Capa MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Pergaminho Badana da capa Mitch Albom é jornalista e comentador

desportivo. É também autor de vários livros, de entre os quais se destaca As Terças com Morrie, um best-seller internacional com mais de cinco milhões e meio de exemplares vendidos que ocupou os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times durante quatro anos seguidos. As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é o seu primeiro romance. Desde a sua primeira edição, em Setembro de 2003, que tem ocupado os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times. O sucesso que tem tido junto do público tem-se reflectido na crítica: "Esta é a fábula que lemos de uma assentada quando nos apaixonamos. É o conto que temos sempre à mão quando nos sentimos perdidos. É a história que queremos escutar vezes sem conta, pois tem aquela capacidade rara e mágica de nos dar a ver a nós próprios e ao mundo sob uma nova perspectiva. Este livro é um presente para a alma." Amy Tan Badana da contracapa "O leitor encontrará aqui ecos dos grandes clássicos - como a Odisseia - e isso faz com que esta obra de Mitch Albom esteja em muito boa companhia." Frank McCourt "Uma história cheia de sabedoria acerca do valor da vida humana." Los Angeles Times "As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é um livro poderoso." Time Magazine "Um livro doce e animador, sem vestígios de sentimentalismo." Booklist "Uma obra sincera que tem o poder de comover e reconfortar os leitores." The New York Times Contracapa Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido ou importância. Aos 83 anos, trabalha ainda como responsável de manutenção num parque de diversões. Passa os dias a fazer trabalhos rotineiros e não consegue afastar a sensação profunda

de solidão e de arrependimento por não ter vivido mais intensamente. Mas é precisamente no dia do seu 83.° aniversário que Eddie morre num acidente trágico, ao salvar a vida a uma criança. A última coisa que sente são duas mãozinhas a segurar as suas - e depois um imenso silêncio. É então que tudo começa. Eddie desperta no Céu. À sua espera estão cinco pessoas - umas são perfeitos desconhecidos, outras são-lhe muito próximas – que, de uma forma ou de outra, determinaram o percurso da sua vida. Cada uma destas pessoas fez parte da vida de Eddie por uma razão especial, embora ele não compreendesse na altura. O Céu é o lugar para onde vem para o compreender. Através destas cinco pessoas, Eddie vai descobrir as ligações invisíveis que constituíram o padrão da sua vida. Será que passou 83 anos insignificantes na Terra? Ou que passou teria a sua vida tido, afinal, algum sentido? Página de rosto MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Tradução de Tânia Ganho Pergaminho Ficha Técnica As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu Mitch Albom Tradução de: The Five People You Meet in Heaven Hyperion, 2003 copyright © 2003, by Mitch Albom Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado — além do uso legal como breve citação em artigos e críticas — sem prévia autorização do editor. copyright © 2004, da tradução e editoração portuguesas by Editora Pergaminho, Lda. Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal l.a edição, 2004 l.a reimpressão, 2004 ISBN 972-711-587-X Este livro é dedicado a Edward Beitchman, o meu querido tio, que me deu o meu primeiro conceito de Céu. Todos os anos, à volta da mesa festiva do Dia de Acção de Graças, ele contava a história de uma noite que passou no hospital, em que acordou e viu as almas dos seus entes queridos, que já haviam falecido, sentados à beira da cama, à sua espera. Lembrar-me-ei sempre dessa história.

Lembrar-me-ei sempre dele. Toda a gente tem uma ideia do Céu, como a tem a maioria das religiões, e todas devem ser respeitadas. A versão que aqui apresento é apenas um palpite, um desejo, de certo modo, de que o meu tio e outras pessoas como ele — pessoas que se sentiram pouco importantes aqui na Terra — percebam, finalmente, o quão importantes e amadas foram. Fim Esta é a história de um homem chamado Eddie e começa pelo fim, com Eddie a morrer sob o Sol. Pode parecer estranho começar uma história pelo final. Mas todos os finais são também começos. Só não o sabemos no momento... A última hora de vida de Eddie foi passada, como quase todas as outras, em Ruby Pier*, um parque de diversões à beira de um vasto oceano cinzento. O parque tinha as habituais atracções, uma ampla marginal para as pessoas passearem, uma roda gigante, montanhas-russas, carrinhos de choque, uma banca de doces e uma galeria de máquinas de jogo, onde se podiam disparar jactos de água para a boca de um palhaço. Tinha também uma atracção nova, chamada Queda Livre, e seria aqui que Eddie acabaria por morrer, num acidente a que os jornais de uma ponta à outra do estado dariam destaque. Aquando da sua morte, Eddie era um homem de idade, baixo e de cabelos brancos, sem pescoço, com o peito em forma de barril, braços fortes e uma tatuagem descorada do exército no ombro direito. As pernas eram magras e cheias de varizes, e o seu joelho esquerdo, * À letra, o Cais da Ruby. (N. da T.) ferido na guerra, sofria de artrite. Eddie apoiava-se numa bengala para andar. O seu rosto era largo e enrugado pelo sol, com um bigode desleixado e o maxilar inferior ligeiramente protuberante, que lhe dava um ar mais orgulhoso do que ele realmente era. Tinha sempre um cigarro preso na orelha esquerda e um chaveiro pendurado no cinto. Calçava sapatos com sola de borracha. Usava um velho boné de linho. O seu uniforme castanho claro lembrava o de um operário e Eddie era precisamente isso, um operário. O trabalho de Eddie era «assegurar» as atracções, o que significava que estava encarregado de zelar pela segurança. Todas as tardes, percorria o parque, examinando cada máquina, desde o Corropio à Montanha-Russa Oleoduto. Verificava se havia tábuas partidas, parafusos soltos, aço gasto. Por vezes ficava parado, de olhos fixos e turvos, e as pessoas que passavam por ele pensavam que estava a sentir-se mal. Mas estava simplesmente à escuta, nada mais. Depois de tantos anos, Eddie conseguia ouvir os problemas, dizia ele, no ranger, percutir e gaguejar do equipamento. Restando-lhe apenas cinquenta minutos de vida na Terra, Eddie fez a sua última ronda por Ruby Pier. Passou por um casal de velhinhos. — Boa tarde — murmurou ele, levando a mão ao boné. Eles acenaram com a cabeça educadamente. Os clientes conheciam Eddie. Pelo menos, os clientes habituais. Viam-no Verão após Verão, uma daquelas caras que se associam a determinado lugar. A sua camisa de trabalho tinha uma etiqueta no peito com o seu nome, Eddie, por cima da palavra Manutenção, e por vezes diziam-lhe: «Olá, Eddie Manutenção», embora ele não visse onde estava a graça. Hoje, curiosamente, Eddie fazia oitenta e três anos. Na semana passada, um médico dissera-lhe que

ele tinha zona. Zona? Eddie não conhecia a doença. Antigamente, tinha força para levantar um cavalo de carrossel em cada braço. Mas isso fora há muito tempo... 10 — Eddie!... Leva-me, Eddie!... Leva-me! Quarenta minutos até à sua morte. Eddie dirigiu-se para a frente da fila da montanha-russa. Costumava dar uma voltinha em cada atracção, pelo menos uma vez por semana, para ter a certeza de que os travões e engrenagens eram seguros. Hoje era o dia da montanha-russa — a MontanhaRussa Fantasma, chamavam-lhe — e os miúdos que conheciam Eddie chamavam-no para ele os levar. As crianças gostavam de Eddie. Não os adolescentes. Os adolescentes davam-lhe dores de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie achava que já tinha visto todo o tipo de adolescente mandrião e maleducado. Mas as crianças eram diferentes. As crianças olhavam para Eddie — que, com o seu maxilar inferior protuberante parecia estar sempre a sorrir, como um golfinho — e confiavam nele. Aproximavam-se de Eddie como umas mãos frias se aproximam de uma lareira acolhedora. Agarravam-se às pernas dele. Brincavam com o seu chaveiro. Eddie pouco falava, dizia qualquer coisa entre dentes. Estava convencido de que gostavam dele precisamente por isso, por falar pouco. Eddie deu uma palmadinha nos dois miúdos de bonés de basebol virados ao contrário. Eles correram para a cabina e instalaram-se no banco. Eddie entregou a bengala ao funcionário da montanha-russa e, lentamente, sentou-se entre os miúdos. — Aqui vamos nós... Aqui vamos nós!... — guinchou um deles, enquanto o outro agarrava no braço de Eddie e o punha por cima dos seus ombros. Eddie baixou a barra sobre o colo e claqueclaque-claque, lá foram eles. Corria a história sobre Eddie. Quando era miúdo, criado ali mesmo, naquele cais, meteu-se numa briga de rua. Cinco rapazes de Pitkin Avenue tinham encurralado o irmão dele, Joe, e estavam a preparar-se para lhe dar uma sova. Eddie encontrava-se a um quarteirão de distância, num banco, a comer uma sanduíche. Ouviu o irmão gritar. Correu para o beco, pegou na tampa de um latão do lixo e deu tanta pancada nos rapazes, que eles foram parar ao hospital. Depois disso, Joe não falou com ele durante dois meses. Tinha vergonha. Joe era o mais velho, o primogénito, mas fora Eddie quem lutara. 11 — Podemos dar mais uma volta, Eddie? Por favor? Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de protecção, deu um chupa-chupa a cada um dos miúdos, pegou na sua bengala e coxeou, até à oficina da manutenção, para se refrescar um pouco do calor de Verão. Se soubesse que a sua morte estava iminente, talvez tivesse ido para outro lugar. Em vez disso, fez o que todos fazemos. Prosseguiu com a sua rotina entediante, como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente. Um dos empregados da oficina, um rapaz esgalgado de cara chupada, chamado Dominguez, encontrava-se junto do lavatório dos solventes, a limpar o óleo de uma roda. — Olá, Eddie — cumprimentou ele. — Olá, Dom — respondeu Eddie. A oficina cheirava a serradura. Era escura e apertada, com o tecto baixo e paredes forradas de pegas para pendurar brocas, serras e martelos. Por toda a parte, viam-se peças do esqueleto das máquinas do parque: compressores, motores, correias, lâmpadas, o cimo da cabeça de um pirata. Empilhadas contra uma parede estavam latas de café com pregos e parafusos, e contra outra, um sem-fim de tubos de óleo. Olear um trilho, dizia Eddie, não exigia mais esforço intelectual do que lavar um prato; a única diferença era que a pessoa ficava mais suja quando o fazia, e não mais limpa. E era esse o tipo de

Estendeu-as. Os seus planos nunca se concretizaram. preferiam os parques temáticos. a partir de segunda-feira.trabalho que Eddie fazia: pôr óleo. pá. — Ei. Antigamente. ouvi dizer que fazes anos — disse Dominguez. que descia até o mar. miúdo. Ruby Pier era o lugar para onde toda a gente ia no Verão. onde pagavam setenta e cinco dólares para entrar e ficavam com uma fotografia . — Eu e a Theresa. ajustar travões. a fazer balões com a pastilha elástica. — Onde? — Ao México? Eddie soltou o ar pelo nariz. — Diz-me que apanhámos um peixe! Eddie perguntou-se como é que o rapaz conseguia ser tão optimista. Depois. que voltou para o lavatório. Eddie resmungou qualquer coisa entre dentes. — Olha. Eddie. pensou o quão estranho era envelhecer num lugar que cheirava a algodão doce. Por instantes. construir uma vida diferente. também Eddie fazia parte da manutenção — o chefe da manutenção —. duas delas. Pensou por instantes. Com o tempo. Observou Dominguez. nunca fui a lado nenhum para onde não me mandassem de espingarda atrás. um homem com areia nos sapatos. Tens a certeza? Eddie enfiou o dinheiro na mão de Dominguez. Vou para o México. Eddie atravessou para o extremo sul da marginal. — Compra uma coisa bonita para a tua mulher — disse Eddie. ele era assim e assim seria sempre. Eddie acenou com a cabeça e Dominguez fez uns passinhos de dança. não te esqueças de que para a semana não estou cá. Deu um puxão no fio de nylon de vinte e cinco metros. tirou um maço de notas do bolso e escolheu as de vinte. ou como os miúdos por vezes lhe chamavam: «o homem das voltinhas de Ruby Pier». a usar calças largueironas e a mergulhar num estado de resignação cansada. 13 — Um dia — gritou Dominguez —. Muitas vezes desejara abandonar aquele emprego. Tinha elefantes e fogo-deartifício e maratonas de dança. Mas as pessoas já não procuravam os cais à beira-mar. voltou para a zona do armazém. — Já alguma vez lá foste? — perguntou Dominguez. O negócio andava fraco. Ainda tinha um pedaço de isco agarrado. Grande festança. — Apanhámos alguma coisa? — gritou Dominguez. Mas veio a guerra. Vinte e seis minutos de vida. sabendo que nunca um peixe tão grande passaria por um buraco tão pequeno. Depois. vamos apanhar um mero! — Pois — murmurou Eddie. Aquela linha de pesca nunca tinha nada. Vamos ver a família toda. — O Eddie. — Não há festarola? Eddie fitou-o como se o rapaz tivesse enlouquecido. inspeccionar painéis eléctricos. 12 Trinta minutos de vida. apertar porcas. arranjar outro trabalho. tal como a etiqueta na sua camisa. Um pequeno «buraco de pesca» fora aberto há anos nas tábuas do passeio da marginal e Eddie levantou a tampa de plástico. Parou de dançar quando reparou no olhar de Eddie. sorriu de orelha a orelha e disse: — Eh. A rapariga da banca de doces estava apoiada nos cotovelos. Dominguez olhou para o dinheiro. num mundo de riso mecânico e salsichas no churrasco. deu por si a ficar grisalho. Tal como o seu pai antes dele.

Dançaram ao som da grande banda. que nos anos setenta fora a Enguia de Aço. Estava tão nervoso. Para Eddie. como as barbatanas de uma foca. Os adolescentes entreolharam-se. Eddie — resmungou o irmão. malta. O seu rosto largo de maxilares bem marcados podia ter sido atraente. sobre o peito. — FORA DAQUI! Os adolescentes fugiram a correr. que parecia que tinha a língua colada aos dentes. que antes disso fora a Concha da Banda do Estrelato. Quando era soldado. Eddie abanou a barreira com tanta força. que quase a partiu ao meio. Os seus braços curtos e musculosos dobraram-se. acenando para os jovens condutores. envolveu-se numa escaramuça com um dos seus próprios homens. atrás da atracção do Coelho Saltador. quando se afastou. Disse-lhe que tinha conhecido a rapariga com quem ia casar. Lindo. atropelem-me! — gritou. Para o resto da sua vida. zzzap zzzap. Com a bengala. Só me faltava isto. um dia. Um miúdo. Foi assim que Eddie ficou ferido. As suas pernas estavam vermelhas do sol e o joelho esquerdo ainda tinha cicatrizes. Todas as vidas contêm uma imagem fotográfica de verdadeiro amor. Ela disse que tinha de ir embora. que nos anos oitenta fora o Trovão. Que foi onde Eddie conheceu Marguerite. Aquele era o seu lugar habitual na marginal de Ruby Pier. como o de um pugilista antes de ter levado demasiados socos. numa velha cadeira de praia de alumínio. — Vá. Eddie voltou para casa e acordou o irmão mais velho. devido às muitas fracturas provocadas pelo manuseamento de máquinas. — Atropelem-m. que nos anos cinquenta fora o Ri no Escuro. em que a marginal estava ensopada de água. — Saiam daí — ordenou Eddie. Eddie tinha um ar simplesmente cansado. Ninguém perguntou. até recebera uma medalha. Ela envergava um vestido amarelo de algodão. Nessa noite. Mas. que tinha uma madeixa cor de laranja no cabelo. Demonstrara coragem. fitou Eddie com um sorriso escarninho e passou para a barreira do meio. que nos anos sessenta foram os Baloiços Chupa-Chupa. Era essa a imagem. os seus cabelos negros caindo sobre um dos olhos. virou-se para trás e disse-lhe adeus. depois de uma trovoada. Ninguém sabia o que acontecera ao outro tipo. — Não é seguro — repetiu Eddie. — Vamos. grande parte do corpo de Eddie sugeria que ele era um sobrevivente.. Eddie revia esse instante. . Mas. ela a acenar-lhe por cima do ombro. com uma boina cor-de-rosa nos cabelos. por causa dos pais. estivera na frente de combate. Eddie pouco falou. Os postes dos carrinhos zumbiam de electricidade. Agora. batendo na barreira com a bengala. Os adolescentes lançaram-lhe um olhar de desafio. Na verdade. 15 — Vê mas é se dormes. que isso não é seguro.. Ele comprou-lhe uma limonada. pensou ele para os seus botões. Eddie passou a coxear pelos carrinhos de choque e fixou os olhos num grupo de adolescentes pendurados na barreira de protecção. Eddie sentou-se pela última vez. 14 Com dezanove minutos de vida na Terra. sempre que pensava em Marguerite. foi numa noite quente de Setembro.tirada ao lado de uma personagem peluda em tamanho gigante. O nariz fora partido várias vezes naquilo a que ele chamava «brigas de saloon». Long Legs Delaney e a sua Everglades Orchestra. mais para o fim do seu tempo de serviço. Os seus dedos formavam estranhos ângulos. e sentia a mesma explosão arterial de amor. Corria outra história sobre Eddie.

Agora já não tanto. amar-te.. em que um jovem chegou a Ruby Pier com três amigos.. diamantes de sol dançavam nas águas e Eddie observou o seu movimento delicado. Costumava pensar muito em Marguerite. Eddie ainda era gracioso.. acabara de aprender a conduzir e ainda não se sentia confortável a andar de chaveiro na mão. a Queda de Água. as histórias encontram-se ao virar da esquina e por vezes encobrem-se umas às outras completamente. Amy.. Uuussshhh. embora Eddie nunca tivesse visto nem mãe. Uuussshhh.. «.. Eddie tossiu uma coisa que não quis ver. a Queda Livre. Ao largo.» Splaaassshhh. tirou a chave do carro e pô-la dentro do bolso do casaco. Nenhuma história vem só. no oceano. de aproximadamente oito anos. Amy ou Annie. aquela que a Judy Garland cantava no filme. meses antes — numa noite enevoada. . pensou ele que se chamava. Passara muitas tardes ali. Eddie limpou a testa com um lenço. E esticaram as mãos para o alto. O jovem.Uuussshhh.» Eddie sentiu as mãos de Marguerite nos seus ombros. O fim da história de Eddie foi tocado por outra história aparentemente inocente. Portanto. 16 Mas na Concha da Banda do Estrelato. Misturava-se agora na sua cabeça com a cacofonia das ondas e das crianças aos gritos. Catorze minutos até à sua morte. Dezasseis minutos de vida.. que se chamava Nicky. «Fizeste-me amar-te. Mais tarde. Por vezes. como as pedras no fundo de um rio. estava diante dele. ele e os amigos andaram em todas as diversões velozes: o Falcão Voador. exaustos e a rir. Procurou... fizeste-me amar-te e eu não queria fazê-lo. Cuspiu-a para longe. O que seria a tal doença chamada zona? Uuussshhh. Doze minutos de vida... Praguejou. voltaram para o parque de estacionamento. a Montanha-Russa Fantasma. Desde a guerra que não sentia firmeza nas pernas. — Mãos ao alto! — gritou um deles.» liiisssshhhh. depois atou o casaco à cintura.. Rebentou uma onda na praia.» Uuussshhh.» liiiiiiiii! «. aí. a tapar-lhe o sol. soube. nem pai.. quando já era noite. nesse Verão.. Nicky levou a mão ao bolso do casaco. — Faz favor. «.. Era como uma ferida por baixo de uma velha ligadura. Nas horas que se seguiram.. Uma menina. com Marguerite. sempre o soubeste e sempre.. Perdera a chave. e ele habituara-se à ligadura. Fechou os olhos com força... bebendo cerveja dentro de sacos de papel pardo.. para tornar a recordação mais vívida. Fechou os olhos e permitiu-se recordar a canção que os aproximara. Tinha caracóis louros e usava sandálias e calções de ganga e uma T-shirt verde-lima com um desenho animado estampado na frente. «.

— Fazzzz favor — repetiu ela. — Eddie Man’tenção? Eddie suspirou. — Eddie só — disse ele. — Eddie? — Sim? — Podes fazer-me... Ela uniu as mãos, como que numa prece. — Vamos, menina, despacha-te, que eu não tenho o dia todo. — Podes fazer-me um animal? Podes? 17 Eddie olhou para cima, como se tivesse de pensar no assunto. Depois, levou a mão ao bolso da camisa e tirou três limpadores de cachimbo amarelos, com que andava sempre para essas ocasiões. — Siiim! — exclamou a menina, batendo as palmas. Eddie começou a retorcer os arames. — Onde estão os teus pais? — A andar nas diversões. — Sem ti? A garota encolheu os ombros. — A minha mãe está com o namorado. Eddie levantou os olhos. Ah... Dobrou os arames em várias argolas pequeninas, depois torceu as argolas umas nas outras. As mãos tremiam-lhe agora, por isso demorava mais tempo do que era hábito, mas daí a pouco os limpadores de cachimbo pareciam uma cabeça, orelhas, corpo e cauda. — Um coelho? — perguntou a menina. Eddie piscou o olho. — Obrigaaaada! Ela deu meia-volta, perdida naquele mundo de distracção onde as crianças nem sequer sabem para que lado vão os seus pés. Eddie tornou a limpar a testa e depois fechou os olhos, afundado na cadeira de praia, e tentou retomar a velha canção na sua cabeça. Uma gaivota guinchou ao voar por cima dele. Como é que as pessoas escolhem as suas derradeiras palavras? Terão noção do seu peso? Estarão destinadas a ser sábias? Pelo seu 83° aniversário, já Eddie perdera praticamente todas as pessoas de quem gostava. Algumas tinham morrido jovens e outras haviam tido a oportunidade de envelhecer, antes de uma doença ou um acidente as levar. Nos seus funerais, Eddie ouvia as pessoas de luto recordarem as suas últimas conversas. «Era como se ele soubesse que ia morrer...», diziam algumas. Eddie nunca acreditara nisso. Na sua opinião, quando chegava a hora, chegava e ponto final. Tanto se podia dizer uma coisa muito inteligente antes de partir, como uma coisa estúpida. 18 Para que fique registado, as derradeiras palavras de Eddie foram: «Afastem-se!» Aqui ficam os sons dos últimos minutos de vida de Eddie. Ondas a rebentar na areia. A batida distante de música rock. O ronronar de um pequeno bimotor, arrastando um cartaz pendurado na cauda. E isto. — OH, MEU DEUS! OLHEM! Eddie sentiu os olhos moverem-se rapidamente por baixo das pálpebras. Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer todos os sons de Ruby Pier e conseguia dormir embalado por eles. — OH, MEU DEUS! OLHEM!

Eddie endireitou-se muito depressa. Uma mulher de braços gordos às covinhas, com um saco das compras na mão, apontava e gritava. A sua volta, juntara-se uma pequena multidão, de olhos postos nos céus. Eddie viu-o de imediato. No cimo da Queda Livre, a nova torre-atracção, um dos carrinhos estava todo inclinado, como que prestes a despejar a sua carga. Quatro passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas pela barra de protecção, tentavam agarrar-se freneticamente a qualquer coisa. — OH, MEU DEUS! — gritava a mulher gorda. — COITADAS DAS PESSOAS! VÃO CAIR! Uma voz berrou roucamente no rádio preso ao cinto de Eddie. «Eddie! Eddie!» Eddie premiu o botão. — Estou a ver! Chamem a segurança! Vieram pessoas a correr da praia, apontando como se tivessem ensaiado para aquele momento. Olhem! Lá em cima, no céu! Uma diversão que vai acabar em tragédia! Eddie pegou na bengala e caminhou o mais depressa que pôde para a vedação protectora, na base da plataforma, o seu molho de chaves a tilintar contra a anca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A Queda Livre devia deixar cair dois carrinhos de cada vez, numa descida de dar a volta ao estômago, e só se detinha no último instante, 19 com um jacto de ar hidráulico. Como é que um carrinho se soltara daquela maneira? Estava inclinado a uns metros de distância da plataforma superior, como se tivesse começado a descer e, de repente, tivesse mudado de ideias. Eddie chegou à cancela e teve de parar para recuperar o fôlego. Dominguez apareceu a correr e quase esbarrou nele. — Ouve! — disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros. Apertou-o com tanta força, que Dominguez fez um esgar de dor. — Ouve! Quem é que está lá em cima? — O Willie. — Está bem. Ele deve ter activado a paragem de emergência. E por isso que o carrinho está pendurado. Sobe a escada e diz ao Willie para soltar manualmente a barra de segurança, para que aquelas pessoas possam sair dali. Percebeste? Como fica na parte de trás do carrinho, vais ter de segurá-lo enquanto ele se debruça para o fazer. Percebeste? Depois... depois, vocês os dois... vocês os dois, percebeste?... vocês os dois tiram as pessoas de lá! Um segura-se ao outro! Percebeste?... Percebeste? Dominguez apressou-se a fazer que sim com a cabeça. — Depois, manda o raio do carrinho para baixo, para ver se descobrimos o que aconteceu! A cabeça de Eddie latejava de dor. Embora o seu parque nunca tivesse sido palco de grandes acidentes, conhecia as histórias de horror da sua profissão. Uma vez, em Brighton, uma porca soltara-se numa gôndola e duas pessoas caíram para a morte. Outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara atravessar a pé o trilho de uma montanha-russa; caiu e ficou preso pelas axilas. Ficou entalado, aos gritos, e os carrinhos a virem acelerados na direcção dele... bom, é escusado contar o resto. Eddie afastou esse episódio da mente. Havia muita gente à sua volta, agora, com as mãos a taparem as bocas, a verem Dominguez trepar a escada. Eddie tentou lembrar-se das entranhas da Queda Livre. Motor. Cilindros. Hidráulica. Selos. Tampões. Cabos. Como é que um carrinho se soltara? Seguiu o trajecto visualmente, das quatro pessoas assustadas no cimo da torre, passando pela conduta, até à base. Motor. Cilindros. Hidráulica. Tampões. Cabos... 20 Dominguez chegou à plataforma superior. Fez o que Eddie mandou, segurando Willie, enquanto

Willie se debruçava na direcção da traseira do carrinho, para libertar a barra de segurança. Uma das mulheres lançou-se para Willie, quase o derrubando da plataforma. A multidão susteve a respiração. — Espera... — disse Eddie para si mesmo. Willie tentou de novo. Desta vez, conseguiu libertar o mecanismo de segurança. — Cabo... — murmurou Eddie. A barra levantou e a multidão fez «Ahhhhh». Os passageiros foram rapidamente puxador para a plataforma. — O cabo está a desenrolar-se... E Eddie tinha razão. No interior da base da Queda Livre, escondido da vista, o cabo que puxava o carrinho n.° 2 tinha, nos últimos meses, estado a roçar contra uma roldana presa. Como estava bloqueada, a roldana começara gradualmente a raspar os fios de aço do cabo — era como tirar os fios a uma espiga de milho —, até que vários ficaram à beira de partir. Ninguém reparou. Como poderiam tê-lo feito? Só uma pessoa que tivesse rastejado para dentro do mecanismo teria visto a causa improvável do problema. A roldana estava presa por um pequeno objecto entalado, que devia ter caído pela abertura exactamente no momento certo. A chave de um carro. — Não soltes o CARRINHO! — gritou Eddie, a esbracejar. — EI! EEIII! É O CABO! NÃO SOLTES O CARRINHO! O CABO VAI PARTIR! A multidão afogava os seus gritos, a aclamar desenfreadamente Willie e Dominguez, enquanto eles recolhiam o último passageiro. Os quatro estavam sãos e salvos. Abraçaram-se no cimo da plataforma. — DOM! WILLIE! — gritou Eddie. Alguém embateu contra a sua cintura, fazendo cair o seu walkie-talkie. Eddie baixou-se para o apanhar. Willie dirigiu-se para a cabina de controlo. Levou o dedo ao botão verde. Eddie olhou para cima. — NÃO, NÃO, NÃO, NÃO FAÇAS ISSO! Eddie virou-se para a multidão. 21 — AFASTEM-SE! Algo na voz de Eddie deve ter chamado a atenção das pessoas; pararam de aclamar e começaram a afastar-se. Abriu-se uma clareira na base da Queda Livre. E Eddie viu o último rosto da sua vida. Ela estava estendida na base de metal da diversão, como se alguém a tivesse derrubado, com o nariz sujo, os olhos cheios de lágrimas, a menina com o animal feito de arames para limpar cachimbos. Amy? Annie? — Ma... Mamã... Mamã... — soluçava ela, quase ritmicamente, o seu corpo prisioneiro daquela paralisia típica das crianças quando choram. — Ma... Mamã... Ma... Mamã... Os olhos de Eddie saltaram dela para os carrinhos. Ainda iria a tempo? Ela e os carrinhos... Vuuum. Demasiado tarde. Os carrinhos estavam a cair — Meu Deus, eh soltou o freio! — e, para Eddie, tudo se dissolveu em movimento subaquático. Largou a bengala e puxou pela sua perna doente, sentindo uma descarga de dor que quase o deitou ao chão. Um passo grande. Mais um passo. Dentro da conduta da Queda Livre, o último fio de aço partiu-se e roçou contra o cabo hidráulico. O carrinho n.° 2 estava agora em queda livre, sem nada para o deter, um pedregulho a cair de um penhasco. Nesses derradeiros instantes, Eddie pareceu escutar o mundo inteiro: gritos distantes, ondas, música, uma lufada de vento, um som grave, forte e desagradável que ele percebeu ser a sua própria

voz a explodir do seu peito. A menina levantou os braços. Eddie precipitou-se para ela. A sua perna doente cedeu. Ele quase voou, quase tropeçou em direcção a ela, aterrando na plataforma de metal, que rasgou a sua camisa e lhe fez um corte na pele, mesmo abaixo da etiqueta que dizia Eddie e Manutenção. Sentiu duas mãos nas suas, duas mãos pequeninas. Um impacte atordoante. Um clarão cego de luz. E depois, nada. 22 Hoje é o aniversário de Eddie Estamos nos anos vinte, num hospital cheio de gente, num dos sectores mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma na sala de espera, onde fumam também os outros pais. A enfermeira entra com uma tabela na mão. Chama o nome dele. Pronuncia-o mal. Os outros homens expelem o fumo dos cigarros. Então? Ele levanta o braço. — Parabéns — diz a enfermeira. Ele segue-a corredor abaixo, até à ala dos recém-nascidos. Os sapatos dele fazem barulho ao bater no chão. — Espere aqui — diz ela. Pelo vidro, ele vê-a consultar os números nos berços de madeira. Passa por um, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele. Ela pára. Ali. Por baixo da manta. Uma cabecinha coberta por um barrete azul. Ela volta a consultar a tabela, depois aponta. O pai tem a respiração pesada, acena com a cabeça. Por um instante, o seu rosto parece desmoronar, como uma ponte a ruir sobre um rio. Depois, som. É o dele. 23 A viagem Eddie não viu absolutamente nada no seu derradeiro momento na Terra. Não viu o cais, nem a multidão, nem o carrinho estilhaçado de fibra de vidro. Frequentemente, nas histórias sobre a vida depois da morte, a alma sai do corpo no instante da despedida e paira sobre os veículos da polícia, no caso de um acidente na auto-estrada, ou agarra-se como uma aranha ao tecto de um quarto de hospital. Estas são histórias de pessoas a quem é dada uma segunda oportunidade — de algum modo, por algum motivo — de retomarem o seu lugar no mundo. Eddie, aparentemente, não ia ter essa segunda oportunidade. Onde...? Onde...? Onde...? O Céu era de um tom enevoado de abóbora, depois turquesa, depois um lima garrido. Eddie flutuava e os seus braços ainda estavam esticados. Onde...? O carrinho estava a cair do cimo da torre. Disso ele lembrava-se. A menina — Amy? Annie? — chorava. Disso ele lembrava-se. Lembrava-se de se precipitar para a frente. Lembrava-se de cair

sentado num banco. que se fingem divertidas e aplaudem educadamente.. É uma tarde de domingo. Há um bolo de baunilha com velas de cera azul. as cores voltaram a alterar-se. estava debaixo de água. Apercebeu-se de um movimento de torvelinho. O pai de Eddie. Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie. Começou a cair. depois um rosa que Eddie associou de repente a — imagine-se — algodão doce. . A seguir. Há um jarro de sumo de laranja. Onde está a minha preocupação? Onde está a minha dor? 25 Hoje é o aniversário de Eddie Tem cinco anos. Eddie acha que ele tem um cheiro esquisito. — Como fazemos na Irlanda. como uma criança aninhada nos braços da mãe. como se tivesse acontecido há muitos anos.. Não se sentia em agonia. Depois safira. — Vem cá. A uma velocidade inimaginável e. É gordo. Não se sentia triste. O seu irmão mais velho.. como habitualmente. Um oceano. Depois. bang — grita Eddie. bang!» — Vem cá. Joe. Que se tornou cor de melão. Agua. os pregoeiros. Eddie brinca aos seus pés. depois viram-no de cabeça para baixo.? O céu à sua volta mudou novamente. Sentia apenas uma calma profunda.. — Bang. Onde. O chapéu de Eddie cai. Sentia as mãozinhas dela nas suas. incapaz de sentir outra coisa que não a calma. está a minha preocupação? Onde está a minha dor? Era isso que faltava. nem medo. as mãos enormes de Mickey enfiam-se por baixo dos braços de Eddie e levantam-no do chão. zelando pelos equipamentos do parque. os domadores de animais.. um chapéu vermelho de cowboy e um coldre.. Por baixo dele. pendurado pelos pés. debruçadas sobre a extensa praia branca. rapaz — chama Mickey Shea. alguns homens das pescas. Flutuava por cima de um vasto mar amarelo. De repente. E depois? 24 Salvei-a? Eddie só conseguia recordá-lo à distância. Deixa-me dar-te as pancadinhas dos aniversariantes — anuncia ele. A sua consciência parecia esfumada. a xarope para a tosse. de amarelo-toranja para um verde-floresta. Mesas de piquenique alinham-se ao longo do passeio da marginal. Toda a mágoa que ele sofrera na vida. usa suspensórios e está sempre a cantar canções irlandesas. faz flexões à frente de um grupo de senhoras de idade. não sentia sequer uma brisa no rosto. está embrenhado num jogo de cartas. Levanta-se e corre de um grupo para outro. no entanto. tudo ficou imerso em silêncio.sobre a plataforma. sacando da arma de brincar e fazendo: «Bang. Salvei-a? Ela sobreviveu? Onde. Viu a areia de uma costa dourada. toda a dor que suportara haviam desaparecido como um último fôlego. precipitando-se em direcção à sua superfície. Eddie enverga a sua prenda de anos. em Ruby Pier. Os funcionários do cais passam atarefados. Mais estranho ainda era o facto de não sentir qualquer emoção associada a essa lembrança. etérea. os artistas de rua. .

