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Uma apropriação de Tela Total

A busca da realidade perdida em um roteiro de viagem pelo virtual

Adriana Amaral e Paula Jung Rocha ∗

Índice Palavras-chaves: Baudrillard, virtual, novas


tecnologias.
1 Saravejo – Bósnia 2
2 Guerra do Golfo 3 Sejam bem-vindos a uma incrível viagem pelo
3 França 4 mundo do virtual, mas lembrem-se, para “fazer-
4 Deserto, o universo do ciberespaço 5 crer”1 que esta possibilidade verdadeiramente
5 Referências Bibliográficas 8 acontece é preciso se dar conta de que o momento
atual não passa de uma simulação, pois a reali-
dade desapareceu. Há somente algo a cobrir esse
Resumo: O trabalho propõe uma reflexão desaparecimento, fruto da essencial atividade dos
e um resgate hipertextual a respeito de alguns signos.
dos principais conceitos que fundamentam a Pode-se até dizer que se passa, hoje, por um
obra de Jean Baudrillard em relação às novas simulacro da existência, já que a dimensão do
tecnologias. Partindo da coletânea de ensaios virtual elimina todas as possibilidades lógicas de
Tela Total, estabelecemos um roteiro de viagem apreensão de um espaço real. Imagine-se como
relacionando as passagens nas quais o pensador uma mosca dentro de um vidro fechado, que, ao
francês — fascinado pela temática dos viajantes, tentar sair, defronta-se constantemente com o vi-
vide os relatos encontrados nas obras Cool dro, e mesmo assim, segue na tentativa de es-
Memories e América — discorre sobre temas capar dessa barreira, incompreensível para sua
como: morte do real, informação no estado percepção, porém evidente. Isso é o virtual, im-
meteorológico, perda de referências, falta de in- possível de entendê-lo como um todo, mas um
teratividade com a máquina, importância do erro fato presente no cenário das relações contempo-
como condição diferencial da humanidade em râneas.
oposição à perfeição da máquina, internet como Tela Total é o guia real conduzido pelo instru-
simulação de espaço de liberdade e descoberta, 1
O autor esclarece que: “A comunicação não é
computador como prótese, falta de significa- o falar, é fazer-falar. A informação não é o saber,
ção na TV, zapping involuntário do telespectador. é o fazer-saber. O verbo “fazer” indica que se trata
de uma operação, não de uma ação. Na publicidade,
∗ na propaganda, trata-se não de crer mas de fazer-crer.
Doutorandas em Comunicação Social pelo Pro-
A participação não é uma forma social ativa nem es-
grama de Pós-graduação em Comunicação Social da
pontânea; é sempre induzida por uma espécie de ma-
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
quinaria ou de maquinação, é um fazer-agir, como a
Sul.
animação e outras coisas semelhantes” (Baudrillard,
1997)
2 Adriana Amaral e Paula Jung Rocha

