Capa MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Pergaminho Badana da capa Mitch Albom é jornalista e comentador

desportivo. É também autor de vários livros, de entre os quais se destaca As Terças com Morrie, um best-seller internacional com mais de cinco milhões e meio de exemplares vendidos que ocupou os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times durante quatro anos seguidos. As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é o seu primeiro romance. Desde a sua primeira edição, em Setembro de 2003, que tem ocupado os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times. O sucesso que tem tido junto do público tem-se reflectido na crítica: "Esta é a fábula que lemos de uma assentada quando nos apaixonamos. É o conto que temos sempre à mão quando nos sentimos perdidos. É a história que queremos escutar vezes sem conta, pois tem aquela capacidade rara e mágica de nos dar a ver a nós próprios e ao mundo sob uma nova perspectiva. Este livro é um presente para a alma." Amy Tan Badana da contracapa "O leitor encontrará aqui ecos dos grandes clássicos - como a Odisseia - e isso faz com que esta obra de Mitch Albom esteja em muito boa companhia." Frank McCourt "Uma história cheia de sabedoria acerca do valor da vida humana." Los Angeles Times "As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é um livro poderoso." Time Magazine "Um livro doce e animador, sem vestígios de sentimentalismo." Booklist "Uma obra sincera que tem o poder de comover e reconfortar os leitores." The New York Times Contracapa Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido ou importância. Aos 83 anos, trabalha ainda como responsável de manutenção num parque de diversões. Passa os dias a fazer trabalhos rotineiros e não consegue afastar a sensação profunda

de solidão e de arrependimento por não ter vivido mais intensamente. Mas é precisamente no dia do seu 83.° aniversário que Eddie morre num acidente trágico, ao salvar a vida a uma criança. A última coisa que sente são duas mãozinhas a segurar as suas - e depois um imenso silêncio. É então que tudo começa. Eddie desperta no Céu. À sua espera estão cinco pessoas - umas são perfeitos desconhecidos, outras são-lhe muito próximas – que, de uma forma ou de outra, determinaram o percurso da sua vida. Cada uma destas pessoas fez parte da vida de Eddie por uma razão especial, embora ele não compreendesse na altura. O Céu é o lugar para onde vem para o compreender. Através destas cinco pessoas, Eddie vai descobrir as ligações invisíveis que constituíram o padrão da sua vida. Será que passou 83 anos insignificantes na Terra? Ou que passou teria a sua vida tido, afinal, algum sentido? Página de rosto MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Tradução de Tânia Ganho Pergaminho Ficha Técnica As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu Mitch Albom Tradução de: The Five People You Meet in Heaven Hyperion, 2003 copyright © 2003, by Mitch Albom Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado — além do uso legal como breve citação em artigos e críticas — sem prévia autorização do editor. copyright © 2004, da tradução e editoração portuguesas by Editora Pergaminho, Lda. Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal l.a edição, 2004 l.a reimpressão, 2004 ISBN 972-711-587-X Este livro é dedicado a Edward Beitchman, o meu querido tio, que me deu o meu primeiro conceito de Céu. Todos os anos, à volta da mesa festiva do Dia de Acção de Graças, ele contava a história de uma noite que passou no hospital, em que acordou e viu as almas dos seus entes queridos, que já haviam falecido, sentados à beira da cama, à sua espera. Lembrar-me-ei sempre dessa história.

Lembrar-me-ei sempre dele. Toda a gente tem uma ideia do Céu, como a tem a maioria das religiões, e todas devem ser respeitadas. A versão que aqui apresento é apenas um palpite, um desejo, de certo modo, de que o meu tio e outras pessoas como ele — pessoas que se sentiram pouco importantes aqui na Terra — percebam, finalmente, o quão importantes e amadas foram. Fim Esta é a história de um homem chamado Eddie e começa pelo fim, com Eddie a morrer sob o Sol. Pode parecer estranho começar uma história pelo final. Mas todos os finais são também começos. Só não o sabemos no momento... A última hora de vida de Eddie foi passada, como quase todas as outras, em Ruby Pier*, um parque de diversões à beira de um vasto oceano cinzento. O parque tinha as habituais atracções, uma ampla marginal para as pessoas passearem, uma roda gigante, montanhas-russas, carrinhos de choque, uma banca de doces e uma galeria de máquinas de jogo, onde se podiam disparar jactos de água para a boca de um palhaço. Tinha também uma atracção nova, chamada Queda Livre, e seria aqui que Eddie acabaria por morrer, num acidente a que os jornais de uma ponta à outra do estado dariam destaque. Aquando da sua morte, Eddie era um homem de idade, baixo e de cabelos brancos, sem pescoço, com o peito em forma de barril, braços fortes e uma tatuagem descorada do exército no ombro direito. As pernas eram magras e cheias de varizes, e o seu joelho esquerdo, * À letra, o Cais da Ruby. (N. da T.) ferido na guerra, sofria de artrite. Eddie apoiava-se numa bengala para andar. O seu rosto era largo e enrugado pelo sol, com um bigode desleixado e o maxilar inferior ligeiramente protuberante, que lhe dava um ar mais orgulhoso do que ele realmente era. Tinha sempre um cigarro preso na orelha esquerda e um chaveiro pendurado no cinto. Calçava sapatos com sola de borracha. Usava um velho boné de linho. O seu uniforme castanho claro lembrava o de um operário e Eddie era precisamente isso, um operário. O trabalho de Eddie era «assegurar» as atracções, o que significava que estava encarregado de zelar pela segurança. Todas as tardes, percorria o parque, examinando cada máquina, desde o Corropio à Montanha-Russa Oleoduto. Verificava se havia tábuas partidas, parafusos soltos, aço gasto. Por vezes ficava parado, de olhos fixos e turvos, e as pessoas que passavam por ele pensavam que estava a sentir-se mal. Mas estava simplesmente à escuta, nada mais. Depois de tantos anos, Eddie conseguia ouvir os problemas, dizia ele, no ranger, percutir e gaguejar do equipamento. Restando-lhe apenas cinquenta minutos de vida na Terra, Eddie fez a sua última ronda por Ruby Pier. Passou por um casal de velhinhos. — Boa tarde — murmurou ele, levando a mão ao boné. Eles acenaram com a cabeça educadamente. Os clientes conheciam Eddie. Pelo menos, os clientes habituais. Viam-no Verão após Verão, uma daquelas caras que se associam a determinado lugar. A sua camisa de trabalho tinha uma etiqueta no peito com o seu nome, Eddie, por cima da palavra Manutenção, e por vezes diziam-lhe: «Olá, Eddie Manutenção», embora ele não visse onde estava a graça. Hoje, curiosamente, Eddie fazia oitenta e três anos. Na semana passada, um médico dissera-lhe que

ele tinha zona. Zona? Eddie não conhecia a doença. Antigamente, tinha força para levantar um cavalo de carrossel em cada braço. Mas isso fora há muito tempo... 10 — Eddie!... Leva-me, Eddie!... Leva-me! Quarenta minutos até à sua morte. Eddie dirigiu-se para a frente da fila da montanha-russa. Costumava dar uma voltinha em cada atracção, pelo menos uma vez por semana, para ter a certeza de que os travões e engrenagens eram seguros. Hoje era o dia da montanha-russa — a MontanhaRussa Fantasma, chamavam-lhe — e os miúdos que conheciam Eddie chamavam-no para ele os levar. As crianças gostavam de Eddie. Não os adolescentes. Os adolescentes davam-lhe dores de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie achava que já tinha visto todo o tipo de adolescente mandrião e maleducado. Mas as crianças eram diferentes. As crianças olhavam para Eddie — que, com o seu maxilar inferior protuberante parecia estar sempre a sorrir, como um golfinho — e confiavam nele. Aproximavam-se de Eddie como umas mãos frias se aproximam de uma lareira acolhedora. Agarravam-se às pernas dele. Brincavam com o seu chaveiro. Eddie pouco falava, dizia qualquer coisa entre dentes. Estava convencido de que gostavam dele precisamente por isso, por falar pouco. Eddie deu uma palmadinha nos dois miúdos de bonés de basebol virados ao contrário. Eles correram para a cabina e instalaram-se no banco. Eddie entregou a bengala ao funcionário da montanha-russa e, lentamente, sentou-se entre os miúdos. — Aqui vamos nós... Aqui vamos nós!... — guinchou um deles, enquanto o outro agarrava no braço de Eddie e o punha por cima dos seus ombros. Eddie baixou a barra sobre o colo e claqueclaque-claque, lá foram eles. Corria a história sobre Eddie. Quando era miúdo, criado ali mesmo, naquele cais, meteu-se numa briga de rua. Cinco rapazes de Pitkin Avenue tinham encurralado o irmão dele, Joe, e estavam a preparar-se para lhe dar uma sova. Eddie encontrava-se a um quarteirão de distância, num banco, a comer uma sanduíche. Ouviu o irmão gritar. Correu para o beco, pegou na tampa de um latão do lixo e deu tanta pancada nos rapazes, que eles foram parar ao hospital. Depois disso, Joe não falou com ele durante dois meses. Tinha vergonha. Joe era o mais velho, o primogénito, mas fora Eddie quem lutara. 11 — Podemos dar mais uma volta, Eddie? Por favor? Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de protecção, deu um chupa-chupa a cada um dos miúdos, pegou na sua bengala e coxeou, até à oficina da manutenção, para se refrescar um pouco do calor de Verão. Se soubesse que a sua morte estava iminente, talvez tivesse ido para outro lugar. Em vez disso, fez o que todos fazemos. Prosseguiu com a sua rotina entediante, como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente. Um dos empregados da oficina, um rapaz esgalgado de cara chupada, chamado Dominguez, encontrava-se junto do lavatório dos solventes, a limpar o óleo de uma roda. — Olá, Eddie — cumprimentou ele. — Olá, Dom — respondeu Eddie. A oficina cheirava a serradura. Era escura e apertada, com o tecto baixo e paredes forradas de pegas para pendurar brocas, serras e martelos. Por toda a parte, viam-se peças do esqueleto das máquinas do parque: compressores, motores, correias, lâmpadas, o cimo da cabeça de um pirata. Empilhadas contra uma parede estavam latas de café com pregos e parafusos, e contra outra, um sem-fim de tubos de óleo. Olear um trilho, dizia Eddie, não exigia mais esforço intelectual do que lavar um prato; a única diferença era que a pessoa ficava mais suja quando o fazia, e não mais limpa. E era esse o tipo de

Eddie acenou com a cabeça e Dominguez fez uns passinhos de dança. Dominguez olhou para o dinheiro. Grande festança. Muitas vezes desejara abandonar aquele emprego. Depois. arranjar outro trabalho. inspeccionar painéis eléctricos. a partir de segunda-feira. Tens a certeza? Eddie enfiou o dinheiro na mão de Dominguez. Depois. Por instantes. onde pagavam setenta e cinco dólares para entrar e ficavam com uma fotografia . — Onde? — Ao México? Eddie soltou o ar pelo nariz. Tal como o seu pai antes dele. não te esqueças de que para a semana não estou cá. que voltou para o lavatório. pensou o quão estranho era envelhecer num lugar que cheirava a algodão doce. miúdo. Aquela linha de pesca nunca tinha nada. 13 — Um dia — gritou Dominguez —. ouvi dizer que fazes anos — disse Dominguez. Estendeu-as. sabendo que nunca um peixe tão grande passaria por um buraco tão pequeno. 12 Trinta minutos de vida. vamos apanhar um mero! — Pois — murmurou Eddie. Um pequeno «buraco de pesca» fora aberto há anos nas tábuas do passeio da marginal e Eddie levantou a tampa de plástico. Pensou por instantes. Eddie. Eddie atravessou para o extremo sul da marginal. Ainda tinha um pedaço de isco agarrado.trabalho que Eddie fazia: pôr óleo. O negócio andava fraco. Antigamente. deu por si a ficar grisalho. a usar calças largueironas e a mergulhar num estado de resignação cansada. um homem com areia nos sapatos. — O Eddie. ou como os miúdos por vezes lhe chamavam: «o homem das voltinhas de Ruby Pier». — Apanhámos alguma coisa? — gritou Dominguez. Eddie resmungou qualquer coisa entre dentes. Os seus planos nunca se concretizaram. que descia até o mar. tal como a etiqueta na sua camisa. pá. preferiam os parques temáticos. nunca fui a lado nenhum para onde não me mandassem de espingarda atrás. tirou um maço de notas do bolso e escolheu as de vinte. apertar porcas. Mas veio a guerra. Vinte e seis minutos de vida. sorriu de orelha a orelha e disse: — Eh. Tinha elefantes e fogo-deartifício e maratonas de dança. Mas as pessoas já não procuravam os cais à beira-mar. Observou Dominguez. ele era assim e assim seria sempre. — Olha. — Ei. Com o tempo. construir uma vida diferente. — Eu e a Theresa. — Já alguma vez lá foste? — perguntou Dominguez. Ruby Pier era o lugar para onde toda a gente ia no Verão. — Compra uma coisa bonita para a tua mulher — disse Eddie. voltou para a zona do armazém. Deu um puxão no fio de nylon de vinte e cinco metros. Vou para o México. ajustar travões. — Diz-me que apanhámos um peixe! Eddie perguntou-se como é que o rapaz conseguia ser tão optimista. — Não há festarola? Eddie fitou-o como se o rapaz tivesse enlouquecido. num mundo de riso mecânico e salsichas no churrasco. duas delas. Vamos ver a família toda. Parou de dançar quando reparou no olhar de Eddie. A rapariga da banca de doces estava apoiada nos cotovelos. também Eddie fazia parte da manutenção — o chefe da manutenção —. a fazer balões com a pastilha elástica.

que nos anos cinquenta fora o Ri no Escuro. Ela envergava um vestido amarelo de algodão... Os seus dedos formavam estranhos ângulos. até recebera uma medalha. zzzap zzzap. . Disse-lhe que tinha conhecido a rapariga com quem ia casar. Nessa noite. Eddie abanou a barreira com tanta força. que tinha uma madeixa cor de laranja no cabelo. e sentia a mesma explosão arterial de amor. 15 — Vê mas é se dormes. — Saiam daí — ordenou Eddie. Os postes dos carrinhos zumbiam de electricidade. — Vamos. — FORA DAQUI! Os adolescentes fugiram a correr. Dançaram ao som da grande banda. Para o resto da sua vida. Mas. Estava tão nervoso. Com a bengala. Ela disse que tinha de ir embora. que isso não é seguro. foi numa noite quente de Setembro. Todas as vidas contêm uma imagem fotográfica de verdadeiro amor. como o de um pugilista antes de ter levado demasiados socos. como as barbatanas de uma foca. Demonstrara coragem. — Vá. Eddie pouco falou. Os adolescentes entreolharam-se. 14 Com dezanove minutos de vida na Terra. batendo na barreira com a bengala. que nos anos sessenta foram os Baloiços Chupa-Chupa. Os seus braços curtos e musculosos dobraram-se. quando se afastou. Agora. fitou Eddie com um sorriso escarninho e passou para a barreira do meio. em que a marginal estava ensopada de água. que nos anos oitenta fora o Trovão. Corria outra história sobre Eddie. estivera na frente de combate. Eddie sentou-se pela última vez. que quase a partiu ao meio. Para Eddie. Eddie tinha um ar simplesmente cansado. O seu rosto largo de maxilares bem marcados podia ter sido atraente. Era essa a imagem. virou-se para trás e disse-lhe adeus. depois de uma trovoada. Os adolescentes lançaram-lhe um olhar de desafio. Aquele era o seu lugar habitual na marginal de Ruby Pier. que antes disso fora a Concha da Banda do Estrelato. que nos anos setenta fora a Enguia de Aço.tirada ao lado de uma personagem peluda em tamanho gigante. Eddie passou a coxear pelos carrinhos de choque e fixou os olhos num grupo de adolescentes pendurados na barreira de protecção. os seus cabelos negros caindo sobre um dos olhos. sobre o peito. — Não é seguro — repetiu Eddie. mais para o fim do seu tempo de serviço. O nariz fora partido várias vezes naquilo a que ele chamava «brigas de saloon». Foi assim que Eddie ficou ferido. Só me faltava isto. numa velha cadeira de praia de alumínio. por causa dos pais. Quando era soldado. que parecia que tinha a língua colada aos dentes. Mas. Eddie voltou para casa e acordou o irmão mais velho. Long Legs Delaney e a sua Everglades Orchestra. Eddie — resmungou o irmão. sempre que pensava em Marguerite. Ninguém perguntou. envolveu-se numa escaramuça com um dos seus próprios homens. devido às muitas fracturas provocadas pelo manuseamento de máquinas. Um miúdo. Eddie revia esse instante. Ninguém sabia o que acontecera ao outro tipo. atrás da atracção do Coelho Saltador. Ele comprou-lhe uma limonada. As suas pernas estavam vermelhas do sol e o joelho esquerdo ainda tinha cicatrizes. Na verdade. um dia. malta. grande parte do corpo de Eddie sugeria que ele era um sobrevivente. pensou ele para os seus botões. — Atropelem-m. Que foi onde Eddie conheceu Marguerite. Lindo. ela a acenar-lhe por cima do ombro. atropelem-me! — gritou. com uma boina cor-de-rosa nos cabelos. acenando para os jovens condutores.

e ele habituara-se à ligadura. Era como uma ferida por baixo de uma velha ligadura. aquela que a Judy Garland cantava no filme. Praguejou. Passara muitas tardes ali. Nenhuma história vem só... Nicky levou a mão ao bolso do casaco. depois atou o casaco à cintura.» Uuussshhh. Amy ou Annie.. diamantes de sol dançavam nas águas e Eddie observou o seu movimento delicado. Rebentou uma onda na praia.. Doze minutos de vida. a Montanha-Russa Fantasma.. Eddie tossiu uma coisa que não quis ver.» liiisssshhhh. para tornar a recordação mais vívida. como as pedras no fundo de um rio. Fechou os olhos e permitiu-se recordar a canção que os aproximara. em que um jovem chegou a Ruby Pier com três amigos. exaustos e a rir. «Fizeste-me amar-te. Ao largo. ele e os amigos andaram em todas as diversões velozes: o Falcão Voador. 16 Mas na Concha da Banda do Estrelato. as histórias encontram-se ao virar da esquina e por vezes encobrem-se umas às outras completamente. Perdera a chave. Uma menina... pensou ele que se chamava... — Mãos ao alto! — gritou um deles. sempre o soubeste e sempre. Fechou os olhos com força. no oceano. voltaram para o parque de estacionamento.» Splaaassshhh.. E esticaram as mãos para o alto. Misturava-se agora na sua cabeça com a cacofonia das ondas e das crianças aos gritos. nesse Verão. Cuspiu-a para longe. Desde a guerra que não sentia firmeza nas pernas. «. Uuussshhh. aí.Uuussshhh. Tinha caracóis louros e usava sandálias e calções de ganga e uma T-shirt verde-lima com um desenho animado estampado na frente. com Marguerite. «... O fim da história de Eddie foi tocado por outra história aparentemente inocente. Uuussshhh. bebendo cerveja dentro de sacos de papel pardo. Portanto. Agora já não tanto.» Eddie sentiu as mãos de Marguerite nos seus ombros. a tapar-lhe o sol.. amar-te. O que seria a tal doença chamada zona? Uuussshhh. nem pai.» liiiiiiiii! «. . acabara de aprender a conduzir e ainda não se sentia confortável a andar de chaveiro na mão. Procurou. fizeste-me amar-te e eu não queria fazê-lo. embora Eddie nunca tivesse visto nem mãe.. «. a Queda Livre. soube.. de aproximadamente oito anos. Costumava pensar muito em Marguerite. quando já era noite. Dezasseis minutos de vida. Amy. a Queda de Água. Catorze minutos até à sua morte. Por vezes... Eddie limpou a testa com um lenço.. meses antes — numa noite enevoada. que se chamava Nicky. — Faz favor. Nas horas que se seguiram. Mais tarde.. Eddie ainda era gracioso. estava diante dele. tirou a chave do carro e pô-la dentro do bolso do casaco. O jovem..

— Fazzzz favor — repetiu ela. — Eddie Man’tenção? Eddie suspirou. — Eddie só — disse ele. — Eddie? — Sim? — Podes fazer-me... Ela uniu as mãos, como que numa prece. — Vamos, menina, despacha-te, que eu não tenho o dia todo. — Podes fazer-me um animal? Podes? 17 Eddie olhou para cima, como se tivesse de pensar no assunto. Depois, levou a mão ao bolso da camisa e tirou três limpadores de cachimbo amarelos, com que andava sempre para essas ocasiões. — Siiim! — exclamou a menina, batendo as palmas. Eddie começou a retorcer os arames. — Onde estão os teus pais? — A andar nas diversões. — Sem ti? A garota encolheu os ombros. — A minha mãe está com o namorado. Eddie levantou os olhos. Ah... Dobrou os arames em várias argolas pequeninas, depois torceu as argolas umas nas outras. As mãos tremiam-lhe agora, por isso demorava mais tempo do que era hábito, mas daí a pouco os limpadores de cachimbo pareciam uma cabeça, orelhas, corpo e cauda. — Um coelho? — perguntou a menina. Eddie piscou o olho. — Obrigaaaada! Ela deu meia-volta, perdida naquele mundo de distracção onde as crianças nem sequer sabem para que lado vão os seus pés. Eddie tornou a limpar a testa e depois fechou os olhos, afundado na cadeira de praia, e tentou retomar a velha canção na sua cabeça. Uma gaivota guinchou ao voar por cima dele. Como é que as pessoas escolhem as suas derradeiras palavras? Terão noção do seu peso? Estarão destinadas a ser sábias? Pelo seu 83° aniversário, já Eddie perdera praticamente todas as pessoas de quem gostava. Algumas tinham morrido jovens e outras haviam tido a oportunidade de envelhecer, antes de uma doença ou um acidente as levar. Nos seus funerais, Eddie ouvia as pessoas de luto recordarem as suas últimas conversas. «Era como se ele soubesse que ia morrer...», diziam algumas. Eddie nunca acreditara nisso. Na sua opinião, quando chegava a hora, chegava e ponto final. Tanto se podia dizer uma coisa muito inteligente antes de partir, como uma coisa estúpida. 18 Para que fique registado, as derradeiras palavras de Eddie foram: «Afastem-se!» Aqui ficam os sons dos últimos minutos de vida de Eddie. Ondas a rebentar na areia. A batida distante de música rock. O ronronar de um pequeno bimotor, arrastando um cartaz pendurado na cauda. E isto. — OH, MEU DEUS! OLHEM! Eddie sentiu os olhos moverem-se rapidamente por baixo das pálpebras. Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer todos os sons de Ruby Pier e conseguia dormir embalado por eles. — OH, MEU DEUS! OLHEM!

Eddie endireitou-se muito depressa. Uma mulher de braços gordos às covinhas, com um saco das compras na mão, apontava e gritava. A sua volta, juntara-se uma pequena multidão, de olhos postos nos céus. Eddie viu-o de imediato. No cimo da Queda Livre, a nova torre-atracção, um dos carrinhos estava todo inclinado, como que prestes a despejar a sua carga. Quatro passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas pela barra de protecção, tentavam agarrar-se freneticamente a qualquer coisa. — OH, MEU DEUS! — gritava a mulher gorda. — COITADAS DAS PESSOAS! VÃO CAIR! Uma voz berrou roucamente no rádio preso ao cinto de Eddie. «Eddie! Eddie!» Eddie premiu o botão. — Estou a ver! Chamem a segurança! Vieram pessoas a correr da praia, apontando como se tivessem ensaiado para aquele momento. Olhem! Lá em cima, no céu! Uma diversão que vai acabar em tragédia! Eddie pegou na bengala e caminhou o mais depressa que pôde para a vedação protectora, na base da plataforma, o seu molho de chaves a tilintar contra a anca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A Queda Livre devia deixar cair dois carrinhos de cada vez, numa descida de dar a volta ao estômago, e só se detinha no último instante, 19 com um jacto de ar hidráulico. Como é que um carrinho se soltara daquela maneira? Estava inclinado a uns metros de distância da plataforma superior, como se tivesse começado a descer e, de repente, tivesse mudado de ideias. Eddie chegou à cancela e teve de parar para recuperar o fôlego. Dominguez apareceu a correr e quase esbarrou nele. — Ouve! — disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros. Apertou-o com tanta força, que Dominguez fez um esgar de dor. — Ouve! Quem é que está lá em cima? — O Willie. — Está bem. Ele deve ter activado a paragem de emergência. E por isso que o carrinho está pendurado. Sobe a escada e diz ao Willie para soltar manualmente a barra de segurança, para que aquelas pessoas possam sair dali. Percebeste? Como fica na parte de trás do carrinho, vais ter de segurá-lo enquanto ele se debruça para o fazer. Percebeste? Depois... depois, vocês os dois... vocês os dois, percebeste?... vocês os dois tiram as pessoas de lá! Um segura-se ao outro! Percebeste?... Percebeste? Dominguez apressou-se a fazer que sim com a cabeça. — Depois, manda o raio do carrinho para baixo, para ver se descobrimos o que aconteceu! A cabeça de Eddie latejava de dor. Embora o seu parque nunca tivesse sido palco de grandes acidentes, conhecia as histórias de horror da sua profissão. Uma vez, em Brighton, uma porca soltara-se numa gôndola e duas pessoas caíram para a morte. Outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara atravessar a pé o trilho de uma montanha-russa; caiu e ficou preso pelas axilas. Ficou entalado, aos gritos, e os carrinhos a virem acelerados na direcção dele... bom, é escusado contar o resto. Eddie afastou esse episódio da mente. Havia muita gente à sua volta, agora, com as mãos a taparem as bocas, a verem Dominguez trepar a escada. Eddie tentou lembrar-se das entranhas da Queda Livre. Motor. Cilindros. Hidráulica. Selos. Tampões. Cabos. Como é que um carrinho se soltara? Seguiu o trajecto visualmente, das quatro pessoas assustadas no cimo da torre, passando pela conduta, até à base. Motor. Cilindros. Hidráulica. Tampões. Cabos... 20 Dominguez chegou à plataforma superior. Fez o que Eddie mandou, segurando Willie, enquanto

Willie se debruçava na direcção da traseira do carrinho, para libertar a barra de segurança. Uma das mulheres lançou-se para Willie, quase o derrubando da plataforma. A multidão susteve a respiração. — Espera... — disse Eddie para si mesmo. Willie tentou de novo. Desta vez, conseguiu libertar o mecanismo de segurança. — Cabo... — murmurou Eddie. A barra levantou e a multidão fez «Ahhhhh». Os passageiros foram rapidamente puxador para a plataforma. — O cabo está a desenrolar-se... E Eddie tinha razão. No interior da base da Queda Livre, escondido da vista, o cabo que puxava o carrinho n.° 2 tinha, nos últimos meses, estado a roçar contra uma roldana presa. Como estava bloqueada, a roldana começara gradualmente a raspar os fios de aço do cabo — era como tirar os fios a uma espiga de milho —, até que vários ficaram à beira de partir. Ninguém reparou. Como poderiam tê-lo feito? Só uma pessoa que tivesse rastejado para dentro do mecanismo teria visto a causa improvável do problema. A roldana estava presa por um pequeno objecto entalado, que devia ter caído pela abertura exactamente no momento certo. A chave de um carro. — Não soltes o CARRINHO! — gritou Eddie, a esbracejar. — EI! EEIII! É O CABO! NÃO SOLTES O CARRINHO! O CABO VAI PARTIR! A multidão afogava os seus gritos, a aclamar desenfreadamente Willie e Dominguez, enquanto eles recolhiam o último passageiro. Os quatro estavam sãos e salvos. Abraçaram-se no cimo da plataforma. — DOM! WILLIE! — gritou Eddie. Alguém embateu contra a sua cintura, fazendo cair o seu walkie-talkie. Eddie baixou-se para o apanhar. Willie dirigiu-se para a cabina de controlo. Levou o dedo ao botão verde. Eddie olhou para cima. — NÃO, NÃO, NÃO, NÃO FAÇAS ISSO! Eddie virou-se para a multidão. 21 — AFASTEM-SE! Algo na voz de Eddie deve ter chamado a atenção das pessoas; pararam de aclamar e começaram a afastar-se. Abriu-se uma clareira na base da Queda Livre. E Eddie viu o último rosto da sua vida. Ela estava estendida na base de metal da diversão, como se alguém a tivesse derrubado, com o nariz sujo, os olhos cheios de lágrimas, a menina com o animal feito de arames para limpar cachimbos. Amy? Annie? — Ma... Mamã... Mamã... — soluçava ela, quase ritmicamente, o seu corpo prisioneiro daquela paralisia típica das crianças quando choram. — Ma... Mamã... Ma... Mamã... Os olhos de Eddie saltaram dela para os carrinhos. Ainda iria a tempo? Ela e os carrinhos... Vuuum. Demasiado tarde. Os carrinhos estavam a cair — Meu Deus, eh soltou o freio! — e, para Eddie, tudo se dissolveu em movimento subaquático. Largou a bengala e puxou pela sua perna doente, sentindo uma descarga de dor que quase o deitou ao chão. Um passo grande. Mais um passo. Dentro da conduta da Queda Livre, o último fio de aço partiu-se e roçou contra o cabo hidráulico. O carrinho n.° 2 estava agora em queda livre, sem nada para o deter, um pedregulho a cair de um penhasco. Nesses derradeiros instantes, Eddie pareceu escutar o mundo inteiro: gritos distantes, ondas, música, uma lufada de vento, um som grave, forte e desagradável que ele percebeu ser a sua própria

voz a explodir do seu peito. A menina levantou os braços. Eddie precipitou-se para ela. A sua perna doente cedeu. Ele quase voou, quase tropeçou em direcção a ela, aterrando na plataforma de metal, que rasgou a sua camisa e lhe fez um corte na pele, mesmo abaixo da etiqueta que dizia Eddie e Manutenção. Sentiu duas mãos nas suas, duas mãos pequeninas. Um impacte atordoante. Um clarão cego de luz. E depois, nada. 22 Hoje é o aniversário de Eddie Estamos nos anos vinte, num hospital cheio de gente, num dos sectores mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma na sala de espera, onde fumam também os outros pais. A enfermeira entra com uma tabela na mão. Chama o nome dele. Pronuncia-o mal. Os outros homens expelem o fumo dos cigarros. Então? Ele levanta o braço. — Parabéns — diz a enfermeira. Ele segue-a corredor abaixo, até à ala dos recém-nascidos. Os sapatos dele fazem barulho ao bater no chão. — Espere aqui — diz ela. Pelo vidro, ele vê-a consultar os números nos berços de madeira. Passa por um, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele. Ela pára. Ali. Por baixo da manta. Uma cabecinha coberta por um barrete azul. Ela volta a consultar a tabela, depois aponta. O pai tem a respiração pesada, acena com a cabeça. Por um instante, o seu rosto parece desmoronar, como uma ponte a ruir sobre um rio. Depois, som. É o dele. 23 A viagem Eddie não viu absolutamente nada no seu derradeiro momento na Terra. Não viu o cais, nem a multidão, nem o carrinho estilhaçado de fibra de vidro. Frequentemente, nas histórias sobre a vida depois da morte, a alma sai do corpo no instante da despedida e paira sobre os veículos da polícia, no caso de um acidente na auto-estrada, ou agarra-se como uma aranha ao tecto de um quarto de hospital. Estas são histórias de pessoas a quem é dada uma segunda oportunidade — de algum modo, por algum motivo — de retomarem o seu lugar no mundo. Eddie, aparentemente, não ia ter essa segunda oportunidade. Onde...? Onde...? Onde...? O Céu era de um tom enevoado de abóbora, depois turquesa, depois um lima garrido. Eddie flutuava e os seus braços ainda estavam esticados. Onde...? O carrinho estava a cair do cimo da torre. Disso ele lembrava-se. A menina — Amy? Annie? — chorava. Disso ele lembrava-se. Lembrava-se de se precipitar para a frente. Lembrava-se de cair

A seguir. A sua consciência parecia esfumada. faz flexões à frente de um grupo de senhoras de idade. a xarope para a tosse. bang — grita Eddie. debruçadas sobre a extensa praia branca. está a minha preocupação? Onde está a minha dor? Era isso que faltava.. tudo ficou imerso em silêncio. sacando da arma de brincar e fazendo: «Bang. Apercebeu-se de um movimento de torvelinho. os domadores de animais. Toda a mágoa que ele sofrera na vida. Não se sentia triste. Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie. Viu a areia de uma costa dourada. os pregoeiros. usa suspensórios e está sempre a cantar canções irlandesas. É uma tarde de domingo. incapaz de sentir outra coisa que não a calma. está embrenhado num jogo de cartas. Joe. Salvei-a? Ela sobreviveu? Onde. depois um rosa que Eddie associou de repente a — imagine-se — algodão doce. Por baixo dele. Mesas de piquenique alinham-se ao longo do passeio da marginal. de amarelo-toranja para um verde-floresta. Sentia apenas uma calma profunda. Deixa-me dar-te as pancadinhas dos aniversariantes — anuncia ele. O chapéu de Eddie cai. um chapéu vermelho de cowboy e um coldre.sobre a plataforma. Onde está a minha preocupação? Onde está a minha dor? 25 Hoje é o aniversário de Eddie Tem cinco anos. É gordo. as mãos enormes de Mickey enfiam-se por baixo dos braços de Eddie e levantam-no do chão. as cores voltaram a alterar-se. alguns homens das pescas. Não se sentia em agonia. Os funcionários do cais passam atarefados. Há um bolo de baunilha com velas de cera azul. bang!» — Vem cá. — Bang. no entanto.. estava debaixo de água. como se tivesse acontecido há muitos anos. toda a dor que suportara haviam desaparecido como um último fôlego.. em Ruby Pier. — Vem cá. rapaz — chama Mickey Shea. não sentia sequer uma brisa no rosto. E depois? 24 Salvei-a? Eddie só conseguia recordá-lo à distância. zelando pelos equipamentos do parque. como uma criança aninhada nos braços da mãe. O pai de Eddie. Sentia as mãozinhas dela nas suas. Depois safira.. como habitualmente. Agua. nem medo. Há um jarro de sumo de laranja. Flutuava por cima de um vasto mar amarelo. Eddie brinca aos seus pés. De repente. os artistas de rua. que se fingem divertidas e aplaudem educadamente. etérea.? O céu à sua volta mudou novamente. Um oceano.. pendurado pelos pés. Levanta-se e corre de um grupo para outro. A uma velocidade inimaginável e. Depois. Onde. O seu irmão mais velho.. . Eddie enverga a sua prenda de anos. sentado num banco. depois viram-no de cabeça para baixo. Mais estranho ainda era o facto de não sentir qualquer emoção associada a essa lembrança. Eddie acha que ele tem um cheiro esquisito. Que se tornou cor de melão. Começou a cair. precipitando-se em direcção à sua superfície. — Como fazemos na Irlanda. .

