As cinco pessoas que encontramos no céu

Capa MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Pergaminho Badana da capa Mitch Albom é jornalista e comentador

desportivo. É também autor de vários livros, de entre os quais se destaca As Terças com Morrie, um best-seller internacional com mais de cinco milhões e meio de exemplares vendidos que ocupou os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times durante quatro anos seguidos. As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é o seu primeiro romance. Desde a sua primeira edição, em Setembro de 2003, que tem ocupado os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times. O sucesso que tem tido junto do público tem-se reflectido na crítica: "Esta é a fábula que lemos de uma assentada quando nos apaixonamos. É o conto que temos sempre à mão quando nos sentimos perdidos. É a história que queremos escutar vezes sem conta, pois tem aquela capacidade rara e mágica de nos dar a ver a nós próprios e ao mundo sob uma nova perspectiva. Este livro é um presente para a alma." Amy Tan Badana da contracapa "O leitor encontrará aqui ecos dos grandes clássicos - como a Odisseia - e isso faz com que esta obra de Mitch Albom esteja em muito boa companhia." Frank McCourt "Uma história cheia de sabedoria acerca do valor da vida humana." Los Angeles Times "As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é um livro poderoso." Time Magazine "Um livro doce e animador, sem vestígios de sentimentalismo." Booklist "Uma obra sincera que tem o poder de comover e reconfortar os leitores." The New York Times Contracapa Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido ou importância. Aos 83 anos, trabalha ainda como responsável de manutenção num parque de diversões. Passa os dias a fazer trabalhos rotineiros e não consegue afastar a sensação profunda

de solidão e de arrependimento por não ter vivido mais intensamente. Mas é precisamente no dia do seu 83.° aniversário que Eddie morre num acidente trágico, ao salvar a vida a uma criança. A última coisa que sente são duas mãozinhas a segurar as suas - e depois um imenso silêncio. É então que tudo começa. Eddie desperta no Céu. À sua espera estão cinco pessoas - umas são perfeitos desconhecidos, outras são-lhe muito próximas – que, de uma forma ou de outra, determinaram o percurso da sua vida. Cada uma destas pessoas fez parte da vida de Eddie por uma razão especial, embora ele não compreendesse na altura. O Céu é o lugar para onde vem para o compreender. Através destas cinco pessoas, Eddie vai descobrir as ligações invisíveis que constituíram o padrão da sua vida. Será que passou 83 anos insignificantes na Terra? Ou que passou teria a sua vida tido, afinal, algum sentido? Página de rosto MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Tradução de Tânia Ganho Pergaminho Ficha Técnica As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu Mitch Albom Tradução de: The Five People You Meet in Heaven Hyperion, 2003 copyright © 2003, by Mitch Albom Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado — além do uso legal como breve citação em artigos e críticas — sem prévia autorização do editor. copyright © 2004, da tradução e editoração portuguesas by Editora Pergaminho, Lda. Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal l.a edição, 2004 l.a reimpressão, 2004 ISBN 972-711-587-X Este livro é dedicado a Edward Beitchman, o meu querido tio, que me deu o meu primeiro conceito de Céu. Todos os anos, à volta da mesa festiva do Dia de Acção de Graças, ele contava a história de uma noite que passou no hospital, em que acordou e viu as almas dos seus entes queridos, que já haviam falecido, sentados à beira da cama, à sua espera. Lembrar-me-ei sempre dessa história.

Lembrar-me-ei sempre dele. Toda a gente tem uma ideia do Céu, como a tem a maioria das religiões, e todas devem ser respeitadas. A versão que aqui apresento é apenas um palpite, um desejo, de certo modo, de que o meu tio e outras pessoas como ele — pessoas que se sentiram pouco importantes aqui na Terra — percebam, finalmente, o quão importantes e amadas foram. Fim Esta é a história de um homem chamado Eddie e começa pelo fim, com Eddie a morrer sob o Sol. Pode parecer estranho começar uma história pelo final. Mas todos os finais são também começos. Só não o sabemos no momento... A última hora de vida de Eddie foi passada, como quase todas as outras, em Ruby Pier*, um parque de diversões à beira de um vasto oceano cinzento. O parque tinha as habituais atracções, uma ampla marginal para as pessoas passearem, uma roda gigante, montanhas-russas, carrinhos de choque, uma banca de doces e uma galeria de máquinas de jogo, onde se podiam disparar jactos de água para a boca de um palhaço. Tinha também uma atracção nova, chamada Queda Livre, e seria aqui que Eddie acabaria por morrer, num acidente a que os jornais de uma ponta à outra do estado dariam destaque. Aquando da sua morte, Eddie era um homem de idade, baixo e de cabelos brancos, sem pescoço, com o peito em forma de barril, braços fortes e uma tatuagem descorada do exército no ombro direito. As pernas eram magras e cheias de varizes, e o seu joelho esquerdo, * À letra, o Cais da Ruby. (N. da T.) ferido na guerra, sofria de artrite. Eddie apoiava-se numa bengala para andar. O seu rosto era largo e enrugado pelo sol, com um bigode desleixado e o maxilar inferior ligeiramente protuberante, que lhe dava um ar mais orgulhoso do que ele realmente era. Tinha sempre um cigarro preso na orelha esquerda e um chaveiro pendurado no cinto. Calçava sapatos com sola de borracha. Usava um velho boné de linho. O seu uniforme castanho claro lembrava o de um operário e Eddie era precisamente isso, um operário. O trabalho de Eddie era «assegurar» as atracções, o que significava que estava encarregado de zelar pela segurança. Todas as tardes, percorria o parque, examinando cada máquina, desde o Corropio à Montanha-Russa Oleoduto. Verificava se havia tábuas partidas, parafusos soltos, aço gasto. Por vezes ficava parado, de olhos fixos e turvos, e as pessoas que passavam por ele pensavam que estava a sentir-se mal. Mas estava simplesmente à escuta, nada mais. Depois de tantos anos, Eddie conseguia ouvir os problemas, dizia ele, no ranger, percutir e gaguejar do equipamento. Restando-lhe apenas cinquenta minutos de vida na Terra, Eddie fez a sua última ronda por Ruby Pier. Passou por um casal de velhinhos. — Boa tarde — murmurou ele, levando a mão ao boné. Eles acenaram com a cabeça educadamente. Os clientes conheciam Eddie. Pelo menos, os clientes habituais. Viam-no Verão após Verão, uma daquelas caras que se associam a determinado lugar. A sua camisa de trabalho tinha uma etiqueta no peito com o seu nome, Eddie, por cima da palavra Manutenção, e por vezes diziam-lhe: «Olá, Eddie Manutenção», embora ele não visse onde estava a graça. Hoje, curiosamente, Eddie fazia oitenta e três anos. Na semana passada, um médico dissera-lhe que

ele tinha zona. Zona? Eddie não conhecia a doença. Antigamente, tinha força para levantar um cavalo de carrossel em cada braço. Mas isso fora há muito tempo... 10 — Eddie!... Leva-me, Eddie!... Leva-me! Quarenta minutos até à sua morte. Eddie dirigiu-se para a frente da fila da montanha-russa. Costumava dar uma voltinha em cada atracção, pelo menos uma vez por semana, para ter a certeza de que os travões e engrenagens eram seguros. Hoje era o dia da montanha-russa — a MontanhaRussa Fantasma, chamavam-lhe — e os miúdos que conheciam Eddie chamavam-no para ele os levar. As crianças gostavam de Eddie. Não os adolescentes. Os adolescentes davam-lhe dores de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie achava que já tinha visto todo o tipo de adolescente mandrião e maleducado. Mas as crianças eram diferentes. As crianças olhavam para Eddie — que, com o seu maxilar inferior protuberante parecia estar sempre a sorrir, como um golfinho — e confiavam nele. Aproximavam-se de Eddie como umas mãos frias se aproximam de uma lareira acolhedora. Agarravam-se às pernas dele. Brincavam com o seu chaveiro. Eddie pouco falava, dizia qualquer coisa entre dentes. Estava convencido de que gostavam dele precisamente por isso, por falar pouco. Eddie deu uma palmadinha nos dois miúdos de bonés de basebol virados ao contrário. Eles correram para a cabina e instalaram-se no banco. Eddie entregou a bengala ao funcionário da montanha-russa e, lentamente, sentou-se entre os miúdos. — Aqui vamos nós... Aqui vamos nós!... — guinchou um deles, enquanto o outro agarrava no braço de Eddie e o punha por cima dos seus ombros. Eddie baixou a barra sobre o colo e claqueclaque-claque, lá foram eles. Corria a história sobre Eddie. Quando era miúdo, criado ali mesmo, naquele cais, meteu-se numa briga de rua. Cinco rapazes de Pitkin Avenue tinham encurralado o irmão dele, Joe, e estavam a preparar-se para lhe dar uma sova. Eddie encontrava-se a um quarteirão de distância, num banco, a comer uma sanduíche. Ouviu o irmão gritar. Correu para o beco, pegou na tampa de um latão do lixo e deu tanta pancada nos rapazes, que eles foram parar ao hospital. Depois disso, Joe não falou com ele durante dois meses. Tinha vergonha. Joe era o mais velho, o primogénito, mas fora Eddie quem lutara. 11 — Podemos dar mais uma volta, Eddie? Por favor? Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de protecção, deu um chupa-chupa a cada um dos miúdos, pegou na sua bengala e coxeou, até à oficina da manutenção, para se refrescar um pouco do calor de Verão. Se soubesse que a sua morte estava iminente, talvez tivesse ido para outro lugar. Em vez disso, fez o que todos fazemos. Prosseguiu com a sua rotina entediante, como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente. Um dos empregados da oficina, um rapaz esgalgado de cara chupada, chamado Dominguez, encontrava-se junto do lavatório dos solventes, a limpar o óleo de uma roda. — Olá, Eddie — cumprimentou ele. — Olá, Dom — respondeu Eddie. A oficina cheirava a serradura. Era escura e apertada, com o tecto baixo e paredes forradas de pegas para pendurar brocas, serras e martelos. Por toda a parte, viam-se peças do esqueleto das máquinas do parque: compressores, motores, correias, lâmpadas, o cimo da cabeça de um pirata. Empilhadas contra uma parede estavam latas de café com pregos e parafusos, e contra outra, um sem-fim de tubos de óleo. Olear um trilho, dizia Eddie, não exigia mais esforço intelectual do que lavar um prato; a única diferença era que a pessoa ficava mais suja quando o fazia, e não mais limpa. E era esse o tipo de

que descia até o mar. Os seus planos nunca se concretizaram. miúdo. duas delas. 12 Trinta minutos de vida. a usar calças largueironas e a mergulhar num estado de resignação cansada. Antigamente. arranjar outro trabalho. a fazer balões com a pastilha elástica. — Ei. Depois. Ruby Pier era o lugar para onde toda a gente ia no Verão. tirou um maço de notas do bolso e escolheu as de vinte. Estendeu-as. construir uma vida diferente. Parou de dançar quando reparou no olhar de Eddie. Eddie. ouvi dizer que fazes anos — disse Dominguez. ele era assim e assim seria sempre. Deu um puxão no fio de nylon de vinte e cinco metros. que voltou para o lavatório. a partir de segunda-feira. — Onde? — Ao México? Eddie soltou o ar pelo nariz. — Diz-me que apanhámos um peixe! Eddie perguntou-se como é que o rapaz conseguia ser tão optimista. Pensou por instantes. — Eu e a Theresa. Eddie resmungou qualquer coisa entre dentes. O negócio andava fraco. não te esqueças de que para a semana não estou cá. Tens a certeza? Eddie enfiou o dinheiro na mão de Dominguez. vamos apanhar um mero! — Pois — murmurou Eddie. sorriu de orelha a orelha e disse: — Eh. ajustar travões. voltou para a zona do armazém. deu por si a ficar grisalho. num mundo de riso mecânico e salsichas no churrasco.trabalho que Eddie fazia: pôr óleo. Com o tempo. Eddie acenou com a cabeça e Dominguez fez uns passinhos de dança. — Apanhámos alguma coisa? — gritou Dominguez. nunca fui a lado nenhum para onde não me mandassem de espingarda atrás. — Olha. Muitas vezes desejara abandonar aquele emprego. um homem com areia nos sapatos. Depois. Vamos ver a família toda. Ainda tinha um pedaço de isco agarrado. sabendo que nunca um peixe tão grande passaria por um buraco tão pequeno. 13 — Um dia — gritou Dominguez —. — O Eddie. Por instantes. Mas as pessoas já não procuravam os cais à beira-mar. apertar porcas. Aquela linha de pesca nunca tinha nada. Observou Dominguez. tal como a etiqueta na sua camisa. onde pagavam setenta e cinco dólares para entrar e ficavam com uma fotografia . Tinha elefantes e fogo-deartifício e maratonas de dança. — Não há festarola? Eddie fitou-o como se o rapaz tivesse enlouquecido. A rapariga da banca de doces estava apoiada nos cotovelos. Um pequeno «buraco de pesca» fora aberto há anos nas tábuas do passeio da marginal e Eddie levantou a tampa de plástico. Vou para o México. — Compra uma coisa bonita para a tua mulher — disse Eddie. ou como os miúdos por vezes lhe chamavam: «o homem das voltinhas de Ruby Pier». Mas veio a guerra. pensou o quão estranho era envelhecer num lugar que cheirava a algodão doce. preferiam os parques temáticos. inspeccionar painéis eléctricos. Grande festança. Dominguez olhou para o dinheiro. Eddie atravessou para o extremo sul da marginal. também Eddie fazia parte da manutenção — o chefe da manutenção —. — Já alguma vez lá foste? — perguntou Dominguez. Tal como o seu pai antes dele. Vinte e seis minutos de vida. pá.

. Eddie passou a coxear pelos carrinhos de choque e fixou os olhos num grupo de adolescentes pendurados na barreira de protecção. As suas pernas estavam vermelhas do sol e o joelho esquerdo ainda tinha cicatrizes. Disse-lhe que tinha conhecido a rapariga com quem ia casar. — Atropelem-m. — FORA DAQUI! Os adolescentes fugiram a correr. Aquele era o seu lugar habitual na marginal de Ruby Pier. que antes disso fora a Concha da Banda do Estrelato. — Vá. Eddie pouco falou. e sentia a mesma explosão arterial de amor. Ninguém sabia o que acontecera ao outro tipo. Eddie abanou a barreira com tanta força. Ela disse que tinha de ir embora. Os seus dedos formavam estranhos ângulos. — Não é seguro — repetiu Eddie. 14 Com dezanove minutos de vida na Terra. 15 — Vê mas é se dormes. . Eddie tinha um ar simplesmente cansado. como as barbatanas de uma foca. Agora. Os adolescentes lançaram-lhe um olhar de desafio. que quase a partiu ao meio. Para o resto da sua vida. Lindo. Foi assim que Eddie ficou ferido. Mas. um dia. que parecia que tinha a língua colada aos dentes. Com a bengala. Eddie voltou para casa e acordou o irmão mais velho. zzzap zzzap. que tinha uma madeixa cor de laranja no cabelo. envolveu-se numa escaramuça com um dos seus próprios homens. Long Legs Delaney e a sua Everglades Orchestra. virou-se para trás e disse-lhe adeus.tirada ao lado de uma personagem peluda em tamanho gigante. Mas. que nos anos oitenta fora o Trovão. atropelem-me! — gritou. Demonstrara coragem. que nos anos setenta fora a Enguia de Aço. grande parte do corpo de Eddie sugeria que ele era um sobrevivente. que nos anos cinquenta fora o Ri no Escuro. sempre que pensava em Marguerite. devido às muitas fracturas provocadas pelo manuseamento de máquinas. malta. Na verdade. numa velha cadeira de praia de alumínio. Os adolescentes entreolharam-se. Eddie sentou-se pela última vez. atrás da atracção do Coelho Saltador. fitou Eddie com um sorriso escarninho e passou para a barreira do meio. pensou ele para os seus botões. os seus cabelos negros caindo sobre um dos olhos. até recebera uma medalha. ela a acenar-lhe por cima do ombro. acenando para os jovens condutores. Era essa a imagem. por causa dos pais. batendo na barreira com a bengala.. depois de uma trovoada. Um miúdo. mais para o fim do seu tempo de serviço. Ele comprou-lhe uma limonada. Eddie — resmungou o irmão. Para Eddie. foi numa noite quente de Setembro. Eddie revia esse instante. Ela envergava um vestido amarelo de algodão. que nos anos sessenta foram os Baloiços Chupa-Chupa. Os postes dos carrinhos zumbiam de electricidade. Quando era soldado. Nessa noite. Que foi onde Eddie conheceu Marguerite. com uma boina cor-de-rosa nos cabelos. O seu rosto largo de maxilares bem marcados podia ter sido atraente. quando se afastou. — Vamos. Ninguém perguntou. estivera na frente de combate. Estava tão nervoso. sobre o peito. em que a marginal estava ensopada de água. O nariz fora partido várias vezes naquilo a que ele chamava «brigas de saloon». Dançaram ao som da grande banda. como o de um pugilista antes de ter levado demasiados socos. Os seus braços curtos e musculosos dobraram-se. que isso não é seguro. Todas as vidas contêm uma imagem fotográfica de verdadeiro amor. Corria outra história sobre Eddie. — Saiam daí — ordenou Eddie. Só me faltava isto.

acabara de aprender a conduzir e ainda não se sentia confortável a andar de chaveiro na mão.. as histórias encontram-se ao virar da esquina e por vezes encobrem-se umas às outras completamente... Praguejou.» Uuussshhh.. exaustos e a rir.» liiisssshhhh. 16 Mas na Concha da Banda do Estrelato. «. no oceano.Uuussshhh.. Rebentou uma onda na praia. Eddie tossiu uma coisa que não quis ver. O fim da história de Eddie foi tocado por outra história aparentemente inocente. Dezasseis minutos de vida. Cuspiu-a para longe. nesse Verão.. Ao largo. pensou ele que se chamava. Por vezes. Perdera a chave. aquela que a Judy Garland cantava no filme. embora Eddie nunca tivesse visto nem mãe.. a Queda de Água.. depois atou o casaco à cintura. Desde a guerra que não sentia firmeza nas pernas. Amy ou Annie.» Eddie sentiu as mãos de Marguerite nos seus ombros... Fechou os olhos com força. que se chamava Nicky.» liiiiiiiii! «. a Queda Livre. estava diante dele. sempre o soubeste e sempre. em que um jovem chegou a Ruby Pier com três amigos. Nenhuma história vem só. «. Doze minutos de vida. Mais tarde. Nas horas que se seguiram. aí. para tornar a recordação mais vívida. diamantes de sol dançavam nas águas e Eddie observou o seu movimento delicado. voltaram para o parque de estacionamento. ele e os amigos andaram em todas as diversões velozes: o Falcão Voador. nem pai. Procurou. quando já era noite. Uuussshhh. e ele habituara-se à ligadura. Misturava-se agora na sua cabeça com a cacofonia das ondas e das crianças aos gritos. Agora já não tanto. . com Marguerite. de aproximadamente oito anos... Uuussshhh. bebendo cerveja dentro de sacos de papel pardo. amar-te.. E esticaram as mãos para o alto. Catorze minutos até à sua morte.. a Montanha-Russa Fantasma. Era como uma ferida por baixo de uma velha ligadura.. Passara muitas tardes ali. «Fizeste-me amar-te. a tapar-lhe o sol. Eddie ainda era gracioso.. meses antes — numa noite enevoada. «. Tinha caracóis louros e usava sandálias e calções de ganga e uma T-shirt verde-lima com um desenho animado estampado na frente... — Mãos ao alto! — gritou um deles. Nicky levou a mão ao bolso do casaco. Eddie limpou a testa com um lenço.. Uma menina. Amy. como as pedras no fundo de um rio. O que seria a tal doença chamada zona? Uuussshhh. soube. Costumava pensar muito em Marguerite.» Splaaassshhh. — Faz favor. fizeste-me amar-te e eu não queria fazê-lo. Fechou os olhos e permitiu-se recordar a canção que os aproximara. tirou a chave do carro e pô-la dentro do bolso do casaco.. Portanto. O jovem.

— Fazzzz favor — repetiu ela. — Eddie Man’tenção? Eddie suspirou. — Eddie só — disse ele. — Eddie? — Sim? — Podes fazer-me... Ela uniu as mãos, como que numa prece. — Vamos, menina, despacha-te, que eu não tenho o dia todo. — Podes fazer-me um animal? Podes? 17 Eddie olhou para cima, como se tivesse de pensar no assunto. Depois, levou a mão ao bolso da camisa e tirou três limpadores de cachimbo amarelos, com que andava sempre para essas ocasiões. — Siiim! — exclamou a menina, batendo as palmas. Eddie começou a retorcer os arames. — Onde estão os teus pais? — A andar nas diversões. — Sem ti? A garota encolheu os ombros. — A minha mãe está com o namorado. Eddie levantou os olhos. Ah... Dobrou os arames em várias argolas pequeninas, depois torceu as argolas umas nas outras. As mãos tremiam-lhe agora, por isso demorava mais tempo do que era hábito, mas daí a pouco os limpadores de cachimbo pareciam uma cabeça, orelhas, corpo e cauda. — Um coelho? — perguntou a menina. Eddie piscou o olho. — Obrigaaaada! Ela deu meia-volta, perdida naquele mundo de distracção onde as crianças nem sequer sabem para que lado vão os seus pés. Eddie tornou a limpar a testa e depois fechou os olhos, afundado na cadeira de praia, e tentou retomar a velha canção na sua cabeça. Uma gaivota guinchou ao voar por cima dele. Como é que as pessoas escolhem as suas derradeiras palavras? Terão noção do seu peso? Estarão destinadas a ser sábias? Pelo seu 83° aniversário, já Eddie perdera praticamente todas as pessoas de quem gostava. Algumas tinham morrido jovens e outras haviam tido a oportunidade de envelhecer, antes de uma doença ou um acidente as levar. Nos seus funerais, Eddie ouvia as pessoas de luto recordarem as suas últimas conversas. «Era como se ele soubesse que ia morrer...», diziam algumas. Eddie nunca acreditara nisso. Na sua opinião, quando chegava a hora, chegava e ponto final. Tanto se podia dizer uma coisa muito inteligente antes de partir, como uma coisa estúpida. 18 Para que fique registado, as derradeiras palavras de Eddie foram: «Afastem-se!» Aqui ficam os sons dos últimos minutos de vida de Eddie. Ondas a rebentar na areia. A batida distante de música rock. O ronronar de um pequeno bimotor, arrastando um cartaz pendurado na cauda. E isto. — OH, MEU DEUS! OLHEM! Eddie sentiu os olhos moverem-se rapidamente por baixo das pálpebras. Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer todos os sons de Ruby Pier e conseguia dormir embalado por eles. — OH, MEU DEUS! OLHEM!

Eddie endireitou-se muito depressa. Uma mulher de braços gordos às covinhas, com um saco das compras na mão, apontava e gritava. A sua volta, juntara-se uma pequena multidão, de olhos postos nos céus. Eddie viu-o de imediato. No cimo da Queda Livre, a nova torre-atracção, um dos carrinhos estava todo inclinado, como que prestes a despejar a sua carga. Quatro passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas pela barra de protecção, tentavam agarrar-se freneticamente a qualquer coisa. — OH, MEU DEUS! — gritava a mulher gorda. — COITADAS DAS PESSOAS! VÃO CAIR! Uma voz berrou roucamente no rádio preso ao cinto de Eddie. «Eddie! Eddie!» Eddie premiu o botão. — Estou a ver! Chamem a segurança! Vieram pessoas a correr da praia, apontando como se tivessem ensaiado para aquele momento. Olhem! Lá em cima, no céu! Uma diversão que vai acabar em tragédia! Eddie pegou na bengala e caminhou o mais depressa que pôde para a vedação protectora, na base da plataforma, o seu molho de chaves a tilintar contra a anca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A Queda Livre devia deixar cair dois carrinhos de cada vez, numa descida de dar a volta ao estômago, e só se detinha no último instante, 19 com um jacto de ar hidráulico. Como é que um carrinho se soltara daquela maneira? Estava inclinado a uns metros de distância da plataforma superior, como se tivesse começado a descer e, de repente, tivesse mudado de ideias. Eddie chegou à cancela e teve de parar para recuperar o fôlego. Dominguez apareceu a correr e quase esbarrou nele. — Ouve! — disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros. Apertou-o com tanta força, que Dominguez fez um esgar de dor. — Ouve! Quem é que está lá em cima? — O Willie. — Está bem. Ele deve ter activado a paragem de emergência. E por isso que o carrinho está pendurado. Sobe a escada e diz ao Willie para soltar manualmente a barra de segurança, para que aquelas pessoas possam sair dali. Percebeste? Como fica na parte de trás do carrinho, vais ter de segurá-lo enquanto ele se debruça para o fazer. Percebeste? Depois... depois, vocês os dois... vocês os dois, percebeste?... vocês os dois tiram as pessoas de lá! Um segura-se ao outro! Percebeste?... Percebeste? Dominguez apressou-se a fazer que sim com a cabeça. — Depois, manda o raio do carrinho para baixo, para ver se descobrimos o que aconteceu! A cabeça de Eddie latejava de dor. Embora o seu parque nunca tivesse sido palco de grandes acidentes, conhecia as histórias de horror da sua profissão. Uma vez, em Brighton, uma porca soltara-se numa gôndola e duas pessoas caíram para a morte. Outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara atravessar a pé o trilho de uma montanha-russa; caiu e ficou preso pelas axilas. Ficou entalado, aos gritos, e os carrinhos a virem acelerados na direcção dele... bom, é escusado contar o resto. Eddie afastou esse episódio da mente. Havia muita gente à sua volta, agora, com as mãos a taparem as bocas, a verem Dominguez trepar a escada. Eddie tentou lembrar-se das entranhas da Queda Livre. Motor. Cilindros. Hidráulica. Selos. Tampões. Cabos. Como é que um carrinho se soltara? Seguiu o trajecto visualmente, das quatro pessoas assustadas no cimo da torre, passando pela conduta, até à base. Motor. Cilindros. Hidráulica. Tampões. Cabos... 20 Dominguez chegou à plataforma superior. Fez o que Eddie mandou, segurando Willie, enquanto

Willie se debruçava na direcção da traseira do carrinho, para libertar a barra de segurança. Uma das mulheres lançou-se para Willie, quase o derrubando da plataforma. A multidão susteve a respiração. — Espera... — disse Eddie para si mesmo. Willie tentou de novo. Desta vez, conseguiu libertar o mecanismo de segurança. — Cabo... — murmurou Eddie. A barra levantou e a multidão fez «Ahhhhh». Os passageiros foram rapidamente puxador para a plataforma. — O cabo está a desenrolar-se... E Eddie tinha razão. No interior da base da Queda Livre, escondido da vista, o cabo que puxava o carrinho n.° 2 tinha, nos últimos meses, estado a roçar contra uma roldana presa. Como estava bloqueada, a roldana começara gradualmente a raspar os fios de aço do cabo — era como tirar os fios a uma espiga de milho —, até que vários ficaram à beira de partir. Ninguém reparou. Como poderiam tê-lo feito? Só uma pessoa que tivesse rastejado para dentro do mecanismo teria visto a causa improvável do problema. A roldana estava presa por um pequeno objecto entalado, que devia ter caído pela abertura exactamente no momento certo. A chave de um carro. — Não soltes o CARRINHO! — gritou Eddie, a esbracejar. — EI! EEIII! É O CABO! NÃO SOLTES O CARRINHO! O CABO VAI PARTIR! A multidão afogava os seus gritos, a aclamar desenfreadamente Willie e Dominguez, enquanto eles recolhiam o último passageiro. Os quatro estavam sãos e salvos. Abraçaram-se no cimo da plataforma. — DOM! WILLIE! — gritou Eddie. Alguém embateu contra a sua cintura, fazendo cair o seu walkie-talkie. Eddie baixou-se para o apanhar. Willie dirigiu-se para a cabina de controlo. Levou o dedo ao botão verde. Eddie olhou para cima. — NÃO, NÃO, NÃO, NÃO FAÇAS ISSO! Eddie virou-se para a multidão. 21 — AFASTEM-SE! Algo na voz de Eddie deve ter chamado a atenção das pessoas; pararam de aclamar e começaram a afastar-se. Abriu-se uma clareira na base da Queda Livre. E Eddie viu o último rosto da sua vida. Ela estava estendida na base de metal da diversão, como se alguém a tivesse derrubado, com o nariz sujo, os olhos cheios de lágrimas, a menina com o animal feito de arames para limpar cachimbos. Amy? Annie? — Ma... Mamã... Mamã... — soluçava ela, quase ritmicamente, o seu corpo prisioneiro daquela paralisia típica das crianças quando choram. — Ma... Mamã... Ma... Mamã... Os olhos de Eddie saltaram dela para os carrinhos. Ainda iria a tempo? Ela e os carrinhos... Vuuum. Demasiado tarde. Os carrinhos estavam a cair — Meu Deus, eh soltou o freio! — e, para Eddie, tudo se dissolveu em movimento subaquático. Largou a bengala e puxou pela sua perna doente, sentindo uma descarga de dor que quase o deitou ao chão. Um passo grande. Mais um passo. Dentro da conduta da Queda Livre, o último fio de aço partiu-se e roçou contra o cabo hidráulico. O carrinho n.° 2 estava agora em queda livre, sem nada para o deter, um pedregulho a cair de um penhasco. Nesses derradeiros instantes, Eddie pareceu escutar o mundo inteiro: gritos distantes, ondas, música, uma lufada de vento, um som grave, forte e desagradável que ele percebeu ser a sua própria

voz a explodir do seu peito. A menina levantou os braços. Eddie precipitou-se para ela. A sua perna doente cedeu. Ele quase voou, quase tropeçou em direcção a ela, aterrando na plataforma de metal, que rasgou a sua camisa e lhe fez um corte na pele, mesmo abaixo da etiqueta que dizia Eddie e Manutenção. Sentiu duas mãos nas suas, duas mãos pequeninas. Um impacte atordoante. Um clarão cego de luz. E depois, nada. 22 Hoje é o aniversário de Eddie Estamos nos anos vinte, num hospital cheio de gente, num dos sectores mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma na sala de espera, onde fumam também os outros pais. A enfermeira entra com uma tabela na mão. Chama o nome dele. Pronuncia-o mal. Os outros homens expelem o fumo dos cigarros. Então? Ele levanta o braço. — Parabéns — diz a enfermeira. Ele segue-a corredor abaixo, até à ala dos recém-nascidos. Os sapatos dele fazem barulho ao bater no chão. — Espere aqui — diz ela. Pelo vidro, ele vê-a consultar os números nos berços de madeira. Passa por um, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele. Ela pára. Ali. Por baixo da manta. Uma cabecinha coberta por um barrete azul. Ela volta a consultar a tabela, depois aponta. O pai tem a respiração pesada, acena com a cabeça. Por um instante, o seu rosto parece desmoronar, como uma ponte a ruir sobre um rio. Depois, som. É o dele. 23 A viagem Eddie não viu absolutamente nada no seu derradeiro momento na Terra. Não viu o cais, nem a multidão, nem o carrinho estilhaçado de fibra de vidro. Frequentemente, nas histórias sobre a vida depois da morte, a alma sai do corpo no instante da despedida e paira sobre os veículos da polícia, no caso de um acidente na auto-estrada, ou agarra-se como uma aranha ao tecto de um quarto de hospital. Estas são histórias de pessoas a quem é dada uma segunda oportunidade — de algum modo, por algum motivo — de retomarem o seu lugar no mundo. Eddie, aparentemente, não ia ter essa segunda oportunidade. Onde...? Onde...? Onde...? O Céu era de um tom enevoado de abóbora, depois turquesa, depois um lima garrido. Eddie flutuava e os seus braços ainda estavam esticados. Onde...? O carrinho estava a cair do cimo da torre. Disso ele lembrava-se. A menina — Amy? Annie? — chorava. Disso ele lembrava-se. Lembrava-se de se precipitar para a frente. Lembrava-se de cair

Onde está a minha preocupação? Onde está a minha dor? 25 Hoje é o aniversário de Eddie Tem cinco anos.. como habitualmente. Joe. alguns homens das pescas. Levanta-se e corre de um grupo para outro. as cores voltaram a alterar-se. em Ruby Pier.? O céu à sua volta mudou novamente. faz flexões à frente de um grupo de senhoras de idade. zelando pelos equipamentos do parque. — Vem cá. Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie. Há um jarro de sumo de laranja. É gordo. pendurado pelos pés. está embrenhado num jogo de cartas. Não se sentia em agonia. A sua consciência parecia esfumada.. precipitando-se em direcção à sua superfície. Depois safira. toda a dor que suportara haviam desaparecido como um último fôlego. Que se tornou cor de melão. bang — grita Eddie. usa suspensórios e está sempre a cantar canções irlandesas. Eddie enverga a sua prenda de anos. bang!» — Vem cá. etérea. Deixa-me dar-te as pancadinhas dos aniversariantes — anuncia ele. Começou a cair. nem medo. Onde. — Como fazemos na Irlanda.sobre a plataforma. Apercebeu-se de um movimento de torvelinho. está a minha preocupação? Onde está a minha dor? Era isso que faltava.. depois um rosa que Eddie associou de repente a — imagine-se — algodão doce. de amarelo-toranja para um verde-floresta. rapaz — chama Mickey Shea. . Eddie brinca aos seus pés. Salvei-a? Ela sobreviveu? Onde. Flutuava por cima de um vasto mar amarelo. tudo ficou imerso em silêncio. A seguir. O seu irmão mais velho. Mais estranho ainda era o facto de não sentir qualquer emoção associada a essa lembrança. depois viram-no de cabeça para baixo. incapaz de sentir outra coisa que não a calma. os artistas de rua. no entanto. De repente. Por baixo dele. A uma velocidade inimaginável e. Há um bolo de baunilha com velas de cera azul. como uma criança aninhada nos braços da mãe. os domadores de animais. as mãos enormes de Mickey enfiam-se por baixo dos braços de Eddie e levantam-no do chão. não sentia sequer uma brisa no rosto.. Agua. Sentia as mãozinhas dela nas suas. que se fingem divertidas e aplaudem educadamente.. — Bang. a xarope para a tosse. sacando da arma de brincar e fazendo: «Bang. É uma tarde de domingo. Mesas de piquenique alinham-se ao longo do passeio da marginal. Toda a mágoa que ele sofrera na vida. Sentia apenas uma calma profunda. E depois? 24 Salvei-a? Eddie só conseguia recordá-lo à distância. estava debaixo de água. O pai de Eddie. Eddie acha que ele tem um cheiro esquisito. Não se sentia triste. Os funcionários do cais passam atarefados. Depois. Viu a areia de uma costa dourada.. como se tivesse acontecido há muitos anos. Um oceano. O chapéu de Eddie cai. os pregoeiros. debruçadas sobre a extensa praia branca. um chapéu vermelho de cowboy e um coldre. . sentado num banco.

conseguia ver o paredão lodoso. — Eu vi — responde a mãe. Mas era um Ruby Pier diferente. — Agora. Em segundo.. Eddie pega no chapéu. as suas faces cheias e macias. feita de madeira escura e polida. por se ter portado tão bem no dia do seu aniversário. ela há-de passear com ele ao longo do cais. apanhei-te!— diz Mickey. rindo em coro. portanto suspirou e tentou levantar-se. onde foi assaltado por três rápidos pensamentos. guardava-a sempre junto da cama. Mais tarde. ou a ver os pescadores recolherem as redes ao cair da noite. as ondas do seu cabelo acobreado. Eddie não sabe ao certo quem é quem. Mickey! — grita a mãe de Eddie. Todos se riem. Isto deixava Eddie embaraçado. Toda a gente bate as palmas. Mas agora não encontrava a bengala. Levanta-se. — Ho-ho! Para que foi isso. O pai de Eddie levanta os olhos. de cabedal de sapatos castanho a um escarlate profundo. Três! De pernas para o ar. não lhe doíam as costas. O seu instinto inicial foi pegar na bengala.. até a cabeça do menino roçar no chão. Ela põe-lhe o chapéu na cabeça. com um banco almofadado e uma porta com dobradiças de aço. Havia tendas de lona e áreas relvadas vazias e tão poucas obstruções que. — Cinco! Eddie é virado de cabeça para cima e colocado no chão. — gritam. pois era o tipo de homem que costumava cumprimentar os outros com uma palmada nos ombros. só tem tempo de dar três passos antes de a mãe o apanhar e abraçar. — Ele virou-me de cabeça para baixo — diz ele. Os braços e pernas de Eddie pendiam dos bordos da chávena.. Ela dar-lhe-á a mão e dir-lhe-á que Deus está orgulhoso dele. aterrando desengonçadamente no chão. 27 A chegada Eddie acordou dentro de uma chávena de chá. Fez força e saltou facilmente da beira da chávena. no mar. estava sozinho. Os outros juntam-se a ele. avança tropegamente para Mickey Shea e dá-lhe um murro no braço. talvez o leve a dar uma volta no elefante. os peixes pulando como reluzentes moedas molhadas. Em terceiro. Ele vê o seu batom vermelho-escuro. — Estás bem. ao fundo. O céu continuava a mudar de cor. Nos últimos anos. A sua cabeça está a ficar pesada.— Cuidado. Era uma antiga máquina do parque de diversões: uma enorme chávena de chá. Eddie dá meia volta e foge a correr. rapaz? — pergunta Mickey. porque havia manhãs em que já não tinha forças para se levantar sem o apoio dela. — Quatro!. desequilibra-se e cai. Surpreendentemente. A perna não latejava. e ele sentirá que o mundo está novamente de cabeça para cima. sorri e retoma o seu jogo de cartas. Em primeiro lugar. ainda se encontrava em Ruby Pier. — Uma! 26 Mickey torna a puxar Eddie para cima. — Ho. uma pancadinha de aniversário por cada ano de vida. Gritam: — Duas!. As cores das diversões eram vermelhos ardentes e brancos cremosos — nada de azuis-esverdeados nem 28 . sentia-se óptimo. ho. meu querido aniversariante? — Ela está a uns meros centímetros do rosto dele. Mickey baixa Eddie suavemente..

