Programa Biblioteca Itinerante

199

Governo gaúcho estimula microempresários a se organizarem para enfrentar a concorrência das grandes empresas

INDÚSTRIA, COMÉRCIO, SERVIÇOS

Programa Redes de Cooperação
(ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL)

mestre em Administração Pública e Governo pela FGV-EAESP e membro da equipe do Programa Gestão Pública e Cidadania .Pesquisador Hélio Batista Barboza > Jornalista.

destas. descobriu que todos enfrentavam sérias dificuldades: vendas e lucros definhavam.Há alguns anos. lojas de roupas. de utensílios domésticos e uma infinidade de outros negócios cuja presença na paisagem urbana é tão marcante quanto na economia. Mauro Abreu de Camargo assumiu a propriedade de um açougue em Porto Alegre sem ter experiência no negócio. oficinas mecânicas. na terra do churrasco!”. de calçados. farmácias. muitos estabelecimentos estavam prestes a fechar as portas e alguns partiam para a comercialização de outros produtos. a metade (cerca . “Imagine uma situação dessas aqui. Ao procurar aprender com seus colegas do ramo. Os problemas dos açougues da capital gaúcha não eram diferentes dos enfrentados por muitas outras micros e pequenas empresas brasileiras. perdendo sua identidade como casas de carnes. mercearias. diz Mauro. Mais da metade das empresas constituídas no Brasil durante a década de 90 eram microempresas e. videolocadoras. um grupo do qual também fazem parte padarias.

o desconhecimento de técnicas gerenciais por parte de seus proprietários. as microempresas representaram 56. da Austrália e do Japão. Citado em PUGA. Fonte: Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae). a concorrência das grandes corporações. OCDE.com. a falta de crédito. 1.37%. 1999 4.2 No entanto. a partir de dados do Departamento Nacional de Registro do Comércio (DNRC). Baseados nas experiências bem-sucedidas das redes de pequenos empreendimentos e dos distritos industriais como os do norte da Itália. destacam-se: a falta de capital de giro.3% em 1990 para 51. alguns estudiosos e formuladores de políticas públicas têm chegado à conclusão de que os problemas das micro e pequenas empresas não se devem ao seu tamanho e sim ao seu isolamento. seja porque fazem parte de uma mesma cadeia produtiva. Fonte: Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). da prestação de serviços pessoais ou de manutenção de veículos. as barreiras de acesso à tecnologia. Disponível em www. Um levantamento realizado pelo Sebrae entre 1998 e 1999 em 12 estados constatou uma “mortalidade” de 55% a 73% das empresas com menos de três anos de funcionamento.sebrae. 2000.3 Entre as causas apontadas para o encerramento desses negócios. por exemplo. Sua participação na geração de empregos passou de 44. elas não apenas têm mais possibilidades de sucesso como também podem se tornar um importante fator de desenvolvimento regional. SERVIÇOS de dois milhões) estavam no ramo do comércio. a elevada carga tributária. muitas das empresas que serviram de base para essas pesquisas provavelmente não existem mais. 1996 . seja por sua proximidade geográfica (como nos clusters ou distritos industriais). 3. SEBRAE.4 Quando passam a colaborar umas com as outras.202 INDÚSTRIA. COMÉRCIO.1 Das firmas que se estabeleceram em 99. do Vale do Silício (nos EUA).2% em 1999. a pequena escala de produção e de vendas e a ausência de uma estratégia eficaz de comunicação e marketing.br 2.