O seu instinto inicial foi pegar na bengala. Os outros juntam-se a ele. Surpreendentemente. Mais tarde. portanto suspirou e tentou levantar-se. Em terceiro. só tem tempo de dar três passos antes de a mãe o apanhar e abraçar. As cores das diversões eram vermelhos ardentes e brancos cremosos — nada de azuis-esverdeados nem 28 . Ela põe-lhe o chapéu na cabeça. sorri e retoma o seu jogo de cartas. sentia-se óptimo. talvez o leve a dar uma volta no elefante. Toda a gente bate as palmas. Eddie pega no chapéu. no mar. não lhe doíam as costas. A perna não latejava. O céu continuava a mudar de cor. — Cinco! Eddie é virado de cabeça para cima e colocado no chão. Mas era um Ruby Pier diferente. — Ho-ho! Para que foi isso. Ele vê o seu batom vermelho-escuro. Os braços e pernas de Eddie pendiam dos bordos da chávena. por se ter portado tão bem no dia do seu aniversário. Todos se riem.. Era uma antiga máquina do parque de diversões: uma enorme chávena de chá. rindo em coro. Eddie dá meia volta e foge a correr. onde foi assaltado por três rápidos pensamentos. — Ho. — gritam.. ho. rapaz? — pergunta Mickey. — Agora. apanhei-te!— diz Mickey. ela há-de passear com ele ao longo do cais. avança tropegamente para Mickey Shea e dá-lhe um murro no braço. com um banco almofadado e uma porta com dobradiças de aço. Fez força e saltou facilmente da beira da chávena. Mas agora não encontrava a bengala. guardava-a sempre junto da cama. Mickey! — grita a mãe de Eddie. conseguia ver o paredão lodoso. Três! De pernas para o ar. Nos últimos anos. ou a ver os pescadores recolherem as redes ao cair da noite. aterrando desengonçadamente no chão. — Ele virou-me de cabeça para baixo — diz ele. ao fundo.— Cuidado. Levanta-se. estava sozinho. os peixes pulando como reluzentes moedas molhadas. A sua cabeça está a ficar pesada. e ele sentirá que o mundo está novamente de cabeça para cima. até a cabeça do menino roçar no chão. meu querido aniversariante? — Ela está a uns meros centímetros do rosto dele. ainda se encontrava em Ruby Pier. — Uma! 26 Mickey torna a puxar Eddie para cima. Em primeiro lugar.. Gritam: — Duas!. uma pancadinha de aniversário por cada ano de vida. pois era o tipo de homem que costumava cumprimentar os outros com uma palmada nos ombros. Havia tendas de lona e áreas relvadas vazias e tão poucas obstruções que. as ondas do seu cabelo acobreado. desequilibra-se e cai. feita de madeira escura e polida. O pai de Eddie levanta os olhos. 27 A chegada Eddie acordou dentro de uma chávena de chá. Ela dar-lhe-á a mão e dir-lhe-á que Deus está orgulhoso dele. Em segundo. Mickey baixa Eddie suavemente. — Eu vi — responde a mãe. as suas faces cheias e macias. — Quatro!. Eddie não sabe ao certo quem é quem. de cabedal de sapatos castanho a um escarlate profundo. porque havia manhãs em que já não tinha forças para se levantar sem o apoio dela. — Estás bem.. Isto deixava Eddie embaraçado.

Há apenas uma hora. Mas qualquer homem tem um menino que corre dentro de si. Ouviu qualquer coisa. de tantos em tantos passos. O cartaz era feito de contraplacado. saltava. passou por uma banca de venda de anzóis e iscos para os pescadores (cinco cêntimos) e uma banca de aluguer de fatos-de-banho para nadadores (três cêntimos). Quis dizer "Ei!". acabado de lavar. Uma voz metálica. a seguir acelerando a trote. como se proviesse de um megafone. Tocou nos braços e nas pernas. mas agora estava a correr. por mais velho que seja. Correu ao longo da marginal de Ruby Pier. Eddie tentou gritar. de repente. depressa.castanhos-avermelhados — e cada atracção tinha a sua própria bilheteira de madeira. a fingir que era um avião. os balneários e as piscinas de água salgada. apinhados de gente. fascinado com aquela engrenagem nova. Passou por uma diversão chamada Ziguezague. desde a guerra. como o miúdo que corria nos seus tempos de juventude. poderia achá-lo ridículo. Caminhou. Ali. ficava o Loop-a-Loop — que fora desmantelado há décadas — e acolá. Saltou. Depois. as ruas do seu antigo bairro e os telhados dos edifícios de tijolos. com os seus cavalos de madeira esculpida. calções e casaco castanho da manutenção.» . correu. aquele empregado da manutenção. Eddie parou de correr. A chávena em que acordara fazia parte de uma diversão muito antiga. Encostou o queixo ao peito e esticou os braços como um planador e. com cordas de secar roupa penduradas nas janelas. Mas era ágil. na esperança de que a corrida se transforme em voo. estava igual ao Eddie que se levantara nessa manhã: um homem velho. erguendo-se para o céu. as cartomantes e as bailarinas ciganas trabalhavam outrora. que conseguia tocar nos tornozelos e levantar a perna à altura da barriga. descrevendo um círculo. como as crianças fazem. À parte a sua falta de voz. Se alguém estivesse a ver. pensou ele. à sombra de edifícios magníficos de estilo mourisco. Aquele era o Ruby Pier da sua infância. completamente sozinho. Ha-ha! Correr! Eddie não corria. 10 cêntimos! Dê uma volta no Chicote — A sensação do ano! Eddie pestanejou com força. com espirais e minaretes e cúpulas em forma de cebola. E. tudo novinho e reluzente. «Então e esta criatura. Passou pelo Carrossel Parisiense. espelhos e um órgão Wurlitzer. por detrás dela. cada vez mais depressa. baixo e entroncado como um barril.. Correu ao longo da marginal. Ali ao fundo. esquecera o que era andar sem sentir uma pontada ou sentar-se sem precisar de arranjar uma posição confortável para as costas. andara a tirar ferrugem das peças armazenadas na sua oficina. começando com uns quantos passos ousados. 29 há mais de sessenta anos. Tão ágil. pendurados nas fachadas das lojas que se alinhavam ao longo da marginal: Charutos El Tiempo! Isto é que são charutos! Guisado. Por fora. chamada Chávena Voadora. sentia-se incrivelmente bem. minhas senhoras e meus senhores? Já alguma vez viram um ser tão horrendo?. ficava a roda-gigante original — com a sua tinta branca imaculada — e. Correu pelo centro da antiga rua principal. mas a sua voz não passava de ar áspero. de boné.. tal como todos os outros letreiros baixos. só que novinho em folha. Nos últimos dez anos. de cabelos brancos. onde os adivinhos do peso. o parque de há setenta e cinco anos. Nenhuma dor. que foram encerradas nos anos cinquenta. um homem de borracha a esticar-se de uma ponta à outra. no verdadeiro sentido da palavra. Explorou o seu corpo como uma criança. mas nada lhe saiu da boca.

podem ver tão de perto esta. A voz tornou-se mais forte. Edward — disse o homem. Uma era a Jane Gira.. enquanto as pessoas passavam por eles. Já ali vira gente muito estranha. A barriga transbordava-lhe do cinto. estava um homem de meia-idade com os ombros estreitos e curvados.» A voz do pregoeiro desapareceu. A sua pele era azul.. — Não . «Esta trágica alma foi alvo de uma perversão da natureza. por vezes atrás de barras. «Só um terrível azar do destino poderia ter deixado um homem neste estado lamentável! Dos recantos mais longínquos do mundo. Ali.. — disse o Homem Azul. mulheres de barba e um par de irmãos indianos. Havia homens que engoliam espadas. 32 A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu — Não tenhas medo. presas pela coluna dorsal e que tocavam instrumentos musicais. Um pregoeiro zombava da aberração e foi a voz de um pregoeiro que Eddie ouviu agora..» Vinha do outro lado de um palco. O teatro sensacionalista. nascido com um defeito ultrapeculiar. à frente de um grande teatro. Há muito que Eddie o teria esquecido..Eddie encontrava-se junto de uma bilheteira vazia. — Olá. incrédulo. não fosse por uma característica peculiar. sozinho no palco.» Eddie entrou na penumbra da sala. «Somente aqui. erguendo-se lentamente da sua cadeira. de tal modo que pendia aos bocados dos seus membros.. trouxemos esta criatura para as senhoras e os senhores puderem examinar. 31 Os lábios eram finos e o rosto comprido e chupado. A feira das aberrações... rindo e apontando. 30 «Olhem bem para este selvagem. que pesava para cima de duzentos e cinquenta quilos e precisava que dois homens a empurrassem para conseguir subir as escadas.» Eddie afastou a cortina. cuja pele parecia borracha de tanto ter sido esticada e untada com óleos. na época em que a televisão se popularizou e as pessoas deixaram de precisar de espectáculos de feira para espicaçar a sua imaginação. sentado numa cadeira. — Estava à tua espera. E Eddie deu um passo atrás.» Eddie espreitou para a entrada. A atracção de Ruby Pier! Meu Deus! São gordos! São magricelas! Veja o Homem Selvagem! A atracção do parque.. Havia duas gémeas siamesas. nu da cintura para cima. Eddie lembrava-se de que o tinham encerrado há pelo menos cinquenta anos. nos Cidadãos Mais Estranhos do Mundo. Tinha o cabelo cortado muito curto. Quando era miúdo. Eddie tinha pena dos figurantes da feira. Eram obrigados a sentar-se em cabinas ou em estrados. «Regozijem-se com a criatura mais invul... O cartaz pendurado no topo dizia: Os cidadãos mais estranhos do mundo..

nada muda. — Bom. não parece? Eddie assentiu com a cabeça. Começamos o quê?. mas Eddie estava estupefacto a olhar para ele. — No Céu. Ele levantou-se e saiu da sala. NÃO! O Homem Azul parecia divertido. Abanou a cabeça em sinal de negação. muitas vezes. — Onde estás? — Virou-se e levantou os braços. como nunca sentira na vida.. na manhã seguinte. as pessoas têm a mania de depreciar a terra onde nasceram. feita de madeira. — O Homem Azul fez um sinal de assentimento. Um milhar de anos. Aqui?. E para ti. Os seus pensamentos jorraram numa catadupa de frases. E 34 o próprio Céu tem muitos degraus. — O Chicote. Mas o Céu encontra-se nos lugares mais inesperados. Eddie seguiu-o. é o segundo. Os seus dedos eram engelhados. passando pelas lojas de charutos e bancas de salsichas e bares de apostas. A sua pele era de um grotesco tom de amora acinzentada. O céu estava cor de limão. Apontou para uma montanha-russa com duas lombas. — Ah.tenhas medo. Aqui. o que significava que os carrinhos não podiam virar muito depressa — a menos que a ideia fosse vê-los sair disparados dos trilhos. Uma hora. O mar estendia-se diante deles. Onde estou? O Homem Azul franziu os lábios e. Fora construída nos anos vinte. que se encontrava ao fundo. que fora demolida há anos. O Chicote.. A praia estava vazia. como se tivesse ouvido a pergunta. A sua voz era tranquilizadora. Tocou no ombro de Eddie e este sentiu uma onda de calor. Estaria o planeta inteiro vazio? — Diz-me uma coisa — pediu o Homem Azul. Mal conhecera aquele homem. onde os tolos perdiam todos os seus tostões. O Homem Azul sorriu. repetiu a pergunta. De repente. em seguida. todas as atracções do velho parque de Ruby Pier ganharam vida: a roda-gigante girou. dizemos: «Nem imaginam com quem eu sonhei esta noite!» — O teu corpo parece o de uma criança. ao som da música animada do órgão Wurlitzer.. para mim. O Homem Azul levantou o queixo. em tom pensativo. — Onde é que haverias de estar? — perguntou o Homem Azul. os carrinhos de choque embateram uns nos outros. a montanha-russa subiu estrepitosamente e os cavalinhos do Carrossel Parisiense cavalgaram nos seus postes metálicos. — Não? Não pode ser o Céu? — disse ele. . — Foi o que eu pensei.. — Ah — fez o Homem Azul. mas também não podemos espreitar por entre as nuvens e ver o que se passa lá em baixo. antes de existirem rodas de subfricção. Há quanto tempo estou morto? — Há um minuto. Seria possível estar a vê-lo agora? Era uma daquelas caras que nos aparece em sonhos e. Como é que eu morri? — Num acidente — disse o Homem Azul. O Homem Azul conduziu Eddie pelo meio do parque. ainda é «a montanha-russa mais rápida à face da terra»? 33 Eddie olhou para a velha máquina ruidosa. E lamento. O cais estava vazio. Este. Começamos pelos sentimentos que tínhamos em crianças. — É porque eras miúdo quando me conheceste. pensou Eddie. Não! Eddie sacudiu a cabeça violentamente. — Porquê? Porque foi aqui que tu cresceste? Eddie mexeu a boca como quem diz Sim. o primeiro. pensou Eddie.

. Sorriu para Eddie. Eddie tossiu. onde quem derrubar mais de três garrafas verdes ganha um coco com uma palhinha. — resmungou finalmente.. E alteraram a tua vida para sempre.. a causa. — Atira-a — diz o seu irmão. Imagina que é um dos seus heróis da colecção de cromos dos amendoins Crackerjack. — Esta é a maior bênção que Deus nos pode oferecer: dar-nos a compreender o que aconteceu na nossa vida. Correm pela alameda principal da feira. Terás outras pessoas à tua espera. para te contar a minha história. com todas as suas forças. Eddie fez um ar perplexo. da tua morte? O Homem Azul pareceu ligeiramente surpreendido. — Mas. Aperta-a com cada uma das mãos. Edward. A ideia de aquele ser um local de descanso abençoado estava para lá da sua imaginação. se molhavam e trocavam dólares por bonecos. — Vai-te lixar. — Qual foi. — A bola é minha! — grita Eddie. pelo menos. Algumas já conhecidas. O irmão encolhe os cotovelos e baixa-se. — Cada uma delas fez parte da tua vida. outras talvez não... — Anda. Mas uma paisagem magnífica sem conforto espiritual não tem sentido. Eddie — diz Joe. a causa. Todos passamos pelo mesmo. — Partilha a tua prenda comigo. pensou Eddie.. por um motivo específico. Na altura. depois. Para compreendermos a nossa vida na Terra. — Qual foi. — Há cinco pessoas que vais conhecer no Céu — disse subitamente o Homem Azul. Ninguém consegue falar assim que aqui chega. um lugar onde podem flutuar nas nuvens e espreguiçar-se nas montanhas e rios. Joe. consegues ouvir. talvez o grande jogador Walter Johnson. 36 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem sete anos e a sua prenda é uma bola nova de basebol. — Eu sou a tua primeira pessoa. passam pela cabina de jogos. O Homem Azul esperou pacientemente. que se tornará 35 parte da tua.. Que ridículo. — Foste tu — disse ele.O Céu?.. Tentou novamente falar e. Explicar-nos a nossa existência. A sua voz pareceu quebrar uma casca. Eddie pára e imagina-se num estádio. vim para aqui esperar por ti. nada mais. Mas todas elas se cruzaram contigo antes de morrerem. É a paz de espírito que todos desejamos. — Qual foi. Eddie arrancou um som do peito. um lugar onde as pessoas gritavam. sentindo uma onda de poder subir-lhe pelos braços. — As pessoas imaginam o Céu como um jardim do paraíso. O Homem Azul virou-se. — A tua voz há-de voltar. como um pintainho acabado de nascer.. Sorriu. ouviu um pequeno grunhido sair-lhe do peito. Passara a maior parte da sua vida adulta a tentar afastar-se de Ruby Pier. Estava farto de não conseguir falar. Lança a bola.. desta vez. tentando recuperar a voz. podes não ter percebido qual era esse motivo e é para isso que serve o Céu. a minha vida foi iluminada por outras cinco pessoas e. Joe! . Era um parque de diversões. — Atiraste com demasiada força! — grita Joe. Quando morri.

Porque é que ele me está a contar isto?. — Fui baptizado com o nome Joseph Corvelzchik.Eddie vê a bola tocar nas tábuas do chão e ir bater num poste. São interrompidos por um barulho de pano a rasgar. A minha mãe debruçou-me sobre o varão do navio e essa tornou-se a minha recordação mais antiga de infância: a minha mãe a balouçar-me ao sabor da brisa de um novo mundo. senti uma coisa molhada na perna. e o barulho da fábrica piorou o meu estado. Senti o estômago contorcer-se de dor. »Depois disso. entre aqueles homens todos. O meu pai foi obrigado a arranjar emprego numa fábrica de roupa. um dia. ele tirou-me da escola e eu fui trabalhar com ele. »Sempre que o capataz se aproximava de mim. filho de um alfaiate. de certa maneira. O capataz gritou que eu não servia para nada. Mas os pais podem dar cabo dos filhos e. o meu pai dizia: «Baixa os olhos. fiquei de rastos a seguir a isso. pensou Eddie. mas depois vê a bola junto de um cavalo de pau. Aberrações da feira de aberrações. Eddie permaneceu de pé. 38 o capataz a insultá-lo. com um sorriso divertido. Ainda hoje me lembro desse instante. como se quisesse quebrar os laços de vida que nos ligavam. Agarra na bola e corre atrás do irmão. Fita o homem sem camisa e aproxima-se lentamente da bola. Era uma criança nervosa e transformeime num jovem ainda mais nervoso. eu tropecei e deixei cair um saco de botões. Ele viu os lençóis sujos e fitou-me de uma maneira que nunca hei-de esquecer. Dormíamos num colchão. Um dia. Vêem uma mulher gordíssima e um homem sem camisa com o corpo completamente coberto de pêlos ruivos. que se esparramaram no chão. Depois. e suponho que o fiz. os seus lábios finos. o meu pai a implorar-lhe como se fosse um mendigo de rua. também nós não tínhamos dinheiro. Mas. Caem ambos ao chão. — O que é que vocês estão afazer aqui. na cozinha do meu tio. A porta de lona de uma tenda abre-se. Joe segue-o. era uma criança inútil e tinha de me ir embora. O capataz apontou para as minhas calças sujas e riu-se. 37 — Ouça lá — disse Eddie. — Vou começar pelo meu nome verdadeiro — anunciou o Homem Azul. estamos entendidos? Nem sequer o conheço! O Homem Azul sentou-se num banco. levantei os olhos e deparei com o meu pai. eu não tive nada a ver com a sua morte. — Vês onde ela está? — pergunta Eddie. numa postura defensiva. Eddie observou o rosto encovado do Homem Azul. Eu era muito pequeno. — Andam à procura de sarilhos? O lábio inferior de Joe começa a tremer e ele desata a chorar. não dês nas vistas para ele não reparar em ti». Levanta-se de um pulo e foge a correr. »Eu era uma criança nervosa. Eu era demasiado novo para estar ali. Sentia que eu o tinha envergonhado. de acordo com os parâmetros do mundo dele. As crianças ficam petrificadas. a abanar os braços. Eddie e Joe levantam os olhos. à noite. Corre atrás dela. . numa voz rouca —. levava os lençóis à socapa para a pia e lavava-os. a coser botões em casacos. Sorriu. limpando o nariz às costas da mão. o peito caído. criado numa pequena aldeia polaca. caindo depois numa pequena clareira por detrás das barraquinhas. o meu pai recusou-se a falar comigo. Viemos para a América em 1894. O pior de tudo é que. a praguejarem e a queixarem-se. e os outros empregados desataram a rir também. por natureza. Quando fiz dez anos. ó espertinhos? — pergunta o homem peludo. De manhã. »À semelhança da maior parte dos imigrantes. — Não. ainda fazia chichi na cama. Eddie também se levanta. — Isto é meu — murmura. como se fosse um anfitrião a tentar pôr um hóspede à vontade.

arrecadar umas moedinhas. A noite. Sem trabalho. como é que eu ia arranjar dinheiro para comer? Onde é que eu ia viver? 39 «Encontrei um bar. semidespido. Ele deu-me um frasco de nitrato de prata e mandou-me misturá-lo com água e tomá-lo todas as noites. Gostei da ideia de permanecer num lugar. em vez de andar a saltitar de terra em terra. em que Eddie e os seus amigos estavam a fazer passes de basebol com a bola que Eddie recebera no seu aniversário. em Julho. aceitei juntar-me ao seu grupo de feira. se vestisse uma camisa de manga comprida e pusesse uma toalha na cabeça. — Os artistas de feira deram-me os meus vários nomes. um grupo de artistas de feira sentou-se nos fundos do bar. não parava de olhar para mim. — Naqueles tempos. Tomava dois goles. a medicina ainda era muito primitiva. De manhã bem cedo. . O parque de diversões ia abrir uma feira chamada «Os Cidadão? Peculiares». Eddie reparou no olhar resignado do Homem Azul. »Esta tornou-se a minha casa. »Depois de falar com ele. — Despediram-me da fábrica. O Homem Azul interrompeu-se e fitou Eddie. »Daí a pouco tempo. depreendi que era por não estar a tomar o suficiente. que parecia ter sido ensopada em líquido azul. até uma pedrada pode ser bem-vinda. Fui a um farmacêutico. vim para este cais. eu fiquei muito orgulhoso. O Homem Azul deteve-se. Consegui. Por fim. »Fiquei envergonhado e ansioso. as pessoas começaram a olhar para mim de uma maneira estranha. A sua pele. enquanto as pessoas passavam por mim e o pregoeiro lhes dizia que eu era uma lástima. Às vezes. ou o Homem Azul da Argélia. Um deles. — Não nasci assim. eu era o Homem Azul do Pólo Norte. podia passear pela praia sem assustar as pessoas. até que a minha pele passou de cinzento a azul. procurar qualquer coisa para os nervos. Uma noite. um lugar escuro onde podia esconder-me atrás de um sobretudo e de um chapéu. O «espectáculo» era simples. »Num Inverno. É o meu. Portanto. com os latoeiros. um efeito secundário do veneno. Quando se é marginalizado pela sociedade. a fumar charutos e a rir. Muitas vezes se interrogara qual seria a origem dos figurantes do espectáculo de feira. Pode não parecer grande coisa mas. às vezes até com o teu pai. Peguemos numa manhã chuvosa de domingo. A sua voz esmoreceu.O Homem Azul fez uma pausa. para mim. 40 Peguemos numa história. ou o Homem Azul da Nova Zelândia. Nitrato de prata! Mais tarde foi considerado tóxico. uma aberração — explicou ele. O capataz disse que eu metia medo aos outros operários. E assim começou a minha vida de objecto. acabou por vir ter comigo. Mas era tudo o que eu tinha e. Eddie não conseguia tirar os olhos daquele corpo. assim. um tipo pequeno com uma perna de pau. por vezes três. Vivia num quarto por cima da loja de salsichas. Claro que eu nunca tinha visitado aqueles lugares. sem água. quando deixou de resultar. fazia pregas em pequenas camadas de gordura à volta da cintura. jogava às cartas com os outros empregados do espectáculo. A minha pele estava a ficar cor de cinza. Eu sentava-me no palco. Deduziu que devia haver uma triste história por detrás de cada um deles. essa liberdade era um luxo. — Estás a compreender porque é que estamos aqui? Este não é o teu paraíso. mas era agradável ser considerado exótico. nem que fosse num mero cartaz pintado à mão. em desconfortáveis carroças de circo. Edward. por triste que pareça. Edward. Bebi ainda mais nitrato de prata. no final dos anos vinte. o gerente chamou-me «a melhor aberração» do seu estábulo e. vista de duas perspectivas diferentes. comecei a tomar doses maiores. Uma vez. Ruby Pier.

o homem ficou esgotado. O condutor trava a fundo e dá uma guinada no volante. com um mecanismo tipo garra. mas o corpo do homem continua afectado. respira fundo. vê os estragos. guina para o lado e consegue evitar o atropelamento. encolhido junto do carro. De repente. com o menino de calças castanhas a enfiar moedinhas na máquina de brinquedos. O veículo continua a andar. Um polícia encontra-o. Ouvese o som discreto de um pequeno embate. A criança desapareceu do espelho retrovisor. As vezes. Peguemos no momento em que a bola voa por cima da cabeça de Eddie e vai parar à rua. — Oh não. uma bola de basebol pula a meio da estrada e aparece um miúdo a correr atrás dela. Passa uma hora. sem olhar para cima —. os pneus chiam. Sente-se tonto e a cabeça cai-lhe por um instante. Agora. que pediu emprestado a um amigo para treinar a condução.. vira para um beco. de braços cruzados num gesto de raiva. — Menino? Eddie sentiu um arrepio. — Eu sei — responde a mãe. O jogo termina daí a pouco e os miúdos vão para a galeria de jogos brincar na máquina t que. narrada do seu ponto de vista. como esse coração não é forte. na galeria de jogos. uma pilha de barras de metal e . O carro trava a fundo. vista de duas perspectivas diferentes. Eddie treme. sem 41 ninguém o ver. O impacte faz com que o homem seja atirado contra o volante. Está sentado na beira de um sofá axadrezado. É uma manhã de domingo.há quase um ano. A sua testa está a sangrar. o mesmo instante. a apertar-lhe os sapatos. mas uma perspectiva termina bem. Tem o braço a latejar. Ele ali fica. até que choca contra a traseira de um camião estacionado. mas temos de ir. depois desmaia no pavimento molhado. tendo terminado a história. o homem volta a guinar.. peguemos nessa mesma história vista de outra perspectiva. O automóvel quase colide com outro. Está um homem ao volante de um Ford modelo A. O homem não tinha familiares. onde um funcionário chama outro funcionário para contemplar a pele azul do cadáver recém-chegado. O homem consegue controlar o carro e o modelo A prossegue caminho. Desliza ao longo de uma avenida e. É o mesmo dia. 42 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem oito anos. Os faróis estilhaçam-se. O segundo condutor apita. A causa da morte é «ataque cardíaco». Eddie olha com tristeza para o jogo colocado a um canto da sala. virando o volante e pondo o pé a fundo no travão. O sangue das suas artérias coronárias deixa de afluir ao coração. A injecção de adrenalina deixou-lhe o coração aos pulos e. depois. — Estás a ver? — sussurrou o Homem Azul. Ele sai do modelo A. na morgue da cidade. O beco está vazio. corre atrás dela e atravessa-se à frente de um automóvel. de calças castanhas e um barrete de lã. apanha pequenos brinquedos de dentro de uma grande caixa de vidro. Peguemos numa história. apanha a bola e volta a correr para junto dos amigos. — Eu NÃO quero ir — diz Eddie. um Ford modelo A. O médico-legista declara-o morto. a pensar que foi por um triz que evitou uma tragédia. Eddie. A estrada está molhada da chuva matinal. A mãe está agachada aos seus pés. temos de fazer coisas menos agradáveis quando acontecem situações tristes. O pai observa-se ao espelho. O carro patina. Dói-lhe o peito. — murmurou. a apertar a gravata. — Mas é o meu ANIVERSÁRIO. e a outra termina mal.

nenhuma pessoa boa morreria jovem. Acredite em mim. atrás de um pequeno grupo de enlutados. Dá-lhe uma pancada com força. mas está secretamente a contar a partir de 1. Porque é que você teve de morrer por minha causa? Não é justo. Não é justo. — Mas MAGOAM-ME! — queixa-se Eddie. No cemitério. que normalmente usam lamé dourado e turbantes vermelhos. não é? Para que seja feita justiça? O Homem Azul sorriu. — Já chega! — grita o pai. — Estávamos a brincar à bola. Estava com esperanças de o mostrar aos amigos. — Os meus sapatos novos são bem melhores. sabe disso. — Mas agora tenho de pagar — disse.. É por isso que aqui estou. Faz uma careta a Eddie. O Homem Azul estendeu a mão. 45 — A justiça — disse ele — não comanda a vida e a morte. Devia estar triste. Joe. Eras tão pequeno. Todas as pessoas que encontras aqui têm algo para te ensinar. Que estamos todos ligados uns aos outros. As mulheres parecem envergar todas o mesmo vestido preto.. O homem diz qualquer coisa sobre cinzas.. Juro por Deus que não sabia. O Homem Azul fez um sinal de assentimento com a cabeça. — Eu não sabia. Eddie abanou a cabeça.. na festa de aniversário. lançando um olhar furioso a Eddie. O irmão. Edward. Eddie estava a construir um camião. Eddie mal reconhece as pessoas do cais. Eddie deu um passo atrás e retesou o corpo. Os homens. Detesta andar com as coisas velhas de Joe.. como o seu pai. Foi estupidez minha desatar a correr pelo meio da estrada daquela maneira. tem de ir nem sabe onde. entra em casa com uma luva de basebol na mão esquerda. — Não. — Pagar? — Sim. como se a preparar-se para uma luta. 44 A primeira lição — Por favor. estavam ambos num cemitério. Estás aqui para eu te poder ensinar uma coisa. 43 Eddie observa um homem a deitar pazadas de terra numa cova. Eddie estremece. quando chegar a mil. — Pára de te mexer — diz a mãe. — O quê? — perguntou. da mesma maneira que não se pode separar a brisa do vento. Virou a palma da mão para cima e. — Esses sapatos eram meus e estão velhos — diz Joe. possa ter o seu aniversário de volta. Eddie cala-se. pensa. — Que nada é aleatório. algumas cobrem a cara com um véu. Que não se pode separar uma vida de outra. Eddie mostrou-se céptico e manteve os punhos cerrados. todo aperaltado. Um padre lia passagens da Bíblia. Eddie segura na mão da mãe e semicerra os olhos por causa do sol.três pequenas rodas de borracha. Em vez disso. Tem jeito para montar coisas. — suplicou Eddie. — Não podias ter adivinhado. de repente. pelo meu pecado. estão agora de fato preto. junto de uma sepultura. na esperança de que. Se o fizesse. Eddie não conseguia .. vestido de calças de lã e laço ao pescoço.

depois. — O meu funeral — disse o Homem Azul. — Os únicos momentos que desperdiçamos são aqueles que gastamos a pensar que estamos sozinhos. O Homem Azul pousou os braços nos ombros de Eddie.ver caras. bem lá no fundo. O Homem Azul recuou na direcção da sepultura e sorriu. Perguntou-se se teria tido um funeral. Eu bem podia ter sido um perfeito desconhecido. como se fosse derreter. Quando a morte leva uma pessoa. as bandeiras a adejar ao vento. como uma gaveta a ser fechadas» — Vou-me embora — sussurrou o Homem Azul ao seu ouvido. na pequena distância que existe entre partir e escapar. Quando o teu colega adoece e tu não. pensou Eddie. »É por isso que os bebés nos cativam. a minha morte foi um desperdício. Mas tu ainda vais encontrar outras pessoas. a atravessar o seu corpo — a solidão. — Então. Perguntou-se se alguém teria comparecido. irrequieto durante a cerimónia toda. E dito isto. — Olha para os enlutados. Mas. outra cresce. tal como a minha vida. a vergonha. mas foi subitamente levantado do chão por um torvelinho e levado para longe do cemitério. Acontece todos os dias. Alguns nem sequer me conheciam bem. 3 HORAS DA TARDE .. — Espera! — gritou Eddie. puxando-o. tudo isso deslizou para dentro de Eddie. — Que bem adveio da tua morte? — Tu continuaste vivo — respondeu o Homem Azul. Eddie sentiu imediatamente tudo o que o Homem Azul sentira na sua vida a invadi-lo. E. a sua pele transformou-se num magnífico tom de caramelo — macia e imaculada. Mas existe um equilíbrio em todas elas. um menino pequeno. Eu salvei a menina? No cais. Eddie estivera lá. há vidas que se alteram. Lá em baixo... que todas as vidas se intersectam. — Os desconhecidos — disse o Homem Azul — são familiares que ainda não conheces. os nervos. o ataque cardíaco. Eddie deixou cair os ombros. apenas as costas de chapéus. mas vieram. Uma pessoa definha. Porquê? Já alguma vez te perguntaste isto? Porque é que as pessoas se reúnem quando morre alguém? Porque é que as pessoas se sentem na obrigação de o fazer? »É porque o espírito humano sabe. — Nenhuma vida é um desperdício — disse o Homem Azul. — Diz-me só uma coisa. viu os telhados do velho Ruby Pier. — Este patamar do Céu já terminou para mim.. salvei-a? O Homem Azul não respondeu. Quando um relâmpago cai num lugar de onde acabaste de sair. o Homem Azul puxou Eddie para si. mas que hás-de conhecer um dia. tudo desapareceu. a pele mais perfeita que já vira em toda a sua vida. — E os funerais. há tantos anos. ao fazê-lo. Pensamos que essas coisas acontecem ao acaso. vestidos e casacos. durante a minha estadia na terra. 46 — Mas mal nos conhecíamos. também houve pessoas que morreram em vez de mim. pairando por cima de um vasto oceano cinzento. as espirais e torreões. »Dizes que devias ter morrido em vez de mim... O nascimento e a morte fazem parte de um todo. Foi naquele dia que o Homem Azul fora sepultado. Eddie voltou a olhar para o grupo reunido ao redor da sepultura. ou quando se despenha um avião em que poderias ter viajado. Viu o padre a ler a Bíblia e as pessoas de cabeça baixa. Era. Este sentiu aquela sensação de calor. — Virou-se para as pessoas enlutadas. outra qualquer escapa e. — Espera — disse Eddie. sem fazer a menor ideia do papel que desempenhara naquela situação. E. 47 DOMINGO. — Continuo sem compreender — sussurrou Eddie.