Encostou o queixo ao peito e esticou os braços como um planador e. 10 cêntimos! Dê uma volta no Chicote — A sensação do ano! Eddie pestanejou com força. como as crianças fazem. as ruas do seu antigo bairro e os telhados dos edifícios de tijolos. Tão ágil. Correu pelo centro da antiga rua principal. A chávena em que acordara fazia parte de uma diversão muito antiga. tudo novinho e reluzente.. Uma voz metálica. esquecera o que era andar sem sentir uma pontada ou sentar-se sem precisar de arranjar uma posição confortável para as costas.castanhos-avermelhados — e cada atracção tinha a sua própria bilheteira de madeira. tal como todos os outros letreiros baixos. de cabelos brancos.» . à sombra de edifícios magníficos de estilo mourisco. chamada Chávena Voadora. de boné. começando com uns quantos passos ousados. correu. as cartomantes e as bailarinas ciganas trabalhavam outrora. Eddie tentou gritar. com os seus cavalos de madeira esculpida. Por fora. desde a guerra. acabado de lavar. com espirais e minaretes e cúpulas em forma de cebola. sentia-se incrivelmente bem. Mas era ágil. 29 há mais de sessenta anos. pensou ele. Há apenas uma hora. Nos últimos dez anos. descrevendo um círculo. Se alguém estivesse a ver. Passou por uma diversão chamada Ziguezague. «Então e esta criatura. onde os adivinhos do peso. baixo e entroncado como um barril. Correu ao longo da marginal de Ruby Pier. um homem de borracha a esticar-se de uma ponta à outra. Tocou nos braços e nas pernas. por mais velho que seja. Caminhou. mas nada lhe saiu da boca. pendurados nas fachadas das lojas que se alinhavam ao longo da marginal: Charutos El Tiempo! Isto é que são charutos! Guisado. fascinado com aquela engrenagem nova. Mas qualquer homem tem um menino que corre dentro de si.. como o miúdo que corria nos seus tempos de juventude. ficava o Loop-a-Loop — que fora desmantelado há décadas — e acolá. erguendo-se para o céu. apinhados de gente. mas agora estava a correr. de repente. Saltou. estava igual ao Eddie que se levantara nessa manhã: um homem velho. Explorou o seu corpo como uma criança. Nenhuma dor. E. como se proviesse de um megafone. aquele empregado da manutenção. ficava a roda-gigante original — com a sua tinta branca imaculada — e. poderia achá-lo ridículo. Ha-ha! Correr! Eddie não corria. Depois. na esperança de que a corrida se transforme em voo. andara a tirar ferrugem das peças armazenadas na sua oficina. a seguir acelerando a trote. Ali ao fundo. Ali. de tantos em tantos passos. com cordas de secar roupa penduradas nas janelas. minhas senhoras e meus senhores? Já alguma vez viram um ser tão horrendo?. À parte a sua falta de voz. que foram encerradas nos anos cinquenta. O cartaz era feito de contraplacado. a fingir que era um avião. completamente sozinho. passou por uma banca de venda de anzóis e iscos para os pescadores (cinco cêntimos) e uma banca de aluguer de fatos-de-banho para nadadores (três cêntimos). calções e casaco castanho da manutenção. Quis dizer "Ei!". depressa. espelhos e um órgão Wurlitzer. Correu ao longo da marginal. por detrás dela. Eddie parou de correr. cada vez mais depressa. Passou pelo Carrossel Parisiense. só que novinho em folha. saltava. mas a sua voz não passava de ar áspero. os balneários e as piscinas de água salgada. o parque de há setenta e cinco anos. Aquele era o Ruby Pier da sua infância. no verdadeiro sentido da palavra. Ouviu qualquer coisa. que conseguia tocar nos tornozelos e levantar a perna à altura da barriga.

presas pela coluna dorsal e que tocavam instrumentos musicais. Um pregoeiro zombava da aberração e foi a voz de um pregoeiro que Eddie ouviu agora..» Vinha do outro lado de um palco.. Eram obrigados a sentar-se em cabinas ou em estrados. Ali..» Eddie afastou a cortina. cuja pele parecia borracha de tanto ter sido esticada e untada com óleos. «Esta trágica alma foi alvo de uma perversão da natureza. que pesava para cima de duzentos e cinquenta quilos e precisava que dois homens a empurrassem para conseguir subir as escadas. erguendo-se lentamente da sua cadeira. de tal modo que pendia aos bocados dos seus membros. por vezes atrás de barras. — disse o Homem Azul. O cartaz pendurado no topo dizia: Os cidadãos mais estranhos do mundo.. Há muito que Eddie o teria esquecido. A feira das aberrações. — Estava à tua espera. «Regozijem-se com a criatura mais invul. Eddie lembrava-se de que o tinham encerrado há pelo menos cinquenta anos. sentado numa cadeira. 30 «Olhem bem para este selvagem. Quando era miúdo.» Eddie espreitou para a entrada.. à frente de um grande teatro. «Somente aqui. enquanto as pessoas passavam por eles. Tinha o cabelo cortado muito curto. incrédulo.. E Eddie deu um passo atrás. estava um homem de meia-idade com os ombros estreitos e curvados. Já ali vira gente muito estranha. A voz tornou-se mais forte. na época em que a televisão se popularizou e as pessoas deixaram de precisar de espectáculos de feira para espicaçar a sua imaginação.. mulheres de barba e um par de irmãos indianos. Edward — disse o homem. Eddie tinha pena dos figurantes da feira. não fosse por uma característica peculiar.» A voz do pregoeiro desapareceu. — Não . «Só um terrível azar do destino poderia ter deixado um homem neste estado lamentável! Dos recantos mais longínquos do mundo. Havia homens que engoliam espadas. A atracção de Ruby Pier! Meu Deus! São gordos! São magricelas! Veja o Homem Selvagem! A atracção do parque. A sua pele era azul. 31 Os lábios eram finos e o rosto comprido e chupado. — Olá.. nos Cidadãos Mais Estranhos do Mundo..Eddie encontrava-se junto de uma bilheteira vazia. rindo e apontando... nascido com um defeito ultrapeculiar.. 32 A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu — Não tenhas medo. O teatro sensacionalista. nu da cintura para cima. sozinho no palco. A barriga transbordava-lhe do cinto. Havia duas gémeas siamesas. Uma era a Jane Gira.» Eddie entrou na penumbra da sala. podem ver tão de perto esta. trouxemos esta criatura para as senhoras e os senhores puderem examinar.

Não! Eddie sacudiu a cabeça violentamente. — Onde estás? — Virou-se e levantou os braços. os carrinhos de choque embateram uns nos outros. em seguida. Uma hora. Começamos pelos sentimentos que tínhamos em crianças. E 34 o próprio Céu tem muitos degraus. que fora demolida há anos. — Bom. Aqui?. — O Chicote. — Ah — fez o Homem Azul. A sua pele era de um grotesco tom de amora acinzentada.. ao som da música animada do órgão Wurlitzer. Ele levantou-se e saiu da sala. NÃO! O Homem Azul parecia divertido. Os seus pensamentos jorraram numa catadupa de frases. antes de existirem rodas de subfricção. Seria possível estar a vê-lo agora? Era uma daquelas caras que nos aparece em sonhos e. o primeiro. Os seus dedos eram engelhados. dizemos: «Nem imaginam com quem eu sonhei esta noite!» — O teu corpo parece o de uma criança. O Homem Azul conduziu Eddie pelo meio do parque. Mas o Céu encontra-se nos lugares mais inesperados. Um milhar de anos. — É porque eras miúdo quando me conheceste. Começamos o quê?. Apontou para uma montanha-russa com duas lombas. Fora construída nos anos vinte. O Homem Azul levantou o queixo. E para ti. Eddie seguiu-o. — Onde é que haverias de estar? — perguntou o Homem Azul. — No Céu. E lamento. a montanha-russa subiu estrepitosamente e os cavalinhos do Carrossel Parisiense cavalgaram nos seus postes metálicos. nada muda.. Aqui.tenhas medo. é o segundo. — Porquê? Porque foi aqui que tu cresceste? Eddie mexeu a boca como quem diz Sim. — O Homem Azul fez um sinal de assentimento. O Homem Azul sorriu. feita de madeira. O mar estendia-se diante deles. Estaria o planeta inteiro vazio? — Diz-me uma coisa — pediu o Homem Azul. De repente. repetiu a pergunta. muitas vezes. como nunca sentira na vida. mas também não podemos espreitar por entre as nuvens e ver o que se passa lá em baixo. A sua voz era tranquilizadora. em tom pensativo. todas as atracções do velho parque de Ruby Pier ganharam vida: a roda-gigante girou. — Ah. — Não? Não pode ser o Céu? — disse ele. não parece? Eddie assentiu com a cabeça. para mim. pensou Eddie. como se tivesse ouvido a pergunta. Há quanto tempo estou morto? — Há um minuto. Onde estou? O Homem Azul franziu os lábios e. . que se encontrava ao fundo. onde os tolos perdiam todos os seus tostões. O céu estava cor de limão. O Chicote. o que significava que os carrinhos não podiam virar muito depressa — a menos que a ideia fosse vê-los sair disparados dos trilhos. pensou Eddie. Como é que eu morri? — Num acidente — disse o Homem Azul.. mas Eddie estava estupefacto a olhar para ele. O cais estava vazio. as pessoas têm a mania de depreciar a terra onde nasceram. A praia estava vazia. Mal conhecera aquele homem. — Foi o que eu pensei. passando pelas lojas de charutos e bancas de salsichas e bares de apostas.. Abanou a cabeça em sinal de negação. na manhã seguinte. Tocou no ombro de Eddie e este sentiu uma onda de calor. Este. ainda é «a montanha-russa mais rápida à face da terra»? 33 Eddie olhou para a velha máquina ruidosa.

E alteraram a tua vida para sempre. Passara a maior parte da sua vida adulta a tentar afastar-se de Ruby Pier. Mas todas elas se cruzaram contigo antes de morrerem.. para te contar a minha história. podes não ter percebido qual era esse motivo e é para isso que serve o Céu. se molhavam e trocavam dólares por bonecos. — Partilha a tua prenda comigo. Edward. talvez o grande jogador Walter Johnson. Eddie — diz Joe.. depois. Mas uma paisagem magnífica sem conforto espiritual não tem sentido. Era um parque de diversões. sentindo uma onda de poder subir-lhe pelos braços. — Cada uma delas fez parte da tua vida.. Estava farto de não conseguir falar. — A bola é minha! — grita Eddie. tentando recuperar a voz. um lugar onde as pessoas gritavam.. Eddie arrancou um som do peito. O Homem Azul esperou pacientemente. Lança a bola. por um motivo específico. passam pela cabina de jogos. — Qual foi. — Qual foi. O irmão encolhe os cotovelos e baixa-se.. pelo menos. consegues ouvir. Explicar-nos a nossa existência.. outras talvez não. — Esta é a maior bênção que Deus nos pode oferecer: dar-nos a compreender o que aconteceu na nossa vida. O Homem Azul virou-se. Na altura. Joe! . Eddie tossiu. A ideia de aquele ser um local de descanso abençoado estava para lá da sua imaginação. 36 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem sete anos e a sua prenda é uma bola nova de basebol. Imagina que é um dos seus heróis da colecção de cromos dos amendoins Crackerjack. Eddie pára e imagina-se num estádio. Que ridículo. — Há cinco pessoas que vais conhecer no Céu — disse subitamente o Homem Azul. — Atiraste com demasiada força! — grita Joe. — resmungou finalmente. que se tornará 35 parte da tua.O Céu?. Aperta-a com cada uma das mãos. Terás outras pessoas à tua espera. Para compreendermos a nossa vida na Terra. Joe. a minha vida foi iluminada por outras cinco pessoas e. — Anda. nada mais. — Eu sou a tua primeira pessoa. pensou Eddie. a causa. Sorriu. Correm pela alameda principal da feira. ouviu um pequeno grunhido sair-lhe do peito. onde quem derrubar mais de três garrafas verdes ganha um coco com uma palhinha. com todas as suas forças.. Algumas já conhecidas. — Atira-a — diz o seu irmão. desta vez.. Sorriu para Eddie. Eddie fez um ar perplexo. A sua voz pareceu quebrar uma casca.. Todos passamos pelo mesmo. como um pintainho acabado de nascer.. — As pessoas imaginam o Céu como um jardim do paraíso. a causa. — Foste tu — disse ele. vim para aqui esperar por ti. Quando morri. da tua morte? O Homem Azul pareceu ligeiramente surpreendido. — Mas. — Qual foi. Tentou novamente falar e. Ninguém consegue falar assim que aqui chega. um lugar onde podem flutuar nas nuvens e espreguiçar-se nas montanhas e rios. — A tua voz há-de voltar. — Vai-te lixar. É a paz de espírito que todos desejamos.

. a coser botões em casacos. O meu pai foi obrigado a arranjar emprego numa fábrica de roupa. numa voz rouca —. Eu era demasiado novo para estar ali. estamos entendidos? Nem sequer o conheço! O Homem Azul sentou-se num banco. 38 o capataz a insultá-lo. não dês nas vistas para ele não reparar em ti». pensou Eddie. O capataz apontou para as minhas calças sujas e riu-se. — Vês onde ela está? — pergunta Eddie. A porta de lona de uma tenda abre-se.Eddie vê a bola tocar nas tábuas do chão e ir bater num poste. a praguejarem e a queixarem-se. Quando fiz dez anos. Era uma criança nervosa e transformeime num jovem ainda mais nervoso. 37 — Ouça lá — disse Eddie. que se esparramaram no chão. Eu era muito pequeno. mas depois vê a bola junto de um cavalo de pau. De manhã. Aberrações da feira de aberrações. Sorriu. a abanar os braços. Ainda hoje me lembro desse instante. filho de um alfaiate. um dia. O capataz gritou que eu não servia para nada. na cozinha do meu tio. Sentia que eu o tinha envergonhado. e o barulho da fábrica piorou o meu estado. Um dia. como se quisesse quebrar os laços de vida que nos ligavam. Vêem uma mulher gordíssima e um homem sem camisa com o corpo completamente coberto de pêlos ruivos. Eddie observou o rosto encovado do Homem Azul. os seus lábios finos. o meu pai dizia: «Baixa os olhos. O pior de tudo é que. o meu pai recusou-se a falar comigo. e os outros empregados desataram a rir também. Porque é que ele me está a contar isto?. — O que é que vocês estão afazer aqui. Viemos para a América em 1894. — Isto é meu — murmura. As crianças ficam petrificadas. como se fosse um anfitrião a tentar pôr um hóspede à vontade. criado numa pequena aldeia polaca. Levanta-se de um pulo e foge a correr. o meu pai a implorar-lhe como se fosse um mendigo de rua. Eddie permaneceu de pé. Mas os pais podem dar cabo dos filhos e. levava os lençóis à socapa para a pia e lavava-os. caindo depois numa pequena clareira por detrás das barraquinhas. entre aqueles homens todos. à noite. »Depois disso. Corre atrás dela. com um sorriso divertido. por natureza. ainda fazia chichi na cama. Caem ambos ao chão. »À semelhança da maior parte dos imigrantes. eu tropecei e deixei cair um saco de botões. »Eu era uma criança nervosa. Ele viu os lençóis sujos e fitou-me de uma maneira que nunca hei-de esquecer. »Sempre que o capataz se aproximava de mim. limpando o nariz às costas da mão. também nós não tínhamos dinheiro. Joe segue-o. Eddie e Joe levantam os olhos. de acordo com os parâmetros do mundo dele. Senti o estômago contorcer-se de dor. e suponho que o fiz. — Não. Agarra na bola e corre atrás do irmão. era uma criança inútil e tinha de me ir embora. de certa maneira. Depois. levantei os olhos e deparei com o meu pai. Dormíamos num colchão. senti uma coisa molhada na perna. eu não tive nada a ver com a sua morte. — Vou começar pelo meu nome verdadeiro — anunciou o Homem Azul. ele tirou-me da escola e eu fui trabalhar com ele. A minha mãe debruçou-me sobre o varão do navio e essa tornou-se a minha recordação mais antiga de infância: a minha mãe a balouçar-me ao sabor da brisa de um novo mundo. Eddie também se levanta. ó espertinhos? — pergunta o homem peludo. o peito caído. Mas. — Fui baptizado com o nome Joseph Corvelzchik. São interrompidos por um barulho de pano a rasgar. fiquei de rastos a seguir a isso. numa postura defensiva. — Andam à procura de sarilhos? O lábio inferior de Joe começa a tremer e ele desata a chorar. Fita o homem sem camisa e aproxima-se lentamente da bola.

O parque de diversões ia abrir uma feira chamada «Os Cidadão? Peculiares». vim para este cais. Gostei da ideia de permanecer num lugar. vista de duas perspectivas diferentes. O Homem Azul deteve-se. Uma vez. Eddie reparou no olhar resignado do Homem Azul. Eddie não conseguia tirar os olhos daquele corpo. no final dos anos vinte. em desconfortáveis carroças de circo. A noite.O Homem Azul fez uma pausa. assim. comecei a tomar doses maiores. Quando se é marginalizado pela sociedade. »Num Inverno. É o meu. semidespido. arrecadar umas moedinhas. com os latoeiros. essa liberdade era um luxo. — Naqueles tempos. Fui a um farmacêutico. em vez de andar a saltitar de terra em terra. Portanto. ou o Homem Azul da Nova Zelândia. que parecia ter sido ensopada em líquido azul. sem água. »Daí a pouco tempo. — Estás a compreender porque é que estamos aqui? Este não é o teu paraíso. eu era o Homem Azul do Pólo Norte. »Esta tornou-se a minha casa. mas era agradável ser considerado exótico. Nitrato de prata! Mais tarde foi considerado tóxico. enquanto as pessoas passavam por mim e o pregoeiro lhes dizia que eu era uma lástima. aceitei juntar-me ao seu grupo de feira. E assim começou a minha vida de objecto. . Mas era tudo o que eu tinha e. acabou por vir ter comigo. as pessoas começaram a olhar para mim de uma maneira estranha. o gerente chamou-me «a melhor aberração» do seu estábulo e. depreendi que era por não estar a tomar o suficiente. O Homem Azul interrompeu-se e fitou Eddie. »Fiquei envergonhado e ansioso. Consegui. Bebi ainda mais nitrato de prata. Claro que eu nunca tinha visitado aqueles lugares. — Não nasci assim. para mim. Uma noite. Ele deu-me um frasco de nitrato de prata e mandou-me misturá-lo com água e tomá-lo todas as noites. ou o Homem Azul da Argélia. Vivia num quarto por cima da loja de salsichas. quando deixou de resultar. Eu sentava-me no palco. Ruby Pier. um efeito secundário do veneno. O capataz disse que eu metia medo aos outros operários. Um deles. em que Eddie e os seus amigos estavam a fazer passes de basebol com a bola que Eddie recebera no seu aniversário. Peguemos numa manhã chuvosa de domingo. — Os artistas de feira deram-me os meus vários nomes. nem que fosse num mero cartaz pintado à mão. às vezes até com o teu pai. Edward. se vestisse uma camisa de manga comprida e pusesse uma toalha na cabeça. Por fim. a medicina ainda era muito primitiva. A sua voz esmoreceu. uma aberração — explicou ele. como é que eu ia arranjar dinheiro para comer? Onde é que eu ia viver? 39 «Encontrei um bar. podia passear pela praia sem assustar as pessoas. Edward. até que a minha pele passou de cinzento a azul. jogava às cartas com os outros empregados do espectáculo. Deduziu que devia haver uma triste história por detrás de cada um deles. eu fiquei muito orgulhoso. Às vezes. Muitas vezes se interrogara qual seria a origem dos figurantes do espectáculo de feira. De manhã bem cedo. »Depois de falar com ele. A minha pele estava a ficar cor de cinza. Sem trabalho. A sua pele. — Despediram-me da fábrica. Tomava dois goles. Pode não parecer grande coisa mas. procurar qualquer coisa para os nervos. um lugar escuro onde podia esconder-me atrás de um sobretudo e de um chapéu. a fumar charutos e a rir. fazia pregas em pequenas camadas de gordura à volta da cintura. um grupo de artistas de feira sentou-se nos fundos do bar. por triste que pareça. por vezes três. 40 Peguemos numa história. O «espectáculo» era simples. um tipo pequeno com uma perna de pau. não parava de olhar para mim. em Julho. até uma pedrada pode ser bem-vinda.

O homem consegue controlar o carro e o modelo A prossegue caminho. — Oh não. Ouvese o som discreto de um pequeno embate. com um mecanismo tipo garra. O médico-legista declara-o morto.. — Mas é o meu ANIVERSÁRIO. A injecção de adrenalina deixou-lhe o coração aos pulos e. tendo terminado a história. mas o corpo do homem continua afectado. os pneus chiam. O segundo condutor apita. Os faróis estilhaçam-se. A criança desapareceu do espelho retrovisor. Tem o braço a latejar. O pai observa-se ao espelho. O impacte faz com que o homem seja atirado contra o volante. Está sentado na beira de um sofá axadrezado. 42 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem oito anos. vê os estragos. na galeria de jogos. a apertar a gravata. Está um homem ao volante de um Ford modelo A. — Menino? Eddie sentiu um arrepio. Peguemos numa história. É uma manhã de domingo. o mesmo instante. apanha pequenos brinquedos de dentro de uma grande caixa de vidro. O jogo termina daí a pouco e os miúdos vão para a galeria de jogos brincar na máquina t que. Dói-lhe o peito. a pensar que foi por um triz que evitou uma tragédia. Agora.. As vezes. peguemos nessa mesma história vista de outra perspectiva. — Eu NÃO quero ir — diz Eddie. com o menino de calças castanhas a enfiar moedinhas na máquina de brinquedos. O condutor trava a fundo e dá uma guinada no volante. Passa uma hora. Desliza ao longo de uma avenida e. Eddie treme. até que choca contra a traseira de um camião estacionado. De repente. vira para um beco. apanha a bola e volta a correr para junto dos amigos. de braços cruzados num gesto de raiva. mas uma perspectiva termina bem. Ele sai do modelo A. — Estás a ver? — sussurrou o Homem Azul. Peguemos no momento em que a bola voa por cima da cabeça de Eddie e vai parar à rua. a apertar-lhe os sapatos. A estrada está molhada da chuva matinal. A causa da morte é «ataque cardíaco». uma pilha de barras de metal e . e a outra termina mal. O carro trava a fundo. narrada do seu ponto de vista. sem olhar para cima —. O automóvel quase colide com outro. Eddie. virando o volante e pondo o pé a fundo no travão. uma bola de basebol pula a meio da estrada e aparece um miúdo a correr atrás dela.há quase um ano. guina para o lado e consegue evitar o atropelamento. O homem não tinha familiares. na morgue da cidade. O carro patina. Sente-se tonto e a cabeça cai-lhe por um instante. Eddie olha com tristeza para o jogo colocado a um canto da sala. A mãe está agachada aos seus pés. um Ford modelo A. sem 41 ninguém o ver. A sua testa está a sangrar. depois desmaia no pavimento molhado. que pediu emprestado a um amigo para treinar a condução. corre atrás dela e atravessa-se à frente de um automóvel. O sangue das suas artérias coronárias deixa de afluir ao coração. O veículo continua a andar. o homem volta a guinar. Um polícia encontra-o. onde um funcionário chama outro funcionário para contemplar a pele azul do cadáver recém-chegado. mas temos de ir. encolhido junto do carro. — murmurou. temos de fazer coisas menos agradáveis quando acontecem situações tristes. depois. É o mesmo dia. de calças castanhas e um barrete de lã. como esse coração não é forte. O beco está vazio. vista de duas perspectivas diferentes. Ele ali fica. respira fundo. — Eu sei — responde a mãe. o homem ficou esgotado.

Devia estar triste. Eddie mal reconhece as pessoas do cais. algumas cobrem a cara com um véu.. não é? Para que seja feita justiça? O Homem Azul sorriu. Eras tão pequeno. Eddie não conseguia . possa ter o seu aniversário de volta. O Homem Azul estendeu a mão. Joe. sabe disso.. O irmão. Um padre lia passagens da Bíblia. — Que nada é aleatório.. Tem jeito para montar coisas. Foi estupidez minha desatar a correr pelo meio da estrada daquela maneira. tem de ir nem sabe onde. O homem diz qualquer coisa sobre cinzas. — O quê? — perguntou. Faz uma careta a Eddie. quando chegar a mil. — Estávamos a brincar à bola. Todas as pessoas que encontras aqui têm algo para te ensinar. Virou a palma da mão para cima e. Em vez disso. Eddie cala-se. Os homens. de repente. atrás de um pequeno grupo de enlutados. Estás aqui para eu te poder ensinar uma coisa. da mesma maneira que não se pode separar a brisa do vento. mas está secretamente a contar a partir de 1.três pequenas rodas de borracha. Que estamos todos ligados uns aos outros. — Não podias ter adivinhado. O Homem Azul fez um sinal de assentimento com a cabeça. 45 — A justiça — disse ele — não comanda a vida e a morte. 44 A primeira lição — Por favor. Edward. estavam ambos num cemitério. — Esses sapatos eram meus e estão velhos — diz Joe. Eddie abanou a cabeça. — suplicou Eddie. como se a preparar-se para uma luta. — Eu não sabia. Acredite em mim. Se o fizesse. — Os meus sapatos novos são bem melhores. entra em casa com uma luva de basebol na mão esquerda. Eddie deu um passo atrás e retesou o corpo. Estava com esperanças de o mostrar aos amigos. vestido de calças de lã e laço ao pescoço. como o seu pai. Eddie mostrou-se céptico e manteve os punhos cerrados. pelo meu pecado. Eddie estava a construir um camião. Eddie estremece. É por isso que aqui estou. na esperança de que.. Dá-lhe uma pancada com força. As mulheres parecem envergar todas o mesmo vestido preto. todo aperaltado.. na festa de aniversário. 43 Eddie observa um homem a deitar pazadas de terra numa cova. No cemitério.. — Pára de te mexer — diz a mãe. — Mas MAGOAM-ME! — queixa-se Eddie. nenhuma pessoa boa morreria jovem. Porque é que você teve de morrer por minha causa? Não é justo. lançando um olhar furioso a Eddie. — Não. pensa. Eddie segura na mão da mãe e semicerra os olhos por causa do sol. estão agora de fato preto. — Mas agora tenho de pagar — disse. Detesta andar com as coisas velhas de Joe. — Já chega! — grita o pai. junto de uma sepultura. — Pagar? — Sim. Juro por Deus que não sabia. Que não se pode separar uma vida de outra. que normalmente usam lamé dourado e turbantes vermelhos. Não é justo.

as bandeiras a adejar ao vento. viu os telhados do velho Ruby Pier. há vidas que se alteram. — Nenhuma vida é um desperdício — disse o Homem Azul. depois. Quando a morte leva uma pessoa. Era. tudo desapareceu. Pensamos que essas coisas acontecem ao acaso. Alguns nem sequer me conheciam bem. Lá em baixo. — O meu funeral — disse o Homem Azul. tal como a minha vida. o Homem Azul puxou Eddie para si. Eddie estivera lá. outra cresce. que todas as vidas se intersectam. — Espera! — gritou Eddie. Mas existe um equilíbrio em todas elas. a pele mais perfeita que já vira em toda a sua vida. o ataque cardíaco. 47 DOMINGO. a sua pele transformou-se num magnífico tom de caramelo — macia e imaculada. os nervos. Eddie sentiu imediatamente tudo o que o Homem Azul sentira na sua vida a invadi-lo. Perguntou-se se teria tido um funeral. — Que bem adveio da tua morte? — Tu continuaste vivo — respondeu o Homem Azul. — Olha para os enlutados. ou quando se despenha um avião em que poderias ter viajado. »Dizes que devias ter morrido em vez de mim. um menino pequeno. — Os únicos momentos que desperdiçamos são aqueles que gastamos a pensar que estamos sozinhos. puxando-o. Viu o padre a ler a Bíblia e as pessoas de cabeça baixa. como uma gaveta a ser fechadas» — Vou-me embora — sussurrou o Homem Azul ao seu ouvido. a atravessar o seu corpo — a solidão. a minha morte foi um desperdício. 3 HORAS DA TARDE . ao fazê-lo. pairando por cima de um vasto oceano cinzento. Este sentiu aquela sensação de calor.. — Virou-se para as pessoas enlutadas. Foi naquele dia que o Homem Azul fora sepultado. — Espera — disse Eddie. Acontece todos os dias. — Diz-me só uma coisa. E dito isto. durante a minha estadia na terra.. como se fosse derreter. pensou Eddie. O Homem Azul recuou na direcção da sepultura e sorriu. Eu salvei a menina? No cais. tudo isso deslizou para dentro de Eddie. também houve pessoas que morreram em vez de mim. Quando um relâmpago cai num lugar de onde acabaste de sair.. O nascimento e a morte fazem parte de um todo. — E os funerais. O Homem Azul pousou os braços nos ombros de Eddie. Perguntou-se se alguém teria comparecido.. Eddie voltou a olhar para o grupo reunido ao redor da sepultura. 46 — Mas mal nos conhecíamos. mas vieram. E. E. apenas as costas de chapéus. — Este patamar do Céu já terminou para mim. »É por isso que os bebés nos cativam. a vergonha.. vestidos e casacos.. mas que hás-de conhecer um dia. — Os desconhecidos — disse o Homem Azul — são familiares que ainda não conheces. na pequena distância que existe entre partir e escapar. — Então. mas foi subitamente levantado do chão por um torvelinho e levado para longe do cemitério. — Continuo sem compreender — sussurrou Eddie. há tantos anos. as espirais e torreões. Porquê? Já alguma vez te perguntaste isto? Porque é que as pessoas se reúnem quando morre alguém? Porque é que as pessoas se sentem na obrigação de o fazer? »É porque o espírito humano sabe. Eu bem podia ter sido um perfeito desconhecido. irrequieto durante a cerimónia toda. outra qualquer escapa e. Mas. Quando o teu colega adoece e tu não.ver caras. Mas tu ainda vais encontrar outras pessoas. bem lá no fundo. Eddie deixou cair os ombros. salvei-a? O Homem Azul não respondeu. sem fazer a menor ideia do papel que desempenhara naquela situação. Uma pessoa definha.

adelgaçando as sombras. como uma canção de carnaval tocada pelos altifalantes do parque. assim que lá chegaram. — Ohhh não. não. O pai de Eddie está a jogar cartas a um canto. assim que ele entra na sala. como se estivessem a fazer continência. numa pequena nuvem defumo de charuto. — Cala-me essa matraca — diz Eddie a Joe. Os primos não sabem falar inglês. quer saber a última? — grita Joe. Mas também eles baixaram os braços impotentes. Senhoras de idade levavam a mão ao pescoço. A notícia de que acontecera uma tragédia espalhou-se pela praia e. — Eddd-diii! — grita ela da cozinha. a multidão amontoava-se em silêncio à volta dos destroços da torre. Vindo de trás. 49 . está demasiado velho para esse tipo de coisas. o Eddie conheceu uma rapariga. impotentes. 48 Hoje é o aniversário de Eddie Dentro do quarto. A galeria de jogos fechou os portões. ao pôr do Sol. um cheiro intenso e silvestre que ele adora. Mãe. de mãos na cintura. agarrando a cabeça com as duas mãos. Seja como for. — Ontem à noite. Viu a carnificina. O Sol queimava. familiares. à espera das ambulâncias. conheci a rapariga com quem vou casar!» Eddie começa a ferver de irritação. — A sério. amigos e trabalhadores do parque de diversões. — É. Joe ignora-o. mas. Eddie consegue sentir o cheiro dos bifes que a mãe está a grelhar com pimentos verdes e cebolinhas. mas gostam de banda desenhada. Ruby Pier estava vazio. Hoje. Eddie! — gemeu. Dominguez irrompeu por entre a multidão. Chegaram os homens de farda. sussurravam as pessoas. que lhe aperta o pescoço musculoso. É muito grave?. Diz que vai casar com ela. a lutarem contra os maus para salvarem o mundo. como o Fantasma. mesmo com a porta fechada. As atracções do parque foram encerradas por tempo indeterminado. — Onde estás? Já chegaram todos! Ele rola para fora da cama e amima o livro de banda desenhada. Eddie traz uma camisa branca de botões nos colarinhos e uma gravata azul. Puseram faixas amarelas a delimitar o perímetro do acidente. os pais. mas ainda gosta daqueles heróis coloridos. Era como se todos eles — as mães. — Aaah. afogueado. dessa maneira Eddie tem uma desculpa para não se desfazer dos livros. Vários homens corpulentos de camisola de alças abriram caminho até à frente. com a camisa da manutenção encharcada em suor. as crianças com os seus copos gigantescos de refrigerante — estivessem demasiado atordoados para olhar e demasiado atordoados para ir embora. que vieram para a América há uns meses. Empurraram as pessoas para trás. ele entrou no quarto com uns olhinhos apaixonados e disse: Joe. Joe. Chegaram os funcionários da segurança. A família de Eddie foi buscá-los ao porto e eles mudaram-se para o quarto que Eddie partilhava com o irmão.No cais. obrigando as pessoas a porem as mãos em forma de pala sobre os olhos. Ofereceu a sua colecção aos primos pequenos da Roménia. É recebido com um coro de saudações e copos de cerveja no ar pelas visitas. como se pudessem resolver o problema. faz dezassete anos. também eles se limitaram a observar. Mães puxavam as crianças para longe. A morte encontrava-se aos seus pés. a sério? Eddie sente-se corar até à raiz dos cabelos. É muito grave? Soaram as sirenes. — Aqui vem o aniversariante — cantarola a mãe. — Oh.