apud PUTNAM.Programa Redes de Cooperação 203 As análises sobre as causas do desenvolvimento econômico encontram nesse aspecto vários pontos de contato com os estudos sobre o capital social. sofrendo a desagregação provocada por interesses individuais e pela falta de metodologia adequada. oferecimento de cursos de capacitação gerencial. de distritos industriais formados por pequenas empresas altamente produtivas e tecnologicamente avançadas.5 Porém.). Junho de 1988. indo além do mero apoio individualizado (concessão de crédito.) gerou um ambiente propício aos mercados... Segundo Mauro Abreu de Camargo. 5 . que apenas começara a funcionar. Mauro chegou ao Programa Redes de Cooperação. promovendo a cooperação e propiciando às pequenas empresas a infraestrutura que elas sozinhas não teriam como obter. estado onde mais de 98% das empresas formalmente constituídas são de micro e pequeno porte (RAIS. por exemplo. 1996) . Esse é o objetivo do Programa Redes de Cooperação. Robert Putnam chama a atenção para a existência. No caso das políticas de fomento aos pequenos negócios. implementado desde 2000 pelo governo do Rio Grande do Sul. eles já haviam se reunido para encontrar soluções. Tais distritos se caracterizam. mas estavam desmobilizados.“Uma vasta rede de associações econômicas privadas e de organizações políticas (. 2001). Mark H. por uma combinação aparentemente contraditória entre competição e cooperação. a forma pela qual o Estado pode estimular a criação ou o fortalecimento do capital social já existente ainda permanece em debate. uma resposta pode ser o incentivo à organização dos empreendedores em redes de cooperação horizontal. Depois de buscar ajuda em vários órgãos governamentais. O apoio do Programa foi fundamental para um grupo de 11 donos de açougues de Porto Alegre. 53:331. etc.” (LAZERSON. Organizational growth of small firms: an outcome of markets and hierarchies? American Sociological Review. Observando o caso italiano. entre outros atributos. naquele país.

que os auxilia no levantamento dos pontos fortes e fracos de sua atividade. contratou um engenheiro agrônomo . Tais documentos estabelecem regras e normas como: a distância mínima que deve existir entre cada ponto comercial (evitando a concorrência direta entre dois açougues da mesma rede. O passo seguinte é a formalização dos grupos. com estatuto. com a inclusão de novos associados. das embalagens e das peças de propaganda. cada associação deve ter obrigatoriamente uma equipe encarregada da expansão. Escolhido o presidente. a diretoria e o nome da rede. por exemplo). regimento interno e código de ética. Por isso. A fim de se evitar a formação de pequenos oligopólios. de produtores de frutas. além de uma outra para o marketing e uma equipe de negociação. independentemente do porte econômico de cada um. A contribuição dos associados possibilita a contratação de uma agência de publicidade.6 6. A rede Frutas Altas. estabelecendo a igualdade entre os membros. bem como a identidade visual dos pontos de venda. o valor da contribuição mensal para a associação e a periodicidade das reuniões entre seus integrantes. O Plano estabelece metas a serem alcançadas no período de seis meses ou um ano. Cada grupo conta com o apoio de um consultor. o Redes de Cooperação forma grupos de pelo menos 10 micro e pequenos empresários de um mesmo ramo de negócios. que define o padrão arquitetônico a ser adotado nos estabelecimentos comerciais da rede. Em alguns casos. também se contrata um arquiteto. que cria a marca e o logotipo da rede.204 INDÚSTRIA. o que inclui o desenvolvimento de uma estratégia de marketing. que passam a se organizar juridicamente sob a forma de associações. SERVIÇOS O Programa Concebido por técnicos da Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais. As associações devem ter um caráter democrático. o Programa enfatiza que as redes têm de buscar constantemente a sua ampliação. o grupo passa a elaborar o Plano de Implantação. COMÉRCIO. contando com a ajuda do consultor.