. — Ho.. — Eu vi — responde a mãe. no mar. — Quatro!. desequilibra-se e cai. — Ele virou-me de cabeça para baixo — diz ele. com um banco almofadado e uma porta com dobradiças de aço. Eddie pega no chapéu. meu querido aniversariante? — Ela está a uns meros centímetros do rosto dele. talvez o leve a dar uma volta no elefante. sorri e retoma o seu jogo de cartas. O seu instinto inicial foi pegar na bengala. O pai de Eddie levanta os olhos. não lhe doíam as costas. aterrando desengonçadamente no chão. ho. Mas era um Ruby Pier diferente. Surpreendentemente. Ele vê o seu batom vermelho-escuro. onde foi assaltado por três rápidos pensamentos. ainda se encontrava em Ruby Pier. Havia tendas de lona e áreas relvadas vazias e tão poucas obstruções que. Os braços e pernas de Eddie pendiam dos bordos da chávena. A sua cabeça está a ficar pesada. Em primeiro lugar. Toda a gente bate as palmas. só tem tempo de dar três passos antes de a mãe o apanhar e abraçar.. avança tropegamente para Mickey Shea e dá-lhe um murro no braço.. — Agora. Mickey baixa Eddie suavemente. porque havia manhãs em que já não tinha forças para se levantar sem o apoio dela. ou a ver os pescadores recolherem as redes ao cair da noite. — gritam. guardava-a sempre junto da cama. Três! De pernas para o ar. Mais tarde. as ondas do seu cabelo acobreado. — Uma! 26 Mickey torna a puxar Eddie para cima. portanto suspirou e tentou levantar-se. ao fundo. Mas agora não encontrava a bengala. apanhei-te!— diz Mickey. Em segundo. de cabedal de sapatos castanho a um escarlate profundo. e ele sentirá que o mundo está novamente de cabeça para cima. Em terceiro. Levanta-se.— Cuidado. feita de madeira escura e polida. sentia-se óptimo. estava sozinho. Todos se riem. pois era o tipo de homem que costumava cumprimentar os outros com uma palmada nos ombros. conseguia ver o paredão lodoso. rindo em coro. Nos últimos anos. por se ter portado tão bem no dia do seu aniversário. Era uma antiga máquina do parque de diversões: uma enorme chávena de chá. Mickey! — grita a mãe de Eddie. Eddie não sabe ao certo quem é quem. Ela dar-lhe-á a mão e dir-lhe-á que Deus está orgulhoso dele. Isto deixava Eddie embaraçado. Ela põe-lhe o chapéu na cabeça. até a cabeça do menino roçar no chão. as suas faces cheias e macias. — Ho-ho! Para que foi isso. Fez força e saltou facilmente da beira da chávena. — Estás bem. ela há-de passear com ele ao longo do cais. A perna não latejava. rapaz? — pergunta Mickey. As cores das diversões eram vermelhos ardentes e brancos cremosos — nada de azuis-esverdeados nem 28 . Gritam: — Duas!. uma pancadinha de aniversário por cada ano de vida. — Cinco! Eddie é virado de cabeça para cima e colocado no chão. Eddie dá meia volta e foge a correr. os peixes pulando como reluzentes moedas molhadas. O céu continuava a mudar de cor. Os outros juntam-se a ele. 27 A chegada Eddie acordou dentro de uma chávena de chá.

fascinado com aquela engrenagem nova. 29 há mais de sessenta anos. pensou ele. Nenhuma dor. onde os adivinhos do peso. chamada Chávena Voadora. pendurados nas fachadas das lojas que se alinhavam ao longo da marginal: Charutos El Tiempo! Isto é que são charutos! Guisado. o parque de há setenta e cinco anos. Passou pelo Carrossel Parisiense.castanhos-avermelhados — e cada atracção tinha a sua própria bilheteira de madeira. mas agora estava a correr. ficava a roda-gigante original — com a sua tinta branca imaculada — e. com espirais e minaretes e cúpulas em forma de cebola. Quis dizer "Ei!". ficava o Loop-a-Loop — que fora desmantelado há décadas — e acolá. cada vez mais depressa. com cordas de secar roupa penduradas nas janelas. Se alguém estivesse a ver. como as crianças fazem. mas a sua voz não passava de ar áspero. O cartaz era feito de contraplacado. no verdadeiro sentido da palavra. de boné. os balneários e as piscinas de água salgada. Correu pelo centro da antiga rua principal. passou por uma banca de venda de anzóis e iscos para os pescadores (cinco cêntimos) e uma banca de aluguer de fatos-de-banho para nadadores (três cêntimos). como o miúdo que corria nos seus tempos de juventude. apinhados de gente. Passou por uma diversão chamada Ziguezague. começando com uns quantos passos ousados. Explorou o seu corpo como uma criança. de tantos em tantos passos. por mais velho que seja. E. de repente. minhas senhoras e meus senhores? Já alguma vez viram um ser tão horrendo?. depressa. como se proviesse de um megafone. Ali ao fundo. andara a tirar ferrugem das peças armazenadas na sua oficina. mas nada lhe saiu da boca. que foram encerradas nos anos cinquenta. Eddie parou de correr. correu. sentia-se incrivelmente bem. baixo e entroncado como um barril. aquele empregado da manutenção. de cabelos brancos. erguendo-se para o céu. desde a guerra. Há apenas uma hora. Tão ágil. a fingir que era um avião. Mas era ágil. só que novinho em folha. as cartomantes e as bailarinas ciganas trabalhavam outrora. saltava. estava igual ao Eddie que se levantara nessa manhã: um homem velho. que conseguia tocar nos tornozelos e levantar a perna à altura da barriga. a seguir acelerando a trote. 10 cêntimos! Dê uma volta no Chicote — A sensação do ano! Eddie pestanejou com força. na esperança de que a corrida se transforme em voo. Aquele era o Ruby Pier da sua infância. Mas qualquer homem tem um menino que corre dentro de si. Ali. Nos últimos dez anos. poderia achá-lo ridículo. Ouviu qualquer coisa. com os seus cavalos de madeira esculpida. «Então e esta criatura. Caminhou. por detrás dela. espelhos e um órgão Wurlitzer. à sombra de edifícios magníficos de estilo mourisco. Por fora. calções e casaco castanho da manutenção. Depois. Eddie tentou gritar. Tocou nos braços e nas pernas. completamente sozinho. descrevendo um círculo. A chávena em que acordara fazia parte de uma diversão muito antiga. Ha-ha! Correr! Eddie não corria... tudo novinho e reluzente.» . um homem de borracha a esticar-se de uma ponta à outra. Encostou o queixo ao peito e esticou os braços como um planador e. Saltou. acabado de lavar. Correu ao longo da marginal de Ruby Pier. as ruas do seu antigo bairro e os telhados dos edifícios de tijolos. Correu ao longo da marginal. Uma voz metálica. esquecera o que era andar sem sentir uma pontada ou sentar-se sem precisar de arranjar uma posição confortável para as costas. tal como todos os outros letreiros baixos. À parte a sua falta de voz.

Havia homens que engoliam espadas.. — Estava à tua espera. Ali. Eddie lembrava-se de que o tinham encerrado há pelo menos cinquenta anos.. Quando era miúdo. sentado numa cadeira.» Vinha do outro lado de um palco. presas pela coluna dorsal e que tocavam instrumentos musicais. «Somente aqui.» Eddie afastou a cortina.» Eddie entrou na penumbra da sala. O teatro sensacionalista. A sua pele era azul. erguendo-se lentamente da sua cadeira. A voz tornou-se mais forte.» Eddie espreitou para a entrada. sozinho no palco.. Eddie tinha pena dos figurantes da feira. A feira das aberrações. «Regozijem-se com a criatura mais invul. Uma era a Jane Gira. Já ali vira gente muito estranha. nu da cintura para cima. que pesava para cima de duzentos e cinquenta quilos e precisava que dois homens a empurrassem para conseguir subir as escadas. 31 Os lábios eram finos e o rosto comprido e chupado. — Não .Eddie encontrava-se junto de uma bilheteira vazia. estava um homem de meia-idade com os ombros estreitos e curvados.. A barriga transbordava-lhe do cinto. enquanto as pessoas passavam por eles. Havia duas gémeas siamesas. Edward — disse o homem. à frente de um grande teatro. E Eddie deu um passo atrás. Eram obrigados a sentar-se em cabinas ou em estrados. por vezes atrás de barras.. não fosse por uma característica peculiar. 32 A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu — Não tenhas medo.» A voz do pregoeiro desapareceu.. «Esta trágica alma foi alvo de uma perversão da natureza. Há muito que Eddie o teria esquecido.... — disse o Homem Azul. na época em que a televisão se popularizou e as pessoas deixaram de precisar de espectáculos de feira para espicaçar a sua imaginação. 30 «Olhem bem para este selvagem. nascido com um defeito ultrapeculiar. cuja pele parecia borracha de tanto ter sido esticada e untada com óleos. Um pregoeiro zombava da aberração e foi a voz de um pregoeiro que Eddie ouviu agora. nos Cidadãos Mais Estranhos do Mundo. — Olá. trouxemos esta criatura para as senhoras e os senhores puderem examinar. mulheres de barba e um par de irmãos indianos. Tinha o cabelo cortado muito curto. «Só um terrível azar do destino poderia ter deixado um homem neste estado lamentável! Dos recantos mais longínquos do mundo. incrédulo.. O cartaz pendurado no topo dizia: Os cidadãos mais estranhos do mundo. A atracção de Ruby Pier! Meu Deus! São gordos! São magricelas! Veja o Homem Selvagem! A atracção do parque... rindo e apontando. de tal modo que pendia aos bocados dos seus membros. podem ver tão de perto esta.

mas também não podemos espreitar por entre as nuvens e ver o que se passa lá em baixo. A sua pele era de um grotesco tom de amora acinzentada. Começamos o quê?. Como é que eu morri? — Num acidente — disse o Homem Azul.tenhas medo. Este. Aqui?. — Foi o que eu pensei. não parece? Eddie assentiu com a cabeça. pensou Eddie. as pessoas têm a mania de depreciar a terra onde nasceram. O Homem Azul levantou o queixo. — Ah. muitas vezes. E 34 o próprio Céu tem muitos degraus. Apontou para uma montanha-russa com duas lombas. ao som da música animada do órgão Wurlitzer. Os seus dedos eram engelhados.. Há quanto tempo estou morto? — Há um minuto. O mar estendia-se diante deles. Tocou no ombro de Eddie e este sentiu uma onda de calor. — Onde é que haverias de estar? — perguntou o Homem Azul. passando pelas lojas de charutos e bancas de salsichas e bares de apostas. é o segundo. NÃO! O Homem Azul parecia divertido. onde os tolos perdiam todos os seus tostões. antes de existirem rodas de subfricção. que fora demolida há anos. — Onde estás? — Virou-se e levantou os braços. O Chicote. em tom pensativo. dizemos: «Nem imaginam com quem eu sonhei esta noite!» — O teu corpo parece o de uma criança. E lamento. O cais estava vazio. Começamos pelos sentimentos que tínhamos em crianças. . Os seus pensamentos jorraram numa catadupa de frases. em seguida. pensou Eddie. — Não? Não pode ser o Céu? — disse ele. O céu estava cor de limão. — Porquê? Porque foi aqui que tu cresceste? Eddie mexeu a boca como quem diz Sim. todas as atracções do velho parque de Ruby Pier ganharam vida: a roda-gigante girou. o que significava que os carrinhos não podiam virar muito depressa — a menos que a ideia fosse vê-los sair disparados dos trilhos. para mim. — No Céu. o primeiro. ainda é «a montanha-russa mais rápida à face da terra»? 33 Eddie olhou para a velha máquina ruidosa. Abanou a cabeça em sinal de negação.. Estaria o planeta inteiro vazio? — Diz-me uma coisa — pediu o Homem Azul. como nunca sentira na vida. que se encontrava ao fundo. feita de madeira. a montanha-russa subiu estrepitosamente e os cavalinhos do Carrossel Parisiense cavalgaram nos seus postes metálicos. Onde estou? O Homem Azul franziu os lábios e. — Bom. — O Homem Azul fez um sinal de assentimento. mas Eddie estava estupefacto a olhar para ele. na manhã seguinte. Não! Eddie sacudiu a cabeça violentamente. Mal conhecera aquele homem. — O Chicote. Aqui. Mas o Céu encontra-se nos lugares mais inesperados.. os carrinhos de choque embateram uns nos outros. O Homem Azul sorriu. — É porque eras miúdo quando me conheceste. nada muda. Ele levantou-se e saiu da sala. E para ti. Uma hora. Um milhar de anos. repetiu a pergunta. A praia estava vazia. Fora construída nos anos vinte. A sua voz era tranquilizadora. O Homem Azul conduziu Eddie pelo meio do parque. como se tivesse ouvido a pergunta. Eddie seguiu-o. De repente. Seria possível estar a vê-lo agora? Era uma daquelas caras que nos aparece em sonhos e.. — Ah — fez o Homem Azul.

— Eu sou a tua primeira pessoa.. — Esta é a maior bênção que Deus nos pode oferecer: dar-nos a compreender o que aconteceu na nossa vida. Era um parque de diversões. É a paz de espírito que todos desejamos. que se tornará 35 parte da tua. Lança a bola.. Estava farto de não conseguir falar. onde quem derrubar mais de três garrafas verdes ganha um coco com uma palhinha. sentindo uma onda de poder subir-lhe pelos braços. Eddie fez um ar perplexo. — Anda. 36 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem sete anos e a sua prenda é uma bola nova de basebol. talvez o grande jogador Walter Johnson. Aperta-a com cada uma das mãos. — Partilha a tua prenda comigo. — Vai-te lixar. podes não ter percebido qual era esse motivo e é para isso que serve o Céu. O Homem Azul esperou pacientemente. Sorriu para Eddie.. Joe. a minha vida foi iluminada por outras cinco pessoas e. depois. desta vez. — Foste tu — disse ele. Eddie pára e imagina-se num estádio. como um pintainho acabado de nascer. Ninguém consegue falar assim que aqui chega. — Qual foi. se molhavam e trocavam dólares por bonecos. da tua morte? O Homem Azul pareceu ligeiramente surpreendido. — A tua voz há-de voltar. Eddie — diz Joe. outras talvez não. O irmão encolhe os cotovelos e baixa-se. nada mais. Joe! . Explicar-nos a nossa existência. Todos passamos pelo mesmo. Imagina que é um dos seus heróis da colecção de cromos dos amendoins Crackerjack. — Há cinco pessoas que vais conhecer no Céu — disse subitamente o Homem Azul. tentando recuperar a voz. E alteraram a tua vida para sempre.. pensou Eddie. a causa. por um motivo específico. um lugar onde as pessoas gritavam. Quando morri. Na altura. — Atira-a — diz o seu irmão. Para compreendermos a nossa vida na Terra. — As pessoas imaginam o Céu como um jardim do paraíso.O Céu?. um lugar onde podem flutuar nas nuvens e espreguiçar-se nas montanhas e rios.. Passara a maior parte da sua vida adulta a tentar afastar-se de Ruby Pier... O Homem Azul virou-se. A sua voz pareceu quebrar uma casca. para te contar a minha história. A ideia de aquele ser um local de descanso abençoado estava para lá da sua imaginação. Tentou novamente falar e. — resmungou finalmente. Que ridículo. consegues ouvir. — Qual foi. Edward.. Eddie tossiu. Algumas já conhecidas.. ouviu um pequeno grunhido sair-lhe do peito. — Atiraste com demasiada força! — grita Joe. a causa. — Cada uma delas fez parte da tua vida. com todas as suas forças.. Mas todas elas se cruzaram contigo antes de morrerem. — Mas. Eddie arrancou um som do peito. Correm pela alameda principal da feira. passam pela cabina de jogos. Sorriu. — A bola é minha! — grita Eddie. Mas uma paisagem magnífica sem conforto espiritual não tem sentido. vim para aqui esperar por ti. — Qual foi. pelo menos. Terás outras pessoas à tua espera.

a coser botões em casacos. A porta de lona de uma tenda abre-se. 37 — Ouça lá — disse Eddie. ó espertinhos? — pergunta o homem peludo. fiquei de rastos a seguir a isso. — Andam à procura de sarilhos? O lábio inferior de Joe começa a tremer e ele desata a chorar. caindo depois numa pequena clareira por detrás das barraquinhas. Agarra na bola e corre atrás do irmão. o peito caído. também nós não tínhamos dinheiro. »Eu era uma criança nervosa. numa postura defensiva. o meu pai a implorar-lhe como se fosse um mendigo de rua. — Não. Eu era muito pequeno. »À semelhança da maior parte dos imigrantes.Eddie vê a bola tocar nas tábuas do chão e ir bater num poste. eu tropecei e deixei cair um saco de botões. Eddie permaneceu de pé. Mas. um dia. . O pior de tudo é que. Quando fiz dez anos. estamos entendidos? Nem sequer o conheço! O Homem Azul sentou-se num banco. e os outros empregados desataram a rir também. Sorriu. Sentia que eu o tinha envergonhado. Corre atrás dela. Ele viu os lençóis sujos e fitou-me de uma maneira que nunca hei-de esquecer. São interrompidos por um barulho de pano a rasgar. O capataz apontou para as minhas calças sujas e riu-se. Eddie e Joe levantam os olhos. criado numa pequena aldeia polaca. O capataz gritou que eu não servia para nada. e suponho que o fiz. de certa maneira. As crianças ficam petrificadas. na cozinha do meu tio. a abanar os braços. O meu pai foi obrigado a arranjar emprego numa fábrica de roupa. Ainda hoje me lembro desse instante. Levanta-se de um pulo e foge a correr. levava os lençóis à socapa para a pia e lavava-os. Porque é que ele me está a contar isto?. — Vou começar pelo meu nome verdadeiro — anunciou o Homem Azul. — Isto é meu — murmura. Dormíamos num colchão. ele tirou-me da escola e eu fui trabalhar com ele. »Sempre que o capataz se aproximava de mim. Um dia. A minha mãe debruçou-me sobre o varão do navio e essa tornou-se a minha recordação mais antiga de infância: a minha mãe a balouçar-me ao sabor da brisa de um novo mundo. levantei os olhos e deparei com o meu pai. Eddie também se levanta. limpando o nariz às costas da mão. 38 o capataz a insultá-lo. como se quisesse quebrar os laços de vida que nos ligavam. mas depois vê a bola junto de um cavalo de pau. Joe segue-o. de acordo com os parâmetros do mundo dele. o meu pai dizia: «Baixa os olhos. entre aqueles homens todos. Caem ambos ao chão. Senti o estômago contorcer-se de dor. filho de um alfaiate. eu não tive nada a ver com a sua morte. por natureza. à noite. — Fui baptizado com o nome Joseph Corvelzchik. Era uma criança nervosa e transformeime num jovem ainda mais nervoso. pensou Eddie. ainda fazia chichi na cama. que se esparramaram no chão. Depois. Fita o homem sem camisa e aproxima-se lentamente da bola. a praguejarem e a queixarem-se. Mas os pais podem dar cabo dos filhos e. numa voz rouca —. não dês nas vistas para ele não reparar em ti». Viemos para a América em 1894. senti uma coisa molhada na perna. com um sorriso divertido. o meu pai recusou-se a falar comigo. Vêem uma mulher gordíssima e um homem sem camisa com o corpo completamente coberto de pêlos ruivos. Eu era demasiado novo para estar ali. Aberrações da feira de aberrações. os seus lábios finos. — O que é que vocês estão afazer aqui. era uma criança inútil e tinha de me ir embora. — Vês onde ela está? — pergunta Eddie. »Depois disso. Eddie observou o rosto encovado do Homem Azul. e o barulho da fábrica piorou o meu estado. De manhã. como se fosse um anfitrião a tentar pôr um hóspede à vontade.

comecei a tomar doses maiores. por vezes três. uma aberração — explicou ele. — Despediram-me da fábrica. para mim. — Estás a compreender porque é que estamos aqui? Este não é o teu paraíso. Claro que eu nunca tinha visitado aqueles lugares. A sua voz esmoreceu. semidespido. Eu sentava-me no palco. »Num Inverno. Deduziu que devia haver uma triste história por detrás de cada um deles. Uma vez. um lugar escuro onde podia esconder-me atrás de um sobretudo e de um chapéu. Quando se é marginalizado pela sociedade. eu era o Homem Azul do Pólo Norte. ou o Homem Azul da Argélia. O Homem Azul interrompeu-se e fitou Eddie. podia passear pela praia sem assustar as pessoas. A minha pele estava a ficar cor de cinza. mas era agradável ser considerado exótico. Portanto. Por fim. A sua pele. a fumar charutos e a rir. até uma pedrada pode ser bem-vinda. Consegui. um grupo de artistas de feira sentou-se nos fundos do bar. »Daí a pouco tempo. com os latoeiros. nem que fosse num mero cartaz pintado à mão. ou o Homem Azul da Nova Zelândia. depreendi que era por não estar a tomar o suficiente. Muitas vezes se interrogara qual seria a origem dos figurantes do espectáculo de feira. Pode não parecer grande coisa mas. às vezes até com o teu pai. Tomava dois goles. jogava às cartas com os outros empregados do espectáculo. »Depois de falar com ele. Bebi ainda mais nitrato de prata. sem água. que parecia ter sido ensopada em líquido azul. enquanto as pessoas passavam por mim e o pregoeiro lhes dizia que eu era uma lástima. acabou por vir ter comigo. Peguemos numa manhã chuvosa de domingo. como é que eu ia arranjar dinheiro para comer? Onde é que eu ia viver? 39 «Encontrei um bar. em desconfortáveis carroças de circo. se vestisse uma camisa de manga comprida e pusesse uma toalha na cabeça. O «espectáculo» era simples. quando deixou de resultar. Vivia num quarto por cima da loja de salsichas. É o meu. Fui a um farmacêutico. Eddie reparou no olhar resignado do Homem Azul. vista de duas perspectivas diferentes. Ele deu-me um frasco de nitrato de prata e mandou-me misturá-lo com água e tomá-lo todas as noites. vim para este cais. Nitrato de prata! Mais tarde foi considerado tóxico. o gerente chamou-me «a melhor aberração» do seu estábulo e. no final dos anos vinte. De manhã bem cedo. por triste que pareça. — Não nasci assim. eu fiquei muito orgulhoso. 40 Peguemos numa história. O capataz disse que eu metia medo aos outros operários. em vez de andar a saltitar de terra em terra. a medicina ainda era muito primitiva. Uma noite. um efeito secundário do veneno. Eddie não conseguia tirar os olhos daquele corpo. Um deles. em que Eddie e os seus amigos estavam a fazer passes de basebol com a bola que Eddie recebera no seu aniversário. procurar qualquer coisa para os nervos.O Homem Azul fez uma pausa. em Julho. as pessoas começaram a olhar para mim de uma maneira estranha. Gostei da ideia de permanecer num lugar. Às vezes. O Homem Azul deteve-se. . »Fiquei envergonhado e ansioso. E assim começou a minha vida de objecto. fazia pregas em pequenas camadas de gordura à volta da cintura. Mas era tudo o que eu tinha e. até que a minha pele passou de cinzento a azul. assim. um tipo pequeno com uma perna de pau. — Naqueles tempos. arrecadar umas moedinhas. aceitei juntar-me ao seu grupo de feira. Edward. O parque de diversões ia abrir uma feira chamada «Os Cidadão? Peculiares». Edward. Sem trabalho. A noite. Ruby Pier. não parava de olhar para mim. essa liberdade era um luxo. »Esta tornou-se a minha casa. — Os artistas de feira deram-me os meus vários nomes.

. Eddie olha com tristeza para o jogo colocado a um canto da sala. vira para um beco. O homem consegue controlar o carro e o modelo A prossegue caminho. que pediu emprestado a um amigo para treinar a condução. O pai observa-se ao espelho. É o mesmo dia. A injecção de adrenalina deixou-lhe o coração aos pulos e. Desliza ao longo de uma avenida e. Ele sai do modelo A. O impacte faz com que o homem seja atirado contra o volante. O beco está vazio. o homem volta a guinar. — Estás a ver? — sussurrou o Homem Azul. Ele ali fica. o homem ficou esgotado. narrada do seu ponto de vista. A sua testa está a sangrar. — Eu sei — responde a mãe. Eddie treme. O carro patina. na galeria de jogos. O homem não tinha familiares. Passa uma hora. um Ford modelo A. de calças castanhas e um barrete de lã. com um mecanismo tipo garra. A estrada está molhada da chuva matinal. As vezes. É uma manhã de domingo. temos de fazer coisas menos agradáveis quando acontecem situações tristes. — Oh não. — murmurou. Tem o braço a latejar. apanha a bola e volta a correr para junto dos amigos. a apertar-lhe os sapatos. O sangue das suas artérias coronárias deixa de afluir ao coração. sem olhar para cima —. depois. os pneus chiam. a apertar a gravata. Os faróis estilhaçam-se. uma bola de basebol pula a meio da estrada e aparece um miúdo a correr atrás dela. na morgue da cidade. — Menino? Eddie sentiu um arrepio. A criança desapareceu do espelho retrovisor. a pensar que foi por um triz que evitou uma tragédia. Eddie. até que choca contra a traseira de um camião estacionado. O veículo continua a andar. — Mas é o meu ANIVERSÁRIO. O condutor trava a fundo e dá uma guinada no volante. A causa da morte é «ataque cardíaco». O carro trava a fundo. com o menino de calças castanhas a enfiar moedinhas na máquina de brinquedos. peguemos nessa mesma história vista de outra perspectiva. uma pilha de barras de metal e . sem 41 ninguém o ver. De repente. vista de duas perspectivas diferentes. Está um homem ao volante de um Ford modelo A. onde um funcionário chama outro funcionário para contemplar a pele azul do cadáver recém-chegado. tendo terminado a história. O automóvel quase colide com outro. — Eu NÃO quero ir — diz Eddie. depois desmaia no pavimento molhado. Dói-lhe o peito. mas o corpo do homem continua afectado. virando o volante e pondo o pé a fundo no travão. e a outra termina mal.há quase um ano. 42 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem oito anos. Peguemos numa história. de braços cruzados num gesto de raiva. apanha pequenos brinquedos de dentro de uma grande caixa de vidro. O médico-legista declara-o morto. Um polícia encontra-o. corre atrás dela e atravessa-se à frente de um automóvel. O segundo condutor apita. mas uma perspectiva termina bem. encolhido junto do carro. o mesmo instante. O jogo termina daí a pouco e os miúdos vão para a galeria de jogos brincar na máquina t que. como esse coração não é forte. Ouvese o som discreto de um pequeno embate. Sente-se tonto e a cabeça cai-lhe por um instante. respira fundo. vê os estragos. A mãe está agachada aos seus pés.. guina para o lado e consegue evitar o atropelamento. Peguemos no momento em que a bola voa por cima da cabeça de Eddie e vai parar à rua. mas temos de ir. Agora. Está sentado na beira de um sofá axadrezado.

Dá-lhe uma pancada com força. Joe. sabe disso. — Não. — Que nada é aleatório. Juro por Deus que não sabia. — Eu não sabia. Os homens. entra em casa com uma luva de basebol na mão esquerda. — Mas MAGOAM-ME! — queixa-se Eddie. na esperança de que. 45 — A justiça — disse ele — não comanda a vida e a morte. algumas cobrem a cara com um véu. Detesta andar com as coisas velhas de Joe. Estás aqui para eu te poder ensinar uma coisa. Tem jeito para montar coisas. que normalmente usam lamé dourado e turbantes vermelhos. Que não se pode separar uma vida de outra. — Não podias ter adivinhado. Em vez disso. — Estávamos a brincar à bola. Se o fizesse. Devia estar triste. junto de uma sepultura. como o seu pai. de repente. Porque é que você teve de morrer por minha causa? Não é justo. Eddie segura na mão da mãe e semicerra os olhos por causa do sol. É por isso que aqui estou. O irmão. Eddie estremece. Todas as pessoas que encontras aqui têm algo para te ensinar. 43 Eddie observa um homem a deitar pazadas de terra numa cova. Virou a palma da mão para cima e. nenhuma pessoa boa morreria jovem. — Esses sapatos eram meus e estão velhos — diz Joe. Foi estupidez minha desatar a correr pelo meio da estrada daquela maneira. não é? Para que seja feita justiça? O Homem Azul sorriu. estavam ambos num cemitério. — suplicou Eddie. Faz uma careta a Eddie. Um padre lia passagens da Bíblia. — Já chega! — grita o pai. Eddie abanou a cabeça. tem de ir nem sabe onde. como se a preparar-se para uma luta. O homem diz qualquer coisa sobre cinzas. lançando um olhar furioso a Eddie. Eras tão pequeno. — Mas agora tenho de pagar — disse. da mesma maneira que não se pode separar a brisa do vento. Estava com esperanças de o mostrar aos amigos. Eddie mostrou-se céptico e manteve os punhos cerrados. Eddie mal reconhece as pessoas do cais. — O quê? — perguntou. No cemitério. estão agora de fato preto. quando chegar a mil.três pequenas rodas de borracha. todo aperaltado. As mulheres parecem envergar todas o mesmo vestido preto. — Pára de te mexer — diz a mãe. Eddie não conseguia . Edward. possa ter o seu aniversário de volta. Eddie cala-se... Eddie deu um passo atrás e retesou o corpo.. na festa de aniversário. O Homem Azul fez um sinal de assentimento com a cabeça. atrás de um pequeno grupo de enlutados. 44 A primeira lição — Por favor. pelo meu pecado... Eddie estava a construir um camião. mas está secretamente a contar a partir de 1. O Homem Azul estendeu a mão. vestido de calças de lã e laço ao pescoço. Acredite em mim. pensa. — Pagar? — Sim.. Que estamos todos ligados uns aos outros. Não é justo. — Os meus sapatos novos são bem melhores.

Eddie voltou a olhar para o grupo reunido ao redor da sepultura. — Olha para os enlutados. — Os desconhecidos — disse o Homem Azul — são familiares que ainda não conheces. O nascimento e a morte fazem parte de um todo. »Dizes que devias ter morrido em vez de mim. um menino pequeno.. ou quando se despenha um avião em que poderias ter viajado. há vidas que se alteram. Foi naquele dia que o Homem Azul fora sepultado. tudo desapareceu. E dito isto. tudo isso deslizou para dentro de Eddie. durante a minha estadia na terra. Viu o padre a ler a Bíblia e as pessoas de cabeça baixa. a sua pele transformou-se num magnífico tom de caramelo — macia e imaculada. a pele mais perfeita que já vira em toda a sua vida. Este sentiu aquela sensação de calor. mas que hás-de conhecer um dia. a minha morte foi um desperdício. pensou Eddie. Eddie sentiu imediatamente tudo o que o Homem Azul sentira na sua vida a invadi-lo. Alguns nem sequer me conheciam bem. apenas as costas de chapéus. E. — Os únicos momentos que desperdiçamos são aqueles que gastamos a pensar que estamos sozinhos.. E. — Nenhuma vida é um desperdício — disse o Homem Azul. também houve pessoas que morreram em vez de mim. Perguntou-se se alguém teria comparecido. Era. O Homem Azul recuou na direcção da sepultura e sorriu. vestidos e casacos.. — Diz-me só uma coisa. depois. há tantos anos. sem fazer a menor ideia do papel que desempenhara naquela situação. Lá em baixo. puxando-o. Perguntou-se se teria tido um funeral. as espirais e torreões. — Virou-se para as pessoas enlutadas. outra qualquer escapa e. os nervos. Mas tu ainda vais encontrar outras pessoas. viu os telhados do velho Ruby Pier. bem lá no fundo. — Espera — disse Eddie. Pensamos que essas coisas acontecem ao acaso.ver caras. Quando o teu colega adoece e tu não. 46 — Mas mal nos conhecíamos. o ataque cardíaco. mas foi subitamente levantado do chão por um torvelinho e levado para longe do cemitério. »É por isso que os bebés nos cativam. — Este patamar do Céu já terminou para mim. — Espera! — gritou Eddie.. outra cresce. que todas as vidas se intersectam. Eddie estivera lá. O Homem Azul pousou os braços nos ombros de Eddie. como uma gaveta a ser fechadas» — Vou-me embora — sussurrou o Homem Azul ao seu ouvido. Eu salvei a menina? No cais. — Então. a vergonha. o Homem Azul puxou Eddie para si.. 3 HORAS DA TARDE . Quando a morte leva uma pessoa. tal como a minha vida. salvei-a? O Homem Azul não respondeu. — Continuo sem compreender — sussurrou Eddie. Quando um relâmpago cai num lugar de onde acabaste de sair. Eu bem podia ter sido um perfeito desconhecido. como se fosse derreter. 47 DOMINGO. Porquê? Já alguma vez te perguntaste isto? Porque é que as pessoas se reúnem quando morre alguém? Porque é que as pessoas se sentem na obrigação de o fazer? »É porque o espírito humano sabe. — E os funerais. a atravessar o seu corpo — a solidão. Acontece todos os dias. as bandeiras a adejar ao vento. Mas. irrequieto durante a cerimónia toda. — O meu funeral — disse o Homem Azul. mas vieram. Uma pessoa definha.. — Que bem adveio da tua morte? — Tu continuaste vivo — respondeu o Homem Azul. Mas existe um equilíbrio em todas elas. Eddie deixou cair os ombros. ao fazê-lo. na pequena distância que existe entre partir e escapar. pairando por cima de um vasto oceano cinzento.

