Sonetos – Willian Shakespeare ~ Soneto 15 ~ Quando penso que tudo o quanto cresce Só prende a perfeição por um momento, Que

neste palco é sombra o que aparece Velado pelo olhar do firmamento; Que os homens, como as plantas que germinam, Do céu têm o que os freie e o que os ajude; Crescem pujantes e, depois, declinam, Lembrando apenas sua plenitude. Então a idéia dessa instável sina Mais rica ainda te faz ao meu olhar; Vendo o tempo, em debate com a ruína, Teu jovem dia em noite transmutar. Por teu amor com o tempo, então, guerreio, E o que ele toma, a ti eu presenteio. ~ Soneto 17 ~ Se te comparo a um dia de verão És por certo mais belo e mais ameno O vento espalha as folhas pelo chão E o tempo do verão é bem pequeno. Ás vezes brilha o Sol em demasia Outras vezes desmaia com frieza; O que é belo declina num só dia, Na terna mutação da natureza. Mas em ti o verão será eterno, E a beleza que tens não perderás; Nem chegarás da morte ao triste inverno: Nestas linhas com o tempo crescerás. E enquanto nesta terra houver um ser, Meus versos vivos te farão viver. ~ Soneto 23 ~ Como no palco o ator que é imperfeito Faz mal o seu papel só por temor, Ou quem, por ter repleto de ódio o peito Vê o coração quebrar-se num tremor,

~ Soneto 53 ~ De que substância foste modelado. fica omitido O rito mais solene da paixão. malquisto da fortuna e do homem. A plenitude és tu. Adônis mesmo segue o teu modelo Em vã. Como a ave que abre as asas para a altura. Vendo outro ser mais rico de esperança. enfeixado Num ser que as prende. Saiba ler o que escreve o amor calado: Ouvir com os olhos é do amor o fado. Arauto mudo do que diz meu peito. Comigo a sós lamento o meu estado. . E lanço aos céus os ais que me consomem. Seja meu livro então minha eloqüência. A primavera é cópia desta forma. Se. em que consiste O ver que toda graça se transforma No teu reflexo em tudo quanto existe: Qualquer beleza externa te revela Que a alma fiel em ti acha mais bela. outro a bonança. ~ Soneto 29 ~ Quando. Descontente dos sonhos mais antigos. Se invejo de um a arte. desprezado e cheio de amargura. E o meu amor eu vejo enfraquecido. E olhando para mim maldigo o fado. esmaecida imitação. Invejando seu porte e os seus amigos. feliz. e a todas sobre excedes. Se com mil vultos o teu vulto medes? Tantas sombras difundes. por timidez. A face helênica onde pousa o belo Ganhou em ti maior coloração. Vergado pela própria dimensão. Penso um momento em vós logo. Que implora amor e busca recompensa Mais que a língua que mais o tenha feito.Em mim.

há lodo. Chorando o tempo já desperdiçado. Vão-se as perdas e acaba o sofrimento ~ Soneto 35 ~ Não chores mais o erro cometido. tão rara. e meu senso De parte adversa é mais teu defensor. Na fonte. ~ Soneto 30 ~ Quando à corte silente do pensar Eu convoco as lembranças do passado. mar sem fim Estão sob o jugo da mortalidade. Dou-me ao ladrão amado e amoroso. Por amigos que a morte anoiteceu. Pranteio dor que o amor já superara.Esqueço a lama que o meu ser maldiz: Pois tão doce é lembrar o que valeis Que está sorte eu não troco nem com reis. a rosa tem espinho. eu mesmo errei já tanto. Os sentidos traíram-te. Deplorando o que desapareceu. Se contra mim te excuso. pedra. Que te sobram razões de compensar Com essas faltas minhas tudo quanto Não terás tu somente a resgatar. Suspiro pelo que ontem fui buscar. se em ti penso um momento. amigo. Chorando o já chorado e já sofrido. é só fragilidade? . E de tais penas recontar as sagas. Como há de o belo enfrentar fúria assim Se. Mas. O sol no eclipse é sol obscurecido. Na flor também o inseto faz seu ninho. Tornando a pagar contas todas pagas. terra. Afogo olhar em lágrima. como a flor. ~ Soneto 65 ~ Se bronze. Posso então lastimar o erro esquecido. e me convenço Na batalha do ódio com o amor: Vítima e cúmplice do criminoso. Erram todos.