que lhe aperta o pescoço musculoso. como se pudessem resolver o problema. assim que ele entra na sala. familiares. as crianças com os seus copos gigantescos de refrigerante — estivessem demasiado atordoados para olhar e demasiado atordoados para ir embora. não.No cais. a multidão amontoava-se em silêncio à volta dos destroços da torre. que vieram para a América há uns meses. o Eddie conheceu uma rapariga. 49 . Mãe. A galeria de jogos fechou os portões. — Oh. Eddie consegue sentir o cheiro dos bifes que a mãe está a grelhar com pimentos verdes e cebolinhas. — Aqui vem o aniversariante — cantarola a mãe. Empurraram as pessoas para trás. como uma canção de carnaval tocada pelos altifalantes do parque. Chegaram os funcionários da segurança. dessa maneira Eddie tem uma desculpa para não se desfazer dos livros. obrigando as pessoas a porem as mãos em forma de pala sobre os olhos. A notícia de que acontecera uma tragédia espalhou-se pela praia e. Vindo de trás. — Aaah. ele entrou no quarto com uns olhinhos apaixonados e disse: Joe. a sério? Eddie sente-se corar até à raiz dos cabelos. amigos e trabalhadores do parque de diversões. Joe ignora-o. mas gostam de banda desenhada. Ofereceu a sua colecção aos primos pequenos da Roménia. Os primos não sabem falar inglês. Eddie traz uma camisa branca de botões nos colarinhos e uma gravata azul. As atracções do parque foram encerradas por tempo indeterminado. O Sol queimava. Chegaram os homens de farda. agarrando a cabeça com as duas mãos. É recebido com um coro de saudações e copos de cerveja no ar pelas visitas. Senhoras de idade levavam a mão ao pescoço. com a camisa da manutenção encharcada em suor. — A sério. mas ainda gosta daqueles heróis coloridos. — Ontem à noite. um cheiro intenso e silvestre que ele adora. os pais. impotentes. Dominguez irrompeu por entre a multidão. quer saber a última? — grita Joe. Mães puxavam as crianças para longe. — Ohhh não. conheci a rapariga com quem vou casar!» Eddie começa a ferver de irritação. adelgaçando as sombras. à espera das ambulâncias. — Cala-me essa matraca — diz Eddie a Joe. Vários homens corpulentos de camisola de alças abriram caminho até à frente. É muito grave?. está demasiado velho para esse tipo de coisas. também eles se limitaram a observar. faz dezassete anos. — Eddd-diii! — grita ela da cozinha. A morte encontrava-se aos seus pés. A família de Eddie foi buscá-los ao porto e eles mudaram-se para o quarto que Eddie partilhava com o irmão. como o Fantasma. a lutarem contra os maus para salvarem o mundo. Mas também eles baixaram os braços impotentes. mesmo com a porta fechada. ao pôr do Sol. 48 Hoje é o aniversário de Eddie Dentro do quarto. Ruby Pier estava vazio. O pai de Eddie está a jogar cartas a um canto. É muito grave? Soaram as sirenes. Seja como for. mas. de mãos na cintura. Joe. Hoje. Puseram faixas amarelas a delimitar o perímetro do acidente. Viu a carnificina. afogueado. sussurravam as pessoas. Diz que vai casar com ela. — Onde estás? Já chegaram todos! Ele rola para fora da cama e amima o livro de banda desenhada. assim que lá chegaram. como se estivessem a fazer continência. — É. Eddie! — gemeu. Era como se todos eles — as mães. numa pequena nuvem defumo de charuto.

daí a nada. que está esparramado na cadeira.. — Laaa laa liii — canta ela.. — Não faz mal — diz ela. para deleite da mãe. aproxima-se de Eddie. Eddie? — pergunta alguém. ofegantes e carracundos. 50 — Oh. Eddie fica especado como um prisioneiro a caminho da sua morte. Alguns dos parentes mais velhos sorriem. Será quase impossível fazer a manutenção do parque nessas circunstâncias. até os primos da Roménia levantam os olhos — de lutas eles entendem —. trocista. Dançam pela sala de estar. até que Eddie se desmancha e ri.. — Que notícia horrível — diz a mãe de Eddie.. la. continua a cantarolar e a dar um passinho de dança. até que o pai de Eddie pousa o charuto e berra: — Parem já com isso. as estrelas e a lua. Rodopiam até à mesa e a mãe de Eddie pega em Joe e põe-no de pé. ou levam os dois um par de estalos! Os irmãos separam-se. quando os dois irmãos se agarram um ao outro ao murro e ao pontapé. Dão as mãos e dançam.— Já te mandei calar! — Como é que ela se chama.. Mas a mãe. em Junho. — Não é assunto para um aniversário. Dançam à volta da mesa. dobra-o numa cadeira e. a acompanhar a melodia — .. fá-lo levantar-se. Mais tarde. — Mostra-me como dançaste com a tua nova amiga — diz ela.. pára com isso! Agora. se a situação piorar. mas ela fá-lo rodopiar com toda a facilidade. Roda o botão do rádio até encontrar música.. girando em círculos exagerados. e ela sorri e cantarola baixinho. — Agora dancem vocês os dois — diz ela. . lala. O irmão sorri. uma orquestra a tocar uma melodia swing.. Uma das tias sussurra: — Ele deve gostar mesmo da tal moça. gostas dessa tal moça? Eddie falha o passo. la. — Aaau! — CALA-TE! — Eddie. até que Eddie a acompanha.. — Com ele? — Mãe! Mas ela insiste e eles cedem e. la... pegando nas mãos de Eddie. Joe e Eddie estão a rir e a tropeçar um no outro. com o seu bonito rosto redondo. mãe! — Anda lá. Ela despe o avental. depois de comidos os bifes especiais e apagadas as velas e de a maior parte das visitas ter ido embora.. — Fico feliz por ti. a debicar os últimos bocadinhos de bolo. Depois.. — Aaau! — Eddie! — Eu mandei-te calar! Joe anuncia: — E ele dançou com ela na. quando estás comigo.. deixando o sofá livre. a mãe de Eddie liga o rádio.. — Ela costuma ir a igreja? Eddie dirige-se ao irmão e dá-lhe um murro no braço. Já é uns bons quinze centímetros mais alto do que a mãe. Há notícias sobre a guerra na Europa e o pai de Eddie faz um comentário sobre a dificuldade que vai ser arranjar madeira e fio de cobre.! Murro... — Então — sussurra ela —.

mas. Numa colina ali perto. Sentia-se mais forte do que antes. O céu explodiu num amarelo flamejante. O nome inscrito nas chapas era o seu. depois do seu turno de manutenção no caminho-de-ferro Liliputiano. Pagava-se uma moeda de cinco cêntimos e a máquina zumbia e a pessoa premia o gatilho e disparava balas de metal contra imagens de animais selvagens. Eddie começou a treinar na galeria de tiro de Ruby Pier. agora. Também ele lutaria. O pai. cuspindo a água suja à volta dos lábios. A sua corrida era diferente. O céu abriu-se e caiu um aguaceiro. O caminho-de-ferro Liliputiano era precisamente o que o nome indicava. e a cobardia com o depor das armas. Olhou em volta para o terreno sem vida. Já havia quem estivesse a lutar. que ao longo dos séculos confundiram a coragem com o pegar em armas. aterrou sobre o estômago e rastejou pelo solo. quando tentou tocar nos pés. nas coxas e canelas. Ouviu trovejar — ou um som parecido com o de um trovão. com um capacete em cima e uma série de chapas penduradas no punho. com umas carruagens pela altura da coxa de um homem adulto. Eddie sentiu um vento quente fustigarlhe o rosto. Como nunca disparara uma arma a sério. outras vezes como voluntários. Eddie ia lá todas as tardes. com os passos rígidos e ritmados de um soldado. Eddie. Antes de se alistar. Ruby Pier acrescentara umas atracções novas. O medo encontrara-o. Eddie baixou a cabeça e rastejou pela lama. porque. Era esse o seu objectivo: queria construir coisas.enquanto os clarinetes conduzem a melodia da rádio. acendeu um cigarro e exalou o fumo lentamente. nos ombros. E. na esperança de tirar um curso de Engenharia. explosões ou bombas — e atirou-se instintivamente para o chão. uma chuva espessa e acastanhada. Os jovens vão para a guerra. A mãe não quis que ele fosse. mesmo que o seu irmão. Por fim. Eddie andara a trabalhar para poupar dinheiro. de azul-cobalto a cinza-carvão. não tens miolos para tanto. e Eddie estava agora rodeado de árvores tombadas e destroços enegrecidos. O céu tornou a mudar. — Quando? — foi só o que ele perguntou. Eddie acordou bem cedo. depois rastejou apressadamente para uma parede porosa de vinhas fibrosas. numa manhã chuvosa. Levantou os olhos e viu uma espingarda enterrada no chão. levando os joelhos ao peito. sentiu a cabeça roçar numa coisa sólida. que pendiam de uma 52 árvore colossal. Encolheu-se. uma vez mais. Já não tinha aquela sensação infantil de ser feito de borracha. Quando o seu país entrou na guerra. Os seus músculos estavam tesos como os arames de um piano. quando foi informado da notícia. 51 A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie sentiu os pés tocarem no chão. já não conseguia. Mas sentem sempre que o devem fazer. encontrava-se uma carroça desconjuntada e os ossos em decomposição de um animal. à força. ao parque. Tocou nos braços. até mesmo no céu. Umas vezes. Escondeu-se na sua escuridão. um leão ou uma girafa. as montanhas-russas se tinham tornado demasiado dispendiosas. penteou o cabelo para trás e alistou-se. Eddie desatou a correr. por causa das tristes histórias multifacetadas da vida. depois da Depressão.» . fez a barba. Pestanejando por entre a chuva. os primos romenos batem as palmas e os últimos resquícios de bife grelhado se evaporam no ambiente festivo. apalpou as chapas. Joe. A elasticidade desaparecera. ainda que pequenas. insistisse em dizer: «Deixa-te disso. Tentou recobrar o fôlego.

Pang! Mais um. cujos pais tinham partido para a frente. e. algures na árvore. estás a ouvir? Sem culpa. devastada pelas bombas e reduzida a pouco mais do que cinzas. A maior parte dos clientes de Eddie eram. Eddie ficou especado a olhar. Eddie deu meia volta. o assobio nasal a cada inspiração e expiração. agora. como um homem que acabava de receber más notícias. Eddie encolheu os ombros e voltou a disparar. A arma mecânica parou de zumbir. Ouvia a sua respiração trabalhosa. Eddie juntar-se-ia àqueles homens distantes. Vinha de cima. Eddie.Mas assim que começou a guerra. De repente. sentiu um apertão doloroso no ombro. — Varíola. instintivamente. Depois. as crianças pediam a Eddie para as levantar bem alto. Pang! Fariam barulho quando ele os atingisse — pang! — ou tombariam simplesmente. Uns dias depois. Eddie pegou numa mochila e deixou o cais para trás. Os jovens vão para a guerra. Disparas e disparas sem pensar em quem estás a alvejar ou a matar ou porquê. — A voz de Mickey era um rosnar grave. Afastou as vinhas e viu a espingarda e o capacete ainda espetados na terra. via os sorrisos tristes das mães: era o gesto certo. Ele conhecia-o. mais alto do que 53 a cabeça dele. rapaz? Mickey Shea estava parado atrás de Eddie. Numa dessas últimas noites. Tétano. — Pfff — grunhiu Mickey. Por instantes. Eddie desejava que Mickey se fosse embora e o deixasse treinar a pontaria. os olhos a tentarem focar o cenário. Aquele lugar. profundamente concentrado a disparar. Pang! Outro tiro certeiro. Eddie virou-se e cravou os olhos em Mickey. Se tiveres de disparar. Lembrava-se da razão por que os soldados faziam aquilo: para assinalar as sepulturas dos mortos. Apertou o ombro de Eddie com mais força ainda. pensava Eddie. Mickey deu-lhe um estalo na cara e. mulheres sozinhas com crianças. Febre tifóide. soltou uma longa e profunda expiração. quando Eddie lhes fazia a vontade. mas o par de braços errados. às vezes como voluntários. pondo fim à sua vida de olear trilhos e testar alavancas de travões. estás a ouvir? Se queres voltar para casa. Pang! Pang! Tentou imaginar-se a alvejar o inimigo. — Varíola — disse uma voz. de boca entreaberta. disparas. Depois. disparas e não pensas. A moeda de Eddie já não dava para mais disparos. como os leões e as girafas? Pang! Pang! — Estás a treinar-te para matar. O seu cabelo era da cor dos gelados de baunilha franceses. a tremer e todo molhado debaixo da árvore colossal. Rastejou de joelhos para fora do seu refúgio. Eddie continuou a disparar. Febre amarela. como o pneu de uma bicicleta a ser enchido com a ajuda de uma bomba. A guerra era o seu ritual de passagem para a idade adulta. molhado de suor. olhou para 54 Eddie como se fosse chorar. Sentia o velho bêbado atrás de si. por baixo de um pequeno cume. Mas Mickey arrotou e cambaleou para trás. Sem hesitação. Eddie levantou o punho para retaliar. Por vezes. e o seu rosto corado da bebida. Assombrara-o em sonhos. Talvez alguém também sentisse a sua falta. Eddie estava debruçado sobre a pequena arma da banca de tiro. . — Ouve uma coisa. sentiu um aperto no peito. — A guerra não é uma brincadeira. Em breve. rapaz. — É o pensar que mata. o negócio do parque decaiu. A chuva parou. encontravam-se os restos de uma aldeia. Ao longe. subitamente.

e Eddie nunca mais o vira. capitão? Estiveram juntos no exército. Que raio. — Aposto que não estavas à espera que fosse eu. A voz era forte. não fosse acertar numa árvore e ferir-se com o ricochete. soldado? Eddie olhou para baixo. E Eddie subiu à árvore. O seu rosto estava coberto por uma substância negra como carvão. agora! — e aprendeu a depressão profunda do segundo combate de um soldado. Os seus olhos reluziam como pequeninas gambiarras vermelhas. tudo de uma vez. uma carabina. a queda pareceu-lhe grande. Aprendeu a aclamação nervosa do primeiro combate sobrevivido por um soldado. Aprendeu a fumar. — E o senhor é. Caíram uns pequenos frutos aos pés de Eddie. um rádio. mais tarde. — É o senhor. que ficava tão alto como um edifício de vários andares. — Nisso acertaste. Aprendeu a atravessar uma ponte de corda enquanto carregava. — Também acertaste. quase até ao cimo. sentado contra o tronco da árvore. olhando para baixo. — Sobe — respondeu a voz. Sorriu. Eddie engoliu em seco. que fora morto em combate. uma máscara de gás. como se o homem tivesse estado a gritar durante horas. Aprendeu a cuspir a uma grande distância. Prendeu as pernas num ramo grosso e. Aprendeu a beber o pior café do mundo. Aprendeu a marchar. — Fui vacinado contra todas essas doenças e. hã? Eddie aprendeu muitas coisas durante a guerra. Aprendeu a ter cuidado quando disparava de dentro de uma cova.— Nunca descobri o que é a febre amarela. Aprendeu a barbearse com água fria dentro do capacete. como quem diz: «Já alguma vez tinhas imaginado que se podia fumar aqui em cima?» Depois. também nunca conheci quem a tivesse tido. Eddie conseguiu distinguir a figura sombria de um homem de camuflado. Ouvira dizer. — Desce — disse ele. que outras se seguirão depois dessa. saudável como um touro. — Estou morto — disse. Lutaram nas Filipinas e despediram-se nas Filipinas. Por entre 55 os ramos mais pequenos e as grossas folhas de figueira. Uma nuvem de fumo pairou no ar. um sobretudo. com um ligeiro sotaque sulista e um toque de rouquidão. — Gostas de maçãs? — perguntou a voz. mas sabia que não podia cair. Aprendeu a andar num tanque.. 56 Aprendeu umas quantas palavras numas quantas línguas estrangeiras. um tripé para a metralhadora. — Capitão? — sussurrou. Viu a terra lá ao fundo. A árvore abanou. a minha segunda pessoa? O Capitão levantou a mão que segurava o cigarro. uma mochila e várias bandoleiras ao ombro. puxou uma longa fumaça e expirou uma pequena nuvem branca. em que ele percebe que a luta não acaba depois de uma batalha.. morri aqui. em que os homens batem nas costas uns dos outros e sorriem como se tivesse acabado — Já podemos voltar para casa. Eddie levantou-se e pigarreou. mesmo assim. — Explicaram-te as regras. — E o senhor também está morto. O Capitão era o comandante de Eddie. .

e no instante seguinte ouve-se um uuusssh e o colega cai para o lado e a fome deixa de ser importante.. a segredar que se está cheio de fome. Aprendeu.. amarelados do tabaco. de maneira que se lhe via os dentes todos. Era mais velho do que os homens do pelotão de Eddie. — Afirmativo. O hálito é sempre o mesmo. Tive uma vida de nada. Capitão. — Com o mesmo aspecto com que me viste pela última vez? — Sorriu e. apesar de perder facilmente a cabeça e ter a mania de gritar na cara de uma pessoa. um militar de carreira com um andar presunçoso e 57 um queixo proeminente. quando o avião de transporte está prestes a largá-los. Ocupava-me das máquinas. depois de ter estado com o Homem Azul: também teria matado o Capitão? — Tenho andado a pensar numa coisa — disse o Capitão. cuspiu por cima do ramo da árvore... — Isso é escusado. que até os homens fortes e musculosos vomitam nos sapatos. A maior parte dos soldados gostava bastante dele. O Capitão apagou o cigarro. a seguir. o seu grupo foi apanhado sob fogo pesado e dispersou em busca de abrigo. Apesar disso. embora nunca tivesse aprendido a tornar-se um.. a chorar como uma criança e gritou-lhe: «Cala-te!» e percebeu que o homem estava a chorar. eles mantiveram-se em contacto? O Willingham? O Morton? O Smitty? Voltaste a vêlos? 58 . o Capitão prometia sempre que nunca «deixaria ninguém para trás». O que estou a querer dizer é que. à medida que um ano se transformou em dois e dois anos em três. reparou na expressão perplexa de Eddie.. E a comida incrível. Vivi no mesmo apartamento durante anos. do fundo de uma trincheira. que o tornava parecido com um actor de cinema da época. É escusado cuspir aqui em cima. sabe? Trabalhei na manutenção de um parque de diversões. numa ilha das Filipinas. De repente. A comida? Eddie não estava a perceber nada. Eu continuo sem saber por que estou aqui.Aprendeu a assobiar por entre os dentes. Depois. se está sentado ao lado de um colega numa trincheira. os céus iluminaram-se e Eddie ouviu um dos seus amigos. uma noite.. Aprendeu que a sarna são pequeninos bichos que fazem comichão e que se enterram na pele. porque havia um soldado inimigo de pé junto dele com uma espingarda apontada à cabeça. especialmente depois de usar as mesmas roupas imundas durante uma semana. — Passou tanto tempo. coçando o queixo. — Que faço eu aqui? O Capitão olhou para ele com aqueles olhos vermelhos cintilantes e Eddie resistiu a fazer a outra pergunta que agora o atormentava. daqueles navios estúpidos em forma de foguetão. na véspera do combate. Aprendeu que os ossos de um homem são realmente brancos. da roda-gigante. da montanha-russa. Aprendeu a dormir em terreno rochoso. — Capitão. Deve haver um engano. e Eddie sentiu uma coisa fria no pescoço e havia um atrás de si. E também não vomitamos. Aprendeu a rezar muito depressa. — Tens razão. acontecesse o que acontecesse. Eddie engoliu em seco. Limitei-me a ir andando.. Aprendeu em que bolso guardar as cartas para a sua família e para Marguerite.. também. Aprendeu que. Nada de que me orgulhasse. — Os homens do teu pelotão. e que até os oficiais falam durante o sono. mas muito obrigado. quando rompem a pele. às vezes. ainda estupefacto. — Ouça. O senhor está.. — voltou Eddie a dizer. caso fosse encontrado morto pelos seus companheiros de luta. — Sir. Aprendeu a capturar um prisioneiro. o que reconfortava os homens.

iam improvisando de dia para dia. mas. O Capitão chamava-lhes Louco n. que era um rapaz robusto quando se alistara. Viam-se-lhes as costelas — até as de Rabozzo. TU VAIS! Os soldados inimigos gritaram e espicaçaram-nos com as baionetas. um caldo acastanhado com ervas a flutuar. semanas. Fiz planos. enquanto marchavam na escuridão — cabanas. acima do solo lamacento. Mas. como tantas vezes acontece numa guerra a sério. ninguém apareceu. — Sinceramente. Faltavam-lhe as asas.° 1. com cabelos pretos retintos. também podia afastá-los. — Sim. tal como um íman. Eddie encolheu os ombros. Tu vais!. Nunca obtinham resultados. nunca de lá saí. meses. Uma noite. Rabozzo e o Capitão foram conduzidos em rebanho e obrigados a descer uma colina íngreme. A sua alimentação consistia de bolas de arroz cheias de sal e. Ficaram magros e fracos. as coisas que fizeram. Louco n. à espera de respostas. . e ali permaneceram durante dias. Fora isso que ele dissera. acabámos por nos afastar uns dos outros. Mas esta maldita perna. A verdade é que não tinham mantido o contacto. a curta distância entre a liberdade e o cativeiro. Eddie tirou uma vespa morta de dentro da taça. À sua volta. A medida que o tempo ia passando. estradas. Tanto quanto Eddie sabia. O Capitão acenou com a cabeça. Um parecia demasiado novo para ser soldado. — Lamento muito. gritando numa língua estrangeira. sabendo que essa informação seria preciosa em caso de fuga. eram apenas quatro e o Capitão achava que também eles se tinham afastado de um pelotão maior e que. Não sei. uma vez por dia. A guerra unia os homens como um íman. Morton. — E tu? Voltaste para o parque de diversões onde todos nós prometemos ir. os guardas inimigos rastejavam por baixo das barracas e escutavam as suas conversas. falavam cada vez menos. Ao fim do dia. obrigados a dormir em sacos de serapilheira cheios de palha. Semicerrou os olhos e baixou a voz. — Ainda fazes malabarismo? — perguntou. rugia um avião.Eddie lembrava-se dos nomes. — Vais!. explodiam morteiros. A noite. Nada resultou. Eddie viu um vulto correr por entre as árvores. Os outros pararam de comer. Tentei. Os seus rostos eram encovados e ossudos.. ele e os outros soldados foram amarrados pelos pulsos e tornozelos e atirados para dentro de barracas de bambu.. por vezes. 59 Em vez disso. É a tortura interna de todo o soldado capturado. poderia voar para longe daquele erro.. com as mãos na cabeça. Uma jarra de barro servia de retrete. Se Eddie pudesse saltar e agarrar-se à asa do avião. depois cair sob uma saraivada de balas. voltei — disse Eddie.... Ao longe..° 2. Os seus captores não pareciam saber ao certo o que fazer com eles. quando a guerra acabou. — E? — E. tudo o que conseguisse orientar —.° 4. Louco n. O que todos disseram. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie já vira na vida. Smitty. enchendo Eddie com uma súbita onda de náusea e desespero. As coisas que viram. Eddie.° 3 e Louco n. só queriam esquecê-las.. como se já estivesse à espera daquela resposta.. entravam na cabana com as baionetas e abanavam as lâminas diante do nariz dos americanos.. — Não queremos saber os nomes deles — disse ele. — Encolheu os ombros. Tentou fixar imagens mentalmente. As barracas erguiam-se sobre estacas. O Capitão perscrutou o seu rosto. se sobrevivêssemos? Bilhetes à borla para todos os soldados? Duas raparigas por soldado no Túnel do Amor? Não foi isso que tu disseste? Eddie esboçou um sorriso. — E não queremos que eles saibam os nossos.

atingiu Eddie com o punho da baioneta. Mas. aconteceu uma coisa. batia na palma da mão e pensava em todas as brigas em que se envolvera no seu antigo bairro. um rapaz magricela e falador de Chicago. Dou-te estes nove dias.. onde cinco clientes voavam em círculos até a campainha tocar. ao fim do dia. como o jogador de basebol ansioso que fora na sua juventude. mas ainda assim rezava. para ajudar nos esforços de guerra do inimigo.». Rabozzo.. Depois. Smitty. se eles não tivessem armas. No dia seguinte. estavam desesperadamente pretos e os seus pescoços e ombros latejavam de tanto estarem dobrados. dou-te estes seis dias. enxadas e baldes de metal. À noite. Rabozzo apanhou uma alergia cutânea grave e uma terrível diarreia. inventando as palavras e contando cada noite. a sua maçã de Adão mexia para cima e para baixo. o jovem ruivo de Portland. e o Capitão tapou-o com o seu saco. filho de um bombeiro de Brooklyn. amarraram-nos e conduziram-nos para dentro de uma conduta. ou com o irmão. estava calado a maior parte do tempo. Davam-lhes um copo de água de umas quantas em quantas horas. Eddie caiu.» até os outros o mandarem calar. picaram-no com paus para continuar a raspar as paredes. Alguns usavam as pás. Os quatro Loucos não mostraram qualquer indício de compaixão. mas muitas vezes parecia estar a engolir qualquer coisa. que o seu pai falasse consigo — haviam treinado Eddie na arte da paciência. dizendo: «Senhor. os prisioneiros acordaram ao som de gritos e baionetas ameaçadoras. que elas ficarem completamente encharcadas. e os quatro Loucos mandaram-nos levantar. ai porra. O chão estava frio. Morton. mas à noite acordava frequentemente aos gritos: «Eu não! Eu não!» Eddie fervilhava. Rabozzo mal se aguentava de pé. Havia pás.. que as ondas recuassem. o sonho mudava e nos outros cavalos estavam os quatro Loucos a espicaçá-lo. uma manhã.. Eddie e os outros soldados foram obrigados a arrancar carvão das paredes. os nós dos dedos contra a pele. Mas ele queria ir embora e queria vingança. se me deres dezasseis dias com ela. colocada à sua frente. — Deixem-no em paz — grunhiu Eddie. estrangeiros que não sabiam inglês e que olhavam para Eddie com olhos vazios. O Louco n. no carrossel dos Cavalos de Corrida. Cerrava os maxilares. Cerrava um punho e batia na palma da mão durante horas a fio. Eddie adormecia com a fotografia de Marguerite dentro do capacete. Não conseguia comer. Sujou as calças. Depois. Era proibido falar. Os anos e anos de espera no cais — que uma corrida acabasse. Ele fazia uma corrida com os amigos. estremecia sempre que ouvia barulho lá fora. — É uma mina de carvão — disse Morton. ou com Marguerite. à laia de cobertor. . durante o quarto mês. Não havia roupa limpa para lhe dar. Imaginava o que faria àqueles guardas.. 61 Durante os primeiros meses de cativeiro. outros raspavam. mantinha uma cara impassível durante as horas de vigília. o mais cruel dos captores. ai porra. Não havia luz. A partir desse dia. Dou-te estes dezasseis dias.. Os rostos dos prisioneiros. a fazer troça. se me deres seis dias com ela.° 2. portanto ele dormiu nu sobre a serapilheira. coçava o queixo e murmurava: «Ai porra. se me deres nove dias com ela. sonhava que estava de regresso ao parque de diversões. transpirou tanto dentro das suas roupas imundas.. A noite. Oregon. Não era muito dado a rezas. Havia outros prisioneiros. o dia em que mandara dois miúdos para o hospital com a tampa de um caixote do lixo. outros carregavam pedaços de lousa e construíam triângulos para suportar o tecto. Quando ele abrandou o ritmo.. uns melhor do que os outros. depois. Eddie descobriu mais 60 tarde que estava a morder a língua. na mina.Os homens adaptam-se ao cativeiro.

depois fixou Eddie e cuspiu-lhe para os pés.° 2 debruçou-se sobre Rabozzo. atirava-as bem alto e deixava-as cair novamente. Focou os olhos. Depois disso. coberto de cinza preta. Três semanas depois. apontando com a cabeça para o guarda. Morton levou as mãos à boca. pelos pés. o Louco n. parecia óleo derramado. — O quê? Mas já Eddie gritava ao guarda: — Ei! Tu aí! Estás a fazer tudo errado! . À noite. Depois. Eddie ouvia bombas a deflagrar. O Louco n. — Ele está doente! — gritou Eddie. levantou os olhos. com as quais. O Louco n. Por instantes. Eddie — sussurrou Morton. o Capitão calculava que os seus captores fugiriam.° 3 estava dentro da barraca.° 2 voltou a bater-lhe. O eco do tiro perdurou na mina.° 2 atirou terra preta para cima do corpo. Rabozzo raspou mais uns pedaços de carvão e. enfiou-a no ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabeça. — Capitão — sussurrou. — Cala-te. a seguir. — Que têm as pedras? — perguntou o Capitão. Vira covas abertas por detrás das barracas dos prisioneiros e grandes barris de óleo colocados no cimo da íngreme encosta. — Eu sei fazer malabarismo — segredou Eddie. pondo-se de pé a custo. Eddie. Gritou qualquer coisa para o Louco n. Parou de contar os dias.° 2 abanou a arma e voltou a gritar. Riu-se a olhar para todos eles. Todos os dias.° 2 gritou para ele se levantar. desmaiou. por isso necessitavam de todos os prisioneiros. entediado. O Capitão achava que os esforços de guerra do inimigo eram desesperados.° 3 abanou a cabeça e murmurou entre dentes. Eddie parou de rezar. havia menos corpos. — O que é que estás a pensar fazer? 63 — As pedras — disse Eddie. — Está pronto para a acção? O Capitão levantou a cabeça. — O óleo é para queimar as provas — sussurrou o Capitão. Fez «Ahh» e riu-se. 62 O Louco n. deixando ura trilho de sangue fresco. pareciam cada vez mais próximas. e arrastaram-no ao longo do chão da mina. na mina. ao lado de uma picareta. Rabozzo gemeu.sentindo uma pontada de dor espalhar-se entre as omoplatas. que. de vigia. tentava fazer malabarismo. Sentiu os nervos encherem-se de vida. Se a situação piorasse drasticamente. Eddie sentiu o seu corpo rasgar-se em dois. O Capitão baixou os olhos. Levantou-lhe as pálpebras. — Estão a cavar as nossas sepulturas. o Louco n. para ter a certeza de que o estavam a ver. apanhava-as. irritado com o barulho das pedras a bater no chão.° 3 e o Louco n. fitando cada um nos olhos. Ele e o Capitão falavam em fugir. que pareciam tão atordoados como os prisioneiros. quase do tamanho de tijolos. mas finalmente decidiu levantar-se devagar. para raspar carvão. e o Louco n. O Capitão semicerrou os olhos. como se estivesse a rezar. enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poça de sangue. de pálpebras fechadas e os lábios a moverem-se furiosamente.° 4. sob um céu de Lua fosca. pegou na pistola. Os seus olhos turvaram-se e o cérebro entorpeceu. até dos moribundos. Ninguém se mexeu. O Louco n. antes que tivessem todos o mesmo destino.° 2 fez um sorriso exagerado e pôs-se a fazer barulhinhos reconfortantes como se faz com os bebés.° 4 levantaram lentamente o corpo de Rabozzo. Estava a tentar dormir. Deixava-as cair. Mas o Louco n. Tinha duas grandes pedras. O Louco n. na escuridão. — Para teu próprio bem. destruindo tudo.° 3 e o Louco n. Deixaram-no cair junto de uma parede.