Os primos não sabem falar inglês. numa pequena nuvem defumo de charuto. ele entrou no quarto com uns olhinhos apaixonados e disse: Joe. Seja como for. Eddie consegue sentir o cheiro dos bifes que a mãe está a grelhar com pimentos verdes e cebolinhas. — Oh. como se pudessem resolver o problema. O pai de Eddie está a jogar cartas a um canto. Puseram faixas amarelas a delimitar o perímetro do acidente. mas. Vindo de trás. não. Eddie traz uma camisa branca de botões nos colarinhos e uma gravata azul. A galeria de jogos fechou os portões. obrigando as pessoas a porem as mãos em forma de pala sobre os olhos. faz dezassete anos. dessa maneira Eddie tem uma desculpa para não se desfazer dos livros. está demasiado velho para esse tipo de coisas. Era como se todos eles — as mães. — É. Empurraram as pessoas para trás. o Eddie conheceu uma rapariga. com a camisa da manutenção encharcada em suor. mesmo com a porta fechada. A notícia de que acontecera uma tragédia espalhou-se pela praia e. Senhoras de idade levavam a mão ao pescoço. Joe. — A sério. 49 . 48 Hoje é o aniversário de Eddie Dentro do quarto. É muito grave?. a lutarem contra os maus para salvarem o mundo. mas ainda gosta daqueles heróis coloridos. Diz que vai casar com ela. — Aaah. A morte encontrava-se aos seus pés. como uma canção de carnaval tocada pelos altifalantes do parque. como se estivessem a fazer continência. — Ontem à noite. afogueado. Vários homens corpulentos de camisola de alças abriram caminho até à frente. um cheiro intenso e silvestre que ele adora. — Onde estás? Já chegaram todos! Ele rola para fora da cama e amima o livro de banda desenhada. Hoje. — Aqui vem o aniversariante — cantarola a mãe. os pais. conheci a rapariga com quem vou casar!» Eddie começa a ferver de irritação. familiares. que lhe aperta o pescoço musculoso. as crianças com os seus copos gigantescos de refrigerante — estivessem demasiado atordoados para olhar e demasiado atordoados para ir embora. Chegaram os homens de farda. mas gostam de banda desenhada. — Eddd-diii! — grita ela da cozinha. Ruby Pier estava vazio. também eles se limitaram a observar. assim que ele entra na sala. assim que lá chegaram. Chegaram os funcionários da segurança. É recebido com um coro de saudações e copos de cerveja no ar pelas visitas. Joe ignora-o. a sério? Eddie sente-se corar até à raiz dos cabelos. impotentes. As atracções do parque foram encerradas por tempo indeterminado. agarrando a cabeça com as duas mãos. Eddie! — gemeu. amigos e trabalhadores do parque de diversões. de mãos na cintura. sussurravam as pessoas. É muito grave? Soaram as sirenes. Mãe. A família de Eddie foi buscá-los ao porto e eles mudaram-se para o quarto que Eddie partilhava com o irmão. a multidão amontoava-se em silêncio à volta dos destroços da torre. Viu a carnificina. O Sol queimava. Ofereceu a sua colecção aos primos pequenos da Roménia. como o Fantasma. Dominguez irrompeu por entre a multidão. Mães puxavam as crianças para longe. quer saber a última? — grita Joe. ao pôr do Sol. — Ohhh não.No cais. que vieram para a América há uns meses. à espera das ambulâncias. Mas também eles baixaram os braços impotentes. — Cala-me essa matraca — diz Eddie a Joe. adelgaçando as sombras.

daí a nada. Mais tarde. Dão as mãos e dançam. e ela sorri e cantarola baixinho. quando os dois irmãos se agarram um ao outro ao murro e ao pontapé. Roda o botão do rádio até encontrar música. se a situação piorar. — Então — sussurra ela —. aproxima-se de Eddie. Mas a mãe.. até que Eddie a acompanha. la. dobra-o numa cadeira e. as estrelas e a lua. quando estás comigo. — Agora dancem vocês os dois — diz ela.. Depois... la. . mas ela fá-lo rodopiar com toda a facilidade. — Não faz mal — diz ela. gostas dessa tal moça? Eddie falha o passo.! Murro. Já é uns bons quinze centímetros mais alto do que a mãe. — Fico feliz por ti. Rodopiam até à mesa e a mãe de Eddie pega em Joe e põe-no de pé. — Com ele? — Mãe! Mas ela insiste e eles cedem e. Será quase impossível fazer a manutenção do parque nessas circunstâncias.— Já te mandei calar! — Como é que ela se chama. Dançam à volta da mesa. Há notícias sobre a guerra na Europa e o pai de Eddie faz um comentário sobre a dificuldade que vai ser arranjar madeira e fio de cobre. — Não é assunto para um aniversário.. O irmão sorri. pára com isso! Agora. la. girando em círculos exagerados. — Aaau! — Eddie! — Eu mandei-te calar! Joe anuncia: — E ele dançou com ela na. a debicar os últimos bocadinhos de bolo. Dançam pela sala de estar. até os primos da Roménia levantam os olhos — de lutas eles entendem —. continua a cantarolar e a dar um passinho de dança. — Laaa laa liii — canta ela. Eddie? — pergunta alguém. que está esparramado na cadeira. Alguns dos parentes mais velhos sorriem. para deleite da mãe... ou levam os dois um par de estalos! Os irmãos separam-se. Ela despe o avental. fá-lo levantar-se. Joe e Eddie estão a rir e a tropeçar um no outro. — Ela costuma ir a igreja? Eddie dirige-se ao irmão e dá-lhe um murro no braço. uma orquestra a tocar uma melodia swing. com o seu bonito rosto redondo. Uma das tias sussurra: — Ele deve gostar mesmo da tal moça.. 50 — Oh. — Aaau! — CALA-TE! — Eddie. a mãe de Eddie liga o rádio.. a acompanhar a melodia — . pegando nas mãos de Eddie. até que Eddie se desmancha e ri. mãe! — Anda lá. ofegantes e carracundos...... trocista.. — Que notícia horrível — diz a mãe de Eddie.. deixando o sofá livre. lala.. até que o pai de Eddie pousa o charuto e berra: — Parem já com isso. — Mostra-me como dançaste com a tua nova amiga — diz ela. depois de comidos os bifes especiais e apagadas as velas e de a maior parte das visitas ter ido embora.. em Junho. Eddie fica especado como um prisioneiro a caminho da sua morte.

Era esse o seu objectivo: queria construir coisas. Como nunca disparara uma arma a sério. Ouviu trovejar — ou um som parecido com o de um trovão. Escondeu-se na sua escuridão. A mãe não quis que ele fosse. Umas vezes. mesmo que o seu irmão. Levantou os olhos e viu uma espingarda enterrada no chão. O céu explodiu num amarelo flamejante. numa manhã chuvosa. Pagava-se uma moeda de cinco cêntimos e a máquina zumbia e a pessoa premia o gatilho e disparava balas de metal contra imagens de animais selvagens. insistisse em dizer: «Deixa-te disso. Eddie acordou bem cedo. Por fim. Eddie ia lá todas as tardes. nos ombros. com um capacete em cima e uma série de chapas penduradas no punho. na esperança de tirar um curso de Engenharia. E. ao parque. aterrou sobre o estômago e rastejou pelo solo. Os seus músculos estavam tesos como os arames de um piano. Também ele lutaria. e a cobardia com o depor das armas. por causa das tristes histórias multifacetadas da vida. Mas sentem sempre que o devem fazer. O nome inscrito nas chapas era o seu. encontrava-se uma carroça desconjuntada e os ossos em decomposição de um animal. porque. depois da Depressão. Eddie. e Eddie estava agora rodeado de árvores tombadas e destroços enegrecidos. à força.» . que pendiam de uma 52 árvore colossal. Já havia quem estivesse a lutar. Antes de se alistar. ainda que pequenas. Tentou recobrar o fôlego. penteou o cabelo para trás e alistou-se. cuspindo a água suja à volta dos lábios. 51 A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie sentiu os pés tocarem no chão. Eddie começou a treinar na galeria de tiro de Ruby Pier. A elasticidade desaparecera. Pestanejando por entre a chuva. sentiu a cabeça roçar numa coisa sólida. que ao longo dos séculos confundiram a coragem com o pegar em armas.enquanto os clarinetes conduzem a melodia da rádio. O medo encontrara-o. A sua corrida era diferente. O pai. não tens miolos para tanto. O céu tornou a mudar. uma vez mais. fez a barba. outras vezes como voluntários. Tocou nos braços. uma chuva espessa e acastanhada. Eddie baixou a cabeça e rastejou pela lama. O céu abriu-se e caiu um aguaceiro. os primos romenos batem as palmas e os últimos resquícios de bife grelhado se evaporam no ambiente festivo. Quando o seu país entrou na guerra. apalpou as chapas. levando os joelhos ao peito. com umas carruagens pela altura da coxa de um homem adulto. de azul-cobalto a cinza-carvão. Os jovens vão para a guerra. depois do seu turno de manutenção no caminho-de-ferro Liliputiano. um leão ou uma girafa. depois rastejou apressadamente para uma parede porosa de vinhas fibrosas. mas. Eddie sentiu um vento quente fustigarlhe o rosto. quando foi informado da notícia. O caminho-de-ferro Liliputiano era precisamente o que o nome indicava. — Quando? — foi só o que ele perguntou. Sentia-se mais forte do que antes. Já não tinha aquela sensação infantil de ser feito de borracha. agora. quando tentou tocar nos pés. Encolheu-se. as montanhas-russas se tinham tornado demasiado dispendiosas. já não conseguia. nas coxas e canelas. Eddie desatou a correr. Joe. com os passos rígidos e ritmados de um soldado. Olhou em volta para o terreno sem vida. acendeu um cigarro e exalou o fumo lentamente. explosões ou bombas — e atirou-se instintivamente para o chão. Eddie andara a trabalhar para poupar dinheiro. Numa colina ali perto. Ruby Pier acrescentara umas atracções novas. até mesmo no céu.

Vinha de cima. Febre tifóide. cujos pais tinham partido para a frente. O seu cabelo era da cor dos gelados de baunilha franceses. — Varíola — disse uma voz. as crianças pediam a Eddie para as levantar bem alto. sentiu um apertão doloroso no ombro. Eddie virou-se e cravou os olhos em Mickey. mas o par de braços errados. Lembrava-se da razão por que os soldados faziam aquilo: para assinalar as sepulturas dos mortos. olhou para 54 Eddie como se fosse chorar. e. Sentia o velho bêbado atrás de si. Eddie deu meia volta. — Ouve uma coisa. Ouvia a sua respiração trabalhosa. Numa dessas últimas noites. disparas e não pensas. Eddie juntar-se-ia àqueles homens distantes. quando Eddie lhes fazia a vontade. mulheres sozinhas com crianças. agora. Eddie encolheu os ombros e voltou a disparar. o assobio nasal a cada inspiração e expiração. rapaz? Mickey Shea estava parado atrás de Eddie. A guerra era o seu ritual de passagem para a idade adulta. estás a ouvir? Se queres voltar para casa. e o seu rosto corado da bebida. Eddie continuou a disparar. Eddie ficou especado a olhar. Depois. Febre amarela. A arma mecânica parou de zumbir. o negócio do parque decaiu. via os sorrisos tristes das mães: era o gesto certo.Mas assim que começou a guerra. devastada pelas bombas e reduzida a pouco mais do que cinzas. A moeda de Eddie já não dava para mais disparos. pensava Eddie. Rastejou de joelhos para fora do seu refúgio. A maior parte dos clientes de Eddie eram. como o pneu de uma bicicleta a ser enchido com a ajuda de uma bomba. sentiu um aperto no peito. Os jovens vão para a guerra. como um homem que acabava de receber más notícias. Pang! Outro tiro certeiro. profundamente concentrado a disparar. subitamente. Pang! Mais um. pondo fim à sua vida de olear trilhos e testar alavancas de travões. Eddie. . instintivamente. Talvez alguém também sentisse a sua falta. mais alto do que 53 a cabeça dele. Assombrara-o em sonhos. Eddie desejava que Mickey se fosse embora e o deixasse treinar a pontaria. soltou uma longa e profunda expiração. Ao longe. Disparas e disparas sem pensar em quem estás a alvejar ou a matar ou porquê. — Varíola. — É o pensar que mata. — A voz de Mickey era um rosnar grave. rapaz. Apertou o ombro de Eddie com mais força ainda. Se tiveres de disparar. Eddie estava debruçado sobre a pequena arma da banca de tiro. Uns dias depois. a tremer e todo molhado debaixo da árvore colossal. disparas. por baixo de um pequeno cume. Por vezes. Pang! Pang! Tentou imaginar-se a alvejar o inimigo. molhado de suor. como os leões e as girafas? Pang! Pang! — Estás a treinar-te para matar. Tétano. — A guerra não é uma brincadeira. Mas Mickey arrotou e cambaleou para trás. Mickey deu-lhe um estalo na cara e. os olhos a tentarem focar o cenário. De repente. Eddie pegou numa mochila e deixou o cais para trás. Afastou as vinhas e viu a espingarda e o capacete ainda espetados na terra. algures na árvore. de boca entreaberta. Depois. Em breve. encontravam-se os restos de uma aldeia. Ele conhecia-o. Pang! Fariam barulho quando ele os atingisse — pang! — ou tombariam simplesmente. Sem hesitação. A chuva parou. às vezes como voluntários. Aquele lugar. Eddie levantou o punho para retaliar. — Pfff — grunhiu Mickey. Por instantes. estás a ouvir? Sem culpa.

mais tarde. uma mochila e várias bandoleiras ao ombro. — Sobe — respondeu a voz. O Capitão era o comandante de Eddie. Caíram uns pequenos frutos aos pés de Eddie. como quem diz: «Já alguma vez tinhas imaginado que se podia fumar aqui em cima?» Depois. Aprendeu a marchar. mas sabia que não podia cair. O seu rosto estava coberto por uma substância negra como carvão. em que os homens batem nas costas uns dos outros e sorriem como se tivesse acabado — Já podemos voltar para casa.. mesmo assim. quase até ao cimo. sentado contra o tronco da árvore. tudo de uma vez. A voz era forte. Prendeu as pernas num ramo grosso e. olhando para baixo. Aprendeu a aclamação nervosa do primeiro combate sobrevivido por um soldado. Aprendeu a andar num tanque. — É o senhor. Aprendeu a barbearse com água fria dentro do capacete. não fosse acertar numa árvore e ferir-se com o ricochete. que ficava tão alto como um edifício de vários andares. Aprendeu a cuspir a uma grande distância. e Eddie nunca mais o vira. — E o senhor é. saudável como um touro. um rádio. que outras se seguirão depois dessa. capitão? Estiveram juntos no exército. Os seus olhos reluziam como pequeninas gambiarras vermelhas. — Também acertaste. Aprendeu a fumar. que fora morto em combate. uma carabina. — Fui vacinado contra todas essas doenças e. Sorriu. Aprendeu a atravessar uma ponte de corda enquanto carregava. Eddie conseguiu distinguir a figura sombria de um homem de camuflado. E Eddie subiu à árvore. — Capitão? — sussurrou. a minha segunda pessoa? O Capitão levantou a mão que segurava o cigarro. agora! — e aprendeu a depressão profunda do segundo combate de um soldado. Viu a terra lá ao fundo. 56 Aprendeu umas quantas palavras numas quantas línguas estrangeiras. Aprendeu a beber o pior café do mundo. como se o homem tivesse estado a gritar durante horas. em que ele percebe que a luta não acaba depois de uma batalha. A árvore abanou.. um sobretudo. — Explicaram-te as regras. Aprendeu a ter cuidado quando disparava de dentro de uma cova. — Estou morto — disse.— Nunca descobri o que é a febre amarela. . a queda pareceu-lhe grande. Lutaram nas Filipinas e despediram-se nas Filipinas. Ouvira dizer. Que raio. — Desce — disse ele. um tripé para a metralhadora. Uma nuvem de fumo pairou no ar. — Aposto que não estavas à espera que fosse eu. Por entre 55 os ramos mais pequenos e as grossas folhas de figueira. — E o senhor também está morto. com um ligeiro sotaque sulista e um toque de rouquidão. puxou uma longa fumaça e expirou uma pequena nuvem branca. soldado? Eddie olhou para baixo. morri aqui. Eddie engoliu em seco. — Gostas de maçãs? — perguntou a voz. também nunca conheci quem a tivesse tido. uma máscara de gás. — Nisso acertaste. Eddie levantou-se e pigarreou. hã? Eddie aprendeu muitas coisas durante a guerra.

numa ilha das Filipinas... Limitei-me a ir andando. sabe? Trabalhei na manutenção de um parque de diversões. a segredar que se está cheio de fome.. embora nunca tivesse aprendido a tornar-se um. A comida? Eddie não estava a perceber nada. Apesar disso. — Tens razão. A maior parte dos soldados gostava bastante dele. o Capitão prometia sempre que nunca «deixaria ninguém para trás». O que estou a querer dizer é que. Aprendeu que a sarna são pequeninos bichos que fazem comichão e que se enterram na pele. da montanha-russa. Tive uma vida de nada. caso fosse encontrado morto pelos seus companheiros de luta. Aprendeu a rezar muito depressa. às vezes. um militar de carreira com um andar presunçoso e 57 um queixo proeminente. Eu continuo sem saber por que estou aqui. eles mantiveram-se em contacto? O Willingham? O Morton? O Smitty? Voltaste a vêlos? 58 . que o tornava parecido com um actor de cinema da época... Eddie engoliu em seco. cuspiu por cima do ramo da árvore.. especialmente depois de usar as mesmas roupas imundas durante uma semana. a seguir. o seu grupo foi apanhado sob fogo pesado e dispersou em busca de abrigo. daqueles navios estúpidos em forma de foguetão. De repente. na véspera do combate. O Capitão apagou o cigarro. também. Era mais velho do que os homens do pelotão de Eddie. Vivi no mesmo apartamento durante anos. Aprendeu em que bolso guardar as cartas para a sua família e para Marguerite. uma noite. e no instante seguinte ouve-se um uuusssh e o colega cai para o lado e a fome deixa de ser importante. reparou na expressão perplexa de Eddie. amarelados do tabaco. Aprendeu que os ossos de um homem são realmente brancos. O senhor está. — Ouça. É escusado cuspir aqui em cima.. Aprendeu a dormir em terreno rochoso. Depois. de maneira que se lhe via os dentes todos. acontecesse o que acontecesse. da roda-gigante. a chorar como uma criança e gritou-lhe: «Cala-te!» e percebeu que o homem estava a chorar. Aprendeu que. depois de ter estado com o Homem Azul: também teria matado o Capitão? — Tenho andado a pensar numa coisa — disse o Capitão. — Isso é escusado. E também não vomitamos. — Sir. quando rompem a pele.. quando o avião de transporte está prestes a largá-los. o que reconfortava os homens. se está sentado ao lado de um colega numa trincheira. — Com o mesmo aspecto com que me viste pela última vez? — Sorriu e. os céus iluminaram-se e Eddie ouviu um dos seus amigos. coçando o queixo. Nada de que me orgulhasse. — Que faço eu aqui? O Capitão olhou para ele com aqueles olhos vermelhos cintilantes e Eddie resistiu a fazer a outra pergunta que agora o atormentava. mas muito obrigado. apesar de perder facilmente a cabeça e ter a mania de gritar na cara de uma pessoa. à medida que um ano se transformou em dois e dois anos em três. do fundo de uma trincheira. ainda estupefacto.. e que até os oficiais falam durante o sono.Aprendeu a assobiar por entre os dentes. porque havia um soldado inimigo de pé junto dele com uma espingarda apontada à cabeça. Ocupava-me das máquinas. O hálito é sempre o mesmo. — Os homens do teu pelotão. — Passou tanto tempo. Aprendeu. — voltou Eddie a dizer. que até os homens fortes e musculosos vomitam nos sapatos. Capitão. Aprendeu a capturar um prisioneiro.. — Afirmativo. Deve haver um engano. e Eddie sentiu uma coisa fria no pescoço e havia um atrás de si. — Capitão. E a comida incrível.

Se Eddie pudesse saltar e agarrar-se à asa do avião. depois cair sob uma saraivada de balas. Louco n. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie já vira na vida. e ali permaneceram durante dias. O Capitão perscrutou o seu rosto..° 3 e Louco n. 59 Em vez disso. também podia afastá-los. Tu vais!. Fora isso que ele dissera. entravam na cabana com as baionetas e abanavam as lâminas diante do nariz dos americanos. A verdade é que não tinham mantido o contacto.. quando a guerra acabou. — Vais!. só queriam esquecê-las.. acima do solo lamacento. semanas. As barracas erguiam-se sobre estacas. O Capitão acenou com a cabeça. A guerra unia os homens como um íman. eram apenas quatro e o Capitão achava que também eles se tinham afastado de um pelotão maior e que. rugia um avião. Tanto quanto Eddie sabia. iam improvisando de dia para dia. Os seus rostos eram encovados e ossudos.° 4. A sua alimentação consistia de bolas de arroz cheias de sal e. Viam-se-lhes as costelas — até as de Rabozzo. Eddie tirou uma vespa morta de dentro da taça. — Não queremos saber os nomes deles — disse ele.° 1.. Nada resultou. com cabelos pretos retintos.. O que todos disseram.Eddie lembrava-se dos nomes. Rabozzo e o Capitão foram conduzidos em rebanho e obrigados a descer uma colina íngreme. Tentei. voltei — disse Eddie. uma vez por dia.. gritando numa língua estrangeira. Eddie.. Uma jarra de barro servia de retrete. como tantas vezes acontece numa guerra a sério. — E? — E. — Sinceramente.. as coisas que fizeram. enchendo Eddie com uma súbita onda de náusea e desespero. Ao fim do dia. com as mãos na cabeça. ninguém apareceu. A noite. sabendo que essa informação seria preciosa em caso de fuga.. obrigados a dormir em sacos de serapilheira cheios de palha. À sua volta. os guardas inimigos rastejavam por baixo das barracas e escutavam as suas conversas. A medida que o tempo ia passando. Uma noite. mas. por vezes. — Sim. ele e os outros soldados foram amarrados pelos pulsos e tornozelos e atirados para dentro de barracas de bambu.. estradas. acabámos por nos afastar uns dos outros. Fiz planos. — E tu? Voltaste para o parque de diversões onde todos nós prometemos ir. As coisas que viram. nunca de lá saí. Faltavam-lhe as asas. tal como um íman. É a tortura interna de todo o soldado capturado. — Ainda fazes malabarismo? — perguntou. Ao longe. — E não queremos que eles saibam os nossos. Morton. Eddie encolheu os ombros. que era um rapaz robusto quando se alistara. se sobrevivêssemos? Bilhetes à borla para todos os soldados? Duas raparigas por soldado no Túnel do Amor? Não foi isso que tu disseste? Eddie esboçou um sorriso. Mas esta maldita perna. Não sei. à espera de respostas. Eddie viu um vulto correr por entre as árvores. a curta distância entre a liberdade e o cativeiro. Tentou fixar imagens mentalmente. Os outros pararam de comer. falavam cada vez menos. — Lamento muito. TU VAIS! Os soldados inimigos gritaram e espicaçaram-nos com as baionetas. Smitty. Nunca obtinham resultados.° 2. Mas. poderia voar para longe daquele erro. Semicerrou os olhos e baixou a voz. tudo o que conseguisse orientar —. enquanto marchavam na escuridão — cabanas. um caldo acastanhado com ervas a flutuar. Os seus captores não pareciam saber ao certo o que fazer com eles. — Encolheu os ombros. como se já estivesse à espera daquela resposta. Louco n. Um parecia demasiado novo para ser soldado. Ficaram magros e fracos. . meses. explodiam morteiros. O Capitão chamava-lhes Louco n.

para ajudar nos esforços de guerra do inimigo. Os rostos dos prisioneiros. À noite. enxadas e baldes de metal. dou-te estes seis dias. ao fim do dia. onde cinco clientes voavam em círculos até a campainha tocar. o dia em que mandara dois miúdos para o hospital com a tampa de um caixote do lixo. O Louco n. e o Capitão tapou-o com o seu saco. Sujou as calças. Morton. Cerrava um punho e batia na palma da mão durante horas a fio. Rabozzo. se me deres seis dias com ela. Quando ele abrandou o ritmo. .. Não havia luz. outros raspavam. A partir desse dia. Havia outros prisioneiros.» até os outros o mandarem calar.. o sonho mudava e nos outros cavalos estavam os quatro Loucos a espicaçá-lo. o jovem ruivo de Portland. filho de um bombeiro de Brooklyn.. ou com o irmão. O chão estava frio. estrangeiros que não sabiam inglês e que olhavam para Eddie com olhos vazios. estremecia sempre que ouvia barulho lá fora. Mas. os prisioneiros acordaram ao som de gritos e baionetas ameaçadoras. Dou-te estes dezasseis dias. Alguns usavam as pás. — Deixem-no em paz — grunhiu Eddie. inventando as palavras e contando cada noite. transpirou tanto dentro das suas roupas imundas.. Oregon. Rabozzo mal se aguentava de pé. Não havia roupa limpa para lhe dar.Os homens adaptam-se ao cativeiro. Smitty. Não era muito dado a rezas. que elas ficarem completamente encharcadas. Cerrava os maxilares. ou com Marguerite. durante o quarto mês. coçava o queixo e murmurava: «Ai porra. no carrossel dos Cavalos de Corrida. na mina. que as ondas recuassem.. Depois. sonhava que estava de regresso ao parque de diversões. 61 Durante os primeiros meses de cativeiro. amarraram-nos e conduziram-nos para dentro de uma conduta. uma manhã. portanto ele dormiu nu sobre a serapilheira.. e os quatro Loucos mandaram-nos levantar. No dia seguinte.. Os quatro Loucos não mostraram qualquer indício de compaixão. mas muitas vezes parecia estar a engolir qualquer coisa. Mas ele queria ir embora e queria vingança.. Dou-te estes nove dias. picaram-no com paus para continuar a raspar as paredes. Eddie e os outros soldados foram obrigados a arrancar carvão das paredes. mas à noite acordava frequentemente aos gritos: «Eu não! Eu não!» Eddie fervilhava. Era proibido falar. Ele fazia uma corrida com os amigos. ai porra. estavam desesperadamente pretos e os seus pescoços e ombros latejavam de tanto estarem dobrados. aconteceu uma coisa.». a sua maçã de Adão mexia para cima e para baixo. mas ainda assim rezava. Eddie adormecia com a fotografia de Marguerite dentro do capacete. Depois. A noite. dizendo: «Senhor. Eddie descobriu mais 60 tarde que estava a morder a língua. outros carregavam pedaços de lousa e construíam triângulos para suportar o tecto. Eddie caiu. se me deres nove dias com ela. Não conseguia comer. — É uma mina de carvão — disse Morton. à laia de cobertor. um rapaz magricela e falador de Chicago. ai porra. atingiu Eddie com o punho da baioneta. a fazer troça. o mais cruel dos captores. se me deres dezasseis dias com ela.° 2. Davam-lhes um copo de água de umas quantas em quantas horas. se eles não tivessem armas. que o seu pai falasse consigo — haviam treinado Eddie na arte da paciência. batia na palma da mão e pensava em todas as brigas em que se envolvera no seu antigo bairro. como o jogador de basebol ansioso que fora na sua juventude. Imaginava o que faria àqueles guardas. depois. Rabozzo apanhou uma alergia cutânea grave e uma terrível diarreia. mantinha uma cara impassível durante as horas de vigília. colocada à sua frente. Os anos e anos de espera no cais — que uma corrida acabasse. os nós dos dedos contra a pele. uns melhor do que os outros. Havia pás. estava calado a maior parte do tempo.

Estava a tentar dormir. Gritou qualquer coisa para o Louco n.° 2 abanou a arma e voltou a gritar. O Louco n.° 2 voltou a bater-lhe. a seguir. — Está pronto para a acção? O Capitão levantou a cabeça. fitando cada um nos olhos. Fez «Ahh» e riu-se. 62 O Louco n.° 4 levantaram lentamente o corpo de Rabozzo. Os seus olhos turvaram-se e o cérebro entorpeceu. levantou os olhos. Sentiu os nervos encherem-se de vida. irritado com o barulho das pedras a bater no chão.° 2 atirou terra preta para cima do corpo. quase do tamanho de tijolos. o Capitão calculava que os seus captores fugiriam. deixando ura trilho de sangue fresco. — O que é que estás a pensar fazer? 63 — As pedras — disse Eddie.° 2 fez um sorriso exagerado e pôs-se a fazer barulhinhos reconfortantes como se faz com os bebés. — O óleo é para queimar as provas — sussurrou o Capitão. para ter a certeza de que o estavam a ver. Eddie parou de rezar. de vigia. — Que têm as pedras? — perguntou o Capitão. ao lado de uma picareta.° 3 e o Louco n. atirava-as bem alto e deixava-as cair novamente. Mas o Louco n. mas finalmente decidiu levantar-se devagar. Depois. O Capitão baixou os olhos. O Capitão semicerrou os olhos. por isso necessitavam de todos os prisioneiros. — Para teu próprio bem. O Capitão achava que os esforços de guerra do inimigo eram desesperados. Rabozzo raspou mais uns pedaços de carvão e. Deixava-as cair. — Ele está doente! — gritou Eddie. Tinha duas grandes pedras. pelos pés. Três semanas depois. — Estão a cavar as nossas sepulturas. pareciam cada vez mais próximas. e o Louco n. O Louco n. enfiou-a no ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabeça. Ele e o Capitão falavam em fugir. o Louco n. como se estivesse a rezar. com as quais.° 3 estava dentro da barraca. até dos moribundos. Deixaram-no cair junto de uma parede.° 4.° 3 abanou a cabeça e murmurou entre dentes. O eco do tiro perdurou na mina. À noite. pegou na pistola. — Capitão — sussurrou. destruindo tudo. tentava fazer malabarismo. Eddie sentiu o seu corpo rasgar-se em dois. Morton levou as mãos à boca. Ninguém se mexeu. — Cala-te. depois fixou Eddie e cuspiu-lhe para os pés. Focou os olhos. de pálpebras fechadas e os lábios a moverem-se furiosamente. Se a situação piorasse drasticamente. — Eu sei fazer malabarismo — segredou Eddie. sob um céu de Lua fosca. Todos os dias. Eddie ouvia bombas a deflagrar. Riu-se a olhar para todos eles. Eddie. antes que tivessem todos o mesmo destino. Por instantes. O Louco n. pondo-se de pé a custo. Vira covas abertas por detrás das barracas dos prisioneiros e grandes barris de óleo colocados no cimo da íngreme encosta.° 3 e o Louco n. Rabozzo gemeu. parecia óleo derramado. coberto de cinza preta. havia menos corpos.sentindo uma pontada de dor espalhar-se entre as omoplatas. entediado. desmaiou.° 2 debruçou-se sobre Rabozzo. que. O Louco n. o Louco n. apanhava-as.° 2 gritou para ele se levantar. Depois disso. na escuridão. Parou de contar os dias. enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poça de sangue. e arrastaram-no ao longo do chão da mina. Levantou-lhe as pálpebras. Eddie — sussurrou Morton. que pareciam tão atordoados como os prisioneiros. na mina. apontando com a cabeça para o guarda. — O quê? Mas já Eddie gritava ao guarda: — Ei! Tu aí! Estás a fazer tudo errado! . para raspar carvão.

