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A CARDAÇÃO: cartografia de um breve instante na fiação

Ana Lygia Vieira Schil da Veiga
Ao cardar, completa-se o destrinçamento das fibras e, posteriormente sua limpeza. Desfazendo-se nós e limpando ainda mais as fibras. Ao retirar o restante das impurezas, a cardação permite que se forme uma fita ou pasta homogênea própria para ser fiada.

Prólogo – A ilha
O instante, no cronos desse artigo, se faz no momento mesmo da cardação, entre os gestos precisos do limpar a lã e penteá-la com a carda, formando um pequeno floco, semelhante a uma nuvem que, desprendido da carda, aguardará o momento do tornar-se fio pelo movimento giratório do fuso. O instante, no aion desse artigo, é acontecimento no momento outro da cardação, entre gestos ouvidos, silenciados, falados, memória futura de um fio por-vir. Matéria-bruta, ciscada, estrumada, tentada limpa, nuvada. Aquém do fio. Além do movimento muscular do corpo.

O instante, nesse artigo*, sentido mesmo/outro no aparente simples da sensação.
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* (Essa nota se faz justificação: explica, informa, simplifica, normaliza). Nesse artigo, a página branca marcada de preto é impedimento. O papel torna-se fraco veículo para uma escrita que se quer fluida e impossível. Contribui para formatar o texto

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em camada única e linear, quando de fato, a escrituração se deu em estratos variados, em tempos múltiplos, como tecido feito à mão em tear de galho seco. Tecida sobre um textourdidura ingênuo e primeiro, a trama constituiu-se em mesclas coloridas, com fios de fibras e texturas variadas. A composição gráfica diz das camadas e do tempo. A diagramação do textourdidura em itálico com capitulação negritada, quer indicar a posição da primeira escrita: crônica descritiva da etapa pioneira de um fazer simples e corriqueiro: a arte-manual da fiação, repetida outra vez no texto como refrão, ritornelo na voz do coro. Depois de urdido esse fio inicial, a navete se enche de cor outra, emprestada, citada. Atravessando o texto inocente, o dizer de Deleuze, com Nietzsche e a filosofia, buscando aproximar-se do sentido-sensação. Fibra forte, gramatura alta, também com Foucault, em rodapés, formando franjas que brotam do movimento da escritura. Tingindo de aspereza o tecido, o negrito traz o rugido-balido-fio que irrompe o discurso com urros irônicos ou conformados e mostra ora uma voz-rouca-outra-mesma ora o questionamento dessa. A ligadura une duas colunas que dizem do mesmo em vozes outras, uma traz a cor-texto para mais próximo da educação, a voz-fio de Larrosa, delicada fibra levemente torcida, moldandose na trama em camada fina e ligeira. Outra, de Certeau, urde a experiência-silêncio da fabricação com a cultura do discurso de tudo que impera no contemporâneo. Quadros aplicados como bordados em patchwork completam a composição com tecidos outros, já prontos, transpostos aos pedaços sobre a trama tecida. Formando a bainha, outro artigo, debrum comprado por metro, viés de um outro material, acabamento costurado à máquina, arremata à força o tecido feito à mão que se quer incompleto.
Estamos, então, capacitados a extrair – das palavras, frases e proposições – os enunciados, que não se confundem com elas. Os enunciados não são as palavras, frases ou proposições, mas formações que apenas se destacam de seus corpus quando os sujeitos da frase, os objetos da proposição, os significados das palavras mudam de natureza, tomando lugar no "diz-se", distribuindo-se, dispersando-se na espessura da linguagem (DELEUZE, 2008, p. 29).

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a regular a força da ação. voo leve de nuvem até o monte cardado. ao ruído da carda. Logo chegará o fio. Gesto da mão. invoca o silêncio. ganha volume e leveza. visíveis. para girarem na roda viva do fuso. uma pá de carda em cada mão. sentidos abertos ao material. Há uma escuta. ações de superfície. Ele regula a ação. Há um silêncio. reguladas pelo invisível da escuta. N S entada na cadeira. H A O A A 3 . fibra bruta se solta da carda. Uma calma na superfície do gesto. mas na pluralidade silenciosa de sentidos de cada acontecimento. cardação continua. Ele é mais do que não-barulho. do braço. O monte de lã aumenta. as pequenas nuvens de lã vão se amontoando ao lado sobre outro tecido alvejado. Um ouvir a lã e a carda. à textura e densidade da lã. corpo continua a gestuar. á uma escuta. Ele regulariza a ação. A lã compacta. sua repetição. A intensidade do gesto depende desse ouvir. Pedaços de mato. se abrindo ao ar e à luz.. ampliando o sentido do fazer. estrume. Uma a uma.. Ela é mais que ouvir. a ouvir. fralda suja de ciscos. A continuidade desse gesto. penteia e separa a lã em pequenos montes nuvados. A fralda branca tingida de escuros. Há uma voz. O ouvido ativo promove o gesto. ampliando o sentido do fazer repetido. prontas para serem torcidas.Parte 1 – Na ilha: a crônica da cardação ietzsche não acredita em grandes acontecimentos ruidosos. carrapichos. Há um silêncio. espinhos. fralda branca no colo.

S 4 . 3). no ruído da carda que move e penteia preenchendo de ar e luz a lã. Há uma fala. futural. entada na cadeira. 2001. G estos que repetem no devir do fio. Enésima repetida num fazer pastoril multimilenar. sentidos atentos e abertos ampliam o sentido do fazer. A voz imaterial. Uma cena simples. para girarem na roda viva do fuso. as pequenas núvens de lã vão se amontoando ao lado sobre outro tecido alvejado. penteia e separa a lã em pequenos montes nuvados. feito da nuvem de lã. prontas para serem torcidas. Deleuze – Nietzsche e a filosofia Eis porque Nietzsche não acredita em grandes acontecimentos ruidosos. Há uma escuta.voz do fio regula o gesto da carda. mas na pluralidade silenciosa de sentidos de cada acontecimento (DELEUZE. Feito no cisco do nãofio. A voz inaudível e invisível. Diluição de formas. Parte 2 . Um fazer leve e calmo. Fio futural. Ela é mais do que fala. uma pá de carda em cada mão. amplia o sentido da nuvem de lã. bucólica. Gestos na superfície invisível da fiação. Porta aberta para um ir e vir no tempo. Uma a uma. ingênua. A N Fio não presente. Indefinição de uso e fim. Há uma voz.Na ilha: o indizível do sentido-sensação da cardação A inocência é a verdade do múltiplo. pacífico e pacificador. Deslocamento de espaços. Fazer de verbo no infinitivo. Impregnado no cronos de um comum e bom senso. Há um silêncio. fralda branca no colo. os gestos agenciados no fluxo da cardação. o corpo. p.

