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OS DESABAFOS DE MARIA DA LUZ

Paulo Cardoso e Maria da Luz Louro (Novembro 2010 – Maio 2011)
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Índice
26 – Crónica / Mulheres de luta (23-11-2010) ............................................................................. 3 27 – Crónica / A Mulher no Trabalho (30-11-2010) .................................................................... 6 28 – Crónica / Escravos da Crise (07-12-2010) ........................................................................... 9 29 – Crónica – Natal da Crise (14-12-2010) .............................................................................. 12 30 – Crónica / WikiLeaks (21-12-2010) ...................................................................................... 14 31 – Crónica / Mensagens de Natal (28-12-2010) ...................................................................... 17 32 – Crónica / GAVE versus PISA (11-01-2011) ........................................................................ 20 33 – Crónica / Portugal ou Cavaquistão (18-01-2011) .............................................................. 22 34 – Crónica / Reflectir o futuro (25-01-2011) ........................................................................... 25 35 – Crónica / Colapso Social (01-02-2011) .............................................................................. 27 36 – Crónica / FMI Vampirismo Político Económico (08-02-2011) .......................................... 30 37 – Crónica – Turismo (15-02-2011) ........................................................................................ 32 38 – Crónica – Interioridade (22-02-2011) ................................................................................ 35 39 – Crónica – O preço da crise (01-03-2011) ........................................................................... 38 40 – Crónica – Mulheres e a crise (08-03-2011) ........................................................................ 41 41 – Crónica – Habemos Presidente (15-03-2011) ..................................................................... 44 42 – Crónica – Turismo versus Energia Nuclear (22-03-2011) .................................................. 47 43 – Crónica – O Tango da tanga (05-04-2011)........................................................................... 50 44 – Crónica – A Banca abriu a porta ao FMI (12-04-2011) ........................................................ 53 45 – Crónica – À rasca ou desastre Social (19-04-2011) ............................................................. 56 46 – Crónica – 25 de Abril (26-04-2011) ..................................................................................... 60 47 – Crónica – 1º Maio 2011 (03-05-2011) ................................................................................. 63 48 – Crónica – troikados (10-05-2011) ........................................................................................ 66 49 – Crónica – A dívida portuguesa (17-05-2011)....................................................................... 69

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Intróito: O convite da Rádio Portalegre repetiu-se e a vida do Rui sofrera uma alteração profunda. A estudar em Castelo Branco ficou limitado a ter de gravar nos fins-de-semana, numa verdadeira corrida contra o tempo. Houve necessidade de efectuar a sua substituição e foi consensual por toda a equipa, a Milu passar a fazer as gravações. Foi uma passagem de testemunho com sucesso, alternando a juventude com uma presença mais feminista nas crónicas. Em meu nome e da Milu, ficam aqui os agradecimentos a essa equipa: Adelina Roque Elsa São João Nuno Cardoso (também autor da capa desta colectânea)

Da mesma forma como dedicamos a primeira colectânea a A. Cardoso, desta vez e porque toda a equipa reconhece que não fora os problemas de saúde poderíamos contar ainda com outra valiosa ajuda. A ela, dedicamos esta segunda colectânea de crónicas. Força, Zoca! Paulo Cardoso

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26 – Crónica / Mulheres de luta (23-11-2010) Caros ouvintes, chamo-me Maria da Luz Louro e tal como o Rui Cardoso anunciou na semana passada, passarei a ser a vossa companhia dos desabafos de terça-feira. Daqui envio um grande beijinho ao Rui e saúdo o vasto auditório. Nesta crónica quero chamar a atenção para a luta das mulheres, num mundo que as classificou de “sexo fraco”. No contexto actual, são as mães, as mulheres, as jovens, que na sua maioria ficam mais prejudicadas e castigadas com a chamada crise. É no emprego, na gestão da casa e na sua maior vulnerabilidade no aumento dos problemas sociais. Muitas mulheres no mundo lutam por causas humanitárias e são grandes exemplos para nós. Aminetu Haidar, é uma activista, que luta pelos Direitos do Homem que se tem destacado na combate pela independência do Sahara Ocidental. Esta mulher ficou mais conhecida quando, há cerca de um ano, fez uma greve de fome de 32 dias no aeroporto de Lanzarote (nas Ilhas Canárias). Ela acusa a União Europeia e a ONU de serem cúmplices do massacre do povo saharaui. Foi presa e torturada pelas tropas marroquinas, desafiou o Governo português a tomar uma atitude relativamente à questão do Sahara Ocidental, que fosse semelhante à pedida pela comunidade internacional, aquando do massacre de Santa Cruz, em Timor-Leste. Por isso, é preciso condenar a ausência de direitos básicos por parte do governo de Marrocos que abate, indiscriminadamente, crianças, mulheres e homens saharauis,
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independentemente, da sua idade. Faz detenções na Prisão Negra de El Aiun, em condições cruéis e existem relatos dantescos das atrocidades das tropas Marroquinas a par da expulsão de jornalistas que são impedidos de testemunhar estes massacres. Igualmente, uma deputada alemã do Die Linke foi deportada por tentar observar o que se passa em El Aiun. Eu, sinto vergonha do nosso governo por se calar perante tudo isto, enquanto, recebe os senhores das guerras absurdas. A Cimeira da Nato, também, representa a opressão sobre as mulheres do Afeganistão, onde Portugal vai reforçar a sua presença, aumentando a despesa pública. Mariam Rawi, uma activista feminista afegã a dar aulas no Paquistão defende a saída da Nato do Afeganistão, porque a vida deles só piorou e a Nato está a proteger um governo corrupto. Com a Nato, a vida dos afegãos piorou ainda mais. Mariam, denunciou violações, raptos e ataques nas escolas a professoras e estudantes e Portugal está envolvido nesta guerra. Outra mulher, um exemplo de luta pela democracia, Aung San Suu Kyi, a birmanesa de 65 anos, Nobel da Paz em 1991, deixou de estar em prisão domiciliária. Esta activista destaca-se pela sua luta pela democracia no seu próprio pais. Mulheres em todo o mundo, sem esquecer a mulher do Nobel da Paz Chinês 2010 que ainda continua impedida de falar com o marido por estar em prisão domiciliária, dão exemplos de coragem e é por essa coragem de lutar, que eu apelo a todas as mulheres que sentem o aperto da vida de várias formas, que lutem. Tenho orgulho de pertencer à UMAR, uma associação feminista já com trinta anos que luta pela
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dignidade e a vida das mulheres. A violência doméstica já matou mais este ano, do que no total de 2009. Trinta e nove mulheres já perderam a vida, é o segundo crime mais reportado em Portugal. Queremos programas especiais de apoio e acompanhamento das mulheres vítimas de violência doméstica, para além de uma grande campanha nacional para mobilizar a população neste combate. É importante, a criação de juízos especializados para os crimes de violência doméstica. A impunidade de que gozam os agressores não contribui para o combate deste crime, pelo contrário, alimenta-o. Exemplo disso, é o caso de não aplicação cabal das pulseiras electrónicas existentes. Das cinquenta disponíveis, apenas nove pulseiras foram aplicadas como medida de coacção. O recente estatuto da vítima foi já uma vitória, há muito exigida pela UMAR, agora é preciso garantir a sua aplicação integral. As dificuldades das políticas desastrosas da União Europeia apoiadas por Sócrates, Passos Coelho e Cavaco Silva, vão originar problemas sociais para os quais as mulheres vão ser confrontadas e a minha mensagem é: Coragem e lutem. Convido os ouvintes a aderirem à minha página de Facebook e colocarem as vossas questões e opiniões em desabafosrui@sapo.pt.

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27 – Crónica / A Mulher no Trabalho (30-11-2010)

Caros ouvintes, felizmente, já lá vai o tempo em que as mulheres apenas cuidavam da casa, dos filhos e do marido. Depois e muito devido à evolução da sociedade e da economia, a mulher passou a integrar o mundo do trabalho mas sempre numa posição descriminada. Nos salários, nas promoções e até no tipo de serviço, muitas mulheres viram os homens serem beneficiados. Com Bagão Félix e Vieira da Silva ao destruírem o princípio do conceito de tratamento favorável ao trabalhador, a mulher foi quem ficou numa posição mais fragilizada, assim como a família. A prova de tanta hipocrisia está no facto de estes governantes se vangloriarem de terem dado mais condições nas licenças de maternidade e depois o resultado ser a vergonha de muitas mulheres que engravidavam serem despedidas porque deixaram de ter leis laborais que, anteriormente, as protegiam. Os governos PSD/CDS e PS têm destruído a organização das famílias ao flexibilizarem os horários de trabalho e ao promoverem a precariedade. Sendo que, são as mulheres e os jovens quem mais sente estas medidas perversas. Os jovens portugueses são dos mais penalizados pela precariedade ao nível da UE. 53,5% dos trabalhadores com idade entre os 15 e os 24 anos têm “contratos temporários”. E agora, com o pretexto da crise e a ameaça do FMI, vamos assistir, em geral a mais flexibilização das leis laborais e em particular ao despedimento sem indemnizações.