. mas Eddie sorriu como os malabaristas de Ruby Pier costumavam sorrir. de todos os guardas. — Assim — disse Eddie e começou a fazer malabarismo sem qualquer dificuldade. meus caros! Eddie acelerou os gestos. O Capitão riu-se. depois contou: — Um. dois. O Louco n. enquanto eles seguiam a pedra. O Louco n. em cheio contra o queixo do Louco n.° 3 grunhiu.. à socapa. A seguir. desconfiado.». Os Loucos observaram-na a subir. desconfiado. deu um passo atrás.. partindo-lhe o nariz.. — Gostas? — perguntou Eddie. lala-la laaaa. «Capitão. sem querer. Eddie riu-se. Eddie tentou controlar a respiração. — Olhem. — sussurrou Eddie entre dentes. Não era nada de especial. Atirou uma pedra bem alto. A sua postura descontraiu-se. com a mão esquerda. Atirava uma pedra bem alto e observava os olhos dos seus captores... com um italiano da feira que fazia malabarismo com seis pratos de uma vez. bolas de borracha. já Morton e Smitty estavam sentados. A meio de um passe de malabarismo. 64 O Louco n. alerta.» Os guardas riram-se. Cantou: «La. Morton e Smitty aproximaram-se discretamente. depois.° 3 abriu a porta de bambu e fez o que Eddie esperava que ele fizesse: chamou os outros guardas. Eddie voltou a fazer o movimento circular e sorriu. furiosamente.. pedaços de pão aos prisioneiros. — O maior espectáculo do mundo. voltou atrás para ir buscar a sua baioneta.° 2 seguiu-o.° 1 apareceu com uma pedra grande e o Louco n. la-la-la laaaaa. o tipo da esqueeeerda.. Cada uma era do tamanho da palma da sua mão. como quem diz «Têm de ver isto». depois entregou as duas pedras a Eddie. atirando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela. vês? — Eddie esticou três dedos. Os guardas estavam a gostar do entretenimento. este era o que lhe daria mais hipóteses.. — Aproxiiimem-se — cantarolou Eddie. Aprendera-o quando tinha sete anos. — Três pedras. mostrou as pedras e disse: — Dá-me mais uma.° 3 entregava.° 3 aproximou-se. Eddie atirou as pedras num movimento rítmico.° 2. agarrou numa pedra e. Mas.° 1. — Qual é a ideia? — murmurou Smitty. Riso forçado. O seu malabarismo era cada vez mais rápido. — Três. que caiu para 65 . — Se ele me der mais uma pedra. olhem. fingindo que as palavras faziam parte da melodia. — Ahhh — fez o Louco n. como o bom jogador de basebol que sempre fora. Eddie passara horas a fio a treinar no parque de diversões — com seixos. depois apanhou a terceira e repetiu o gesto.° 2 franziu o sobrolho. Depois parou.Fez um movimento circular com as palmas. — e atirou uma pedra muito mais alto do que antes. arremessou-a com força contra a cara do Louco n.° 3 fitou-o. Só mais um pouco. «La. O Capitão aproximou-se. O Louco n. agora. sorriu para os outros e fez-lhes sinal para se sentarem. cada vez mais depressa. — Eu sei fazer malabarismo. para empatar. O Louco n. deteve-se. enquanto lançava as outras duas. ele atirava as pedras ao ar. para impressionar o guarda.. o Louco n. Eddie achava que..» O Louco n. Cantou uma musiquinha de feira. — Agora! — gritou Eddie..° 3. fingindo-se interessados no malabarismo. A maior parte dos miúdos do cais sabia fazer malabarismo. tudo o que encontrasse. Dá-me as pedras. quando o interesse do público começava a esmorecer. — Assim! Tens de fazer assim! Dá cá as pedras! Esticou as mãos. Por essa altura.° 3 atirou a pedra a Eddie e gritou qualquer coisa. O Louco n. Eddie apanhou a segunda pedra e atirou-a. Ocasionalmente. olhem! — cantarolou Eddie.

. e por baixo. na entrada da cozinha. E ali está ela.. Um aponta pela janela para o Carrossel Parisience. o seu coração dar um pulo. O corpo do Louco n. — Vamos queimar tudo — disse. sujando as têmporas com o muco viscoso. Eddie. enquanto eles tentam dar-lhe murros no estômago. — Os outros devem ter fugido. descalços e cobertos de sangue. bom. antes de lá entrar a correr. — Pelo Rabozzo — murmurou Smitty. quando ouviram as bombas — sussurrou o Capitão. repetidas vezes. As outras cabanas estavam vazias. Eddie estava a contar com mais tiros. A menos de cem metros. ao longo da cobertura de baunilha. os quatro guardas estavam mortos. espingardas e dois lança-chamas com ar primitivo. correram para a encosta íngreme.° 2 tornou-se mole. saiu com os braços cheios de granadas. que ambos caíram pela porta fora. que percebeu ser sangue e pele e cinzas de carvão. de lado. colocou o seu único par de sapatos bom. «Regressa depressa filho». cheio de adrenalina. Eddie — diz Marguerite. que ele vestirá no dia seguinte.° 4 entrou a correr e Eddie atirou a última pedra contra a cabeça dele e falhou por centímetros.. A porta da rua abre-se e Eddie ouve uma voz que faz. ou seja. com a pistola do inimigo na mão. o acampamento inteiro estava vazio. todos misturados — depois. quando ele se baixou. Eddie perguntou-se há quanto tempo estariam ali sozinhos com os quatro Loucos. O Louco n. na maçaneta do guarda-fatos do seu quarto. — Trouxe-te uma coisa. alguém acrescentou as palavras «Regressa depressa a casa» em letras azuis floreadas. mais guardas para enfrentar. em Pitkin Avenue.. 66 Hoje é o aniversário de Eddie O bolo diz «Boa sorte! Luta muito!» e. o Capitão. mas nada aconteceu. Havia uma cabana de abastecimentos ali perto e Morton certificou-se de que estava vazia. Pegou numa pedra solta e esmagou-a contra o crânio do louco. saltou sobre o Louco n. com as mãos atrás das costas. que está iluminado para receber os clientes da noite. momentaneamente petrificado. — Somos o único grupo que sobrou.° 3. que se encontrava à espera junto da parede. levou a mão à pistola e disparou-a ao acaso. ficava a entrada da mina de carvão. Traz uma pequena caixa nas mãos. Pergunta-se se essa não será uma fraqueza que não deveria levar para a guerra. Ela sacode a chuva dos cabelos e sorri. Em poucos minutos. A mãe de Eddie já limpou e passou as roupas a ferro. para a tua partida.° 2 e esmurrou a cara dele com muito mais força do que alguma vez batera em alguém. magros. Pendurou-as num cabide. até hoje. Estava a sangrar do peito. enquanto Morton e Smitty se lançavam contra as suas pernas. Para o teu aniversário e. Os barris de óleo estavam empoleirados no primeiro degrau da colina. ouviu um tiro e levou as mãos à cabeça. e Eddie sente as habituais cócegas no peito. Levantou os olhos e viu Smitty de pé junto dele. espetou a baioneta nas costelas do Louco n.. — Olá. Aliás. até olhar para as suas mãos e ver um repugnante muco arroxeado. Eddie está na cozinha. Os prisioneiros. A porta abriu-se de rompante e o Louco n. maravilhosa.trás quando o Capitão lhe saltou em cima. mas. mas os Os de «soon» («depressa») estão colados e mais parecem a palavra «son» («filho»). a brincar com os seus primitos romenos. apoderando-se da sua baioneta. — Cavalos! — exclama a criança.° 4 com tanta força.

sente como se um fio se tivesse soltado do seu coração e embrulhado em volta dos ombros dela. todos concordaram de imediato. Uma gota de chuva cai na testa de Eddie. — Não te deixes matar. com os braços cheios de armas roubadas. Os dias e noites que perdeu. tornando-a sua. todos lhe desejam boa sorte. Eddie sorri. — És mesmo forte — comenta Marguerite.. Ele levanta os olhos para o amontoado de nuvens. diz aos outros «Vamos queimar tudo». Eddie gostaria de poder parar o tempo. Ama-a mais. a oferecer-lhe aquela prenda. — Ainda nem sequer a abriste. que ficou na reserva por ter pés chatos.. — Não é preciso pedires-me para esperar — diz Marguerite. detêm-se na marginal. de repente. Na galeria de jogos. Eddie passeia com Marguerite ao longo da marginal. um velho trapeiro construiu uma pequena fogueira com gravetos e toalhas rasgadas e está agachado junto dela. — Que bom — diz ele. nessa noite. arrumadores e vendedores de comida. Depois outra. numa pose saída dos filmes. quando Morton.Volta a sorrir. Na praia. Conhece os nomes de todos os porteiros. — Quente — diz Eddie. do que algum dia julgou ser possível amar alguém. — Queres. está bem? — diz ela. Eddie engole em seco. Por isso. e há um momento em que a mãe dele começa a chorar e abraça o outro filho. Marguerite e Eddie compram guloseimas. os homens dispersaram com o armamento do inimigo. embora Eddie não saiba ao certo se são gotas de chuva ou lágrimas. cala-te! — Mas é verdade! Há bolo e cerveja e leite e charutos e um brinde ao êxito de Eddie. Não se importa com o que está dentro da caixa. a tortura e a humilhação que sofreu — tudo clama por uma vingança feroz. 68 — Ei. os seus dedos atropelam-se. Só se quer recordar dela. melaço e refrigerantes de fruta. a acomodar-se para passar a noite. encostados à balaustrada. fortalhaço! — diz Marguerite. mas depois deixa cair o sorriso e pestaneja para a chuva não lhe entrar nos olhos. de mãos dadas. — Vem apagar as velas. Como acontece sempre que vê Marguerite. Imbuídos de uma nova sensação de controlo. Ela ri-se. Salvo da pergunta que teve presa na garganta a noite toda. nesse instante. Mais tarde. Algumas das senhoras mais velhas ficam com os olhos rasos de lágrimas e Eddie deduz que também elas têm filhos. Smitty para a entrada da conduta . Tiram os doces do saquinho branco. que já partiram para a guerra. aproximando-a de si. 67 — Ouve. — Ele aproxima-se. um ajuste de contas. como se fosse lógico. No final da noite. «morno» e sobe até «quente». 69 Um soldado que acaba de ser libertado sente-se frequentemente furioso. Eddie sente um desejo tão forte de a abraçar. que estamos cheios de fome! — Ai. mostrando os bícepes. — Vem. «frio». Joe. Sal. Eddie puxa um manipulo enforma de mão de gesso e a seta passa por «gelado». — Eddie! — grita alguém da sala. Sorri. — Não? Ela abana a cabeça. que pensa que vai explodir.

Talvez fossem resgatados.. Smitty. mas não podia ser pior do que aquilo por que já tinham passado. e Eddie apercebeu-se de que. — Ei! — gritou Eddie. Não sabia o que lhes ia acontecer a seguir. aqueles guardas sub-humanos de dentes estragados e caras ossudas e vespas mortas na sopa. Eddie ouviu o retumbar de um motor — o Capitão encontrara um veículo de fuga — e. atearam os seus recémadquiridos lança-chamas e viram as cabanas pegar fogo. O que era aquilo? Pestanejou. Não conseguia ouvir. Há mais de dois anos que Eddie só via homens adultos e aquela forma na 71 sombra fê-lo subitamente lembrar-se dos seus primos. Acabou. depois. o ruído que tinham ouvido todas as noites. O bambu estava seco e. Acabou. deixando cair o lança-chamas para se aproximar mais.. correu para o ponto de encontro. Perceberam? Cinco minutos! Que foi o tempo necessário para destruírem aquela que fora a sua casa durante quase meio ano.. — Ardam! — gritou Morton. saiu uma nuvem de fumo preto. depois desceu o carreiro até à última cabana. ali. veria as chamas. — Ardam! — gritou Eddie. as paredes do celeiro derreteram em chamas laranja e amarelas. Eddie premiu o gatilho. — O quê? — Está. Talvez fosse uma sombra. e desecandeou uma explosão de chamas em série. dos miúdos na praia. mas parecia-lhe ter visto um vulto a correr no meio do fogo. Empunhou a arma. Morton levou a mão à orelha. de Marguerite e da fotografia dela e de tudo o que bloqueara na sua mente durante tantos meses. A sua respiração era ofegante. O que era aquilo? Viu uma coisa passar veloz pela porta. — EI! — O telhado do celeiro começou a ruir.da mina. despejando faúlhas e chamas. O tiro saiu veloz. baixando a arma. Era maior.. vindos do céu. Ao longe. dando um passo em frente. num minuto.. disse ele para com os seus botões. cumprida a sua missão. abriam-nos e. A conduta da mina explodiu desde lá de baixo. das montanhas-russas. Eddie deu um salto para trás. Apontou e gritou: — Acho que está ali alguém. para dentro de uma das cabanas.. Vuuum. — EI! MOSTRA-TE! — gritou. ali. uma espécie de celeiro. O calor era intenso e tapou os olhos com a mão livre. Todas essas semanas e 70 meses nas mãos daqueles sacanas. Os olhos de Eddie ardiam. — Os bombardeamentos vão recomeçar daqui a nada e temos de ir embora antes disso. de repente. quem quer que fosse. Os seus olhos começaram a lacrimejar. os primeiros sons de bombardeamento. Morton e Eddie para os barris de óleo. Morton deu um pontapé no barril. a acenar para que Eddie fosse ter com ele. dentro de cinco minutos! — rugiu. Talvez voltassem para casa! Virou-se para o celeiro a arder e. agora. Eddie tentou focar a visão. — EU . Eddie virou-se e teve quase a certeza absoluta de que voltara a ver. a rastejar dentro do celeiro em chamas. zombou. O Capitão foi procurar um veículo de transporte. um vulto do tamanho de uma criança. Eddie e Morton empurraram dois barris para o complexo das barracas. — EDDIE! VAMOS EMBORA! Morton estava ao cimo do carreiro. do cais e do caminho-de-ferro Liliputiano que costumava vigiar. Estava ainda mais perto. — Encontramo-nos aqui. Não tinha a certeza. Smitty largou as granadas na conduta da mina e fugiu a correr. Eddie observou. Da entrada. alguém! Morton abanou a cabeça. um a um.

Virou-se novamente para o celeiro. Eddie só sabia que acordara numa unidade médica e que a sua vida nunca mais voltara a ser a mesma.. Acabaram-se os bailes. espera. O Capitão fez um lento aceno de cabeça. Pior ainda. o joelho perdera a sensibilidade e Eddie estava cada vez mais tonto e cansado. De repente.. não... a dizer-lhe para se aguentar. — Aquela bala atingiu-te em cheio. o resto do telhado ruiu com um estrondo. Daí a nada. espera. puxando-o com força para trás. se aguentar. Perdeste muito sangue.. Estiveste metade do tempo inconsciente. aos berros: — EDDIE! Temos de ir embora JÁ! Eddie abanou a cabeça. qualquer coisa. estava dentro de um veículo de transporte e os outros encontravam-se à sua volta. De repente. . caiu no chão. um pedaço de si. a sangrar e a arder. — Não. Os motores dos aviões rugiam.. à medida que os ossos se fossem deteriorando. Eddie moveu-se como se estivesse em transe. só queria salvar alguma coisa. Os aviões rugiam lá em cima e os tiros das suas armas soavam como tambores.. e ele sentiu-se demasiado atordoado e fraco para resistir. Acabaram-se as correrias. depois. alguém o puxou para trás. pela coxa.. Seria verdade? Quem sabe. Passou por uma poça de óleo ardente e as suas roupas pegaram fogo por trás. espera.. e cambaleou para os destroços em chamas. um pedaço de Rabozzo. de olhos semicerrados. — Demorámos dois dias. O sangue espirrava abaixo do joelho. Eddie foi submetido a duas operações. Uma chama 72 amarela subiu-lhe pela canela e. — Mas safámo-nos — disse Eddie. Eddie tinha a cabeça a latejar. — Não está ninguém lá dentro! Vamos embora JA! Eddie estava desesperado. — Pois foi. uma situação que acabaria por se agravar com a idade... de punho cerrado. Levantou os braços e gritou: — EU AJUDO-TE! MOSTRA-TE! NÃO TE FAÇO MAL! Uma dor lancinante perpassou a perna de Eddie. Nesse instante. Uma mão agarrou-lhe no ombro. convencido de que algum inocente estava a morrer carbonizado diante dos seus próprios olhos...NÃO TE FAÇO. As suas costas estavam queimadas. a totalidade da guerra invadiu-o como bílis. Virou-se de novo para as chamas. repulsa pelo sangue e pelo muco a secar nas suas têmporas. tão cansado. sentiu-se pronto para morrer. furioso. «Fizemos o melhor que pudemos». O médico disse que ele ficaria a coxear. Desta vez. de olhos fechados para se proteger do calor insuportável e. O seu rosto contorcido de raiva. Ficou ali deitado. Ali? Será aquilo? Ali. Na verdade. Sentiu repulsa pelo cativeiro e pelos assassínios. Cortara vários nervos e tendões e estilhaçara-se contra o osso. Morton tornou a agarrá-lo. puxou o braço atrás e acertou-lhe no peito. rolou como um saco de feijões.. atrás de uma parede? Ali? Deu um passo em frente. pela primeira vez na sua vida. rebolando-o na terra para apagar as chamas. O céu iluminou-se de clarões azulados. — Nem por isso — disse Eddie. repulsa pelos bombardeamentos e pelo fogo e pela futilidade daquilo tudo. Era Morton. Naquele instante. loucamente convencido de que havia uma alma dentro de cada sombra negra. em seguida. Gritou uma longa praga saída do fundo das suas entranhas e. informaram-no. Nenhuma delas resolveu o problema. — O Capitão pontuou as palavras com um suspiro. Morton caiu de joelhos. ao relembrar esses últimos instantes. acho que está alguém ali dentro. — Lembras-te de como saíste de lá? — perguntou ele. Eddie deu meia volta e. Eddie deu meia volta. fracturando-o verticalmente. a bala nunca fora completamente retirada. lançando uma chuva de faúlhas como poeira eléctrica sobre a sua cabeça.

como se soubesse o que ia acontecer a seguir. O Capitão fitou-o. Mas. Apercebia-me do medo nos olhos deles. Eddie olhou para a sua perna. chegava ao ponto de atirar uma moeda para cima dos lençóis e ver se ela saltava. a lutar o caminho todo até lá baixo. Retraíu-se. o meu pai inspeccionava a minha cama. Aprendi a disparar uma arma aos seis anos. Apanhava muitos recrutas armados em chicos-espertos. na verdade. Durante os tempos de paz era uma coisa. — Porquê? Seu sacana! Porquê? PORQUÊ? Lutaram no solo lamacento. Eddie gritou e precipitou-se com toda a força. passei a vida a receber ordens. que não sentia desde antes de morrer. Tudo lhe parecia disparatado ou inútil. A mesa do jantar era sempre «sir» para cá e «sir» para lá. essa pequena coisa era aquela que eu vos dizia todos os dias. Regressou a casa um homem diferente. deixando Eddie descarregar a sua raiva. e todos me faziam a continência. assoladora. Eddie abanou-o pelos colarinhos e bateu com o crânio dele contra a lama. comecei eu a dá-las. Semicerrou os olhos e fitou o Capitão. — Força — sussurrou o Capitão. Aprendeu muitas coisas enquanto soldado. pendurada no ramo da árvore. sentando-se em cima do peito dele. »Até entrar para a tropa. Mas. — Isso era muito importante para nós — disse. só . Deixou o cigarro cair dos dedos. jovens como tu. Levou a mão ao bolso do peito do casaco. O Capitão levou a mão ao pescoço e esfregou-o. Sentiu um turbilhão de emoções dentro de si. Por fim. De repente. O Capitão soltou uma baforada. Todas as manhãs. de raiva e um desejo de bater em alguma coisa. a cada soco. se não podia garantir a vossa sobrevivência. e agrediu-o repetidamente com murros no rosto. — Sabias — disse o Capitão — que descendo de três gerações de militares? Eddie encolheu os ombros. que o olhou com uma expressão vazia. — Por que é que diz isso? — perguntou Eddie. Também eu me limitava a receber ordens. A guerra alojou-se dentro de Eddie. No meio de uma grande guerra. Eddie acenou com a cabeça. Ninguém fica para trás. Agiam como se eu estivesse na posse de informações sigilosas sobre a guerra. Eddie imobilizou o Capitão. agarram-se a ela como um soldado se agarra ao crucifixo. depois apontou com a ponta do cigarro para a perna de Eddie. O Capitão nem pestanejou. tirou outro cigarro e acendeu-o. Também pensaste o mesmo. Achavam que eu podia garantir-lhes a vida. as pessoas procuram uma pequena coisa em que acreditar. à espera que eu lhes dissesse o que fazer. — Para mim — prosseguiu o Capitão —. não pensaste? Eddie teve de admitir que sim. fazendo com que os dois homens caíssem da árvore por entre ramos e vinhas. começou a guerra e apareceram novos homens. E a dor também. — Mas é claro que eu não podia. 74 — Espero que sim — retorquiu. Assim que a encontram. Limitou-se a rebolar de um lado para o outro. na sua perna e na sua alma. O Capitão não sangrou. acabara-se também a maneira como ele costumava sentir-se em relação às coisas. As cicatrizes da operação estavam novamente presentes.73 por algum motivo. — Porque fui eu — disse ele — que te dei um tiro na perna. podia pelo menos manter-vos unidos. rezando numa trincheira. depois. — É verdade. que não sentia há muitos anos: uma onda feroz.

Fora transportado de helicóptero para o hospital militar e. Apontou numa direcção por cima do ombro de Eddie e Eddie virou-se para olhar. Os bombardeamentos . Eu não podia deixar-te morrer carbonizado. seminu. — Tétano? Febre amarela? Aquelas vacinas todas? Não passaram de um enorme desperdício do meu tempo. E não era chegada a tua hora. — Não havia ninguém dentro da cabana. Eddie sentiu uma última onda de raiva e agarrou no Capitão pelos colarinhos. é a meio da noite. Morton e Eddie. Ouvira dizer. peeeerna! — gritou Eddie. por causa do seu ferimento. acaba por levar um tiro. quando ele tentou impedir-te de lá entrar. hora? O Capitão prosseguiu. não foram as colinas áridas. Aproximou-o de si. Que raio de ideia me passou pela cabeça? Se eu não tivesse entrado lá. «os outros»? O Capitão levantou-se e sacudiu um graveto que estava preso à sua perna. 76 — Voltaste a ver-me? — perguntou.. — Foi como te disse — continuou o Capitão.. — Às vezes é a meio de um combate. — A minha vida! — Eu dei-te cabo da perna — explicou o Capitão. Durante tantos anos. — No teu caso. as cabanas a arder. fora assombrado por aquele instante. ninguém conseguiria lutar contigo. que o Capitão não sobrevivera.. lembras-te? — perguntou o Capitão. Um homem sai da tenda e começa a andar... à conta da tua força. os aviões a aproximarem-se. chegou uma carta com uma medalha lá dentro. Não consegue lutar mais. Eddie estava ofegante. Um soldado chega a um determinado ponto em que não consegue continuar. fora desmobilizado e enviado para casa. exausto. do tabaco. aquele erro. queimado. Tinha a cabeça a andar à roda. ao virar da esquina. ferido. esqueceu-se dos pormenores. Eddie largou-o e caiu para trás. Os meses depois da guerra foram negros e depressivos. Um homem larga a arma e fica com um olhar vazio. baixinho — para te salvar a vida. Tinha a cabeça suja de lama e folhas. 75 — Estavas obcecado. — Os outros? — repetiu Eddie. — O que te aconteceu a ti. mas a noite da sua fuga. — Como. Achei que um ferimento na perna acabaria por sarar. Não.. Eddie nunca mais o vira. Com o tempo. — A minha. por fim. — Porque é que eu não morri? — Ninguém podia ficar para trás. — A minha.. que mudara toda a sua vida. passaste-te à frente de um incêndio. Tirámos-te de lá e os outros levaram-te para um posto médico. como se vivesse ali mesmo. Precisou de um minuto para compreender o que o Capitão acabara de dizer.com um braço. querias entrar no celeiro desse por onde desse. A respiração de Eddie esmurrava-lhe o peito como um martelo. — Porque — disse ele calmamente. O que viu. de repente. Eddie estava estendido no banco de trás. mas Eddie pô-la de parte. mudou de endereço. como se fosse para casa. Está farto. pegou em Eddie e deitou-o por terra. um minuto antes de sairmos daquele lugar.. Viu os dentes manchados de amarelo. sem a abrir sequer. meses depois. com o cotovelo a prender o peito de Eddie — te teríamos perdido naquele incêndio. mas sempre pensara que morrera num qualquer combate posterior. já vi acontecer a tantos outros. O Capitão conduzia o veículo que transportava Smitty. descalço. — A sua voz esmoreceu e tornou-se um sussurro. Terias morrido. Doíam-lhe os braços. semiconsciente. enquanto Morton atava um torniquete acima do seu joelho. E. Às vezes. Tínhamos um minuto para sair dali e. não tinha o mínimo interesse em relembrá-los. Um dia. geralmente. com outro pelotão. Quase deixaste o Morton sem sentidos. com uma lua fosca no céu. agitado.

Sempre o imaginara tão mais velho. certo? — Mas não está — prossegue o Capitão. à espera? — perguntou Eddie. mas. fechando os olhos e deixando cair a cabeça para trás. — Estava à tua espera.. sem as cinzas de carvão a mancharem-lhe o rosto. num sussurro. descalço. Um avião aproximou-se no céu e ele levantou os olhos para ver se era do inimigo. 78 A segunda lição — Ai. indicando que ia inspeccionar o caminho. 77 A mina terrestre explodiu imediatamente. Tem o dia de ontem. — O tempo — respondeu o Capitão — não é o que tu pensas. alguns dos quais voaram por cima da terra enlameada e foram aterrar nas árvores. com os braços. Capitão. — Acorda na manhã seguinte e tem todo um mundo novo à espera dele. depois detevese. com os ossos de animais. meu Deus — disse Eddie. que serpenteava por entre o arvoredo. — disse o Capitão. como se o sol estivesse a acender e a apagar. Mas o que acontece na Terra é apenas o começo. Eddie observou o Capitão atentamente. O céu negro iluminava-se de uns tantos em tantos segundos. — Está aqui desde que morreu — disse Eddie —. que se ouviu um pequeno clique por baixo do seu pé direito. O lugar onde fazemos com que o nosso ontem tenha sentido. Disparou contra o trinco e abriu o portão. — Acho que é como diz a Bíblia. Sem funeral. Eddie ficou com um ar perplexo. a carroça desconjuntada e os restos queimados da aldeia. — Estás a perceber? Nunca tive muito jeito para ensinar. um amontoado ardente de ossos. — A primeira noite de Adão na Terra? Quando ele se deita para dormir? Ele julga que acabou tudo. cinquenta metros para lá da curva do carreiro. a história de Adão e Eva. É isso o Céu. enquanto estava a olhar para o céu. . soldado.. Atirou o Capitão a seis metros no ar e desfê-lo em pedaços. O Capitão pegou numa espingarda e saltou do carro. — Tem estado este tempo todo aqui. Sem caixão. 79 O Capitão sorri. depois apontou para os olhos. cartilagem e centenas de bocados de pele carbonizada. Apenas o seu esqueleto destroçado e a terra lamacenta. Fez sinal aos soldados. Devia ter apenas trinta e poucos anos. meu Deus! Eu não fazia ideia. — A meu ver. Achamos que é. Mas agora. — Ai. Fez sinal a Morton para se pôr ao volante. mas tem também outra coisa. Foi nesse instante. como o solo caía a pique de ambos os lados. — Morrer? Não é o fim de tudo. O Capitão fez um sinal de assentimento. como uma chama arrotada pelo centro da terra. Sente os olhos a fechar-se e pensa que está a deixar o mundo. Eddie percebeu que aquele era o local onde o Capitão fora enterrado. Eddie baixou os olhos. Eddie reparou nas poucas rugas do seu rosto e na melena de cabelo escuro. — Sentou-se ao lado de Eddie. é isso mesmo que se passa aqui. não podiam contorná-lo. não é? Não sabe o que é o sono. Havia um portão. Puxou da cigarreira de plástico e bateu nela com o dedo. O veículo guinou ao chegar ao cimo da colina. Correu o melhor que pôde. As colinas haviam regressado ao seu estado de aridez. meu Deus! Ai. O caminho estava livre. uma coisa improvisada de madeira e arame. mas isso corresponde ao dobro do seu tempo de vida. Que horror! Que tragédia! O Capitão acenou com a cabeça e desviou o olhar.estavam cada vez mais perto.

quando sacrificamos uma coisa preciosa. Não te deves arrepender deles.. Não te deixei ficar para trás. — Tu fizeste um sacrifício. Ramos novos e viçosos despontaram como bocejos. Depois. ainda espetados no chão. em seguida arrancou a espingarda da lama e arremessou-a como uma lança. também eu estarei longe daqui. Não paravas de pensar no que tinhas perdido. E assim que as coisas são. Pensou na amargura que sentira na sequência do seu ferimento. Todos nós os fazemos. — Mas o Capitão. teríamos morrido os quatro. Só ainda não te apercebeste disso. a espingarda e as chapas. ouve-me com atenção. É algo a que as pessoas devem aspirar. Ele sacrificou-se pelo seu país e a sua família percebeu isso. Naquela noite. Estendeu a mão. a sepultura simbólica. O Capitão olhou de relance para cima. »Não percebeste que os sacrifícios fazem parte da vida. — Sacrifícios — disse o Capitão. mas ele contou-te e agora está longe daqui e. Uma mãe trabalha para que o seu filho possa ir para a escola. Não chegou a aterrar. dentro de poucos instantes. Fez parte da tua vida. »Eu também não morri em vão. todos nós podíamos ter pisado aquela mina terrestre. »Um homem vai para a guerra. De repente. como se já estivesse à espera que aquilo acontecesse. Portanto.. Colocou o capacete e as chapas debaixo de um braço. — Rabozzo não morreu em vão. Nesse caso.. Voou pelos céus e desapareceu. — Perdeu a vida. não podia? Foi o que disse o Homem Azul. — Capitão? — disse Eddie. ele também estava à tua espera. O Capitão dirigiu-se para o capacete. porquê este lugar? . Estamos apenas a passá-la a outra pessoa. — Perdoas-me pelo tiro na perna? Eddie pensou por um instante. O Capitão estalou a língua contra os dentes.— Foi o que disse o Homem Azul. — Baixou a voz. Estendeu a mão. O Capitão apertou-a com firmeza. — Bom. Deteve-se por um instante e olhou para o distante e enevoado céu cinzento. Em seguida. — O quê? — Cumpri a minha promessa. cobertos de folhas macias e verdejantes e bolsas de figos. mas também ganhaste algo em troca. Eu também ganhei uma coisa. Eu fiz outro. na raiva por tudo o que tinha perdido. Então. parte da história que precisavas de saber. As vezes. Eddie sentiu as suas costas endireitarem-se. com um assobio. limpou os restos de cinza do rosto. com as palmas das mãos abertas. porque se sentiu inspirado pelo exemplo de Rabozzo. Eddie abanou a cabeça. Uma filha regressa a casa para tomar conta do pai doente.. não a perdemos realmente. Pequenos sacrifícios. Mas tu estavas irritado com o teu. — Era disto que eu estava à espera. Eis o que tens de saber de mim. Grandes sacrifícios. e o irmão mais novo tornou-se um bom 80 soldado e um grande homem. — Mas é isso mesmo que importa. as vinhas grossas caíram dos ramos da árvore e derreteram-se no solo. pensou no que o Capitão perdera e teve vergonha. parte do motivo por que viveste e como viveste. — É verdade que te alvejei — disse ele — e que perdeste qualquer coisa. 81 — Sim? — Porquê aqui? Podia ter escolhido qualquer lugar para esperar por mim. O Capitão virou-se.

— Espere — gritou Eddie. uma família militar. Dentro da aba do capacete estava a fotografia amarrotada de uma mulher. planos militares. A minha morte. — Para ti. dada a maneira terrível como o Capitão morrera. 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA Na manhã após o acidente. — Não te posso responder. intocada. soldado. »O meu desejo — explicou o Capitão — era ver como era o mundo sem guerra. Era uma beleza imaculada. — Só queria saber. é só isso — murmurou entre dentes. deixei de fumar. Passou as mãos pelo jorro. Ergueu uma mão e a paisagem chamuscante transformou-se. O Capitão coçou a pele atrás da orelha.. — O que tu vês não é igual ao que eu vejo. Uma ténue névoa branca desceu sobre as copas das árvores e um sol cor de pêssego empoleirou-se. O parque estava fechado. Eddie olhou à sua volta. — Preciso de saber uma coisa. Mas os nossos olhos são diferentes — disse o Capitão. Atirou-lhe o capacete e as chapas. reflectido em oceanos cintilantes que. Fui morto nestas colinas. Trazia um jornal na mão.. desligou a torneira e pôs a ideia de lado. cujo rosto estava limpo e a farda subitamente passada a ferro. Eddie levantou os olhos para o seu antigo comandante. tendo abdicado do seu ritual de ir buscar um pãozinho e uma bebida para o pequeno-almoço. — Deu uma gargalhada. — São teus. — Porque é que eu haveria de fumar no paraíso? Começou a afastar-se. — Porque morri num campo de batalha. — Mas isto é a guerra. 82 O Capitão virou-se e Eddie engoliu as suas palavras. Também isso foi visto só pelos teus olhos. o solo passou de lama a relva verde. que novamente lhe trouxe dor ao coração. 83 SEGUNDA-FEIRA.O Capitão sorriu. Os destroços derreteram. pura. Quando voltou a levantar os olhos. por cima do horizonte. Ficou parado durante uns instantes. levantando os braços — é o que eu vejo. já o Capitão tinha desaparecido. Deixei este mundo sem conhecer muito mais do que a guerra: linguagem militar. Salvei a menina? Senti as mãos dela. mas ele foi trabalhar à mesma e ligou a água da pia. — Isto — disse o Capitão. luxuriante. — Não consegui dormir — disse Dominguez. agora. brilhante. O título dizia: «Tragédia no parque de diversões». . pensando que ia limpar algumas peças das máquinas. A seguir. as árvores cresceram e propagaram-se. rodeavam a ilha. Parecia tudo ainda mais silencioso do que há um minuto. a absorver o cenário. As nuvens turvas afastaram-se como cortinas. Antes de começarmos a matar-nos uns aos outros. Dominguez entrou bem cedo na oficina. — Já agora. mas não me consigo lembrar. — Que se passa? Willie encontrava-se à porta da oficina. Vestia uma camisola verde e calças de ganga largueironas. — Mas há alguém que pode. No cais. revelando um céu azul safira. envergonhado por estar a fazer aquela pergunta. Eddie olhou para baixo. Eddie deixou cair a cabeça. Fitou Eddie com olhos de compaixão.

