Fichamento – A janela do cinema e a identificação

É usual dizer que a imagem fotografada é ao mesmo tempo um ícone e um índice em relação à aquilo que representa. A palavra imagem, em sua raiz, imitação, significa que ela se assemelha visualmente a um objeto ou pessoa real; especificando a semelhança, tal termo se difere e estabelece um tipo de experiência visual que não é o mesmo que olhar o objeto ou a pessoa real. Você olha uma fotografia, e não o que foi representado nela. Logo em seguida aparece um novo tipo de signo, o ícone, que denota que a imagem remete a alguma coisa, pelo simples fato de que, ao ser percebida visualmente, apresenta algumas propriedades em comum com a coisa denotada. A fotografia, é uma processo pelo qual um objeto cria sua própria imagem pela ação da luz sobre o material sensível. A foto pode ser encarada como um documento apontado para a pré-existência do elemento que ela denota. Estes são pontos de partida para a reiterada admissão de que, na fotografia, são as coisas mesmas que se apresentam à nossa percepção, numa situação vista como radicalmente diferente à encontrada em outros tipos de representação. O “realismo” da imagem fotográfica, cuja celebração é muito mais intensa no caso do cinema, dado o desenvolvimeno temporal da imagem, capaz de reproduzir, não só mais uma propriedade do mundo visível, mas justamente uma propriedade essencial à sua natureza, a do movimento. O aumento da fidelidade e a multiplicação enorme do poder de ilusão estabelecidas graças a está reprodução dos objetos levantaram reações imediatas e reflexões detidas. O conjunto de imagens impresso na película corresponde a uma série limitada de fotografias nitidamente separadas, com sua projeção descontínua. Este processo de representação não impõe nenhum vínculo entre duas fotografias sucessivas, a relação entre elas será imposta pelas duas operações básicas na construção de um filme: a de filmagem e a montagem dele. Outro fator importante na utilização da câmera para filmagem é o seu enquadramento e o que está dentro do plano de visão dela e o que está fora desse plano, o plano exterior. O espaço diretamente visado pela câmera poderia fornecer uma definição do espaço não diretamente visado, desde que algum elemento visível estabelecesse alguma relação com aquilo que supostamente estaria além dos limites do quadro. Uma relação frequente vem do fato de que o enquadramento recorta uma porção limitada, o que acarreta na captação parcial de certos elementos, reconhecidos como espectros, como fragmentos de objetos. A visão direta de uma parte sugere a presença do todo que se estende para o espaço “fora da tela”. O primeiro plano de um rosto ou de qualquer outro detalhe implica na admissão da presença virtual do corpo. A tendência à denotação de um espaço “fora da tela” é algo que pode ser intensificado ou minimizado pela composição fornecida. O movimento efetivo dos elementos visíveis será responsável por uma nova forma de presença do espaço “fora da tela”. A imagem se estende por um determinado intervalo de tempo e algo pode mover-se de dentro pra fora do campo de visão ou vice-versa. A câmera,

Para Edgar. ainda mantemos o registro contínuo. participação afetiva com o mundo representado. o segundo seria a constituição do mundo imaginário que vem transformar-se no lugar por excelência de manifestação dos desejos. constituindo-se a obra numa composição contida em si mesma com suas próprias leis. vai marcar a incidência de princípios tradicionas à cultura ocidental. Nos dois elementos tradicionais sempre considerados como fundadores da arte do cinema: a chamada “expressividade” da câmera e a montagem. Ele aponta a convenção segundo a qual a obra de arte apresenta-se como microcosmo. não mais simplesmente limites de uma composição. e procura enaltecer o princípio vigente de que há uma separação radical entre este e o mundo real. apesar da postura da câmera ser a mesma. O movimento da câmera reforça a impressão de que há um mundo do lado de lá. A ruptura com esse “espaço teatral” e a criação de um espaço verdadeiramente cinemático estaria na dependência da quebra com esta estrutura rígida. o que implica em supor o pedaço de filme projetado como combinação de. mas cria a ilusão no espectador de que ele está no interior da ação reproduzida no espaço de ficção do filme. Dado os recursos poderosos que o cinema apresenta para carregar o espectador para dentro da tela. identificação com personagens. a identificação constitui a alma do cinema. dois registros distintos. graças a convergência entre as características da imagem cinematográfica e determinadas estruturas mentais de base. O espaço irreal da tela em oposição ao espaço real da sala de projeção e da experiência do espectador. aplicada ao retângulo cinematográfico. identificação e projeção. Hollywood inventou uma arte que não observa o princípio da composição contida em si mesma e que. marcada pela “impressão de realidade” e pelo mergulho dentro da tela. a ruptura frente ao espaço teatral estaria garantida pela própria natureza dos elementos focalizados. deve ser considerada como estado genético e como fundamento estrutural do cinema. Esta modalidade de relação marcada pelo forte efeito de presença visual dos acontecimentos e a sua não-efetividade sobre a situação física do espectador. Edgar Morin. realizou um “ensaio antropológico” .fornecendo um plano de conjunto de um ambiente (cenário teatral). No caso deste plano fixo e contínuo corresponder à filmagem de um evento natural ou acontecimento social em espaços abertos. introduzimos a descontinuidade de registro. A noção de janela. . O primeiro seria simplesmente a técnica de duplicação e projeção da imagem em movimento. capazes de produzir a expansão do espaço para além dos limites do quadro graças ao seu movimento. Numa delas. mas conferimos mobilidade à câmera. A dimensão temporal define um novo sentido para as bordas do quadro. na outra. sonhos e mitos do homem. mas ponto de tensão originário de transformações na configuração dada. não apenas elimina a distância entre o espectador e a obra de arte. onde determinada representação se dava nos moldes de uma encenação convencional. basicamente sobre a metamorfose do cinematógrafo em cinema. situava-se na clássica posição dos espectadores. pelo menos. A participação afetiva. que existe independentemente da câmera em continuidade do espaço da imagem vista. que definem a relação entre o mundo da representação artística e o mundo dito real.

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