Programa Redes de Cooperação 205 Assim. inclusive. a estratégia de marketing culmina com a realização de um evento de lançamento da rede para os fornecedores. visando trazer para o seu próprio desempenho os benefícios do associativismo que procuram fomentar. elas também são acompanhadas por outros programas da Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais. . ele acaba tendo de conhecer profundamente os segmentos aos quais presta serviços. o Programa acabou criando um mercado para esses profissionais – publicitários. os consultores criaram sua própria rede. o consultor ajuda o grupo a desenvolver o planejamento estratégico de longo prazo e passa a fazer um trabalho de acompanhamento. tendo em vista a divulgação do seu trabalho para esse novo mercado. ou mesmo para a comunidade em geral. No final de 2002. etc. O Programa conta também com alguns coordenadores regionais. voltados para a capacitação em técnicas de gestão empresarial. os microempresários dificilmente teriam condições de contratar tais serviços. programadores de computador. na indicação de consultores (alunos ou ex-alunos dessas universidades) e no oferecimento de cursos de capacitação gerencial para os microempresários. que as agências de publicidade trabalhassem gratuitamente. Algumas redes acabam contratando o consultor de forma definitiva. a partir dessa etapa. ao mesmo tempo em que se dedica à formação de outra rede. Algumas associações conseguiram. O Programa Redes de Cooperação funciona por meio de uma articulação entre a Secretaria e um conjunto de universidades regionais. mas é importante destacar que. Cada consultor tem como meta a formação de duas redes por ano e deve apresentar um relatório mensal de atividades à coordenação estadual do Programa. o fornecimento de crédito e outros serviços. que acompanham de forma descentralizada a execução de suas atividades. arquitetos. Para desenvolver bem o trabalho. Nessa fase inicial. Encerrado o período de implantação. Se não estivessem associados em rede. que atuam na sensibilização das microempresas de sua região. para os clientes.

laboratórios de análises clínicas. o governo pretende integrar um total de 5. ele pode se transformar numa estratégia do governo para impulsionar o desenvolvimento do Estado. Tendo se iniciado em 2000. por exemplo. Conforme explica o coordenador do Programa Redes de Cooperação. produtores de frutas.7 Entre os setores que participam do Programa estão os de padarias e confeitarias. de 25% a 30% do valor repassado pelo governo estadual a cada uma delas. existem as que reúnem micro e pequenas indústrias e as que são integradas por prestadores de serviço ou por produtores rurais. o Programa formou cerca de 50 redes. COMÉRCIO. academias de ginástica. envolvendo aproximadamente 1. laticínios. pois algumas delas surgiram espontaneamente. além da contrapartida das universidades. As redes. O faturamento de tais empresas varia de R$ 20 mil a R$ 120 mil por mês. Pode-se afirmar que as pequenas indústrias de móveis da região de Bento Gonçalves. floriculturas.500 micro e pequenas empresas e 10 mil postos de trabalho. trabalham mais com as questões de marketing e de vendas . lavanderias.206 INDÚSTRIA. Jorge Renato de Souza. do PMDB. farmácias. Os coordenadores da experiência informam que as redes já movimentam anualmente cerca de R$ 500 milhões no Rio Grande do Sul. a experiência prosseguiu sem alterações na transição para o governo de Germano Rigotto. papelarias. O papel do governo e das universidades A criação das redes de micro e pequenos empresários não se deve apenas à iniciativa do governo gaúcho. SERVIÇOS A iniciativa dispôs de um orçamento de R$ 3 milhões em 2003 e uma previsão de R$ 16 milhões para o quatriênio 2003-2006. Até o final de 2006. lojas de autopeças e serviços automotivos. têm uma tendência 7. Segundo seus coordenadores. para os produtores rurais a principal diferença entre as redes e as cooperativas agrícolas é que estas se preocupam mais com os aspectos diretamente relacionados à produção. na gestão petista do então governador Olívio Dutra. etc.000 empresas. Além das redes formadas por empresas do varejo. apicultura. por sua vez. Até agosto de 2003.