. Deu um passo nessa direcção — e percebeu que tinha neve pelos tornozelos. Ali. Estava 85 convencido de que. rochas agrestes e encostas absolutamente roxas. por instantes. Eddie conseguiu distinguir várias pessoas através das janelas. reluzindo com um brilho dourado. O céu parecia puxá-lo e ele sentiu-o tocar-lhe na pele. uma imagem mais semelhante à que ele fazia do paraíso. agora. Eddie sentiu uma pontada lancinante e contorceu-se de dor.— Eu sei. interminável. completamente isolado. depois deu um beliscão no joelho esquerdo. — Quando é que achas que voltam a abrir o parque? Dominguez encolheu os braços. Os flocos soltaram-se. de incredulidade. mas eram as montanhas mais espantosas que já tinha visto. Perguntou-se. Os músculos dos seus braços continuavam fortes. Era de manhã. Eddie passara muitas horas em lugares como aquele. o ferimento desapareceria. Espreitou lá . que. milhões de estrelas. mais flácido. no campo coberto de neve. Era segunda-feira. do lado de fora. entre duas cristas. Quando lhes tocou. 84 A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu Um vento súbito levantou Eddie do chão e ele rodopiou como um relógio de bolso na ponta de uma corrente. em vez disso. Dominguez suspirou. Um típico restaurante americano. afastou-se a alta velocidade e explodiu em tons de jade. como um cobertor reconfortante. estava um edifício em forma de vagão com uma fachada de aço inoxidável e um telhado vermelho como um barril. Eram todos iguais: mesas com tampos brilhantes e bancos de correr de costas altas. à procura de uma pastilha elástica. pensou Eddie. Porque é que o Céu nos faria reviver a nossa própria decadência? Seguiu as luzes trémulas ao longo do estreito. Estavam à espera que o velhote aparecesse e desse início ao dia de trabalho. Apareceram estrelas.. tocou no seu corpo. mas o seu ventre estava mais mole. com cicatrizes. se teria terminado. desta vez. encontrava-se um vasto lago negro. Eddie pestanejou. durante algum tempo. até chegar a uma extensa clareira de onde partiam as luzes. Onde estou eu agora?. gordura e tudo o mais. uma cordilheira sem fim. A Lua reflectia-se reluzente nas suas águas. se o Capitão estava errado. Atravessou a neve e contornou uma rocha enorme. De repente. faziam com que os clientes parecessem viajantes numa carruagem de comboio. Foi envolto por uma explosão de fumo. — Eu também não consegui. parecia que se estava a tornar no homem que fora na Terra. — Willie deixou-se cair num banco de metal. A paisagem austera e silenciosa era de cortar a respiração. Mas. à barriga. ao peito. — Pergunta à polícia. em silêncio. Ao fundo. pessoas a falar e a gesticular. Uma vez mais. se não havia mais ninguém à sua espera. levou as mãos aos ombros. Subiu os degraus cobertos de neve que conduziam à porta de painel duplo. nem molhados. Eddie reparou numa luz colorida e trémula que mudava ritmicamente de tantos em tantos segundos. Tornou a pestanejar. e uma fileira de janelas com pequenos painéis em toda a fachada. Willie levou a mão ao bolso da camisola. fitando o jornal com um olhar vago. Hesitou. Deu meia volta no banco. como sal espargido sobre o firmamento esverdeado. não estavam nem frios. Num planalto. O letreiro no topo piscava a palavra: «RESTAURANTE». Estava nas montanhas. Levantou o pé e sacudiu-o com vigor. depois da sua conversa com o Capitão. Ficaram sentados. com cumes cobertos de neve. a mudarem de posição um de cada vez. que engoliu o seu corpo numa torrente de cores. como que por turnos.

.. e um rapaz de cabelos compridos com o sinal da paz. . encostado a uma almofada. com uma mão pousada em cima do tampo. a cantar baixinho. não lhe ligaram. a mãe de Eddie abre a caixa branca da pastelaria e reordena as velas no bolo. — Parabéns a você. à espera de serem servidos — comida das cores mais suculentas: molhos de um tom vermelho intenso. Mickey Shea — estão de pé à volta dela. A perna dentro do gesso. Inspirou fundo várias vezes. cremes de manteiga amarela. colocando-as em números pares. — Não! — Continuou a gritar até a palavra que queria. que a sua cabeça começou a latejar. As suas queimaduras estão enfaixadas. por mais vezes que Eddie a gritasse. aproximando-se umas das outras.. a observar. parabéns a. a tremer na sua solidão. a outra a segurar um charuto. a palavra que não pronunciava há décadas. Tem um par de muletas junto da cama. sem nunca levantar os olhos. tatuado no braço. — Não! — gritou Eddie. com os casacos pendurados em cabides. Eddie senta-se. dos anos trinta. muito depressa — muitosanosdevida. — Alguém tem um fósforo? Palpam os bolsos. Sentia o coração aos pulos no peito. envergonhado.para dentro. Os outros — o pai de Eddie. no canto direito. As pequenas chamas serpenteiam. dos anos sessenta. Pareciam pertencer a décadas diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de colarinho alto. Marguerite. A mãe de Eddie acende as velas. Um elevador pára ao fundo do átrio. — Não — ouviu-se a si mesmo sussurrar. — Não! Não! — Bateu até ter a certeza de que. Gritou essa palavra. doze do outro.. sem se aperceber da presença de Eddie. partiria o vidro. Uma rapariga adolescente exibia um corte profundo de um lado ao outro do rosto. parece demasiado pesada para voltar a erguer-se no ar e só a voz de Eddie. — Para o menino Ed-die. a comer uma tarte. O que viu. quando Eddie bateu na janela.. Mickey retira uma carteira de fósforos de dentro do bolso do casaco. Deu meia volta e tornou a olhar. Mas a figura dentro da cabina. — Está pronto. O soldado na cama ao lado acorda aos gritos: — QUE RAIO? — Percebe onde está e deixa-se cair na cama. A canção. depois bateu desvairado nos painéis da janela. doze de um lado. consegue continuar. uma e outra e outra vez: — Pai! Pai! Pai! 87 Hoje é o aniversário de Eddie No átrio sombrio e estéril do hospital militar. O grupo entra no quarto de Eddie. Olha para aqueles rostos e sente-se consumido por um desejo tremendo de fugir. deixando cairão chão dois cigarros soltos. Virou as costas para a porta. continuou debruçada. As portas abrem-se e sai uma maca. gritou-a tão alto. se continuasse. Viu cozinheiros com chapéus brancos de papel 86 e pratos de comida fumegante em cima do balcão. estava sentado um casal de idade. Estacou. — depois. Havia outros clientes sentados em bancos giratórios junto ao balcão de mármore ou dentro das cabinas das mesas. então. Nenhum deles olhou. Joe. Muitos dos clientes pareciam ter sido feridos. não poderia ter visto. finalmente se formar na sua garganta. Os seus olhos deslizaram até à última mesa. interrompida. A sua direita. vamos — diz ela.. sentada à mesa. Um homem negro de camisa de operário não tinha um braço.

Muito boa cara. Eddie nunca mais se aproximou. com o casaco no braço. no início. absorve as impressões de quem a manuseia. antes de o parque abrir. costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. disse. em cima de caixas de ferramentas. Eddie repara no olhar dele. em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia. passada uma hora. enfiada em gesso da coxa até ao tornozelo. como se fosse a sua vez. na cama. o pai de Eddie levava-o ao cais. Os outros apressam-se a concordar. Quando era bebé. lançando um olhar fulminante ao marido. aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. a todo o custo. geralmente ao fim da tarde. Eddie retesa todos os músculos do corpo e tenta. 89 Todos os pais prejudicam os filhos. frequentemente embriagado. Alguns pais deixam manchas. estás com boa cara — diz ele. o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar. durante horas incontáveis da sua juventude na marginal. cigarros e regras. — Onde é que havemos depor isto? Mickey pega numa cadeira. sem reparação possível. atirando-os contra a parede. o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. outros provocam brechas. Ela olha em volta. Eddie murmura: — Obrigado. a olhar para a perna de Eddie. mas. A regra de Eddie era simples: não incomodes. Apenas o pai não se mexe por mexer. como um vidro cristalino. A juventude. de manhã. piorava ainda mais a situação. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse. Eddie raramente ia para o colo do pai e. Uma vez. agarrada ao roupão e tão indefesa como ele. A mãe de Eddie dá um passo em frente. Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais. para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior. tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas. enquanto ele tirava o cinto e lhes batia.Joe pigarreia. Noutras noites. o pai avisava-a para «não se meter». 88 Mostra-lhe a caixa de cartão. Vê-la no corredor. Óptimo aspecto. 90 «Pára de respirar por cima do meu ombro!». É inevitável. Vasculhava os poucos brinquedos. mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão. obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo. dizia «Eu posso ajudar. mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante. o pai encarregava-se da disciplina. alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos. Fica parado contra a parede do fundo. Eddie esperava pela atenção do pai. Mãe. Joe arranja espaço em cima de uma pequena mesa. Sim. Muitas vezes. mas. que as lágrimas regressem às bolsas lacrimais. Pelo menos quatro noites por semana. garrafas. dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. eu posso ajudar!». Ainda assim. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si. calejadas e vermelhas de . O pai baixa os olhos e passa a mão pelo parapeito da janela. duras. Aos sábados. Depois. — A tua mãe trouxe-te um bolo — sussurra Marguerite. na oficina. Os estragos causados pelo pai de Eddie foram. em criança. A mesa tinha dinheiro. A mãe de Eddie dava-lhe carinho. então. Marguerite afasta as muletas de Eddie. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram. sentado nas balaustradas ou empoleirado. o pai jogava às cartas. mesmo quando ela o fazia. — Et. os estragos da negligência.

Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via. Eddie corria de base em base. como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira. pelo soar dos passos no corredor. iniciara um ritual de sinalização com o pai. Tudo devia ser feito internamente. a falar pelos cotovelos. deixaram de falar. Recusa de afecto. disse ele. Tens de tomar conta do teu irmão. tentando retirar a sujidade. Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto. O estrago da violência. mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher. Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. No início. estavam manchadas de gordura e. o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e. o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. depois de terminada a sua tarefa. um rapaz dedica-se ao pai. Sabiam o que sentiam e ponto final. E. junto do pátio da escola da Avenida 14. Esse foi o segundo estrago. No campo de basebol. foi trabalhar para a oficina. Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar. estalos e chicotadas. como lhes chamava a mãe —. Os estragos estavam feitos. manobrando as alavancas dos travões. uma noite. tão bronzeado e limpo. e o velho sorriu. depois da negligência. O pai de Eddie não ficava impressionado. e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros. uma vez. como as do seu pai. Anos depois. fazendo os carrinhos parar suavemente. a força com que ia ser espancado. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. e mostrou as suas próprias unhas sujas. então.» Ainda assim. o irmão. Eddie limpava-as com a unha do polegar. quando ele o fazia.raiva. abdicando de palavras ou 92 de afecto físico. Foi depois da guerra. Quando Eddie começou o liceu. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e. Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar. a mãe rechonchuda e transpirada. Apontava para uma corrente enredada e dizia: «Conserta-a». Apanhou o pai a observá-lo. com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. «Aquele». Sem tomar consciência disso. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo. a cozinhar ao fogão. quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família. porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. quando voltou para casa. Não deixes que ninguém lhe toque». deparou com Eddie a dormir no . mesmo que não haja explicação para tal. Tu é que és forte. quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco. A noite. Outras vezes. E. à mesa do jantar. Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. os seus fatos-de-banho. reuniam-se à volta da mesa do jantar. As unhas de Eddie. Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». imitava o horário de Verão do pai. Ao longo desse tempo todo. Uma vez. Eddie adorava secretamente o pai. Joe. E de todas as vezes. mesmo que não faça sentido. de vez em quando. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. Também 91 isto recebia a aprovação do pai. apesar de tudo. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias». o pai de Eddie deixava uma ruga de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. na Avenida Beachwood. «só tem resistência para a água. antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja. levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. o seu dinheiro. tarde. Davalhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». — Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele. Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado». limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples.

O velho arregalou os olhos. um homem que o ignorava. e. E. O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado. E assunto encerrado. A sua postura era elegante. mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar. Os estragos estavam feitos. — Levanta-te. Para ele. Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te.. — Levanta-te — gritou. a cada dia que passava. Todos os pais prejudicam os filhos. um vestido de seda e chiffon. batom cor-de-rosa e os cabelos brancos puxados para trás. a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova. Eddie levantou a cabeça num gesto brusco. a esfregar o joelho ferido. Passava horas a olhar pela janela da cozinha. Esta foi a marca final no vidro de Eddie. Nao compreendia o conceito de depressão. Ela implorava. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se. Não saía de casa. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar» mas. Diante dele. mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão. As trevas do combate tinham mudado Eddie. silêncio no casamento de Eddie.. para que deixasse o rancor para trás. em vez de aguentá-la como se a merecesse. O pai voltou a gritar. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento. era sinal de fraqueza. estava uma velhinha. — Ele não te consegue ouvir. O velho olhou para a perna de Eddie. cosido com missangas brancas e encimado por um laço de veludo mesmo abaixo do pescoço.. Nunca mais voltou a falar com o filho... com molas e ganchos de cada lado. Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro. — CHEGA! — gritou Eddie. Esta foi a sua vida juntos. agora. e soltou o braço das garras de Eddie.. Eddie não se lembrava dela. quase inexplicavelmente. O seu pai. tão ralos em alguns pontos que se via o crânio rosado por baixo. Violência. O seu rosto era encovado.. Era a primeira vez que Eddie se defendia. na neve. o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». Sentiu o hálito a álcool e cigarros. ele ainda desejava. A saia tinha uma fivela a imitar um brilhante... pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. Negligência. estás... segurando uma sombrinha com ambas as mãos. ARRANJA UM EMPREGO! Eddie apoiou-se nos cotovelos. assim. até no Céu. as suas narinas adejaram.. suspenso no ar. algures para lá da morte. por entre os maxilares cerrados. os 93 dentes rangeram e ele recuou. — Não fiques irritado — disse uma voz feminina. Raramente falava. cambaleante.sofá. Eddie mexeu-se ligeiramente. mas o pai de Eddie limitava-se a dizer. Assombrou os seus restantes anos de vida. azuis. o pai estava cada vez mais agitado. chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias. Baixou a voz e grunhiu: — Vês? Não.. As suas roupas pertenciam a uma época anterior à dele. silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. Lançou um olhar fulminante ao pai. e arranja um emprego! O velho estava trôpego. Silêncio. mesmo com Marguerite. novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor. O silêncio. . a face flácida. tão ferido. a ver o carrossel. com um corpete tipo bibe. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e. proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego. remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi. o seu rosto a escassos centímetros do dele.. Usava uns óculos de aros metálicos sobre uns olhos pequenos.

Ela sorriu. outrora. Marguerite. 95 — Posso ver a Terra? — sussurrou.» Onde estavam eles. Porquê um desconhecido? Porquê agora? Eddie desejara. — Posso falar com Deus? — Podes sempre falar com Deus.. — Voltar? — Sim. «todos nos reencontraremos no Reino do Céu. Ele hesitou.Eddie calculou que devia ter sido rica. sorrindo como se o tivesse ouvido. — Vem — disse ela. Já fora a tantos funerais. Ela abanou a cabeça. — Posso voltar? Ela semicerrou os olhos. Nem sequer me lembro da minha própria morte. sabe? Queria desviá-la do caminho e devo ter pegado nas mãozinhas dela e foi então que eu.. A luz do restaurante não passava agora de um mero pontinho. polira os seus sapatos pretos de cerimónia.. algures. Não queria ouvir mais uma história. tinha uma lembrança do lugar que eles ocuparam na sua vida. pegara no seu chapéu e postara-se num cemitério com a mesma pergunta exasperante: Porque é que eles partiram e eu continuo aqui? A mãe. Mas ele não está aqui. Eddie seguiu o olhar dela. estavam no sopé da montanha. aquela menina que eu estava a tentar salvar. nos confins de uma cidade. Todos os tostões que ganhávamos iam para a família. Porque não sinto que tenha percebido tudo. se aquilo era o Céu? Eddie examinou a estranha mulher. Havia qualquer coisa na velha senhora que o intrigava. — É lindo. obrigada a abandonar a escola aos catorze anos. no caso do Homem Azul e no caso do Capitão. Tias e tios. sim — respondeu ela... dizia o padre. — À minha vida. que a morte significasse o reencontro com aqueles que haviam partido antes dele. — Fui criada como tu.. Eddie interrompeu-a. O seu amigo Noel. O irmão. faz parte da minha eternidade. Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser boa pessoa? Posso prometer ir à missa todos os dias? Qualquer coisa? — Porquê? — Ela parecia divertida. 94 — Nem sempre fui rica — disse ela. — Porquê? — repetiu Eddie. Quem era aquela mulher? Pelo menos. De repente. Não me lembro do acidente. Fui uma rapariga trabalhadora. Porque não me sinto um anjo. Tu é que estás. «Um dia». — Porquê? Porque este lugar não faz sentido para mim.. com a mão nua que não sentia a humidade. — A senhora é. E as minhas irmãs também. — Porque é que o meu pai tem de estar a salvo para si? Ela hesitou. Só me lembro daquelas mãozinhas. antes de fazer a pergunta seguinte. . então. — Porque o espírito dele. são e salvo. Eddie coçou a cabeça. Sentiu-se mais só do que nunca. Àquele último dia. como se já a tivesse visto numa fotografia. não é? — comentou a velhinha. Não.. — Porque é que o meu pai não me consegue ouvir? — perguntou. voltar — insistiu Eddie. se é assim que me devia sentir. a minha terceira pessoa? — Sou. Tocou na neve que não era fria. num tom peremptório. como uma estrela que caíra numa ravina.

fui uma rapariga trabalhadora. Ficava perto da costa onde cresceste. quando morrem? — Todos temos paz de espírito — disse a velhinha —. Deve ter sido isso que o atraiu para uma rapariga pobre como eu. — A senhora? — disse Eddie. Ele costumava ir lá tomar o pequeno-almoço. Usava um fato às risquinhas e um chapéu de feltro. Fez-me sinal para eu o servir e eu tentei não ficar embasbacada a olhar para ele. Eddie suspirou. contendo o riso. — E não me lembro de mais nada.Encolheu os ombros. — Servia café aos trabalhadores das docas e peixe frito e bacon aos marinheiros. disse que se chamava Emile e perguntou se me podia visitar. O meu emprego era servir às mesas. comprava-me roupas lindas. os outros. mas eu nem sequer a conheço. As minhas irmãs ralhavam comigo. com as costas muito direitas. diziam elas. «Quem é que tu julgas que és?». — Mas eu conheço-te — anunciou ela. Eddie lembrou-se. um aventureiro. Claro. Encher-se de gordura. — Não — teimou Eddie. antes que seja demasiado tarde. com um sorriso. Pensou em contar-lhe o tumulto que sentia todos os dias. Depois apareceu a senhora. numa pose de senhora elegante. — Morreste? — disse a velhinha. Era um gastador. Levava-me a lugares onde eu nunca tinha estado. basta procurá-la dentro de nós. »O nosso namoro foi maravilhoso. a incapacidade de sentir entusiasmo fosse pelo que fosse. — Ah. — Não. as vezes que fora passear sozinho para as docas e vira os peixes a serem puxados em redes de malha larga. Detestava as pessoas que já nasciam ricas e adorava fazer coisas que «uma pessoa sofisticada» jamais faria. Recusei muitos pedidos de casamento. que as minhas irmãs nunca mais teriam de me aborrecer para eu tomar uma decisão. ouvi o seu riso forte e confiante. As pessoas não deviam ter paz de espírito. sim? De onde? — Bom — disse ela —. num restaurante chamado Seahorse Grille. Talvez te lembres? Ela apontou para o restaurante e. o cavalheiro mais bem-parecido de sempre entrou pela porta do restaurante. na minha vida pobre e limitada. isto. Emile fizera fortuna rapidamente. Soprava uma brisa e Eddie sentiu um ligeiro perfume. Ela sentou-se. de repente. Tinha os cabelos pretos muito bem cortados e o bigode escondia um sorriso constante. depois da guerra. E eu soube. orgulhosa. Quando pagou a conta. envergonhado por se identificar com aquelas criaturas indefesas a contorcerem-se na teia. 96 Mas calou-se e disse: — Não me leve a mal. embora não houvesse um lugar onde o fazer. eu era uma moça jeitosa. — Como já disse. .» »Então. Sentou-se no ar e cruzou as pernas. A saia comprida formava pregas ordeiras à sua volta. não é verdade. os pesadelos. — A senhora era empregada do Seahorse? — É verdade — respondeu ela. soltando o ar. — Faleceste? Passaste para o outro lado? Foste ao encontre do teu Criador? — Morri — disse ele. »Devo acrescentar que. era capaz de tudo quando metia uma ideia na cabeça. então. abanando a cabeça. se tiveres um instante. Apanhei-o duas vezes a olhar para mim. oferecia-me refeições que eu nunca provara. apanhadas e sem fuga possível. Mas quando falou com o colega. «Pára de ser tão selectiva e arranja um homem. Tinham-no deitado abaixo há anos. como costumavam dizer. Aquele lugar. porque Emile era um homem de posses. eu conto-te. naquela época — prosseguiu a velhinha —. naquele preciso 97 instante. um dia de manhã. investindo em madeira e aço.

Mandou vir animais. Fitou-o com uma expressão estranha. costumava perguntar Eddie. Foi assim que nasceu a maior parte dos parques de diversões. — A entrada? — disse ela. tentando desesperadamente focar o braço. com o mar a roçar os nossos pés. embora a maior parte das pessoas não o soubessem. — Emile cumpriu a sua promessa. No fim da linha. Um dia. eu pude ver com os meus próprios olhos o que ele fizera. É sempre o mesmo . qualquer coisa que lhe indique que ele está ali. O seu cabelo negro e espesso está acamado de suor. examina os seus olhos raiados de sangue e lava a cara. ele pediu-me em casamento. E adorávamos ambos o mar. que os erguiam no final das suas rotas. para que os trabalhadores tivessem um motivo para andar de comboio ao fim-desemana. Pestaneja com força na escuridão. Depois. 99 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e três anos. Sabia. para evitar a inevitável rigidez da perna esquerda. depois sai lentamente da cama. acrobatas e palhaços. com falta de ar. tão intensas que. Importou um carrossel de França e uma roda-gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. como se estivesse a apresentar-se formalmente. na aldeia. 98 — Emile — continuou a velhinha — construiu um lugar maravilhoso. ergueu as diversões mágicas: as corridas e montanhasrussas. Não vale a pena voltar a adormecer. — Eu — disse ela — sou a Ruby. Espera que a sua respiração acalme. se via o parque do convés de um navio no mar alto. operários municipais e artistas de feira e estrangeiros. A velhinha sorriu. Emile meteu uma nova ideia na cabeça e jurou que. tentando não acordar a mulher. e não na guerra. à noite. eram meras oportunidades de negócio para as empresas de caminhos-de-ferro. sabias? Eddie acenou com a cabeça. os nós dos dedos.. A velhinha deu um passo atrás. no incêndio. Pousa primeiro a perna direita. com a sua mão coberta por uma fina luva branca. É aí que eu trabalho. A entrada foi a última coisa a ser feita e era verdadeiramente grandiosa. para ser eternamente jovem. um cais enorme feito com a madeira e o aço das suas empresas. Depois. para captar a felicidade daquele instante. por hábito. — Não te lembras? Nunca pensaste no nome do parque? Onde trabalhavas? Onde o teu pai trabalhava? Ela tocou ao de leve no peito. Quando retirou a venda. Na verdade. que andava à procura de uma maneira de aumentar o número de passageiros no fim-desemana. em breve. levou-me lá. Acorda bruscamente. Sabem onde trabalho?. Quando ficou pronta. no apartamento por cima da padaria. Adorava os parques de diversões. Aquele pesadelo. Pensavam que os parques de diversões eram construídos por duendes com varas de doces. os ciganos. Havia torres e espirais e milhares de luzes incandescentes. «Fiquei delirante de alegria. fez uma pequena vénia. »Emile contratou centenas de trabalhadores.. como se estivesse desapontada. Acabará um dia? São quase quatro da manhã. ia construir um parque de diversões só para mim. Eddie começa todas as manhãs da mesma maneira. Na casa de banho. com uma venda a tapar-me os olhos. as cartomantes. as viagens em barcos a fingir e os caminhos-de-ferro em miniatura. os adivinhadores do peso e as raparigas do mundo do espectáculo. Um passo e uma hesitação trôpega.»Uma dessas coisas era visitar as estâncias de veraneio. afastando-se de Eddie. Toda a gente o dizia. Disse-lhe que sim e ouvimos o riso das crianças a brincar à beira-mar. quando estávamos sentados na areia. fez um acordo com uma empresa de caminhosde-ferro. a comida salgada. Uns anos depois.

até que. — Querido? — grita Marguerite do quarto. — Marguerite aparece. Está linda. desistiu de estudar engenharia e desistiu da ideia de viajar. As cabanas da aldeia estão imersas em fogo e ouve-se um constante ruído. Nunca fala com Marguerite sobre a escuridão.. Ofegante. nos fundos da loja.pesadelo: Eddie a vaguear por entre as chamas das Filipinas. E ali permaneceu. O táxi está parado à esquina. Vira uma fotografia dela. Até nos seus momentos felizes. ele acabou por desistir de tudo. satisfeita. algures nos fundos da oficina da manutenção. E a seguir. acorda. puxando-o para baixo do chão lamacento. de roupão.. agudo como um guincho. Eu não queria fazê-lo.. quando Eddie regressa do trabalho. ele está parado à entrada. chega-lhe uma música. «Deixa-me sentir isto como devo. — Queres lutar comigo pelos doces? — sussurra ela. — Parabéns a você.. estou só cansado» e deixa o assunto ficar por aí. o padeiro. a gritar por Eddie. Parece preocupado. Veste-se sem fazer barulho e desce as escadas. Ela acaricia-lhe 100 os cabelos e pergunta «Que se passa?» e ele responde «Nada. O pior não é a insónia. ele sente-se oprimido. estaciona o táxi à esquina. — disse Eddie. volta a bater e volta a não acertar. Depois. Sobe as escadas lentamente. Eddie percebeu porque é que a senhora lhe parecia conhecida. e depois aparece Smitty. A suar. Doces. Nathanson. Ela acenou com a cabeça. «Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo. Acomodou-se à sua vida. a gritar: «Vamos! Vamos!» Eddie tenta falar. Sempre o mesmo. O pior é a escuridão total em que o sonho o deixa. A entrada primitiva de Ruby Pier fora uma espécie de marco . uma canção conhecida.. um véu cinzento que lhe turva o dia. como se não fosse digno daquele momento. Batem à porta. na sua última noite na guerra. — Eddie — diz ele. — Desce. Ele aproxima-se para voltar a beijá-la. Tem um telefone. Eddie tem necessidade de inspirar fundo. e Eddie limpa a humidade do pára--brisas. entre os antigos manuais e a papelada do primeiro proprietário do parque.» Abre a porta e vê um bolo em cima da mesa e um pequeno saco branco. Nessa noite. de cabelo arranjado e lábios pintados. Do cais. Acho que aconteceu alguma coisa ao teu pai. 101 — Sou a Ruby. com o tempo. no seu lugar habitual. mas não acerta. Algo invisível atinge a perna de Eddie e ele bate-lhe. De sua casa. — A velha entrada. quando ela supostamente o faz feliz? A verdade é que nem a si próprio ele é capaz de o explicar. mas. quando abre a boca. vive no apartamento do rés-do-chão. Quando Eddie abre a porta. diz ele à escuridão. Só sabe que houve alguma coisa que se interpôs no seu caminho. As chamas tornam-se mais intensas. da garganta sai-lhe um guincho muito agudo. De repente. Tens um telefonema. a barrar-lhe a passagem. com o vestido estampado de que Eddie gosta. Como é que ele lhe pode explicar tanta tristeza. Debate-se com a escuridão dentro de si: «Deixa-me em paz». — És tu? Ele levanta o saco branco.. a cantarolar na sua doce voz meiga. — Eddie! Estás em casa? Eddie? O Sr. sente uma coisa agarrar-lhe nas pernas.» Marguerite acaba de cantar e dá-lhe um beijo na boca. rugem como um motor. atado com uma fita.

mas foi em vão. Estava muito calor. Pegaram nuns foguetes do fogo-de-artifício e rebentaram-nos. Contratou inclusivamente mais operários. »O espírito de Emile ficou destroçado como o seu corpo. e alguns dos estivadores decidiram dormir ao relento. já Ruby Pier estava a arder. eu a tratar do meu marido ferido e a alimentar silenciosamente um só desejo. — Numa só noite. que quem quer que tivesse construído Ruby Pier pudesse ter feito outra coisa qualquer com o seu dinheiro. Deteve-se. Desta mulher. Naquele tempo. Se o Dia da Independência corresse bem. às bancas de comida e às jaulas dos animais. dizia ele.. Emile fizera um seguro básico para o parque. Contratou uma banda. O fogo propagou-se à avenida central. talvez o Verão inteiro fosse bom. de raiva e medo. as faúlas espalharam--se pelo parque. — Lamento pelo seu marido — disse Eddie. acima de tudo por não saber o que mais dizer. — Incêndio — disse a velhinha. começaram a beber e a fazer uma grande pândega. — Foi no Dia da Independência. Por baixo dessa cúpula. É claro que ele tinha de ir. . Acabou por perder a cabeça. — O resto aconteceu muito depressa. e quando a entrada pegou fogo. encontrava-se o rosto pintado de uma bela mulher. O Emile adorava feriados. mesmo depois de o Sol se pôr. era tudo feito de alcatrão e madeira. na véspera. As pessoas saíram à rua. 103 A velha senhora ficou sentada. para aquecer comida. Aventureiro como era. Os estivadores fugiram. Acenderam uma fogueira num barril de metal.histórico. »Mas. ele perdeu a noção de onde se encontrava. Ouvimos os cascos dos cavalos e os motores dos carros dos bombeiros. Deteve-se. à noite. para um pequeno apartamento. «Implorei para que Emile não fosse até lá. vendeu o terreno carbonizado a um empresário da Pensilvânia. onde vivemos uma vida modesta. a entrada com o meu nome e o meu retrato. — Ela deixou cair o queixo e os seus olhos espreitaram pelos óculos. só para esse fim-de-semana. em silêncio. a maior parte estivadores. por muito menos do que valia. quando uma coluna caiu sobre ele. «Desesperado. as nossas vidas mudaram para sempre. aconteceu uma coisa.. Eddie perscrutou o vasto céu cor de jade. — Mas isso foi destruído há tanto tempo — disse Eddie. um feriado. Pensou na quantidade de vezes que desejara a mesma coisa. Mas já não era nosso.. A magnífica prenda que me oferecera fora consumida pelas chamas. — Houve um grande. baseada num templo francês. Da nossa janela. Ruby. como se estivesse a ler algo que se encontrasse no seu colo. Um incêndio terrível. «São óptimos para o negócio». — Pois foi. Ruby juntou os dedos e levou-os à boca. 102 »À medida que a noite foi avançando. — Que desejo? — perguntou Eddie. Só passados três anos é que conseguiu andar pelo seu próprio pé. Tinha de ir para o meio daquele incêndio horrível tentar salvar os seus anos de trabalho. o Quatro de Julho. Quando alguém foi a nossa casa avisar-nos. Perdeu a sua fortuna. Emile mandou lançar fogo-de-artifício. Esse empresário manteve o nome. Portanto. — Que Emile nunca tivesse construído aquele parque. Soprava um vento forte. A velhinha sorriu. e tempos depois reabriu o parque. atrás das barracas dos operários. vimos aquelas terríveis chamas cor de laranja. sob a qual passavam todos os clientes do parque. Mudámo-nos para uma terra longe da cidade. com colunas estriadas e uma cúpula no cimo. Ela abanou a cabeça. Ruby Pier.. Estava a atirar baldes de água para a entrada. uma gigantesca estrutura em forma de arco.