Pode o belo do Tempo se ocultar? Seu passo é retardado por que mão? Quem pode a ruína do belo evitar? Só se eu este milagre aqui fizer E a tinta ao meu amor um brilho der. Por que hei de temer grande traição Se tem fim minha vida com a menor. horrível reflexão. Não há mais vida se tu não ficares. Se nem rochas o podem enfrentar Nem porta de aço ao Tempo é impermeável? Diga-me onde. Como é feliz o fato que decreta . ~ Soneto 92 ~ Faz teu pior pra mim te afastares. Que uma grande alegria neste tem. Mas não sei desse meu gáudio fazer. Alguns as vestes. mesmo de um momento. Toda emoção traz seu próprio prazer. Pois ela vive desse amor que é teu. infeliz me fazeres. que tecido. De vida abençoada eu sou. Enquanto eu viva tu és sempre meu. Maior do que animal é o teu valor. Alguns o seu falcão. que é implacável. Pois eu supero a todos com um só bem. Mais que berço pra mim é o teu amor. Alguns riqueza. Tua mente inconstante não me afeta. alguns seu corpo são. ~ Soneto 91 ~ Alguns cantam seu berço. alguns talento. Por não estar preso ao teu cruel humor. cavalo ou cão. Tendo a ti sou por tudo envaidecido: Sou desgraçado só no tu poderes Levando tudo. então.Como há de o mel do estio respirar Frente o cerco dos dias. Minha vida é ligada à tua sorte. Mais rico que a riqueza.

Que encara a tempestade com bravura. E a cabeleira ao arame é igual. lá na altura. Mas que o melhor é mal ficam dizendo. Amor não é amor Se quando encontra obstáculos se altera Ou se vacila ao mínimo temor. para a eternidade. e que é falso alguém provou. ~ Soneto 96 ~ De almas sinceras a união sincera Nada há que impeça. È astro que norteia a vela errante Cujo valor se ignora. Se isto é falso. meu amor. e ninguém nunca amou. Amor é um marco eterno. E há fragrância bem mais delicada Do que a do ar que minha amante exala. mesmo quando Na música há melhor diapasão. Mas minha amada caminha no chão. tolo Amor. feliz na morte! Porém que graça escapa de temer? Podes ser falso e eu sequer saber. . Nunca vi uma deusa deslizando. é escura a sua cor. ~ Soneto 137 ~ Que fazes a meus olhos. dominante. ~ Soneto 130 ~ Não tem olhos solares. Que eles olham sem ver o que estão vendo? Sabem o que é beleza. Muito gosto de ouvi-la. muito embora Seu alfanje não poupe a mocidade. Antes se afirma. Amor não se transforma de hora em hora. aonde for. Eu não sou poeta. Amor não teme o tempo. Mais rubro que seus lábios é o coral. Vermelha e branca é a rosa adamascada Mas tal rosa sua face não iguala.Que sou feliz no amor. Mas juro que esse amor me é mais caro Que qualquer outra à qual eu a comparo. Se neve é branca.