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O Assédio sexual no trabalho relacionado com a presença feminina, é um problema que afecta milhões de mulheres que, enquanto vítimas, enfrentam enormes dificuldades para se livrarem dos seus predadores, tendo que optar, muitas vezes, por sofrer em silêncio. O problema do assédio sexual não tem, em Portugal, nem visibilidade, nem legislação adequada, e, consequentemente, não existem as respostas sociais necessárias às vítimas. Neste campo é que eu gostava de ver medidas sérias, mas estas não interessam aos mercados financeiros, nome pomposo que deram aos terroristas da economia. Tudo isto vai arrastar-nos não só para uma recessão económica como social. A pobreza aumenta, a fome já anda nas ruas, enquanto os mercados financeiros que ainda estão nervosos, engordam, aumentando as grandes fortunas. O número de insolvências aqui no distrito é assustador, as trabalhadoras da INVICAR, que recentemente foram para o desemprego são um exemplo das vítimas que sentiram na pele as políticas europeias que possibilitaram a destruição da nossa indústria têxtil, desde a produção de fibras até à confecção de vestuário. A par disto, reflexo dos tempos, o número de divórcios é igualmente terrível. E aqui, numa outra realidade, encontram-se as famílias monoparentais, cujas mulheres acabam por ser, quem sente mais o efeito perverso da crise. As leis e o apoio social são a demagogia barata do bloco central apoiado por Cavaco Silva. Neste sentido, a Senhora Cavaco Silva foi bastante infeliz ao dizer que não vai oferecer presente de natal a Cavaco. Ó, Minha Senhora não insulte a nossa inteligência! A
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hipocrisia tem limites e contra a hipocrisia nas medidas de austeridade, Portugal assistiu no passado dia 24 de Novembro, à maior greve geral das últimas décadas. Para quem queira colocar questões, ou sugestões às minhas crónicas. O endereço é: desabafosrui@sapo.pt e não se esqueçam de ver a minha página de Facebook. E, NÃO SE ESQUEÇAM, DESABAFEM, TAMBÉM, QUE FAZ BEM…

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28 – Crónica / Escravos da Crise (07-12-2010)

Caros ouvintes, há uns anos atrás a Irlanda era uma referência, um exemplo de crescimento económico e era, também, elogiada pela sua boa aplicação de fundos estruturais. O que se passou então? Muito simples seguiu as determinações da Comissão Europeia e encetaram um plano de emergência para salvar bancos falidos. Criaram um défice enorme e agora têm de pagar bem caro os resultados. Mas quem tem de pagar na realidade? Os contribuintes, claro. Aqueles a quem chamam de mercados financeiros, que andam sempre nervosos porque estão sempre ávidos de mais, mais e mais, desculpem mas não lhes posso chamar mercados financeiros, este termo, ninguém percebe quem é o quê. O nome mais correcto é: Terroristas económicos e têm um propósito, apoiar os grandes grupos financeiros, sujeitando os estados à sua dependência hipotecando os serviços públicos e mais… Este, vai ser o segundo ataque: Baixar ainda mais os salários e retirar ainda mais as condições de vida das pessoas flexibilizando ainda mais horários de trabalho e claro a velha aspiração da burguesia exploradora, despedir sem pedir licença e sem dar indemnização. Bruxelas é a mola do neoliberalismo de um parlamento virado à direita. Vale tudo para impor o capitalismo selvagem. Alguns dirão: Não vai ser bem assim, brevemente talvez não, Sócrates está fragilizado, o governo a descambar e afinal, até o inefável Luís Amado também mentiu sobre os aviões da CIA. Mas
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podemos vir a ter um cenário bem credível que aceita de bom grado este grande ataque às pessoas que trabalham para ganhar a vida. Com Passos Coelho e Cavaco Silva à frente do país é certo que vamos ter os escravos da crise, o estado com serviços públicos ameaçados e os trabalhadores a serem tratados como escravos. Os trabalhadores precários, os falsos recibos verdes e os jovens em geral são já vítimas de um código do trabalho que abre as portas a um novo tipo de escravatura. Com o aumento do desemprego, existe mais mão-de-obra disponível e o efeito é directo no sentido da desvalorização do preço da força de trabalho. Por isso, nas grandes superfícies existem os mais variados tipos de contrato e horários, sendo que, os limites de horas não são respeitados. É este cenário ou ainda pior que esperam as crianças portuguesas, no país com a maior taxa de pobreza infantil da OCDE, segundo dados da UNICEF. Para terminar cito, Michel Husson, economista e investigador francês: “uma tal regressão social, de uma violência inédita, desencadeia um processo de destruição das sociedades, e conduz ao desmembramento da união europeia. Esta arrisca-se a entrar novamente em recessão, a menos que as resistências sociais forcem os seus governos a recuar.”

Já em plena época natalícia relembro-vos que o Natal tem a ver com nascimento, da fé da esperança do amor, da fraternidade, queria deixar-vos uma mensagem simbólica …está na hora de nós
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Portalegrenses nos deixarmos inundar pelo espírito do Natal ; haja paz.

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29 – Crónica – Natal da Crise (14-12-2010)

Caros ouvintes, ninguém ignoram que este Natal está ensombrado pelo espírito da crise. Os responsáveis da crise vão passar este Natal com mensagens hipócritas e muito longe das dificuldades da grande maioria. Entretanto, aumenta o número de cidadãos que cada vez mais, têm dificuldades em sobreviver. Os apoios de instituições como a Cáritas são muito importantes, mas começam a ser insuficientes. Os apelos à solidariedade também se justificam, mas recorrer às sobras dos restaurantes, revela bem a degradação a que chegámos. Cavaco Silva apoia esta medida, enfim, apoiou muitas outras que nos conduziram a esta situação. É a hipocrisia no seu auge. Os Portugueses têm de viver pelos seus próprios meios e não pela mendicidade. Para isso são necessárias políticas sérias e corajosas. Bater nos fracos para proteger os fortes é pura cobardia. E é desta falta de coragem do bloco central, de Cavaco Silva e de Bruxelas que vos falo. Esta cobardia perante os mercados financeiros e os grandes grupos económicos está a criar um pântano social. Bruxelas está a alimentar uma ditadura bicéfala FrancoAlemã à qual Sócrates e Passos Coelhos se curvaram de mão estendida fazendo a vontade aos agiotas dos mercados financeiros. A seguir vem a barbárie contra os direitos laborais resultado do insaciável apetite dos grandes grupos económicos. Depois de dizer que não se mexe nas leis do trabalho, o governo marca encontros com os parceiros sociais. Tudo isto, devido a uma política errada de cortes salariais, que a ver vamos, se o tribunal constitucional não vai
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reprovar. Economistas idóneos, a nível europeu e até mundial reprovam este tipo de políticas. Só o bloco central e Cavaco Silva é que estão de acordo. Digo isto, aqui em Portugal, porque a nível internacional o cenário é bem diferente. Fala-se muito de um possível acordo de Passos Coelho com Paulo Portas, mas garantido, está, o acordo de Passos Coelho com o FMI. Certo é, que não vamos ter mais versões do PEC, mas com o FMI, vamos ter o MAXIPEC. Agora o que importa é as pessoas poderem celebrar a sua festa cristã, tal como eu vou fazer. Mas não posso, nem vou ignorar o que se passa à minha volta. O drama do desemprego, da pobreza, dos sem-abrigo, dos comerciantes e empresários asfixiados e em especial da fome que estão a ensombrar muitos e muitas que como eu se preocupam com este flagelo. Porque por cada mesa em que vai estar um peru assado, há uma outra que vai ter o que lhe for dado. A caridade é importante, mas ela não pode ser o remendo de uma crise em que os seus responsáveis passam impunes, muitos ainda lucram com ela e os que não têm culpa ainda a têm de pagar. DESEJO BOAS FESTAS A TODO O AUDITÓRIO DA RÁDIO PORTALEGRE E AOS PROFISSIONAIS QUE AQUI TRABALHAM TAMBÉM.

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30 – Crónica / WikiLeaks (21-12-2010) Caros ouvintes, se a crise foi a tónica dominante durante o ano todo, é inegável que o ano acaba sob o cenário das “ameaças” das revelações da WikiLeaks. Até há pouco tempo, poucas pessoas conheciam Julian Assange, fundador do site WikiLeaks. Este site mostrou que os Senhores do Mundo podem ser desafiados, apontados pelas suas mentiras e jogos de interesses. Para os EUA foi bom enquanto o “furacão” WikiLeaks afrontou outros, todavia quando lhe “bateu à porta” a sua reacção foi impor o seu modelo arrogante e presunçoso, neutralizando o site e perseguindo o seu autor. Perante a ofensiva americana à liberdade de expressão, vários foram os sites que serviram de espelho ao WikiLeaks, permitindo, desta feita, a sua sobrevivência. Recentemente, este, voltou a estar disponível nos EUA, mas remetido para um site espelho, alojado num servidor russo. Agora, Julian Assange é conhecido como o justiceiro da era digital. De herói a terrorista fundou o site em 2006 com cerca de dez pessoas, vindas do ramo dos direitos humanos, da imprensa e da alta tecnologia. Durante uma das suas raras aparições públicas, Assange explicou à Agência France Press. - “Queremos três coisas: libertar a imprensa, revelar os abusos e salvaguardar documentos históricos". Para o conhecido cineasta Michael Moore que ajudou a pagar a fiança, Assange, "é o terror dos mentirosos e dos senhores da guerra". Dos 250 mil telegramas na posse da WikiLeaks, menos de 1500 foram publicados, mas já ficámos a saber muitas coisas importantes. Muitos já devem fazer contas à vida…
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Em Portugal, descobrimos que afinal foi verdade que permitimos aos EUA usar a base das Lajes nos Açores para repatriar detidos de Guantánamo, "uma decisão difícil que nunca se tornou pública", segundo o El País. Sabemos também, que temos banqueiros que se oferecem à embaixada americana para ser espiões. Ficámos ainda a saber através do Le Monde, que existiram procedimentos irregulares no processo de venda da Hidroeléctrica de Cahora Bassa, envolvendo a Caixa Geral de Depósitos através do BCI Fomento. Bastante incómodo foi saber-se, que foi feita espionagem sobre o próprio secretário-geral da ONU, como se de um terrorista se tratasse. Mas o facto mais relevante é que estas notícias estão a incomodar muita gente. Assiste-se às tentativas dos comentadores ao serviço do sistema, para denegrir a WikiLeaks com argumentos totalmente histéricos e absurdos. Muitos dos telegramas revelados (cuja veracidade ninguém pôs em causa), atingem a diplomacia e os serviços secretos dos estados. Por isso, Cavaco Silva estranhou a permeabilidade dos serviços secretos e da diplomacia norteamericana, mas só por distracção e dissimulação. Até no que diz respeito às mentiras sobre o Iraque, George Bush afirmou ter sido enganado pelos serviços secretos em relação às armas de destruição maciça. Não estamos perante um Big Brother ou a Casa dos Segredos, o assunto é sério, estamos a falar de fuga de informação que pode mudar o mundo. O poder continua a ser manipulado, e é protegido e impingido pelos interesses dos poderosos que dele querem usar e abusar. Quanto à acusação de intromissão, a moral não existe,
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quando diplomatas norte-americanos recebem ordens para espiar os seus congéneres, até ao ponto de tentar extrair dados de cartões de crédito. Até quando seria legítimo esconder informação sobre ilegalidades e abusos do interesse público? Nunca poderemos esquecer que a transparência é o garante da democracia. Uma certeza tenho, a WikiLeaks ajuda a provar que mesmo uma boa mentira, pode ser sempre descoberta. E JÁ COM O NATAL À PORTA, RENOVO OS MEUS VOTOS DE BOAS FESTAS A TODO O AUDITÓRIO DA RÁDIO PORTALEGRE E A TODOS OS PROFISSIONAIS QUE AQUI TRABALHAM. PEGANDO NAS TÃO CÉLEBRES PALAVRAS DO SAUDOSO

FERNANDO PESSA “ FAÇAM FAVOR DE SER FELIZES”.