Os Loucos observaram-na a subir. Por essa altura.. Atirou uma pedra bem alto. arremessou-a com força contra a cara do Louco n.. O Capitão riu-se.. Riso forçado. o tipo da esqueeeerda. dois.° 2 seguiu-o. desconfiado. como o bom jogador de basebol que sempre fora.° 3 atirou a pedra a Eddie e gritou qualquer coisa.° 1. Eddie achava que. Eddie passara horas a fio a treinar no parque de diversões — com seixos. olhem.. A maior parte dos miúdos do cais sabia fazer malabarismo. agora. — Três pedras. — Aproxiiimem-se — cantarolou Eddie. com um italiano da feira que fazia malabarismo com seis pratos de uma vez. — sussurrou Eddie entre dentes.° 2 franziu o sobrolho. — Qual é a ideia? — murmurou Smitty. «Capitão. atirando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela. Eddie riu-se.. enquanto eles seguiam a pedra. mostrou as pedras e disse: — Dá-me mais uma. cada vez mais depressa.. depois contou: — Um. depois. Não era nada de especial. deteve-se... — Assim — disse Eddie e começou a fazer malabarismo sem qualquer dificuldade. pedaços de pão aos prisioneiros. alerta. Cada uma era do tamanho da palma da sua mão. este era o que lhe daria mais hipóteses.» Os guardas riram-se. A sua postura descontraiu-se. com a mão esquerda. furiosamente. o Louco n.° 1 apareceu com uma pedra grande e o Louco n.° 3 entregava.° 2. Os guardas estavam a gostar do entretenimento. — e atirou uma pedra muito mais alto do que antes.».° 3. voltou atrás para ir buscar a sua baioneta. — Se ele me der mais uma pedra. A seguir. que caiu para 65 . depois apanhou a terceira e repetiu o gesto.° 3 abriu a porta de bambu e fez o que Eddie esperava que ele fizesse: chamou os outros guardas. Eddie atirou as pedras num movimento rítmico. já Morton e Smitty estavam sentados. lala-la laaaa. — Gostas? — perguntou Eddie. sem querer. quando o interesse do público começava a esmorecer.° 3 grunhiu. em cheio contra o queixo do Louco n. O Louco n. olhem! — cantarolou Eddie. — Assim! Tens de fazer assim! Dá cá as pedras! Esticou as mãos. fingindo que as palavras faziam parte da melodia. meus caros! Eddie acelerou os gestos. de todos os guardas. O Louco n. Eddie voltou a fazer o movimento circular e sorriu. O Louco n. Morton e Smitty aproximaram-se discretamente. deu um passo atrás.Fez um movimento circular com as palmas.° 3 fitou-o. Mas. como quem diz «Têm de ver isto». Aprendera-o quando tinha sete anos. Ocasionalmente. — Eu sei fazer malabarismo. Eddie apanhou a segunda pedra e atirou-a. para impressionar o guarda. vês? — Eddie esticou três dedos.. Depois parou. mas Eddie sorriu como os malabaristas de Ruby Pier costumavam sorrir. Só mais um pouco. O seu malabarismo era cada vez mais rápido. 64 O Louco n. Cantou uma musiquinha de feira. partindo-lhe o nariz. enquanto lançava as outras duas. ele atirava as pedras ao ar.° 3 aproximou-se. O Louco n. à socapa. tudo o que encontrasse. depois entregou as duas pedras a Eddie. A meio de um passe de malabarismo. bolas de borracha.. agarrou numa pedra e. — Olhem.. — Agora! — gritou Eddie.. O Capitão aproximou-se. O Louco n. desconfiado. — O maior espectáculo do mundo. la-la-la laaaaa. Cantou: «La. Dá-me as pedras. — Três. sorriu para os outros e fez-lhes sinal para se sentarem. — Ahhh — fez o Louco n. Atirava uma pedra bem alto e observava os olhos dos seus captores.» O Louco n. fingindo-se interessados no malabarismo. para empatar. «La. Eddie tentou controlar a respiração.

— Os outros devem ter fugido. ao longo da cobertura de baunilha. que se encontrava à espera junto da parede. em Pitkin Avenue. até hoje. saltou sobre o Louco n. de lado. Os prisioneiros. bom. com a pistola do inimigo na mão. o acampamento inteiro estava vazio. Aliás. Eddie está na cozinha. magros. que ele vestirá no dia seguinte. correram para a encosta íngreme. com as mãos atrás das costas.° 3. Traz uma pequena caixa nas mãos. os quatro guardas estavam mortos. enquanto Morton e Smitty se lançavam contra as suas pernas. Pendurou-as num cabide. A porta abriu-se de rompante e o Louco n. Eddie. ou seja. todos misturados — depois. mas nada aconteceu. Eddie estava a contar com mais tiros. Havia uma cabana de abastecimentos ali perto e Morton certificou-se de que estava vazia. — Pelo Rabozzo — murmurou Smitty. que ambos caíram pela porta fora. Pergunta-se se essa não será uma fraqueza que não deveria levar para a guerra. . mais guardas para enfrentar. antes de lá entrar a correr. mas os Os de «soon» («depressa») estão colados e mais parecem a palavra «son» («filho»).° 4 entrou a correr e Eddie atirou a última pedra contra a cabeça dele e falhou por centímetros. A mãe de Eddie já limpou e passou as roupas a ferro. e Eddie sente as habituais cócegas no peito. Pegou numa pedra solta e esmagou-a contra o crânio do louco. sujando as têmporas com o muco viscoso. que está iluminado para receber os clientes da noite.. — Somos o único grupo que sobrou. O Louco n. Para o teu aniversário e. quando ele se baixou. o seu coração dar um pulo. até olhar para as suas mãos e ver um repugnante muco arroxeado. para a tua partida. o Capitão. alguém acrescentou as palavras «Regressa depressa a casa» em letras azuis floreadas. Um aponta pela janela para o Carrossel Parisience. «Regressa depressa filho». na maçaneta do guarda-fatos do seu quarto. ficava a entrada da mina de carvão. Ela sacode a chuva dos cabelos e sorri.trás quando o Capitão lhe saltou em cima. O corpo do Louco n.° 2 e esmurrou a cara dele com muito mais força do que alguma vez batera em alguém. As outras cabanas estavam vazias. mas. enquanto eles tentam dar-lhe murros no estômago. apoderando-se da sua baioneta. ouviu um tiro e levou as mãos à cabeça. — Olá. A porta da rua abre-se e Eddie ouve uma voz que faz. colocou o seu único par de sapatos bom. repetidas vezes. cheio de adrenalina. levou a mão à pistola e disparou-a ao acaso. Os barris de óleo estavam empoleirados no primeiro degrau da colina. — Cavalos! — exclama a criança. e por baixo. — Vamos queimar tudo — disse. Eddie perguntou-se há quanto tempo estariam ali sozinhos com os quatro Loucos. descalços e cobertos de sangue.° 4 com tanta força. — Trouxe-te uma coisa. Em poucos minutos. Estava a sangrar do peito. que percebeu ser sangue e pele e cinzas de carvão. E ali está ela. momentaneamente petrificado. A menos de cem metros. na entrada da cozinha. Eddie — diz Marguerite. Levantou os olhos e viu Smitty de pé junto dele.. espetou a baioneta nas costelas do Louco n. saiu com os braços cheios de granadas. espingardas e dois lança-chamas com ar primitivo. 66 Hoje é o aniversário de Eddie O bolo diz «Boa sorte! Luta muito!» e. a brincar com os seus primitos romenos. maravilhosa. quando ouviram as bombas — sussurrou o Capitão...° 2 tornou-se mole.

— Que bom — diz ele. mas depois deixa cair o sorriso e pestaneja para a chuva não lhe entrar nos olhos. um ajuste de contas. mostrando os bícepes. a tortura e a humilhação que sofreu — tudo clama por uma vingança feroz. Como acontece sempre que vê Marguerite. de repente. nesse instante. Eddie sente um desejo tão forte de a abraçar. 68 — Ei. Ele levanta os olhos para o amontoado de nuvens. Ela ri-se. Depois outra. Sorri.. embora Eddie não saiba ao certo se são gotas de chuva ou lágrimas. que estamos cheios de fome! — Ai. — Não te deixes matar. — Vem apagar as velas. com os braços cheios de armas roubadas. os homens dispersaram com o armamento do inimigo. está bem? — diz ela.. — Ainda nem sequer a abriste. — Não? Ela abana a cabeça. 69 Um soldado que acaba de ser libertado sente-se frequentemente furioso. Sal. sente como se um fio se tivesse soltado do seu coração e embrulhado em volta dos ombros dela. detêm-se na marginal. No final da noite. que já partiram para a guerra. que pensa que vai explodir. Uma gota de chuva cai na testa de Eddie. Por isso. Tiram os doces do saquinho branco. Só se quer recordar dela. Algumas das senhoras mais velhas ficam com os olhos rasos de lágrimas e Eddie deduz que também elas têm filhos. Eddie sorri. — Eddie! — grita alguém da sala. — Queres. Os dias e noites que perdeu. «frio». aproximando-a de si.Volta a sorrir. 67 — Ouve. cala-te! — Mas é verdade! Há bolo e cerveja e leite e charutos e um brinde ao êxito de Eddie. — És mesmo forte — comenta Marguerite. Mais tarde. tornando-a sua. Joe. todos lhe desejam boa sorte. Marguerite e Eddie compram guloseimas. — Não é preciso pedires-me para esperar — diz Marguerite. Eddie puxa um manipulo enforma de mão de gesso e a seta passa por «gelado». Eddie passeia com Marguerite ao longo da marginal. Salvo da pergunta que teve presa na garganta a noite toda. diz aos outros «Vamos queimar tudo». Eddie gostaria de poder parar o tempo. numa pose saída dos filmes. e há um momento em que a mãe dele começa a chorar e abraça o outro filho. de mãos dadas. arrumadores e vendedores de comida. encostados à balaustrada. que ficou na reserva por ter pés chatos. um velho trapeiro construiu uma pequena fogueira com gravetos e toalhas rasgadas e está agachado junto dela. Não se importa com o que está dentro da caixa. a acomodar-se para passar a noite. — Quente — diz Eddie. como se fosse lógico. Na praia. Ama-a mais. Imbuídos de uma nova sensação de controlo. todos concordaram de imediato. Na galeria de jogos. do que algum dia julgou ser possível amar alguém. nessa noite. «morno» e sobe até «quente». a oferecer-lhe aquela prenda. quando Morton. Conhece os nomes de todos os porteiros. — Vem. fortalhaço! — diz Marguerite. melaço e refrigerantes de fruta. os seus dedos atropelam-se. Smitty para a entrada da conduta . Eddie engole em seco. — Ele aproxima-se.

Os olhos de Eddie ardiam. de repente.. cumprida a sua missão. Talvez fosse uma sombra. — Ardam! — gritou Morton.. — Ei! — gritou Eddie. das montanhas-russas. Não tinha a certeza. ali. Smitty largou as granadas na conduta da mina e fugiu a correr. Não conseguia ouvir. zombou. correu para o ponto de encontro. baixando a arma. vindos do céu. — O quê? — Está. Morton levou a mão à orelha. Smitty. O tiro saiu veloz. Os seus olhos começaram a lacrimejar. e desecandeou uma explosão de chamas em série. Morton e Eddie para os barris de óleo. um a um. o ruído que tinham ouvido todas as noites. Eddie virou-se e teve quase a certeza absoluta de que voltara a ver. dando um passo em frente. num minuto. O que era aquilo? Pestanejou. Eddie ouviu o retumbar de um motor — o Capitão encontrara um veículo de fuga — e. — Encontramo-nos aqui. Eddie premiu o gatilho. Eddie observou. Eddie e Morton empurraram dois barris para o complexo das barracas. Talvez fossem resgatados. aqueles guardas sub-humanos de dentes estragados e caras ossudas e vespas mortas na sopa. dos miúdos na praia... O calor era intenso e tapou os olhos com a mão livre. Acabou. A sua respiração era ofegante. — Os bombardeamentos vão recomeçar daqui a nada e temos de ir embora antes disso. depois. Todas essas semanas e 70 meses nas mãos daqueles sacanas. uma espécie de celeiro. veria as chamas. atearam os seus recémadquiridos lança-chamas e viram as cabanas pegar fogo. ali. Apontou e gritou: — Acho que está ali alguém. para dentro de uma das cabanas. Perceberam? Cinco minutos! Que foi o tempo necessário para destruírem aquela que fora a sua casa durante quase meio ano. Eddie tentou focar a visão. mas não podia ser pior do que aquilo por que já tinham passado. deixando cair o lança-chamas para se aproximar mais. alguém! Morton abanou a cabeça. Era maior. Eddie deu um salto para trás. Acabou. disse ele para com os seus botões. A conduta da mina explodiu desde lá de baixo. a rastejar dentro do celeiro em chamas. quem quer que fosse. os primeiros sons de bombardeamento. saiu uma nuvem de fumo preto. e Eddie apercebeu-se de que. de Marguerite e da fotografia dela e de tudo o que bloqueara na sua mente durante tantos meses. as paredes do celeiro derreteram em chamas laranja e amarelas. Ao longe. — EDDIE! VAMOS EMBORA! Morton estava ao cimo do carreiro. — EI! MOSTRA-TE! — gritou. Morton deu um pontapé no barril. O Capitão foi procurar um veículo de transporte. a acenar para que Eddie fosse ter com ele. — EU . abriam-nos e. O bambu estava seco e. O que era aquilo? Viu uma coisa passar veloz pela porta. dentro de cinco minutos! — rugiu. — EI! — O telhado do celeiro começou a ruir. Não sabia o que lhes ia acontecer a seguir. Da entrada. Há mais de dois anos que Eddie só via homens adultos e aquela forma na 71 sombra fê-lo subitamente lembrar-se dos seus primos. mas parecia-lhe ter visto um vulto a correr no meio do fogo. depois desceu o carreiro até à última cabana.. despejando faúlhas e chamas. do cais e do caminho-de-ferro Liliputiano que costumava vigiar.da mina. Talvez voltassem para casa! Virou-se para o celeiro a arder e. um vulto do tamanho de uma criança.. Estava ainda mais perto. Vuuum. agora. — Ardam! — gritou Eddie. Empunhou a arma.

à medida que os ossos se fossem deteriorando. o resto do telhado ruiu com um estrondo. Eddie deu meia volta e. de olhos fechados para se proteger do calor insuportável e.. um pedaço de si. Na verdade. furioso. espera. de punho cerrado. puxando-o com força para trás. O seu rosto contorcido de raiva. Ali? Será aquilo? Ali... pela coxa. Desta vez. Morton tornou a agarrá-lo. Sentiu repulsa pelo cativeiro e pelos assassínios. aos berros: — EDDIE! Temos de ir embora JÁ! Eddie abanou a cabeça. a dizer-lhe para se aguentar. a totalidade da guerra invadiu-o como bílis. — Nem por isso — disse Eddie. repulsa pelo sangue e pelo muco a secar nas suas têmporas. O médico disse que ele ficaria a coxear.. «Fizemos o melhor que pudemos». qualquer coisa. informaram-no.. Eddie só sabia que acordara numa unidade médica e que a sua vida nunca mais voltara a ser a mesma. Daí a nada. e cambaleou para os destroços em chamas. Cortara vários nervos e tendões e estilhaçara-se contra o osso. Seria verdade? Quem sabe. estava dentro de um veículo de transporte e os outros encontravam-se à sua volta. — Pois foi. se aguentar. a sangrar e a arder. Gritou uma longa praga saída do fundo das suas entranhas e. lançando uma chuva de faúlhas como poeira eléctrica sobre a sua cabeça. tão cansado. Passou por uma poça de óleo ardente e as suas roupas pegaram fogo por trás. espera. atrás de uma parede? Ali? Deu um passo em frente.. Era Morton. — Não. Nenhuma delas resolveu o problema. Pior ainda. puxou o braço atrás e acertou-lhe no peito. Os aviões rugiam lá em cima e os tiros das suas armas soavam como tambores.. ao relembrar esses últimos instantes. loucamente convencido de que havia uma alma dentro de cada sombra negra. Estiveste metade do tempo inconsciente. De repente. a bala nunca fora completamente retirada. Morton caiu de joelhos. De repente. alguém o puxou para trás. O Capitão fez um lento aceno de cabeça. Nesse instante. convencido de que algum inocente estava a morrer carbonizado diante dos seus próprios olhos. Virou-se novamente para o celeiro. O sangue espirrava abaixo do joelho. fracturando-o verticalmente. repulsa pelos bombardeamentos e pelo fogo e pela futilidade daquilo tudo. Uma chama 72 amarela subiu-lhe pela canela e. em seguida. não... As suas costas estavam queimadas. — Lembras-te de como saíste de lá? — perguntou ele. Uma mão agarrou-lhe no ombro.. — Demorámos dois dias. — Não está ninguém lá dentro! Vamos embora JA! Eddie estava desesperado.. — Mas safámo-nos — disse Eddie. um pedaço de Rabozzo. pela primeira vez na sua vida. sentiu-se pronto para morrer.. uma situação que acabaria por se agravar com a idade.. e ele sentiu-se demasiado atordoado e fraco para resistir. o joelho perdera a sensibilidade e Eddie estava cada vez mais tonto e cansado.. espera. caiu no chão. O céu iluminou-se de clarões azulados. rebolando-o na terra para apagar as chamas. Eddie deu meia volta. Naquele instante. Perdeste muito sangue. só queria salvar alguma coisa. Ficou ali deitado. rolou como um saco de feijões. Eddie tinha a cabeça a latejar. Virou-se de novo para as chamas. Eddie moveu-se como se estivesse em transe. acho que está alguém ali dentro. Eddie foi submetido a duas operações.NÃO TE FAÇO. de olhos semicerrados. — Aquela bala atingiu-te em cheio. Acabaram-se as correrias. depois. Acabaram-se os bailes. Levantou os braços e gritou: — EU AJUDO-TE! MOSTRA-TE! NÃO TE FAÇO MAL! Uma dor lancinante perpassou a perna de Eddie. — O Capitão pontuou as palavras com um suspiro. . Os motores dos aviões rugiam.

— É verdade. acabara-se também a maneira como ele costumava sentir-se em relação às coisas. começou a guerra e apareceram novos homens. que o olhou com uma expressão vazia. tirou outro cigarro e acendeu-o. Eddie olhou para a sua perna. de raiva e um desejo de bater em alguma coisa. só . Assim que a encontram. O Capitão não sangrou. Eddie acenou com a cabeça. Durante os tempos de paz era uma coisa. Mas. Limitou-se a rebolar de um lado para o outro. Regressou a casa um homem diferente. Eddie abanou-o pelos colarinhos e bateu com o crânio dele contra a lama. à espera que eu lhes dissesse o que fazer. — Por que é que diz isso? — perguntou Eddie. »Até entrar para a tropa. jovens como tu. se não podia garantir a vossa sobrevivência. e agrediu-o repetidamente com murros no rosto. Achavam que eu podia garantir-lhes a vida. Mas. pendurada no ramo da árvore. agarram-se a ela como um soldado se agarra ao crucifixo. depois apontou com a ponta do cigarro para a perna de Eddie. deixando Eddie descarregar a sua raiva. Apercebia-me do medo nos olhos deles.73 por algum motivo. rezando numa trincheira. — Porquê? Seu sacana! Porquê? PORQUÊ? Lutaram no solo lamacento. na sua perna e na sua alma. Sentiu um turbilhão de emoções dentro de si. — Porque fui eu — disse ele — que te dei um tiro na perna. Deixou o cigarro cair dos dedos. fazendo com que os dois homens caíssem da árvore por entre ramos e vinhas. depois. Eddie gritou e precipitou-se com toda a força. — Isso era muito importante para nós — disse. O Capitão levou a mão ao pescoço e esfregou-o. as pessoas procuram uma pequena coisa em que acreditar. A mesa do jantar era sempre «sir» para cá e «sir» para lá. Agiam como se eu estivesse na posse de informações sigilosas sobre a guerra. Aprendi a disparar uma arma aos seis anos. — Força — sussurrou o Capitão. essa pequena coisa era aquela que eu vos dizia todos os dias. não pensaste? Eddie teve de admitir que sim. De repente. sentando-se em cima do peito dele. 74 — Espero que sim — retorquiu. Ninguém fica para trás. e todos me faziam a continência. comecei eu a dá-las. O Capitão fitou-o. — Mas é claro que eu não podia. Aprendeu muitas coisas enquanto soldado. o meu pai inspeccionava a minha cama. Semicerrou os olhos e fitou o Capitão. Tudo lhe parecia disparatado ou inútil. Eddie imobilizou o Capitão. Também pensaste o mesmo. Por fim. — Sabias — disse o Capitão — que descendo de três gerações de militares? Eddie encolheu os ombros. Levou a mão ao bolso do peito do casaco. Retraíu-se. que não sentia desde antes de morrer. como se soubesse o que ia acontecer a seguir. — Para mim — prosseguiu o Capitão —. No meio de uma grande guerra. Apanhava muitos recrutas armados em chicos-espertos. O Capitão soltou uma baforada. Todas as manhãs. Também eu me limitava a receber ordens. podia pelo menos manter-vos unidos. passei a vida a receber ordens. na verdade. chegava ao ponto de atirar uma moeda para cima dos lençóis e ver se ela saltava. O Capitão nem pestanejou. assoladora. a cada soco. que não sentia há muitos anos: uma onda feroz. A guerra alojou-se dentro de Eddie. As cicatrizes da operação estavam novamente presentes. a lutar o caminho todo até lá baixo. E a dor também.

fora assombrado por aquele instante. Durante tantos anos. por causa do seu ferimento. Tinha a cabeça suja de lama e folhas. — O que te aconteceu a ti. Fora transportado de helicóptero para o hospital militar e. — A minha. Eddie largou-o e caiu para trás. Os meses depois da guerra foram negros e depressivos. Apontou numa direcção por cima do ombro de Eddie e Eddie virou-se para olhar. exausto. Está farto. Um homem larga a arma e fica com um olhar vazio. Não. com o cotovelo a prender o peito de Eddie — te teríamos perdido naquele incêndio.. 75 — Estavas obcecado. — A sua voz esmoreceu e tornou-se um sussurro. Doíam-lhe os braços. mudou de endereço. — A minha vida! — Eu dei-te cabo da perna — explicou o Capitão. esqueceu-se dos pormenores. Eddie estava estendido no banco de trás. Quase deixaste o Morton sem sentidos. lembras-te? — perguntou o Capitão. queimado. — No teu caso. ninguém conseguiria lutar contigo. de repente. geralmente. 76 — Voltaste a ver-me? — perguntou. Não consegue lutar mais.. — Porque — disse ele calmamente. Que raio de ideia me passou pela cabeça? Se eu não tivesse entrado lá. Eddie estava ofegante. pegou em Eddie e deitou-o por terra. Precisou de um minuto para compreender o que o Capitão acabara de dizer. com outro pelotão. ao virar da esquina. peeeerna! — gritou Eddie. as cabanas a arder. que o Capitão não sobrevivera. fora desmobilizado e enviado para casa. como se fosse para casa. — Porque é que eu não morri? — Ninguém podia ficar para trás. baixinho — para te salvar a vida. hora? O Capitão prosseguiu. descalço. que mudara toda a sua vida. — Não havia ninguém dentro da cabana. como se vivesse ali mesmo. mas sempre pensara que morrera num qualquer combate posterior. os aviões a aproximarem-se. enquanto Morton atava um torniquete acima do seu joelho. E.com um braço. não foram as colinas áridas. Tinha a cabeça a andar à roda. acaba por levar um tiro. Os bombardeamentos . passaste-te à frente de um incêndio. O que viu. querias entrar no celeiro desse por onde desse.. A respiração de Eddie esmurrava-lhe o peito como um martelo. Achei que um ferimento na perna acabaria por sarar. Eddie sentiu uma última onda de raiva e agarrou no Capitão pelos colarinhos. Um dia. Viu os dentes manchados de amarelo. Eu não podia deixar-te morrer carbonizado. meses depois. agitado. «os outros»? O Capitão levantou-se e sacudiu um graveto que estava preso à sua perna. — Os outros? — repetiu Eddie. sem a abrir sequer. Um homem sai da tenda e começa a andar. semiconsciente. Tínhamos um minuto para sair dali e. não tinha o mínimo interesse em relembrá-los. Terias morrido. mas a noite da sua fuga... O Capitão conduzia o veículo que transportava Smitty.. Aproximou-o de si. Tirámos-te de lá e os outros levaram-te para um posto médico. Às vezes. — Às vezes é a meio de um combate. ferido. chegou uma carta com uma medalha lá dentro. com uma lua fosca no céu. seminu. Ouvira dizer. é a meio da noite. mas Eddie pô-la de parte. Com o tempo. aquele erro. do tabaco. à conta da tua força. um minuto antes de sairmos daquele lugar. E não era chegada a tua hora. Um soldado chega a um determinado ponto em que não consegue continuar. por fim. já vi acontecer a tantos outros. Eddie nunca mais o vira. — Como. — Foi como te disse — continuou o Capitão. — A minha. — Tétano? Febre amarela? Aquelas vacinas todas? Não passaram de um enorme desperdício do meu tempo. Morton e Eddie... quando ele tentou impedir-te de lá entrar.

— A meu ver. Tem o dia de ontem. depois detevese. — Tem estado este tempo todo aqui. sem as cinzas de carvão a mancharem-lhe o rosto. como se o sol estivesse a acender e a apagar. mas tem também outra coisa. Atirou o Capitão a seis metros no ar e desfê-lo em pedaços. Fez sinal aos soldados. Foi nesse instante. num sussurro. — Estava à tua espera. Eddie percebeu que aquele era o local onde o Capitão fora enterrado.. cartilagem e centenas de bocados de pele carbonizada. Um avião aproximou-se no céu e ele levantou os olhos para ver se era do inimigo. — Acorda na manhã seguinte e tem todo um mundo novo à espera dele. mas isso corresponde ao dobro do seu tempo de vida. Eddie reparou nas poucas rugas do seu rosto e na melena de cabelo escuro. Que horror! Que tragédia! O Capitão acenou com a cabeça e desviou o olhar. como uma chama arrotada pelo centro da terra. que se ouviu um pequeno clique por baixo do seu pé direito. — Estás a perceber? Nunca tive muito jeito para ensinar. meu Deus! Ai. à espera? — perguntou Eddie. depois apontou para os olhos. descalço. Mas agora. — A primeira noite de Adão na Terra? Quando ele se deita para dormir? Ele julga que acabou tudo. — Morrer? Não é o fim de tudo. que serpenteava por entre o arvoredo. Havia um portão. Achamos que é. Eddie ficou com um ar perplexo. O Capitão fez um sinal de assentimento. — Acho que é como diz a Bíblia. como o solo caía a pique de ambos os lados. enquanto estava a olhar para o céu. a carroça desconjuntada e os restos queimados da aldeia. meu Deus — disse Eddie. Correu o melhor que pôde. Fez sinal a Morton para se pôr ao volante. a história de Adão e Eva. — Está aqui desde que morreu — disse Eddie —. Disparou contra o trinco e abriu o portão. soldado. certo? — Mas não está — prossegue o Capitão. Sem caixão. Mas o que acontece na Terra é apenas o começo. com os braços. O céu negro iluminava-se de uns tantos em tantos segundos. meu Deus! Eu não fazia ideia. 78 A segunda lição — Ai. 77 A mina terrestre explodiu imediatamente. O caminho estava livre. . As colinas haviam regressado ao seu estado de aridez. mas. O lugar onde fazemos com que o nosso ontem tenha sentido. Capitão. Sem funeral. Sente os olhos a fechar-se e pensa que está a deixar o mundo. Puxou da cigarreira de plástico e bateu nela com o dedo. Devia ter apenas trinta e poucos anos. Sempre o imaginara tão mais velho. — Sentou-se ao lado de Eddie. 79 O Capitão sorri. É isso o Céu. — Ai. com os ossos de animais. cinquenta metros para lá da curva do carreiro. Apenas o seu esqueleto destroçado e a terra lamacenta. O veículo guinou ao chegar ao cimo da colina. fechando os olhos e deixando cair a cabeça para trás. O Capitão pegou numa espingarda e saltou do carro. é isso mesmo que se passa aqui. uma coisa improvisada de madeira e arame. — O tempo — respondeu o Capitão — não é o que tu pensas. não é? Não sabe o que é o sono. — disse o Capitão. não podiam contorná-lo.estavam cada vez mais perto.. Eddie observou o Capitão atentamente. alguns dos quais voaram por cima da terra enlameada e foram aterrar nas árvores. indicando que ia inspeccionar o caminho. um amontoado ardente de ossos. Eddie baixou os olhos.

porque se sentiu inspirado pelo exemplo de Rabozzo. mas também ganhaste algo em troca. Pensou na amargura que sentira na sequência do seu ferimento. Portanto. Estendeu a mão. — Capitão? — disse Eddie. Eu fiz outro. »Não percebeste que os sacrifícios fazem parte da vida. Ramos novos e viçosos despontaram como bocejos. ainda espetados no chão.. Todos nós os fazemos. — Bom. Não paravas de pensar no que tinhas perdido. O Capitão estalou a língua contra os dentes. Só ainda não te apercebeste disso. »Eu também não morri em vão. Mas tu estavas irritado com o teu. Eis o que tens de saber de mim. teríamos morrido os quatro. »Um homem vai para a guerra. Eddie sentiu as suas costas endireitarem-se. todos nós podíamos ter pisado aquela mina terrestre. Grandes sacrifícios.. Uma mãe trabalha para que o seu filho possa ir para a escola. pensou no que o Capitão perdera e teve vergonha. Colocou o capacete e as chapas debaixo de um braço. mas ele contou-te e agora está longe daqui e. a espingarda e as chapas. quando sacrificamos uma coisa preciosa. com as palmas das mãos abertas. não podia? Foi o que disse o Homem Azul. Não te deves arrepender deles. Estendeu a mão. as vinhas grossas caíram dos ramos da árvore e derreteram-se no solo. a sepultura simbólica. Eddie abanou a cabeça. na raiva por tudo o que tinha perdido. Deteve-se por um instante e olhou para o distante e enevoado céu cinzento. Nesse caso. dentro de poucos instantes. — É verdade que te alvejei — disse ele — e que perdeste qualquer coisa. Depois. porquê este lugar? . O Capitão virou-se. Eu também ganhei uma coisa. — Era disto que eu estava à espera. — Mas o Capitão. ele também estava à tua espera. As vezes. — Sacrifícios — disse o Capitão. Em seguida. De repente. — Baixou a voz. limpou os restos de cinza do rosto. Ele sacrificou-se pelo seu país e a sua família percebeu isso. — Tu fizeste um sacrifício. como se já estivesse à espera que aquilo acontecesse.. — O quê? — Cumpri a minha promessa. E assim que as coisas são. Não te deixei ficar para trás. — Mas é isso mesmo que importa. É algo a que as pessoas devem aspirar. Estamos apenas a passá-la a outra pessoa. O Capitão olhou de relance para cima.. Pequenos sacrifícios. parte do motivo por que viveste e como viveste. também eu estarei longe daqui. ouve-me com atenção. 81 — Sim? — Porquê aqui? Podia ter escolhido qualquer lugar para esperar por mim. Fez parte da tua vida. não a perdemos realmente. — Perdoas-me pelo tiro na perna? Eddie pensou por um instante. Voou pelos céus e desapareceu. — Perdeu a vida. Uma filha regressa a casa para tomar conta do pai doente. com um assobio. Então. cobertos de folhas macias e verdejantes e bolsas de figos.— Foi o que disse o Homem Azul. Naquela noite. e o irmão mais novo tornou-se um bom 80 soldado e um grande homem. parte da história que precisavas de saber. O Capitão dirigiu-se para o capacete. em seguida arrancou a espingarda da lama e arremessou-a como uma lança. Não chegou a aterrar. — Rabozzo não morreu em vão. O Capitão apertou-a com firmeza.

