Movimento Hare Krishna - Histórico, Filosofia e informações. Escrito por Purushatraya Swami.

Baseado numa enquête feita pelo órgão ASSINTEC - Associação Interconfessional de Educação de Curitiba (PR) - que assessora a Secretaria de Educação de Curitiba nos assuntos referentes à Educação Religiosa e Diálogo Inter-Religiosos. 1. Tradição religiosa O popularmente conhecido “movimento Hare Krishna” tem suas origens na índia e é parte de um contexto muito amplo e diversificado chamado “Hinduísmo”. O Hinduísmo, por sua vez é constituído de múltiplas tradições religiosas. No caso particular, o “movimento Hare Krishna” está inserido na Tradição Vaishnava (Vaishnavismo). O termo “Vaishnava” deriva-se de “Vishnu”, que é o aspecto imanente de Deus, presente na criação material. O Vaishnavismo é a linha estritamente monoteísta do Hinduísmo. Embora lide com múltiplos aspectos de Deus e hierarquias subordinadas a Ele, que atuam nos diferentes aspectos de Sua criação, a idéia central da religião é estabelecer a relação com o Deus Uno. Dessa forma, a consciência do devoto transmuta-se de ‘consciência de ego’ para ‘consciência de Deus’, e ele torna-se um recipiente da graça divina. Só pela graça do Senhor que a pessoa pode obter a salvação. Salvação significa liberação da existência condicionada nesse mundo material e ingresso definitivo no reino de Deus. Opostamente à esse mundo relativo e sujeito às dualidades— bom/mal, prazer/dor, luz/escuridão, frio/calor, etc.— o reino de Deus é um estado de existência absoluta, perfeita, pura, eterna e plena de bem aventurança. Enquanto persiste a consciência material condicionada, centrada no ego, a pessoa fica presa ao contínuo ciclo de nascimentos e mortes neste mundo, e aqui experimenta as suas delícias e inconvenientes de acordo com seus méritos e culpa. Cada vida lhe dá uma nova oportunidade para purificar-se e desenvolver a consciência de Deus. A mudança de paradigma, do ego para Deus, se dá quando, pelo contato com o conhecimento revelado, pela misericórdia divina que chega ao indivíduo por diversos meios, é acendida no coração a chama da fé. 2. Origem histórica O sub-continente indiano é o cenário para um leque de tradições religiosas, a maioria tendo suas origens em épocas muito remotas. O Vaishnavismo, em particular, não tem um registro de início. Os textos sagrados, muitos deles compilados em datas que remontam à era védica de cinco mil anos atrás, já oferecem o delineamento da doutrina, que antes era praticada e transmitida em via oral. Já na era cristã, o Vaishnavismo institucionalizou-se e associou-se ao sistema Vedanta de filosofia. Surgiram grandes filósofos teístas, como Ramanuja, Madhva, Nimbarka e Vishnuswami e foi, assim, formatado em quatro linhas principais, chamadas sampradayas. O sistema de filosofia Vedanta tem duas linhas: uma estritamente filosófica e outra teísta. O Vaishanavismo, obviamente, é a linha teísta. O “movimento Hare Krishna” é filiado à linha Vaishnava chamada Brahma-Madhva-sampradaya. O “movimento Hare Krishna” teve seu início há quinhentos anos, exatamente na virada do século, na época dos descobrimentos. O responsável por sua difusão foi o santo Sri Caitanya (lê-se Cheitânya) Mahaprabhu. Sua vida foi amplamente registrada em biografias, algumas delas contemporâneas a ele. Caitanya, que foi um acadêmico e intelectual sem rival em sua juventude, teve uma reviravolta radical em sua vida, passando a manifestar uma natureza mística sem precedentes, certamente, na história da humanidade. Mais da metade dos quarenta e oito anos de sua existência foram passados, na maior parte do tempo, num êxtase místico de amor a Deus. A mensagem de Caitanya resume-se basicamente na

