dupla verdade: uma afirmação falsa em teologia podia ser verdadeira cm filosofia. e vicc-vcrsa. 1938. o que eles ensinavam era mais sutil. Argumentavam que. Além disso. incluindo a Física. mas. sc as conclusões a que chegassem contradissessem a revelação. entre essas obras recuperadas estavam os livros-chavc da física de Aristóteles. eram o resultado indiscutível de um raciocínio correto.abordou a questão segundo uma ótica que tem sido freqüentemente descrita.VI. tinham de seguir os ditames da razão aonde quer que estes os conduzissem. então não podiam dc modo algum ser tomadas como verdadeiras em sentido absoluto.lion in lhe Middle Ages. Reason and Revela. as afirmações contraditórias que mencionamos (eternidade do mundo x Criação. Afinal. porque nada pode ser impossível a um Deus onipotente.como aqueles católicos do sécuIo XIII perceberam claramente .Avcrroes fora um dos mais famosos c respeitados comentadores muçulmanos de Aristóteles . já sc podiam fazer traduções latinas diretamente do original grego. o que era a débil razão humana em contraposição à onipotência de Deus. Assim. ao passo que Aristóteles negava a possibilidade do vácuo. e isso eqüivalia a negar . 54-66. vácuo x Criação do nada) poderiam ser ambas verdadeiras. da Síria c dc Alexandria no Egito. e que nâo se podia encontrar nenhuma falha no processo lógico que conduzia a elas.

nem a genialidade de São Tomás dissipou completamente as apreensões que os novos textos e as respostas dadas por alguns estudiosos suscitavam. Na sua famosa síntese. a sua influência chegou a ser sentida na longínqua Oxford. Cronibie c Edward Grant dão a entender é que as Condenações forçaram os pensadores a sair do confinarnento intelectual que os pressupostos aristotélicos lhes tinham imposto c a pensar o mundo físico em moldes novos. limitou-se simplesmente a pedir que se investigassem as causas de toda a agitação intelectual que vinha envolvendo os mestres de Paris (um estudioso afirma que "a aprovação pontifícia às ações do bispo de Paris foi menos que entusiástica"74). E foi nesse con. qualquer contradição aparente que sc observasse era sinal dc que havia erros na compreensão ou da religião ou da filosofia. No entanto. temia que a reação conservadora aos erros dos averroístas pudesse levar a um completo abandono do "Filósofo" (como cie se referia a Aristóteles). conclusõcs que se podiam tirar dos seus ensinamentos. o bispo de Paris editou uma série dc 219 proposições condenadas .que os professores da Universidade de Paris foram proibidos de ensinar: eram afirmações de Aristóteles ou. Dalcs.VI. todos concordam cm que forçou os pensadores a emancipar-se das restrições da ciência aristolélica e a considerar possibilidades que o grande filósofo 74 Richard C. Embora os estudiosos discordem sobre a influência do documento. que linha um profundo respeito por Aristóteles. pouco depois da morte de São Tomás.urope in lhe Middle Ages. em alguns casos. Mas esse documento de 1277 também teve um efeito positivo no desenvolvimento da ciência: Pierre Duhem.C. . Essa solução pareceu tão instável c cheia dc dificuldades aos "conservadores" daquela época como nos parece a nós. The Intellectual Ufe of Htofcrw F. Embora essas condenações sc aplicassem somente a Paris. inconciliáveis com a visão católica de Deus e do mundo.lexto que.conhecidas historicamente como as Condenações de 1277 . um dos grandes historiadores da ciência do século XX. 254. O papa não de sempenhou qualquer papel nessas condenações. foi ao ponto de sustentar que representou o começo da ciência moderna. c isso afastou completamente alguns pensadores católicos da filosofia. pág. demonstrou que a fé e a razão são complementares e não sc podem contradizer. O que ele c outros estudiosos mais recentes como A. São Tomás de Aquino.

213 e scgs. a grande maioria dos pensadores cristãos tinha-a adotado e concebia as esferas planetárias como propelidas por substâncias intelectuais de algum tipo. "parecem ter promovido definitivamente um modo mais livre e imaginativo de fazer ciência"76. Instiltilional. 546..mal Contexts. Isso abriu novas e entusiasmantes possibilidades científicas. 35-36. págs. A condenação dessa afirmação foi dc grande importância. concrctamcnte da proposição aristotélica dc que "os movimentos do céu resultam dc uma alma inteleetiva" 77. .isto é. Por certo. o pensamento cristão . Isso ficou muito claro no caso dc outra condenação. 1996. podia criar um vácuo. c os pensadores da Idade Média o seguiam habitualmente nesse ponto. a possibilidade do vácuo. pág. 78-83 e 147. uma vez que negou que os corpos celestes possuíssem alma c fossem de alguma maneira seres vivos . God and Iteason in lhe Middle Ages. Deste modo.VI. págs. vol. 77 Ibid. 75 Concordam com essa argumentação A. Essa condcnação catalisou novas abordagens sobre a questão central do comportamento dos corpos celestes. Lindberg. Crombic. 2. c vol. Medieval and Earl\ Modem Science. The Foundations of Moílem Science in lhe Middle Ages: Their RCIÍRÍOKS. Jean Buridan. Cambridgc Univcrsitv Press. págs. Embora possamos encontrar Padres da Igreja que condenavam essa idéia como incompatível com a fé. Vejamos um exemplo.uma crença cosmológica que prevalecia desde a Antigüidade. 76 Richard C. depois das Condenações passou-se a exigir que os estudiosos admitissem que Deus todo-poderoso podia realmente criar o vácuo. pág. I. "The Dc-Animation of lhe Hcavcns in lhe MiddJe Ages".C. and Intellec. The Beginnings of Western Science. é mais cético.ainda que.agora mostravam-se intrigados c envolveram-se em um importante debate científico. alguns estudiosos que até cntào pareciam admitir a possibilidade do vá cuo dc um modo meramente formal . geralmente estavam persuadidos de que na realidade não o fizera . portanto. Se Aristóteles negava. ainda que certamente admitissem que Deus fosse todo-poderoso c.. como vimos. David C. 64. Cambridgc. Edward Grant. segundo o historiador da ciência Richard Dalcs. pág. mas admite o ponto essencial. Dalcs. as Condenações.48. 238 c 365. argumentou que era notável a ausência dc cvidéncias escriturísticas a respeito dc tais inteligências c Nicolau dc Orcsmc avançou ainda mais no combate a essa idéia Já na época patrística. nunca imaginara75. 550. págs. seguindo as pegadas de Roberto Grossetestc. e 220-1: idem.

por si mesmos. como Louis Pastcur. . Escreve Dalcs: "Durante o século XII.rio dc Nisa. "Thc Condcmnation of 1277.VI. segundo Stanley Jaki.. isto é.mais do que poderia fazê-lo uma simples discussão teórica . 242-44. à remoção da idéia de que os corpos celestes pudessem. and Physical Thought in thc Late Middle Ages". Viator 10 (1979). inteligível às indagações da mente humana" 2. No entanto. que surgiram pensadores que concebiam conscicnciosamente o universo como uma entidade mecânica c.que o relacionamento entre a Igreja e a ciência foi de amizade mais do que de antagonismo e desconfiança. O SACERDOTE CIENTISTA É relativamente simples mostrar que a grande maioria dos cientistas. muito mais revelador é o número surpreendente de figuras da Igreja. na Europa latina. 78 Paul Haffncr. Mas foi mais tarde. Existem afirmações dispersas nesse sentido cm escritos dc santos como Agostinho. por extensão. foi católica.deu início à des-animação da natureza. apenas pelas suas implicações . God> Absoluto Power.. A insaciável curiosidade desses homens acerca do universo criado por Deus e a sua dedicação à pesquisa científica revelam . os aspectos do pensamento judeu. 41 79 Edward Grant. especialmente de sacerdotes. E.] todos os entes semi-divinos do reino da natureza"6*. Gregó. pág. "a natureza teve que ser des-animizada" para que a ciência pudesse nascer78. Basílio. Muito depois de as próprias Condenações já terem sido esquecidas. págs. Creation and Scienii/ic Creativity. estar vivos e dotados dc inteligência. quando os estudiosos começaram a aplicar-se de modo mais deliberado e consistente ao estudo da natureza. normalmente. durante todo o século XVII c o princípio da Revolução Científica. cuja obra científica foi muito extensa e significativa. a discussão provocada por essas afirmações anti-aristotélicas continuou a influenciar a história intelectual européia79. Jcrônimo e Joào Damasceno. ou que nào pudessem Funcionar sem algum tipo dc agente espiritual.-cristão que enfatizavam a idéia da criação a partir do nada c a distância entre Deus e o mundo tiveram o efeito de eliminar [.

que foi chanceler de Oxford c bispo de Lincoln. onde viria a ter entre os seus alunos ilustres ninguém menos do que São Tomás de Aquino. "Albcrtus Magnus. Wallacc. No seu Opus maius. Bacon escreveu sobre filosofia da ciência e enfatizou a importância da observação c dos ensaios. em 1241.. "Perito em todos os ramos da ciência". Em De Mineralibus. Alberto Magno registrou uma enorme quantidade de coisas sobre o mundo que o cercava. dez anos depois. Lecionou em vários mosteiros antes de assumir uma cátedra na Universidade dc Paris. pág. diz o Dictionary of Scientific Bio. no seu Opus tertium. cm DSH.VI. Merecem ser mencionadas diversas figuras importantes do século XIII. Rcnomado naturalista. ou seja. "foi um dos mais famosos precursores da ciência mol derna na Idade Média". adverte que "o argumento mais forte nào prova nada enquanto as conclusões nào forem verificadas pela expeSanto Alberto Magno (1200-1280) foi educado em Pádua c depois ingressou na ordem dominicana. A sua insistência na observação direta c a sua recusa em aceitar a autoridade científica da fé foram contributos essenciais para a estruturação científica da mente. Um argumento prova teoricamente. Tal como Roger Bacon. Roberto Grosseteste (1168-1253).1 graphy. Do mesmo modo. metafísica. nem a mente repousará na visão clara da verdade se não a encontrar pela ria do experimento". abrangiam física. mas investigar as causas que agem por si mesmas na natureza" 6". Roger Bacon. Canonizado pelo papa Pio XI cm 1931. biologia. foi admirado pelo seu trabalho no campo da matemá. de uma prodigiosa vastidão.. As suas obras. o que é narrado pelas pessoas. partilhou 80 William A. a maior diocese da Inglaterra. . psicologia c várias outras ciências profanas. e é considerado um precursor do moderno método cientifico. nada pode ser adequadamente conhecido. observou: "Sem experimentos. mas não dá a certeza necessária para remover toda a dúvida. sublinhava a importância da observação direta para a aquisição do conhecimento sobre o mundo físico. Pio XII nomeou-o. patrono de todos os que cultivam as ciências naturais80. um franciscano que lecionava em Oxford. OP. 99. tica c da ótica. lógica. Saim". explicou que o objetivo da ciência natural era "não simplesmente aceitar as afirmações dc outros.

Crombic sugeriu que o século XIII já possuía os rudimentos do método científico graças. Steno. Gozava dc excelente reputação e realizou um trabalho criativo em medicina. Nascido na Dinamarca. Considerado um dos homens mais cultos da Idade Média.VI. pág. Ashworth Jr. a figuras como Grosseteste. Tinha sido influenciado pela escola dc Chartres.C. apesar de nunca terem sido tirados da obscuridadc. Por isso. Cod and Natnre: Histórical Essays on lhe F. um luterano que sc converteu ao catolicismo c veio a tornar-se sacerdote. que os mal teses extraíam da terra. é conhecido como o primeiro homem a deixar por escrito o conjunto completo dos passos que se devem dar para realizar uma experiência científica. cm grande parte. O seu trabalho iniciou-se em um contexto inusitado: a dissecção da cabeça de um enorme tubarão que pesava cerca de 1270 quilos e foi encontrado por um barco de pesca franccs cm 1666. por exemplo. cdv. Mas há outros nomes no campo da ciência que.ncaunter Between Christianiiy and Science. já na Idade Média era evidente a ênfase teórica na observação e na experimentação. Tinham-se proposto incontáveis teorias para explicá-las. c no século XVI Guillaumc Rondelet sugeriu 81 William B.res curativos. Apresentavam uma estranha semelhança com as assim chamadas línguas de pedra. possuíam pode. Nicolau Steno (1638-1686). 146 . dessa enorme gama de interesses dc estudo c dc conquistas que caracterizou Roger Bacon e Santo Alberto Magno. é suficiente concentrarmo-nos no fascínio que despertaram cm Stcno os dentes do tubarão. A. mas foi no estudo dos fósseis c da estratigrafia que alcançou renome cientifico. "CalholicUm and Early Modem Science". particularmente por Thierryw. foi quem "estabeleceu a maior parte dos princípios da geologia moderna" e chegou a ser chamado o "pai da estratigrafia" (a ciência dos estratos ou camadas da terra) 81. que era conhecido pela sua grande perícia como dissccador. cujas origens estavam envolvidas cm mistério desde os tempos antigos: dizia-se que essas pedras. foi chamado para realizar a dissccção. em David C.. embora as inovações da Revolução Científica do século XVII mereçam as maiores honras. Lindberg e Ronald L Numbcrs. viveu c viajou por toda a Europa c exerceu a medicina por algum tempo na corte do grão-duque da Toscana. Em Robert Grosseteste and lhe Origins of Experimental Science. mcrcccm ser mencionados. Para os nossos propósitos. O pc. ou glossopetrae.

nem sempre é fácil reconstruir a sua história geológica. and Philosophy in lhe I6ih and I7ih Ceniuries. Stcno tinha a oportunidade de comparar os dois objetos e estabelecer claramente a semelhança. Thinking Abou! lhe Eartli: A Hislory of Ideas in Geology. uma das chaves principais da cstraiigrafia (David R. como a maioria dos estratos que encontramos foi de algum modo alterada. A lei da sobreposição é o primeiro dos princípios de Stcno. págs. Mas. situada no topo. Cambridgc. ver também A. 1996. Não existia uma ciência da geologia à qual Steno pudesse recorrer em busca de uma metodologia ou dc princípios fundamentais. 1938. Oldrovd. ti cs costumam ser chamadas "os princípios dc Stcno" Ê dele o primeiro livro dc que temos notícia acerca da sobreposição. c as camadas vão dccresccndo cm idade até . os fósseis c os estratos geológicos contavam uma história sobre a história da terra e os estudos geológicos podiam iluminar essa história82. Stcno considerou cientificamente duvidosas essa c outras explicações. que não agiria de um modo tão aleatório c despropositado. 63-67. além dc ofensivas à sua idéia de Deus. A questão das glossopetrae . 359-60). Por que essas coisas eram encontradas dentro dc rochas? Tcr-sc-iam formado por geração espontânea? Essa era uma das numerosas explicações que se tinham proposto no passado. Não era uma tarefa fácil.VI. a seqüência da estratificaçáo. Georgc Allen & Unwin. dedicando os dois anos seguintes a escrever c compilar aquilo que viria a ser a sua influente obra De solido intra solidam naturaliter contento dissertationis prodrotntis ("Discurso preliminar a uma dissertação sobre um corpo sólido naturalmente contido dentro de outro sólido").'» mais recente. Wolf. A Hislory of Science. pois exigia desbravar um território desconhecido. Por esse . que podia tratar-se de dentes de tubarão. "Steno . engastados cm rochas muito distantes do mar. Londres. No entanto. Estabelece que as camadas sedimentares sâo formadas em scqütncia. foi adiante com ousadia c lançou uma idéia nova c revolucionária: tinha a certeza dc que as rochas. Lançou-se então a estudar a questão. Foi um momento significativo na história da ciência. distorcida ou inclinada.agora quase com certeza dentes de tubarão . Technology. dc tal modo que a camada mais baixa é a mais antiga. Haivard Univcrsity Press. mas poucos se impressionaram com a idéia: agora.suscitou o problema mais amplo da origem dos fósseis cm geral c de como tinham chegado ao estado em que sc encontravam. porque apontava para um tema muito maior e mais importante que os dentes de tubarão c as pedras misteriosas: a presença de conchas c fósseis marinhos. págs.escreveu o seu bió82 Das muitas idéias encontradas nos seus escritos.

Steno viria a ser tomado co mo modelo de santidade c de sabedoria. na sccçâo dedicada a prováveis futuros santos. págs. a gravidade e as correntes dc águas rasas tém sobre eles um efeito nivelador. isso revela que em algum momento o mar deve ter 83 Alan Cullcr. que apareceu cm um livro chamado Vidas de santos para cada dia do ano. Em 1722. Uma vez que os sedimentos sc depositam numa bacia.. motivo. The Seashell on lhe Mountaintop. um convertido do luteranismo ao catolicismo. 2003. só precisamos examinar as camadas c observar onde as partículas maiores foram depositadas. por exemplo um processo dc erosão.foi o primeiro a afirmar que a história do mundo podia ser reconstituída a partir das rochas. IO. e assumiu pessoalmente a tarefa de deslindá-la"83. Tampouco ocorria que ele estivesse simplesmente apresentando uma nova c correta interpretação dos estratos de rocha. New York. pág. acompanham a forma da superfície do fundo. . nho-neto Jacob Winslow escreveu a sua biografia. por exemplo -. 109-12). Stcno também apontou que. sc cm um estrato é encontrado sal marinho ou qualquer outra coisa que pertença ao mar . o seu sobri-. Do mundo atual podemos deduzir mundos que já desaparece-' Com o passar dos anos. grafo mais recente . dc uma tempestade ou dc fenômenos similares: carrega-os c deposita-os cm várias camadas sedimentares. temos o princípio da continuidade lateral: esse princípio indica que. Como descobrir a seqüência sedimentar cm rochas que náo permaneceram na posição original? Tendo cm conta que os grSos maiores c mais pesados naturalmente se depositam em primeiro lugar. tinham dito essencialmente a mesma coisa. quando ambos os lados dc um rale exibem rochas sedimentares.VI. Winslow. o feito dc Stcno no De solido não consistiu apenas cm propor uma nova c correta teoria sobre os fósseis. mais de mil anos antes. é porque os dois lados estavam originalmente unidos formavam camadas contínuas e que o vale é que sc deveu a um evento geológico posterior. como a própria água. ampliando as fronteiras do tempo. Como ele próprio escreveu. "Em última análise.disse ele -ia fonte dos sedimentas. Finalmente. seguidos pelos que váo tendo tamanhos cada vez menores. o pe. Dutton.iu o princípio da horizonialidade original. de tal modo que as camadas sedimentares. mas sc tomam horizontais na pane superior. Steno introdu/. O que fez foi traçar um plano para uma abordagem científica totalmente nova da natureza. seja na forma dc um rio. houve escritores que. A água .dentes dc tubarão. Aí está a cantada inferior da seqüência (Alan Cullcr. Como ele próprio disse. «da conclusão definida que tiramos do que é observável podemos extrair conclusões sobre o que é imperceptível». The Seashell on lhe Mountaintop.

Tcoriza. atribuiu a sua conversão à intcrcessáo do pe. dos pantógrafos. um estudioso da primitiva ciência da eletricidade considerou a Companhia de Jesus como a fonte "mais importante de contribuições para a física experimental do 84 Jonathan Wright.Collins. The Jesuiis: Missions. Um historiador recente descreve o que os jesuítas realizaram por volta do século XVIII: "Contribuíram para o desenvolvimento dos relógios dc pêndulo.tudo isso foram realizações jcsuíticas.ram acerca da circulação do sangue (independentemente de Harvcy).VI. sobre a maneira como a lua influi nas marés c sobre a natureza ondu. o papa João Paulo II beatificou-o. pág. Lcibnitz c Newton não eram os únicos a ler jesuítas entre os seus correspondentes mais apreciados"84. Cinqüenta anos mais tarde. Myths and Histories. lógica simbólica.latória da luz. Londres. dos telescópios] refletores c dos microscópios. e trabalharam cm campos científicos tão variados como o magnetismo. as faixas coloridas na superfície de Júpiter. a nebulosa de Andrômcda e os anéis de Saturno. medidas de controle de enchentes nos rios Fó c Adigc. que se encontrava o maior número dc sacerdotes católicos interessados nas ciências. a ótica c a eletricidade. introdução dos sinais mais c menos na matemática italiana . . dos barômetros. sobre a possibilidade teórica dc voar. Harpcr. em muitos casos antes dc qualquer outro cientista. Huygcns. um grupo dc admiradores dinamarqueses procurou o papa Pio XI para pedir-lhe que o declarasse santo. e cientistas influentes como Fcrmat. louvando a sua santidade e a CONQUISTAS CIENTÍFICAS DOS JESUÍTAS Era na Companhia dc Jesus. 2004. a sociedade sacerdotal fundada no século XVI por Inácio dc Lovola. Da mesma forma. Observaram. 189. Steno. Mapas estelares do hemisfério sul. Em 1938.

introduziram particularmente na China um enorme conjunto dc conhecimentos científicos c um vasto arsenal de instrumentos mentais para compreender o universo físico. cm que praticamente todos os tratados importantes da época foram escritos por jesuítas"86.uholicism and Early Modern Science". No século XVII.. pág. Ekctrieity in lhe I7ih and ISih Ceniuries: A Siudy of Early Modem Physics.L.VI. século XVII"85.C. .. Vários dos grandes cientistas jesuítas também realizaram a tarefa enorme. University of Califórnia Press. os jesuítas merecem grande parte do crédito"87. Heilbron. 16 das 303 pes soas listadas eram jesuítas7'. "Sc a colaboração entre cientistas foi um dos frutos da Revolução Cientifica . pág. Ashworth Jr. um dos primeiros historiadores da matemática.I cluída a geometria euclidiana. Numbers. Foram eles também os primeiros a introduzir a ciência ocidental em lugares tào distantes como a China e a índia. Os jesuítas tiveram também muitos matemáticos extraordinários. eds . até 1800 d..tor. nasc ainda mais expressiva quando recordamos que os jesuí{ tas existiram apenas durante dois desses vinte c sete séculos!7* Acrescente-se a isso que cerca dc trinta c cinco crateras da lua receberam o nome dc cientistas e matemáticos jesuítas. "Tal elogio . que tornou compreensível o movimento dos planetas. "C. Quando Charles Bossut. God and Nalure: HistóricaI l \says on lhe Enconntcr Between Christianity and Science.só se reforça quando se estuda detalhadamente a história de outras ciências. Bcrkelcy. Essa cifra .. cm David C Lindbcig c Ronald L. tais como a ótica. 1979. que deram numerosas contribuições importantes para essa disciplina. Dc acordo com um especialista. pág. se comparadas com o nascimento 85 J. 155. compilou uma lista dos matemáticos mais eminentes dc 900 a. e a matemática e a astronomia cm particular. 87 Ibid. que desempenharam um papel crucial na difusão da pesquisa através da comunidade acadêmica. os jesuí-1 tas na China: "Chegaram cm uma época cm que a ciência em geral. tinham ali um nível muito baixo. 2 86 William B. 145.C.equivalente a 5% do total dos maiores matemáticos cm um arco dc 2700 anos .diz o historiador William Ashworth -.mente valiosa dc recolher os seus dados cm enormes enciclopédias.escreve outro . in.

os jesuítas montaram j nesses continentes observatórios destinados a estudos de astronomia. entre as quais o fato pouco conhecido de ter sido a primeira pessoa a determinar a taxa dc aceleração dc um corpo em queda livre. Tratou-se. O pe. verdadeiramente. As contribuições dos jesuítas para o conhecimento científiJ co c a infra-estrutura de outras nações menos desenvolvidas não sc limitou à Ásia. Fizeram extensas observada çòes astronômicas e levaram a cabo o primeiro trabalho] cartográfico moderno na China. c foi "o resultado e o depósito de um aprendizado vigoroso e devotado". do Equador até o Líbano ou as Filipinas. A eles se deve o desenvolvimento cientifico de muitos desses países. Fizeram esforços enormcSj para traduzir as obras ocidentais de matemática e de astronomia para o chinês e despertaram o interesse dos estudim sos chineses por essas ciências. dc uma realização impressionante: por muitos anos. e forneceram os primeiros dados cartográficos88. Esses observatórios introduziram nesses lugares a medição acurada do tempo. da ciência c da cultura chinesas""0. pela primeira vez. lançando os fundamentos dessas disciplinas nesses lugares". mas cstcndcu-sc à África c às Américas Central e do Sul. os religiosos trabalharam principalmente cm meteorologia e sismologia. graças ao apoio do pe. Giambattista Ricciolli (1598. permitiram fazer previsões climáticas (particularmente importantes no caso de furacões e tufões) e avaliar o risco dc terremotos. que veio a ser editada.-1671).. "nenhum astrônomo sério pôde dar-se ao luxo de ignorar o Almagestum novum".VI. Também aprenderam a apreciar as conquistas científicas dessa antiqüíssima cultura c difundiram-nas na Europa. Nas Américas Central e do Sul. dcstacou-sc por um número enorme dc realizações. por exemplo. Athanasius Kircher. claborou-sc por volta de 1640 uma enorme enciclopédia dessa ciência. 147. da moderna ciência na Europa. Foi também um astrônomo ilustre: por iniciativa sua. . geomagnetismo. A partir do século XIX. Muitos jesuítas distinguiram-se individualmente nas ciências ao longo dos anos. pág. Quarenta anos mais 88 Ibid. E foi graças à sua correspondência que os cientistas europeus tiveram notícia. escreve um estudioso moderno". cm 1651: intitulou-se Almagestum novum. sismografia e física solar. meteorologia.

999..192. Isso chegava peno do número desejado. Astrônomo Real da Inglaterra.212 oscilações no intervalo entre o cruzamento do meridiano pelas estrelas Spica e Arcturus. c foi graças a esse pêndulo que conseguiu calcular a constante da gravidade89. obtiveram 86. Ashworth Jr. o resultado. Indo na direção errada. mas não satisfez Ricciolli.)|. Com a finalidade dc desenvolver um pêndulo que tivesse precisão de um segundo.. apenas com Grimaldi c um outro contador dedicado que aceitaram ficar em vigília com cie.27". conseguiu repetidamente convencer nove conlra-1 dos a contar cerca de 87. O pe. ed.tacion. pág. os número» eram suficientemente próximos. bascou-sc nele nas suas famosas conferências sobre astronomia*4. 3. como ele oscilava 21. Foi uma boa escolha. incluído Grimaldi.] aceitou sem experimentar. o Almagestum também é testemunha do empenho com que os jesuítas sc afastaram das idéias astronômicas dc Aristóteles.600. Riccioli.67~ e. John Flamstccd. e Ricciolli personifica esse empenho.. diminuiu para 3'2. Tentou novamente. por exemplo. c prestaram homenagem aos astrônomos . "Catholkism and Eartv Modem Scienec*.alguns deles proiestantes . quando deveria ter encontrado 3. em três noites distintas. continuamente surpreendido com a habilidade do seu confrade para confeccionar e depois 89 WUliam B. impulsionando o quando começava a parar e contando durante seis horas. Um estudo recente descreve o processo: "Ricciolli c [o pc.VI. desta vez durante 24 horas c convocando nove dos seus confrades.das por medidas astronômicas.I. Eleciricily in ilie I7ih and I8lh Cenlnries. do E. Lindbcrg c Ronald L Numbcrs.706 vezes.cujas concepções divergiam do mode gcocêntrico tradicional". ] cm David C. 155. (Sabe-se atualmente que a aceleração gravi. 180). Francesco Maria) Grimaldi puseram a oscilar um pêndulo romano de medida de 3'4~.2" c repetiu a contagem com a mesma equipe: desta vez. contra as 86. Para os confrades. obteve.v. 87. Além do enorme volume de informações que contém. seu assistente nessas pesquisas.000 oscilações ao longo de um dia inteiro. também inscreveu o nome na história da ciência. 24 x 60 x 60/4 * 21.998 oscilações. Francesco Maria Grimaldi (1618-1663). . mas não para Ricciolli. God and Sature: Historical Eisays on lhe Encounier Between Chrislianiiy and Science. Heilbron. Os estudiosos têm ressaltado a agudeza com que os jesuítas perceberam a importância que tem a precisão nas pesquisas experimentais..400 desejadas. pág. Aumentou então o pêndulo para 3'4. Sustentavam abertamente que a Lua era feita do mesmo material que a Terra. tarde. e deu um resultado um pouco superior ao inicial: um valor dc 955 cm/s 2 para a aceleração da gravidade" (J. Estimou então que o comprimento requerido era de 3'3. aferi. que [.il depende da latitude e varia entre 978 e 982 cm/sJ (N.

Foi Grimaldi quem mediu a altitude de diversas montanhas lunares bem como a altura das nuvens terrenas. permitiu explicar o fenômeno da difraçáo: sc o orifício é maior que o comprimento de onda da luz. e descobriu que a sombra projetada era muito mais longa do que aquela que um movimento puramente rctilfnco poderia permitir. a Divina Providência deu-me um colaborador sem o qual nunca teria podido concluir os meus trabalhos [experimentais!"*7. formulassem a teoria de que a luz é uma onda91. Mas o lugar do pe. (Newton. Em uma série de experiências. ansiosos por chegarem à explicação desse fenômeno. 1938. sofre uma difração. por ter dado a esse fenômeno o nome de "difração". que hoje adorna a entrada do National Air and Spacc Museum. além disso. pág. Grimaldi na ciência já havia sido assegurado anteriormente pela sua descoberta da difração da luz: mais ainda. ilustrada com diagramas. Essa descoberta foi fundamental para que os futuros cientistas.VI. A luz que atravessou o orifício tomou a forma de um cone. produz-se a difraçáo. a luz náo viajava por um caminho exclusivamente linear (para uma breve discussão. apesar da minha indignidade recordaria ele mais tarde -. 91 A teoria da natureza ondulatória da luz. A llisiory of Science. '254-56. a uma distância de uns tn>s metros c meio do orifício. das experiências de Grimaldi. demonstrou que a trajetória observada da luz não se concilia com a idéia dc que ela sc move cm linha reta 90. "Assim. Dentro desse cone de luz. que veio a interessar-se pela ótica em conseqüência do trabalho do jesuíta. ele e Riccioli produziram um diagrama selcnogrãfico (diagrama detalhado que representa a superfície lunar) notavelmente preciso. esta passa em linha reta através dele. utilizar uma grande variedade de instrumentos de observação. Gcorgc Allcn & Unvvin. Descobriu também o que é conhecido como bandas de difraçáo.1 mm) em uma sala completamente escura. faixas coloridas que aparecem paralelas à borda da sombra. and Philosophy in lhe I6ih and I7ih Centuries. Londres. mas foi o termo de Grimaldi que prevaleceu)* 9. As bandas dc difraçáo também eram explicadas em funçáo da natureza ondulatória da luz: a interferência das ondas dc luz difratada produzia as diversas cores observadas . se é menor. Technology. 90 Em uma dessas experiências. ver A. cm determinadas condições a luz "faz uma curva". Grimaldi fez com que um raio dc luz solar entrasse através dc um pequeno orifício (dc 4. por exemplo. ou seja. o cientista fLxou uma haste para que projetasse uma sombra na parede. cm Washington DCSH. denominou-o "inflexão". insistiu com os superiores em que era absolutamente essencial poder contar com ele para rematar o Alntagesliim novum. portanto.). Wolf.

dos maiores cientistas jesuítas foi o pe. prévio à sua ordenação como sacerdote (1744). compondo versos cm latim sob os auspícios da prestigiosa Accadcmia degli Arcadi. WOODS JR. pág. 34-35: Adolf Mullcr. era versado cm teoria atômica. I7III787. New York. a quem Sir Harold Hartlcy. cujos ancestrais provinham da mesma cidade de Dubrovnik. cm Lancctoi Law Wjiyic. o cardeal Valcnti Gonzaga. Os diversos efeitos da gravidade em vários pontos da terra (1741) . o mais conhecido e prestigioso colégio dos jesuítas. convidou o sacerdote para as suas 92 Sir Harold Hartlcv. O Cardeal. Homem genuinamente polifacético.92 Um THOMAS F. ótica. A aplicação do telescópio aos estudos astronômicos (1739). mas o seu principal patrocinador foi o Secretário dc Estado. tendo publicado oito dissertações científicas antes de ser indicado como professor. matemática e astronomia. "Ruggiero Giuscpc Boscovich". O trânsito dc Mercúrio (1737). ed. Fordham Univcr. Boscovich evidenciou-se imediatamente durante o tempo cm que estudou no Colégio Romano. que os do pe. membro da prestigiosa Roval Society no século passado. ed. Os movimentos dos corpos celestes em um meio sem resistência (1740).. 93 Joseph E. "Rogcr Boscovich: A Biographical Essav". interessou-se especialmente por ele c pela sua obra. Depois de concluir os estudos ordinários. cm While. de Roma. foi nomeado professor de matemática no mesmo Colégio. na Croácia. 76. e foi convidado a lecionar em diversas sociedadcs c academias científicas de toda a Europa. Rogcr Joseph Boscovich.que preparou o trabalho sobre geodésia que viria a fazer . SJ. cm Caiholic Encyclopedia. um estudioso reconhecido e um inccntivador da ciência c das letras. Jesitil Geometers. e mais catorze depois. MacDonncll. Rogério (Riuljer) Boscovich (1711-1787). foi notavelmente prolífico. A enorme genialidade do pe. Já nesse período inicial da carreira. Boscovich..e /\ aberração das estrelas fixas (1742)94. 1961. que não media esforços para ccrcar-se dc estudiosos dc renome. chamou "uma das maiores figuras intelectuais de todos os tempos" 92. págs. Rog/er Joseph Boscovich. Não é de admirar que tenha sido chamado "o maior gênio que a Iugoslávia jamais produziu"93. Incluem-se entre elas As manchas solares (1736).. . 8. FRS. Não podia demorar que um homem do seu talento se tornasse conhecido cm Roma.siiv Press. 94 Elisa beth Hill. O papa Bento XIV. "Foncword". Demonstrou ser também um exímio poeta. A Aurora Boreal (1738). que ascendeu ao trono pontifício cm 1740 c era uma das figuras mais cultas da época.

pág. Acrescenta ainda que a sua contribui. E nào é apenas este o mérito da Teoria. E um historiador da ciência recente chama-o "o verdadeiro criador da física atômica fundamental. Além disso.dc do século XX". Essa influência foi realmente imensa: os maiores cientistas europeus. Em 1742. pág.)J. [Essa "idéia" única corresponde ao que atualmente se vem chamando "teoria do campo unificado" ou "teoria do Tudo". elogiaram repetidamente a Teoria c dedicaram-lhe grande atenção ao longo do século XIX.. Porque. e que nunca foi superada. Roger Joseph Boscovich. do E. quer pela originalidade dos fundamentos. cm Lancclot Whytc. cd. pela sua ambiciosa tentativa de entender a estrutura do universo com base cm uma idéia única97. 99 Lancclot Law Whytc. atraiu admiradores desde a sua época até os dias de hoje. Roger Joseph Boscovich. 326. cm Lancclot Whvle. preocupado com o aparecimento dc rachaduras na cúpula da Basílica de São Pedro que prognosticavam um possível colapso. pág. Um estudioso moderno afirma que foi Boscovich quem fez "a primeira descrição coerente de uma teoria atômica". Segundo um admirador moderno. que permitiriam explicar todas as realidades do universo por uma única entidade física (N. 96 Zelijko Markovic.. Roger Joseph Boscovich. particularmente na Inglaterra. quer pela clareza de expressão e precisão na sua concepção dc estrutura. Bento XIV recorreu à perícia técnica do pc. 105. pág. "Boscovich Atomism". "Boscovich Atomism". daí a sua imensa influência"98. em DSB. foi ele quem "deu uma expressão clássica a uma das idéias científicas mais poderosas que já foram concebidas. cd. pág.. 34. e o interesse por cia reacendeu-se na segunda meta. a sua Teoria da Filosofia Natural. "Roger Boscovich: A Biographical Essav". .. cm Lanccbi Whytc. Rudjcr J ". em Lancclot Whytc. bem mais dc um século antes de ter surgido a teoria atômica moderna'00. Foi também Boscovich quem desenvolveu o primeiro método geométrico para calcular a órbita dos planetas com base cm apenas três observações das suas posições. publicada originalmente em 1758. A IGREJA E A CIÊNCIA 93 reuniões dominicais95. 98 Lancclot Law Whvtc. tal como a entendemos"99. cd. Roger Joseph Boscovich. Boscovich. cd. Este recomcndou-lhe que sc circundasse a cúpula com cinco anéis dc aço.V. 102.\ çào original "antecipou a linha de trabalho c muitas das carac-1 tcrísticas da física atômica do século XX. também 95 Elisabcth Hill. 102. "Boscovich Atomism". 97 Lancclot Law Whytc. "Boscovic. O relatório cm que estudava teoricamente o problema c chegava a essa recomendação prática ganhou "a reputação dc um pequeno clássico cm estabilidade estrutural na arquitetura"96.