A seguir. dada a maneira terrível como o Capitão morrera.. desligou a torneira e pôs a ideia de lado. Dominguez entrou bem cedo na oficina. — Para ti. — Não consegui dormir — disse Dominguez. Os destroços derreteram. Era uma beleza imaculada. Mas os nossos olhos são diferentes — disse o Capitão. por cima do horizonte. Quando voltou a levantar os olhos. As nuvens turvas afastaram-se como cortinas. O título dizia: «Tragédia no parque de diversões». — Porque morri num campo de batalha. uma família militar. — Deu uma gargalhada. Fui morto nestas colinas. tendo abdicado do seu ritual de ir buscar um pãozinho e uma bebida para o pequeno-almoço. — Só queria saber. — Não te posso responder. brilhante. Passou as mãos pelo jorro. — Que se passa? Willie encontrava-se à porta da oficina. Atirou-lhe o capacete e as chapas. »O meu desejo — explicou o Capitão — era ver como era o mundo sem guerra. o solo passou de lama a relva verde. Deixei este mundo sem conhecer muito mais do que a guerra: linguagem militar.. Antes de começarmos a matar-nos uns aos outros. mas ele foi trabalhar à mesma e ligou a água da pia. — Preciso de saber uma coisa. deixei de fumar. — Mas há alguém que pode. — Já agora. — Porque é que eu haveria de fumar no paraíso? Começou a afastar-se. Eddie deixou cair a cabeça. planos militares. — São teus. revelando um céu azul safira. já o Capitão tinha desaparecido. . Eddie olhou à sua volta. Ergueu uma mão e a paisagem chamuscante transformou-se. envergonhado por estar a fazer aquela pergunta. Eddie olhou para baixo. Salvei a menina? Senti as mãos dela. Uma ténue névoa branca desceu sobre as copas das árvores e um sol cor de pêssego empoleirou-se. agora. — O que tu vês não é igual ao que eu vejo. levantando os braços — é o que eu vejo. mas não me consigo lembrar. O Capitão coçou a pele atrás da orelha. Parecia tudo ainda mais silencioso do que há um minuto. A minha morte. pura. No cais. as árvores cresceram e propagaram-se. rodeavam a ilha. Dentro da aba do capacete estava a fotografia amarrotada de uma mulher. — Mas isto é a guerra. intocada. pensando que ia limpar algumas peças das máquinas. Eddie levantou os olhos para o seu antigo comandante. que novamente lhe trouxe dor ao coração. 83 SEGUNDA-FEIRA. 82 O Capitão virou-se e Eddie engoliu as suas palavras. Também isso foi visto só pelos teus olhos. — Isto — disse o Capitão. O parque estava fechado. é só isso — murmurou entre dentes. Trazia um jornal na mão. — Espere — gritou Eddie.O Capitão sorriu. cujo rosto estava limpo e a farda subitamente passada a ferro. reflectido em oceanos cintilantes que. luxuriante. Vestia uma camisola verde e calças de ganga largueironas. Ficou parado durante uns instantes. soldado. Fitou Eddie com olhos de compaixão. 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA Na manhã após o acidente. a absorver o cenário.

faziam com que os clientes parecessem viajantes numa carruagem de comboio. se o Capitão estava errado. parecia que se estava a tornar no homem que fora na Terra. Willie levou a mão ao bolso da camisola. mais flácido. Quando lhes tocou. O céu parecia puxá-lo e ele sentiu-o tocar-lhe na pele. depois deu um beliscão no joelho esquerdo. entre duas cristas. em silêncio. como sal espargido sobre o firmamento esverdeado. Tornou a pestanejar. depois da sua conversa com o Capitão. — Willie deixou-se cair num banco de metal. Espreitou lá . Era segunda-feira.. levou as mãos aos ombros. Ficaram sentados. Apareceram estrelas. o ferimento desapareceria. — Pergunta à polícia. rochas agrestes e encostas absolutamente roxas. Deu meia volta no banco. pensou Eddie. Estava nas montanhas. que. pessoas a falar e a gesticular. — Eu também não consegui. Num planalto. não estavam nem frios. estava um edifício em forma de vagão com uma fachada de aço inoxidável e um telhado vermelho como um barril. Ali. reluzindo com um brilho dourado. mas o seu ventre estava mais mole. — Quando é que achas que voltam a abrir o parque? Dominguez encolheu os braços. com cumes cobertos de neve. Perguntou-se. Eddie pestanejou. por instantes. Foi envolto por uma explosão de fumo. Eddie sentiu uma pontada lancinante e contorceu-se de dor. com cicatrizes. Os flocos soltaram-se. afastou-se a alta velocidade e explodiu em tons de jade. gordura e tudo o mais. e uma fileira de janelas com pequenos painéis em toda a fachada. milhões de estrelas. em vez disso. fitando o jornal com um olhar vago. como um cobertor reconfortante. tocou no seu corpo. no campo coberto de neve. Eddie conseguiu distinguir várias pessoas através das janelas. à procura de uma pastilha elástica. desta vez. nem molhados. uma imagem mais semelhante à que ele fazia do paraíso. encontrava-se um vasto lago negro. Hesitou. completamente isolado. Mas. Levantou o pé e sacudiu-o com vigor. A paisagem austera e silenciosa era de cortar a respiração. durante algum tempo. A Lua reflectia-se reluzente nas suas águas. Eram todos iguais: mesas com tampos brilhantes e bancos de correr de costas altas. Atravessou a neve e contornou uma rocha enorme. a mudarem de posição um de cada vez. Os músculos dos seus braços continuavam fortes. Eddie passara muitas horas em lugares como aquele. De repente. Eddie reparou numa luz colorida e trémula que mudava ritmicamente de tantos em tantos segundos. . Dominguez suspirou. Estavam à espera que o velhote aparecesse e desse início ao dia de trabalho. de incredulidade. até chegar a uma extensa clareira de onde partiam as luzes. O letreiro no topo piscava a palavra: «RESTAURANTE». se não havia mais ninguém à sua espera. uma cordilheira sem fim. agora. como que por turnos. Deu um passo nessa direcção — e percebeu que tinha neve pelos tornozelos. Ao fundo. Um típico restaurante americano. Estava 85 convencido de que. ao peito. 84 A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu Um vento súbito levantou Eddie do chão e ele rodopiou como um relógio de bolso na ponta de uma corrente. mas eram as montanhas mais espantosas que já tinha visto. Porque é que o Céu nos faria reviver a nossa própria decadência? Seguiu as luzes trémulas ao longo do estreito. se teria terminado. interminável. que engoliu o seu corpo numa torrente de cores. Era de manhã. Subiu os degraus cobertos de neve que conduziam à porta de painel duplo. do lado de fora. Uma vez mais.— Eu sei. Onde estou eu agora?. à barriga.

Marguerite. colocando-as em números pares. partiria o vidro. Eddie senta-se. Pareciam pertencer a décadas diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de colarinho alto. A perna dentro do gesso. Um homem negro de camisa de operário não tinha um braço. gritou-a tão alto. consegue continuar. estava sentado um casal de idade. muito depressa — muitosanosdevida. uma e outra e outra vez: — Pai! Pai! Pai! 87 Hoje é o aniversário de Eddie No átrio sombrio e estéril do hospital militar. a cantar baixinho. dos anos trinta. O soldado na cama ao lado acorda aos gritos: — QUE RAIO? — Percebe onde está e deixa-se cair na cama. — Para o menino Ed-die. — depois.para dentro. O grupo entra no quarto de Eddie.. parece demasiado pesada para voltar a erguer-se no ar e só a voz de Eddie. por mais vezes que Eddie a gritasse. cremes de manteiga amarela. O que viu... Estacou. doze do outro. a tremer na sua solidão. deixando cairão chão dois cigarros soltos. Deu meia volta e tornou a olhar.. no canto direito. depois bateu desvairado nos painéis da janela. Sentia o coração aos pulos no peito. Nenhum deles olhou. encostado a uma almofada. se continuasse. quando Eddie bateu na janela. Tem um par de muletas junto da cama. a outra a segurar um charuto. Os seus olhos deslizaram até à última mesa. sem nunca levantar os olhos. Joe. e um rapaz de cabelos compridos com o sinal da paz. — Não — ouviu-se a si mesmo sussurrar. parabéns a. Mas a figura dentro da cabina. Os outros — o pai de Eddie. a comer uma tarte. não lhe ligaram. à espera de serem servidos — comida das cores mais suculentas: molhos de um tom vermelho intenso. a observar. A sua direita.. que a sua cabeça começou a latejar. não poderia ter visto. doze de um lado. finalmente se formar na sua garganta. Virou as costas para a porta. com uma mão pousada em cima do tampo. Um elevador pára ao fundo do átrio. a palavra que não pronunciava há décadas. As pequenas chamas serpenteiam. interrompida. Mickey Shea — estão de pé à volta dela. tatuado no braço. As portas abrem-se e sai uma maca. A mãe de Eddie acende as velas. vamos — diz ela. — Está pronto.. então. As suas queimaduras estão enfaixadas. . Uma rapariga adolescente exibia um corte profundo de um lado ao outro do rosto. continuou debruçada. a mãe de Eddie abre a caixa branca da pastelaria e reordena as velas no bolo. — Não! Não! — Bateu até ter a certeza de que. — Não! — Continuou a gritar até a palavra que queria. — Não! — gritou Eddie. — Parabéns a você. sem se aperceber da presença de Eddie. dos anos sessenta. sentada à mesa. A canção. Muitos dos clientes pareciam ter sido feridos. Olha para aqueles rostos e sente-se consumido por um desejo tremendo de fugir. aproximando-se umas das outras. Viu cozinheiros com chapéus brancos de papel 86 e pratos de comida fumegante em cima do balcão. com os casacos pendurados em cabides. Gritou essa palavra. — Alguém tem um fósforo? Palpam os bolsos. Havia outros clientes sentados em bancos giratórios junto ao balcão de mármore ou dentro das cabinas das mesas. envergonhado. Mickey retira uma carteira de fósforos de dentro do bolso do casaco. Inspirou fundo várias vezes.

enfiada em gesso da coxa até ao tornozelo. o pai jogava às cartas. — A tua mãe trouxe-te um bolo — sussurra Marguerite. Eddie retesa todos os músculos do corpo e tenta. Joe arranja espaço em cima de uma pequena mesa. aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. enquanto ele tirava o cinto e lhes batia. Vê-la no corredor. lançando um olhar fulminante ao marido. Os estragos causados pelo pai de Eddie foram. o pai avisava-a para «não se meter». antes de o parque abrir. — Et. Alguns pais deixam manchas. agarrada ao roupão e tão indefesa como ele. passada uma hora. então. Vasculhava os poucos brinquedos. mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante. para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior. alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos. na cama. Muito boa cara. tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas. calejadas e vermelhas de . Óptimo aspecto. 90 «Pára de respirar por cima do meu ombro!». Eddie raramente ia para o colo do pai e. como um vidro cristalino. frequentemente embriagado. que as lágrimas regressem às bolsas lacrimais. com o casaco no braço. atirando-os contra a parede. Eddie repara no olhar dele. A mesa tinha dinheiro. A juventude. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram. Depois. É inevitável. cigarros e regras. — Onde é que havemos depor isto? Mickey pega numa cadeira. Fica parado contra a parede do fundo. piorava ainda mais a situação. Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais. Os outros apressam-se a concordar. mesmo quando ela o fazia. os estragos da negligência. Eddie murmura: — Obrigado. em cima de caixas de ferramentas. a olhar para a perna de Eddie. A mãe de Eddie dava-lhe carinho. disse. outros provocam brechas. como se fosse a sua vez. Noutras noites. Mãe. eu posso ajudar!». o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar. em criança. de manhã. mas. Quando era bebé. Pelo menos quatro noites por semana. obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo. Eddie nunca mais se aproximou. Eddie esperava pela atenção do pai. O pai baixa os olhos e passa a mão pelo parapeito da janela. 89 Todos os pais prejudicam os filhos.Joe pigarreia. 88 Mostra-lhe a caixa de cartão. o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. geralmente ao fim da tarde. Ela olha em volta. A regra de Eddie era simples: não incomodes. dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. dizia «Eu posso ajudar. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si. durante horas incontáveis da sua juventude na marginal. duras. Sim. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce. garrafas. a todo o custo. Aos sábados. Muitas vezes. mas. Marguerite afasta as muletas de Eddie. Ainda assim. Apenas o pai não se mexe por mexer. estás com boa cara — diz ele. costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. sem reparação possível. A mãe de Eddie dá um passo em frente. mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão. o pai de Eddie levava-o ao cais. absorve as impressões de quem a manuseia. sentado nas balaustradas ou empoleirado. no início. na oficina. o pai encarregava-se da disciplina. em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse. Uma vez.

uma vez. iniciara um ritual de sinalização com o pai. reuniam-se à volta da mesa do jantar. — Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele. Uma vez. deparou com Eddie a dormir no . Anos depois. Ao longo desse tempo todo. manobrando as alavancas dos travões. foi trabalhar para a oficina. Apontava para uma corrente enredada e dizia: «Conserta-a». porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. deixaram de falar. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias». à mesa do jantar. disse ele. No campo de basebol.» Ainda assim. Eddie limpava-as com a unha do polegar. uma noite. mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. de vez em quando. apesar de tudo. imitava o horário de Verão do pai. «só tem resistência para a água. levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. o seu dinheiro. a cozinhar ao fogão. a força com que ia ser espancado. Outras vezes. Eddie adorava secretamente o pai. Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via. estalos e chicotadas. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto. pelo soar dos passos no corredor. O estrago da violência. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado». Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar. o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e. depois de terminada a sua tarefa. As unhas de Eddie. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo. Não deixes que ninguém lhe toque». No início. o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. Os estragos estavam feitos. Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». Joe. Tens de tomar conta do teu irmão. «Aquele». Quando Eddie começou o liceu. quando ele o fazia. junto do pátio da escola da Avenida 14. como lhes chamava a mãe —. tentando retirar a sujidade. a falar pelos cotovelos. abdicando de palavras ou 92 de afecto físico. tão bronzeado e limpo. tarde. Também 91 isto recebia a aprovação do pai. então. a mãe rechonchuda e transpirada. quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco. fazendo os carrinhos parar suavemente.raiva. como as do seu pai. Recusa de afecto. o irmão. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e. antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja. E de todas as vezes. com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. estavam manchadas de gordura e. como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira. Sabiam o que sentiam e ponto final. E. depois da negligência. e mostrou as suas próprias unhas sujas. Tudo devia ser feito internamente. Davalhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. os seus fatos-de-banho. Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. na Avenida Beachwood. A noite. Sem tomar consciência disso. quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família. Esse foi o segundo estrago. mesmo que não faça sentido. o pai de Eddie deixava uma ruga de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. um rapaz dedica-se ao pai. quando voltou para casa. E. Foi depois da guerra. Eddie corria de base em base. mesmo que não haja explicação para tal. e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros. limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples. Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar. e o velho sorriu. o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. O pai de Eddie não ficava impressionado. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher. Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. Tu é que és forte. Apanhou o pai a observá-lo.

Eddie não se lembrava dela. tão ferido. silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado. O pai voltou a gritar. — Ele não te consegue ouvir. até no Céu. A saia tinha uma fivela a imitar um brilhante. As suas roupas pertenciam a uma época anterior à dele. Eddie levantou a cabeça num gesto brusco. tão ralos em alguns pontos que se via o crânio rosado por baixo. quase inexplicavelmente. O seu pai. Nunca mais voltou a falar com o filho. E assunto encerrado.. Para ele. suspenso no ar. a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova. as suas narinas adejaram. Eddie mexeu-se ligeiramente. O seu rosto era encovado. Baixou a voz e grunhiu: — Vês? Não. O velho arregalou os olhos. ARRANJA UM EMPREGO! Eddie apoiou-se nos cotovelos. — Não fiques irritado — disse uma voz feminina. com molas e ganchos de cada lado. A sua postura era elegante. proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego. remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi. estava uma velhinha. O silêncio. Diante dele.. novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor.. Negligência. cosido com missangas brancas e encimado por um laço de veludo mesmo abaixo do pescoço. — Levanta-te — gritou. O velho olhou para a perna de Eddie.. assim. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento. E. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar» mas. Ela implorava. Era a primeira vez que Eddie se defendia. e. cambaleante. silêncio no casamento de Eddie. o seu rosto a escassos centímetros do dele. Os estragos estavam feitos.. a cada dia que passava. a ver o carrossel. mesmo com Marguerite. Esta foi a marca final no vidro de Eddie. em vez de aguentá-la como se a merecesse. pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. com um corpete tipo bibe. para que deixasse o rancor para trás. Sentiu o hálito a álcool e cigarros. As trevas do combate tinham mudado Eddie. Raramente falava. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te. batom cor-de-rosa e os cabelos brancos puxados para trás. Assombrou os seus restantes anos de vida.. a esfregar o joelho ferido. algures para lá da morte.. o pai estava cada vez mais agitado. um vestido de seda e chiffon. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e.. ele ainda desejava. os 93 dentes rangeram e ele recuou. Passava horas a olhar pela janela da cozinha. agora. Lançou um olhar fulminante ao pai. era sinal de fraqueza. Violência. Esta foi a sua vida juntos. Nao compreendia o conceito de depressão. a face flácida.. mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar.. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se. chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias.sofá. na neve. Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve. o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão. mas o pai de Eddie limitava-se a dizer. — Levanta-te. .. segurando uma sombrinha com ambas as mãos. Usava uns óculos de aros metálicos sobre uns olhos pequenos.. estás. e arranja um emprego! O velho estava trôpego. Silêncio. por entre os maxilares cerrados. Não saía de casa. e soltou o braço das garras de Eddie. azuis.. Todos os pais prejudicam os filhos. Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro. — CHEGA! — gritou Eddie. um homem que o ignorava..

— É lindo. Ela sorriu. Fui uma rapariga trabalhadora. Só me lembro daquelas mãozinhas. Não me lembro do acidente. — Posso falar com Deus? — Podes sempre falar com Deus. O irmão. Ela abanou a cabeça. «Um dia». outrora. Quem era aquela mulher? Pelo menos. Eddie interrompeu-a. que a morte significasse o reencontro com aqueles que haviam partido antes dele. — À minha vida. Tias e tios. — Porquê? — repetiu Eddie. Tu é que estás. Eddie coçou a cabeça. Marguerite. no caso do Homem Azul e no caso do Capitão. Já fora a tantos funerais. sorrindo como se o tivesse ouvido. Ele hesitou. Porque não sinto que tenha percebido tudo. Porque não me sinto um anjo. então. faz parte da minha eternidade. — Porque é que o meu pai tem de estar a salvo para si? Ela hesitou. tinha uma lembrança do lugar que eles ocuparam na sua vida. Porquê um desconhecido? Porquê agora? Eddie desejara.. . pegara no seu chapéu e postara-se num cemitério com a mesma pergunta exasperante: Porque é que eles partiram e eu continuo aqui? A mãe. obrigada a abandonar a escola aos catorze anos. Havia qualquer coisa na velha senhora que o intrigava. — Porquê? Porque este lugar não faz sentido para mim. sabe? Queria desviá-la do caminho e devo ter pegado nas mãozinhas dela e foi então que eu. algures. — A senhora é.» Onde estavam eles. 94 — Nem sempre fui rica — disse ela. Não queria ouvir mais uma história. Sentiu-se mais só do que nunca..Eddie calculou que devia ter sido rica. Não. dizia o padre. nos confins de uma cidade. Tocou na neve que não era fria. como se já a tivesse visto numa fotografia. não é? — comentou a velhinha. Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser boa pessoa? Posso prometer ir à missa todos os dias? Qualquer coisa? — Porquê? — Ela parecia divertida. De repente. A luz do restaurante não passava agora de um mero pontinho. polira os seus sapatos pretos de cerimónia... como uma estrela que caíra numa ravina. sim — respondeu ela. Eddie seguiu o olhar dela. — Posso voltar? Ela semicerrou os olhos.. se aquilo era o Céu? Eddie examinou a estranha mulher. estavam no sopé da montanha. E as minhas irmãs também. são e salvo. 95 — Posso ver a Terra? — sussurrou. Nem sequer me lembro da minha própria morte. com a mão nua que não sentia a humidade. — Vem — disse ela. voltar — insistiu Eddie. num tom peremptório. O seu amigo Noel. a minha terceira pessoa? — Sou. Todos os tostões que ganhávamos iam para a família. — Voltar? — Sim. — Fui criada como tu... — Porque é que o meu pai não me consegue ouvir? — perguntou.. Mas ele não está aqui. aquela menina que eu estava a tentar salvar. se é assim que me devia sentir. Àquele último dia. «todos nos reencontraremos no Reino do Céu. — Porque o espírito dele. antes de fazer a pergunta seguinte.

E eu soube. As minhas irmãs ralhavam comigo. era capaz de tudo quando metia uma ideia na cabeça. »O nosso namoro foi maravilhoso. »Devo acrescentar que. As pessoas não deviam ter paz de espírito. basta procurá-la dentro de nós. Usava um fato às risquinhas e um chapéu de feltro. — Mas eu conheço-te — anunciou ela. soltando o ar. — A senhora era empregada do Seahorse? — É verdade — respondeu ela. envergonhado por se identificar com aquelas criaturas indefesas a contorcerem-se na teia. que as minhas irmãs nunca mais teriam de me aborrecer para eu tomar uma decisão. os pesadelos. ouvi o seu riso forte e confiante. 96 Mas calou-se e disse: — Não me leve a mal. com um sorriso. Emile fizera fortuna rapidamente. contendo o riso. Aquele lugar. Soprava uma brisa e Eddie sentiu um ligeiro perfume. fui uma rapariga trabalhadora. Talvez te lembres? Ela apontou para o restaurante e. Era um gastador. um aventureiro. Tinha os cabelos pretos muito bem cortados e o bigode escondia um sorriso constante. . Mas quando falou com o colega. não é verdade. embora não houvesse um lugar onde o fazer. O meu emprego era servir às mesas. naquela época — prosseguiu a velhinha —. — A senhora? — disse Eddie. — E não me lembro de mais nada. A saia comprida formava pregas ordeiras à sua volta.Encolheu os ombros. orgulhosa. — Morreste? — disse a velhinha. isto. apanhadas e sem fuga possível. Detestava as pessoas que já nasciam ricas e adorava fazer coisas que «uma pessoa sofisticada» jamais faria. — Ah. Pensou em contar-lhe o tumulto que sentia todos os dias. Fez-me sinal para eu o servir e eu tentei não ficar embasbacada a olhar para ele. de repente. Ele costumava ir lá tomar o pequeno-almoço. antes que seja demasiado tarde. «Pára de ser tão selectiva e arranja um homem. — Como já disse. abanando a cabeça. eu era uma moça jeitosa. um dia de manhã. numa pose de senhora elegante. diziam elas. porque Emile era um homem de posses. quando morrem? — Todos temos paz de espírito — disse a velhinha —.» »Então. então. Tinham-no deitado abaixo há anos. investindo em madeira e aço. Encher-se de gordura. Eddie suspirou. — Servia café aos trabalhadores das docas e peixe frito e bacon aos marinheiros. Sentou-se no ar e cruzou as pernas. Ela sentou-se. Depois apareceu a senhora. eu conto-te. como costumavam dizer. Eddie lembrou-se. Quando pagou a conta. depois da guerra. — Faleceste? Passaste para o outro lado? Foste ao encontre do teu Criador? — Morri — disse ele. — Não. Claro. sim? De onde? — Bom — disse ela —. Levava-me a lugares onde eu nunca tinha estado. «Quem é que tu julgas que és?». as vezes que fora passear sozinho para as docas e vira os peixes a serem puxados em redes de malha larga. — Não — teimou Eddie. o cavalheiro mais bem-parecido de sempre entrou pela porta do restaurante. se tiveres um instante. comprava-me roupas lindas. oferecia-me refeições que eu nunca provara. mas eu nem sequer a conheço. Ficava perto da costa onde cresceste. com as costas muito direitas. Deve ter sido isso que o atraiu para uma rapariga pobre como eu. Apanhei-o duas vezes a olhar para mim. disse que se chamava Emile e perguntou se me podia visitar. naquele preciso 97 instante. na minha vida pobre e limitada. num restaurante chamado Seahorse Grille. os outros. a incapacidade de sentir entusiasmo fosse pelo que fosse. Recusei muitos pedidos de casamento.

no apartamento por cima da padaria. costumava perguntar Eddie. O seu cabelo negro e espesso está acamado de suor. ergueu as diversões mágicas: as corridas e montanhasrussas. Um dia. Mandou vir animais. as viagens em barcos a fingir e os caminhos-de-ferro em miniatura. operários municipais e artistas de feira e estrangeiros. »Emile contratou centenas de trabalhadores. para captar a felicidade daquele instante. para evitar a inevitável rigidez da perna esquerda. A entrada foi a última coisa a ser feita e era verdadeiramente grandiosa. Quando retirou a venda. afastando-se de Eddie. em breve. na aldeia. os nós dos dedos. A velhinha deu um passo atrás. 98 — Emile — continuou a velhinha — construiu um lugar maravilhoso. Havia torres e espirais e milhares de luzes incandescentes. Espera que a sua respiração acalme. Sabia. Emile meteu uma nova ideia na cabeça e jurou que. Um passo e uma hesitação trôpega. — A entrada? — disse ela. tentando não acordar a mulher. No fim da linha. os adivinhadores do peso e as raparigas do mundo do espectáculo. eram meras oportunidades de negócio para as empresas de caminhos-de-ferro. quando estávamos sentados na areia. como se estivesse desapontada. ele pediu-me em casamento. Na casa de banho. por hábito. — Não te lembras? Nunca pensaste no nome do parque? Onde trabalhavas? Onde o teu pai trabalhava? Ela tocou ao de leve no peito. Na verdade. — Eu — disse ela — sou a Ruby. e não na guerra. à noite. Acorda bruscamente. depois sai lentamente da cama.»Uma dessas coisas era visitar as estâncias de veraneio. Adorava os parques de diversões.. com uma venda a tapar-me os olhos. com o mar a roçar os nossos pés. Toda a gente o dizia. Depois. tentando desesperadamente focar o braço. eu pude ver com os meus próprios olhos o que ele fizera. Aquele pesadelo. Sabem onde trabalho?. É aí que eu trabalho. examina os seus olhos raiados de sangue e lava a cara. os ciganos. um cais enorme feito com a madeira e o aço das suas empresas. Não vale a pena voltar a adormecer. Disse-lhe que sim e ouvimos o riso das crianças a brincar à beira-mar. fez um acordo com uma empresa de caminhosde-ferro. Pestaneja com força na escuridão. Foi assim que nasceu a maior parte dos parques de diversões. como se estivesse a apresentar-se formalmente. 99 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e três anos. ia construir um parque de diversões só para mim. Eddie começa todas as manhãs da mesma maneira. Quando ficou pronta. Depois. acrobatas e palhaços. «Fiquei delirante de alegria. para ser eternamente jovem. Uns anos depois. Importou um carrossel de França e uma roda-gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. as cartomantes. sabias? Eddie acenou com a cabeça. embora a maior parte das pessoas não o soubessem. levou-me lá. se via o parque do convés de um navio no mar alto. qualquer coisa que lhe indique que ele está ali. Pensavam que os parques de diversões eram construídos por duendes com varas de doces. fez uma pequena vénia. com falta de ar. no incêndio. Pousa primeiro a perna direita. E adorávamos ambos o mar. a comida salgada. — Emile cumpriu a sua promessa. que os erguiam no final das suas rotas. com a sua mão coberta por uma fina luva branca. É sempre o mesmo . Acabará um dia? São quase quatro da manhã. que andava à procura de uma maneira de aumentar o número de passageiros no fim-desemana. para que os trabalhadores tivessem um motivo para andar de comboio ao fim-desemana.. Fitou-o com uma expressão estranha. A velhinha sorriu. tão intensas que.

a gritar por Eddie. Só sabe que houve alguma coisa que se interpôs no seu caminho. Debate-se com a escuridão dentro de si: «Deixa-me em paz». uma canção conhecida. Nessa noite.» Marguerite acaba de cantar e dá-lhe um beijo na boca. um véu cinzento que lhe turva o dia. 101 — Sou a Ruby. E ali permaneceu. As cabanas da aldeia estão imersas em fogo e ouve-se um constante ruído. acorda. vive no apartamento do rés-do-chão. Batem à porta. desistiu de estudar engenharia e desistiu da ideia de viajar. Ele aproxima-se para voltar a beijá-la. «Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo. satisfeita. Doces. com o vestido estampado de que Eddie gosta.. O táxi está parado à esquina.. Eddie percebeu porque é que a senhora lhe parecia conhecida.. o padeiro. Algo invisível atinge a perna de Eddie e ele bate-lhe. estaciona o táxi à esquina. na sua última noite na guerra. — És tu? Ele levanta o saco branco.. De sua casa. chega-lhe uma música. de cabelo arranjado e lábios pintados. Acomodou-se à sua vida. O pior não é a insónia. Veste-se sem fazer barulho e desce as escadas. diz ele à escuridão. com o tempo. a barrar-lhe a passagem. mas não acerta. atado com uma fita. — Eddie! Estás em casa? Eddie? O Sr. e depois aparece Smitty. A entrada primitiva de Ruby Pier fora uma espécie de marco . — disse Eddie. — Querido? — grita Marguerite do quarto. nos fundos da loja. — Marguerite aparece. Sobe as escadas lentamente. ele sente-se oprimido. Tens um telefonema. Como é que ele lhe pode explicar tanta tristeza. ele está parado à entrada. quando ela supostamente o faz feliz? A verdade é que nem a si próprio ele é capaz de o explicar. Ela acaricia-lhe 100 os cabelos e pergunta «Que se passa?» e ele responde «Nada. Eddie tem necessidade de inspirar fundo. Ela acenou com a cabeça. «Deixa-me sentir isto como devo. — Queres lutar comigo pelos doces? — sussurra ela. As chamas tornam-se mais intensas. Quando Eddie abre a porta. — Parabéns a você. Eu não queria fazê-lo. Depois. E a seguir. Ofegante. Tem um telefone. Do cais. entre os antigos manuais e a papelada do primeiro proprietário do parque. a cantarolar na sua doce voz meiga. ele acabou por desistir de tudo. A suar.pesadelo: Eddie a vaguear por entre as chamas das Filipinas. até que. Está linda. O pior é a escuridão total em que o sonho o deixa. — A velha entrada. volta a bater e volta a não acertar.» Abre a porta e vê um bolo em cima da mesa e um pequeno saco branco. Sempre o mesmo.. a gritar: «Vamos! Vamos!» Eddie tenta falar. — Desce. da garganta sai-lhe um guincho muito agudo. Acho que aconteceu alguma coisa ao teu pai. no seu lugar habitual. quando abre a boca. puxando-o para baixo do chão lamacento. algures nos fundos da oficina da manutenção. De repente. Parece preocupado. Nathanson.. mas. Vira uma fotografia dela. de roupão. como se não fosse digno daquele momento. estou só cansado» e deixa o assunto ficar por aí. rugem como um motor. Nunca fala com Marguerite sobre a escuridão. Até nos seus momentos felizes. — Eddie — diz ele. e Eddie limpa a humidade do pára--brisas. agudo como um guincho. sente uma coisa agarrar-lhe nas pernas. quando Eddie regressa do trabalho.

para aquecer comida. uma gigantesca estrutura em forma de arco. Um incêndio terrível. Naquele tempo. como se estivesse a ler algo que se encontrasse no seu colo. Perdeu a sua fortuna. Ela abanou a cabeça. Emile fizera um seguro básico para o parque. baseada num templo francês. na véspera. Esse empresário manteve o nome. Ruby Pier. — Que desejo? — perguntou Eddie. vendeu o terreno carbonizado a um empresário da Pensilvânia. Estava muito calor. É claro que ele tinha de ir. 103 A velha senhora ficou sentada. A velhinha sorriu. mas foi em vão. »O espírito de Emile ficou destroçado como o seu corpo. e tempos depois reabriu o parque. — Foi no Dia da Independência. — Mas isso foi destruído há tanto tempo — disse Eddie. só para esse fim-de-semana. Eddie perscrutou o vasto céu cor de jade. — Numa só noite. sob a qual passavam todos os clientes do parque. — Incêndio — disse a velhinha. — O resto aconteceu muito depressa. — Que Emile nunca tivesse construído aquele parque. a entrada com o meu nome e o meu retrato. »Mas. era tudo feito de alcatrão e madeira. Tinha de ir para o meio daquele incêndio horrível tentar salvar os seus anos de trabalho. Acabou por perder a cabeça. — Lamento pelo seu marido — disse Eddie. Deteve-se.. Se o Dia da Independência corresse bem. Acenderam uma fogueira num barril de metal. e alguns dos estivadores decidiram dormir ao relento.histórico.. Ruby juntou os dedos e levou-os à boca. 102 »À medida que a noite foi avançando. dizia ele. Aventureiro como era. Só passados três anos é que conseguiu andar pelo seu próprio pé. quando uma coluna caiu sobre ele. atrás das barracas dos operários. encontrava-se o rosto pintado de uma bela mulher. . aconteceu uma coisa. talvez o Verão inteiro fosse bom. — Houve um grande. a maior parte estivadores. que quem quer que tivesse construído Ruby Pier pudesse ter feito outra coisa qualquer com o seu dinheiro. «Desesperado. As pessoas saíram à rua. em silêncio. A magnífica prenda que me oferecera fora consumida pelas chamas. com colunas estriadas e uma cúpula no cimo. mesmo depois de o Sol se pôr. Portanto. o Quatro de Julho. às bancas de comida e às jaulas dos animais.. Ruby. começaram a beber e a fazer uma grande pândega. já Ruby Pier estava a arder. Pensou na quantidade de vezes que desejara a mesma coisa. «Implorei para que Emile não fosse até lá. Contratou inclusivamente mais operários. de raiva e medo. O fogo propagou-se à avenida central. as faúlas espalharam--se pelo parque. Emile mandou lançar fogo-de-artifício. onde vivemos uma vida modesta. Pegaram nuns foguetes do fogo-de-artifício e rebentaram-nos.. «São óptimos para o negócio». Estava a atirar baldes de água para a entrada. Mas já não era nosso. para um pequeno apartamento. Os estivadores fugiram. eu a tratar do meu marido ferido e a alimentar silenciosamente um só desejo. O Emile adorava feriados. um feriado. e quando a entrada pegou fogo. Quando alguém foi a nossa casa avisar-nos. à noite. ele perdeu a noção de onde se encontrava. Ouvimos os cascos dos cavalos e os motores dos carros dos bombeiros. Deteve-se. as nossas vidas mudaram para sempre. Desta mulher. por muito menos do que valia. vimos aquelas terríveis chamas cor de laranja. Soprava um vento forte. acima de tudo por não saber o que mais dizer. — Ela deixou cair o queixo e os seus olhos espreitaram pelos óculos. Da nossa janela. Contratou uma banda. — Pois foi. Por baixo dessa cúpula. Mudámo-nos para uma terra longe da cidade.