realização de que o método mais eficaz para restabelecermos nossa conexão com Deus é através do canto e meditação de Seus santos nomes. Os santos nomes do Senhor, diz Caitanya, possuem energias espirituais que vão atuar na consciência, tornando-a cada vez mais espiritualizada. Com a prática, obtém-se purificação, auto-conhecimento, desapego, renúncia, santidade, paz interior e amor puro por Deus. Embora todos os nomes referentes a Deus têm esse poder, Caitanya recomendava o canto e a meditação no maha-mantra Hare Krishna (explicaremos mais a frente). Seu movimento teve um grande impacto social pois desestruturava um rígido sistema de castas que prevalecia no país naquela época. Ele atingiu tanto as camadas populares quanto a classe intelectual, e até, membros da realeza. Começou na região da Bengala (leste da índia, cuja capital é Calcutá) e, a seguir, espalhou-se pelo estado vizinho, Orissa. Na seqüência, permeou o país. Caitanya, inclusive, profetizou que esse canto espalhar-se-ia pelo planeta, o que , mais ou menos, podemos, hoje em dia, presenciar. Em 1965, um sannyasi (renunciado) da linha de Caitanya, A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, trouxe esse conhecimento para o Ocidente. Aos setenta anos de idade, sem recursos e qualquer apoio institucional, Swami Prabhupada desembarcou em Boston, nos Estados Unidos. Logo a seguir, radicouse em Nova York e, por arranjo do destino, seu público foi, quase que exclusivamente, o mundo hippie, que naquela época, estava em seu auge. Sua mensagem era estritamente ortodoxa e apresentava valores praticamente diametrais aos cultivados pelos hippies. Mas, mesmo assim, surpreendentemente, sua mensagem teve um tremendo eco, certamente devido à genuína postura espiritual de Prabhupada. Em 1966, ele fundou a Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna (ISKCON). De Nova York estabeleceu-se uma ramificação no oeste, em São Francisco; depois Montreal e Londres. De lá, à medida em que seus discípulos espalhavam centros nos diversos continentes, Prabhupada voltou à sua terra natal e estabeleceu alguns importantes centros de adoração a Deus. 3. Idéia e representação do Transcendente (Deus) Como já afirmamos, a Tradição Vaishnava é monoteísta por excelência. Outra característica marcante do Vaishnavismo é que, baseado na revelação, nos é dada a noção de Deus como Pessoa, a Suprema Personalidade de Deus. Logicamente, não uma pessoa como nós— corporificada, condicionada, falível, efêmera, limitada, ignorante e sofrida—, mas uma Personalidade infinitamente superior a qualquer referencial humano— possuidor de qualidades ilimitadas e perfeitas, e destituído de qualquer indício de imperfeição ou limitação. A conhecimento Vaishnava aceita que “ tudo provém de Deus.” Não existe uma dicotomia original de Bem e Mal, ou Deus e Satanás. Essas dualidade estão presentes no estado de existência em que ora vivemos. Em geral, o aspecto negativo da realidade é a ausência da contraparte positiva, assim como por exemplo, o fenômeno “escuridão” se dá quando a luz é bloqueada ou está inativa. O sofrimento, tido muitas vezes como uma imperfeição na criação de Deus, tem, com certeza, seu papel no teatro da vida e, muitas vezes, é aquilo que purifica, que nos faz ver a realidade e nos traz conhecimento e realizações mais profundas. A morada do Senhor é o reino absoluto. O termo sânscrito que traduz isso é sat cit ananda, que significa, existência plena e eternidade (sat), consciência infinita (cit) e bem aventurança plena (ananda). A forma do Senhor é igualmente sat cit ananda. Assim como na revelação cristã, a Tradição Vaishnava aceita que “Deus tem muitas moradas.” Além de muitas moradas, Ele possui muitas formas. Apesar de possuir inúmeras manifestações, Ele não perde Seu caráter de Ser único e Uno.