— Já te mandei calar! — Como é que ela se chama.. a mãe de Eddie liga o rádio. fá-lo levantar-se. — Laaa laa liii — canta ela. Dançam pela sala de estar. as estrelas e a lua. Roda o botão do rádio até encontrar música. lala. 50 — Oh. pára com isso! Agora. Mais tarde. Eddie? — pergunta alguém. mas ela fá-lo rodopiar com toda a facilidade.. mãe! — Anda lá. Mas a mãe. e ela sorri e cantarola baixinho.. uma orquestra a tocar uma melodia swing.. Dançam à volta da mesa. a debicar os últimos bocadinhos de bolo. até que Eddie a acompanha. Dão as mãos e dançam. com o seu bonito rosto redondo. — Agora dancem vocês os dois — diz ela. até os primos da Roménia levantam os olhos — de lutas eles entendem —. para deleite da mãe.. — Com ele? — Mãe! Mas ela insiste e eles cedem e.. até que o pai de Eddie pousa o charuto e berra: — Parem já com isso. pegando nas mãos de Eddie. até que Eddie se desmancha e ri. gostas dessa tal moça? Eddie falha o passo. — Ela costuma ir a igreja? Eddie dirige-se ao irmão e dá-lhe um murro no braço..... quando os dois irmãos se agarram um ao outro ao murro e ao pontapé. Rodopiam até à mesa e a mãe de Eddie pega em Joe e põe-no de pé. ou levam os dois um par de estalos! Os irmãos separam-se.. a acompanhar a melodia — . — Que notícia horrível — diz a mãe de Eddie. la. — Não faz mal — diz ela. la. que está esparramado na cadeira... — Fico feliz por ti. .. quando estás comigo. Há notícias sobre a guerra na Europa e o pai de Eddie faz um comentário sobre a dificuldade que vai ser arranjar madeira e fio de cobre. — Aaau! — CALA-TE! — Eddie.. Ela despe o avental. trocista. se a situação piorar. daí a nada.. — Mostra-me como dançaste com a tua nova amiga — diz ela. O irmão sorri. — Aaau! — Eddie! — Eu mandei-te calar! Joe anuncia: — E ele dançou com ela na.. ofegantes e carracundos. depois de comidos os bifes especiais e apagadas as velas e de a maior parte das visitas ter ido embora. Uma das tias sussurra: — Ele deve gostar mesmo da tal moça. aproxima-se de Eddie. deixando o sofá livre. Joe e Eddie estão a rir e a tropeçar um no outro. girando em círculos exagerados. Será quase impossível fazer a manutenção do parque nessas circunstâncias. — Não é assunto para um aniversário. dobra-o numa cadeira e.! Murro. la. Alguns dos parentes mais velhos sorriem. Já é uns bons quinze centímetros mais alto do que a mãe. Depois. em Junho. — Então — sussurra ela —.. continua a cantarolar e a dar um passinho de dança. Eddie fica especado como um prisioneiro a caminho da sua morte.

que ao longo dos séculos confundiram a coragem com o pegar em armas. as montanhas-russas se tinham tornado demasiado dispendiosas. A elasticidade desaparecera. Levantou os olhos e viu uma espingarda enterrada no chão. Os jovens vão para a guerra. ainda que pequenas. Sentia-se mais forte do que antes. Mas sentem sempre que o devem fazer. Também ele lutaria. e a cobardia com o depor das armas. agora.enquanto os clarinetes conduzem a melodia da rádio. Eddie andara a trabalhar para poupar dinheiro. fez a barba. de azul-cobalto a cinza-carvão. Pestanejando por entre a chuva. nas coxas e canelas. Eddie. — Quando? — foi só o que ele perguntou.» . Olhou em volta para o terreno sem vida. Umas vezes. Escondeu-se na sua escuridão. quando tentou tocar nos pés. Eddie sentiu um vento quente fustigarlhe o rosto. explosões ou bombas — e atirou-se instintivamente para o chão. Eddie desatou a correr. até mesmo no céu. Ouviu trovejar — ou um som parecido com o de um trovão. quando foi informado da notícia. encontrava-se uma carroça desconjuntada e os ossos em decomposição de um animal. com umas carruagens pela altura da coxa de um homem adulto. numa manhã chuvosa. levando os joelhos ao peito. outras vezes como voluntários. não tens miolos para tanto. que pendiam de uma 52 árvore colossal. Antes de se alistar. na esperança de tirar um curso de Engenharia. depois do seu turno de manutenção no caminho-de-ferro Liliputiano. depois da Depressão. já não conseguia. O pai. 51 A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie sentiu os pés tocarem no chão. sentiu a cabeça roçar numa coisa sólida. Como nunca disparara uma arma a sério. O medo encontrara-o. os primos romenos batem as palmas e os últimos resquícios de bife grelhado se evaporam no ambiente festivo. Por fim. por causa das tristes histórias multifacetadas da vida. O céu tornou a mudar. Eddie baixou a cabeça e rastejou pela lama. ao parque. e Eddie estava agora rodeado de árvores tombadas e destroços enegrecidos. Numa colina ali perto. Pagava-se uma moeda de cinco cêntimos e a máquina zumbia e a pessoa premia o gatilho e disparava balas de metal contra imagens de animais selvagens. Já não tinha aquela sensação infantil de ser feito de borracha. nos ombros. Ruby Pier acrescentara umas atracções novas. penteou o cabelo para trás e alistou-se. Quando o seu país entrou na guerra. mesmo que o seu irmão. aterrou sobre o estômago e rastejou pelo solo. uma vez mais. com um capacete em cima e uma série de chapas penduradas no punho. mas. com os passos rígidos e ritmados de um soldado. Eddie ia lá todas as tardes. O céu abriu-se e caiu um aguaceiro. insistisse em dizer: «Deixa-te disso. O nome inscrito nas chapas era o seu. Os seus músculos estavam tesos como os arames de um piano. cuspindo a água suja à volta dos lábios. Era esse o seu objectivo: queria construir coisas. Joe. A sua corrida era diferente. depois rastejou apressadamente para uma parede porosa de vinhas fibrosas. porque. O céu explodiu num amarelo flamejante. à força. acendeu um cigarro e exalou o fumo lentamente. E. A mãe não quis que ele fosse. Encolheu-se. apalpou as chapas. Eddie acordou bem cedo. Tentou recobrar o fôlego. Já havia quem estivesse a lutar. Eddie começou a treinar na galeria de tiro de Ruby Pier. Tocou nos braços. uma chuva espessa e acastanhada. um leão ou uma girafa. O caminho-de-ferro Liliputiano era precisamente o que o nome indicava.

Assombrara-o em sonhos. as crianças pediam a Eddie para as levantar bem alto. — Varíola — disse uma voz. Febre tifóide. Eddie pegou numa mochila e deixou o cais para trás. — Varíola. Lembrava-se da razão por que os soldados faziam aquilo: para assinalar as sepulturas dos mortos. — Pfff — grunhiu Mickey. via os sorrisos tristes das mães: era o gesto certo. estás a ouvir? Se queres voltar para casa. Mas Mickey arrotou e cambaleou para trás. A arma mecânica parou de zumbir. mulheres sozinhas com crianças. Rastejou de joelhos para fora do seu refúgio. Eddie deu meia volta. Eddie virou-se e cravou os olhos em Mickey. devastada pelas bombas e reduzida a pouco mais do que cinzas.Mas assim que começou a guerra. soltou uma longa e profunda expiração. O seu cabelo era da cor dos gelados de baunilha franceses. Vinha de cima. A maior parte dos clientes de Eddie eram. rapaz. Eddie continuou a disparar. subitamente. Ele conhecia-o. Disparas e disparas sem pensar em quem estás a alvejar ou a matar ou porquê. — A voz de Mickey era um rosnar grave. Pang! Outro tiro certeiro. rapaz? Mickey Shea estava parado atrás de Eddie. e. A moeda de Eddie já não dava para mais disparos. Ouvia a sua respiração trabalhosa. Pang! Fariam barulho quando ele os atingisse — pang! — ou tombariam simplesmente. a tremer e todo molhado debaixo da árvore colossal. Eddie estava debruçado sobre a pequena arma da banca de tiro. molhado de suor. por baixo de um pequeno cume. Afastou as vinhas e viu a espingarda e o capacete ainda espetados na terra. Eddie ficou especado a olhar. Apertou o ombro de Eddie com mais força ainda. sentiu um aperto no peito. como o pneu de uma bicicleta a ser enchido com a ajuda de uma bomba. profundamente concentrado a disparar. e o seu rosto corado da bebida. olhou para 54 Eddie como se fosse chorar. De repente. Eddie desejava que Mickey se fosse embora e o deixasse treinar a pontaria. Talvez alguém também sentisse a sua falta. Ao longe. . disparas e não pensas. cujos pais tinham partido para a frente. disparas. — É o pensar que mata. Mickey deu-lhe um estalo na cara e. Sem hesitação. sentiu um apertão doloroso no ombro. Em breve. como um homem que acabava de receber más notícias. — A guerra não é uma brincadeira. Pang! Pang! Tentou imaginar-se a alvejar o inimigo. Sentia o velho bêbado atrás de si. Aquele lugar. Por vezes. de boca entreaberta. como os leões e as girafas? Pang! Pang! — Estás a treinar-te para matar. os olhos a tentarem focar o cenário. mais alto do que 53 a cabeça dele. Depois. pensava Eddie. Febre amarela. Pang! Mais um. encontravam-se os restos de uma aldeia. Depois. Se tiveres de disparar. instintivamente. pondo fim à sua vida de olear trilhos e testar alavancas de travões. às vezes como voluntários. — Ouve uma coisa. Tétano. Eddie encolheu os ombros e voltou a disparar. o negócio do parque decaiu. estás a ouvir? Sem culpa. A chuva parou. Eddie levantou o punho para retaliar. algures na árvore. mas o par de braços errados. Eddie. quando Eddie lhes fazia a vontade. agora. Eddie juntar-se-ia àqueles homens distantes. Numa dessas últimas noites. o assobio nasal a cada inspiração e expiração. A guerra era o seu ritual de passagem para a idade adulta. Uns dias depois. Por instantes. Os jovens vão para a guerra.

Aprendeu a barbearse com água fria dentro do capacete. — E o senhor também está morto. . uma mochila e várias bandoleiras ao ombro. a queda pareceu-lhe grande. — Aposto que não estavas à espera que fosse eu. a minha segunda pessoa? O Capitão levantou a mão que segurava o cigarro. também nunca conheci quem a tivesse tido. — E o senhor é. um rádio. — Capitão? — sussurrou. Por entre 55 os ramos mais pequenos e as grossas folhas de figueira. Lutaram nas Filipinas e despediram-se nas Filipinas. um sobretudo. mas sabia que não podia cair. — Nisso acertaste. e Eddie nunca mais o vira. A voz era forte. Aprendeu a beber o pior café do mundo. — Explicaram-te as regras. capitão? Estiveram juntos no exército. puxou uma longa fumaça e expirou uma pequena nuvem branca. Prendeu as pernas num ramo grosso e. mesmo assim. tudo de uma vez. saudável como um touro.. Eddie levantou-se e pigarreou. Uma nuvem de fumo pairou no ar. com um ligeiro sotaque sulista e um toque de rouquidão. Aprendeu a fumar. hã? Eddie aprendeu muitas coisas durante a guerra. O Capitão era o comandante de Eddie.. em que ele percebe que a luta não acaba depois de uma batalha. — Sobe — respondeu a voz.— Nunca descobri o que é a febre amarela. — É o senhor. agora! — e aprendeu a depressão profunda do segundo combate de um soldado. Os seus olhos reluziam como pequeninas gambiarras vermelhas. uma máscara de gás. Aprendeu a ter cuidado quando disparava de dentro de uma cova. que fora morto em combate. — Fui vacinado contra todas essas doenças e. que ficava tão alto como um edifício de vários andares. E Eddie subiu à árvore. Aprendeu a cuspir a uma grande distância. Eddie engoliu em seco. Aprendeu a marchar. que outras se seguirão depois dessa. — Estou morto — disse. sentado contra o tronco da árvore. quase até ao cimo. um tripé para a metralhadora. uma carabina. como se o homem tivesse estado a gritar durante horas. Que raio. morri aqui. em que os homens batem nas costas uns dos outros e sorriem como se tivesse acabado — Já podemos voltar para casa. soldado? Eddie olhou para baixo. Ouvira dizer. Eddie conseguiu distinguir a figura sombria de um homem de camuflado. Sorriu. como quem diz: «Já alguma vez tinhas imaginado que se podia fumar aqui em cima?» Depois. — Desce — disse ele. Aprendeu a aclamação nervosa do primeiro combate sobrevivido por um soldado. A árvore abanou. mais tarde. — Também acertaste. olhando para baixo. Aprendeu a atravessar uma ponte de corda enquanto carregava. Caíram uns pequenos frutos aos pés de Eddie. Aprendeu a andar num tanque. não fosse acertar numa árvore e ferir-se com o ricochete. 56 Aprendeu umas quantas palavras numas quantas línguas estrangeiras. Viu a terra lá ao fundo. O seu rosto estava coberto por uma substância negra como carvão. — Gostas de maçãs? — perguntou a voz.

também. Aprendeu que os ossos de um homem são realmente brancos. — Ouça. quando rompem a pele. — Afirmativo. sabe? Trabalhei na manutenção de um parque de diversões. — Capitão. O hálito é sempre o mesmo. numa ilha das Filipinas. a seguir. Aprendeu em que bolso guardar as cartas para a sua família e para Marguerite. os céus iluminaram-se e Eddie ouviu um dos seus amigos. o Capitão prometia sempre que nunca «deixaria ninguém para trás». o seu grupo foi apanhado sob fogo pesado e dispersou em busca de abrigo.. — Isso é escusado.. cuspiu por cima do ramo da árvore. A maior parte dos soldados gostava bastante dele. Aprendeu a capturar um prisioneiro. E também não vomitamos. A comida? Eddie não estava a perceber nada.. às vezes. Aprendeu a dormir em terreno rochoso. caso fosse encontrado morto pelos seus companheiros de luta. de maneira que se lhe via os dentes todos. se está sentado ao lado de um colega numa trincheira. a chorar como uma criança e gritou-lhe: «Cala-te!» e percebeu que o homem estava a chorar. quando o avião de transporte está prestes a largá-los. Eddie engoliu em seco. Nada de que me orgulhasse. — Passou tanto tempo. embora nunca tivesse aprendido a tornar-se um. amarelados do tabaco. coçando o queixo. Ocupava-me das máquinas. depois de ter estado com o Homem Azul: também teria matado o Capitão? — Tenho andado a pensar numa coisa — disse o Capitão.. que até os homens fortes e musculosos vomitam nos sapatos. um militar de carreira com um andar presunçoso e 57 um queixo proeminente. do fundo de uma trincheira. Capitão. reparou na expressão perplexa de Eddie. a segredar que se está cheio de fome. E a comida incrível.. da montanha-russa. o que reconfortava os homens. — voltou Eddie a dizer. O que estou a querer dizer é que.Aprendeu a assobiar por entre os dentes. O senhor está. à medida que um ano se transformou em dois e dois anos em três. apesar de perder facilmente a cabeça e ter a mania de gritar na cara de uma pessoa. da roda-gigante. acontecesse o que acontecesse. O Capitão apagou o cigarro. daqueles navios estúpidos em forma de foguetão. porque havia um soldado inimigo de pé junto dele com uma espingarda apontada à cabeça. uma noite. — Os homens do teu pelotão. Aprendeu que. Depois. — Que faço eu aqui? O Capitão olhou para ele com aqueles olhos vermelhos cintilantes e Eddie resistiu a fazer a outra pergunta que agora o atormentava. É escusado cuspir aqui em cima. especialmente depois de usar as mesmas roupas imundas durante uma semana. Aprendeu. Limitei-me a ir andando.. ainda estupefacto. Apesar disso. Aprendeu a rezar muito depressa. Tive uma vida de nada. na véspera do combate. — Com o mesmo aspecto com que me viste pela última vez? — Sorriu e. — Tens razão. que o tornava parecido com um actor de cinema da época. De repente. Era mais velho do que os homens do pelotão de Eddie. eles mantiveram-se em contacto? O Willingham? O Morton? O Smitty? Voltaste a vêlos? 58 . e Eddie sentiu uma coisa fria no pescoço e havia um atrás de si.. Eu continuo sem saber por que estou aqui.. mas muito obrigado. e no instante seguinte ouve-se um uuusssh e o colega cai para o lado e a fome deixa de ser importante. e que até os oficiais falam durante o sono. Vivi no mesmo apartamento durante anos.. — Sir. Aprendeu que a sarna são pequeninos bichos que fazem comichão e que se enterram na pele.. Deve haver um engano.

Uma jarra de barro servia de retrete. a curta distância entre a liberdade e o cativeiro. por vezes. Smitty. quando a guerra acabou. Semicerrou os olhos e baixou a voz. — E tu? Voltaste para o parque de diversões onde todos nós prometemos ir. O que todos disseram. Fora isso que ele dissera. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie já vira na vida. Não sei. Morton. O Capitão chamava-lhes Louco n. as coisas que fizeram.. A noite. O Capitão acenou com a cabeça. Viam-se-lhes as costelas — até as de Rabozzo. iam improvisando de dia para dia.° 3 e Louco n. Eddie tirou uma vespa morta de dentro da taça. entravam na cabana com as baionetas e abanavam as lâminas diante do nariz dos americanos. explodiam morteiros. Um parecia demasiado novo para ser soldado. As coisas que viram. sabendo que essa informação seria preciosa em caso de fuga. Mas. Se Eddie pudesse saltar e agarrar-se à asa do avião.. Louco n. — Lamento muito. Os seus captores não pareciam saber ao certo o que fazer com eles. se sobrevivêssemos? Bilhetes à borla para todos os soldados? Duas raparigas por soldado no Túnel do Amor? Não foi isso que tu disseste? Eddie esboçou um sorriso. . tal como um íman.Eddie lembrava-se dos nomes. Tentou fixar imagens mentalmente. — E? — E. As barracas erguiam-se sobre estacas. rugia um avião.. Eddie encolheu os ombros.° 4. gritando numa língua estrangeira. Nunca obtinham resultados. — Sim. enchendo Eddie com uma súbita onda de náusea e desespero. Faltavam-lhe as asas.. à espera de respostas. depois cair sob uma saraivada de balas. — Não queremos saber os nomes deles — disse ele. Os seus rostos eram encovados e ossudos. — Ainda fazes malabarismo? — perguntou. — Sinceramente. ele e os outros soldados foram amarrados pelos pulsos e tornozelos e atirados para dentro de barracas de bambu. enquanto marchavam na escuridão — cabanas. Tanto quanto Eddie sabia. A guerra unia os homens como um íman. poderia voar para longe daquele erro. como se já estivesse à espera daquela resposta. O Capitão perscrutou o seu rosto. Eddie viu um vulto correr por entre as árvores.. e ali permaneceram durante dias. um caldo acastanhado com ervas a flutuar. mas.. Fiz planos. uma vez por dia. os guardas inimigos rastejavam por baixo das barracas e escutavam as suas conversas. ninguém apareceu. meses. acabámos por nos afastar uns dos outros.. voltei — disse Eddie. Rabozzo e o Capitão foram conduzidos em rebanho e obrigados a descer uma colina íngreme. com cabelos pretos retintos. Nada resultou. que era um rapaz robusto quando se alistara. Louco n. obrigados a dormir em sacos de serapilheira cheios de palha. 59 Em vez disso. Tu vais!. — Encolheu os ombros.° 1. tudo o que conseguisse orientar —. Mas esta maldita perna. só queriam esquecê-las. também podia afastá-los. TU VAIS! Os soldados inimigos gritaram e espicaçaram-nos com as baionetas. Uma noite.. É a tortura interna de todo o soldado capturado. nunca de lá saí. eram apenas quatro e o Capitão achava que também eles se tinham afastado de um pelotão maior e que. como tantas vezes acontece numa guerra a sério. A verdade é que não tinham mantido o contacto. Eddie. Ao fim do dia. estradas. com as mãos na cabeça. Tentei. falavam cada vez menos.° 2. A medida que o tempo ia passando. Ficaram magros e fracos. acima do solo lamacento.. Os outros pararam de comer. À sua volta.. semanas. A sua alimentação consistia de bolas de arroz cheias de sal e. — Vais!. Ao longe. — E não queremos que eles saibam os nossos.

. Mas ele queria ir embora e queria vingança. Depois. O Louco n. mas ainda assim rezava.. O chão estava frio. . outros raspavam. o dia em que mandara dois miúdos para o hospital com a tampa de um caixote do lixo. no carrossel dos Cavalos de Corrida..». a sua maçã de Adão mexia para cima e para baixo. mas à noite acordava frequentemente aos gritos: «Eu não! Eu não!» Eddie fervilhava. Eddie adormecia com a fotografia de Marguerite dentro do capacete. Alguns usavam as pás. dizendo: «Senhor. à laia de cobertor. coçava o queixo e murmurava: «Ai porra.. se me deres dezasseis dias com ela. Ele fazia uma corrida com os amigos.Os homens adaptam-se ao cativeiro. Havia outros prisioneiros. amarraram-nos e conduziram-nos para dentro de uma conduta. se me deres seis dias com ela. Eddie e os outros soldados foram obrigados a arrancar carvão das paredes. e os quatro Loucos mandaram-nos levantar. estavam desesperadamente pretos e os seus pescoços e ombros latejavam de tanto estarem dobrados. picaram-no com paus para continuar a raspar as paredes. um rapaz magricela e falador de Chicago. na mina. uns melhor do que os outros. Os rostos dos prisioneiros. Depois. Havia pás. Os quatro Loucos não mostraram qualquer indício de compaixão. estava calado a maior parte do tempo. Rabozzo mal se aguentava de pé. como o jogador de basebol ansioso que fora na sua juventude. 61 Durante os primeiros meses de cativeiro. o mais cruel dos captores. onde cinco clientes voavam em círculos até a campainha tocar. Eddie descobriu mais 60 tarde que estava a morder a língua. estrangeiros que não sabiam inglês e que olhavam para Eddie com olhos vazios.» até os outros o mandarem calar. batia na palma da mão e pensava em todas as brigas em que se envolvera no seu antigo bairro. mantinha uma cara impassível durante as horas de vigília. Cerrava um punho e batia na palma da mão durante horas a fio. À noite. Cerrava os maxilares. Não havia luz. Não conseguia comer. se eles não tivessem armas. transpirou tanto dentro das suas roupas imundas. Não era muito dado a rezas. atingiu Eddie com o punho da baioneta. Não havia roupa limpa para lhe dar. que o seu pai falasse consigo — haviam treinado Eddie na arte da paciência. No dia seguinte. Mas. uma manhã. Dou-te estes dezasseis dias. Dou-te estes nove dias.. — É uma mina de carvão — disse Morton. Davam-lhes um copo de água de umas quantas em quantas horas. se me deres nove dias com ela. filho de um bombeiro de Brooklyn. ai porra. mas muitas vezes parecia estar a engolir qualquer coisa. A partir desse dia. colocada à sua frente. para ajudar nos esforços de guerra do inimigo. que as ondas recuassem. a fazer troça. dou-te estes seis dias.. Morton. outros carregavam pedaços de lousa e construíam triângulos para suportar o tecto..° 2. Oregon. ou com Marguerite. os prisioneiros acordaram ao som de gritos e baionetas ameaçadoras. o jovem ruivo de Portland. durante o quarto mês. Rabozzo. o sonho mudava e nos outros cavalos estavam os quatro Loucos a espicaçá-lo. Imaginava o que faria àqueles guardas. ao fim do dia.. — Deixem-no em paz — grunhiu Eddie. estremecia sempre que ouvia barulho lá fora. portanto ele dormiu nu sobre a serapilheira. aconteceu uma coisa. Eddie caiu. depois. Sujou as calças. inventando as palavras e contando cada noite. A noite. Os anos e anos de espera no cais — que uma corrida acabasse. ai porra. Rabozzo apanhou uma alergia cutânea grave e uma terrível diarreia. que elas ficarem completamente encharcadas. sonhava que estava de regresso ao parque de diversões. Era proibido falar. os nós dos dedos contra a pele. enxadas e baldes de metal. ou com o irmão. Smitty. Quando ele abrandou o ritmo. e o Capitão tapou-o com o seu saco.

Sentiu os nervos encherem-se de vida. coberto de cinza preta. Rabozzo gemeu.° 4 levantaram lentamente o corpo de Rabozzo. que. levantou os olhos.° 4. enfiou-a no ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabeça. o Louco n. Estava a tentar dormir. apanhava-as. Deixava-as cair. parecia óleo derramado. — Para teu próprio bem. O Capitão semicerrou os olhos. atirava-as bem alto e deixava-as cair novamente. — Ele está doente! — gritou Eddie. Gritou qualquer coisa para o Louco n.° 2 gritou para ele se levantar.° 3 estava dentro da barraca. deixando ura trilho de sangue fresco. Por instantes. Levantou-lhe as pálpebras. Focou os olhos. — Está pronto para a acção? O Capitão levantou a cabeça. entediado. — Eu sei fazer malabarismo — segredou Eddie. Todos os dias. quase do tamanho de tijolos. de pálpebras fechadas e os lábios a moverem-se furiosamente. 62 O Louco n. e arrastaram-no ao longo do chão da mina. apontando com a cabeça para o guarda. Eddie parou de rezar. antes que tivessem todos o mesmo destino. depois fixou Eddie e cuspiu-lhe para os pés. que pareciam tão atordoados como os prisioneiros.° 2 debruçou-se sobre Rabozzo. desmaiou. pareciam cada vez mais próximas. enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poça de sangue. O Louco n. para ter a certeza de que o estavam a ver. — O óleo é para queimar as provas — sussurrou o Capitão. O Louco n. Eddie ouvia bombas a deflagrar. na escuridão. — Cala-te. pondo-se de pé a custo. e o Louco n. até dos moribundos. — Capitão — sussurrou. Mas o Louco n. Tinha duas grandes pedras. por isso necessitavam de todos os prisioneiros. O eco do tiro perdurou na mina. Ninguém se mexeu. O Louco n. Eddie. sob um céu de Lua fosca. o Louco n. Três semanas depois. o Capitão calculava que os seus captores fugiriam.° 3 e o Louco n. Riu-se a olhar para todos eles.° 2 voltou a bater-lhe.° 3 abanou a cabeça e murmurou entre dentes. — Que têm as pedras? — perguntou o Capitão. À noite.° 3 e o Louco n. como se estivesse a rezar. tentava fazer malabarismo. destruindo tudo. Morton levou as mãos à boca. havia menos corpos. Se a situação piorasse drasticamente. Rabozzo raspou mais uns pedaços de carvão e.sentindo uma pontada de dor espalhar-se entre as omoplatas. Vira covas abertas por detrás das barracas dos prisioneiros e grandes barris de óleo colocados no cimo da íngreme encosta. Parou de contar os dias. — O quê? Mas já Eddie gritava ao guarda: — Ei! Tu aí! Estás a fazer tudo errado! .° 2 fez um sorriso exagerado e pôs-se a fazer barulhinhos reconfortantes como se faz com os bebés. mas finalmente decidiu levantar-se devagar. O Louco n. Ele e o Capitão falavam em fugir. Fez «Ahh» e riu-se. — O que é que estás a pensar fazer? 63 — As pedras — disse Eddie. Depois disso. O Capitão baixou os olhos. Depois. com as quais. irritado com o barulho das pedras a bater no chão. pegou na pistola. fitando cada um nos olhos. de vigia.° 2 atirou terra preta para cima do corpo. Eddie — sussurrou Morton. Eddie sentiu o seu corpo rasgar-se em dois.° 2 abanou a arma e voltou a gritar. Deixaram-no cair junto de uma parede. — Estão a cavar as nossas sepulturas. para raspar carvão. a seguir. Os seus olhos turvaram-se e o cérebro entorpeceu. na mina. ao lado de uma picareta. pelos pés. O Capitão achava que os esforços de guerra do inimigo eram desesperados.