No entanto. . Mas a mudança na imagem das empresas não impede que elas mantenham o atendimento personalizado e próximo aos clientes – uma vantagem dos pequenos negócios em relação às grandes companhias. as imposições do mercado globalizado. a partir de seu conhecimento sobre as regiões em que se localizam.Programa Redes de Cooperação 207 natural a se associar para realizar determinadas atividades. que passam a se apresentar como parte de uma única grande empresa. A rede tampouco interfere na gestão das empresas. Os fabricantes de móveis e os produtores de frutas. Além disso. contam com o trabalho em rede para ajudá-los a desenvolver as exportações. o Programa conta com a proximidade entre as universidades. as redes também apresentam diferentes demandas ao Programa. os coordenadores regionais. devido a uma série de razões: a proximidade geográfica. Para se adaptar a essas diferenças e atender de forma adequada às necessidades de cada setor. sindicatos e federações de municípios. a iniciativa aposta no papel das universidades como agentes do desenvolvimento regional. Em agosto de 2003. como catalisadores e facilitadores da formação de redes. por exemplo. que ajudam a divulgar a experiência. preservando a autonomia de cada uma delas. Assim como desenvolvem atividades bastante diferenciadas entre si. a necessidade de ganhar escala e competitividade nas exportações. As empresas varejistas estão mais interessadas em melhorar as condições de negociação com seus fornecedores. as redes não costumam elaborar um planejamento adequado e acabam operando numa seqüência de tentativas e erros. estava em negociação uma parceria com o Sebrae. uma das mais evidentes é a transformação da imagem dos pequenos estabelecimentos comerciais. no mínimo. sem o apoio do Estado. colocando o Programa como um parceiro fundamental das empresas associadas. os grupos de consultores e os micro e pequenos empresários. O Programa dispõe ainda do apoio informal de algumas prefeituras. Tal proximidade facilita o trabalho de sensibilização dos empresários quanto às vantagens do associativismo. etc. Os consultores e os instrumentos de gestão oferecidos pelo governo estadual funcionam. Entre as mudanças trazidas pelas redes de cooperação.

o presidente da ChefCarnes. A transformação das empresas Com o apoio do consultor fornecido pelo Programa Redes de Cooperação. para conseguir qualidade e preço”. degustação de vinhos e churrasco. passando pela cor das paredes e do piso. Há também diversas campanhas promocionais. COMÉRCIO. SERVIÇOS o principal órgão oficial de apoio aos pequenos negócios no país.208 INDÚSTRIA. elaboraram o planejamento dos negócios. os 11 proprietários de açougues liderados por Mauro Abreu de Camargo formaram a Associação. além de consultores ligados às redes Frutas Altas (produtores de frutas). Redefort (mercados). A lucratividade aumentou porque os proprietários de açougues negociam coletivamente com os fornecedores. sorteios. Os funcionários agora trabalham uniformizados e são motivados pelo crescimento dos negócios e por fazerem parte de uma rede cuja marca tem exposição na mídia. contrataram uma agência de publicidade e criaram a marca ChefCarnes.8 Para os fornecedores. que inclui desde a fachada até as tabelas de preços. Tornaram-se ambientes higiênicos. Foram ouvidos micro e pequenos empresários das seguintes redes: ChefCarnes (açougues). obtendo melhores preços. Gaúcha de Casas de Carnes. segundo a opinião dos micro e pequenos empresários. que costuma se concentrar no atendimento individualizado aos empreendedores. Os açougues da rede passaram por uma remodelação arquitetônica e ficaram com a mesma identidade visual. Segundo o coordenador do Programa. Jorge Renato de Souza. que atraem o público com a oferta de brindes. a parceria com o Sebrae ainda não havia se efetivado devido às diferenças entre a iniciativa estadual e a linha de trabalho do órgão. o sistema também é vantajoso. De fato. a possibilidade de conseguir descontos na negociação com os fornecedores representa um dos maiores atrativos do trabalho em rede. Redemac (lojas de materiais de construção) e Afecom (fabricantes de móveis). servindo inclusive como referência para a vigilância sanitária. porque é mais 8. conta Mauro. “Buscamos carne até em Mato Grosso. Lyt (laticínios) e Apil (apicultores) .