em zonas de indiscernibilidade.. p. ela mesma entendida como um instrumento dos instintos (OLIVEIRA. incerta. no não visível. um odor. p. para a memória.Gesto confundido. 4). 2001. se não sabemos qual é a força que se apropria da coisa. que passam de uma ordem à outra numa elasticidade de forças invisíveis que atravessam os corpos (DELEUZE.]” (Idem. algo que se passa entre uma cor. 229). da memória. lembram-se de experiências anteriores. Ele regula a ação.] porque estamos no impensável. Cada palavra e cada número são resultados desse processo físico e se tornou firme em algum lugar dos nervos. 24). incesta. Narração impossível. vol. p. por exemplo. 23).. um sintoma que encontra o seu sentido numa força atual (DELEUZE. não passa de um engano. biológico ou mesmo físico). p. coagulada. o que sobra? Uma escuta da sensação. visíveis. 1 [. 9. p. um ruído. uma vez que o corpo guarda uma força muito maior de lembrança: “todos os nervos.] O intelecto como lugar. á uma escuta. Ela é mais que ouvir. mas um signo..177). ações de superfície. 1988. Um ouvir a lã e a carda. [.. Ou seja. no disforme. nem mesmo uma aparição... um gosto. um peso e implica em misturas. O ouvido ativo promove o gesto. que a explora. 2009. “o intelecto é a ferramenta do nosso instinto e nada mais [. 2007. Prolongamento e tentáculo de substantivo. o corpo e seus nervos têm um papel preponderante em relação à consciência. reguladas pelo invisível da escuta. do braço. por exemplo. ampliando o sentido. H H á uma escuta. Um fenômeno não é uma aparência (imagem). Além disso. misturado entre o sujeito e seu predicado. Memória (1) curva. no indescritível. A intensidade do gesto agencia esse ouvir. Nós nunca encontraremos o sentido de alguma coisa (fenômeno humano. e então. um toque. que dela se apodera ou que nela se exprime. 5 . Gesto da mão. Tudo o que se organizou nos nervos continua vivendo neles” (NIETZSCHE. na perna. a sensação do fazer. no não nomeado.

arejamento. Qualidades veneráveis de um fazer correto e exato. entre outros. Luz. Corpo dócil. singular. Como em Foucault dito por Deleuze. O que vazou da natureza ideal. Sentido? O corpo educado na cardação. espaço de irregularidades. além do saber do tecido. se fará limpa. não será mais bruta. Logo. Em breve. 2008. Seus sentidos e sensações compõem um todo estável e permanente. Resto. Sensação. O trabalho continua silencioso e dinâmico. 2 Seria esse lançado fora uma rachadura no ato mesmo singelo e tranquilo da cardação? Uma abertura para uma tempestade de forças por vir? O fora da fibra. A mão educada aciona a carda que penteia a fibra. Pedaços de mato. Espinho: intensidade vibrando sobre ele mesmo. espinhos. capim. ganha volume e leveza. se abrindo ao ar e à luz. estrume. cisco não-estratificado. relações de força. potência. inicia-se o processo de limpeza. um certo vitalismo. Erva-daninha. pois o começo e o fim são claros. fralda suja de ciscos. O que não serve será posto fora (2). 99). são termos que designam o Fora e que afirmam nele um profundo vitalismo.A força que se apropria da cardação é força de corpo? Corpo-cardação? Que pode um corpo-cardação? Fazer de um simples gesto motivo de expressão? Que passa no corpo-cardação? Que flui no corpo-cardação? Movimento? Memória? Saber indizível. movimentos tranquilos e estáveis proporcionam o realizar da tarefa. Fragmentos expostos e excluídos sobre a superfície branca e imaculada do fim. p. um futuro certo. O fio virá como destino de fibra trabalhada e limpa. Da matéria-bruta. carrapichos. Esse corpo educado para o fio percebe. leveza. em que culmina o pensamento de Foucault? A vida não seria essa capacidade da força de resistir?” (DELEUZE. Aquém do fio. A fralda branca tingida de escuros. a lã compacta. suja. resistência. O cisco negado não diria também do devir do fio? Seria não-dito na vida do fio? Desutilidade no futural fio? A 6 . Finalidade exterior do fio. devires. informe. inominável. Ajustada. um espaço outro. “A força vinda do lado de fora – não é uma certa idéia da Vida. singularidades. fora do domínio das formas. Há meio.

É crime. Corpo-motor coordenado para o fazer adequado. Urro. inafiançável. O O A 7 . 20). Superfície viva do pasto no colo. Vem daí o caráter irredutivelmente sintético da sensação. explicado. à textura e densidade da lã. Uma calma na superfície do gesto. Impossibilidade higiênica. p. ao ruído da carda. Que estratifica sentires e sensações reguladoras do ato mesmo de cardar? Que sensações outras atravessam o corpo que carda? Corpo educado pelo fazer objetivo do fio.corpocardação sentinte permeado por forças. Todo o tudo tem de ser narrado. 2007. interpretado. o dentro e fora do campo. Nos perguntamos de onde vem tal caráter sintético pelo qual cada sensação material tem mais de um nível. Há um silêncio. a ouvir. É grito. Que sensações outras atravessam o corpo que carda? Que educação se dá no corpo que carda? O que diz o corpo que carda? O que diz a carda no corpo? Que fala a carda? sentida? (DELEUZE. O indizível é crime hediondo. virado notícia. fibra bruta se solta da carda. O que vem a ser este nível.gesto aparentemente simples . a regular a força da ação. o antes e o depois. pensado crítica. Mistura de lã e resto que não deixa claro o limpo e o não-limpo. A impossibilidade de dizer não é silêncio. voo leve de nuvem até o monte cardado. e o que torna sua unidade sentinte ou A cardação . mais de uma ordem ou domínios. sentidos abertos ao material. sensação. opinado.O resto deixando marcas. argumentado. corpo continua a gestuar.