De acordo com a revelação Vaishnava, Deus tem, basicamente, três aspectos: a) Seu aspecto impessoal (Brahman)— a energia cósmica, o somatório de todas energias, a Consciência Suprema, o Espírito Supremo; b) o aspecto imanente (Paramatma), que participa intimamente na manifestação cósmica material; e c) o Deus Transcendente (Bhagavan), a Suprema Personalidade de Deus, que atua num meio ambiente puramente espiritual. Brahman é o suporte de tudo. Muitas religiões dão primazia a este aspecto impessoal de Deus. A doutrina Vaishnava, apesar de considerar esse aspecto do Divino, enfatiza o aspecto pessoal de Deus, pois só assim pode-se desenvolver um relação estritamente pessoal com Deus. Paramatma ou Superalma é o Deus Todo-Penetrante ou Onipresente, ciente, se isso for Seu desejo, da caída de uma mera folha seca ao chão em qualquer parte de Sua criação. Ele está presente no coração de todos. Ele é o Testemunha e o Sancionador. Para aqueles que são indiferentes à Sua presença, fazendo mal uso de seu livre-arbítrio, Ele simplesmente garante que haja justiça na hora da colheita daquilo que foi semeado. Mas àqueles que refugiam-se nEle, o Senhor no coração conduz a pessoa com segurança através do oceano da existência. O Deus Trancendente, conforme se descreve nas Escrituras, manifesta-se, por sua vez, em diferentes formas— Rama, Krishna, Narayana, etc. Algumas dessas manifestações de Deus vêm a este mundo e aqui exibem certas atividades (lilas) cuja única finalidade é atrair as almas condicionadas para a realidade transcendental eterna. Esses são chamados de avataras. Embora convivendo por um período de tempo no seio da sociedade humana, esses avataras, como Rama e Krishna, não estão sujeitos às leis da natureza material e suas formas são imateriais e divinas. Embora possuindo múltiplas formas, todas são manifestações do Deus Uno, como já dissemos. O devoto Vaishnava escolhe a forma de Deus que mais lhe inspire e, então, desenvolve sua devoção baseado nos preceitos das Escrituras. Cada manifestação de Deus tem características e humores diferentes e, conseqüentemente, a forma de devoção também varia em termos de sentimento e em seu aspecto formal e ritualístico. Podemos classificar a devoção a Deus de duas formas: asvarya e madhurya. O Deus no aspecto asvarya é o Deus Todo-Poderoso, o Criador, o Senhor com opulências inconcebíveis. Ele é o Senhor Supremo Absoluto e diante dele o devoto é uma ser insignificante. Essa magnitude de Deus inspira respeito profundo e até temor. A devoção é solene, formal e ritualística. Já o aspecto madhurya permite intimidade entre o devoto e Deus. No caso da devoção a Krishna, o devoto pode desenvolver ambos os tipos de devoção. Caitanya Mahaprabhu foi um dos seres iluminados desse mundo que revelaram a devoção em intimidade, e esse tipo de devoção é dirigida a específicos aspectos de Krishna. Dentre diferentes tipos de relações, essas três são as mais íntimas: amizade, amor da mãe para o bebê e amor conjugal. O Senhor Krishna aceita esses três tipos de relacionamentos amorosos, que devem ser, definitivamente, destituídos de qualquer conotação material e só é atingido num estado de consciência pura. O relacionamento amoroso conjugal é o mais rico e íntimo. Com base no princípio de que “tudo vem de Deus,” isso também deve estar necessariamente em Deus. Essas manifestações de Deus na categoria de Deus Transcendente Pessoal possuem a contraparte feminina. A consorte de Krishna chama-se Radha, que é a personificação de Sua energia interna de prazer. Conhecer e apreciar os intercâmbios amorosos do Casal Supremo e desenvolver um sentimento e atitude devocional puramente espiritual, constitui um dos aspectos mais confidenciais da devoção religiosa chamada “Consciência de Krishna,” que nos foi revelada por Sri Caitanya Mahaprabhu.

