“A comunicação popular, contribui para a conquista da cidadania.

Que não significa só alguém votar a cada cinco anos naqueles que vão decidir por ele, mas também aprender a participar politicamente, a apresentar sua canção e seu desejo de mudança”.6

Se não houvesse meios de comunicação social o homem seria um ser alienígena ao meio em que vive. Dos tambores das florestas da África aos sinais de fumaça dos índios Apaches e pombos correios o homem sempre tentou vencer distâncias, superar obstáculos diante da necessidade de comunicar-se com seus semelhantes.Necessidade que se agiganta no mundo globalizado de hoje, onde a informação passa a ter fundamental importância na relação entre os povos. Mas, é preciso não esquecer o respeito ao conjunto de valores que emanam das pequenas comunidades com identidade própria, com manifestações culturais que lhe são peculiares. A democratização da comunicação, deve ser o norte de nossa luta. Democratizar para garantir a liberdade de expressão das lágrimas das Mães da Praça de Maio, dos povos da Amazônia, e de nossas comunidades carentes. Liberdade de comunicação de um povo cujo grito é sufocado pelas bombas do imperialismo. Liberdade para denunciar o crime de Eldorado dos Carajás, e ouvir a voz dos movimentos populares construindo a nossa democracia. Foi com este pequeno e emocionado discurso, gravado nos Anais do 3º Seminário do CONRAD em abril de 2003, e publicado no Boletim FALA COMUNIDADE com as teses encaminhadas pelo CONRAD para a Conferência Municipal de Comunicação, que o Diretor do Sindisprev-rs (entidade apoiadora do 3º Seminário), Luis Carlos Torrres de Castilhos fez a abertura do mesmo. O ano de 2003 foi um ano dos mais importantes para a democracia nas comunicações. Ano da retomada da luta internacional dentro da ONU com a criação da CMSI e sua primeira Cúpula Mundial e lançamento de campanhas mundiais. Mas foi principalmente o momento da tomada de consciência da importância de conceitos claros e diferenciados do que é e como fazer Rádio Comunitária na perspectiva social o que originou a pesquisa em questão e o 4º Seminário sobre Liberdade de Comunicação e Transformação Social, Perspectivas Jurídicas. Desde então, esta pequena entidade gaúcha vem questionando e contribuindo ao debate dos conceitos e pesquisando o funcionamento deste segmento da Radiodifusão fundamental que são as Rádios Comunitárias. A respeito dos conceitos de comunicação comunitária Itens referenciais de Comunicação Comunitária norteadores da pesquisa, com base em
Cicília Peruzzo, encaminhado pelo CONRAD-RS, publicado no Boletim “Fala Comunidade” e aprovado na Conferência Municipal de Comunicação de Porto Alegre em outubro de 2003, após sete meses de seminários e debates:

Sem fins lucrativos; programação comunitária; gestão coletiva; interatividade; valorização da cultura local e do meio ambiente; compromisso com a cidadania; conquista de espaços alcançados num processo de luta; articulação da cultura, abrindo espaço para a expressão das pessoas da localidade; formação de identidades, através da participação e cultivo da cultura local; romper a dicotomia emissora X receptor; apropriação de meios e técnicas antes
_________________ 6.Cicilia Peruzzo, 1999.

monopolizados nas mãos de poucos, com conteúdo crítico e reivindicatório; mentalidade de