praticamente sem risco de falta de pagamento. composta por mais de 100 estabelecimentos distribuídos por grande parte do território estadual. Na prática. Eles ganharam o acesso direto a algumas indústrias. de um software que centraliza as informações sobre os pedidos feitos pelos associados e sobre os preços oferecidos pelas indústrias. da fabricante de tintas Renner. os clientes ganham um limite pré-aprovado de compras para pagamento em até 30 dias. . Como o titular do cartão deve preencher um cadastro. o que lhes permite dispensar a intermediação dos atacadistas. a inadimplência se reduz a níveis muito próximos de zero. Para facilitar as negociações. No caso da Redemac. Com o cartão. formada por mais de 50 lojas de materiais de construção. faziam poucas vendas a crédito e muitas delas resultavam em calote. A negociação coletiva proporcionou ainda uma redução de 30% no valor das apólices de seguro das lojas. o sistema organiza e dá um status formal ao antigo “fiado”. O trabalho em rede possibilitou ainda a informatização dos mercados e a criação de um cartão magnético de compras para os clientes de cada estabelecimento. A rede obteve descontos especiais. Agora. já que o setor é dominado por grandes empresas. embora a administração das vendas a prazo continue nas mãos do próprio dono do mercado. antes de integrarem a rede.Programa Redes de Cooperação 209 econômico negociar com vários clientes ao mesmo tempo do que lidar com uma clientela dispersa. inclusive. que é a venda a prazo com pouco método e quase nenhum controle. A diminuição dos custos transacionais também é bastante perceptível entre os mercados que fazem parte da Redefort. Como conseqüência desses e de outros ganhos. Comprar “fiado” representa um constrangimento para os clientes. Os donos de mercados relatam que. as taxas de financiamento para os clientes da rede caíram em ate 60%. a rede dispõe. ao passo que o cartão de compras personalizado constitui uma forma de valorizá-los e fidelizá-los. as vendas com o cartão podem significar até 60% do total. por exemplo. os comerciantes consideram o aumento do poder de barganha frente aos fornecedores como um aspecto crucial.

as redes de cooperação aumentaram o poder de negociação com os fornecedores e melhoraram a relação com a clientela. onde há um show room com os produtos da Afecom em Miami. no Brasil e no exterior. como também foi fundamental para que elas chegassem ao mercado externo. o shopping tem sido uma grande vitrine para a produção das fábricas locais. Esse é o caso da rede formada por 21 indústrias de móveis da região de Bento Gonçalves. Ao mes- . estantes. que atende setores econômicos tão diferentes quanto a produção rural. o Panamá e principalmente os Estados Unidos. A Associação também apóia a participação de seus membros em feiras especializadas. diretor da Politorno Móveis e presidente da Afecom. ligada ao Ministério do Desenvolvimento. Depois de se reunirem na Afecom. porém. “Minha empresa exportava apenas para a Argentina. Eles permitem vislumbrar. Segundo Clainor Luís Scotton. poltronas. à beira de uma rodovia estadual. o grupo exporta móveis para mercados como o México. recorda o empresário. SERVIÇOS Se. que criaram a Associação dos Fabricantes de Estofados e Móveis Complementares (Afecom). Outra realização da entidade foi a construção do Serra Center Móveis.210 INDÚSTRIA. a Associação não apenas ajudou as empresas a implementar medidas para melhorar a qualidade e a produtividade. para essas empresas. Hoje. COMÉRCIO. o Sebrae e outros órgãos que lhes pudessem ajudar a vender para outros países. etc. o comércio varejista. sofás. Aspectos inovadores e resultados Os exemplos apresentados não abarcam a totalidade das redes participantes do Programa nem a diversidade das empresas beneficiadas. a abrangência da iniciativa. artigos de decoração. moveis para escritórios. as empresas procuraram a Agência de Promoção das Exportações (Apex). porque os compradores vinham buscar nossos produtos”. a pequena indústria e os serviços. para outras o maior ganho foi a conquista de novos mercados. Localizado no município de Garibaldi. um shopping especializado que vende os produtos dos associados: luminárias.