— Nunca mais quis ver aquele parque. — E as pessoas que nascem antes da nossa época também nos afectam. também. — Portanto. Agora. com a voz a tremer. Criámos três filhos. o incêndio. Tinha as roupas cheias de areia.. Faltava-lhe um sapato. Estava furioso por ela querer assumir a responsabilidade. meu querido. Eddie — disse a mãe. Pelo telefone. O telefonema era da mãe de Eddie. com o cinto de ferramentas e o martelo. — O que é que podia ter feito? — perguntou Eddie. A culpa era do pai. que nunca teriam existido. doente como estava. como sempre. Disse que ele cheirava a mar. que não passava de um bêbado. veio falar-me sobre o meu emprego? — Não. O dia seguinte foi pior ainda. eu devia ter feito alguma coisa. O pai tivera um colapso nessa tarde. Emile andava mal. no início dessa semana. — Conquistei cada uma delas. Contou-lhe que uma noite. Estava com uma febre altíssima. perto do Foguetão Júnior. tu não terias acabado por ir trabalhar para lá. formou-se uma bruma de condensação. — Se não fosse por Emile. naquele restaurante buliçoso em que a minha vida era simples. na ponte leste da marginal. o seu corpo começou a definhar como um peixe que deu à costa. quando Emile andava a fazer-me a corte. não parou de tossir e suar dentro do pijama. — E a tosse piorou.. estas rugas? — Ela levantou o rosto. se não fosse pelas pessoas que viveram antes de nós. e os netos. muitas vezes pensamos que eles começaram a existir assim que nós lá pusemos o pé. — Passamos por lugares. Eddie era capaz de apostar que cheirava a álcool. — Vinha a tossir muito — explicou a mãe. Quando expirou. tudo isso acontece» antes de eu nascer.. — Vim dizer-te porque é que o teu pai morreu. Os meus filhos iam lá e os filhos deles também.. ouviu-a a chorar. Ai. Os nossos locais de trabalho. Os amigos insistiam em dizer: «Amanhã ele . explicou ela. que respirava água salgada. o seu pai regressara a casa de madrugada. Eddie franziu a testa. Se não fosse pelo nosso casamento. Eddie esfregou as têmporas. Devia ter feito alguma coisa. mas à noite recusou-se a comer e. nos conhecemos? Alguma vez foi ao parque de diversões? — Não — disse ela.. nos confins de uma cama de hospital. eu não teria sido casada. na cama. todos os dias.. tivera um colapso. — O médico disse que é pneumonia. Devíamos ter chamado imediatamente um médico… — A sua voz esmoreceu. O pai de Eddie costumava dizer que passara tantos anos à beira-mar. O seu estado passou de estável a grave. Não é verdade.— Obrigada. não haveria um parque de diversões. A minha ideia de paraíso ficava o mais longe possível do mar. Mas eu não.. — Não compreendo.. Está a ver esta cara. — Até as coisas que acontecem antes de nós nascermos nos afectam — explicou ela. passava a vida a entrar e a sair do hospital. — A sua história. 104 Eddie coçou a cabeça. Bateu com as pontas dos dedos umas nas outras. E agora. Ele fora trabalhar nesse dia. encharcado até aos ossos. porque é que eu aqui estou? — perguntou ele. num tom de voz mais suave. onde passamos tantas horas. O seu peito encheu-se de expectoração. Surgiram complicações. Nós alguma vez. meu querido — respondeu Ruby. — Estou com medo. longe daquele oceano. — Então. Deixou-me viúva aos cinquenta e poucos anos. Mas vivemos muitos anos depois daquele incêndio. Se não houvesse o parque. nessa tarde.

pedra sobre pedra. que durante anos se recusara a falar com Eddie. Uma noite. como se ele tivesse partido numa curta viagem —. Eddie viu-a a empilhar pratos em cima da banca. Ajeitava as almofadas de ambos os lados da cama. ali estava ele. Eddie visitou o pai no hospital. Falava com o marido como se ele ainda estivesse presente. Agora. fez a única coisa que lhe passou pela cabeça: levantou as mãos e mostrou ao pai as suas unhas manchadas de óleo. nem sequer tinha forças para tentar. Por fim. não — respondeu a mãe —. trabalhava ao serão. Nas semanas que se seguiram. rapaz — disseram os outros empregados da manutenção. Os momentos que costumavam defini-los — a aprovação de uma mãe. Na ausência do pai. sob as águas das suas vidas.já estará em casa» ou «Daqui a uma semana. apesar de apenas um dos lados estar ocupado. Quando Eddie era adolescente. Meteu-o no bolso. No dia seguinte. Como a maior parte dos filhos de operários. depois de se esforçar em vão por dizer uma só frase que fosse. ele volta para casa». o pai. a olear os trilhos. Cozinhava para duas pessoas. elásticos. Vasculhou por entre moedas. a pedido da mãe. Só muito mais tarde. foi a casa dos pais. a mãe de Eddie viveu num estado de atordoamento. o assentimento de um pai — são substituídos por momentos marcados pelos seus próprios feitos e conquistas. — Não te preocupes. a testar as alavancas. É o sacana mais duro que já vimos. Entrou devagarinho no quarto. disse-lhe uma enfermeira. como se pudesse encontrar um pedaço do pai dentro de uma delas. mais tarde. apesar de tudo. Eddie pousou a mão no ombro dela. Não havia nada de heróico numa bebedeira na praia. Gritava para ele baixar o volume do rádio. sempre que se queixava ou parecia farto do cais. canetas e um isqueiro com uma sereia de lado. as suas histórias e todos os seus feitos e conquistas assentam sobre as histórias dos seus pais. Eddie e Marguerite limpavam-lhe a casa e faziam-lhe as compras de mercearia. Os pais raramente se libertam dos filhos. O funeral foi modesto e breve. uma noite. contas de electricidade. para contrabalançar a vulgaridade da sua vida. encontrou um baralho de cartas. Quando chegou a notícia de que o seu pai morrera — «partira». depois 105 de largar o táxi. depois de terminar o liceu. . o teu pai depois arruma-os. Por fim. Eddie deu uma ajuda na oficina do parque. o seu pai retorquira: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E agora. portanto os filhos libertam-se deles. entrou no quarto deles e abriu todas as gavetas. quando a pele começa a 106 ficar flácida e o coração se suaviza. Os proprietários do parque reconheceram o seu esforço e pagaram-lhe metade do salário do pai. — O teu velho vai resistir. a fazer o trabalho do pai. — Não. No fundo. Observou o filho por detrás de umas pálpebras pesadas. Eddie quase desatara a rir e o pai tornara a dizer: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E antes de Eddie ir para a guerra. no cais. inclusivamente a reparar as peças avariadas. um alfinete de gravata. Eddie imaginara para o seu pai uma morte heróica. o que estava a fazer era a assegurar o emprego do pai. o pai irritava-se: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E. Mudam de casa. Eddie. Eddie sentiu a raiva mais vazia do mundo. é que os filhos compreendem. Mudam. — Eu ajudo-a — disse ele. quando sugerira que Eddie arranjasse emprego no parque. a verificar as pastilhas dos travões. quando falara em casar com Marguerite e estudar Engenharia. que ia para o hospital todos os dias e dormia lá a maior parte das noites. Ele entregou o dinheiro à mãe. uma pequena garrafa de conhaque de maçã. aquele tipo de raiva que anda em círculos dentro da sua jaula.

no seu turno. apartamento 6B —. — Feliz aniversário. agora era suficientemente boa para ele. nem a ninguém —. Noel fecha a revista. — Como é que um tipo destes se pode candidatar a presidente? É um puto! Eddie encolhe os ombros. Ouviu a notícia. levanta-se da mesa. Noel. Eddie ajudou-o a arranjar o contrato de limpeza das fardas da manutenção de Ruby Pier. — Toma — murmura ele. Eddie põe a língua entre os dentes. Eddie nunca o disse — nem à mulher. antes de o parque se encher de clientes. — Mas nós somos mais velhos — murmura Eddie. ouve histórias daquelas. mas amaldiçoava o pai por ter morrido e por o ter aprisionado na mesmíssima vida da qual tanto tentara fugir. e estremece. onde Eddie aceitara um emprego que lhe permitiria 107 zelar pela mãe. ao sábado de manhã. De vez em quando. — Tens aí o sal? — pergunta Eddie a Noel. — E verdade. em Ruby Pier. Beberica o café. Não há dia que passe sem que ele tenha medo que o mesmo aconteça ali. — Que me dizes deste tipo todo bem-parecido? — diz Noel. 109 — Conheces alguém que trabalhe lá? — pergunta Noel. que lhes provocou a morte. Noel trabalha no ramo das lavandarias. como se uma vespa tivesse passado a zumbir junto da sua orelha. pelos vistos. baixinho. . O pequeno-almoço está a arrefecer. — Será assim tão difícil manter os saleiros cheios? — Que bicho te mordeu? Estás armado em gerente do restaurante ou quê? — pergunta Noel. Eddie abana o saleiro com força. ouviste o que aconteceu em Brighton? Eddie faz um sinal de assentimento com a cabeça. ele e Marguerite mudaram-se para o edifício onde Eddie crescera — Avenida Beachwood. Eddie encolhe os ombros. — Onde é que ele foi? No dia seguinte. uma vida que — e Eddie conseguia ouvir o pai rir-se na sepultura —. um posto para o qual ele se preparara Verão após Verão: empregado de manutenção de Ruby Pier. Um parque de diversões. Aquela é a rotina de ambos: pequeno-almoço uma vez por semana. — A sério? — diz Noel. — É mais ou menos da nossa idade. debruça-se sobre outra mesa e pega no saleiro. Eddie dirigiu-se à central e pediu a demissão. Uma gôndola. levantando uma sobrancelha. A manhã já está quente e pegajosa de humidade. um acidente num parque qualquer. Mãe e filho sofreram uma queda de vinte metros. Tem um exemplar da Life aberto na fotografia de um jovem candidato político. Houve qualquer coisa que se partiu. onde os corredores eram estreitos e a janela da cozinha tinha vista para o carrossel. 108 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e sete anos. com a boca cheia de salsichas. Baixa o tom de voz.— Mãe — disse ele. nem à mãe. — Pensei que uma pessoa tinha de ser mais velha para se candidatar a presidente. — O pai já cá não está. Duas semanas depois.

Noel faz uma careta. Noel levanta uma sobrancelha. — A minha mãe precisava de apoio. a fumar um charuto. um dia acordamos e não conseguimos dizer que dia da semana é. demasiado frio. Um espelho partido na Casa do Riso. as pessoas dependem de nós. que não devia ter mais do que quatro anos. Eddie espeta o garfo no ovo. apanhei um puto. Fazemos o mesmo trabalho entediante dia após dia. Pergunta-se quem será o encarregado da manutenção do parque de Brighton. — Está bem — cede. para o interessar. e daí? . — E daí? Eddie vira-se para o lado. recorda a si mesmo. — E daí? — Se cair por entre as brechas. Agora. As pessoas deviam ter mais cuidado. Passa um velhote de panamá. 111 A terceira lição — O parque era assim tão mau? — perguntou Ruby. 110 — A que horas sais hoje? — pergunta Noel. quando Noel fala das corridas de cavalos. — Sim. — Aposto em como vai deitar o charuto para o chão. Eu era um homem da manutenção. — Podíamos ir às corridas. nada... Fixa o olhar para lá da janela. Sabes como é. Eddie solta o ar. agora.— Não — responde. Os anos foram passando. Verão. Pensa na carga de trabalho que tem hoje. — Vai ser um dia cheio. — Não foi uma escolha minha — disse Eddie. às seis. — Ele era muito duro contigo — disse a velhinha. hoje — diz Noel. Sábado. dandolhe espaço como quem cede o lugar a um passageiro num autocarro à cunha. Costumas estar sempre assim tão animado quando fazes anos? Eddie não responde. — Anda lá. tem de encomendar mais cola. Nunca ganhei dinheiro a sério. Pensa sempre em Marguerite. — És uma anedota.. Sabe como é: habituamo-nos a uma coisa. já se habituou a ela. chapéus de sol. num grupo de veraneantes à saída da estação de comboios. Noel enfia uma garfada de salsichas na boca. — Ah. com um suspiro. exactamente como. Nunca vivi noutro lugar. prestes apor uma beata de charuto na boca. Pensa naquelas pobres pessoas de Brighton. São os produtos químicos que põem na madeira. fazes anos. Cola. vai pegar fogo. Eddie pensa em Marguerite. Novos pára-choques para os carrinhos. — Não conheço ninguém em Brighton. Sente-se logo o cheiro. feitas de alumínio leve. — Como o teu pai? Eddie não respondeu. — E daí. Transportam toalhas. A velha escuridão instalou-se dentro dele. sim? — diz Noel. Eu acabei por nunca sair de lá. Eddie baixou os olhos. Uma coisa levou a outra. — Olha para aquele tipo — diz Eddie. Começa logo a arder.. Ontem. é só isso. Alguns trazem inclusivamente a última novidade: cadeiras de armar. cestos de verga com sanduíches embrulhadas em papel.

até outro momento no tempo. e enterrou o rosto por barbear abaixo da face dela. — Mas sei uma coisa que tu não sabes. cobrindo-lhe o pescoço de lágrimas. Começou a soluçar. Ela estendeu instintivamente a mão. Era há muitos anos. Mickey estava trôpego. irritado. O roupão caiu. por um instante apenas. Depois. levantou-se e cambaleou até ao quarto. chamavamlhe —. Encharcado até aos ossos. Ruby apontou com a ponta da sombrinha e desenhou um círculo na neve. Estavam ambos aos gritos. — Começaste a trabalhar depois disso. A chuva caía . O marido agarrou-a pelos ombros. Mickey aproximou-se. — A senhora não o conhecia. um molhe estreito que se estendia pelo mar adentro. mas não conseguiu conter-se. — É verdade. a caminho da rua. com ar preocupado. Eis o que viu: Viu uma tempestade no extremo mais longínquo de Ruby Pier — «o extremo norte». a seguir gritou e empurrou o peito de Mickey. — E sabe qual foi a última coisa que ele me disse? «Arranja um emprego. Tirou os sapatos e o vestido de andar por casa. Abriu a porta. O pai de 113 Eddie gritou. Sabe quando foi a última vez que ele falou comigo? — Aquela vez em que tentou bater-te. não passava de um ruído indistinto. Deu um passo para o lado do círculo na neve e desenhou outro. Arranjaste um rumo. — Que raio foi isto? — gritou Eddie. Quando Eddie olhou para o círculo. — Duvido. Eddie sentiu um estremecimento de raiva. mas não conseguia ouvir o que eles os dois estavam a dizer. Depois. De repente.» Belo pai. virar-se. Fez-lhe sinal para esperar e foi até ao quarto e fechou a porta. incrédulo. até ao fundo de um buraco. 112 — Ouça — disse ele. Mickey levou as mãos à cabeça e precipitou-se para a porta. Eis o que viu: Viu a mãe. e não parava de esfregar as mãos na testa e ao longo da cana do nariz. Ela tapou-se com um roupão. sentiu que os seus olhos lhe caíam das órbitas e viajavam sozinhos. Eddie lançou-lhe um olhar irritado. Empunhou o martelo. o seu peito ofegante. na antiga casa. o seu rosto coberto de lágrimas. semivestida. A mãe de Eddie trouxe-lhe um copo de água. debruçando-se sobre ela. sentada à mesa da cozinha. Estava novamente a cair. depois pegou na mão dela. Abanou-a violentamente. Ela contorceu-se. para o afastar. surpreendida. Mickey estava com um aspecto terrível. com um martelo pendurado no cinto. a porta da rua abriu-se e o pai de Eddie parou na ombreira. a ignorar o copo de água. desfazendo um candeeiro com o martelo. Eddie podia ver todos os quartos. sentado à frente dela. A mãe de Eddie começou a chorar. derrubando o pai de Eddie. — Ela pôs-se de pé. Eddie viu a mãe. hã? A velhinha cerrou os lábios. — Que raio foi ISTO? A velhinha manteve-se calada. a tirar um frasco de dentro do casaco e a beber um gole. O céu era preto azulado. molhado da chuva. lentamente. Viu Mickey Shea. Pegou numa blusa e numa saia. de frente e de trás.— Talvez também tu fosses muito duro com ele. o pai de Eddie saiu do apartamento. tornando-se testemunha de uma cena. segurando-a pela cintura. As imagens tornaram-se definidas. Mickey detevese. Voou escada abaixo e correu para a noite chuvosa. agarrou na mãe de Eddie e encostou-a à parede. sempre agarrada ao roupão. Ele era maior e mais forte. Correu para o quarto e viu Mickey a agarrar a sua mulher. Viu Mickey na cozinha. Eddie tentou não olhar para baixo. E está na hora de ta mostrar. Conseguia ver de cima e de baixo.

Depois para a frente. Por fim. mergulhando desajeitadamente no mar revolto. todas as certezas que sempre tivera sobre o seu pai deixaram de existir. E quando tu nasceste. Mickey deu-lhe um soco. Deteve-se. — Belo amigo. O pai de Eddie nadou para ele. Os céus estalavam de trovões. de tão ensopado. e o pai de Eddie soltou-se de Mickey e conseguiu enfiar os braços por baixo dos de Mickey e segurá-lo. Estava exausto. — Foi errado. semi-inconsciente. Sabia quem Mickey era. O vento soprava a chuva de lado. talvez até para o matar. quando o pai de Eddie lhe pegou no braço e o prendeu sobre o seu ombro. Conhecia os seus defeitos. Se eu soubesse o que ele tinha feito. foi Mickey quem emprestou aos teus pais o pouco 115 dinheiro que tinha. a correr de um lado para o outro. a esbracejarem. na rebentação violenta. para que a rebentação não o arrastasse para o mar. no fim. e deixou-se cair ao mar. para ajudar a alimentar mais uma boca. — Alto aí. não foi capaz. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. a espuma branca a fustigar-lhes a cara. O pai de Eddie surgiu instantes depois. derreado. na areia molhada. Ficou estendido durante um instante. Caiu ao chão. Avançaram. Agarrou Mickey. Mickey Shea apareceu. a dar às pernas. por baixo da balaustrada de madeira. carrancudo. muitos anos antes disso. Bateu os pés. — Fora atrás de Mickey para o magoar. Mickey balouçava no ondular agitado das águas. Sentia a cabeça pesada. que não . As suas roupas estavam encharcadas e o cinto de cabedal estava preto. arrancou um sapato. Mas. Parecia uma eternidade. em tom de tristeza. foi Mickey quem se dirigiu ao proprietário do parque e deu a sua palavra de honra sobre a integridade do teu pai. tentou desatar o outro. ainda de martelo em punho. Sabia que ele bebia. Eddie fitou-a. O pai de Eddie cuspiu água salgada. Pegaram-se e esbracejaram. Para o teu pai. com a chuva a cair. O pai de Eddie foi ao fundo. bebera tanto na véspera. Mickey gemeu e tentou sorver golfadas de ar. com as suas últimas forças puxou Mickey para a frente. O mar retumbava e explodia. Apanharam a crista de uma onda e fizeram um súbito avanço na direcção da costa. Quando as ondas recuaram.. Agarrou-se ao corrimão. com o rosto virado para o céu escuro. gritando contra o vento. os dois homens a grunhirem. de boca aberta. tirou o cinturão. minha senhora — interrompeu Eddie. enquanto a chuva os massacrava. rumando para a costa. A visão de Eddie regressou ao seu corpo.em lençóis de água. — Viu o que aquele pulha fez à minha mãe? — Vi — disse a senhora. como se ele próprio tivesse mergulhado naquele mar. mas o pai de Eddie continuava entalado debaixo do braço de Mickey. uma velha amizade era uma coisa muito séria. depois rodou o corpo. agachou-se por baixo da balaustrada e saltou. veio novamente à tona e contrapôs o seu peso ao do corpo de Mickey. a cambalear na direcção da beira do molhe. Sabia que o seu juízo falhara naquele dia. com um líquido amarelo esponjoso a sair-lhe da boca. Viu movimento nas ondas. — O que é que lhe passou pela cabeça? — sussurrou Eddie. a pestanejar violentamente para conseguir ver. »Mas. quando o teu pai andava à procura de trabalho. tinha deixado o coiro dele afogar-se naquelas águas. O pai de Eddie deu-lhe outro.. — O teu pai também teve vontade de o fazer — disse a velhinha. »Mickey tinha sido despedido nessa tarde. com o peito a arfar. a vasculhar as águas. e a seguir caiu na praia. uma grande onda ergueu-os e atirou-os para a areia. Uma onda atirou-os para trás. Faltara ao seu turno. — Salvar um amigo — disse Ruby. furioso. 114 Mickey tossiu com força. desistiu. De repente.

Eddie lembrava-se dessa noite. o teu pai acordou. Um mau impulso. ela foi dormir a casa. »Mickey era grosseiro. A implorar ajuda. — disse Eddie. — Cinquenta e seis — repetiu a velhinha. — Ele nunca mais voltou a falar sobre aquela noite. 116 Depois disso. Ficou ali deitado na praia durante horas. Nathanson. — Que aconteceu ao Mickey Shea? — perguntou Eddie. estava perdido. e os patrões mandaram-no embora. — Ai não? — Ela sorriu. O teu pai já não era um jovem. — No parapeito da janela? Ruby fez que sim com a cabeça. na manhã seguinte. nem com a tua mãe. A tua mãe ia levar Mickey até ele. Gemia baixinho. uma noite. Os pensamentos continuavam a atormentá-lo. e pelo do teu irmão.» »Por fim. nem com ninguém. Bem cedo. com o tempo. Talvez soubesse apenas que 117 . a Eddie assim pareceu. O teu pai estava a fazer serão. os olhos fecharam-se e as enfermeiras não conseguiram despertá-lo. »Uma noite. ele morreu. embora a sua reacção inicial tenha sido matá-lo. — Foi assim que ele adoeceu. encharcado e exausto. — O corpo estava fraco. Talvez tenha sentido a luz da morte a aproximar-se. por vezes até à morte? Eddie encolheu os ombros. a pedido dos médicos. atravessou o quarto e arranjou forças para levantar a janela. Já não sabia calcular a duração fosse do que fosse. — O quê? — disse Eddie. — Depois disso. esfregando a testa. — Passados uns anos. mas não era má pessoa. Mais uma pancada na porta a horas tardias. semicerrando os olhos. Agiu por impulso.. Os médicos disseram que tinha entrado em coma. No hospital. — Bebeu até morrer de cirrose. O silêncio foi o seu escape. estava a cair de bêbado. também. uma enfermeira encontrou o teu pai caído no parapeito da janela. — Ninguém morre por lealdade. E chamou Mickey. — Durante a noite. deixou de falar por completo. a tua mãe passou o tempo todo no hospital. morreu completamente só — respondeu a velhinha.. Ela cruzou as mãos sobre a ponta da sombrinha. quando chegou a casa da tua mãe. — E a religião? O estado? Não somos leais a essas coisas. — Por uma questão de lealdade — contrapôs ela.. à deriva. Já ia nos cinquenta e muitos. O teu pai também agiu por impulso e. — Ele nunca disse nada. Nunca conseguiu perdoar-se a si próprio pelo que aconteceu. Levantou-se da cama. Mais um telefonema para casa do Sr. — Cinquenta e seis — disse Eddie inexpressivamente. a respiração dele tornou-se lenta. — Por causa do Mickey? — disse Eddie. ficaram os dois durante muito tempo no vale da montanha nevada. até ter forças para se arrastar para casa. o mar deixou-o vulnerável. eu devia ter feito alguma coisa. Chamou pelo nome da tua mãe num fio de voz e chamou pelo teu. — Mais vale — disse ela — sermos leais uns aos outros. Queria recuperar o emprego.. mas raramente o silêncio serve de refúgio. Dias e noites. Sentia-se envergonhado por ela. Joe. — Mas o meu pai. Parece que nesse instante. o seu coração estava a transbordar de culpa e remorsos.conseguira levantar-se de manhã. claro. e o que fez foi um acto de solidão e desespero. por Mickey. Pelo menos. a pneumonia atacou-o e. como se estivesse a rezar: «Eu devia ter feito alguma coisa. Ele lidou com o problema da mesma maneira que lidava com todos os problemas: bebeu ainda mais e. Naquele momento. por ele próprio. a sua reacção final foi salvar a vida de um homem. à beira da cama dele.

Ela tocou-lhe na mão. rijo com um velho cavalo de guerra. Senti a sua sombra amaldiçoada e voltei a desejar que nunca tivesse sido construído. em cada briga. quente. — Era um inferno para mim. em cada queda. — O teu pai não tinha dinheiro para pagar um quarto particular no hospital. O parque tinha o meu nome. — Tens de perdoar o teu pai. viu o meu pai. Estava uma noite fria. Apontou para o pontinho de luz nas montanhas. Queria-os a todos como queria o meu Emile. E o mesmo se passou com o homem que estava do outro lado da cortina. perguntei pela tua família. Ruby levantou-se e Eddie imitou-a. Perdoa. — Ouvi-a gemer naquelas noites solitárias. Nunca falámos. — E a minha mãe. como se tivesse perdido eu própria um ente querido. em cada incêndio. Mas agora. — Então. quando eu era miúdo. em cada escorregadela. longe do mar. quando chegaste ao céu? Eddie lembrava-se. — Eu odiava-o — murmurou ele. Eddie pareceu confuso. »Esse desejo seguiu-me até ao céu. à minha vida simples mas segura. Onde está a minha dor? — Sentiste-te assim. como se ele tivesse acabado de resolver um mistério. Ela suspirou. Pensamos que o ódio é uma arma que ataca a pessoa que nos fez mal. mesmo enquanto esperava por ti. A versão do hospital foi que ele morreu enquanto dormia. E ficou ainda pior quando cresci. E queria que todos aqueles que sofreram em Ruby Pier. — Aprende uma coisa comigo. Era a primeira vez que o tratava pelo nome. 118 — O restaurante? — disse ela. O vento e a humidade foram demasiado agressivos para o estado em que ele se encontrava. O seu pai. Devora-te por dentro. — Edward — disse ela. em cada acidente. A raiva é um veneno. aqui. ou uma morte? — Como é que sabe tudo isso? — perguntou Eddie a Ruby. Edward. E quando morremos. porque eu queria regressar aos meus anos de juventude. Ela fez uma pausa. no refúgio de um lugar acolhedor. — Vi. lá fora. Pensou naquela derradeira imagem. A sua cabeça pendeu para trás. Não conseguia parar de pensar na morte do seu pai. Morreu antes de amanhecer. portanto nunca contaram o que se passou. — Está ali. Quando soube onde o teu pai trabalhara. a alma liberta-se dela. infligimolo a nós próprios. . Mas depois da morte do teu pai. para poderes avançar. E o mal que infligimos. ficassem sãos e salvos. porque ninguém nasce com raiva. Ruby deu um passo para ele. atordoado. baixinho. senti uma pontada de dor. »Perdoa. O meu marido. — Emile. Tiveram medo de perder o emprego. »As enfermeiras que o encontraram arrastaram-no de volta para a cama. A velhinha acenou com a cabeça. Aonde iria? O que é que teria pensado? O que seria pior deixar sem explicação: uma vida. Lembras-te da leveza que sentiste. Debruçou-se sobre o parapeito. tens de compreender por que motivo sentiste o que sentiste.vocês estavam todos algures. nas ruas por baixo daquela janela. a tentar rastejar para fora de uma janela. e porque é que não tens necessidade de continuar a senti-lo. bem alimentado. Eddie levantou os olhos. Mas o ódio é uma lâmina curva. Eddie deixou-se cair para trás.

Os espíritos daqueles que haviam morrido no parque encontravam-se à sua volta. Não o conhecia a si. Eddie avançou. — Eu estava irritado consigo. — Pai? — sussurrou Eddie. Sobrevivera-lhe em todos os sentidos. levou consigo uma parte de mim. pai. que Eddie conseguia ver os pêlos do seu rosto e a ponta queimada do charuto. carne e molhos. Caiu de joelhos ao lado da mesa. Mantinha-me à distância. Uma torrente a querer sair de dentro de si. nunca fora a parte alguma. — Pai. não sabia o que tinha acontecido. sabendo o que tinha de fazer. Endireitou os óculos. a comer. Sentiu um arrepio. virou-se para a porta e abriu-a lentamente. Eddie imaginara uma determinada vida — uma vida que «podia ter sido» —. que já não controlava. a conversar uns com os outros. hesitante. Eu não compreendia. uma voz que já não era a sua. — Então. Ruby abanou a cabeça. Durante todo esse tempo. Fiquei encurralado depois disso. — O pai batia-me. Eddie aproximou-se. — Eu não sabia. está bem? Está bem? Podemos esquecer o que se passou? A sua voz tremeu até se tornar aguda e implorante. — Quando ele morreu — disse Eddie —. Eddie tentou dizer «Espere». O pai estava tão perto. depois. Eddie levantou os olhos. Sentiu um estremecimento no peito. tudo ficou negro. Continuo sem compreender. Nunca se elevara acima do trabalho sujo e cansativo que o seu pai deixara para trás. para a mesa do canto. Mas é o meu pai. que era agora mais velho do que o seu pai. mas um vento frio quase lhe arrancou a voz da garganta. a beber e a falar. Olhou para os seus próprios braços e percebeu no seu corpo terreno. Começou a afastar-se. . Já sei o que aconteceu. Pensou no velhote pendurado na janela do hospital. sozinho no silêncio. ele 119 glorificara essa vida imaginária e responsabilizara o pai por todas as suas perdas: a perda de liberdade. Pensou que não conquistara nada. a morrer sozinho a meio da noite. O pai não conseguia ouvi-lo. Sentiu o cheiro a comida quente — pão. qual foi? Ela ajeitou a saia. — Ainda tens de falar com mais duas pessoas — disse ela. Ele estava novamente no cimo da montanha. Ficou ali postado durante muito tempo. a perda de esperança. a fumar um charuto. para o fantasma do seu pai. o nariz adunco. Vou libertar-me da raiva. Ao longo dos anos. Em seguida. os nós dos dedos ossudos e os ombros largos 120 de um operário. Ruby desapareceu. percebe? Não conhecia a sua vida. até perceber que a velhinha não ia voltar. Viu os papos por baixo dos seus olhos cansados. Porque é que o fez? Porquê? — Inspirou fundo. a perda de uma carreira. que teria existido se não fosse pela morte do pai e pela subsequente depressão da mãe. Eddie sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos. penosamente. parado na neve. Virou-se para a direita. Odiava-o. E.Eddie pensou nos anos que se seguiram ao funeral do pai. à porta do restaurante. Ouviu o tilintar de talheres e o empilhar de pratos. — O teu pai não foi a razão pela qual nunca deixaste o parque. Sentiu um aperto no peito.

pensou Eddie. Entrelaçou os dedos uns nos outros. — Pode dizer-me algumas das qualidades do falecido? — perguntou o pastor. A sua barriga. de casaco azul-escuro e o seu melhor par de calças de ganga preta. como achava que se devia falar numa situação como aquela. pagou a conta. O ataúde era uma simples caixa de madeira. como se o seu peito estivesse cheio de coisas que precisassem de assentar. Ela baixou a cabeça. ansioso. o proprietário do parque. e mais seca. Não se sentia à vontade na presença de clérigos. com a flacidez da velhice. dissera Ruby. o Sr. Eddie deu um murro na mesa. que envelhecera desde o seu encontro com Ruby. Eddie postou-se à frente do espelho. estava agora mole. Tocou na pele. como se estivesse a reflectir. Não deixara instruções. à excepção de um banco de madeira e um espelho oval pendurado na parede. 11 HORAS DA MANHA Quem pagaria o funeral de Eddie? Ele não tinha família. mais baixo: — Está a ouvir-me. jovem e bela. uma moinha incómoda. — Eddie — disse ele. os cigarros e arames para limpar cachimbos. A sua perna estava cada vez mais hirta. As montanhas haviam desaparecido. uma vez que a maior parte dos convidados tinha de voltar para o trabalho. juntamente com as suas roupas e objectos pessoais. Tornou a tossir. De onde é que saiu isto?. Bullock. O som apanhou-o de surpresa. a aliança. E depois. — Está consertado. Eddie não bateu com a cabeça no tecto baixo de gesso. como se tivesse saído de outra pessoa qualquer. — Sei que o senhor trabalhava com ele. Dominguez engoliu em seco. Estava mais fina. uma tosse profunda e cavernosa. bem como o céu cor de jade. 121 QUINTA-FEIRA. Eddie girou sobre os calcanhares. abriu a porta e levantou voo em direcção ao céu cor de jade. pai? Debruçou-se para ele. as meias e sapatos. que aconteceria? Tinha uma dor nas costas. depois caiu para o chão. que durante a conversa com o Capitão parecera dura como borracha retesada. Ainda tens de falar com mais duas pessoas. 122 A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie pestanejou e deu por si num pequeno quarto redondo. a sua camisa da manutenção. agora. Soltou os dedos e acrescentou rapidamente: — Claro está que eu nunca cheguei a conhecê-la. O seu corpo ficou na morgue municipal. No fim. Viu apenas o lado oposto do quarto. que de repente se alargou e passou a incluir uma fileira de portas. Uns minutos antes do serviço religioso. tossiu. Depois. O seu corpo não apareceu reflectido. usando para isso o dinheiro que poupara por não ter de pagar o salário de Eddie no fim do mês. todos à espera que alguém os reivindicasse. Viu as mãos sujas do pai. o pastor pediu a Dominguez. para entrar no seu gabinete. Por pouco. Depois. Quando voltou a levantar os olhos. A igreja foi escolhida em termos de localização — era a mais próxima do parque —. por fim — amava profundamente a mulher. Proferiu as derradeiras palavras num sussurro. Percebeu o que . o boné de linho. viu Ruby parada à sua frente.— ESTÁ BEM? ESTÁ A OUVIR-ME? — gritou. O quarto era castanho — tão singelo como papel pardo — e estava vazio. e falou baixinho.

