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o bicho dos livros

II Jornadas das Bibliotecas da Maia Livro: Da Estante ao Binário
27 de Outubro de 2011

Leitor adolescente: escolhas e paradoxos

Resumo: Pensar no leitor adolescente implica reflectir sobre a sua identidade. Propomonos assim estabelecer alguns pressupostos básicos que poderão ajudar a encontrar critérios para a escolha de livros para leitores desta faixa etária, respeitando diversos níveis de compreensão leitora e valorizando obras de qualidade.

Quem são os adolescentes? Começamos a pressentir que estamos perante um adolescente quando o seu comportamento bule com a nossa aparentemente estável harmonia interior. Risos, piadas sucessivas, segredos, actos exibicionistas, contacto físico a qualquer pretexto, expressões de linguagem ditas e repetidas à exaustão… O adolescente é uma espécie de zombie, que está algures no universo dos adultos mas que estes desejariam poder silenciar em 90% das vezes em que convivem. Não serão eles uma espécie de caricatura ingénua dos próprios adultos? Perante um quadro tão animador, falemos um pouco desta fase do crescimento, do ponto de vista do que nos interessa: a leitura. As crianças entram na adolescência, ou préadolescência, pelos 10, 11 anos. É comum que pais e educadores notem uma diferença significativa no comportamento dos mais novos, na mudança do 5º para o 6º ano, e ainda mais do 6º para o 7º. É por aqui que, de acordo com a maturidade de cada criança, começam as transformações, as angústias, as dúvidas. É aqui que também começam os preconceitos.

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o bicho dos livros O que os distingue das crianças? 1. Ninguém partilha com eles o prazer de ler As crianças gostam de ler, pelo menos de ouvir ler. É raro encontrarmos alguma que não se entusiasme com a leitura de um livro, especialmente se lido por alguém que não ela. Não têm qualquer inibição em mostrar interesse, em questionar ou pedir bis. O adolescente, pelo contrário, remete-se ao silêncio. Porquê? Em primeiro lugar, porque a situação não é a mesma. Quem lê aos adolescentes? Eventualmente o professor, mas não tem sido prática corrente. O entusiasmo e a dedicação das crianças à leitura têm muito que ver com um sentido lúdico, de prazer pleno. Se as convidarmos a ouvir ler, acedem imediatamente. Porém, muitas delas não serão tão solícitas a ler em silêncio, na sala de aula ou em casa. A leitura implica esforço, concentração e um certo alheamento do que nos rodeia. A experiência da criança centra-se numa partilha: na escola, todo o grupo ouve uma história, pode folhear os livros, trocar opiniões e discutir o enredo entre si e com a professora. Também em casa, enquanto os pais lhe lêem ou deixam que leia para eles, reina a partilha espontânea. Isso não acontece com o adolescente. Porque a escola assim não o entendeu durante muitos anos, a leitura tornou-se apenas esforço, e o prazer da infância esvaiu-se a partir do 2º ciclo. Esta prática, levada a cabo durante anos, associada à obrigação escolar de ler e à ausência de promoção da leitura em casa, levou o adolescente a renegar a leitura. Por isso, hoje em dia, ainda persiste o preconceito de que ler não é cool e de que quem lê é ‘nerd’, ou ‘rato de biblioteca’. É, no entanto, interessante verificar que os últimos anos de aposta intensiva na leitura recreativa e na alteração de paradigmas por parte de muitos professores e pais, está a surtir efeito. Já são mais os alunos que levantam o braço naturalmente, quando pergunto nas turmas com quem realizo ateliers: «Há alguém que goste de ler?» No espaço de seis anos as diferenças começam a fazer-se sentir, e o terreno diz-nos isso de forma mais incisiva e constante. 2. Questionam as relações verticais (com a família e com os professores) O adolescente tem preconceitos mais vincados que a criança. Porquê? Porque está a crescer, está a desenvolver as suas competências para ler o mundo, relacionando cada vez mais aspectos que vão contribuir para a maturação da sua