silêncio. As palavras cobrem lembranças. Nada de dentes. o sentido do fazer repetido. mas aqueles que as sucessões da sintaxe definem” (FOUCAULT. Quando começa a estudar. quando atinge o corpo através do organismo. palavras estão órfãs desse decisões e sentimentos que silêncio em que o estudante presidem em silêncio ao poderia encontrar seu cumprimento das tarefas do espaço (LARROSA. Em plena carne ela é diretamente 3 Em As palavras e as coisas. todo o silêncio e não são. Palavras e coisas não coincidem nunca. desregular. limpada. p. e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens. e portanto não orgânico. 55). Ele é mais do que não-barulho. Nem ventre. para palavras não deixam um que aflorassem aos lábios silêncio. Destinada ao fio. 25). do sabido. comparações. deseducado. Toda uma vida não orgânica. O corpo é inteiramente vivo. pois o organismo não é a vida. penteada. do explícito. zonas. movimentos cinemáticos e acessórios. invoca o silêncio. ampliando a sensação. e a aprisiona. receios. A matéria-bruta cardada. Nada de laringe. A A sensação é vibração. Nem esôfago. 2009. Fio futural se é incerto. 8 . “Nada de boca. continuidade desse gesto. deixado inerte sobre a alva capa. cotidiano (CERTEAU. rompe os limites da atividade orgânica. Há um silêncio.indizível é resto (3). Nem ânus”. Nem estômago. Nada de língua. 2007. o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam. Sabemos que o ovo apresenta justamente este estado do corpo “antes” da representação orgânica: eixos e vetores. p. o Pensava-se em ganhar a estudante descobre que as confiança no diálogo. metáforas. gradientes. Foucault afirma que “por mais que se diga o que se vê. sua repetição. sobra. é tornado refugo ou arte. 25). reticências. o que se vê não se aloja jamais no que se diz. todo um não elas próprias. O não-dito . A educação do corpo educado para a carda é do dito. As dito dos gestos de mão. Ele regulariza a ação. p. 2003. estrume. toma um movimento excessivo e espasmódico. Assim a sensação.

vincada. A nuvem que voa uma política de coerções que consiste num trabalho sobre o corpo. voltada para esse objetivar. preciso. o estrume.. 24). mas ação no atouma relação que é mesmo movimento. vigora. A cardação continua. A potência do fazer supera a utilidade do fazer. 2004. manipulação calculada dos seus elementos. sem dobras. Objetivo. contínuo (4). que visa não unicamente o aumento [. 119). Momento exato de vida viva. A disciplina aumenta as forças do gordura da econômicos de utilidade) e diminui calor da corpo (em termoslã na pele. atento. á uma voz. passada. Antes do fio. Da constituição do sentido-sensação no corpocardação. todo das suas habilidades. de morte certa. amplia o sentido da nuvem de lã. O objetivo da educação dono corpo se quer regular. contínuo. ela dissocia mãe que atravessa a por um lado do calor mão da o poder do corpo faz dele sensação uma "aptidão". A voz inaudível e invisível. A voz do fio regula o gesto da carda. lã e cisco. Logo chegará o fio. O ato mesmo do fazer da cardação é ato de afirmação da cardação. A cardação é ovo. O impossível da educação é o oco. uma "capacidade" que ela procura aumentar. H 4 O futurouma arte do corpo humano. a potência que poderia resultar disso. o capim seco. Regulador de ação externa. plena de intensidade incerta.levada pela onda nervosa ou emoção vital (DELEUZE. 2007. p. Vibração oca e vital.. preciso.] nasce fio regula a cardação.. O objetivo da cardação é o fio. a exercitados. Só o fio [. espaço antes da representação do fio. Ela é mais do que fala.]. seus gestos. futural. toda a formação de de cardar no mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil é. O impossível do escrito é o resto. A A sensação da mão na lã. o cisco. Todo gesto. e faz dela uma relação de sujeição estrita (FOUCAULT. numa preenchendo o ar com lã não é nada. disciplina fabrica assim corpos submissos e fio. fora do fio. O objetivo dessa escrita é revelar o invisível da cardação-educação-no-do-corpo. os chamados "corpos dóceis". vidente. Fibra-bruta-suja-devida. Há uma voz. o espinho. e inverte por outro lado a energia. Possibilidade aberta de nuvem. O monte de lã aumenta. dos É antes do dos seus comportamentos. Forma-se então. A voz imaterial. Corpo que se quer preciso. 9 . O impossível da cardação é o não-fio. ouvido.. Regular. Constituidor de superfície plana. a lembrança do essas mesmas forças. cisco e lã. p.

A mesma cardação insiste na e o para estudar. toda a melancolia. O estudante. os gestos agenciados no fluxo da cardação. Tecido útil para roupa civil. A cardação se afirma encontrar um lugar para se ferramenta que não a momento. Com tornou a grande fabricante. Deus possível. 1973. Michel O movimento da cardação não explica a sensação da assim não é possível. a repetição do fazer. higiênica. O futuro é a maneira como reagimos ao que se passa. Há uma escuta. O futuro do fio é a educação. precisa. 10 . O estudo todavia não é Desde o Renascimento. Novelo pronto para o uso na teia. do destino de Sexta-Feira" N o corpo. movimento preciso na conformação da matéria-bruta. se retirou do mundo e a com todo o silêncio. Preta-brancalinear-sequencial. p. ele Robinson Crusoé. existência do fio. Há uma fala. o estudo ainda sua Palavra. texto que sem intervalos do alvorecer jamais se cansava de Exploração regida por sensações diretas. o entendimento do escrito pelo educado que pageia de cá para lá as folhas do livro. para aquém e alémlinguagem seráfio. limpa. O futuro do escrito é a página. precisa trabalhador que maneja outra permanência da nuvem. 5 Penso que o futuro somos nós que fazemos. é a maneira como transformamos em verdade um movimento (FOUCAULT apud LEITE. 147).O futuro (5) da educação do corpo é o fio. Por ação ler e agora. o estudo ainda figura da história. No Certeau encontrava a cardação. Há um silêncio. sentires outros. Gestos na superfície invisível da fiação. A própria cardaçãoagora "o sujeito da não é possível. escritura é o senhor. sem restos. O marcas do espaço sem movimento da cardação é uma máquina em expressão mítica perfeita que agencia estares labirinto aqui e no tempo outros. Útil. o estudo ainda assim comentar: questiona a de forças invisíveis. sentidos atentos e abertos ampliam a sensação do movimento. Desta a aspereza. com toda fonte de todo poder. Movimento preciso do fuso na formação linear de corpos. O futuro do sentido é a compreensão. Assim ela se assim não é possível. Com todo o tempo. Com escritura não é mais a toda a atenção intérprete do sentido oculto de concentrada.