Estava convencido de que o relógio de sol que encontrou era um dos mencionados pelo antigo arquiteto romano Vitrúvio.. Bosco vich sc tornasse um entusiástico arqueólogo.zcntos anos da publicação da Teoria. e é por isso que acho que os ãtomos de Boscovich levam grande vantagem sobre as noções mais usuais". pág. a teoria da elasticidade dos sólidos de Navicr c Poisson. Embora esse cientista sabidamente! mudasse com freqüência de pontos de vista. E ainda achou tempo para escrever dois ensaios sobre o tema: Sobre uma antiga vila descoberta na crista do Tusculum e Sobre um antigo relógio de sol e alguns outros tesouros encontrados 100(1Ò2) Ibid. Mcndeleev disse dc Boscovich que "é considerado o fundador da atomística mo. . Em 1899.. pois. previu THOMAS F. 101 Joseph E. cm 1905. Clerk Maxwell acrescentou. Faraday escreveu em 1844: "Parece] que o método mais seguro é pressupor o mínimo possível. Em 1958. 119. onde os jesuítas tinham iniciado a construção dc uma residência dc verão. tudo isso sào puros c simples desenvolvimentos da teoria dc Boscovich". Boscovich revela-nos um homem que.. tais como a penetrabilidade da matéria por partículas em alta velocidade c a possibilidade de estados da matéria de densidade .w. MacDonnell. Kelvin comentou que "a representação de Hookc das formas de cristais por pilhas de esferas. II. tinha uma enorme fome dc conhecer c de aprender.. Jcsuit Ceonieiers. WOODS JR.C. foi esta: "A minha teoria atual é pura e simplesmente o boscovichianismo". em 1877: "A melhor coisa que podemos fazer é livrarmo-nos do núcleo rígido e substituí-lo por um átomo de Boscovich". escavando c copiando pessoalmente os pavimentos de mosaico. os trabalhos apresentados incluíram papers de Niels Bohr e Wemer Heisembcrg101. os construtores acharam os restos de uma vila do século II a.]. esse cientista passou o verão cm Frascati. a sua observação final.94 qualitativamente. realizou-se em Belgrado um Simpósio Internacional para comemorar os du. Durante os trabalhos dc escavação.. Assim o mostra um simples episódio: cm 1745. que essa obra tenha sido objeto de muita admiração c elogios por parte dc alguns dos grandes cientistas da era moderna. permanecendo sempre fiel à Igreja que amava c à Ordem religiosa a que pcrtcncia. excepcionalmente alta"100. Isso bastou para que o pe. dema". diversos fenômenos físicos que foram sendo observados. pág. Nào é dc estranhar. A vida do pc. o trabalho de Maxwell e Clausius em teoria cinética dos gases [.

como pelo desejo dc reduzir ao mínimo. pág. Paningion. Boscovich pelo seu interesse por uma enorme gama de assuntos: foi comparado a Leonardo da Vinci c honrado com o título dc "mestre das cem artes". págs. Os seus trabalhos cm química ajudaram a desmascarar a alquimia. cm 1799. Com efeito. que possibilitou aos estudiosos a compreensão dos hieróglifos egípcios. os efeitos 102 J. 328-33. mencionemos apenas uma das áreas cm que sc destacou. 2. Em 2003.tido perigosamente até cientistas como Isaac Newton e Robert Boylc. Princcton University Press. tema cm que se destacou pelos seus estudos. Essa é a razão pela qual um egiptologista moderno concluiu que "é incontestável o mérito dc Kirchcr: cie foi o primeiro a descobrir I que os hieróglifos tinham valor fonético. pelo antigo Egito.V. 12. um estudioso descreveu Kircher como "um gigante entre os mestres do século XVII" e "um dos últimos pensadores que puderam reivindicar. . sem dúvida porque realizou os seus trabalhos nessa área antes da descoberta da pedra Roscta. por direito próprio. 1961).seph E. a egiptologia pode. vol. Foi denominado o verdadeiro fundador da egiptologia. Macmillan. o domínio dc todos os saberes"103. demonstrou que a língua copta era. 1993 (Copcnhagucn. 13. Como se trata de uma figura muito conhecida. um vestígio do primitivo egípcio. 103 Alan Cullcr. 1961. A IGREJA E A CIÊNCIA 95 entre as ruínas. como "a ciência jcsuítica".R. 104 Erik Ivcrson. a serviço dos seus semelhantes. The Myth of Egypt and its Hieroglyphs. Tanto do ponto dc vista humanístico como intelectual. às vezes. MacDonncll. cm Jo. A History of Chemistry. pág. com que sc haviam entre. págs. 68. verdadeiramente. MacDonnell. Londres. págs. o pai da química moderna 102. Jesuit Geometers. por exemplo. cm um deles. Princcton. As contribuições jcsuíticas para a sismologia (o estudo dos terremotos) foram tão substanciais que a própria especialidade tem sido designada. The Seashell on lhe Mounlainiop. Jesuil Geometers. Joseph E. Os jesuítas notabilizaram-se nesse campo não só pela sua consistente presença nas universidades em geral c na comunidade científica cm particular. na verdade. Athanasius Kircher (1602-1680) assemelhou-se ao pe. As suas descobertas foram relatadas no Gioniale dei Litterati no ano seguinte104. 97-98: cit.M. Kircher deixou-sc fascinar. orgulhar-se dc lê-lo por fundador"104. O pe. foi "por causa do trabalho dc Kirchcr que os cientistas souberam o que deviam procurar ao interpretar a pedra Roscta".

Macelwanc publicou cm 1936 a Introdução à Sismologia Teórica. Macelwane (1833-1956). Já vimos quão falsa é essa afirmação. que é concedida até os dias de hoje cm reconhecimento ao trabalho dc jovens geofísicos dc destaque1". o público tem às vezes a impressão dc que os eclcsiásticos só cultivaram tão intensamente essa ciência para confirmar as suas idéias preconcebidas. Cada uma dessas estações sismográficas coletaria dados c os enviaria à estação central cm Clcveland. Assim nasccu o Jesuit Seismological Service (hoje conhecido como Jesuit Seismological Association). comprou no ano seguinte quinze sismógrafos c distribuiu-os pelos centros dc ensino.96 devastadores dos terremotos. bem como dos provinciais da América. Brilhante pesquisador. Em 1908. manteve ao longo de toda a carreira uma intensa correspondência com os astrônomos jesuítas. o pe. primeiro livro-texto da área na América. instalando a sua estação central na Universidade dc Saint Louis. descrito como "a primeira rede sismográfica com instrumentação uniforme estabelecida em escala continental""0. o grande astrônomo cujas leis do movimento dos planetas constituíram um progresso científico tão importante. AS CATEDRAIS COMO OBSERVATÓRIOS ASTRONÔMICOS No campo da astronomia. foi o pc. Johannes Kepler (1571-1630). que por sua vez os repassaria ao International Seismological Center em Estrasburgo. mas não custa acrescentar mais alguns fatos para encerrar a questão. em um determinado momento da sua vida. Quando. Frederick Louis Odettbach (1857-1933) reparou que o extenso sistema dc colégios e universidades jcsuíticas espalhados por toda a América ofcrccia a possibilidade de criar uma rede dc estações sismológicas. James B. Em 1962. WOODS JR. que. mais do que para seguir as evidências aonde quer que cias os levassem. esta última organização criou uma medalha em sua honra. THOMAS F. Mas o sismologista jesuíta mais conhecido. Depois dc receber a aprovação dos dirclores das instituições jesuítas dc altos estudos. Foi presidente da Sociedade dc Sismologia da América c da União Americana dc Geofísica.. reorganizou c revigorou o Jesuil Seismological Service. em 1925. c efetivamente um dos cientistas mais elogiados dc todos os tempos. sc encontrou em dificuldades econômicas c também cicntíficas. privado até .

A IGREJA E A CIÊNCIA 97 mesmo dc um telescópio.ciclos" e "deformes" para explicar o aparente retrocesso no movimento dos planetas. fez com que esses modelos parecessem claramente grosseiros em comparação com a elegante simplicidade do seu sistema. as catedrais de Bolonha.). Os modelos de Ptolomcu (gcocéntrico) e de Copérnico (helio. aluno dos jesuítas Ricciolli e Grimaldi.vanni Cassini (1625-1712). 20 e 54. É difícil encontrar qualquer outra pessoa com quem eu preferisse discutir temas de astronomia [. Jesuit Geometers.cêntrico). Nos séculos XVII e XVIII. apresentava as mesmas complicações.. aqueles pesquisadores puderam obter medidas precisas do tempo e 105 Joseph 11.V. Guldin. Este.. "epi. trazida pelos membros da sua Ordem que aqui se encontram [. cm Bolonha. Florcnça. homem culto e vcncrável. Penso que é Vossa Reverência quem deve receber dc mim o primeiro fruto literário da alegria que senti ao experimentar este presente [o telescópio)"105. publicado postumamente. Paulo Guldin. . incluiu posteriormente uma nota especial de gratidão no final do seu livro O Sonho. O sistema de Tycho Brahc. o pe. Nicolau Ziicchi (1566-1670). Paulo Guldin (1577-1643) persuadiu um amigo seu.. haviam introduzido uma complicada série dc "equanies". amado patrono. Um prazer ainda maior para mim foi receber a saudação de Vossa Reverência. Cada catedral dispunha de orifícios destinados a deixar passar a luz solar c dc linhas de tempo (ou linhas meridianas) no piso. págs. Paris e Roma eram os melhores observatórios solares do mundo. para dar suporte ao modelo dc Kepler" Eis um ponto em que sc vê como é desconhecido hoje o importante contributo que a Igreja proporcionou à astronomia.]. que davam por certa a órbita circular dos planetas. Mas Kepler.. Mas esse sistema estaria correto? O astrônomo italiano Gio. além dc escrever uma carta dc agradecimento ao pe. a enviar um desses aparelhos a Kepler. que propunha também órbitas circularcs. por sua vez. MacDonncll. o pc. ao propor órbitas clipticas. usou o observatório da esplêndida Basílica de São Pc. Pela observação do caminho traçado pelos raios dc luz sobre essas linhas. Em nenhum outro lugar do mundo havia instrumentos mais precisos para o estudo do Sol. sacerdote da Companhia dc Jesus. A teoria dc Kepler acerca da órbita clíptica dos planetas tinha a vantagem da simplicidade sobre as teorias concorrentes.trônio. inventor do telescópio refletor. Nela podemos ler: "Ao reverendissimo pe.

os jesuítas confirmaram [.1995. sugeria Cassini. Londres. Foi o observatório de São Petrônio que tornou possível a pesquisa de Cassini. a tec nologia usada nos telescópios não estava suficientemente desenvolvida para fornecer essa precisão. Hcilbron utiliza o termo técnico mais adequado neste contexto: "bissecçáo da excentricidade".L. "deste modo.5 mm (a imagem do Sol varia de 125 a S40 milímetros ao longo dc um ano). Animal Invilaiion Ixcture to lhe Scientific Inslmmcnt Society. prever 106J. no coração dos Estados pontifícios. ao passar pelo outro focom. Para rcfcrir-sc à descoberta dc Cassini.12.. que era a finalidade inicial desses ob. Thc Sun in thc Church. pág. WOODS JR.seivatórios) Cassini necessitava dc equipamentos suficientemente precisos para medir a imagem projetada do Sol com uma margem dc erro não superior a 7. Naquele tempo. 117)Ibid. Cassini conseguiu levar adiante a sua experiência em meados da década dc 1650-1660.c que diminuísse quando se afastassem. Como cxplicou um estudioso. puderam fazer cálculos precisos acerca da verdadeira data da Páscoa. 19. A frase refere-se simplesmente ás órbitas planetárias clípticas. pelas observações feitas na igreja dc São Petrônio. 115)William J. Se a órbita da Terra fosse realmente clíptica.98 os equinó. deveríamos esperar que a imagem do Sol projetada no piso da cate dral crescesse à medida que os dois corpos sc aproximassem ao passar por um dos focos da elipse . c pôde finalmente confirmar a teoria das órbitas clípticas proposta por Kcplerm. 112. juntamente com os seus colegas jesuítas. Ilcilbron. Ilcilbron. Roval Institution.. 06. . Broad.) a pedra angular da versão de Kcpler acerca da teoria copcmicana c destruíram definitivamente a física cclcstc aris.L..totélica""106. cm Nnr York Tintes.1999. 116)J. "How thc Church Aided Ucretical" Altronomy".cios (e também THOMAS F.10. que às vezes sáo chamadas "excêntricas".

a astronomia. Foram os pensadores medievais que assentaram alguns dos primeiros princípios da ciência moderna. mais do que todas as outras juntas"11*. as contribuições da Igreja para a ciência estenderam-se muito além da astronomia. as regras do eterno movimento do Sol c das estrclas""^ Quem haveria dc imaginar que as catedrais católicas ofereceriam contribuições tão importantes ao progresso da ciência? Os observatórios das catedrais continuaram a dar substancial apoio ao progresso do trabalho científico. mas elas continuaram a ser usadas para medir o tempo.500 observações cm São Petrônio. o uso dos meridiano da catedral de São Petrônio "marcou época na história da renovação das ciências". na Califórnia. c por ai fora. c também para estabelecer os horários das ferrovias. Foram as idéias teológicas católicas que forneceram as primeiras bases para o progresso científico. WOODS JR. de copiar na Terra. Com palavras de um astrônomo francês do século XVIII... 119)Ibid. a biologia. as melhorias introduzidas nos instrumentos de observação foram tornando as catedrais cada vez mais obsoletas.. a Igreja Católica Romana deu mais ajuda financeira c suporte social ao estudo da astronomia do que qualquer outra instituição e.desde a recuperação dos antigos conhecimentos astronômicos durante a Idade Média até o Iluminismo -. como afirma J.Não foi um progresso pequeno. Entre 1655 e 1736. os astrônomos fizeram 4. é que "durante mais de seis séculos . a sismologia.. pág. 3. com tanta precisão. Em resumo. Jerome La lande. THOMAS E. O dado que perdura. a ótica. pág. que foi capaz. que demonstraram dc modo consistente tão grande interesse pelas ciências e tantas realizações cm campos tão variados como a matemática e a geometria.L. Uma fonte dos começos do século XVIII asseverou que essa realização "deveria ser celebrada nas eras futuras em homenagem à glória imortal do espírito humano. Com o transcorrer do século XVIII. provavelmente. filhos leais da Igreja. a geologia. 118)'ibid. . 5. Heilbron da Universidade dc Berkclcy. E foram os sacerdotes católicos.

Contudo. Essa heresia rejeitava a veneração dc imagens. O ÓDIO ÀS IMAGENS: ICONOCLASMO O próprio fato dc conservarmos até hoje muitas das nossas obras-primas é. Mas não prosperou. c chegou a rejeitar a representação de Cristo c dos santos em qualquer tipo dc arte. e ocidental o mencionam? Fazer civilização estas perguntas já é responder a elas. A iconoclastia espalhou-se mais no Império bizantino do que no Ocidente. graças ao excelente trabalho dos historiadores recentes da ciência. nenhum estudioso serio poderá jamais repetir o desgastado mito do antagonismo entre a religião c a ciência. que têm deleitado e inspirado tanto os ocidentais como os não-ocidentais. ícones ou símbolos religiosos. mosaicos. Des. A ARQUITETURA E A IGREJA A herança artística do Ocidente identifica-se tão estreitamente com o imaginário católico que ninguém pode pretender negar a influência da Igreja.dc o . a sua contribuição foi muito maior que a de simples fonte de temas para a arte ocidental. em si mesmo. é provável que tenha influído nela o encontro entre Bizãncio c o Islã. também aqui. um reflexo da mentalidade católica. Os séculos VIII c IX foram testemunhas do surgimento dc uma heresia destruidora chamada iconoclasmo. Não foi mera coincidência que a ciência moderna tivesse surgido no ambiente católico da Europa ocidental. as belas pinturas. esculturas. já que ia na contramão do modo católico dc compreender c apreciar o mundo criado. Foi introduzida pelo imperador bizantino Leão III o Isáurico (basileu dc 717 a 741) por motivos que permanecem obscuros. que cada vez mais vêm reconhecendo à Igreja aquilo que lhe é devido. A IGREJA E A CIÊNCIA quantos textos sobre a 100geral. nunca teriam chegado a existir. manuscritos com iluminuras e fachadas de catedrais. Quanto disso é do conhecimento A ARTE. embora pretendesse proclamar uma doutrina que todos os que cressem em Cristo deviam aceitar. vitrais. No entanto. Se houvesse medrado.V.

apesar da sua corrupção pelo pecado original. Tendo passado a maior parte da sua vida como monge. Nos séculos XII e XIII. . 107 O maniqueísmo dividia o mundo cm um reino dc maldade. e repreendia-os por isso: "Injuriais a matéria e dizeis que não tem valor. argumentava com base em citações bíblicas e patrísticas. Não devia ser desprezado. não podia deixar dc tomar conhecimento dc muitas idéias islâmicas. escreveu entre os anos 720 e 740 as três partes da sua Apologia contra os que atacam as imagens divinas. A IGREJA E A CIÊNCIA os muçulmanos conquistaram 101depois queorientais do Império bizantino. havia séculos que a arte cristã vinha fazendo representações dc Cristo c dos santos.cm forma de água. defendia teologicamente toda a arte religiosa. entre elas a de que a arte não devia ser de maneira nenhuma figurativa. proibidas também pelo Antigo Testamento.que Deus não sc opõe à veneração das imagens. A representação artística dc Cristo era reflexo da doutrina católica da Encarnaçâo: com a Encarnação dc Deus cm Jesus Cristo. Como é natural. Essa foi uma das razões pelas quais São João Damasccno condenou a iconoclastia. as regiões o imperador de Constantinopla teve dc sustentar uma guerra intermitente contra esse inimigo persistente c poderoso. por exemplo. Apologia contra os que atacam as imagens divinas. mas também porque nele havia habitado. assim como no testemunho do conjunto da Tradição . o da matéria. Para os maniqueus. não só porque Deus o havia criado. o catarismo. No transcorrer dessa luta. uma variante do maniqueísmo. O mesmo fazem os maniqueus. óleos.i . 2. pois como poderia a matéria m.eâo III. se guiria a mesma linha de pensamento. detectava uma tendência ao maniqueísmo 107. cm conseqüência. em face das sucessivas vitórias dos muçulmanos c das deiTotas dos bizantinos nos campos de batalha. c um reino dc bondade. sustentando que o sistema sacramentai católico tinha que ser fraudulento.V.comunicar graça puramente es piritual aos que a recebessem? 108 Sáo Joio Damasccno. Na época cm que sc acendeu a controvérsia iconoclasta. o do espirito. assim. a idéia de que as coisas materiais pudessem comunicar bens espirituais era um completo absurdo. não havia nenhuma representação de Maomé. E o imperador l. 71: a tradução utilizada pelo autor foi a de primeiro século dc existência do Islã. porque diz: £ Deus olhou para tudo o que havia feito e viu que era muito bom"108. perto dc Jerusalém. começou a pensar que a razão disso devia estar cm que Deus vinha punindo os bizantinos por fazerem ícones. pão e vinho consagrado» . o mundo material havia sido elevado a um novo nível. Nos iconoclastas. mas a Escritura divina proclama que ela é boa. imagens de Deus.

por conseguinte. acolhidos sob a sombra da sua graça"110. sc tornou matéria [pela Encamaçào] c aceitou habitar na matéria para através dela realizar a minha salvação. publicada com o título Three Treatises on lhe Divine tmages. os cálices e as patenas? E. St.. não são matéria o corpo e o sangue do meu Senhor? Por isso. sem mencionar as grandiosas fachadas Andrew Loutli. apóia-sc cm princípios teológicos católicos. 2003. o lugar do Calvário? Não são matéria a rocha que deu vida c sustento. o santo sepulcro. ou nos submetemos à tradição da Igreja e permitimos a veneração das imagens dc Deus c dos amigos dc Deus. toda a arte religiosa.. Portanto. da Pietà de Michclangclo e de inúmeras outras obras de gênio. New York. podia conter algo do divino: "Não venero a matéria. Os fiéis alegraram-se com essa vitória e passaram a comemorar com uma celebração anual do Triunfo da Ortodoxiai o retorno à prática tradicional. condenado oficialmente pelo terceiro Concilio de Nicéia. que nos oferece o pão da vida? Não são matéria o ouro c a prata dc que estão feitas as cruzes. Portanto. ou deixamos dc tratar tudo isto com reverência c veneração. Foram as idéias de São João Damasceno e dos seus seguidores que nos permitiram usufruir da beleza das Madonnas de Rafael. 15-17.]. santificados pelo nome do Espirito divino c.. como matéria] como Deus poderia ser Deus aquilo que veio à existência a partir do nada?"109Mas a matéria.V. Depois de uma série de idas e vindas. Crestwood. por mim. Nào é matéria extremamente preciosa c abençoada a madeira da cruz? Nào é matéria a monta nha augusta c santa. os próprios bizantinos acabaram por abandonar o iconoclasmo cm 843 c voltaram a criar c venerar os ícones de Cristo c dos santos. I. 110 Ibid. Vladimirs Semi na ry Press. acima dc todas essas coisas. em 787. venero Quem fez a matéria e Quem. I. 16. reverencio c respeito a matéria. que contribuiu tão poderosamente para configurar a vida artística do Ocidente. e não cessarei de reverenciar a matéria através da qual se faz a minha salvação [. É difícil exagerar a importância da oposição da Igreja ao iconoclasmo. a fonte da ressurreição? Não são matéria a tinta c todo o livro santo do Evangelho? Não é matéria a mesa que nos sustenta. Mas João Damasccno tomou o cuidado . que os cristãos nào podiam condenar como má cm si mesma. A IGREJA E A CIÊNCIA "reverenciava [a 102de precisar que nào longe disso. 109 Ibid'. porque está impregnada da graça e da energia divinas.

New York. 2003. e essa idéia tornou-se moeda corrente entre a grande maioria dos pensadores católicos do século XII. A CATEDRAL Não há dúvida de que a maior contribuição católica para a arte.V. podem valer-se das coisas materiais na sua ascensão para Deus. Não é por acaso que um estudo mais apurado dessas catedrais revela uma impressionante coerência geométrica.. e o efeito combinado desses elementos produziu um dos mais extraordinários testemunhos da fé sobrenatural dc uma civilização. vitrais e inúmeros outros tesouros da arte ocidental. Novamente encontramos aqui a escola da catedral de Chartres. Art: A New Hislon\ HarpcrCoIlins. como já vimos. pág. cuja arquitetura sucedeu ao estilo românico no século XII e. quantidade e peso -. monumentais em tamanho c espaço. Calvino. é a catedral. o islamismo nunca abandonou a sua insistência na arte não-figurativa. os protestantes retomaram a heresia iconoclasta. A IGREJA E A CIÊNCIA não deveríamos tomar 103 efeito. Particularmente fascinantes são as catedrais góticas.aquele versículo do Antigo Testamento segundo o qual. que veio a desempenhar um papel 111 Paul Johnson. aquela que modificou indiscutível c permanentemente a paisagem européia. inspirado na Encamação c na certeza de que os seres humanos. se espalhou em maior ou menor grau pela Europa.] são a maior realização da humanidade em todo o panorama da arte"111.. partindo da França e da Inglaterra. Essa coerência procede diretamente de uma corrente importante do pensamento católico: Santo Agostinho menciona repetidamente Sabedoria II. c evidente a aceitação dacomo natural arte das catedrais da Idade Média. preferia espaços despojados para os seus serviços dc culto c chegou a proibir até o uso dc ins trumentos musicais. Nada mais alheio ao apreço católico pelo mundo material. pondo-sc a destruir estátuas. no século XVI. compostos de matéria e espírito. abóbadas nervuradas e uma profusão de vitrais deslumbrantes. Esses edifícios. caracterizaram-se pelos seus arcobotantcs. Deus dispôs todas as coisas com medida. 21 . Um historiador da arte escreveu recentemente: "As catedrais medievais da Europa [. Com representativa religiosa. e sabemos igualmente que. arcos ogivais. altares. . certamente o mais importante de todos os pensadores protestantes.

págs. D. e por outros dez espaços que medem dezenove pés c seis polegadas por trinta e nove pés. também o arquiteto gótico. Consideremos a catedral inglesa dc Salisburv. Lcxington. 1971. que a matemática era um veículo para revelar à humanidade os mais íntimos segredos do céu. Essas idéias levaram os construtores "a conceber a arquitetura como geometria aplicada. com os seus humildes meios. os mestres "acreditavam que a geometria era um modo de ligar os seres humanos a Deus.exatamente a metade do comprimento do cruzeiro central. 103-104. que medem dezenove pés e seis polegadas quadradas. Com efeito. Scoit. The Gothic Enterprise. págs. A IGREJA E A CIÊNCIA 104 góticas . Outro exemplo impressionante da preocupação pelas proporções geométricas é a catedral de Saint Rémi. 1000-1300.e Deus. a proporcionalidade geométrica que encontramos nessas catedrais é absolutamente impressionante. Outros aspectos da estrutura oferecem ainda mais amostras da absoluta coerência geométrica que permeia toda a catedral113. University of Califórnia Press. Baldwin.ccssora romãnica. Já desde Pilágoras e Platão. por sua vez. 112 John W. A própria nave está constituída por vinte espaços idênticos.V. Heatfi. pág.explica o professor John Baldwin -. 113 Robcrt A. Scott. em Rheims. a arquitetura gótica evoluiu a Quando 112 central na construção das catedrais partir da sua prede. mais e mais pensadores católicos se foram persuadindo da ligação entre a matemática . Bcritclcy. The Cothic Enterprise. a geometria como teologia aplicada c o projetista dc uma catedral gótica como um imitador do divino Mestre"". Por exemplo. 124-25. . tanto o comprimento como a largura dc cada um dos dez átrios da nave são dc dezenove pés e seis polegadas .C. que o cosmos era uma obra de arquitetura e que Deus era o seu arquiteto". verificamos que tem trinta e nove por trinta e nove pés. Essa dimensão básica é. explica Robert Scott. a base dc praticamente todas as outras medidas da catedral. The Scholaslic Culture of lhe Middle Ages. tentava compor a morada terrena de Deus de acordo com os supremos princípios da proporção c da bclcza"v.em particular. Massachusscts. 2003. "Assim como o grande Geômetra criou o mundo cm Ordem c harmonia . Em Chartres. Pensavam que as harmonias musicais estavam baseadas nas mesmas proporções da ordem cósmica. 107: Robcn A. Medindo o cruzeiro central da catedral (onde o seu principal transepto coita o eixo leste-oeste). uma importante corrente dc pensamento na civilização ocidental identificava a matemática com o divino. a geometria .

que contribui significativamente para o prazer que o visitante colhe desses enormes edifícios. Santo Agostinho.explica Christophcr Wilson -. O desejo dc atingir ao mesmo tempo a precisão geométrica c um simbolismo numérico. Escreve um estudioso moderno: "Quando os olhos dos adoradores sc elevavam para o céu. podiam imaginar 114 Ibid. 108. O mesmo se pode dizer das janelas c da ênfase na luz que inunda esses enormes e majestosos edifícios. que considera a estruturação matemática do mundo como reflexo da mente divina . como é evidente. elevariam as nossas mentes ã contemplação da ordem divina. Aqui não sc pode ignorar o significado reli gioso da luz. que sc derrama através das janelas pelo coro c pela nave.onze . O coro de Saint Rémi está "entre os mais perfeitos símbolos tri.nitários da arquitetura gótica . por essa razão. pág.. A IGREJA E A CIÊNCIA anterior e não 105estilo românicopuro de estrutura seja o exemplo mais gótica.V. É razoável pensar que o arquiteto levou cm conta o simbolismo teológico da luz. Uma inscrição no pórtico explica que a luz eleva a mente por cima do mundo material e a dirige para a verdadei ra luz. Saint Rémi já manifesta o cuidado com a geometria e a matemática que constituiu uma qualidade fascinante dessa tradição.diferente e complementar dessa outra que vimos.ressalta dc modo evidente.2. que é Cristo 114. mera coincidência.pelo número de degraus dá trinta e três"". alude ã idade de Cristo. Procedia de idéias que já se encontravam nos Padres da Igreja. A influência dc Santo Agostinho e da sua crença no simbolismo dos números . sete milhas ao norte dc Paris. não foi. talvez as características mais notáveis da catedral gótica. Embora ainda contenha elementos do . portanto. Trinta e três. cujo De Musica viria a tornar-se o tratado de estética mais influente da Idade Média. Santo Agostinho concebia a aquisição do conhecimento por parte dos seres humanos como fruto da iluminação divina: Deus ilumina a mente com o conhecimento. E por isso não é descabido pensar que os arquitetos desse tempo se tivessem inspirado na poderosa metáfora da luz física como meio de evocar a fonte divina da qual procede todo o pensamento humano Assim o vemos na igreja abacial dc Saint-Denis. uma vez que as suas proporções matemáticas seriam as do próprio universo e. observa-se como o arquiteto brinca com o número três nas três janelas que iluminam os três níveis da ábside principal. considerava a arquitetura c a música como as artes mais nobres. e a multiplicação do número de assentos cm cada degrau do coro .

ano após ano. mulheres c crianças iam a pcdreiras distantes para extrair os blocos dc cantaria c sc atrelavam eles mesmos a toscas carroças carregadas dos materiais de construção. as agulhas góticas simbolizavam a orientação para o alto dc uma visão nitidamente sobrenatural" 116. como sc retrata com tanta freqüência a Idade Média. Jaki. ao longo dc quase meio século. à semelhança da luz do derramar as suas bênçãos c a os espíritos à ascensão. e decidiu estudar c escrever sobre esse tema para difundir o conhecimento desse tesouro que tanto o cativou'7. "Medieval Criativity in Science and Technology".V. tudo o que sc refere ã catedral gótica revela a sua inspiração sobrenatural. os habitantes deram o contributo do seu esforço c das suas posses. . E mesmo um erudito hostil do século XX fala com admiração da devoção e do trabalho paciente revelados na construção das grandes catcdrais: 106sol. pág.escreve Jaki -. A luz que jorra nas catcdrais góticas simboliza a luz do século XIII. Esse maravilhoso edifício começou a ser construído cm 1194 c foi terminado cm 1240. A IGREJA E A CIÊNCIA a graça dc Deus. 132. Com efeito. a mover "Em Chartres. na Inglaterra. época caracterizada não só pelo fervor religioso c pelo heroísmo de um São Francisco de Assis. Scott. Dia após dia. homens. "Enquanto as linhas predominantemente horizontais dos templos grcco-romanos simbolizavam uma experiência religiosa dentro de limites naturais . pelo estudo c pela erudição. Estimulados pelos seus sacerdotes. perseveravam nesse 115 Robcn A. pág. Um dos estudos mais recentes sobre a catedral gótica deve-se a um sociólogo da Universidade dc Stanford. 116 Stanley L. Para construir um edifício que embelezasse a sua cidade c satisfizesse as suas aspirações religiosas. Os pecadores podiam ser movidos ao arrependimento e à busca da perfeição ao vislumbrarem o mundo dc perfeição espiritual em que Deus habitava: um mundo sugerido pela regularidade geométrica das catedrais"115. Poucos são os que não se deixam conquistar por essas obras dc arquitetura. Um período histórico capaz dc produzir tão magníficas obras dc arquitetura não pode ter sido de completa estagnação c trevas. como também pelas universidades. cm Püttems or Principies and Olher Essays. encontramos uma esplêndida imagem da bela devoção dos habitantes dc uma região que erigiram uma catedral magnífica. The Cothic Enterprise. que simplesmente se apaixonou pela catedral de Salisbury. 75.

págs. 117 Erxvin Panofskv. 69-70. em lugar de. Outros trabalhavam na própria catedral.emergiam dc um ambiente intelectual c cultural comum. 107 A construção da catedral gótica tem sido.de quem Sào Tomás de Aquino foi o exemplo mais ilustre .. mas fa.por exemplo. Cothic Architeclure and Scholasticism. 1985 (1951). em tarefas que requeriam maior destreza. Forneceu exemplos c mais exemplos de intrigantes paralclismos entre as Sumas cscolásticas e a catedral. As suas Summae .. que não sc tratava dc uma coincidência c que ambos os fenômenos .construíram todo um sistema intelectual. conciliava posições conflitantes provenientes de fontes dotadas de igual autoridade . sugestivamente.nas quais exploravam todas as questões mais importantes relativas a um tema eram tratados sistemáticos c coerentes cm que cada conclusão particular se relacionava harmonicamentc com todas as outras. New York.V. ao examinar as questões disputadas. . Meridian Books.ziam-no com igual devoção [. A IGREJA E A CIÊNCIA fatigante esforço. extenuados pelo trabalho do dia. A sua dedicação c devoção marcaram época naquela parte da França"". o tempo que sobrava era dedicado a confissões e orações. adotar uma c suprimir a outra117. de dois Padres da Igreja aparentemente cm desacordo -. tal como os vários elementos que compunham a catedral gótica trabalhavam juntos para criar uma estrutura dc extraordinária coerência interna. lirvvin Panofsky acrescenta.a cscolástica c a arquitetura gótica . credita da à mentalidade cscolástica. mas de erguer edifícios inteiros do pensamento. simplesmente. às vezes. Os cscolásticos . nào sc preocupavam apenas dc responder a esta ou àquela questão. Quando paravam ã noite.]. Assim como um tratado cscolástico. a catedral gótica sintetizava as características das tradições arquitetônicas precedentes.

A ARTE. cm oposição à abordagem mais estilizada . assim como uma ênfase cada vez maior na vida mundana. tinham um profundo respeito pela herança da antigüidade clássica. pois. Não é fácil encaixar esse período em categorias nítidas. pintava as figuras humanas com uma tendência realista. Um século antes do que se considera normalmente o início do Renascimento. parece cm certa medida anunciar a chegada do mundo moderno: há um sccularismo crescente. enquanto cuidava dc ovelhas. o medieval Giotto di Bondone (1266-1337). e. elevando-a a novos cumes. tal como algumas figuras cxponcnciais do Renascimento. As técnicas que Cimabue empregou para dar profundidade aos seus quadros. o grosso da produção artística renascentista foi dc obras de natureza religiosa. Giotto seguiu essa linha. é graças ao patrocínio dos papas da época. conhecido simplesmente como Giotto. Por outro lado. foram da maior importância. Conta-se dele que aos dez anos. há elementos suficientes para descrevê-lo como o auge da Idade Média. que viriam a exercer uma influência substancial nas subseqüentes gerações de pintores. se hoje as podemos apreciar. em três dimensões. como também o modo como individualizou as figuras humanas. mais do que no mundo vindouro. usava um pedaço de giz para desenhar as ovelhas nas rochas. que houvesse católicos inclinados a rejei. Por um lado. Não é dc estranhar. por exemplo. Além disso. ~ O próprio Giovamii Cimabue (1240-1302) foi um artista inovador: ultrapassando o formalismo da arte bizantina.tá-lo dc cabo a rabo. abundam. E que Cimabue ficou tão impressionado com esses desenhos que pediu ao pai do menino permissão para educá-lo na arte da pintura. mais do que como uma ruptura com o passado: os medievais.VI. os contos imorais. Giotto nasceu em 1267. perto de Florença. já havia antecipado muitas das inovações técnicas e artísticas que fariam a glória da Renascença. A ARQUITETURA E A IGREJA O RENASCIMENTO I 15 A maior explosão dc criatividade c inovações no mundo da arte desde a Antigüidade teve lugar durante o Renascimento dos séculos XV c XVI. c é na Idade Média que encontramos as origens das técnicas artísticas que viriam a ser aperfeiçoadas no período seguinte. ainda que não a aceitassem dc modo tão acritico como o fizeram alguns humanistas.

c a astrologia ganhou ainda maior influência. imperou o espírito sccularista. na qual os rostos dificilmente sc distinguiam uns dos outros.dade . 53-54. isenta dos padrões de certo e errado pelos quais se costuma medir o comportamento dos indivíduos. Podcr-sc-ia até dizer que o Renascimento foi. começaram a perder o seu lugar para as virtudes ativas como objeto de admiração.I 15 que oVI. tão admiradas na Idade Média. sob muitos aspectos. só sc espalharam a partir do final do século XV c durante o XVI. Embora raramente se negasse de um modo explícito a doutrina do pecado original. a glorificar a vida ativa mundana. que o Renascimento se desenvolveu a partir da Idade Média. Também a vida cientifica de toda a Europa permaneceu cm gestação: se excetuarmos a teoria do universo dc Copérnico. foi um período dc retrocesso. O sccularismo estcndcu-sc também à filosofia política: cm O Príncipe (1513). Maquiavcl concebeu a política cm moldes puramente seculares. Mas em áreas nào relacionadas com a arte. da sua dignidade e das suas capacidades.se sc removessem os séculos XV c XVI. E a filosofia ocidental. a história da ciência ocidental entre 1350 c 1600 é dc relativa estagnação. Em outras palavras. c descreveu o Estado como uma instituição moralmente autônoma. Com o advento do Renascimento. "The Rcnaissancc Mvth". divorciadas dos eleitos regeneradores da graça sobrenatural. As virtudes contemplativas. erroneamente associadas à Idade Média. um entendimento secular dos conceitos dc utilidade c pratici. assistimos à exaltação do homem natural. As perseguições às bruxas. Passou a haver patrocinadores fora dos quadros da 118 James Franklin. cm seu lugar. começou a dominar uma visão muito mais inclinada a celebrar a natureza humana c as suas capacidades potenciais. assim. A ARTE. como manifestava a tradição monástica. a do homem comum da cidade. um tempo de irracionalismo. O estudo da literatura inglesa c continental nào sentiria praticamente nenhuma falta com algumas honrosas exceções . foi nessa época que a alquimia alcançou o seu auge. Do que não há dúvida é de que. durante o lluminismo . . durante o Renascimento. nov 1982.que triunfaria mais tarde.começou a menosprezar a vida dos monges e. págs. Esse sccularismo começou a invadir igualmente o mundo da arte. Por exemplo. teve comparativamente muito pouco a mostrar nesse período118. que havia florescido nos séculos XII e XIII. em QuaJrant (26). A ARQUITETURA E A IGREJA precedeu. Pode-se dizer.

o visionário soldado que sc tornou psicólogo.deixa entrever que esse mundo. A Catholic Enciclopédia aponta a importância desse papa ao afirmar que: "Quando se discutiu sc a Igreja devia absorver ou rejeitar e condenar o progresso. cit. Esse teor dc vida não obedecia ao medo à Inquisição. Michclangelo c Rafael produziram algumas das mais memoráveis obras dc arte. os auto-retratos c as paisagens. Júlio II teve o mérito dc sc pôr do lado da Renascença e preparar a plataforma para o triunfo moral da Igreja. Os papas.a Catedral de São Pedro de Bramantc c o Vaticano de Rafael c Michclangelo . cm particular Júlio II c Leão X. mas à singela crença de que a vida do homem devia pautar-se pela fé que havia inspirado os grandes santos das gerações precedentes. antes dc começar a trabalhar.Igreja. Segundo Kcnncth Clark. As grandes criações dc Júlio II . com figuras como Santo Inácio dc Lóvola. houve nesse período um enorme volume dc obras artísticas que tinham por objeto temas religiosos. 1995. cm Joseph E. IS6. CMlisalbtt. autor da aplaudidíssima série da BBC Civilização: "Guercino passava muitas das suas manhas cm oraçáo: Bernini assistia freqüentemente a retiros c praticava os Exercícios Espirituais dc Santo Inácio: Rubens ia à missa todos os dias. Fair. Connccticut. que figuras como Bramante. longe de ser um mero estágio entre a existência temporal e a felicidade eterna.tão evidente na arte renascentista . MacDonnell. pig. era considerado algo bom em si mesmo e merecia ser cuidadosamente estudado c reproduzido. sc devia ou nào associar-se ao espírito humanista.. A ARQUITETURA E A IGREJA isso I 15 os temas artísticos começaram a mudar. Companions of Jesuits: A Tradilioit of Cotloboraiion. e sob o seu patrocínio. A segunda metade do século XVI foi um período dc santidade na Igreja Católica [.. Foi durante o pontificado de Júlio II. Humanilics Institutc. e muitas delas procediam dc homens cuja arte sc inspirava profundamente em uma fé religiosa sincera c arraigada. Não é preciso ser católico praticante para sentir respeito pelo meio século que foi capaz dc produzir esses grandes espíritos"119. .ficld.1. Apesar disso. O propósito dc retratar tão exatamente quanto possível o mundo natural .são inseparáveis das grandes idéias dc humanismo c cultura representadas pela Igreja 119 Kcnncth Clark. todos seculares por natureza. Prosperavam agora os retratos. foram grandes mecenas dc muitos desses artistas. c comVI. A ARTE.