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31 – Crónica / Mensagens de Natal (28-12-2010)

Caros ouvintes, falando de um Portugal diferente, Sócrates na sua mensagem de Natal, tentou iludir mais uma vez os portugueses com um optimismo bacoco, omitindo que o caminho que escolheu é o caminho da recessão e o aumento do desemprego. O caminho indicado por Bruxelas e o FMI são o pitéu dos insaciáveis mercados financeiros. Como prenda de Natal, sugiro a leitura de Paul Krugman ou Joseph Stiglitz, ambos prémios Nobel da Economia. Estes economistas brilhantes mostram bem, que há outros caminhos. Para Joseph Stiglitz, “é relativamente fácil formular um pacote de redução do défice que aumente a eficiência, fomente o crescimento e reduza as desigualdades. Para tal são necessários cinco ingredientes: aposta em investimentos públicos de elevada rentabilidade, redução das despesas militares, redução dos apoios às grandes empresas, criação de um sistema fiscal mais justo e mais eficiente…” A razão porque este economista não é ouvido, assenta no facto de que este caminho não beneficia os que estão no topo, assim como, as grandes empresas e outros grupos de interesse político-económico. Sócrates e Passos Coelho fizeram as suas escolhas, no lugar de tomarem as medidas que estes economistas apontam, preferem continuar a engrandecer os mesmos de sempre. Por isso, estes só podem ser os caminhos da desgraça, para que os “abutres” possam rapinar os restos. A sobrevivência do modelo social de que Sócrates fala é um conto de fadas, ao passo que onde a realidade é muitíssimo dura.
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Já o Papa Bento XVI, na sua mensagem de Natal da bênção Urbi et Orbi, apelou à paz no Médio Oriente, no que foi um dos seus pontos principais, encorajando todos na luta pacífica pela justiça. Barak Obama, Durão Barroso, José Sócrates, Cavaco Silva e todos os outros comparsas que promoveram a cimeira da Nato em Portugal, deviam levar a sério estas palavras de incentivo à paz. Não é com o habitual gesto de clemência natalício ao conceder 6 indultos, que Cavaco Silva se salva de ser um chefe de estado que apoia a barbárie promovida pela NATO. Agora, peço-vos para os próximos tempos, que são difíceis: Nunca abandonem os que estão ao vosso lado e combatam os oportunistas, os gananciosos e os agiotas, entre outros. Pensem nas vítimas destas políticas ao serviço dos grandes interesses económicos, numa versão de terrorismo capitalista. A pobreza, a fome, estão a aumentar, uma em cada quatro crianças portuguesas, passam grandes necessidades e com todas estas crises, nem nos lembramos da mãe natureza que é também ela uma vítima, num planeta onde vale tudo desde que seja para engordar ainda mais os mercados financeiros e os grandes grupos económicos. POR SER A ÚLTIMA CRÓNICA DE ESTE ANO, QUERO AQUI DEIXAR OS MEUS MAIS SINCEROS VOTOS DE UM FELIZ ANO NOVO A TODOS QUANTOS ME OUVEM. Para quem queira colocar questões, ou sugestões às minhas crónicas, desabafosrui@sapo.pt e na minha página de Facebook.

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E AGORA, NÃO SE ESQUEÇAM, DESABAFEM, TAMBÉM, QUE FAZ BEM…

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32 – Crónica / GAVE versus PISA (11-01-2011)

Nesta altura depois do balanço de 2010, todos temos a noção que desejámos um bom ano que, a final, se avista bem diferente. O ano de 2010, marcado pela crise obrigou as pessoas a suportarem a crise dos bancos e a sustentar as grandes fortunas. É frustrante saber que esse esforço foi inglório e fechou-se o ano de 2010 com as agências a dar o xeque-mate a Portugal. A agência Fitch baixou em um nível o "rating" de Portugal, de AA- para A+. Esta é a maior derrota do bloco central e de Cavaco Silva que fizeram crer às pessoas que os PEC’s eram obrigatórios neste formato. E agora, quando vamos alimentar, ainda mais, a especulação financeira, a degradação social vai ser o maior desastre e Portugal vai recuar décadas. O FMI está a bater à porta, com um mandato da Sr.ª Merkel e a direita comandada por Cavaco Silva prepara-se para dizer - assaltem à vontade e vem aí o Maxi-PEC. Mas hoje quero falar-vos do recente relatório do Ministério da Educação que põe em causa os dados relevados há algumas semanas sobre o ensino em Portugal. Na altura, um estudo (PISA) da OCDE colocava o país entre os melhores, revelando aumento da taxa de leitura, queda nas reprovações e subida das notas. No entanto, o estudo hoje tornado público refere que os alunos do secundário são incapazes de estruturar um texto encadeado e têm dificuldade em explicar um raciocínio com lógica. É um estudo feito em 1700 escolas de todo o país, que revela que os alunos do 8.º ao 12.º ano "não conseguem estruturar um texto encadeado, explicar
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um raciocínio com lógica, utilizar linguagem rigorosa ou articular conceitos", como se pode ler na primeira página do jornal "i". Neste relatório de 2010, Hélder Diniz de Sousa Coordenador do GAVE, diz que pais, alunos e escolas devem preocupar-se mais com o que os estudantes aprendem e menos com os resultados alcançados. Adianta ainda que foram detectadas fragilidades nos alunos do básico e secundário, sobretudo, quando “são necessários vários passos para resolver um problema ou se houver combinação de conceitos diferente”. Este é o resultado de trabalharmos para as estatísticas… É também a consequência de uma sociedade mal estruturada, com horários de trabalho desregulados e um índice elevado de pobreza infantil. A educação em casa não pode ser substituída pela escola, os professores também não podem ser transformados em bode expiatório de décadas de experiências e de medidas avulsas. É necessária uma revolução de mentalidades e para isso temos de romper com os sistemas tradicionais e com as políticas económicas e educativas que têm governado este país. É urgente mudar o paradigma da educação sob o risco de sentir na prática a frase de Che Guevara que lembrava - “um povo que não sabe ler, é um povo fácil de dominar”.

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33 – Crónica / Portugal ou Cavaquistão (18-01-2011)

Caros ouvintes, o arranque do ano de 2011 fica marcado pelas eleições presidenciais. Sem querer retirar importância a todas as candidaturas, a verdade é que há dois candidatos com mais probabilidades de vencerem esta eleição: Manuel Alegre e Cavaco Silva. Quanto ao actual presidente e recandidato, enquanto primeiro-ministro, foi o responsável pelo monstro da dívida pública, que não soube aproveitar bem os fundos estruturais, como confirmam relatórios da OCDE. A sua governação ficou marcada pelas cargas policiais, pela fome na região de Setúbal… a escolha do betão em troca da queda do tecido produtivo e o afundamento da agricultura. A sua aposta, foi nas universidades privadas e nas concessões tendenciosas aos privados. Como é possível reeleger um político assim? A sua incompetência foi premiada com a eleição promovida por comentadores suspeitos como Marcelo Rebelo de Sousa. Cavaco Silva consegue passar impune sem assumir as suas responsabilidades. A maior prova disto é o facto de estar ligado a um negócio pouco transparente, de compra e venda de acções do BPN por favorecimento. Este buraco financeiro foi uma coutada dos seus ex-ministros, envolvidos na maior fraude financeira em Portugal. Assim se percebe a rapidez de apenas meia hora para assinar um aval à banca, de 25 mil milhões de euros, estas são as suas preocupações. Cavaco Silva e os seus amigos têm, também, empreendimentos de contornos estranhos sendo que, além de não
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saber da escritura da casa, Cavaco só vai comentar mais este negócio depois das eleições. Talvez por isso, este não queira participar na grande entrevista da Antena 1. À semelhança do sucedido em 2006, Cavaco, apesar de eleito não se livrou da crítica de Maria Flor Pedroso que, com razão, questionou a sua atitude cobarde. Os portugueses têm o direito de saber que tipo de pessoa vão eleger para presidente da República e esse facto não pode ficar escondido atrás do habitual «não comento». Este candidato foi o Ministro das Finanças, Primeiro-Ministro e Presidente da República que nunca se preocupou com as machadadas no Serviço Nacional de Saúde, nos transportes públicos, na escola pública, nas bolsas de estudo dos estudantes… Cavaco só se interessa pelas elites conservadoras, já que é o porta-estandarte da burguesia financeira. Enquanto mulher, também, não posso aceitar a forma como Cavaco tem rebaixado a esposa aludindo à sua pensão de oitocentos Euros. Não é, igualmente, de estranhar o seu silêncio em relação à violência doméstica; à sua posição em relação à interrupção voluntária da gravidez, já que é contra, bem como à lei da paridade. Ao contrário, Manuel Alegre dá a cara e quando é preciso, critica o próprio partido mostrando a sua isenção. Este é um candidato para quem as pessoas não são, apenas, números. É apoiado por independentes, pelo Bloco de Esquerda, pelo PS e agora também por Garcia Pereira do MRPP e compromete-se, caso seja eleito, a “usar todos os poderes presidenciais para defender a democracia, direitos políticos e direitos sociais, para defender os serviços
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públicos, para defender os valores do 25 de Abril que estão consagrados na Constituição da República”. Manuel Alegre compromete-se, ainda, na luta contra o desemprego, afirmando que irá defender “o direito dos jovens à esperança num futuro que garanta a dignidade humana, só plenamente alcançável com o direito ao emprego”. Falar de Alegre e de Cavaco é, no caso do primeiro, discutir o futuro de Portugal e, no caso do segundo, ficar subjugado ao Cavaquistão. Por isso, hoje, termino apelando a todos os ouvintes para que não fiquem em casa no próximo dia 23 e para que votem em consciência porque o futuro de Portugal está nas mãos de todos nós. Até à próxima terça-feira.