— sussurrou Eddie entre dentes. com um italiano da feira que fazia malabarismo com seis pratos de uma vez. quando o interesse do público começava a esmorecer.° 3 atirou a pedra a Eddie e gritou qualquer coisa. la-la-la laaaaa. o Louco n. já Morton e Smitty estavam sentados.» O Louco n.° 3 fitou-o. tudo o que encontrasse. Atirava uma pedra bem alto e observava os olhos dos seus captores. cada vez mais depressa. mostrou as pedras e disse: — Dá-me mais uma. atirando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela.Fez um movimento circular com as palmas. para impressionar o guarda. meus caros! Eddie acelerou os gestos. «Capitão. — Gostas? — perguntou Eddie. desconfiado. O Louco n.. mas Eddie sorriu como os malabaristas de Ruby Pier costumavam sorrir. — O maior espectáculo do mundo..° 3 abriu a porta de bambu e fez o que Eddie esperava que ele fizesse: chamou os outros guardas. O Capitão aproximou-se. voltou atrás para ir buscar a sua baioneta. Eddie riu-se. — Três pedras. de todos os guardas. Dá-me as pedras. Cantou uma musiquinha de feira.° 3 aproximou-se. que caiu para 65 . em cheio contra o queixo do Louco n. O Louco n. Aprendera-o quando tinha sete anos.. A maior parte dos miúdos do cais sabia fazer malabarismo. Eddie apanhou a segunda pedra e atirou-a. Morton e Smitty aproximaram-se discretamente. 64 O Louco n. Eddie tentou controlar a respiração. desconfiado. à socapa. este era o que lhe daria mais hipóteses.° 3 entregava. A sua postura descontraiu-se. depois entregou as duas pedras a Eddie. O seu malabarismo era cada vez mais rápido. — Agora! — gritou Eddie. arremessou-a com força contra a cara do Louco n.° 2. — Se ele me der mais uma pedra.° 2 franziu o sobrolho. agora. olhem! — cantarolou Eddie. — Assim! Tens de fazer assim! Dá cá as pedras! Esticou as mãos. dois. ele atirava as pedras ao ar. A seguir. como quem diz «Têm de ver isto».° 3 grunhiu. Eddie achava que.. A meio de um passe de malabarismo. fingindo que as palavras faziam parte da melodia. O Louco n.° 1 apareceu com uma pedra grande e o Louco n. Cantou: «La.». deu um passo atrás. deteve-se. pedaços de pão aos prisioneiros. — e atirou uma pedra muito mais alto do que antes. Por essa altura. Mas. depois. — Assim — disse Eddie e começou a fazer malabarismo sem qualquer dificuldade. depois contou: — Um. partindo-lhe o nariz. Eddie voltou a fazer o movimento circular e sorriu. Eddie atirou as pedras num movimento rítmico. olhem. Eddie passara horas a fio a treinar no parque de diversões — com seixos. — Eu sei fazer malabarismo. Os Loucos observaram-na a subir. furiosamente. bolas de borracha.. Só mais um pouco.° 3.. Não era nada de especial. — Aproxiiimem-se — cantarolou Eddie.° 1. — Olhem. Atirou uma pedra bem alto. Os guardas estavam a gostar do entretenimento.° 2 seguiu-o. Riso forçado. O Louco n. — Três... para empatar. Ocasionalmente. — Qual é a ideia? — murmurou Smitty. vês? — Eddie esticou três dedos. O Louco n. enquanto lançava as outras duas. enquanto eles seguiam a pedra.. o tipo da esqueeeerda. O Capitão riu-se. «La. sorriu para os outros e fez-lhes sinal para se sentarem. fingindo-se interessados no malabarismo. sem querer. alerta.. Depois parou.» Os guardas riram-se. agarrou numa pedra e... — Ahhh — fez o Louco n. Cada uma era do tamanho da palma da sua mão. depois apanhou a terceira e repetiu o gesto. com a mão esquerda. como o bom jogador de basebol que sempre fora. lala-la laaaa.

Eddie perguntou-se há quanto tempo estariam ali sozinhos com os quatro Loucos. em Pitkin Avenue. colocou o seu único par de sapatos bom. na maçaneta do guarda-fatos do seu quarto. — Os outros devem ter fugido. mas nada aconteceu. repetidas vezes. e Eddie sente as habituais cócegas no peito. de lado. espetou a baioneta nas costelas do Louco n. Aliás. mas. ouviu um tiro e levou as mãos à cabeça. Pegou numa pedra solta e esmagou-a contra o crânio do louco. Pergunta-se se essa não será uma fraqueza que não deveria levar para a guerra.° 4 com tanta força. enquanto eles tentam dar-lhe murros no estômago. magros. com a pistola do inimigo na mão. enquanto Morton e Smitty se lançavam contra as suas pernas. bom. o Capitão. os quatro guardas estavam mortos. E ali está ela. Eddie está na cozinha. Um aponta pela janela para o Carrossel Parisience. maravilhosa. O Louco n. com as mãos atrás das costas. — Vamos queimar tudo — disse. ficava a entrada da mina de carvão. — Olá. espingardas e dois lança-chamas com ar primitivo. Eddie estava a contar com mais tiros.° 2 tornou-se mole. Estava a sangrar do peito. — Trouxe-te uma coisa. e por baixo. «Regressa depressa filho». na entrada da cozinha.. todos misturados — depois. saltou sobre o Louco n. descalços e cobertos de sangue.° 4 entrou a correr e Eddie atirou a última pedra contra a cabeça dele e falhou por centímetros. que se encontrava à espera junto da parede.° 2 e esmurrou a cara dele com muito mais força do que alguma vez batera em alguém. A porta abriu-se de rompante e o Louco n. Os barris de óleo estavam empoleirados no primeiro degrau da colina. A menos de cem metros. mas os Os de «soon» («depressa») estão colados e mais parecem a palavra «son» («filho»). o seu coração dar um pulo. Eddie.trás quando o Capitão lhe saltou em cima. que ambos caíram pela porta fora. quando ele se baixou.° 3. Para o teu aniversário e. quando ouviram as bombas — sussurrou o Capitão. — Cavalos! — exclama a criança. saiu com os braços cheios de granadas. que está iluminado para receber os clientes da noite. Traz uma pequena caixa nas mãos. ao longo da cobertura de baunilha. apoderando-se da sua baioneta. Os prisioneiros. levou a mão à pistola e disparou-a ao acaso.. — Pelo Rabozzo — murmurou Smitty. ou seja. cheio de adrenalina. correram para a encosta íngreme. Em poucos minutos.. — Somos o único grupo que sobrou. . sujando as têmporas com o muco viscoso. Pendurou-as num cabide. A mãe de Eddie já limpou e passou as roupas a ferro. até olhar para as suas mãos e ver um repugnante muco arroxeado. que percebeu ser sangue e pele e cinzas de carvão. que ele vestirá no dia seguinte. o acampamento inteiro estava vazio. A porta da rua abre-se e Eddie ouve uma voz que faz.. O corpo do Louco n. antes de lá entrar a correr. até hoje. Ela sacode a chuva dos cabelos e sorri. para a tua partida. Havia uma cabana de abastecimentos ali perto e Morton certificou-se de que estava vazia. As outras cabanas estavam vazias. Levantou os olhos e viu Smitty de pé junto dele. alguém acrescentou as palavras «Regressa depressa a casa» em letras azuis floreadas. Eddie — diz Marguerite. mais guardas para enfrentar. a brincar com os seus primitos romenos. momentaneamente petrificado. 66 Hoje é o aniversário de Eddie O bolo diz «Boa sorte! Luta muito!» e.

. Conhece os nomes de todos os porteiros. arrumadores e vendedores de comida. tornando-a sua. Imbuídos de uma nova sensação de controlo. quando Morton. Eddie gostaria de poder parar o tempo. numa pose saída dos filmes. diz aos outros «Vamos queimar tudo». que ficou na reserva por ter pés chatos. Só se quer recordar dela. Algumas das senhoras mais velhas ficam com os olhos rasos de lágrimas e Eddie deduz que também elas têm filhos. a tortura e a humilhação que sofreu — tudo clama por uma vingança feroz. Na praia. de repente. «morno» e sobe até «quente». Na galeria de jogos.Volta a sorrir. nesse instante. todos concordaram de imediato. Eddie puxa um manipulo enforma de mão de gesso e a seta passa por «gelado». — Queres. 69 Um soldado que acaba de ser libertado sente-se frequentemente furioso. e há um momento em que a mãe dele começa a chorar e abraça o outro filho. Eddie passeia com Marguerite ao longo da marginal. Não se importa com o que está dentro da caixa. a oferecer-lhe aquela prenda. que pensa que vai explodir. aproximando-a de si. — Ainda nem sequer a abriste. — Vem apagar as velas. — Que bom — diz ele. os homens dispersaram com o armamento do inimigo. — Eddie! — grita alguém da sala. — És mesmo forte — comenta Marguerite. — Ele aproxima-se. «frio». todos lhe desejam boa sorte. Sorri. Por isso. — Não? Ela abana a cabeça. Marguerite e Eddie compram guloseimas. mas depois deixa cair o sorriso e pestaneja para a chuva não lhe entrar nos olhos. sente como se um fio se tivesse soltado do seu coração e embrulhado em volta dos ombros dela. do que algum dia julgou ser possível amar alguém. de mãos dadas. Joe. a acomodar-se para passar a noite. como se fosse lógico. Eddie engole em seco. Sal. Depois outra. 68 — Ei. encostados à balaustrada. Eddie sorri. nessa noite. com os braços cheios de armas roubadas. melaço e refrigerantes de fruta. embora Eddie não saiba ao certo se são gotas de chuva ou lágrimas. Ele levanta os olhos para o amontoado de nuvens. um ajuste de contas. que estamos cheios de fome! — Ai. está bem? — diz ela. Os dias e noites que perdeu. Mais tarde. que já partiram para a guerra. Tiram os doces do saquinho branco. detêm-se na marginal. cala-te! — Mas é verdade! Há bolo e cerveja e leite e charutos e um brinde ao êxito de Eddie. — Não te deixes matar. — Quente — diz Eddie. — Não é preciso pedires-me para esperar — diz Marguerite. mostrando os bícepes. — Vem. Uma gota de chuva cai na testa de Eddie. Ama-a mais. Eddie sente um desejo tão forte de a abraçar.. fortalhaço! — diz Marguerite. Ela ri-se. No final da noite. Como acontece sempre que vê Marguerite. os seus dedos atropelam-se. Salvo da pergunta que teve presa na garganta a noite toda. um velho trapeiro construiu uma pequena fogueira com gravetos e toalhas rasgadas e está agachado junto dela. Smitty para a entrada da conduta . 67 — Ouve.

O calor era intenso e tapou os olhos com a mão livre.da mina. alguém! Morton abanou a cabeça. O bambu estava seco e. Não conseguia ouvir.. Vuuum. Há mais de dois anos que Eddie só via homens adultos e aquela forma na 71 sombra fê-lo subitamente lembrar-se dos seus primos. a acenar para que Eddie fosse ter com ele. despejando faúlhas e chamas. depois desceu o carreiro até à última cabana. Eddie ouviu o retumbar de um motor — o Capitão encontrara um veículo de fuga — e. vindos do céu. — Ardam! — gritou Morton. Acabou. num minuto. zombou. mas parecia-lhe ter visto um vulto a correr no meio do fogo. os primeiros sons de bombardeamento. um a um. — EI! MOSTRA-TE! — gritou. Não tinha a certeza. abriam-nos e. Eddie virou-se e teve quase a certeza absoluta de que voltara a ver. Eddie premiu o gatilho. Eddie tentou focar a visão. o ruído que tinham ouvido todas as noites. Morton levou a mão à orelha.. atearam os seus recémadquiridos lança-chamas e viram as cabanas pegar fogo. Acabou. Era maior. Todas essas semanas e 70 meses nas mãos daqueles sacanas. O Capitão foi procurar um veículo de transporte. Perceberam? Cinco minutos! Que foi o tempo necessário para destruírem aquela que fora a sua casa durante quase meio ano. Apontou e gritou: — Acho que está ali alguém. uma espécie de celeiro.. do cais e do caminho-de-ferro Liliputiano que costumava vigiar. ali. um vulto do tamanho de uma criança. e Eddie apercebeu-se de que. Talvez voltassem para casa! Virou-se para o celeiro a arder e. — EI! — O telhado do celeiro começou a ruir. ali.. O que era aquilo? Viu uma coisa passar veloz pela porta. cumprida a sua missão. Eddie observou. saiu uma nuvem de fumo preto. O tiro saiu veloz. Ao longe. quem quer que fosse. baixando a arma. mas não podia ser pior do que aquilo por que já tinham passado. correu para o ponto de encontro. — Ardam! — gritou Eddie. deixando cair o lança-chamas para se aproximar mais. agora. Da entrada. — Encontramo-nos aqui. aqueles guardas sub-humanos de dentes estragados e caras ossudas e vespas mortas na sopa.. disse ele para com os seus botões. — Os bombardeamentos vão recomeçar daqui a nada e temos de ir embora antes disso. dando um passo em frente. Eddie e Morton empurraram dois barris para o complexo das barracas. Não sabia o que lhes ia acontecer a seguir. a rastejar dentro do celeiro em chamas. — EDDIE! VAMOS EMBORA! Morton estava ao cimo do carreiro. Empunhou a arma. veria as chamas. das montanhas-russas. O que era aquilo? Pestanejou. dos miúdos na praia. A sua respiração era ofegante. as paredes do celeiro derreteram em chamas laranja e amarelas. — O quê? — Está. para dentro de uma das cabanas. Estava ainda mais perto. Eddie deu um salto para trás. dentro de cinco minutos! — rugiu. — Ei! — gritou Eddie. Smitty largou as granadas na conduta da mina e fugiu a correr. — EU . de repente. Os olhos de Eddie ardiam. A conduta da mina explodiu desde lá de baixo. Talvez fossem resgatados. Morton deu um pontapé no barril. Morton e Eddie para os barris de óleo. depois.. Os seus olhos começaram a lacrimejar. e desecandeou uma explosão de chamas em série. de Marguerite e da fotografia dela e de tudo o que bloqueara na sua mente durante tantos meses. Smitty. Talvez fosse uma sombra.

e ele sentiu-se demasiado atordoado e fraco para resistir. Desta vez. — Lembras-te de como saíste de lá? — perguntou ele. fracturando-o verticalmente. o resto do telhado ruiu com um estrondo. espera. Era Morton. Pior ainda. aos berros: — EDDIE! Temos de ir embora JÁ! Eddie abanou a cabeça. Gritou uma longa praga saída do fundo das suas entranhas e. uma situação que acabaria por se agravar com a idade. Os aviões rugiam lá em cima e os tiros das suas armas soavam como tambores. depois.. a totalidade da guerra invadiu-o como bílis. Nenhuma delas resolveu o problema. rolou como um saco de feijões.NÃO TE FAÇO. Naquele instante.. pela primeira vez na sua vida. Passou por uma poça de óleo ardente e as suas roupas pegaram fogo por trás. o joelho perdera a sensibilidade e Eddie estava cada vez mais tonto e cansado. de punho cerrado. Eddie foi submetido a duas operações. Cortara vários nervos e tendões e estilhaçara-se contra o osso. repulsa pelo sangue e pelo muco a secar nas suas têmporas. informaram-no. qualquer coisa. Ali? Será aquilo? Ali. O médico disse que ele ficaria a coxear. espera. Acabaram-se os bailes. furioso. convencido de que algum inocente estava a morrer carbonizado diante dos seus próprios olhos. O sangue espirrava abaixo do joelho. — Pois foi.. De repente. Nesse instante. Levantou os braços e gritou: — EU AJUDO-TE! MOSTRA-TE! NÃO TE FAÇO MAL! Uma dor lancinante perpassou a perna de Eddie. se aguentar. — Mas safámo-nos — disse Eddie. a bala nunca fora completamente retirada. As suas costas estavam queimadas. Virou-se novamente para o celeiro. e cambaleou para os destroços em chamas. puxou o braço atrás e acertou-lhe no peito. Eddie só sabia que acordara numa unidade médica e que a sua vida nunca mais voltara a ser a mesma.. atrás de uma parede? Ali? Deu um passo em frente. pela coxa. Uma mão agarrou-lhe no ombro.. Eddie deu meia volta e. só queria salvar alguma coisa. — Aquela bala atingiu-te em cheio.. . Na verdade. sentiu-se pronto para morrer.. Morton tornou a agarrá-lo. Virou-se de novo para as chamas. não. a dizer-lhe para se aguentar.. Eddie deu meia volta. alguém o puxou para trás. lançando uma chuva de faúlhas como poeira eléctrica sobre a sua cabeça.. — Não está ninguém lá dentro! Vamos embora JA! Eddie estava desesperado. acho que está alguém ali dentro. Daí a nada.. em seguida. caiu no chão. — O Capitão pontuou as palavras com um suspiro. De repente. rebolando-o na terra para apagar as chamas. tão cansado. — Demorámos dois dias. O céu iluminou-se de clarões azulados. Sentiu repulsa pelo cativeiro e pelos assassínios.. — Nem por isso — disse Eddie. Seria verdade? Quem sabe. de olhos fechados para se proteger do calor insuportável e. espera. Perdeste muito sangue.. Eddie moveu-se como se estivesse em transe. «Fizemos o melhor que pudemos». Ficou ali deitado. de olhos semicerrados.. Acabaram-se as correrias. — Não. repulsa pelos bombardeamentos e pelo fogo e pela futilidade daquilo tudo. um pedaço de Rabozzo. O seu rosto contorcido de raiva. estava dentro de um veículo de transporte e os outros encontravam-se à sua volta. Eddie tinha a cabeça a latejar. O Capitão fez um lento aceno de cabeça. ao relembrar esses últimos instantes. a sangrar e a arder. Morton caiu de joelhos. Os motores dos aviões rugiam. à medida que os ossos se fossem deteriorando. Uma chama 72 amarela subiu-lhe pela canela e. Estiveste metade do tempo inconsciente. puxando-o com força para trás. um pedaço de si.. loucamente convencido de que havia uma alma dentro de cada sombra negra.

Eddie olhou para a sua perna. — É verdade. depois. — Porque fui eu — disse ele — que te dei um tiro na perna. Apercebia-me do medo nos olhos deles. Eddie gritou e precipitou-se com toda a força. sentando-se em cima do peito dele. e todos me faziam a continência. essa pequena coisa era aquela que eu vos dizia todos os dias. Apanhava muitos recrutas armados em chicos-espertos. Semicerrou os olhos e fitou o Capitão. O Capitão fitou-o. fazendo com que os dois homens caíssem da árvore por entre ramos e vinhas. O Capitão não sangrou. — Mas é claro que eu não podia. deixando Eddie descarregar a sua raiva. Levou a mão ao bolso do peito do casaco. »Até entrar para a tropa. o meu pai inspeccionava a minha cama. Por fim. de raiva e um desejo de bater em alguma coisa. que não sentia desde antes de morrer. depois apontou com a ponta do cigarro para a perna de Eddie. à espera que eu lhes dissesse o que fazer. Todas as manhãs. assoladora. acabara-se também a maneira como ele costumava sentir-se em relação às coisas. que o olhou com uma expressão vazia. E a dor também. Eddie acenou com a cabeça. O Capitão nem pestanejou. como se soubesse o que ia acontecer a seguir. Eddie abanou-o pelos colarinhos e bateu com o crânio dele contra a lama. passei a vida a receber ordens. começou a guerra e apareceram novos homens. Também eu me limitava a receber ordens. — Porquê? Seu sacana! Porquê? PORQUÊ? Lutaram no solo lamacento. A guerra alojou-se dentro de Eddie. Retraíu-se. O Capitão levou a mão ao pescoço e esfregou-o. A mesa do jantar era sempre «sir» para cá e «sir» para lá. — Força — sussurrou o Capitão. Deixou o cigarro cair dos dedos. chegava ao ponto de atirar uma moeda para cima dos lençóis e ver se ela saltava. tirou outro cigarro e acendeu-o. As cicatrizes da operação estavam novamente presentes. se não podia garantir a vossa sobrevivência. Limitou-se a rebolar de um lado para o outro. — Sabias — disse o Capitão — que descendo de três gerações de militares? Eddie encolheu os ombros. No meio de uma grande guerra. Tudo lhe parecia disparatado ou inútil. De repente. não pensaste? Eddie teve de admitir que sim. Sentiu um turbilhão de emoções dentro de si. comecei eu a dá-las. Aprendeu muitas coisas enquanto soldado. Agiam como se eu estivesse na posse de informações sigilosas sobre a guerra. 74 — Espero que sim — retorquiu. — Por que é que diz isso? — perguntou Eddie. Ninguém fica para trás. Durante os tempos de paz era uma coisa. e agrediu-o repetidamente com murros no rosto. a lutar o caminho todo até lá baixo. O Capitão soltou uma baforada. Assim que a encontram. só . na sua perna e na sua alma. Mas. — Isso era muito importante para nós — disse. — Para mim — prosseguiu o Capitão —. Mas. as pessoas procuram uma pequena coisa em que acreditar. Achavam que eu podia garantir-lhes a vida. agarram-se a ela como um soldado se agarra ao crucifixo. que não sentia há muitos anos: uma onda feroz. Regressou a casa um homem diferente. Aprendi a disparar uma arma aos seis anos. podia pelo menos manter-vos unidos.73 por algum motivo. Eddie imobilizou o Capitão. Também pensaste o mesmo. rezando numa trincheira. a cada soco. na verdade. pendurada no ramo da árvore. jovens como tu.

sem a abrir sequer. exausto. O que viu. de repente. — Foi como te disse — continuou o Capitão. — Porque é que eu não morri? — Ninguém podia ficar para trás. ferido. Aproximou-o de si. semiconsciente. Um soldado chega a um determinado ponto em que não consegue continuar. — Porque — disse ele calmamente. os aviões a aproximarem-se.com um braço. 75 — Estavas obcecado. passaste-te à frente de um incêndio. ninguém conseguiria lutar contigo. A respiração de Eddie esmurrava-lhe o peito como um martelo. Ouvira dizer. Que raio de ideia me passou pela cabeça? Se eu não tivesse entrado lá.. pegou em Eddie e deitou-o por terra. Achei que um ferimento na perna acabaria por sarar. Com o tempo. acaba por levar um tiro. é a meio da noite. enquanto Morton atava um torniquete acima do seu joelho. — O que te aconteceu a ti. com uma lua fosca no céu... — A minha vida! — Eu dei-te cabo da perna — explicou o Capitão. Eddie estava estendido no banco de trás. Não. que o Capitão não sobrevivera. Um homem larga a arma e fica com um olhar vazio. Fora transportado de helicóptero para o hospital militar e. com outro pelotão. O Capitão conduzia o veículo que transportava Smitty. aquele erro. por causa do seu ferimento. do tabaco. Precisou de um minuto para compreender o que o Capitão acabara de dizer. mas a noite da sua fuga. E não era chegada a tua hora.. mas Eddie pô-la de parte. um minuto antes de sairmos daquele lugar. à conta da tua força. Doíam-lhe os braços. «os outros»? O Capitão levantou-se e sacudiu um graveto que estava preso à sua perna. hora? O Capitão prosseguiu. Os bombardeamentos . seminu. Eddie nunca mais o vira. mas sempre pensara que morrera num qualquer combate posterior. não tinha o mínimo interesse em relembrá-los. Apontou numa direcção por cima do ombro de Eddie e Eddie virou-se para olhar. — Como. ao virar da esquina. Tínhamos um minuto para sair dali e. fora assombrado por aquele instante. baixinho — para te salvar a vida. Terias morrido. quando ele tentou impedir-te de lá entrar.. como se vivesse ali mesmo. Os meses depois da guerra foram negros e depressivos. — A sua voz esmoreceu e tornou-se um sussurro.. E. — A minha. Eddie estava ofegante. Quase deixaste o Morton sem sentidos. fora desmobilizado e enviado para casa. descalço. Durante tantos anos. geralmente. — Às vezes é a meio de um combate. Tirámos-te de lá e os outros levaram-te para um posto médico.. queimado. agitado. Um homem sai da tenda e começa a andar. com o cotovelo a prender o peito de Eddie — te teríamos perdido naquele incêndio. as cabanas a arder.. 76 — Voltaste a ver-me? — perguntou. mudou de endereço. Eddie largou-o e caiu para trás. como se fosse para casa. Está farto. querias entrar no celeiro desse por onde desse. esqueceu-se dos pormenores. não foram as colinas áridas. Às vezes. Viu os dentes manchados de amarelo. Não consegue lutar mais. — Tétano? Febre amarela? Aquelas vacinas todas? Não passaram de um enorme desperdício do meu tempo. por fim. peeeerna! — gritou Eddie. Um dia. já vi acontecer a tantos outros. — No teu caso. meses depois. chegou uma carta com uma medalha lá dentro. Eu não podia deixar-te morrer carbonizado. — A minha. que mudara toda a sua vida. Tinha a cabeça a andar à roda. Morton e Eddie. — Os outros? — repetiu Eddie. — Não havia ninguém dentro da cabana. Tinha a cabeça suja de lama e folhas. Eddie sentiu uma última onda de raiva e agarrou no Capitão pelos colarinhos. lembras-te? — perguntou o Capitão.

. O caminho estava livre. — Ai. Mas o que acontece na Terra é apenas o começo. Fez sinal aos soldados. Havia um portão. a história de Adão e Eva. Capitão. como se o sol estivesse a acender e a apagar. Puxou da cigarreira de plástico e bateu nela com o dedo. alguns dos quais voaram por cima da terra enlameada e foram aterrar nas árvores. As colinas haviam regressado ao seu estado de aridez. meu Deus! Ai.estavam cada vez mais perto. — Acorda na manhã seguinte e tem todo um mundo novo à espera dele. Apenas o seu esqueleto destroçado e a terra lamacenta. certo? — Mas não está — prossegue o Capitão. indicando que ia inspeccionar o caminho. O Capitão pegou numa espingarda e saltou do carro. — Estás a perceber? Nunca tive muito jeito para ensinar. sem as cinzas de carvão a mancharem-lhe o rosto. como uma chama arrotada pelo centro da terra. enquanto estava a olhar para o céu. não é? Não sabe o que é o sono. depois detevese. 78 A segunda lição — Ai. Eddie reparou nas poucas rugas do seu rosto e na melena de cabelo escuro. 79 O Capitão sorri. um amontoado ardente de ossos. — Está aqui desde que morreu — disse Eddie —. mas. Eddie observou o Capitão atentamente. Foi nesse instante. cinquenta metros para lá da curva do carreiro. — A primeira noite de Adão na Terra? Quando ele se deita para dormir? Ele julga que acabou tudo. Sente os olhos a fechar-se e pensa que está a deixar o mundo. O lugar onde fazemos com que o nosso ontem tenha sentido. Devia ter apenas trinta e poucos anos. mas tem também outra coisa. como o solo caía a pique de ambos os lados. Mas agora. — disse o Capitão. Disparou contra o trinco e abriu o portão. Tem o dia de ontem. Sempre o imaginara tão mais velho. — Tem estado este tempo todo aqui. Um avião aproximou-se no céu e ele levantou os olhos para ver se era do inimigo. que serpenteava por entre o arvoredo. Fez sinal a Morton para se pôr ao volante. Sem funeral. — Estava à tua espera. — Morrer? Não é o fim de tudo. — O tempo — respondeu o Capitão — não é o que tu pensas. meu Deus! Eu não fazia ideia.. a carroça desconjuntada e os restos queimados da aldeia. com os braços. O Capitão fez um sinal de assentimento. não podiam contorná-lo. — Acho que é como diz a Bíblia. Eddie percebeu que aquele era o local onde o Capitão fora enterrado. com os ossos de animais. O céu negro iluminava-se de uns tantos em tantos segundos. Que horror! Que tragédia! O Capitão acenou com a cabeça e desviou o olhar. soldado. descalço. fechando os olhos e deixando cair a cabeça para trás. é isso mesmo que se passa aqui. meu Deus — disse Eddie. — A meu ver. Eddie ficou com um ar perplexo. — Sentou-se ao lado de Eddie. cartilagem e centenas de bocados de pele carbonizada. Atirou o Capitão a seis metros no ar e desfê-lo em pedaços. Achamos que é. à espera? — perguntou Eddie. Eddie baixou os olhos. Sem caixão. mas isso corresponde ao dobro do seu tempo de vida. É isso o Céu. que se ouviu um pequeno clique por baixo do seu pé direito. 77 A mina terrestre explodiu imediatamente. O veículo guinou ao chegar ao cimo da colina. Correu o melhor que pôde. . depois apontou para os olhos. num sussurro. uma coisa improvisada de madeira e arame.

— Bom. De repente. Não te deves arrepender deles. mas também ganhaste algo em troca. O Capitão dirigiu-se para o capacete. O Capitão olhou de relance para cima. — Mas é isso mesmo que importa. porquê este lugar? . O Capitão virou-se. e o irmão mais novo tornou-se um bom 80 soldado e um grande homem.. — Rabozzo não morreu em vão. Deteve-se por um instante e olhou para o distante e enevoado céu cinzento. cobertos de folhas macias e verdejantes e bolsas de figos. mas ele contou-te e agora está longe daqui e. — O quê? — Cumpri a minha promessa. Mas tu estavas irritado com o teu. como se já estivesse à espera que aquilo acontecesse. — Tu fizeste um sacrifício. teríamos morrido os quatro. Não chegou a aterrar. »Um homem vai para a guerra. a sepultura simbólica. parte do motivo por que viveste e como viveste. Estendeu a mão. limpou os restos de cinza do rosto. ele também estava à tua espera.. Colocou o capacete e as chapas debaixo de um braço. a espingarda e as chapas. — Perdoas-me pelo tiro na perna? Eddie pensou por um instante. ainda espetados no chão. 81 — Sim? — Porquê aqui? Podia ter escolhido qualquer lugar para esperar por mim. ouve-me com atenção. as vinhas grossas caíram dos ramos da árvore e derreteram-se no solo.— Foi o que disse o Homem Azul. Uma mãe trabalha para que o seu filho possa ir para a escola. — Baixou a voz. na raiva por tudo o que tinha perdido. Naquela noite. Então.. Não te deixei ficar para trás. Pensou na amargura que sentira na sequência do seu ferimento. Todos nós os fazemos. Ramos novos e viçosos despontaram como bocejos. Estamos apenas a passá-la a outra pessoa. — Sacrifícios — disse o Capitão. — É verdade que te alvejei — disse ele — e que perdeste qualquer coisa. todos nós podíamos ter pisado aquela mina terrestre. Pequenos sacrifícios. também eu estarei longe daqui. quando sacrificamos uma coisa preciosa. — Era disto que eu estava à espera. parte da história que precisavas de saber. »Eu também não morri em vão. Ele sacrificou-se pelo seu país e a sua família percebeu isso. com um assobio. As vezes. Eu também ganhei uma coisa. O Capitão estalou a língua contra os dentes. Estendeu a mão. porque se sentiu inspirado pelo exemplo de Rabozzo. Portanto. Grandes sacrifícios. — Capitão? — disse Eddie. dentro de poucos instantes. com as palmas das mãos abertas. — Mas o Capitão. Eu fiz outro. Eis o que tens de saber de mim. não podia? Foi o que disse o Homem Azul. Fez parte da tua vida. Eddie abanou a cabeça.. não a perdemos realmente. E assim que as coisas são. »Não percebeste que os sacrifícios fazem parte da vida. Em seguida. Eddie sentiu as suas costas endireitarem-se. Uma filha regressa a casa para tomar conta do pai doente. pensou no que o Capitão perdera e teve vergonha. O Capitão apertou-a com firmeza. em seguida arrancou a espingarda da lama e arremessou-a como uma lança. Não paravas de pensar no que tinhas perdido. Nesse caso. Só ainda não te apercebeste disso. É algo a que as pessoas devem aspirar. Depois. Voou pelos céus e desapareceu. — Perdeu a vida.

Também isso foi visto só pelos teus olhos. mas ele foi trabalhar à mesma e ligou a água da pia.. Era uma beleza imaculada. Dominguez entrou bem cedo na oficina. envergonhado por estar a fazer aquela pergunta. que novamente lhe trouxe dor ao coração. levantando os braços — é o que eu vejo. — Mas isto é a guerra. Ficou parado durante uns instantes. O parque estava fechado. a absorver o cenário. Salvei a menina? Senti as mãos dela. — Isto — disse o Capitão. intocada. agora. pura. Eddie levantou os olhos para o seu antigo comandante. tendo abdicado do seu ritual de ir buscar um pãozinho e uma bebida para o pequeno-almoço. Eddie olhou para baixo. Uma ténue névoa branca desceu sobre as copas das árvores e um sol cor de pêssego empoleirou-se. No cais. Dentro da aba do capacete estava a fotografia amarrotada de uma mulher. — O que tu vês não é igual ao que eu vejo. — Não consegui dormir — disse Dominguez. O título dizia: «Tragédia no parque de diversões». revelando um céu azul safira. Parecia tudo ainda mais silencioso do que há um minuto. — Só queria saber. pensando que ia limpar algumas peças das máquinas..O Capitão sorriu. As nuvens turvas afastaram-se como cortinas. planos militares. 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA Na manhã após o acidente. o solo passou de lama a relva verde. deixei de fumar. brilhante. Vestia uma camisola verde e calças de ganga largueironas. — Espere — gritou Eddie. — São teus. luxuriante. — Para ti. cujo rosto estava limpo e a farda subitamente passada a ferro. Deixei este mundo sem conhecer muito mais do que a guerra: linguagem militar. é só isso — murmurou entre dentes. — Não te posso responder. 82 O Capitão virou-se e Eddie engoliu as suas palavras. já o Capitão tinha desaparecido. reflectido em oceanos cintilantes que. dada a maneira terrível como o Capitão morrera. Ergueu uma mão e a paisagem chamuscante transformou-se. — Mas há alguém que pode. Eddie olhou à sua volta. Eddie deixou cair a cabeça. desligou a torneira e pôs a ideia de lado. uma família militar. 83 SEGUNDA-FEIRA. Atirou-lhe o capacete e as chapas. Fitou Eddie com olhos de compaixão. Antes de começarmos a matar-nos uns aos outros. Os destroços derreteram. — Já agora. Passou as mãos pelo jorro. rodeavam a ilha. Trazia um jornal na mão. — Porque morri num campo de batalha. A minha morte. Mas os nossos olhos são diferentes — disse o Capitão. »O meu desejo — explicou o Capitão — era ver como era o mundo sem guerra. — Deu uma gargalhada. — Preciso de saber uma coisa. O Capitão coçou a pele atrás da orelha. Fui morto nestas colinas. A seguir. — Que se passa? Willie encontrava-se à porta da oficina. Quando voltou a levantar os olhos. — Porque é que eu haveria de fumar no paraíso? Começou a afastar-se. mas não me consigo lembrar. . por cima do horizonte. soldado. as árvores cresceram e propagaram-se.