para reunir os gênios artísticos e literários c os embaixadores mais competentes de toda a Europa. "De todos os lugares . O trabalho desenvolvido pelos papas.langclo.mações poéticas e exposições de arte. educadores.Católica. The Renaissance.] homens dc letras apressam-se a acorrer à Cidade Eterna. a história nunca viu nada igual no campo da cultura. não da arte . de espetáculos teatrais ou musicais. nem sequer na Atenas dc Périclcs ou na Roma de Augusto"120. Mesmo cm termos meramente quantitativos. observou um embaixador.s. protetora c mecenas". As obras dc Rafael cresceram ainda mais cm excelência sob o pontificado dc Leão X. A criação renascentista preferida por nós. de banquetes requintados. Roma tornou-se. . mas sim da literatura c do brilho do Renascimento. 1953. O mesmo sc pode dizer dc Leão X. o papa voltava-se para Rafael".escreveu um cardeal cm 1515 -. cm fins do século XVI. New York. de Nicolau V ao próprio Leão X. tornando-se linguagem de algo mais alto. é uma obra impressionantemente tocante.langelo. "Em tudo o que se referia à arte. o cenário de solenes cerimônias eclesiásticas. Novamente. o símbolo da mais nobre das harmonias jamais realizadas pela natureza humana. 484. fez da corte de Leão o zéni. decla. já vinha constituindo um gênero artístico havia centenas de 120 Will Duram. A ARQUITETURA E A IGREJA Aqui I 15 a arte ultrapassa-se a si própria. cm 1518". sem dúvida alguma. pág. A ARTE. que deu continuidade ao patrocínio do seu predccessor a esse pintor dc excepcional categoria. Era. o lugar onde estudiosos. VI. quando observa que a corte de Leão X era "o centro do intelecto c da sabedoria de Roma.porque este fora alcançado sob Júlio II -. impregnada dc uma profunda sensibilidade católica. Nos tempos de Miche. o lugar dc encontro c o epicentro dc tudo o que era grande no campo da arte e do pensamento"". para melhorar e embelezar o Vaticano. a pietà.. artistas e músicos eram bem-vindos e hospedados. que representava a Virgem Maria com o seu divino Filho nos braços depois de crucificado. de recepções diplomáticas. a mais refinada cortc do mundo naquele tempo. Por decisão desse homem extraordinário. poetas.te. a Pietà dc Miche. sua pátria comum. embora lhe tenham faltado o gosto impecável c a capacidade de discernimento de Júlio II. MJF Book. podemos confiar no juízo de Will Durant.

talvez o traço mais característico da pintura renascentista. porque. Essa é a mulher que vemos na escultura dc Michclangelo: tão confiante nas promessas de Deus e tão perfeitamente conformada com a vontade dc Deus que é capaz dc aceitar serenamente. com espirito dc fé c igualdade dc ânimo. a conformidade dc Maria com a vontade dc Deus. Foi só através da influência ocidental que os artistas posteriores . EssasVI. mas foram os artistas ocidentais que lhes deram nova vida. como evento central do drama da Redenção. sc a desobediência dc Eva levou a humanidade à perdição. que sc traduziu em uma grande quantidade dc representações do sofrimento na arte religiosa". Foi no Ocidente que se desenvolveu a arte da perspectiva a representação dc imagens cm três dimensões cm um plano bi-dimcnsional -. ao consentir em trazer no seu seio o Homem-Deus. Maria é chamada a "segunda Eva". as nossas observações sobre a arte podem acrescentar ainda outra explicação para o singular êxito da ciência no Ocidente. A ARQUITETURA E A IGREJA pri. Mas a intensidade desse sofrimento é significativamente atenuada na primeira e mais famosa das duas Pietàs de Miche.I 15 meiras pietàs eram.anos. desagradáveis dc se ver. mais ou menos a partir dc 1300. ARTE E CIÊNCIA Ao avaliarmos as contribuições da Igreja para o desenvolvimento da ciência moderna. Correspondiam a um período dc terríveis desastres e tragédias humanas. sc demonstraram conaturais ao surgimento da pesquisa científica. mas representa o rosto da mãe dc Cristo com traços dc inegável serenidade. como é o caso da a Pietà Ròtigen (cerca dc 1300-1325). o terrível destino do seu divino Filho. na qual uma figura dc Cristo contorcida e ensangüentada está deitada no colo dc uma mãe esmagada pela aflição. tornou possível a redenção da humanidade. com freqüência. assim como o chiaroscuro. vimos brevemente como certas idéias teológicas e filosóficas fundamentais. o uso de luz e sombra. derivadas do catolicismo. Tratase da descoberta dc perspectiva linear. Surpreendentemente. particularmente por causa da ênfase que se punha na crucifixão mais do que na ressurreição (ao contrário do que fizeram os ortodoxos c os protestantes). essa Pietà preserva a tragédia daquele terrível momento. Considerada como a mais grandiosa das esculturas em mármore de todos os tempos. Desde o século II. Essas duas características já existiam na arte da antigüidade clássica.langclo. A ARTE.

pág. Em The He ri t age of Giotlo's Gcotnelry. O objetivo da comparação dc Edgcrton é sublinhar que "a perspectiva geométrica e o chiaroscuro. às vezes considerado o fundador da ciência moderna.escreve -. a idéia de Deus como geômctra c da geometria como a base sobre a qual Deus ordenou a sua criação era uma constante no mundo católico. Edgcrton Jr. Como vimos. Começa por comparar duas representações de uma mosca. Samuel Edgcrton compara a arte da perspectiva desenvolvida na préRenascença e na Renascença européias com a arte de outras civilizações. estamos convencidos dc que. 1991. Ilhaca. No tempo da Renascença. c mostra que a ocidental está muito mais alenta à estrutura geométrica da mosca. como sarcasticamcntc observou Artur Walcy.. com todas as partes que o compõem representadas em conexões geométricas estáticas c objetivas. A ARTE. essa abordagem é. convenções da arte da Renascença européia. sc quisermos entender a estrutura dc um objeto orgânico ou inorgânico. Também a inclusão da perspectiva geométrica na arte foi produto do ambiente intelectual específico da Europa católica. devemos encará-lo primeiro como uma nature morte (como uma natureza morta dc Jean-Baptiste Chardin. Para um chinês tradicional. absurda". os primeiros Padres da Igreja intuíram que podiam descobrir na geometria euclidiana o próprio modo dc pensar dc Deus. Nessas pinturas. . dcmonstraram-sc extremamente úteis para a ciência moderna"". É por isso que esse autor sugere que não foi uma coincidência que Giotto. «Pòncio Pilatos c um bule dc café sâo ambos massas cilíndricas verticais». uma ocidental e outra chinesa. Comcll Univcrsilv Press. o precursor e na verdade o fundador da arte renascentista. "No Ocidente . A ARQUITETURA E A IGREJA todo I 15 o mundo esses princípios à sua arte tradicional121. c Galileu. tivessem nascido ambos na Toscana c que a cidade toscana dc Fiorença tenha sido o berço tanto dc obras-primas artísticas como dos progressos científicos. sejam ou não esteticamente elegantes. explica Edgcrton: "Crescia no Ocidente uma singular tradição arraigada na doutrina católica medieval: estava-se tornando socialmente de rigor que a «gente bem» conhecesse a geometria euclidiana. por exemplo). "A perspectiva geométrica linear foi rapidamente 121 Samuel Y. estética c cientificamente. 10. Mesmo antes do século XII. The Herilage of Gtotto s Geomeiry: An and Science on lhe E\r of lhe Scienlific Revohuion.aplicaram cmVI.

I 15 aceita naVI. . 289. A atração católica pela geometria levou a um modo de retratar o mundo natural que ajudou a tor nar possível a Revolução Científica c que seria copiado pelo resto do mundo nos anos posteriores. como ela passou a servir para reforçar na ciência ocidental a crescente convicção otimista e generalizada dc que se linha finalmente penetrado no processo da mente de Deus c de que o conhecimento (c o controle) da natureza estava potencialmente ao alcance dc qualquer ser humano"122. trouxe frutos imensamente importantes tanto no campo da arte como no da ciência. ao contemplarem uma imagem artística assim criada. A ARQUITETURA E A IGREJA Europa ocidental após o século XV. Galileu. não só sc manteve o imprimatur cristão da perspectiva. Por volta do século XVII. A ARTE. captavam «ma réplica da própria estrutura essencial da realidade subjacente que Deus havia concebido no momento da criação. porque os cristãos acreditavam que. quando os «filósofos naturais» (como Kepler. 122 Ibid. pág. Descartes e Newton) foram compreendendo cada vez mais que a perspectiva linear coincide efetivamente com o próprio processo ótico e fisiológico da visão humana. Foi assim que o empenho que a Igreja Católica pôs no estudo da geometria euclidiana. como chave para desvendar a mente de Deus c a base sobre a qual Ele ordenou o universo.

Um século depois. Colombo foi um corajoso e hábil navegador que aproximou dois mundos c mudou a história para sempre. o clima era dc celebração. Kirkpatrick Salc descreveu os acontecimentos de 1492 como "a conquista do paraíso". O debate sobre as conseqüências desse encontro dc culturas passou a ser polêmico. como sugerem os seus admiradores dc hoje cm dia. que vão da devastação ambiental às atrocidades que culminaram no gcnocídio. o ânimo reinante era muito mais sombrio. c de que as populações nativas não eram pacificas nem se preocupavam com a preservação da natureza. mais do que da Exploração ou da força militar. Os defensores dos europeus em geral. particularmente na sua utilização como mão dc obra escrava. Pôs a ênfase nos maus-tratos infligidos pelos europeus à população indígena. neutro do ponto dc vista moral). c dc Colombo cm particular. AS ORIGENS DO DIREITO INTERNACIONAL Em 1892. portanto. contestaram afirmações como as dc Kirkpatrik com o argumento de que os crimes dos europeus foram exagerados. Os Cavaleiros dc Colombo chegaram a propor a sua canonização. por ocasião dos quatrocentos anos da descoberta da América por Cristóvão Colombo. Hoje. . c assim por diante. de que a maior mortandade entre os nativos foi conseqüência das doenças introduzidas pelos conquistadores (um fato involuntário c. Colombo é acusado dc todo o gcncro de crimes terríveis.VII. do qual povos pacíficos c amigos da natureza foram violentamente expulsos pela avareza dos conquistadores europeus.

Oxford University Press. Fernándcz-Santamaría. Em um sermão dramático sobre o texto Eu sou a voz que clama no deserto. Foi por essa reflexão filosófica que os teólogos espanhóis atingiram algo muito substancial: o nascimento do direito internacional moderno. Com efeito. a Igreja Católica deu origem a um conceito claramente ocidental.. . Até então. As controvérsias em torno dos nativos da América forneceram-lhes uma oportunidade para elucidar os princípios gerais que os Estados estão moralmente obrigados a observar nas suas relações mútuas. as leis que regiam essas relações eram vagas e nunca tinham sido articuladas de um modo claro. 60-61. 1977. | tenham provocado entre eles sentimentos de auto-crítica ou reflexões filosóficas que sc pudessem comparar àquelas que os erros dc comportamento dos europeus provocaram entre os teólogos da Espanha do século XVI. 1963. WOODS JR. Consideremos aqui esta questão de um ponto dc vista que é freqüentemente esquecido. UMA VOZ NO DESERTO A primeira grande reprovação dc um eclesiástico que se fez ouvir contra a política colonial espanhola dcu-sc cm dezembro dc 1511. 98: José A. nem que os sacrifícios humanos coletivos que os astccas promoviam e que considera. um frade dominicano chamado Antônio de Montesinos <?-l 545). p. E foi a descoberta do Novo Mundo que levou a estudã-las c perfilálas123.íg. Os estudiosos do direito internacional debruçam-sc com freqüência sobre o século XVI para encontrar as fontes dessa disciplina. The State. 123 Bcmicc Hamilton. Warand Peace: Spanish PolíticaI Thonght in the Renaissance. pág. tenha tido qualquer escrúpulo moral nas suas conquistas.116 THOMAS F.\ vam tão fundamentais para a sobrevivência da sua civilização. o rei dos hunos. na ilha de Hispanhola (atual Haiti e República Dominicana). Os relatos dos maus-tratos espanhóis aos nativos do Novo Mundo provocaram uma crise dc consciência cm importantes setores da população espanhola no século XVI. Londres. nenhum dado histórico permite supor que Átila. Cambridgc University Press. novamente. 151 A-1559. Púlitieal Thooght in Sixieenth-Century S/mm. Este fato indica por si só que estamos perante uma questão pouco usual em termos históricos. Cambridge. nào apenas entre filósofos c teólogos. Aqui.

Montesinos que voltasse a pregar no domingo seguinte e fizesse o possível para explicar o que havia dito c tranqüilizar os ouvintes desgostosos. ergueram um vigoroso e ruidoso protesto. E os dominicanos ordenaram ao pc. não com pouca atenção.) Por acaso não são homens? Não possuem almas racionais? Não estais obrigados a amá-los como vos amais a vós mesmos? [. entre os quais o almirante Diego Colombo. a mais áspera. Quando chegou o momento da esperada retratação.Talando cm nome da pequena comunidade dominicana da ilha. Brown and Co. mas com todo o vosso coração c sentidos..]. vós os matais pelo vosso desejo de extrair c adquirir ouro todos os dias.. 17-18): Estou pronto para defender a minha causa. Esta voz diz que estais cm pecado mortal. por isso.. não podeis ser salvos mais do que os mouros ou os turcos"124.. o sermão. Aturdidos com essa forte admoestaçào.] Estai certos dc que. Montesinos utilizou como base do seu sermão um versículo de Jó (13. pronunciado na presença dc importantes autoridades espanholas. Litlle. os chefes da ilha. The Spanish Sirug&le for Justice m the Conquest of America. a mais terrível e a mais audaz que jamais esperásseis ouvir [. convém que me escuteis.. Boston. sou uma voz dc Cristo clamando no deserto desta ilha e. pág. em uma situação como esta. Dizci-mc com que direito ou justiça mantendes estes índios em tão cruel e horrível servidão? Com que autoridade empreendestes uma detestável guerra contra este povo que habitava quieta e pacificamente na sua própria terra? Por que os opri. adoecem c morrem. porque será a voz mais estranha que jamais tereis ouvido. E assim deve ter ocorrido: "Subi a este púlpito para desvendar os vossos pecados contra as índias.. E que cuidado pondes cm fazer com que sejam instruídos na religião? [. Montesinos sc retratasse das suas assustadoras afirmações.mis c fazeis trabalhar até à exaustão. E começou a repassar todas as acusações que fizera na semana anterior c a demonstrar 124 Lcwis Hankc. sei que sou eu quem tem razào. pela crueldade e tirania com que tratais este povo inocente. que viveis e morreis nele. 17 . exigindo que o pc. c não lhes dais o suficiente para comer nem cuidais deles nas suas enfermidades? Pelo excesso dc trabalho que lhes impondes. ou melhor. 1965 11949). fez uma série de críticas c condenações ã política espanhola para as índias.. "teve por fim chocar e causar terror entre os ouvintes". De acordo com o historiador Lcwis Hankc.

. chegou a ser chamado "o pai do direito internacional" 125. FRANCISCO DE VITÓRIA Entre os mais ilustres desses pensadores estava o pe. O titulo coincide com o do livro do protestante holandês Hugo Grotius. Uma tentativa de impedi-los dc serem recebidos falhou quando um franciscanoJ que fora enviado à Corte para falar contra os dominicanos na ilha de Hispanhola. New York. particularmente pela grande distância que separava a Coroa espanhola do cenário dos acontecimentos no Novo Mundo. por isso. Grande parte dessa legislação cm beneficio dos nativos rcvclou-sc desapontadora na sua aplicação c execução.. Quando esses dois sermões foram levados ao conhccimcntoj do rei Fernando. o rei reuniu um grupo dc teólogos e juristas com a missão dc elaborar leis que regulassem! as relações dos oficiais espanhóis com os indígenas. cm 1542. Em face do dramático testemunho a respeito da conduta] dos espanhóis no Novo Mundo. foi convencido por Montesinos a abraçar a posição dos dois dominicanos. Vitória lançou as bases da teoria moderna do direito internacional c. Assim nasceram as Leis de Burgos (1512) c dc Valladolid (1513). Concluiu dizendo às autoridades presentes que nenhum dos frades os ouviria cm confissão (uma vez que os oficiais espanhóis da colônia não tinham nem contrição nem qualquer propósito dc emenda) e que podiam escrever a Castela c contar o que lhes apetecesse a quem quer que fosse4. as censuras do frade tinham sido tão distorcidas que causaram surpresa tanto ao rei como ao próprio provincial dominicano. Mais tarde. 24.118 THOMAS F. na Espanha. The Universal Htinger for Uberty. Mas esse primeiro esforço crítico ajudou a preparar o terreno para o trabalho mais sistemático e duradouro de alguns dos grandes teólogos c juristas do século XVI. que nenhuma tinha sido sem fundamento. pág. e cm todo o caso 125 Michael Novak. Basic Books. Montesinos c o seu superior embarcaram para a Espanha a fim dc apresentarem ao rei o seu lado da história. 2004. WOODS JR. acrescentaram-se as chamadas Novas Leis. Destemidamente. Com as suas críticas à política espanhola. com base cm argumentos semelhantes. Francisco de Vitória (cerca dc 1492-1546).

IX. Hispanic Philosophy in the Age of Discovery. ocupou a cátedra de teologia na Universidade de Salamanca. DC. [ proferiu uma famosa série dc conferências que. Northern Illinois University Press. portanto. c ao fazê. Quando foi convidado a participar do Concilio de Trento. School of Forcign Scrvicc. mais tarde. 66. quem trouxe uma grande contribuição para o primeiro tratado sobre o direito das nações. Tinha freqüentado a Universidade dc Paris.-lo. 65. questões mais gerais e universais. proclamou o direito à vida. "Ali Mankind Is Onc". inevitavelmente. Apoiado por outros teólogos c juristas. pág. Que conduta deviam os Estados obrigar-sc a 126 Marcelo Sánchez-Sorondo. que assentou importantes princípios dc direito internacional no con-. onde completara os seus estudos cm artes liberais c prosseguira os dc teologia.. cd. A study of the Disputation Between Rartolo >né de Ias Casas and Jnan Ginés de Septilveda in 1550 on the Intellectnal and Religious Capacitv of the American Indians. c. 127 Carl Watncr. fo-! ram publicadas como Sobre os índios e a lei de guerra. 1928. Mas esse grande pensador foi mais conhecido pelos seus comentários sobre o colonialismo espanhol no Novo Mundo e o valor moral dos atos dos conquistadores.ghts". Para respaldar as suas afirmações. Em 1532. Vitória ingressara na Ordem dominicana cm 1504. pág. Washington. pág. 1974. no Colégio de Sào Gregório. . 1977. onde continuou a dar as suas aulas dc teologia. cm Kcvin Whitc. Illinois. DC. 294. em 1523. recorreu tanto às Escrituras quanto à razão. para Valladolid. Tinham os espanhóis direito a possuir terras americanas cm nome da Coroa? Quais eram as suas obrigações em relaçáo aos nativos? Tais assuntos levantavam.ção no seio da qual nasceriam tantas linhas dc pensamcntoF profundas cm tantas áreas ao longo do século XVI. Walncr cl citado por Lc. "Vitoria. "proporcionou ao mundo da sua época a primeira obra-prima do direito das nações. 142. Gcorgctown University. institui. The Spanislt Origin of International IMXV. Nascido por volta de 1483. pág. declarou que gostaria mais de viajar para o Novo Mundo. e assim o fez cm 1546. Tinha lecionado em Paris até mudar-se. Washington. 128 James Brown Scott. texto da defesa dos direitos dos índios. Foi um sacerdote católico. The Original Philosophcr of Ri.Kalb. à cultura c à propriedade"127.wis I lankc cm Ali Mankind is One. Três anos depois. "defendeu a doutrina de que todos os homens são igualmente livres. Calholic University of America Press. com base na liberdade natural. tanto cm tempo dc paz como de guerra"128.é considerado o homem que "propôs pela primeira vez o direito internacional cm termos modernos"126.

Possuíam as suas terras de acordo com os mesmos princípios pelos quais os espanhóis 129 Ibid. O pe. Os índios do Novo Mundo eram. WOODS JR.120 THOMAS F. o direito à propr iedade privada) pertencia a todos os homens. Foi isso o que Vitória quis dizer: o tratamento a que todo e qualquer ser humano tem direito . Nenhum católico sustentaria que é um crime menos grave matar uma pessoa não batizada do que uma batizada. aqueles que estão cm graça dc Deus não são nem um pouquinho melhores que o pecador ou o pagão"129. Domingos de Soto. . . observar nas suas relações mútuas? Quais as circunstâncias em que sc podia considerar justa a guerra declarada por um Estado? Tratava-se obviamente dc questões fundamentais para a teoria do moderno direito internacional. de não ser assassinado. mesmo que fossem pagãos ou tivessem costumes considerados bárbaros. o homem tem o direito de receber dos seres humanos. não anula a lei humana natural. pela sua posição. pág. Era c continua a ser um lugar comum entre os pensadores cristãos a idéia de que o homem goza de uma posição única dentro da Criação. Vitória afirmou que o homem não podia ser privado da sua capacidade civil por estar cm pecado mortal e que o direito de possuir coisas para uso próprio (isto é. que procede da natureza racional: 2) nada do que pertence ao homem por natureza pode scr-lhe tirado ou concedido em função dos seus pecados''.. iguais aos espanhóis cm matéria dc direitos naturais. Criado por Deus â sua imagem e semelhança c dotado dc uma natureza racional. Foi com base nisso que Vitória continuou a desenvolver a idéia de que. não dc que seja um fiel em eslado de graça. ctc. explicou a questão cm termos muito claros: "No que concerne aos direitos naturais. portanto. IGUALDADE SEGUNDO A LEI NATURAL Vitória procurou cm São Tomás de Aquino dois princípios importantes: 1) a lei divina. o homem possui uma dignidade da qual carecem todas as demais criaturas11. seus semelhantes.por exemplo. um tratamento que nenhuma outra criatura pode reivindicar.. expropriado dos seus bens. 253. A partir desses princípios tomados de São Tomás.deriva da sua condição dc homem. colega de Vitória na Universidade de Salamanca. que procede da graça.

Era à luz desse princípio que a Europa cristã devia moldar as suas políticas relativas ao Novo Mundo. "os longínquos principados da America eram Estados e os seus súditos gozavam dos mesmos direitos e privilégios e estavam sujeitos aos mesmos deveres dos reinos cristãos da Espanha. "Na concepção desse bem informado e equilibrado professor dc Salamanca . que o direilo natural nào existe apenas para os cristãos. Fez notar que as conhecidas advertências da Escritura sobre a obediência devida às autoridades civis tinham sido feitas no contexto de um governo pagão. em cujo entender não sc devia usar de coação para converter os pagãos à fé. uma vez que (são palavras dc São Tomás) "crer depende do querer" c. c nem os seus príncipes nem as pessoas privadas podem espoliá-los das suas propriedades. Como bom tomista. da sua religião ou da dos seus súditos. cidadãos e habitantes.possuíam as deles".disse Vitória -M não pode ser deposto simplesmente por ser pagão 11. tal como os cristãos. cm um caso análogo. eram iguais à face do sistema de leis que ele professava" w. c era obrigado a respeitar os direitos dos outros. que os aborígenes tém indubitavelmente verdadeiros direitos soberanos em matérias públicas c privadas. da sua civilização avançada ou incipiente. Isto é. Vitória pensava que os povos do Novo Mundo deviam permitir aos missionários católicos que pregassem o Evangelho em suas terras. defendiam a existência de "um sistema ético . mas para qualquer ser humano. Sc um rei pagão não cometeu nenhum crime . De acordo com esse pensamento. Fora por essa razão que. invocava São Tomás de Aquino. que os príncipes pagãos governavam legitimamente.escreve um admirador do século XX os Estados. sob a alegação de não serem verdadeiros proprietários" Sustentou também. pois. Cada Estado tinha os mesmos direitos que qualquer outro. independentemente do seu tamanho e forma de governo. Mas insistia taxativamente cm que a rejeição ■ do Evangelho não era motivo para uma guerra justa. portanto. o IV Concilio de Toledo (633) condenara a prática de obrigar os judeus a receber o batisVitória e os seus aliados defendiam. pois. tal como os seus colegas escolásticos Domingos dc Soto e Luis de Molina. tem dc ser um ato livre 16. França c Europa em geral"15. Escreveu: "A conclusão de tudo o que precede é.

Consideravam também que todos os homens possuem o senso básico do ccrto e do errado. Political Tltoiighl in Sixteenth-Centurv Spain. 61. com São Paulo. 21.-Santamaría. porque a diminuição das suas qualidades intelectuais nào anulava o seu direito à propriedade privada.) 131 Bcrnicc Hamilton.c neste ponto Vitória hesita . não estavam ern seu perfeito juízo (eqüivalendo a menores de idade) e. participavam dos direitos humanos. de onde sc podiam deduzir as obrigações internacionais. 24. 130 Chama-se comumcnic "regra áurea" da moral ao princípio dc "nflo fazer aos outros o que nâo queremos que nos façam" (N. "Em conclusão. "Vitoria: The Original Philosophcr of Ri. War and Peace. 14)James Brcnvn Scott. pág. do E.ghts". pág. o que. Afirmavam. por isso. 8. mas sc sustenta por si mesmo"". 17)'Marcelo Sánchez-Sorondo.. pelo menos. pág. . a. pág. possuem o direito à propriedade dos bens. levava à "firme convicção de que os índios do Novo Mundo. 133 José A. 122 natural que não depende da revelação cristã nem a contradiz.alguns teólogos praticamente chegavam a identificar ambos esses sistemas com a própria lei natural -. 67.. 15)Ibid. resumido nos Dez Mandamentos e na regra áurea130 . q. mas . IMI. I. que a lei natural está inscrita no coração humano e que. pág. Political Thotighl in Sixteenth-Centitrv Spain. por sua vez. 41. Vitória respondeu que uma deficiência de razão em uma parcela da população nào justificava que se subjugasse ou espoliasse essa parcela. 132 Ibid. assim como quaisquer outros povos pagãos. 13)Bcmicc Hamilton. existia uma base sobre a qual estabelecer regras internacionais de conduta que obrigassem moralmente mesmo os que nunca tivessem ouvido falar do Evangelho (ou que o tivessem rejeitado). 16)Sttmma theologiae. WOODS JR. não se justificando o seu desrespeito por parte de qualquer civilização ou religião superior"132'.10. Tltc Spanish Origin of International Law. Alguns teólogos apontaram que a lei natural manifesta "o abismo existente entre o homem e o resto dos animais e do mundo criado"131. The State.. pág. Aos que afirmavam que os nativos do Novo Mundo careciam dc razão ou que.THOMAS F. por essa razão. Fcmándc/.se podem ou não dispor desses bens é uma questão que deixo aos juristas"133.. não podiam possuir bens.

a razão é uma qualidade específica do homem. cscrcveu: "Na verdade. Nem Deus nem a natureza falham em dotar as espécies daquilo que lhes é necessário. o frade cujo famoso sermão provocou toda a controvérsia. têm magistrados. possivelmente.ca. Sugeriu que os nativos fossem "tratados com toda a suavidade. Também não se enganam em coisas que são evidentes para os ou tros. Ora. Las Casas. sugeria Vitória. Nessas suas duas últimas frases. o que revela que usam da razão. Estavam sem dúvida alguma dotados de razão. leis [.. não são irracionais. c uma potência que não sc atualizasse seria vã". de acordo com a doutrina de Cristo". Las Casas sustentou que os nativos estavam muito longe do nível dc cnvilccimenio implícito na concepção do filósofo c armou-sc para combatê-la. . BARTOLOMÉ DE LAS CASAS Ainda que Vitória tenha sido. o que é uma faculdade característica da pessoa humana. Isto é evidente. bascando-sc cm que "temos a nosso favor o mandamento dc Cristo: ama o próximo como a 78. cuja doutrina parece ter sido muito influenciada pelos mestres de Salaman.. que nos proporcionou toda a informação que possuímos sobre Antonio Montesinos. tem cidades ordenadas. Vitória quis dizer que não era possível admitir que houvesse uma parte da raça humana privada do uso da razão. o mais sistemático de todos os pensadores que estudaram essas questões no século XVI. talvez o crítico mais conhecido da política espanhola tenha sido o sacerdote e bispo Bartolomé de Las Casas (ccrca dc 1474-1566). Contra os que pretendiam que os nativos constituíam um exemplo daqueles que Aristóteles descrevera como "escravos por natureza". pois Deus não falharia cm dotá-la do dom que confere ao homem a sua especial dignidade entre as criaturas". governantes.Em qualquer caso.]. Desenvolvendo o princípio de Aristóteles de que a natureza nada faz cm vão. porque organizam as suas ocupações. compartilhou a posição de Vitória a respeito da capacidade de raciocínio dos indígenas. celebram casamentos. mas possuem o uso da razão a seu modo. devíamos ter cm conta que os índios americanos não eram irracionais.

Um estu dioso denominou esse debate "exemplo único de um poder imperial que questiona abertamente a legitimidade dos seus direitos c os fundamentos éticos de sua atuação política"". "The Conlrovcrsy Bctwecn Las Casas and Sepúlvcda at Valladolid". li mesmo [.-lhe "irresponsável. ed.. por sua vez. em Kcvin Whitc. coi134 Eduardo Andújar. mas a questão mais básica de saber sc cia sc justificava moralmente. cm Kcvin Whitc. portanto. "Bartolomé dc Las Casas and Juan Ginós dc Scpúl. mas Las Casas insistia cm que esse processo devia ocorrer pacificamente. teve lugar um célebre debate entre Las Casas e Juan Ginés dc Sepúlvcda. Excluía a coerção tanto para compelir à fé como para tentar criar um ambiente pacífico cm torno do trabalho dos missionários. não afirmava que os espanhóis tivessem o direito dc conquistar os povos nativos simplesmente por serem pagãos. Ambos os contendores defendiam a atividade missionária entre os nativos c desejavam ganhá-los para a Igreja. considerava que legitimar o uso da força contra os nativos seria abrir a porta a uma sucessão de conseqüências negativas. Embora [Arisiótclesl fosse um grande filósofo. na prática.panic Philosophy in lhe Age of Discovery. por causa das dificuldades que encontraria à hora dc ser posta em prática. portanto. estava absolutamente convencido de que. tais guerras seriam desastrosas para todos os povos envolvidos e prejudiciais à difusão do Evangelho. mas argumentava que o baixo nível dc civilização e os costumes bárbaros desses povos eram um obstáculo para a sua conversão e que. His.. pelo contrário. Por isso. os seus conhecimentos nào lhe valeram para encontrar a Deus"134. o que o preocupava não era saber se era oportuna a guerra contra os índios. Em 1550. 135 Rafael Alvira and Alfredo Cru/. era necessário algum tipo de tutela para que sc pudesse levar a cabo com sucesso o processo de evangelização.]. Dada a fragilidade da natureza humana. o filósofo c teólogo que defendia publicamente o uso da força na conquista dos nativos. Tinha plena consciência dc que podia ser aconselhável nào aplicar uma política fundamentalmente correta.. WOODS JR...veda: Moral Thcology versus Political Philosophy". 93. Las Casas. . frívola c chocante"135. que o uso de qualquer forma de coerção era moralmente inaceitável. Sepúlvcda. Qualquer especulação acadêmica c fria sobre o tema parecia.124 THOMAS F. págv 76-8. pág. c sustentava. cd. Hispanic Philosophy in die Age of Discovery.

por sua vez. Pensava que a infinidade de efeitos negativos das guerras. pesava muito mais do que o efeito positivo dc ajudar as tribos oprimidas pelos seus vizinhos.sa que Sepúlvcda teria admitido. esse é um ponto que os modernos críticos das intervenções militares a título humanitário continuam a subscrever nos nossos dias138. aliás. 138 ibid. pregar c promover agitações políticas. encomendem era 136 Concrctamenic os sacrifícios humanos que alguns dos povos americanos praticavam numa escala assustadora. "Para pôr um fim a toda a violência contra os índios . por mais limitada que fos. Os missionários realizariam um bom trabalho só "com palavras amáveis c divinas. c dc que a escravatura ou outras coerções eram não só injustas. que por essa brecha certamente se sentiriam autorizados a empreender uma guerra potencialmente sem limites. c com exemplos e obras de vidas santas"12.sc..ras" prejudicariam certamente o esforço missionário. Foi aqui que identificou uma importante fonte dc injustiça na conduta dos espanhóis no Novo Mundo. 95. Por isso. toda a guerra contra cies era injusta". Vitória. como por exemplo para livrá-los dc algumas práticas bárbaras da sua própria cultura 136.. pudesse no entanto deixá-la cm aberto como uma opção lícita Além disso. procurando reformar o tratamento que recebiam c lutando contra o abusivo sistema da encomienda. predisporia o ânimo c a mente dos nativos contra qualquer membro do contingente invasor. essa concessão não levava cm conta as paixões c a cobiça dos homens. do E.escreve um historiador atual -.). mas contraproducentes. . uma vez que a presença de homens armados. previstos ou não. 93. c nesse sentido acusou Sepúlvcda de "causar escândalo e encorajar homens dc 137 tendências violentas" *. 137 Rafael Alvira and Alfredo Cruz. Só uma interação pacifica poderia assegurar a sinceridade dc coração daqueles que optassem por converter-se. c que horrorizaram profundamente os espanhóis (N. "The Conlrovcrsy Bctwecn Las Cisa» and Sepúlvcda at Valladolid". Las Casas linha dc mostrar que. Entre escrever. Estava convencido de que os nativos poderiam fazer parte da civilização cristã através de um esforço persistente e sincero. Las Casas dedicou meio século a trabalhar cm benefício dos nativos.. Juridicamente. Para Las Casas. embora limitasse a guerra. pág. pág. por uma razão ou por outra. achava legítimo o uso da foiça contra os nativos em alguns casos. incluídos os missionários. desenvolveu um imenso esforço para desfazer todo e qualquer argumento que. eslava convencido de que tais medidas "pacificado.

Las Casas é considerado quase um santo cm grande parte da América Latina e continua a ser admirado tanto pela sua coragem como pelo seu árduo trabalho.. se bem que com pouco sucesso. uma encomienda... cometidas pelos nossos espanhóis [. os nativos confiados a ele deviam pagar-lhe um tributo. "deram forças a todos aqueles que. seres humanos dc grande docilidade e simplicidade. Hoje em dia. que lhe ensinou haver um único código moral para todos os homens. c o tributo era cobrado muitas vezes cm forma dc trabalhos forçados.]. o próprio Las Casas conheceu em primeira mão os abusos c injustiças do sistema. c trabalhou para pôr-lhe um ponto final.126 THOMAS F. c para lhes rcstituir a primitiva liberdade.]. humildes.. embora indigno. indo e vindo muitas vezes das índias para Castcla e de Castela para as índias. A sua fé. Em 1564. escreve o professor Lewis Hankc. trabalharam persuadidos dc que todas as pessoas do mundo são seres humanos. A encomienda não supunha originalmente uma outorga dc soberania política sobre os nativos. permitiu-lhe julgar a conduta da sua própria sociedade. Em contrapartida. escreveu no seu testamento: "Na sua bondade e clemência. bem dotados para receber a nossa fé católica [. Os seus argumentos. Deus dignou-sc escolhcr. possuidores de reinos c terras. refletindo sobre as suas décadas dc trabalho como defensor dos indígenas.] e para ser prendados com os bons costumes"". era o que acontecia freqüentemente. o que nào é pouca coisa. WOODS JR. com as capacidades e as responsabilidades próprias dos homens" DIREITO INTERNACIONAL VERSUS . Tendo-lhe sido atribuída. por cerca de cinqüenta anos. Trabalhei na Corte dos reis dc Caslcla desde 1514... contra as injustiças c injúrias nunca antes vistas oti ouvidas. um homem a quem sc "confiava" (encomendaba) um grupo de índios para que os protegesse c provesse à sua educação religiosa. mas. só por Deus c pela compaixão de ver perecer tais multidões de homens racionais. na prática.-mc como seu ministro. ccrta feita. para defender todos aqueles povos indígenas. da qual foram injustamente privados [.. serviçais. no seu tempo e nos séculos seguintes.

isso quer dizer que é ele que tem a última palavra sobre o alcance dos seus próprios poderes. Mas o estabelecimento de um governo. dc normas destinadas a disciplinar as relações entre os Estados. sobre o justo e o injusto» e até sobre a solução das disputas entre os cidadãos individuais e ele próprio. Segundo Thomas Hobbcs. o que ele disse dos indivíduos c dos governos nacionais. No seu entender. sc o governo possui a autoridade soberana que Hobbcs recomenda. a menos que se estabelecesse um ente soberano que as governasse. o filósofo britânico do século XVII. isto é: sc um Estado violasse as normas do direito internacional no seu relacionamento com outro Estado. Fcrnándcz-Santamaría. The State. nào resolve o problema descrito por Hobbcs. Recordemos qual era o problema original que um sistema de leis internacionais visava solucionar. a criação dc um governo cuja função primária fosse manter a ordem e impor a obediência às leis seria o único mecanismo capaz de evitar a insegurança e a desordem crônicas do assim chamado estado dc natureza. Seria necessária. portanto. 62. Mesmo que Hobbcs acreditasse na democracia. inevitavelmente teria de dar-se entre elas o mesmo tipo dc conflitos c desordens que existiria entre os cidadãos na ausência dc um governo civil. a existência dc um árbitro que estivesse acima tanto dos governados como do próprio governo. A resposta de Vitória parecia vinculada à idéia de guerra justa.ESTADO MODERNO Até agora falamos dos primórdios do direito internacional. Como se tem apontado. War and Peace. Mas ficava por resolver o problema da sua aplicação. mas isso nào impede que exerça violência contra os governados. . simplesmente o transfere para outro nível. este último teria motivos para empreender uma guerra justa contra aquele139. Não podemos asseverar sem mais que os teólogos espanhóis teriam apoiado uma instituição análoga ã Organização das Nações Unidas. pág. na realidade. sem um governo capaz de funcionar como um árbitro com poder sobre todos os homens. No entanto. Um governo pode impor a paz c prevenir a injustiça entre as pessoas que lhe estão submetidas. a sociedade humana estaria condenada a uma situação de caos e dc guerra civil. A solução desse problema foi deixada mais ou menos cm aberto pelos teólogos espanhóis". poder-se-ia aplicar igualmente às nações entre si. teria de reconhecer que uma simples votação é incapaz de conter os abusos dc 139 José A.