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34 – Crónica / Reflectir o futuro (25-01-2011)

Caros ouvintes, terminei a crónica anterior dizendo que falar de Manuel Alegre e Cavaco Silva, é discutir o futuro de Portugal ou do Cavaquistão. Os portugueses voltaram a apostar no político com mais anos de actividade em exercício, como tal, um político com muitas responsabilidades. Sócrates continua a ter um Presidente da República que abre alas à política do desastre dirigida pela União Europeia, a política iniciada pelo cavaquismo. É desolador assistir, eleição após eleição, aos números da abstenção. Muitos prescindem de fazer escolhas com o argumento de reprovar a classe política, ingenuamente, permitindo que essa mesma classe faça as escolhas por eles. Quero aqui deixar uma palavra de desagrado para mais uma eleição em que os eleitores se vêm impedidos de votar porque a burocracia não é tão Simplex como Sócrates apregoa. Os eleitores defendem-se com a falta de credibilidade da política e eu até os entendo. Cavaco Silva também percebe, por isso enganou os portugueses, fazendo passar a imagem que não é político – imagine-se só… Não bastava o discurso de vitimização, fugindo à responsabilidade de explicar a sua ligação à SLN-BPN, vem depois dizer-nos que uma segunda volta teria custos acrescidos. Não se preocupou com os custos exagerados do seu mandato e da sua campanha que ultrapassou todos os outros, mas para ele os custos da democracia são dispensáveis… Não satisfeito, alegou que uma segunda volta podia provocar uma subida das taxas de juro. Deduz25

se então que os mercados, sempre nervosos, também ficariam agitados sem a eleição de Cavaco à primeira volta. Não precisamos de explicações, para perceber que esses mercados lidam mal com a democracia. Não ignoro, que estas atitudes são tiques de uma família política neoliberal agora num processo de mutação, após a sua derrota ideológica. São atitudes como essas, que levaram Manuela Ferreira Leite um dia, a confessar que era necessário suspender a democracia. Cavaco e os mercados não o dizem mas que o desejam, desejam… Este é o paradigma da representação popular que me leva muitas vezes a pensar porque razão, presta um povo vassalagem a quem os engana e explora. Da mesma forma, como podem aceitar um Presidente da República que obedecendo a Angela Merkel, vai abrir as portas ao FMI, promovendo a destruição de emprego e dos serviços públicos. Para os mais distraídos, em 2008 o FMI estava numa situação difícil, tal como a banca. Agora, estas entidades esticam as garras e devoram as suas presas sem piedade. Agora é tempo de tratar dos problemas, está à vista o colapso social. Fiquei por isso sensibilizada pela criação do Observatório Económico e Social do Distrito do Alto Alentejo, mas é preciso que não fique por aqui. As outras forças vivas, devem contribuir e fazer uso deste importante instrumento promovido pelo Governo Civil. Nesta altura já estamos a falar numa “operação de salvamento”, dada a situação catastrófica em que nos encontramos, apesar de muitos ainda não reconheceram ou quererem esconder, dadas as suas responsabilidades.
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35 – Crónica / Colapso Social (01-02-2011)

Caros ouvintes, na crónica anterior fiz referência à criação do Observatório Económico e Social do Distrito do Alto Alentejo e, na altura chamei a atenção para a necessidade de não se ficar por esta iniciativa. Neste sentido, o que importa, presentemente, é unir forças e, por exemplo, manifestarmos o nosso descontentamento à semelhança do que aconteceu com a manifestação de ontem em defesa do Ramal de Cáceres – Beirã / Torres das Vargens. Muito já foi dito sobre as causas da desertificação e do desemprego, sabemos bem demais que os cortes orçamentais vão piorar a situação, sabemos que a eleição de Cavaco vem dar novo fôlego às políticas centralistas de direita, mas sabemos também que é tempo de resistir e lutar pela nossa sobrevivência. Empresas e serviços fecham, o desemprego aumenta, as nossas acessibilidades são rudimentares, a falta de investimentos e de projectos credíveis tornam-nos num distrito em colapso. Resta-nos o amor pela terra e a força de dizer que o distrito não pode morrer. Segundo referi em crónicas anteriores, a Cáritas não tem mãos a medir com os casos crescentes de pobreza. Cada vez mais sabemos de acontecimentos gritantes, alguns com emigrantes que não conseguem regressar às suas terras e, que por cá têm dificuldades em sobreviver. Até os módicos abonos de família estão a ser cortados, muitos deles por razões burocráticas, e isto porque apesar do investimento no projecto @escola ainda temos muitos info27

excluídos. Atrevo-me, mesmo, a dizer que o modo de acesso aos apoios sociais é um autêntico escândalo. Por cá, foram-se fechando serviços com algumas promessas de contrapartidas. O Centro Educativo de Vila Fernando foi um desses casos. Aos poucos, muitos trabalhadores vão abandonando o nosso distrito, outros ficam no desemprego. Vila Fernando apagou-se e as antigas instalações são agora mais um quadro desolador, já que a prometida cadeia não passou de um projecto e de estudos pagos. Vivemos de estudos, de estatísticas e de observatórios. Espero que este último observe bem todas estas realidades e que consiga ver o que é evidente, isto é, que a nossa situação se deve à irresponsabilidade de sucessivos governos. A nossa aproximação à Europa continua a ser, apenas, nos sacrifícios e nas coisas menos boas. Impõem-nos leis e taxas ao nível europeu, contudo os salários, os apoios sociais, em suma, o nível de vida diverge dos demais. Já referi várias vezes os impactos dos cortes nos apoios sociais e o pior está no facto de que esta irresponsabilidade política, vai ter custos desastrosos no futuro. São várias, as entidades que chamam a atenção das terríveis consequências destas medidas, que nos conduzem desde a instabilidade social à recessão económica. Ainda no rescaldo das eleições presidenciais, não resisto a dizer que Maria Cavaco Silva pode visitar, de novo, a Capadócia à custa do contribuinte. Presentemente, estamos à espera das explicações que o candidato, agora Presidente prometeu para depois das eleições, sobre a compra da vivenda na Aldeia da Coelha. Enquanto isso,
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assistimos a um José Sócrates vitorioso que após o acto eleitoral verbalizou que “os portugueses optaram pela estabilidade política”; enfim, para nós é o colapso social; para eles, tudo se mantém como dantes, quartel-general em Abrantes…

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36 – Crónica / FMI Vampirismo Político Económico (08-02-2011)

Caros ouvintes, hoje ouvimos falar bastante no FMI e muitas pessoas perguntam-se a si próprias que papão será este, ou então que tipo de salvador aqui teremos. Hoje vou falar um pouco deste FMI que uns dizem que não vem, outros dizem que está para chegar e eu para vos ser sincera digo que já cá está com os PEC’s que têm sido aprovados. O FMI apareceu logo a seguir à segunda guerra mundial para garantir a estabilidade económica das nações e evitar a repetição da crise de 1930, afinal, logo aqui falhou. Na sua história tem cometido erros referentes às suas tomadas de posição que assentam basicamente em três pilares, austeridade, liberalização e privatizações. Poderíamos dizer que a dita receita era necessária, mas a realidade é diferente e estas medidas têm sido a origem do empobrecimento de vários países. A razão é muito simples, o FMI está ao serviço das grandes instituições financeiras, emprestadoras a nível internacional e esta política económica só serve as ditas instituições. Assim, não foi por acaso que recentemente, o Citigroup fez também pressão, dizendo que Portugal precisa de ajuda externa porque tem de refinanciar 72 mil milhões de euros até 2013. Tem piada, em 2008 quando o FMI também atravessava grandes dificuldades, o Citigroup recebeu um apoio de pelo menos 45 mil milhões de dólares do governo americano e ainda distribuiu 9 mil milhões em bónus nesse mesmo ano. Joseph Stiglitz Prémio Nobel da economia e ex-chefe do Banco Mundial acusou o FMI de não ter
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sabido fazer frente às diferentes situações de crise. O FMI que está sob a alçada dos Estados Unidos e que tem o apoio da União Europeia, contrapôs as declarações de Stiglitz, mas a realidade tem dado razão ao Prémio Nobel. Talvez não seja desajustado o convite feito a António Borges, o braço direito de Manuela Ferreira Leite. Este economista foi convidado para dirigir o departamento europeu do FMI, para supervisionar o uso de investimentos financeiros, conhecidos por "fundos de cobertura". Friso que não é desajustado, porque este economista defendeu o subprime como uma coisa maravilhosa, quando trabalhava para a Goldman Sachs, afinal, Borges, é um “querido” da banca especulativa. Da mesma forma, também não é desajustado ter Dominique Strauss-Kahn como director geral do FMI. Além de defender penosas e injustas políticas de austeridade, não se coibiu de louvar o ditador tunisino Ben Alli e de considerar a sua política económica um exemplo a seguir. Assim se percebe porque queria Manuela Ferreira suspender a democracia por seis meses. Está à vista que o FMI não prima pela democracia, nem pelos sistemas democráticos. Esta situação pode ser retratada como o paciente (FMI e Banca Internacional), que numa situação bastante debilitada, recebe doses de sangue dos dadores (Estados) e estes entretanto, ficam (dadores), debilitados pela doação. Depois, quem estava mal e recuperou com as dádivas acabou por se voltar contra os seus beneméritos, sugando-lhes o resto do sangue, num autêntico atentado de “vampirismo” político-económico.
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37 – Crónica – Turismo (15-02-2011)

Caros ouvintes, uma moção de censura é um acto legítimo. O BE mostrou coragem na sua coerência e os portugueses deviam apreciar quem quer clarificar as suas posições e não fazer o jogo do faz de conta do Sócrates e o jogo da “montanha russa” de Passos Coelho. A política é para ser levada a sério, mas parece que as pessoas não estão habituadas a isso. O PS faz lembrar o governo provisório do PSD e, claro, é necessário separar as águas. Quem está a governar contra o programa que os portugueses elegeram é o autor do próprio, José Sócrates. Politicamente, o BE entalou a direita indecisa que tal como o PCP já haviam ameaçado com uma moção de censura. Sócrates prepara-se para ser novamente entronizado no congresso do PS. Por isso, o BE mostrou-lhe quem é de facto o seu adversário político mais sério e que exige uma mudança de políticas. De Santana Lopes a Pacheco Pereira a verborreia habitual de quem parece saber de tudo mas não acerta em nada, recheou os pagodes televisivos, para não falar do chorrilho de disparates de Vasco Pulido Valente no Jornal o Público. Quero deixar uma nota positiva para Manuel Maria Carrilho que parece ser dos poucos que percebe que Sócrates está longe de ser uma resposta credível. Somos nós portugueses, e, claro, o país que estamos a perder com estas políticas. Agora vamos ficar a perceber onde se posicionam as peças no xadrez político português e quem quer dar a cara. A hipocrisia deve
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ser denunciada e banida. E afinal, que medo tem Sócrates da moção de censura? Será que Passos Coelho desobedece a Cavaco e perde a cabeça de vez? Não cremos que tal aconteça, pois Passos Coelho é do estilo bate e foge. É interessante verificar que a hipótese da moção anunciada pelo PCP não provocou tanta agitação. Já anteriormente Passos Coelho e Paulo Portas falaram na moção mas ninguém os levou realmente a sério. A moção de censura só pode ter efeito depois da tomada de posse do P.R. por isso o BE anuncia, desde já, que o fará nessa altura porque essa é que é a altura certa. O governo está a concretizar medidas destruidoras do emprego, a redução da indemnização pelo despedimento e o fundo para financiar o despedimento. Queremos que essas medidas sejam retiradas, que sejam recusadas porque vão criar mais desemprego. Chegámos a uma situação insuportável recheada de medidas cruéis, um em cada dois trabalhadores está desempregado ou é precário. O PS e PSD aprovaram a retirada do subsídio de desemprego a muitos desempregados, e reduziram o montante para os outros. O Bloco Central continua a sacrificar os portugueses enquanto os bancos são poupados em IRC nos seus fabulosos lucros. Esta Moção foi anunciada precisamente no dia em que os juros da dívida pública atingiram um recorde histórico que nem a eleição de Cavaco travou. Acusam esta moção de censura de pôr em causa a estabilidade. Mas a estabilidade de quem? Dos de cima? Da burguesia? Da Banca? Dos donos de Portugal? É que, os que estão a braços com o desemprego, a precariedade e a exploração não
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sabem o que é estabilidade! A instabilidade está instalada e não é criada pela moção. É urgente combater as políticas da direita apresentando uma alternativa de esquerda. O que falta então para se exigir uma moção de censura?