a linguagem só tem seu lugar na soberania solitária do ‘eu falo’. mas exposição da linguagem em seu ser bruto. nele se representa às vezes sob uma forma gramatical 11 .. o dito é da escritura que interpreta a cardação. É ilisível. não digo retomá-la exatamente. nem os valores ou os sistemas representativos que ela utiliza. A cardação-sexta-feira não se diz.] Se. p. pelo contrário. No cheiro-toque leitor que folheia. que através dele afirma e julga. Possibilidade de composição de fluxos(6). O verdadeiro acrobata é aquele da imobilidade no círculo (DELEUZE. O movimento da escrita não explica a cardação da escrita. existe imobilidade para além do movimento. Fazer escrito-fiação de página. mas que somente se pode fazer plenamente na medida em que escapa à pura subjetividade e em que outros possam. mas ao menos cruzá-la e reatravessá-la (FOUCAULT. Pensar educação como o mesmo. Realizar a tarefa. que dá à cardação sentido. expô-la ao ar e à luz. O cisco na página branca. Dar-lhe forma. por direito nada pode limitá-la — nem aquele a quem ela se dirige. e para além do estar sentado. Experiência de corpo-leitor. espinho. Fazer do sentido um múltiplo paradoxal e inexato. pura exterioridade manifesta. Alvejá-la. e o sujeito que fala não é mais a tal ponto o responsável pelo seu discurso (aquele que o mantém. não é mais discurso e comunicação de um sentido. 2001. utilidade. 2007.. para se dissipar enfim. Rapto da cardação. 6 Uma experiência é algo que se faz completamente só. 22). Seguindo a lei de Beckett ou de Kafka. Faz da cardação algo impossível. Corpo-escrita da experiência. nem a verdade do que ela diz. sua vis elastica. Ato mesmo-outro da educação. 47). ele se explica pela elasticidade da sensação. para além do estar em pé existe o estar sentado. p. Seria possível na cardação criar outra palavra para dizer do sentido-sensação? Como dizer o indizível? Que corpo-escrita é preciso inventar? Que corpo-leitor é preciso criar? O movimento não explica a sensação. Fazer de corpo-outro. [. Pensar sensação como um único. Abrir a lã. estar deitado.A cardação se quer presença. O tecido da página desnarra o sentido da cardação impossível do escrito. em suma. Invenção de sentido. de fato. estrume.

infinito. Buscando o centro. ali se faz plural como os ruídos do corpo. o estudante encontrará o não-lugar do estudo.. Buscando o lugar no qual fixar-se. Buscando o repouso. Astúcia. própria. mede toda a realidade por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma as comunicações em viagens do olhar. estável e sem falha. 48). esta produção é igualmente uma invenção da memória. Buscando uma língua transparente. encontrará no tempo mesmo o elemento da dissimilitude. encontrará uma linguagem inapropriável e em movimento. da distância e da diferença. p. se perderá e encontrará movimento.] (CERTEAU. É uma epopéia do olho e da pulsão de ler. a continuidade e a estabilidade no tempo.. A leitura (da imagem ou do texto) parece aliás constituir o ponto máximo da passividade que caracterizaria o consumidor. ali onde não poderá estabelecer-se.Sensação invisível. ali é transportado. (LARROSA. 111) [. p. o estudante encontrará. [. [. O corpo-escrita que olha o corpoleitor com olhos cansados.. combinatória. perderá o pé.] O binômio produção-consumo poderia ser substituído por seu equivalente geral: escrituraleitura. Buscando-se a si mesmo.. 2003.] (Idem... 12 .. metáfora. a errância infinita. Buscando a permanência no tempo. no estudo. sua própria inexistência. p. algo (se) passa. 2009. [.] a nossa sociedade canceriza a vista. se encontrará lançado a um espaço aberto.] [O leitor] insinua as astúcias do prazer e da reapropriação do texto do outro: aí vai caçar.. 220).. onde saboreará o gosto ácido da metamorfose. constituído em voyeur (troglodita ou nômade) em uma sociedade do espetáculo. preparada para esse efeito) [.. Faz das palavras as soluções de histórias mudas. sem marcas. Onde a cardação? Entre ler e escrever.

cada domínio teria uma maneira de remeter aos outros. cronos específico no fazer gestual do corpo. No ato mesmo da educação de corpos. Necessidade de dizer do corpo cardador para gritar à cabeça estos que repetem no devir do fio. um gosto. a matéria-bruta da lã suja se purifica. feito da nuvem de lã. a metáfora exige sentido e confecção. É justificativa da cardação na educação da escola. um toque. Ato vil de sujar as páginas do escrito com intensidade sem sentido. A cardação não se diz. Sentido impossível para uma intensidade que se faz resto. 22). um odor. Fio futural. No ato mesmo da cardação. Sexta-Feira.A cardação como silêncio. Fio não presente. um peso. p. Sentido para a escrita que urra. independente do objeto comum representado. É muda. Incesta. existiria uma comunicação existencial que construiria o momento “pathico” (não representativo) da sensação (DELEUZE. G Os níveis de sensação seriam verdadeiramente domínios sensíveis remetendo aos diferentes órgãos dos sentidos. Entre uma cor. 1981. se organiza em função e fim. no ruído da carda que move e penteia preenchendo de ar e luz a lã. mas cada nível. É vontade de uso outra da cardação. Feito no cisco do não-fio. Inutilidade por vício incompreensível. se otimiza. O dito da cardação é tarefa. 13 . um ruído.