é que ele tivera de retirar o fato puído do armário e vestir a camisa de colarinho engomado que lhe apertava o pescoço grosso. de cerimónia em cerimónia. Por causa disso. como quando os casais tinham de dançar ou ajudar a erguer a noiva numa cadeira. pensando que assim voltaria ao quarto redondo. Fosse como fosse. os ossos fracturados da sua perna já estavam deformados. não havia vestígios de como é que as pessoas lá tinham chegado. quando vários convidados levantaram os olhos. em que as famílias despejavam vinho no chão e o casal. como acontecera 124 em tantos casamentos a que ele assistira na Terra. enquanto ela retirava o anel. e ninguém esperava que ele fizesse muito mais além de sorrir. na opinião de Eddie. agora. de mãos dadas. nem cavalos. Coxeava muito e era. dispensado de todos os momentos participativos. A artrite atacara-lhe o joelho. depois outra porta para outra cena qualquer — talvez francesa? —. como os bailes ou o acender de velas. Ele baixou-o na direcção da noiva e os convidados aclamaram-na. A noiva. nem carroças. A sua perna ferida parecia atearse. Em cada cerimónia. no quintal de uma casa que nunca tinha visto. Transpôs a porta uma vez mais e deparou com uma aldeia que lhe pareceu italiana. A uniformidade não surpreendeu Eddie. Os casamentos. 123 Dirigiu-se para uma das portas e abriu-a. As encostas estavam cobertas de vinhas e quintas de travertino. O relvado estava cheio de convidados. num grande salão. havia um arco coberto de flores vermelhas e ramos de vidoeiro e. Eddie tossiu novamente — não conseguia evitar — e. Estava a apodrecer. Numa ponta. deu por si a meio de outro casamento. durante um longo período. por conseguinte. calculou Eddie. estava ao ar livre. outro bolo e outro tipo de música. Todos pareceram sorrir e os sorrisos assustaram Eddie. desta vez. passou de casamento em casamento. sempre que o fotógrafo vinha à mesa. Era considerado um «velho». saltava por cima de uma vassoura. encontrava-se no centro do grupo. Muitos dos homens tinham cabelos pretos e . Recuou rapidamente para a porta por onde entrara. ficava muitas vezes no parque de estacionamento. mas a língua era-lhe estranha. onde as pessoas pareciam espanholas e a noiva usava flores cor de laranja nos cabelos. parecia africano. sem família. estavam demasiado recheados de momentos constrangedores. Foi dançando com cada um dos convidados e todos lhe entregaram um pequeno saco com moedas. quando algum dos seus colegas adolescentes crescera e resolvera casar. dentro de paredes. não houve casamentos. a retirar um alfinete dos seus cabelos cor de manteiga. junto de Eddie. Os convidados conversavam uns com os outros e Eddie foi absorvido como sendo um deles. a fumar um cigarro. a meio do que parecia ser uma cerimónia de casamento. Preferia que assim fosse. onde se acenderam foguetes perante os convidados a aplaudir. Por essa altura. Sempre achara que os casamentos eram todos iguais. à espera que o tempo passasse. nesses instantes. alguém a quem todos sorriam mas com quem nunca falavam. onde o casal bebia em simultâneo de uma chávena com duas asas. Aqui. jovem e bonita.estava a acontecer. sozinho. nas suas roupas da manutenção. Em vez disso. na outra. Eddie ouvia as vozes deles. O que não percebia era o que tinha ele a ver com aquilo. Quanto tempo mais é que isto vai durar?. com pratos nas mãos. numa terra que não reconhecia. porque acontecia a cada nova fase no Céu. De repente. Alemão? Sueco? Tornou a tossir. nem carros. A partida não parecia ser relevante. tornou a recuar pela porta e a entrar noutra cena de casamento. na extremidade da espada estava um anel. pensou Eddie. Eddie evitava a maior parte das cerimónias e. de uma língua. se por acaso ia. e ele sentia que as pessoas conseguiam aperceber-se disso do outro extremo da sala. nem autocarros. um bolo e um tipo de música para outra língua. Outra passagem pela porta levou-o a um casamento chinês. Só nos últimos anos da sua vida. ficava a porta que ele acabara de transpor. O noivo era esguio. O grupo levantou os olhos. Usava uma casaca preta e empunhava uma espada e.

. hã? — grita Joe. — Per l'amaro e il dolce?'. Custava a acreditar. — Para os momentos amargos e doces — disse ela.. passando-lhe a broca. portanto. nesse Verão. o antigo posto do seu pai. Eddie acha que o irmão está demasiado bem vestido — e bem vestido é sinónimo de fajuto —. e as mulheres. e vê só. Eddie encontrou um lugar encostado a uma parede e observou os noivos a cortarem um tronco em dois..grossos. nos seus olhos cor de café escuro. o que é que ele entende do assunto? — Sim. Eddie segura na bateria entre os dedos. porque é que não ficas tu com este emprego e eu com o teu?» Mas não o fez. Os lábios dele demoraram a abrir-se e o som precisou de uns instantes para lhe sair da garganta. Joe é vendedor de uma empresa de ferramentas e Eddie usa o mesmo fato há anos. Eddie tivera vontade de responder: «Se é assim tão bom.. — Este — diz Joe. sorrindo. Eddie prime o gatilho e ouve-se uma explosão de barulho. Os seus olhos desviaram-se para os confins da multidão. Eddie fica irritado. Joe veste um casaco de xadrez e sapatos pretos e brancos de cunha.. que era encimado por um bouquet de flores de papel. orgulhoso. Começou a suar. um colete encarnado. Ao vê-la assim vestida. num ritmo louco e rodopiante. Ao longe. — Per l'amaro e il dolce? — disse ela. mas houve qualquer coisa que o impediu de arrancar os pés do chão. Nessa manhã. Eddie nunca dissera nada que sentisse com tanta convicção. pegando na broca — é o modelo mais recente. parecia ter vinte e poucos anos. — Liga-a — diz Joe.. — Para os momentos amargos e doces? Os seus cabelos negros caíram-lhe sobre um dos olhos e o coração de Eddie quase explodiu. agora. envergando um longo vestido cor de alfazema e um chapéu de palha debruado. penteados para trás com brilhantina.. um boné vermelho e uma etiqueta com o nome presa com um alfinete abaixo do pescoço. violinos e guitarras — e os convidados começaram a dançar a tarantela. — Marguerite. Per l'amaro e il dolce?. oferecendo-lhe as amêndoas. 126 Hoje é o aniversário de Eddie Eddie e o irmão estão sentados na oficina da manutenção. Ela aproximou-se dele. Joe dissera a Eddie que recebera um aumento. como sempre. — Ó da casa! Está aí alguém? Marguerite aparece à porta. O seu salário era três vezes maior do que o de Eddie. oferecendo os doces. e enverga a farda oficial de Ruby Pier: uma camisa branca. calças pretas de montar. — Per l'amaro e il dolce? — dizia ela. Ao ouvir a sua voz. Arranjou emprego nas bilheteiras. mas juntaram esforços para proferir a primeira letra do único nome que alguma vez o fizera sentir-se assim. Havia música — flautas. Trabalha a bateria. — sussurrou. passara entre os convidados. olhos escuros e feições marcadas. com uma serra de dois punhos. encontraram-no. com um cesto de amêndoas doces. na sua pele de azeitona. no rosto dela. uma pequena coisa chamada cádmio de níquel. Os olhos de Eddie pousam. com um maço de bilhetes cor-de-laranja na mão.. o corpo de Eddie estremeceu da cabeça aos pés. Eddie caiu de joelhos. Joe dera os parabéns a Eddie pela sua promoção: chefe da manutenção de Ruby Pier. senhor — diz Joe —. 125 Uma dama de honor. — Trabalha bem. Os olhos dela escondidos pela aba do chapéu. mas.. Eddie recuou uns passos. Algo dentro de si lhe disse para fugir. Depois.

. — A Charlene emprestou-me. O Sol incide-lhe no rosto. entristecida. A volta deles. está bem? Eddie baixa os olhos. rezingão. que esperara demasiado tempo para engravidar. ponham as velas no bolo! As crianças correm para o bolo de baunilha às camadas. Marguerite faz o enquadramento da foto. — Não podes ser mesmo tu — repetiu Eddie. Eddie agarrou-a rapidamente. que o devia ter feito antes dos vinte e cinco anos. Eddie solta o ar. um instantinho? — pergunta ela. Ela estendeu-lhe a mão. um aparelho complicado com manípulos e botões e uma lâmpada redonda de flash. É uma Polaroid. Eddie prime o botão. Marguerite tapa os ouvidos. dançava-se a tarantela e o Sol esmorecia por detrás de uma faixa de nuvens brancas. — Enfia a mão dentro de um saco e tira uma máquina fotográfica. ficaram sem dinheiro para ir ao médico. — Despache-se. Trazia jornais para casa. EDDIE! — grita um grupo de crianças em uníssono. Os bailarinos gritaram: «Olééé!» Tocavam tamborins. — Estou a trabalhar. instintivamente. — Ha-ha! — grita Joe. Eddie junto do bolo. Eddie dizia que eram demasiado velhos. Eddie levanta-se devagar. — Quem diria? — diz Eddie. Fazia agora quase um ano que ela falava em adopção. pousado em cima de uma mesinha de armar. espera. 127 — Mostra-lhe a broca — diz Joe. Outro.. As coisas eram como eram. A cobertura do bolo está uma lástima. junto do bolo. Com o passar do tempo. Ai. — Podes vir ali fora. mas está a olhar para a mulher. Como acontece sempre que está na companhia de Marguerite e de crianças. as crianças amontoadas à volta dele. Marguerite grita: — Vá. Ela baixou o cesto com as amêndoas. — É rápido. espera. — Está bem — diz Eddie. como se apanhasse um . depois vê a mulher a sorrir. Ela respondia: — Uma criança não sabe o que é ser velho. sente-se comovido pela relação fácil que ela tem com os miúdos e entristecido pela incapacidade de ela os ter. a admirar as trinta e oito pequeninas chamas. Marguerite debruça-se para Eddie e segreda: — Prometi-lhes que apagavas as trinta e oito velas de uma vez. — PARABÉNS. envergonhado. 128 — Está bem — grita ela. anda lá. Ia à biblioteca. a rir. Vira-se para Marguerite: — Trabalha a bateria. — Faz mais barulho do que tu a ressonares — diz ela. Observa a mulher a organizar o grupo. Eddie disse que ia pensar no assunto. depois segue-a porta fora. — Não podes ser mesmo tu — disse ele. Sr.especialmente à frente do seu irmão armado em importante. Eddie! Apague lá as velas. Um médico disse que era demasiado nervosa. SR. — Ha-ha! Com esta é que ela te arrumou! Eddie baixa os olhos. 129 Eddie olhou fixamente para a jovem Marguerite. cheia de inúmeras marcas de dedinhos. Uma criança espeta o dedo em Eddie e diz: — Apaga as velas todas. meninos. Eddie acena com a broca. Sorriu.

Mas o amor assume muitas formas e nunca é igual para todos os homens e mulheres. não és tu. O proprietário. não és tu — murmurou Eddie. ser insubstituível. a brincar. no segundo andar de um restaurante chinês de luzes suaves. portanto. fizeram um brinde final e o homem do acordeão arrumou o instrumento. que quase lhe fazia cócegas. levantou os olhos e tocou nos tufos de cabelo por cima das orelhas dele. Anos mais tarde. quase a rir. a camisa a apertar-lhe o pescoço. em seguida. Os seus dedos encontraram-se e ele nunca sentira uma sensação como aquela. pensando que teria poucos clientes se não o fizesse. sorrindo. — Sou eu — sussurrou ela. deixando cair a cabeça no ombro dela e. Caminharam de mãos dadas. — A tua perna — disse ela. como se se estivesse a formar uma pele por cima da sua própria pele. Só conseguia ficar parado. Tudo à sua volta parecia estar no seu devido lugar. O seu próprio casamento realizou-se na véspera de Natal. — Não és mesmo tu — disse ele. feitos os votos. uma vez que ficava a apenas uns quarteirões de distância. os empregados pediram aos convidados para se levantarem e. como se este fosse um objecto escondido atrás de uma rocha. chamado Sammy Hong’s. juntos. Eddie pegou no parco dinheiro que lhe sobrara do exército e gastou-o no copo-d'água: frango assado com legumes chineses. — Já te tinhas esquecido da minha cara? Eddie engoliu em seco. quente e macia. Depois. Eddie levava o seu casaco branco. que a única coisa que faltara no seu casamento «foram os cartões do bingo». um amor que ele sabia. jovem como no dia do seu casamento. O homem do acordeão sentou-se num banco. — Vem comigo — disse ela. Ela estava exactamente como ele a recordava — ainda mais bonita. Ela ergueu-o sem esforço. transportaram 130 as cadeiras para o andar de baixo. vinho do Porto e um homem com um acordeão. até que ela semicerrou os seus olhos escuros e entreabriu os lábios com uma expressão maliciosa. mas o seu joelho ferido cedeu. — Eddie — disse ela. Ficou junto de Marguerite. 131 em silêncio. um amor profundo mas discreto. As cadeiras usadas na cerimónia foram necessárias para o jantar. olhando para a cicatriz quase invisível com uma familiaridade afectuosa. ele deixara que os seus dias se tornassem vazios. Marguerite envergava o vestido de noiva por baixo de uma grossa camisola cor-de-rosa. Ela ajoelhou-se junto dele. uma chuva fria. Eddie não conseguia mexer a língua. — Está branco — disse ela. E Eddie encontrou uma certa forma de amor com Marguerite. especado a olhar. alugou-lhes o seu estabelecimento por uma noite. em sofrimento. Olééé! — Não és mesmo tu. pela primeira desde a sua morte. As pessoas dizem que «descobriram» o amor.objecto em queda. pois as suas últimas recordações dela eram as de uma mulher mais velha. O seu coração tornou-se dormente. Marguerite costumava dizer. Eddieie tentou levantar-se. um amor grato. Terminada a refeição e entregues algumas prendas. onde ficavam as mesas. Passaram entre as poças de luz dos candeeiros de rua. começou a chorar. . ali estava ela novamente. Eddie e Marguerite saíram pela porta da rua. Agora. Sammy. acima de tudo. mas os noivos foram a pé para casa. Quando ela morrera. Estava a chover ao de leve. O que as pessoas encontram é uma certa forma de amor.

. Eddie... eu é que lhe disse e depois tentei avisá-lo. um miúdo que trabalha comigo agora. Ela voltou a acenar. Parecia tão jovem. mas ele não me conseguia ouvir e a tal menina estava sentada ali e eu tentei agarrá-la. Marguerite apontou para a aldeia e para os convidados a dançar. as expectativas que vemos reflectidas nos olhos de ambos são iguais em qualquer parte do mundo. Um mundo de casamentos. porque eu lhes disse para o soltarem. Ele ainda tinha dificuldade em dizê-lo. uma ansiedade aos solavancos.. mas o cabo partiu-se. Ela tirou o chapéu de palha e afastou os caracóis grossos da sua testa jovem. — Tocou-lhe no queixo. Perguntou-se se a espera de Marguerite teria sido parecida com a sua. sobre mim? O que é que sabes desde que. — Havia uma menina. — Tivemos um acordeonista — disse ele. Ela tocou ao de leve no rosto dele e o calor espalhou-se pelo corpo de Eddie. A música fundiu-se no ruído de fundo. que fazia os carrinhos parar lentamente. depois. — Foi essa a minha escolha. muito veloz.. — Achas que tivemos isso? Eddie não soube o que responder.. disse ao Dominguez. Afastaram-se do copo-d'água e subiram um carreiro de cascalho. Pegou. esperei por ti. Acreditam verdadeiramente no amor e que o seu casamento vai quebrar todos os recordes.. Seja como for. Tentei salvá-la. ainda não percebi como. — E agora sei porque é que aconteceu.. um dos carrinhos soltou-se. então.— Nunca esqueci a tua cara. sei tudo o que aconteceu enquanto estivemos juntos. tudo o que acontecera.. — Não sei como é que tu morreste — disse ela. Levou as mãos ao peito... feliz. — Também encontraste cinco pessoas? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. — Eu também não sei ao certo — respondeu. — O parque tem atracções novas. — E também sei.. Sorriu. havia uma atracção que deixava cair uns carrinhos do cimo de uma torre e tinha um sistema hidráulico de travagem. Agora. 132 — O que é que tu sabes. Eddie pensou por instantes. que correu para uma das atracções do parque e corria perigo. — E explicaram-te tudo? E mudou alguma coisa? Ela sorriu. e caiu. não tem nada a ver com o parque de antigamente.. por detrás de todas as portas. Queria perguntar-lhe tudo e mais alguma coisa. Marguerite arregalou os olhos. — Bom. Ele perscrutou os olhos dela. uma menina pequena. Senti as mãozinhas .. não foi culpa dele. — Desde que morreste. Era mais difícil do que ele pensava contar à sua mulher como é que morrera.. Apertou os lábios. — Mudou tudo. isto é. — Também passaste por isto? — disse ele. nada muda. — E. Eddie queria dizer-lhe tudo o que vira. sempre que o noivo levanta o véu e a noiva aceita a aliança. por fim. Não sabia por onde começar. Sentia uma agitação dentro de si. Eddie sentiu o calor derretê-lo. O sorriso dela. Ai. que me amaste muito. — Cinco pessoas diferentes — disse ele. — Casamentos — disse ela.. é tudo muito rápido. na mão dele.

As mulheres usam chapéus de palha e os homens fumam charuto. nem o parque. com o assento de baixar. Apostou metade dos lucros na segunda corrida e voltou a ganhar. estão copos de papel de cerveja. Aos seus pés. porque. lamento tanto. Um cavalo destaca-se na dianteira do grupo. Depois de perder duas vezes em apostas mais pequenas. . a sua alma caíra na armadilha das velhas emoções. um sorriso meigo. Aquele dinheiro vinha a calhar. — Tenho de ir para casa — diz ele. os seus lábios começaram a tremer e Eddie foi arrastado pela corrente de tudo o que perdera.. Ele soltou o ar. como ele e Noel concordaram. a sua mulher perdida. Sentam-se em cadeiras de ripas. Jersey Finch afasta-se para o lado de fora e alonga a sua passada. e não queria olhar mais. um cavalo chamado Jersey Finch. Amontoam-se na recta distante. nem a multidão à qual ele tinha gritado «Afastem-se». Deram-lhe duzentos e nove dólares. Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. nem a sua morte. Eddie e Noel saem mais cedo do trabalho. 134 Hoje é o aniversário de Eddie As corridas estão à cunha com os clientes de Verão. Eddie apostou no n. pedindo-lhe para continuar.da T. a sua jovem mulher. Eddie ganhou a primeira corrida do dia. nada lhe pareceu importante. Deteve-se. por entre uma carpete de bilhetes usados. — Ai. e ao vê-lo os olhos dele encheram-se de lágrimas e sentiu-se invadido por 133 uma onda de tristeza e. — Tive tantas saudades tuas. Está mais nervoso do que gostaria de estar. Os cavalos entram no troço final. Eddie tem quase oitocentos dólares. disse o que roda a gente diz. Marguerite — sussurrou. a sua mulher morta.dela. que não é uma má aposta.) 135 Jersey Finch! Agora. Estava a olhar para a sua mulher. Há pouco. vais ter dinheiro para o miúdo. o seu pêlo colorido a esbater-se a cada movimento ondulante. — Praticamente ainda não tinha falado. mas o que Noel acabou de dizer sobre «o miúdo» —— a criança que Eddie e Marguerite tencionam adoptar — enche-o de culpa. a sua única mulher. meu Deus. Eddie aperta o bilhete entre os dedos. As aclamações fundem-se com os cascos retumbantes. * Sistema em que se aposta no cavalo vencedor em duas corridas consecutivas (N. mas depois eu.° 8. era a primeira vez que isso lhe acontecia. de repente. sendo as probabilidades de quatro para um. A sua pele arrepia-se. — Vais estragar tudo — diz Noel. Noel grita. que mal tinha voltar para casa da mesma maneira? — Pensa só que. Porque é que ele fazia coisas daquelas? A multidão levanta-se. o 39. se ele chegara praticamente de bolsos vazios. Nem consigo dizer. numa lógica exuberante.. pôs o dinheiro todo num cavalo a ganhar na sexta. desde que aqui cheguei — explicou. — Lamento muito. no Daily Double*. Porque é que estava a falar sobre aquilo? O que é que estava a fazer? Estaria realmente com ela? Como uma mágoa escondida que se ergue e lhe agarra o coração. Amparou a cabeça com as mãos e disse-o de qualquer maneira. se ganhares — diz Noel —. Ela inclinou a cabeça para o lado. A campainha toca. Não consigo. para irem jogar no número do aniversário de Eddie. Os cavalos são largados. Não consigo exprimi-lo.

— Vou telefonar-lhe. — Não podes continuar a comportar-te dessa maneira. Eddie conta-lhe a novidade. compra o que quiseres. — Eu sei. — Estamos à espera de um bebé — repreende ela. a outra parte quer a dobrar. enquanto ainda tem algum dinheiro no bolso. para que ele possa atirá-lo para cima da cama quando chegar a casa e dizer à mulher: «Toma. Ela aproxima-se do viaduto de Lester Street. ela pega na carteira e conduz o Nash Rambler. Mas. O que ele não sabe é que Marguerite. eu sei — diz Eddie. Dirigem-se para a janela da bilheteira e escolhem outro cavalo. Ela não fica contente. tentando que ela caia no intervalo entre dois veículos. até que os proprietários da pista pagaram para que a câmara municipal instalasse uns semáforos. Ela vai ficar contente. ainda por cima no dia do aniversário dele. — Deixa-me adivinhar — diz Noel.— Que raio de conversa é essa? — Vais contar a alguém e vais estragar a tua maré de sorte. Volta para junto de Noel. A maior parte do trânsito flui na direcção contrária. horas antes. Eddie coxeia para a cabina telefónica e deixa cair uma moeda. passavam por cima da estrada e voltavam a descer as escadas. dois rapazes de dezassete anos que. Abana a garrafa para trás e para a frente. tinham saído fugidos de uma loja. tendo terminado o álcool e fumado muitos dos cigarros. Agora. está bem?» Noel observa-o a empurrar as notas pela abertura da janela. ó cobardolas. Solta os dedos. estica o braço que segura na garrafa e escolhe a faixa da direita. não vai. a observar. que costumava ser a via de acesso à pista: os clientes subiam as escadas. A garrafa passa de raspão por um automóvel e estilhaça-se na estrada. deserto. O Sol já se pôs e o céu está em transição. porque Noel é assim e não há nada a fazer. Noel tinha razão. — Viste aquilo? — Atira a tua agora. que Noel vai insistir para ficarem até ao fim. depois de terem roubado cinco maços de cigarros e três garrafas de whiskey Old Harper. Vira à direita em Lester Street. Sabe. Albergava dois adolescentes que não queriam ser encontrados. não estava deserto. — Não o faças. — Estou — diz o outro. ao longo de Ocean 136 Parkway. Ela está arrependida de lhe ter gritado. — Estás a desafiar-me? — pergunta um deles. O segundo põe-se de pé. — Uaaaau! — grita o segundo. — É louco. Eddie desliga o telefone com um calor atrás das orelhas. Eddie tira o dinheiro do bolso. Uma parte dele já não o quer fazer. a única coisa que a preocupa é tirar Eddie da pista de corridas. a maior parte das vezes. Quinze metros abaixo deles. — Não. quer também que ele pare de fazer apostas. Marguerite pensa em tudo menos em olhar para cima. Ele diz —le ara ela parar de lhe dar ordens. como não lhe podia ligar. O primeiro deixa cair a garrafa e escondem-se por trás da chapa metálica. o que fazia com que o viaduto estivesse. Esboça um sorriso. decidiu meter-se no carro e ir procurá-lo às corridas. Está a . nessa noite. e quer pedir-lhe desculpa. com menos trânsito. em segunda mão. que está a comer amendoins junto da balaustrada. jamais lhe ocorre que possa estar a acontecer alguma coisa no viaduto por cima de si. como se aquilo fosse uma espécie de arte e ele uma espécie de artista. Diz-lhe para voltar para casa. Levanta as sobrancelhas. estão a morrer de tédio e balouçam as garrafas vazias por cima do corrimão enferrujado. Marguerite atende o telefone. E como a pista de corridas fica apenas a dez minutos de distância. com base em serões anteriores.

Fosse como fosse. para espanto de Eddie. construíram uma atracção nova. o amor seca à superfície e alimenta-nos por baixo. Ângulos de sessenta graus? De certeza que alguém ia acabar por se magoar. Não ouve a chiadeira de pneus dos outros automóveis. A sombra ocupava o seu lugar à mesa e comia na presença deles. O carro guina para a divisória de betão. Uns anos depois. sob o calor enraivecido da vida. ela é arremessada contra a porta. ela fazia-lhe café e torradas e ele deixava-a na casa onde ela fazia . Não confiava em nada que fosse tão veloz. O seu fígado lesado acabou por recuperar. encomendara um modelo de aço para Ruby Pier e Eddie supervisionou a sua construção. Marguerite esfregou a testa e disse: — Agora. Marguerite remeteu-se ao silêncio durante muito tempo. Não ouve as buzinadelas frenéticas. Não ouve o som de retirada dos ténis de sola de borracha a correrem pelo viaduto de Lester Street e a fugirem pela noite dentro. Eddie afundou-se em trabalho. Bullock. ensopando os casais com a sua alegria molhada. O corpo dela é atirado como se fosse o de uma 137 boneca. Eddie até mencionou o tema da adopção. apesar disso. o proprietário do parque. Ficou confinada a uma cama durante quase seis meses. zelou pela sua manutenção. tornou-se extremamente popular. A criança que esperavam foi entregue à guarda de outro casal. através das raízes. O acidente em Lester Street fez com que Marguerite fosse parar ao hospital. por vezes. falavam de coisas triviais. Mas. 139 O palco da orquestra foi deitado abaixo.pensar em que parte das bancadas o há-de procurar. numa grande piscina. Com o passar do tempo. Eddie retorquiu: — Uma criança não sabe o que é ser velho. E. Eddie nunca mais voltou a apostar nas corridas de cavalos. As suas visitas à pista com Noel acabaram gradualmente. De manhã. perfura o fígado. pode alimentar-nos vindo do céu. contra o tabliê e o volante. A subsequente culpa implícita nunca encontrou refúgio — moviase simplesmente como uma sombra entre marido e mulher. A água do seu amor estava escondida por baixo das raízes. que agora os miúdos consideravam piroso. E ao Túnel do Amor. embora nunca tivessem chegado a receber uma criança em sua casa. de repente. Um parque de diversões da Califórnia apresentou os primeiros trilhos tubulares feitos de aço — contorcidos em ângulos profundos. numa explosão de vidros partidos. quando o mar ficava a apenas trezentos metros dali. estamos demasiado velhos. uma noite. Mas. inspeccionando o mais pequeno gesto que eles faziam. parte um braço e bate com a cabeça com tanta força. O Sr. mas os custos e a demora impediram-nos de avançar com o processo de adopção. uns barcos feitos de troncos. que perde a noção dos ruídos nocturnos que a rodeiam. andava entretido. no instante em que a garrafa de whiskey Old Harper se estilhaça contra o seu pára-brisas. a sua ferida sarou lentamente e o seu companheirismo preencheu o espaço que estavam a guardar um para o outro. marido e mulher recomeçaram a falar e. Quando falavam. 138 O amor. para se certificar de que os barcos nunca se soltavam dos trilhos. no fim. ambos incapazes de conversar ao pequeno-almoço. mantendo-se a si mesmo vivo. Berrava com os trabalhadores. Passaram-se anos. à semelhança da chuva. impossíveis de conseguir em madeira — e. trabalhando descalço na água. as montanhas-russas. por entre o solitário tilintar de garfos e pratos. porque tudo lhes pesava. O mesmo aconteceu à atracção chamada Isqueiro. que praticamente haviam caído no esquecimento. e. voltaram a estar na moda. Eddie não percebia porque é que as pessoas gostavam tanto de se molhar. Os clientes flutuavam ao longo de canais de água e despenhavam-se.

Ela percebeu que era o protocolo. a olhar para aquela mão de dedos presos que parecia pertencer a outra pessoa qualquer. E . Comeram puré de batata pré-preparado e bolachas de manteiga e caramelo e. Ela tinha o braço a latejar. Esticaram-se para trás. pela marginal. Ele levou-a para o hospital. ela acordou aos gritos. Numa noite de Julho. com tratamentos mais dolorosos que a doença. Dois dias depois. se ela o fizesse. Subitamente. mas. A seguir. A sua respiração acelerou. Olharam em volta e perceberam que eram as pessoas mais velhas da praia. por um instante. quando Marguerite terminou um segundo copo de vinho. Era. embora naquela época Marguerite já andasse na casa dos quarenta e tivesse as coxas mais grossas e uma teia de pequenas rugas à volta dos olhos. acompanhando-o nas suas rondas. Queria cozinhar. quando um deles sugeriu «pôr as suas coisas em ordem». na cozinha de sua casa. Não fechavam. Ficou parada. disseram os médicos. à tarde. alguém a segurar num grande frasco invisível. E. mas ele obrigou-a a sentar-se e ferveu água para preparar um 141 chá. Eddie ajudou-a a subir as escadas e pendurou o casaco dela no cabide. As águas do seu amor tornaram a chover do céu e encharcaram-nos com a mesma certeza com que o mar lhes lambia os pés. enquanto Marguerite dava uma volta pela casa. muito tempo depois da morte da mãe de Eddie. como se aquele jantar fosse uma festa para celebrar um regresso a casa e não uma despedida. quando o cancro foi anunciado vencedor. porque Marguerite dizia que lhe lembrava o tempo em que eram miúdos e gostava de ver o velho carrossel pela janela. Eddie disse que as raparigas tinham sorte. Comprara costeletas de borrego na véspera e. no silêncio da madrugada. leve a sua vida com calma. Nos derradeiros dias. o cabelo a cair às mãos-cheias. O pedaço de frango escorregou-lhe da mão e caiu para a pia. agradeceu a Eddie do fundo do coração e observou o seu nariz adunco 140 e os maxilares largos. a comer chupa-chupas de uvas. e regressava ao parque. enquanto Eddie lhe explicava tudo sobre rotores e cabos e ouvia o zumbido dos motores. deram por si a passear à beira-mar. Eddie pegou na garrafa e serviu-lhe uma terceira dose. os médicos disseram apenas: «Descanse. eles acenavam com a cabeça. nenhum homem olharia para qualquer outra mulher. Fez mais afirmações do que perguntas. andou atarefado como uma abelha a gerir um jantar para vários amigos e colegas convidados. cheios de compaixão. a quem deveria Eddie telefonar. a mesma casa onde moravam há tantos anos. qual dos médicos estaria de serviço. — Eddie? — chamou. já ela estava desmaiada no chão. manhãs ligada a máquinas ruidosas de radiações e tardes passadas a vomitar numa casa de banho de hospital. Por vezes.limpezas. porque. sem qualquer aviso. nessa noite. os dedos da sua mão direita abriram-se incontrolavelmente. os pés descalços a afundarem-se na areia.» Quando ela fazia perguntas. Três anos depois. ela pediu para lhe darem alta do hospital. como se os seus acenos fossem medicamentos ministrados em gotas. Marguerite fez um comentário sobre os biquinis que as raparigas usavam agora e como nunca teria coragem de vestir uma coisa daquelas. começou a ver tudo a andar à roda. quando ele chegou a casa. a maior parte dos quais cumprimentou a pálida Marguerite com frases do género: «Vejam só quem cá está!». a maneira de eles serem simpáticos enquanto impotentes e. ela saía mais cedo e fazia o caminho a pé com ele. Falaram em frases curtas. um tumor cerebral e o declínio de Marguerite seria como o de tantas outras pessoas. ela estava a passar filetes de frango por pão ralado e ovo. a verificar os cavalos do carrossel e as conchas pintadas de amarelo.

— Tens o cartão? — perguntou ela. o simples acto de fazer a sua mulher feliz. os seus pés no chão. Eddie falou sobre as mudanças que haviam ocorrido em Ruby Pier — as antigas atracções tinham sido desmanteladas. a sua voz parecia ainda mais ténue quando voltou a falar. no pestanejar dos seus olhos. com carrinhos vermelhos pendurados como decorações de uma árvore de Natal. Ela desviou os olhos. Eddie contou-lhe que o seu irmão Joe morrera há dez anos. Todos os gestos que ele fazia eram uma maneira de se agarrar a ela. tudo o que Eddie queria era tempo — mais e mais tempo — e foi-lho concedido. sim — apressou-se ele a responder. e Eddie sentiu aquela antiga sensação de calor que lhe faltara durante tantos anos. noites e dias e mais noites. no pedal do acelerador. sem pôr do Sol nem marés vivas. já saber. apenas um mês depois de ter comprado um novo apartamento na Florida. — Do seguro — disse ela. Marguerite lembrou as muitas noites que ele passara furioso com o pai. — A nossa casa. numa voz rouca. Eddie tinha a sensação de que não passara mais do que um punhado de horas com qualquer uma das pessoas que encontrara.embora ela estivesse sentada ao lado dele. Numa cerimónia ao ar livre numa aldeia libanesa. Numa cerimónia sueca. estava tudo demasiado sossegado e silencioso. as corridas «no escuro». Mas. no seu pigarrear. Os cabelos voavam-lhe para o rosto. Subitamente. — Eu tenho o cartão. Ele contou a história do Homem Azul. era como ver . Ela fungou e levantou os olhos para o horizonte. as montanhas-russas tinham agora voltas em parafuso e carrinhos que ficavam pendurados de cabeça para baixo nos trilhos. Ouvia todos os sons.. de um ataque cardíaco. o clanque da maçaneta da porta. estavam agora cheias de ecrãs de vídeo. Abriu a porta dela e ajudou-a a sair do automóvel. ao mesmo tempo. Marguerite tinha quarenta e sete anos. ela perguntou-lhe se ele tinha mantido a antiga casa e ele disse que sim. Como ainda não dormira no Céu. o ranger do seu corpo no banco de cabedal. que antigamente tinham recortes de 143 cowboys pintados com tinta reluzente. Eddie disse-lhe que tinha feito as pazes com o pai e ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca num sorriso. Transpuseram as portas dos vários casamentos e falaram de tudo o que desejavam falar. Fez sinal a Eddie e apontou para o cimo distante de uma atracção do parque de diversões. Numa cerimónia russa. o tilintar das chaves. pensando melhor. Ela inspirou fundo e fechou os olhos. porque é que algumas pessoas morrem e outras vivem. Eddie sentia-a em tudo. como se aquela inspiração lhe tivesse sido penosa. — O cartão. como é que ele havia de saber ao certo? Em relação a Marguerite. Pararam no parque de estacionamento e Eddie desligou o motor. e ela disse que isso a deixava contente. Uma noite. Quando mencionou o pai. — A roda-gigante? — perguntou ele. a corrente de ar lá fora. ele falou sobre o que lhe acontecera ali no Céu e ela pareceu ouvir e. a velha melodia suave da galeria de jogos fora substituída por um ruidoso rock’n’roll. e falou sobre o Capitão e a sua história de sacrifício.. Ela tinha os ombros puxados para o queixo. — Ah. no volante. sem dormir nem acordar. sem refeições nem horários. como uma criança enregelada. inexpressivo. 142 — Vê-se daqui — disse ela. estupefacto com o seu silêncio. — repetiu ele.