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38 – Crónica – Interioridade (22-02-2011)

Caros ouvintes, o desenvolvimento que tanto se apregoou, afinal, criou separação e atraso no interior. A falta de investimento e projectos que garantam sustentabilidade, a falta de meios, de acessos, o despovoamento e até o clima característico do interior, são factores com que sempre nos debatemos. O resultado está à vista, a desertificação não pára, as empresas fecham atingindo valores recordistas e o desânimo termina, em alguns casos, no suicídio. O Alentejo tem a mais alta taxa de suicídio do mundo e ninguém parece importar-se com isto. Estamos perante uma dicotomia assente no interior, em que a depressão impera, e no litoral em stress cresce a olhos vistos, especialmente em Lisboa e no Porto que aglutinam a maior parte do desenvolvimento. O INE fornece dados suficientes para percebermos as consequências devastadoras, económicas, sociais e ambientais que vão ocorrer no Alentejo até 2020. É, por isso, urgente, que sejam consideradas medidas sérias de combate à desertificação. O futuro passa pelos jovens e quando não criamos condições para eles se fixarem no Alentejo, que futuro poderá ter esse Alentejo? Quando não temos cuidados de saúde, educação com qualidade, nem opções de emprego, só resta uma solução aos jovens, é partirem com a certeza da perseguição do flagelo da precariedade. Este distrito atingiu uma situação insustentável; a par do país, aqui o desemprego é alarmante mas os fracos recursos e a falta de estruturas, resultantes do fraco investimento neste distrito,
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atiraram-nos para um abismo no interior do país que parece esquecido por sucessivos governos que foram incapazes de elaborarem projectos credíveis e, invariavelmente, vão assumindo políticas de destruição com o encerramento e desagregação dos serviços públicos. Um dos grandes atrasos que temos é ao nível das acessibilidades, A A23 passa longe, a ligação a Elvas é um desconsolo, temos um apeadeiro a doze km, fiz a última viagem regional do Ramal de Cáceres com muito desgosto porque usei aquela linha quando estudei fora. Os dados do INE mostram o que nós já estamos a sentir, a morte do interior. Os dados recentes indicam até motivos de alarme no que respeita ao emprego para os jovens. A agravar, temos a situação miserável em que muitas pessoas já se encontram. O nosso, já frágil tecido produtivo quer na indústria, quer na agricultura está a ser destruído. Os jovens continuam a sair deste distrito e os que por cá continuam desesperam sem deixar de acreditar que é possível salvar o interior. Temos o nosso património e as nossas gentes. Se existir uma aposta séria, derrubando assimetrias, apostando na coesão social podemos ter uma região valorizada que pode contribuir para um país mais justo, solidário e desenvolvido. Para isso, tem de existir produção, redistribuição e um suporte público e social. A campanha pelo emprego pretende alertar, agitar e criar um movimento de cidadãos que não se conforme, apresente um projecto e exija respostas das entidades oficiais.

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Também é importante existir um desenvolvimento solidário como refere Mário Freire no seu artigo sobre o combate à pobreza. Este assunto exige a atenção de todos e a responsabilidade de todos. Os movimentos sociais, religiosos, políticos, as entidades oficiais têm de unir esforços e só todos em conjunto podemos travar o drama do colapso deste distrito. Por isso apelo a todos para aderirem à campanha pelo emprego, contra a pobreza, o desemprego e a morte do interior. É tempo de parar!

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39 – Crónica – O preço da crise (01-03-2011)

Caros ouvintes, acerca das consequências da crise, já tinha referido numa crónica anterior o que podia acontecer no campo da saúde. As estatísticas mostram bem que o nosso distrito é o mais preocupante no consumo de Psicofármacos. Somos o distrito com o maior consumo de Ansiolíticos, no consumo de Antipsicóticos, só Castelo Branco e Viana do Castelo nos ultrapassam e no que respeita aos Antidepressivos, só somos ultrapassados por Évora. Em suma, um cenário bastante negro para o nosso distrito. Recordamse do que vos falei sobre o suicídio na nossa região? Pois a situação piora quando o PS e PSD prepararam um PEC que deixou as pessoas impossibilitadas de fazer tratamentos e a causar imensos problemas aos doentes, aos bombeiros e taxistas. Não bastavam já os cortes nas comparticipações dos medicamentos, agora, também ficámos a saber que os portadores de doenças raras têm sido privados dos medicamentos por parte dos estabelecimentos de saúde. Devido ao corte no acesso a remédios vitais, há doentes em risco de vida por falta de acesso ao tratamento. António Arnaut já apelidou esta medida de criminosa. De facto, o PEC é criminoso porque desprotege os doentes, os carenciados e aqueles que vivem apenas do trabalho. Ao contrário protege a banca, os gestores públicos e os grandes negócios, incluindo os de origem duvidosa.
Os problemas de carência têm sido colmatados à base da caridade, sustentada muito em particular por instituições como a Cáritas e o Banco Alimentar. Contudo, a caridade não pode ser a solução até
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porque se torna insustentável, apesar dos esforços louváveis destas instituições. A paz, o pão, a habitação saúde, educação, como versa a música do Sérgio Godinho, “Liberdade”, é uma responsabilidade de um estado social sério. E José Sócrates no passado dia 25 veio ao parlamento fazer mais um exercício da hipocrisia. Começou por falar nos estágios profissionais repetindo a sua propaganda quando muitos jovens abandonam o ensino superior devido aos cortes nos apoios. Depois de medir forças com o PSD sobre quem fez pior, Sócrates não respondeu, como é hábito, às perguntas de gravidade e acusa os adversários políticos de quererem atacar e provocar crise. Só nos falta ouvir a célebre frase de Cavaco: “deixem-me trabalhar”… quando destruiu o sector produtivo em troca de estradas. Agora ficámos a saber através dos telegramas da WikiLeaks publicados no Expresso que as compras militares foram influenciadas e nefastas. Os melhores exemplos são os dois submarinos de qualidade duvidosa e os 39 caças de combate de que apenas 12 estão em condições de voar. E enquanto alimentamos as guloseiras dos generais sentados em cadeiras que em número percentual ultrapassam outras forças armadas. Teixeira dos Santos para equilibrar estas compras que afundam a economia transformou-se num mau vendedor de dívida pública ao mesmo tempo que vende empresas que podem dar muito dinheiro aos cofres do estado. Costuma-se dizer “vão-se os anéis ficam os dedos”, mas neste caso já estamos a ficar sem os dedos por estarmos inseridos numa Europa com políticas de direita que dão os
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resultados que estamos a ver. Os responsáveis deste PEC, o governo, o PSD que o viabilizou e Cavaco Silva que o apoiou, podem alegar as culpas às políticas europeias que sempre apoiaram, mas não querem assumir que são os responsáveis pelo caos social que se está a instalar e como sempre, eles não vão pagar o preço da crise.

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40 – Crónica – Mulheres e a crise (08-03-2011)

Caros ouvintes, na minha primeira crónica aqui na Rádio falei de mulheres no mundo lutam por causas humanitárias e são grandes exemplos para nós. Falei-vos também da UMAR, uma associação feminista, já com trinta anos que luta pela dignidade e pela vida das mulheres, à qual tenho orgulho de pertencer. Este ano a UMAR quer um estudo sério ao nível de todo o país em relação ao assédio sexual. Este é um flagelo que aflige as mulheres em especial nos locais de trabalho e que tem tendência a aumentar com o cenário de crise. Outra Associação, a APAV apoiou 25.320 pessoas em 2010, das quais 7711 vítimas directas de crimes. Os crimes de violência doméstica lideram as estatísticas, representando 80% dos actos criminosos. Em 2010, quarenta e sete mulheres perderam a vida, este é o segundo crime mais reportado em Portugal. Nas anteriores presidenciais fiz questão de condenar o actual presidente de república pelas suas posições contra as mulheres e até a forma paternalista ou patriarcal como Cavaco Silva trata a esposa, fazendo dela, uma pessoa dependente de si próprio. Com o cenário da crise as desigualdades tendem a acentuar-se e no caso das mulheres a situação agravou-se. As diferenças salariais, onde 40% das mulheres ganham em média 500€, menos 18% em relação aos homens. O acesso ao emprego e a não contratação de mulheres por motivos de maternidade tornam a mulher mais vulnerável e dependente, condenada a uma pena de prisão domiciliária. Estamos perante um retrocesso civilizacional com
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consequências sociais desastrosas. Por muitas mudanças na atitude masculina que felizmente já existem, continuam a ser as mulheres as principais responsáveis pelos cuidados dos filhos e da casa. Quando sabemos que o número de licenciaturas é superior no campo feminino, continuam a ser os homens a ocupar os lugares de chefia e quando uma mulher lá chega, duma forma ou de outra é penalizada. Bagão Félix e Vieira da Silva ao flexibilizarem os horários de trabalho e ao permitirem a exploração pelas horas extraordinárias penalizaram principalmente as mulheres. É bem visível o número de mulheres qualificadas que não encontram trabalho e tal como os jovens são as grandes vítimas destas políticas. É importante que as mulheres percebam que esta, também é uma questão política e como tal deve ter uma resposta política. Os movimentos feministas, as Associações e as mulheres em geral, devem penalizar o desprezo que os governantes dão às mulheres. As crises não foram provocadas pelas mulheres porque infelizmente, raras são as que têm acesso aos poderes de decisão, mas são as mulheres quem paga a grande factura da crise. Tal como os movimentos anti-capitalistas, também o feminismo é reprimido porque afronta os interesses e o conservadorismo das elites burguesas. Nas manifestações em que estive vi muitas mulheres a protestaram e acreditem, vou ver muitas mais na próxima manifestação de 19 de Março e no 1º Maio. As dificuldades das políticas desastrosas da União Europeia apoiadas por Sócrates, Passos Coelho e Cavaco Silva, vão originar problemas sociais com os
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quais as mulheres vão ser confrontadas e a minha mensagem é: Apelo a todas as mulheres que sentem o aperto da vida de várias formas, que se manifestem e lutem, venham para a rua protestar... Foi assim que aconteceu a 8 de Março de 1917 quando as mulheres russas se manifestaram por melhores condições de vida. Foi assim que nasceu o dia da mulher e é assim que o temos de defender. E como hoje celebramos o Dia da Mulher, não posso deixar de enviar um abraço fraterno a todas quantas me ouvem.