Não é de estranhar que a Igre ja tivesse condenado severamente a filosofia política de Maquiavel: foi precisamente essa a visão que os grandes teólogos católicos espanhóis rejeitaram tão enfaticamente. por medo de serem lançadas num ostracismo internacional. Sejam quais forem as dificuldades práticas da capacidade de cocrção. nascida da discussão filosófica levantada pela descoberta da América. o Estado era uma instituição moralmente autônoma. c o estabelecimento dc uma instituição global com essa finalidade só transfere o problema hobbesiano.128 THOMAS F. mas tem o seu comportamento submetido a princípios básicos. sc sc estabelecesse um poder superior ao do governo para conter os abusos de autoridade desse mesmo governo. o advento do Estado moderno. Mostrava que cada nação não é um universo moral fechado em si mesmo. No princípio do século XVI. os teólogos espanhóis do século XVI submeteram a um escrupuloso exame a conduta da sua própria civilização e julgaram-na deficiente. estaríamos apenas transferindo o problema para um nível superior: quem controlaria essa autoridade? Esse é o problema que envolve a idéia de uma instituição internacional com poderes coercitivos no âmbito do direito internacional. o Estado devia.cional? A coercitividadc do direito internacional não é. Os defensores dessa idéia afirmam que semelhante autoridade tiraria as nações do estado de natureza hobbc. Por outro lado. as nações européias conseguiram observar as regras da assim chamada guerra civilizada durante os dois séculos que se seguiram à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). um assunto simples. pois. cm vez dc resolvê-lo. autoridade. Propugnaram que. em benefício da sua própria preservação. Por outras palavras.siano cm que sc encontram. o Estado não é moralmente autônomo. WOODS JR. não deveria ser julgado por parâmetros externos. mesmo com a criação dessa autoridade.. cm matéria . ser julgado conforme princípios externos a si próprio e não podia agir com base na sua conveniência ou benefício. a idéia do direito internacional. Em suma. no seu pequeno livro O Príncipe (1513). foi extremamente importante. subsistiria o problema da insegurança: que poder seria capaz dc controlar essa autoridade supra-na. No entendimento deles. cujo comportamento. Não deixa de haver outras opções: afinal. Para ele. Nicolau Maquiavel prognosticou. No entanto. na realidade. fossem eles os decretos de um Papa ou qualquer outro código de princípios morais.

porque existia unicamente como um átomo dentro desse organismo e porque. dos não-conformistas que se rebelaram contra os abusos infligidos aos índios. Se criticamos os excessos espanhóis no Novo Mundo. para cie. A primeira cultura a interrogar-se c questionar-se a si mesma.nos princípios universais que devem governar as relações entre os Estados.com base na concepção católica da unidade fundamental da raça humana . c sc referia aos vizinhos com uma palavra que significava «bárbaros». o indivfduo não podia questionar moralmente o organismo social dc que fazia parte. para eles. No meio de um chauvinismo tão estreito. Essa autodeterminação não teria sido possível entre os incas ou cm qualquer outra cultura pré-hispãnica. estavam acima dos princípios dc nação ou Estado. "os índios. assim como cm outras grandes civilizações da História nascidas fora do Ocidente. Essa imparcialidade nào brotou do contado com as culturas indígenas americanas. é porque foram os teólogos espanhóis que nos proporcionaram os instrumentos morais para condenar esses excessos. Esses homens lutaram contra os seus compatriotas c contra as políticas dos seus próprios países em nome de princípios morais que. o povo». a primeira a separar as massas cm seres individuais que foram .dc direito natural. ainda que não o único. Como explica o historiador de Harvard Samuel Eliot Morison. O romancista peruano Mario Vargas Llosa colocou cm uma perspectiva semelhante a relação dos europeus com os nativos do Novo Mundo: "O padre Las Casas foi o mais ativo. mesmo os de uma mesma região ou grupo lingüístico. É necessário sublinhar como algo muito notável o falo de esses teólogos terem proporcionado à civilização ocidental as ferramentas filosóficas necessárias para se aproximar dos povos nâo-ocidcntais com um espírito de igualdade. os ditames do Estado náo se dissociavam da moralidade. Cada tribo designava-se a si própria com algo parecido como «nós. com diversos níveis dc civilização c refinamento. Nessas culturas. não poderia encontrar terreno fértil a idéia dc um ordenamento internacional que estabelecesse um principio de igualdade entre Estados grandes c pequenos. nem sequer tinham um nome comum para eles próprios. Coube aos teólogos espanhóis do século XVI o mérito de terem insistido . «filhos dc uma cadela» ou outra expressão igualmente insultuosa"". os outros povos do mundo eram iguais ao seu e que as comunidades dc povos pagãos tinham direito ao mesmo tratamento que as nações da Europa cristã.

New: Cullure Shock in 1492".130 THOMAS F. 140 Cfr. "Old World v. Brown. Nenhuma pessoa séria negará as injustiças cometidas na conquista do Novo Mundo. Como Hankc conclui accrtadamcntc. veio a converter-se. Mas é lógico que gostaríamos de dourar a pílula. WOODS JR. que todas as pessoas do mundo são homens" 141. dc encontrar alguma atenuante para a tragédia demográfica que sc abateu sobre os povos do Novo Mundo durante a era dos Descobrimentos. . 141 Lcwis Hankc. II. sei. ganhando gradualmente o direito dc pensar c agir por si próprios. 1992. 178-9. na civilização mais poderosa do nosso mundo" M. Península [HarvardJ. "os ideais que alguns espanhóis puseram cm prática quando descortinaram o Novo Mundo não perderão o seu grande brilho enquanto os homens acreditarem que os outros povos tém o direito dc viver. c já naquela época os sacerdotes as relataram c condenaram. que é possível encontrar métodos justos para conduzir as relações entre os povos c. págs. E essa atenuante foi o fato de que o encontro entre esses povos proporcionou uma ocasião especialmente oportuna para que os moralistas discutissem c desenvolvessem os princípios fundamentais que devem governar o relacionamento entre os povos140. essencialmente. C. The Spanish Strugale for Justice in lhe Conquest of America. graças a essa desconhecida prática chamada liberdade. Estas são as idéias com as quais o Ocidente sc identificou por séculos c que nos chegaram diretamente através do autêntico pensamento católico.. Aqui temos outro pilar da civilização ocidental construído pela Igreja.

os que chegaram mais peno de ser os fundadores da ciênc econômica"142. "Foram eles . portanto. A IGREJA E A ECONOM IA Habitualmente. A verdade é que hoje comcça-sc a reconhecer os católicos como os seus fundadores. começa-se a contar a história do pensamento econômico a partir dc Adam Smith c de outros pensa dores do século XVIII. A economia moderna constitui. como 142 Joseph A. particularmente os hostis à economia dc mercado. os medievais e os últimos comentaristas cscolásticos entenderam c teorizaram sobre a livre economia seguindo roteiros que sc revelaram profundamente fecundos para o desenvolvimento dc um sadio pensamento econômico no Ocidente. 1954. poderíamos acrescen" o de outros estudiosos dc prestigio. 97 . outra área na qual. Os próprios católicos. um dos grandes economistas do século XX. a influência católica vinha sendo freqüentemente obscurecida ou negligenciada.VIII. Schumpetcr. Oxford University Press.escreveu mais do que qualquer outro grupo. Ao nome de Schumpetcr. No entanto. na sua História da análise econômica (1954). pág. também tendem a identificar os princípios c a visão da economia moderna com os pensadores do Iluminismo. OS FUNDADORES DA CIÊNCIA ECONÔMICA Joseph Schumpctcr. Historv of Economic Analysis. prestou homenagem às menosprezadas contribuições dos cscolásticos. New York. até há pouco.

I: Economic Thoughl Before Adam Smith. Chafucn. 1978. freqüentemente ignoradas. Por outras palavras. 1544-/605. 1974. págs. dedicou um longo capítulo da sua aclamada história do pensamento econômico às reflexões dos cscolásticos.. Rothbard. uma csco| . Uni* versity oí Chicago Press. Murray N. ga-l nhou o Prêmio Nobcl dc economia cm 1974). 418-34. Um dos seus membros mais destacados. WOODS JR. que alcançaram o cume na Escola austríaca de economia.. An Austrian Perspecliw on lhe Historv of Economic Thoughl. de Paris. Mas antes de examinarmos o trabalho dos últimos cscolás* ticos. and Economic Thoughl in Late Medieval and Modcrn Europc". (Esta Escor" pode gloriar-se de uma série dc brilhantes economistas. Hants. devemos considerar as contribuições.132 THOMAS F. F. Gcorgc Allcn & Unxvin. vol. que foi reitor da Universidad. Ia do pensamento econômico que sc desenvolveu em fins do século XIX e que continua viva nos dias atuais. Chicago. 1177 1 740. desde Carl Menger até Eugen von BõhmBawcrk c Ludwig von Mi.. de estudiosos católicos ainda mais antigos. Clarcndon Pix-ss. Ilistory of Economic Analysis: Murrav N. Essa "mercadoria" amplamente desejada devia. o dinheiro nào surgiu por um decreto go«i vemamcntal. 1995. Buridan demonstrou que o dinheiro surgiu livre c espontaneamente no mercado. outro grande economista do século XX. págv 306-45: Alcjandro A. Rothbard. . trouxe importantes novidades à moderna teoria monetária. Journal of Economic Historv 18 (1958). cm Julius Kirshncr.. Faith and liberty: The Economic Thoughl of the Late Scholasttcs. cd. Em vez de encarar o dinheiro como um produto artiflgl ciai. por conseguinte. Devia também possuir certas características importantes: devia ser 143 Veja-se Raymond dc Roo ver. Selecied Studies of Raymond de Roover. LcxingtoM Lanham. Early Economic Thoughl in Spain. Edward Elgar. Schumpetcr. OxfordÜ 1952: id.. Jean Buridan (1300-1358). 2003: Maijoric Grice-Hutchinson. 99-133. The Schno! of Salaniam ca: Readings in Spanish Monelary Theory. "Business. primeiro como uma mercadoria útil e depois como meio de troca. fruto da intervenção do Estado. England. por exemplo. págs. mas como meio dc simplificar as trocas: tratava-se de encontrar uma "mercadoria" que pudesse ser desejada c adotada utilmcntc por todos1. Marvland. Raymond de R<x>vcrl Marjoric Grice-Hutchinson c Alcjandro Chafucn143. Hayek. Joseph A. Londres. ld.scs. Banking. "The Conccpt of the Jusi Price: Tlicory and Economic Policy".A. ser adotada antes dc mais nada em função da sua capacidade dc satisfazer necessidades não monetárias.

bispo dc Lisicux. págs. já que. astronomia c física. dc tal modo que as pessoas sejam forçadas a tratar quinze onças de prata c uma onça dc ouro como sc tivessem igual valor. discípulo dc Buridan. "Nesse sentido . pág. sob certos aspectos". a moeda subvalorizada desaparecerá totalmente da circulação e permanecerá como única moeda a que está supervalorizada"146. The Church and lhe Market: A Catholic Defense of lhe Free Econotny. "Nicholas Ores me and thc First Monctary Treatise". e o governo fixa para uma e outra um valor que diverge do que poderiam alcançar no mercado livre. natureza e transformações do dinheiro. a moeda que o governo supcrvalorizou artificialmente levará esse mesmo governo a tirar de circulação a desvalorizada. as pessoas começarão a fugir do ouro c a fazer os seus pagamentos cm prata.escreve um especialista Buridan deu início à classificação das qualidades monetárias dos produtos. de acordo com o valor dc mercado dos dois metais. Mas o governo. vol. Woods. Essa razáo. Também foi chamado "o pai c fundador da ciência monetária"145. pág. supervaloriza a prata. Por isso. c possuir um alto valor por unidade de peso.2004. 93. Como resultado.miscs. dc tal modo que uma pequena quantidade dela tivesse valor suficiente para facilitar praticamente todas as transações. O raciocínio dc Orcsmc era assim: suponhamos que as duas moedas sejam o ouro e a prata c que. que foi considerado "um marco da ciência monetária". http:/AvAV\v. Foi ele o primeiro a afirmar o principio que mais tarde viria a tornar-se conhecido como "a lei de Grcsham". deu uma importante contribuição à teoria monetária. . 76. Com efeito. veja-se também Thomas E. Rothbard. é o que aconteceria hoje sc o governo 144 Ibid .acordo com ela. IX. está dizendo no público que eles podem pagar dívidas contraídas cm moedas de ouro a uma razáo de apenas quinze moedas de prata por uma moeda dc ouro cm vez das dezesseis que a avaliação do mercado requereria. 09. logicamente. na década de 1930"'144. Polifacético expert em matemática.org/ruHsiory. se duas moedas coexistem na mesma economia.aspx?controU 1516. Orcsmc sustentou que "se o valor das moedas fixado legalmente difere do valor dc mercado dos metais. An Aitítrian Perspective on lhe Hislory of EcoitOr 1 mie Thought. além de durável. com a sua razão dc 15 para 1. dezesseis moedas de prata eqüivalem a uma dc ouro. pois "fixou padrões que nào seriam superados cm muitos séculos e mesmo hoje. 74. Nicolau Oresnte (1325-1382). 146 Murray N. Suponhamos ainda que o governo estabeleça uma equivalência legal de lã para 1. no meixado. 145 Jorg Guido Hulsmann. dezesseis onças de prata t£m o mesmo valor que uma onça de ouro. 87-89. escreveu Um tratado sobre a origem.05.facilmente manuseável c divisívcl. que viria a ser tema do primeiro capitulo dos manuais sobre o dinheiro c os bancos até o fim da era do padrão-ouro. I.

Observaram que houve na Espanha do século XVI uma clara relação de causa e efeito entre a afluência dos metais preciosos do Novo Mundo c a forte inflação de preços. Sugeriu que o ideal seria que o governo nunca interferisse no sistema monetário147. o teólogo escolástico Martin de Azpilcueta (1493-1586) escreveu: "Em países onde há uma grande escassez de dinheiro. o vinho. E. a escassez de dinheiro reduz o preço dos outros produtos. e até a própria mão de obra humana. que inundou o país de ouro e prata. "Nicholas Oresme and thc First Monctary Tiea- . vemos por experiência que. Assim.de que a excessiva abundância de qualquer mercadoria tenderia a trazer consigo um decréscimo no seu preço. o pão. A observação dc que. a uma lei econômica .134 THOMAS F. Os últimos escolásticos partilharam desse ponto dc vista sobre a economia monetária. declarasse que três quartos de dólar devem ser tidos como equivalentes a uma nota dc um dólar. mesmo que sejam equivalentes. tem a sua origem na circunstância de que a excessiva valorização do dinheiro faz com que as outras coisas 147 JOrg Cuido Hulsmann. as mercadorias dispo níveis para venda c o trabalho custavam muito menos do que depois da descoberta das índias. onde o dinheiro é mais escasso do que na Espanha. WOODS JR. Oresme compreendeu também os perniciosos efeitos da inflação. como dizem alguns. Explicou que a perda de valor da unidade monetária decretada pelo governo não contribui para a solidez da economia. além de enriquecer o governo à custa do povo. na França. todas as mercadorias disponíveis para venda. as roupas c o trabalho têm um valor muito menor. mesmo na própria Espanha.por assim dizer. sào oferecidas por menos dinheiro do que cm lugares onde ele é abundante. pois interfere no comércio e provoca uma alta geral de preços. As notas desapareceriam de circulação. As pessoas deixariam imediatamente de usar as notas de um dólar c quereriam fazer os seus pagamentos com os quartos de dólar artificialmente valorizados.. E chegaram à conclusão mais geral . em épocas cm que o dinheiro era mais escasso. A razão disso é que o dinheiro vale mais onde c quando é escasso do que onde e quando é abundante. Naquilo que foi descrito por alguns estudiosos como a primeira formulação da teoria quantitativa do dinheiro.

esses pensadores católicos sustentaram que o valor não deriva dc fatores objetivos. 18) . em que procurou defender o comércio exterior do ponto de vista moral.como pela expectativa de mudanças no volume dc dinheiro em circulação. chamado Caietano (1468-1534). 22). cm um versículo paralelo do Velho Testamento (Is 22. Outro trabalho importante no campo da teoria econômica foi o do cardeal Thomas de Vio. Mt 16. O frade franciscano Pierre de Jean Olivi (1248-1298) foi o primeiro a propor essa teoria. t. Rothbard. .pareçam baratas. 1986. págs. entre outras coisas. mas da avaliação subjetiva dos indivíduos.Cristo tivesse investido os sucessores dc Pedro na autoridade de ensinar c governar o mundo cristão. c particularmente da passagem de Mt 16. The Kevs of lhe Kmgdotn: A Totds Witness lo Tnnh. como o custo da produção ou o volume dc trabalho nela empregada. um eclesiástico extraordinariamente influente que. Sustentava que "o preço justo" 148 Lutcro rejeitou a doutrina de que . I. 18.»mbém sc usou o simbolismo da chave c que a chave era efetivamente um símbolo da autoridade que seria transmitida aos sucessores. Desse modo.ao dar ao Apóstolo Pedro as chaves do reino dos céus (cfr. tinha entrado em discussão com Martinho Lutcro acerca da autoridade pontifícia. Franciscan Herald Press.que podiam ir desde as fracas colheitas até a guerra . 149 Murray N. é como acontece quando um homem baixo se coloca ao lado de outro mtiito alto: parece menor do que quundo sc coloca ao lado dc um homem da sua mesma estatura"*. dc 1499. A TEORIA DO VALOR SUBJETIVO Entre os mais decisivos c importantes princípios econômicos desenvolvidos c amadurecidos com a ajuda dos últimos escolásticos c dos seus imediatos prcdeccssorcs. pode ser considerado o fundador da teoria das expectativas na economia"149. Chicago. "o cardeal Caictano. veja-se Stanlev I. Caietano também fez notar que o valor do dinheiro no presente podia ser afetado pelas expectativas da situação do mercado no futuro: tanto pela expectativa de acontecimentos prejudiciais e danosos . 100-1. Illinois. encontra-se a teoria do valor subjetivo. Jaki. Mas Caiciano demonstrou que. fazendo-o cair em contradição148. escreve Murray Tothbard. freqüentemente contestada.lie Thottg/ii. um príncipe da Igreja do scculo XVI. No seu tratado De cambiis. Para uma boa visüo geral dessa imagem da chave na Bíblia. Baseados cm parte nas suas próprias análises c em parte inspirados nos comentários dc Santo Agostinho na sua obra A cidade de Deus. An Austrian Perspective on thc Hislory of licono. vol.

].. Um século c meio mais tarde. uma mercadoria. mas de como sc avalia geralmente um bcm". Como escreveu Luis Saravía de Ia Callc.. ou pelo que o fabricante tem dc pagar pela produção.].. há de valer mais que um transportado por mar.J. manifestada pelo próprio ato de comprar ou abster-se dc comprar determinada mercadoria por determinado preço". cometem um grande erro. de um bem resultava da avaliação subjetiva que os indivíduos fizessem desse bem. ou pelo custo do transporte c despesas dc viagem [. Por que um fardo de linho..136 THOMAS F. adotou a teoria do valor subjetivo de Olivi.. da medida em que o considerassem útil e desejável para eles. mesmo assim. E o cardeal jesuíta Juan dc Lugo (1583-1660) corroborou essa teoria com argumentos próprios: "Os preços não variam dc acordo com a perfeição intrínseca e substancial dos artigos . um dos maiores pensadores cm matéria econômica da Idade Média. c erro ainda maior cometem aqueles que admitem um lucro dc vinte ou dez por ccnto. trabalho e risco. custos c riscos que corre a pessoa que comercia ou produz.uma vez que os ratos são mais perfeitos que o milho e. c não nos custos. com um gasto bem menor? Por que um livro escrito a mão há dc valer mais que um impresso. quando este último tem os seus custos dc produção mais bem planejados? O justo preço não depende dos custos. Os preços nào são normalmente fixados com base nos custos. Porque o justo preço tem origem na abundância ou escassez das mercadorias. pág. . nenhum comerciante jamais sofreria perdas. Quem imaginaria que essa teoria proveio de um frade franciscano do século XIII? Os últimos cscolásticos adotaram também essa posição. Sc tivéssemos de tomar cm consideração o trabalho c o risco para avaliar o justo preço. riscos c mão dc obra. valem 150 Ibid. nem sc levaria cm conta a abundância ou escassez dc mercadorias. Mais propriamente. 62. São Bcrnardino dc Sena. surgia da interação entre compradores c vendedores no mercado. trazido por via terrestre da Inglaterra com grande dispéndio. conicrciantcs c dinheiro [.. WOODS JR. praticamente palavra por palavra150. no século XVI: "Aqueles que medem o justo preço pelo trabalho.

que não valem nada para nós. já ninguém mais o desejaria ou necessitaria dele para coisa alguma. mesmo quando insensata. uma vez que o preço deriva da estima que suscita. c dcscc pelos fatores contrários"151. por Alcjandro A. caeterís paribits. pão ou cavalos. mesmo assim. declarou igualmente: "O justo preço das mercadorias não é fixado de acordo com a utilidade que o homem vê nelas. Suponhamos que o tabaco deixasse repentinamente dc ter qualquer utilidade para os seres humanos. as nossas bijutcrias sào trocadas eqüitativamente por ouro. Imaginemos. explicou de um modo muito prático as implicações do valor subjetivo. Depende de como cada homem aprecia uma mercadoria. mas também a dos imprudentes. E. por conseguinte.. objetos antigos feitos dc ferro e cerâmica. a partir desse momento. carne. cm função do apreço que sc tem por eles: em uma casa. na Etiópia. 84 .co-tomista •'O. É por isso que. pág. a natureza e a necessidade dc usá-las determinassem a quantia do preço [. E devemos levar cm conta não apenas a apreciação dos homens prudentes. outro jesuíta. 152 Ibid. O preço natural sobe pela abundância dc compradores e de dinheiro. como sc. cuja obra Princípios da economia (1871) teve uma influência tão profunda no desenvolvimento da economia moderna (e que tem sido identificado com a tradição aristotéli. além disso. caso eles sejam suficientemente numerosos cm um lugar. que só pode ser usada como adorno. vinho. S4-S. págs. porque são comumcntc mais estimadas ali. Liiis de Molina (1535-1600). o seu preço é muito mais alto. alcançam um alto preço por causa da sua antigüidade. eleva-lhe o preço natural. Isso explica por que o justo preço de uma pérola. mas cm função da sua utilidade para as necessidades humanas c. as jóias são muito menos úteis que o milho c.. A estima que se tem por um bem. Failh and Liberty. Chaíucn. embora a utilidade destas coisas (que também são dc natureza mais nobre) seja mais prática c superior que a utilidade dc uma pérola. entre os japoneses. é mais alto que o justo preço dc uma grande quantidade dc grãos. uma máquina que tivesse sido projetada unicamente para o processamento do tabaco c nâo servisse 151 Cil.menos -.]. É por isso que podemos concluir que o justo preço de uma pérola depende do valor que os homens lhe confiram como enfeite"152.. Carl Menger.

Para entender e explicar as escolhas humanas. WOODS JR. hoje associada a Karl Marx. os salários que recebiam nào refletiam plenamente esse esforço. os lucros retidos pelo empregador eram totalmente imerecidos c levavam a uma injusta apropriação daquilo que. se eu passasse todo o dia colando latas vazias dc ccrvcja umas às outras. págs 64-66. se os indivíduos lhes atribuíssem valor de uso. Esta teoria implica também uma refutação direta da teoria do valor-trabalho. as coisas só seriam consideradas valiosas .138 THOMAS F. quando as pessoas não dão valor a determinado objeto. não tem nada a ver com o antropocentrismo ou o relativismo moral. devem-se levar em conta os valores que nelas se vêem (o que não significa. A teoria do valor subjetivo.. o pai do comu nismo. Mas. como diria Mcngcr -. mas acreditava que se podia atribuir valores objetivos aos bens econômicos. Marx não acreditava na moral objetiva. Principies of Ecotiomics. isso conduz-nos muito simplesmente à lógica conclusão dc que. Como resultado dessa mudança do gosto das pessoas . naturalmente. Esse valor objetivo baseava-se no número dc horas de trabalho empregadas na produção de determinado bem. No caso descrito por Mcngcr. aprovar esses valores). Pcnn 1994. ' Para ele. por direito.admitia Marx -. essencial para a economia.com a perda do valor-de-uso do tabaco. Os fatores de produção empregados no processamento do tabaco têm o seu próprio valor derivado do valor subjetivo que os consumidores dão ao tabaco. pertencia aos 153 Cari Mcngcr. para nenhuma outra finalidade. o valor dessa máquina cairia igualmente para zero. uma vez que os indivíduos atribuíssem valor de uso a um bem. cm uma economia livre. Libcnarian Press. . sendo o seu esforço a fonte dc todo o valor. também nào dão valor aos fatores especificamente destinados a produzi-lo. que é o produto final paia o qual se empregam esses fatores153. o valor desse bem seria determinado pelo número de horas de trabalho empregadas na sua produçãols. A economia lida com a realidade e com as implicações das escolhas humanas. Daqui se conclui que o valor do tabaco nâo deriva dos custos da sua produção. Grovc Citv. o fruto desse meu trabalho seria ipso fado valioso. os trabalhadores eram "explorados" porque. Não é que Marx afirmasse que o valor dc um produto resulta do mero trabalho despendido: não disse que. Marx deduziu da sua teoria do valor-trabalho a idéia dc que.

. enquanto a (incorreta) teoria do valor-trabalho cxcrccu tanta influência nos pensadores protestantes. antecipou e refutou um dos maiores erros econômicos da época moderna. Mas. O seu erro foi ter invertido os termos da relação causai. foi bastante ambíguo na sua exposição da teoria do valor. É o trabalho empregado nele que tem o seu valor derivado da maior ou menor estima que os consumidores têm pelo produto final. CATÓLICOS E PROTESTANTES Uma pesquisa sobre a influencia do pensamento católico no desenvolvimento da ciência econômica não pode deixar de lado as contribuições de Ettiil Kauder. implicitamente. apontavam para um conceito econômico crucial. O próprio Adam Smith.teria corrido muito melhor sorte se o pensamento econômico tivesse permanecido fiel à teoria do valor exposta pelos pensadores católicos aqui referidos. Marx não estava errado ao perceber a relação que há entre o valor de um bem c o valor-trabalho empregado na produção desse bem. Vemos assim que. Um bem não tem o seu valor derivado do trabalho nele empregado. entre outras coisas. esses dois elementos estão freqüentemente relacionados. a ponto dc ter deixado a impressão dc que os bens têm o seu valor derivado do trabalho empregado na sua produção.trabalhadores. podemos ao menos entender o erro primária em que incorreu a teoria do valor-trabalho1". Os economistas franceses c italianos. na qual procurou descobrir. Kauder elaborou uma vasta obra dc conjunto. influenciados pelos cscolásticos. mantiveram de modo geral a posição correta. que. Rothbard foi mais longe e chegou a sugerir que a teoria do valortrabalho formulada por Smith no século XVIII alimentou a teoria de Marx no século seguinte. conhecido pela história como o maior defensor do livre mercado e da liberdade econômica. Está fora do nosso propósito fazer aqui uma refutação sistemática dc Marx. foram os economistas ingleses que sc desviaram tão tragicamente para as linhas de pensamento que culminaram cm Marx.para não dizer o mundo como um todo . c que a economia . franceses ou italianos. por que a (correta) teoria do valor subjetivo sc de senvolveu c floresceu entre os pensadores católicos. com o auxílio das reflexões dos últimos escolásticos. quando São Bernardino de Sena e os escolásticos do século XVI argumentaram a favor da teoria do valor subjetivo.

De acordo com Kauder. uma vez que o prazer c a felicidade não sào estados quantificáveis do ser e a sua intensidade não pode ser medida com precisão.. "Qualquer filósofo social ou economista exposto ao calvinismo . observava-se essa tendência cm pensadores como John Lockc c Adam Smith. sempre simpatizou com o presbiterianismo (que era um calvinismo organizado). "Se a finalidade da economia é. A History of Marginal Uliliiv Tlteory.chi ido o do valor. que. nos seus escritos. 5. o prazer . por exemplo. o trabalho .escreveu Kauder -. in. embora as suas concepções fossem mais propriamente dcístas cm sentido amplo do que protestantes11. Dai resuitava que os objetivos da economia eram profundamente subjetivos. Para Calvino. Os países católicos. de acordo com o conceito aristotélico da causa final. o valor torna-se o va lor-trabalho" 154.fosse de que natureza fosse .vinistas que dominaram o seu meio cultural.gozava de uma aprovação divina e era um campo decisivo para que o homem pudesse dar glória a Deus. Esses pensadores absorveram as idéias cal. tradicionalmente a verdadeira base de um sistema econômico. então. A teoria do valor subjetivo seguia-se a essa premissa como a noite sucede ao dia. nâo sentiram a mesma atração pela teoria do valor-trabalho. Aristóteles c São Tomás encararam a atividade econômica como meio de proporcionar prazer e felicidade. Smith.140 THOMAS F. todos os princípios da economia. c essa simpatia bem pode explicar a ênfase que pôs no trabalho como fator determinante do valor". o valor tem a 154 Emil Kauder. Essa idéia levou os pensadores dos países protestantes a enfatizar o trabalho como elemento determinante do valor. Princcton. pág. Deste modo. Segundo esse modelo. WOODS JR. 1965. Na sua obra Uma história da teoria da utilidade marginal (1965). Princcton University Press. e nâo se pode encontrar melhor modo de exaltar o trabalho do que pela combinação do trabalho com a teoria do valor. sugeriu que a solução para esse quebra-cabeça podia ser encontrada na importância que um protestante de inteligência tão excepcional como Calvino atribuiu ao trabalho. profundamente influenciados pela linha dc pensamento aristotélica c tomista. sobretudo anglo-saxôes. devem derivar desse objetivo. puseram grande ênfase no trabalho. cm certa medida. .explicou Kauder será tentado a dar ao trabalho um papel de destaque na sua teoria social ou econômica. porém.

deveu muito ao pensamento cscolástico). 66. muitas vezes.J François Quesnay (1694-1774) c os fisiocratas franceses do século XVIII . já teria sido um feito. esses pensadores dos séculos XVI c XVII nào apenas compreenderam c desenvolveram princípios 155 Vcja-sc Murray N. A sua influência nesse século também persistiu na obra dc influentes jesuítas.escreve Rothbard . "O papel central dos conceitos de utilidade. como os fundadores da ciência econômica . Rothbard. Mas a verdade é que essas idéias dos últimos escolásticos exerceram uma profunda influência. . embora o autor reúna sugestivas evidências de que os pensadores protestantes c os católicos daquele tempo tiveram uma sensibilidade incipiente a respeito da raiz teológica dos respectivos desentendimentos sobre o valor econômico. que é citado por vezes como o introdutor das idéias dc utilidade e escassez como fatores determinantes do preço". cm fins do século XVIII. conhecido pelas suas contribuições para a teoria do direito internacional.foram também muito influenciados pelos cscolásticos"155. há fortes evidências dessa influência no padre Fcrdinando Ga. Mesmo que os pensadores católicos tivessem chegado por simples acaso a esses importantes princípios econômicos e depois os tivessem visto enlangucscer sem influir nos seus sucessores. (Igualmente. assim como a um outro pensador. Alcjandro Chafucn mostra que. Anne-Robert-Jacques Turgot (1727-81). citou expressamente esses pensadores no século XVII e adotou muitos dos seus pontos dc vista econômicos.liani. c valor dc mercado .considerados. até chegar ao abbé francês Étienne Bonnot de Condillac (1714-80). Antonio Genovesi.espalhou-se pela França a paitir de Galiani. e temos provas que nos permitem seguir o seu rasto ao longo dos séculos. escassez. De qualquer modo. Na Itália do século XVIII. ao passo que os protestantes se enganaram amplamente... No seu livro Fé e liberdade: o pensamento econômico dos últimos escolásticos (2003). questão após questão. chegaram à conclusão correta sobre a natureza do valor. O protestante holandês Hugo Grotius. permanece o falo dc que os pensadores católicos. "New Light on the Prchistorv of the Aufctrian School". é impossível provar o acerto da explicação dc Kaudcr. f. um contemporâneo de Galiani. mcrcê da sua específica tradição intelectual. tais como Leonardo Lcssius c Juan de Lugo". pág.função de mosirar quanto dc prazer pode derivar dos bens econômicos" Logicamente.

cm que desenvolvo as contribuições dos últimos esco- . 77rc Church and the Market: A Calholic Defen. WOODS JR.. Por isso.que a idéia do livre mercado foi desenvolvida no século XVIII por anti-católicos fanáticos. Dos preços c salários ao dinheiro e à teoria do valor. Na época em que foi publicada a Encyclopédie francesa.se of lhe Free Econonty. Especialistas cm história do pensamento econômico têm tido uma consciência cada vez mais clara da contribuição proporcionada pelos últimos cscolásticos à economia156. é uma rematada tolice alegar . c o que essa obra fez foi repetir as análises escolásticas acerca da formação dos preços2*. 156 Cfr. os últimos cscolásticos anteciparam o melhor do pensamento econômico dos últimos séculos.142 THOMAS F. Thomas E.como fazem alguns polemistas . essas idéias já vinham sendo veiculadas havia centenas dc anos. violentamente anti-católica. Woods. econômicos decisivos. mas também defenderam os princípios da liberdade econômica c da economia dc livre mercado.

Basta dizer que a caridade católica não tem paralelo com nenhuma outra. a fome e a doença assolavam o exército do imperador Conslantino. 13. "Talvez náo haja nada maior na terra . Que tipo dc religião era aquela. 158 Michacl Davics.tá-Io as obras de caridade católicas através dos tempos. nem no alívio 157 Alvin J. Rcm.nant Press. Michigan. Grand Rapids. Schmidi. Zondcrvan. . se dedicam a trabalhar em hospitais pelo alívio da miséria humana. talvez o mais prolífico propagandisla anticatóli. socorrcndo-os sem qualquer discriminação.disse ele . UMA ATITUDE ASSOMBROSA No início do século IV. um soldado pagão. admirou-se.que o sacrifício da juventude e da beleza com que belas jovens. O próprio Voltaire. dioceses. 2001. 130.co do século XVIII. freiras e organizações leigas. pág. Minnesota. sc mostrou respeitosamente admirado com o heróico espírito dc sacrifício que animou tantos dos filhos c filhas da Igreja. muitas vezes nascidas cm berço de ouro. cm quantidade e variedade de boas obras. paróquias. antes dc o perceber. cuja vista causa tanta aversão à nossa sensibilidade. pág. mas de modo imperfeito. missionários. frades. observava com assombro como muitos dos seus companheiros romanos ofereciam comida c assistência aos que precisavam dc ajuda. Tão generosa caridade tem sido imitada. 1997.COMO A CARIDADE CATÓLICA MUDOU O MUNDO IX. Under lhe infhtence: How Chriuiaiiity Transfonned Civdizulion. Esse mesmo sentimento de assombro. mosteiros. já estava no caminho da conversão157. Pacómio. que podia inspirar tais atos dc generosidade c humanidade? Começou a instruir-se na fé c. Cheio dc curiosidade. St. continuaram a susci. por gente afastada da religião dc Roma"158. quis saber quem eram essas pessoas c descobriu que eram cristãos. For Aliar and Throne: The Rising in lhe Vendée. Exigiria volumes sem conta elaborar uma lista completa das obras dc caridade católicas promovidas ao longo da história por pessoas. Paul.

por exemplo. cm certo sentido. Os edifícios financiados pelos ricos exibiam ostensivamente os seus nomes. parecia ser um mensageiro da caridade. Não obstante. Esse era também o espírito com que o homem sábio devia assistir os menos afortunados: não impelido pelo desejo dc compartilhar a aflição c a tristeza daqueles a quem socorria. Servir dc coração alegre os necessitados e ampará-los sem nenhuma expectativa dc recompensa ou reciprocidade. Esperava-se dos ricos que financiassem termas. As doações eram feitas dc modo a deixar os beneficiários cm dívida para com os doadores. ou então atraíam as atenções para as suas pessoas e a sua grande liberalidade. Mas também ensinavam que era preciso suprimir os sentimentos c as emoções como coisas impróprias de um homem.como uma linha pré-cristã de pensamento que recomendava fazer o bem ao semelhante sem esperar nada cm troca. Seria tolice negar que IX. A maior parte dos gestos dc generosidade nos tempos antigos envolvia um interesse próprio: nào eram puramente gratuitos. nào era certamente o principio que prevalecia.prestado ao sofrimento e miséria humanos. c que permanecia viva nos primeiros séculos da era cristã .C. . Tão importante como o puro volume das obras dc benemerència é a diferença qualitativa que distinguiu a caridade da Igreja daquela que a havia precedido. deficiente. ou que homens dc valor fizeram importantes e substanciais contribuições cm prol das suas comunidades. edifícios públicos c todo o tipo dc entretenimentos populares. nem de longe foi o único a dotar a sua cidade natal de uma escola c uma biblioteca. nem estabelecendo qualquer vínculo emocional com eles.uma antiga escola dc pen samento que remonta mais ou menos ao ano 300 a. se o compararmos com aquele que foi praticado pela Igreja. por essa razão. mesmo os mais trágicos: devia possuir um autodomínio tão forte que fosse capaz dc encarar a pior catástrofe com absoluta indiferença. o espírito de caridade no mundo antigo era. cultivava o espírito de fraternidade para com os seus semelhantes c. Cita-se por vezes o cstoicismo . Plínio o Jovem. Podemos ir mais longe c dizer que foi a Igreja Católica que inventou a caridade tal como a conhecemos no Ocidente. como cidadão do mundo. O homem devia manter-se totalmente imperturbável perante quaisquer acontccimcntos exteriores. Os estóicos ensinavam que homem bom era aquele que. os grandes filósofos antigos proclamaram nobres sentimentos traduzidos em filantropia.