Um típico restaurante americano. mas o seu ventre estava mais mole. Hesitou. que. Willie levou a mão ao bolso da camisola. — Quando é que achas que voltam a abrir o parque? Dominguez encolheu os braços. ao peito. Levantou o pé e sacudiu-o com vigor. nem molhados. Os flocos soltaram-se. Eddie sentiu uma pontada lancinante e contorceu-se de dor. parecia que se estava a tornar no homem que fora na Terra. à barriga. Eddie conseguiu distinguir várias pessoas através das janelas. Quando lhes tocou. e uma fileira de janelas com pequenos painéis em toda a fachada. Eddie pestanejou. pessoas a falar e a gesticular. Subiu os degraus cobertos de neve que conduziam à porta de painel duplo. O céu parecia puxá-lo e ele sentiu-o tocar-lhe na pele. Era de manhã. do lado de fora. Ali. Deu um passo nessa direcção — e percebeu que tinha neve pelos tornozelos. entre duas cristas. interminável. Foi envolto por uma explosão de fumo. — Pergunta à polícia. Ficaram sentados. Espreitou lá . A Lua reflectia-se reluzente nas suas águas. durante algum tempo. — Eu também não consegui. até chegar a uma extensa clareira de onde partiam as luzes. que engoliu o seu corpo numa torrente de cores. encontrava-se um vasto lago negro. estava um edifício em forma de vagão com uma fachada de aço inoxidável e um telhado vermelho como um barril. completamente isolado. Estavam à espera que o velhote aparecesse e desse início ao dia de trabalho. uma cordilheira sem fim. milhões de estrelas. Eddie passara muitas horas em lugares como aquele. se teria terminado. mas eram as montanhas mais espantosas que já tinha visto. de incredulidade. Deu meia volta no banco. Atravessou a neve e contornou uma rocha enorme. Dominguez suspirou. . se o Capitão estava errado. em vez disso. Perguntou-se. Num planalto. depois deu um beliscão no joelho esquerdo. Porque é que o Céu nos faria reviver a nossa própria decadência? Seguiu as luzes trémulas ao longo do estreito. a mudarem de posição um de cada vez.. — Willie deixou-se cair num banco de metal. depois da sua conversa com o Capitão. fitando o jornal com um olhar vago. Ao fundo. mais flácido. pensou Eddie. 84 A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu Um vento súbito levantou Eddie do chão e ele rodopiou como um relógio de bolso na ponta de uma corrente. rochas agrestes e encostas absolutamente roxas. com cicatrizes. Eram todos iguais: mesas com tampos brilhantes e bancos de correr de costas altas. O letreiro no topo piscava a palavra: «RESTAURANTE». à procura de uma pastilha elástica. reluzindo com um brilho dourado. agora. com cumes cobertos de neve. como que por turnos. A paisagem austera e silenciosa era de cortar a respiração. em silêncio. Apareceram estrelas. Estava nas montanhas. desta vez. Eddie reparou numa luz colorida e trémula que mudava ritmicamente de tantos em tantos segundos. se não havia mais ninguém à sua espera. gordura e tudo o mais. o ferimento desapareceria. não estavam nem frios. Era segunda-feira. levou as mãos aos ombros. Onde estou eu agora?. Mas. Estava 85 convencido de que. De repente. por instantes. no campo coberto de neve. Uma vez mais. afastou-se a alta velocidade e explodiu em tons de jade. Os músculos dos seus braços continuavam fortes. tocou no seu corpo. como um cobertor reconfortante. faziam com que os clientes parecessem viajantes numa carruagem de comboio. como sal espargido sobre o firmamento esverdeado. uma imagem mais semelhante à que ele fazia do paraíso. Tornou a pestanejar.— Eu sei.

O que viu. Gritou essa palavra. — Não! — Continuou a gritar até a palavra que queria. As pequenas chamas serpenteiam. muito depressa — muitosanosdevida. Viu cozinheiros com chapéus brancos de papel 86 e pratos de comida fumegante em cima do balcão. sem se aperceber da presença de Eddie. parece demasiado pesada para voltar a erguer-se no ar e só a voz de Eddie. — Não! — gritou Eddie. estava sentado um casal de idade. vamos — diz ela. com uma mão pousada em cima do tampo. Olha para aqueles rostos e sente-se consumido por um desejo tremendo de fugir. . dos anos trinta. colocando-as em números pares. sentada à mesa. — depois. Nenhum deles olhou. gritou-a tão alto. depois bateu desvairado nos painéis da janela. dos anos sessenta. a palavra que não pronunciava há décadas. Sentia o coração aos pulos no peito. à espera de serem servidos — comida das cores mais suculentas: molhos de um tom vermelho intenso.para dentro. por mais vezes que Eddie a gritasse.. Inspirou fundo várias vezes. então. não lhe ligaram. A perna dentro do gesso. deixando cairão chão dois cigarros soltos. doze do outro.. uma e outra e outra vez: — Pai! Pai! Pai! 87 Hoje é o aniversário de Eddie No átrio sombrio e estéril do hospital militar. Deu meia volta e tornou a olhar. As suas queimaduras estão enfaixadas. Mickey Shea — estão de pé à volta dela. O grupo entra no quarto de Eddie. envergonhado. Tem um par de muletas junto da cama. a observar. cremes de manteiga amarela. Um elevador pára ao fundo do átrio. a cantar baixinho. — Não — ouviu-se a si mesmo sussurrar. não poderia ter visto. Muitos dos clientes pareciam ter sido feridos. e um rapaz de cabelos compridos com o sinal da paz. Marguerite. Um homem negro de camisa de operário não tinha um braço. As portas abrem-se e sai uma maca.. Mickey retira uma carteira de fósforos de dentro do bolso do casaco. encostado a uma almofada. tatuado no braço. Eddie senta-se. finalmente se formar na sua garganta. com os casacos pendurados em cabides. A sua direita. a tremer na sua solidão. Virou as costas para a porta. Uma rapariga adolescente exibia um corte profundo de um lado ao outro do rosto. doze de um lado. partiria o vidro. Mas a figura dentro da cabina. Joe. sem nunca levantar os olhos. O soldado na cama ao lado acorda aos gritos: — QUE RAIO? — Percebe onde está e deixa-se cair na cama. aproximando-se umas das outras. a comer uma tarte. parabéns a. — Para o menino Ed-die. consegue continuar.. continuou debruçada. — Está pronto. Havia outros clientes sentados em bancos giratórios junto ao balcão de mármore ou dentro das cabinas das mesas. — Parabéns a você.. A canção. Os outros — o pai de Eddie. A mãe de Eddie acende as velas. — Alguém tem um fósforo? Palpam os bolsos. Estacou.. Pareciam pertencer a décadas diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de colarinho alto. a outra a segurar um charuto. Os seus olhos deslizaram até à última mesa. a mãe de Eddie abre a caixa branca da pastelaria e reordena as velas no bolo. quando Eddie bateu na janela. no canto direito. se continuasse. interrompida. — Não! Não! — Bateu até ter a certeza de que. que a sua cabeça começou a latejar.

A mãe de Eddie dá um passo em frente. calejadas e vermelhas de . lançando um olhar fulminante ao marido. Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais. mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante. Vasculhava os poucos brinquedos. Eddie esperava pela atenção do pai. Uma vez. Muitas vezes. dizia «Eu posso ajudar. Eddie nunca mais se aproximou. Mãe. Óptimo aspecto. Eddie murmura: — Obrigado. obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo. o pai encarregava-se da disciplina. piorava ainda mais a situação. absorve as impressões de quem a manuseia. 89 Todos os pais prejudicam os filhos. sem reparação possível. enfiada em gesso da coxa até ao tornozelo. geralmente ao fim da tarde. o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar. mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão. como se fosse a sua vez. alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos. sentado nas balaustradas ou empoleirado. Ela olha em volta. Aos sábados. Alguns pais deixam manchas. frequentemente embriagado. Ainda assim. em cima de caixas de ferramentas. disse. o pai avisava-a para «não se meter». no início. 88 Mostra-lhe a caixa de cartão. para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior. Muito boa cara. passada uma hora. costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. estás com boa cara — diz ele. como um vidro cristalino. garrafas. Eddie repara no olhar dele. Eddie raramente ia para o colo do pai e. 90 «Pára de respirar por cima do meu ombro!». a todo o custo. na cama. o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. a olhar para a perna de Eddie. em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia. O pai baixa os olhos e passa a mão pelo parapeito da janela. durante horas incontáveis da sua juventude na marginal. Quando era bebé.Joe pigarreia. que as lágrimas regressem às bolsas lacrimais. tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas. aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. eu posso ajudar!». Marguerite afasta as muletas de Eddie. — A tua mãe trouxe-te um bolo — sussurra Marguerite. Fica parado contra a parede do fundo. A regra de Eddie era simples: não incomodes. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce. de manhã. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse. atirando-os contra a parede. enquanto ele tirava o cinto e lhes batia. duras. Pelo menos quatro noites por semana. — Et. na oficina. A mesa tinha dinheiro. o pai jogava às cartas. mas. É inevitável. Os estragos causados pelo pai de Eddie foram. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si. A juventude. os estragos da negligência. Vê-la no corredor. antes de o parque abrir. A mãe de Eddie dava-lhe carinho. Noutras noites. com o casaco no braço. mesmo quando ela o fazia. em criança. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram. dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. cigarros e regras. agarrada ao roupão e tão indefesa como ele. então. Sim. o pai de Eddie levava-o ao cais. Depois. Joe arranja espaço em cima de uma pequena mesa. mas. — Onde é que havemos depor isto? Mickey pega numa cadeira. outros provocam brechas. Eddie retesa todos os músculos do corpo e tenta. Os outros apressam-se a concordar. Apenas o pai não se mexe por mexer.

Recusa de afecto. Tudo devia ser feito internamente. antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja. Apanhou o pai a observá-lo. Os estragos estavam feitos. iniciara um ritual de sinalização com o pai. Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado». e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros. disse ele. manobrando as alavancas dos travões. imitava o horário de Verão do pai. os seus fatos-de-banho. Eddie limpava-as com a unha do polegar.» Ainda assim. e mostrou as suas próprias unhas sujas. mesmo que não haja explicação para tal. estalos e chicotadas. de vez em quando. mesmo que não faça sentido. depois da negligência. um rapaz dedica-se ao pai. e o velho sorriu. Joe. quando ele o fazia. mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. Tu é que és forte. O estrago da violência. na Avenida Beachwood. Outras vezes. o seu dinheiro. como as do seu pai. uma noite. Uma vez. Ao longo desse tempo todo. estavam manchadas de gordura e. Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e. As unhas de Eddie. a força com que ia ser espancado. apesar de tudo. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar. Apontava para uma corrente enredada e dizia: «Conserta-a». o pai de Eddie deixava uma ruga de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. Anos depois. E de todas as vezes. o irmão. Tens de tomar conta do teu irmão. deixaram de falar. Foi depois da guerra. à mesa do jantar.raiva. tarde. Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. abdicando de palavras ou 92 de afecto físico. E. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias». deparou com Eddie a dormir no . junto do pátio da escola da Avenida 14. o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira. Eddie adorava secretamente o pai. Davalhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». tentando retirar a sujidade. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher. Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar. o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. Sem tomar consciência disso. Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via. Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. «Aquele». tão bronzeado e limpo. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. a mãe rechonchuda e transpirada. depois de terminada a sua tarefa. quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco. porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. No início. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e. a cozinhar ao fogão. pelo soar dos passos no corredor. No campo de basebol. Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto. com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. Quando Eddie começou o liceu. foi trabalhar para a oficina. quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família. Sabiam o que sentiam e ponto final. Não deixes que ninguém lhe toque». então. E. reuniam-se à volta da mesa do jantar. como lhes chamava a mãe —. fazendo os carrinhos parar suavemente. uma vez. Eddie corria de base em base. Esse foi o segundo estrago. — Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele. quando voltou para casa. limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples. «só tem resistência para a água. a falar pelos cotovelos. O pai de Eddie não ficava impressionado. A noite. Também 91 isto recebia a aprovação do pai.

. o seu rosto a escassos centímetros do dele. na neve. era sinal de fraqueza. A saia tinha uma fivela a imitar um brilhante. a cada dia que passava. a face flácida. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e.sofá. Violência. O pai voltou a gritar. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te. segurando uma sombrinha com ambas as mãos. e soltou o braço das garras de Eddie. o pai estava cada vez mais agitado. mas o pai de Eddie limitava-se a dizer.. Nao compreendia o conceito de depressão. Nunca mais voltou a falar com o filho. silêncio no casamento de Eddie. um vestido de seda e chiffon. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento. Eddie não se lembrava dela. E. para que deixasse o rancor para trás.. novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor. os 93 dentes rangeram e ele recuou. tão ferido.. pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. — Levanta-te — gritou.. Era a primeira vez que Eddie se defendia. Eddie mexeu-se ligeiramente. e arranja um emprego! O velho estava trôpego. remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi. As trevas do combate tinham mudado Eddie. Todos os pais prejudicam os filhos. . Não saía de casa. mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar. o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova. Assombrou os seus restantes anos de vida. Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve. Os estragos estavam feitos. Usava uns óculos de aros metálicos sobre uns olhos pequenos. Para ele.. mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão. O silêncio.. cosido com missangas brancas e encimado por um laço de veludo mesmo abaixo do pescoço. Raramente falava. agora. quase inexplicavelmente. O seu rosto era encovado. ARRANJA UM EMPREGO! Eddie apoiou-se nos cotovelos. E assunto encerrado.. estás.. O velho olhou para a perna de Eddie. proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego. — CHEGA! — gritou Eddie. suspenso no ar. tão ralos em alguns pontos que se via o crânio rosado por baixo. um homem que o ignorava. O seu pai. azuis. e. A sua postura era elegante. Negligência. com molas e ganchos de cada lado. O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado. por entre os maxilares cerrados. a ver o carrossel. chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias. Silêncio. — Ele não te consegue ouvir. O velho arregalou os olhos. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se. Eddie levantou a cabeça num gesto brusco. com um corpete tipo bibe. a esfregar o joelho ferido. batom cor-de-rosa e os cabelos brancos puxados para trás. silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro. Diante dele.. Esta foi a marca final no vidro de Eddie. Passava horas a olhar pela janela da cozinha.. — Não fiques irritado — disse uma voz feminina.. algures para lá da morte. Lançou um olhar fulminante ao pai. Ela implorava. ele ainda desejava. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar» mas. assim. mesmo com Marguerite. — Levanta-te. as suas narinas adejaram.. cambaleante. até no Céu. estava uma velhinha.. As suas roupas pertenciam a uma época anterior à dele. Esta foi a sua vida juntos. Sentiu o hálito a álcool e cigarros. Baixou a voz e grunhiu: — Vês? Não. em vez de aguentá-la como se a merecesse.

— Porquê? — repetiu Eddie. polira os seus sapatos pretos de cerimónia. — À minha vida. sim — respondeu ela. aquela menina que eu estava a tentar salvar. O irmão. Porquê um desconhecido? Porquê agora? Eddie desejara. Todos os tostões que ganhávamos iam para a família. estavam no sopé da montanha. dizia o padre.. Porque não sinto que tenha percebido tudo. Não queria ouvir mais uma história. Fui uma rapariga trabalhadora. Já fora a tantos funerais. — Porque o espírito dele. Quem era aquela mulher? Pelo menos. Eddie interrompeu-a. Tu é que estás. Porque não me sinto um anjo. Ela sorriu. são e salvo. — Vem — disse ela. Tias e tios. Só me lembro daquelas mãozinhas. — A senhora é. Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser boa pessoa? Posso prometer ir à missa todos os dias? Qualquer coisa? — Porquê? — Ela parecia divertida. a minha terceira pessoa? — Sou. A luz do restaurante não passava agora de um mero pontinho. algures. sabe? Queria desviá-la do caminho e devo ter pegado nas mãozinhas dela e foi então que eu. não é? — comentou a velhinha. — Fui criada como tu.. — Posso voltar? Ela semicerrou os olhos. — É lindo. obrigada a abandonar a escola aos catorze anos. Àquele último dia.Eddie calculou que devia ter sido rica. voltar — insistiu Eddie. Nem sequer me lembro da minha própria morte. então. — Porque é que o meu pai não me consegue ouvir? — perguntou. De repente.. 94 — Nem sempre fui rica — disse ela. no caso do Homem Azul e no caso do Capitão. — Voltar? — Sim. Ela abanou a cabeça.» Onde estavam eles.. «Um dia». faz parte da minha eternidade. O seu amigo Noel. tinha uma lembrança do lugar que eles ocuparam na sua vida. Não. Ele hesitou. Havia qualquer coisa na velha senhora que o intrigava. como se já a tivesse visto numa fotografia. — Porque é que o meu pai tem de estar a salvo para si? Ela hesitou. — Posso falar com Deus? — Podes sempre falar com Deus. Eddie coçou a cabeça. com a mão nua que não sentia a humidade.. que a morte significasse o reencontro com aqueles que haviam partido antes dele. se é assim que me devia sentir. Mas ele não está aqui. nos confins de uma cidade. — Porquê? Porque este lugar não faz sentido para mim.. . sorrindo como se o tivesse ouvido. num tom peremptório. Marguerite. se aquilo era o Céu? Eddie examinou a estranha mulher. Tocou na neve que não era fria. «todos nos reencontraremos no Reino do Céu. Sentiu-se mais só do que nunca. Não me lembro do acidente.. 95 — Posso ver a Terra? — sussurrou. outrora. antes de fazer a pergunta seguinte. E as minhas irmãs também. Eddie seguiu o olhar dela. pegara no seu chapéu e postara-se num cemitério com a mesma pergunta exasperante: Porque é que eles partiram e eu continuo aqui? A mãe. como uma estrela que caíra numa ravina..

então. — A senhora? — disse Eddie. As pessoas não deviam ter paz de espírito. Soprava uma brisa e Eddie sentiu um ligeiro perfume. — Faleceste? Passaste para o outro lado? Foste ao encontre do teu Criador? — Morri — disse ele. embora não houvesse um lugar onde o fazer. numa pose de senhora elegante. As minhas irmãs ralhavam comigo.» »Então. se tiveres um instante. apanhadas e sem fuga possível. as vezes que fora passear sozinho para as docas e vira os peixes a serem puxados em redes de malha larga. Sentou-se no ar e cruzou as pernas. — E não me lembro de mais nada. quando morrem? — Todos temos paz de espírito — disse a velhinha —. eu era uma moça jeitosa. — Servia café aos trabalhadores das docas e peixe frito e bacon aos marinheiros. Claro. Ele costumava ir lá tomar o pequeno-almoço. ouvi o seu riso forte e confiante. »Devo acrescentar que. «Quem é que tu julgas que és?». Quando pagou a conta. os outros. Eddie suspirou. os pesadelos. um aventureiro. E eu soube. — Mas eu conheço-te — anunciou ela. isto. — Morreste? — disse a velhinha. — Como já disse. com um sorriso. Era um gastador. Fez-me sinal para eu o servir e eu tentei não ficar embasbacada a olhar para ele. como costumavam dizer. — Não — teimou Eddie. Recusei muitos pedidos de casamento. orgulhosa. Ela sentou-se. Tinha os cabelos pretos muito bem cortados e o bigode escondia um sorriso constante. naquele preciso 97 instante. Depois apareceu a senhora. «Pára de ser tão selectiva e arranja um homem. — Ah. contendo o riso. Mas quando falou com o colega. basta procurá-la dentro de nós. um dia de manhã.Encolheu os ombros. mas eu nem sequer a conheço. envergonhado por se identificar com aquelas criaturas indefesas a contorcerem-se na teia. Usava um fato às risquinhas e um chapéu de feltro. oferecia-me refeições que eu nunca provara. porque Emile era um homem de posses. Apanhei-o duas vezes a olhar para mim. abanando a cabeça. não é verdade. que as minhas irmãs nunca mais teriam de me aborrecer para eu tomar uma decisão. Emile fizera fortuna rapidamente. depois da guerra. num restaurante chamado Seahorse Grille. eu conto-te. A saia comprida formava pregas ordeiras à sua volta. sim? De onde? — Bom — disse ela —. soltando o ar. Pensou em contar-lhe o tumulto que sentia todos os dias. na minha vida pobre e limitada. Levava-me a lugares onde eu nunca tinha estado. Aquele lugar. era capaz de tudo quando metia uma ideia na cabeça. . de repente. O meu emprego era servir às mesas. Tinham-no deitado abaixo há anos. disse que se chamava Emile e perguntou se me podia visitar. Talvez te lembres? Ela apontou para o restaurante e. comprava-me roupas lindas. com as costas muito direitas. antes que seja demasiado tarde. investindo em madeira e aço. Detestava as pessoas que já nasciam ricas e adorava fazer coisas que «uma pessoa sofisticada» jamais faria. a incapacidade de sentir entusiasmo fosse pelo que fosse. 96 Mas calou-se e disse: — Não me leve a mal. o cavalheiro mais bem-parecido de sempre entrou pela porta do restaurante. Encher-se de gordura. diziam elas. — A senhora era empregada do Seahorse? — É verdade — respondeu ela. Deve ter sido isso que o atraiu para uma rapariga pobre como eu. fui uma rapariga trabalhadora. Eddie lembrou-se. — Não. naquela época — prosseguiu a velhinha —. »O nosso namoro foi maravilhoso. Ficava perto da costa onde cresceste.

levou-me lá. Um passo e uma hesitação trôpega. Quando ficou pronta. — Emile cumpriu a sua promessa. tão intensas que. acrobatas e palhaços. ia construir um parque de diversões só para mim. A velhinha deu um passo atrás. como se estivesse desapontada. quando estávamos sentados na areia. No fim da linha. Aquele pesadelo. a comida salgada. Uns anos depois. Não vale a pena voltar a adormecer. os adivinhadores do peso e as raparigas do mundo do espectáculo. Na casa de banho. os nós dos dedos. tentando não acordar a mulher.»Uma dessas coisas era visitar as estâncias de veraneio. na aldeia. Na verdade. os ciganos. O seu cabelo negro e espesso está acamado de suor. por hábito. para evitar a inevitável rigidez da perna esquerda. É sempre o mesmo . Acabará um dia? São quase quatro da manhã. Pousa primeiro a perna direita. afastando-se de Eddie. E adorávamos ambos o mar. como se estivesse a apresentar-se formalmente. 98 — Emile — continuou a velhinha — construiu um lugar maravilhoso. ergueu as diversões mágicas: as corridas e montanhasrussas. Toda a gente o dizia. Sabem onde trabalho?. operários municipais e artistas de feira e estrangeiros. fez um acordo com uma empresa de caminhosde-ferro. depois sai lentamente da cama. com o mar a roçar os nossos pés. Emile meteu uma nova ideia na cabeça e jurou que. »Emile contratou centenas de trabalhadores. que os erguiam no final das suas rotas. eram meras oportunidades de negócio para as empresas de caminhos-de-ferro. qualquer coisa que lhe indique que ele está ali.. com a sua mão coberta por uma fina luva branca. no incêndio. à noite. A velhinha sorriu. Pensavam que os parques de diversões eram construídos por duendes com varas de doces. que andava à procura de uma maneira de aumentar o número de passageiros no fim-desemana. em breve. — Eu — disse ela — sou a Ruby. Depois. Fitou-o com uma expressão estranha. com uma venda a tapar-me os olhos. ele pediu-me em casamento. Importou um carrossel de França e uma roda-gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. 99 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e três anos. costumava perguntar Eddie. para que os trabalhadores tivessem um motivo para andar de comboio ao fim-desemana. se via o parque do convés de um navio no mar alto. fez uma pequena vénia. examina os seus olhos raiados de sangue e lava a cara. com falta de ar. — A entrada? — disse ela. e não na guerra. É aí que eu trabalho. «Fiquei delirante de alegria. Eddie começa todas as manhãs da mesma maneira. A entrada foi a última coisa a ser feita e era verdadeiramente grandiosa. sabias? Eddie acenou com a cabeça. Depois. no apartamento por cima da padaria. Acorda bruscamente. Adorava os parques de diversões. Quando retirou a venda. Espera que a sua respiração acalme. Pestaneja com força na escuridão. um cais enorme feito com a madeira e o aço das suas empresas. Disse-lhe que sim e ouvimos o riso das crianças a brincar à beira-mar. Foi assim que nasceu a maior parte dos parques de diversões.. Mandou vir animais. tentando desesperadamente focar o braço. Sabia. Um dia. Havia torres e espirais e milhares de luzes incandescentes. — Não te lembras? Nunca pensaste no nome do parque? Onde trabalhavas? Onde o teu pai trabalhava? Ela tocou ao de leve no peito. as cartomantes. embora a maior parte das pessoas não o soubessem. eu pude ver com os meus próprios olhos o que ele fizera. as viagens em barcos a fingir e os caminhos-de-ferro em miniatura. para ser eternamente jovem. para captar a felicidade daquele instante.

As chamas tornam-se mais intensas. Até nos seus momentos felizes. A entrada primitiva de Ruby Pier fora uma espécie de marco . estou só cansado» e deixa o assunto ficar por aí. a gritar por Eddie.pesadelo: Eddie a vaguear por entre as chamas das Filipinas. mas. na sua última noite na guerra. Debate-se com a escuridão dentro de si: «Deixa-me em paz». «Deixa-me sentir isto como devo. E ali permaneceu. Eddie percebeu porque é que a senhora lhe parecia conhecida. sente uma coisa agarrar-lhe nas pernas. Só sabe que houve alguma coisa que se interpôs no seu caminho. com o vestido estampado de que Eddie gosta. ele acabou por desistir de tudo. Ofegante. algures nos fundos da oficina da manutenção. — Eddie! Estás em casa? Eddie? O Sr. da garganta sai-lhe um guincho muito agudo. Quando Eddie abre a porta. 101 — Sou a Ruby. quando Eddie regressa do trabalho. e depois aparece Smitty. Sobe as escadas lentamente. De repente. um véu cinzento que lhe turva o dia. desistiu de estudar engenharia e desistiu da ideia de viajar. como se não fosse digno daquele momento. Tem um telefone.. volta a bater e volta a não acertar. — disse Eddie. de roupão. rugem como um motor. agudo como um guincho. «Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo. Ela acenou com a cabeça. ele sente-se oprimido. a barrar-lhe a passagem.. e Eddie limpa a humidade do pára--brisas. — És tu? Ele levanta o saco branco. Eu não queria fazê-lo. Como é que ele lhe pode explicar tanta tristeza. satisfeita. O táxi está parado à esquina. a cantarolar na sua doce voz meiga. o padeiro. Parece preocupado. com o tempo. A suar. — Desce. nos fundos da loja. mas não acerta.» Marguerite acaba de cantar e dá-lhe um beijo na boca. Ele aproxima-se para voltar a beijá-la. Está linda. diz ele à escuridão. chega-lhe uma música. Batem à porta. De sua casa. ele está parado à entrada. Acho que aconteceu alguma coisa ao teu pai. Tens um telefonema.. no seu lugar habitual. uma canção conhecida. de cabelo arranjado e lábios pintados. Eddie tem necessidade de inspirar fundo. puxando-o para baixo do chão lamacento. — Queres lutar comigo pelos doces? — sussurra ela. — Querido? — grita Marguerite do quarto. Ela acaricia-lhe 100 os cabelos e pergunta «Que se passa?» e ele responde «Nada. — Eddie — diz ele. — A velha entrada. — Marguerite aparece. O pior não é a insónia. estaciona o táxi à esquina.. Nathanson.. quando abre a boca. a gritar: «Vamos! Vamos!» Eddie tenta falar. atado com uma fita. E a seguir. Sempre o mesmo.. O pior é a escuridão total em que o sonho o deixa. Vira uma fotografia dela. até que. — Parabéns a você. Doces. Nessa noite. entre os antigos manuais e a papelada do primeiro proprietário do parque. Acomodou-se à sua vida. vive no apartamento do rés-do-chão.» Abre a porta e vê um bolo em cima da mesa e um pequeno saco branco. Depois. quando ela supostamente o faz feliz? A verdade é que nem a si próprio ele é capaz de o explicar. Veste-se sem fazer barulho e desce as escadas. Do cais. Nunca fala com Marguerite sobre a escuridão. Algo invisível atinge a perna de Eddie e ele bate-lhe. As cabanas da aldeia estão imersas em fogo e ouve-se um constante ruído. acorda.

Emile mandou lançar fogo-de-artifício. Desta mulher. a maior parte estivadores. Pegaram nuns foguetes do fogo-de-artifício e rebentaram-nos. Esse empresário manteve o nome. Ela abanou a cabeça. — Mas isso foi destruído há tanto tempo — disse Eddie. talvez o Verão inteiro fosse bom. baseada num templo francês. na véspera. vendeu o terreno carbonizado a um empresário da Pensilvânia. de raiva e medo. só para esse fim-de-semana. — Foi no Dia da Independência. era tudo feito de alcatrão e madeira. Pensou na quantidade de vezes que desejara a mesma coisa. as nossas vidas mudaram para sempre. 103 A velha senhora ficou sentada. Acabou por perder a cabeça. Os estivadores fugiram. Um incêndio terrível. Estava muito calor. atrás das barracas dos operários. »O espírito de Emile ficou destroçado como o seu corpo. mas foi em vão. mesmo depois de o Sol se pôr. em silêncio. para aquecer comida. Eddie perscrutou o vasto céu cor de jade. e quando a entrada pegou fogo. Quando alguém foi a nossa casa avisar-nos. à noite. por muito menos do que valia.. As pessoas saíram à rua. as faúlas espalharam--se pelo parque. — Que desejo? — perguntou Eddie. — Lamento pelo seu marido — disse Eddie.. Tinha de ir para o meio daquele incêndio horrível tentar salvar os seus anos de trabalho. com colunas estriadas e uma cúpula no cimo. sob a qual passavam todos os clientes do parque. — Ela deixou cair o queixo e os seus olhos espreitaram pelos óculos. — Numa só noite. Ouvimos os cascos dos cavalos e os motores dos carros dos bombeiros. — O resto aconteceu muito depressa. aconteceu uma coisa. e alguns dos estivadores decidiram dormir ao relento. «Implorei para que Emile não fosse até lá. a entrada com o meu nome e o meu retrato. O fogo propagou-se à avenida central. para um pequeno apartamento. acima de tudo por não saber o que mais dizer. Por baixo dessa cúpula.. Soprava um vento forte. Naquele tempo. que quem quer que tivesse construído Ruby Pier pudesse ter feito outra coisa qualquer com o seu dinheiro. dizia ele. começaram a beber e a fazer uma grande pândega. eu a tratar do meu marido ferido e a alimentar silenciosamente um só desejo. .histórico. Portanto. »Mas. Acenderam uma fogueira num barril de metal. Ruby Pier. como se estivesse a ler algo que se encontrasse no seu colo. — Que Emile nunca tivesse construído aquele parque. Deteve-se. ele perdeu a noção de onde se encontrava. — Houve um grande. vimos aquelas terríveis chamas cor de laranja. Emile fizera um seguro básico para o parque. Contratou uma banda. Ruby. Aventureiro como era. A velhinha sorriu. às bancas de comida e às jaulas dos animais. já Ruby Pier estava a arder. O Emile adorava feriados.. Perdeu a sua fortuna. uma gigantesca estrutura em forma de arco. Ruby juntou os dedos e levou-os à boca. encontrava-se o rosto pintado de uma bela mulher. e tempos depois reabriu o parque. É claro que ele tinha de ir. A magnífica prenda que me oferecera fora consumida pelas chamas. Mudámo-nos para uma terra longe da cidade. Da nossa janela. Contratou inclusivamente mais operários. um feriado. «Desesperado. Só passados três anos é que conseguiu andar pelo seu próprio pé. Mas já não era nosso. Deteve-se. Estava a atirar baldes de água para a entrada. onde vivemos uma vida modesta. Se o Dia da Independência corresse bem. — Pois foi. «São óptimos para o negócio». 102 »À medida que a noite foi avançando. — Incêndio — disse a velhinha. quando uma coluna caiu sobre ele. o Quatro de Julho.

também. Devia ter feito alguma coisa.. O pai tivera um colapso nessa tarde. todos os dias. passava a vida a entrar e a sair do hospital. ouviu-a a chorar. 104 Eddie coçou a cabeça. Emile andava mal. O dia seguinte foi pior ainda. Contou-lhe que uma noite. que respirava água salgada.. mas à noite recusou-se a comer e. Eddie franziu a testa. — E as pessoas que nascem antes da nossa época também nos afectam. — O que é que podia ter feito? — perguntou Eddie. Eddie — disse a mãe. — Passamos por lugares. que nunca teriam existido. — Vinha a tossir muito — explicou a mãe. como sempre. com o cinto de ferramentas e o martelo. Se não fosse pelo nosso casamento.. — Portanto.. nos confins de uma cama de hospital. Disse que ele cheirava a mar. num tom de voz mais suave. Estava furioso por ela querer assumir a responsabilidade. Estava com uma febre altíssima. Eddie esfregou as têmporas. que não passava de um bêbado. não parou de tossir e suar dentro do pijama. E agora. não haveria um parque de diversões. A culpa era do pai. — O médico disse que é pneumonia.. Os nossos locais de trabalho. Mas vivemos muitos anos depois daquele incêndio. O seu peito encheu-se de expectoração. A minha ideia de paraíso ficava o mais longe possível do mar. naquele restaurante buliçoso em que a minha vida era simples.. — Nunca mais quis ver aquele parque. estas rugas? — Ela levantou o rosto. na cama. nessa tarde. Faltava-lhe um sapato. Está a ver esta cara. — Conquistei cada uma delas. — Vim dizer-te porque é que o teu pai morreu. nos conhecemos? Alguma vez foi ao parque de diversões? — Não — disse ela. Ele fora trabalhar nesse dia. explicou ela. — E a tosse piorou. tivera um colapso. perto do Foguetão Júnior. doente como estava.— Obrigada. encharcado até aos ossos. Os amigos insistiam em dizer: «Amanhã ele . o seu corpo começou a definhar como um peixe que deu à costa. tu não terias acabado por ir trabalhar para lá.. tudo isso acontece» antes de eu nascer. — Então. onde passamos tantas horas. se não fosse pelas pessoas que viveram antes de nós. Quando expirou. Se não houvesse o parque. eu não teria sido casada. na ponte leste da marginal. Nós alguma vez. Eddie era capaz de apostar que cheirava a álcool. Mas eu não. — Não compreendo. veio falar-me sobre o meu emprego? — Não. porque é que eu aqui estou? — perguntou ele. Surgiram complicações. O pai de Eddie costumava dizer que passara tantos anos à beira-mar. — Estou com medo. longe daquele oceano. Deixou-me viúva aos cinquenta e poucos anos. Pelo telefone. eu devia ter feito alguma coisa. meu querido. Agora. Criámos três filhos.. Devíamos ter chamado imediatamente um médico… — A sua voz esmoreceu. Os meus filhos iam lá e os filhos deles também. Bateu com as pontas dos dedos umas nas outras. o incêndio. no início dessa semana. e os netos. Não é verdade. meu querido — respondeu Ruby. O telefonema era da mãe de Eddie. formou-se uma bruma de condensação. o seu pai regressara a casa de madrugada. — A sua história. O seu estado passou de estável a grave. Ai. Tinha as roupas cheias de areia. — Se não fosse por Emile. — Até as coisas que acontecem antes de nós nascermos nos afectam — explicou ela. muitas vezes pensamos que eles começaram a existir assim que nós lá pusemos o pé. quando Emile andava a fazer-me a corte. com a voz a tremer.

Só muito mais tarde. canetas e um isqueiro com uma sereia de lado. Os proprietários do parque reconheceram o seu esforço e pagaram-lhe metade do salário do pai. Os momentos que costumavam defini-los — a aprovação de uma mãe. inclusivamente a reparar as peças avariadas. a mãe de Eddie viveu num estado de atordoamento. foi a casa dos pais. depois de terminar o liceu. Ajeitava as almofadas de ambos os lados da cama. o que estava a fazer era a assegurar o emprego do pai. o teu pai depois arruma-os. pedra sobre pedra. Por fim. É o sacana mais duro que já vimos. o assentimento de um pai — são substituídos por momentos marcados pelos seus próprios feitos e conquistas. para contrabalançar a vulgaridade da sua vida. entrou no quarto deles e abriu todas as gavetas. uma noite. Gritava para ele baixar o volume do rádio. a verificar as pastilhas dos travões. Cozinhava para duas pessoas. aquele tipo de raiva que anda em círculos dentro da sua jaula. Eddie deu uma ajuda na oficina do parque. não — respondeu a mãe —. Nas semanas que se seguiram. como se pudesse encontrar um pedaço do pai dentro de uma delas. Quando Eddie era adolescente. Eddie sentiu a raiva mais vazia do mundo. depois 105 de largar o táxi. — O teu velho vai resistir. depois de se esforçar em vão por dizer uma só frase que fosse. uma pequena garrafa de conhaque de maçã. Na ausência do pai. rapaz — disseram os outros empregados da manutenção. nem sequer tinha forças para tentar. ele volta para casa». Quando chegou a notícia de que o seu pai morrera — «partira». Entrou devagarinho no quarto. O funeral foi modesto e breve. mais tarde. as suas histórias e todos os seus feitos e conquistas assentam sobre as histórias dos seus pais. sob as águas das suas vidas. Agora. é que os filhos compreendem. a olear os trilhos. Eddie visitou o pai no hospital. — Eu ajudo-a — disse ele. encontrou um baralho de cartas. Ele entregou o dinheiro à mãe. No fundo. ali estava ele. quando a pele começa a 106 ficar flácida e o coração se suaviza. Eddie imaginara para o seu pai uma morte heróica. Falava com o marido como se ele ainda estivesse presente. Eddie e Marguerite limpavam-lhe a casa e faziam-lhe as compras de mercearia. que durante anos se recusara a falar com Eddie. Eddie. sempre que se queixava ou parecia farto do cais. o seu pai retorquira: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E agora. contas de electricidade. fez a única coisa que lhe passou pela cabeça: levantou as mãos e mostrou ao pai as suas unhas manchadas de óleo. apesar de tudo. No dia seguinte. a pedido da mãe. a testar as alavancas. como se ele tivesse partido numa curta viagem —. . Eddie pousou a mão no ombro dela. Eddie quase desatara a rir e o pai tornara a dizer: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E antes de Eddie ir para a guerra. Meteu-o no bolso. a fazer o trabalho do pai. Vasculhou por entre moedas. Mudam. no cais. Uma noite. Observou o filho por detrás de umas pálpebras pesadas. disse-lhe uma enfermeira. quando sugerira que Eddie arranjasse emprego no parque. que ia para o hospital todos os dias e dormia lá a maior parte das noites. Eddie viu-a a empilhar pratos em cima da banca. quando falara em casar com Marguerite e estudar Engenharia. apesar de apenas um dos lados estar ocupado. elásticos. — Não. Mudam de casa.já estará em casa» ou «Daqui a uma semana. — Não te preocupes. um alfinete de gravata. Não havia nada de heróico numa bebedeira na praia. o pai irritava-se: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E. trabalhava ao serão. portanto os filhos libertam-se deles. Os pais raramente se libertam dos filhos. Por fim. Como a maior parte dos filhos de operários. o pai.

. em Ruby Pier. Uma gôndola. mas amaldiçoava o pai por ter morrido e por o ter aprisionado na mesmíssima vida da qual tanto tentara fugir. Eddie ajudou-o a arranjar o contrato de limpeza das fardas da manutenção de Ruby Pier. — Como é que um tipo destes se pode candidatar a presidente? É um puto! Eddie encolhe os ombros. ele e Marguerite mudaram-se para o edifício onde Eddie crescera — Avenida Beachwood. — Onde é que ele foi? No dia seguinte. um acidente num parque qualquer. Eddie põe a língua entre os dentes. A manhã já está quente e pegajosa de humidade. levantando uma sobrancelha. Beberica o café. 108 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e sete anos. Eddie abana o saleiro com força. Eddie nunca o disse — nem à mulher. Mãe e filho sofreram uma queda de vinte metros. — Será assim tão difícil manter os saleiros cheios? — Que bicho te mordeu? Estás armado em gerente do restaurante ou quê? — pergunta Noel. Noel trabalha no ramo das lavandarias. antes de o parque se encher de clientes. debruça-se sobre outra mesa e pega no saleiro. — É mais ou menos da nossa idade. — Tens aí o sal? — pergunta Eddie a Noel. baixinho. Baixa o tom de voz. — Toma — murmura ele. — O pai já cá não está. — E verdade. com a boca cheia de salsichas. como se uma vespa tivesse passado a zumbir junto da sua orelha. ouve histórias daquelas. — Mas nós somos mais velhos — murmura Eddie. e estremece. O pequeno-almoço está a arrefecer. Eddie encolhe os ombros. no seu turno. Duas semanas depois. onde Eddie aceitara um emprego que lhe permitiria 107 zelar pela mãe. ao sábado de manhã. levanta-se da mesa. — Que me dizes deste tipo todo bem-parecido? — diz Noel. Eddie dirigiu-se à central e pediu a demissão. Não há dia que passe sem que ele tenha medo que o mesmo aconteça ali.— Mãe — disse ele. Um parque de diversões. Houve qualquer coisa que se partiu. apartamento 6B —. — A sério? — diz Noel. Noel fecha a revista. Aquela é a rotina de ambos: pequeno-almoço uma vez por semana. um posto para o qual ele se preparara Verão após Verão: empregado de manutenção de Ruby Pier. nem a ninguém —. — Feliz aniversário. 109 — Conheces alguém que trabalhe lá? — pergunta Noel. pelos vistos. Tem um exemplar da Life aberto na fotografia de um jovem candidato político. De vez em quando. Noel. nem à mãe. ouviste o que aconteceu em Brighton? Eddie faz um sinal de assentimento com a cabeça. que lhes provocou a morte. Ouviu a notícia. uma vida que — e Eddie conseguia ouvir o pai rir-se na sepultura —. onde os corredores eram estreitos e a janela da cozinha tinha vista para o carrossel. agora era suficientemente boa para ele. — Pensei que uma pessoa tinha de ser mais velha para se candidatar a presidente.

— Anda lá. Ontem. Sábado. um dia acordamos e não conseguimos dizer que dia da semana é. agora. Eddie espeta o garfo no ovo. Fixa o olhar para lá da janela. — Está bem — cede. Eu acabei por nunca sair de lá. Eddie solta o ar. e daí? . Pensa na carga de trabalho que tem hoje. Pergunta-se quem será o encarregado da manutenção do parque de Brighton. Agora. Cola. para o interessar. 111 A terceira lição — O parque era assim tão mau? — perguntou Ruby. Pensa sempre em Marguerite. tem de encomendar mais cola. Costumas estar sempre assim tão animado quando fazes anos? Eddie não responde. Alguns trazem inclusivamente a última novidade: cadeiras de armar. Eddie baixou os olhos. chapéus de sol. — Podíamos ir às corridas. Um espelho partido na Casa do Riso. São os produtos químicos que põem na madeira. sim? — diz Noel. Uma coisa levou a outra. As pessoas deviam ter mais cuidado.. — Não foi uma escolha minha — disse Eddie. Começa logo a arder. quando Noel fala das corridas de cavalos. às seis. que não devia ter mais do que quatro anos. Sente-se logo o cheiro. é só isso. Passa um velhote de panamá. Nunca ganhei dinheiro a sério.. — És uma anedota. exactamente como. Verão. Nunca vivi noutro lugar. — Ele era muito duro contigo — disse a velhinha. — Não conheço ninguém em Brighton. — E daí? Eddie vira-se para o lado. 110 — A que horas sais hoje? — pergunta Noel. — Como o teu pai? Eddie não respondeu. — Ah. a fumar um charuto. Sabe como é: habituamo-nos a uma coisa. as pessoas dependem de nós. Novos pára-choques para os carrinhos. recorda a si mesmo. num grupo de veraneantes à saída da estação de comboios. Noel levanta uma sobrancelha. — Sim. apanhei um puto. — Vai ser um dia cheio. A velha escuridão instalou-se dentro dele. com um suspiro. — E daí. já se habituou a ela. fazes anos. Os anos foram passando. nada. — A minha mãe precisava de apoio. vai pegar fogo. prestes apor uma beata de charuto na boca.. hoje — diz Noel. Transportam toalhas. Pensa naquelas pobres pessoas de Brighton. dandolhe espaço como quem cede o lugar a um passageiro num autocarro à cunha. — Aposto em como vai deitar o charuto para o chão. Fazemos o mesmo trabalho entediante dia após dia. Noel faz uma careta. Sabes como é. feitas de alumínio leve.— Não — responde. — E daí? — Se cair por entre as brechas. Eddie pensa em Marguerite. Noel enfia uma garfada de salsichas na boca. demasiado frio. cestos de verga com sanduíches embrulhadas em papel. Eu era um homem da manutenção.. — Olha para aquele tipo — diz Eddie.

O pai de 113 Eddie gritou. por um instante apenas. um molhe estreito que se estendia pelo mar adentro. — Começaste a trabalhar depois disso. tornando-se testemunha de uma cena. Ele era maior e mais forte.» Belo pai. a tirar um frasco de dentro do casaco e a beber um gole. agarrou na mãe de Eddie e encostou-a à parede. cobrindo-lhe o pescoço de lágrimas. Depois. hã? A velhinha cerrou os lábios. até ao fundo de um buraco. Eddie lançou-lhe um olhar irritado. Voou escada abaixo e correu para a noite chuvosa. de frente e de trás. Era há muitos anos. Eis o que viu: Viu a mãe.— Talvez também tu fosses muito duro com ele. mas não conseguia ouvir o que eles os dois estavam a dizer. chamavamlhe —. a caminho da rua. A chuva caía . até outro momento no tempo. Correu para o quarto e viu Mickey a agarrar a sua mulher. O marido agarrou-a pelos ombros. Quando Eddie olhou para o círculo. — Ela pôs-se de pé. lentamente. mas não conseguiu conter-se. Arranjaste um rumo. Eddie sentiu um estremecimento de raiva. Eddie podia ver todos os quartos. a porta da rua abriu-se e o pai de Eddie parou na ombreira. 112 — Ouça — disse ele. incrédulo. Fez-lhe sinal para esperar e foi até ao quarto e fechou a porta. Encharcado até aos ossos. Deu um passo para o lado do círculo na neve e desenhou outro. sempre agarrada ao roupão. — Mas sei uma coisa que tu não sabes. com um martelo pendurado no cinto. sentiu que os seus olhos lhe caíam das órbitas e viajavam sozinhos. Tirou os sapatos e o vestido de andar por casa. não passava de um ruído indistinto. Mickey estava com um aspecto terrível. segurando-a pela cintura. Eddie tentou não olhar para baixo. para o afastar. Conseguia ver de cima e de baixo. A mãe de Eddie começou a chorar. Empunhou o martelo. surpreendida. o pai de Eddie saiu do apartamento. O roupão caiu. As imagens tornaram-se definidas. debruçando-se sobre ela. Ruby apontou com a ponta da sombrinha e desenhou um círculo na neve. Viu Mickey Shea. Ela estendeu instintivamente a mão. Mickey estava trôpego. — A senhora não o conhecia. o seu peito ofegante. O céu era preto azulado. — Duvido. Começou a soluçar. depois pegou na mão dela. Eddie viu a mãe. Depois. a ignorar o copo de água. Mickey detevese. — É verdade. Eis o que viu: Viu uma tempestade no extremo mais longínquo de Ruby Pier — «o extremo norte». Estava novamente a cair. — Que raio foi isto? — gritou Eddie. — E sabe qual foi a última coisa que ele me disse? «Arranja um emprego. Mickey levou as mãos à cabeça e precipitou-se para a porta. A mãe de Eddie trouxe-lhe um copo de água. e não parava de esfregar as mãos na testa e ao longo da cana do nariz. Viu Mickey na cozinha. Ela contorceu-se. a seguir gritou e empurrou o peito de Mickey. semivestida. Abanou-a violentamente. sentado à frente dela. levantou-se e cambaleou até ao quarto. virar-se. o seu rosto coberto de lágrimas. na antiga casa. Ela tapou-se com um roupão. Estavam ambos aos gritos. irritado. Mickey aproximou-se. Sabe quando foi a última vez que ele falou comigo? — Aquela vez em que tentou bater-te. desfazendo um candeeiro com o martelo. De repente. com ar preocupado. molhado da chuva. E está na hora de ta mostrar. — Que raio foi ISTO? A velhinha manteve-se calada. derrubando o pai de Eddie. e enterrou o rosto por barbear abaixo da face dela. sentada à mesa da cozinha. Abriu a porta. Pegou numa blusa e numa saia.

no fim. quando o teu pai andava à procura de trabalho. bebera tanto na véspera. Eddie fitou-a. foi Mickey quem emprestou aos teus pais o pouco 115 dinheiro que tinha. carrancudo. O pai de Eddie surgiu instantes depois. Por fim. Se eu soubesse o que ele tinha feito. na rebentação violenta. — Viu o que aquele pulha fez à minha mãe? — Vi — disse a senhora. A visão de Eddie regressou ao seu corpo. a espuma branca a fustigar-lhes a cara. desistiu. como se ele próprio tivesse mergulhado naquele mar. mas o pai de Eddie continuava entalado debaixo do braço de Mickey. Caiu ao chão. O mar retumbava e explodia. em tom de tristeza. enquanto a chuva os massacrava. Ficou estendido durante um instante. tirou o cinturão. depois rodou o corpo. — Foi errado. tentou desatar o outro. para que a rebentação não o arrastasse para o mar. O pai de Eddie foi ao fundo. Agarrou-se ao corrimão. muitos anos antes disso. a esbracejarem. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. Faltara ao seu turno. Apanharam a crista de uma onda e fizeram um súbito avanço na direcção da costa. para ajudar a alimentar mais uma boca. Mickey Shea apareceu. Conhecia os seus defeitos. quando o pai de Eddie lhe pegou no braço e o prendeu sobre o seu ombro. com a chuva a cair. »Mickey tinha sido despedido nessa tarde. Pegaram-se e esbracejaram. uma velha amizade era uma coisa muito séria. a cambalear na direcção da beira do molhe. — O que é que lhe passou pela cabeça? — sussurrou Eddie. Sabia que ele bebia. Parecia uma eternidade. Quando as ondas recuaram.. — Alto aí. Sabia quem Mickey era. — Salvar um amigo — disse Ruby. Agarrou Mickey. e deixou-se cair ao mar. — Fora atrás de Mickey para o magoar. que não . Avançaram. todas as certezas que sempre tivera sobre o seu pai deixaram de existir. Sentia a cabeça pesada. veio novamente à tona e contrapôs o seu peso ao do corpo de Mickey. rumando para a costa. Mickey deu-lhe um soco. Bateu os pés. derreado. — O teu pai também teve vontade de o fazer — disse a velhinha. Estava exausto. Viu movimento nas ondas. Deteve-se. Para o teu pai. a dar às pernas. O pai de Eddie nadou para ele. a vasculhar as águas. e a seguir caiu na praia. foi Mickey quem se dirigiu ao proprietário do parque e deu a sua palavra de honra sobre a integridade do teu pai. gritando contra o vento. os dois homens a grunhirem. arrancou um sapato. com as suas últimas forças puxou Mickey para a frente. por baixo da balaustrada de madeira. de tão ensopado. com o peito a arfar. »Mas. Mickey balouçava no ondular agitado das águas. Mickey gemeu e tentou sorver golfadas de ar. mergulhando desajeitadamente no mar revolto. Uma onda atirou-os para trás. na areia molhada. As suas roupas estavam encharcadas e o cinto de cabedal estava preto. uma grande onda ergueu-os e atirou-os para a areia. Os céus estalavam de trovões. O pai de Eddie cuspiu água salgada. De repente.em lençóis de água. minha senhora — interrompeu Eddie. furioso. não foi capaz. agachou-se por baixo da balaustrada e saltou. de boca aberta. Mas. E quando tu nasceste. 114 Mickey tossiu com força. com o rosto virado para o céu escuro. — Belo amigo. com um líquido amarelo esponjoso a sair-lhe da boca. ainda de martelo em punho. semi-inconsciente. a pestanejar violentamente para conseguir ver. tinha deixado o coiro dele afogar-se naquelas águas. talvez até para o matar. Sabia que o seu juízo falhara naquele dia. a correr de um lado para o outro.. e o pai de Eddie soltou-se de Mickey e conseguiu enfiar os braços por baixo dos de Mickey e segurá-lo. Depois para a frente. O vento soprava a chuva de lado. O pai de Eddie deu-lhe outro.

Talvez tenha sentido a luz da morte a aproximar-se. por ele próprio. a pneumonia atacou-o e. deixou de falar por completo. morreu completamente só — respondeu a velhinha. e os patrões mandaram-no embora. Bem cedo. — O quê? — disse Eddie. — Ele nunca disse nada. Chamou pelo nome da tua mãe num fio de voz e chamou pelo teu. Gemia baixinho. ficaram os dois durante muito tempo no vale da montanha nevada. — O corpo estava fraco. Dias e noites. a respiração dele tornou-se lenta. à deriva. — Cinquenta e seis — disse Eddie inexpressivamente. uma noite. estava a cair de bêbado. na manhã seguinte. — Ninguém morre por lealdade. O teu pai estava a fazer serão. como se estivesse a rezar: «Eu devia ter feito alguma coisa. — Passados uns anos. Nunca conseguiu perdoar-se a si próprio pelo que aconteceu. A implorar ajuda. os olhos fecharam-se e as enfermeiras não conseguiram despertá-lo. Já não sabia calcular a duração fosse do que fosse.. — E a religião? O estado? Não somos leais a essas coisas. — Cinquenta e seis — repetiu a velhinha. embora a sua reacção inicial tenha sido matá-lo. mas raramente o silêncio serve de refúgio. nem com a tua mãe. a Eddie assim pareceu.conseguira levantar-se de manhã. — Mas o meu pai. Mais um telefonema para casa do Sr. a pedido dos médicos. Sentia-se envergonhado por ela. A tua mãe ia levar Mickey até ele. também. — Mais vale — disse ela — sermos leais uns aos outros. Queria recuperar o emprego. — Ele nunca mais voltou a falar sobre aquela noite. Já ia nos cinquenta e muitos. O teu pai também agiu por impulso e. E chamou Mickey. 116 Depois disso. claro. com o tempo.. Levantou-se da cama. à beira da cama dele. Naquele momento. semicerrando os olhos. Os médicos disseram que tinha entrado em coma. Os pensamentos continuavam a atormentá-lo. — No parapeito da janela? Ruby fez que sim com a cabeça. a sua reacção final foi salvar a vida de um homem. Ficou ali deitado na praia durante horas. estava perdido.» »Por fim. a tua mãe passou o tempo todo no hospital. — Que aconteceu ao Mickey Shea? — perguntou Eddie. esfregando a testa. por Mickey. Mais uma pancada na porta a horas tardias. atravessou o quarto e arranjou forças para levantar a janela. o seu coração estava a transbordar de culpa e remorsos. Ela cruzou as mãos sobre a ponta da sombrinha. eu devia ter feito alguma coisa. Ele lidou com o problema da mesma maneira que lidava com todos os problemas: bebeu ainda mais e. — Por uma questão de lealdade — contrapôs ela. »Uma noite. Nathanson. No hospital. Joe. Agiu por impulso. quando chegou a casa da tua mãe. — Por causa do Mickey? — disse Eddie. — Bebeu até morrer de cirrose. Eddie lembrava-se dessa noite. Parece que nesse instante. mas não era má pessoa. O silêncio foi o seu escape. Talvez soubesse apenas que 117 . nem com ninguém. Pelo menos. O teu pai já não era um jovem.. e pelo do teu irmão. — Ai não? — Ela sorriu. encharcado e exausto. — Durante a noite. — Depois disso. e o que fez foi um acto de solidão e desespero. o teu pai acordou.. até ter forças para se arrastar para casa. uma enfermeira encontrou o teu pai caído no parapeito da janela. ela foi dormir a casa. — Foi assim que ele adoeceu. ele morreu. »Mickey era grosseiro. por vezes até à morte? Eddie encolheu os ombros. — disse Eddie. Um mau impulso. o mar deixou-o vulnerável.

— Edward — disse ela. atordoado. — Está ali. »Perdoa. em cada queda. Nunca falámos. 118 — O restaurante? — disse ela. — Ouvi-a gemer naquelas noites solitárias. como se tivesse perdido eu própria um ente querido. perguntei pela tua família. para poderes avançar. — Tens de perdoar o teu pai. Debruçou-se sobre o parapeito. — Vi. Aonde iria? O que é que teria pensado? O que seria pior deixar sem explicação: uma vida. em cada incêndio. A versão do hospital foi que ele morreu enquanto dormia. A raiva é um veneno. Ela suspirou. nas ruas por baixo daquela janela. Mas depois da morte do teu pai. a tentar rastejar para fora de uma janela. — Aprende uma coisa comigo. Eddie levantou os olhos. Perdoa. em cada briga. O meu marido. porque ninguém nasce com raiva. viu o meu pai. Mas agora. »As enfermeiras que o encontraram arrastaram-no de volta para a cama. Mas o ódio é uma lâmina curva. quente. . Não conseguia parar de pensar na morte do seu pai. E ficou ainda pior quando cresci. em cada acidente. Queria-os a todos como queria o meu Emile. baixinho. Eddie pareceu confuso. em cada escorregadela. bem alimentado. no refúgio de um lugar acolhedor. Ela tocou-lhe na mão. Ela fez uma pausa. ou uma morte? — Como é que sabe tudo isso? — perguntou Eddie a Ruby. — O teu pai não tinha dinheiro para pagar um quarto particular no hospital. Devora-te por dentro. O seu pai. Edward. Era a primeira vez que o tratava pelo nome. senti uma pontada de dor. A velhinha acenou com a cabeça. O parque tinha o meu nome. a alma liberta-se dela. Lembras-te da leveza que sentiste. tens de compreender por que motivo sentiste o que sentiste. O vento e a humidade foram demasiado agressivos para o estado em que ele se encontrava. Ruby levantou-se e Eddie imitou-a. Estava uma noite fria. »Esse desejo seguiu-me até ao céu. e porque é que não tens necessidade de continuar a senti-lo. E o mal que infligimos. Eddie deixou-se cair para trás. Ruby deu um passo para ele. Onde está a minha dor? — Sentiste-te assim. — Era um inferno para mim. lá fora. Morreu antes de amanhecer. — Emile. longe do mar. aqui. — Então. porque eu queria regressar aos meus anos de juventude. — E a minha mãe. E o mesmo se passou com o homem que estava do outro lado da cortina. — Eu odiava-o — murmurou ele. Senti a sua sombra amaldiçoada e voltei a desejar que nunca tivesse sido construído. quando chegaste ao céu? Eddie lembrava-se. mesmo enquanto esperava por ti. Quando soube onde o teu pai trabalhara. quando eu era miúdo. rijo com um velho cavalo de guerra. à minha vida simples mas segura. Tiveram medo de perder o emprego. infligimolo a nós próprios. Pensamos que o ódio é uma arma que ataca a pessoa que nos fez mal. A sua cabeça pendeu para trás.vocês estavam todos algures. E quando morremos. como se ele tivesse acabado de resolver um mistério. E queria que todos aqueles que sofreram em Ruby Pier. ficassem sãos e salvos. Pensou naquela derradeira imagem. Apontou para o pontinho de luz nas montanhas. portanto nunca contaram o que se passou.

Durante todo esse tempo. — Pai. os nós dos dedos ossudos e os ombros largos 120 de um operário. — Quando ele morreu — disse Eddie —. Começou a afastar-se. Eu não compreendia. Ruby desapareceu. Nunca se elevara acima do trabalho sujo e cansativo que o seu pai deixara para trás. Pensou que não conquistara nada. que já não controlava. uma voz que já não era a sua. que teria existido se não fosse pela morte do pai e pela subsequente depressão da mãe. Pensou no velhote pendurado na janela do hospital. Em seguida. a fumar um charuto. a perda de esperança. o nariz adunco. ele 119 glorificara essa vida imaginária e responsabilizara o pai por todas as suas perdas: a perda de liberdade. percebe? Não conhecia a sua vida. Fiquei encurralado depois disso. Ruby abanou a cabeça. Olhou para os seus próprios braços e percebeu no seu corpo terreno. Caiu de joelhos ao lado da mesa. — Pai? — sussurrou Eddie. que Eddie conseguia ver os pêlos do seu rosto e a ponta queimada do charuto. Eddie levantou os olhos. tudo ficou negro. não sabia o que tinha acontecido. — Então. virou-se para a porta e abriu-a lentamente. Sentiu um estremecimento no peito. O pai estava tão perto. para a mesa do canto. a perda de uma carreira. sabendo o que tinha de fazer. a morrer sozinho a meio da noite. Virou-se para a direita. Ficou ali postado durante muito tempo. Odiava-o. Eddie sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos. a beber e a falar. Eddie avançou. Endireitou os óculos. hesitante. Sentiu um arrepio. Os espíritos daqueles que haviam morrido no parque encontravam-se à sua volta. O pai não conseguia ouvi-lo. Mantinha-me à distância. Ele estava novamente no cimo da montanha. carne e molhos. está bem? Está bem? Podemos esquecer o que se passou? A sua voz tremeu até se tornar aguda e implorante. Ouviu o tilintar de talheres e o empilhar de pratos. sozinho no silêncio. Continuo sem compreender. Não o conhecia a si. penosamente. Vou libertar-me da raiva. para o fantasma do seu pai. Já sei o que aconteceu. — Ainda tens de falar com mais duas pessoas — disse ela. que era agora mais velho do que o seu pai. — Eu estava irritado consigo.Eddie pensou nos anos que se seguiram ao funeral do pai. E. Mas é o meu pai. — O pai batia-me. Eddie aproximou-se. nunca fora a parte alguma. . Sentiu um aperto no peito. pai. até perceber que a velhinha não ia voltar. a conversar uns com os outros. depois. — Eu não sabia. à porta do restaurante. Eddie tentou dizer «Espere». parado na neve. a comer. Sentiu o cheiro a comida quente — pão. levou consigo uma parte de mim. qual foi? Ela ajeitou a saia. mas um vento frio quase lhe arrancou a voz da garganta. Sobrevivera-lhe em todos os sentidos. Porque é que o fez? Porquê? — Inspirou fundo. — O teu pai não foi a razão pela qual nunca deixaste o parque. Uma torrente a querer sair de dentro de si. Ao longo dos anos. Eddie imaginara uma determinada vida — uma vida que «podia ter sido» —. Viu os papos por baixo dos seus olhos cansados.

Eddie não bateu com a cabeça no tecto baixo de gesso. o pastor pediu a Dominguez. o Sr. que de repente se alargou e passou a incluir uma fileira de portas. O seu corpo não apareceu reflectido. bem como o céu cor de jade. as meias e sapatos. viu Ruby parada à sua frente. Proferiu as derradeiras palavras num sussurro. 121 QUINTA-FEIRA. — Sei que o senhor trabalhava com ele. Bullock. todos à espera que alguém os reivindicasse. As montanhas haviam desaparecido. De onde é que saiu isto?. O quarto era castanho — tão singelo como papel pardo — e estava vazio. O ataúde era uma simples caixa de madeira. pai? Debruçou-se para ele. Eddie girou sobre os calcanhares. agora. e falou baixinho. Ela baixou a cabeça. à excepção de um banco de madeira e um espelho oval pendurado na parede. Não deixara instruções. — Está consertado. como se o seu peito estivesse cheio de coisas que precisassem de assentar. estava agora mole. mais baixo: — Está a ouvir-me. Dominguez engoliu em seco. Viu apenas o lado oposto do quarto. ansioso. usando para isso o dinheiro que poupara por não ter de pagar o salário de Eddie no fim do mês. tossiu. A sua barriga. 122 A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie pestanejou e deu por si num pequeno quarto redondo. Viu as mãos sujas do pai. depois caiu para o chão. O seu corpo ficou na morgue municipal. o proprietário do parque. Entrelaçou os dedos uns nos outros. como se tivesse saído de outra pessoa qualquer. como achava que se devia falar numa situação como aquela. Percebeu o que . Por pouco. a sua camisa da manutenção. para entrar no seu gabinete. dissera Ruby. Tornou a tossir. Depois. — Pode dizer-me algumas das qualidades do falecido? — perguntou o pastor. jovem e bela. 11 HORAS DA MANHA Quem pagaria o funeral de Eddie? Ele não tinha família. o boné de linho. E depois. Eddie deu um murro na mesa. como se estivesse a reflectir. A igreja foi escolhida em termos de localização — era a mais próxima do parque —. por fim — amava profundamente a mulher. uma tosse profunda e cavernosa. Estava mais fina. que envelhecera desde o seu encontro com Ruby. Eddie postou-se à frente do espelho. a aliança. e mais seca. com a flacidez da velhice. de casaco azul-escuro e o seu melhor par de calças de ganga preta. No fim. pagou a conta. Não se sentia à vontade na presença de clérigos.— ESTÁ BEM? ESTÁ A OUVIR-ME? — gritou. Tocou na pele. os cigarros e arames para limpar cachimbos. Ainda tens de falar com mais duas pessoas. juntamente com as suas roupas e objectos pessoais. A sua perna estava cada vez mais hirta. — Eddie — disse ele. uma vez que a maior parte dos convidados tinha de voltar para o trabalho. Depois. que durante a conversa com o Capitão parecera dura como borracha retesada. abriu a porta e levantou voo em direcção ao céu cor de jade. Soltou os dedos e acrescentou rapidamente: — Claro está que eu nunca cheguei a conhecê-la. O som apanhou-o de surpresa. Uns minutos antes do serviço religioso. Quando voltou a levantar os olhos. pensou Eddie. uma moinha incómoda. que aconteceria? Tinha uma dor nas costas.

jovem e bonita. nem carroças. Só nos últimos anos da sua vida. de cerimónia em cerimónia. os ossos fracturados da sua perna já estavam deformados. como acontecera 124 em tantos casamentos a que ele assistira na Terra. dentro de paredes. nesses instantes. não houve casamentos. O que não percebia era o que tinha ele a ver com aquilo. O relvado estava cheio de convidados. durante um longo período. Usava uma casaca preta e empunhava uma espada e. nem carros. nem autocarros. junto de Eddie. Outra passagem pela porta levou-o a um casamento chinês. Todos pareceram sorrir e os sorrisos assustaram Eddie. quando algum dos seus colegas adolescentes crescera e resolvera casar. A sua perna ferida parecia atearse. onde o casal bebia em simultâneo de uma chávena com duas asas. Preferia que assim fosse. passou de casamento em casamento. não havia vestígios de como é que as pessoas lá tinham chegado. onde se acenderam foguetes perante os convidados a aplaudir. mas a língua era-lhe estranha. pensando que assim voltaria ao quarto redondo. Por causa disso. saltava por cima de uma vassoura. num grande salão. como os bailes ou o acender de velas. A noiva. Estava a apodrecer. 123 Dirigiu-se para uma das portas e abriu-a. depois outra porta para outra cena qualquer — talvez francesa? —. ficava muitas vezes no parque de estacionamento. a fumar um cigarro. Sempre achara que os casamentos eram todos iguais. sozinho. Aqui. Alemão? Sueco? Tornou a tossir. sem família. na outra. com pratos nas mãos. estava ao ar livre. Eddie tossiu novamente — não conseguia evitar — e. As encostas estavam cobertas de vinhas e quintas de travertino. Em vez disso.estava a acontecer. pensou Eddie. Coxeava muito e era. O noivo era esguio. em que as famílias despejavam vinho no chão e o casal. de mãos dadas. à espera que o tempo passasse. parecia africano. A artrite atacara-lhe o joelho. tornou a recuar pela porta e a entrar noutra cena de casamento. agora. desta vez. outro bolo e outro tipo de música. é que ele tivera de retirar o fato puído do armário e vestir a camisa de colarinho engomado que lhe apertava o pescoço grosso. se por acaso ia. quando vários convidados levantaram os olhos. alguém a quem todos sorriam mas com quem nunca falavam. na extremidade da espada estava um anel. Transpôs a porta uma vez mais e deparou com uma aldeia que lhe pareceu italiana. Eddie ouvia as vozes deles. havia um arco coberto de flores vermelhas e ramos de vidoeiro e. por conseguinte. dispensado de todos os momentos participativos. deu por si a meio de outro casamento. e ninguém esperava que ele fizesse muito mais além de sorrir. a meio do que parecia ser uma cerimónia de casamento. Quanto tempo mais é que isto vai durar?. na opinião de Eddie. Eddie evitava a maior parte das cerimónias e. De repente. nem cavalos. porque acontecia a cada nova fase no Céu. estavam demasiado recheados de momentos constrangedores. Foi dançando com cada um dos convidados e todos lhe entregaram um pequeno saco com moedas. Numa ponta. no quintal de uma casa que nunca tinha visto. sempre que o fotógrafo vinha à mesa. O grupo levantou os olhos. encontrava-se no centro do grupo. enquanto ela retirava o anel. Os convidados conversavam uns com os outros e Eddie foi absorvido como sendo um deles. calculou Eddie. Ele baixou-o na direcção da noiva e os convidados aclamaram-na. numa terra que não reconhecia. onde as pessoas pareciam espanholas e a noiva usava flores cor de laranja nos cabelos. Em cada cerimónia. Muitos dos homens tinham cabelos pretos e . como quando os casais tinham de dançar ou ajudar a erguer a noiva numa cadeira. ficava a porta que ele acabara de transpor. Era considerado um «velho». de uma língua. Os casamentos. Por essa altura. a retirar um alfinete dos seus cabelos cor de manteiga. Fosse como fosse. e ele sentia que as pessoas conseguiam aperceber-se disso do outro extremo da sala. Recuou rapidamente para a porta por onde entrara. um bolo e um tipo de música para outra língua. A uniformidade não surpreendeu Eddie. nas suas roupas da manutenção. A partida não parecia ser relevante.

Joe dissera a Eddie que recebera um aumento. Os olhos dela escondidos pela aba do chapéu.. Ao ouvir a sua voz. mas juntaram esforços para proferir a primeira letra do único nome que alguma vez o fizera sentir-se assim. Per l'amaro e il dolce?. penteados para trás com brilhantina. e as mulheres.. violinos e guitarras — e os convidados começaram a dançar a tarantela. Joe veste um casaco de xadrez e sapatos pretos e brancos de cunha. com um cesto de amêndoas doces. passara entre os convidados. pegando na broca — é o modelo mais recente.. Eddie segura na bateria entre os dedos. — Liga-a — diz Joe.grossos. Eddie caiu de joelhos. o antigo posto do seu pai. Joe é vendedor de uma empresa de ferramentas e Eddie usa o mesmo fato há anos. — Per l'amaro e il dolce? — disse ela. num ritmo louco e rodopiante. Os seus olhos desviaram-se para os confins da multidão. Arranjou emprego nas bilheteiras. — Para os momentos amargos e doces — disse ela.. portanto. nos seus olhos cor de café escuro. 126 Hoje é o aniversário de Eddie Eddie e o irmão estão sentados na oficina da manutenção. — Ó da casa! Está aí alguém? Marguerite aparece à porta. agora. hã? — grita Joe. Eddie recuou uns passos. Havia música — flautas. Eddie fica irritado. mas. Começou a suar.. Os lábios dele demoraram a abrir-se e o som precisou de uns instantes para lhe sair da garganta. oferecendo-lhe as amêndoas. o que é que ele entende do assunto? — Sim. 125 Uma dama de honor. passando-lhe a broca. — Per l'amaro e il dolce? — dizia ela. Depois. Custava a acreditar. calças pretas de montar.. orgulhoso. senhor — diz Joe —. — Marguerite. — Este — diz Joe. . O seu salário era três vezes maior do que o de Eddie. sorrindo. — sussurrou. Nessa manhã. no rosto dela. que era encimado por um bouquet de flores de papel. Algo dentro de si lhe disse para fugir. Trabalha a bateria. — Per l'amaro e il dolce?'. Eddie acha que o irmão está demasiado bem vestido — e bem vestido é sinónimo de fajuto —. oferecendo os doces. um colete encarnado. — Trabalha bem. Eddie nunca dissera nada que sentisse com tanta convicção. Ela aproximou-se dele. Joe dera os parabéns a Eddie pela sua promoção: chefe da manutenção de Ruby Pier. Eddie encontrou um lugar encostado a uma parede e observou os noivos a cortarem um tronco em dois.. nesse Verão. parecia ter vinte e poucos anos. envergando um longo vestido cor de alfazema e um chapéu de palha debruado. e enverga a farda oficial de Ruby Pier: uma camisa branca. e vê só. — Para os momentos amargos e doces? Os seus cabelos negros caíram-lhe sobre um dos olhos e o coração de Eddie quase explodiu. Os olhos de Eddie pousam. um boné vermelho e uma etiqueta com o nome presa com um alfinete abaixo do pescoço. Ao longe. mas houve qualquer coisa que o impediu de arrancar os pés do chão. Ao vê-la assim vestida. olhos escuros e feições marcadas. encontraram-no. Eddie prime o gatilho e ouve-se uma explosão de barulho. porque é que não ficas tu com este emprego e eu com o teu?» Mas não o fez. Eddie tivera vontade de responder: «Se é assim tão bom. como sempre. na sua pele de azeitona. com uma serra de dois punhos.. uma pequena coisa chamada cádmio de níquel. com um maço de bilhetes cor-de-laranja na mão. o corpo de Eddie estremeceu da cabeça aos pés.

Fazia agora quase um ano que ela falava em adopção. Trazia jornais para casa. — Podes vir ali fora. Eddie levanta-se devagar. sente-se comovido pela relação fácil que ela tem com os miúdos e entristecido pela incapacidade de ela os ter. — Estou a trabalhar. Eddie solta o ar. — Não podes ser mesmo tu — disse ele. 129 Eddie olhou fixamente para a jovem Marguerite. — Enfia a mão dentro de um saco e tira uma máquina fotográfica. depois segue-a porta fora. instintivamente. depois vê a mulher a sorrir. — PARABÉNS. Ela estendeu-lhe a mão. Uma criança espeta o dedo em Eddie e diz: — Apaga as velas todas. — Ha-ha! — grita Joe. Ela baixou o cesto com as amêndoas. Eddie disse que ia pensar no assunto. Vira-se para Marguerite: — Trabalha a bateria. Marguerite debruça-se para Eddie e segreda: — Prometi-lhes que apagavas as trinta e oito velas de uma vez. mas está a olhar para a mulher.. um aparelho complicado com manípulos e botões e uma lâmpada redonda de flash. dançava-se a tarantela e o Sol esmorecia por detrás de uma faixa de nuvens brancas. Com o passar do tempo. — Não podes ser mesmo tu — repetiu Eddie. Os bailarinos gritaram: «Olééé!» Tocavam tamborins. EDDIE! — grita um grupo de crianças em uníssono. — Ha-ha! Com esta é que ela te arrumou! Eddie baixa os olhos. espera. ficaram sem dinheiro para ir ao médico. É uma Polaroid. — A Charlene emprestou-me.. meninos. Marguerite faz o enquadramento da foto. Eddie acena com a broca. cheia de inúmeras marcas de dedinhos. — É rápido. — Despache-se. Eddie dizia que eram demasiado velhos. Ela respondia: — Uma criança não sabe o que é ser velho. pousado em cima de uma mesinha de armar. anda lá. um instantinho? — pergunta ela. a rir.especialmente à frente do seu irmão armado em importante. Eddie! Apague lá as velas. ponham as velas no bolo! As crianças correm para o bolo de baunilha às camadas. Eddie junto do bolo. A cobertura do bolo está uma lástima. as crianças amontoadas à volta dele. junto do bolo. Eddie agarrou-a rapidamente. entristecida. Sorriu. envergonhado. Sr. 127 — Mostra-lhe a broca — diz Joe. A volta deles. O Sol incide-lhe no rosto. que o devia ter feito antes dos vinte e cinco anos. — Faz mais barulho do que tu a ressonares — diz ela. Marguerite grita: — Vá. — Está bem — diz Eddie. espera. — Quem diria? — diz Eddie. Eddie prime o botão. Outro. está bem? Eddie baixa os olhos. Marguerite tapa os ouvidos. que esperara demasiado tempo para engravidar. As coisas eram como eram. Como acontece sempre que está na companhia de Marguerite e de crianças. Ai. a admirar as trinta e oito pequeninas chamas. Um médico disse que era demasiado nervosa. SR. como se apanhasse um . Observa a mulher a organizar o grupo. rezingão. Ia à biblioteca. 128 — Está bem — grita ela.

O homem do acordeão sentou-se num banco. que a única coisa que faltara no seu casamento «foram os cartões do bingo». mas o seu joelho ferido cedeu. Agora. Só conseguia ficar parado. Passaram entre as poças de luz dos candeeiros de rua. ali estava ela novamente. levantou os olhos e tocou nos tufos de cabelo por cima das orelhas dele. Olééé! — Não és mesmo tu. quente e macia. O seu próprio casamento realizou-se na véspera de Natal. juntos. Mas o amor assume muitas formas e nunca é igual para todos os homens e mulheres. E Eddie encontrou uma certa forma de amor com Marguerite. uma chuva fria. que quase lhe fazia cócegas. uma vez que ficava a apenas uns quarteirões de distância. olhando para a cicatriz quase invisível com uma familiaridade afectuosa. não és tu — murmurou Eddie. Eddieie tentou levantar-se. Sammy. fizeram um brinde final e o homem do acordeão arrumou o instrumento.objecto em queda. Eddie levava o seu casaco branco. O seu coração tornou-se dormente. transportaram 130 as cadeiras para o andar de baixo. Quando ela morrera. jovem como no dia do seu casamento. em seguida. Tudo à sua volta parecia estar no seu devido lugar. feitos os votos. Estava a chover ao de leve. O que as pessoas encontram é uma certa forma de amor. em sofrimento. pela primeira desde a sua morte. Ela ajoelhou-se junto dele. Ficou junto de Marguerite. alugou-lhes o seu estabelecimento por uma noite. acima de tudo. Marguerite envergava o vestido de noiva por baixo de uma grossa camisola cor-de-rosa. — Vem comigo — disse ela. chamado Sammy Hong’s. portanto. sorrindo. Depois. — Eddie — disse ela. Terminada a refeição e entregues algumas prendas. não és tu. Eddie e Marguerite saíram pela porta da rua. ser insubstituível. no segundo andar de um restaurante chinês de luzes suaves. quase a rir. Caminharam de mãos dadas. vinho do Porto e um homem com um acordeão. como se se estivesse a formar uma pele por cima da sua própria pele. pensando que teria poucos clientes se não o fizesse. os empregados pediram aos convidados para se levantarem e. até que ela semicerrou os seus olhos escuros e entreabriu os lábios com uma expressão maliciosa. As pessoas dizem que «descobriram» o amor. deixando cair a cabeça no ombro dela e. — A tua perna — disse ela. — Sou eu — sussurrou ela. mas os noivos foram a pé para casa. — Está branco — disse ela. 131 em silêncio. As cadeiras usadas na cerimónia foram necessárias para o jantar. como se este fosse um objecto escondido atrás de uma rocha. onde ficavam as mesas. . Marguerite costumava dizer. um amor grato. Eddie não conseguia mexer a língua. um amor que ele sabia. um amor profundo mas discreto. a brincar. Os seus dedos encontraram-se e ele nunca sentira uma sensação como aquela. — Não és mesmo tu — disse ele. O proprietário. Ela estava exactamente como ele a recordava — ainda mais bonita. ele deixara que os seus dias se tornassem vazios. Anos mais tarde. pois as suas últimas recordações dela eram as de uma mulher mais velha. Ela ergueu-o sem esforço. começou a chorar. Eddie pegou no parco dinheiro que lhe sobrara do exército e gastou-o no copo-d'água: frango assado com legumes chineses. — Já te tinhas esquecido da minha cara? Eddie engoliu em seco. a camisa a apertar-lhe o pescoço. especado a olhar.

sei tudo o que aconteceu enquanto estivemos juntos.. uma menina pequena. Ele perscrutou os olhos dela. nada muda.. — Achas que tivemos isso? Eddie não soube o que responder. na mão dele. tudo o que acontecera. 132 — O que é que tu sabes. Sentia uma agitação dentro de si. por fim. Ele ainda tinha dificuldade em dizê-lo. Parecia tão jovem. uma ansiedade aos solavancos. um dos carrinhos soltou-se. Marguerite arregalou os olhos. — Tivemos um acordeonista — disse ele. sempre que o noivo levanta o véu e a noiva aceita a aliança. Tentei salvá-la. não tem nada a ver com o parque de antigamente. eu é que lhe disse e depois tentei avisá-lo. Senti as mãozinhas . Seja como for. que me amaste muito. — Não sei como é que tu morreste — disse ela. Queria perguntar-lhe tudo e mais alguma coisa. — Bom... isto é.. por detrás de todas as portas. O sorriso dela. — Tocou-lhe no queixo. depois. — E. feliz. e caiu. Ai. muito veloz. Ela voltou a acenar. disse ao Dominguez. — E explicaram-te tudo? E mudou alguma coisa? Ela sorriu. mas o cabo partiu-se. Apertou os lábios. Não sabia por onde começar. — Casamentos — disse ela... Levou as mãos ao peito. Eddie.— Nunca esqueci a tua cara. Eddie sentiu o calor derretê-lo. Perguntou-se se a espera de Marguerite teria sido parecida com a sua.. Acreditam verdadeiramente no amor e que o seu casamento vai quebrar todos os recordes. porque eu lhes disse para o soltarem. Pegou. Afastaram-se do copo-d'água e subiram um carreiro de cascalho... Eddie pensou por instantes. esperei por ti. Ela tocou ao de leve no rosto dele e o calor espalhou-se pelo corpo de Eddie. — Havia uma menina. — Mudou tudo. é tudo muito rápido. — Cinco pessoas diferentes — disse ele. — Foi essa a minha escolha... — Também encontraste cinco pessoas? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. A música fundiu-se no ruído de fundo. Eddie queria dizer-lhe tudo o que vira. havia uma atracção que deixava cair uns carrinhos do cimo de uma torre e tinha um sistema hidráulico de travagem.. — Desde que morreste. então.. — Também passaste por isto? — disse ele. Sorriu. mas ele não me conseguia ouvir e a tal menina estava sentada ali e eu tentei agarrá-la. — Eu também não sei ao certo — respondeu.. — E agora sei porque é que aconteceu. Um mundo de casamentos. que correu para uma das atracções do parque e corria perigo. Era mais difícil do que ele pensava contar à sua mulher como é que morrera.. um miúdo que trabalha comigo agora. sobre mim? O que é que sabes desde que. as expectativas que vemos reflectidas nos olhos de ambos são iguais em qualquer parte do mundo. que fazia os carrinhos parar lentamente. ainda não percebi como. Marguerite apontou para a aldeia e para os convidados a dançar. Ela tirou o chapéu de palha e afastou os caracóis grossos da sua testa jovem. — E também sei. Agora. — O parque tem atracções novas. não foi culpa dele.

se ele chegara praticamente de bolsos vazios. por entre uma carpete de bilhetes usados. A sua pele arrepia-se. * Sistema em que se aposta no cavalo vencedor em duas corridas consecutivas (N. que não é uma má aposta. Não consigo. mas depois eu.° 8. de repente. — Praticamente ainda não tinha falado. Eddie aperta o bilhete entre os dedos. — Tive tantas saudades tuas. estão copos de papel de cerveja. o seu pêlo colorido a esbater-se a cada movimento ondulante. As aclamações fundem-se com os cascos retumbantes. mas o que Noel acabou de dizer sobre «o miúdo» —— a criança que Eddie e Marguerite tencionam adoptar — enche-o de culpa. Aquele dinheiro vinha a calhar. Os cavalos entram no troço final. lamento tanto. para irem jogar no número do aniversário de Eddie. Um cavalo destaca-se na dianteira do grupo. Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. um cavalo chamado Jersey Finch. nem o parque. numa lógica exuberante. 134 Hoje é o aniversário de Eddie As corridas estão à cunha com os clientes de Verão. Apostou metade dos lucros na segunda corrida e voltou a ganhar. Marguerite — sussurrou. Sentam-se em cadeiras de ripas. disse o que roda a gente diz. meu Deus.. o 39. pôs o dinheiro todo num cavalo a ganhar na sexta. Depois de perder duas vezes em apostas mais pequenas. . Deteve-se. se ganhares — diz Noel —. um sorriso meigo. Eddie apostou no n. desde que aqui cheguei — explicou. Porque é que estava a falar sobre aquilo? O que é que estava a fazer? Estaria realmente com ela? Como uma mágoa escondida que se ergue e lhe agarra o coração. como ele e Noel concordaram. — Vais estragar tudo — diz Noel. Amparou a cabeça com as mãos e disse-o de qualquer maneira. Eddie e Noel saem mais cedo do trabalho. Há pouco. Os cavalos são largados. Amontoam-se na recta distante. vais ter dinheiro para o miúdo. e não queria olhar mais.. Noel grita. Não consigo exprimi-lo. com o assento de baixar. a sua mulher morta. que mal tinha voltar para casa da mesma maneira? — Pensa só que. nada lhe pareceu importante. Aos seus pés. e ao vê-lo os olhos dele encheram-se de lágrimas e sentiu-se invadido por 133 uma onda de tristeza e. Está mais nervoso do que gostaria de estar. Jersey Finch afasta-se para o lado de fora e alonga a sua passada. Nem consigo dizer. Ele soltou o ar. A campainha toca. Eddie ganhou a primeira corrida do dia. a sua única mulher. era a primeira vez que isso lhe acontecia. no Daily Double*. As mulheres usam chapéus de palha e os homens fumam charuto. porque. — Ai. Deram-lhe duzentos e nove dólares. sendo as probabilidades de quatro para um. Eddie tem quase oitocentos dólares. a sua jovem mulher. nem a multidão à qual ele tinha gritado «Afastem-se». nem a sua morte. — Tenho de ir para casa — diz ele.da T. Estava a olhar para a sua mulher. pedindo-lhe para continuar. Ela inclinou a cabeça para o lado. a sua mulher perdida. os seus lábios começaram a tremer e Eddie foi arrastado pela corrente de tudo o que perdera. — Lamento muito. Porque é que ele fazia coisas daquelas? A multidão levanta-se. a sua alma caíra na armadilha das velhas emoções.dela.) 135 Jersey Finch! Agora.

quer também que ele pare de fazer apostas. Eddie coxeia para a cabina telefónica e deixa cair uma moeda. Quinze metros abaixo deles. Eddie conta-lhe a novidade. Ela está arrependida de lhe ter gritado. eu sei — diz Eddie. Ela vai ficar contente. O Sol já se pôs e o céu está em transição. Esboça um sorriso. Agora. como se aquilo fosse uma espécie de arte e ele uma espécie de artista. que Noel vai insistir para ficarem até ao fim. enquanto ainda tem algum dinheiro no bolso. Diz-lhe para voltar para casa. — Viste aquilo? — Atira a tua agora. Solta os dedos. Noel tinha razão. ainda por cima no dia do aniversário dele. — Não. jamais lhe ocorre que possa estar a acontecer alguma coisa no viaduto por cima de si. A garrafa passa de raspão por um automóvel e estilhaça-se na estrada. ó cobardolas. para que ele possa atirá-lo para cima da cama quando chegar a casa e dizer à mulher: «Toma. Volta para junto de Noel. Marguerite atende o telefone. E como a pista de corridas fica apenas a dez minutos de distância. Levanta as sobrancelhas. ela pega na carteira e conduz o Nash Rambler. até que os proprietários da pista pagaram para que a câmara municipal instalasse uns semáforos. Dirigem-se para a janela da bilheteira e escolhem outro cavalo. A maior parte do trânsito flui na direcção contrária. porque Noel é assim e não há nada a fazer. que está a comer amendoins junto da balaustrada. compra o que quiseres.— Que raio de conversa é essa? — Vais contar a alguém e vais estragar a tua maré de sorte. como não lhe podia ligar. passavam por cima da estrada e voltavam a descer as escadas. Albergava dois adolescentes que não queriam ser encontrados. — Uaaaau! — grita o segundo. dois rapazes de dezassete anos que. tinham saído fugidos de uma loja. Ela aproxima-se do viaduto de Lester Street. Está a . — Eu sei. decidiu meter-se no carro e ir procurá-lo às corridas. horas antes. — Estamos à espera de um bebé — repreende ela. a outra parte quer a dobrar. O segundo põe-se de pé. tendo terminado o álcool e fumado muitos dos cigarros. a maior parte das vezes. Eddie tira o dinheiro do bolso. Uma parte dele já não o quer fazer. — Estou — diz o outro. — Estás a desafiar-me? — pergunta um deles. Eddie desliga o telefone com um calor atrás das orelhas. Abana a garrafa para trás e para a frente. — Não o faças. com menos trânsito. com base em serões anteriores. tentando que ela caia no intervalo entre dois veículos. depois de terem roubado cinco maços de cigarros e três garrafas de whiskey Old Harper. está bem?» Noel observa-o a empurrar as notas pela abertura da janela. Sabe. — Deixa-me adivinhar — diz Noel. Ela não fica contente. O que ele não sabe é que Marguerite. o que fazia com que o viaduto estivesse. Vira à direita em Lester Street. deserto. não estava deserto. a observar. a única coisa que a preocupa é tirar Eddie da pista de corridas. ao longo de Ocean 136 Parkway. estica o braço que segura na garrafa e escolhe a faixa da direita. — Não podes continuar a comportar-te dessa maneira. e quer pedir-lhe desculpa. — Vou telefonar-lhe. Mas. Marguerite pensa em tudo menos em olhar para cima. em segunda mão. nessa noite. não vai. O primeiro deixa cair a garrafa e escondem-se por trás da chapa metálica. estão a morrer de tédio e balouçam as garrafas vazias por cima do corrimão enferrujado. Ele diz —le ara ela parar de lhe dar ordens. que costumava ser a via de acesso à pista: os clientes subiam as escadas. — É louco.

andava entretido. o amor seca à superfície e alimenta-nos por baixo. Eddie retorquiu: — Uma criança não sabe o que é ser velho. trabalhando descalço na água. contra o tabliê e o volante. De manhã. Eddie afundou-se em trabalho. no instante em que a garrafa de whiskey Old Harper se estilhaça contra o seu pára-brisas. tornou-se extremamente popular. Não ouve o som de retirada dos ténis de sola de borracha a correrem pelo viaduto de Lester Street e a fugirem pela noite dentro. porque tudo lhes pesava. a sua ferida sarou lentamente e o seu companheirismo preencheu o espaço que estavam a guardar um para o outro. 138 O amor. Eddie nunca mais voltou a apostar nas corridas de cavalos. Bullock. falavam de coisas triviais. para espanto de Eddie. A sombra ocupava o seu lugar à mesa e comia na presença deles. mantendo-se a si mesmo vivo. Um parque de diversões da Califórnia apresentou os primeiros trilhos tubulares feitos de aço — contorcidos em ângulos profundos. ela fazia-lhe café e torradas e ele deixava-a na casa onde ela fazia . o proprietário do parque. Ficou confinada a uma cama durante quase seis meses. O carro guina para a divisória de betão. ela é arremessada contra a porta. O Sr. Não ouve as buzinadelas frenéticas. Com o passar do tempo. por entre o solitário tilintar de garfos e pratos. A criança que esperavam foi entregue à guarda de outro casal. de repente. pode alimentar-nos vindo do céu. encomendara um modelo de aço para Ruby Pier e Eddie supervisionou a sua construção. E. uma noite. marido e mulher recomeçaram a falar e. Mas. embora nunca tivessem chegado a receber uma criança em sua casa. A subsequente culpa implícita nunca encontrou refúgio — moviase simplesmente como uma sombra entre marido e mulher. que perde a noção dos ruídos nocturnos que a rodeiam. Uns anos depois. voltaram a estar na moda. no fim. e. A água do seu amor estava escondida por baixo das raízes. uns barcos feitos de troncos. Não ouve a chiadeira de pneus dos outros automóveis. as montanhas-russas. quando o mar ficava a apenas trezentos metros dali. Passaram-se anos. Marguerite remeteu-se ao silêncio durante muito tempo. por vezes. sob o calor enraivecido da vida. que agora os miúdos consideravam piroso. mas os custos e a demora impediram-nos de avançar com o processo de adopção. através das raízes. numa explosão de vidros partidos. Fosse como fosse. apesar disso. construíram uma atracção nova.pensar em que parte das bancadas o há-de procurar. Berrava com os trabalhadores. As suas visitas à pista com Noel acabaram gradualmente. Não confiava em nada que fosse tão veloz. à semelhança da chuva. Eddie não percebia porque é que as pessoas gostavam tanto de se molhar. para se certificar de que os barcos nunca se soltavam dos trilhos. numa grande piscina. Ângulos de sessenta graus? De certeza que alguém ia acabar por se magoar. estamos demasiado velhos. zelou pela sua manutenção. Mas. parte um braço e bate com a cabeça com tanta força. O acidente em Lester Street fez com que Marguerite fosse parar ao hospital. ensopando os casais com a sua alegria molhada. O mesmo aconteceu à atracção chamada Isqueiro. O seu fígado lesado acabou por recuperar. ambos incapazes de conversar ao pequeno-almoço. O corpo dela é atirado como se fosse o de uma 137 boneca. E ao Túnel do Amor. 139 O palco da orquestra foi deitado abaixo. impossíveis de conseguir em madeira — e. que praticamente haviam caído no esquecimento. Eddie até mencionou o tema da adopção. Os clientes flutuavam ao longo de canais de água e despenhavam-se. Quando falavam. perfura o fígado. inspeccionando o mais pequeno gesto que eles faziam. Marguerite esfregou a testa e disse: — Agora.

e regressava ao parque. Ficou parada. Eddie disse que as raparigas tinham sorte. A seguir. ela estava a passar filetes de frango por pão ralado e ovo. a verificar os cavalos do carrossel e as conchas pintadas de amarelo. começou a ver tudo a andar à roda. Comprara costeletas de borrego na véspera e. Por vezes. agradeceu a Eddie do fundo do coração e observou o seu nariz adunco 140 e os maxilares largos. deram por si a passear à beira-mar. Numa noite de Julho. Eddie ajudou-a a subir as escadas e pendurou o casaco dela no cabide. os pés descalços a afundarem-se na areia. As águas do seu amor tornaram a chover do céu e encharcaram-nos com a mesma certeza com que o mar lhes lambia os pés. Queria cozinhar. enquanto Marguerite dava uma volta pela casa. acompanhando-o nas suas rondas. com tratamentos mais dolorosos que a doença. O pedaço de frango escorregou-lhe da mão e caiu para a pia. Não fechavam. porque. — Eddie? — chamou. Comeram puré de batata pré-preparado e bolachas de manteiga e caramelo e. Três anos depois. Era. Fez mais afirmações do que perguntas. um tumor cerebral e o declínio de Marguerite seria como o de tantas outras pessoas. a maneira de eles serem simpáticos enquanto impotentes e. já ela estava desmaiada no chão. sem qualquer aviso. Esticaram-se para trás. ela pediu para lhe darem alta do hospital. qual dos médicos estaria de serviço. ela saía mais cedo e fazia o caminho a pé com ele. quando o cancro foi anunciado vencedor. Falaram em frases curtas. os dedos da sua mão direita abriram-se incontrolavelmente. nessa noite. quando ele chegou a casa. quando um deles sugeriu «pôr as suas coisas em ordem». leve a sua vida com calma. como se os seus acenos fossem medicamentos ministrados em gotas. ela acordou aos gritos. Marguerite fez um comentário sobre os biquinis que as raparigas usavam agora e como nunca teria coragem de vestir uma coisa daquelas. Ela percebeu que era o protocolo. o cabelo a cair às mãos-cheias. a comer chupa-chupas de uvas. Nos derradeiros dias. à tarde. enquanto Eddie lhe explicava tudo sobre rotores e cabos e ouvia o zumbido dos motores. como se aquele jantar fosse uma festa para celebrar um regresso a casa e não uma despedida. cheios de compaixão. Dois dias depois. mas. a maior parte dos quais cumprimentou a pálida Marguerite com frases do género: «Vejam só quem cá está!». porque Marguerite dizia que lhe lembrava o tempo em que eram miúdos e gostava de ver o velho carrossel pela janela.limpezas. manhãs ligada a máquinas ruidosas de radiações e tardes passadas a vomitar numa casa de banho de hospital. a quem deveria Eddie telefonar. quando Marguerite terminou um segundo copo de vinho. alguém a segurar num grande frasco invisível. eles acenavam com a cabeça. se ela o fizesse. a mesma casa onde moravam há tantos anos. Eddie pegou na garrafa e serviu-lhe uma terceira dose. pela marginal. Ela tinha o braço a latejar. Subitamente. A sua respiração acelerou. na cozinha de sua casa. a olhar para aquela mão de dedos presos que parecia pertencer a outra pessoa qualquer. por um instante. Ele levou-a para o hospital. muito tempo depois da morte da mãe de Eddie. E . no silêncio da madrugada. Olharam em volta e perceberam que eram as pessoas mais velhas da praia. andou atarefado como uma abelha a gerir um jantar para vários amigos e colegas convidados.» Quando ela fazia perguntas. nenhum homem olharia para qualquer outra mulher. mas ele obrigou-a a sentar-se e ferveu água para preparar um 141 chá. disseram os médicos. E. embora naquela época Marguerite já andasse na casa dos quarenta e tivesse as coxas mais grossas e uma teia de pequenas rugas à volta dos olhos. os médicos disseram apenas: «Descanse.

Pararam no parque de estacionamento e Eddie desligou o motor. a corrente de ar lá fora. Ele contou a história do Homem Azul. o clanque da maçaneta da porta. Mas. Ouvia todos os sons. numa voz rouca. 142 — Vê-se daqui — disse ela. e falou sobre o Capitão e a sua história de sacrifício. pensando melhor. Numa cerimónia sueca. Numa cerimónia ao ar livre numa aldeia libanesa. Eddie sentia-a em tudo. Eddie falou sobre as mudanças que haviam ocorrido em Ruby Pier — as antigas atracções tinham sido desmanteladas. estava tudo demasiado sossegado e silencioso.embora ela estivesse sentada ao lado dele. sem pôr do Sol nem marés vivas. a sua voz parecia ainda mais ténue quando voltou a falar. Marguerite lembrou as muitas noites que ele passara furioso com o pai. inexpressivo. — Eu tenho o cartão. Os cabelos voavam-lhe para o rosto. Ela tinha os ombros puxados para o queixo. como se aquela inspiração lhe tivesse sido penosa. Ela fungou e levantou os olhos para o horizonte. sim — apressou-se ele a responder. — O cartão. ao mesmo tempo. Marguerite tinha quarenta e sete anos. os seus pés no chão. no volante. sem refeições nem horários. Abriu a porta dela e ajudou-a a sair do automóvel. porque é que algumas pessoas morrem e outras vivem. e ela disse que isso a deixava contente. Eddie disse-lhe que tinha feito as pazes com o pai e ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca num sorriso. o simples acto de fazer a sua mulher feliz. como uma criança enregelada. Quando mencionou o pai. o tilintar das chaves. no pestanejar dos seus olhos. Eddie tinha a sensação de que não passara mais do que um punhado de horas com qualquer uma das pessoas que encontrara. — repetiu ele. era como ver . Numa cerimónia russa. ela perguntou-lhe se ele tinha mantido a antiga casa e ele disse que sim. com carrinhos vermelhos pendurados como decorações de uma árvore de Natal. as corridas «no escuro». Transpuseram as portas dos vários casamentos e falaram de tudo o que desejavam falar. sem dormir nem acordar. no pedal do acelerador. Eddie contou-lhe que o seu irmão Joe morrera há dez anos. estupefacto com o seu silêncio. — A nossa casa. estavam agora cheias de ecrãs de vídeo. e Eddie sentiu aquela antiga sensação de calor que lhe faltara durante tantos anos. Como ainda não dormira no Céu. Ela inspirou fundo e fechou os olhos. Subitamente. apenas um mês depois de ter comprado um novo apartamento na Florida. Fez sinal a Eddie e apontou para o cimo distante de uma atracção do parque de diversões. a velha melodia suave da galeria de jogos fora substituída por um ruidoso rock’n’roll.. o ranger do seu corpo no banco de cabedal. ele falou sobre o que lhe acontecera ali no Céu e ela pareceu ouvir e. que antigamente tinham recortes de 143 cowboys pintados com tinta reluzente.. Uma noite. Ela desviou os olhos. — A roda-gigante? — perguntou ele. no seu pigarrear. de um ataque cardíaco. já saber. — Do seguro — disse ela. — Ah. Todos os gestos que ele fazia eram uma maneira de se agarrar a ela. tudo o que Eddie queria era tempo — mais e mais tempo — e foi-lho concedido. noites e dias e mais noites. como é que ele havia de saber ao certo? Em relação a Marguerite. — Tens o cartão? — perguntou ela. as montanhas-russas tinham agora voltas em parafuso e carrinhos que ficavam pendurados de cabeça para baixo nos trilhos.