Além do movimento muscular do corpo. ciscada. vielas de sentimentos. racional. Antes do fio. esse simples gesto de cardar a lã promove sensações outras que levam a cardação a domínios outros. constitui-se o labirinto. entre os gestos precisos do limpar a lã e penteá-la com a carda. foi acontecimento no momento outro da cardação. Escrita educada para o dizer lógico. No entanto. instituíram um tempo outro. tentada limpa. A sensação-carda não pode ser descrita. no aion desse artigo. A arte-manual sendo empregada para um fim: o fio. elástica. o instante. É muda. aguardará o momento do tornar-se fio pelo movimento giratório do fuso. O instante. Linearidade regular de um movimento de corpo. muros de sentido. escrita. silenciados. utilitário. falados... Há um pensar? O corpo sensível pensa para além do fio? O ato mesmo do cardar traz em si a potência do fazer? Fazer outro? Pensar outro? Pensar mesmo? Fazer mesmo? Parte 3 – O resgate Falou-se nesse escrito de muitas coisas. 14 . Corpo educado para o fazer objetivo. o odor de estrume e óleo. Paredes de sensações. o ruído da escova. A escrita do pensar do fazer não fala do pensar do fazer. Instante impreciso e disperso. o toque da fibra. O instante. entre gestos ouvidos. memória futura de um fio por-vir. idas e vindas de um texto-experiência. abarca o fora e o dentro da cardação. Agora. torna-se o sentido mesmo/outro no aparente simples da sensação. surgidas no instante mesmo do cronos da cardação. na presença desse artigo. estrumada. desprendido da carda.O impossível do dizer se dá no impossível da descrição do fazer. no cronos desse artigo. Aquém do fio. O pensar do fazer é mudo. semelhante a uma nuvem que. nuvada. A experiência da cardação como fluxo expõe a ferida da educação do corpo. A sensação-carda é múltipla. Matéria-bruta. o peso da carda. formando um pequeno floco. a cor da lã. se fez no momento mesmo da cardação.

livre de toda a selvageria. ******* Parte 4 – Continente A vós. No futuro. O CORPO-ESCRITA DA CARDAÇÃO: cartografias de um fluxo de linguagem sobre um breve instante de cardação Ana Lygia Vieira Schil da Veiga 15 . Resgatado. educado e feliz. O que Crusoé trouxe da ilha. 2008. fazer da ilha um lugar próspero.Robinson Crusoé recebe o castigo do destino e naufraga. No sobreviver da ilha. intrépidos exploradores. Aprisiona o fazer vivo e mudo na escritura. p. A partir de agora. a escrita legível. nesse artigo. pesquisadores. o plano: voltar à ilha. artigo outro.. 171). e a todos quantos alguma vez embarcaram com velas astutas em mares terríveis . abandona o silêncio de SextaFeira e traz consigo somente o escrito. possível.. (NIETZSCHE. escreve.

arte-manual. Resumo: A presença desse artigo é uma tentativa de cartografia do corpo-escritura na experiência-acontecimento do corpo-cardação. Desde a redação do projeto de pesquisa para o doutorado. Na trajetória dessa afirmação. O corpo-cardação-escrita se apresenta múltiplo.. atravessado por fluxos de forças que levam à problematização da educação do corpo que gestua e escreve do gesto. Sensação tátil que se queria expressa em corpo-pensamento-linguagem. pelo que se luta. .. 16 . a escrituração avança para a discussão da linguagem através do relato de um ato aparentemente simples. o poder do qual nos queremos apoderar. almas atraídas por flautas a todos os labirintos. Palavras-chave: Educação. amigos das penumbras. ANTES DO FIO..a vós. A doutrina das coisas próximas e a cognição do corpo com Nietzsche. ébrios de enigmas. Partindo de uma ação primeira de observação do gesto de cardar.. Michel Foucault. o limpar e pentear a lã. mas aquilo por que. 2000.O discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação. linguagem. corpo.. experiência. p. a doutrina das coisas próximas. a escrita-leitura ordinária junto de Certeau. são olhares que ajudam a pensar a ação mesma de um corpo-tátil que escreve na educação.. 171). uma inquietação perpassava a forma desse abordar o fazer manual: fazia-se querido afirmar o corpo-fazedor no meio acadêmico e escolar. o labirinto-experiência da escrita. (NIETZSCHE. a não coincidência entre palavras e coisas em Foucault. 2008.. O que movia o instante mesmo do início desse escrito era uma vocação manual.

a cardação. a escrituração se fez impossível. O fio-artigo... 17 . sem banho. Mostrar o tato no fazer manual como possibilidade de derivação de uma pluralidade de perspectivas que captam a realidade. Fluxos de vozes brotaram da descrição do fazer manual da fiação. disposto a solucionar as mazelas da educação escolar. 2008. O FIO. impondo um ritmo outro à proposta inicial.a vós. inaugurado pelo projeto de pesquisa. 171) Antes do fio. Ato de fazer com mão que leva a um outro fazer e implica em estar outro de corpo-experiência numa experiência de corpo muscular e oco. "fazer é pensar". especialmente para o alfabetizador de crianças. Nesse cenário. a tese. onde o corpo é considerado como sendo o mais próximo. Desde lá. o labirinto a constituir-se. e a inventividade das ações ordinárias e cotidianas junto a Certeau. o mapeamento do fazer manual pela cartografia teve a intenção de tornar visível para a educação escolar. (NIETZSCHE.. escritura sobre um instante da cardação é promessa incumprida. porém permanece desconhecido e desprezado diante da apologia à ficção idealista. Fio futural que faz o artigo naufragar na voz rouca de uma linguagem-marinheiro incerta.com Nietzsche. presença nesse artigo.. Linguagem mesma-outra que nada tem de racional. exausta de marejamento. p. atravessamento que marca o papel com a tinta da intensidade do ato mesmo que o fazer manual da escrita produz. na promessa-fio de uma arte-manual colaborativa e aplicável. mas é vícera que exala gases. No entanto. Valorizar o tato como mediador direto entre o corpo e o mundo e porta da memória (Nietzsche). a partir de Sennet. promessa incumprida . O artigo fale na sua missão de exaltação de um fazer manual limpo e produtivo. A escritura surgida se fez corpoexperiência. escorbútica. seria um primeiro movimento. que não quereis tatear em busca de um fio com mão covarde. a potência de um corpo-tátil.