]. Mas a implacável supressão da emoção e do sentimento. Histon• of Eurupean Morais front Augustos to Charlemagite. Não sentirá compaixão. será propício ao infeliz [. vol. I.]. New York. Entre os muitos exemplos de estoicismo. Encountcr Books.. paralelamente ao desenvolvimento do cristianismo. Mas ajudará aqueles que merecem e.. sem impressionar-se com o grau dc semelhança que há entre o pensamento desse nobre pagão e o cristianismo. Assim sc explica que o filósofo romano Sêncca tenha podido escrever: "O sábio poderá consolar aqueles que choram.. sc limitou a observar "Eu nunca pensei que tivesse gerado um 159 Vincenj Carroll c David Shiílctt. salvará o cativo da arena e até mesmo enterrará o criminoso . como os deuses. contrária à justiça"159. pág.. desconhecendo a grandiosa dimensão do ser humano. o imperador romano do século II c filósofo cstóico. Socorrerá c fará o bem porque nasceu para assistir os seus semelhantes. foi por isso que São Justino Mártir veio a elogiar os cstóicos seus contemporâneos.mas com o espírito de desinteresse e a ausência dc emoção próprios de quem simplesmente cumpre o seu dever. defeitos do caráter que os homens racionais deviam evitar. . O seu rosto e a sua alma não denunciarão nenhuma emoção quando olhar para o aleijado. era IX. D Applclon and Co.. 142. 1870. 2001.. Dificilmente se poderão ler as Meditações de Marco Aurélio. dará hospitalidade ao proscrito e esmolas ao pobre [.. ao ser informado da morte do seu filho. Chrisiianity on Trial. San Francisco. para trabalhar pelo bem-estar da humanidade c para dar a cada um a sua parte [. 199-200. mas sem chorar com cies: socorrerá o náufrago. um homem que. o esfarrapado. págs.]. que tanto caracterizou essa escola. Rodncy Stark diz que a filosofia clássica "considerava a piedade c a compaixão como emoções patológicas. Dado que a piedade implicava prestar uma ajuda ou alívio imerecidos.xágoras. o cncurvado c o mendigo esquelético c macilento.mas cm toda a sua mente c no seu semblante estará igualmente imperturbável. algumas das asperezas do primitivo estoicismo começaram a dissolvcr-sc. restituirá o filho à mãe em prantos. Só os olhos doentes se umedccem ao verem lágrimas cm outros olhos160. 160 William Edward Hartpolc Lcckv. já havia cobrado o seu tributo. ressalta o de Ana. É verdade que.

OS POBRES E OS DOENTES 161 Ibid. pág. amai-vos também uns aos outros. pág.imortal". um crítico freqüentemente severo da Igreja. São Paulo afirmou que os cuidados c a caridade dos cristãos deviam ser ofcrccidos mesmo aos que nào pcrtcnccssem à comunidade dos fiéis. ao fim c ao cabo. 2-44. muito mais por razões políticas do que por sentimentos de benevolência. Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos otttros.também estavam pouco propensos a aliviálas aos outros"162. vol. assim como eu vos amei. Aí estava um novo ensinamento para o mundo antigo. Hislory of l-umpean Morais (rom Augustos to Charlemagne.jeitados. 1883. cfr. ante a conquista da sua cidade natal e a perda das suas filhas levadas para a escravidão ou o concubinato. já que o homem sábio transcende todas as suas circunstâncias 161. nem nas instituições fundadas. 34-35. II). Charles Scribncrs Sons. c o costume de vender crianças. Quase todo o socorro era prestado pelo Estado. à realidade do mal. "não sc pode sustentar nem na prática. Gál. ainda que fossem inimigos da fé (cfr. 83. que. E espanta-nos o vazio moral dc Stilpo. 1420. 201. mas bebeu a sua inspiração nos ensinamentos de Cristo. tão impermeáveis IX. I. se tiverdes amor uns aos outros (Jo 13. que a caridade ocupasse na Antigüidade um lugar comparável àquele que atingiu no cristianismo.. não linha realmente perdido nada. a presteza com que os pobres se candidatavam a gladiadores c as freqüentes vagas dc fome mostram como era grande a cxtensào dos miseráveis que ficavam esquecidos"163. 162 thid. nem na teoria. 10). proclamou que. 6. Para uma boa discussão sobre a ausência da idéia de caridade cristá no mundo antigo. Lccky. Dc acordo com William Lccky. Era simplesmente lógico que aqueles homens. fossem indolcntcs à hora dc aliviar os seus efeitos sobre os seus semelhantes: "Homens que se recusavam a reconhecer a dor c a doença como males .. O espírito de caridade na Igreja não surgiu no vácuo. . Cluistian Charity in the Ancient Churcli.anota um observador . Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos. os inumeráveis cn. ver Gcrhard Uhlhorn. Rom. págs. pág. nem no lugar que a ela foi atribuído na escala dos deveres. Ti 4. 202. New York. 163 William E H. 12.

The Charity of lhe Church. Os fiéis colocavam as suas oferendas sobre o altar durante a missa c. Gill and Son. doavam uma parcela dos frutos da terra nas coletas que tinham lugar antes da leitura da epístola. Também sc faziam contribuições cm dinheiro para os cofres IX. os cristãos suscitaram respeito c admiração pela coragem com que consolavam os moribundos c enterravam os mortos. São Cipriano e Santo Efrém empenharam-se cm promover obras de assistência cm tempos de fome c dc epidemias. Poderíamos continuar a citar longamente as boas obras da Igreja primitiva. agora sc sacrificavam de ânimo alegre pelos pobres*. cm vez de ajudar as vítimas da praga. 157. especialmente durante as epidemias. doavam aos pobres o dinheiro que teriam gasto com a comida. Os próprios Padres da Igreja. 39: Alvin J. pág. Chrisiian Chariiy in lhe Ancieni Church. . repreendeu a população pagã porque. Sào Justino Mártir relata que muitas pessoas que tinham amado as riquezas c as coisas materiais antes de se converterem. Dcnis Gargan. Dublin. Under lhe Influente. que jejuavam com freqüência. Santo Agostinho fundou um albergue para peregrinos e escravos cm fuga c distribuiu roupas entre os pobres. 264. trad. No século III. Por ocasião das pestes que assolaram Cartago c Alexandria no século III. São Cipriano. 1885. "Não demonstrais nenhuma compaixão pelos doentes. São João Crisóstomo fundou uma série dc hospitais cm Constantinopla165.H. 165 Cajctan Baluffi. Os primeiros cristãos.A prática dc oferecer dádivas destinadas aos pobres desenvolveu-se ccdo na história da Igreja. porque as venderia c daria o produto aos pobres164). da Igreja. Schmidt. pág. (Avisava às pessoas que não lhe oferecessem peças dc roupa caras. mas tão somente avidez c pilhagem depois que morrem. encontraram tempo para sc dedicarem pessoalmente ao serviço dos seus semelhantes. em certos dias de penitência. pág. M. praticadas tanto por humildes como por ricos. bem como aos enfermos. enquanto os pagãos abandonavam ao seu terrível destino até os próprios amigos". A Igreja primitiva também institucionalizou a atenção às viúvas c aos órfãos. bispo dc Cartago. Aqueles que sc encolhem dc medo à hora dc 164 Gerhard Uhlhorn. que legaram um enorme corpo literário c erudito à civilização ocidental. as saqueava. assim como coletas extraordinárias entre os fiéis ricos.

relatou que muitos cristãos "não fugiam dc amparar-sc uns aos outros. deixandoos insepultos quando morriam. . que faremos mais do que fazem os pagãos c publicanos? Sc somos fi lhos dc Deus. o Apóstata. págs. bendizendo aqueles que nos amaldiçoam c fazendo o bem aos que nos perseguem"IZ. The Charily o\ thc Church. 167 Cajcian Baluííi. e manda a sua chuva sobre justos e injustos. Esse Padre da Igreja conclamou os cristãos a mobilizar-se para assistir os doentes c enterrar os mortos. No caso dc Alexandria. o que o grande bispo pedia aos seus seguidores era que ajudassem as mesmas pessoas que às vezes os perseguiam. The Social Results of Eatly Christianity. afastavam-se deles. mesmo que sc tratasse dos amigos mais queridos. provemo-lo pelos nossos atos. págs. como resultado do bom exemplo dos cristãos. 152. Não apenas coordenou a coicta c distribuição de esmolas. Em contraste.A. 255-6.]. Dizia ele: "Sc só fizermos o bem aos que nos fazem o bem.. o bispo Dionísio relatou que os pagãos "repeliam os que começassem a ficar doentes. Eusébio.. a cidade em cujos arredores vivia como eremita. Under thc Influeitce. Santo Efrém é lembrado pelo seu heroísmo quando a fome e a peste sc abateram sobre Edcssa. pág. Lembremo-nos de que se estava ainda em uma época dc intermitente IX. que faz brilhar o seu sol sobre bons c maus. visitavam os doentes sem pensar no perigo que corriam e serviam-nos assiduamente [. 168 Charles G. Schmidt. 42-43. Schmidt. conta-nos que. Juliano.trabalhar por piedade mostram-se audaciosos à hora de extrair lucros ilícitos. o historiador da Igreja do século IV. perseguição aos cristãos e. muitos pagãos "sc interessaram por uma religião cujos discípulos eram capazes de uma dedicação tão desinteressada"168. Aqueles que fogem de enterrar os mortos mostram-se ávidos do que eles tenham deixado". portanto. The Social Results of Farlv Christianitv. largavam os moribundos à beira das estradas. pág. lamentou a bondade dos 166 Alvin J. cuidou dos doentes e dos mortos 167. Schmidt. Quando a fome atingiu a Armênia sob o reinado dc Maximiano. mas também fundou hospitais.A. atraindo para si mesmos as doenças dos seus vizinhos c assumindo dc livre vontade as cargas dos sofrimentos daqueles que tinham à sua volta"166. os cristãos prestaram assistência aos pobres sem considerar a filiação religiosa. Charles G. que odiava o cristianismo. tralando-os com o mais completo desprezo".

Garrison. Philadclphia. Muitos historiadores põem-no em dúvida. . doença c idade"171. Hislory of Eumpean Morais from Augustas to Charlemagne. órfãos c pobres em geral14.H. antes do nascimento dc Cristo.ding Garrison observa que. atraemnos como se atraem as crianças com um doce"169. págs. Discuic-sc sc existiram na Grécia e em Roma instituições semelhantes aos nossos hospitais. pág.t pág. 73. 171 Gucntcr B. Mending Bodies. Na sua origem. 85. Under lhe Influencc. OS PRIMEIROS HOSPITAIS E OS CAVALEIROS DE SÀO JOÃO IX. No mesmo sentido. W. Under lhe Influencc. no século IV. os cristãos ultrapassaram "a recíproca hospitalidade que prevalecia na antiga Grécia c as obrigações familiares dos romanos" para cuidarem de atender "grupos sociais marginalizados pela pobreza. No século IV. mas depois passaram a cuidar dos doentes. viúvas. Como explica Guenter Risse. 131. 172 Flelding H. Schmidt.cristãos para com os pagãos: "Esses ímpios galileus náo alimentam apenas os seus próprios pobres. Em um ato dc penitência cristã. Parece dever-se ã Igreja a fundação das primeiras instituições atendidas por médicos. vol. Saundcrs. esses hospitais tinham por fim hospedar estrangeiros. se prescreviam remédios c se contava com um corpo de enfermagem170. mas também os nossos. enquanto outros apontam alguma rara exceção aqui e acolá. percorria as ruas em busca de homens c mulheres pobres c enfermos necessitados de cuidados173. pág. "o espírito com que sc tratava a doença e o infortúnio não era o de compaixão. onde se faziam diagnósticos. Lccky. o historiador da medicina Fiel. 118: citado cm Alvin J. I. Risse. fundou um hospital cm Ccsaréia. 153-5. São Basflio Magno. mas mais para cuidar dos soldados doentes ou feridos do que da população em geral. uma mulher chamada Fabíola fundou o primeiro grande hospital público em Roma. Schmidt. pág. 170 Alvin J. An Inlroduclion of lhe Historx of Medicine. de tal modo que quase todas as principais cidades acabaram por ter o seu. 1914. Era co169 Ibid. c cabe ao cristianismo o crédito pela solicitude cm atender o sofrimento humano em larga escala"172. Saving Souls.B. a Igreja começou a patrocinar a fundação de hospitais em larga escala.-vindas nos seus ógapes. dando-lhes as boas. conhecido pelos seus contemporâneos como o Apóstolo das Esmolas. 173William E.

essas instituições eram virtuais oásis de ordem. cd. muito freqüentes cm Jerusalém. esse hospital procurou atender os pobres e proporcionar um alojamento seguro aos peregrinos. pág. a força das circunstâncias contribuiu significativamente para a ampliação das funções e perspectivas de um mosteiro. Para prestar esses cuidados práticos. New York. veio a tornar-se a Ordem dc Malta. Smith. As ordens militares. administravam hospitais por toda a Europa. os mosteiros tornaram-se também lugares de ensino médico entre os séculos V c X. sentimento que. A Regra dc Sào Bento enfatizava a importância de cuidar dos monges doentes. história dos hospitais: "Após a queda do Império Romano. fundadas durante as Cruzadas. Fundado cm torno dc 1080. 1996. Mending Bodies.nhecido por abraçar os leprosos miseráveis que ali buscavam alívio. Dada a sua organização e localização. . germe do que. a dos Cavaleiros dc São João (também conhecidos como hospitalários). o período clássico da assim chamada medicina monástica. manifestando uma terna piedade para com esses proscritos. deixou uma marca particularmente significativa na história dos hospitais europeus. Saving Sotds. mais tarde. particularmente após a vitória cristã na Primeira Cruzada. como cm muitas outras coisas. Uma dessas ordens. Durante o renascimento carolíngio dos anos 800. Paul Lcwis.mark. mas não há provas dc que o pai do mo naquismo moderno também tivesse atribuído ao mosteiro a tarefa dc prestar cuidados médicos à população cm geral. Tlte History of Medicine. Nào é de surpreender que os mosteiros também desempenhassem um papel importante no cuidado dos doentes174. Dc acordo com o mais completo estudo da IX. 52. Risse. cm fins do século. sobretudo pelas inusitadas dimensõcs do seu edifício em Jerusalém. tornaria famoso São Francisco dc Assis. os mosteiros também despontaram como principais centros dc estudo e transmissão dos antigos textos médicos"175. dos quais não se dispôs por vários séculos em nenhum lugar da Europa. Contudo. 175 Guenter B. pág. piedade e estabilidade. os mosteiros tornaram-se gradualmente provedores dc serviços médicos organizados. que favoreciam a cura. mais tarde. 95.. A extensão das suas operações ci*csccu significativamente depois dc 174 Roberto Margolla.

Nenhum rei ou tirano teria poder suficiente para manter o grande número de pessoas alimentadas diariamente naquela casa"176.Godofredo de Bulhões. contando. alimentava tantas pessoas. os hospitalários elegeram Raimundo du Puy como administrador do hospital. nào só pelos cuidados que se dispensavam aos doentes como pelas obras de caridade que sc levavam a cabo: "A casa .art. pois eram milhares as camas que víamos. O novo administrador concentrou os seus esforços na atenção aos doentes internados. outro peregrino alemão. com a nova torrente de peregrinos que chegou ao reino latino dc Jerusalém. modelo tanto para os serviços dc cari. tendo antes confessado os seus pecados ao sacerdote. . quer aos que não saíam dos seus lugúrios. de fora e de dentro.. os seus testemunhos sobre a caridade dos hospitalãrios de São João sc tivessem espalhado rapidamente por toda a 176 Ibid. pág. 16 do código estabelecido por Du Puy para a administração do hospital que "na mesma obediência com que o diretor e a congregação do hospital velam pela existência desta casa. Tcodorico de Würzburg. Ml. Lemos cm "Como os nossos senhores os doentes devem ser recebidos e atendidos" .diz cie - IX.dadc como para a incondicional devoção ao doente. maravilhou. assim seja recebido o enfermo que aqui vier: fazei com que participe do Santo Sacramento. e dava tão grande quantidade de esmolas aos pobres. Uma história moderna dos hospitais refere que "o decreto de Du Puy. Diz Gucntcr Risse: "Não surpreende que. 138. O sacerdote alemão João de Würzburg ficou muito impressionado com o que viu na sua visita a esse hospital. que nem mesmo os administradores ou os encarregados da despen.sa daquela casa eram capazes de calcular o total dos gastos".-se dc que "andando pelas dependências do hospital. em benefício deles. com os heróicos sacrifícios dos que trabalhavam naquela casa. 177 Ibid. Em 1120. substituindo o falecido irmão Gerardo. não conseguíamos de modo algum avaliar o número de pessoas que lá jaziam. que doou ã instituição uma série dc propriedades.. e depois seja carregado para a cama c nela tratado como se fosse o nosso Senhor". quer aos que vinham bater à sua porta. tornou-se um marco na história dos hospitais"177. pág.

A existência dc uma ordem religiosa que manifestava com tanto ardor a sua lealdade aos doentes inspirou a criação dc uma rede dc instituições similares. ASSISTÊNCIA EFICAZ As obras dc caridade católicas foram tio impressionantes que até os próprios inimigos da Igreja. Ao mesmo tempo. tiveram de reconhecê-lo. págs. . instituições inspiradas no hospital dc Jerusalém. 147. Nesse sentido. começou a admitir também doentes muçulmanos c judeus. 179 Ibid. cx-internados agradecidos. muito a contragosto. Essa sofisticada organização. mais do que de proporcionar abrigo aos viajantes necessitados. Um grupo de mulheres estava a postos para realizar outras tarefas c assegurar que os doentes tivessem roupa c lençóis limpos179. especialmente nos portos da Itália e do sul da França onde os peregrinos sc concentravam para embarcar. coroada pelo esmero no atendimento aos enfermos... IX. No transcorrer do século XII. 141-2. Os doentes recebiam duas vezes ao dia a visita de médicos. Os próprios hospitalários chegaram a administrar no século XIII cerca de vinte hospitais c casas de leprosos". organização e regime rigoroso. nobres caridosos e monarcas de um canto ao outro da Europa faziam substanciais doações de terras. inicialmente um estabelecimento só para cristãos. O escritor pagào Luciano (130-200) 178 Ibid. o rei Afonso dc Aragão legou um terço do seu reino aos hospitalários"178. Faziam-se pequenas cirurgias. onde começaram a surgir cm todos os lugares.Europa. Os funcionários só podiam comer depois dos pacientes. o Hospital dc São João. Em 1131. serviu de modelo para a Europa. o hospital começou a parcccr-se cada vez mais com um hospital moderno e menos com uma hospedaria para peregrinos: a sua missão ficou especificamente definida como a dc cuidar dos doentes. pág. tanto cm cidades principais como cm aldeias modestas. incluída a Inglaterra. O hospital impressionava também pelo seu profissionalismo. além dc um banho c duas refeições principais.

fez a violenta. Ela deu o exemplo. era muito comum dar comida c abrigo aos trabalhadores. O seu primeiro legislador meteu-lhes na cabeça que cies eram todos irmãos!" N Julia. sob o reinado do Evangelho (com isso. nào podemos duvidar dc que os marginalizados daqueles tempos eram pelo menos tào bem assistidos como os de agora"". intro.duzem com eficácia os seus perniciosos erros. Vede os seus banquetes de amor c as suas mesas preparadas para os indigentes. Império retornar ao seu primitivo paganismo. tentativa de fazer o IX. 185.no. . perseverou na sua tarefa c. um biógrafo do papa Inoccncio III no século XIX.observou com espanto: "É inacreditável a determinação com que as pessoas dessa religião sc ajudam umas às outras nas suas necessidades. Fre. os cristãos] dcvotam-sc às obras dc caridade e. Na 180 Ibid. c parece que ninguém julga possuir alguma coisa enquanto não se apropria dos bens do vizinho"180. proporcionou os meios necessários para levá-la a cabo"". a magnanimidade dos monges c o sacrifício pessoal das freiras.escreveu os odiados galileus [isto é. cm um alarde dc falsa compaixão. admitiu que os cristãos se avanta. Hoje.dcrick Hurter. o imperador romano que. O economista do século XX Simon Pattcn observou a propósito da açào da Igreja: "Na Idade Media. o mais inveterado inimigo da Igreja Católica até o fim da vida. em vez de dar.javam aos pagãos no seu devotamento às obras de caridade. mas frustrada. tudo o que tem sido feito para socorrer os indigentes c os aflitos nas vicissitudcs das suas vidas c cm qualquer tipo dc sofrimento. Tal prática é habitual entre eles c provoca desprezo pelos nossos deuses" 50. A extensão das atividades caritativas da Igreja aprecia-sc às vezes com mais clareza quando deixam dc existir. tratar com caridade os desafortunados c aliviá-los das doenças. viu-se obrigado a admitir: "Sob o Papado. chegou a declarar: "Todas as instituições de beneficência que a raça humana possui hoje em dia para minorar a sorte dos desafortunados.. pág. rcfcria-sc ao protestan. nos anos 360. Quando vemos o número dc hospitais c enfermarias. "Enquanto os sacerdotes pagãos negligenciam os pobres . as pessoas roubam-se umas às outras. com freqüência. o povo era ao menos caridoso c nào havia necessidade de recorrer à força para obter esmolas. das pragas c da fome. Martinho Lutcro. procede direta ou indiretamente da Igreja dc Roma.tismo). o Apóstata. Nào sc poupam em nada.

Os mosteiros eram conhecidos por serem proprietários generosos c bondosos. o rei Henrique VIII suprimiu os mosteiros e confiscou-lhes as propriedades. "os novos proprietários (lojistas. desapareceram também quase por completo as condições favoráveis cm que os camponeses vinham trabalhando essas terras. "O mosteiro era um proprietário que nunca morria. Foi por isso que a dissolução dos mosteiros e a distribuição das suas terras só pôde significar "a ruína para dezenas dc milhares dc camponeses pobres. os arrendatários tratavam com um senhorio imortal: as suas terras e casas nunca mudavam dc proprietário: os que as arrendavam nào estavam sujeitos a nenhuma das muitas incertezas que afetavam os outros arrendatários"15.brccimento dc muitos dos vossos humildes súditos. acusações fantasiosas náo faziam mais do que dissimular a cobiça real. o colapso das pequenas comunidades que constituíam o seu mundo e um futuro dc verdadeira mendicância"56. Em uma petição dirigida ao rei dois anos mais tarde. pois cobravam pouco pelo arrendamento das suas terras c estabeleciam os contratos a longo prazo. pois faltarão a hospitalidade e o sustento com que essas casas proporcionavam grande alívio aos pobres de todas as regiões próximas dos referidos mosteiros" ". banqueiros ou nobres cm dccadência) nào tinham nenhuma afinidade com o meio rural c exploraram os seus domínios com um espírito meramente mercantil: as rendas a pagar aumentaram. por exemplo.Inglaterra do século XVI. distribuindo-as a preço de banana entre os homens influentes do seu reino. assim como um grande empo. O pretexto para essa medida foi que os mosteiros sc haviam tornado fonte de cscàndalo c imoralidade. Com a dissolução dos mosteiros. as . uma rebelião popular também conhecida como a Peregrinação da Graça. Os Levantes do Norte dc 1536. Segundo um historiador. As conseqüências sociais da dissolução dos mosteiros devem ter sido muito significativas. tiveram muito a ver com a ira popular causada pelo desaparecimento da caridade monástica. embora restem poucas dúvidas dc que tais IX. observava-se: "A experiência que tivemos com a supressão dessas casas mostra-nos claramente que sc provocou e continuará a provocar-se neste reino dc Vossa Majestade um grande mal c uma grande deterioração.

E quando nào o faziam . É verdade que a real ajuda que cias prestavam aos pobres estava localizada geograficamente. e é conseqüência do viés protestante de Gilbert Bumct na sua História da Reforma da Igreja da InglaterraDc acordo com Paul Slack. Até há relativamente pouco tempo. Alguns doadores estabeleciam nos seus testamentos cm que casos sc deviam dar esmolas.terras dc lavradio convcrtcram-sc cm pastagens c as pequenas propriedades agrícolas foram fechadas. Por outro lado. sem o cuidado dc distinguir bem os verdadeiramente ncccssitados dos imprevidentes crônicos c dos meramente vadios. Ao contrário. cuja origem remonta aos fins do século XVII c comcços do século XVIII. sc o propósito dc tais . se scniir também nas obras dc assistência aos ncccssitados. como sustentavam os seus defensores católicos. Os efeitos negativos da dissolução dos mosteiros fizeram- IX. o culpado nào era o conservadorismo ou a brandura de coraçào dos monges. mas sim as restrições impostas pelos doadores quanto ao modo dc os mosteiros fazerem uso das suas doações. os historiadores começaram a desfazer essa grosseira distorção. Milhares dc desempregados foram atirados para as estradas. estes últimos eram injustamente premiados e o seu número tendia a multiplicar-se. As diferenças sociais acentuaram-se c a miséria cresceu assustadoramente"57. mas era mais substancial do que com freqüência sc supõe. um pesquisador moderno.explica Barbara Harvcy no seu estudo Vivendo e morrendo na Inglaterra. c a sua supressão deixou um verdadeiro Neil Rushton também fornece importantes evidências dc que os mosteiros tinham todo o cuidado cm dirigir a sua ajuda aos verdadeiramente necessitados. "a dissolução dos mosteiros. havia um consenso histórico acerca da atividade caritativa dos católicos na Inglaterra: dava-se como ccrta uma freqüente crítica protestante segundo a qual o socorro prestado aos pobres pelos mosteiros nào teria sido quantitativamente substancial nem qualitativamente benéfico. 1100-1540 -. insistia-sc em que a caridade monástica tinha sido escassa c que as exíguas quantias a ela destinadas eram distribuídas sem critério. sociedades religiosas e fraternidades nas décadas de 1530 c 1540 levou a uma drástica redução das fontes dc caridade. Nos nossos dias. cm prejuízo dos realmente necessitados. capelas. Com isso.

começou a deslocar-sc para os mosteiros. expressão com que já desde o século IV sc costumava designar todos os bens da Igreja. socorriam o pobre. os nobres sentiam-se tocados.ingcr. os cistcrcicnses c os premons. até cntào a cargo das igrejas paroquiais. cm meio aos horrores das neves alpinas"41. E William Lccky escreveu a este propósito: "Com o passar do tempo. Os beneditinos. . 22 c 33.nastic Expcricnce. foram os centros de toda a religião. Durante séculos. Clarendon Press. também tinha cm vista chegar ao maior número possível dc pessoas. 182 G«org Ral/.nástica. caridade e atividade cultural"182. aliviar o sofrimento dos pobres. Sc os viajantes pobres podiam confiar na hospitalidade mo. suas esmolas181. Mas os monges 181 Barbara Harvcv. mais tarde. o patrimônio dos pobres. os monges fundaram um refúgio para peregrinos. os viajantes abrigados. a fim de o benfeitor ganhar o maior número possível dc orações pelo repouso eterno da sua alma.distinguiram-se pelo zelo com que se dedicavam às obras dc caridade. citado cm John A Kyan. os mosteiros eram o patrimonium pauperum. ofereciam modelos para a agricultura. págs. muito da atenção aos pobres. tanto nas altas montanhas como nos vales profundos. Pela ação dos monges. se ergueram mosteiros cm torno dos quais se articulava a vida religiosa das redondezas: os mosteiros mantinham escolas. mas que era verdade particularmente no caso dos mosteiros. Em qualquer caso. indústria. os mosteiros foram-sc tornando mais cautelosos em selecionar os beneficiários das IX. Afirma um historiador que "cm todos os distritos. 1100• 1540: Thc Mo. c todos os mosteiros se tornaram focos dos quais irradiava. também os viajantes ricos eram bem-vindos. 1993. uns c outros como sc fossem o próprio Cristo. a caridade assumiu muitas formas. davam amparo aos órfãos.tratcnscs. cuidavam dos doentes c eram o lugar dc refúgio para todos os que carregavam o fardo da miséria espiritual e corporal. as mais remotas esferas do sofrimento penetradas. albergavam o viajante. os cativos resgatados.franciscanos c dominicanos . Living and Dving in lingland. No decorrer dos séculos que sc seguiram à morte de Carlos Magno (em 814). "Charity and Charitics". Em palavras do rei francês Luis IX. Durante o mais negro período da Idade Média. Oxford. as ordens mendicantes . com o passar do tempo. os doentes atendidos. Catholic Encyclopcdia. os pobres eram protegidos. assim como.doações era. cm parte. piscicultura c reflorestamento.

nunca tinha havido tantas doações com fins caritativos. que fazia com que as suas sobras fossem bastante substanciais. 11. 184 Michacl Davicv For Aliar and Tltrone. Assim como o ataque da Coroa inglesa aos mosteiros. Também era costume.000184. pág. colocava-as cm um prato chama. 183 Ibid. distribuí-la aos pobres. o certo é que a Igreja Católica revolucionou a prática das obras dc caridade.-cm-Provence advertiu que semelhante roubo ameaçava o bem. a França contava com 47% menos hospitais do que no ano do confisco. . arcebispo dc Cantuária. ao final da refeição. no caso dc um abade. com o óbvio intuito dc incitá-los a cmular a sua generosidade. servir a sua comida c bebida c. Quando o governo revolucionário francês nacionalizou as propriedades da Igreja. dos pobres c dos doentes.-estar e a educação do povo francês. c. debilitou a rede dc caridade que essas instituições tinham criado. Saíam à procura dos que viviam nas regiões circundantes. em memória dos monges falecidos.c punha-o claramente à vista dos seus irmãos monges. Embora os livros-texto dc história ainda não o mencionem. Sabe-se dc casos cm que os IX. também o ataque da Revolução Francesa à Igreja. os 50. no século XVI. o arcebispo de Aix.não se limitavam a esperar que os pobres os procurassem. Observava-se essa prática ao longo dc pelo menos trinta dias c até por um ano inteiro após o falecimento do monge. pobres recebiam alojamento por tempo indefinido41. os monges também davam aos pobres o que lhes sobrava da sua própria comida. Gilberto de Sempringham. nunca se tinha chegado a criar instituições destinadas a cuidar das viúvas. 13. e. pág. Além dc ajudas institucionalizadas. dos órfãos. em novembro de 1789. até mesmo perpetuamente183. Os resultados falam por si mesmos: até então. no século XVIII. Tinha toda a razão: em 1847. nunca sc tinha gasto tanto em esmolas. por exemplo. Lanfranc. confiava ao seu esmoler (o distribuidor de esmolas) a responsabilidade de descobrir c socorrer os doentes c os pobres que viviam nas imediações do mosteiro. tanto no seu espirito como na sua aplicação.. abalou a fonte de tantas boas obras.va-lhc "o prato do Senhor Jesus" .000 estudantes que estavam matriculados cm universidades dez anos antes tinham-se reduzido a 12. cm 1799.

documentaram a influência da Igreja no desenvolvimento do direito no Ocidente. Berman. 166. "Os conceitos 185(!) Harold J. tiveram a sua primeira expressão na liturgia. 6 mantida viva até que rccupcrc a saúde mental c só então é executada. Cambridgc. particularmente o seu Law and Revolution: The Formation of the Western Legal Tradi. historicamente.o poderá fazer uma boa confissão.tion. . nas instituições. Law and Revolulion: The Fonnaiion of lhe Weslem Legal Tradilion. rituais c doutrina da Igreja c. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL Na maioria dos países ocidentais. 1983. quando uma pessoa é condenada por assassinato c sentenciada ã morte. muitos aspectos do Direito podem parecer desprovidos de fundamento"185. O motivo para essa medida dc cxccção é totalmente teológica: só sc um homem estiver no seu perfeito juí/.X. Casos como esse levaram o professor de direito Harold Berman a observar que o moderno sistema legal ocidcntal "é um resíduo secular dc atitudes c pressupostos religiosos que. Harvard University Press. mais tarde. Sc não sc compreendem essas raízes históricas. receber o perdão dos seus pecados c ter a esperança dc salvar a sua alma. pág. mas perde a razão no intervalo entre a sentença c a execução. conceitos c valores do Direito. Os trabalhos do professor Berman.

o próprio Carlos Magno convocou c presidiu a um concilio da Igreja. c. A nossa história começa nos primeiros séculos da Igreja. conseqüentemente. mais tarde. Em 794. como são a e. porém. É verdade que Santo Ambrósio. Os séculos seguintes presenciaram interferências ainda maiores dos governantes em assuntos da Igreja. Já cm 325. as igrejas aos sacerdotes". os reis-imperadores das terras germânicas designavam não apenas os bispos. mosteiros e até mesmo dioceses. Os reis (e. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL 159 na sua natureza em íntima relação com conceitos caracteristicamcntc teológicos c litúrgicos.uma vez que os monarcas sc viram incapazes dc conter as ondas invasoras vikings. essa linha era freqüentemente ignorada e o poder civil exercia uma autoridade cada vez maior sobre questões sagradas. 195. promulgado pelo imperador Constantino em 313 (que estendia a tolerância ao cristianismo).estão nas suas origens. o primeiro concilio ecumênico da história da Igreja. chegou a proclamar que "os palácios pertencem ao imperador. e que o papa Gclásio fixou a doutrina que mais tarde seria designada pela fórmula das "duas espadas". imperadores) dos francos designavam as pessoas que deviam ocupar cargos na Igreja c até as instruíam em matérias dc doutrina sagrada.xpiaçáo c os sa cramentos" 186.ofereceu aos poderosos proprietários de terras a oportunidade de estenderem a sua autoridade sobre igrejas. Durante o século XI. . O mesmo sc daria mais tarde com os monarcas da França e da Inglaterra. uma heresia que negava a divindade de Cristo. um espiritual c outro temporal. a fim de tratar do controvertido tema do arianismo. assistiu a freqüentes conflitos dc competência entre a Igreja e o Estado. Desse modo. Na pratica. mas também os papas. o grande bispo de Milão do século IV.argumenta ele . dc acordo com a qual o mundo estava submetido a dois poderes. Nos séculos IX c X..ocidentais do direito . os abades dos 186 Ibid. pág. em Frankfurt. X. muitas vezes em detrimento da primeira. magiares e muçulmanas . O colapso da autoridade central na Europa Ocidental durante esses séculos . Constantino convocava uma assembléia que viria a ser o Concilio de Nicéia. assim como com outros governantes do Norte c do Leste europeu. O milênio que se seguiu ao Edito de Milão. o problema do controle das instituições da Igreja pelo Estado tornou-se particularmente agudo.

só poderiam multiplicar-se os candidatos espiritualmente incapacitados para esses ofícios. dc modo que a Igreja gozasse da liberdade necessária para desempenhar a sua missão. com direitos c responsabilidades religiosas. clarificaram-se. pois. que não tinha recebido as ordens sagradas. Hildebrando. Porém. c havia quem fosse mais longe e sustentasse que a sagração de um rei era um sacramento (um ritual que. que começou várias décadas antes desse pontificado (ao qual deve o seu nome). o papa negava-lhe o direito dc intervir nos assuntos da Igreja. um poder que vinha sendo exercido no século XI por diversos monarcas europeus. A SEPARAÇÃO ENTRE A IGREJA E O ESTADO O papa Gregório deu um passo decisivo quando definiu o rei como um simples fiel. começaram a elaborar-se códigos. Pouco tempo depois. sem nenhuma função religiosa além das que tinha qualquer outro cristão. Por outro lado.tificante à alma dc quem o recebia). A reforma gregoriana. os limites que deviam separar a Igreja e o Estado. Com a reforma gregoriana. O papa Gregório teria pouco sucesso no esforço por reverter a decadência interna da Igreja sc lhe faltasse o poder de nomear os bispos. por extensão. mas.mosteiros. No passado. como o Batismo e a Sagrada Comunhão. As dificuldades que surgiram na consecução desse objetivo levaram o partido grcgoriano a ter de enfrentar o verdadeiro problema: a intromissão do poder civil na vida da Igreja. nos quais sc es - . pertencia ao setor de reformadores radicais que procuravam não apenas persuadir os governantes a designar homens bons. o rei era uma exceção. fundamentalmente. até mesmo os reformadores da Igreja haviam admitido que. conferia a graça san. os párocos e os próprios bispos eram indicados por leigos. Consideravase que o rei era uma figura sagrada. nome com que o papa São Gregório VII era conhecido antes de ascender ao sumo pontificado. cm vez dc o serem pela Igreja. enquanto os poderes leigos continuassem a designar os párocos c os abades. negava esse mesmo direito ao Estado que o rei governava. embora fosse um erro reconhecer aos governantes civis o direito de preencher os cargos da Igreja. E. tanto no âmbito da Igreja como no do Estado. a excluir por completo os leigos da provisão dos cargos na Igreja. ao declarar o rei um simples fiel. teve por origem o propósito de elevar o nível moral do clero pela observância do celibato clerical c pela abolição da prática da simonia (compra e venda dc cargos eclesiásticos).