4. Textos sagrados A cultura religiosa indiana é, sem dúvida, a mais fecunda em textos sagrados, e é composta de centenas de textos. é dito que há cinco mil anos o conhecimento que era transmitido por via oral começou a tomar forma escrita. Os textos são escritos em sânscrito, considerada a língua original da humanidade. A escritura original chama-se Veda, que significa “conhecimento.” Ao ser posto em linguagem escrita, o Veda foi desmembrado em quatro: Rig, Yajur, Sama e Atharva. São escrituras ritualísticas por excelência. Outra classe de escrituras são os Upanishads, de número impreciso , mas considera-se que existem 108 principais. São escrituras essencialmente filosóficas. Existem, também, os Sutras, que são as referências dos principais sistemas filosóficos. Entre eles, está o Vedanta-sutras, composto pelo sábio Vyasadeva, que é o compilador da maioria desses textos sagrados. Os livros de lei, como Manu-Samhita, formam outra categoria especial. Há os épicos, Itihasas, cujos exemplos mais significativos são o famoso Ramayana, que descreve a história do avatara Rama, e o não menos famoso Mahabharata, que descreve a história da dinastia a qual pertencia o Senhor Krishna. Um dos capítulos do Mahabharata é os ensinamentos de Krishna conhecido como Bhagavad-gita. O famoso Bhagavad-gita é considerado como o mais conciso e sistemático livro de religião, ética, filosofia e metafísica jamais escrito. Outra importante classe literária são os Puranas, contando dezoito ao todo. Os Puranas narram histórias dos avataras e de grandes santos aliadas a ensinamentos filosóficos profundos. O mais famoso e importante Purana chama-se Srimad-Bhagavatam, escrito pelo compilador dos Vedas, Vyasadeva. A maior parte das histórias sobre a passagem do Senhor Krishna por esse mundo estão descritas nesse livro. Essa obra está publicada em português em dezoito volumes. Além dessas categorias de literatura sagrada existem algumas outras que não cabe aqui serem descritas por questão de concisão. No caso da Consciência de Krishna, apesar de todas serem fontes de referência, as escrituras básicas que definem a doutrina são as seguintes: Bhagavad-gita, Srimad-Bhagavatam, Sri Isha Upanishad, a biografia de Caitanya Mahaprabhu chamada Sri Caitanya-charitamrta,” e outras obras de autores da linha. 5. Ritos A Tradição Vaishnava é caracterizada pelo uso de imagens, também chamadas murtis ou deidades, para a adoração, seja no templo ou privadamente. Essas formas de diferentes aspectos da Divindade, como Krishna, Rama, Vishnu, Nrsimha, etc., são detalhadamente descritos nas Escrituras. Adorar a Deus através de imagens é, muitas vezes tido como idolatria. Contudo a diferença entre a idolatria e a adoração das deidades é que, no primeiro caso, concebe-se uma forma e ritual para se adorar a um Deus imaginário, enquanto que no segundo caso, segue-se estritamente o procedimento estabelecido nas Escrituras para esse fim, procedimentos esses incrivelmente elaborados, exigindo muitos cuidados e um especial estado de consciência para lidar com os objetos de adoração. A idéia subjacente dessa forma de adoração é que Deus está presente naquela forma particular. Ele é Onipresente. Estando presente em

todo lugar, Ele, certamente, está presente na deidade, principalmente, sendo considerado o fato de que essa imagem está sendo cuidada e venerada com consciência espiritual. Deus é invisível a nossos olhos, mas, por Sua misericórdia, torna-se accessível para aceitar nossa adoração dentro deste mundo. Devido ao ritual regulado e constante e a atitude devocional, tanto dos sacerdotes quanto dos devotos em geral, a deidade torna-se um foco de energia espiritual poderosíssima, bálsamo capaz de aliviar nossos sofrimentos. Num templo Hare Krishna, a primeira cerimônia começa bem cedo, às quatro e trinta da madrugada. A idéia é que, ao acordar, toma-se logo um banho e, imediatamente, como sendo a primeira coisa de cada dia do devoto, ele recepciona o Senhor no templo. Essa cerimônia, que irá também acontecer em certas horas ao longo do dia, chama-se arati. Oferece-se, no altar, preparações comestíveis especificamente elaboradas para as diferentes horas do dia, e, também, outros artigos como incenso, flores com perfume, lamparina e outros. Cada arati tem seu canto específico e devem acontecer em horários estritamente estabelecidos. O ritual é uma maneira formal e externa de oferecer nossa devoção a Deus. Ele não é um fim em si, mas um instrumento a nosso dispor para elevarmos nossa consciência material, normalmente aferrada nas atividades mundanas do dia-a-dia, à