25). o que se vê não se aloja jamais no que se diz. como na nota quatro do artigo-primeiro. escrita movida como alvo e arma. metáforas. 2007. Dizer da cardação-coisa é possível? A cardação não seria indizível? Matéria-bruta na cardação se quer limpa e dita.O artigo revela um outro – monstro maldito – minotauro rebelde e tricoteiro. Ao mesmo tempo apontada para algo (a arte-manual) e voltada para si (a escrita) com violência. Corpo-experiência paradoxal. Violência que violenta o modo mesmo do fazer social da carda-escrita. esse mesmo que se fala. Palavras e coisas não coincidem nunca. mas aqueles que as sucessões da sintaxe definem” (FOUCAULT. p. e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens. sabota o conserto pela arte e declara o impossível da escritura-experiência. comparações. A NAU À DERIVA? Há bússola? É preciso perder-se? Há porto? A experiência da escrita é sempre "sobre"? É possível escrever "com"? O fazer manual é sempre indizível? As artes manuais são sempre dóceis? Onde a potência do fazer? Perguntas que atravessam e desestabilizam o ato-vontade da escrita primeira. Foucault afirma que “por mais que se diga o que se vê. o lugar onde estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam. Que faz estar fora e dentro da escritura. constrange projetos de pesquisa. O artigo. Constitui-se um território habitado por coisas e palavras que não coincidem nunca. Ou seria o fio que quer calar a cardação? O objetivo da cardação é o fio? E a potência mesma da cardação? Pergunta: o objetivo do artigo é 18 . Na escrita outra que surge atravessando o ritornelo da crônica descritiva. cobertor. inserida em "O indizível é resto": Em As palavras e as coisas. movida por pensares sobre a importância da arte manual e a necessidade de sua inserção efetiva nos currículos escolares. o estribilho que volta e se repete dentro do texto-tecitura. diz-se da coisa com palavra outra. monstrengo que faz do fio seu abrigo.

Como em Foucault dito por Deleuze. não estaremos negando vida e infância? Seria o tempo presente. relações de força. espaço de irregularidades. Constituir um outro. em que culmina o pensamento de Foucault? A vida não seria essa capacidade da força de resistir?” (DELEUZE. 99). podemos indagar: o objetivo da alfabetização é a aprendizagem da leitura-escrita? Mas e a potência mesma da alfabetização? Será que é o porto o objetivo da navegação? E a potência mesma da viagem? Se lemos o artigo apenas para saber da cardação. esse momento da presença na ação. todo acontecimento que possa vazar do ato mesmo e por em risco o objetivo mesmo. perder o rumo é abrir-se à barbárie? Não seria tão somente sentir a brisa. fora do domínio das formas. Aquém do fio. Isso tudo eliminaria o porto? Tudo isso que é corpo e 19 . ver o jato do vômito sobre a murada. um espaço outro. singularidades. entre outros. cisco não-estratificado. informe. devires. singular. o "antes" do objetivo-porto? O lançado fora. perder o equilíbrio no vai-vem das ondas. não estaremos vivendo um tempo outro fora da presença da carda? Se metodologizamos a alfabetização de tal forma que as crianças se privem de um presente em função de uma aquisição futural. 2008. O cisco negado não diria também do devir do fio? Seria não-dito na vida do fio? Desutilidade no futural fio? Lançar fora a presença do presente.falar sobre? E a potência mesma da escrita do artigo? Também. um certo vitalismo. são termos que designam o Fora e que afirmam nele um profundo vitalismo. como em "O que não serve será posto fora" da nota dois? Seria esse lançado fora uma rachadura no ato mesmo singelo e tranquilo da cardação? Uma abertura para uma tempestade de forças por vir? O fora da fibra. além do saber do tecido. potência. se pensarmos nas inquietações primeiras com a escolarizaçãoeducação na alfabetização. olhar o por do sol. resistência. “A força vinda do lado de fora – não é uma certa idéia da Vida. não estaremos perdendo cardação e artigo? Se cardamos apenas pensando no fio. p. descartar toda a rachadura. pensar somente no objetivo.

A disciplina aumenta as forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas forças. (Fernando Pessoa. faz dele por um lado uma "aptidão". A RODA DA NAU( ) 7 Na condição de sensação./E disse: «Quem é que ousou entrar/Nas minhas cavernas que não desvendo. 2004. as linhas fugidias da escuta se dobram e atraem a percepção para dar voz aos trajetos produzindo dizibilidades (COELHO. numa manipulação calculada dos seus elementos. mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil é. 20 . Forma-se então. a escuta aciona uma “língua estranha” para criar matérias de expressão é neste sentido que a escuta é poética: compõe e inventa. E então. O monstrengo). contínuo"./Voou três vezes a chiar. dos seus comportamentos. p./Meus tetos negros do fim do mundo?».próximo se faz desutilidade no objetivo do porto? A utilidade da ação é que regula a ação? Como na nota quatro "O objetivo da educação do-no corpo se quer regular. os chamados "corpos dóceis". 7 O mostrengo que está no fim do mar/Na noite de breu ergueu-se a voar. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha./A roda da nau voou três vezes. e faz dela uma relação de sujeição estrita (FOUCAULT.. que visa não unicamente o aumento das suas habilidades. dos seus gestos. o desarticula e o recompõe. preciso. 35). 119). 2002. a potência que poderia resultar disso. p. e inverte por outro lado a energia. A disciplina fabrica assim corpos submissos e exercitados. O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano. uma "capacidade" que ela procura aumentar. uma política de coerções que consiste num trabalho sobre o corpo. Ela dissocia o poder do corpo..