Nunca fora codificado sistematicamente c estava disperso por entre as observações dos concílios ecumênicos. da Bíblia c dos Padres da Igreja. nào havia cm nenhum lugar da Europa Ocidental qualquer sistema dc leis parecido com os atuais. Em um mundo regido pelo costume. O século XII começou a mudar tudo isso. pág. baseados na razão c na consciência. O direito da Igreja também havia estado nessa situação até fins do século XI. o direito canôni. c constituiu também um marco histórico. Graciano e outros canonistas desenvolveram critérios. Antes dc sc ter compilado o direito canônico. destinados a determinar a validade dos costumes estabelecidos c a introduzir a idéia de uma lei natural anterior à política. Decretum).co (isto é. cujas partes sc relacionam entre si de modo a formarem um todo"187. talvez. Muito desse direito era de natureza regional e. não se aplicava ao conjunto da Cristandadc.tabeleciam e se explicitavam os poderes e as responsabilidades dc cada um na Europa posterior a X. c por «sistemático» o esforço por apresentar esse direito como um corpo único.sc por «abrangente» se entende a tentativa dc abarcar virtualmente todo o direito dc um sistema de governo. Desde a fragmentação do Império Romano do Ocidente com o advento dos reinos bárbaros. tanto cm volume como cm alcance. É uma obra gigantesca. 143. dos papas. c não por um conjunto dc normas obrigatórias. redigido por volta de 1140. com 187 Ibid. simplesmente.. foi "o primeiro tratado legal abrangente c sistemático na história do Ocidente c. dos livros penitenciais (que determinavam penitências para os pecados). tornou-se o modelo dos diversos sistemas jurídicos civis que foram aparecendo nos séculos sucessivos. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL 161 Hildebrando. por conseguinte. E o primeiro corpo dc leis sistemático da Europa medieval. c não era considerado nem estudado independentemente dessas realidades ou julgado apto para estabelecer regras gerais que obrigassem as pessoas. o direito da Igreja). O tratado-chavc do direito canônico foi obra do monge Graciano e intitulou-se Uma concordância de cânones discordantes (também conhecido como Decretum Gratiani ou. entre os séculos XII c XIII. dc alguns bispos. na história da humanidade . o direito tinha estado intimamente ligado aos costumes e aos laços dc sangue. Dc acordo com Bcrman. .

as provas racionais em juízo189. pág. "Thc Influcncc of Christianitv upon lhe Devclop. era necessário o livre 188 Berman.c. 190 Harold J. dos julgamentos decididos por meio dc combates.o Antigo Testamento. Faith and Order: The Reconciliai ion of Law and Reli. a propriedade. uma ciência jurídica coerente e racional"188. pelos ordálios do fogo e da água. Harold J. estatutos legais c outras inúmeras fontes. . Os procedimentos racionais estabelecidos pela lei canônica apressaram o fim desse e dc outros métodos igualmente primitivos. Berman. «o jurista» Justiniano. 189 Harold J. Santo Agostinho. a herança. Esses estudiosos do direito "dcbruçaram-sc sobre uma variedade dc textos . os Concílios da Igreja . pág. em que a inocência e a culpa eram determinadas com demasiada freqüência por meios supersticiosos. valendo-se do método escolástico c da teoria da lei natural. pág. Os estudiosos do direito canônico ensinaram ao Ocidente barbarizado dc que modo tomar uma colcha de retalhos dc costumes. Quanto ás provas em juízo. em que se resolvessem as eventuais contradições anteriores. os Padres da Igreja. assim como dos costumes existentes nas sociedades eclesiástica e civil da época. 1993. que viriam a ser codificados no rasto da obra de Graciano. conseguiram criar a partir dessas fontes tão díspares. cm Oklahoma Law Review 12 (fcv. cm que "a lei que prevalecia era a lei da vendeta do sangue. "The Inllucnce oí Christianiiv Upon lhe Dcvclop. para a validade dc um casamento. com uma estrutura internamente consistente.a qual todo o costume legítimo devia conformar-sc. c produzir a partir dela uma ordem jurídica coerente. pelo depoimento de testemunhas arroladas pelo acusado cm sua defesa"190.gion. 44. mas no dos sistemas legais civis. os povos da Europa continuavam a viver em um regime bárbaro.ment of Law". Scholars Press. 93. os canonistas c os juristas católicos das universidades medievais viram-se diante de uma situação desastrosa: até fins do século XI. 1959).mcni oí Law". Tão importante como o processo de unificação foi o conteúdo do direito canônico.. Esse trabalho daria importantes frutos nào só no campo do direito da Igreja. 93. A lei canônica sobre o matrimônio considerou que. Sabemos o que representava na prática o julgamento por meio do ordálio: era submeter a pessoa acusada dc um crime a provas dc fogo c água destituídas da menor evidência racional. Atlanta. «o filósofo» Aristóteles. o Evangelho. Bcrman. cuja abrangência foi tão vasta que contribuiu para o desenvolvimento do direito ocidental em matérias como o matrimônio.

puderam introduzir-se nas práticas quotidianas dos povos europeus que haviam adotado o catolicismo. Foi pela implementação desses importantes princípios legais que sc pôde finalmente pôr termo à prática comum do casamento de crianças. pela codificação e promulgação de um corpo legal sistemático. 192 188. Harold J. Berman. Com relação a este último ponto.consentimento tanto do homem como da mulher. Esses mesmos canonistas introduziram também o princípio moderno de que pode haver circunstâncias que atenuem ou mesmo isentem uma pessoa de responsabilidade por um crime. Law and Rex-oliUion. com os vários tipos dc intenções c com as implicações morais das diferentes conexões causais. Ouando examinamos as regras pelas quais o direito canônico procurou determinar a criminalidade dc um ato. dos não ocidentais.os fundamentos não apenas do moderno direito matrimonial. mas este. principalmente o conceito de livre manifestação da vontade e dc ausência de erro. Sc essa pessoa estava fora dc si. Harold J. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL 163 sc uma das partes estivesse cm erro a respeito da identidade ou dc alguma condição importante da outra pessoa. c que o ato poderia ser anulado sc tivesse sido celebrado sob coação ou X. causa-lhe a morte. . coação c fraude" 191. São esses princípios que permanecem como núcleo dos modernos ordenamentos legais que regem a vida dos ocidentais c. Alguém atira uma pedra para assustar determinada pessoa. confusa ou intoxicada. nào podia ser responsabilizada cm 191 228. adormecida. Law and Revolution. consideravam exemplos como o que sc segue. pág. cada vez mais. que tinha as suas origens cm costumes bárbaros*. "Aqui estão . Os canonistas estavam preocupados com a intcncionalidadc do ato. descobrimos princípios legais que sc tornaram norma cm todos os modernos sistemas legais do Ocidente. Até que ponto quem atirou a pedra foi o causador dessa morte? Este era o sofisticado tipo de questões legais para as quais os canonistas procuravam respostas192. Procura um médico. por negligência. essa pessoa choca-sc contra uma rocha e fcrc-sc gravemente. Para esquivar-se a ela. mas também dc certos elementos básicos do moderno direito contratual.escreve Bcrman . que. E assim as práticas bárbaras foram cedendo o lugar aos princípios católicos. pág. Bcrman.

. Porém. O homem.cm vez de qualquer outro meio . com base na razão humana. c se além disso nâo tivesse provocado uma ou mais dessas condições. 193 Ibid. por que era conveniente que Deus se fizesse homem na pessoa de Jesus Cristo c por que a crucifixão de Cristo . A bem dizer. Especificamente. no entanto. Nesse livro. só podiam escusar alguém dc responsabilidade perante a lei sc. como resultado deles. pág. Tratava-se dc fatores que. dominadas por muitos séculos dc influência dos bárbaros. introduzindo distinções importantes que as sociedades européias. E os canonistas dos séculos XI e XII . contribuindo assim para introduzir na lei a idéia da intcncionalidadc. por um ato gratuito da graça? Por que. . de certo modo. após a queda e a expulsão dc Adão c Eva do paraíso.. desconhe- A DOUTRINA DA EX PI AÇÃO Chegados a este ponto.utilizaram elementos desse direito. como seria o caso dc alguém que sc embriagasse propositadamente193.juízo pelo seu ato à primeira vista criminoso. que lhes chegaram ao conhecimento através do rccémdescoberto código redigido sob o reinado do imperador Justiniano. no século VI. cm outras palavras. Deus criou originalmente o homem para que pudesse gozar da felicidade eterna. Anselmo propós-se demonstrar. devemos examinar a obra dc Santo Anselmo de Canuiária (1033-1109). a crucifixão foi necessária?" A resposta de Anselmo foi a que expomos sucintamente a seguir194. o acusado não tinha consciência de que fazia uma coisa errada.bem como os seus coctâncos que cdificaram os emergentes sistemas legais dos Estados da Europa Ocidental . porque imprimiu a clara marca dc teologia católica nas legislações civis. o antigo direito romano já tinha feito a distinção entre atos deliberados c atos acidentais. o autor quis dar resposta a uma objeção bastante natural: Por que Deus muito simplesmente não perdoou a raça humana pelo pecado original? Por que nào reabriu as portas do céu aos descendentes de Adão por meio de uma simples declaração de perdão. deram o seu próprio contributo. 189. 194 Cft ibid. uma vez que a sua obra Cur Deus homo teve profunda influencia sobre a tradição jurídica ocidental.foi indispensável ã redenção da humanidade. 179. pág.

era tão grande que nenhuma punição que o homem pudesse sofrer seria capaz de oferecer a Deus uma compensação adequada. Efetivamente. na medida em que as ações criminosas começaram a ser encaradas menos como ofensas a pessoas concretas c mais como violações ao princípio abstrato da justiça'3. Em grande pane. o crime tornouse "desperso. mas igualmente a todo aquele cometesse um crime no reino temporal: tendo violado a justiça em si [em abstrato].cm face da necessidade de reparação devida a Deus c a incapacidade do ser humano de poder oferccé-la o único caminho para expiar o pecado original era por meio da mediação dc um Dcus-Homcm: só o próprio Deus. E o direito dc propriedade. Eis por que . com a passagem do tempo. essa punição frustraria novamente a intenção de Deus. Os delitos. a fim dc que a justiça fosse restabelecida.frustrou essa intenção dc Deus ao rebelar-se contra Ele. podia oferecer uma reparação condigna cm nome e no lugar do homem. tornou-se comum pensar que a explicação de Santo Anselmo sobre a reparação do pecado original sc aplicava nào somente a Adão c Eva. Mas a sua ofensa a Deus. introduzindo o pecado no mundo. devem ser remediados por penas proporcionadas aos males causados. deve ser restabelecido por quem o violou. Foi assim que Santo Anselmo justificou racionalmente a necessidade da morte expiatória dc Jesus Cristo. portanto. o direito penal surgiu na civilização ocidental no seio de um ambiente profundamente influenciado por essa explicação de Santo Anselmo sobre a doutrina da expiação. Qualquer punição que sofresse teria dc ser tão severa que acabaria por anular a sua própria felicidade eterna. Esses princípios c similares ficaram tão profundamente impregnados na consciência e. Essa explicação apoiava-se fundamentalmente na idéia dc que a violação da lei era uma ofensa contra a justiça c contra a ordem moral do universo.nalizado". . assumindo a condição dc homem. a pessoa devia submeter-se a alguma punição. suma bondade. e como o plano dc Deus para o homem era acima de tudo conccdcr-lhe a felicidade eterna. o homem devia ser punido pelo seu pecado. que essa violação requeria uma punição que reparasse a ordem moral. quando violado. c que a punição deveria adequar-se à natureza c à extensão da violação. Para que sc satisfizessem as X. Pois bem. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL 165 exigências da justiça.

págs. cm Boston College Law Review 33 (1991). E os municípios e as cidades . uma das maiores autoridades mundiais sobre o pensamento medieval. cm Emont Law Journal 47 (1998). em que reis c papas se envolveram em acesos debates sobre os seus respectivos direitos. "Thc Historv nf Righls in Western Thought". Jr. na seminal batalha entre a Igreja e o Estado. os estudiosos pensaram que a idéia dos direitos naturais . com a renovação da vida urbana no século XI. A partir da controvérsia das investidoras. dois séculos depois. Kcnncth Pcnnington. Por outro lado. Graças ao trabalho dc Brian Ticrney. travou-se uma discussão que. Cambridgc. essa tese não poderá continuar a sustentar-se. Law and Revolution. que nos é difícil imaginar um ordenamento legal fundado em outros princípios c valores195. da França. começaram a pontilhar a paisagem européia . como sc vê pela guerra de panfletos que irrompeu entre os partidários do papa Bonifácio VIII c os do rei Filipe o Belo. o famoso compêndio da lei canônica da Igreja Católica elaborado por Gra. Natural Law. 1997. os que sabiam que a idéia dos direitos naturais sc achava nos comentários ao Decretum.como direitos morais universais possuídos por todos os indivíduos . The Idea of Natural RÍRIIIS: Stndies on Natural Righls. Quando os filósofos do século XVII formularam as suas teorias sobre os direitos naturais. Bcrman. AS ORIGENS DOS DIREITOS NATURAIS A influência da Igreja nos sistemas legais c no pensamento jurídico do Ocidente estendeu-se também ã concepção do direito natural. mesmo entre os professores. and Church lxiw\ veja-se também Annabcl S Breu. IJberty. Charles J. Antes do trabalho de Ticrncy.naturalmente nos valores sagrados . 37-92. Foi com esses estudiosos. 196 Brian Ticrncy. "Thc Canonistic Contribulion to thc Wbstcrn Righls Tiadition: An Historical Inquiry". Por muito tempo. 194-5.da sociedade ocidental.insistiam nos seus direitos cm face das demais 195 Harold J. o que fizeram foi construir sobre uma tradição que já vinha dos mestres católicos do século XII196. .. 237-52. págs. eram muito poucos. que a tradição realmente começou.ciano.que. no século XI. como vimos atrás.surgiu mais ou menos espontaneamente no século XVII. Cambridgc Univcr. as relações entre os senhores c os vassalos da Europa feudal traduziam-se em um feixe dc direitos c obrigações recíprocos. Righl and Nature: Individual Righls in Ixxter Scholaslic Thtmght.sily Press. O século XII manifestou um grande interesse e preocupação pelos direitos de certas instituições e de certas classes dc pessoas. Reid. págs. ainda estava bastante viva. conhecidos como dccrctistas.

Nào tardaram a identificar exemplos específicos dc direitos naturais. A bem dizer. Assim que se captou esse sentido. mais do que direitos inerentes. Um deles foi o dc a pessoa comparecer perante um tribunal para sc defender das acusações que pesassem sobre ele. definiam esse termo dc formas muito diferentes. dc procurar elucidar os diversos significados que a expressão podia ter. De acordo com Ticrncy: "O ponto importante para nós é que. os juristas descobriram um novo significado. argumenta Ticrncy. Os juristas medievais negaram que esse direito fosse 197 Brian Ticrncv. As diversas fontes que eram citadas nos primeiros capítulos do Decretam dc Graciano faziam freqüentes referências ao termo ius naturale ou lei natural.çôes e poderes inerentes aos indivíduos que hoje chamamos direitos naturais"11. 198 Ibid. no entanto. mais personalista e baseada em direitos. Aqui e acolá.autoridades políticas197. Isso aconteceu do modo que relatamos a seguir. Essas fontes. como poder. do qual vieram a extrair o vocabulário c o corpo dc doutrina que hoje associamos às modernas teorias do direito natural. foi fácil chegar às normas de conduta prescritas pela lei natural ou às licitas reivindica.. Mas foi nesse contexto que os canonistas e outros pensadores jurídicos do século XII começaram a afirmar o conceito de direitos. visto que envolviam direitos de grupos particulares. todos esses embates não giravam cm torno X. Os canonistas.. 5. pág. a todos os seres humanos.]. por natureza. capacidade ou faculdade inerentes à pessoa humana [. que às vezes pareciam contradizcr-se umas às outras. que não estava realmente presente nos textos antigos. . The Idca of Natural Rights: Origins and Persistencc". pois. Lendo-os com a mente formada na sua nova cultura. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL 167 do que poderíamos chamar propriamente direitos naturais. cm Northwestern University Journal of International lluman Rights 2 (abr 2004). esses textos definiam por vezes o direito natural em um sentido subjetivo. ao explicarem os vários sentidos possíveis do termo ius naturale. esses juristas chegaram a uma nova definição. "começaram a ver que um adequado conccito dc justiça natural devia incluir o conceito dc direitos individuais"198. força. Os comentaristas tiveram.

uma mera concessão do governo aos cidadãos, c insistiram cm que se tratava dc um direito natural dc todos os indivíduos, derivado da lei moral universal. Pouco a pouco, foi assim ganhando peso a idéia de que os indivíduos possuíam certos poderes subjetivos ou direitos naturais, pelo simples fato de serem humanos. Nenhum governante os podia limitar. No período compreendido entre 1150 c 1300 - diz o historiador Kenncth Pennington -, "foram definidos os direitos de propriedade, de legítima defesa, do matrimônio e de processo civil com base na lei natural c não na lei positiva, assim como os direitos dos nào cristãos. E ao situarem esses e outros direitos justamente dentro da estrutura da lei natural, os juristas puderam sustentar - e assim o fizeram efetivamente que nenhum príncipe humano podia suprimi-los ou restringilos. O príncipe nào tinha jurisdição sobre os direitos baseados na lei natural; conseqüentemente, esses direitos eram inalienáveis" 199. Todos esses princípios parecem-nos conquistas dos tempos modernos, mas a verdade é que chegaram até nós graças aos pensadores católicos medievais, que, também neste caso, estabeleceram os fundamentos da civilização ocidental tal como a conhecemos. O papa Inocente IV debruçou-se sobre a questão dc saber se os direitos fundamentais - concrctamcntc em relação à propriedade c à legitimidade dos governos - pertenciam única- mente aos cristãos ou cabiam cm justiça a todos os homens. Naquele tempo, determinados círculos manifestavam uma opinião exageradamente pró-papista, jã que o Papa. como representante dc Deus na terra, era senhor do mundo inteiro e, por essa razão, o direito dc propriedade e o da autoridade legítima só podiam ser reivindicados pelos que reconhecessem a autoridade pontifícia. Inocêncio IV rejeitou essa posição c afirmou que "a posse, a propriedade e a jurisdição podem pertencer licitamente aos infiéis [...]. porque essas coisas não foram feitas apenas para os fiéis, mas para todas as criaturas racionais" 20. Esse texto seria citado com grande repercussão pelos posteriores teóricos do direito. A linguagem e a filosofia dos direitos continuaram a desen volver-se com o passar do tempo. Particularmente significativo foi o debate ocorrido no início do século XIV em torno dos franciscanos. uma ordem dc frades mcndicantcs. fundada no início do século XIII. que sc afastava dos bens terrenos c abraçava uma vida dc pobreza. Com a morte dc São Francisco, em 1226, c a contínua expansão da sua ordem,
199 Kcnncth Pennington. "The History oí Rights in Western Thoughl".

alguns eram favoráveis a moderar a tradicional insistência na pobreza absoluta, muitas vezes considerada pouco razoável
X. A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL

169

para uma ordem tão grande e espalhada. A ala extremista desses frades, conhecidos como "espirituais", rejeitou qualquer tipo dc concessão, insistindo Cm que as suas vidas dc absoluta pobreza eram réplicas fiéis da vida dc Cristo c dos Apóstolos, c. por conseguinte, a mais alta e perfeita forma de vida cristã. Porém, aquilo que começou como uma controvérsia sobre a pobreza dc Cristo c dos Apóstolos - sc ela chegara ou náo a repudiar qualquer gênero dc propriedade evoluiu para um importante c fecundo debate sobre a natureza da propriedade, c suscitou cm tomo dela uma das questões centrais que dominariam os tratados dos teóricos do direito no século XVII21. Mas o que realmente consolidou a tradição dos direitos naturais no Ocidente foi a descoberta européia da América c as questões que os teólogos escolásticos espanhóis levantaram

acerca dos direitos dos habitantes dessas novas terras, uma história que já expusemos atrás. (Esses teólogos citaram freqüentemente a declaração de Inocéncio IV acima transcrita). Ao desenvolverem a idéia de que os nativos da América possuíam direitos naturais que os europeus tinham a obrigação dc respeitar. esses teólogos do século XVI lançaram os fundamentos doutrinários de uma tradição que vinha das obras dos canonistas do século XII. Resumamos. Foi no direito canônico da Igreja que o Ocidente viu o primeiro exemplo dc um sistema legal moderno, à luz do qual ganhou forma a moderna tradição legal do Ocidente. Dc igual modo. a lei penal ocidental foi profundamente influenciada. não só pelos princípios legais da lei canônica. mas também pelas idéias teológicas, particularmente pela doutrina da reparação desenvolvida por Santo Anselmo. E, por último, a própria idéia dos direitos naturais, que durante muito tempo se considerou ter surgido c alcançado a sua plena formulação por obra dos pensadores liberais dos séculos XVII c XVIII, teve a sua origem no trabalho dos canonistas, papas, professores universitários c filósofos católicos. Quanto mais os estudiosos pesquisam o direito ocidental, mais nítida se apresenta a

20)Brian Ticrncv. "Thc Idca of Natural Rights: Origins and Pcrsislcncc". pág. 7. 21)Ibid.. pág. 8.

marca que a Igreja Católica imprimiu ã nossa civilização c mais nos convencemos dc que foi ela a sua arquiteta.

A IGREJA E A MORAL NO OCIDENTE

IX.

MORAL CATÓLICA E MORAIS NÀO CATÓLICAS

Não é dc suiprccndcr que os padrões morais do Ocidente tenham sido decisivamente configurados pela Igreja Católica. Muitos dos mais importantes princípios da tradição moral ocidental derivam da idéia nitidamente católica da sacralidadc da vida humana, do valor único dc cada pessoa, cm virtude da sua alma imortal. Essa idéia nào sc encontrava cm lugar nenhum do mundo antigo, nem na Grécia nem em Roma. Com efeito, o pobre, o fraco ou o doente eram normalmente tratados com desprezo c, às vezes, até mesmo completamente abandonados, como já vimos a propósito das obras dc caridade empreendidas no seio da Igreja. Platão, por exemplo, disse que um pobre homem cuja doença o tornasse incapaz dc continuar a trabalhar devia ser abandonado à morte. Sêncca escreveu: "Nós afogamos as crianças que nascem débeis e anormais" 200. Muitas meninas sadias (incômodas cm sociedades patriarcais) eram simplesmente abandonadas. o que fez com que a população masculina do antigo mundo romano ultrapassasse a feminina cm cerca dc trinta por cento'. A Igreja nunca aceitou semelhante comportamento. Vemos o compromisso da Igreja com a natureza sagrada da vida humana na condenação do suicídio, prática que tinha defensores no mundo antigo. Aristóteles criticou o suicídio, mas. entre os antigos, outros - particularmente os cstóicos eram-lhe favoráveis, como meio aceitável dc escapar ao sofrimento físico ou psíquico. Um bom número dc cstóicos famosos cometeu suicídio. Que melhor prova de desapego do mundo poderia haver do que ser a própria pessoa a determinar o momento da partida? Em A Cidade de Deus, Santo Agostinho condenou os elementos da Antigüidade pagã que encaravam o suicídio como um ato nobre:
200 128 c 153. Alvin J. Schmidt. Under lhe Influente, págs.

quem tem a fortaleza dc enfrentar uma vida de miséria em vez de fugir dela. Na verdade. assim como o baixíssimo índice dc suicídios observado na profundamente católica 201 Ibid.continuava Agostinho ."Grandeza de espírito não é o termo correto para designar alguém que sc mata por lhe ter faltado coragem para enfrentar o sofrimento ou as injustiças dos outros. revela-se fraqueza cm uma mente que não pode suportar a opressão física ou a opinião estúpida da plebe. Nós atribuímos muito justamente grandeza de espírito a IX.. para escaparem dos castigos dos seus perseguidores. Cristo podia ter induzido os seus seguidores ao suicídio. c de desprezar os juízos dos homens [. assim como aquele que mata o servo de outra pessoa peca contra o senhor a quem esse servo pertencia.] antepondo-lhes a pura luz dc uma boa consciência" O próprio exemplo de Cristo . quem tira a sua própria vida peca contra Deus. Sào Tomás de Aqui no também abordou a questão do suicídio no tratado sobre a justiça da sua Summa theologiae. A Deus pertence julgar da morte e da vida. ou assim como peca aquele que usurpa o poder de julgar cm uma matéria que não é da sua jurisdição. é claro que esse meio nâo é permitido àqueles que adoram o único Deus verdadeiro"201. mas concluem com um raciocínio estritamente católico: "A vida é um presente oferecido por Deus ao homem e só Ele tem o poder de dá-la ou tirá-la.raciocinava Agostinho embora lhes tivesse prometido uma morada eterna depois que partissem. Dois dos seus três principais argumentos contra o suicídio baseiam.-sc na razão. No início do século XX. um estudioso sublinhava a diferença gritante que existia na Suíça entre a taxa de suicídios ocorridos nos cantócs católicos c a que sc verificava nos cantões protestantes. independentemente da revelação divina. mas não o fez. como diz o Dculcronômio 32. "Sc Ele nào lhes aconselhou esse caminho para abandonar esta vida . 39: Eu faço ntorrer e faço viEmbora talvez não seja fácil medi-lo. .. pode-se afirmar que a aversão ao suicídio infundida pela Igreja teve extraordinário eco entre os seus fiéis. Portanto.proíbe tal comportamento.

Walsh..Irlanda. 202 James J. pág. Boston. Assim aconteceu efetivamente em fins do século IV na metade ocidental do Império Romano. Foram também os ensinamentos dc Cristo proclamados pela Igreja que ajudaram a abolir os combates de gladiadores. um feito que deve ser atribuído quase exclusivamente à Igreja Católica"203. Under lhe Inftitence. 203 Para ambas as citações. pág. terra de tantas tragédias e infortúnios202. The WoHd's Dcbl lo lhe Caiolic Church. Schmidt. Thc Slralford C. Essa banalização da vida humana não poderia ter sido mais oposta à doutrina católica sobre a dignida- IX. ver Alvin J. 227. Lccky situou esse progresso na sua perspectiva histórica: "Houve poucas reformas tão importantes na história moral da humanidade como a supressão dos espetáculos de gladiadores. 1924. c no início do V na metade oriental. . No seu Vida quotidiana na Roma Antiga. Jcromc Carcopino diz claramente que "as carnificinas na arena foram banidas por ordem dos imperadores cristãos". cm que os homens lutavam entre si até à morte como forma de entretenimento. de c valor da vida humana.

se desencorajava a violência. diziam. a menos que seja compelido a fazê-lo em legítima defesa. quando a tanto não o obrigam o dever ou a caridade. que tratou principalmente da reforma eclesiástica c dos pontos dc doutrina que a reforma protestante contestava. Além disso. procuram deliberada c desnecessariamente tirar a vida a um adversário ou pelo menos feri-lo. Existem na própria natureza do duelo uma temeridade completamente cega e um desprezo pela vida. era melhor canalizá-la por vias socialmente menos perturbadoras. proíbe expressa e terminantemente que . O papa Bento XIV reafirmou essas penas cm meados do século XVIII e o papa Pio IX deixou claro que elas se estendiam igualmente ás testemunhas c aos cúmplices. expulsou da Igreja os que sc batiam em duelo. tão espalhada. O papa Leão XIII tornou a insistir nessa oposição da Igreja. Isso era melhor. que é conhecida tanto pela luz da razão como pelo que a Sagrada Escritura nos revela.. Resumindo os princípios religiosos em que se baseara durante séculos a condenação católica ao duelo. a lei divina proíbe quem quer que seja de arriscar a vida imprudentemente.tas acreditavam que a violência podia ser totalmente erradicada.174 O DUELO THOMAS F. com a sua institucionalização. e daí que a Igreja aplicasse sanções contra os que sc envolviam nessa prática. . expondo-se a um grave c evidente perigo. Como só os utopis. mediante códigos dc honra que fixassem o modo de rcalizar-sc c a presença dc testemunhas.fora dos casos dc proteção da ordem pública . Por outro lado.alguém mate ou fira outro homem. do que as incessantes rixas sangrentas que duravam atê ã madrugada. Mas nem com essas medidas deixava dc haver algo dc repugnante cm que os homens sc servissem dc espadas c pistolas para vingar a sua honra. WOODS JR. com absoluto desprezo pela vida humana. Esses eram os argumentos com que se justificavam os duelos. em uma época cm que as leis civis se mostravam indiferentes a essa prática. Aqueles que apoiavam essa prática alegavam que. A Igreja foi igualmente inimiga da prática do duelo. O Concilio de Trcnto (1545-1563). excluindo-os dos sacramentos c proibindo que tivessem funerais católicos. tenha-se presente que aqueles que provocam um combate privado ou o aceitam quando desafiados. afirmou: "A lei divina.

Para ele. As razões alegadas pelos que se batem em duelo para dirimir as suas contendas são . E acrescentou: "Deus manda a todos os homens que se amem uns aos outros com amor fraternal e proíbe-os dc jamais usar de violência seja com quem for. deram-lhe uma extensão muito mais ambiciosa.giae dc São Tomás dc Aquino". dc que ambos XI. uma guerra "só sc justifica pela injustiça dc um agressor. não pode restar nenhuma dúvida na mente daqueles que se envolvem em um duelo. "Nem em Platão nem em Aristóteles . é a que encontramos nos escritos dc Santo Agostinho. É verdade que Cícero antecipou algo parecido com uma teoria sobre a guerra justa ao analisar os conflitos bélicos na história de Roma. Fortin acresccnta que "devemos reconhecer que os teólogos cristãos deram ao problema da guerra uma urgência muito maior do que tinha tido para alguns filósofos da antigüidade clássica". O TEMA DA GUERRA JUSTA Outro campo cm que a Igreja Católica forjou as concepções morais do Ocidente foi o da guerra justa. que herdaram a sua idéia.mente em risco a sua própria vida". mas fizera-o a propósito de determinadas guerras. sem chegar a elaborar uma teoria completa sobre o tema. Sc as pessoas fossem capazes de dominar a sua paixão e de submeter-se a Deus. seria mais fácil abandonar o monstruoso costume do duelo"*. NO OCIDENTE 175 assumem individualmente uma dupla culpa: a de destruir o outro e a de pôr delibcrada. O mundo da antigüidade clássica tinha debatido esse tema.assegura Ernest Fortin encontramos nada que sc compare à famosa quaestio [questão] «Sobre a guerra» na Suninia theolo. A primeira abordagem do tema da guerra c dos critérios morais necessários para que possa ser considerada justa. condena a vingança como um pecado mortal e reserva para Si o direito à expiaçáo. A IGREJA E A MORAI. c que essa injustiça constitua fonte de sofrimento para algum .Portanto. principalmente à vista "da força dos ensinamentos bíblicos a respeito da sacralidadc da vida"'. baseiam-se no simples desejo de vingança: "Na verdade. No fundo. é o desejo de desforra que impele os homens passionais c arrogantes a exigir satisfações".escreveu o papa ridieulamente inadequadas. assumindo-a como ferramenta de avaliação moral. Mas os Padres da Igreja.

lhics 12 (prim. a febre dc revolta. também sc 204 John Langan. homem bom. Porque pode acontecer que. Agostinho diz que «sào. em justiça. desempenhou um papel primordial na formulação dos rudimentos do direito internacional. a ambição de dominar c outras coisas semelhantes»"". nào obstante. especialmente com o trabalho dos cscolásticos espanhóis do século XVI. pois declará-la não é competência dc um indivíduo privado. ordene uma guerra. que.. isto é. sendo legítima a autoridade de quem declara a guerra c justa também a causa. é necessário que os beligerantes tenham uma intenção reta. um ânimo implacável c inexorável. insistia nas disposições internas dos combatentes. Joumal of Religious F. mencionando três condições que deviam concorrer cumulativamente para que uma guerra pudesse vestir o manto da justiça: "Para que uma guerra seja justa. Embora nâo o dissesse expressamente. condenáveis na guerra a paixão por infligir danos. "Em terceiro lugar. pág. são necessárias três "Em primeiro lugar. 32 . que aqueles que são atacados o mereçam por terem cometido alguma falta. parece também que dava por certo que um exército beligerante devia poupar da violência a população civil. São Tomás de Aquino também tratou do tema dc forma memorável. que deviam refrear o uso indiscriminado da força204. "Em segundo lugar. 1984). ou seja. que tenham em vista promover o bem ou evitar o mal [. seja ilícita pela má intcnçào. como vimos. sendo por isso uma injustiça humana". WOODS JR. diz Agostinho: «Costumase chamar guerra justa àquela cm que uma nação ou um Estado devam ser punidos por rccusar-sc a castigar os erros cometidos pelos seus súditos ou a restituir o que foi injustamente roubado». requcr-sc uma causa justa.176 THOMAS F. a cruel sede dc vingança. Essa tradição continuou a evoluir nos fins da Idade Média c durante o período moderno. Thc Elcmcnts of St.. deve ser o soberano quem.]. que não podia ser empreendida com base em meras paixões humanas. mais a advertência que fazia dc que uma guerra não podia ter por motivo o espírito dc desforra. Francisco dc Vitória. Por isso. Por isso.. pela sua autoridade. Com isso. Augustinc\ Just VVar Thcorv".

I. mas. se levam a cabo incorretamente. que demonstrem eqüidade. como no seu decurso e na vitória [. com o tempo. q. Massaro e Thomas A. embora a guerra em si mesma nào seja um mal. A conclusão geral é que.. Referências internas omitidas. . Segundo.]. "Segunda regra: Quando rebenta uma guerra por uma causa justa. "Terceira regra: Quando sc vence uma guerra. não deve ser empreendida para destruir o povo contra o qual é dirigida. 40. viver em paz com todos os homens. deve ser declarada por um governo legítimo. devem obscivar-sc certas condições. tanto no começo da guerra. identificou três regras principais da guerra. a sua causa deve justa c correta. deve antes de tudo não ficar à procura dc ocasiões c causas para declará-la. pelo juízo que emita. c o [soberano] vencedor deve compreender que está sentado como juiz entre dois Estados. os indivíduos ofensores sejam castigados dentro dos limites da lei"205. a. pelas muitas calamidades que acarreta. o injustiçado possa obter satisfação e. 205 Siwtma thaAoRiat. evitando tanto quanto possível a calamidade c o infortúnio para o Estado ofensor. tal como explicam XI. Por isso. entre os empreendimentos que. que podem ser enunciadas cm três itens. deve agir como juiz e não como acusador. o pc. o que foi injustiçado e o que cometeu a injustiça. Primeiro. devem ser usados métodos justos. Em De iure belli. a vitória deve ser utilizada com moderação c humildade cristã. isto é. a fim dc que. como nos recomenda São Paulo. Francisco Suárcz resumiu assim as condições dc uma guerra justa: "Para que se possa considerar justa uma gueixa. 11-11. NO OCIDENTE 177 os historiadores católicos Thomas A.dedicou à questão da guerra justa. A IGREJA E A MORAI. deve ser incluída. Shannon: "Primeira regra: Partindo da base dc que um príncipe tem autoridade para empreender uma guerra. é preciso que concorram muitas circunstâncias para considcrá-la honesta"11. Terceiro. com freqüência. Em termos parecidos.. mas somente para obter os direitos e a defesa do próprio país c para que. dessa guerra possam advir a paz c a segurança. Por conseguinte. sc possível.

particularmente.está sujeito às normas morais. no seu tempo. e a eliminação dc um peão político.c que ainda hoje influi no pensamento político ocidental . de Maquiavel. CASTIDADE E DIGNIDADE DA MULHER As fontes mais antigas rcvclam-nos que a moral sexual sc tinha degradado em extremo na época cm que a Igreja surgiu na História.178 THOMAS F.está isento das exigências da moral. partem desses princípios tradicionais para fazer face aos desafios específicos do século XXI. era uma análise política meramente laicau. WOODS JR. Dc acordo com a Igreja Católica.tulo. mas a lei raramente consegue reformar um povo que já tenha sucumbido ao fascínio dos prazeres imediatos.e nào apenas os indivíduos . Como expressou um escritor. A visão que oferece sobre a relação entre a moral c o Estado . César Augusto tentou pôr cobro a essa situação com medidas legais. Uma das razões pelas quais Maquiavel ofendia tanto o catolicismo era a noçào dc que o próprio Estado . O Príncipe. trabalham nessa linha. Foi precisamente para combater esse tipo de pensamento que começou por desenvolver-se a tradição da guerra justa e. a promiscuidade generalizada levara os romanos a perder a deusa Castidadc. Como escreveu o satírico Juvenal. nos dias dc hoje. Ovídio observou que. nào devia preocupar mais que comer uma peça dc marfim do tabuleiro"'5. a teoria da guerra justa demonstrou-se uma ferramenta indispensável de reflexão moral.. e nào tinha que prestar contas a nenhuma autoridade mais alta: nem o Papa nem qualquer código moral podiam julgar o comportamento do Estado. Nos séculos subseqüentes. a política tornou-se para Maquiavel "um jogo. o Estado nào po dia ser julgado por nada nem por ninguém. Tácito afirmava que uma mulher casta era um fenômeno raro'6. as contribuições dos escolásticos do século XVI.ajuda-nos a perceber o significado c a importância da teoria da guerra justa. Podem-se encontrar testemunhos similares cm Ca. Marcião c Suetônio acerca do estado da fidelidade conjugai c da imoralidade sexual nos tempos dc Cristo. e até mesmo sádico. ninguém . c os filósofos que.nem mesmo o Estado . Por esse esquema. as práticas sexuais se tinham rebaixado a um nível especialmente perverso. No começo do século II. como o xadrez. A Igreja ensinou que as relações íntimas só são lícitas . mesmo que esse peão consistisse em cinqüenta mil homens.

entre marido c mulher. O próprio Edward Gibbon. que culpava o cristianismo pela queda do Império Romano, foi obrigado a
XI. A IGREJA E A MORAI. NO OCIDENTE

179

admitir: "Os cristãos restauraram a dignidade do matrimônio". Galeno, o médico grego do século II, impressionou-se tanto com a retidão do comportamento sexual dos cristãos, que os descreveu como "tão adiantados cm autodisciplina c no intenso desejo dc atingir a excelência moral, que em nada são infe riores aos verdadeiros filósofos"206. Para a Igreja, o adultério nào sc limitava à infidelidade da esposa, como sc costumava considerar no mundo antigo, mas estendia-se também à infidelidade do marido. A influencia que ela cxcrccu neste domínio foi de grande importância histórica, c não admira que Edward Wcstcrmarck, um cxcclcnte historiador da instituição do matrimônio, tenha creditado à influência cristã a cqualização do pecado dc adultério"1. Esses princípios cxplicam cm parte por que as mulheres constituíam tão grande parcela da população cristã dos primeiros séculos da Igreja. As mulheres cristãs eram tão numerosas que os romanos chegaram a desprezar o cristianismo por con- sidcrã-lo uma religião para mulheres. A atração que a fé exercia sobre as mulheres provinha em boa medida dc que a Igreja santificava o matrimônio - elevado por ela à categoria dc sacramento - c proibia o divórcio (o que, na realidade, significava que nenhum homem podia abandonar sem mais nem menos a esposa para casar-sc com outra mulher). Foi também graças ao catolicismo que as mulheres alcançaram autonomia: "As mulheres encontraram proteção nos ensinamentos da Igreja - escreve o filósofo Robert Phillips -. c foi-lhes permitido formar comunidades religiosas dotadas de governo próprio, algo inusitado cm qualquer cultura do mundo antigo (...] Basta repassar o catálogo dos santos, repleto dc mulheres. Em que lugar do mundo, a não ser no catolicismo. as mulheres podiam dirigir as suas próprias escolas, conventos colégios, hospitais c orfanatos?""
A VIDA VIRTUOSA

Um aspecto da antiga filosofia grega que constituiu uma ponte para o pensamento católico foi a afirmação dc que exis206Ibid.. pág. 84. 18)Ibid. 19)Robert Phillips, l/ist Thiitgs Fim. Roman Catholic Books. Fort Col- lins. Colorado. 2004. pág. 104.