consciência de Deus. A idéia da oferenda é que o devoto aproxima-se de Deus não somente para pedir e pedir, mas para oferecer nosso amor. Deus não precisa de nada, mas temos que demonstrar nosso amor a Ele, aproximando-se dEle com uma atitude adequada. Quando o amor a Deus já é parte da natureza do devoto, o ritual é, inclusive, dispensável. Sua vida, na totalidade, já é um oferecimento de amor a Deus. Existe, também, o ritual de iniciação que é a formalização da conexão do devoto com a linha de conhecimento, que descende de mestre em mestre até tempos imemoriais. O devoto faz votos (explicaremos adiante) e torna-se um representante da Tradição. Nessa ocasião é feita uma cerimônia chamada agni-hotra, sacrifício de fogo, que visa a purificação e espiritualização. 6. Principais celebrações a) Sri Krishna Janmastami— aparecimento do Senhor Krishna nesse mundo. (Astami significa oitavo, isso quer dizer o oitavo dia da lua do mês de Hrsikesha, Agosto-Setembro. O calendário védico é lunar e não solar como o do Ocidente. Devido a isso as datas mudam de ano para ano, mas são sempre comemoradas na exata fase da lua do dia original.) b) Radhastami— aparecimento da consorte do Senhor Krishna, Sri Radha. (Quinze dias depois do Janmastami). c) Goura-Purnima— Aparecimento de Sri Caitanya Mahaprabhu. (Purnima significa Lua cheia; em Fevereiro-Março) d) Aparecimento e desaparecimento do fundador da Sociedade Internacional da Consciência de Krishna, Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Essas são as celebrações mais importantes. Além dessas, existem várias outras celebrações referentes a diferentes aspectos das divindades e dos mestres espirituais da linha. Nessas comemorações são, em diversos casos, prescritos jejum numa determinada parte do dia— às vezes até ao meio-dia, e outras vezes até o por do sol ou nascer da lua. Os devotos, observam, duas vezes ao mês, no ekadasi, décimo-primeiro dia da lua, jejum de grãos e cereais. Alguns fazem, inclusive, jejum completo. é dito que esse específico dia é especialmente auspicioso para o cultivo de vida espiritual.

7. Organização hierárquica ou estrutura da instituição Como já foi dito, a Sociedade Internacional da Consciência de Krishna (ISKCON) foi fundada em 1966 por Srila Prabhupada. Ele é o acharya fundador. Acharya significa “aquele que ensina pelo próprio exemplo.” Prabhupada faleceu em 1977. Ele não instituiu um sucessor. Para dirigir a Sociedade, Prabhupada formou um Corpo Governamental (GBC). Como a Sociedade está presente em muitos países, cada área geográfica tem um, ou em certos casos, mais de um, representante do GBC. Os membros do GBC certificam se as coisas seguem na linha, sem desvios, e, por serem devotos experientes, dão assessoria e aconselhamento. A administração em si é descentralizada. Não existe uma sede administrativa nacional nem mundial. Cada projeto desenvolve-se com o potencial local. Aparentemente isso pode dar a noção de uma certa fragilidade institucional, mas é a forma de cada projeto adquirir sua própria identidade e crescer em proporção a sua maturidade. Os projetos da ISKCON são, basicamente, de dois tipos: a) os templos e centros culturais urbanos, e b) as comunidades rurais. Existem dois tipos de devotos: os monges dedicados exclusivamente à instituição, vivendo em comunidades, e a congregação, que freqüenta o templo e oferece algum serviço voluntário. Os devotos recebem uma primeira iniciação quando, já familiarizado com a doutrina, estão aptos a seguir os votos sob a guia de um mestre espiritual. A segunda iniciação se dá quando existe mais amadurecimento e o devoto está qualificado para funções sacerdotais. Tanto internos quanto externos, homem ou mulher, casado ou solteiro, qualquer um pode receber a iniciação. Uma terceira iniciação, de grau mais elevado, é uma prerrogativa para aqueles que estão livres do envolvimento familiar, seja por opção pessoal ou por idade. A qualificação é ter atingido a maestria no processo e total absorção na causa. Esta é a ordem renunciada ou sannyasi. Um outro tipo de liderança é a liderança espiritual. Um devoto maduro e comprovadamente experiente em conhecimento das escrituras e no processo devocional é indicado para servir a sociedade como guru ou mestre espiritual. Sua função é liderar espiritualmente a congregação dos devotos e dar abrigo espiritual, orientação e iniciação aos mais neófitos. O mestre espiritual pode ser da ordem de vida renunciada ou, mesmo, chefe de família. 