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o bicho dos livros personalidade. Este processo é sinuoso, todos nos lembramos dele. Inseguro, o adolescente vai palmilhando, afirmando-se e contradizendo-se, criticando e sendo criticado, tentando sempre integrar-se e ser aceite. A sociabilização está no seu auge e é a grande prioridade. Por isso, a receptividade do adolescente não é a mesma da criança, que confia cegamente no seu mediador. O adolescente ganha autonomia: desloca-se num espaço físico mais amplo, acede a produtos e serviços, aprende com os pares a integrar-se e desfruta de novas experiências. No que à leitura diz respeito, isto significa ir livremente à biblioteca, seja ela escolar ou municipal, ou a uma livraria do bairro ou do centro comercial. A criança precisa do adulto para aceder ao livro, o adolescente não. Depois, acalenta a ideia errada de que já sabe ler, porque consegue decifrar mecanicamente um enunciado, mesmo que não compreenda a totalidade do seu sentido. A criança, pelo contrário, gosta de colocar dúvidas e de as ver resolvidas, pelo que nada melhor do que ter um adulto por perto, a quem recorrer. Os adolescentes esforçam-se por quebrar as relações verticais de dependência. Se não lhes for demonstrado que há outras formas de mediação que não a da mera descodificação literal, eles afastam os adultos da sua relação com a leitura, seja ela qual for. O que os aproxima dos adultos? 1. A autonomia O adolescente move-se em liberdade pelos espaços de leitura e tem os seus próprios critérios de selecção, pelo que não depende do adulto para escolher um livro. Mas, tal como o adulto, pode gostar de estar acompanhado na leitura, para poder trocar impressões, dúvidas e juízos críticos. Não se pode, por isso, promover a leitura com adolescentes da mesma forma que se promove com crianças. Ao contrário, a primeira questão que nos devemos colocar é: como promovemos a leitura com o público adulto? 2. O Comportamento Leitor Onde, quando, como e porque lemos são perguntas a que cada leitor adulto responde de maneira diferente. Se estivermos num grupo de dez pessoas, haverá quem leia na cama, nos transportes, no sofá, na casa de banho, todos os dias, só à noite, aos fins de semana, nas
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o bicho dos livros férias, quando sai do trabalho; haverá quem nunca tenha abandonado um livro, quem já tenha saltado páginas, quem sublinhe, mas a lápis, quem anote, quem assine os livros, quem dobre os cantos, quem não os leve para fora de casa… E no fim da conversa estamos nós, as dez pessoas, a dizer: «Ah, que giro, fazes isso? Eu não consigo!» ou «Eu também!» E ninguém se lembra de questionar ou impedir os outros de agirem como mais lhes apraz. Pois também o adolescente lê autonomamente da forma que mais lhe agrada. Mas, muitas vezes, lá vai o pai, a mãe ou até o professor dizer: «Endireita-te!», «Não leias agora, tens de dormir!», «Já viste como está o livro? Todo dobrado…», etc, etc, etc…Deixemos o adolescente encontrar o seu prazer, testar várias hipóteses, desistir e persistir sem ruído de fundo que em nada contribui para a construção de uma saudável relação de mediação. Para alguém gostar de ler, tem de gostar do livro, do jornal, da revista, do e-book, ou do áudiolivro. A apropriação do objecto é o primeiro passo e o papel do mediador é observar e partilhar as suas opções, como o faria com outro adulto, com o mesmo respeito. 3. As Modas Os Bestsellers são universais e transversais. De Paulo Coelho a Dan Brown, de Nicholas Sparks a José Rodrigues dos Santos, de Sveva Casati Modignani a Nora Roberts, todos já foram consumidos, partilhados e discutidos avidamente. As modas na leitura são iguais às outras modas: intensas e fugazes. Nisso, os adolescentes também se comportam como os adultos, seguindo-se em tendências e modas: já as houve fantásticas, diarísticas, dramáticas e frívolas. O fenómeno é conhecido e reconhecido: surge uma obra que faz sucesso, surgem dez sucedâneos, até os leitores começarem a desinteressar-se e as vendas decrescerem. Aí, os editores viram a agulha e procuram um novo alvo: do vampiro ao zombie, do banana à totó. Não vale a pena criticar os mais novos, o marketing funciona com todos os públicos. A Idiossincrasia do Literal Se o adolescente é autónomo no acesso, o que o torna idiossicrático são as suas limitações ao nível do conhecimento linguístico e do mundo, que inevitavelmente condicionarão a sua compreensão leitora. Isto significa que muitos adolescentes podem não compreender o sarcasmo de uma personagem como Adrian Mole, que para a minha geração era contemporâneo, e do alcance crítico dos livros, em que por exemplo, a ecologia era um tema vanguardista. O comprometimento político do protagonista não soa familiar à grande