Pluralismo: Ser plural. Considerando que a Conferência definiu que os jornais de bairro são pequenas empresas e por isto não podem ser considerados como meios de comunicação comunitários. tais como associações de moradores. ou seja. no mínimo. pois em princípio o comunicador popular executará funções profissionais dos jornalistas e radialistas que são regulamentadas pela legislação. pessoal e/ou reinvestimento no próprio veículo ou em ações para a comunidade. após mais seis meses de debates: Proposta de resolução sobre conceito de comunicação comunitária para o Conselho Municipal de Comunicação:7 Considerando que as resoluções da I Conferência Municipal de Comunicação definiram que o Conselho Municipal de Comunicação elaboraria uma proposta de conceito de comunicação comunitária que servisse de referência para as políticas públicas de comunicação a serem implementadas na cidade. ou até a prestação de serviços para terceiros. escrevendo ou apresentando seus próprios programas. que tende a ter um vínculo orgânico com a realidade local. culturais etc. até produzindo. 8. e conquista do direito de expressar-se publicamente. Após esta aprovação pública em conferência o referencial foi utilizado pelo Conselho Municipal de Comunicação para sua finalização. Controle social: A programação deverá ser acompanhada e fiscalizada. b) Democracia: Possuir sistemas de gestão compartilhada. manutenção. empresariais. beneméritas. de Cicilia Peruzzo. e não geram lucro para apropriação particular. sem proselitismo de qualquer natureza. seus interesses e sua cultura. Participação: Favorece um conteúdo e uma programação interativa com a participação direta da população. no sentido de verificar sua adequação aos interesses da comunidade e aos princípios da lei. democratização dos meios de comunicação e desmistificação de seus instrumentos. desde a programação até a gestão do veículo. Compromisso social: promover ações que visem o desenvolvimento e a organização da comunidade. nas mais completas formas de interatividade. tais como conselhos gestores. no sentido de permitir que todos os segmentos da comunidade tenham o direito de se expressar no veículo em igualdade de condições. professora doutora do IMEC Saõ Paulo. Considerando que a Conferência definiu que os jornais e outros produtos de comunicação escolares também não se enquadram no conceito de comunicação comunitária. abaixo listamos os aspectos que o Conselho Municipal de Comunicação classifica para que um veículo de comunicação seja considerado comunitário: a) Devem ter caráter público. re-elaboração de valores. pertencer a uma coletividade que pode ser geograficamente definida. 7. de classe. Considerando que os veículos de comunicação comunitários são aqueles em que os responsáveis por todo o processo comunicativo. dez pessoas representantes de entidades da comunidade local. Sob este aspecto é necessário esclarecer e buscar uma saída legal. é garantido o acesso público ao veículo. Produção Local: É produto da comunidade sob o ponto de vista do conteúdo e da programação. através do exercício da cidadania. editoriais e assembléias públicas. Não ter fins lucrativos: a comercialização dos espaços publicitários na forma de patrocínio. por um Conselho Comunitário.Estes critérios foram elaborados a partir do texto “Participação nas rádios comunitárias no Brasil”. Conteúdo Local: Valoriza e incentiva a produção e transmissões culturais locais. tratando de seus problemas. são as comunidades. funcionando com c) d) e) f) g) h) i) órgãos deliberativos coletivos. e os recursos arrecadados são para custeio. religiosas. composto de. propaganda e de apoio cultural. Portanto. suas necessidades. (respeitando a legislação profissional)8 através de suas entidades e associações. legalmente constituídas. . suas festas.serviço como forma de opor-se ao mercantilismo da mídia. junto aos Sindicatos de Jornalistas e Radialistas. transmitindo.

portanto. regimento interno e entidade jurídica. criar elementos de retrato. É meio de conscientização. respeitando sua iniciativa cultural e seu direito em afirmar sua diferença. proporcionando o treinamento de pessoas da própria comunidade para que adquiram conhecimentos e noções técnicas sobre o funcionamento dos meios de comunicação como falar. voltam-se para os interesses das classes populares. representação. a produção da comunicação comunitária pode nascer dentro das classes subalternas. Busca a promoção das classes populares para a liberdade política e social. A diversidade sem pluralidade é mais difícil de identificar. Tentando explicitar a necessidade dessa diferença: uma rádio (ou experiência qualquer de comunicação comunitária) pode ser plural sem ser diversificada.j) Educar para a cidadania: Tem compromisso com a educação para a cidadania no conjunto da programação e não apenas em algum programa específico. (após envio do conceito pela lista nacional) do professor Adilson da UFF/RJ. Pluralidade e diversidade são. n) Estar devidamente regularizado com estatutos. e CNPJ. necessariamente. de repente. diferenciando-a de pluralidade (muitos atores sem necessariamente haver diferenciação).É a comunicação inserida num contexto alternativo. O que é comunicação comunitária? . por profissionais e intelectuais que. A comunicação popular não é. escrever. editor do Informativo Eletrônico Sete Pontos e membro da Campanha Cris Brasil. Aqui neste ponto encerrou a proposta aprovada pelo Conselho. apresentar e produzir conforme os diferentes tipos de veículos. l) Aqueles que já são comunitários por lei: Canal Comunitário e rádios comunitárias m) Possuir equipamento transmissor de baixa freqüência (até 250 watts). entretanto. tendo a exlusão e a opressão como referência comum). Tem caráter de instrumento dos setores dominados para expressar a sua situação. que tratam sobre direitos humanos e dos animais e os cuidados com o meio ambiente. Não significa tampouco que. respeitando as legislações gerais e as resoluções específicas das conferências. É canal por excelência de expressão das denúncias e reivindicações dos setores organizados da população oprimida. Podem. educação política. pode surgir da . que é o do enfrentamento com o projeto de dominação capitalista e nele define-se como o agente de definição do projeto popular. informação e manifestação cultural do povo. Deve estar vinculada à luta pela conscientização e integrada num processo de luta com a perspectiva de uma nova sociedade. k) Capacitação técnica: Democratiza o poder de comunicar. eles consigam despir-se de seu universo simbólico para. Pode ser produzida desde fora delas. mas tivemos uma contribuição fundamental via internet. Os seus protagonistas são os dominados na sociedade. A comunicação comunitária deve estar comprometida com a mudança social e a transformação do povo em sujeito histórico. mobilização. Nesse sentido. e durante o processo de interação. congressos da cidade. quanto à Diversidade (diferentes atores de diferentes origens. produzida apenas pelas classes subalternas. analisando-a. garantindo a acessibilidade universal para Pessoas Portadoras de Deficiências (PPDs). no sentido de liberar os valores da classe dominada. mas existiria diante da ausência de muitos atores num processo em que poucos são de origens diferentes. agora em 2007. nesse ato. expressar os interesses de outra classe. ambos necessários componentes de experiências de comunicação que se pretendam comunitárias. ao abdicarem da sua origem de classe. conceitos distintos. tendo muitas pessoas que pertençam a um mesmo grupo/tendência/bloco que manipule os meios e processos de produção e o caráter comunitário do projeto vai pro espaço.