144 A quarta lição Por fim. quando regressavam a casa. — Perdi-me — disse ele. O meu pai. Quem amará. mas dando a sensação de se afastar. depois da guerra. Voltaram ao pequeno quarto redondo. Ele agachou-se lentamente. — Tiveste de viver sem amor durante muitos anos. Dela. — Eu devia ter ido trabalhar para outro lugar — confessou ele. depois de longas conversas. — Houve uma razão — disse ela. mas não o seu. O vestido cor de alfazema de Marguerite estava estendido diante dele. os dois deitavam-se juntos. — Está bem. Agora chamavam-se todas Tempestade. quando as pessoas adormeciam. — Sim — sussurrou ele e ela não acrescentou mais nada. Marguerite conduziu Eddie por outra porta. Explicou-lhe os nomes novos. ali no Céu. Ela sentou-se num banco e uniu as mãos. Ele viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto dela. Tinhas quarenta e sete anos. Ela lançou-lhe um olhar repreensivo. — Como é que pode ter havido uma razão? Morreste. — Não — retorquiu a sua mulher. — É aqui que a noiva espera — disse ela. Eddie. Top Gun e Vórtice. — Que razão? — replicou ele. Já não havia as montanhas-russas Ursa Maior ou as Tartarugas. — É este o momento em que pensa no que está a fazer. Se estiver certo. não é? — perguntou Eddie. — Desculpa-me por nunca termos saído daqui. Eras a melhor 145 . Lembrou-se dos guardas. melancólica — a descrição do Verão de outra pessoa qualquer. Por vezes. não havia razão para esses sonhos. Em vez de dormir.televisão o tempo todo. Os soldados. Virou-se para o espelho e Eddie reparou no reflexo. A dada altura. perguntou-lhe se Deus sabia que ele ali estava. — Parece — respondeu ela. — Sentiste que te foi roubado. Quem escolhe. Lembrou-se do sangue nas suas mãos. disse Marguerite. absorvendo a sua imagem. Lembrou-se dos homens que matara. faziam o que tinham a fazer e não falavam no assunto. Mas não dormiam. não tiveste? Eddie ficou calado. Contorcionista. Eddie abraçava-a e cheirava os cabelos dela e inspirava fundo com a cabeça enterrada no pescoço de Marguerite. — Durante a guerra. Mas. — O que é que aconteceu? — perguntou ela. Ela virou-se para ele. às vezes sonhavam com o Céu e esses sonhos ajudavam a formálo. Perguntou-se se algum dia seria perdoado. passando os dedos pelos cabelos. fiquei. — Ficaste zangado comigo. Ficara sempre implícito. — Tu partiste demasiado cedo — disse ele. que eu te abandonei demasiado cedo. Ele nunca lhe contara. no tempo de Eddie. — É estranho. Ela sorriu e disse: — Claro que sabe — mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte da sua vida a esconderse de Deus e o resto do tempo convencido de que Lhe passava despercebido. este pode ser um momento maravilhoso. agora. — Não. Eddie percebeu que era precisamente isso que sentia há anos. Na Terra. A minha perna. Senti-me sempre um inútil.

apercebendo-se agora de que. Perdi a única mulher que amei na vida. Eu estava aqui. — Sentia-o. lentamente. ignorando a perna. e Eddie pestanejou ao transpô-la atrás dela. no fundo. — Podes alterá-la? — Alterá-la? — Ela pareceu divertida. Agarramo-nos a ela. baixinho. Tratava-se de um quarto imerso na penumbra. Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo Eu não queria fazê-lo. com cadeiras de armar e um acordeonista sentado a um canto.pessoa que qualquer um de nós conhecia e morreste e perdeste tudo. — Eu sei — disse ela. — Eu sei. 146 — Como é que estás com a mesma aparência do dia em que casei contigo? — Achei que ias gostar. Ela levantou-se e abriu uma porta. Ela entoou a melodia ao ouvido de Eddie e começaram a mover-se juntos. — Continuava apaixonado por ti. aproximou-se dela. ou mexer-lhe nos cabelos. Mas quando esses sentidos enfraquecem. há outro que se sublima. A vida tem um fim — rematou Marguerite. Apenas assume uma forma diferente. E. — Só faltam — sussurrou Marguerite. como que a dizer que não era verdade. pela primeira vez no Céu. — Posso perguntar-te uma coisa? — perguntou. eu não estava lá muito bonita.. Eddie abanou a cabeça. sorrindo. — Eu nunca quis outra pessoa — disse ele. Eddie lembrou-se dos anos depois de ter enterrado a sua mulher. — Estava a guardar este para último lugar — disse ela. — Mas o amor não. que até aqui o sentimos. Estendeu os braços. — No fim. ignorando todas as coisas terríveis que associava à dança. Eu perdi tudo. pousando a mão no ombro dele — os cartões do bingo. depois voltou para os braços dele. E continuaste a amar-me. — Não. Ele reflectiu por uns instantes. Estava ciente de outro tipo de vida lá fora. — Aqui? — perguntou ele. ou rodopiar com ela numa pista de dança. ele deu o primeiro passo. A memória torna-se nossa companheira. — Um amor perdido pode ter tanta força. Ela pegou nas mãos dele. Dançamos com ela. apesar de saber que nunca faria parte dele. não perdeste. Não conseguimos ver o sorriso da pessoa amada. Eddie. — Podes. ou levar-lhe comida. O amor perdido não deixa de ser amor. Era como espreitar por cima de uma cerca. — Ela fez um sinal de assentimento. A memória. Alimenta-nos.. não passavam de expressões da solidão. — E queres que a transforme em quê? — No aspecto que tinhas no fim. Fizeste-me amar-te E sempre soubeste . Ele sorriu e enlaçou-a pela cintura. à música e aos casamentos. — Importas-te? Ela deteve-se um instante. num ritmo recordado que um marido partilha somente com a sua mulher. Ela baixou os braços. — Inclusivamente aqui — respondeu ela. O homem do acordeão tocou as notas conhecidas.

como se ele voltasse no dia seguinte. Só conhecia o Eddie do trabalho. Meu Deus. o cabelo mais fino. ela tinha novamente quarenta e sete anos. do século passado. ela estava mais bonita do que nunca. — Hum — fez o homem.E sempre soubeste. Até à próxima quarta-feira. — Extractos bancários? Jóias? Dominguez imaginou Eddie a usar jóias e quase desatou a rir. não deve demorar muito. aos olhos dele. a observar tudo e todos como uma mãe-galinha. Via-se o antigo carrossel. Pode ver naquela coisa do quarto? — Na cómoda? — Sim. assentiu discretamente com a cabeça. O zelador do prédio dera-lhes a chave e um prazo. Tirou o chapéu — estava abafado e ele suava — e observou os números que se iluminavam no painel de latão.. juntamente com tudo o resto. Nada de extractos bancários. limpando a testa com um lenço. Ela sorriu e ele sorriu e. — Papelada financeira? — pediu o homem. a pele mais flácida por baixo do queixo.. Nada de apólices de seguros. As bancas limpas. Apenas um laço preto. pensou para consigo. Quando ele afastou a cabeça. Quero ficar aqui. um velho baralho de cartas. O elevador parou com um salto e a porta abriu-se. O advogado abriu a gaveta de cima da cómoda. — Uau! — exclamou Dominguez. empilhadas pelos elásticos. O átrio ainda tinha os antigos mosaicos em xadrez preto e branco dos anos sessenta e cheirava a comida — alho e batatas fritas. Uma portinhola interior alinhada com uma portinhola exterior. Nada de importante. viu o átrio desaparecer. — O Eddie tinha poucas coisas — disse Dominguez. 147 SEXTA-FEIRA. mas ela desaparecera. os seus braços ainda estavam moldados ao corpo dela. onde estavam. novamente com estrondo. o quão estranho era não o ter no parque.. Queria a casa vazia para um novo inquilino. — Está muito arrumado. uma coisa com ar sério. a gritar ordens. todas cuidadosamente dobradas.. para um velhote. É que eu próprio só cá vim uma vez. Ninguém tivera coragem. Consultou o relógio. e Eddie fechou os olhos e disse pela primeira vez o que sentia desde que voltara a vê-la: — Não quero avançar. um advogado do ramo imobiliário. — O lava-louças estava lavado. Enfiado debaixo delas estava uma velha caixa de cabedal. o quê?. uma dentro da outra. Por falar em trabalho. uma ementa de um restaurante chinês. através do vidro martelado.. Empurrou os pares de meias para o lado. Quando abriu os olhos. Mais um e podia ir para casa jantar. e eles viraram-se para o apartamento 6B. Ainda nem sequer tinham esvaziado o seu 148 cacifo. com a teia de finas rugas aos cantos dos olhos. — Nesse caso. Dominguez debruçou-se sobre a mesa e espreitou pela janela da cozinha. assim que abriu a porta e entrou na cozinha. — Nem acredito que este elevador ainda funciona — comentou Dominguez. — Deve ser. O homem ao seu lado. 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE Dominguez carregou no botão do elevador e a porta fechou-se com estrondo. Deixaram os pertences dele na oficina. A cabina subiu e. na esperança de encontrar logo a papelada. fingindo-se interessado. Abriu-a. Apercebeu-se das saudades que tinha do velhote. a sua casa nunca estava assim tão arrumada. Era o seu terceiro compromisso do dia. Franziu a testa. — Não sei. .

Era. é disto que precisa? Apareceu com um maço de envelopes tirados de uma gaveta da cozinha. . O advogado folheou-os e. Nem terra. Cerrou os maxilares. como se todos os fluidos tivessem sido arrancados de dentro de si. de lhe acenar ou sequer de contemplar o seu retrato. outros da Administração de Veteranos. 149 A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu Branco. Aos pés de Eddie. Podia ali ter ficado um dia ou um mês. como um alarme imparável. meio minuto. só mais um minuto. até que Eddie gritou para a brancura asfixiante: — O que foi? O que é que queres? Assim que proferiu estas palavras. Expirou e ouviu outra expiração. juntou-se uma segunda camada de barulho. só havia branco. Já estivera em quatro recantos do Céu. Ele queria-a desesperadamente. Depois. da cozinha —. ao fundo. tão silencioso como um forte nevão ao raiar do dia mais sereno do mundo. melhor do que acabar como aquele pobre coitado. pressentiu que agora se tratava de algo completamente diferente. As suas pernas nuas mostravam os sinais vermelhos da zona que o atacara nas suas derradeiras semanas na Terra. mais alto agora. — Ei — chamou Dominguez. o seu corpo estava próximo do fim. um troar livre e incessante — o som de um rio a correr — e a brancura reduziu-se a um ponto de luz.um envelope com uma medalha do exército e uma Polaroid esbatida de um homem junto de um bolo de aniversário. Só à chegada de um pequeno mas insistente ruído é que ele se mexeu. seguida pelo eco dessa mesma respiração. Tudo o que ouvia era a sua própria respiração ofegante. mas continuou. como se assim pudesse acabar com o barulho. Desviou o olhar da sua decadência crescente. mais cinco segundos. rodeado de crianças. com o instinto de defesa de uma vida inteira. mas não havia maneira de a alcançar. mas descobriu que a sua mão direita estava a segurar numa bengala. cerrou os punhos. nem céu. disse: — Isto chega. de a chamar. títulos e plano-poupança reforma. Branco era tudo o que Eddie via. Os seus braços encontravam-se salpicados de manchas de velhice. saíra da sua própria garganta quando tentara falar. Agora. que reflectia as ondas cintilantes. Ouviu novamente o som. a ele. um ondular estridente de guinchos e quietude irregulares. no vazio. nem horizonte entre os dois. Quando vivo. no final. sem levantar os olhos. o som estridente deslocou-se para o fundo e. sem dúvida. Eddie ouvira esse som nos seus pesadelos e estremeceu ao evocar a recordação: a aldeia. como se suspenso num cabide. o incêndio. como tantas vezes acontecia nesse tipo de visitas. já encontrara quatro pessoas e. congratulou-se silenciosamente pela sua própria carteira de acções. com pouco mais para apresentar além de uma cozinha arrumada. Ficou pendurado. e Eddie sabia. inerte e sem vida. e Eddie. O silêncio é pior quando sabemos que não vai ser quebrado. alguns de um banco da zona. As unhas eram pequenas e amareladas. Podia ter sido um século. levantou pesadamente as pálpebras. Apenas um branco imaculado e silencioso. — Retirou um extracto bancário e tomou mentalmente nota do saldo. Não tinha impulsos. A sua alma estava vazia. Em termos terrenos. Inspirou fundo e ouviu uma inspiração ainda mais forte. aquela cacofonia chiante que. Eddie fechou os olhos com força. A sua mulher fora-se embora. Smitty e aquele barulho. embora cada uma tivesse sido intrigante no início. Sentiu-se como se tivesse caído por umas escadas abaixo e estivesse amachucado. 150 O ruído voltou a fazer-se ouvir.

Nada de convidados. 151 Não havia adultos. outros a nadar. um sábado. Vê-o flutuar. quando nos sentimos uma pessoa vulgar. retorquia ela. aparentemente a supervisionarem-se umas às outras. sentiu um súbito sopro de vento nas costas e foi empurrado para a frente e colocado de pé. o seu joelho ferido a ceder sob o seu peso. Abre o saco de papel pardo que contém o almoço e arranca um pedaço de salsicha de uma sanduíche. Prende-o a um anzol e deita a linha pelo buraco de pesca. aquele rangido tamborilante. Estas eram. Um sábado. sozinho lá no alto. uma segunda-feira. Fez-lhe sinal com as duas mãozinhas. Suspira e retira um placard da . Eddie diz «ah sim?» pelo menos cinquenta vezes. e a palidez da rendição torna-se a cor dos dias de Eddie. as pernas a fraquejarem. que não há nenhum intruso dentro de casa. milhares de crianças a brincar. Coloca os óculos e examina os relatórios da manutenção. Eddie tenta esquecer a data. prende-se com uma corda a uma curva da montanha-russa. Prepara um café instantâneo num copo de papel e come dois pedaços de tosta com margarina. Ela voltou a acenar e fez que sim com a cabeça. pensou. No emprego. aquele assobiar. Agora que ela partiu. Chega bem cedo à oficina. destacada das outras crianças. enquanto descia a encosta. Eddie rejeitava toda e qualquer festa de aniversário. E foi então que os olhos de Eddie pousaram num rochedo branco. em cima da rocha. todas elas. Durante todo aquele tempo? Porquê? Observou aqueles seres pequeninos. O telefone toca. A sua bengala tocou em qualquer coisa sólida. desaparece. Joe deseja-lhe feliz aniversário. A noite. a mergulhar no rio e a gritar de riso inocente. Por fim. Escorregou. Nem sequer adolescentes. Joe fala sobre o condomínio de apartamentos. outros a rebolarem na erva alta. onde soprava uma brisa no seu rosto e uma neblina humedeceu a sua pele. com a pele da cor de madeira escura. ao fundo da colina. Comprava sempre um saquinho de doces e atava-o com uma fita. e ali estava ele. virada para ele. engolido pelo mar. Nunca é difícil agir como uma pessoa vulgar. alguns com baldes nas mãos. o irmão. Olhou para baixo e viu. Era com isto que eu sonhava?. Nada de bolo. Reparou também noutra coisa. Espalha os comprimidos em cima da banca. destituída das brigas habituais entre crianças. Vai para a cama cedo. Estava no cimo de uma das margens. crianças pequenas. O som. Faz setenta e cinco anos. Ele hesitou. vê televisão em casa. «Não podes abdicar do teu dia de anos». Faz sessenta e oito anos. alguns a saltar. como um alpinista. a ligar da Florida. Reparou que havia uma certa tranquilidade naquela cena. aquela gritaria. a acenar-lhe. 152 Hoje é o aniversário de Eddie Faz cinquenta e um anos. a fonte daqueles gritos assombradores e foi inundado pelo alívio de um homem que descobre. tu. parado diante da menina como se ali tivesse estado o tempo todo. Convidava amigos. dizendo: «Por que é que me têm de lembrar esse dia?» Era Marguerite quem insistia. Ela sorriu. Nos anos que se seguiram ao acidente da mulher.apareceu o solo. como quem diz: Sim. Fazia um bolo. era apenas a cacofonia de vozes infantis. é uma quarta-feira. Mas. no rio. É Joe. Joe fala sobre o neto. Faz sessenta anos. Repara que alguém falhou um turno na noite anterior e que os travões da Aventura da Minhoca Contorcionista não foram testados. É o seu primeiro aniversário sem Marguerite. Uma menina esguia estava em pé. antes de tocar o solo. agarrado ao taco de basebol. Eddie baixou a bengala para se apoiar. muito direitinho.

Visita a sepultura da mãe e a sepultura do irmão e detém-se junto da sepultura do pai durante uns instantes apenas. na voz desta. — Tala — repetiu Eddie. . puxando a bengala para dentro do automóvel. — Importa-se? — pergunta Eddie. Apoia-se na bengala e olha para a pedra tumular e pensa em tantas coisas. a seguir as conchas do mar iridiscentes aos seus pés — "capiz" —. — Inas? — repetiu Eddie. Eddie olha em frente. 154 A última lição A menina parecia asiática.153 parede — ATRACÇÃO TEMPORARIAMENTE ENCERRADA PARA MANUTENÇÃO —. depois um tapete de bambu entrelaçado — "banig" — que se encontrava diante dela. Eddie observou um miúdo a esfregar uma pedra no corpo de outro. — Mães — respondeu ela. há dois anos. com as pernas cruzadas por baixo das nádegas. mas podia comê-los na mesma. dos braços. excitada. Continuaram a mergulhar. assim. Depois. até Eddie dar mais um passo em frente. uma bonita tez de canela. Ela sorriu como se tivesse começado um jogo. — Baro. Caramelos. pretos como a pele de uma foca. O motorista encolhe os ombros. — Estão a lavar-se — disse a menina. os seus sapatos tipo socas — "bakya" —. altura que aproveitou para se apresentar. cabelos da cor de uma ameixa escura. não detectava a hesitação habitual em relação aos adultos. mas. com um pontinho branco a servir de pupila. agora. com as mãos sobre o peito. uma terça-feira. guarda a da mulher para último lugar. não me importo. é como se fosse ele a conduzir e não conduz desde que lhe retiraram a carta de condução. talvez com uns cinco ou seis anos. Pensa em caramelos. ao longo das costas. — Não. lábios carnudos que se abriam alegremente sobre os seus dentes afastados e uns olhos extraordinariamente cativantes. onde verifica ele próprio os painéis dos travões. Fez sinal a Eddie para ele se sentar no tapete e ela fez o mesmo. se isso significasse comê-los na companhia dela. — Como as nossas inas costumavam fazer. Não explica que. um narizito chato. — Saya. Eddie ouvira muitas crianças na sua vida. Faz oitenta e dois anos. — A maior parte das pessoas prefere ir no banco de trás — diz o motorista. depois leva-o para a entrada da Minhoca. Perguntou-se se ela e os outros miúdos teriam escolhido aquele Céu ribeirinho. — Baro — disse ela. Ela tocou no tecido encarnado que lhe envolvia o tronco e as pernas. Pensa que lhe arrancariam os dentes. Apontou para a sua blusa bordada. O táxi leva-o ao cemitério. anunciando o seu nome. Um táxi pára à entrada do parque de diversões. — Tala — disse ela. — Saya. Senta-se no banco da frente. Ela sorriu e bateu as palmas. 155 Nenhuma das outras crianças pareceu reparar nele. Como habitualmente. a nadar e a apanhar seixos do leito do rio. folgada nos ombros e molhada com a água do rio.

merecia cada um deles.. Ela pôs-se de joelhos para observar o procedimento. como a de uma criança a recitar uma lição de cor. — Soldado. a sombra. no parque.. — De que estavas. — Estavas nas Filipinas. Olhou para os olhos negros e profundos dela e tentou sorrir. Seguro. Eddie sentiu o maxilar contrair-se. cão. O Capitão.. A ina disse que lá era seguro. naquela cabana. um uivo ergueu-se dentro dele numa voz que nunca ouvira antes. A escuridão que o assombrara durante aqueles anos todos estava finalmente a revelar-se. esta criança. como se fosse um medicamento de que a criança necessitasse. esta linda criança. chorou e gemeu. um uivo que revolveu a água do rio e abalou o ar enevoado do Céu. — Sundalong — disse ela. queimara-a até à morte. Fazes-me fogo. Eddie engoliu em seco. Ela pegou no cão e sorriu — um sorriso que Eddie vira milhares de vezes. Eddie sentiu um martelo a bater-lhe por detrás dos olhos. 156 — Sundalong? Ela levantou os olhos. Ela retribuiu o sorriso. Tirou-os do bolso e retorceu-os um no outro.. até o uivo ceder lugar a uma espécie de oração. Eddie baixou a voz. Os seus ombros e pulmões cederam. dadas as suas memórias tão curtas. A sua cabeça começou a latejar.. — Queimas-me — respondeu ela. frenética. — Tala.. — Estás a ver? É um. — Queimas-me. aquela paisagem serena fora escolhida para elas. de um lado para o outro. um uivo saído das suas entranhas.. — A minha ina diz para esperar dentro da nipa. Eddie sentiu a palavra como uma faca na boca. Morton. sorrindo perante o seu próprio nome. A minha ina diz para esconder. Soldados. de carne e osso. — . Esperar por ela. A seguir. — Gostas? — perguntou ele. — Isto? — perguntou ele. os pesadelos que sofrera. — Porque é que estás aqui no Céu? Ela baixou o cão de borracha. — Ela encolheu os ombros estreitos. Explosões... Depois. a esconder-te. Tala? Ela palpou o cão de borracha. — Não é seguro. um grande barulho.. Fazes-me fogo. — Tala — disse ela. O seu rosto desfigurou-se e ele enterrou-o nas mãos.ou se. Queimas-me. de facto. pronunciando as palavras lentamente. como costumava fazer nos seus tempos. O seu corpo entrou em convulsões e a sua cabeça abanou. — O que é que disseste? — Queimas-me. qualquer coisa! A sombra nas chamas! Matara-a com as suas próprias mãos! Com as suas mãos incendiárias! Uma torrente de lágrimas escorreu-lhe por entre os dedos e a sua alma entrou em queda livre. Ele baixou os olhos... as palavras expelidas numa maré ofegante de confissões: 157 . As mãos dele tremiam. Vira. Os lança-chamas. Smitty. era real... Passaram-lhe imagens pela cabeça. As suas mãos tremiam-lhe. A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. depois mergulhou-o na água. — A nipa. Grande incêndio. A voz dela era inexpressiva. Arames para limpar cachimbos. mas isso fez com que ele se fosse abaixo. — Eddie terminou a última volta. — sussurrou ele. ele matara-a. A sua respiração acelerou.

Tala observou-a da mesma maneira que uma criança observa um insecto na relva. quando a sua angústia abrandou. um último soluço vago.. Esticou cinco dedos. Quando ela se voltou. Eddie pegou nela com ternura e. elas soltaram-se da pele. MEU DEUS. Entrou na água e virou as costas para Eddie. Ela abanou a cabeça a dizer que não. num murmúrio: — Perdoa-me — e a seguir: — PERDOAME. a testa e a pele por trás das orelhas. Eddie soluçou. — Aqui? Ela apontou para baixo. — Estava triste. Eddie arrastou-se para o rio. virou a pedra ao contrário e esfregou as costas ossudas. Não fui nada. — Lava-me — disse ela novamente. até o choro perder força e se reduzir a um estremecimento. Os lábios caídos. diante da menina de cabelos escuros. Depois. — murmurou num fiozinho de voz. Fez o mesmo com os lábios 158 descaídos e com as crostas da cabeça. a nuca e finalmente as faces. Eddie baixou o braço e estremeceu em curtas inspirações ofegantes. ao Capitão.. balouçou o corpo silenciosamente para trás e para a frente. — Lava-me — disse ela. ah sim?. — Cinco. a Ruby. A pele dela estava horrivelmente queimada. Esfregou com mais força. com bolhas. como que a explicar os teus cinco. . Eddie sentiu baterem-lhe ao de leve no ombro.. Depois. Tens cinco anos?. Chorou e chorou. o seu rosto belíssimo e inocente estava coberto de cicatrizes grotescas. A tua quinta pessoa. Soprava uma brisa quente. Sentia que não devia estar vivo. Perdi-me. Baixara todas as suas defesas. até os cabelos cor de ameixa despontarem das raízes e o rosto que ele vira inicialmente voltar a aparecer. carbonizados. ao Homem Azul e. Ele retraiu-se.. porque não aproveitei a minha vida. de braço estendido e um seixo na mão. os pontinhos brancos cintilaram como faróis.. Depois. O cabelo aos tufos. a si próprio. Depois. como se o seu peito estivesse vazio.. Estava ajoelhado num tapete.. Disse o que sempre dissera a Marguerite.. — Porque é que estou triste? — sussurrou ele. lentamente.. O seu torso e os ombros estreitos estavam pretos. empurrou-os contra o peito de Eddie. entre as crostas manchadas. O QUE FOI QUE EU FIZ?. já não havia lugar para uma conversa adulto-criança. OH. — Nunca tive filhos. por fim: — O que foi que eu fiz. — Devias estar vivo. — Não sei como. Uma lágrima rolou pela face de Eddie. A dada altura. de olhos fechados como se estivesse a dormir uma sesta. estendendo-lhe o seixo. Apenas um olho aberto. Ela levantou a mão queimada. — e. os pequeninos ombros.. EU MATEI-TE — depois. Não conquistei nada... Levantou os olhos e deparou-se com Tala. Quando ela reabriu os olhos. falou por entre a distância que existia entre eles. Tala tirou o cão feito de arames de dentro da água.. retirou o baro bordado pela cabeça. lá — disse ela. Pegou na pedra.— Matei-te. acima de tudo. Os seus dedos tremiam. — Lá. que brincava com o seu animal feito de arames na margem de um rio. Redobrou os seus esforços até a pele carbonizada cair e ver-se a pele saudável. passou o seixo pelo braço dela. até as cicatrizes começarem a desfazer-se.. — Porquê triste? — perguntou ela. apoiando a cabeça no peito dele. Ela encostou-se a ele.. Depois. nos pontos onde o crânio não ficara queimado. Ele passou o seixo com cuidado à volta das pálpebras.. — Sou cinco — segredou ela.

Sentiu a sua forma derreter. Tu salvas a menina. — É a única coisa de que me lembro. Ali estava o final da sua história. de calções. todas as cicatrizes. Senti as mãos dela. Eu trazer-te para o Céu. Puxar não. Antes que ele pudesse voltar a inspirar. em negação. E dito isto. — Devias estar vivo lá — repetiu ela e. — A reparar máquinas? Era essa a minha vida? — Ele respirou longamente. — As minhas mãos. — Salvas as crianças. Não podia tê-la empurrado. uma folha na água. — Empurrar — disse Tala. dissolver-se. — Empurrar? — Empurrar as pernas. Agora não era nada. O carrinho caiu. engolindo a cintura de Eddie. durante aquele tempo todo. o barulho 160 das crianças desapareceu e ele foi submerso por uma forte mas silenciosa corrente. Empurrar. Eddie estremeceu. crianças que ainda não tinham nascido. crianças do passado e do presente. todas as más recordações. — As mãos dela não — disse Tala. de mãos dadas. — Porquê? Ela inclinou a cabeça para o lado. enchendo a marginal e as atracções do parque e as . Deixou cair a cabeça. Ela conduziu-o por entre as ondas de um vasto mar cinzento e ele emergiu. Tala sorriu e. como se a resposta fosse óbvia. Ele soube de imediato que já ali estivera antes. — Puxar não. lado a lado. Eddie levantou os olhos. pais. — Salvei-a? Consegui puxá-la? Tala abanou a cabeça. — Tala? — sussurrou. acima de uma cena quase inimaginável: Havia um parque cheio de milhares de pessoas. depois pousou os dedinhos molhados nas mãos adultas de Eddie. e Eddie percebeu que todas aquelas cores. Pronto. Fazes-me bem. e pressentiu que não lhe restava muito tempo. por baixo da superfície. o rio subiu rapidamente. Eu salvo-te. mas sentiu o seu corpo ser levado da sua alma. tirou água do rio. mães e crianças — tantas crianças —. tocou na etiqueta da camisa dele com uma gargalhada e acrescentou duas palavras: — Eddie Ma-nu-ten-ção. — Crianças — disse ela. Eddie fechou os olhos. de barrete. encostadas umas às outras. As suas mãos ainda estavam entrelaçadas nas de Tala. todas as feridas. e ela puxou-o suavemente por entre sombras e luzes. Ela levantou os olhos.— Onde? Em Ruby Pier? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. — A menina do parque? Sabes o que lhe aconteceu? Tala olhou para as pontas dos dedos. com a mão em forma de concha. a carne arrancada dos ossos. Fez que sim com a cabeça. por entre tons de azul e marfim e limão e preto. rodeado de luz brilhante. o peito e os ombros. que o quer que surgisse depois das cinco pessoas que encontramos no Céu estava prestes a suceder. 159 Ela sacudiu o cão contra a camisa dele. homens e mulheres. e com o corpo desapareceram toda a dor e cansaço que ele acumulara dentro de si. — Mas eu senti as mãos dela — disse ele. Eddie deixou-se cair na corrente de água. representavam as emoções da sua vida. a seguir. As pedras da sua vida estavam agora todas à sua volta.

E quando acabaram as aulas e os dias se tornaram mais longos. Os proprietários ficaram satisfeitos. As estações sucederam-se. a casa onde crescera. flutuava acima da areia. A casa de Eddie. e finalmente obtivesse respostas para as suas perguntas: porque é que viveu e qual o objectivo da sua vida. Marguerite. onde se vangloriava perante os amigos de que a sua bisavó era a mulher que dera o nome ao parque de diversões. no colo umas das outras. E nessa fila encontra-se agora um velhote de bigodes. 161 Epílogo O parque de diversões de Ruby Pier reabriu três dias depois do acidente. directora . estava uma mulher de vestido amarelo — a sua mulher. e sentiu-se inundado por uma paz que nunca antes sentira. A atracção chamada Queda Livre foi encerrada durante o resto da temporada. a balouçar suavemente. mas suficientemente grande. que uma menina chamada Amy ou Annie crescesse e amasse e envelhecesse e morresse. à espera num lugar chamado a Concha da Banda do Estrelato. o jovem cuja chave cortara o cabo. 164 Agradecimentos O autor gostaria de agradecer a Vinnie Curci. juntamente com recordações de Ruby Pier. que aceitara ficar com o cargo de Eddie. as máquinas que reparara. com um barrete de linho e um nariz adunco. e que o mundo está cheio de histórias. à espera de braços abertos. tapando a vista do velho carrossel. Formavam-se filas em Ruby Pier — tal como se formava uma fila noutro lugar: cinco pessoas à espera. em cinco recordações escolhidas. onde num carrinho. Com a chegada do Verão. mas as histórias são todas uma só. Nicky. os acidentes que evitara. Dominguez. que colocou vidro fosco na janela da cozinha. acima da marginal. para partilhar a sua parte do segredo do Céu: que cada pessoa afecta outra e essa outra afecta outra ainda.plataformas de madeira. Eddie ouvia as suas vozes. A história da morte de Eddie saiu nos jornais durante uma semana. e Dana Wyatt. fez uma nova chave quando chegou a casa e vendeu o carro quatro meses depois. as voltas discretas que efectuara todos os dias. Voltou muitas vezes a Ruby Pier. depois outras histórias sobre outras mortes ocuparam o seu lugar. acima das tendas e das espirais da rua principal. graças às pequenas coisas mundanas que Eddie fizera na sua vida. Os adolescentes viam-na como um símbolo de coragem e eram muitos os clientes que a procuravam. Já não segurava na mão de Tala. as multidões voltaram ao parque de diversões à beira do vasto oceano cinzento — um número de pessoas não 163 tão grande como nos parques temáticos. E embora os seus lábios não se mexessem. o espírito alegra-se e a costa cativa com a sua cantilena de ondas e as pessoas reúnem-se à volta dos carrosséis e das rodas-gigantes e das bebidas geladas e do algodão-doce. Estavam ali. Ele aproximou-se dela e viu-a sorrir e as vozes fundiram-se numa só palavra de Deus: Lar. em direcção ao pico da grande roda-gigante. mais vozes do que jamais imaginara. guardou os poucos pertences de Eddie numa arca na oficina. mas no ano seguinte reabriu com um novo nome: o Precipício do Desafio. das Diversões da América. sentadas nos ombros umas das outras. ou viriam a estar ali. foi alugada a um novo inquilino. incluindo fotografias da antiga entrada original.

o verdadeiro Eddie. Cara e Peter. Um especial agradecimento também ao Dr. Ira. E a Kerri Alexander. que ouviu pacientemente e muitas vezes a leitura em voz alta deste livro. pela informação sobre feridas de guerra. com quem partilhei a minha primeira roda-gigante. FIM . A sua ajuda na fase de pesquisa deste livro foi preciosa e o seu orgulho em proteger os clientes dos parques de diversões é digno de elogio. que me contou as suas histórias muito antes de eu contar a minha. a Rhoda. Os meus mais sinceros agradecimentos a Bob Miller. Jane Comins. e ao meu tio. do Henry Ford Hospital. por acreditarem em mim. e bem. Ellen Archer. no Cais de Santa Monica. que simboliza o ideal da relação agente-autor. Michael Burkin e Phil Rose. a David Black. David Collon. com tudo. Leslie Wells. a Janine.de operações do Pacific Park. que sabe lidar. Will Schwalbe. Katie Long.

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