8. Espiritualidades: Métodos e técnicas utilizados Existem certos aspectos da Consciência de Krishna que fogem às características normalmente vistas em certas religiões. Isto porque a Consciência de Krishna, além do aspecto religioso, propõe-se em oferecer um processo de auto-aperfeiçoamento ou, como é dito também, auto-realização. A palavra em sânscrito que denota isso é yoga. Existem na tradição filosófica-religiosa da índia diferentes processos de yoga. O yoga da Consciência de Krishna chama-se bhakti-yoga, o yoga da devoção, que consiste no processo de tirar o foco de consciência do envolvimento material e mundano e transferi-lo a uma dimensão espiritual.. Em outras palavras, consiste em trabalhar a energia de amor, que todos possuem no coração mas, normalmente, está enfocada nas coisas e relações materiais, e canaliza-la e enfoca-la em Deus. Como já citamos, Caitanya Mahaprabhu sugere o método da meditação e canto do maha-mantra Hare Krishna, que nas palavras dos textos sagrados, é a panacéia para a situação espiritual doentia do homem

de nossa época. O maha-mantra— Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare, Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare— é composto de três palavras que estão no caso vocativo: Hare refere-se à energia divina, Krishna à Personalidade Suprema mais atrativa e Rama à fonte original do prazer, Deus. Este mantra é encontrado num escritura chamada Kalisantarana Upanishad. Os devotos estão sempre sintonizados com o mantra, que é um som espiritual puro destituído de qualquer conotação secular. Sua, vibração sonora ou mental, carrega em si uma série de potências espirituais que agem a nível interno: purifica e acalma a mente, abre os canais da consciência para a espiritualidade e conecta o ser mortal com a Divindade. O maha-mantra Hare Krishna, especificamente, faz manifestar no coração a energia espiritual bhakti, cuja essência é a devoção e o puro amor a Deus. As duas formas de se praticar o mantra são: meditação individual (japa) e/ou canto congregacional (kirtana). 9. Espaços sagrados: Templos, lugares de peregrinação O território indiano é repleto de templos antigos e lugares sagrados de peregrinação. Todos possuem uma tradição milenar. Por séculos e séculos milhões de pessoas visitam esses lugares e procuram sintonizar-se com a energia espiritual que deles emana. Aliás, pode-se afirmar que os mais secretos mistérios do planeta estão encerrados nas quatro paredes de muitos templos da índia. Lá aconteceram um sem número de milagres e manifestações supra-naturais. Consideremos, por exemplo, um templo existente há milhares de anos, e ao longo de todo esse tempo, um minucioso ritual vem acontecendo sistematicamente dia após dia. Qualquer pessoa pode sentir a sacralização do local. A energia espiritual fica presente de forma tangível. Com respeito ao “movimento Hare Krishna”, são os seguintes os locais mais sagrados na índia: a) Vrindávana— Local onde Krishna viveu Sua infância e adolescência. Situa-se a cento e cinqüenta quilômetros ao sul da capital Nova Delhi. b) Mayapur— Local de aparecimento de Sri Caitanya Mahaprabhu. Situa-se a mais ou menos duzentos quilômetros ao norte de Calcutá, Bengala Ocidental. No Brasil, o templo mais importante situa-se na Comunidade Nova Gokula, no município de Pindamonhangaba, São Paulo. 10. Limites éticos: Principais mandamentos, regras de conduta e valores humanos que apregoa. Na iniciação, o devoto faz votos de seguir certos princípios que irão nortear sua vida espiritual daí para frente. Uma observação quanto a isso é que esses princípios não devem ser considerados como meras “proibições.” Esses princípios estão diretamente relacionados com a prática da bhakti-yoga, e visam possibilitar a elevação da consciência individual até ao estado de “consciência de Krishna” ou consciência de Deus. é, portanto, uma prática de auto-realização e o devoto que aspira autoaperfeiçoar-se assume esses votos consciente e voluntariamente. Os quatros princípios regulativos básicos são: a) Não comer carne, peixe e ovos— quer dizer, estrito vegetarianismo. Este princípio baseia-se na misericórdia para com os demais seres vivos e no conceito de ahimsa, não violência. Não devemos cometer violência desnecessária. Uma grande carga de violência deste mundo pode ser evitada ao adotarmos uma dieta vegetariana, que, além do mais é muito mais saudável e natural. b) Não intoxicar-se— princípio de austeridade. A pessoa que busca a auto-realização não deve usar substancias que provocam alteração no estado de consciência. Não deve fugir à realidade e deve, com paciência e determinação, trabalhar sua consciência no sentido de purificação e expansão.