Do que se trata mesmo a escrita? Texto-escrita-leitura que leva a paragens outras. não passa de um engano. Navio esquecido do porto. ao contrário. no contínuo da segunda sala. incomodar-se. e além disso.. todos os traços de uma produção silenciosa: flutuação através da página. "Memória curva. 2009. incesta" como dita na nota um: [. da memória. Faz das palavras as soluções de histórias mudas (idem.. metamorfose do texto pelo olho que viaja. 2003. algo flexível.] O intelecto como lugar. portal de memória no-do corpo. resta o resto do cisco.. dança efêmera. A escrita-experiência-ilisível que faz esquecer o rumo. 76). a leitura não pareceria constituir "o ponto máximo da passividade" (CERTEAU. resta o sentindo-sensação do fazer-experiência-outra. que inverte a bússola. ali se faz plural como os ruídos do corpo. [O leitor] insinua as astúcias do prazer e de uma reapropriação no texto do outro: ai vai caçar. 48). portal de memória do corpo que lê. ali é transportado. p. cheio de manhas. que neblina o porto. p. resta o barulho da carda.E a leitura da escrita? Não deveria trazer potência mesma da escrita? A leitura. na 21 . 48)? De fato. [. não estaremos perdendo o ato mesmo da leitura? Nesse sentido. um descobridor" (Nietzsche.. por exemplo. p. acaba surgindo sempre um monstro de coragem e curiosidade. por exemplo. viagem longa no cubo do tempo. não deveria afirmar de si? "Quando eu fico a idealizar a imagem de um leitor perfeito. improvisação e expectação de escritos. faria o leitor esquecer-se. a atividade leitora apresenta. um aventureiro nato. permitir-se outro. Como o cardador de três salas de lã. incerta. metáfora. Presença. esta produção é igualmente uma "invenção" de memória.]. Astúcia. combinatória. A leitura também é cardação? Se lemos com um determinado objetivo. uma vez que o corpo guarda uma força muito maior de lembrança: “todos os nervos. precavido. o fio futural está esquecido. vaza do texto num fora repleto de textos outros. ela mesma.

Descolado da metodologia significativa do fio. inventar os traçados de conveniências e de gestos. O corpo mareado.] Tratar assim as 8 . Tudo o que se organizou nos nervos continua vivendo neles” (NIETZSCHE. comida de peixe. 229). vazada do objetivo mesmo. Sucata. jogar esse jogo do intercâmbio gratuito. A consciência. 2009. aniquila progressivamente a exigência de criar e a "obrigação de dar".] No terreno da pesquisa científica (que define a ordem atual do saber). Texto habitável em prática comum. 22 . ela mesma entendida como um instrumento dos instintos (OLIVEIRA. p. 9. pode-se desviar o tempo devido à instituição. o intelecto querendo o porto. “o intelecto é a ferramenta do nosso instinto e nada mais [. (Fernando Pessoa./Três vezes rodou imundo e grosso. Finalidade outra. [.. Prática desviacionista. vol.«De quem são as velas onde me roço?/De quem as quilhas que vejo e ouço?»/Disse o mostrengo. e rodou três vezes. [. subverter assim a lei que.. Pensar outro. 1988. quando não se limitam a "fechar os olhos". não intelectual.. o corpo e seus nervos têm um papel preponderante em relação à consciência. olhando o horizonte. Cada palavra e cada número são resultados desse processo físico e se tornou firme em algum lugar dos nervos. perdendo tempo. na fábrica científica. Cisco utilizado pelo corpo-memória. Cardação como escritura outra do fio.. coloca o trabalho a serviço da máquina e. fabricar os objetos textuais que significam uma arte e solidariedades.. incapaz de manter o rumo. Ou seja. em outro devir.. mesmo que castigado pelos patrões e pelos colegas. p. lembram-se de experiências anteriores.. O monstrengo).perna... com suas máquinas e graças a seus resíduos. para a memória. garantir o futuro do porto (8). 177). O vômito posto fora pela murada.]” (idem. Fazer de corpo em desuso. fazer simples.. p. Resistência. 4)./Que moro onde nunca ninguém me visse/E escorro os medos do mar sem fundo?». responder com um presente a outro dom. Além disso. esquecido./«Quem vem poder o que só eu posso. na mesma lógica.

enquanto reconhece como secundárias as da visão da linha e das figuras: “que possamos pensar sob a forma de imagens e sons. como aquilo que é muito mais antigo do que as formas cognitivas da consciência (como sinônimo da ideia de alma). mas articulações das forças que se efetivam no corpo em suas relações com o mundo. uma escrita do tato.táticas cotidianas seria "ordinária". vol. O fio distante. certamente dos afetos: e estes são uma pluralidade. assim. insiste Nietzsche. 647). em outro fragmento póstumo de 1885 (idem. o convés. Escritura tateada. futural. 1988. Nietzsche explicita a maior relevância das sensações do tato. 11.] Nietzsche recupera. [. 2009. não é necessário mais pensar a idéia de um sujeito dono do corpo: “evidentemente o intelecto é apenas um instrumento. praticar uma arte situação comum e maneira de fazer p. incerto. acontecida dentro do artigo mesmooutro. O corpo como o próximo mais próximo. A escrita-cardação como memória de corpo. 643). um valor cognitivo para o corpo. Essa escrita menor. Atrás desses impulsos. O acesso a essas impressões e 23 . longe do corpo-nau. achar-se na fazer da escritura uma "sucata" (CERTEAU. O corpo mareado. pensada por corpo-próximo. basta apreendê-la como regente” (NIETZSCHE. como resistência ao fio. Resistente à ideia de finalidade outra que não o marear. ideal. O conhecimento não é mais característica de um sujeito predeterminado e a ação não é mais resultado de uma intenção moral desse sujeito.. como experiência de corpo. sobre isso não resta dúvida: e também é possível sob a forma de sensações de pressão”. repleto de ciscos. vomitado. como tatoexperiência. 85). escrita-cardação. A leitura-cardação como o mais próximo do corpo.. viagem esquecida de porto. atrás da qual não é necessário colocar uma unidade. p. p. O distante porto. a partir da afecção primeira da sua grande razão em direção ao exterior e viceversa. mas nas mãos de quem?. A esse respeito.