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o bicho dos livros maioria dos adolescentes, e por isso é natural que O Diário de Adrian Mole não reúna hoje tanto sucesso como O Diário de um Banana, que é absolutamente contemporâneo dos mais novos. Para além disso, há outras diferenças literárias nos livros que os afastam. Mas há mais casos de rejeição ou de desinteresse. Um deles é muito sentido pelos professores e tem a ver com a obra mais distante de Alice Vieira. Autora unanimemente consagrada, uma das mais relevantes vozes da literatura juvenil portuguesa, Alice Vieira fez as delícias da minha geração (mais uma vez) com a trilogia de Mariana. Acontece, porém, que a televisão já não é a preto e branco, tem comando e muitos canais, as avós trabalham ou já trabalharam, há telemóveis e tudo funciona de forma mais imediata. Aquela adolescente com quem sempre me identifiquei deixou de ser um modelo para ser alguém que está num tempo que ainda não é bem passado histórico mas já não é presente, uma espécie de limbo, para quem lê. Ao adolescente ainda lhe falta, e muito, o sentido simbólico da vida, a capacidade de interpretar o vazio das mensagens, de reconhecer figuras como a ironia ou a metáfora. Também lhe falta, obviamente, muito conhecimento prático e científico, mas esse não é o primeiro obstáculo à leitura, esse será um desafio. A interpretação literal da vida condiciona mais os adolescentes do que os adultos na sua apreensão do escrito, talvez seja esta a principal diferença entre ambos. Preconceitos frequentes do adolescente: 1. Quem lê é nerd ou rato de biblioteca. De todos os preconceitos, este será o que está mais perto de morrer. Há cada vez mais adolescentes a assumirem que lêem, mesmo que essa leitura seja muito infatilizada. De há seis anos para cá, à minha pergunta da praxe, no início dos ateliers: «Há alguém que goste de ler?» o tom geral mudou de não para mais ou menos. Para além disso, há cada vez mais alunos a levantar o braço, afirmando que gostam de ler, sem olharem para a reacção dos colegas. A leitura já não é um inimigo mortal, é, para muitos, uma obrigação, para vários algo que gostam de fazer pontualmente, e para alguns, um hábito. Esta alteração deve-se claramente ao investimento que tem vindo a ser feito na leitura recreativa desde o ensino pré-escolar, à sensibilização de educadores e pais para a importância da leitura, e ao acesso a livros mais diversificados. Fórmulas como O Diário de Um Banana, Ulysses Moore ou Cherub, a título de exemplo, contribuem para essa leitura de prazer, mais acessível, mais próxima de realidades que
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o bicho dos livros conhecem, seja da vida real, seja dos formatos das séries de tv, e que lhes permitem compreender o enredo. 2. Álbuns e livros ilustrados são apenas para crianças Há ainda um outro factor que se começa a verificar e que está a contribuir não só para acabar com este preconceito, como para alterar alguns paradigmas da evolução do leitor. Há relativamente pouco tempo, coisa de 4 anos no máximo, começaram a aparecer em Portugal traduções de livros ilustrados. Estes livros não se assemelham aos livros ilustrados em formato de álbum, com capa dura e ilustrações a cores. São livros pequenos, com um papel de menor qualidade e ilustrações a preto e branco, próximas do cartoon, que ajudam a preencher as páginas de forma aparentemente anárquica. Dois exemplos: João Pastel e André Cabelo-em-Pé. Estes livros ajudam o leitor pouco treinado a respirar enquanto lê. Para além disso, vieram contribuir para que uma faixa etária entre os 8 e os 11 anos não abandonasse a leitura, quando já não quer ler álbuns ou pequenos livros ilustrados, por não se identificar, mas não tem fôlego para ler As Crónicas de Nárnia ou Harry Potter. Mesmo os livros da colecção Uma Aventura nem sempre são imediatamente acessíveis a quem nunca leu um livro de 100 páginas sem imagens. Finalmente, os livros são muito divertidos e misturam todos os ingredientes que os adolescentes encontrarão mais à frente: mistério, aventura, elementos sobrenaturais e episódios inacreditáveis. De tal forma que estes livros, cujo precursor em termos de faixa etária será Gerónimo Stilton, são amados até aos 12 ou 13 anos de idade, o que rompe com a catalogação das faixas etárias e surpreende os adultos que esperam leituras mais exigentes. 3. Banda Desenhada, Revistas e Jornais não são Leitura Este preconceito está muito associado à escolarização da leitura e tem de ser erradicado. Em alguns casos prende-se com a confusão entre ensinar a ler texto literário e promover a leitura, noutros com o desconhecimento, por parte do mediador, de alguns nichos editoriais que o fazem recusar a sua leitura. A Visão Júnior é um exemplo de sucesso, mas há também revistas muito específicas que são devoradas por adolescentes que as procuram e sabem onde e quando existem, seja sobre certos desportos, música ou tecnologia. A Manga também reúne um vastíssimo grupo de fãs, tal como os Super Heróis, os clássicos francobelgas ou mesmo Maurício de Sousa, com a sua Turma da Mónica. Não há razão para excluir essas leituras, que poderão ser experiências de sucesso. Para além disso, estamos a ser