tor virtual Jean Baudrillard, o qual inicia a via- (1995). Conforme atesta a teoria de Maffesoli,
gem com uma frase que servirá de pista para se a energia vital dos momentos faz com que se es-
alcançar o destino previsto: “Eu sou um simula- tabeleçam laços de socialidade entre indivíduos
cro de mim mesmo”2 que partilham idiossincrasias. Em sua descrição
Estabelecemos um roteiro de viagem com visi- e análise das aparências nas sociedades contem-
tas por alguns pontos polêmicos da obra do pen- porâneas, o autor aponta para uma ética da es-
sador, os relacionamos com lugares, a maioria tética no domínio da vida cotidiana, em que as
deles, citados em Tela Total. Destaca-se que essa uniões se constroem pelos sentimentos, ou seja,
tour é randômica e hipertextual ao remeter-se a através de um critério subjetivo que desafia a ló-
outros livros do autor. O enunciado roteiro po- gica e o racional, demasiadamente exaltados pela
deria ter sido iniciado a partir de qualquer locali- modernidade. A partir da subjetividade e da sen-
dade, uma vez que, os caminhos complexos desse sibilidade, resgatadas dos momentos orgiásticos
novo tecido social, que se desenha a partir das e dionísiacos pela pós-modernidade, é que Maf-
novas tecnologias apresentam-se de forma nebu- fesoli (1999) conceitua as novas aglutinações de
losa, permitindo múltiplas interpretações. Siga- indivíduos como neotribais.
mos então em direção a primeira visita. Baudrillard inclina-se mais para uma herança
de pensamento na tradição crítica de Guy Debord
(2000), o qual afirma que o reinado da aparên-
1 Saravejo – Bósnia cia, definidor da contemporaneidade, apresenta-
O período contemporâneo e definido por Baudril- se como uma dimensão alienante do modus vi-
lard como uma era pós-orgiástica, no qual a so- vendi social. A essa condição de produção na
ciedade convive na simulação de um mundo real. vida societal ele chamou de sociedade do espe-
O massacre étnico, que atingiu sérvios, bósnios e táculo. “Sob todas as suas formas particulares
croatas no leste europeu é um tema recorrente em — informação ou propaganda, publicidade ou
Tela Total, e serve como um exemplo sangrento consumo direto de divertimentos — o espetáculo
da morte do real. constitui o modelo atual da vida dominante na
sociedade” (Debord, 2000).
Se fosse caracterizar o atual estado de coi- A espetacularização da cultura, da economia,
sas, eu diria que é o da pós-orgia. A orgia da arte, enfim da vida humana como um todo,
é o momento explosivo da modernidade, o da tem no circuito da mídia sua principal vitrine.
liberação em todos os domínios. Liberação Conforme sua perspectiva crítica ao espetáculo
política, liberação sexual, liberação das for- como reconstrução de material e de técnica da re-
ças produtivas, liberação das forças destruti- ligiosidade, Debord (2000) afirma que “quando o
vas, liberação da mulher, da criança, das pul- mundo real se transforma em simples imagens, as
sações inconscientes, liberação da arte. (...) simples imagens tornam-se seres reais e motiva-
Total orgia de real, de racional, de sexual, de ções eficientes de um comportamento hipnótico”.
crítica e de anticrítica, de crescimento e de A perda geral de sentido caracteriza a condi-
crise de crescimento.” (Baudrillard, 1990) ção humana na atualidade. A falta de significa-
O estado de orgia é considerado com reser- dos, de grandes narrativas e utopias — como des-
vas por Baudrillard, ao contrário de Maffesoli creveu Lyotard em fins da década de 70, na obra
A condição pós-moderna — é acelerada através
2
Frase proferida por Baudrillard na conferência da quantidade e da repetição incessante de ima-
Tela total, a cultura no estágio metereológico da in- gens. Para Baudrillard, as imagens repetidas ad
formação. Porto Alegre, PUCRS, 21 out. 1997.

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infinitum, se tornam hiper-reais e acabam conta- assinados, a solidariedade, a informação, os di-


giando seu entorno, com uma indiferença quase reitos humanos, tudo isso vos é suavemente ex-
virótica. Este sentimento de desinteresse que torquido sob forma de chantagem pessoal ou pu-
atinge o ser humano pode ser constatado em dois blicitária.”
episódios marcantes na história recente: a Guerra Percebe-se aqui a influência do tema nietzschi-
da Bósnia e a Guerra do Golfo. ano do altruísmo egoísta no pensamento de Bau-
A realidade do mundo ocidental, resultado da drillard. Para Nietzsche, deve haver uma supe-
artificialidade das relações sociais, não se per- ração da moral por parte do homem moderno e,
mite refletir profundamente sobre si mesma. E está não pode mais estar atrelada à noção de reba-
preciso apreender uma outra realidade, que esteja nho, em que os grupos sociais seguem as normas
geograficamente distante, para, então, sucumbir pré-estabelecidas por um líder ‘a quem devem ser
aos últimos resquícios de realidade que restam. fiéis. Ao envolver-se em campanhas solidárias,
Por esta razão o Ocidente empenha-se em “sal- o homem pensa conseguir preencher o vazio da
var” ou, pelo menos, tenta ser “solidário” com culpa judaico-cristã que lhe foi impingida pela
as vítimas dos conflitos no Oriente Médio e Pró- moral ao longo de sua existência.
ximo e a fim de se fortalecer com a imagem do No entanto, essa suposta ajuda é falsa e tem-
aparentemente mais fraco. porária, pois o sentimento de dívida é infinito
A impotência encontra-se diante dos princi- levando-o a um processo de repetição de tais
pais problemas ocidentais, como o tráfico de dro- atos com a finalidade de aliviar sua consciên-
gas, a banalização da sexualidade, a violência, o cia. O falso altruísmo, que só acontece, se-
fim do político, entre outros “males”, que a soci- gundo Nietzsche para fins de sobrevivência, pois
edade e o Estado não conseguem resolver e, por a falta de simpatia para com os outros impossibi-
isso, recorrem e à desgraça vizinha, ‘a qual de- lita a vivencia em sociedade, aparece no seguinte
monstra significativa piora atraves da ação inin- aforismo proferido pelo personagem Zaratustra:
terrupta provocada pela mídia e, pelo que Bau- “(...)E se pretendes ajudar não lhes dês mais do
drillard (1997), chama de humanitarismo. “É um que uma esmola, e ainda assim espera que te pe-
inferno, mas um inferno, de qualquer maneira, çam. – Não respondeu Zaratustra; - eu não dou
hiper-real, tornado mais hiper-real ainda pelo es- esmolas. Não sou bastante pobre para isso.” (Ni-
gotamento provocado pela mídia e o humanitá- etzsche, 2000)
rio, dado que este torna ainda mais incompreen-
sível a atitude do mundo inteiro com respeito ao
problema.”
2 Guerra do Golfo
As ações da intelligentsia européia e norte- Baudrillard acredita que a Guerra do Golfo não
americana, como as de Susan Sontag, são critica- se classifica como uma categoria de guerra pro-
das pelo autor, por funcionarem como um anes- priamente dita. O fato de ter ocorrido no plano
tésico que visa a espetacularização das condições virtual, não existindo procedimentos característi-
de guerra ao servir de referência aos valores oci- cos de enfrentamentos militares tornou-a uma es-
dentais, representados pelas campanhas de soli- pécie de artifício para negociações entre os norte-
dariedade. A solidariedade como imposição da americanos e Saddam Hussein. A transmissão ao
mídia e alívio imediato da consciência transpa- vivo dos combates virtuais através da televisão
rece no livro de memórias de viagens de Bau- também contribui para que o conflito não pare-
drillard, Cool Memories II (1995), no qual ele cesse real. No mundo inteiro, os telespectadores
sentencia. “Ação ou exação? O voto, os abaixo- acompanharam-no, da mesma maneira como se

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assistissem a uma novela. Baudrillard enfatiza liberdade – igualdade – fraternidade e da repú-


que a guerra simplesmente não aconteceu. blica. Baudrillard não poupa críticas à sua terra-
natal ao destilar ironia quanto à corrupção da
Essa guerra passou-se numa espécie de com- classe política e ao circo eletrônico armado pela
putador gigante, à moda americana, e no hi- mídia na cobertura das eleições. Uma espetacu-
perespaço. A guerra é um evento mais real larização que, segundo ele, contribui ainda mais
e foi absorvida pela máquina de dissuasão. para o fim do político e para a crise que assola o
Houve imensa preparação, fogos de artifício sistema democrático. “Os meios de comunicação
técnico, como em uma superprodução cine- de massa e a classe política pagarão caro — já pa-
matográfica. Ao final, ficaram todos decepci- gam a letra hipotecada, emitida sobre o nosso a
onados, coma impressão de terem sido enga- valer imaginário, perdendo todo o crédito e toda
nados. (Baudrillard apud Silva, 1993) credibilidade” (Baudrillard, 1997). Essa verti-
Quando as coisas, os signos, as ações são li- gem provocada pelo esvaziamento do político e
bertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua do social tem na mídia sua principal dissemina-
essência, de seu valor, de sua referência, de sua dora, através do bombardeamento sem limites de
origem e de sua finalidade, entram então numa signos.
auto-representação ao infinito. Os objetos conti- O alto índice de abstenção de votos no pri-
nuam a funcionar, ao passo que, a idéia deles já meiro turno das eleições presidenciais de 2002
desapareceu. Perpetuam-se numa indiferença to- indica que os franceses suspeitam da credibili-
tal ao seu próprio conteúdo. O paradoxo é que dade do homem político. Uma das nações mais
elas aparentam funcionar ainda melhores. comprometidas com as causas políticas e sociais
Assim como na Bósnia, a guerra do Golfo re- ao longo da historia, também se encontra inter-
flete a posição do mundo ocidental em relação as pelada pela compulsiva realidade.
ameaças ao seu sistema interno. Cabe às nações Esta idéia, desenvolvida à exaustão em Tela
chamadas de “civilizadas” espalhar pelo mundo Total já estava germinada em uma das primeiras
sua cultura da indiferença aos valores. De acordo obras do autor: À sombra das maiorias silencio-
com os preceitos estabelecidos, os povos não de- sas.
veriam acreditar e lutar por suas causas culturais
Enfraquecimento do político de uma pura or-
porque essa posição não contribui para a manu-
denação estratégica a um sistema de repre-
tenção da ordem universal ocidental na imposi-
sentação, depois ao cenário atual de neofi-
ção dos seus valores vazios.
guração, isto é, em que o sistema se perpe-
E por falar em Ocidente e em paradigmas, a
tua sob os mesmos signos multiplicados mas
próxima parada acontece num vagão do TGV
que não representam mais nada e não têm seu
(Trem de Grande Velocidade)3 rumo a uma pe-
“equivalente” numa “realidade” ou numa
quena estada reflexiva na França.
substância social real: não há mais investi-
dura política porque também não há mais re-
3 França ferente social de definição clássica. (Baudril-
lard, 1994)
Desembarcamos na França, pátria mãe do Ilu-
minismo, da democracia, da santíssima trindade A partir da noção de repetição de signos cons-
3
“Pois com o TGV é a realidade virtual que passa, tante feita pelos meios de comunicação é que
a realidade virtual que atravessa a França in vitro” se chega ao estado meteorológico da informa-
(Baudrillard, 1997) ção. Trata-se de um período de incertezas, na

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qual a verdade, a verossimilhança e a credibili- Baudrillard classifica esse estado como deserto,
dade fundem-se ilimitadamente de forma virtual, na concepção metafórica da palavra.
contribuindo, desta maneira, para que “a meteo-
rologia tornou-se um roteiro de referência.” Anulação da paisagem, desertificação do ter-
Sendo assim, as informações de qualquer tipo, ritório, abolição das distinções reais. O que
principalmente as jornalísticas, por meio das no- até agora se limita ao físico e ao geográfico,
vidades tecnológicas como a internet e os progra- no caso de nossas auto-estradas, tomará toda
mas de edição dos computadores, ficam sujeitas a sua dimensão no campo eletrônico com a
a chuvas e trovoadas. Com a possibilidade de abolição das distâncias mentais e a compres-
alterá-las a qualquer instante, tornam-se tão im- são absoluta do tempo. (Baudrillard, 1997)
previsíveis quanto a natureza, perdendo seu cará-
ter de realidade ao repousar apenas em uma cre- Vamos então apertar o botão de nossa viagem
dibilidade instantânea, como por exemplo, a in- conceitual e trocar de canal, ajustando a sintonia
dicação de sol ou neve para o próximo final de da antena para o ciberespaço.
semana.
4 Deserto, o universo do
Assim a informação meteorológica talvez
possa ir de encontro ao que vemos pela ja- ciberespaço
nela, mas é verdadeira em simulação, posto O total vazio do conceito de real faz com que se
que deriva dos diversos dados de um cená- perca controle sobre o que a transformação do
rio modelo, onde entram, de resto, muitas ou- virtual pode causar. Diz-se que o virtual é res-
tras considerações estranhas à meteorologia. ponsável por todas as representações que se tem
(Baudrillard, 1997) do mundo. A única chance que resta, a fim de
que as coisas continuem a existir, é a simulação
A fetichização da imagem por parte da maio-
do seu desaparecimento, isto é, a ilusão da sua
ria silenciosa e indiferente encontra-se apenas na
existência.
veloz sucessão de frames que perpassa o controle
Em função da aceleração descontínua do
remoto em um zapping contínuo do mundo. Bau-
tempo, pensar na realidade é impossível, pois
drillard (1997) chama atenção para essa edição
o virtual a elimina, assim como acaba também
non-stop do real, afirmando que “vemos, de fato,
com a imaginação do real, do político e do
a proliferação das redes, dos cabos, dos progra-
social, no passado e no futuro. Denominado
mas, com o desaparecimento e a liquidificação
como tempo real, essa referência de passagem de
dos conteúdos. O zapping quase involuntário do
tempo caracteriza-se pela falta de realidade ob-
telespectador fazendo eco ao zapping da TV so-
jetiva, na qual os fatos não conseguem ter um
bre si mesma.”
tempo próprio para realizar-se, ocorrendo assim,
Ao término da viagem por lugares, onde ainda
operações simultâneas que não dão conta de ex-
é possível se ter alguma dimensão real, num
pressar algum sentido.
concentrado de informações e paisagens virtuais,
Nada mais desaparece pelo fim ou pela morte,
chega-se, enfim, ao chamado ciberespaço. Aqui,
mas por proliferação, contaminação, saturação e
ou seria lá, não se tem nenhuma certeza do que é
transparência, por epidemia de simulação, condi-
real ou virtual. As duas esferas estão completa-
ção de um modo fractal de dispersão. Para Bau-
mente integradas, uma à outra, o que torna a se-
drillard, essa condição leva à derrota do pensa-
paração algo ininteligível, pois não se sabe nem
mento histórico e crítico, ao passo, que o tempo
o começo nem o fim do espaço real ou virtual.

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real toma conta de qualquer forma de articulação sistema maquínico. Esquece-se que o erro, a
coerente das condições reais. sensibilidade e a intuição, sentimentos exclusi-
Todavia, pela mesma razão que faz do vir- vos dos homens, o definem enquanto ser humano
tual, um estado exagerado da falta de sentido, ele e, alem disso, são responsáveis pelas conquistas
não pode ser considerado como uma ameaça real. e derrotas da historia da humanidade. A vitória
Porque o sistema está condicionado a destruir o de Kasparov é resultado da possibilidade de utili-
que encontrar pela frente, a sua própria força o zação da linguagem não matemática, daquilo que
impulsiona na eliminação a possibilidade de ca- não é sentido pela máquina, limitada a encontrar
tástrofe final. soluções lógicas, as quais na maioria das vezes
não são suficientes, nem para ganhar um jogo de
Significa dizer que é inútil procurar uma po- xadrez, nem para criar soluções em ocasiões es-
lítica do virtual, uma ética do virtual, etc., peciais, não programadas.
dado que a própria política torna-se virtual, De acordo com Baudrillard, nesse interminá-
a ética mesma tornou-se virtual, no sentido vel campeonato homem-máquina, a internet ape-
de que ambas perdem o princípio de ação e nas simula um espaço de liberdade e de desco-
a força de realidade. Mesmo no que se re- berta. Para toda busca, o que se considera uma
fere á técnica: fala-se das “tecnologias do navegação sem fronteiras e ilimitada, há um ro-
virtual”, mas a verdade é que em breve só teiro pré-estabelecido. Ao acessar, por exemplo,
existirão técnicas virtuais. Ora, não há mais o site Alta Vista, ou Google, sites de busca de
pensamento do artifício num mundo em que o dados, tem-se a sensação de possuir o mundo no
próprio pensamento, a inteligência, torna-se monitor, porem, ao clicar tópicos escolhidos, já
artificial. Nesse sentido, podemos dizer que o existe um caminho, uma rota a ser seguida, previ-
virtual nos pensa, e não o inverso. (Baudril- amente produzida. A sensação de liberdade pode
lard, 1997) tornar-se, mais uma vez, uma falácia das novas
tecnologias.
Para Baudrillard, a relação do homem com a Em oposição a esse pensamento, encontra-se
máquina é simbólica. Pode-se afirmar que a ocor- Lévy (1999). O autor acredita na possibilidade
rência da pseudo interação é nula, e, principal- de interconexão entre indivíduos a partir da ade-
mente, caracteriza um confronto entre cria e cri- são ao ciberespaço. A rede se constituiria um
ador. Um dos exemplos para essa situação é co- novo meio, capaz de proporcionar a um numero
nhecido como o desafio entre o computador Deep elevado de usuários, uma comunicação democrá-
Blue e o mestre do jogo de xadrez, Kasparov. Ao tica e universal ao possibilitar que o mundo se
depender da técnica, institui-se o caráter de riva- interligue, simultaneamente, em função de seus
lidade homem versus maquina e a dominação da interesses e causas. Com o advento da comuni-
técnica sobre o ser humano. O pensador condena cação impressa, o homem interrompe seu papel
o comportamento simplista do homem frente a imediato de receptor e, passa então, a ser inter-
um instrumento desenvolvido por ele para lhe po- pelado, de maneiras diversas, pelas mensagens.
tencializar capacidades e estruturas. Para Lévy, o resgate da instantaneidade, presente
Justamente o software do ser racional, distin- na internet, implica a construção de uma inteli-
tamente daquele programado e restrito do com- gência coletiva que remete ao ideal proposto, em
putador é que o torna vencedor. Entretanto, o 1960, por McLuhan, de “aldeia global”.
homem insiste na busca pelo aperfeiçoamento da A interatividade virtual, que aparentemente si-
linguagem e da memória, com a intenção de al- mula uma relação entre o que antes era separado,
cançar a equivalência da perfeição, presente no

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diferente e oposto apresenta-se como uma ame- quina. O fenômeno a que se esta submetido, seja
aça porque incide na colisão e na confusão de pó- a tela do computador ou com a televisão, implica
los expostos, ocorrendo uma impossibilidade de na transformação do objeto de referência. O texto
estabelecimento de juízos de valor. A repercus- na tela do computador deixa de sê-lo como uma
são de um fato em tempo real, pela internet ou forma de escrita anterior para tornar-se uma ima-
pela televisão, cria uma condição de virtualidade gem. No entanto, sabe-se que o espectador é ator
para o acontecimento, resultando na subtração do somente quando há separação entre palco e pla-
seu sentido histórico. téia. A transformação corpórea e de identifica-
Baudrillard afirma que a interatividade vir- ção dos seres humanos que mergulham nesse mar
tual, aparentemente simula uma relação entre o profundo e revolto chamado ciberespaço torna-se
que antes era separado, diferente e oposto e, então, quase que inevitável.
apresenta-se como uma ameaça por incidir na co- Baudrillard afirma que a própria imagem do
lisão e na confusão de pólos expostos, ocorrendo mundo converte-se em algo hiper-real, em que a
uma impossibilidade de estabelecimento de juí- significação e tão transparente que se anula iro-
zos de valor. A repercussão de um fato em tempo nicamente no banal, na mediocridade, servindo
real, pela internet ou pela televisão, cria uma con- ao florescimento dessa cultura tecnológica sem
dição de virtualidade para o acontecimento, re- oferecer nenhuma reistencia, enquanto o publico
sultando na subtração de seu sentido histórico. parece amortecido por um vírus de indiferença
Dois exemplos citados anteriormente, os con- contagiante.
flitos na Bósnia e no Golfo Pérsico, demonstram
o vazio da informação quando a notícia é repe- De qualquer maneira, a ditadura das ima-
tida exaustivamente pelos meios de comunica- gens é uma ditadura irônica. Mas essa ironia
ção, causando uma espécie de indiferença nas não integra mais a parte maldita, faz parte do
massas. delito de iniciado, dessa cumplicidade oculta
e vergonhosa que liga o artista explorando
Diferentemente da fotografia, do cinema e da sua aura de derrisão com as massas estupefa-
pintura, onde há uma cena e um olhar, a tas e incrédulas. A ironia também faz o com-
imagem-vídeo, como a tela do computer, in- plô da arte. (Baudrillard, 1997)
duz a uma espécie de imersão, de relação
umbilical, de interação tátil, como já dizia A indiferença dos seres humanos em relação
McLuhan sobre a televisão. Imersão celular, a sua própria espécie os torna menos humanos,
corpuscular: entramos na substância fluida perdidos em suas referencias sobre o passado e
da imagem para, eventualmente, modificá-la descrentes quanto ao futuro. O incansável desejo
(...) desde o momento em que estamos di- por experimentação e por ampliação dos horizon-
ante da tela, não percebemos mais o texto tes científicos e tecnológicos transformam o ho-
enquanto texto, mas como imagem. Ora es- mem em um laboratório de si mesmo, no qual
crever torna-se uma atividade plena na sepa- os experimentos são ilimitados. Com o ponto fi-
ração estrita do texto e da tela, do texto e da nal do roteiro de viagem chega-se, então, a ques-
imagem - nunca uma interação. (Baudrillard, tão principal: O homem estaria comprometendo
1997) a natureza do seu conhecimento e a sobrevivência
da sua espécie em função do avanço desmedido
O papel original do espectador torna-se, a cada das novas tecnologias, as quais são de inteira res-
clique, ainda mais obsoleto devido à interativi- ponsabilidade da humanidade? Seria o fim do
dade, supostamente benéfica, entre homem e má-

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homem como enunciaram Nietzsche, Heidegger BAUDRILLARD, Jean. Tela Total. Mito-ironias
e Foucault em tempos anteriores? da era do virtual e da imagem. Porto Ale-
O discurso irônico, e talvez, exagerado de gre: Sulina, 1997.
Baudrillard ao longo da jornada virtual não apre-
senta respostas definitivas, apenas reitera e acen- DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio
tua situações conflitantes as sociedade contem- de Janeiro: Contraponto, 2000.
porânea. Este texto apenas desconstrói algumas LÉVY, Pierre. Cibercultura. São Paulo: editora
de suas questões principais e polemicas, apresen- 34, 1999.
tando oposições ao seu discurso com a finalidade
de compreender porque o pensamento desse au- MAFFESOLI, Michel. A contemplação do
tor e tão duramente criticado. Longe de ser um mundo. Porto Alegre: Artes e Ofícios,
pessimista, ele dá pistas sobre o que pode acon- 1995.
tecer no caminho do homem e do universo e, faz
um apelo para que haja uma reação humanista MAFFESOLI, Michel. No fundo das aparências.
por parte da sociedade, no seu entender vazia de Rio de Janeiro: Vozes, 2a ed., 1999.
sentimentos. NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra.
Não há vítimas quando o homem procura um São Paulo: Martin Claret, 2000.
caminho sem volta, mesmo sabendo que a obscu-
ridade e o perigo são seus companheiros eternos SILVA, Juremir Machado da. O pensamento do
na busca pelo desconhecido, neste caso, o mundo fim do século. Porto Alegre: L&PM, 1993.
virtual. A sedução das tecnologias merece ser
avaliada, pois esse artifício pode esconder uma
condição de servidão voluntária do homem, de
criador de máquinas avançadas à ratinho de labo-
ratório.

5 Referências Bibliográficas
BAUDRILLARD, Jean. À sombra das maiorias
silenciosas. O fim do social e o surgimento
das massas. São Paulo: Brasiliense, 4 e.d.,
1994

BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de con-


sumo. Lisboa: Elfos, 1995.

BAUDRILLARD, Jean. Cool Memories II –


Crônicas 1987-1990. São Paulo: Estação
Liberdade, 1995.

BAUDRILLARD Jean. Transparência do mal.


Ensaio sobre os fenômenos extremos. São
Paulo: Papirus, 1990.

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