180

THOMAS F.. WOODS JR.

te um gênero dc vida que convém ao chimpanzé. c outro que convém ao ser humano. Dotado dc razão, o ser humano não está condenado a agir por mero instinto. É capaz dc reflexão moral, uma faculdade que nem os mais evoluídos espécimes do reino animal possuem. Sc falha no exercício dessa faculda de, jamais poderá viver à altura da sua natureza. Sc não dá prioridade às operações da inteligência, sc não submete a sua conduta a um juízo moral sério, como sc poderá dizer que é um ser humano? Se o princípio que rege a vida dc um homem é fazer tudo o que lhe traga um prazer imediato, esse homem, cm ccrto sentido, nào difere dc um animal. A Igreja ensina que uma vida verdadeiramente digna do ser humano requer a ajuda da graça divina. Mesmo os pagãos romanos se apercebiam dc certo modo da condição degradada do homem: "Que coisa desprezível é o homem, sc não consegue elevar-se acima da condição humana!", escreveu Sêneca. A graça dc Deus podia ajudá-lo a conseguir essa superação. Essa é a finalidade com que a Igreja nos propõe o exemplo dos santos: demonstram ser possível a um homem alcançar uma vida dc virtudes heróicas quando se deixa diminuir para que Cristo possa crescer nele. A Igreja ensina que uma vida boa não é simplesmente aquela cm que as ações externas estão acima dc qualquer censura. Cristo insiste cm que não basta não matar ou não cometer adultério; não sc deve apenas preservar o corpo desses crimes; a própria alma deve protcgcr-sc da inclinação a praticá- -los. Não devemos apenas não roubar nada do nosso vizinho, mas também não admitir pensamentos de inveja sobre o que ele possui. E embora nos seja permitido, evidentemente, odiar o que é mau - o pecado ou Satanás temos dc afastar qualquer tipo de ira c ódio, que só corroem a alma. Devemos evitar não apenas cometer adultério, mas também entreter-nos com pensamentos impuros, para assim não transformar um ser humano cm mero objeto. Uma pessoa que deseje viver uma vida boa nâo deve converter os seus semelhantes em uma coisa. Costuma-sc dizer que é difícil fazer bem alguma coisa, que é difícil viver como um ser humano mais do que como um animal. Requer-se seriedade moral e autodisciplina. É célebre a afirmação dc Sócrates quando diz que o conhecimento é virtude, que conhecer o bem é fazer o bem. Aristóteles c São Paulo sabiam mais que isso. pois todos nos lembramos de momentos da nossa vida cm que. conhecendo perfeitamente o que era bom, não o fizemos e. do mesmo modo. sabendo o

que era errado, o fizemos. É por isso que os diretores

XI. A IGREJA E A MORAI. NO OCIDENTE

181

espirituais recomendam aos seus orientados que comam uma cenoura da próxima vez que desejarem comcr um doce; não porque os doces sejam maus. mas porque, sc conseguirmos disciplinar a nossa vontade em situações cm que não está cm jogo nenhum princípio moral, estaremos mais bem preparados no momento da tentação, quando estivermos realmente perante a disjuntiva de escolher entre o bem e o mal. E assim como. quanto mais nos habituarmos ao pecado, mais facilmente pecaremos, também é verdade que - como observou Aristóteles - a vida virtuosa se toma cada vez mais fácil quanto mais a praticamos e mais ela sc torna um hábito. Estas são algumas das idéias distintivas que a Igreja introduziu na civilização ocidental. Hoje em dia, a maioria dos jovens só ouviu falar em termos caricatos dos ensinamentos da Igreja sobre a moral sexual, c, dada a cultura em que vivem, nem podem começar a entender por que a Igreja os propõe. Contudo, fiel à missão que tem cumprido ao longo de dois mi lênios, a Igreja continua a anunciar uma outra proposta moral a esses jovens imersos cm uma cultura que os ensina incansavelmente a buscar o prazer imediato. A Igreja recorda as grandes figuras da Cristandade - como Carlos Magno, São Tomás de Aquino, São Francisco dc Assis, para citar uns poucos - e ofcrecc-os como modelo de como devem viver os verdadeiros homens. A sua mensagem? Essencialmente esta: você pode aspirar a ser um desses homens - um construtor da civilização, um servidor de Deus e dos homens, um missionário heróico -. ou então alguém centrado em si mesmo, obcecado pela ânsia de satisfazer os seus apetites. A nossa sociedade faz tudo o que está ao seu alcance para que você siga o segundo caminho. Seja você mesmo. Erga-sc por cima da manada, declare a sua inde- pcndcncia cm facc de uma cultura que pensa que você é tão pouca coisa, c proclame que quer viver não como um animal, mas como um homem.

182

THOMAS F.. WOODS JR.

CONCLUSÃO

A "CONDESCENDÊNCIA" DIVINA

A religião e um aspecto central dc qualquer civilização. Ao longo de dois mil anos. a maneira dc o homem ocidental pensar sobre Deus deve-se sem a menor dúvida ã Igreja Católica. São quatro as características que distinguem a concepção que a Igreja tem dc Deus das concepções que as antigas civilizações do Oriente Próximo tinham do divino207. A primeira: Deus é um só. Os sistemas politeístas. segundo os quais certas divindades quase onipotentes zelam por determinados fenômenos naturais ou lugares físicos, são estranhos à mentalidade ocidental, que vê Deus como um ser singular. dotado de sumo poder sobre todos os aspectos da sua criação. A segunda: Deus é absolutamente soberano, porque não deve a sua existência a nenhuma outra realidade anterior c náo está submetido a nenhuma outra força. Nem a doença, nem a fome, nem a sede, nem a fatalidade - elementos que podem afetar cm maior ou menor medida os deuses do Oriente Médio - têm qualquer poder sobre Ele. A terceira: Deus é transcendente, absolutamente distinto dc toda a sua criação, c está acima dela. Não ocupa nenhum lugar físico nem dotou de alma as coisas que criou, como acontece com os deuses naturais do animismo. Foi por esse atributo - por se ter compreendido que a natureza física está desprovida de atributos divinos - que pôde surgir a ciência c desen- volvcr-sc a idéia de leis naturais. Quando se reconheceu que os objetos do mundo criado nào possuem vontade própria, passou a ser possível concebê-los dc acordo com parâmetros regu- lares de comportamento. Finalmente. Deus é bom. À diferença dos deuses sumérios,
207 Para a análise destas quatro características, veja-se Marvin Pcrry c outros. Western Civili&lion: Ideai. Polilics Societv. 6' ed.. Iloughton Mifflin. Boston. 2000. pág. 39-40.

Por isso. o bom comportamento dos seres humanos. Mas. ainda que esteja tão embutida na cultura ocidcntal que poucos sc detêm a pensar nela. a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade. SAo Paulo.diz Kicrkcgaard . mas também a sua amizade. Eis uma idéia extraordinária na história da religião. Ouadrantc. a concepção católica dc Deus é diferente da judaica. contrariamente à maioria deles. mas pela condescendência cm relacionar-se conosco no nosso nível. mas apenas no mundo que há de vir). Murray Rothbard fez notar até que ponto o marxismo. Todas estas características são também evidentes no Deus do Antigo Testamento. Os conceitos que o catolicismo introduziu no mundo enraizaram-se tanto que até mesmo os movimentos contrários estão freqüentemente impregnados deles. assumindo a natureza humana c tomando carnc humana '. A IGREJA E A MORAI. Com o nascimento de Cristo c a sua passagem por este mundo. c. uma implacável 208 Há uma tradução cm português: Robcrt Hugh Bcnson. Foi por isso que o rei sc aproximou da mulher plebéia com a aparência dc um plebeu: só assim seria capaz dc inspirar-lhe um amor sincero c só então poderia saber sc esse amor por ele era realmente genuíno. Soren Kicrkcgaard chegou a comparar Deus a um rei que desejasse conquistar o amor dc uma mulher do povo. o escritor católico do século XX Robcrt Hugh Bcnson pôde escrever um livro intitulado A amizade com Cristo (1912)208.que. pareciam indiferentes ao bem-estar do homem. como conseqüência da Encarnação dc Jesus Cristo. Procurou o nosso amor sem nos esmagar com a majestade da visão beatífica (que não está ao nosso alcance neste mundo. nos seus Fragmentos filosóficos. 1996. o Deus do catolicismo ama a humanidade c quer o bem do homem. Poderia também ser atraída pela riqueza c poder do rei.o que Deus fez quando nasceu no mundo encarnado em Jesus Cristo. como aos deuses pagãos. Foi isso . na melhor das hipóteses. ou simplesmente temer recusá-lo por ele ser rei. sabemos que Deus não procura somente a adoração do homem. também lhe agrada. A amizade com Cristo. Se se aproximasse dessa mulher com o seu poder real. cia sc assustaria c seria incapaz dc lhe oferecer o tipo dc amor espontâneo que surge entre iguais. ou dos deuses da antiga Grécia. que eram XI. . Além disso.principalmente o Santo Sacrifício da Missa -. embora lhe agradem os sacrifícios rituais . NO OCIDENTE 183 às vezes mesquinhos c vingativos nas suas relações com a humanidade.

ma. dentro desse sistema educativo. 1997. WOODS JR.a Igreja construiu essa civilização.. lançados no seu núcleo por figuras da Igreja. seguidor escravo dc Aristóteles c dos Padres da Igreja (o estereótipo não explica exatamente como alguém poderia ser escravo seguidor dc ambos). Transaclion. mas fê-lo dc um modo que transformou a tradição clássica. em John V. Denson.* New Jerscy. "World War I as Fulfillmcnt: Power and thc In. o mestre medieval gozava dc uma ampla liberdade.. É difícil encontrar uma iniciativa humana já desde o início da Idade Média para a qual os mosteiros não tenham contribuído. "Karl Marx as Rcligious Eschatologist". 210 Murray N. assim como os conceitos centrais para o nascimento da economia como uma disciplina diferenciada. 1993. Aubum. foi buscar idéias religiosas às heresias cristãs do século XVI209. O estereótipo das imagens que nos apresentam da Idade Média é o do professor sem espinha dorsal c subserviente. É verdade que bebeu elementos do mundo antigo. cm Yuri N. veja-se Paul Gottfricd. ed. Rothbard. cd. uma criação da Idade Média que teve lugar sob os auspícios da Igreja. New Hrunswick. Estas duas últimas contribuições surgiram das universidades européias. as universidades da Europa medieval foram lugares dc intenso debate c intercâmbio intelectual. Requicin for Marx. 2002.184 THOMAS F. melhorando-a. paia exemplos mais recentes deste fenômeno. E a idéia amadurecida do direito internacional surgiu a partir dos últimos cscolásticos. que sc congratulavam por terem abandonado a sua fé (largamente protestante). Univcrsitv of Missouri Press. Alaba. Ludwig von Miscs Inslitutc. E os intelectuais da progressista era americana dos inícios do século XX. Assim o diz David Lindberg: "Deve-se afirmar enfaticamente que. Maltscv. Estes dados só reforçam o que já vimos: a Igreja Católica náo apenas contribuiu para a civilização ocidcntal .. .tcllectuals". cada uma das quais tendeu a ser dominada por uma única escola dc pensamento. provaram ser um terreno fértil para o desenvolvimento das pesquisas científicas. The Cosls of War. Rothbard. A Revolução Científica arraigou-se na Europa Ocidcntal graças aos fundamentos teológicos e filosóficos que. Columbia. ideologia laica. receoso dc afastar-se uma vírgula dos ditames da 209 Murray N. continuavam a discorrer servindo-sc fundamentalmente dc um vocabulário claramente cristão210. ' Multicidluralisnt and lhe Polilics of Guilt. Diferentemente das academias da antiga Grécia.

as universidades nas quais essa tradição sc desenvolveu c amadureceu . NO OCIDENTE 185 medieval tinha uma notável liberdade dc pensamento e de expressão. o direito internacional. a importância da Igreja para a civilização ocidental foi-se tornando cada vez mais clara à medida que a sua influência diminuía. por extensão. o mestre XI. as obras de caridadc. 2004. é claro que havia uns limites teológicos. a vida universitária. que não tivesse sido submetida a um minucioso exame crítico por parte dos intelectuais da universidade medieval"*. 211 Sobre o sucesso da Igreja na América. decano emérito da School of Philosophy da Catholic University. Columbia University Press. falou de uma conexão "entre a empobrecida filosofia anti-mctafísica dos nossos dias c o efeito debilitante sobre as artes". cm estudar e empregar uma grande diversidade dc fontes c em analisar com precisão c cuidado as objeções às suas posições. há uma ligação entre a arte dc uma civilização e a sua crença c consciência sobre o transcendente.c.autoridade. mas. particularmente com o Kulturkampf germânico e o anticlericalismo dos nacionalistas italianos. Woods Jr. a ciência. O empenho dos cscolásticos cm pesquisar a verdade. no resto do mundo ocidental os ataques à liberdade da Igreja provocaram danos indizíveis211. quase não havia doutrina alguma. . no Ocidente. a posição privilegiada da Igreja c o respeito de que tradicionalmente a cercavam foram seriamente questionados. New York. filosófica ou teológica. O século XIX assistiu a mais ataques ao catolicismo. dentro desses amplos limites. A França sccularizou o seu sistema escolar em 1905.são os verdadeiros fundamentos dc uma civilização c. Durante o Iluminismo do século XVIII. Na realidade. The Church Confronts Madcmity: Catholic Intellectuals and the Progressii-e Ura. UM MUNDO SEM DEUS Paradoxalmente. Embora a Igreja tivesse florescido nos Estados Unidos durante o final do século XIX c comcços do XX. Todas essas áreas . veja-se Thomas E. as idéias religiosas. talvez. todas c cada uma delas surgiram do cerne da Igreja Católica. a mais dramática e notória evidência das conseqüências do eclipse parcial da Igreja no mundo moderno. De acordo com esse professor. em um nível sem precedentes na história do catolicismo. A IGREJA E A MORAI.dc uma vitalidade da qual o Ocidente pode legitimamente orgulhar-se. O mundo da arte fornece-nos. a arte c a moral .. dotou a tradição intelectual medieval . Judc Doughcrty.o pensamento econômico.

A asscrção dc Dougherty é mais do que plausível. E. sem o menor compromisso com a ordem objetiva.186 THOMAS F. fonte da ordem natural e cumprimento das aspirações humanas. Na música. deixa-o livre para dar à vida o significado que queira. 7: Modem Philosophy front lhe Posi-Kantian Idealists to Marx. o nosso mar. WOODS JR. O homem convcrtc-sc cm medida de todas as coisas. embora haja que reconhecer que náo é brilhante. ao mesmo tempo. A tlistory of Philosophy. quem poderá surpreender-se de que essa ausência dc sentido sc reflita na sua arte? A ausência dc sentido e a desordem aumentaram a partir do século XIX. Os escritores concebiam enredos bizarros cm que o protagonista enfrentava um universo caótico c irracional. Fricdrich Nictzschc escreveu: "O horizonte fica finalmente livre diante dc nós. Kierkegaard. que era incapaz dc compreender. adere ao ponto de vista de Nictzschc: "A rejeição da idéia de que o mundo foi criado por Deus com uma finalidade. como a sua Sinfonia em Três Movimentos.raçào. Talvez nunca tenha havido um mar tão aberto". sem o reconhecimento dc um intelecto divino que é. o espírito dos tempos fez-se sentir especialmente na atonalidade de Arnoid Schocnbcrg c nos ritmos caóticos dc Igor Stravinsky. particularmente na sua célebre Sagração (Ia Primavera. se havia transformado cm um gigantesco inseto". hoje tão 212(3) Frcdcrick Coplcston. and Nieitsche. Em A gaia ciência. é positivamente convincente. vol. Frcdcrick Copplcston. Doublcdav. decida dar-lhe. que nào é guiada por uma força ou princípio superior. Essa aridez encontra a sua expressão na perversidade e esterilidade da arte moderna. enquanto dormia. O que significa dizer que nào existe ordem ou sentido no universo além daqueles que o próprio homem.. sc abre aberto diante de nós. 419. meio c fim. no mais supremo c livre dc todos os atos da vontade. desde Bauhaus até o cubismo c o pós-modcrnismo". E cia nào tem outro significado" 212. Eis como começa A Metamorfose dc Franz Kafka: "Quando Gregor Samsa despertou uma manhã dc um sonho perturbador. mas também em alguns dos seus trabalhos posteriores. a realidade é construída cm meros termos materiais. no campo da arquitetura. será preciso denunciar a sua dcgenc. A vida cm si mesma torna-se vazia c sem propósito. ao menos o mar. ou dc que o próprio homem é a manifestação da Idéia ou Espírito absoluto. pág. Quando uma pessoa acredita que a vida não tem qualquer significado c é fruto de um puro acaso. Nesse ínterim. "Sem um reconhecimento metafísico do transcendente. descobriu que. 1994 (I963J. . de 1945. New York. o grande historiador da filosofia. anulando aspectos tais como dar às histórias c romances um começo. o modernismo literário ocupou-sc em abalar os pilares da ordem no âmbito da palavra escrita.

as lutas. Rose. Michacl S. a pessoa devia viver? Encarando corajosamente o vazio.2004. a arte tornou-se uma forma de auto-cxpressào. Com o passar do tempo. Em 1917. O foco da obra do artista passou a ser retratar as suas disposições interiores. cm si mesma. mas sim de mostrar que refletem um ambiente intelectual c cultural contrário à crença católica cm um universo ordenado c dotado de um significado último. Ohio. Desejava chamar a atcnçào nào para si próprio.co. c Michacl S.iago chegou em meados do século XX. 2004. 213 Pará a arquitetura bela e a horrível.bbc. as emoções c as idiossincrasias do próprio artista. que atingiu a sua maturidade no romanticismo do século XIX. E. E assim a arte concentrou-se cm exprimir os sentimentos. hlip7/ncws. cada qual construindo os seus próprios valores e vivendo dc acordo com cies (o que recorda Nictzschc. então. 2001.evidente até mesmo cm cdificios que pretendem ser igrejas católicas?213 XI. E como é que. Cfr. O dia a/. NO OCIDENTE Nào se trata de questionar o mérito dessas obras.uk/2/hi/cntcrtainmcnl/4059997. o artista francês Mareei Duchamp chocava o mundo da arte ao apor a sua assinatura em um urinol c expô-lo como uma obra dc arte. sem dúvida). O artista medieval. Mesa Folio. Manchcstcr. que foi indicado para o prestigioso Prêmio Turncr. 187 . completamente sem sentido. consciente de que o seu papel era comunicar alguma coisa maior do que ele mesmo. Por reação contra a frieza racionalista do Iluminismo. O seu My Bed. a emoção c a espontaneidade. em uma votação dc quinhentos peritos cm arte realizada em 2004. In Titrs of Gtory.*im. reconhecendo com franqueza que nada tem sentido e que nào existem valores absolutos. respectivamente. começou a surgir um novo conceito dc artista. quando Jean-Paul Sartrc (1905-1980) c a sua escola de pensamento existencialista proclamaram que o universo era totalmente absurdo c a vida. Com a Renascença. A invenção da fotografia. essa romântica auto-preocupaçào degenerou no simples narcisismo e niilismo da arte moderna. logicamente. vejam-se. 214 "Duchamps Urinai Tops An Survcy". cr» BBC News World Rdition 01. no final do século XIX. Rose. o romanticismo enfatizou o sentimento. Ugfy rtí Sin. As artes visuais foram afetadas por esse meio filosófico. Fala por si mesmo o fato dc que. ao permitir com toda a facilidade a reprodução exata do mundo natural.12. Sophia Institutc Press. deixou o artista livre para embrenhar-se no seu mundo interior. sc tenha atribuído à Fountain dc Duchamp o título dc "a obra dc arte mais influente da arte moderna"214. mas para o tema das suas obras. já que. normalmente nào assinava as suas obras. New Hampshirc. Cincinnati. Duchamp influiu no artista radicado cm Londres Traccy Emin. veio reforçar essa tendência. A IGREJA E A MORAI.

escreveu a filósofa francesa Simone Wcil. vê até mesmo esta mensagem tão fundamental cair cm ouvidos surdos na Europa Ocidcntal. que náo chega sequer a ter filhos suficientes para garantir a continuidade das gerações. A Europa afastou-se a tal ponto da fé que a construiu. cm 1999. no transcorrer dos séculos. consistia cm uma cama completamente desarrumada.como algo a que uma pessoa nào pode renunciar sem sc aviltar". nos dias atuais. peças dc museu. vem aprendendo com grande dificuldade. que a União Européia náo foi capaz dc reconhcccr-sc dc. curiosidades interessantes para um mundo descrente. dois homens nus puseram-sc a pular sobre a cama c a beber a vodea. WOODS JR.. que pede aos seus filhos que sejam generosos na transmis são da vida. preservativos usados c roupas intimas manchadas dc sangue.que têm as suas raízes no pensamento grego c que. A Igre ja. onde sc espalhavam garrafas de vodea.188 THOMAS F. Eis uma lição que a civilização ocidental.vedora da herança cristã na sua Constituição. Mas a auto-imposta amnésia histórica do Ocidente náo pode hoje desfazer o passado nem o papel central da Igreja na construção da civilização ocidental. cada mais afastada dos seus fundamentos católicos. persuadidos dc que esse ato dc vandalismo fazia parte do quadro exposto. Estes exemplos revelam simbolicamente até que ponto muitos ocidentais sc afastaram da Igreja cm anos recentes. "Eu náo sou católica". Emin é hoje professor na Europcan Graduatc School. Muitas das grandes catedrais que uma vez testemunharam as convicções religiosas dc um povo tornaram-sc. Em um dos dias cm que essa peça foi exposta na Tatc Gallcry. Todos os presentes começaram a aplaudir. alimentaram todas as nossas civilizações européias . "mas considero os princípios cristãos . .

recebi valiosas sugestões do Dr. Woods. Mais uma vez. Dedico este livro a Verônica e Regina (nascida cm 2003). Devo fazer especial menção a Dorcen Munna c a Marilyn Vcnticrc. John Rao c do Professor Carol Long. meu terceiro livro. pus este de lado por algum tempo c. diretor do ínstilule for Advanced Physics c autor do livro The Science Before Science: A Cuide to Thinking in the 21 st Century. Como disse ccrta vez Sào Thomas More. que para ela foram difíceis. Comecei a redigir este livro antes dc rcccbcr a sugestão dc escrever The Politically Incorrect Cuide to American History. ninguém no seu leito dc morte se arrependeu jamais dc ter sido católico. nossas duas filhas. que náo hâo dc querer trocar por nada no mundo. enriquecido pelos comentários e sugestões do editor executivo Harry Crockcr c pela revisão atenta e minuciosa da diretora editorial Paula Decker. sem dúvida.. Thomas E. da Dra. Jr. Também desejo agradecer ao Dr. Anthony Rizzi. difíceis de encontrar c há muito tempo esquecidos. pela revisão do capítulo V. E estou profundamente agradecido pelo apoio da minha querida esposa Hcather ao longo destes nove meses. . finalmente. Espero que ele venha a reforçar o que lhes tentamos ensinar: que possuem na sua fé católica uma pérola dc grande valor. Dianc Moczar. Para cumprir o prazo desse outro. da biblioteca da minha Faculdade. do Dr. Verônica Lynn. Michacl Folcy. Quaisquer erros sobre os fatos ou na sua interpretação são. unicamente meus. como é lógico. trabalhar com a Rcgnery foi um prazer.AGRADECIMENTOS AGRADECIMENTOS 189 Durante a redação deste livro. Concluí a redação dois dias antes do nascimento da nos sa segunda filha. retomei-o no ano passado. O livro foi. pela gentileza com que atenderam a todos os meus pedidos dc livros antigos.

Brian. James.H. 86-101. Berman. Thomas. Christianity on Trial. em New York Times. Brodrick. Buttcrficld. 1542-1621. SJ. Frcc Press.ncountcr Books.. SJ. Bangert. D. Berman. Lanham. New York.. Roland H. Baluffi. Virtue. Doublcdav. New York.10. Cambridgc. págs. How the Irish Saved Civilization. 1960. The Scholastie Culture of the Middle Ages. 1957. Abing. Tcnncsscc. Baldwin. 1995.C. Lexington. Harvard University Press.don Press. 3: Hunian Rights. F. llarold J. Cahill. William J. Bar/un. Gill and Son. Faith and Order: The Reconciliaiion of Law and Religion. J. Harold J. Berman.. 1974. 1971. William V. 1885. 1959). Heath. rev. Louis. .1999. The Life and Work of Blessed Roltert Francis Cardinal Bellannine. llarold J. 1972. M. Hcrbcrt. Scholars Press. Massachusscts. 1928. 19. From Dawtt to Decadence. The Inieraction of Law and Religion. trad. Abingdon Press.ligion and Polities. Chrislian Altitudes Toward War and Peace.. Oates and Washbourne. 1000. Vinccnl Carmll c David Shillett.■1300. Burns.. Dcnis Gargan.. Londres. The Origins of Modem Science. "How the Church Aided 'Heretical' Asironomv". Emest Fortin: Collected Essays. Nashville. 13001800. Jacqucs. Vol. cd. cm Oklahoma Law Review 12 (fev. Law and Revolulion: The Forrnation of lhe Western Legal Tradition. "The Influcncc of Christianity Upon lhe Devclopment of Law". New York. John W.BIBLIOGRAFIA Coram. Harold J. The Charity of lhe Church. New York. 1996. St. Dublin. San Francisco. Cajctan. 1983. Institutc of Jesuit Sourccs. A History of the Society of Jesus. Rownian & Littlcficld. Berman. 1993. Atlanta.. Bcncstad.. cd. 2001. 2 vols. 2001. Harpcr Collins. Maryland. Broad. New York Março dc 2005 Bainton... and lhe Conimon Good: Untimely Medilalions on Re.

Cobban.. vol. Doubleday. Crocker. A. 1986. DC. The Intellectual Life of Western Europe in the Middle Ages. Dijkstcrhuis. H. Londres. Maryland. New York. Richard C. Imagc Books. New York. MJF Books. Frcdcrick.2002. Quadrantc. Cobbctt..graph. Minnesota. Rocklord. Sito Paulo. Crombie. St. Civilisalion: A Personal View. "brit. Durant. de Emérico da Gama. The Renaissance. 2. Dalcs. 1961. E. 4. Dalcs.. Califórnia. David. MJF Books. 7: Modem Philosophy from lhe Fost-Kantian Idealisis to Marx. 1200-1400. Cambridgc Univcrsitv Press. Doubleday. trad. 2001. Kierkegaard. Banking. Dc Roover. Harpcr Pcrcnnial. Irad. Washington. New York. Medieval and Earlv Modem Science.nant Press. Richard C. Hcnri. 1950. Emérico da Gama. New York. J. cd. and Econontic Thought in Late Medieval and Early Modem Europe: Selecied Siudies of Raymond de Roover. Prima. Dikshoorn. The Mechanization of lhe World Piettire. Wíll. Illinois. The Medieval University. 179-92. Raymond. 1950. 1997. 2003. vol. For Aliar and Throne: The Rising in lhe Vendée. Lcxington. Caesar and Chríst. em História da Igreja de Cristo. Durant. ' Dalv. New York. Christophcr. Richard C.. 2003.. Business. A Hislory of Philosophy. 418 -34. cm História da Igreja dc Cristo. Dutton. Dawson. Coplcston.. 2 vols. cd. 1996. Danicl-Rops.. 1993. Tele.. dc Eniérico da Gama. trad. TAN. col. Julius Kirshncr. págs. "A Twclfth Ccnturv Conccpt of thc Natural Order". BIBLIOGRAFIA New York. Durant. Triuntph. Chicago. 1953. A Hislory of the Protestam Refonnation in England and iretand. The Medieval Universities: Their Development and Organizfltion. MJF Books. 1991 11950]. 1974. III. University Press of America. 1988 [1896]. Alan B. Clark. trad. William. Hcnri. C. 191 . Danicl-Rops. Paul. Alcjandro A . 1991. Quadrantc. pág. Cutler. Thc Conccpt of lhe Jusl Pricc: Theory and Economic Policv". Quadran. New York. cm Journal ofthe llistory of Idcas 41 (1980). Sâo Paulo. Dalcs. A Igreja das catedrais e das cruzadas. pág. Hcnri. Cambridgc. Journal of Econontic Historv 18 (1958). Collins. Lanham.tc.W. Mcthucn & Co.. 1994 £1963]. 1961. Rcm. Davics. História da Igreja de Cristo. Thc Dc-Animation of thc Heavens in lhe Middle Ages". Wíll. Weberían Sociological Theory. Kcnncth. vol. Religion and lhe Rise of Westeni Culture. 1980. Wíll. Randall. 21. "Hcnry 'Stampcd Out Industrial Rcvolution'". The Age of Faith. University of Chicago Press. A Igreja da Renascença e da Reforma: I. Londres.C. 1969.. A reforma protestante. 1959. Sito Paulo. Michacl.06. New York. em Viator 9 (1978). Faith and Liberty: The Econontic Thought ofthe Ijate Scholastics. vol. Dc Roover. Roseville. Raymond. The Seashell on the Mountaintop. New York. A Igreja dos tempos bárbaros. Daniel-Rops. and Nietzsche. Derbvshirc. Lowrie J. Oxford University Press. 3. 1975. 53150. Shccd and Ward.Chafucn. Alan.

The State. "The Condcmnation of 1277. Jr. and Winston. "The Renaissance Mvth". 1996. 1978. Dictionary of Scientific Biographv. 1970.Edgerton. Fcrnánde/. Corncll 192 THOMAS F. The Monastic Reahn. Illinois. 1177. New York. 1991. Oxford. Grant. Grice-Hutchinson. Holt. Reason and Revelalion in lhe Middle Ages. New York. 1976. Burt Franklin. Grice-Hutchinson. págs. Amherst. The Heritage of Giotio's Geontelty: An and Science on lhe Eve of the Sciemific Rewluiion. Creation and Scientific Creativity. DcKalb. WOODS JR.1901. 23. New York. The Foundalions of Modem Science in lhe Middle Ages: Their Religious. Cambridge. The Medie\'al Machine: The Industrial Rewlution of lhe Middle Ages. Ithaca. Juan and Benjamin Kecn.. discurso pronunciado diante do Massachusctts State Board of Agricultura. cm Quadram (26). págs.-Sanlamaría. War and Peace: Spanish Political Thoughl in lhe Renaissance. Cambridge. Jean. Goldstcin.. Cambridge University Press. José A. Clarendon Press. Northern Illinois University Press. Flick. and Phvsical Thought in the Late Middle Ages".. Marjorie. Grant. George Allcn & Unwin. Cambridge University Press. nov 1982. Christcndom Press. University Press. Marjorie. Rizzoli. Paul. • llaffncr. Gimpcl. The School of Salanianca: Readings in S/>anish Monetarv Theorx. 1991. New York. 1971 Gillispic. New York. eds. Edward. Lco Moulin. Virgínia. 1952. 51-60. New York. Bartolonié de Las Casas in History: Toward an Understanding of lhe Man and His Work.08. Cambridge University Press. 1985. 1938. "The Influcncc of the Monks in Agricullurc". Friedc. God's Absolutc Power. Rinchart.. 211-44. 1544-1605. Viator 10 (1979).'Londres. 1909.. Étienne.. em The Goodell Papers. . University of Massachu. The Rise of lhe Mediaeval Church. Edward. Charles C. Charles Scribne^s Sons. Dawn of Modem Science: From lhe Ancient Greeks to lhe Renaissance. Front Royal. 1516-1559. Rcginald.-1740. Early Economic Thought in Spain.setts.. Cambridge. Gilson. Instiliilional. and Raymond Oursel. Hcnrv H. 1977. Da Capo Press. Alexander Clarencc. Edward. Grégoirc. Samuel Y. and Inielleciual Conlexts. cd. 1995 [1980]. Goodell. Thomas. Grant. Franklin. 2001. Charles Scribncrs Sons.. James. God and Reason in lhe Middle Ages.

BIBLIOGRAFIA 193 Hankc. 350-750: The Conver. The Evolution of Medieval Thought. New York. Philip.. Jftrg Guido. Hcilbron. John. and Robert Reynolds. Littlc. Jaki.. Hughes.chigan. Hankc.. Garden City.1540: The Mo.. Jr. An Introduction to Seismological Research: Hislory and Devclopmeni.. Cambridgc. 1995. vol. Hillgarth. Jaki. J.05. Edinburgh. Klibanskv. 1965. The Renaissance of the Twelftli Centurv. Ecrdmans. 1986. cds.nastic Experience.2004. Bartolonié dc Las Casas: An Intcrprctation of His Life and Wrílings. Raymond. Phila. University of Wisconsin Press. 2a cd. Emil. A Popular Hislory of lhe Refonnation. 1979. I. 19-38. 1984). págs. http:ZAinvw. 1100. The Spanish Siruggle for Justice in lhe Conquest of America. Univcrsitv of Pcnnsvlvania Press. Bryn Mawr. Twclfth Century Europe and lhe Foundations of Modem Socieiy. Augustines Just War Theory". Gaincs Post. HarpcrCoIlins. Polilical Thought in Sixieenih-Centuiy Spain. Princcton University Press. Cleveland. Haskins.t rola 1516. in Marshall Clagctt. Stanley L. Mi. Charles Homcr. Cornell University Press. 1986. Science and Creation: Front Etenial Cycles to an Oscil. 1957 [1927]. Jaki. Philip. Langan.ridian..ries. Cambridgc. . Patients or Principies and Other Essavs. Living and Dying in England. Londres. N. Benjamin E. ed. Hcilbron. 09. J. 1990. Chríslianity and Paganism.L.. A Hislory of Marginal Ulilily Theory. New York. 1988. lhe Sun in lhe Church: Cathedrals as Solar Observato. Barbai-a.. Thc Rise of Universities. J. Harvcy. University of Califórnia Press. Mc.mises. Thc Elements of St. Ithaca. Madison. A Hislory of the Church. David. Hanovcr Housc. Lcwis.delphia. rev. 1961. "Thc School of Chartres". 1957 (1923). Grand Rapids. Hughes. Hiilsmann. 2003. 1965 [1949]. Thc Haguc. Shccd and Ward. Brown and Co. 1963. Londres. Martinus Nijhoff. Scottish Acadcmic Press. Oxford University Press. Kaudcr. Berkclcv. Johnson. Princcton.. Journal of Religious Ethics 12 (prim.L. 2000.tc Sludics Institutc. Howell. Charles Homer. Bcrnicc. Boston. Harvard University Press. Knowlcs. "Nicholas Oresme and the First Monetary Treatise". Stanley L... Pennsylvania. Electricity in lhe 17th and I8th Centuries: A Study of Eariv Modem Physics. Londres. Oxford. Paul. 1999. 1957. Stanley L. 1948. 1993.aspx7con. Clarcndon Press.sion o f Western Europe. Ari: A New Hislory.org/fullstory.Hamilton. 1951.. Lewis. Haskins. Intcrcollegia. Longman. cd. The Savior of Science.laiing Universe. Cambridgc Universitv Press..

. Lcff. Erwin. David C. 1: Prehistory to 1789. Maryland. and Ronald L.Langford. Cari. Monasticisni and Civilization. Joseph E. Last Things First. págs. Fairficld. Bemard. Morison.. Companions of Jesaits: A Tradilion of Collabo. Fort Collins.. 1921. Connccticut. Lvnch.ley and Sons. University of Califórnia Press. David C.. Gothic Architecture and Scholasticism. University oí Chicago Press. John Henry. Berkeley. Kenncth.. Principies of Economics. OP. "The Canonistic Contribution to lhe Western Rights Tradilion: An Historical Inquirv". .. History of European Morais from Augustas 10 Charlemagne. 237-52. Libcrtarian Press. em Boston College Law Review 33 (1991). Cod and Naiure: Historical Essays on lhe Encounier Beiween Christianity and Science. Benedicl lo St. David C. New York. Robcrt.. Longmans. Pcnnsylvania. Pennington. 0'Connor. Oldroyd. New York.raiion. 1870. Thinking Ahoat lhe Earth: A History of Ideas in Geology. vol. 1896. Hosclitz... John Wi.. cm Emoiy Law Journal 47 (1998). Lecky. 1992. Humanities Institutc. Macmillan. A Historv of Chentistrv. New York. John B. British Journal for the Historv of Science 15 (1982). 1966.J. 194 THOMAS F. David R. Massaro. e Shannon. MacDonncll. Thomas A. The Oxford Histor. Rowan&Littlcfield. 1994. Londres. 2003. Calholic Perspectives on Peace and War. Gordon. Grovc City. The Monks of the West: From St.. Londres. 3. 3-25. 1994 [I965J. 2 vols.. Newman.. Thomas A. Lindberg. 1968. New York. The Beginnings of Western Science. Descléc.. cds. 37-92. Roman Catholic Books. Reid. New York. 1948. Numbcrs. Panofskv. Jcrome J. Monialembert.. Applcton and Co. Charles. Calileo. Longman. Lindberg. Joseph H. P. Nimmo. WOODS JR. págs. 1'artington.teenlh Centuries: An Inslilulional and Intellectual History. Irad. cd. págs. 1986.. vol. Essays and Skeiches. Paris and Oxford Universities in lhe Thirteenth and Four. Jesuit Geometers. MacDonncll.. 1985 (1951). 5 vols. Samuel Eliot. Colorado. llarvard University Press. 2. Chicago. Kennedv & Sons. Institutc oí Jesuit Sourccs. Cambridge.• of lhe American People. Lanham.. Phillips. Lindberg. New York. D. Charles J. Meridian.. Jr. 1989. William Edward Hartpolc. Londres. "On the Applicability of Malhcmatics to Nature: Roger Bacon and His Predecessons". "The Historv of Rights in Western Thought". The Medieval Church: A Brief Hisioiy. J.R. Joseph E. 1961. vol. New York. Saint Louis. Science and lhe Church.. Grccn and Co. 1992.. Meridian Books. 1996. Mcngcr. Charles Frcderick llarrold. 1995. James Dingwall e Bert F. 2004.