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41 – Crónica – Habemos Presidente (15-03-2011)
Caros ouvintes, depois do dia da mulher, veio o dia do Presidente. Democraticamente eleito pelos portugueses, Aníbal Cavaco Silva tomou posse e comprometeu-se a estabelecer uma cooperação com as instituições democráticas. Quando no dia da mais magra vitória eleitoral, num segundo mandato presidencial atacou todos os que o atacaram ameaçando inclusive. Constatei no discurso de tomada de posse o reconhecimento de Cavaco Silva de que estamos numa situação de emergência social e numa situação económica insustentável. Este quer contribuir para “a definição de linhas de orientação e de rumos para a economia nacional”. (ironia) Fiquei até a imaginar o puxão de orelhas que Cavaco Silva vai dar a Durão Barroso por defender estas políticas que nos têm conduzido ao abismo… O discurso terminou com um “vibrante apelo” aos jovens para que façam “ouvir a sua voz”. E Cavaco Silva disse ainda que essa geração mais jovem “deve ser vista como parte da solução dos problemas”. A vincar esta aparente “boa” intenção, apelou ao "Empreendedorismo" e voluntariado dos jovens… Depois de ter apelado a que se aproveitem os restos dos restaurantes, eis os horizontes de Cavaco Silva para os jovens. Além de escravizados ainda são gozados… No dia 12 tivemos a manifestação da geração à rasca… A censura foi derrubada no parlamento e no mediatismo da imprensa, mas não a derrubam na rua. Várias gerações estiveram presentes nesta manifestação convocada por jovens que sentem o futuro ameaçado
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e sobretudo além de enganados estão a ser explorados. Foi uma manifestação exemplar e, os responsáveis pela actual situação, deviam pensar bem qual é mensagem que passou. Incompetência! Estamos confrontados com a triste realidade de termos uma geração que vai viver pior do que a antecedeu. Reagindo ao discurso de Cavaco Silva, o PSD e o CDS aplaudiram efusivamente, num autêntico acto de contrição por no dia seguinte não aprovarem a Moção de Censura. Assim foi mais fácil, o Presidente fez a Moção de Censura oral que não faz cair o governo evitando assim a contradição política. Se é para continuar as mesmas políticas porquê mudar? Pior que este governo, só um governo pior. Daí a moção de censura ter sido chumbada, afinal só Cavaco Silva, o Bloco de Esquerda e a CDU dizem abertamente que Sócrates governa mal. Passos Coelho, até dizia que Sócrates está a governar e não está a falhar… Agora, Sócrates esticou a corda e apresentou mais um PEC que é também um desafio à cooperação estratégica, agora activa de Cavaco Silva e mais uma provocação a Passos Coelho. Na certeza de que o PEC IV é mais um erro político e económico, é também uma prenda da Sr.ª Merkel e um empurrão para legitimar o novo programa do PSD que eu considero um livro repleto de maldades: Precariedade, privatizações, desigualdades, é esta a receita de Passos Coelho para tentar ser pior que Sócrates. Tivémos uma magistratura de cooperação estratégica que aceitou a parceria PS/PSD nas medidas de austeridade que agora se tornam recessivas e catastróficas. Temos então uma magistratura activa, quem diria? Depois de apelar à estabilidade, o governo anunciou
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mais medidas de austeridade. 48 Horas depois de ter dito que há limites para tudo, Sócrates sem passar cavaco ao Sr. Presidente apresentou mais medidas de austeridade e adivinhem… para os mesmos, claro. Justiça fiscal e redistribuição de sacrifícios são a fachada deste embuste político. Temos o pessoal à rasca, mas Habemos Presidente…

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42 – Crónica – Turismo versus Energia Nuclear (22-03-2011) Caros ouvintes, dados recentes adiantaram um aumento de 12,4% em dormidas no Alentejo É, sem dúvida, motivo de satisfação para todos nós e para a Entidade Turismo do Alentejo, da qual tivemos a satisfação de ver o seu Presidente Ceia da Silva receber uma distinta condecoração. Contudo, este sucesso não se reflecte aqui no Alto Alentejo onde o desemprego e a desertificação são sinais alarmantes. No que respeita a investimentos estes dados também nos dizem que nesta matéria estamos abandonados. Dos 30 milhões atribuídos para o Alentejo a 20 Julho de 2010, promotores vão avançar com novas unidades onde, nove hoteleiras,

infelizmente para este distrito não vamos assistir a investimentos que dinamizem a economia. Saliente-se, que nestes 30 milhões está incluída uma comparticipação comunitária de 12 milhões de euros. Tudo gira à volta de hotéis, herdades e grupos económicos. O distrito está esvaziado e sem investimento público para recuperar os nossos bens, essa devia ser a aposta. Recuperando o nosso património e locais de excelência, garantiríamos a identidade, dinamizaríamos a economia e criaríamos postos de trabalho. Ao contrário, depois de muito tempo de abandono de uma zona nobre e bonita da nossa cidade, a Câmara Municipal de Portalegre prepara-se para vender a Quinta da Saúde. Já foi referida a importância de termos naquela zona um potencial enorme que se está a perder. Vamos permitir a venda da Quinta da Saúde, uma excelente fonte de receitas, assim como um dia vou estar preparada

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para assistir à venda do Forte da Graça, ou seja, mais um acto irresponsável. Já ouvi Outras queixas que se referem aos proprietários dos restaurantes locais que são convidados pela região de turismo a irem a encontros em Évora em pleno esforço da sua actividade. Também os artesãos não fazem parte dos planos desta Entidade, o comboio aventura e o fecho do ramal de Cáceres fazem parte do “faz de conta” deste país. Não posso deixar de, nesta crónica, lamentar o que se passou no Japão e de chamar a atenção para os perigos da energia nuclear. Afinal de contas temos uma Central Nuclear em Almaraz, bem perto de nós e um hipotético acidente colocaria toda a nossa região em perigo, será que estamos preparados? Esta central já teve episódios preocupantes e devia ter sido encerrada em 2010. Agora o governo espanhol decidiu dar-lhe mais dez anos de actividade, o que torna a situação mais preocupante pela idade da própria central e porque um acidente grave pode levar à evacuação das cidades de Castelo Branco e Portalegre. Por isso apelo a que os nossos governantes dêem ouvidos aos ambientalistas que só querem a nossa segurança e a conservação da nossa bela região. Na manifestação de sábado, além dos milhares de presentes o que me marcou bastante foi a presença de um grupo de manifestantes das Minas de Urânio da Urgeiriça que são as primeiras vítimas da energia nuclear. Eu digo não à energia nuclear, essa é, também, uma condição para protegermos o nosso turismo tal como é não
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permitirmos a construção da Refinaria de Balboa que podia hipotecar o Alqueva entre outros perigos. Para a semana todos sabemos que a situação política em Portugal entrou na primavera com o cenário de eleições antecipadas a definir-se. Certo é que a nossa região continua a marcar passo…

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43 – Crónica – O Tango da tanga (05-04-2011)

Caros ouvintes, várias vezes denunciei a falácia das políticas que atingem sempre os fracos e protegem os fortes. Estamos à beira da bancarrota e os abutres financeiros preparam-se para devorar o que resta. Já, por várias vezes chamei a atenção para os alertas do Nobel da Economia, Paul Krugman. Este reconhecido economista diz que Portugal erra, ao reduzir despesa pública com desemprego elevado. Para o Nobel da economia, "a estratégia correcta é, (criar) empregos agora e (reduzir) défices depois". Krugman critica, assim, as políticas da Europa e a prova disso está no exemplo dos Islandeses que correram com a direita que os conduziu à bancarrota e agora estão a recuperar. Porque é que ninguém fala disto? Porque razões insistem Portugal e a Europa nas políticas recessivas criticadas pelo Nobel, Paul Krugman? A Islândia mostra-nos que existem alternativas ao neoliberalismo e só combatendo os especuladores é que podemos ter sucesso. PS e PSD além de serem os rostos da crise, afinam pelo mesmo diapasão quando se trata de iludir o eleitor. No PEC 3, Passos Coelho ameaçou inviabilizar se houvesse aumento de impostos. Porém, acabou por viabilizar, em nome de uma estabilidade que nunca aconteceu. Agora, em pré-campanha, já vem dizer que é inevitável o aumento de impostos, nomeando inclusive o aumento da taxa do IVA. Argumenta querer salvar pensões, não percebendo que com o aumento do IVA vai sobrecarregar a todos, incluindo os próprios pensionistas e comprometendo ao mesmo tempo o
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crescimento económico. Mais incoerente não podia ser quando se contradiz no aumento de impostos e acaba por assumir as mesmas políticas, ao ter levado três puxões de orelhas em Bruxelas, de Angela Merkel, Durão Barroso e Jean-Claude Juncker, Presidente do

Eurogrupo. Por isso, podemos dizer que a alternância de poder pode
vir a ser apenas figurativa, sem conteúdo político, digno de mudar as políticas que nos conduzem a uma bancarrota cada vez mais à vista. Resumindo, Passos Coelho defende o mesmo que José Sócrates. Enfim, esta é a postura de quem contestava uma moção de censura em nome do interesse nacional, dizendo que Sócrates tinha de governar e passados doze dias fez cair o governo com o PEC que afinal quer assumir. Passos Coelho é o rosto do FMI esvaziado de política social e no governo vai continuar a aplicar as políticas de Sócrates. Por isso, o PS não vai ser oposição, tal como o PSD não foi e é importante que os portugueses percebam que é preciso uma força de confiança e de esquerda que sirva de alternativa ao desastre das políticas de direita. Desta forma, quem quer uma mudança efectiva que possa salvar o país, não pode adormecer ou desistir, mas sim apostar em políticas para as pessoas e não para servir as elites financeiras que têm beneficiado com a actual situação. Não podemos aceitar as manipulações de opinião sustentadas pelos fazedores de opinião. Pacheco Pereira defende a coligação PS/PSD e vê no BE e PCP o caos, a velhinha mezinha do papão, mas escondendo que a incompetência tem sido de quem tem governado contra os avisos da esquerda. A maioria dos comentadores sustenta a formação de
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uma coligação de direita para governar Portugal, como se essa coligação não fosse efectiva por parte de políticas europeias, que PS, PSD e CDS apoiam. Enfim, um tango que se dança a dois e parece desejar-se a três. Também Cavaco Silva vem fazer um verdadeiro exercício de semântica ao dizer que não vamos recorrer ao FMI, mas sim ao FEEF, não poderia ele, admitir que se trata do mesmo e que estamos na bancarrota? Será possível continuarmos este tango da tanga?

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44 – Crónica – A Banca abriu a porta ao FMI (12-04-2011)
Caros ouvintes, neste braço de ferro a que temos assistido, os bancos exigiram o FMI e conseguiram. Para aqueles que sempre acreditaram que Sócrates governava, perceberam ,agora, que é a Banca que manda na economia! Sócrates cedeu perante o estrangulamento financeiro provocado pelas agências de rating e pela recusa da União Europeia e da Banca em assumir as suas responsabilidades. Tudo indicava que a corda ia esticando até obrigar Portugal a ceder. As Agências Moody’s, Fitch e Standard & Poor's além da especulação fizeram e fazem uma autêntica manipulação de mercado e ninguém fez nem faz nada contra este crime. Mas Sócrates é o principal responsável. No seu nacional porreirismo, insistiu em políticas desastrosas. Não teve rigor orçamental, duplicou a dívida portuguesa e hipotecou a nossa economia, de onde destaco três ruinosas decisões económicas: Mil milhões de euros para submarinos, mil milhões que a PT não pagou de imposto e dois mil milhões de euros para um fundo de resgate do BPN. O governo gastou três vezes aquilo que é o resultado para o exercício orçamental. Menos submarinos, menos BPN, menos privatização de empresas em sectores estratégicos, mais investimentos, mais impostos sobre a banca e tudo isto podia ter sido evitado. A redução com as despesas nas parcerias público-privadas dariam também uma forte ajuda no equilíbrio das contas públicas. E acima de tudo é preciso dizer que há alternativas que passam, decididamente, por
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uma política de esquerda. Não estamos perante uma situação inevitável, a Islândia, como já referi, é bem o exemplo disso. Estamos na terceira recessão em dez anos e é necessário inverter as políticas que transformaram a economia num feudo, onde as elites financeiras andam a pastar e rapinar como abutres. Agora vamos ter o PEC 5 que se ficará a conhecer dentro de pouco tempo e muitos que já descansam pensando na ajuda de Bruxelas não percebem que se cumpre agora um ano sobre a data em que o FMI começou a aplicar as suas medidas na Grécia e os resultados desastrosos estão à vista. Mas afinal o que é o FMI. Já fiz questão não só de abordar alguns pontos em crónicas anteriores, como de denunciar a posição de Joseph Stiglitz Prémio Nobel da economia e ex-chefe do Banco Mundial que acusou o FMI de não ter sabido fazer frente às diferentes situações de crise. O FMI funciona como um saqueador dos contribuintes para os grandes grupos económicos com redução dos salários reais, aumentos de impostos, perdas de direitos, garantias laborais e sociais. Tirar a muitos para dar a poucos é a receita do FMI que prima por medidas duríssimas contra salários e pensões. Enganem-se aqueles que pensam que o FMI vai tirar “tachos aos boys”. Por isso já se ouve dizer que cada vez são precisos mais pobres para produzir um rico e por isso os ricos são cada vez mais ricos e os pobres, cada vez mais pobres. É importante percebermos tudo isto e porque razão estamos nesta situação e para isso é necessário uma auditoria a toda a dívida
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externa, pública e privada. Temos de saber o que estamos a pagar e só assim podemos determinar a reestruturação da dívida. Não é por acaso que após o anúncio do pedido de ajuda, as cotações da Banca começaram a valorizar, não é por acaso que a banca abriu a porta ao FMI…

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45 – Crónica – À rasca ou desastre Social (19-04-2011)
Caros ouvintes, na minha primeira crónica tive a oportunidade de dizer que sou professora e que trabalho com jovens desde há muitos anos. Enquanto docente e enquanto mãe tenho consciencia de que existem problemas relacionados com a juventude que não se discutem, nem se resolvem com teorias baratas. O assunto é sério, complicado e nós adultos temos a responsabilidade de enfrentar esta temática. Há quem queira libertar-se do peso na consciência dizendo: “os jovens que vão trabalhar porque no nosso tempo não recusávamos nada”… Muito bem... E a atitude exacerbada da ASAE e de outros mecanismos fiscalizadores? E a perda de quotas na agricultura e pescas e o poder de compra e as alterações das leis do trabalho que afinal não serviram para desenvolver como defendia Bagão Feliz e Vieira da Silva? E a concorrência desleal do estrangeiro e o roubo em impostos e a exploração dos precários? Isto não conta? Recentemente o BE criou um Projecto de Banco Público de terras, elogiado da esquerda à direita mas o mesmo ficou na gaveta. Este projecto era importante para desenvolver o sistema produtivo agrícola que Cavaco destruiu. Conheço jovens que querem trabalhar a terra e não conseguem pois os seus projectos não são financiados e as verbas são devolvidas à União Europeia. Tenho um amigo que é criador de gado e só vê dificuldades no negócio, o leite há muito que faz parte de uma novela triste para os produtores. Então, já se esqueceram que fomos perdendo quotas na agricultura e nas
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pescas e a união europeia pagava para não se produzir? Esta foi a aposta ruinosa de Cavaco Silva quando foi governo, que só apostou em auto-estradas para alguns. Quem defende estas teses contra os jovens, não conhece a realidade. Aqueles que recebem uma reforma decente, para parecerem úteis dizem - vão trabalhar malandros. Lamentavelmente o nosso país está recheado de míopes e analfabetos políticos, por isso é que estamos como estamos. A culpa não é dos jovens que estão à rasca... a culpa é dos que apoiaram os governos PS e PSD/CDS que deram continuidade à estupidez saloia de Salazar deixando um país atrasado e com os ricos cada vez mais ricos A nível nacional, segundo a Cáritas existem mais de 60 mil famílias a necessitar de ajuda, enquanto se assiste a menos dádivas de bens. Em contrapartida, assistimos impávidos e serenos a uma desumanização da estrutura social onde o que parecia impossível já é uma realidade vergonhosa. Exemplo disso é o facto de com dinheiros públicos se construírem e sustentarem hospitais privados quando alguns até dão prejuízo e causam exclusão de classes sociais. Agora, para cúmulo, assistimos ao facto de em Hospitais como o de São Sebastião, a polícia ter sido chamada a intervir e também nos hospitais de Guimarães e Braga são pedidas cauções aos visitantes. Em Portalegre, apesar das queixas e do folclore em torno dos serviços de cuidados continuados e da falta de especialidades, a Unidade Local de Saúde do Norte Alentejano continua a garantir que está tudo bem. Tudo isto é o resultado do colapso em que está a entrar o sistema nacional de saúde.
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Por todas estas razões afirmo, já estamos no limite e o FMI não vai cortar nos que acumulam riqueza, mas em todos os que já estão a ser sacrificados. Com as alterações às leis do trabalho a exploração vai ser maior e em nada vai contribuir para a resolução da crise e os jovens que já estão “à rasca” vão ser os mais sacrificados.

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46 – Crónica – 25 de Abril (26-04-2011)

Caros ouvintes, há 37 anos que a revolução dos cravos mudou Portugal. Neste momento de crise económica e social realça-se a necessidade de enaltecer e relembrar com mais veemência os valores conquistados há quase quatro décadas, em Portugal. Muitos poderão questionar o sucesso do 25 de Abril ou alvitrar se precisamos de outro. É certo que não. Felizmente, Abril continua vivo e o povo pode escolher livremente o rumo de Portugal. Mas esse rumo não pode ser o de um país amordaçado e amarrado por uma Europa que rasgou o seu projecto inicial e virou à direita ajoelhando-se ao capitalismo. Perante os factos, só um governo de esquerda pode romper com a corrupção e as políticas económicas desastrosas como confirmam alguns Prémios Nobel da Economia. Só assim podemos dar às pessoas as condições de vida que estão na posse de uma minoria que manipula o poder a seu belo prazer. Um governo de esquerda nunca em 2008 teria aceitado sacrificar os contribuintes para salvar a banca e depois permitir a essa mesma banca que assaltasse de forma impiedosa os contribuintes, como hoje faz. Não posso deixar de recordar Salgueiro Maia, um Capitão de Abril do nosso distrito que morreu em 1992, ainda jovem. No ano seguinte, Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro, recusou à viúva, Natércia Maia, uma pensão a este nosso herói de Abril. Em contrapartida no mesmo ano, dois inspectores da PIDE foram agraciados por uma pensão vitalícia. Um deles estava entre os que
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fizeram fogo sobre a multidão na Rua António Maria Cardoso, causando os únicos mortos da revolução. Esta foi a postura do actual Presidente da Republica, Cavaco Silva. Algo vai mal na nossa democracia quando um governante tratou desta forma um herói de Abril e também não respeitou o único Nobel Português da literatura. Evocando ainda Salgueiro Maia, foram dele estas palavras na madrugada libertadora, ainda na Escola Prática de Cavalaria, depois de ouvir a senha, «Depois do Adeus»: «Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegámos!» O 25 de Abril acabou com o Fascismo e com uma guerra colonial estúpida, mas há muito a fazer para cumprir Abril… Este momento está marcado pela presença do FMI. Não se entende como se pode fingir que se negoceia com o FMI, quando, na realidade estamos a assistir a um presente envenenado que não resolve os problemas do nosso país, antes pelo contrário e além de permitir mais exploração vai aumentar o flagelo das desigualdades, onde os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. A União Europeia ajudou a promover este autêntico assalto de colarinho branco que as futuras gerações se encarregarão de julgar. Sucessivos governos não souberam combater a corrupção, um dos maiores flagelos da nossa economia. PS, PSD e CDS, a "troika" portuguesa, abriram portas à exploração. A perda de respeito pelos outros, a hipocrisia e a demagogia estão ao rubro... Está na hora de
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desmascarar esta brutalidade, a hipocrisia e a arrogância de quem acumula riqueza explorando os outros. O resultado está a vista, instalou-se uma crise económica e uma crise de valores sociais onde já nem o 1º de Maio é respeitado por alguns ditadores da nossa economia. Por isso apelo a que, em memória das conquistas de Abril, não deixem de comemorar o 1º de Maio.