c) Não praticar jogos de azar— princípio da veracidade. A expectativa de ganho fácil nos jogos provocam agitação na mente e abre espaço para o caráter dúbio. d) Sexo destinado à procriação— princípio de limpeza. A função natural do sexo é a procriação. O fato do sexo produzir prazer sensual não deve ser o sinal verde para explora-lo irrestritamente. Um outro voto que o devoto faz na iniciação é determinar-se em praticar o processo de meditação, japa, diariamente. Essa meditação prescreve a repetição em voz baixa do maha-mantra Hare Krishna. Durante essa meditação, manuseia-se um rosário de 108 contas, conta por conta, pelo menos 16 vezes, o que representa 1728 repetições do mantra. Essa prática deve ser feita bem cedo, antes do sol nascer, e dura aproximadamente hora e meia. 11. Vida além da morte: Que resposta norteadora do sentido da vida além morte representa? Um dos conceitos fundamentais do conhecimento védico é que, primeiro, a vida é eterna e, segundo, tudo nesse mundo é cíclico. O princípio da vida eterna está relacionado com a alma, enquanto que o princípio cíclico refere-se ao corpo. Para a alma não faz sentido as designações do corpo: masculino/feminino, preto/branco, brasileiro ou chinês, etc. Essas são designações circunstanciais. Enquanto a alma não atingir seu estado natural de pureza e consciência plena e, assim estabelecer-se definitivamente no reino absoluto de Deus, onde a existência é eterna, a consciência é total e é plena em bem aventurança, ela, a alma, tem que estar associada a um corpo material para, gradualmente, evoluir e encontrar sua verdadeira natureza. Isso requer muitas vidas. Os grandes obstáculos para o aperfeiçoamento da alma neste mundo são: apegos materiais, a exploração do prazer sensual e ignorância. Aceitamos, portanto, o conceito de “transmigração da alma”. Evitamos o termo “reencarnação” para não incorrer nas muitas confusões e mal entendidos que este termo geralmente tem acarretado. Outro princípio que está diretamente relacionado a esse tema é o de “causa e efeito” ou “ação e reação.” Consideramos que “colhemos o que semeamos.” é o que o conhecimento védico chama de “lei do karma.” Essa vida atual já é, efetivamente, uma colheita; e agora temos a oportunidade para semear para colher na próxima safra. A morte marca o fim do ciclo em um corpo específico. As impressões e as tendências de toda a vida ficam registradas na consciência. Essas impressões na consciência irão determinar a próxima situação de vida, afim de que a alma tenha oportunidade de retificar-se dos erros do passado e continuar sua trajetória rumo à perfeição. Atingindo o estado de “consciência de Deus”, a alma livra-se do enredamento material e passa a existir em seu habitat natural, face a face com Deus. Na doutrina Vaishnava, céu e inferno são situações temporárias. Boas ações e vida piedosa (mas, em consciência material,) produzem, como reação, a transferência da pessoa, após a morte, para regiões celestiais, onde irá desfrutar de seus méritos. Quando tais méritos esgotam-se, ela volta, outra vez, a esse plano de existência terrena, que é a região onde o karma é produzido. Da mesma forma, atividades pecaminosas, contrárias às leis de Deus, geram conseqüente punição. Uma vez expiada, chances para retificação são oferecidas repetidamente. é uma fato que livrar-se da condição de pecado é realmente muito difícil, pois a tendência é, normalmente, degradar-se cada vez mais. Somente personalidades santas e divinas, por onde flui a misericórdia de Deus, tem o poder de livrar a alma condicionada dessa condição. A liberação permanente e o ingresso definitivo no reino de Deus se dá quando a pessoa atinge a consciência de Deus e encerra-se o ciclo de ações e reações. Rendição a Deus é condição sine qua non. 12. Cosmogênese: Como sua Tradição explica a origem da vida e do Universo.

