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O Homem Duplicado em Jorge Luis Borges

*Roberto Wagner Lopes Urquiza

Afinal, ao recordar, não existe ninguém que não se encontre consigo mesmo. O Outro, Jorge Luis Borges.

O conto “O Outro” de Jorge Luis Borges em sua obra “O Livro de Areia” é um conto que nos remete a um tema muito trabalhado na literatura e filosofia, a idéia do “Duplo” do homem se reencontrando, o homem no espelho da vida, olhando a si mesmo e recordando o passado. Tenho insistido nesses últimos dias no tema “memória e lembranças”, pois tenho vivido uma situação dantesca, o que me remeteu a Borges e seu “Outro” e a Saramago e “O Homem Duplicado”, neste artigo não escreverei sobre Saramago, deixarei para outro momento. Jorge Luis Borges em seu conto relata um encontro entre um Borges com aproximadamente vinte anos e um Borges mais velho com cerca de setenta anos, em um primeiro momento percebe-se um sentimento de estranhamento nesse encontro, parece que os dois são homens

completamente diferentes, enquanto o Borges jovem diz que escreveria um livro que cantaria a fraternidade de todos os homens, o Borges mais velho pergunta com sarcasmo se ele se sente realmente irmão de todos os homens, o Borges mais jovem diz que seu livro contaria as histórias de homens oprimidos e dos párias do mundo. Borges velho novamente vê na sua versão juvenil alguém inocente e diz que só existem indivíduos, lembrando que “o homem de ontem não é o homem de hoje”, percebe-se que o Borges velho se sente muito incomodado com esse encontro, olhar o passado e vê sua versão mais jovem e incoerente, traz a tona um turbilhão de sentimentos que antes não existia, um misto de compaixão, angústia chegando até mesmo em alguns momentos de amor. Bartucci diz (1996, apud Barbieri) “o confronto com o estranho põe em questão as certezas sobre si mesmo. A diferença é ameaçadora porque fere a própria identidade”.

O Borges mais velho reconhece que é impossível que eles se compreendam. . algo muito comum nos jovens de hoje. às vezes desejamos voltar no passado e sanar possíveis erros. amanhã não é mais motivo de angústia.Borges maduro quer evitar essa ameaça a sua identidade.” Assim como um pai ao ver a tolice e ingenuidade do filho ele deseja que sua versão mais jovem se reencontre que olhe com maior clareza para si mesmo.] uma onda de amor. Ele diz: (2009) “Meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão”. A versão jovem de Borges acredita no poder do novo e da imaginação. o desejo de salvar o mundo de suas agonias e salvar os oprimidos. A versão mais jovem de Borges sente-se cheio de si. pois sabe que são nossas lembranças da juventude que nos tornam o que somos. o encontro era um misto de realidade e sonho. nesse reencontro ambos acreditam que tudo não passou de um sonho. Borges nos remete a infância. Ter memória e relembrar o passado é ter em mente que todo homem também é outro homem. Borges diz (2009) “Eu que não fui pai senti por esse pobre moço [. ele sente um misto de misericórdia e amor por sua versão mais jovem. o que hoje desejamos. quando Borges velho evoca o passado faz o que Merleau.. possui medo daquilo que é impossível. olhar o passado pela perspectiva do presente nos provoca o desejo de não errar mais. Aqui percebe-se o grande desconforto que é olhar para si mesmo. lembrar o tempo de juventude nos remete a um tempo de profunda ingenuidade. mudamos constantemente. parece corajoso.. é no encontro com o outro que me torno o que sou. já o Borges mais maduro chega duvidar que alguém exista realmente.Ponty chama de reabrir o tempo. Por fim. reabrir o tempo e olhar para suas ações no passado é o caminho para a maturidade. Buscar em nossa memória parte de um homem que sabemos que não mais existe. o homem não é sempre o mesmo. analisar nossas ações principalmente quando somos mais jovens é algo que provoca espanto. o eterno desejo de infinito.

. Bibliografia: BARBIERI.. Temporalidade e Permanência: O Eu e o Outro de Jorge Luis Borges.estadosgerais.] Minha vida é uma vida feita de todas as vidas. São Paulo. Companhia da Letras. Jorge Luis. talvez tenha vivido a vida dos outros [.org/encontro/IV/.” *Licenciado em Química.pdf. Natália Alves. 2009. BORGES.Sigamos o conselho de Neruda: “Talvez não tenha vivido em mim mesmo.. Especialista em Química e Filosofia. Acessado em 08 de Julho de 2010. . Licenciando em Letras pela Universidade de Brasília. Disponível em: www./Natalia_Alves_Barbieri.. O Livro de Areia.

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