~ Soneto 148 ~ Ai. pelo amor fica dito Que o olhar do mundo vence o de se amar. que olhos pôs-me o amor no rosto. E a noite pelo dia é oprimida? Mesmo inimigos ambos se mostrando. Por que fizeste ganchos com mentiras Aos quais meu pensamento fica atado? Por que meu coração julga ser seu O terreno que sabe ser de mil Ou contesta o que viu o olho meu Tentando tornar belo o rosto vil? No certo olhar e coração erraram E pro que é falso os dois se transportaram. Os dois se unem pra me torturar. Como pode do Amor o olhar ser justo Se entre vigília e pranto ele se verga? E nem espanta o olhar errar de susto Se sem céu claro nem o sol enxerga. Por meu labor de ti só me afastar.Se os olhos corrompidos pelo afeto Prendem-se ao baio por todos montado. ~ Soneto 28 ~ Como voltar alegre ao meu labor Se não tenho a vantagem da dormida? Se o dia tem na noite um opressor. Que não se ligam com a real visão! Se ligam. se o céu fica nublado. Que tu brilhas por ele eu digo ao dia. com pranto a me cegar Pra cobrir erros quando o amor olhar. onde foi o juízo posto Que ao certo lança falsa acusação? Se o que meu falso olhar ama é bonito Que meios tem o mundo pra o negar? E se o não for. ai. E o alegras. Esperto amor. Mas bajulo da noite a tez sombria: .

ao pó tenha voltado. insiste. se estes versos leres. Já com mais de quinhentas translações. ~ Soneto 71 ~ Quando eu morrer não chores mais por mim Do que hás de ouvir triste sino a dobrar Dizendo ao mundo que eu fugi enfim Do mundo vil pra com os vermes morar. tu lhe dás teu tom dourado. Mostrando em livro antigo a sua imagem Quando a escrita mal tinha convenções! Para eu ver o que então diria o mundo Da maravilha dessa sua forma. amarelas. Nem tentes relembrar como me chamo: Que fique o amor. ~ Soneto 73 ~ Em mim tu vês a época do estio Na qual as folhas pendem. acabado. depois que eu me for. ~ Soneto 59 ~ Se nada é novo. . como a vida. A mão que os escreveu. Quando eu. Parindo o mesmo filho novamente! Que do passado houvesse uma mensagem. eu proclamo. Ou se a revolução nada reforma. talvez.Sem astros. Mas os dias só trazem dissabores. e o que hoje existe Sempre foi. Se leres estas linhas. pois te amo tanto Que prefiro ver de mim te esqueceres Do que o lembrar-me te levar ao pranto. E as noites fortalecem minhas dores. olhando a tua dor. Para que o sábio. Do amor não ria. por falha a nossa mente E. se esforçando por criar. E nem relembres. Se nós ou eles vamos mais ao fundo. Coros onde cantaram aves belas. De ramos que se agitam contra o frio. Estou certo que os sábios do passado A alvo pior tenham louvado.

E o bronze dos tiranos vai com o vento. Em um. E de uma só maneira eu o proclamo. Quando depois que a noite o esvazia. O outro eu da morte sela a terra. E em tal mudança está tudo o que estimo. É hoje e sempre o meu amor galante. Inalterável. Bem. Bem. Por isso a minha rima é tão constante A uma só coisa e exclui a diferença. Pois todo o meu cantar a um só se alia. tens mais força para amar E amar muito o que em breve vais deixar. ~ Soneto 105 ~ Não chame o meu amor de Idolatria Nem de Ídolo realce a quem eu amo. Podem o meu amor circunscrever.Tu me vês no ocaso de um tal dia Depois que o Sol no poente se enterra. Em mim tu vês só o brilho da pira Que nas cinzas de sua juventude Como em leito de morte agora expira Comido pelo que lhe deu saúde. "Beleza. . Aqui encontrarás teu monumento. nem alma capaz de prever Os sonhos de porvir do mundo inteiro. de amplo movimento. Verdade". Com o orvalho dos tempos refrescado O meu amor a própria morte prende E em meus versos vivo consagrado. em grande excelência. Visto isso. A incerteza agora se firmou. Nem dar-lhe fado triste por certeiro. A Lua seu eclipse superou. Enquanto as tribos mudas ela ofende. eis o que exprimo. todo o sentimento. ~ Soneto 107 ~ Medos. três temas. "Beleza. A paz proclama olivas no porvir. Os agourentos de si podem rir. Verdade".

. Num mesmo ser vivem juntos agora. outrora. Bem."Beleza. Verdade" apenas.

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