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o bicho dos livros hipócritas com o adolescente, já que há muitos adultos que lêem mais periódicos do que livros, e isso não faz deles necessariamente maus leitores. 4. Não há livros que interessem Há sempre um texto para uma panela, há sempre um livro para um leitor. Seja ficção ou não ficção, poesia, teatro, legislação ou as instruções de funcionamento de um aparelho. É preciso dar a ler, partilhar leituras, falar livremente sobre o que se gosta e o que não se gosta, estimular o adolescente a pensar naquilo que lhe interessa verdadeiramente. Gosta de futebol? Lê os jornais desportivos? E as biografias dos jogadores? E livros sobre tácticas? Há de tudo um pouco. Música? E as letras da banda X ou Y, e a biografia do cantor tal? A Assírio e Alvim, depois as Quasi editaram alguns volumes nesta área: a biografia de Jim Morisson ou Kurt Cobain, as letras de Adriana Calcanhoto ou de Jorge Palma. A culinária também está na moda: Jamie Oliver, Masterchef, e tantos outros. A propósito introduz-se Como água para chocolate, de Laura Esquível ou A Ferver, da Sextante, sobre a aprendizagem de um chef. Tudo depende das idades, tudo depende do entusiasmo. Mas há livros de que podemos falar apenas para que saibam que existem, não para os levar a ler. Boas práticas: Os preconceitos desmistificam-se com tempo e muita comunicação, muita partilha e muito respeito. Tratar o adolescente como igual, responsabilizá-lo e confiar nele para lhe mostrar as nossas preferências é o primeiro passo para que confie nos nossos juízos e se aconselhe connosco. Os contractos de leitura são polémicos, tanto quanto as listas e as fichas. Não discutindo aqui quais as melhores estratégias, elas passarão sempre pelo diálogo em grupo e pela participação do professor. Se se estabelecerem momentos de partilha de leituras, boas e más, o professor também acede a novos livros que não conhece e que poderá sugerir a outros grupos. Esta é a verdadeira rede leitora. Deve igualmente criar a sua base de títulos a recomendar, alguns que leu, outros que folheou, outros de que apenas ouviu falar. O importante é saber o tema para que na altura certa o possa mencionar. Visitar livrarias e as bibliotecas é essencial para estar a par das tendências, das modas, do que os adolescentes mais lêem.
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o bicho dos livros Ler revistas sobre livros, visitar alguns blogues e assinar a newsletter das editoras com catálogo infanto-juvenil são algumas propostas para se estar devidamente informado. E, acima de tudo, afastar os seus próprios preconceitos. Experimentar dar a conhecer livros ditos para adultos pode funcionar tão bem quanto um bestseller. Ler excertos em voz alta no final de uma aula, partilhar uma leitura pessoal, levar os alunos a visitar a biblioteca para escolherem títulos apelativos (sem os obrigar a trazer os livros), fazer sessões em aula de leitura e discussão de um excerto, um conto, uma reportagem ou um poema. E mostrar livros, mostrar sempre. O mais possível. Promover a leitura com adolescentes é como promover a leitura com adultos: sem paternalismos nem condescendências, dar a conhecer, dar a ler, facilitar o acesso e estar disponível para ouvir opiniões e juízos. Que livros propor? Não ficção: Os adolescentes são muito irregulares nas suas escolhas porque andam em busca da sua identidade, e tanto lêem livros muito infantis como partilham com os pais os livros da moda, ou outros que pairem pelas estantes de casa. Certamente, depois do Livro de Recordes do Guiness, que os adolescentes adoram, o livro de não ficção mais amado será O Diário de Ann Frank, que continua hoje a fazer o mesmo sucesso de há vinte ou trinta anos. Há editoras a fazer um grande trabalho na não ficção, e a Tinta-da-China é a principal. Já aconselhei e usei em ateliers e comunidades de leitores vários livros da editora, e alguns granjeiam muito sucesso, como é o caso do Dicionário do Diabo, de Ambrose Bierce, até junto de adolescentes de 12 anos. Mas também a Inciclopédia e Deciclopédia, a colecção de Viagens, as Crónicas da Boca do Inferno, de Ricardo Araújo Pereira ou Uma Pequena História do Mundo, de Gombrich. Literatura Portuguesa Os livros literários obedecem a regras teóricas e retóricas próprias, como acontece com a literatura dita para adultos. Isto significa que muito do que se edita não é literatura, independentemente de poder ser uma leitura extraordinariamente prazeirosa. Os livros