O pai de Eddie costumava dizer que passara tantos anos à beira-mar. Se não fosse pelo nosso casamento. estas rugas? — Ela levantou o rosto. Devia ter feito alguma coisa. no início dessa semana. — Até as coisas que acontecem antes de nós nascermos nos afectam — explicou ela. formou-se uma bruma de condensação. mas à noite recusou-se a comer e. — Não compreendo. O seu peito encheu-se de expectoração. Ai. num tom de voz mais suave. 104 Eddie coçou a cabeça.. Surgiram complicações. tudo isso acontece» antes de eu nascer. doente como estava. Mas eu não. E agora. — Conquistei cada uma delas. Criámos três filhos. Contou-lhe que uma noite. todos os dias. — O médico disse que é pneumonia. na cama. A minha ideia de paraíso ficava o mais longe possível do mar. Eddie era capaz de apostar que cheirava a álcool. Deixou-me viúva aos cinquenta e poucos anos. o incêndio. Agora. Mas vivemos muitos anos depois daquele incêndio. Estava com uma febre altíssima. — Então.— Obrigada. Quando expirou.. — Passamos por lugares. como sempre. explicou ela. muitas vezes pensamos que eles começaram a existir assim que nós lá pusemos o pé.. Eddie esfregou as têmporas. não haveria um parque de diversões. — A sua história. meu querido — respondeu Ruby. Se não houvesse o parque. que respirava água salgada. na ponte leste da marginal. Ele fora trabalhar nesse dia. veio falar-me sobre o meu emprego? — Não. — O que é que podia ter feito? — perguntou Eddie. Os meus filhos iam lá e os filhos deles também. Nós alguma vez. se não fosse pelas pessoas que viveram antes de nós. O dia seguinte foi pior ainda. com o cinto de ferramentas e o martelo. que nunca teriam existido. Os amigos insistiam em dizer: «Amanhã ele . — E as pessoas que nascem antes da nossa época também nos afectam. nessa tarde. Pelo telefone. Disse que ele cheirava a mar. e os netos. Faltava-lhe um sapato.. onde passamos tantas horas. meu querido. ouviu-a a chorar. passava a vida a entrar e a sair do hospital. Está a ver esta cara. Estava furioso por ela querer assumir a responsabilidade. Eddie — disse a mãe. quando Emile andava a fazer-me a corte.. — Estou com medo. — Vinha a tossir muito — explicou a mãe. O seu estado passou de estável a grave. tivera um colapso. eu não teria sido casada. Tinha as roupas cheias de areia. — Portanto. não parou de tossir e suar dentro do pijama.. Bateu com as pontas dos dedos umas nas outras.. nos conhecemos? Alguma vez foi ao parque de diversões? — Não — disse ela. com a voz a tremer. também. tu não terias acabado por ir trabalhar para lá. Não é verdade. longe daquele oceano. o seu pai regressara a casa de madrugada. — Nunca mais quis ver aquele parque. O pai tivera um colapso nessa tarde. — Vim dizer-te porque é que o teu pai morreu. Os nossos locais de trabalho. — Se não fosse por Emile. perto do Foguetão Júnior.. A culpa era do pai. O telefonema era da mãe de Eddie. Emile andava mal. o seu corpo começou a definhar como um peixe que deu à costa. encharcado até aos ossos. Eddie franziu a testa. porque é que eu aqui estou? — perguntou ele. — E a tosse piorou. que não passava de um bêbado. eu devia ter feito alguma coisa. nos confins de uma cama de hospital. Devíamos ter chamado imediatamente um médico… — A sua voz esmoreceu. naquele restaurante buliçoso em que a minha vida era simples.

que durante anos se recusara a falar com Eddie.já estará em casa» ou «Daqui a uma semana. Eddie pousou a mão no ombro dela. Entrou devagarinho no quarto. encontrou um baralho de cartas. uma pequena garrafa de conhaque de maçã. — O teu velho vai resistir. No dia seguinte. Ele entregou o dinheiro à mãe. a verificar as pastilhas dos travões. Gritava para ele baixar o volume do rádio. disse-lhe uma enfermeira. Os pais raramente se libertam dos filhos. como se pudesse encontrar um pedaço do pai dentro de uma delas. Nas semanas que se seguiram. pedra sobre pedra. a fazer o trabalho do pai. Só muito mais tarde. Observou o filho por detrás de umas pálpebras pesadas. Por fim. contas de electricidade. Eddie quase desatara a rir e o pai tornara a dizer: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E antes de Eddie ir para a guerra. Não havia nada de heróico numa bebedeira na praia. nem sequer tinha forças para tentar. mais tarde. Vasculhou por entre moedas. quando falara em casar com Marguerite e estudar Engenharia. quando sugerira que Eddie arranjasse emprego no parque. Quando Eddie era adolescente. como se ele tivesse partido numa curta viagem —. a olear os trilhos. apesar de tudo. ele volta para casa». É o sacana mais duro que já vimos. Meteu-o no bolso. Eddie visitou o pai no hospital. Eddie imaginara para o seu pai uma morte heróica. — Não. o seu pai retorquira: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E agora. Agora. é que os filhos compreendem. Eddie. elásticos. depois de terminar o liceu. a testar as alavancas. Falava com o marido como se ele ainda estivesse presente. Cozinhava para duas pessoas. a mãe de Eddie viveu num estado de atordoamento. inclusivamente a reparar as peças avariadas. um alfinete de gravata. portanto os filhos libertam-se deles. apesar de apenas um dos lados estar ocupado. Por fim. No fundo. . quando a pele começa a 106 ficar flácida e o coração se suaviza. não — respondeu a mãe —. Quando chegou a notícia de que o seu pai morrera — «partira». o que estava a fazer era a assegurar o emprego do pai. depois 105 de largar o táxi. trabalhava ao serão. Eddie sentiu a raiva mais vazia do mundo. Uma noite. fez a única coisa que lhe passou pela cabeça: levantou as mãos e mostrou ao pai as suas unhas manchadas de óleo. as suas histórias e todos os seus feitos e conquistas assentam sobre as histórias dos seus pais. Na ausência do pai. aquele tipo de raiva que anda em círculos dentro da sua jaula. que ia para o hospital todos os dias e dormia lá a maior parte das noites. foi a casa dos pais. o pai irritava-se: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E. rapaz — disseram os outros empregados da manutenção. Os momentos que costumavam defini-los — a aprovação de uma mãe. uma noite. para contrabalançar a vulgaridade da sua vida. o pai. Eddie e Marguerite limpavam-lhe a casa e faziam-lhe as compras de mercearia. Os proprietários do parque reconheceram o seu esforço e pagaram-lhe metade do salário do pai. a pedido da mãe. — Não te preocupes. ali estava ele. no cais. sempre que se queixava ou parecia farto do cais. Mudam de casa. sob as águas das suas vidas. canetas e um isqueiro com uma sereia de lado. depois de se esforçar em vão por dizer uma só frase que fosse. o teu pai depois arruma-os. o assentimento de um pai — são substituídos por momentos marcados pelos seus próprios feitos e conquistas. Ajeitava as almofadas de ambos os lados da cama. Mudam. Eddie viu-a a empilhar pratos em cima da banca. Eddie deu uma ajuda na oficina do parque. — Eu ajudo-a — disse ele. entrou no quarto deles e abriu todas as gavetas. Como a maior parte dos filhos de operários. O funeral foi modesto e breve.

O pequeno-almoço está a arrefecer. pelos vistos. Uma gôndola. Eddie põe a língua entre os dentes. Ouviu a notícia.— Mãe — disse ele. Eddie abana o saleiro com força. levanta-se da mesa. como se uma vespa tivesse passado a zumbir junto da sua orelha. — Onde é que ele foi? No dia seguinte. uma vida que — e Eddie conseguia ouvir o pai rir-se na sepultura —. — Como é que um tipo destes se pode candidatar a presidente? É um puto! Eddie encolhe os ombros. — Pensei que uma pessoa tinha de ser mais velha para se candidatar a presidente. Houve qualquer coisa que se partiu. em Ruby Pier. Noel trabalha no ramo das lavandarias. 109 — Conheces alguém que trabalhe lá? — pergunta Noel. — Será assim tão difícil manter os saleiros cheios? — Que bicho te mordeu? Estás armado em gerente do restaurante ou quê? — pergunta Noel. ele e Marguerite mudaram-se para o edifício onde Eddie crescera — Avenida Beachwood. — Que me dizes deste tipo todo bem-parecido? — diz Noel. baixinho. e estremece. A manhã já está quente e pegajosa de humidade. onde Eddie aceitara um emprego que lhe permitiria 107 zelar pela mãe. . Tem um exemplar da Life aberto na fotografia de um jovem candidato político. debruça-se sobre outra mesa e pega no saleiro. — Mas nós somos mais velhos — murmura Eddie. Eddie dirigiu-se à central e pediu a demissão. De vez em quando. Eddie encolhe os ombros. — Toma — murmura ele. onde os corredores eram estreitos e a janela da cozinha tinha vista para o carrossel. apartamento 6B —. mas amaldiçoava o pai por ter morrido e por o ter aprisionado na mesmíssima vida da qual tanto tentara fugir. Mãe e filho sofreram uma queda de vinte metros. antes de o parque se encher de clientes. um acidente num parque qualquer. — Feliz aniversário. — O pai já cá não está. Baixa o tom de voz. nem a ninguém —. um posto para o qual ele se preparara Verão após Verão: empregado de manutenção de Ruby Pier. nem à mãe. 108 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e sete anos. no seu turno. ouviste o que aconteceu em Brighton? Eddie faz um sinal de assentimento com a cabeça. Não há dia que passe sem que ele tenha medo que o mesmo aconteça ali. Noel fecha a revista. que lhes provocou a morte. Eddie nunca o disse — nem à mulher. — É mais ou menos da nossa idade. — A sério? — diz Noel. Aquela é a rotina de ambos: pequeno-almoço uma vez por semana. Beberica o café. Eddie ajudou-o a arranjar o contrato de limpeza das fardas da manutenção de Ruby Pier. Noel. — Tens aí o sal? — pergunta Eddie a Noel. ouve histórias daquelas. Duas semanas depois. levantando uma sobrancelha. agora era suficientemente boa para ele. Um parque de diversões. — E verdade. ao sábado de manhã. com a boca cheia de salsichas.

Noel faz uma careta. Sabes como é. — Anda lá. — Olha para aquele tipo — diz Eddie... — Aposto em como vai deitar o charuto para o chão. apanhei um puto. a fumar um charuto. Começa logo a arder. Sabe como é: habituamo-nos a uma coisa. Noel levanta uma sobrancelha. 111 A terceira lição — O parque era assim tão mau? — perguntou Ruby. fazes anos. Costumas estar sempre assim tão animado quando fazes anos? Eddie não responde. prestes apor uma beata de charuto na boca. com um suspiro. Nunca ganhei dinheiro a sério. chapéus de sol. Pensa sempre em Marguerite. Passa um velhote de panamá. — A minha mãe precisava de apoio. e daí? . tem de encomendar mais cola. — Vai ser um dia cheio. Noel enfia uma garfada de salsichas na boca. sim? — diz Noel. Eddie solta o ar. já se habituou a ela. — E daí. Alguns trazem inclusivamente a última novidade: cadeiras de armar. Nunca vivi noutro lugar. Pergunta-se quem será o encarregado da manutenção do parque de Brighton. — Está bem — cede. Eddie pensa em Marguerite. às seis. Um espelho partido na Casa do Riso. — Ele era muito duro contigo — disse a velhinha. Pensa na carga de trabalho que tem hoje. Eddie espeta o garfo no ovo. — E daí? — Se cair por entre as brechas. exactamente como. Sábado. feitas de alumínio leve. demasiado frio. Eddie baixou os olhos. 110 — A que horas sais hoje? — pergunta Noel. Eu acabei por nunca sair de lá. Pensa naquelas pobres pessoas de Brighton. São os produtos químicos que põem na madeira. um dia acordamos e não conseguimos dizer que dia da semana é. quando Noel fala das corridas de cavalos. Verão. as pessoas dependem de nós. para o interessar. agora. Novos pára-choques para os carrinhos.— Não — responde.. Fixa o olhar para lá da janela. Eu era um homem da manutenção. cestos de verga com sanduíches embrulhadas em papel. Cola. — Sim. dandolhe espaço como quem cede o lugar a um passageiro num autocarro à cunha. — Como o teu pai? Eddie não respondeu. que não devia ter mais do que quatro anos. vai pegar fogo. — Não foi uma escolha minha — disse Eddie. — És uma anedota. Uma coisa levou a outra. nada. As pessoas deviam ter mais cuidado. — Ah. — E daí? Eddie vira-se para o lado. Fazemos o mesmo trabalho entediante dia após dia. recorda a si mesmo. A velha escuridão instalou-se dentro dele. Ontem. — Não conheço ninguém em Brighton. é só isso. — Podíamos ir às corridas. Os anos foram passando. Agora. Sente-se logo o cheiro. Transportam toalhas. num grupo de veraneantes à saída da estação de comboios. hoje — diz Noel..

Viu Mickey Shea. Arranjaste um rumo. A mãe de Eddie começou a chorar. Mickey detevese. Eddie lançou-lhe um olhar irritado. virar-se. Voou escada abaixo e correu para a noite chuvosa.— Talvez também tu fosses muito duro com ele. Eis o que viu: Viu uma tempestade no extremo mais longínquo de Ruby Pier — «o extremo norte». Eddie sentiu um estremecimento de raiva. — Começaste a trabalhar depois disso. com ar preocupado. — Mas sei uma coisa que tu não sabes. O céu era preto azulado.» Belo pai. Ela contorceu-se. um molhe estreito que se estendia pelo mar adentro. Mickey aproximou-se. e enterrou o rosto por barbear abaixo da face dela. a ignorar o copo de água. e não parava de esfregar as mãos na testa e ao longo da cana do nariz. Viu Mickey na cozinha. até outro momento no tempo. Ela estendeu instintivamente a mão. hã? A velhinha cerrou os lábios. Deu um passo para o lado do círculo na neve e desenhou outro. Conseguia ver de cima e de baixo. A mãe de Eddie trouxe-lhe um copo de água. Encharcado até aos ossos. Sabe quando foi a última vez que ele falou comigo? — Aquela vez em que tentou bater-te. — Ela pôs-se de pé. Eddie podia ver todos os quartos. Era há muitos anos. O roupão caiu. — Que raio foi isto? — gritou Eddie. Correu para o quarto e viu Mickey a agarrar a sua mulher. com um martelo pendurado no cinto. Ela tapou-se com um roupão. até ao fundo de um buraco. de frente e de trás. Ele era maior e mais forte. mas não conseguiu conter-se. desfazendo um candeeiro com o martelo. A chuva caía . Pegou numa blusa e numa saia. 112 — Ouça — disse ele. Abriu a porta. a tirar um frasco de dentro do casaco e a beber um gole. Empunhou o martelo. mas não conseguia ouvir o que eles os dois estavam a dizer. Começou a soluçar. Fez-lhe sinal para esperar e foi até ao quarto e fechou a porta. por um instante apenas. De repente. para o afastar. irritado. molhado da chuva. cobrindo-lhe o pescoço de lágrimas. não passava de um ruído indistinto. a porta da rua abriu-se e o pai de Eddie parou na ombreira. — E sabe qual foi a última coisa que ele me disse? «Arranja um emprego. Abanou-a violentamente. Mickey estava trôpego. E está na hora de ta mostrar. Eddie tentou não olhar para baixo. — Duvido. Depois. Mickey estava com um aspecto terrível. sentiu que os seus olhos lhe caíam das órbitas e viajavam sozinhos. lentamente. — Que raio foi ISTO? A velhinha manteve-se calada. O marido agarrou-a pelos ombros. As imagens tornaram-se definidas. Tirou os sapatos e o vestido de andar por casa. agarrou na mãe de Eddie e encostou-a à parede. Ruby apontou com a ponta da sombrinha e desenhou um círculo na neve. semivestida. Quando Eddie olhou para o círculo. debruçando-se sobre ela. Depois. O pai de 113 Eddie gritou. sentada à mesa da cozinha. depois pegou na mão dela. — A senhora não o conhecia. tornando-se testemunha de uma cena. sempre agarrada ao roupão. — É verdade. chamavamlhe —. o seu rosto coberto de lágrimas. levantou-se e cambaleou até ao quarto. a seguir gritou e empurrou o peito de Mickey. a caminho da rua. Mickey levou as mãos à cabeça e precipitou-se para a porta. o seu peito ofegante. na antiga casa. Estavam ambos aos gritos. Eis o que viu: Viu a mãe. derrubando o pai de Eddie. segurando-a pela cintura. incrédulo. Estava novamente a cair. Eddie viu a mãe. surpreendida. o pai de Eddie saiu do apartamento. sentado à frente dela.

Para o teu pai. Quando as ondas recuaram. Eddie fitou-a. os dois homens a grunhirem. O mar retumbava e explodia. quando o teu pai andava à procura de trabalho. O pai de Eddie foi ao fundo. e a seguir caiu na praia. com a chuva a cair. em tom de tristeza. Mickey Shea apareceu. 114 Mickey tossiu com força. que não . na rebentação violenta. Agarrou Mickey. Faltara ao seu turno. com um líquido amarelo esponjoso a sair-lhe da boca. — Fora atrás de Mickey para o magoar. Estava exausto. Agarrou-se ao corrimão. »Mickey tinha sido despedido nessa tarde. — Alto aí. Se eu soubesse o que ele tinha feito. a correr de um lado para o outro. muitos anos antes disso. derreado. Uma onda atirou-os para trás. O pai de Eddie surgiu instantes depois. Sabia quem Mickey era. carrancudo. de tão ensopado. Depois para a frente. Ficou estendido durante um instante. para que a rebentação não o arrastasse para o mar. — O que é que lhe passou pela cabeça? — sussurrou Eddie. ainda de martelo em punho. — Foi errado.. desistiu. Por fim. enquanto a chuva os massacrava. agachou-se por baixo da balaustrada e saltou. Sentia a cabeça pesada. de boca aberta. a pestanejar violentamente para conseguir ver. furioso. minha senhora — interrompeu Eddie. Parecia uma eternidade. a espuma branca a fustigar-lhes a cara. gritando contra o vento. Os céus estalavam de trovões. foi Mickey quem se dirigiu ao proprietário do parque e deu a sua palavra de honra sobre a integridade do teu pai. uma velha amizade era uma coisa muito séria. semi-inconsciente. E quando tu nasceste. — Belo amigo. tentou desatar o outro. todas as certezas que sempre tivera sobre o seu pai deixaram de existir. Viu movimento nas ondas. não foi capaz. e o pai de Eddie soltou-se de Mickey e conseguiu enfiar os braços por baixo dos de Mickey e segurá-lo. veio novamente à tona e contrapôs o seu peso ao do corpo de Mickey. Mas. mas o pai de Eddie continuava entalado debaixo do braço de Mickey. por baixo da balaustrada de madeira. — Salvar um amigo — disse Ruby. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. Mickey balouçava no ondular agitado das águas. De repente. A visão de Eddie regressou ao seu corpo. Sabia que o seu juízo falhara naquele dia. para ajudar a alimentar mais uma boca. Mickey deu-lhe um soco. com o peito a arfar.. Sabia que ele bebia. arrancou um sapato. a cambalear na direcção da beira do molhe. como se ele próprio tivesse mergulhado naquele mar.em lençóis de água. Deteve-se. Bateu os pés. As suas roupas estavam encharcadas e o cinto de cabedal estava preto. Conhecia os seus defeitos. rumando para a costa. com o rosto virado para o céu escuro. uma grande onda ergueu-os e atirou-os para a areia. »Mas. a dar às pernas. quando o pai de Eddie lhe pegou no braço e o prendeu sobre o seu ombro. Caiu ao chão. talvez até para o matar. O pai de Eddie nadou para ele. tirou o cinturão. mergulhando desajeitadamente no mar revolto. Avançaram. a esbracejarem. foi Mickey quem emprestou aos teus pais o pouco 115 dinheiro que tinha. Apanharam a crista de uma onda e fizeram um súbito avanço na direcção da costa. Pegaram-se e esbracejaram. bebera tanto na véspera. Mickey gemeu e tentou sorver golfadas de ar. na areia molhada. a vasculhar as águas. — Viu o que aquele pulha fez à minha mãe? — Vi — disse a senhora. no fim. tinha deixado o coiro dele afogar-se naquelas águas. O pai de Eddie deu-lhe outro. O pai de Eddie cuspiu água salgada. O vento soprava a chuva de lado. com as suas últimas forças puxou Mickey para a frente. e deixou-se cair ao mar. depois rodou o corpo. — O teu pai também teve vontade de o fazer — disse a velhinha.

Eddie lembrava-se dessa noite. à beira da cama dele. — Ai não? — Ela sorriu. Os pensamentos continuavam a atormentá-lo. e os patrões mandaram-no embora. »Uma noite. Ficou ali deitado na praia durante horas. Queria recuperar o emprego. Já ia nos cinquenta e muitos. — O corpo estava fraco. semicerrando os olhos. Mais uma pancada na porta a horas tardias. morreu completamente só — respondeu a velhinha. Um mau impulso. O silêncio foi o seu escape. Chamou pelo nome da tua mãe num fio de voz e chamou pelo teu. nem com ninguém. na manhã seguinte. Mais um telefonema para casa do Sr. Levantou-se da cama. a pneumonia atacou-o e. até ter forças para se arrastar para casa. a pedido dos médicos. Parece que nesse instante. ficaram os dois durante muito tempo no vale da montanha nevada. por vezes até à morte? Eddie encolheu os ombros. — Mais vale — disse ela — sermos leais uns aos outros. a tua mãe passou o tempo todo no hospital. a respiração dele tornou-se lenta. os olhos fecharam-se e as enfermeiras não conseguiram despertá-lo. E chamou Mickey. ela foi dormir a casa. O teu pai também agiu por impulso e. — Passados uns anos. com o tempo. — disse Eddie. claro. O teu pai estava a fazer serão. ele morreu. eu devia ter feito alguma coisa. como se estivesse a rezar: «Eu devia ter feito alguma coisa. Nunca conseguiu perdoar-se a si próprio pelo que aconteceu. Talvez tenha sentido a luz da morte a aproximar-se. Sentia-se envergonhado por ela. Talvez soubesse apenas que 117 . Naquele momento. Agiu por impulso. A implorar ajuda. A tua mãe ia levar Mickey até ele. à deriva. — Foi assim que ele adoeceu. quando chegou a casa da tua mãe. »Mickey era grosseiro. Os médicos disseram que tinha entrado em coma.conseguira levantar-se de manhã.» »Por fim. — Ele nunca mais voltou a falar sobre aquela noite. Já não sabia calcular a duração fosse do que fosse. esfregando a testa. Nathanson. estava perdido. Ela cruzou as mãos sobre a ponta da sombrinha. e pelo do teu irmão. O teu pai já não era um jovem. a sua reacção final foi salvar a vida de um homem. Dias e noites. — Mas o meu pai. mas raramente o silêncio serve de refúgio.. embora a sua reacção inicial tenha sido matá-lo. — O quê? — disse Eddie. — Ele nunca disse nada. a Eddie assim pareceu. Pelo menos. — Depois disso. No hospital. nem com a tua mãe. estava a cair de bêbado. Gemia baixinho. por Mickey. — E a religião? O estado? Não somos leais a essas coisas. — Ninguém morre por lealdade. Bem cedo. e o que fez foi um acto de solidão e desespero. Joe... — Por uma questão de lealdade — contrapôs ela. uma enfermeira encontrou o teu pai caído no parapeito da janela. também. uma noite. deixou de falar por completo. — Cinquenta e seis — disse Eddie inexpressivamente. — Durante a noite. — Que aconteceu ao Mickey Shea? — perguntou Eddie. atravessou o quarto e arranjou forças para levantar a janela. o seu coração estava a transbordar de culpa e remorsos. — No parapeito da janela? Ruby fez que sim com a cabeça. o mar deixou-o vulnerável. 116 Depois disso. — Bebeu até morrer de cirrose. — Por causa do Mickey? — disse Eddie. — Cinquenta e seis — repetiu a velhinha. encharcado e exausto. o teu pai acordou.. por ele próprio. Ele lidou com o problema da mesma maneira que lidava com todos os problemas: bebeu ainda mais e. mas não era má pessoa.

— Era um inferno para mim. perguntei pela tua família. senti uma pontada de dor. no refúgio de um lugar acolhedor. O vento e a humidade foram demasiado agressivos para o estado em que ele se encontrava. Senti a sua sombra amaldiçoada e voltei a desejar que nunca tivesse sido construído. em cada escorregadela. portanto nunca contaram o que se passou. porque eu queria regressar aos meus anos de juventude. para poderes avançar. Ruby deu um passo para ele. Não conseguia parar de pensar na morte do seu pai. Tiveram medo de perder o emprego. Debruçou-se sobre o parapeito. longe do mar. Mas depois da morte do teu pai. rijo com um velho cavalo de guerra. — Está ali. Edward. Eddie pareceu confuso. aqui. A sua cabeça pendeu para trás. — Ouvi-a gemer naquelas noites solitárias. Ruby levantou-se e Eddie imitou-a. . Morreu antes de amanhecer. à minha vida simples mas segura. quando eu era miúdo. lá fora. Ela tocou-lhe na mão. A raiva é um veneno. ou uma morte? — Como é que sabe tudo isso? — perguntou Eddie a Ruby. — Tens de perdoar o teu pai. como se tivesse perdido eu própria um ente querido. bem alimentado. Pensamos que o ódio é uma arma que ataca a pessoa que nos fez mal. nas ruas por baixo daquela janela. Mas agora. — Então. como se ele tivesse acabado de resolver um mistério. infligimolo a nós próprios. Perdoa. quente. a tentar rastejar para fora de uma janela. — Aprende uma coisa comigo. Eddie deixou-se cair para trás. Ela fez uma pausa. E o mesmo se passou com o homem que estava do outro lado da cortina. — Edward — disse ela. — Vi. porque ninguém nasce com raiva. em cada briga. Apontou para o pontinho de luz nas montanhas. Devora-te por dentro. 118 — O restaurante? — disse ela. ficassem sãos e salvos. — Emile. mesmo enquanto esperava por ti. E ficou ainda pior quando cresci. em cada incêndio. Estava uma noite fria. Eddie levantou os olhos. Mas o ódio é uma lâmina curva. »As enfermeiras que o encontraram arrastaram-no de volta para a cama. baixinho. a alma liberta-se dela. O meu marido. — E a minha mãe. Nunca falámos. — Eu odiava-o — murmurou ele. »Perdoa. Era a primeira vez que o tratava pelo nome. A versão do hospital foi que ele morreu enquanto dormia. »Esse desejo seguiu-me até ao céu. atordoado. viu o meu pai. em cada acidente. — O teu pai não tinha dinheiro para pagar um quarto particular no hospital. E quando morremos. e porque é que não tens necessidade de continuar a senti-lo. E queria que todos aqueles que sofreram em Ruby Pier. Pensou naquela derradeira imagem. Onde está a minha dor? — Sentiste-te assim. O seu pai. Aonde iria? O que é que teria pensado? O que seria pior deixar sem explicação: uma vida. Queria-os a todos como queria o meu Emile. A velhinha acenou com a cabeça.vocês estavam todos algures. Ela suspirou. Lembras-te da leveza que sentiste. tens de compreender por que motivo sentiste o que sentiste. O parque tinha o meu nome. Quando soube onde o teu pai trabalhara. em cada queda. E o mal que infligimos. quando chegaste ao céu? Eddie lembrava-se.

o nariz adunco. Caiu de joelhos ao lado da mesa. Pensou que não conquistara nada. Durante todo esse tempo. Endireitou os óculos. a beber e a falar. . parado na neve. Virou-se para a direita. Em seguida. — O teu pai não foi a razão pela qual nunca deixaste o parque. — Ainda tens de falar com mais duas pessoas — disse ela. sabendo o que tinha de fazer. Não o conhecia a si. para a mesa do canto. Ruby abanou a cabeça. Nunca se elevara acima do trabalho sujo e cansativo que o seu pai deixara para trás. a conversar uns com os outros. que Eddie conseguia ver os pêlos do seu rosto e a ponta queimada do charuto. Eddie avançou. depois. — Então. O pai não conseguia ouvi-lo. Começou a afastar-se. — Eu não sabia. — Pai. Continuo sem compreender. Sentiu um aperto no peito. carne e molhos. pai. Vou libertar-me da raiva. Sentiu um arrepio. Eddie aproximou-se. Porque é que o fez? Porquê? — Inspirou fundo. Odiava-o. os nós dos dedos ossudos e os ombros largos 120 de um operário. Sentiu o cheiro a comida quente — pão. a perda de uma carreira. que teria existido se não fosse pela morte do pai e pela subsequente depressão da mãe. sozinho no silêncio. a perda de esperança. — Pai? — sussurrou Eddie. está bem? Está bem? Podemos esquecer o que se passou? A sua voz tremeu até se tornar aguda e implorante. Uma torrente a querer sair de dentro de si. Viu os papos por baixo dos seus olhos cansados. Mas é o meu pai. não sabia o que tinha acontecido. que já não controlava. qual foi? Ela ajeitou a saia. a comer. a morrer sozinho a meio da noite. Eddie tentou dizer «Espere». Eddie sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos. — Quando ele morreu — disse Eddie —. virou-se para a porta e abriu-a lentamente. a fumar um charuto. penosamente. O pai estava tão perto. Ao longo dos anos. Sentiu um estremecimento no peito. Mantinha-me à distância. hesitante. Os espíritos daqueles que haviam morrido no parque encontravam-se à sua volta. à porta do restaurante. Já sei o que aconteceu. tudo ficou negro. levou consigo uma parte de mim. Eu não compreendia. Ruby desapareceu.Eddie pensou nos anos que se seguiram ao funeral do pai. nunca fora a parte alguma. Olhou para os seus próprios braços e percebeu no seu corpo terreno. Pensou no velhote pendurado na janela do hospital. que era agora mais velho do que o seu pai. até perceber que a velhinha não ia voltar. Fiquei encurralado depois disso. — O pai batia-me. mas um vento frio quase lhe arrancou a voz da garganta. — Eu estava irritado consigo. Sobrevivera-lhe em todos os sentidos. uma voz que já não era a sua. percebe? Não conhecia a sua vida. Eddie levantou os olhos. E. ele 119 glorificara essa vida imaginária e responsabilizara o pai por todas as suas perdas: a perda de liberdade. Ouviu o tilintar de talheres e o empilhar de pratos. Ele estava novamente no cimo da montanha. para o fantasma do seu pai. Ficou ali postado durante muito tempo. Eddie imaginara uma determinada vida — uma vida que «podia ter sido» —.