Leighton Durham. DC. Hants. James A. Kansas Citv. Joseph A.. Isis 61 (1970). Grand Rapids. Sánche/. Londres. Washington. Young Américas Foundation. Oxford University Press. Philosophy of Religion: A Cuide and Anllto. The Just War in the Middle Ages. 1976.. cd. "A Criticai Analvsis of Ncwtons Work on Diffraction". em Brian Davies. Russcll. Dolan. 1995.. págs. Schniircr. págs.. Rodncy. Saving Souls: A Hislory of Hospitais. Robert A. Hispanic Philosophy in thc Age of Discoverv. II50-1625. cm Northwesteni University Journal of Inteniational Human Rights 2 (abr 2004). Stark. 1954. Zondervan. Cambridgc University Press. Oxford. England. James Brown. Royal.. Nigcl C. Naiural Law.. 1907. Undreiner. Scribes and Scholars: A Cuide to lhe Transmission of Greek and Latm Uleraiure. 1999. Coluntbus On Triai 1492 v.. 1928.. vol. Hcrndon.r Reynolds. 1975. 3" ed. Universitv of Califórnia Press.. New York. Mending Bodies. "Thc Idea of Natural Rights: Origins and Persistente". "Vitoria: Thc Original Philosopher of Rights". Schmidt. and Church Law. ed. Sadowsky. Church and Culture in thc Middle Ages. Murray N. Alvin J..logy. Rothbard. Frcdcrick H. Anthonv Guild Press.. Gcorgetown University. Patcrson. New York. The Idea of Natural Righls: Sludies on Natural Righls. 1: Economic Thought Before Adam Smillt. D. 20Ò1. Oxford University Press. Brian. 195 . 1991. 2003. Eerdmans. Sheed & Ward. "Monastic Charitablc Provision in Tudor England: Quantifying and Oualifying Poor Rclicf in thc Eariv Sixtccnth Ccntury". Scott. Washington. Schmidt. Ncil S. Clarcndon Press. The Gothic Enterprise. Oxford University Press. 2001 [1997]. 2003. 2000. cm Edwin G. Schumpctcr. Rothbard. 9-44. William B. 2-12. St. Hislory of Economic Analysis. Marcelo. Scott. Michigan. 2* cd. Rushton. For thc Glory of God. Rogcr H. Robert C. New York.. The Social Results of Early Christianity. Brian.. Edward Elgar.. 1956. Bcrkclcy. Stucwer. e Wilson. Ticrncy. NJ. cd. Catholic Universitv of America Press. School of Forcign Service.. Cambridgc. Gucntcr B. "Can There Be an Endless Rcgress of Causes?"..C. 1992. em Kevin White. págs. I88-2Ò5. 1977. 1993. Ticrncy. Virginia.-Sorondo. The Foundations of Modem Austrian Econontics. The Spanish Origin of Inteniational Law. Murray N. BIBLIOGRAFIA Risse. Sir Isaac Pitman & Sons. An Austrian Perspective on the Hislory of Econontic Thought. Grand Rapids. Michigan. "New Light on the Prchistorv of thc Austrian School". Under the Influcncc: How Christianity Transfortrted Civilizaiion... Conlinuily and Change 16 (2001). Gustav. Princcton. Traduzido por Gcorge J. Charles Guillaumc Adolphc. Princcton Universitv Press.

... West....... 5 12 12 14 17 21 25 25 28 35 ..... Os monges como consultores técnicos. A Renascença Carolingia... Walner... James J................. 293-309.. II.Collins.. Alcuin and the Rise of lhe Chrisiian Schools... Wolff... The Stnatford C...... 2005... The World's Debi to lhe Caiolic Church. Maryland. New York.. Agustín.. Lanham...... 1911.. Myths and Histories..... Washington.......... 1990. Londres. Kevin.xl and Tradilion". Londres.... A History of Science... Technology...... "'Ali Mankind Is One": The Libcrtarian Tradilion in Sixteenth Centurv Spain"........ New York... Gerhard.... Whytc..... Jr. Agustín............ Andrew Fleming. Whitc. Fordham University Press......... Ncthcr. The Church and lhe Markel: A Catholic Defense of lhe Free Economy...... III COMO OS MONGES SALVARAM A CIVILIZAÇÃO Inicios do monaquismo. Whitc............................... Philippc..... 1997............... and Philosophy in the !6th and I7ih Ceniuries. Charles Seribners Sons.. 1924. Searcliing lhe Heavens and lhe Earilt: The Hisiory of Jesuit Observalories..... Jonathan. SJ..... Carl. WOODS JR. Thomas E.. Harpcr... "Jesuits in Scismolog>*".... "Idade das trevas". cd...... Wolf..... 1938. "Eilmcr of Malmesbury. Kluwcr Acadcmic Publishcrs.....Udías........ Walsh.... 1968.... Wright... 2004... The Cothic Calhedral: The Architeclure of the Great Church... New York. New York.... The Jesuits: Missions......... 1883.... Chrisiian Charity in lhe Ancieni Church............. A Case Study of Tcchnological Innovation... 2003. 1892....... New York. Lynn... .... II30-1530.. Its Conlc... As artes práticas.. A conversão dos primeiros bárbaros........... Londres.. Thames and Uudson. The Awakening of Europe..... págs... Penguin Books.. and Slaudcr....... DC..... em Journal of Libertarian Sludies (8).. 97-111............ 196 ÍNDICE I.... Jesuiis in Science Newsletter 13 (1997)....... Wilson. Roger Joseph Boscovich.......... Fordham Univcrsitv Press. THOMAS F. Lancclot Law.... Lcxington Books......... FRS.... verto 1987....... Catholic University oí America Press.... págs......... Gcorgc Allcn & Unwin...... 1961.. The Popes and Science...... Woods. Charles Scribncrs Sons.... Dordrecht. Boston.. Hispanic Philosophy in the Age of Discovery...... William. cd............. Technology and Cullure 2 (1961).....lands.. 1711. Jr...... A lenta reconquista do conhecimento....UMA LUZ NAS TREVAS... Uhlhorn... A..-1787...... James J.... an Elcvcnlh-Ccntury Aviator. Udías.........A IGREJA INDISPENSÁVEL. Walsh........ Christophcr............

... 94 As catcdrais como observatórios astronômicos..... 195 Castidadc e dignidade da mulher............................................................................................................. SOBRE PAPEI...................................................................................................... Vida acadêmica.............. 170 X............................. ........... 132 Bartolomé dc las Casas...................T CHAMBRII.................. 105 VI................... Um "rio dc ciência"... VIA RAPOSO TAVARES......................................................................................... 214ESTE LIVRO ACABOU DE SE IMPRIMIR A 8 DE NOVEMBRO DE 2008...................................................................................... 204 A "condescendência" divina..... 204 Um mundo sem Deus...................... 177 A separação entre a Igreja c o Estado........ 155 IX................ EM SAO PAULO.................... 186 XI................. 81 O sacerdote cientista......... BOOK 7Sg. A idade da Escolástica.......................................................................................................... A IGREJA E A UNIVERSIDADE..................................... 179 A doutrina da cxpiaçâo.................................... IV................................................................. 191 O duelo......... 201 CONCLUSÃO................................ Centros dc cducaçáo................. 110 A Catedral.. 159 Uma atitude assombrosa. 184 As origens dos direitos naturais.. A ARQUITETURA E A IGREJA......................................................................................................................... 140 VIU................................ 89 Conquistas cientificas dos jcsuüas.............................................. KM 18............................................... 131 Igualdade segundo a lei natural.............................. OFFSF.................................................. 150 Católicos c protestantes.............. .....-.......................... 208 AGRADECIMENTOS................... 145 Os fundadores da ciência econômica........ 159 Os pobres c os doentes................................................. VA IGREJA EA CIÊNCIA.........................................................................................................................................................................................COMO A CARIDADE CATÓLICA MUDOU O MUNDO... SP...... 78 A Escola Catedral dc Chartres..................... NA PAU.....A IGREJA E A MORAL NO OCIDENTE 191 Moral católica c morais nâo-católicas.....................................LUS GRÁFICA.................. quantidade 38 39 42 46 46 48 51 54 60 63 63 O problema do momento incrcial........................................................................................................... 113 O Renascimento.............. 163 Os primeiros hospitais c os cavaleiros dc Sâo Joio............................................................. A IGREJA E A ECONOMIA.... 166 Assistência eficaz.......A IGREJA E O DIREITO OCIDENTAL...... 127 Uma voz no deserto................................................ 145 A teoria do valor subjetivo.................................................................................... 124 VII................... 199 A vida virtuosa............... 212 BIBLIOGRAFIA.... ............. Deus "dispôs todas as coisas com medida.... Uma instituição única na história.....Obras dc caridade....................... Galileu.............. Cidade e toga.5......................... 119 Arte c ciência................................. ............................................ A palavra escrita......................... AS ORIGENS DO DIREITO INTERNACIONAL...................................................... 110 O ódio às imagens: iconoclasmo................................... 136 Direito internacional versus Estado moderno.. ...................... A ARTE...................................... 194 O tema da guerra justa..................................................................... 128 Francisco de Vitória.....................

. WOODS JR..198 THOMAS F.

.

WOODS JR..200 THOMAS F. .

.

WOODS JR. .202 THOMAS F..

.

. WOODS JR.204 THOMAS F. .

.

. WOODS JR.206 THOMAS F. .

.

208 THOMAS F. .. WOODS JR.

.

. WOODS JR.210 THOMAS F..

.

.212 THOMAS F. . WOODS JR.

.

. WOODS JR..214 THOMAS F.

.

. WOODS JR. .216 THOMAS F.

.

Tcchnolw and Cidtune 2 (1961). Jaki. Londres. 2001.. (3) Christophcr Knight c Robcn Lomas.dernity: Catholic Inleltecluah and lhe Progressive Era e The Church and lhe Market: A Catholic Deíense oi lhe Free Economy. The Monks of the West: Frvnt St. dc 1670. 97-111. 139-139. dc límírico da Gama. 2. Religiou and lhe Rise of Western Cidlure. |r. A flisiory of lhe Church. Byrn Mawr. (14) Ibid. Charles Scribncrs Sons. The Aunkening of litimpe. an Elcvcnth-Ccniurv Avialor: A Case Studv of Tcclmological Innovation. O seu livro Prodromo alia Am Maeslra.ynnWhite Jr. mas um padre jesuíta . Qiiadrnntc. 6 (12) Charles Monialcmbcrt. pág. vol. pág. mulheres que.. l-ondon. págs. renunciavam ao casamento e SC dedicavam ao cuidado dos pobres c doentes. 1991 (19501. 5. Shecd and Ward. pág. (23) Stanley L. o pe. desde os primeiros tempos do cristianismo. pelas "virgens". pág. (2) Hcnri Danicl-Ropx. 1989. 1948. 81: cfr. St. 223.tonàvc (Joscph MacDonncll. Falr Winds Press.estudou dc um modo mais sistemático o tema do vôo. 1986. 66. Foram prenunciadas. ganhando a lu>nra de ser chamado o pai da aviaçáo. Philaddphia. Imngc Books. Institutc of Jesuit Sourccs. Jesttil Gtonuiers. Nimmo.. Ils Conle.n5o um monge. pág. 208. Inlctvollcgiaic SuidicN Institutc. pág 68 (3) Jiicctyn N. 8. foi o primeiro a descrever a geometria e a física dc uma ac. pág. Alcuin and lhe Rise of lhe Chrisiian Schotils. Pasadcna. . (I) Philip Hughes. "Medieval Creativity in Cience and Technology". 179. /\ Igreja dos lenif>t/s bárbaros. pág. /Ite Awakttiing of Europt. (IJ) Ibid. New York. recebeu o bacharelado pela Universidade de Har. Thomas E. 16)«Christophcr Dawson. WOODS JR. trad. (8) Alcxandcr Clarcncc Flick. Massachusctts. "Eilmcr of Malmcshury. Woods. págs.. New York. A Igreja dos tempos bárbaros.version of Western l-urope. Silo Paulo. segundo alguns historiadores. Francesco Lana-Tcrri . Sccond Messiah. 548. (18) Hcnri Danicl-Rops.. rcv . (IV) Philippc Wolff. pág. Clouccstcr.conecl Cuide Io American Hislory. pág. 153 c scgs. 183. cm Pailerns and Principies and Olltcr Essays. 1892. Séculos mais lardc. além de outros títulos. lá publicou o besl-seller The Polilicaly In. pág. 70. (11) Philippc Wolff.. bem como The Church Confronts Mo. Universiiv of Pcnnsvlvania Press. 1991. The Rise ol lhe Medieval Church. i. 1896. ed. pág. I. vol. cm História da l^ieja de Cristo. «I. Chrisltamtv and Paganism 350-750 The Con. (15) Anürcw Fleming West. Louis. 77. 1995. Benedict to Sl. vol. Beniurd. págs.218 THOMAS F. Hillgarth. 21-22). (14) Philippc Wolff. págs. pág 69.vard e o doutorado pela Universidade de Columbia. The Axvakening of Europe.xt and Tradition". É membro do Ludwig von Mises Institute.

ltca ou a Política de Aristóteles (três trimestres). pág. citado cm John B.nes. pág. Disctnvr. 118. dc (42) John B. 1937 (1923). Euclidcs. a F. ou Das Propriedades dos F. cm astronomia. id. por exemplo. págs. (40) John Henry Newman.. c implorou a outro que lhe conseguisse /t conspiração de Catilina c a Guerra jugurtina.. ou trts se o candidato ainda nâo tivesse "defendido" o caso" (Lowrie J. britânica. vol. 3. ou Da Mina. 67. Lowrie J. págs. chegou a viajar até os lugares mais remotos com o propósito dc encontrar volumes para a sua biblioteca monástica: embarcou cinco vezes com essa finalidade. 1961.cyclopedia. pág. (36) Ibid. pág. pág. (35) Lcighton D. Monasticism and Civilizai ion. cm geometria. 0'Connor. (38)Ibid. 250 mítica c cm música. pág I. The Mor Keahn. The Monks of lhe West. pág. (34) Charles Monialembert. (28) ibid. The Medieval Machine. pág. Charlo Homer Haskins. pág. Ldo Moulin c Ravmond Oursel. 271.. Icv 1999. New York.sity Press. c de outros textos. 227 28. The Atediewl University. pág. 369. Dalv. ou Meteoros. Scribes and Scholars. "Pope Victor III". págs. 68. ou Do Céu (trôs trimestres). 5. pág. Alhaccn ou a Perspectiva dc Viiélio. (8) Joscph H. dc Salústio. Boécio. "Hcnry 'Stampcd Om Industrial Rcvolulton". ou Dos Animais ou algum do Dc Par\<a Natnralia. The Rise of Urmvrsities. The Monks of lhe West. pág.to dc Ptolomcu. Ilhaca. 21. 118. 4. pág. pág. 132-3). págs. 0'Connor. The Reitaissanct »l lhe Twelflh Cen. The Medieval Uniwrsity. 227. vol. que fundou o mosteiro dc Wearmouth. Revnolds c Nigcl C. 17*ronca Planelartun (dois trimestres) ou o Alinapes. 151-2. Dalv. dc Cícero. (31) Ibid. . (33)John B. 146: Raymund Webster.. Monasticism and Civiliuulon. I. ou Dos Vegetais e Plantas. encontramos abundantes evidências da devoção dos monges pelos livros.2002..(24) Jean Cimpel. de Suclônio. págs. além do Verrines. 5.06.. Wilson. 7W«r. Lupo pediu a um amigo abade que lhe permitisse copiar A vida dos Czares.craph. 213-4 (2) Lowrie J. 83. Pediu a outro amigo que lhe emprestasse a Retórica dc Cícero e solicitou ao papa uma cópia das Instilutio. dc Ouintiliano. (45) Ibid. 90.lementos. Em filosofia natural: Física. c de cada vez trouxe uma carga considerável (Charles Monialembert. Daly.. vol. 139). págs. (29) David Derbvshirc.tury. 275. Monasticism and Civilization. na Inglaterra. c dc qualquer outro volume que fosse de interesse. The Medie\-al Church. 115. 31617. Ao longo da história do monaquismo. págs. Sáo Benedito Biscop. (43) Adolf von Hamack. (48) Ibid. (32) Ibid. 317-9 (1) Cír. vol. também "Hcmv's Big Mistakc". Shecd and Ward. The Medieval Universiiv. pág. (26)Ibid.. pág. 5. (27)Réginald Gnígoiiv. pág. Essays and Sketches. Clcvcland. (25)Ibid. pág. Comcll Univcr. 1957 (1927). cm Calholic Bi. OConnor. (3Q) Charles Montalcmbcrt. 81-82. Gerbcrto linha igual entusiasmo pelos livros e oícrcccu-sc para ajudar outro abade a terminar algumas cópias incompletas dc Cícero c do filósofo Dc. cm filosofia moral.. The Monks of lhe West. 89-90. cír. Lynch.. Mq-idian. c em metafísica a Metafísica (dois trimestres.móstenes C a tentar localizar os manuscritos do Verrines c do I)e Republica. 1200-1400. cd.

364. eliminando as imprecisões que afetavam o antigo calendário juliano. l-anham. (29) David C. cm nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. pág. revestia-se do caráter THOMAS F. Cfr. Science and Creation: Front Eterna! Cyxtes to an Oscil. The ExtAntion of Medieval Thotight. por Edvvard Grant. também Sal 8. pág. Bcrkclcy. MacDonnell. Woods Jr. (20) Ibid. pág. 135). \a de Paris. cada universidade tinha os seus usos. Cod and Sature: HistóricaI I -savs on lhe Encounter Belnren Chrisiianilv and Science. 1986.. 2005.1 doraçáo do aii<> solar c ao número dc dias necessários para manter o calendário ajustado «o ano solar saliar noventa c sete dias a cada quatrocentos anos .latina Univerte. tanto na faculdade de artes de Paris como em todas as panes. 3-7: 104. diante do vicc-chancclcr que lhe di/ia: "Eu. 2". Ouadrantc. 31)'Edward Grani. (13) Cit. (22) Stanley I.). 146. que entrou em vigor em 1582. do E. pág. 1928. Os seus cálculos cm relação . veja se David Knowles. 4. a distância das estrelas fixas mais próximas é enorme. Marvland. até a época de Galileu nâo sc podia observar nenhuma mudança de paralaxe porque os instrumentos dc que se*dispunlia ... Na realidade. pode-se ver Jorge Pimcntel Cintra. c isso nâo acontece. O licenciando ajoelhava-se.A cerimônia pela qual se conferia o grau era muito variável. 356. "Medieval Creativitv in Science and 220 .nâo eram precisos o suficiente: além disso. (3) O pc. 77te Life and Work of tílessed Robert Francts Cardinal Bellannine. WOODS JR. Amém" (ibid. 363. The BeginninKS of Wesient Science. Londres. 1995 (N. pela autoridade a mim conferida pelos Apóstolos Pedro c Paulo. Univcrsilv oi Califórnia Press. disputar c determinar [dar a soluçáo de questões discutidas]. (23) David C. 1542 1621. 24. Chicago. (18) Ver Tbomas E.. 31)(32) Ibid. Cristóvão Clavius (1538-1612). &*/ and Reason in lite Middle Ages. Oatcs and Washboume. Lcxinglon Books. Scottish Acadcmic Press. 9: 148. (24)Sobre Abelardo como fiel filho da Igreja c nâo um racionalista do século XVIII translocado para o XIII.. 345. The Church and lhe Market: A Catholic De (eme of lhe Fret Econotnv. págs. além de exercer outros atos cscolásticos c magisteriais. "Scicncc and Thcology in lhe Middlc Ages".. Numbcrs. cd. The Sun in lhe Church.). God and Reason in lhe Middle Ages.foram dc lal precisão que ate hoje «>s estudiosos náo sabem como conseguiu realizá-los (cfr. 203. trelas (nâo os planetas) deveriam aparecer cm posições diferentes ao longo do ano. vol. (15)J. (11) James Brodrick. Edinburgh. Lindberg. ler (as lições magistrais]. pág.ou o olho humano . um dos grandes matemáticos do seu tempo. 31-35. pág. pág. do li. Univcrxitv of Chicago Press. Jaki. Galileu.L. 1986.6 c Jcr 5. 19). 150. 19. Joseph li. (22) Citado cm Edward Grant. Lindbcrg c Ronald L. pág. pág. 1% medida que o nosso ponto de observação delas mudasse com o deslocamento da Terra. 359. dc maneira que a paralaxe é extremamente pequena (N. Bums. 60-61. 169-74. pág. Jaki. págs. 196. havia chefiado a comissão encarregada dc elaborar o calendário gregoriano. The Beginnings of Western Science.. (28) Ibid. págs l l l c segs. SJ. cds. cm David C. 3.). (19) Stanley L. pág. dc uma cerimônia eclesiástica.. Lindbcrg. na igreja de Sainte Gcncvicve. O mesmo autor acrescenta: "O vínculo que há entre a racionalidade do Criador c a constância da natureza merece ser notado porque 6 aí que sc encontram os começos da idéia dc que a natureza é autônoma c tem leis próprias" (ibid.. confiro-te a licença para ensinar. pág. (17) Para uma narrativa mais completa da vida de Galileu c uma análise mais detalhada da condenação. 1992. Sáo Paulo. Jesuit Geomelers. 63. Heilbron. 2.

pág. pág. Sobre as diíeienças entre o "impulso" dc Buridan e as idéias modernas de inércia. (80) Aguslín Udias. (28) Sianlcv L. (37) A C. Pattems or Principies and Olher Essays.C. Science and Creation.. pág. 1995. 535. cm 1814.. trad. pág. pág. pág. ver Roger H.. 106. em id. (63)Ibid.ceion. Eastwood. cm id. pág. C. 191. Stucwcr. For lhe Glorv of God. Dawn of Modem Science. Oxford University Press. Pallems or Principies and Other llssass. 2003. 1961. The Origins of Modem Science. vol. pág. 540. vol. "Science: Western or What?". 71. (36) Sobre Buridan e o movimento inercial. 201. págs. Franccsco Maria". 500. págs. "A Twelflh Ccnturv Concept of thc Natural Ordcr". Heilbron.L.Technology". pág. ver também pág.. págs. pág. Walsh. Medieval and Earfy Modem Science. Jaki. (48) Cit. "Science: Wcstem or What?". 297. Crombic. (31) Ciiado cm Paul Haffncr. Jaki. Kluwcr Acadcmic Publishcrs.. cm Viator 9 (1978). (61) Ibid. Dalcs. Electricily in dtc 17th and ISili Cem unes. 58 (33) Paul Haffncr. pág. 113-14. 2. (73) Ibid. (29)Richard C. 292-293. (69) Richard C. 79. Crealion and Sciauific Crealivity. (78)Joscph E. "The Dc-Animalion of lhe Hcavcns in lhe Mkldle Ages". 79. (89) Sobre a relação entre os trabalhos dc Grimaldi e Newton. "Grimaldi. (43) A. Paticnts or Principies and Ólher Essavs. Ekctriclry in lhe I7ih and ISth Cemunes. Dalcs.53. pág.. Jaki. 77te Popes and Science. 125. pág. (38) Stanley L Jaki. Mediex-al and Early Modem Science. "A Criticai Analysis of Newtons Work on . Dordrecht. "Myopia about Islam.C. Crealion and Scieniipc Creativiiv. pág. págs. I70-7I. cm The Chesterton Revieiv 28. 125. 220-21. (79) Os jesuítas foram suprimidos cm 1773 c restabelecidos mais tarde. 42. Dalcs. 87-88 (88)Bruce S. (44) E. pág. 39. 88 52)* Ibid. (30) Richard C. pág. 16971. Pcnnsylvania. págs. 72-73. 25. (53)Stanley L. pág 542. págs. págs. Crombie. Walsh. The De-Animatton of thc Hcavcns in lhe Middlc Ages". The Mechanizaiion of lhe World Picture. 40. 264. 1959. Inteixollegiaie Studies Institule. pág. Bryn Mawr. Dikshoorn. I7I. I. pág. Joamal of lhe Hisiory of Ideas 41 (1980). Piin. MacDonndl. Heilbron. (23)Rodncv Suuk. (42) Ibid. with an eve on Chesterbclloc". (84)Ibid. 88-89 (87)J. (66)James J. ver Hcrbcrt Buttcrficld. J. (62) Richard C. 2003. (32) A. pág. The lulellectual Ufe o/ Western Europe in lhe Mtddle Ages. Dales. 73. 7lie Popes and Science. ver Stanley L. (82)Ibid. Crombic. cm DSB. vol 2. Dijksterhuis. (83)J. cm Thomas Goldstcin. Nelherlands. (39) Ibid . (68)James J. Medieval and liariy Modem Science. New York. Londres. pág.L. (85)Ibid. Princclon Univcrsitv Press. inverno dc 2002. pág». Jesuil Geometers. 80. Doubledav.. pílg. 88. Searching lhe Heavens and lhe hMHlt The Hislory of Je~ suil Obsen-aiories. pág.

II. (103) Para este c outros testemunhos. pág. THOMAS F. 188-205. 13). MacDonncll. Tanscy. Political Thotiglu in Sixieenth-Century Spain. 2001 119971. 4. 79. Baldwin.pids. págs. Heilbron. Illinois. págs. pág. (100) Joseph E. 2001. Cambridgc. 10.. 102-12. Cambridgc Univcrsity Press. (22) Louis GiUct.. The Scholastic Culture of thc Middle Ages. págs. Thamcs and Hudson. Roger Joseph Boscovich. mas a "rela doutrina". and Church l/iw. 12. especialmente págs. William B. (11) Chrisiophcr Wilson. Jtsuits in Science Newsletler 13 (1997). pág.mological Research: Hislory and fJevelopment. (18) Bemicc Hamilton. 31-32. DcKalb. (12)José A. 107. 1990. Gardners An Through lhe Ages. vol. 1000-1300. 60. An htlroduciion Io Seis. Marcelo Sánchcz-Sorondo. Northern Illinois Univcrsitv Press. WOODS JR. Bartolonià dc Ias Casas in History: Toward an Understanding o/ llic Man and His Work. cm Juan Friedc c Benjamin Kecn. "Raphacl"... ver ibid. pág. 251-2. (105) Elisa beth Hlll. págs. 269-70. 125. pág.DilTraction". (23) «Brian Ticmev. MacDonncll. Howcll Jr. Wadsworth. 103-104. Isis 61 (1970). págs. Mamyia c Richard G.. 121. 41-42. 275-76. 1150-1625. The Rise ofthe Mediae\al Church. (ISMIc. cap. Scott. (9) John W. 11* cd. 19. (113) Para uma explicação detalhada e ilustrada do método de Cassini. (8) Robcn A. ed. pág. 65 66. (110) Agustín Udías e William Staudcr. I. (3) Carl Watncr. (5) "Ortodoxia" nào designa aqui as Igrejas Ortodoxas.■1300. Klcincr. War and Peace. pág. Para mais informações sobre os trabalhos dos jesuítas cm sismologia na América do Norte. Natural Imw. cds. (23) Klcmcns LOfllcr. em Calholic EnciclopcJw.John W. "Jcsuits in Scismology". Benjamin E. "The Spanish Thcological-Juridical Rcnaissancc and lhe Thcology oí Bartolomé de Ias Casas". verto 1987. (11)Ibid. 222 . Ecrdmans. 1000. ver Agustín Udías. (17)O livro cm questão é o de Robcrt A. pág. pág. (27) Ibid. 600. pág. cm Calholic Eneydopedia. Baldwin. (9) Vcnancio Carro. Jesuits in Science Newleller 13 (1997). (12) Ibid. "Vitoria: Thc Original Philosophcr of Rights". The Cothic Enterprise. cm Journal of Libertaria» Studics (8). 1971. 10708. Thc Ide» of Natural Miglits: Studies on Natural RightS. em 1054. págs. (108) Joseph K. "Rogcr Boscovich: A Biographical Essav".L. pois o grande cisma que dividiu católicos e ortodoxos só se deu dois séculos mais tarde. Thc Gothic Cathedral: Thc Architccture of thc Grcat Church. The Scholaslic Culllire of lhe Middle Ages. 103-24. ver J. Scarching lhe Heavens and lhe Earth.lot Whytc. Jesuit Ceomcters. págs. (111) Agustín Udías c William Staudcr. Grand Ra. The Sim in lhe Church. New York. 1990.xandcr Clarcncc Flick. (8) Clr. (99) Ibid. págs.. págs. 526-7. Jesuit Geometers. 1130 1530. Londrcs.. 3. (25) Frcd S. Christin J. págs.. "Pope Lco X". págs. 295-96. Scott. The Slale. "Jcsuit* in Scismology". Fcrnándc/ Santamaria. Michigan. The Cothic Enterprise. em Lance. "Ali Mankind ls Onc': Thc Libcrtarían Tradiüon in Si* tccnlh Cenlurv Spain".

págs. pois nâo é verdade que acreditasse na teoria do valor-trabalho. cd. The Elgar Companion to Austrian Fconoinics. I. (13) Cit. Coiumbus O» Trial: 1492 v. vol. .. 84. Depois que um bem sc tornou propriedade privada. Ludwig von Miscs. Hispanic Philosophv in lhe Age of Discoverv. págs. (19) Par. (37) Samuel Eliot Morison.por exemplo. Illinois. pág. o grande economista do século XX. Chcltcnhnm. (31) Eduardo Andújar. (32)Venancio Carro. Shccd & Waid. 1996) uma réplica ainda mais fone e essencial acerca do erro de Marx cm nAo levar em conta a teoria do valor subjetivo. 2* cd. Kansas City. 40.ockc afirmava que. podem-se ver argumentos suplementares que mostram por que as idéias dc Marx sobre a cxploraç. Failh and Uberty. (11)lb'id. 1993. conforme vimos. (34) Lcwis Hankc. (16) "Entende-se melhor Carl Menger no contexto do ncoescolasticismo aristotéliCo" (Samuel Bo&taph. págs. cm Edwin G. pág. 87. pág. págs. pág. (3) M urras. vol. 303-4. pág 55. ed. certamente.» uma rcfutaç&o direta de Marx.. "Ali Mankind Is One". 271. (8) Alcjandro A. (35) Gfr. cm Pcter J. "New Lighl on the Prchistory of the Austrían School*. "Thc Methodenstreit". 60-1.V» do trabalho eram essencialmente infundadas (21) Locke é freqüentemente mal interpretado neste ponto. (33)Cit. Os seus ensinamentos sobre o trabalho tinham a ver. desmaiando um campo ou simplesmente colhendo uma maçã de uma árvore. 1994 [1965). Londres. O trabalho exercido sobre um bem proporciona ao indivíduo um direito moral sobre esse bem. Mcridian. Norcfta.. The Foundatlons of Modem Áustria» Economics. 1951. veja-se o esquecido clássico de Eugcn von BOhm-Bawcrk. mas com a justiça da aquisição inicial cm um mundo cm que os bens ainda nâo tivessem proprietários. Jamcson Books. (18) Deixemos de lado algumas das dificuldades imediatas dessa teoria.. Bocitkc. pág. /t» Ausirian Perspective on thc Hislory of Econo. 92-93. Martinus Nijhoff. (30)Ibid. (38) Citado cm Robcrt C. Young Américas Foundation. cm que pouquís simos bens sâo propriedade privada dos indivíduos. Chafucn. cm um estado natural. ed. 1994.. As restantes obras indicadas nestas Notas. Pode-se encontrar em George Reisman (Capitalism. Roval.mic Thought. 1992. é licito que alguém reclame como próprio um bem ou um pedaço de tciTa ao qual tenha aplicado o seu trabalho . "Bartolomé dc Las Casas and Juan Ginés dc Sepúlvcda". pág. "Francisco Suárcz on Democracy and International Law". deixa de ser necessário que a pessoa continue a aplicar-lhe trabalho paia reté-lo c designá-lo como próprio. por Murray N. Rothbard. 87. Barlolomi dc IMS Casas: An Inierprelaiion of His Ufc and Writings. I. nâo tanto com a teoria do valor-trabalho. cm Kcvin Whitc. "The Spanish Theological-Juridical Rcnaissancc and lhe Thcology of Bartolomé dc las Casas". por exemplo a sua incapacidade de explicar por que as obras de um artista sobem dc preço após a sua morte. UK. demonstrou que o dinheiro nasceu desse modo. quer tenham sido adquiridos por compra ou por doação de quem possuía legitimamente o título dc . 73-74. 460. Edward Elgar.propriedade. I: Prehistory 10 1789.. Rothbard.N. cm Carl Warner.(25)Ibid. Ottawa. Hcrndon. New York. A teoria do trabalho é inútil para explicar este fenômeno tào comum. Carlos C. 1976. TF Unxvin. 62. Virgínia.. 1898). págs. 275. não houve nenhum trabalho adicional que justificasse esse aumento de preço. pág. Os bens dc proprieda de privada sâo legitimamente propriedade dos seus donos. Kart Marx and lhe Closc of His System. Thc Haguc. quer tenham sido adquiridos diretamente do "estado dc natureza". The Oxford History of lhe American People. 23-4. Dolan.

"Charity and Charitics". 257. pág. Hanovcr llousc. pág. 1996. 1988 [18961. Schmidt. (37) Hcnri Danicl-Rops. (12) Uma condensação pode ser encontrada cm Harold J.lury". Sir Isaac Pitman & Sons. 18.: A Hislory of Hospitais. 112 (36) Philip Hughes. cm Catholic Encyclopcdia. "Thc Influcncc of Christianiiv upon lhe Dcvclop.H. (43) Barbara Harvcy. 29). The Social Rcsuhs of Earlv Christianitv.nuland. pág. (35) William Coblxrtl. "Monastic Charitablc Provision in Tudor England: Ouantiíying and Oualifving Poor Rclicf in lhe Early Sixtccnth Ccn. págs. 5-6. (28) Veja-se Murrav N. pág.of Europcan Morais from Augustas to Charlcmagnc. pág. 79 c scgs. pág. History of European Morais frotn Augustus to Charlemagne. 34. pág. Náo obstante. Rushton. Mending Bodies. Ouadrantc. Christian Charitv in lhe Ancicnt Church. (13) Essa linha dc pensamento. (28)Ibid. (11) William E. Gucntcr B. pág. A Popular Historv of lhe Refonnation. vol. Saving Souts. vol. 149. 93. (22) Emil Kauder.ment of Law". Veja-se Murray N. "Monastic Charitablc Provision in Tudor England". 9. A History of Marginal Uttlity Tlteory. cm Ncil S. 1957. 177 c scgs. Oxford University Press.. 224 . Lccky.A. (23) Ibid. 187 8. The Charity of lhe Church.. (18) John A. Gardcn City.Vinccnt Carroll c David Shiflctl. Christianity on Trial. pág 89. "New Light on lhe Prchistorv of thc Austrian School". Rothbard. The Charity of the Church. New York. págs. pág.. págs. (24) A Escolástica veio a ser desprezada tanto pelos protestantes como pelos racionalistas. 14-5. embora nos seja familiar. (42) William E. II. Law and Re\ohition. 1907. Lccky. (39)Ibid. Cajctan Baluffi. 1. págs. A Igreja da Renascença e da Reforma: l. Rushton. Sâo Paulo. pág. 67. vol 4. pág. Risse. 251. 143. sobretudo porque foram os próprios inimigos da Escolástica que citaram expressamente as suas obras. "New Light on thc Prchistorv of thc Austrian School". pág. 454. New York. Uving and Dying in F. p4g. A tradução deste trecho dc petição foi adaptada pelo autor ao inglês moderno. "Charitv and Charitics". os historiadores do pensamento podem reconstruir a influência desses l>cnsadorcs. 205. "New Light on the Prchistorv of the Austrian Sch«x>r. Rockford. (38) Ncil S. (25) Estou cm grande divida com Murray N. Bcrman. 328. Os grifos sáo nossos. Ryan. (32)Citado cm John A.Rvan. 16. The Social Results of Early Christianity.H. Rothbard. 87. em História da Igreja de Cristo.. pág. a propósito das minhas considerações sobre a influência posterior dos últimos escolásticos. TAN. A Historv of the Protestam Reformation m lingland and Ireland. "Charity and Charitics". Rvan. Londres. trad. <8) John A. Thc Charity of lhe Church. (34)Cil. pág. Illinois. em Catholic Encyclopcdia: Charles Guillaumc Adolphc Schmidt. 65-7. c é por isso que as referências explicitas às obras dos últimos escolásticos por parte de alguns dos seus sucessores foram fugazes. THOMAS F. pág. 1999. Charles C. Rothhard. Berman. Hislory. I. (12)Gcrhard Uhlhorn. págs. cm Caiholic Ency(33)Cajclan Baluffi. 10. A reforma protestante. Emérico da Cama.Isto nada tem a ver com atribuir um valor aos bens com base no trabalho empregado. WOODS JR. (30)Cajcian Baluffi. Conlinuity and Change 16 (2001). págs. (8) Harold J.

(13)Ibid. (3) Santo Agostinho. 1. na sua ânsia de reparar a justiça cm abstrato por meio dc uma punição retributiva. (14) Veja-se Roland H. Chrislian Altitudes Toward War and Peace. de um tipo ou de outio. Fortin. (16) Alvin J. 80-2. pág. 2004). e que deve indenizar qualquer pessoa que tenha prejudicado. abandonando qualquer propósito dc restituição. (5) Sunnna ihcologiae. (3) Kicrkcgaard cia protestante. pág. Veja-se Alice von Hildcbrand. New Yoric. 126.contém o perigo potencial dc que o direito penal. A Cidade de Deus. págs. mantinha cm geral uma atitude crítica cm relação a Lutcro c deplorava a supressão da tradição monástica. pág. evidentemente. 1891. vol. pág. Brian Bcncsiad. q. (2) Vinccnt Carroll c Davkl Shiílcu. Calholic Perspectives on Peace and War. 7. Christianity on Trial. Pastoralis OfTtcii. Bainton. págs 285-6 (12)Thomas A. "Kicrkcgaard: A Critic oí Luthcr". Vintie. Maryland. cd. Tia. 3: Human Righls. pág.llcficld.5.Idca oí Natural Rights: Origins and Pcrsistcncc". 18. and lhe Common Good: Untimely Mediialions on Religion and Folitics. Lanham. (15) Ibid. 213. The Laiin Mass (prim. cm J. nos encontramos com a perversa situação dc que um criminoso violento. É por isso que. The Beginnings of Wesient Science. 2-4. art. Abingdon Press. pág. 2003.. 1I-II. deve estar completamente subordinada ao senso anterior dc que o criminoso ofendeu a sua vitima. Rowan&Lil. á ele próprio sustentado pelos impostos pagos pela vítima e seus familiares. mcrccc punição... Crjfos nossos. 17. (8) Lcâo XIII. págs. Shannon. (9) Erncst L. Emesi Fortin: Cofíected Essays. págs. 1996. . Além disso. Portanto. um aspecto da cncarnaçâo dc Cristo que 6 compartilhado pelos católicos. Lindberg. Massam e Thomas A. degenere atií o ponto dc olhar apenas para o castigo. por isso. 6. "Christianitv and thc Just VVar Thcorv". (17) Brian Ticrncy. 123-26. Under lhe Influence. em vez dc ao menos tentar indenizar dc algum modo a sua vítima ou os seus herdeiros. Schmidt. 10-4 (6) David C. mas descreve aqui. a insistência em que o criminoso ofendeu a justiça em si mesma c. Rowan&LiuIcficId. Lahham. Maryland. 1960. págs. hoje cm dia. 22. 64.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful