XXVIII CONGRESSO INTERNACIONAL DA ALAS 6 a 11 de setembro de 2011, UFPE, Recife – PE GT15 - Meio Ambiente, sociedade e desenvolvimento sustentável As Multifacetas

do Consumo: Valorativos Culturais e Significações Sociais Ângela Maria Cavalcanti Ramalho Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Jaqueline Guimarães Santos Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Sandra Sereide Ferreira da Silva Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) Resumo Na sociedade hodierna o consumo é um fenômeno social significante para o entendimento dos processos sociais, pois passa a ser uma necessidade e desejo que se caracteriza como manifestação das culturas que se dá pelo consumo, em relação aos bens, funciona como manifestação de práticas e rituais sociais dos consumidores. Nesse sentido, o ensaio teórico objetiva analisar o consumo como um valor cultural e as suas significações sociais, considerando que os bens funcionam como reprodução social e mediação de relações sociais. A abordagem metodológica é sistematizada a partir de uma epistemologia interpretativa, articulando as categorias cultura e consumo. O material consultado para leitura constituiu-se de livros e periódicos que analisam a temática em debate. Conclui-se que o consumo está relacionado aos sistemas culturais, considerando que a vida social é permeada por valores culturais.

1. INTRODUÇÃO Na sociedade hodierna o consumo é um fenômeno social significante para o entendimento dos processos sociais, pois passa a ser uma necessidade e um desejo que se caracteriza como manifestação das culturas que se dá pelo consumo; em relação aos bens, funciona como manifestação de práticas e rituais sociais dos consumidores. Portanto, o debate elucida a importância de se observar a relação entre consumo e cultura, percebendo a cultura enquanto ideias ou práticas por meio das quais os indivíduos constroem o mundo.

Desse modo. o aumento do poder aquisitivo resultante de uma elevação no padrão de vida. Isherwood (2004) os bens de consumo tem uma significação cultural que vai além de seu caráter utilitário e de seu valor comercial. analisando como o ator social consumidor manifesta determinada opções e a que se atribui a escolha por determinado produto. Esses significados se constroem a partir do saber socialmente compartilhado. ligando sujeito e objeto. Assim. também a importância do entendimento dos significados sociais que são elementos relevantes para explicar o comportamento do consumidor considerando que o homem é um ser social e. há uma efervescência sobre a necessidade do entendimento do comportamento do consumidor e suas práticas de consumo. estudar os significados do consumo quer dizer. nessa perspectiva a cultura passou a ocupar um espaço central no debate acadêmico-científico. Esta significação consiste em sua habilidade em carregar e comunicar significado cultural. na perspectiva das representações sociais. Sendo assim. a discussão sobre o consumo enquanto prática cultural não deve se limitar ao diagnóstico da sua existência deve ser incorporado ao processo histórico. na busca de entender o processo de consumo a partir da lógica do consumidor. Assim. e as mudanças de . o lugar do consumo é a vida cotidiana. não se pode explicar a demanda por produtos apenas pelas propriedades físicas dos bens. em que praticamente todas as atividades se encadeiam de um modo combinatório em que o envolvimento é total. o homem usa os bens para comunicar-se com o outro e para dar sentido ao que está em torno dele. sendo elementos importantes na estruturação da realidade atual. pesquisar os processos subjetivos que estão por trás das práticas do consumidor. Todavia. Nas últimas décadas. Para Baudrillard (1995) o mundo vive uma realidade onde o consumo invade toda a vida. criar e sustentar estilos de vida o que vai caracterizar significados culturais. pois os consumidores usam os significados nos bens de consumo para cultivar ideias. esse saber é usado como um instrumento para compreender as situações e para tomar uma posição a respeito do objeto ou contexto com o qual estabelece relação ou com o qual tem contato. daí a necessidade de se analisar outros elementos significantes. Para Douglas. Sublinha-se. Na concepção de Campbell (2001) existem três correntes que procuram explicar a influência sobre a procura de bens: o crescimento econômico da população.

tornando-o compreensível. ações e recursos em relação a essa necessidade. ou seja. Sendo necessária. sendo através do consumo e de suas formas culturalmente específicas que as relações sociais e a sociedade são produzidas e reproduzidas. Isherwood (2004) as atividades de consumo tem origens culturais. e. acontecem em relação a modos de vida específicos e significativos. ou seja. sempre relacional. ou seja. O consumo é. isso acaba por levar o consumo para fora da abrangência pura e simples da teoria econômica clássica. ao darem visibilidade e estabilidade às categorias sociais. experiências e situações.202) elucida que “[. As duas primeiras estão mais relacionadas às justificativas apresentadas pelos economistas e são criticadas por não poderem justificar coerentemente o crescimento da procura. além de dar sentido a vários objetos. A partir dessa perspectiva Portilho (2009. com implicações significativas nos valores sociais e culturais. Desse modo. observa-se que a cultura do consumidor é uma cultura de consumo é o modo dominante de reprodução social. manter e marcar relações sociais. Por outro lado. portanto.. mais do que econômicas. construindo barreiras entre pessoas e grupos de pessoas”. o consumo é compreendido como um processo social produtor de significados e identidades que nos ajudam a ordenar o mundo a nossa volta. práticas e instituições tais como escolha. O consumo enquanto abordagem cultural envolve vários significados. com fatores como gosto e moda. Os significados envolvidos são partilhados. as formas de consumo são culturalmente específicas. individualismo e relações de mercado. não podem ser explicadas pela racionalidade econômica. . e os bens são acessórios ritualísticos. encaminhando-o para a abordagem abrangente da ciência social.valores e atitudes que presidem o consumo. Para Douglas. porque para agir em função de uma necessidade demandam-se interpretações de sensações. Nessa perspectiva. Ela se encontra relacionada com valores.] os bens de consumo são usados para estabelecer. portanto. portanto. influenciando o seu comportamento. uma mudança de atitude racional do consumidor. mudança na atitude moral do consumidor para o ato de consumo.. p. são utilizados em rituais e eventos sociais para marcar fronteiras e hierarquias. entende-se que os bens de consumo dão significação social.

a partir de duas maneiras: primeiro a capacidade de servir como uma oportunidade de modelar um novo conceito cultural através do uso seletivo. Tornando instigante a reflexão sobre o consumo tendo como fio condutor a lógica do consumidor a partir do valor cultural com a perspectiva de esclarecer sentido e significados. da contribuição e da inovação. que ajuda a moldar e formalizar o processo criativo. instigou a sistematização do ensaio teórico de exercício epistemológico que objetiva analisar o consumo como valor cultural e suas significações sociais. Diante desse cenário é crescente a necessidade do desenvolvimento de pesquisas científicas demandando novas interpretações. suscitando assim novas questões. Nesse sentido. Assim. a complexidade desse processo social do consumo em suas múltiplas relações. o consumo é um fenômeno elucidado como estruturador de valores que regulam as relações sociais e constroem identidades. no primeiro caso. alicerçado a partir da diferença e da alteridade. os bens são uma mídia criativa na qual a invenção pode tomar lugar através da experimentação com os significados culturais existentes. especificamente com a cultura do consumo. portanto. estabeleceu-se um deslocamento discursivo da explicação das práticas de consumo. Na segunda maneira. são usados como meio de reflexão e de descobertas internas e externas. indo além das abordagens que analisam o consumo pelo viés da racionalidade econômica. razões e outras experiências. torna-se necessário debruçar-se sobre o fenômeno do consumo a partir de abordagens teóricas e enfoques metodológicos contemporâneos da Sociologia e Antropologia do consumo que nos últimos anos passaram a devotar parte de sua atenção a este processo social presente em qualquer sociedade. Assim. no qual as mudanças são debatidas e anunciadas. considerando que os bens funcionam como reprodução social e mediação de relações sociais. reflexões e teorias para se entender a ideologia e a prática do consumo no mundo que estamos vivendo. especificamente no mundo contemporâneo. os bens servem como uma oportunidade para um grupo se engajar em um diálogo interno e externo. Pois. os bens são usados como uma oportunidade para criatividade e experimentação. No segundo caso. REFERENCIAL TEÓRICO . 2.Na perspectiva de McCracken (2003) os bens de consumo funcionam também como instrumentos de mudanças. neste caso.

para classificar. distinguir-se e hierarquizar-se. declarar seu pertencimento a um grupo. as escolhas de consumo refletem em julgamentos morais e valorativos culturalmente dados: carregam significados sociais de grande importância. reafirmar suas identidades. englobando várias perspectivas. ou para atribuir quaisquer significados. o ato de consumir é visto como impregnado de significado simbólico. a cultura passou a ocupar um espaço relevante nas reflexões empreendidas sobre o consumo e a Sociedade de Consumo. que acontece através da busca de significados que são criados e . Assim. Nesse sentido. Desse modo. são necessárias para tornar visíveis e estáveis tais categorias. pertencimento. adquirindo relevância teórica em algumas áreas do conhecimento que antes não eram percebidas. afirmar ou negar suas relações com os outros. identidade. sua rede de relações. Por conseguinte. a categoria consumo se converte em objeto de reflexão. sua família. mas como produtor de sentido. Isherwood (2004). atividades e um conjunto de bens e serviços. para falar de gênero e etnia. Por outro lado. o consumo passa a contemplar outras formas de provisão não no processo tradicional de compra e venda de mercadoria em condição de mercado. o ato de consumir seria um processo no qual todas as categorias sociais estariam sendo continuamente definidas. Portanto. a exemplo do meio ambiente. para Douglas. o consumo e as práticas de consumo passaram a ser um campo de investigação complexo. independente da aquisição de um bem. sua cidade. Já os estudos de McCracken (2003) apontam para o comportamento do consumidor. hierarquia. entre outras questões. definir sua posição no espaço social. Os consumidores utilizam bens e serviços para comunicar algo de si mesmo. dizendo algo sobre o sujeito. estudiosos elucidam que os bens e consumo são comunicadores de categorias culturais e valores sociais. Assim.2. Eles tornam tangíveis categorias da cultura. que sempre correspondeu a experiências culturais sendo interpretado por vários ângulos. afirmadas ou redefinidas. atores. significados e de identidades. Com tratamento teórico a partir da resignificação do comportamento do consumidor.1 O Consumo Como Um Valor Cultural e Suas Significações Sociais Nas últimas décadas. status e poder. sendo considerado um lócus em que se reafirmam. celebrar ou superar passagens.

materializando as respectivas atribuições. de cuidados pessoais ou outros (Idem. que acontece através da busca de significados que são criados e transferidos. quando usadas nesse sentido. modismos e últimas novidades. Sendo assim. ocupação. O movimento dos significados do mundo culturalmente constituído se processa em grande medida pela ação da propaganda.] vivemos o tempo dos objetos: quero dizer que existimos segundo o seu ritmo e em conformidade com a sua sucessão permanente”. O autor enfatiza ainda que. de posse. Assim. os bens . Para Baudrillard (1995. status. É impossível separar um do outro.. dentre outros. os consumidores se satisfazem em ser contaminados rapidamente. posição social. seja de troca. pertencimento a grupos. As perspectivas de McCracken (2003) apontam para o comportamento do consumidor. Os bens na sociedade atual passam por um processo de autocriação.transferidos. que se apropria desses significados para definir questões como identidade. Isto constitui um ciclo interminável e em constante mutação. dentre outras. pertencimento a grupos. O movimento dos significados do mundo culturalmente constituído para os bens e se processa em grande medida pela ação da propaganda. do mundo culturalmente constituído para os bens de consumo e dos bens (objeto) para o indivíduo (consumidor individual). por exemplo. O consumo faz sentido dentro de uma ordem cultural específica. os objetos se transformam logo em obsoletos e a indústria absorve muito bem esta variante cultural trabalhando com a obsolescência planejada. Assim. gênero. são feitas aos produtos consumidos e. “[. atribuições de classe. posição social. que no imaginário social representa moda. Na concepção de Barbosa (2004) a estreita relação entre cultura e consumo. sem reflexão por repetidas vezes”. ou seja. assim como é difícil distinguir as necessidades humanas básicas das supérfluas.. Desse modo. sendo transferido para o consumidor. permitem aos indivíduos registrar significados nos bens. leva ao entendimento de que qualquer ato de consumir é essencialmente cultural.15). que se apropria desses significados para definir questões como identidade. p. status. 2003). o registro e transferência dos significados acontecem em formato de rituais. os estudos sobre o comportamento do consumidor derivam da não observação do trânsito constante do significado. Um dos problemas com que se deparam os estudiosos da cultura do consumo está relacionado aos significados que as pessoas buscam e/ou transferem para os bens. sendo transferido para o consumidor.

ora como um fortalecimento dos mecanismos de desintegração social e política. como emergência de novas formas de ação política. morte e declínio da política ou. o ciclo do consumo é bem inferior ao ciclo da vida . quando vários trabalhadores (produtores) foram transformados em sujeitos consumidores. transformou-se numa das principais instâncias mundiais de definição da legitimidade do comportamento e dos valores.incluindo os processos de transformação do produto desde a extração da matéria-prima até o descarte final. cuja dinâmica de consumo aproximava-se do glamour. embalagens. ora como uma possibilidade agregadora e emancipatória. a expansão da cultura de consumo tem sido percebida. ao contrário. Em outras palavras. Nesse sentido. Uma cultura individualista que tem como característica o hedonismo dos consumidores pós-modernos em que as pessoas consomem para tornar o mundo ou a sociedade melhor. para se tornarem melhor. O consumo é subjetivado pela . Assim. uma cultura do consumo agregada a certa materialidade. Portanto. É pertinente pontuar que a cultura de consumo teve como elemento definidor a demanda por compradores para atender a grande produção industrial alcançada no final da Primeira Guerra mundial. observa-se que a cultura do consumo tem sido responsável pela propagação de um modelo de empresa. Incluí ainda os processos industriais. ou como sinal de dissolução. a cultura do consumo é interpretada. de mercados e de um modo de vida ocidental. após o consumo. fazendo surgir novas identidades culturais. Desse modo. As sociedades modernas proporcionam mudanças significativas na identidade e na cultura. distribuição e comércio – de um produto até sua transformação ou reabsorção pela natureza.cada vez mais são projetados para durar menos. promovendo mudanças substanciais na vida e na cidade. ou para uma vida autêntica. Essa cultura desfruta de uma posição de destaque no mundo globalizado. assumir o papel de consumidor passa a ser regra social resultante da formação de uma Sociedade de Consumo que se originou consequentemente de uma cultura de consumo. Elas consomem para aumentar seus prazeres e confortos privados. Havendo um deslocamento do trabalhador com habilidade para produzir para um sujeito com habilidade para comprar. processando-se desta forma uma mudança da cultura produtora para a cultura do consumo a partir do Século XX. proporcionada pelo progresso tecnológico em vários setores da economia.

A maioria daquilo que consumimos está sob a forma de mercadorias. por outro lado como exigência do sistema capitalista para a sua própria sobrevivência. Práticas sociais. universal e impessoal.  A cultura do consumo é uma cultura de consumo de uma sociedade de mercado. Ou seja.  A cultura do consumidor identifica liberdade com escolha e vida íntima. valores culturais. desde que tenhamos os meios pecuniários para fazê-lo. Na cultura do consumidor as necessidades de cada um de nós são insaciáveis. . cidadania e religião entre outros. Ser consumidor é fazer escolhas do que comprar. em princípio. busca definir a cultura do consumidor através de elementos que denomina de indicadores sociológicos.  As necessidades dos consumidores são ilimitadas e insaciáveis. do refinamento. E universal porque. de como pagar e gerir o seu dinheiro sem qualquer interferência institucional ou de terceiros.  A cultura do consumidor é a cultura de uma sociedade de mercado. mas um sujeito anônimo que só pode ser construído como objeto. O consumidor não é alguém conhecido.  A cultura do consumidor é. Nesse sentido. aspirações e identidades são definidas e orientadas em relação ao consumo ao invés de outras dimensões sociais como trabalho. ideias. adquirir o que quisermos. No mundo moderno o consumo tornou-se o foco central da vida social.).sociedade na medida em que cria estratégias e condições objetivas de aquisição tanto para sujeitos individuais como sujeitos coletivos e empresas. A cultura do consumidor é impessoal no sentido que as mercadorias são produzidas para um mercado de massas e não para indivíduos específicos. todos nós somos livres e iguais e podemos. experiências e serviços produzidos especificamente para serem vendidos no mercado. da imaginação. sem qualquer restrição legal ou de status. Slater (2001) sublinha que se a cultura do consumo está associada à modernidade como um todo seria impossível uma única definição. O acesso das pessoas a essas mercadorias é conseqüência da distribuição de recursos materiais (dinheiro) e culturais (gosto. produtos. portanto. estilo de vida etc. Esta sensação é interpretada como conseqüência da sofisticação. os quais serão apresentados abaixo. em princípio.

Contudo. O poder de escolha do indivíduo na esfera do consumo nas sociedades póstradicionais tem sido campo de debate sobre a sua real liberdade de escolha ou submissão a interesses econômicos maiores que se escondem por trás do marketing e da propaganda.segundo as necessidades e ideias próprias e por iniciativa própria – possibilidades concretas de uma vida melhor e menos ameaçada. o autor faz uma análise do mundo contemporâneo pondo em evidência a insegurança resultante do temor de um futuro que se mostra ameaçador.cujo propósito é controlar a natureza e subjugar o outro . O autor faz questão de mostrar que. as quais poderiam criar as condições para os próprios participantes . Para outros. o atual contexto traz em si as condições necessárias para uma práxis comunicativa cotidiana e para um processo de formação discursiva da vontade. segundo ele. O estudo de Slater (2001) enfatiza ainda que a cultura de consumo implica também que os valores relacionados às atividades de consumo e de mercado transbordem para outras áreas que até então eram apreciadas e certificadas por outros critérios. que . A cultura do consumo representa a importância crescente da cultura no exercício do poder. Sob o ponto de vista de Jürgen Habermas (1984). Nesse sentido. A nova situação. a descrição habersiana (1984) não se encerra na perspectiva negativa aqui apresentada. a construção de uma sociedade mais livre e igualitária depende basicamente da suplantação da razão instrumental. para alguns teóricos. Assim. 2001). cliente.por uma razão comunicativa. resulta do fato de que o programa do Estado. que até a década de 1980 não tinham que explicar a demanda dessa natureza. o Século XXI desponta trazendo consigo o peso da crise do estado de bem-estar social e do esgotamento das energias utópicas. própria da modernidade . eficácia e responsabilidade social para área como as ciências sociais. Como. a cultura hoje organiza a economia em aspectos básicos: o valor dos bens depende mais de se valor cultural (de signo) do que do seu valor de uso ou de troca. embora o quadro seja sombrio. qualidade. a importação de conceitos como satisfação. (SLATER. o que é percebido por cultura nas sociedades capitalistas está a serviço de interesses econômicos de grupos poderosos. que se alimentava recorrentemente da utopia de uma sociedade do trabalho. não consegue mais construir possibilidades futuras de uma vida coletivamente melhor e menos ameaçada. por exemplo. Segundo Barbosa (2004).

dos objetos. Dentre elas cita-se o debate ambientalista em defesa do meio ambiente. uma vez que a problemática ambiental evidenciou que o sistema não pode absorver a todos no universo do consumo em função da finitude dos recursos naturais. assume centralidade como um subproduto de uma escolha por uma vida saudável escolha essa que é delineada através . o mito da felicidade tornou-se mensurável (através do bem-estar. fundando-se nos princípios individualistas garantidos pela Declaração dos Direitos do Homem e do cidadão. Entretanto. Desse modo. como uma tirania. já que o consumo. desperta uma miríade de emoções negativas. as identidades. para cada indivíduo. Na concepção de Pinto (2006). menos perigosa. resultante dos padrões de consumo nas sociedades modernas. a cultura do consumo.poderia levar a humanidade a uma etapa de convivência mais pacífica e. do conforto dos signos). que são socialmente injustos e ambientalmente insustentáveis. revelando-se como o equivalente autêntico da salvação. A discussão sobre o consumo sustentável. apesar de promover a busca da felicidade pela aquisição de bens. por conseguinte. o consumo deve ser entendido como uma interação criativa entre a lógica da produção e circulação das mercadorias. o direito à felicidade. o cidadão é reduzido à esfera do consumo. Paralelamente. que reconhece. exclui-se da Sociedade de Consumo a felicidade enquanto fruição total e interior. sendo cobrado por uma espécie de obrigação moral e cívica de consumir. Na perspectiva de Portilho (2005). a felicidade constitui a referência absoluta da “Sociedade de Consumo”. Contudo. enquanto a felicidade se distancia da “festa coletiva”. mostrando que este estilo de vida ostentatório e desigual pode dificultar a garantia dos recursos ambientais equivalentes para as futuras gerações. Já o filósofo Espinosa enfatiza que a felicidade é a capacidade do ser humano de se libertar da tirania e das emoções negativas. observam-se na sociedade hodierna as profundas transformações que afetam a cultura e os valores da sociedade. que não necessita de signos e provas de sua existência para manifestar-se. A felicidade não é uma recompensa da virtude: a felicidade é a virtude em si mesma. as posições sociais e os desejos e percepções moldados dos consumidores. em observância que o consumo total da economia humana tem excedido a capacidade de reprodução natural. Para Baudrillard (1995). tornando a exclusão mais explícita e a possibilidade de superá-la mais distante. dificilmente levará a ela.

Portanto. em relação aos bens que funcionam como manifestações concretas de práticas e rituais sociais de seus usuários. por ser uma das formas mais significativas de valor social. 3. considerando que nas pesquisas sobre consumo e cultura. muitos se . governo e instituições como peça relevante na elaboração e implementação de políticas públicas para o consumo sustentável.) e estrutura de construções culturais.compreende a leitura crítico-reflexivo dos textos selecionados acompanhado de reflexão. O homem vive amarrado às teias de significação por ele tecidas. são fundamentais para construir uma aparência social. a cultura é um contexto. de movimentos sociais. um sistema entrelaçado de signos interpretáveis. Todavia. tornando visíveis e estáveis as categorias da cultura. CAMINHOS METODOLÓGICOS A abordagem metodológica está fundamentada a partir de uma epistemologia interpretativa. pois passa a ser uma necessidade e um desejo que se caracteriza como manifestação das culturas que se dá pelo consumo. grupo de status. o consumo deve ser entendido no campo da cultura. na busca dos significados e na escolha das ideias principais. Os bens servem para comunicar. Visão analítica . O material consultado constituiu-se de livros e periódicos que tratam da temática em debate. seguida da visão sintética que é concretizada através da leitura interpretativa. os estudos são sistematizados a partir de abordagens qualitativas e de análise de conteúdo. O método de leitura científica tomou como fio condutor a concepção de Cervo. Bervian (2002) evidenciando que a leitura deve seguir passos sistematizados cronologicamente conforme propositura: visão sincrética com a leitura de reconhecimento que tem como objetivo localizar as fontes numa aproximação preliminar sobre a temática e a leitura seletiva localizando as informações de acordo com os objetivos do estudo. há uma multiplicidade de métodos de caráter antropológico e sociológico. o consumo é um fenômeno significante para o entendimento da sociedade. fundamento de uma conduta social responsável. sendo a cultura essas teias e o estudo da cultura a sua análise. redes sociais (modo de vida. Assim. sinalizam-se para a necessidade do desenvolvimento de uma pesquisa empírica.da responsabilidade individual. etc. articulando as categorias cultura e consumo. Desse modo.

ROCHA. O trabalho etnográfico contextualiza os significados. p. “A etnografia é uma maneira privilegiada de análise cultural e. Desse modo. Assim. por meio dele. 2007. Portanto. incluindo-os ou excluindo-os de sua vida. Do ponto de vista metodológico o estudo etnográfico é o método através do qual é possível ter acesso às formas pelas quais os grupos sociais atribuem significados aos produtos e serviços. por ser o consumo um código através do qual são traduzidas muitas relações sociais e experiências subjetivadas.fundamentam pelo método etnográfico. sendo o conhecimento científico gerado a partir do ponto de vista nativo”. análise do discurso e a interpretação das representações sociais dos informantes. é pertinente pontuar que por se tratar de um estudo de cunho antropológico e sociológico deve-se ser adotados procedimentos metodológicos diversificados para a coleta de dados. dando-lhes sentido diferenciado. é importante que no estudo sobre consumo utilize-se o método etnográfico de grupos de consumidores bem delimitados identificando suas fronteiras culturais e relações sociais para se obter um quadro preciso da diversidade do valor cultural e significações sociais. relato das práticas sociais. de construção de hierarquia de sentido para diferentes grupos em diferentes momentos. é fundamental no entendimento os sistemas simbólicos que articulam os objetos de com e a vida cotidiana dos atores sociais” (ROCHA. construindo uma visão de mundo. por isso. traduzem afetos. informação cultural em fontes primárias. considerando a complexidade dos fenômenos e o caráter multifacetado Dentre os instrumentos do método etnográfico encontra-se a observação participante. Para o antropólogo Geertz (1978. da falsa dicotomia entre o individual e o coletivo.74). Esse código é capaz de traduzir sentimentos e relações sociais e fenômenos decorrentes da desconstrução.231) “a etnografia pode ser compreendida como a descrição densa da experiência cultura de a investigação por dentro da realidade do grupo. no nível teórico. CONSIDERAÇÕES FINAIS . p. 4. por ser um método que estuda as categorias que orientam o pensamento e as práticas de grupos sociais com características comuns de experiências. desejos e relações sociais. Como experimentam o consumo e.

Com perspectivas que devem ser exploradas em pesquisas sobre o consumo. Os aportes teóricos estudados evidenciam que o consumo está mais relacionado aos sistemas culturais. gêneros. Sociedade de Consumo e cultura de consumo e sua implicação nos valores sociais. Considerando. foi possível observar a importância da inserção da temática consumo nos estudos que elucidam os sistemas eminentemente culturais e suas complexidades. Haja vista que o consumo sustentável é resultante de uma motivação social individual. Além das formas pelas das quais a cultura influencia o comportamento do consumidor. Levando à compreensão das práticas de consumo. pelo desejo de contribuir para que o debate acadêmico se amplie através da reflexão e socialização. Assim. que conhecer a lógica cultural do consumo é. considerando que os bens funcionam como reprodução social e mediação de relações sociais. a partir de uma perspectiva analítica interpretativa. colocando em discussão novos paradigmas com abordagens centradas no consumo como processo cultural e social produtor de significados e identidades.Este estudo proporcionou várias contribuições para o entendimento do fenômeno do consumo enquanto valor cultural e suas significações sociais. A partir da perspectiva elucidada. correspondendo às necessidades universais fundamentais. a propaganda. O momento presente em que se configura a Sociedade de Consumo as práticas de consumo que modificam substancialmente a qualidade de vida trazendo riscos para a . É emblemático pontuar que a discussão travada sobre as categorias analíticas é resultante de um diálogo interdisciplinar entre pesquisadores. abrir uma janela para o imaginário do mundo que nos cerca (ROCHA. dos sujeitos sociais consumidores. contextos. evidencia-se a relevância da continuidade do trabalho através da realização de pesquisas empíricas com abordagem etnográfica com perspectiva de análise com a seguinte proposição: como os consumidores redefinem suas práticas de consumo diante da problemática ambiental no contexto atual resultante dos níveis e padrões consumo nas sociedades modernas. etnia e mecanismos de mediação que se encontram submetidos à cultura material e a seu papel no mundo contemporâneo. os produtos e as questões que apontam para a importância entre cultura e consumo na sociedade contemporânea. 2007). considerando que a vida social é permeada por valores e dispositivos culturais. as marcas.