Aqui, também, está presente o caráter cíclico da natureza material. Esse mundo é criado, permanece por certo tempo e é aniquilado; depois de um certo período, é criado novamente, e assim por diante, em ciclos cósmicos que se repetem indefinidamente. Tudo referente a Deus é eterno, conseqüentemente, Suas energias são, igualmente, eternas. Não existe, portanto, a idéia de criação ex nihilo, isto é, “do nada”, pois a natureza material, sendo eterna, não tem princípio nem fim. Ela é, não obstante, temporária— aparece e desaparece, alternadamente. Isto significa que a criação material tem dois estados: manifestado e não manifestado (imaterial). No estado não manifestado, toda essa vasta criação material perde sua característica de “massa” e reduz-se ao estado energético ou irradiação. Em suma, a matéria vem de Deus e, a seguir, volta para Deus, para, novamente, manifestar-se, manter-se por algum tempo, para, a seguir, ser aniquilada, num ciclo sem fim. Em linguagem dos textos sagrados, esta é a eterna “respiração de Deus.” Ao “exalar”, os universos materiais manifestam-se, e ao “inspirar”, a matéria volta ao estado imaterial não manifesto, e até o próximo ciclo de manifestação, permanece “em Deus.” Outra informação obtida nos textos sagrados é que existem dois estágios na criação: criação primária e secundária. Na criação primária são produzidos os elementos materiais e na criação secundária as formas são produzidas. Por exemplo, para a criação de uma casa, precisamos de materiais— tijolo, cimento, areia, etc. Esta seria a criação primária. A partir daí, o engenheiro usa esse material para criar a forma da casa (criação secundária). Na manifestação do mundo, a criação primária acontece a partir da substância material total, que encontra-se no estado energético ou não manifesto. Essa substância vai se desdobrando, no sentido do mais sutil para o físico, sendo, assim, gradualmente manifestados a multiplicidade dos elementos e fenômenos materiais. Nesse desdobramento, o fator tempo manifesta-se, a seguir, os gunas (qualidades da matéria, a saber, impulso criativo, destrutivo e equilíbrio), as energias sutis da matéria (mente, intelecto, etc.), a capacidade da alma interagir no meio ambiente material (sentidos) e os cinco elementos físicos: éter, ar, fogo, água e terra (elementos sólidos), tudo o mais. Essa é, então, a criação primária, que ocorre sistemática e automaticamente pela vontade divina. O seguinte passo, é a criação secundária das formas deste mundo— desde os seres vivos unicelulares, reino vegetal, reino animal, seres humanos e culminando nas hierarquias celestiais. Essas são as entidades com vida. Paralelamente, existem as formas insensíveis, desde o grão de areia às galáxias. O responsável por essa fase da criação é a entidade semi-divina Brahma, que junto com Vishnu e Shiva, formam a trindade responsável pela criação, manutenção e aniquilação da manifestação cósmica. 13. Que ações de solidariedade e de construção da paz sua Tradição Religiosa tem promovido em nossa comunidade e no mundo? O “movimento Hare Krishna” está sempre presente, tanto aqui no Brasil quanto em qualquer parte do mundo, em qualquer iniciativa para promover a paz nesse mundo. Não existe nenhum fator que faça restringir o diálogo inter-religioso e a participação lado a lado com outros grupos que comungam os mesmos ideais. Um programa, no entanto, vem sendo desenvolvido pelo movimento com incrível sucesso. Trata-se do “Food for Life” (Alimentos para vida). Este programa mundial está provendo alimentação para milhões de pessoas. Tem estado presente nas grande catástrofes, como as enchentes da Bengala e Bangladesh, terremoto no Gujarat, e outros acontecimentos sinistros pelo mundo. Outra grande atuação do “Food

for Life” tem sido em diversos conflitos ocorridos recentemente. Durante a guerra na Iugoslávia, em Sarajevo, Kosovo, etc., assim como em várias repúblicas que antes eram partes da União Soviética, como Chechenia, Geórgia, etc., os devotos locais arriscaram suas vidas, em plena área dos bombardeios, para levar alimentos para uma população totalmente desamparada e dependente, exclusivamente, desse alimento. Foi registrado que as milícias de ambos os lados respeitavam sobremaneira esse serviço humanitário e poupavam as instalações dos devotos de bombardeios ocasionais. Srila Prabhupada, o querido fundador do movimento, expressou um desejo que, hoje em dia, os devotos tentam por em prática. Ele disse que num diâmetro de pelo menos dez milhas em volta de um templo de Krishna não deveria ter a possibilidade de fome. Srila Prabhupada também escreveu um livro que vem sendo amplamente distribuído, intitulado “A Fórmula da Paz.” Fonte: http://www.pswami.com/vaishnava/raizes.html