dos valores e dos comportamentos.. Função interacional: relacionar-se com outras pessoas. Bordenave ainda relaciona o poder da comunicação com a comunicação do poder. Função regulatória: controlar o comportamento de outro. e tem como princípio básico o Direito à Comunicação. que significa participar do exercício do poder público tanto diretamente. saúde. sendo a principal fazer as pessoas se relacionarem como seres interdependentes. O autor cita mais funções da comunicação: Função instrumental: satisfaz necessidades materiais ou espirituais da pessoa. Função imaginativa: criar um mundo de beleza e fantasia: Era uma vez. sentimentos. Ao definir a comunicação como “a interação social através de mensagens” e os meios de comunicação como “extensões do homem” o autor pergunta “por que não aprender a . o direito de propriedade e o direito a não ser condenado sem o devido processo legal. Marshall. em direito político (através do direito à comunicação) e em direito social (via o direito a uma política pública democratizadora de comunicação). a comunicação perpassa todas as três dimensões da cidadania. que segundo a doutrina liberal. Função informativa: apresentar nova informação. deve informar e formar opinião pública que periodicamente é chamada a escolher seus representantes em eleições livres para constituir o “governo consentido” no legislativo e executivo. dividindo a cidadania em três dimensões: A primeira é a Cidadania Civil. além de indicar a qualidade de nossa participação no ato de comunicação: que papéis tomamos e impomos aos outros. por exemplo. A terceira é a Cidadania Social. A respeito do conceito de Cidadania: Venício Lima faz uma adaptação às circunstâncias atuais. pelo governo ou indiretamente através do voto. a liberdade de ir e vir. cujo princípio básico é a liberdade individual e tem como direitos. emprego. Sua garantia deve ser dada pelos poderes executivo e legislativo. salário justo e à Comunicação. em direito civil (liberdade individual de expressão). ao mesmo tempo. define um conceito: “A comunicação é um produto funcional da necessidade humana de expressão e relacionamento e satisfaz a uma série de funções. da teoria de T. ed..relação igualitária e dialógica entre duas classes. H. juízos e expectativas trazemos ao ato de comunicar”. em Cidadania e Classe Social (1949). dizendo que “é próprio da comunicação contribuir para a modificação dos significados que as pessoas atribuem às coisas” e assim colaborar na transformação das crenças. influenciando-se mutuamente e juntas modificando a realidade onde estão inseridas. a liberdade de expressão. Na verdade. desde que os atores e a mensagem pertençam às classes populares. que desejos. A garantia dos direitos civis é dada por um Poder Judiciário independente e acessível a todos A segunda é a Cidadania Política. Sua garantia é dada pela existência de Partidos Políticos consolidados por um conjunto de novas institucionalidades constituídas por diferentes movimentos sociais. responsáveis e eficientes Políticas Públicas de Comunicação. o direito à presunção de inocência. mas principalmente por um sistema democrático de mídia policêntrica. e pode nascer fora dela. atitudes. Brasiliense 2003. Função heurística ou explicativa: explorar o mundo dentro e fora da pessoa. constituindo-se. e que é aí que reside seu poder. vale dizer. Função de expressão pessoal: expressar o EU. a igualdade perante a lei. Sobre o conceito de comunicação: Juan Bordenave em seu livro “O que é comunicação”. que tem como princípio básico justiça social e significa participar da riqueza coletiva através do direito à educação.

usá-los desde a infância num sentido construtivo de auto-expressão e de construção de uma sociedade mais justa e solidária”? .

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