O seu corpo não apareceu reflectido. com a flacidez da velhice. Estava mais fina. o boné de linho. usando para isso o dinheiro que poupara por não ter de pagar o salário de Eddie no fim do mês. Viu as mãos sujas do pai.— ESTÁ BEM? ESTÁ A OUVIR-ME? — gritou. ansioso. que envelhecera desde o seu encontro com Ruby. O quarto era castanho — tão singelo como papel pardo — e estava vazio. 11 HORAS DA MANHA Quem pagaria o funeral de Eddie? Ele não tinha família. O som apanhou-o de surpresa. Tornou a tossir. como se tivesse saído de outra pessoa qualquer. Depois. à excepção de um banco de madeira e um espelho oval pendurado na parede. Depois. De onde é que saiu isto?. A igreja foi escolhida em termos de localização — era a mais próxima do parque —. jovem e bela. 121 QUINTA-FEIRA. Percebeu o que . e falou baixinho. Soltou os dedos e acrescentou rapidamente: — Claro está que eu nunca cheguei a conhecê-la. Não deixara instruções. O ataúde era uma simples caixa de madeira. Quando voltou a levantar os olhos. Não se sentia à vontade na presença de clérigos. Dominguez engoliu em seco. e mais seca. pai? Debruçou-se para ele. A sua barriga. Bullock. O seu corpo ficou na morgue municipal. uma vez que a maior parte dos convidados tinha de voltar para o trabalho. como se o seu peito estivesse cheio de coisas que precisassem de assentar. agora. Viu apenas o lado oposto do quarto. o pastor pediu a Dominguez. viu Ruby parada à sua frente. pagou a conta. — Pode dizer-me algumas das qualidades do falecido? — perguntou o pastor. dissera Ruby. Ainda tens de falar com mais duas pessoas. o proprietário do parque. Tocou na pele. a sua camisa da manutenção. Proferiu as derradeiras palavras num sussurro. o Sr. bem como o céu cor de jade. todos à espera que alguém os reivindicasse. as meias e sapatos. abriu a porta e levantou voo em direcção ao céu cor de jade. como achava que se devia falar numa situação como aquela. Ela baixou a cabeça. No fim. por fim — amava profundamente a mulher. de casaco azul-escuro e o seu melhor par de calças de ganga preta. As montanhas haviam desaparecido. como se estivesse a reflectir. que aconteceria? Tinha uma dor nas costas. Entrelaçou os dedos uns nos outros. tossiu. Eddie girou sobre os calcanhares. juntamente com as suas roupas e objectos pessoais. pensou Eddie. uma tosse profunda e cavernosa. Eddie postou-se à frente do espelho. depois caiu para o chão. a aliança. Eddie deu um murro na mesa. A sua perna estava cada vez mais hirta. que de repente se alargou e passou a incluir uma fileira de portas. uma moinha incómoda. — Eddie — disse ele. 122 A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie pestanejou e deu por si num pequeno quarto redondo. os cigarros e arames para limpar cachimbos. — Sei que o senhor trabalhava com ele. Eddie não bateu com a cabeça no tecto baixo de gesso. Uns minutos antes do serviço religioso. para entrar no seu gabinete. E depois. estava agora mole. — Está consertado. mais baixo: — Está a ouvir-me. que durante a conversa com o Capitão parecera dura como borracha retesada. Por pouco.

estavam demasiado recheados de momentos constrangedores. pensando que assim voltaria ao quarto redondo. Fosse como fosse. quando vários convidados levantaram os olhos. junto de Eddie. é que ele tivera de retirar o fato puído do armário e vestir a camisa de colarinho engomado que lhe apertava o pescoço grosso. Todos pareceram sorrir e os sorrisos assustaram Eddie. à espera que o tempo passasse. de cerimónia em cerimónia. desta vez. um bolo e um tipo de música para outra língua. como os bailes ou o acender de velas. nem carroças. O noivo era esguio. Ele baixou-o na direcção da noiva e os convidados aclamaram-na. Quanto tempo mais é que isto vai durar?. parecia africano. tornou a recuar pela porta e a entrar noutra cena de casamento. Eddie ouvia as vozes deles. nesses instantes. Preferia que assim fosse. Estava a apodrecer. As encostas estavam cobertas de vinhas e quintas de travertino. ficava a porta que ele acabara de transpor. onde o casal bebia em simultâneo de uma chávena com duas asas. no quintal de uma casa que nunca tinha visto. O grupo levantou os olhos. O que não percebia era o que tinha ele a ver com aquilo.estava a acontecer. A partida não parecia ser relevante. depois outra porta para outra cena qualquer — talvez francesa? —. pensou Eddie. na extremidade da espada estava um anel. A uniformidade não surpreendeu Eddie. durante um longo período. Coxeava muito e era. de mãos dadas. não havia vestígios de como é que as pessoas lá tinham chegado. alguém a quem todos sorriam mas com quem nunca falavam. onde se acenderam foguetes perante os convidados a aplaudir. Sempre achara que os casamentos eram todos iguais. Outra passagem pela porta levou-o a um casamento chinês. Por essa altura. Transpôs a porta uma vez mais e deparou com uma aldeia que lhe pareceu italiana. nem cavalos. sempre que o fotógrafo vinha à mesa. nas suas roupas da manutenção. A artrite atacara-lhe o joelho. saltava por cima de uma vassoura. deu por si a meio de outro casamento. sozinho. como acontecera 124 em tantos casamentos a que ele assistira na Terra. ficava muitas vezes no parque de estacionamento. onde as pessoas pareciam espanholas e a noiva usava flores cor de laranja nos cabelos. não houve casamentos. com pratos nas mãos. Foi dançando com cada um dos convidados e todos lhe entregaram um pequeno saco com moedas. na opinião de Eddie. Alemão? Sueco? Tornou a tossir. a meio do que parecia ser uma cerimónia de casamento. numa terra que não reconhecia. Eddie evitava a maior parte das cerimónias e. por conseguinte. Em vez disso. quando algum dos seus colegas adolescentes crescera e resolvera casar. Por causa disso. a fumar um cigarro. nem carros. enquanto ela retirava o anel. passou de casamento em casamento. A noiva. e ele sentia que as pessoas conseguiam aperceber-se disso do outro extremo da sala. Recuou rapidamente para a porta por onde entrara. em que as famílias despejavam vinho no chão e o casal. Os convidados conversavam uns com os outros e Eddie foi absorvido como sendo um deles. Era considerado um «velho». A sua perna ferida parecia atearse. dispensado de todos os momentos participativos. a retirar um alfinete dos seus cabelos cor de manteiga. se por acaso ia. mas a língua era-lhe estranha. os ossos fracturados da sua perna já estavam deformados. dentro de paredes. Usava uma casaca preta e empunhava uma espada e. agora. Muitos dos homens tinham cabelos pretos e . sem família. na outra. encontrava-se no centro do grupo. nem autocarros. havia um arco coberto de flores vermelhas e ramos de vidoeiro e. como quando os casais tinham de dançar ou ajudar a erguer a noiva numa cadeira. Numa ponta. e ninguém esperava que ele fizesse muito mais além de sorrir. de uma língua. jovem e bonita. 123 Dirigiu-se para uma das portas e abriu-a. num grande salão. Aqui. calculou Eddie. Os casamentos. Eddie tossiu novamente — não conseguia evitar — e. outro bolo e outro tipo de música. Só nos últimos anos da sua vida. Em cada cerimónia. O relvado estava cheio de convidados. porque acontecia a cada nova fase no Céu. estava ao ar livre. De repente.

porque é que não ficas tu com este emprego e eu com o teu?» Mas não o fez.. no rosto dela. Ao longe. nesse Verão. — sussurrou. encontraram-no. Joe dera os parabéns a Eddie pela sua promoção: chefe da manutenção de Ruby Pier. — Per l'amaro e il dolce? — disse ela. passara entre os convidados. Joe é vendedor de uma empresa de ferramentas e Eddie usa o mesmo fato há anos. — Per l'amaro e il dolce?'.. Havia música — flautas. Per l'amaro e il dolce?. sorrindo. Arranjou emprego nas bilheteiras. o corpo de Eddie estremeceu da cabeça aos pés. e as mulheres. Eddie segura na bateria entre os dedos. — Para os momentos amargos e doces? Os seus cabelos negros caíram-lhe sobre um dos olhos e o coração de Eddie quase explodiu. mas. agora. — Trabalha bem. um boné vermelho e uma etiqueta com o nome presa com um alfinete abaixo do pescoço. Os lábios dele demoraram a abrir-se e o som precisou de uns instantes para lhe sair da garganta. — Liga-a — diz Joe. Eddie acha que o irmão está demasiado bem vestido — e bem vestido é sinónimo de fajuto —. — Per l'amaro e il dolce? — dizia ela. o que é que ele entende do assunto? — Sim. olhos escuros e feições marcadas. — Ó da casa! Está aí alguém? Marguerite aparece à porta. com um cesto de amêndoas doces. Eddie fica irritado. uma pequena coisa chamada cádmio de níquel. Eddie nunca dissera nada que sentisse com tanta convicção. — Para os momentos amargos e doces — disse ela. Joe veste um casaco de xadrez e sapatos pretos e brancos de cunha. num ritmo louco e rodopiante. Joe dissera a Eddie que recebera um aumento. Começou a suar.. parecia ter vinte e poucos anos. Os seus olhos desviaram-se para os confins da multidão. Depois. Eddie recuou uns passos. Os olhos dela escondidos pela aba do chapéu. calças pretas de montar. Eddie tivera vontade de responder: «Se é assim tão bom. oferecendo-lhe as amêndoas. e enverga a farda oficial de Ruby Pier: uma camisa branca. como sempre. — Este — diz Joe. Eddie encontrou um lugar encostado a uma parede e observou os noivos a cortarem um tronco em dois. Algo dentro de si lhe disse para fugir. Ao vê-la assim vestida. oferecendo os doces. 126 Hoje é o aniversário de Eddie Eddie e o irmão estão sentados na oficina da manutenção. senhor — diz Joe —. . envergando um longo vestido cor de alfazema e um chapéu de palha debruado. Trabalha a bateria. Ao ouvir a sua voz. hã? — grita Joe. 125 Uma dama de honor. orgulhoso. com uma serra de dois punhos.. passando-lhe a broca.. — Marguerite.grossos. um colete encarnado. que era encimado por um bouquet de flores de papel. mas juntaram esforços para proferir a primeira letra do único nome que alguma vez o fizera sentir-se assim.. o antigo posto do seu pai. Nessa manhã. na sua pele de azeitona. violinos e guitarras — e os convidados começaram a dançar a tarantela. Eddie caiu de joelhos. pegando na broca — é o modelo mais recente... Ela aproximou-se dele. Os olhos de Eddie pousam. portanto. Eddie prime o gatilho e ouve-se uma explosão de barulho. penteados para trás com brilhantina. com um maço de bilhetes cor-de-laranja na mão. e vê só. O seu salário era três vezes maior do que o de Eddie. mas houve qualquer coisa que o impediu de arrancar os pés do chão. Custava a acreditar. nos seus olhos cor de café escuro.

como se apanhasse um . Eddie prime o botão. instintivamente. cheia de inúmeras marcas de dedinhos. Ai. Eddie junto do bolo.. Marguerite tapa os ouvidos. A cobertura do bolo está uma lástima. Eddie disse que ia pensar no assunto. — Não podes ser mesmo tu — disse ele. depois vê a mulher a sorrir. — É rápido. 129 Eddie olhou fixamente para a jovem Marguerite. — Está bem — diz Eddie. dançava-se a tarantela e o Sol esmorecia por detrás de uma faixa de nuvens brancas. sente-se comovido pela relação fácil que ela tem com os miúdos e entristecido pela incapacidade de ela os ter. — A Charlene emprestou-me. as crianças amontoadas à volta dele. Marguerite faz o enquadramento da foto. um aparelho complicado com manípulos e botões e uma lâmpada redonda de flash. Marguerite debruça-se para Eddie e segreda: — Prometi-lhes que apagavas as trinta e oito velas de uma vez. junto do bolo. Os bailarinos gritaram: «Olééé!» Tocavam tamborins.. Uma criança espeta o dedo em Eddie e diz: — Apaga as velas todas. está bem? Eddie baixa os olhos. a admirar as trinta e oito pequeninas chamas. Observa a mulher a organizar o grupo. entristecida. SR. Ela baixou o cesto com as amêndoas. Ia à biblioteca. O Sol incide-lhe no rosto. Um médico disse que era demasiado nervosa. Sr. — PARABÉNS. — Despache-se. EDDIE! — grita um grupo de crianças em uníssono. que o devia ter feito antes dos vinte e cinco anos. — Não podes ser mesmo tu — repetiu Eddie. Trazia jornais para casa. meninos. Eddie solta o ar. pousado em cima de uma mesinha de armar. ponham as velas no bolo! As crianças correm para o bolo de baunilha às camadas.especialmente à frente do seu irmão armado em importante. É uma Polaroid. um instantinho? — pergunta ela. Vira-se para Marguerite: — Trabalha a bateria. Eddie acena com a broca. que esperara demasiado tempo para engravidar. Eddie agarrou-a rapidamente. 128 — Está bem — grita ela. 127 — Mostra-lhe a broca — diz Joe. mas está a olhar para a mulher. Como acontece sempre que está na companhia de Marguerite e de crianças. espera. anda lá. — Ha-ha! Com esta é que ela te arrumou! Eddie baixa os olhos. — Ha-ha! — grita Joe. Ela estendeu-lhe a mão. — Quem diria? — diz Eddie. Com o passar do tempo. — Podes vir ali fora. espera. Marguerite grita: — Vá. Fazia agora quase um ano que ela falava em adopção. a rir. Eddie levanta-se devagar. envergonhado. Eddie! Apague lá as velas. Eddie dizia que eram demasiado velhos. ficaram sem dinheiro para ir ao médico. rezingão. As coisas eram como eram. — Faz mais barulho do que tu a ressonares — diz ela. — Enfia a mão dentro de um saco e tira uma máquina fotográfica. A volta deles. Sorriu. Outro. depois segue-a porta fora. Ela respondia: — Uma criança não sabe o que é ser velho. — Estou a trabalhar.

juntos. Caminharam de mãos dadas. pois as suas últimas recordações dela eram as de uma mulher mais velha. O homem do acordeão sentou-se num banco. Eddie não conseguia mexer a língua. quase a rir. Sammy. Terminada a refeição e entregues algumas prendas. — Vem comigo — disse ela. vinho do Porto e um homem com um acordeão. O que as pessoas encontram é uma certa forma de amor. feitos os votos. jovem como no dia do seu casamento. como se este fosse um objecto escondido atrás de uma rocha. não és tu — murmurou Eddie. pensando que teria poucos clientes se não o fizesse. como se se estivesse a formar uma pele por cima da sua própria pele. ser insubstituível. Ela ajoelhou-se junto dele. O proprietário. Olééé! — Não és mesmo tu. onde ficavam as mesas. um amor profundo mas discreto. transportaram 130 as cadeiras para o andar de baixo. Anos mais tarde. uma chuva fria. E Eddie encontrou uma certa forma de amor com Marguerite. Eddie e Marguerite saíram pela porta da rua. um amor grato. Ficou junto de Marguerite. quente e macia. ele deixara que os seus dias se tornassem vazios. Ela ergueu-o sem esforço. Quando ela morrera. ali estava ela novamente. — A tua perna — disse ela. começou a chorar. — Já te tinhas esquecido da minha cara? Eddie engoliu em seco. Estava a chover ao de leve. que a única coisa que faltara no seu casamento «foram os cartões do bingo». em sofrimento. até que ela semicerrou os seus olhos escuros e entreabriu os lábios com uma expressão maliciosa. no segundo andar de um restaurante chinês de luzes suaves. O seu próprio casamento realizou-se na véspera de Natal. Passaram entre as poças de luz dos candeeiros de rua. portanto. sorrindo. Agora. Mas o amor assume muitas formas e nunca é igual para todos os homens e mulheres. uma vez que ficava a apenas uns quarteirões de distância. Eddie levava o seu casaco branco. em seguida. Marguerite costumava dizer. — Eddie — disse ela. a camisa a apertar-lhe o pescoço. Eddie pegou no parco dinheiro que lhe sobrara do exército e gastou-o no copo-d'água: frango assado com legumes chineses. um amor que ele sabia. — Não és mesmo tu — disse ele. levantou os olhos e tocou nos tufos de cabelo por cima das orelhas dele. deixando cair a cabeça no ombro dela e. Depois. fizeram um brinde final e o homem do acordeão arrumou o instrumento. O seu coração tornou-se dormente. mas os noivos foram a pé para casa. alugou-lhes o seu estabelecimento por uma noite. pela primeira desde a sua morte. .objecto em queda. olhando para a cicatriz quase invisível com uma familiaridade afectuosa. chamado Sammy Hong’s. acima de tudo. 131 em silêncio. — Está branco — disse ela. As cadeiras usadas na cerimónia foram necessárias para o jantar. As pessoas dizem que «descobriram» o amor. Tudo à sua volta parecia estar no seu devido lugar. Eddieie tentou levantar-se. a brincar. Ela estava exactamente como ele a recordava — ainda mais bonita. mas o seu joelho ferido cedeu. — Sou eu — sussurrou ela. os empregados pediram aos convidados para se levantarem e. especado a olhar. Só conseguia ficar parado. Marguerite envergava o vestido de noiva por baixo de uma grossa camisola cor-de-rosa. Os seus dedos encontraram-se e ele nunca sentira uma sensação como aquela. que quase lhe fazia cócegas. não és tu.

porque eu lhes disse para o soltarem. Apertou os lábios. Queria perguntar-lhe tudo e mais alguma coisa. na mão dele. Ai. Senti as mãozinhas .. Ela tirou o chapéu de palha e afastou os caracóis grossos da sua testa jovem. que fazia os carrinhos parar lentamente... não foi culpa dele. 132 — O que é que tu sabes. isto é.. Ele ainda tinha dificuldade em dizê-lo.. sei tudo o que aconteceu enquanto estivemos juntos.. Marguerite apontou para a aldeia e para os convidados a dançar. Acreditam verdadeiramente no amor e que o seu casamento vai quebrar todos os recordes.. — Tivemos um acordeonista — disse ele. — Bom. por detrás de todas as portas.. nada muda.. depois. Eddie sentiu o calor derretê-lo. — Tocou-lhe no queixo. — Desde que morreste. as expectativas que vemos reflectidas nos olhos de ambos são iguais em qualquer parte do mundo... Sorriu. — Foi essa a minha escolha. sempre que o noivo levanta o véu e a noiva aceita a aliança. — Mudou tudo. Ele perscrutou os olhos dela. Sentia uma agitação dentro de si. que correu para uma das atracções do parque e corria perigo. Ela tocou ao de leve no rosto dele e o calor espalhou-se pelo corpo de Eddie. uma menina pequena. por fim. Parecia tão jovem. — E agora sei porque é que aconteceu. — Também passaste por isto? — disse ele. Afastaram-se do copo-d'água e subiram um carreiro de cascalho. Eddie. A música fundiu-se no ruído de fundo.. Um mundo de casamentos.. — E explicaram-te tudo? E mudou alguma coisa? Ela sorriu. — E. disse ao Dominguez. — O parque tem atracções novas. Pegou. mas ele não me conseguia ouvir e a tal menina estava sentada ali e eu tentei agarrá-la. havia uma atracção que deixava cair uns carrinhos do cimo de uma torre e tinha um sistema hidráulico de travagem. Agora. muito veloz. esperei por ti. Era mais difícil do que ele pensava contar à sua mulher como é que morrera. é tudo muito rápido. Eddie queria dizer-lhe tudo o que vira.. que me amaste muito.— Nunca esqueci a tua cara. — Eu também não sei ao certo — respondeu. Não sabia por onde começar. uma ansiedade aos solavancos. — Também encontraste cinco pessoas? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça.. eu é que lhe disse e depois tentei avisá-lo. não tem nada a ver com o parque de antigamente. Ela voltou a acenar. um miúdo que trabalha comigo agora. — Não sei como é que tu morreste — disse ela.. um dos carrinhos soltou-se. Levou as mãos ao peito. O sorriso dela. mas o cabo partiu-se. Perguntou-se se a espera de Marguerite teria sido parecida com a sua. — Cinco pessoas diferentes — disse ele. sobre mim? O que é que sabes desde que. Eddie pensou por instantes. e caiu. tudo o que acontecera. — Havia uma menina. Seja como for. Tentei salvá-la. Marguerite arregalou os olhos. — Casamentos — disse ela. — E também sei. — Achas que tivemos isso? Eddie não soube o que responder. feliz. então. ainda não percebi como.

no Daily Double*. * Sistema em que se aposta no cavalo vencedor em duas corridas consecutivas (N. — Tenho de ir para casa — diz ele. — Tive tantas saudades tuas. . se ganhares — diz Noel —. mas depois eu. — Ai. um cavalo chamado Jersey Finch. Amparou a cabeça com as mãos e disse-o de qualquer maneira. A campainha toca. e não queria olhar mais. com o assento de baixar. Deram-lhe duzentos e nove dólares. a sua mulher perdida. nem o parque. Sentam-se em cadeiras de ripas. a sua alma caíra na armadilha das velhas emoções. sendo as probabilidades de quatro para um. mas o que Noel acabou de dizer sobre «o miúdo» —— a criança que Eddie e Marguerite tencionam adoptar — enche-o de culpa. Eddie aperta o bilhete entre os dedos. um sorriso meigo. numa lógica exuberante. porque. Nem consigo dizer. As mulheres usam chapéus de palha e os homens fumam charuto. Noel grita. disse o que roda a gente diz. — Praticamente ainda não tinha falado. para irem jogar no número do aniversário de Eddie. Eddie ganhou a primeira corrida do dia. Eddie apostou no n. — Vais estragar tudo — diz Noel. estão copos de papel de cerveja. se ele chegara praticamente de bolsos vazios. que não é uma má aposta. os seus lábios começaram a tremer e Eddie foi arrastado pela corrente de tudo o que perdera. o seu pêlo colorido a esbater-se a cada movimento ondulante. como ele e Noel concordaram. por entre uma carpete de bilhetes usados. Aquele dinheiro vinha a calhar. Jersey Finch afasta-se para o lado de fora e alonga a sua passada. nem a multidão à qual ele tinha gritado «Afastem-se».. A sua pele arrepia-se. Não consigo exprimi-lo. vais ter dinheiro para o miúdo. Porque é que estava a falar sobre aquilo? O que é que estava a fazer? Estaria realmente com ela? Como uma mágoa escondida que se ergue e lhe agarra o coração. Aos seus pés. Marguerite — sussurrou.) 135 Jersey Finch! Agora. desde que aqui cheguei — explicou. Apostou metade dos lucros na segunda corrida e voltou a ganhar. Um cavalo destaca-se na dianteira do grupo. e ao vê-lo os olhos dele encheram-se de lágrimas e sentiu-se invadido por 133 uma onda de tristeza e. meu Deus.da T. Deteve-se. Há pouco. de repente. lamento tanto. Não consigo. o 39. Estava a olhar para a sua mulher.. era a primeira vez que isso lhe acontecia. Eddie e Noel saem mais cedo do trabalho. As aclamações fundem-se com os cascos retumbantes. nem a sua morte. Está mais nervoso do que gostaria de estar. Os cavalos entram no troço final. Ele soltou o ar. a sua jovem mulher.dela. — Lamento muito. Eddie tem quase oitocentos dólares.° 8. Depois de perder duas vezes em apostas mais pequenas. nada lhe pareceu importante. Ela inclinou a cabeça para o lado. 134 Hoje é o aniversário de Eddie As corridas estão à cunha com os clientes de Verão. a sua mulher morta. Porque é que ele fazia coisas daquelas? A multidão levanta-se. pedindo-lhe para continuar. a sua única mulher. Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. que mal tinha voltar para casa da mesma maneira? — Pensa só que. Os cavalos são largados. pôs o dinheiro todo num cavalo a ganhar na sexta. Amontoam-se na recta distante.

ela pega na carteira e conduz o Nash Rambler. e quer pedir-lhe desculpa. que costumava ser a via de acesso à pista: os clientes subiam as escadas. Ela vai ficar contente. em segunda mão. Ela está arrependida de lhe ter gritado. não vai. — É louco.— Que raio de conversa é essa? — Vais contar a alguém e vais estragar a tua maré de sorte. como se aquilo fosse uma espécie de arte e ele uma espécie de artista. quer também que ele pare de fazer apostas. Volta para junto de Noel. passavam por cima da estrada e voltavam a descer as escadas. — Vou telefonar-lhe. — Uaaaau! — grita o segundo. que está a comer amendoins junto da balaustrada. Esboça um sorriso. porque Noel é assim e não há nada a fazer. O primeiro deixa cair a garrafa e escondem-se por trás da chapa metálica. horas antes. Diz-lhe para voltar para casa. que Noel vai insistir para ficarem até ao fim. Eddie desliga o telefone com um calor atrás das orelhas. A garrafa passa de raspão por um automóvel e estilhaça-se na estrada. Eddie conta-lhe a novidade. Agora. com base em serões anteriores. Vira à direita em Lester Street. para que ele possa atirá-lo para cima da cama quando chegar a casa e dizer à mulher: «Toma. dois rapazes de dezassete anos que. ao longo de Ocean 136 Parkway. O Sol já se pôs e o céu está em transição. Uma parte dele já não o quer fazer. a observar. a maior parte das vezes. — Eu sei. — Estamos à espera de um bebé — repreende ela. como não lhe podia ligar. — Estou — diz o outro. E como a pista de corridas fica apenas a dez minutos de distância. estica o braço que segura na garrafa e escolhe a faixa da direita. — Não. Noel tinha razão. — Não podes continuar a comportar-te dessa maneira. tentando que ela caia no intervalo entre dois veículos. tendo terminado o álcool e fumado muitos dos cigarros. a única coisa que a preocupa é tirar Eddie da pista de corridas. Marguerite pensa em tudo menos em olhar para cima. ainda por cima no dia do aniversário dele. estão a morrer de tédio e balouçam as garrafas vazias por cima do corrimão enferrujado. Solta os dedos. eu sei — diz Eddie. Eddie tira o dinheiro do bolso. O segundo põe-se de pé. depois de terem roubado cinco maços de cigarros e três garrafas de whiskey Old Harper. — Deixa-me adivinhar — diz Noel. com menos trânsito. enquanto ainda tem algum dinheiro no bolso. Sabe. Albergava dois adolescentes que não queriam ser encontrados. nessa noite. Ela aproxima-se do viaduto de Lester Street. deserto. A maior parte do trânsito flui na direcção contrária. compra o que quiseres. decidiu meter-se no carro e ir procurá-lo às corridas. Ele diz —le ara ela parar de lhe dar ordens. Levanta as sobrancelhas. jamais lhe ocorre que possa estar a acontecer alguma coisa no viaduto por cima de si. a outra parte quer a dobrar. Ela não fica contente. O que ele não sabe é que Marguerite. o que fazia com que o viaduto estivesse. Dirigem-se para a janela da bilheteira e escolhem outro cavalo. — Estás a desafiar-me? — pergunta um deles. Eddie coxeia para a cabina telefónica e deixa cair uma moeda. está bem?» Noel observa-o a empurrar as notas pela abertura da janela. até que os proprietários da pista pagaram para que a câmara municipal instalasse uns semáforos. Mas. ó cobardolas. Abana a garrafa para trás e para a frente. Marguerite atende o telefone. — Não o faças. tinham saído fugidos de uma loja. não estava deserto. — Viste aquilo? — Atira a tua agora. Quinze metros abaixo deles. Está a .

Com o passar do tempo. O Sr. no instante em que a garrafa de whiskey Old Harper se estilhaça contra o seu pára-brisas. para se certificar de que os barcos nunca se soltavam dos trilhos. perfura o fígado. 138 O amor. ambos incapazes de conversar ao pequeno-almoço. Não ouve as buzinadelas frenéticas. 139 O palco da orquestra foi deitado abaixo. por entre o solitário tilintar de garfos e pratos. no fim. o proprietário do parque. contra o tabliê e o volante. zelou pela sua manutenção. Eddie até mencionou o tema da adopção. A criança que esperavam foi entregue à guarda de outro casal. à semelhança da chuva. mas os custos e a demora impediram-nos de avançar com o processo de adopção. Quando falavam. o amor seca à superfície e alimenta-nos por baixo. numa explosão de vidros partidos. uma noite. ela fazia-lhe café e torradas e ele deixava-a na casa onde ela fazia . as montanhas-russas. Ângulos de sessenta graus? De certeza que alguém ia acabar por se magoar. para espanto de Eddie. embora nunca tivessem chegado a receber uma criança em sua casa. Passaram-se anos. impossíveis de conseguir em madeira — e. inspeccionando o mais pequeno gesto que eles faziam. ensopando os casais com a sua alegria molhada. construíram uma atracção nova. sob o calor enraivecido da vida. Um parque de diversões da Califórnia apresentou os primeiros trilhos tubulares feitos de aço — contorcidos em ângulos profundos. numa grande piscina. marido e mulher recomeçaram a falar e. Os clientes flutuavam ao longo de canais de água e despenhavam-se. Bullock. encomendara um modelo de aço para Ruby Pier e Eddie supervisionou a sua construção. Fosse como fosse. voltaram a estar na moda. trabalhando descalço na água. Berrava com os trabalhadores. porque tudo lhes pesava. a sua ferida sarou lentamente e o seu companheirismo preencheu o espaço que estavam a guardar um para o outro. andava entretido.pensar em que parte das bancadas o há-de procurar. através das raízes. O corpo dela é atirado como se fosse o de uma 137 boneca. Não ouve a chiadeira de pneus dos outros automóveis. Mas. As suas visitas à pista com Noel acabaram gradualmente. apesar disso. que agora os miúdos consideravam piroso. tornou-se extremamente popular. Eddie retorquiu: — Uma criança não sabe o que é ser velho. estamos demasiado velhos. De manhã. que praticamente haviam caído no esquecimento. Ficou confinada a uma cama durante quase seis meses. quando o mar ficava a apenas trezentos metros dali. mantendo-se a si mesmo vivo. Não ouve o som de retirada dos ténis de sola de borracha a correrem pelo viaduto de Lester Street e a fugirem pela noite dentro. uns barcos feitos de troncos. de repente. Uns anos depois. Mas. Eddie afundou-se em trabalho. E. que perde a noção dos ruídos nocturnos que a rodeiam. A água do seu amor estava escondida por baixo das raízes. e. pode alimentar-nos vindo do céu. Marguerite remeteu-se ao silêncio durante muito tempo. O carro guina para a divisória de betão. Não confiava em nada que fosse tão veloz. O mesmo aconteceu à atracção chamada Isqueiro. A sombra ocupava o seu lugar à mesa e comia na presença deles. Eddie não percebia porque é que as pessoas gostavam tanto de se molhar. parte um braço e bate com a cabeça com tanta força. O seu fígado lesado acabou por recuperar. por vezes. A subsequente culpa implícita nunca encontrou refúgio — moviase simplesmente como uma sombra entre marido e mulher. Eddie nunca mais voltou a apostar nas corridas de cavalos. falavam de coisas triviais. E ao Túnel do Amor. ela é arremessada contra a porta. O acidente em Lester Street fez com que Marguerite fosse parar ao hospital. Marguerite esfregou a testa e disse: — Agora.

como se aquele jantar fosse uma festa para celebrar um regresso a casa e não uma despedida. um tumor cerebral e o declínio de Marguerite seria como o de tantas outras pessoas. Eddie pegou na garrafa e serviu-lhe uma terceira dose. mas ele obrigou-a a sentar-se e ferveu água para preparar um 141 chá. Ela percebeu que era o protocolo. Comeram puré de batata pré-preparado e bolachas de manteiga e caramelo e. nessa noite. Comprara costeletas de borrego na véspera e. pela marginal. E . Queria cozinhar. a verificar os cavalos do carrossel e as conchas pintadas de amarelo. deram por si a passear à beira-mar. eles acenavam com a cabeça. qual dos médicos estaria de serviço. Numa noite de Julho. quando o cancro foi anunciado vencedor. manhãs ligada a máquinas ruidosas de radiações e tardes passadas a vomitar numa casa de banho de hospital. Fez mais afirmações do que perguntas. Falaram em frases curtas. como se os seus acenos fossem medicamentos ministrados em gotas. quando um deles sugeriu «pôr as suas coisas em ordem». porque. disseram os médicos. a olhar para aquela mão de dedos presos que parecia pertencer a outra pessoa qualquer. à tarde. ela acordou aos gritos. Não fechavam. a maior parte dos quais cumprimentou a pálida Marguerite com frases do género: «Vejam só quem cá está!». começou a ver tudo a andar à roda. Ficou parada.limpezas. enquanto Marguerite dava uma volta pela casa. por um instante. ela pediu para lhe darem alta do hospital. a quem deveria Eddie telefonar. A seguir. Dois dias depois. agradeceu a Eddie do fundo do coração e observou o seu nariz adunco 140 e os maxilares largos. Nos derradeiros dias. Ele levou-a para o hospital. — Eddie? — chamou. Subitamente. Eddie disse que as raparigas tinham sorte. A sua respiração acelerou. já ela estava desmaiada no chão. nenhum homem olharia para qualquer outra mulher. acompanhando-o nas suas rondas. ela saía mais cedo e fazia o caminho a pé com ele. Ela tinha o braço a latejar. a maneira de eles serem simpáticos enquanto impotentes e. ela estava a passar filetes de frango por pão ralado e ovo. os médicos disseram apenas: «Descanse. cheios de compaixão. e regressava ao parque. E. Por vezes. Olharam em volta e perceberam que eram as pessoas mais velhas da praia. Eddie ajudou-a a subir as escadas e pendurou o casaco dela no cabide. quando ele chegou a casa. Três anos depois. mas. Marguerite fez um comentário sobre os biquinis que as raparigas usavam agora e como nunca teria coragem de vestir uma coisa daquelas. As águas do seu amor tornaram a chover do céu e encharcaram-nos com a mesma certeza com que o mar lhes lambia os pés. a comer chupa-chupas de uvas.» Quando ela fazia perguntas. Era. leve a sua vida com calma. O pedaço de frango escorregou-lhe da mão e caiu para a pia. porque Marguerite dizia que lhe lembrava o tempo em que eram miúdos e gostava de ver o velho carrossel pela janela. sem qualquer aviso. muito tempo depois da morte da mãe de Eddie. quando Marguerite terminou um segundo copo de vinho. o cabelo a cair às mãos-cheias. os dedos da sua mão direita abriram-se incontrolavelmente. na cozinha de sua casa. com tratamentos mais dolorosos que a doença. no silêncio da madrugada. Esticaram-se para trás. se ela o fizesse. embora naquela época Marguerite já andasse na casa dos quarenta e tivesse as coxas mais grossas e uma teia de pequenas rugas à volta dos olhos. andou atarefado como uma abelha a gerir um jantar para vários amigos e colegas convidados. alguém a segurar num grande frasco invisível. a mesma casa onde moravam há tantos anos. os pés descalços a afundarem-se na areia. enquanto Eddie lhe explicava tudo sobre rotores e cabos e ouvia o zumbido dos motores.

pensando melhor. Quando mencionou o pai. Marguerite lembrou as muitas noites que ele passara furioso com o pai. as corridas «no escuro». como se aquela inspiração lhe tivesse sido penosa. no pedal do acelerador. — Do seguro — disse ela. Subitamente. — Eu tenho o cartão. Numa cerimónia sueca. Ela inspirou fundo e fechou os olhos. Ela fungou e levantou os olhos para o horizonte. — Ah. Ela desviou os olhos. Ele contou a história do Homem Azul. noites e dias e mais noites.. a velha melodia suave da galeria de jogos fora substituída por um ruidoso rock’n’roll. Abriu a porta dela e ajudou-a a sair do automóvel. sem refeições nem horários. 142 — Vê-se daqui — disse ela. como uma criança enregelada. os seus pés no chão. era como ver . Uma noite. como é que ele havia de saber ao certo? Em relação a Marguerite. com carrinhos vermelhos pendurados como decorações de uma árvore de Natal. Numa cerimónia russa. ela perguntou-lhe se ele tinha mantido a antiga casa e ele disse que sim. e Eddie sentiu aquela antiga sensação de calor que lhe faltara durante tantos anos. as montanhas-russas tinham agora voltas em parafuso e carrinhos que ficavam pendurados de cabeça para baixo nos trilhos. Transpuseram as portas dos vários casamentos e falaram de tudo o que desejavam falar. Mas. e ela disse que isso a deixava contente. tudo o que Eddie queria era tempo — mais e mais tempo — e foi-lho concedido. Ouvia todos os sons. Marguerite tinha quarenta e sete anos. sim — apressou-se ele a responder. no volante. e falou sobre o Capitão e a sua história de sacrifício. a corrente de ar lá fora. de um ataque cardíaco. estavam agora cheias de ecrãs de vídeo. Os cabelos voavam-lhe para o rosto. Ela tinha os ombros puxados para o queixo. já saber. a sua voz parecia ainda mais ténue quando voltou a falar.embora ela estivesse sentada ao lado dele. — repetiu ele. inexpressivo. ao mesmo tempo. Fez sinal a Eddie e apontou para o cimo distante de uma atracção do parque de diversões. Pararam no parque de estacionamento e Eddie desligou o motor. — A roda-gigante? — perguntou ele. o tilintar das chaves. sem dormir nem acordar. Eddie contou-lhe que o seu irmão Joe morrera há dez anos. apenas um mês depois de ter comprado um novo apartamento na Florida. sem pôr do Sol nem marés vivas. Eddie sentia-a em tudo. — Tens o cartão? — perguntou ela. o ranger do seu corpo no banco de cabedal. ele falou sobre o que lhe acontecera ali no Céu e ela pareceu ouvir e. — O cartão. porque é que algumas pessoas morrem e outras vivem. Eddie disse-lhe que tinha feito as pazes com o pai e ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca num sorriso. no pestanejar dos seus olhos. numa voz rouca. o simples acto de fazer a sua mulher feliz. Todos os gestos que ele fazia eram uma maneira de se agarrar a ela. estava tudo demasiado sossegado e silencioso. Eddie falou sobre as mudanças que haviam ocorrido em Ruby Pier — as antigas atracções tinham sido desmanteladas. estupefacto com o seu silêncio. o clanque da maçaneta da porta. — A nossa casa. Como ainda não dormira no Céu. Numa cerimónia ao ar livre numa aldeia libanesa. Eddie tinha a sensação de que não passara mais do que um punhado de horas com qualquer uma das pessoas que encontrara.. que antigamente tinham recortes de 143 cowboys pintados com tinta reluzente. no seu pigarrear.