— Que razão? — replicou ele. Ela sentou-se num banco e uniu as mãos. Perguntou-se se algum dia seria perdoado. — O que é que aconteceu? — perguntou ela. — Desculpa-me por nunca termos saído daqui. Ela sorriu e disse: — Claro que sabe — mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte da sua vida a esconderse de Deus e o resto do tempo convencido de que Lhe passava despercebido. Voltaram ao pequeno quarto redondo. que eu te abandonei demasiado cedo. Eddie percebeu que era precisamente isso que sentia há anos. fiquei. Eras a melhor 145 . Contorcionista. A minha perna. — Está bem. Ela lançou-lhe um olhar repreensivo. Marguerite conduziu Eddie por outra porta. Ele agachou-se lentamente. não é? — perguntou Eddie. Top Gun e Vórtice. Se estiver certo. quando as pessoas adormeciam. às vezes sonhavam com o Céu e esses sonhos ajudavam a formálo. Dela. — Parece — respondeu ela. mas não o seu. — É aqui que a noiva espera — disse ela. agora. Os soldados. — É este o momento em que pensa no que está a fazer. — Como é que pode ter havido uma razão? Morreste. — Houve uma razão — disse ela. quando regressavam a casa. Mas. Ela virou-se para ele. Ele viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto dela. O meu pai. depois de longas conversas. os dois deitavam-se juntos. — Tu partiste demasiado cedo — disse ele. Já não havia as montanhas-russas Ursa Maior ou as Tartarugas. Quem amará. — Eu devia ter ido trabalhar para outro lugar — confessou ele. passando os dedos pelos cabelos. Lembrou-se dos homens que matara. 144 A quarta lição Por fim. Tinhas quarenta e sete anos. faziam o que tinham a fazer e não falavam no assunto. Ficara sempre implícito. Lembrou-se dos guardas. — Tiveste de viver sem amor durante muitos anos. este pode ser um momento maravilhoso. — Não. Mas não dormiam. Senti-me sempre um inútil. depois da guerra. Ele nunca lhe contara. Agora chamavam-se todas Tempestade. Em vez de dormir. — Durante a guerra. mas dando a sensação de se afastar. Na Terra. Eddie abraçava-a e cheirava os cabelos dela e inspirava fundo com a cabeça enterrada no pescoço de Marguerite. melancólica — a descrição do Verão de outra pessoa qualquer. Lembrou-se do sangue nas suas mãos. Explicou-lhe os nomes novos. Por vezes. Virou-se para o espelho e Eddie reparou no reflexo.televisão o tempo todo. — Não — retorquiu a sua mulher. perguntou-lhe se Deus sabia que ele ali estava. Quem escolhe. Eddie. — Sim — sussurrou ele e ela não acrescentou mais nada. — Sentiste que te foi roubado. ali no Céu. absorvendo a sua imagem. — Perdi-me — disse ele. não tiveste? Eddie ficou calado. A dada altura. — É estranho. no tempo de Eddie. O vestido cor de alfazema de Marguerite estava estendido diante dele. não havia razão para esses sonhos. — Ficaste zangado comigo. disse Marguerite.

como que a dizer que não era verdade. depois voltou para os braços dele. — Eu nunca quis outra pessoa — disse ele. lentamente. — Importas-te? Ela deteve-se um instante. — E queres que a transforme em quê? — No aspecto que tinhas no fim. — Mas o amor não. que até aqui o sentimos.. — Inclusivamente aqui — respondeu ela. ele deu o primeiro passo.. com cadeiras de armar e um acordeonista sentado a um canto. Ele reflectiu por uns instantes. Estava ciente de outro tipo de vida lá fora. e Eddie pestanejou ao transpô-la atrás dela. ignorando todas as coisas terríveis que associava à dança. à música e aos casamentos. Tratava-se de um quarto imerso na penumbra. Eu perdi tudo. ou levar-lhe comida. Alimenta-nos. Ela baixou os braços. Fizeste-me amar-te E sempre soubeste . Dançamos com ela. — Podes alterá-la? — Alterá-la? — Ela pareceu divertida. — Um amor perdido pode ter tanta força. há outro que se sublima. O amor perdido não deixa de ser amor. — Aqui? — perguntou ele. ou rodopiar com ela numa pista de dança. — Sentia-o. A memória torna-se nossa companheira. Eddie lembrou-se dos anos depois de ter enterrado a sua mulher. 146 — Como é que estás com a mesma aparência do dia em que casei contigo? — Achei que ias gostar. Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo Eu não queria fazê-lo. Agarramo-nos a ela. não perdeste. — Continuava apaixonado por ti. A vida tem um fim — rematou Marguerite. Perdi a única mulher que amei na vida. — Eu sei — disse ela. Estendeu os braços. Mas quando esses sentidos enfraquecem. pousando a mão no ombro dele — os cartões do bingo. A memória. Não conseguimos ver o sorriso da pessoa amada. baixinho. eu não estava lá muito bonita. Eddie abanou a cabeça. — Podes. — Eu sei. E. Eu estava aqui. Ele sorriu e enlaçou-a pela cintura. Era como espreitar por cima de uma cerca.pessoa que qualquer um de nós conhecia e morreste e perdeste tudo. num ritmo recordado que um marido partilha somente com a sua mulher. Ela pegou nas mãos dele. — Estava a guardar este para último lugar — disse ela. Apenas assume uma forma diferente. não passavam de expressões da solidão. ignorando a perna. no fundo. ou mexer-lhe nos cabelos. apesar de saber que nunca faria parte dele. aproximou-se dela. — Não. — Ela fez um sinal de assentimento. pela primeira vez no Céu. — Posso perguntar-te uma coisa? — perguntou. — No fim. E continuaste a amar-me. Eddie. Ela entoou a melodia ao ouvido de Eddie e começaram a mover-se juntos. — Só faltam — sussurrou Marguerite. sorrindo. Ela levantou-se e abriu uma porta. O homem do acordeão tocou as notas conhecidas. apercebendo-se agora de que.

— O lava-louças estava lavado. — Está muito arrumado. — Nesse caso. Ninguém tivera coragem. o cabelo mais fino. para um velhote.. um advogado do ramo imobiliário. com a teia de finas rugas aos cantos dos olhos.. na esperança de encontrar logo a papelada. Uma portinhola interior alinhada com uma portinhola exterior. fingindo-se interessado. uma ementa de um restaurante chinês. O elevador parou com um salto e a porta abriu-se. através do vidro martelado. Empurrou os pares de meias para o lado. juntamente com tudo o resto. os seus braços ainda estavam moldados ao corpo dela. Quando abriu os olhos. assentiu discretamente com a cabeça.. ela estava mais bonita do que nunca. assim que abriu a porta e entrou na cozinha. um velho baralho de cartas. aos olhos dele.. — Não sei. não deve demorar muito. Abriu-a. empilhadas pelos elásticos. O homem ao seu lado. Apercebeu-se das saudades que tinha do velhote. — Hum — fez o homem. e eles viraram-se para o apartamento 6B. Enfiado debaixo delas estava uma velha caixa de cabedal. mas ela desaparecera. Via-se o antigo carrossel. Nada de extractos bancários. a observar tudo e todos como uma mãe-galinha.E sempre soubeste. O advogado abriu a gaveta de cima da cómoda. Meu Deus. viu o átrio desaparecer. 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE Dominguez carregou no botão do elevador e a porta fechou-se com estrondo. Nada de importante. Quero ficar aqui. O zelador do prédio dera-lhes a chave e um prazo. Nada de apólices de seguros. É que eu próprio só cá vim uma vez. Deixaram os pertences dele na oficina. Tirou o chapéu — estava abafado e ele suava — e observou os números que se iluminavam no painel de latão. a pele mais flácida por baixo do queixo. Até à próxima quarta-feira. As bancas limpas. onde estavam. do século passado. Quando ele afastou a cabeça. a sua casa nunca estava assim tão arrumada. Ainda nem sequer tinham esvaziado o seu 148 cacifo. — Uau! — exclamou Dominguez. o quão estranho era não o ter no parque. Ela sorriu e ele sorriu e. o quê?. — Nem acredito que este elevador ainda funciona — comentou Dominguez. — Extractos bancários? Jóias? Dominguez imaginou Eddie a usar jóias e quase desatou a rir. uma coisa com ar sério. Franziu a testa. limpando a testa com um lenço. 147 SEXTA-FEIRA. Pode ver naquela coisa do quarto? — Na cómoda? — Sim. Mais um e podia ir para casa jantar. — Deve ser. O átrio ainda tinha os antigos mosaicos em xadrez preto e branco dos anos sessenta e cheirava a comida — alho e batatas fritas.. Só conhecia o Eddie do trabalho. novamente com estrondo. . — O Eddie tinha poucas coisas — disse Dominguez. A cabina subiu e. Dominguez debruçou-se sobre a mesa e espreitou pela janela da cozinha. Apenas um laço preto. — Papelada financeira? — pediu o homem. como se ele voltasse no dia seguinte. Era o seu terceiro compromisso do dia. Consultou o relógio. Por falar em trabalho. Queria a casa vazia para um novo inquilino. todas cuidadosamente dobradas. a gritar ordens. ela tinha novamente quarenta e sete anos. pensou para consigo. uma dentro da outra. e Eddie fechou os olhos e disse pela primeira vez o que sentia desde que voltara a vê-la: — Não quero avançar.

nem céu. congratulou-se silenciosamente pela sua própria carteira de acções. Quando vivo. Eddie fechou os olhos com força. com pouco mais para apresentar além de uma cozinha arrumada. Ouviu novamente o som. sem levantar os olhos. Sentiu-se como se tivesse caído por umas escadas abaixo e estivesse amachucado.um envelope com uma medalha do exército e uma Polaroid esbatida de um homem junto de um bolo de aniversário. outros da Administração de Veteranos. mas não havia maneira de a alcançar. como tantas vezes acontecia nesse tipo de visitas. As unhas eram pequenas e amareladas. o som estridente deslocou-se para o fundo e. A sua alma estava vazia. disse: — Isto chega. O silêncio é pior quando sabemos que não vai ser quebrado. Eddie ouvira esse som nos seus pesadelos e estremeceu ao evocar a recordação: a aldeia. rodeado de crianças. tão silencioso como um forte nevão ao raiar do dia mais sereno do mundo. no vazio. cerrou os punhos. O advogado folheou-os e. Expirou e ouviu outra expiração. Não tinha impulsos. de a chamar. seguida pelo eco dessa mesma respiração. até que Eddie gritou para a brancura asfixiante: — O que foi? O que é que queres? Assim que proferiu estas palavras. levantou pesadamente as pálpebras. só mais um minuto. melhor do que acabar como aquele pobre coitado. . meio minuto. Podia ter sido um século. Era. Tudo o que ouvia era a sua própria respiração ofegante. mais alto agora. mas descobriu que a sua mão direita estava a segurar numa bengala. da cozinha —. Podia ali ter ficado um dia ou um mês. A sua mulher fora-se embora. Cerrou os maxilares. um ondular estridente de guinchos e quietude irregulares. As suas pernas nuas mostravam os sinais vermelhos da zona que o atacara nas suas derradeiras semanas na Terra. de lhe acenar ou sequer de contemplar o seu retrato. o incêndio. Agora. Branco era tudo o que Eddie via. nem horizonte entre os dois. 150 O ruído voltou a fazer-se ouvir. a ele. Depois. Já estivera em quatro recantos do Céu. no final. é disto que precisa? Apareceu com um maço de envelopes tirados de uma gaveta da cozinha. só havia branco. Ficou pendurado. como se assim pudesse acabar com o barulho. mas continuou. sem dúvida. Desviou o olhar da sua decadência crescente. como um alarme imparável. Nem terra. Os seus braços encontravam-se salpicados de manchas de velhice. como se todos os fluidos tivessem sido arrancados de dentro de si. juntou-se uma segunda camada de barulho. com o instinto de defesa de uma vida inteira. inerte e sem vida. pressentiu que agora se tratava de algo completamente diferente. já encontrara quatro pessoas e. o seu corpo estava próximo do fim. Inspirou fundo e ouviu uma inspiração ainda mais forte. ao fundo. — Retirou um extracto bancário e tomou mentalmente nota do saldo. alguns de um banco da zona. Apenas um branco imaculado e silencioso. como se suspenso num cabide. 149 A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu Branco. que reflectia as ondas cintilantes. e Eddie. títulos e plano-poupança reforma. Smitty e aquele barulho. embora cada uma tivesse sido intrigante no início. Ele queria-a desesperadamente. Só à chegada de um pequeno mas insistente ruído é que ele se mexeu. um troar livre e incessante — o som de um rio a correr — e a brancura reduziu-se a um ponto de luz. Aos pés de Eddie. — Ei — chamou Dominguez. aquela cacofonia chiante que. mais cinco segundos. saíra da sua própria garganta quando tentara falar. Em termos terrenos. e Eddie sabia.

E foi então que os olhos de Eddie pousaram num rochedo branco. Ela sorriu. Convidava amigos. 151 Não havia adultos. Durante todo aquele tempo? Porquê? Observou aqueles seres pequeninos. Prepara um café instantâneo num copo de papel e come dois pedaços de tosta com margarina. crianças pequenas. sozinho lá no alto. Faz sessenta e oito anos. Nunca é difícil agir como uma pessoa vulgar. Reparou também noutra coisa. Fez-lhe sinal com as duas mãozinhas. Eddie diz «ah sim?» pelo menos cinquenta vezes. engolido pelo mar. Faz sessenta anos. tu. aparentemente a supervisionarem-se umas às outras. uma segunda-feira. aquele rangido tamborilante. a fonte daqueles gritos assombradores e foi inundado pelo alívio de um homem que descobre. Espalha os comprimidos em cima da banca. enquanto descia a encosta. Nada de convidados. Repara que alguém falhou um turno na noite anterior e que os travões da Aventura da Minhoca Contorcionista não foram testados. Um sábado. aquela gritaria. Mas. onde soprava uma brisa no seu rosto e uma neblina humedeceu a sua pele. destituída das brigas habituais entre crianças. vê televisão em casa. Eddie baixou a bengala para se apoiar. o irmão. a mergulhar no rio e a gritar de riso inocente. A sua bengala tocou em qualquer coisa sólida. agarrado ao taco de basebol. Coloca os óculos e examina os relatórios da manutenção. É Joe. e a palidez da rendição torna-se a cor dos dias de Eddie. desaparece. Estava no cimo de uma das margens. O som. antes de tocar o solo. Fazia um bolo. outros a nadar. Nada de bolo. muito direitinho. Nos anos que se seguiram ao acidente da mulher. Joe fala sobre o neto. a ligar da Florida. em cima da rocha. Escorregou. prende-se com uma corda a uma curva da montanha-russa. destacada das outras crianças. É o seu primeiro aniversário sem Marguerite. e ali estava ele. era apenas a cacofonia de vozes infantis. «Não podes abdicar do teu dia de anos». o seu joelho ferido a ceder sob o seu peso. Agora que ela partiu. Joe deseja-lhe feliz aniversário. outros a rebolarem na erva alta. que não há nenhum intruso dentro de casa. Ele hesitou. Por fim. milhares de crianças a brincar. O telefone toca. Joe fala sobre o condomínio de apartamentos. Prende-o a um anzol e deita a linha pelo buraco de pesca. com a pele da cor de madeira escura. a acenar-lhe. Vê-o flutuar. todas elas.apareceu o solo. Nem sequer adolescentes. A noite. retorquia ela. Olhou para baixo e viu. Eddie rejeitava toda e qualquer festa de aniversário. alguns a saltar. 152 Hoje é o aniversário de Eddie Faz cinquenta e um anos. Vai para a cama cedo. sentiu um súbito sopro de vento nas costas e foi empurrado para a frente e colocado de pé. Uma menina esguia estava em pé. Era com isto que eu sonhava?. No emprego. quando nos sentimos uma pessoa vulgar. parado diante da menina como se ali tivesse estado o tempo todo. como quem diz: Sim. Estas eram. Chega bem cedo à oficina. um sábado. Ela voltou a acenar e fez que sim com a cabeça. Reparou que havia uma certa tranquilidade naquela cena. dizendo: «Por que é que me têm de lembrar esse dia?» Era Marguerite quem insistia. Suspira e retira um placard da . é uma quarta-feira. ao fundo da colina. Eddie tenta esquecer a data. virada para ele. aquele assobiar. alguns com baldes nas mãos. como um alpinista. Abre o saco de papel pardo que contém o almoço e arranca um pedaço de salsicha de uma sanduíche. no rio. Comprava sempre um saquinho de doces e atava-o com uma fita. as pernas a fraquejarem. Faz setenta e cinco anos. pensou.

Ela sorriu e bateu as palmas. Fez sinal a Eddie para ele se sentar no tapete e ela fez o mesmo. excitada. — Como as nossas inas costumavam fazer. com as pernas cruzadas por baixo das nádegas. mas podia comê-los na mesma. Ela tocou no tecido encarnado que lhe envolvia o tronco e as pernas. altura que aproveitou para se apresentar. — Inas? — repetiu Eddie.153 parede — ATRACÇÃO TEMPORARIAMENTE ENCERRADA PARA MANUTENÇÃO —. — Estão a lavar-se — disse a menina. Continuaram a mergulhar. Um táxi pára à entrada do parque de diversões. Visita a sepultura da mãe e a sepultura do irmão e detém-se junto da sepultura do pai durante uns instantes apenas. é como se fosse ele a conduzir e não conduz desde que lhe retiraram a carta de condução. uma bonita tez de canela. Depois. uma terça-feira. anunciando o seu nome. cabelos da cor de uma ameixa escura. Eddie olha em frente. — Tala — disse ela. depois leva-o para a entrada da Minhoca. Pensa em caramelos. — Baro — disse ela. — Mães — respondeu ela. Eddie observou um miúdo a esfregar uma pedra no corpo de outro. O táxi leva-o ao cemitério. — Não. com um pontinho branco a servir de pupila. Como habitualmente. Caramelos. Perguntou-se se ela e os outros miúdos teriam escolhido aquele Céu ribeirinho. puxando a bengala para dentro do automóvel. Faz oitenta e dois anos. — Importa-se? — pergunta Eddie. 154 A última lição A menina parecia asiática. — Tala — repetiu Eddie. lábios carnudos que se abriam alegremente sobre os seus dentes afastados e uns olhos extraordinariamente cativantes. a seguir as conchas do mar iridiscentes aos seus pés — "capiz" —. dos braços. 155 Nenhuma das outras crianças pareceu reparar nele. — Saya. há dois anos. ao longo das costas. a nadar e a apanhar seixos do leito do rio. não detectava a hesitação habitual em relação aos adultos. — A maior parte das pessoas prefere ir no banco de trás — diz o motorista. Apontou para a sua blusa bordada. pretos como a pele de uma foca. Apoia-se na bengala e olha para a pedra tumular e pensa em tantas coisas. . mas. Pensa que lhe arrancariam os dentes. folgada nos ombros e molhada com a água do rio. até Eddie dar mais um passo em frente. Senta-se no banco da frente. agora. Não explica que. não me importo. depois um tapete de bambu entrelaçado — "banig" — que se encontrava diante dela. O motorista encolhe os ombros. com as mãos sobre o peito. guarda a da mulher para último lugar. — Baro. Eddie ouvira muitas crianças na sua vida. se isso significasse comê-los na companhia dela. onde verifica ele próprio os painéis dos travões. um narizito chato. Ela sorriu como se tivesse começado um jogo. — Saya. na voz desta. talvez com uns cinco ou seis anos. assim. os seus sapatos tipo socas — "bakya" —.

A sua respiração acelerou. ele matara-a. chorou e gemeu. mas isso fez com que ele se fosse abaixo. Eddie sentiu um martelo a bater-lhe por detrás dos olhos. no parque. — De que estavas. como costumava fazer nos seus tempos. Olhou para os olhos negros e profundos dela e tentou sorrir. merecia cada um deles. aquela paisagem serena fora escolhida para elas. Os lança-chamas. Ela retribuiu o sorriso. — Tala. a sombra. um uivo saído das suas entranhas.. Tala? Ela palpou o cão de borracha. a esconder-te. esta linda criança. As mãos dele tremiam. Eddie baixou a voz. Tirou-os do bolso e retorceu-os um no outro. até o uivo ceder lugar a uma espécie de oração. Vira.. frenética. naquela cabana. O seu corpo entrou em convulsões e a sua cabeça abanou. os pesadelos que sofrera. — Gostas? — perguntou ele. depois mergulhou-o na água. Eddie sentiu a palavra como uma faca na boca. — Soldado. Passaram-lhe imagens pela cabeça. A seguir. Ela pegou no cão e sorriu — um sorriso que Eddie vira milhares de vezes. — sussurrou ele. As suas mãos tremiam-lhe. — A minha ina diz para esperar dentro da nipa. Ela pôs-se de joelhos para observar o procedimento. A voz dela era inexpressiva. — Eddie terminou a última volta... — Queimas-me — respondeu ela. — Estás a ver? É um. as palavras expelidas numa maré ofegante de confissões: 157 . Eddie sentiu o maxilar contrair-se. de um lado para o outro. 156 — Sundalong? Ela levantou os olhos. Soldados. de facto. Os seus ombros e pulmões cederam. Smitty. Queimas-me... um uivo que revolveu a água do rio e abalou o ar enevoado do Céu.. — Ela encolheu os ombros estreitos. — Sundalong — disse ela. Grande incêndio. Eddie engoliu em seco. um grande barulho. Explosões. era real.. — . pronunciando as palavras lentamente. O seu rosto desfigurou-se e ele enterrou-o nas mãos. O Capitão. como se fosse um medicamento de que a criança necessitasse. qualquer coisa! A sombra nas chamas! Matara-a com as suas próprias mãos! Com as suas mãos incendiárias! Uma torrente de lágrimas escorreu-lhe por entre os dedos e a sua alma entrou em queda livre. — Queimas-me. Morton. — O que é que disseste? — Queimas-me.. — A nipa. — Porque é que estás aqui no Céu? Ela baixou o cão de borracha. A escuridão que o assombrara durante aqueles anos todos estava finalmente a revelar-se... A sua cabeça começou a latejar. Depois... — Estavas nas Filipinas. um uivo ergueu-se dentro dele numa voz que nunca ouvira antes. Fazes-me fogo. Fazes-me fogo.ou se. de carne e osso. Arames para limpar cachimbos. — Tala — disse ela. — Não é seguro. dadas as suas memórias tão curtas. A minha ina diz para esconder. queimara-a até à morte. — Isto? — perguntou ele. Ele baixou os olhos. A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. como a de uma criança a recitar uma lição de cor. Seguro. sorrindo perante o seu próprio nome. A ina disse que lá era seguro.. cão. esta criança. Esperar por ela.

A pele dela estava horrivelmente queimada. passou o seixo pelo braço dela. Pegou na pedra. lá — disse ela. — e. — Nunca tive filhos. Entrou na água e virou as costas para Eddie. Ele passou o seixo com cuidado à volta das pálpebras. OH.. Não fui nada... — Sou cinco — segredou ela. até as cicatrizes começarem a desfazer-se. Não conquistei nada. — Devias estar vivo. Sentia que não devia estar vivo. Esticou cinco dedos. Quando ela reabriu os olhos. porque não aproveitei a minha vida. a testa e a pele por trás das orelhas. Estava ajoelhado num tapete. de braço estendido e um seixo na mão. Eddie sentiu baterem-lhe ao de leve no ombro. Quando ela se voltou. Perdi-me. Baixara todas as suas defesas... Depois.... nos pontos onde o crânio não ficara queimado. acima de tudo. Os seus dedos tremiam. Levantou os olhos e deparou-se com Tala. ao Capitão. A dada altura. um último soluço vago. Esfregou com mais força. ao Homem Azul e. até os cabelos cor de ameixa despontarem das raízes e o rosto que ele vira inicialmente voltar a aparecer. retirou o baro bordado pela cabeça.. a nuca e finalmente as faces. como se o seu peito estivesse vazio. diante da menina de cabelos escuros. num murmúrio: — Perdoa-me — e a seguir: — PERDOAME. Tala tirou o cão feito de arames de dentro da água. a si próprio.. Depois. carbonizados. o seu rosto belíssimo e inocente estava coberto de cicatrizes grotescas.. apoiando a cabeça no peito dele. com bolhas.. até o choro perder força e se reduzir a um estremecimento. ah sim?. Ela levantou a mão queimada. Disse o que sempre dissera a Marguerite. Ela abanou a cabeça a dizer que não. Eddie baixou o braço e estremeceu em curtas inspirações ofegantes. — Porque é que estou triste? — sussurrou ele.. empurrou-os contra o peito de Eddie. Apenas um olho aberto. falou por entre a distância que existia entre eles. — murmurou num fiozinho de voz. como que a explicar os teus cinco. balouçou o corpo silenciosamente para trás e para a frente. A tua quinta pessoa. que brincava com o seu animal feito de arames na margem de um rio. Eddie pegou nela com ternura e. — Lá. — Porquê triste? — perguntou ela. Eddie soluçou. Redobrou os seus esforços até a pele carbonizada cair e ver-se a pele saudável. — Lava-me — disse ela. Ela encostou-se a ele. por fim: — O que foi que eu fiz.— Matei-te. — Cinco. — Lava-me — disse ela novamente. os pontinhos brancos cintilaram como faróis. Soprava uma brisa quente. Tens cinco anos?. elas soltaram-se da pele. quando a sua angústia abrandou. de olhos fechados como se estivesse a dormir uma sesta. Depois. Fez o mesmo com os lábios 158 descaídos e com as crostas da cabeça. Depois. a Ruby. estendendo-lhe o seixo. Tala observou-a da mesma maneira que uma criança observa um insecto na relva. — Aqui? Ela apontou para baixo. Ele retraiu-se.. Eddie arrastou-se para o rio. virou a pedra ao contrário e esfregou as costas ossudas. entre as crostas manchadas. O QUE FOI QUE EU FIZ?. já não havia lugar para uma conversa adulto-criança. Depois. Uma lágrima rolou pela face de Eddie. O cabelo aos tufos. Chorou e chorou. Os lábios caídos.. O seu torso e os ombros estreitos estavam pretos. os pequeninos ombros. — Não sei como. .. EU MATEI-TE — depois. MEU DEUS. lentamente. — Estava triste.

Não podia tê-la empurrado. 159 Ela sacudiu o cão contra a camisa dele. todas as cicatrizes. — Crianças — disse ela. — Porquê? Ela inclinou a cabeça para o lado. Eu trazer-te para o Céu. como se a resposta fosse óbvia. a carne arrancada dos ossos. Eddie levantou os olhos. — É a única coisa de que me lembro. Ele soube de imediato que já ali estivera antes. Pronto. — Salvei-a? Consegui puxá-la? Tala abanou a cabeça. e pressentiu que não lhe restava muito tempo. Eddie deixou-se cair na corrente de água. Ela levantou os olhos. Eddie estremeceu. As suas mãos ainda estavam entrelaçadas nas de Tala. Deixou cair a cabeça. de mãos dadas. Tala sorriu e. Ela conduziu-o por entre as ondas de um vasto mar cinzento e ele emergiu. todas as más recordações. durante aquele tempo todo. Senti as mãos dela. Eddie fechou os olhos. lado a lado. Eu salvo-te. — Salvas as crianças. Antes que ele pudesse voltar a inspirar. — A menina do parque? Sabes o que lhe aconteceu? Tala olhou para as pontas dos dedos. Fez que sim com a cabeça. Ali estava o final da sua história. — Empurrar? — Empurrar as pernas. de calções. As pedras da sua vida estavam agora todas à sua volta. Tu salvas a menina. crianças que ainda não tinham nascido. a seguir. — As minhas mãos. que o quer que surgisse depois das cinco pessoas que encontramos no Céu estava prestes a suceder. tocou na etiqueta da camisa dele com uma gargalhada e acrescentou duas palavras: — Eddie Ma-nu-ten-ção. e Eddie percebeu que todas aquelas cores. mães e crianças — tantas crianças —. — As mãos dela não — disse Tala. mas sentiu o seu corpo ser levado da sua alma. e ela puxou-o suavemente por entre sombras e luzes. o barulho 160 das crianças desapareceu e ele foi submerso por uma forte mas silenciosa corrente. dissolver-se. encostadas umas às outras. — Mas eu senti as mãos dela — disse ele. por entre tons de azul e marfim e limão e preto. pais. por baixo da superfície. — A reparar máquinas? Era essa a minha vida? — Ele respirou longamente. — Puxar não. rodeado de luz brilhante. com a mão em forma de concha. tirou água do rio. Sentiu a sua forma derreter. crianças do passado e do presente. de barrete. Empurrar. O carrinho caiu. E dito isto. enchendo a marginal e as atracções do parque e as . representavam as emoções da sua vida.— Onde? Em Ruby Pier? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. — Devias estar vivo lá — repetiu ela e. engolindo a cintura de Eddie. uma folha na água. depois pousou os dedinhos molhados nas mãos adultas de Eddie. o rio subiu rapidamente. em negação. e com o corpo desapareceram toda a dor e cansaço que ele acumulara dentro de si. o peito e os ombros. acima de uma cena quase inimaginável: Havia um parque cheio de milhares de pessoas. — Empurrar — disse Tala. Puxar não. todas as feridas. Fazes-me bem. homens e mulheres. — Tala? — sussurrou. Agora não era nada.

que aceitara ficar com o cargo de Eddie. A atracção chamada Queda Livre foi encerrada durante o resto da temporada. juntamente com recordações de Ruby Pier. mas as histórias são todas uma só. para partilhar a sua parte do segredo do Céu: que cada pessoa afecta outra e essa outra afecta outra ainda. e que o mundo está cheio de histórias. flutuava acima da areia. 161 Epílogo O parque de diversões de Ruby Pier reabriu três dias depois do acidente. mas suficientemente grande. à espera num lugar chamado a Concha da Banda do Estrelato. Estavam ali. onde se vangloriava perante os amigos de que a sua bisavó era a mulher que dera o nome ao parque de diversões. A história da morte de Eddie saiu nos jornais durante uma semana. fez uma nova chave quando chegou a casa e vendeu o carro quatro meses depois. Eddie ouvia as suas vozes. e sentiu-se inundado por uma paz que nunca antes sentira. E embora os seus lábios não se mexessem. à espera de braços abertos. as multidões voltaram ao parque de diversões à beira do vasto oceano cinzento — um número de pessoas não 163 tão grande como nos parques temáticos. Marguerite. A casa de Eddie. e Dana Wyatt. no colo umas das outras. guardou os poucos pertences de Eddie numa arca na oficina. Ele aproximou-se dela e viu-a sorrir e as vozes fundiram-se numa só palavra de Deus: Lar. das Diversões da América. as voltas discretas que efectuara todos os dias. o jovem cuja chave cortara o cabo. o espírito alegra-se e a costa cativa com a sua cantilena de ondas e as pessoas reúnem-se à volta dos carrosséis e das rodas-gigantes e das bebidas geladas e do algodão-doce. estava uma mulher de vestido amarelo — a sua mulher. e finalmente obtivesse respostas para as suas perguntas: porque é que viveu e qual o objectivo da sua vida. acima da marginal. Voltou muitas vezes a Ruby Pier. com um barrete de linho e um nariz adunco.plataformas de madeira. onde num carrinho. As estações sucederam-se. a balouçar suavemente. incluindo fotografias da antiga entrada original. em direcção ao pico da grande roda-gigante. sentadas nos ombros umas das outras. ou viriam a estar ali. as máquinas que reparara. Os adolescentes viam-na como um símbolo de coragem e eram muitos os clientes que a procuravam. 164 Agradecimentos O autor gostaria de agradecer a Vinnie Curci. em cinco recordações escolhidas. graças às pequenas coisas mundanas que Eddie fizera na sua vida. foi alugada a um novo inquilino. que uma menina chamada Amy ou Annie crescesse e amasse e envelhecesse e morresse. que colocou vidro fosco na janela da cozinha. os acidentes que evitara. Com a chegada do Verão. Já não segurava na mão de Tala. tapando a vista do velho carrossel. directora . Dominguez. acima das tendas e das espirais da rua principal. E quando acabaram as aulas e os dias se tornaram mais longos. mas no ano seguinte reabriu com um novo nome: o Precipício do Desafio. a casa onde crescera. Formavam-se filas em Ruby Pier — tal como se formava uma fila noutro lugar: cinco pessoas à espera. mais vozes do que jamais imaginara. E nessa fila encontra-se agora um velhote de bigodes. Nicky. depois outras histórias sobre outras mortes ocuparam o seu lugar. Os proprietários ficaram satisfeitos.

David Collon.de operações do Pacific Park. Um especial agradecimento também ao Dr. A sua ajuda na fase de pesquisa deste livro foi preciosa e o seu orgulho em proteger os clientes dos parques de diversões é digno de elogio. com tudo. Will Schwalbe. Ira. Katie Long. a Janine. Os meus mais sinceros agradecimentos a Bob Miller. que ouviu pacientemente e muitas vezes a leitura em voz alta deste livro. do Henry Ford Hospital. e ao meu tio. no Cais de Santa Monica. Michael Burkin e Phil Rose. Ellen Archer. que simboliza o ideal da relação agente-autor. FIM . Leslie Wells. Cara e Peter. que sabe lidar. E a Kerri Alexander. por acreditarem em mim. Jane Comins. o verdadeiro Eddie. a Rhoda. com quem partilhei a minha primeira roda-gigante. que me contou as suas histórias muito antes de eu contar a minha. e bem. a David Black. pela informação sobre feridas de guerra.

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