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o bicho dos livros literários têm, inevitavelmente, uma riqueza discursiva, semântica e simbólica que as fórmulas não têm, na sua linearidade estrutural. No entanto, há que fazer uma ressalva relativamente aos livros de não ficção: livros informativos, científicos, técnicos poderão ter a mesma qualidade retórica e discursiva dentro das regras do texto não literário. Os livros literários são em geral mais difíceis de ler, dada a sua exegese imprevisível. Por isso, nem sempre são bem recebidos por leitores incipientes, com pouco conhecimento do mundo ou pouco sentido retórico. Há muitos adolescentes, e adultos, que não reconhecem ironias ou hipérboles simples. Quando assim é, não conseguem descodificar grande parte da retórica do literário, fundamental para a compreensão do sentido global do texto. Há alguns bons exemplos de autores de literatura juvenil em Portugal: Alice Vieira, António Mota, Álvaro Magalhães, Ana Saldanha, Jorge Araújo, Afonso Cruz. O que acontece com estes autores é que por vezes parecem desadequados às idades a que, em princípio, se destinam. Outras, parecem desfazados no tempo histórico. Nada disso é real. Tais juízos derivam das dificuldades dos leitores, que não têm o conhecimento prévio que lhes permitiria ler. Isto pode acontecer aos 12 ou aos 15 anos. Há também outro fenómeno muito importante: a catalogação por idades é falaciosa. Dois exemplos: Alunos do 7º ano cuja leitura preferida é o Gerónimo Stilton (destinado a crianças entre os 7 e os 10 anos); uma adolescente de 14 anos que frequentou uma comunidade de jovens leitores que orientei em V. N. Gaia e que leu, quase em simultâneo, O Menino Nicolau e a biografia do Luís Pacheco (que era do pai), tendo gostado de ambos. Os Livros que Devoraram o Meu Pai é um livro muito difícil de catalogar, porque tem um enredo muito hermético e cheio de referências. Não considero que seja necessário conhecer os livros cujas intrigas são exploradas no livro, porque todos os dados constam da narrativa. No entanto, creio que algum conhecimento do universo literário, alguma experiência de leitura fará diferença na forma como se lê e o adolescente muitas vezes não tem essa experiência. Há um grau de estranhamento na narrativa de Afonso Cruz que pode impedir a leitura por parte de muitos jovens. Já Beija-Mim sofre de outro mal que lhe é completamente exterior. O seu protagonista tem dez anos, mas o livro não se destina a crianças dessa idade e sim a adolescentes mais velhos, que consigam compreender o contexto social e emocional de Benjamim. Acontece que o adolescente não lê, por norma, livros em que os ‘heróis’ são mais novos, presumindo

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o bicho dos livros que o livro é infantil. Nesta fase, apenas lhes interessa o que se passa com eles e com os mais velhos, para poderem aprender e imitar. Não quero com isto dizer que não haverá leitores para estes dois livros, claro que há. Mas a sua qualidade literária choca com preconceitos e experiências de leitura do seu público preferencial. São livros para bons leitores, ou para serem lidos com mediação, num grupo de leitura, por exemplo. Literatura estrangeira: Do mesmo mal sofre por exemplo A Verdadeira História de Tom TrueHeart, de Ian Beck, que assenta num reconto de vários contos tradicionais, ao serviço de uma aventura fantástica. Eventualmente seria um livro interessante para crianças entre os 10 e os 12 anos, mas estas não terão, na sua maioria, capacidade para o ler autonomamente. O Regresso de Paddington, de Michael Bond sofre um bocadinho menos desse mal porque a linguagem é mais simples e os capítulos curtos e independentes permitem uma leitura mais esparsa. É uma espécie de Menino Nicolau na sua versão britânica, cheia de caché. Recentemente, saiu uma obra que deslumbrou quem a leu: A Evolução de Calpurnia Tate será um dos melhores livros de literatura juvenil que se editaram nos últimos anos em Portugal. É um livro que precisa de fôlego e de curiosidade pelo mundo. Vem na linha de História de um Rapaz Mau, de As Aventuras de Tom Sawyer e de Ana dos Cabelos Ruivos, em termos de contexto histórico e social, mas é narrada de acordo com os códigos de hoje. Provavelmente, um livro para adolescentes a partir dos 14, mas contando que terá mais condições para ter sucesso junto de um público com 15, 16 anos. É, à imagem da boa literatura, um livro para todas as idades. Fórmulas: As fórmulas são idênticas às dos adultos, e como em tudo, há-as melhores e piores. Convém que o adulto não se deixe contaminar nem positivamente nem negativamente pelo impacto de um ou outro livro nos adolescentes. O sucesso da colecção Diário de Um Banana poderia suscitar, por parte de pais e educadores, alguma resistência. Todavia, o livro não o merece. Tem sentido de humor e coloca algumas questões morais que são interessantes, sem as marcar ou explorar à exaustão. Os adolescentes revêem-se, mas não é preciso muito para que o adulto sorria ao ler o livro.