ed. 2007. movimentos sociais. 2004. Metodologia de trabalhos científicos: para uso dos estudantes universitários. Referências BARBOSA. CAMPBELL. 2001. criar possibilidade de construir democraticamente um modelo de desenvolvimento sustentável. v. J. faz-se necessário considerar as novas formas de sociabilidade e de relação com a subjetividade e com a cultura material que se desenrolam no seu interior. 47. Rio de Janeiro: UFRJ. B. G. as ações de caráter individual e coletivo podem ampliar a politização dos sujeitos sociais. Rio de Janeiro: Rocco. P. A Sociedade do consumo. M. 1984. J. DOUGLAS. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. ISHERWOOD. C. Mudança estrutural da esfera pública: investigação quanto a uma categoria de sociedade burguesa. dentro de uma abordagem política e ideológica.. Assim. . C.sociedade e o meio ambiente. Sociedade do consumo. 1978. enquanto perspectiva de redes sociais com direito de ascender e pertencer a um sistema sócio-político. A interpretação das culturas. contribuindo para a participação do cidadão na esfera pública na busca de um consumo sustentável. Partindo da necessidade premente da conscientização do homem enquanto gestor dos recursos naturais. 1. 2004. Cultura e consumo: uma explicação teórica da estrutura e do movimento do significado cultural dos bens de consumo. Rio de Janeiro: Manuad. Revista de Administração de Empresas. representações e as práticas dos consumidores ancoram todo esforço analítico. L. nas quais são submergidas experiências. Cultura e consumo: novas abordagens ao caráter simbólico dos bens e das atividades de consumo. São Paulo: Edições 70. Tradução de: Artur Morão. 1995.. McCRACKEN. através da mobilização política da sociedade civil. BAUDRILLARD. A. São Paulo: Tempo brasileiro n. BERVIAN. São Paulo: McGraw-hill. O mundo dos bens. GEERTZ. 3.76. Nesse cenário. L. 2003. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Zahar. HABERMAS. 2002. Tradução de: Fernanda Eugenio. jan-mar. _____. n. CERVO.

ROCHA. Revista de Administração de Empresa.15. Revista Política e Sociedade. 2006. Vol. Novos atores no mercado: movimentos sociais econômicos e consumidores politizados. Cultura do consumo e modernidade. Sustentabilidade ambiental. D. Jan-Mar.. . 2007. SLATER. 1. São Paulo: Cortez. consumo e cidadania. 2001. n. Vol. Mercado de devoção: com e identidades religiosas nos santuários de peregrinação xiita na Síria. A. G. Rio de Janeiro: FGV. H. ______.PINTO. n. 2005.8. da R. P. In: Cultura. consumo e identidade. reflexões e uma agenda de pesquisa para o Brasil. Universidade Federal de Santa Catarina. PORTILHO. ROCHA. São Paulo: Nobel. F. E. 2009. Paradigama interprtativo nos estudos de consumo: retrospectiva. 47.

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