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47 – Crónica – 1º Maio 2011 (03-05-2011)

Caros ouvintes, na minha última crónica apelei à participação dos trabalhadores nas comemorações do 1º de Maio, em resposta ao abuso dos Grupos económicos que já nem este dia respeitam. Foi preciso o fim da ditadura para se voltar a comemorar o 1º de Maio, como se comemorava em todos os países livres e democráticos. O dia do trabalhador remonta ao século XIX, mas também a mentalidade de alguns empresários e governantes que, passados 120 anos, querem escravizar quem vende força de trabalho, quem produz riqueza, quem desenvolve a economia. O argumento da crise e da produtividade é uma mentira pegada daqueles que ainda nos querem explorar mais, já que somos dos países que mais trabalham e dos mais mal pagos. É indigno saber que, para além de não ter sido respeitado o dia do trabalhador também não foi respeitado o Dia da Mãe que este ano coincidiu, fazendo com que muitas mães de Portugal estivessem privadas de partilhar o dia com os seus filhos. A verdade é que temos falta de formação ao nível dos empresários e se o país não é mais competitivo, tal facto deve-se aos custos energéticos, à falta de combate à corrupção e à economia paralela. O célebre manifesto dos 47 foi produzido, imagine-se, por três homens fortes do Grupo Jerónimo Martins que pretendem nada mais, nada menos do que criar uma onda de apoio às medidas do FMI, mascarando-se este de salvador. Mário Soares que nos tem presenteado com manobras de diversão, alinhou também nesta
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onda que só pretende justificar e apoiar ainda mais, as penalizações para os contribuintes, desempregados e pensionistas e pior… alterar as leis de trabalho, sendo este o principal interesse, porque sempre há a desculpa da crise. Mas a receita está errada e o FMI não é o que se pensa. Nós conhecemos os resultados negativos dos países com a sua intervenção e em contrapartida os lucros fabulosos do FMI a juntarem-se aos lucros escandalosos das agências de rating. Eles lucram, nós pagamos! Mas o FMI, não é só o governo dos abutres, é também o promotor da desgraça social. No Peru, o FMI exigiu a redução da taxa de natalidade no mundo rural e o que foi feito? Peço desculpa se vou chocar alguém, mas começaram a esterilizar as mulheres a troco e promessas de comida e medicamentos que nunca chegaram a ver. Estamos a falar de mais de 300 mil mulheres campesinas que foram forçadas e enganadas. No passado dia 29 assisti a uma sessão em Nisa com Ambientalistas portugueses e espanhóis. Um dos oradores, António Eloy, criticou as afirmações de um responsável governamental em relação aos mineiros que dizia ser preferível ter um emprego e morrer, do que não ter um emprego e morrer de fome. Estas afirmações foram proferidas antes do 25 de Abril, hoje quase que assistimos ao regresso a essa mentalidade. O Orador terminou a crítica dizendo, “ o trabalho deve ser sinónimo de melhoria de vida e não de condições de morte”. Saibam, caros ouvintes, que os grandes grupos financeiros para quem o FMI trabalha, querem retirar direitos laborais e tornar o
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salário numa esmola. O 1º de Maio é o dia para defendermos o trabalho como um direito e como uma forma de desenvolvimento da sociedade. Este dia nunca pode servir de exploração numa sociedade que se quer moderna e humanizada. Existem outras soluções e agravar mais, não obrigado! Mal pagos, precários, amordaçados, mas escravos não!

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48 – Crónica – troikados (10-05-2011)
Caros ouvintes como se esperava o governo acertou com a troika as medidas que pretendia levar a cabo com o PEC 4. Se diferenças existiram, estas têm a ver com uma redução do deficit menos acelerada e o combate às Parcerias Público Privadas. A esquerda já apresentara estas propostas há mais tempo, mas PS, PSD e CDS, a troika portuguesa, chumbaram. Agora já concordam, mas, infelizmente concordam mais com o ataque aos desempregados, aos pensionistas e aqueles que comem o pão que o diabo amassou. Como referi muita vez, chegamos a esta situação porque a troika portuguesa cometeu erros em cima de erros. O FMI aposta apenas na segurança do sistema financeiro e nós vamos continuar a marcar passo sem um programa de recuperação e cada vez mais endividados com o património e as empresas estratégicas na mão dos privados. Tudo isto foi cozinhado a par de um projecto europeu que abraçou o neoliberalismo, virou à direita e não tem uma estratégia para enfrentar o ataque especulativo ao Euro. As políticas erradas e a dívida externa que já remonta muito antes do 25 de Abril impediu o nosso crescimento e acima de tudo contribuiu para o endividamento privado que é maior do que o público. Por isso esta história está mal contada. É importante cortar os excessos no Estado e tornar os serviços públicos mais eficientes para também melhorar a qualidade. Mas aquilo que nos estão a vender é que temos de cortar às cegas e temos de vender as empresas que são rentáveis. Este é um erro colossal de que nos vamos arrepender no
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futuro mas a banca está insaciável e eles é que são os que governam Portugal como sanguessugas devoradoras onde se transfere do público para o privado e torna o trabalho numa nova escravatura. Agora ficam todos satisfeitos porque já não nos cortam a cabeça, é só os braços e as pernas e esquecemos que vamos pagar juros altos e fazer sacrifícios não para recuperar Portugal, mas para pagar juros de assalto. Os juros especulativos empurraram-nos para esta situação e a troika apenas quer garantir uma cobrança pelo pagamento desses juros. Como já referi, a Islândia não aceita abonar a banca para sacrificar as pessoas. A Irlanda não está como está por ter tido problemas na Economia, aliás até era apontada como um exemplo. O problema da Irlanda são os banqueiros… Portugal foi obrigado a pedir ajuda externa, apertaram o cerco e o garrote até ao limite e quem nos governa agora sem mascaras, é o FMI que já dava indicações antes. Muitos dizem que o FMI está a fazer o que os governos não foram capazes de fazer. Pois bem a receita do FMI não é nova, já Salazar para enfrentar e controlar a despesa apostou na austeridade e na miséria. O erro dessas políticas mostrou-nos que o problema não se resolveu porque ficamos atrasados e não criamos mecanismos para acompanhar e competir com os outros países que tinham economias de prosperidade. O que a esquerda em Portugal tem vindo a defender é a renegociação da dívida. Quando já não tivermos solução vão admitir essa solução como admitiram agora a renegociação das parcerias público-privadas. Mas as políticas de direita têm falado
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mais alto e continuam a atirar-nos para o abismo. Apresentam esta solução como inevitável, mas trata-se de um engano muito grande que vamos pagar bem caro quando há outras alternativas. O mais injusto disto é que são os que têm menos culpa e ainda são vítimas quem vai pagar mais pela incompetência de quem nos tem governado. Era necessário uma auditoria séria às contas do país, revelar os responsáveis pela crise e quem está a lucrar com ela. Não podemos permitir que o assalte continue impune.

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49 – Crónica – A dívida portuguesa (17-05-2011)
Caros ouvintes, há dias assisti, em dois canais de notícias da televisão, a um chorrilho de disparates e deturpações e fiquei deveras escandalizada. É certo que conhecendo a escolha dos comentadores, percebe-se que existe uma intenção de passar uma mensagem única. O assunto a que me refiro tem a ver com os resultados dos últimos debates onde o conceito de renegociação da dívida proposta pelos dois partidos de esquerda, foi logo aproveitada por José Sócrates e por esses comentadores, como alvitrar que a Esquerda não quer pagar a dívida aludindo até à palavra caloteiros. Pois bem, enquanto Professora de Português digo-vos com toda a certeza que Renegociar a dívida não significa não querer pagar. Renegociação é antecipar aquilo que sabemos que vai acontecer como bem vimos com a Grécia e a Irlanda que até tiveram juros mais simpáticos que os nossos no acordo com o FMI. Então o que levou José Sócrates e esses comentadores a induzir as pessoas que se trata de calote? Pois bem, é simples tratase de manipulação das opiniões e da informação. E isto é feio e desleal! Dirão alguns que já ouviram alguns comentários de não se pagar parte da dívida um pouco como os Islandeses estão a fazer. É verdade, mas para tal acontecer é preciso uma auditoria a todas as dívidas e a pagamentos para sabermos o que pertence a quem e quem é realmente responsável. Senão vejamos, neste momento nos Estados Unidos, em Portugal entre outros, estão a correr acções contra os especuladores financeiros. Falei-vos aqui muitas vezes, das “criminosas” agências de rating que estão a destruir as
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economias, para favorecerem as grandes potências financeiras. E tudo isto porque a Comissão Barroso que é inoperante, não cria uma agência de notação financeira europeia para controlar estes abusos. O que é que vos quero dizer com isto? Depois de uma auditoria correcta às contas, podíamos chegar à conclusão que estamos a pagar o que não devemos. Aí sim, seria legítimo recusar tal pagamento. No entanto o que se quer agora, é prolongar o prazo e suavizar os juros para garantir que seja possível pagar o empréstimo e possibilitar que a economia não estrangule e possa crescer. A isto chama-se responsabilidade e competência. Então volto à pergunta inicial, porque razão Sócrates e os comentadores entraram em histeria, dizendo que a esquerda quer é ficar a dever? É simples, a resposta assenta no facto de que as propostas da esquerda evitam o assalto que as instituições bancárias como o Deutsche Bank e o Citigroup estão a fazer. As propostas da esquerda evitam que se acentue a crise e que se mexa nos direitos do trabalho. Resumindo, estas propostas de renegociação, não interessam a quem está a lucrar com a crise, não interessam a quem se está a aproveitar da crise para explorar. Agora é tempo de pensarmos, não foi José Sócrates e os comentadores que durante muito tempo sustentaram este modelo e desmentiam a esquerda que avisava para este cenário? Mas a realidade dá razão a quem pede a renegociação, o INE aponta para uma contracção do PIB de 0,7% no primeiro trimestre de 2011, quando no mesmo período os países da zona euro cresceram 0,8%. E a leitura, caros ouvintes, é fácil nós não vamos conseguir cumprir
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o acordo apesar dos enormes sacrifícios e da destruição da economia nacional. Se não conseguimos pagar como é que fazemos? Na Grécia e Irlanda aconteceu o mesmo e agora vem a renegociação. É racional pedir empréstimos para pagar empréstimos? Então afinal quem é que não quer pagar? Quem é que está a faltar à verdade? Os que assinaram este trágico acordo e os comentadores, deviam responder a isto!

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