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o bicho dos livros A saga Ulysses Moore também é um bom exemplo de uma colecção que não trata os adolescentes com débeis mentais. Está a meio caminho entre o Harry Potter e os Perdidos, no sentido em que a intriga vai ganhando contornos cada vez mais complexos e o mundo paralelo começa a interferir com a realidade dos três amigos, quando até ao livro seis as viagens resultavam na tentativa de resolver problemas da vila. Os livros respeitam a fórmula dos adolescentes heróis, inteligentes e que se complementam, vs uma Cruella maléfica e vamp. A descoberta progressiva do segredo de Covent Grove fá-los granjear o respeito e a admiração do grupo de adultos detentores do segredo, que lhes vai dando um progressivo acesso a essa vida escondida e quase esquecida. Cherub obedece a regras de marketing mais agressivas, com uma relação virtual entre leitores e autor e produtos de merchandising. Contudo, a ideia do grupo de espiões com menos de 18 anos, é tão boa quanto os mistérios de Os Cinco. Actual, algo violento, agressivo nos diálogos e politicamente incorrecto, levanta algumas questões éticas e tenta afastar preconceitos sociais. Para um público um tanto ou nada mais maduro que o de Ulysses Moore, estes livros não são paternalistas nem condescendentes, apenas muito pouco realistas. Este ano apareceu um novo fenómeno, 365, que foi apresentado como uma saga com a lógica temporal da série de tv 24. A história passa-se durante um ano, e a cada novo mês, sai um novo título. O leitor tem assim de esperar pelo mês seguinte para continuar a ler e o editor assegura a venda de doze títulos. O herói é um jovem desesperado, expropriado da sua vida e da sua família, perseguido sem saber porquê, que vai em busca dessa razão. As peripécias sucedem-se, algumas delas a razar o impossível, como acontece com Jack Bauer, em 24. Transversalidade: A leitura cruzada, o crossover (livros escritos para adolescentes e apropriados por adultos) e livros transversais: há de tudo um pouco na biblioteca imaginária do adolescente. Harry Potter, Philip Pulman, Tolkien, O Crepúsculo, Maria Tereza Maia Gonzalez, os Senhores de Gonçalo M. Tavares, os livros das desgraçadinhas, O Rapaz do Pijama às Riscas, a colecção Estrela do Mar (Jostein Gaarder, David Almond), As Aventuras de Tom Sawyer, O Deus das Moscas, Viagem ao Mundo da Droga… Tudo se mistura e tudo se pode oferecer, tendo cuidado para não se dar passos maiores do que a perna.

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Conclusão Propor leituras a adolescentes é como propor leituras a adultos, com a responsabilidade de estarmos conscientes das suas limitações etárias, de maturidade psicológica e linguística. Dar a ler é um acto altruísta, sem pretensões formativas. Se as tivermos, não conseguiremos ver claramente o jovem que temos à frente, embaciada que fica a lente pelo nosso próprio ego. Quando sugerimos livros a um adolescente não devemos pensar no regozijo que vamos sentir se ele gostar e sim estar abertos às suas próprias críticas. Muitas vezes, esta função mediadora é mais difícil para o mediador do que para o seu público, e é por isso que não funciona. Todos temos preconceitos e preferências. Em vez de os tentarmos esconder, devemos revelá-los, para que todos tenham conhecimento das nossas limitações e assim possam confiar em nós. Esse é o principal desafio.

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