partículas soltas e nômades. Mas é da ordem dos afetos suas atrações e repulsas. 24 . é por ele que se manifesta e dele mesmo deriva a pluralidade de perspectivas que captam a realidade (OLIVEIRA. entre uma criação e uma destruição. frente ao mar. impossibilitando âncoras. o contrário do que ocorreu até então. PARNET. livre de toda a selvageria. Sendo o tato a mediação mais direta entre o corpo e o mundo externo. fazer da ilha um lugar próspero. 66). O monstrengo)./Manda a vontade. O que resta agora diante do falido? Lançar-se ao mar? Escrever não tem outra função: ser um fluxo que se conjuga com outros fluxos – todos os devires-minoritários do mundo. No continente. 9 Três vezes do leme as mãos ergueu. Na roda da nau (9) o resgate da ilha. quer constituir viagem colonizante. 177]./E disse no fim de tremer três vezes:/«Aqui ao leme sou mais do que eu:/Sou um povo que quer o mar que é teu. A inquietação da terra firme. Mesmificar ilha e continente. que me a alma teme/E roda nas trevas do fim do mundo.impulsos faz com que o corpo apareça como merecedor de maior atenção por parte dos filósofos. aquietar sensação. 2004. quer fazer dizível sua ilha de silêncio e força. Encontrar na ilha o reconhecível e identificado./Três vezes ao leme as reprendeu. que me ata ao leme. de instantâneo e de mutante. Codificar sentido.(Fernando Pessoa. É só quando um fluxo está desterritorializado que chega a fazer sua conjugação com outros fluxos. quando a alma (consciência) ganhou mais importância. p. A matéria intensa e não formada da ilha invade o continente. que o desterritorializam por por seu turno e inversamente (DELEUZE. 2009. impossibilitando falas e planos. O plano antigo tornado impossível: voltar à ilha... movimentações outras no corpo-agora-vibrátil. p. tempo outro na roda da nau. a lembrança do ido. Corpo-agora-oco. educado e feliz. dissolvendo formas. o sem-corpo quer enfrentar novamente as ondas./E mais que o mostrengo. Um fluxo é algo de intensivo.

Admira-se e fica em silêncio: onde estava então? Essas coisas vizinhas e próximas: como lhe parecem mundanas! de que magia e plumagem se revestiram! (NIETZSCHE. Temos que novamente nos tornar bons vizinhos das coisas mais próximas e não menosprezá-las como até agora fizemos. p. castigo do destino na ilha muda. O navegador destemido e solitário que naufraga no não-dito. O que pode? Arrebatamento do próximo. esta inscrição da vida na morte. Entre os dedos. O que sobra? O que resta do plano desbravador e aventureiro? O que pode a escrita na ilha? O que pode a leitura da ilha? O que pode a ilha no longe da ilha? A ilha de longe é ilisível. à imagem dos dias ordinários da multidão inumerável cuja astúcia incansável dá vigor a estas páginas (CERTEAU. 174). O plano falido. tece. 25 .FELIZ NAUFRÁGIO "Feliz naufrágio" – teria dito Surin. a ilha é possível. Fora da ilha. 2000. longe da ilha só a angústia da incompreensão textual. 31). Na aula. as crianças copiam letras do quadro-negro. memórias de lanches. 2009. Na praia. p. É como se apenas hoje tivesse olhos para o que é próximo. Só de perto. borda. fia. da morte na vida. O naufrágio eminente. 11). escreve nos ordinários dias da vida. tremores. O acaso da onda no casco. dormências. O fio-manta não tecida. muda. As crianças outras nos mesmos-mesmos do quadro-negro da escrita. balanços. pensares. erguendo o olhar para nuvens e monstros noturnos” (NIETZSCHE. costura. pés afundados na areia. o náufrago escreve. afagos. A urdidura frouxa esquecida. p. vozes. lê. 2008. Nas pernas. A multidão inumerável carda.leitura. Presença na ilha-muda. coceiras.

Guattari. 26 . COELHO. 2008. A ordem do discurso. Michel de. Nietzsche e a Filosofia. Portugal: Res Editora. Petrópolis."Meus escritos falam somente de minhas superações"(10) Será? “a vida não fala. Foucault. prefácio. 2009. São Paulo: Brasiliense. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. ______. Escuta em Musicoterapia: a escuta como espaço de relação. 1886/2008. RJ: Vozes. 2002. São Paulo. ela escuta e aguarda”(11) Será? __________________ 10 Nietzsche. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica). DELEUZE. SP. em Humano. Vol. 2000. Engelmann. Michel. Artes de fazer. ______. 2008. Francis Bacon: lógica da sensação. Gilles. 2008. ______. 1 Deleuze e Guattari em Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia. 2007. 34. São Paulo: Zahar. ______. FOUCAULT. São Paulo: Loyola. A invenção do cotidiano: 1. REFERÊNCIAS CERTEAU. 2 São Paulo: Ed. 2004. Portugal: Relógio D'Água. 2 São Paulo: Ed. § 1. Vol. 34. Félix. Diálogos. Claire. 2001. Parnet. F. demasiado humano II. Lilian M.

______. p. número 1104. Ditos e escritos 2: arqueologia das ciências e história dos sistemas de pensamento. 1879/2008. Friedrich. Assim falava Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Friedrich. O mundo é um grande hospício. ______. NIETZSCHE. 1973. demasiado humano II. 2009. v. R. 2003. As palavras e as coisas. 27 . LARROSA. São Paulo: Cia. 2001. Belo Horizonte: Autêntica. OLIVEIRA. In Revista Manchete. Jorge. 174-187. São Paulo: Martins Fontes. LEITE. Ricardo Gomes. Nietzsche e a doutrina das coisas mais próximas. Filosofia Unisinos. Editora Escala. 2008. das Letras. Vigiar e Punir. São Paulo: Martins Fontes. Vozes: Petrópolis. 2007. ______. Estudar – Estudiar. 2004. J. São Paulo. ______. 10. Humano.