depois de terem passado a integrar a Redefort. Ao propiciar um aprendizado mútuo e possibilitar o compartilhamento das experiências entre os micro e pequenos empresários de um mesmo segmento. a Afecom conseguiu fechar um acordo com uma indústria de espumas. por exemplo. dando-lhes condições de competir até com as grandes redes varejistas (BIG. têm hoje mais empregados do que antes de ingressar na rede. Recentemente. o Programa tem contribuído não apenas para a sobrevivência das empresas. houve uma elevação de 40% no faturamento de suas lojas. resume Mauro Abreu de Camargo. Tal crescimento impulsiona a geração de empregos e o desenvolvimento local. etc. conta o comerciante Leonel Bittencourt. Todos os integrantes da Redefort. Os benefícios para as comunidades se traduzem também em ações de responsabilidade social. as empresas associadas à entidade se comprometeram a comprar parte da produção da fábrica.). a Redefort entregou cestas básicas para uma entidade assistencial de Novo Hamburgo . dois aspectos que ficavam ausentes dos pequenos negócios. os empresários passaram a se preocupar com questões de marketing e com o planejamento de longo prazo.Programa Redes de Cooperação 211 mo tempo. as redes induziram uma mudança na mentalidade desses empreendedores. tais exemplos ilustram algumas das vantagens obtidas pelas micro e pequenas empresas que se organizaram em redes: a realização de investimentos. que foram facilitadas pela organização das redes. Carrefour. “Nós não temos de nos comportar como ‘coitadinhos’”. Alguns donos de mercados apontam que. A união das empresas ampliou a escala de tais ações: a Afecom doou berços para uma creche de Bento Gonçalves. que antes se viam apenas como concorrentes. Em troca. que dobrou o número de funcionários da sua loja. “A maioria deles está no primeiro emprego”. Além disso. que instalará uma fábrica em Bento Gonçalves. o aumento do poder de negociação com os fornecedores e a melhoria no relacionamento com a clientela. Dessa forma. mas também para o seu crescimento. o crescimento das vendas.

pois reforça o papel de tais instituições como agentes do desenvolvimento regional e propicia que elas executem projetos de extensão e de estágio profissional para seus alunos. O Programa Redes de Cooperação impulsionou tais iniciativas e ainda levou ao surgimento de pesquisas sobre a temática das redes nas universidades parceiras. mas o alcance dessas iniciativas ainda é limitado frente ao elevado número de empresas que participam das redes. coordenadora do Programa na Universidade de Santa Cruz do Sul. SERVIÇOS e a Redemac cedeu um caminhão de telhas para o município de São Francisco de Paula.212 INDÚSTRIA. A rede de lojas de materiais de construção gastou menos de 48 horas para mobilizar seus associados e fazer a doação. A futura parceria com o Sebrae deve ajudar a preencher tal lacuna. Segundo a professora Dalva Dotto. cálculo do lucro marginal. A Secretaria do Desenvolvimento e dos Assuntos Internacionais oferece tal capacitação por meio de outros programas. Os limites do Programa Embora o Programa Redes de Cooperação ofereça instrumentos para que os micro e pequenos empresários melhorem a gestão de seus negócios. A parceria entre o Programa e as universidades produz outros resultados positivos. que em meados de 2003 foi atingido por um vendaval. Segundo o coordenador do Programa. . ainda há necessidade de aumentar o conhecimento de tais empreendedores (principalmente no comércio varejista e na produção rural) a respeito de aspectos gerenciais. também existe a dificuldade de atrair os micro e pequenos empresários para os cursos de capacitação gerencial. etc. pois eles costumam achar que já conhecem o suficiente sobre o seu próprio negócio. como fluxo de caixa. antes da criação das redes de cooperação alguns programas de fomento ao empreendedorismo criados pelas universidades (como os cursos de extensão e as incubadoras tecnológicas) nem sempre conseguiam alcançar os micro e pequenos empresários. COMÉRCIO.