Em vez de dormir. não tiveste? Eddie ficou calado. Senti-me sempre um inútil. Eddie abraçava-a e cheirava os cabelos dela e inspirava fundo com a cabeça enterrada no pescoço de Marguerite. A dada altura. fiquei. depois de longas conversas. — É estranho. Lembrou-se dos guardas. Dela. — Não — retorquiu a sua mulher. Agora chamavam-se todas Tempestade. não é? — perguntou Eddie. quando as pessoas adormeciam. — Houve uma razão — disse ela. O meu pai. — Que razão? — replicou ele. Virou-se para o espelho e Eddie reparou no reflexo. Quem escolhe. Marguerite conduziu Eddie por outra porta. agora. — Desculpa-me por nunca termos saído daqui.televisão o tempo todo. Ela virou-se para ele. mas dando a sensação de se afastar. Mas. Ela sorriu e disse: — Claro que sabe — mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte da sua vida a esconderse de Deus e o resto do tempo convencido de que Lhe passava despercebido. — Durante a guerra. os dois deitavam-se juntos. — Parece — respondeu ela. O vestido cor de alfazema de Marguerite estava estendido diante dele. quando regressavam a casa. Top Gun e Vórtice. Ela lançou-lhe um olhar repreensivo. faziam o que tinham a fazer e não falavam no assunto. Eras a melhor 145 . Ele viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto dela. Ela sentou-se num banco e uniu as mãos. Na Terra. mas não o seu. Eddie. — É este o momento em que pensa no que está a fazer. Ele agachou-se lentamente. às vezes sonhavam com o Céu e esses sonhos ajudavam a formálo. Perguntou-se se algum dia seria perdoado. Lembrou-se do sangue nas suas mãos. perguntou-lhe se Deus sabia que ele ali estava. disse Marguerite. Explicou-lhe os nomes novos. no tempo de Eddie. Mas não dormiam. Eddie percebeu que era precisamente isso que sentia há anos. absorvendo a sua imagem. passando os dedos pelos cabelos. — O que é que aconteceu? — perguntou ela. melancólica — a descrição do Verão de outra pessoa qualquer. — Perdi-me — disse ele. ali no Céu. — É aqui que a noiva espera — disse ela. Quem amará. Voltaram ao pequeno quarto redondo. Ficara sempre implícito. Já não havia as montanhas-russas Ursa Maior ou as Tartarugas. Se estiver certo. Contorcionista. — Tiveste de viver sem amor durante muitos anos. Os soldados. — Não. 144 A quarta lição Por fim. não havia razão para esses sonhos. Tinhas quarenta e sete anos. Por vezes. que eu te abandonei demasiado cedo. este pode ser um momento maravilhoso. — Eu devia ter ido trabalhar para outro lugar — confessou ele. — Ficaste zangado comigo. — Como é que pode ter havido uma razão? Morreste. — Tu partiste demasiado cedo — disse ele. Lembrou-se dos homens que matara. A minha perna. Ele nunca lhe contara. — Sim — sussurrou ele e ela não acrescentou mais nada. — Sentiste que te foi roubado. — Está bem. depois da guerra.

apesar de saber que nunca faria parte dele. pela primeira vez no Céu. Agarramo-nos a ela. Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo Eu não queria fazê-lo. Eddie lembrou-se dos anos depois de ter enterrado a sua mulher.. Era como espreitar por cima de uma cerca. — Inclusivamente aqui — respondeu ela. — Só faltam — sussurrou Marguerite. há outro que se sublima. — Eu sei — disse ela. O homem do acordeão tocou as notas conhecidas. — Importas-te? Ela deteve-se um instante. — E queres que a transforme em quê? — No aspecto que tinhas no fim. Estava ciente de outro tipo de vida lá fora. Apenas assume uma forma diferente. Ela pegou nas mãos dele. apercebendo-se agora de que. Mas quando esses sentidos enfraquecem. E continuaste a amar-me. baixinho. ele deu o primeiro passo. ou rodopiar com ela numa pista de dança. — No fim. num ritmo recordado que um marido partilha somente com a sua mulher. não perdeste. A vida tem um fim — rematou Marguerite. Perdi a única mulher que amei na vida. Ele sorriu e enlaçou-a pela cintura. — Sentia-o. sorrindo. 146 — Como é que estás com a mesma aparência do dia em que casei contigo? — Achei que ias gostar. Fizeste-me amar-te E sempre soubeste . no fundo. não passavam de expressões da solidão. A memória. — Eu sei. pousando a mão no ombro dele — os cartões do bingo. — Um amor perdido pode ter tanta força. eu não estava lá muito bonita. Ela entoou a melodia ao ouvido de Eddie e começaram a mover-se juntos. com cadeiras de armar e um acordeonista sentado a um canto. — Posso perguntar-te uma coisa? — perguntou. Eu estava aqui. Eu perdi tudo. — Estava a guardar este para último lugar — disse ela. Dançamos com ela. — Não. Eddie. — Aqui? — perguntou ele. — Eu nunca quis outra pessoa — disse ele. à música e aos casamentos. ou mexer-lhe nos cabelos. — Podes. ou levar-lhe comida. ignorando todas as coisas terríveis que associava à dança. Não conseguimos ver o sorriso da pessoa amada. Eddie abanou a cabeça. ignorando a perna. Ela baixou os braços.. Ela levantou-se e abriu uma porta. — Ela fez um sinal de assentimento.pessoa que qualquer um de nós conhecia e morreste e perdeste tudo. que até aqui o sentimos. Ele reflectiu por uns instantes. e Eddie pestanejou ao transpô-la atrás dela. — Mas o amor não. como que a dizer que não era verdade. depois voltou para os braços dele. A memória torna-se nossa companheira. Estendeu os braços. Alimenta-nos. Tratava-se de um quarto imerso na penumbra. — Podes alterá-la? — Alterá-la? — Ela pareceu divertida. lentamente. — Continuava apaixonado por ti. aproximou-se dela. E. O amor perdido não deixa de ser amor.

a observar tudo e todos como uma mãe-galinha. pensou para consigo. não deve demorar muito. Tirou o chapéu — estava abafado e ele suava — e observou os números que se iluminavam no painel de latão. ela tinha novamente quarenta e sete anos. para um velhote. Quero ficar aqui. Uma portinhola interior alinhada com uma portinhola exterior. — Papelada financeira? — pediu o homem. Ninguém tivera coragem. onde estavam. Quando ele afastou a cabeça. juntamente com tudo o resto.. o cabelo mais fino. como se ele voltasse no dia seguinte. — O lava-louças estava lavado. Meu Deus. com a teia de finas rugas aos cantos dos olhos. ela estava mais bonita do que nunca. uma coisa com ar sério. Franziu a testa.. O átrio ainda tinha os antigos mosaicos em xadrez preto e branco dos anos sessenta e cheirava a comida — alho e batatas fritas. Enfiado debaixo delas estava uma velha caixa de cabedal. do século passado. — Uau! — exclamou Dominguez. a pele mais flácida por baixo do queixo. — O Eddie tinha poucas coisas — disse Dominguez.. Apenas um laço preto. — Deve ser. — Nem acredito que este elevador ainda funciona — comentou Dominguez. mas ela desaparecera. o quê?. assentiu discretamente com a cabeça. o quão estranho era não o ter no parque. um advogado do ramo imobiliário. O zelador do prédio dera-lhes a chave e um prazo. Nada de importante. Deixaram os pertences dele na oficina. Abriu-a. Queria a casa vazia para um novo inquilino. . e eles viraram-se para o apartamento 6B. e Eddie fechou os olhos e disse pela primeira vez o que sentia desde que voltara a vê-la: — Não quero avançar. — Não sei. aos olhos dele. Quando abriu os olhos. Dominguez debruçou-se sobre a mesa e espreitou pela janela da cozinha. Só conhecia o Eddie do trabalho. Mais um e podia ir para casa jantar. Consultou o relógio. Empurrou os pares de meias para o lado. Ainda nem sequer tinham esvaziado o seu 148 cacifo.. a sua casa nunca estava assim tão arrumada. Pode ver naquela coisa do quarto? — Na cómoda? — Sim. O homem ao seu lado. Nada de apólices de seguros. A cabina subiu e. — Hum — fez o homem. Era o seu terceiro compromisso do dia. a gritar ordens. Via-se o antigo carrossel.E sempre soubeste. Ela sorriu e ele sorriu e. um velho baralho de cartas. O advogado abriu a gaveta de cima da cómoda. através do vidro martelado. 147 SEXTA-FEIRA. limpando a testa com um lenço. viu o átrio desaparecer. os seus braços ainda estavam moldados ao corpo dela. fingindo-se interessado. novamente com estrondo. Nada de extractos bancários. todas cuidadosamente dobradas. As bancas limpas. uma ementa de um restaurante chinês. Até à próxima quarta-feira.. na esperança de encontrar logo a papelada. — Extractos bancários? Jóias? Dominguez imaginou Eddie a usar jóias e quase desatou a rir. É que eu próprio só cá vim uma vez. Apercebeu-se das saudades que tinha do velhote. empilhadas pelos elásticos. 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE Dominguez carregou no botão do elevador e a porta fechou-se com estrondo. — Nesse caso. — Está muito arrumado. Por falar em trabalho. uma dentro da outra. O elevador parou com um salto e a porta abriu-se. assim que abriu a porta e entrou na cozinha.

As suas pernas nuas mostravam os sinais vermelhos da zona que o atacara nas suas derradeiras semanas na Terra. Branco era tudo o que Eddie via. a ele. Inspirou fundo e ouviu uma inspiração ainda mais forte. só havia branco. O silêncio é pior quando sabemos que não vai ser quebrado. Só à chegada de um pequeno mas insistente ruído é que ele se mexeu. Ficou pendurado. e Eddie. — Ei — chamou Dominguez. como um alarme imparável. saíra da sua própria garganta quando tentara falar. A sua mulher fora-se embora. tão silencioso como um forte nevão ao raiar do dia mais sereno do mundo. sem dúvida. As unhas eram pequenas e amareladas. Cerrou os maxilares. Eddie ouvira esse som nos seus pesadelos e estremeceu ao evocar a recordação: a aldeia. Não tinha impulsos. melhor do que acabar como aquele pobre coitado. de lhe acenar ou sequer de contemplar o seu retrato. Sentiu-se como se tivesse caído por umas escadas abaixo e estivesse amachucado. — Retirou um extracto bancário e tomou mentalmente nota do saldo. Podia ter sido um século. um ondular estridente de guinchos e quietude irregulares. e Eddie sabia. como se todos os fluidos tivessem sido arrancados de dentro de si. Expirou e ouviu outra expiração. nem horizonte entre os dois. como se suspenso num cabide. cerrou os punhos. Ouviu novamente o som. meio minuto. embora cada uma tivesse sido intrigante no início. até que Eddie gritou para a brancura asfixiante: — O que foi? O que é que queres? Assim que proferiu estas palavras. com pouco mais para apresentar além de uma cozinha arrumada. só mais um minuto. mais alto agora. Podia ali ter ficado um dia ou um mês. o incêndio. Aos pés de Eddie. seguida pelo eco dessa mesma respiração. com o instinto de defesa de uma vida inteira. é disto que precisa? Apareceu com um maço de envelopes tirados de uma gaveta da cozinha. no vazio. Já estivera em quatro recantos do Céu. Nem terra. Em termos terrenos. Apenas um branco imaculado e silencioso. rodeado de crianças. congratulou-se silenciosamente pela sua própria carteira de acções. Desviou o olhar da sua decadência crescente. como tantas vezes acontecia nesse tipo de visitas.um envelope com uma medalha do exército e uma Polaroid esbatida de um homem junto de um bolo de aniversário. Os seus braços encontravam-se salpicados de manchas de velhice. pressentiu que agora se tratava de algo completamente diferente. aquela cacofonia chiante que. Era. mas continuou. Agora. da cozinha —. mas não havia maneira de a alcançar. 150 O ruído voltou a fazer-se ouvir. . Smitty e aquele barulho. Quando vivo. nem céu. Tudo o que ouvia era a sua própria respiração ofegante. Eddie fechou os olhos com força. 149 A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu Branco. títulos e plano-poupança reforma. O advogado folheou-os e. um troar livre e incessante — o som de um rio a correr — e a brancura reduziu-se a um ponto de luz. alguns de um banco da zona. ao fundo. mas descobriu que a sua mão direita estava a segurar numa bengala. de a chamar. outros da Administração de Veteranos. já encontrara quatro pessoas e. levantou pesadamente as pálpebras. sem levantar os olhos. inerte e sem vida. A sua alma estava vazia. Depois. no final. como se assim pudesse acabar com o barulho. mais cinco segundos. juntou-se uma segunda camada de barulho. o seu corpo estava próximo do fim. Ele queria-a desesperadamente. o som estridente deslocou-se para o fundo e. disse: — Isto chega. que reflectia as ondas cintilantes.

Fazia um bolo. A noite. 151 Não havia adultos. Vê-o flutuar. Estava no cimo de uma das margens. Prende-o a um anzol e deita a linha pelo buraco de pesca. Nos anos que se seguiram ao acidente da mulher. No emprego. onde soprava uma brisa no seu rosto e uma neblina humedeceu a sua pele. Ele hesitou. Uma menina esguia estava em pé. Um sábado. 152 Hoje é o aniversário de Eddie Faz cinquenta e um anos. Comprava sempre um saquinho de doces e atava-o com uma fita. uma segunda-feira. em cima da rocha. E foi então que os olhos de Eddie pousaram num rochedo branco. alguns com baldes nas mãos. engolido pelo mar. a ligar da Florida. pensou. destacada das outras crianças. milhares de crianças a brincar. Joe fala sobre o condomínio de apartamentos. Faz setenta e cinco anos. O telefone toca. Eddie diz «ah sim?» pelo menos cinquenta vezes. um sábado. «Não podes abdicar do teu dia de anos». Prepara um café instantâneo num copo de papel e come dois pedaços de tosta com margarina. Reparou que havia uma certa tranquilidade naquela cena. Nada de convidados. Ela voltou a acenar e fez que sim com a cabeça. alguns a saltar. Olhou para baixo e viu. Eddie baixou a bengala para se apoiar. Escorregou. outros a rebolarem na erva alta. desaparece. Por fim. virada para ele. parado diante da menina como se ali tivesse estado o tempo todo. Fez-lhe sinal com as duas mãozinhas. aparentemente a supervisionarem-se umas às outras. no rio. Espalha os comprimidos em cima da banca. como quem diz: Sim. Chega bem cedo à oficina. e ali estava ele. aquele rangido tamborilante. as pernas a fraquejarem. sentiu um súbito sopro de vento nas costas e foi empurrado para a frente e colocado de pé. Ela sorriu. e a palidez da rendição torna-se a cor dos dias de Eddie. Convidava amigos. o seu joelho ferido a ceder sob o seu peso. Suspira e retira um placard da . Repara que alguém falhou um turno na noite anterior e que os travões da Aventura da Minhoca Contorcionista não foram testados. Vai para a cama cedo. É Joe. ao fundo da colina. agarrado ao taco de basebol. Reparou também noutra coisa. Nem sequer adolescentes. Eddie tenta esquecer a data. enquanto descia a encosta.apareceu o solo. a fonte daqueles gritos assombradores e foi inundado pelo alívio de um homem que descobre. a mergulhar no rio e a gritar de riso inocente. muito direitinho. como um alpinista. prende-se com uma corda a uma curva da montanha-russa. o irmão. Agora que ela partiu. O som. com a pele da cor de madeira escura. crianças pequenas. sozinho lá no alto. antes de tocar o solo. era apenas a cacofonia de vozes infantis. Joe deseja-lhe feliz aniversário. destituída das brigas habituais entre crianças. retorquia ela. tu. Estas eram. Era com isto que eu sonhava?. outros a nadar. Faz sessenta e oito anos. Mas. Coloca os óculos e examina os relatórios da manutenção. Durante todo aquele tempo? Porquê? Observou aqueles seres pequeninos. Nada de bolo. Joe fala sobre o neto. que não há nenhum intruso dentro de casa. aquela gritaria. vê televisão em casa. aquele assobiar. Eddie rejeitava toda e qualquer festa de aniversário. quando nos sentimos uma pessoa vulgar. é uma quarta-feira. Faz sessenta anos. dizendo: «Por que é que me têm de lembrar esse dia?» Era Marguerite quem insistia. A sua bengala tocou em qualquer coisa sólida. todas elas. É o seu primeiro aniversário sem Marguerite. a acenar-lhe. Nunca é difícil agir como uma pessoa vulgar. Abre o saco de papel pardo que contém o almoço e arranca um pedaço de salsicha de uma sanduíche.

Perguntou-se se ela e os outros miúdos teriam escolhido aquele Céu ribeirinho. Eddie ouvira muitas crianças na sua vida. Apoia-se na bengala e olha para a pedra tumular e pensa em tantas coisas. — Tala — disse ela. cabelos da cor de uma ameixa escura. Visita a sepultura da mãe e a sepultura do irmão e detém-se junto da sepultura do pai durante uns instantes apenas. depois um tapete de bambu entrelaçado — "banig" — que se encontrava diante dela. mas podia comê-los na mesma. — Baro — disse ela. . Fez sinal a Eddie para ele se sentar no tapete e ela fez o mesmo. Eddie observou um miúdo a esfregar uma pedra no corpo de outro. — Saya. Senta-se no banco da frente. assim. uma bonita tez de canela. altura que aproveitou para se apresentar. Como habitualmente. os seus sapatos tipo socas — "bakya" —. excitada. pretos como a pele de uma foca. Pensa em caramelos. Apontou para a sua blusa bordada. folgada nos ombros e molhada com a água do rio. Eddie olha em frente. não me importo. guarda a da mulher para último lugar. mas. não detectava a hesitação habitual em relação aos adultos. dos braços. com as mãos sobre o peito.153 parede — ATRACÇÃO TEMPORARIAMENTE ENCERRADA PARA MANUTENÇÃO —. — A maior parte das pessoas prefere ir no banco de trás — diz o motorista. com as pernas cruzadas por baixo das nádegas. — Estão a lavar-se — disse a menina. Pensa que lhe arrancariam os dentes. — Como as nossas inas costumavam fazer. anunciando o seu nome. — Tala — repetiu Eddie. — Baro. 154 A última lição A menina parecia asiática. Ela sorriu e bateu as palmas. Ela tocou no tecido encarnado que lhe envolvia o tronco e as pernas. se isso significasse comê-los na companhia dela. O motorista encolhe os ombros. a nadar e a apanhar seixos do leito do rio. Um táxi pára à entrada do parque de diversões. Caramelos. a seguir as conchas do mar iridiscentes aos seus pés — "capiz" —. O táxi leva-o ao cemitério. Ela sorriu como se tivesse começado um jogo. — Inas? — repetiu Eddie. Continuaram a mergulhar. agora. na voz desta. Faz oitenta e dois anos. há dois anos. um narizito chato. onde verifica ele próprio os painéis dos travões. puxando a bengala para dentro do automóvel. é como se fosse ele a conduzir e não conduz desde que lhe retiraram a carta de condução. depois leva-o para a entrada da Minhoca. — Mães — respondeu ela. — Saya. com um pontinho branco a servir de pupila. Depois. 155 Nenhuma das outras crianças pareceu reparar nele. Não explica que. ao longo das costas. talvez com uns cinco ou seis anos. lábios carnudos que se abriam alegremente sobre os seus dentes afastados e uns olhos extraordinariamente cativantes. — Não. — Importa-se? — pergunta Eddie. até Eddie dar mais um passo em frente. uma terça-feira.

cão. Os seus ombros e pulmões cederam. Queimas-me. Esperar por ela. — Não é seguro. — Sundalong — disse ela. — sussurrou ele. A minha ina diz para esconder. como costumava fazer nos seus tempos. O Capitão. qualquer coisa! A sombra nas chamas! Matara-a com as suas próprias mãos! Com as suas mãos incendiárias! Uma torrente de lágrimas escorreu-lhe por entre os dedos e a sua alma entrou em queda livre. Depois. Eddie baixou a voz. Smitty. a esconder-te.. O seu corpo entrou em convulsões e a sua cabeça abanou. chorou e gemeu. como a de uma criança a recitar uma lição de cor. A sua cabeça começou a latejar. os pesadelos que sofrera. — Estavas nas Filipinas. Seguro. — Queimas-me — respondeu ela... — O que é que disseste? — Queimas-me.. um uivo que revolveu a água do rio e abalou o ar enevoado do Céu. um grande barulho. — . Passaram-lhe imagens pela cabeça. Tirou-os do bolso e retorceu-os um no outro. sorrindo perante o seu próprio nome. Eddie sentiu o maxilar contrair-se. — Estás a ver? É um. Eddie sentiu a palavra como uma faca na boca. — Eddie terminou a última volta.. Vira. Ela pôs-se de joelhos para observar o procedimento. Tala? Ela palpou o cão de borracha. A sua respiração acelerou. Grande incêndio.. — A minha ina diz para esperar dentro da nipa. mas isso fez com que ele se fosse abaixo. A escuridão que o assombrara durante aqueles anos todos estava finalmente a revelar-se. — De que estavas. de facto. — Queimas-me. ele matara-a. Ele baixou os olhos. merecia cada um deles. As mãos dele tremiam. um uivo ergueu-se dentro dele numa voz que nunca ouvira antes. as palavras expelidas numa maré ofegante de confissões: 157 . Fazes-me fogo. Os lança-chamas.. — Porque é que estás aqui no Céu? Ela baixou o cão de borracha. Ela pegou no cão e sorriu — um sorriso que Eddie vira milhares de vezes. Eddie engoliu em seco. — Gostas? — perguntou ele. Ela retribuiu o sorriso. A voz dela era inexpressiva. Fazes-me fogo. — Ela encolheu os ombros estreitos. de carne e osso. aquela paisagem serena fora escolhida para elas. Arames para limpar cachimbos. As suas mãos tremiam-lhe. Morton. O seu rosto desfigurou-se e ele enterrou-o nas mãos. pronunciando as palavras lentamente.. — A nipa.. — Isto? — perguntou ele. um uivo saído das suas entranhas. até o uivo ceder lugar a uma espécie de oração. esta criança.. — Tala. de um lado para o outro. Olhou para os olhos negros e profundos dela e tentou sorrir.. 156 — Sundalong? Ela levantou os olhos. A seguir. queimara-a até à morte.. Soldados. A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. a sombra. naquela cabana. — Soldado.. Eddie sentiu um martelo a bater-lhe por detrás dos olhos. frenética. dadas as suas memórias tão curtas. como se fosse um medicamento de que a criança necessitasse. Explosões.. era real. no parque. — Tala — disse ela.ou se. depois mergulhou-o na água. A ina disse que lá era seguro. esta linda criança.

.. . — Lá. Esticou cinco dedos. Quando ela reabriu os olhos. — Estava triste.. por fim: — O que foi que eu fiz. Depois. Não fui nada. Pegou na pedra. Entrou na água e virou as costas para Eddie. Estava ajoelhado num tapete.. ah sim?. como se o seu peito estivesse vazio. Depois. Fez o mesmo com os lábios 158 descaídos e com as crostas da cabeça. Ela encostou-se a ele. empurrou-os contra o peito de Eddie. Redobrou os seus esforços até a pele carbonizada cair e ver-se a pele saudável.. Tens cinco anos?. quando a sua angústia abrandou.. passou o seixo pelo braço dela.. Esfregou com mais força. até o choro perder força e se reduzir a um estremecimento. Os seus dedos tremiam. Baixara todas as suas defesas. elas soltaram-se da pele. O cabelo aos tufos. Ele retraiu-se. Levantou os olhos e deparou-se com Tala.. O QUE FOI QUE EU FIZ?. Soprava uma brisa quente. retirou o baro bordado pela cabeça. MEU DEUS. — murmurou num fiozinho de voz. — Aqui? Ela apontou para baixo. Uma lágrima rolou pela face de Eddie. diante da menina de cabelos escuros.. ao Capitão. — Não sei como. — Nunca tive filhos. — Lava-me — disse ela. Sentia que não devia estar vivo. — e. de olhos fechados como se estivesse a dormir uma sesta. Eddie pegou nela com ternura e. nos pontos onde o crânio não ficara queimado. estendendo-lhe o seixo. Depois. — Devias estar vivo. lá — disse ela. já não havia lugar para uma conversa adulto-criança.— Matei-te. que brincava com o seu animal feito de arames na margem de um rio. Ela abanou a cabeça a dizer que não... a si próprio. Depois. Chorou e chorou. até os cabelos cor de ameixa despontarem das raízes e o rosto que ele vira inicialmente voltar a aparecer. — Porquê triste? — perguntou ela. — Cinco. lentamente. acima de tudo.. com bolhas. um último soluço vago. Os lábios caídos. Eddie soluçou. os pequeninos ombros. até as cicatrizes começarem a desfazer-se. Depois. — Lava-me — disse ela novamente. Ele passou o seixo com cuidado à volta das pálpebras. O seu torso e os ombros estreitos estavam pretos. os pontinhos brancos cintilaram como faróis. — Sou cinco — segredou ela. Disse o que sempre dissera a Marguerite. balouçou o corpo silenciosamente para trás e para a frente. Não conquistei nada. Perdi-me. como que a explicar os teus cinco. — Porque é que estou triste? — sussurrou ele. A dada altura. Eddie baixou o braço e estremeceu em curtas inspirações ofegantes. a testa e a pele por trás das orelhas. Ela levantou a mão queimada. A tua quinta pessoa. ao Homem Azul e. apoiando a cabeça no peito dele. entre as crostas manchadas. Eddie sentiu baterem-lhe ao de leve no ombro. Tala tirou o cão feito de arames de dentro da água. Apenas um olho aberto. num murmúrio: — Perdoa-me — e a seguir: — PERDOAME. a nuca e finalmente as faces. de braço estendido e um seixo na mão.. Tala observou-a da mesma maneira que uma criança observa um insecto na relva. o seu rosto belíssimo e inocente estava coberto de cicatrizes grotescas.. a Ruby. OH. A pele dela estava horrivelmente queimada. EU MATEI-TE — depois. Eddie arrastou-se para o rio.. porque não aproveitei a minha vida. Quando ela se voltou. carbonizados. virou a pedra ao contrário e esfregou as costas ossudas. falou por entre a distância que existia entre eles..

— As mãos dela não — disse Tala. — Mas eu senti as mãos dela — disse ele. o barulho 160 das crianças desapareceu e ele foi submerso por uma forte mas silenciosa corrente. durante aquele tempo todo. de mãos dadas. — Porquê? Ela inclinou a cabeça para o lado. Senti as mãos dela. — As minhas mãos. com a mão em forma de concha. encostadas umas às outras. Tala sorriu e. Fazes-me bem. Ali estava o final da sua história. Eddie levantou os olhos. — Crianças — disse ela. — Empurrar — disse Tala. Eddie deixou-se cair na corrente de água. por entre tons de azul e marfim e limão e preto. todas as cicatrizes. depois pousou os dedinhos molhados nas mãos adultas de Eddie. mas sentiu o seu corpo ser levado da sua alma. o peito e os ombros. representavam as emoções da sua vida. rodeado de luz brilhante. uma folha na água. Sentiu a sua forma derreter. a carne arrancada dos ossos. lado a lado. Deixou cair a cabeça. — Empurrar? — Empurrar as pernas. Ela levantou os olhos. — Salvas as crianças. que o quer que surgisse depois das cinco pessoas que encontramos no Céu estava prestes a suceder. e ela puxou-o suavemente por entre sombras e luzes. — A menina do parque? Sabes o que lhe aconteceu? Tala olhou para as pontas dos dedos. Fez que sim com a cabeça. e pressentiu que não lhe restava muito tempo. de barrete. — A reparar máquinas? Era essa a minha vida? — Ele respirou longamente. Eddie fechou os olhos. de calções. Não podia tê-la empurrado. As pedras da sua vida estavam agora todas à sua volta. Ela conduziu-o por entre as ondas de um vasto mar cinzento e ele emergiu. Empurrar. Pronto. engolindo a cintura de Eddie. enchendo a marginal e as atracções do parque e as . pais. em negação. O carrinho caiu. homens e mulheres. As suas mãos ainda estavam entrelaçadas nas de Tala. e Eddie percebeu que todas aquelas cores. — Devias estar vivo lá — repetiu ela e. — Salvei-a? Consegui puxá-la? Tala abanou a cabeça. 159 Ela sacudiu o cão contra a camisa dele. o rio subiu rapidamente. todas as más recordações. dissolver-se. E dito isto. tocou na etiqueta da camisa dele com uma gargalhada e acrescentou duas palavras: — Eddie Ma-nu-ten-ção. — Puxar não. e com o corpo desapareceram toda a dor e cansaço que ele acumulara dentro de si. por baixo da superfície. Puxar não.— Onde? Em Ruby Pier? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. crianças que ainda não tinham nascido. acima de uma cena quase inimaginável: Havia um parque cheio de milhares de pessoas. Tu salvas a menina. mães e crianças — tantas crianças —. a seguir. como se a resposta fosse óbvia. tirou água do rio. Eu trazer-te para o Céu. Antes que ele pudesse voltar a inspirar. Ele soube de imediato que já ali estivera antes. — Tala? — sussurrou. Agora não era nada. — É a única coisa de que me lembro. todas as feridas. crianças do passado e do presente. Eddie estremeceu. Eu salvo-te.

Estavam ali. depois outras histórias sobre outras mortes ocuparam o seu lugar. A atracção chamada Queda Livre foi encerrada durante o resto da temporada. a casa onde crescera. Nicky. Eddie ouvia as suas vozes. juntamente com recordações de Ruby Pier. e sentiu-se inundado por uma paz que nunca antes sentira. A casa de Eddie. Voltou muitas vezes a Ruby Pier. fez uma nova chave quando chegou a casa e vendeu o carro quatro meses depois. e Dana Wyatt. Ele aproximou-se dela e viu-a sorrir e as vozes fundiram-se numa só palavra de Deus: Lar. as multidões voltaram ao parque de diversões à beira do vasto oceano cinzento — um número de pessoas não 163 tão grande como nos parques temáticos. mas no ano seguinte reabriu com um novo nome: o Precipício do Desafio. Os proprietários ficaram satisfeitos. e que o mundo está cheio de histórias. à espera num lugar chamado a Concha da Banda do Estrelato. as máquinas que reparara. com um barrete de linho e um nariz adunco. E nessa fila encontra-se agora um velhote de bigodes. acima da marginal. mas as histórias são todas uma só. 161 Epílogo O parque de diversões de Ruby Pier reabriu três dias depois do acidente. Dominguez. graças às pequenas coisas mundanas que Eddie fizera na sua vida. foi alugada a um novo inquilino. que aceitara ficar com o cargo de Eddie. em cinco recordações escolhidas. Marguerite. à espera de braços abertos. ou viriam a estar ali. onde se vangloriava perante os amigos de que a sua bisavó era a mulher que dera o nome ao parque de diversões. das Diversões da América. para partilhar a sua parte do segredo do Céu: que cada pessoa afecta outra e essa outra afecta outra ainda. E embora os seus lábios não se mexessem. incluindo fotografias da antiga entrada original. estava uma mulher de vestido amarelo — a sua mulher. que uma menina chamada Amy ou Annie crescesse e amasse e envelhecesse e morresse. onde num carrinho. no colo umas das outras. o espírito alegra-se e a costa cativa com a sua cantilena de ondas e as pessoas reúnem-se à volta dos carrosséis e das rodas-gigantes e das bebidas geladas e do algodão-doce. E quando acabaram as aulas e os dias se tornaram mais longos. mas suficientemente grande. A história da morte de Eddie saiu nos jornais durante uma semana. mais vozes do que jamais imaginara. o jovem cuja chave cortara o cabo. Formavam-se filas em Ruby Pier — tal como se formava uma fila noutro lugar: cinco pessoas à espera. Já não segurava na mão de Tala. sentadas nos ombros umas das outras. tapando a vista do velho carrossel. guardou os poucos pertences de Eddie numa arca na oficina. em direcção ao pico da grande roda-gigante.plataformas de madeira. directora . que colocou vidro fosco na janela da cozinha. flutuava acima da areia. Com a chegada do Verão. os acidentes que evitara. e finalmente obtivesse respostas para as suas perguntas: porque é que viveu e qual o objectivo da sua vida. as voltas discretas que efectuara todos os dias. a balouçar suavemente. Os adolescentes viam-na como um símbolo de coragem e eram muitos os clientes que a procuravam. As estações sucederam-se. 164 Agradecimentos O autor gostaria de agradecer a Vinnie Curci. acima das tendas e das espirais da rua principal.

Leslie Wells. e bem. o verdadeiro Eddie. que simboliza o ideal da relação agente-autor. pela informação sobre feridas de guerra. que me contou as suas histórias muito antes de eu contar a minha.de operações do Pacific Park. a Rhoda. David Collon. E a Kerri Alexander. por acreditarem em mim. do Henry Ford Hospital. e ao meu tio. A sua ajuda na fase de pesquisa deste livro foi preciosa e o seu orgulho em proteger os clientes dos parques de diversões é digno de elogio. Katie Long. a David Black. Michael Burkin e Phil Rose. com quem partilhei a minha primeira roda-gigante. a Janine. que ouviu pacientemente e muitas vezes a leitura em voz alta deste livro. que sabe lidar. Jane Comins. com tudo. Cara e Peter. no Cais de Santa Monica. Um especial agradecimento também ao Dr. Os meus mais sinceros agradecimentos a Bob Miller. Will Schwalbe. Ellen Archer. Ira. FIM .

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