eles não dispõem de garantias suficientes para obter financiamentos que poderiam ajudá-los a ampliar suas lojas e realizar outros investimentos. Um comerciante da Redefort revelou que determinada indústria de amaciantes de roupas só atende pedidos de pelo menos 40 caixas. quantidade muito grande para uma única loja da rede . as redes podem centralizar a negociação das compras por parte de seus membros. até agora não implementado pelo Programa nem pela Secretaria. admite Joeci Hercílio. que deve congregar não só as redes de micro e pequenas empresas do Rio Grande do Sul como também as de outros estados. 9. A fim de impedir a bi-tributação e conseguir que as redes sejam reconhecidas como uma categoria específica na legislação tributária. A entidade teria um papel fundamental na promoção do intercâmbio de informações entre as redes e na defesa de seus interesses. O máximo que o consultor pode fazer é ajudar na elaboração do plano de viabilidade econômico-financeira. mas não podem fazer compras centralizadas. Atualmente.Programa Redes de Cooperação 213 As outras limitações se referem ao crédito e à legislação tributária. As dificuldades com relação ao crédito se devem às exigências dos bancos para conceder empréstimos aos microempresários. só conseguem encomendar grandes quantidades aos fornecedores quando dois ou mais estabelecimentos se encontram próximos um do outro. consultor que trabalha com a Redefort. os mercados da Redefort. Uma alternativa seria o aval solidário. Atualmente. “São os nossos dois gargalos”. Muitas vezes. os responsáveis pelo Programa trabalham pela criação da Federação Nacional de Redes (Fenarede).9 O maior empecilho para que as associações centralizem as compras é que elas teriam de pagar impostos duas vezes: no momento da compra e no da distribuição aos associados. a ser apresentado ao banco. A solução das dificuldades tributárias depende de mudanças na legislação. por exemplo. A própria forma jurídica das redes – organizadas como associações – não é a mais adequada para as transações comerciais.

etc. Mas os resultados obtidos pelo programa gaúcho mostram que os empreendedores podem aprender muito uns com os outros e que. integrada por lojas de materiais de construção espalhadas por todo o país. Pouco antes. o exemplo do Rio Grande do Sul terá inspirado uma nova forma de apoio aos pequenos e microempresários. a existência de um conjunto de universidades fortemente ligadas ao desenvolvimento de suas respectivas regiões. em nível municipal. Como o Programa deve se limitar ao território estadual. ter um papel ativo no estímulo ao surgimento do capital social e em sua utilização como um dos fatores do desenvolvimento econômico. o pedido foi negado. mas ficou a indicação de que há demanda por experiências desse tipo em outros estados. o governo de Porto Alegre anunciou a criação de um programa semelhante. SERVIÇOS Considerações finais: possibilidades de disseminação Com a criação da Fenarede. a experiência gaúcha sugere que o Estado pode. O modelo de assistência que tem prevalecido no Brasil baseia-se no apoio individualizado. ao fazê-lo. sim. COMÉRCIO. é preciso considerar algumas peculiaridades do Rio Grande do Sul: a tradição associativista trazida pela colonização européia. Em agosto de 2003.214 INDÚSTRIA. Caso essa demanda seja atendida. diminuem o desemprego e impulsionam o desenvolvimento econômico. colocando a questão de saber se o modelo é aplicável em outros Estados e no nível municipal. ampliam suas possibilidades de sobrevivência no mercado. Por outro lado. Para isso. a discussão sobre as políticas de fomento à cooperação entre micro e pequenas empresas deve ultrapassar os limites do Rio Grande do Sul. enfocando os problemas dos empreendedores como conseqüência do seu porte e não do seu isolamento. havia entrado em contato com o Programa Redes de Cooperação para buscar apoio. . a rede Construir. o que mostra a viabilidade da aplicação da iniciativa por parte das prefeituras.

1999. Experiências de apoio às micro. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. 2000. 1996 MONTANO. . São Paulo: Cortez. Robert D. Bruxelas: OCDE.br PUGA. SERVIÇO Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. pequenas e médias empresas nos Estados Unidos. Networks of enterprises and local development. Disponível em: www.gov. Brasília: Ed. Rio de Janeiro: BNDES. Microempresa na era da globalização: uma abordagem históricoa crítica. 2 . Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas.com.Programa Redes de Cooperação 215 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).br PUTNAM. Fernando Pimentel. Carlos. Pesquisa “Fatores Condicionantes e Taxa de Mortalidade de Empresas”. na Itália e em Taiwan.bndes. edição. 1996. 2001.sebrae. Disponível em www. Sebrae.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful