A democracia o Estado-nação e o sistema global

A democracia, o estado-nação e o sistema global* David Held** Professor da Open University da Inglaterra Apenas ocasionalmente a democracia usufruiu

o prestígio que tem hoje; sua ampla popularidade e a atração que exerce não tem mais que cem anos1. As revoluções ocorridas na Europa central e oriental no fim de 1989 e início de 1990 reforçaram um clima de celebração. A democracia liberal foi proclamada o agente do "fim da história": conflitos ideológicos, como já se disse, estariam sendo substituídos pela razão democrática2. Um número cada vez maior de lutas políticas são travadas em nome da democracia, e um número cada vez maior de países são reformulados segundo moldes democráticos. Mas sob a epiderme do triunfo da democracia deparamo-nos com um aparente paradoxo: ao mesmo tempo em que o' "governo do povo" ganha novos defensores, a própria eficácia de democracia como forma nacional de organização política pode ser colocada em dúvida. As nações proclamam-se democráticas no momento mesmo em que mudanças no âmbito da ordem internacional comprometem a possibilidade de um Estado-nação democrático independente. À medida que, progressivamente, vastas áreas da atividade humana organizam-se em termos globais, aumentam as incertezas com respeito ao destino da democracia.

No que segue eu exploro essa incerteza, concentrando-me nas relações entre a democracia e o sistema global. O trabalho começa por examinar alguns pressupostos da teoria democrática concernentes à relação entre "cidadãos" e "representantes", e analisa suas conexões com um entendimento questionável da soberania. Em seguida, ele trata do impacto de padrões cambiantes das interconexões globais nas decisões estatais. Continuando, apontam-se algumas das vias específicas pelas quais as políticas nacionais são afetadas pela interseção das forças nacionais e internacionais. Sobre esse pano de fundo, faço uma avaliação das formas cambiantes e dos limites da democracia. Embora o principal objetivo deste trabalho seja o de expor um certo número de problemas não resolvidos do pensamento democrático, ofereço, na conclusão, algumas observações construtivas sobre o novo significado da democracia no sistema global, e sobre como a teoria da democracia deve ser repensada de maneira a incorporar as redes internacionais de Estados e sociedades civis.

PRESSUPOSTOS CORRENTES DA TEORIA DA DEMOCRACIA Ao longo dos séculos XIX e XX, aceitou-se, no centro da teoria da democracia liberal, um pressuposto relativo à relação "simétrica" e "congruente" entre os responsáveis pelas decisões políticas e os que, na outra ponta, "recebem" essas decisões. De fato, simetria e congruência, ao que se presume, estão presentes em dois pontos cruciais: primeiro, entre cidadãos eleitores que em princípio podem exigir dos governantes que prestem contas dos seus atos; segundo, entre o output (decisões, políticas etc.) dos que decidem e seus eleitores (ou seja, em última análise, "o povo" num dado território). Essas relações podem ser graficamente apresentadas como segue:

No século XX, em particular, a teoria da democracia concentrou-se nos contextos organizacional e cultural dos procedimentos democráticos e nos efeitos desses contextos na operação da "regra da maioria". Do desenvolvimento da teoria do elitismo conservador nos trabalhos de Max Weber e Joseph Schumpeter à elaboração do pluralismo clássico nos escritos de Robert Dahl, ou à crítica dessas idéias nos escritos de marxistas contemporâneos, o foco da moderna teoria da democracia tem-se concentrado nas condições que promovem ou dificultam a vida democrática de uma nação3. Admite-se também, tanto na obra de teóricos quanto de críticos da moderna democracia, que "o destino de uma comunidade nacional" está, em grande medida, em suas próprias mãos, e que uma teoria satisfatória da democracia pode ser elaborada examinando-se as relações recíprocas entre "atores" e "estruturas" no Estadonação4. As premissas subjacentes da teoria da democracia, em resumo tanto em sua versão liberal como na radical-são as seguintes: que as democracias podem ser tratadas essencialmente como unidades auto-suficientes; que as democracias são claramente separadas umas das outras; que as mudanças no âmbito de uma democracia podem ser explicadas em grande parte por referência às estruturas internas e à dinâmica das sociedades democráticas nacionais; e que a política democrática expressa, em última análise, a interação de forças operando no plano do Estado-nação. Como se sabe, nas últimas duas décadas, tanto a direita como a esquerda lançaram-se ao ataque do modelo liberal-democrático. Na visão da nova direita, a democracia liberal suscitou um enorme crescimento das burocracias públicas que congestionou o espaço da iniciativa privada e do exercício da responsabilidade individual. Esse argumento aparece em versões diferentes na literatura sobre o "governo sobrecarregado" e sobre a necessidade de "desestatizar" no Ocidente e, é claro, no Leste5. Na base de todos os argumentos da nova direita, porém, está a crença de que as relações entre os responsáveis pelas decisões e os que as "recebem" foram distorcidas pelo crescimento de grupos de pressão, lobbies específicos e instituições burocráticas de grande porte. Em seu conjunto, essas forças reduziram o potencial de "congruência" entre os que decidem e a cidadania, potencial esse que se realiza quando os governantes restringem-se aos requisitos do "Estado mínimo". Em outras palavras, a congruência pode ser aumentada se se dá maior latitude ao mercado, se se dá aos cidadãos eleitores maior espaço para que eles regulem suas próprias atividades, e se o Estado mínimo assegura um quadro estável de leis e regulamentos de molde a permitir aos indivíduos que tratem dos seus interesses sem excessiva interferência política. Vale a pena notar que alguns pensadores da nova direita insistem em que essa tese deve ser entendida em termos internacionais. Friedrich Hayek, em particular, ataca a preferência - manifestada com frequência por autores conservadores e por alguns liberais — por mercados nacionais e por Estados nacionais, argumentando que mercados não têm fronteiras nacionais6. Ele defende uma ordem de mercado baseada nos princípios do livre comércio e da regulamentação mínima. Para Hayek, a "congruência", em última análise, é uma característica de uma ordem internacional de mercado e de uma rede de Estados ultraliberais. A maior parte das críticas à democracia liberal da perspectiva da esquerda também refletia a preocupação com o aumento da congruência entre os representantes políticos e os cidadãos ordinários, através, nesse caso, da extensão dos mecanismos de responsabilidade democrática

. presume-se.maior democratização do Estado e da sociedade civil.dos representantes face aos seus eleitores. os pressupostos da simetria e da congruência do modelo liberal democrático são questionados pela esquerda e pela direita mediante o argumento de que as relações que sustentam esse modelo são. sujeito à cláusula ceteris paribus11. responsável perante a cidadania . a direita propõe mais mercados e Estados mínimos. Para aperfeiçoar organizações e instituições insuficientemente "responsivas". por exemplo — é objeto de uma teorização mínima e suas implicações para a democracia não são pensadas. a base de sua pretensão à legitimidade e à lealdade específica dos cidadãos é questionada. mais transparente e inteligível. em concepções republicanas da cidadania e na busca de . em sua forma atual. Posto que o Estado não é. tanto quanto a maioria das demais teorias sociais e políticas. insuficientemente simétricas e congruentes. Em resumo. nem "separado" nem "imparcial" com respeito à sociedade. os quais governam o seu desenvolvimento. B. As mudanças. Na opinião de pensadores como C.a dinâmica da economia mundial. agências e forças operando nos seus limites territoriais é evidente que a teoria da democracia dos séculos XIX e XX. Trata-se da soberania do Estado-nação10. normalmente. geralmente consideram o mundo externo ao Estado-nação como um dado. a ênfase recai na necessidade de tornar o processo político mais "responsivo" com relação a indivíduos e grupos. o Estado está inescapavelmente comprometido com a manutenção e reprodução das desigualdades da vida cotidiana. o rápido crescimento das ligações transnacionais e as grandes mudanças da natureza do direito internacional. tornam-se urgentes as questões da forma que deve assumir a democracia e de qual deve ser o alcance das decisões democráticas. às próprias estruturas de uma dada sociedade. por assim dizer. Macpherson e Carole Pateman. Presume-se que o Estado tem controle sobre seu próprio destino. Em várias formas de democracia participatória. referidos exclusivamente ao Estadonação tornam-se evidentes a partir de considerações a respeito do alcance e da eficácia do princípio da "regra da maioria". sujeitando-se apenas a compromissos que deve assumir e a limites impostos pelos atores. mais aberto e mais sensível os desejos e necessidades heterogêneas do "povo"9. fundamentalmente errada. O mundo putativamente "fora" do Estado-nação . SOBERANIA. na visão de esquerda. enviesando decisões em favor de interesses particulares8. Em conseqüência. A proposição segundo a qual o Estado é uma "autoridade independente" ou um "poder imparcial circunscrito". As visões mais influentes da mudança social e política presumem que os processos internos à sociedade estão na origem das transformações societais12. ocorrem por meio de mecanismos inerentes (built in). POLÍTICA NACIONAL E INTERCONEXÃO GLOBAL Uma concepção inquestionada de soberania está no centro do debate a respeito da democracia liberal. Os limites de uma teoria da política cujos termos são. a esquerda recomenda a participação direta dos cidadãos na regulação das instituições-chave da sociedade (incluindo o local de trabalho e a comunidade local). A aplicação desse princípio está no centro da democracia ocidental: está na raiz das avaliações de mérito ou legitimidade das decisões políticas13.proposição que está no centro da auto-imagem ou ideologia do Estado moderno7 seria.

As comunidades nacionais de modo algum "programam" com exclusividade as ações. A decisão de construir uma usina nuclear próxima às fronteiras de um país vizinho será provavelmente tomada sem consulta aos que vivem no país ou nos países próximos.que ultrapassam as fronteiras nacionais delimitadoras da competência e responsabilidade dos que tomam decisões políticas desse tipo. diretamente ou como subprodutos. A teoria moderna do Estado soberano supõe a idéia de uma "comunidade nacional de destino": uma comunidade que se governa a si própria e determina seu próprio futuro. Em versões mais radicais da democracia (entre outros. o sistema estatal. Uma decisão governamental de poupar recursos mediante a suspensão de ajuda alimentar a um dado país pode estimular a súbita escalada de preços de produtos alimentares nesse país e contribuir diretamente para o agravamento da fome entre os pobres urbanos e rurais15 Uma decisão de um governo ocidental ou do leste de suspender ou aumentar a ajuda militar a uma facção política a um país distante pode influenciar decisivamente o resultado de uma guerra naquele país. Essa idéia é questionada fundamentalmente pela natureza do padrão de interconexões globais e pelas questões que devem ser enfrentadas pelo Estado moderno. os quais não têm. ou levar a guerra a um novo patamar de violência16. A idéia de que o consenso legitima o governo e. confere autoridade ao governo para legislar e regular a vida econômica e social. Os exemplos mencionados acima da interconexão global das decisões e resultados políticos levantam questões centrais a respeito das categorias da teoria clássica da democracia e de suas variantes contemporâneas. pode ter consequências desvantajosas para os passageiros de vôos internacionais de todo o mundo. periodicamente.restringem o âmbito de decisões aberto a uma dada "maioria". de modo mais geral. os segundos tomam as eleições como o mecanismo pelo qual o cidadão. Qualquer pressuposto simples da teoria da democracia de que as relações políticas são ou poderiam ser "simétricas" ou "congruentes" é inteiramente injustificado. ou uma indústria produtora de substâncias tóxicas ou nocivas.ou por organizações quase-regionais ou quase-supranacionais como a Comunidade Europeia (CE). a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) ou o Banco Mundial . ameaça à camada de ozônio. bem como para os liberal-democratas dos séculos XIX e XX.Problemas a respeito dessas proposições surgem não apenas porque decisões tomadas pelos Estados-nação . era central para os liberais dos séculos XVII e XVIII. pode contribuir para a produção de danos ecológicospoluição. decisões e políticas de seus governos e esses de modo algum simplesmente determinam o que é justo ou apropriado apenas para os seus cidadãos17. os modelos republicano e participatório) o consenso foi considerado condicional num processo . mas também porque decisões de uma maioria afetam (ou afetam potencialmente) outros que não os próprios cidadãos que delas participam. contudo. Uma decisão contrária à localização de um aeroporto internacional próximo a uma capital por temor de afugentar os votos rurais locais. Enquanto os primeiros viam no contrato social o mecanismo original do consentimento individual. A decisão de permitir a construção de uma indústria química. por exemplo. meios de se fazer representar diretamente no processo decisório14. aumento do "efeito estufa" .

As interconexões regionais e globais contestam a maneira tradicional de resolver no plano nacional questões centrais da teoria e da prática da democracia. em descobrir as condições nas quais os indivíduos podem determinar e regular a estrutura da sua própria associação.que. o significado da responsabilidade das decisões políticas (accountability). elas concordaram na aceitação da idéia de que o "governo" é sustentado pelo consenso voluntário de pessoas livres e iguais. a enorme importância dessa questão. Embora muitos liberais tenham evitado proclamar que. leis e decisões que eles deram a si próprios18. regionais e globais é levantada. não só para as categorias do consenso e legitimidade. envolve cidadãos na criação direta das leis reguladoras da sua vida: segundo esse argumento. e enfim. e a quem deveriam fazê-lo? O que acontece com a idéia de governo legítimo quando decisões que têm potencialmente conseqüências de vida ou morte são tomadas em unidades políticas nas quais grande número dos indivíduos afetados não tem efetiva participação democrática? O que acontece com a legitimidade quando o processo de governo. E embora diferentes tradições do pensamento liberal e democrático tenham interpretado de modo diverso as condições de possibilidade do consenso. por exemplo? Qual é a base de decisão (constituency) relevante? é a base local? Nacional? Regional? Internacional? Perante quem os responsáveis pelas decisões têm de justificar seus atos. O próprio processo de governo parece "escapar às categorias" do Estado-nação20. os indivíduos devem ser soberanos. em seu trabalho. contestada. os cidadãos obrigam-se apenas em relação a um sistema de regras. As implicações desse fenômeno são profundas. e a noção particular de que as bases relevantes do acordo voluntário são as comunidades de um território delimitado ou de um Estado. todavia. corrente ou extraordinário. e perante quem deveriam fazê-lo? A quem devem prestar contas. . eles preocuparam-se. e afirmaram. ao mesmo tempo. A própria idéia de consenso. Necessitase o consenso de quem? Requer-se o acordo de quem? Quem deve participar justificadamente de decisões relativas à localização de um aeroporto ou de uma usina nuclear. e a natureza da chamada "comunidade relevante". a relevância do Estado-nação como guardião dos direitos e deveres dos cidadãos no momento em que ele se vê às voltas com relações e processos nacionais e internacionais desestabilizadores. para ser "livres e iguais". torna-se profundamente problemática tão logo a questão das interconexões nacionais. desde o início o consenso foi o princípio indiscutível do governo legítimo19. gera consequências para indivíduos e cidadãos dentro e fora de um Estado-nação e quando apenas o consenso de algumas dessas pessoas é considerado pertinente na justificação das normas e das políticas? As fronteiras territoriais constituem os limites de inclusão ou exclusão dos indivíduos da participação em decisões que afetam suas vidas (não importa quão restritas essas últimas possam ser). mas para todas as idéiaschave do pensamento democrático: a natureza da base político-territorial do processo político (constituency). mas ou resultados dessas decisões frequentemente estendem-se para alémfronteiras. a forma e alcance da participação política. Para os democratas. idealmente.

"24 A interação complexa entre as forças e atores estatais e não-estatais não é um fenômeno recente: seria enganoso pensar que o pensamento político contemporâneo defronta-se com um conjunto inteiramente novo de circunstâncias25 De fato. . na natureza e extensão das relações juridicamente reguladas.21 Como assinalou sucintamente um comentador. de tal maneira que eles podem ser encarados como membros de uma República. ao mesmo tempo em que sobreviveram no direito internacional e na teoria política internacional. deveria ser um católico ou um protestante) como no caso de tentarmos entender o padrão cambiante das rotas de comércio do leste ao oeste nos séculos XV e XVI (e de como daí resultaram mudanças da estrutura das cidades. e que a significação dessas interconexões para a teoria da democracia é clara há muito tempo.nos dois casos o exame dos padrões de interdependência e interpenetração de fatores locais e internacionais parece inescapável23. concentrando-se. quatro séculos atrás "o comércio e a guerra já tinham começado a moldar todos os aspectos da política doméstica e o sistema internacional"22. seguindo-se daí que não pode haver mudanças consideráveis num deles que não afete as condições de existência. chamado On the Manner of Negotiating with Princes. O argumento poderia ser desenvolvido no sentido de mostrar que um denso padrão de interconexões globais começou a formar-se na fase inicial de expansão da economia mundial e de formação do Estado moderno. Um erro do menor dos soberanos pode introduzir o pomo da discórdia entre todas as grandes potências. dos contextos urbanos e do equilíbrio social) . e a necessidade de contínuas negociações.ESTADOS. os velhos teóricos da "sociedade internacional". publicado por Callieres em 1716. Infelizmente. como Grotius e Kant. porém. elementos do seu trabalho perderam-se para a teoria do governo democrático tal como ela se desenvolveu nos séculos XIX e XX. Eles exploram as condições e requisitos para a coexistência e cooperação entre Estados. As políticas interna e internacional se entrelaçam ao longo da era moderna: a política interna sempre teve de ser compreendida sobre o pano de fundo da política internacional. temos de considerar os Estados de que se compõe a Europa como Estados vinculados por toda espécie de comércio necessário. em particular. pois não há Estado grande o bastante para dispensar. e a primeira é com frequência a fonte da segunda. tentaram entender o Estado precisamente no contexto da "sociedade de Estados"26. FRONTEIRAS E POLÍTICA GLOBAL Seria possível objetar que não há nada de novo a respeito das interconexões globais. Esses pensadores forneceram um estímulo crucial ao desenvolvimento do direito internacional e à teoria política internacional. Ali se lê: "Para entender a utilização permanente da diplomacia. por exemplo. as relações com os Estados menores e o estabelecimento de amizades entre as diferentes partes das quais mesmo os Estados menores são compostos. Essas considerações aparecem de maneira concisa num estudo clássico da diplomacia na Europa. por desnecessárias. Tanto no caso de uma reflexão sobre a política dos reis nos séculos XVI ou XVII (sobre se o rei da França. ou perturbe a paz de todos os demais.

envolve pelo menos dois fenômenos distintos. Enquanto rotas de comércio podem ligar populações distantes em longos vínculos de causa e efeito. da "globalização ocidental". simplesmente endossá-lo. eu não pretendo.Uma coisa. pelas comunicações aéreas. novas dimensões de interconexão: tecnológica. Globalização. Com frequência. outra coisa é supor que não há nada de novo a respeito de elementos da sua forma e dinâmica. mais precisamente. pelo tráfego aéreo e pelos satélites espaciais"28. o enorme crescimento de organizações e regimes internacionais. um alcance mundial. cada vez mais. Refiro-me ao que se denomina visão "transformacionista" ou "modernista". esboçar questões e preocupações que. porém. que descreve o processo através do qual a crescente interconexão global pode levar ao declínio ou crise da autonomia do Estado e à necessidade de que os Estados-nação cooperem e colaborem intensamente uns com os outros29. de modo algum. Em segundo lugar. que pode opor contrapesos e limitar a latitude de ação dos Estados mais poderosos. o termo sugere que a atividade política. cada uma delas caracterizada por sua lógica e dinâmica própria de mudança. administrativa e legal. A significação desses desenvolvimentos do ponto de vista da forma e da estrutura da política nacional e internacional pode ainda ser examinada a partir de um argumento presente na literatura sobre globalização. a expansão de vastas redes de relações transnacionais e de comunicações sobre as quais Estados' individuais têm influência limitada. esses desenvolvimentos internacionais são considerados parte do processo de "globalização" ou. pretendo. e. ele sugere que os níveis de interação e interconexão entre os Estados e sociedades que formam a sociedade internacional têm-se intensificado27. com sua dose costumeira de incerteza. Ao expor o argumento.e a globalização em. econômica e social tem. devem ser enfrentadas pela teoria da democracia. por um lado. bem como a intensificação da diplomacia multilateral e a interação transgovernamental. contingência e indeterminação. organizacional. nesse contexto. redefinindo a própria noção de distância. por outro. Por razões de brevidade. desenvolve-se hoje contra o pano de fundo de um mundo "permeado e transcendido pelo fluxo de bens e de capital. e através de. o argumento pode ser esquematicamente exposto como segue: . uma ordem internacional envolvendo: a emergência de um sistema econômico global que escapa ao controle de qualquer Estado individual (mesmo que sejam Estados dominantes). Em primeiro lugar. os desenvolvimentos modernos da ordem internacional ligam e integram povos através de redes de transação e coordenação. isso sim. o desenvolvimento de uma ordem militar global e a edificação de meios de guerra "total" como "características estáveis" do mundo contemporâneo que podem reduzir o espectro de políticas à disposição dos governos e seus cidadãos.mediados por fenômenos tais como a indústria moderna de comunicações e a nova tecnologia da informação . Pois há uma diferença fundamental entre o desenvolvimento de uma rota de comércio que tem um certo impacto em cidades ou localidades rurais particulares. entre outras. A novidade no sistema global moderno é a intensificação crônica dos padrões de interconexão . O processo político. é assinalar os elementos de continuidade na formação e estrutura do Estado e da sociedade modernos. no mínimo. pelo trânsito de pessoas.

O impacto do fluxo de capital privado através das fronteiras. e um Estado supranacional que detém o monopólio dos poderes coercitivo e legislativo. seguinte). e/ou aumentar as negociações. O resultado é a redução dos instrumentos políticos que permitiam ao Estado o controle de atividades realizadas dentro e fora do seu território. novas formas de integração multinacional entre Estados33 . bem como o intercâmbio cultural e de idéias31. muitas atividades e responsabilidades tradicionais do Estado (como a defesa. com problemas políticos que não podem ser resolvidos sem a cooperação de outros atores "estatais e não-estatais32. envolvendo processos políticos desencadeados por forças transnacionais e envolvendo.) A nova política global . organizações e regimes que constituíram a base do governo (governancé) global. processos de tomada de decisão multiburocráticos no interior das burocracias governamentais e internacionais e entre elas. As etapas desse argumento são descritas na figura 1 (ver na pg. os sistemas administrativos e legais) não podem ser realizadas ou assumidas sem o concurso da colaboração internacional. À medida que as demandas apresentadas ao poder público cresceram nos anos de pós-guerra.1) Com o crescimento da interconexão global. no pós-guerra imediato. poderes e capacidades dos Estados foram redefinidos. (Dizer isso. Desde logo. 3) No contexto de uma ordem global altamente interconectada. por exemplo. pode ameaçar políticas governamentais antiinflacionárias. as comunicações. a administração da economia. . o Estado viu-se confrontado. 2) As opções que se oferecem aos Estados podem reduzir-se ainda mais devido à expansão de forças e interações transnacionais que reduzem e restringem a influência que os governos têm sobre a atividade dos seus cidadãos. o número de instrumentos políticos à disposição dos governos e a eficiência de certos instrumentos tendem a declinar marcadamente30. fatores de produção e tecnologia. os Estados tiveram de aumentar o grau de integração política com outros Estados (na Comunidade Europeia. essa tendência deve-se ao desaparecimento de uma vasta gama de controles de fronteira antes utilizados para restringir os fluxos de bens e serviços. no Comecon ou na Organização dos Estados Americanos. 5) O resultado de todo esse processo foi um grande crescimento das instituições. juntamente com outras agências internacionais. Trata-se aqui de reter a diferença entre uma sociedade internacional que contém a possibilidade de cooperação política e de ordem. por exemplo). 4) Em conseqüência. entre outras coisas. não significa confundir tais desenvolvimentos com a emergência de um governo mundial integrado. As capacidades estatais foram ao mesmo tempo reduzidas e alargadas. permitindo ao Estado o cumprimento de uma série de funções que já não podem ser mantidas senão em conexão com relações e processos globais. cambiais e outras. geraram. um contexto organizacional para a administração econômica e para consultas internacionais). cada vez mais. arranjos e instituições multilaterais para controlar os efeitos desestabilizadores que acompanham o desenvolvimento das interconexões (exemplos desse último ponto são o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Acordo Geral sobre Tarifas e sobre o Comércio (GATT) que. enfim.criou um quadro no qual e através do qual os direitos e obrigações. é claro.envolvendo.

O problema do Banco Ocidental. intergovernamentais e transnacionais e incapaz de determinar seu próprio destino. militar e econômica37. a teoria da democracia dos séculos XIX e XX contribuiu muito pouco para a compreensão de algumas das questões fundamentais com que se defrontam as democracias modernas e que dizem respeito ao destino da democracia no mundo moderno. Ou. ao tomar o Estado-nação como um dado. é preciso observar que esse é um processo desigual e em particular restrito ao poder e ao alcance dos Estados-nação dominantes do ocidente e do leste. por exemplo. o Estado liberal democrático é com frequência caracterizado como um Estado capturado na teia da interconexão global. da natureza de sua dinâmica política bem como da natureza da base à qual devem prestar contas (accountability) são questões urgentes.O que esses argumentos sugerem é que a significação dos processos atuais de decisão democrática tem de ser considerada no contexto de uma sociedade multinacional. para dizer a mesma coisa com outras palavras. redutora da "diferença" e da capacidade dos Estados-nação de agir independentemente na articulação e busca de objetivos políticos domésticos e internacionais: o Estado-nação democrático territorial parece fadado ao declínio ou à crise34. Além disso. Algumas das crises regionais aparentemente mais renitentes não escapam à atração da soberania. O Vietnã e o Afeganistão são . o "equilíbrio nuclear" ou "empate atômico" entre as superpotências criou uma situação paradoxal a que se tem denominado "indisponibilidade da força". dificilmente pode ser equacionado sem referência à idéia de autonomia soberana36. etc. holandeses. e os "novos impérios" (surgidos depois da Segunda Guerra Mundial) são fortemente contestados.. regionais e globais. trata-se de uma situação em que se abrem novos espaços para a afirmação de potências e povos não-nucleares. franceses. permeado por forças supranacionais. e ao pensar os processos democráticos essencialmente dentro das fronteiras do Estado-nação. Ainda que o Estado-nação territorial tenha declinado. a era do Estado-nação de modo algum terminou. ao que tudo indica é um processo que não terminou. contudo. A "nacionalização" da política global é um fenômeno muito recente. praticamente desapareceram. A INTERCONEXÃO GLOBAL EM FACE DO SISTEMA DE ESTADOS Na perspectiva da globalização. Os "impérios clássicos" dos britânicos. Mesmo com a rápida expansão das conexões intergovernamentais e transnacionais. políticas econômicas e culturais.35 A importância do Estado-nação e do nacionalismo. a partir da constatação de que a opção nuclear dificilmente se oferecia às superpotências como uma opção factível e de que o custo de uma intervenção militar convencional faz desse tipo de intervenção uma colossal aposta política. multilógica e internacional. instituições essas que transcendem e mediam as fronteiras nacionais. Além disso. As questões da natureza dessas organizações e entidades. O declínio de uns e de outros não deve ser tomado como indício do declínio do sistema de Estados enquanto tal. e a hegemonia americana caracterizou as décadas do pós-guerra. e no contexto de um enorme elenco de instituições já existentes ou em vias de nascer. da independência territorial e do desejo de estabelecer/retomar ou manter a "soberania" não parece ter diminuído. A globalização é freqüentemente apresentada como uma força homogeneizadora. A sociedade global européia alcançou seu ponto de máxima influência na virada do século XX. as mudanças recentes no Leste europeu regeneraram um aglomerado de Estados que afirmam sua independência e autonomia.. e.

na Carta das Nações Unidas. de decidir sobre o aspecto mais fundamental da vida das pessoas: a questão da vida e da morte. em alguns países a política doméstica será fortemente influenciada pelos processos globais. ao invés de reforçar a idéia de um objetivo humano comum. em termos gerais. estimulando portanto a "nacionalização" da política. um tribunal internacional ou outra organização internacional.exemplos óbvios desses riscos. . não foram. em conseqüência. entre essas condições. No centro dessa "grande recusa" está a preservação do direito dos Estados de declarar a guerra41. por exemplo. bem sucedidas40. corretamente. não apenas ajuda a remover conflitos imaginados de interesse ou de ideologia que não existem. Embora os direitos humanos tenham sido consagrados em muitos tratados internacionais e regionais. enquanto em outros os fatores regionais ou nacionais serão sempre os fatores mais importantes. em princípio. aliás. autoridade e legitimidade. seja ela a Organização das Nações Unidas. Se o sistema global se caracteriza hoje por mudanças significativas. em conseqüência. O discurso dos direitos humanos hoje em dia pode refletir aspirações à consolidação de certas liberdades e direitos em todo o mundo. Outro sinal claro da persistência do sistema de Estados é a resistência dos Estados em geral a submeter seus conflitos com outros Estados à arbitragem de uma "autoridade superior". O grau de integração dos Estados à economia mundial. mesmo quando é 'perfeita'. em boa parte. Some-se a isso tudo o fato de que. e não percebem a persistente capacidade que têm os Estados de formular as orientações políticas nos planos doméstico e internacional. isso deve ser entendido menos como o fim da era dos Estados-nação que como um desafio à era dos "Estados hegemônicos". Mencionem-se. Tais desenvolvimentos constituem poderosas pressões no sentido de um "mundo multipolar" e de uma ordem internacional fragmentada. Como notou. as tentativas de efetivá-los no âmbito dos sistema global e através dele tiveram no máximo um sucesso muito limitado. o impacto dos processos globais variam de acordo com as condições internacionais e nacionais. O Estado moderno ainda é capaz. mas ele de forma alguma expressa um consenso a respeito da questão. com frequência. As tentativas de criar uma "nova lei cosmopolita" regulando a cooperação e a conduta no campo das relações internacionais. um comentador. um desafio. de conceitos nãoocidentais de direitos. sua posição no âmbito de certos blocos de poder. as bases para uma análise rigorosa e sistemática da forma e dos limites das modernas democracias são negligenciadas. a erosão do poder do Estado em razão das pressões da globalização. O grau de "autonomia" do Estado moderno em distintas condições não tem sido devidamente apreciado. mas revela conflitos de interesse e de ideologia que efetivamente existem"38 Uma conseqüência disso é a valorização. sua posição com respeito ao sistema jurídico internacional e suas relações com as grandes organizações internacionais. O sentido de alguns dos conceitos centrais do sistema internacional são objeto de profundos conflitos de interpretação39. em muitos fóruns internacionais. Claramente. "a consciência de que outras nações existem. Aqueles que anunciam o fim do Estado-nação presumem. a posição do Estado-nação no sistema internacional de divisão do trabalho. inspiradas. é muito diferente. que está longe de desaparecer. a globalização nos campos da comunicação e da informação reforçou a importância da identidade e da diferença.

ou o Estado moderno perdeu em soberania? No enfrentamento dessa questão. não é completa. Mesmo a enumeração das disjuntivas externas. importa levar em conta que a soberania é erodida apenas quando é deslocada por uma autoridade "superior" ou independente. ou seja. Ao avaliar o impacto das disjuntivas. e de governar de acordo com esse direito44. retirarei a maior parte dos exemplos dos processos e relações próprias dos Estados europeus. todos os instrumentos de política nacional podem ser menos eficazes). as instituições regionais e globais. . a esfera formal da autoridade política que eles reivindicam para si e. de um lado. a autonomia refere-se à capacidade do Estado-nação de agir independentemente das restrições internacionais e transnacionais. O alcance e a natureza exatos da autoridade soberana de Estados-nação individuais podem ser descritos mediante a observação de várias disjuntivas "internas" e "externas" entre. tratarei das disjuntivas "externas". A questão central a formular é esta: manteve-se intacta a soberania. o direito internacional e as alianças militares que moldam e restringem as opções dos Estados-nação individuais. O poder dos partidos políticos. regulamentos e políticas num dado território. Com efeito. ao passo que a autonomia do Estado reduziu-se. da capacidade real do Estado de agir independentemente na articulação e busca de objetivos políticos domésticos e internacionais45.PODERES E DISJUNTIVAS A persistente vitalidade do Estado-nação não significa que a estrutura soberana dos Estadosnação individuais não tenha sido afetada pela interseção de forças e relações nacionais e internacionais: essa persistência sinaliza. devo dizer. a questão das disjuntivas "internas" envolve muitas questões que não podem ser tratadas neste trabalho43. nem sistemática. é possível mostrar que as disjuntivas externas mapeiam uma série de processos que alteram a abrangência e a natureza das decisões que podem ser tomadas pelos governantes num dado terreno. Por soberania entendo a autoridade política. das corporações e das redes de poder corporativo é uma força entre várias outras que influenciam a abrangência e o alcance das decisões que podem ser tomadas no âmbito do Estado-nação. que reduz o âmbito legítimo de decisão do Estado nacional. e provavelmente. Tendo em mente essas distinções. das organizações burocráticas. as práticas e estruturas reais do Estado e do sistema econômico nos planos nacional. regional e global42. e de alcançar objetivos quando estes tenham sido fixados (pois num mundo inter-conectado. que detém o direito incontestado de definir o sistema de normas. Pretendo apenas indicar em que medida a globalização de um certo número de dimensões centrais podem impor restrições ou limites à decisão política. padrões cambiantes de poderes e restrições. A soberania deve ser diferenciada da "autonomia" estatal. É sobretudo do destino dos Estados da Europa que trato46. antes. No que segue. e em que medida a possibilidade de uma sociedade democrática foi alterada. é meramente ilustrativa. as organizações mundiais. no seio de uma comunidade. de outro. No plano internacional. há disjuntivas entre a idéia de um Estado que em princípio é capaz de determinar seu futuro e a economia mundial.

fronteiras essas que eram uma condição necessária para a realização de políticas econômicas nacionais independentes48. por isso mesmo. tornou-se mais difícil administrar a economia e resistir às tendências econômicas internacionais. ações. A crise das bolsas de valores de outubro de 1987 é um óbvio exemplo disso. os mecanismos transmissores da inflação e da recessão. Mesmo quando as CMNs têm uma clara base nacional. entre outras coisas. Esses processos são em parte organizados por companhias multinacionais em rápido crescimento. seu interesse está principalmente na lucratividade global. e seu país de origem pode ter pouca importância em sua estratégia de conjunto. tal era o quadro operacional dos acordos econômicos. são muitas vezes subordinados a decisões das CMNs a respeito. Taiwan e os demais países recentemente industrializados) — tornaram-se mais visíveis. Mercados e sociedades tornam-se mais sensíveis uns aos outros mesmo quando suas respectivas identidades são preservadas. Organizações financeiras como os bancos também se globalizam gradualmente em sua escala e orientação. 3. entre outras coisas. Reduz-se.internacionais como nacionais. as mudanças dos termos de troca e a expansão contínua do capitalismo industrial na chamada periferia da economia internacional (Coréia do Sul. A crescente interconexão das economias do mundo.51 Mas com o colapso do "consenso liberal" do pósguerra. "futuros" e assim por diante para organizações financeiras e comerciais de todos os tipos. As companhias multinacionais (CMNs) planejam e implementam a sua produção. A globalização das relações econômicas alterou a possibilidade de aplicação de toda uma gama de políticas econômicas. Os níveis de emprego. Por exemplo: embora haja várias razões pelas quais o keynesianismo possa não funcionar hoje em dia. distribuição e comércio que limita de várias maneiras o poder ou âmbito de ação das autoridades políticas nacionais47. foi aceita mais . 1. da mesma forma. Tóquio e Nova York e de responder a eles quase instantaneamente.DISJUNTIVA 1: A ECONOMIA MUNDIAL Há uma disjuntiva entre a autoridade formal do Estado e o sistema vigente de produção. investimento e renda num determinado país. portanto. com certeza uma razão fundamental disso é o fato de que é muito mais difícil para os governos individuais administrar suas economias num contexto de divisão do trabalho e sistema monetário globais50. estoques. em todo o mundo ocidental. A nova tecnologia na área de informática aumentou radicalmente a mobilidade das unidades econômicas . O keynesianismo funcionava bem no contexto de um sistema de "liberalismo consolidado" característico dos anos de pósguerra.moedas. Há muitas evidências de que o progresso tecnológico nas comunicações e transportes estão debilitando as fronteiras entre mercados que até há pouco eram separados . por exemplo. da localização de suas unidades produtivas e administrativas49. 2. Os impulsos e condicionamentos provenientes da economia internacional — incluindo. da crise do petróleo de 1973. Eles são capazes de acompanhar eventos em Londres. As políticas monetária e fiscal de governos nacionais individuais são frequentemente dominadas por movimentos nos mercados financeiros internacionais. tanto . comercialização e distribuição por referência à economia mundial. a própria possibilidade de uma política econômica nacional. Dois aspectos dos processos econômicos internacionais são centrais: a internacionalização da produção e a internacionalização das operações financeiras. na esteira.

norte-sul. a regionalização de setores da economia mundial. 4. caracterizadas pela intersecção de forças econômicas nacionais e internacionais. a Unesco e as Nações Unidas. O crescimento do número dessas novas formas de associação política reflete a rápida expansão das ligações transnacionais53. a Organização Mundial de Meteorologia e muitas outras organizações. entre outras coisas. os serviços oferecidos pelos Estados-nação individuais54. de menores dimensões. o espaço. e a uma disjuntiva entre a idéia de um Estado soberano capaz de determinar seu próprio futuro e as condições de funcionamento das modernas economias. 1. O desenvolvimento das organizações internacionais e transnacionais levou a importantes mudanças na estrutura das decisões políticas mundiais. complementando. os oceanos. proporciona alguma margem de manobra para a regulação das tendências de mercado. essas organizações estão no centro de um contínuo conflito em torno do controle de políticas55. o Fundo Monetário Internacional. Não há dúvida. As tensões específicas entre as estruturas políticas e econômicas provavelmente são diferentes em diferentes esferas. de questões técnicas: a União Universal de Correios. padrão fundamental do processo racional de tomada de decisão. novas formas de decisões coletivas envolvendo Estados. e assim por diante). Diferentemente do que ocorre com as agências técnicas. com elas. DISJUNTIVA 2: ORGANIZAÇÕES INTERNACIONAIS Uma segunda grande área de disjuntiva entre a teoria do Estado soberano e o sistema global contemporâneo é a vasta gama de organizações e regimes internacionais estabelecida para administrar setores inteiros da atividade transnacional (comércio. a União Internacional de Telecomunicações. alguns mercados e alguns países podem isolar-se das redes econômicas transnacionais mediante. senão o. organizações intergovernamentais e uma variedade de grupos de pressão transnacionais. Essas agências tendem a trabalhar com eficiência e a levantar poucas controvérsias. Nó polo oposto. Envolvidas com questões mais centrais da administração e alocação de normas e recursos. Mesmo que o modo de operar dessas agências . na maior parte dos casos. leste-oeste. Não se pode. visto que suas tarefas foram precisamente delimitadas. essas organizações sempre foram altamente controvertidas e politizadas. os Estados Unidos e a Bacia do Pacífico e o Japão). contudo. de que a internacionalização da produção das finanças e de outros recursos econômicos reduz a capacidade dos Estados individuais de controlar seu próprio futuro econômico. É claro que a perda de controle sobre os programas econômicos racionais não afeta uniformemente o conjunto dos setores econômicos e. No espectro dás agências e organizações internacionais encontram-se algumas que tratam. primariamente. e entre elas: oeste-oeste. Elas não envolvem excepcionalidade política. Além disso. em particular pelos governos que valorizavam o mercado como um. encontram-se organizações como o Banco Mundial. tentativas de restabelecer os limites ou a separação dos mercados e/ou de estender a leis nacionais a fatores móveis no plano internacional e/ou de adotar políticas de cooperação com outros países para a coordenação das políticas econômicas52.facilmente. pela qual a atividade econômica concentra-se em torno de um certo número de pólos (entre os quais o Mercado Comum Europeu. de modo geral. em conseqüência. 2. das sociedades. Foram estabelecidas novas formas de política multinacional e. No mínimo assistimos a uma diminuição da autonomia do Estado. simplesmente dizer que a própria idéia de economia nacional está superada.

Implementando uma certa orientação de política econômica. Conseqüentemente. convém ter presente que os poderes da Comunidade foram obtidos pela "rendição voluntária" de aspectos da soberania por parte dos Estados membros: uma "rendição" que. 4. Qualquer concepção de soberania que a tome como uma forma indivisível. ilimitada. e face ao desafio econômico do Japão. aquela intervenção. e a Comunidade ela própria parece ter fortalecido esse poder em algumas daquelas áreas. As operações do Fundo Monetário Internacional constituem um caso interessante. Sua significação. Por outro lado. pois dispõe de poderosos instrumentos legais (sobretudo os "regulamentos". os regulamentos são os mais importantes porque têm o estatuto de leis independentemente de qualquer outra negociação ou ação por parte dos Estados membros. Os Estados membros detêm o poder geral. gerou-se uma grande tensão entre a idéia do Estado soberano centrado na política nacional e nas instituições políticas . com respeito a muitas áreas da sua política interna e externa. o Conselho de Ministros tem uma posição única. Contudo. 3. e com frequência resulta do reconhecimento de que o espaço para políticas nacionais independentes é mínimo. dados os condicionamentos da ordem econômica internacional e a vigência de normas operacionais emanadas de agências como o FMI. isso pode deflagrar uma onda de saques em busca de alimentos. A Comunidade Européia é outro exemplo importante das questões postas pelas organizações internacionais. Entre as instituições da Comunidade. exclusiva e perpétua do poder público está morta. portanto. em última instância. ela merece a designação "quasesupranacional". Mais de que qualquer outra agência internacional. Essas últimas levantam sérias questões a respeito das condições sob as quais uma comunidade torna-se capaz de definir suas próprias políticas e orientações. demonstravelmente ajudou na sobrevivência dos Estados-nação europeus face à dominância dos Estados Unidos nas três décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. No Terceiro Mundo.e a natureza das decisões no plano internacional. Em suma. . a soberania é hoje claramente dividida no âmbito da Comunidade. ultrapassa a de qualquer outra organização em razão do seu direito de elaborar leis que devem ser obedecidas pelos Estados membros.tende a variar. como muitas outras organizações internacionais. porém. e. a Comunidade Européia oferece oportunidades e limitações. as "diretivas" e as "decisões") que lhe permitem elaborar e implementar políticas. o FMI pode insistir em que um certo governo corte suas despesas. desvalorize sua moeda e reduza seus programas subsidiados de bem-estar como condição para a concessão de empréstimos. Não obstante. todas elas se beneficiaram ao longo dos anos de uma certa "consolidação da autoridade" investida em alguns poderes decisivos de intervenção. É preciso ter em mente que a intervenção do FMI é rotineiramente motivada pela solicitação das autoridades governamentais ou grupos políticos particulares no interior dos Estados. ou a queda de um governo. Desses instrumentos. não pode ser diretamente considerada como uma ameaça à soberania. os Estados membros da Comunidade Européia já não são os únicos centros de poder no interior de suas fronteiras57. ou ainda contribuir diretamente para a imposição da lei marcial56.

internacionalmente reconhecidos. da soberania. em "dar os primeiros passos na direção da imposição coletiva (collective enforcement) de certos direitos da Declaração de Direitos das Nações Unidas" (ênfase do autor). Os países europeus já aceitaram uma cláusula (opcional) da Convenção que permite aos cidadãos pleitear diretamente junto à Comissão Européia de Direitos Humanos. desde o início da comunidade internacional. ele não será considerado 'culpado' porque não. a tensão entre soberania e direito internacional é atualmente muito clara. tal como indicado no seu preâmbulo. 2. direitos e deveres que transcendem os Estados-nação. têm consequências de grande alcance. Há duas regras jurídicas que. Em nítido contraste com a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (1947) e outras cartas subsequentes das Nações Unidas. e embora a soberania nacional tenha com frequência saído vitoriosa. tradicionalmente. contudo. o propósito subjacente dessas regras é proteger a autonomia dos governos em tudo o que diz respeito à política externa e impedir os tribunais de cada país de decidir sobre o comportamento de Estados estrangeiros (presumindo-se que todos os tribunais domésticos em todos os países serão igualmente impedidos de fazê-lo). governos e organizações não-governamentais a novos sistemas de regulação legal. mesmo não sendo garantidos por instituições dotadas de poder coercitivo. ficando eles subordinados apenas às limitações da "arte da política". No quadro jurídico da Comunidade Européia. A primeira estipula que "nenhum Estado pode ser processado em tribunais de outro Estado em razão de atos praticados no exercício da sua soberania". 1. a Convenção Européia preocupou-se. o lugar da soberania nacional não está mais assegurado59. e não se sabe como se resolverá. com a aprovação da Lei Européia única (Single European Act). essa tensão evoluiu para uma "crise".interesseis. De acordo com a segunda.O direito internacional reconheceu poderes e limitações. . o de liberar os governos para a promoção de seus. "se um indivíduo viola a lei de outro Estado enquanto agente de seu país de origem e for por isso processado. considera-se que. em conjunção com outras mudanças legais introduzidas pela Comunidade Européia. que substituiu a unanimidade pelo "voto de maioria qualificada" no Conselho de Ministros para um número significativo de questões. ele já não concede aos Estados "a liberdade de tratar seus cidadãos como lhes pareça melhor"61. tenham sido cada vez mais questionados por tribunais ocidentais. e que. Embora o sistema ainda seja complicado e problemático de vários pontos de vista.DISJUNTIVA 3: O DIREITO INTERNACIONAL O desenvolvimento do direito internacional submeteu indivíduos. que pode levar pendências ao Comitê de Ministros do Conselho Europeu e daí (com a aprovação de dois terços do Conselho) ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos. É notável. Entre todas as declarações de direito do pós-guerra. O resultado do respeito a essas normas tem sido. a Convenção Européia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais (1950) merece menção especial60. que esses sustentáculos legais. A iniciativa européia comprometia-se com a inovação legal mais notável e mais radical: uma inovação que em princípio permitiria aos cidadãos acionar seus próprios governos. serviram para sustentar a soberania nacional: a "imunidade de jurisdição" e a "imunidade das agências estatais". agiu como indivíduo privado mas como representante do Estado"58.

Nas últimas décadas. estratégico e militar. no mínimo. e o ressurgimento de movimentos tais como o Islã. escolher entre tecnologias militares alternativas e controlar certos sistemas de armamentos localizados no seu território essa capacidade pode ser restringida pela sua posição no sistema internacional de relações de poder65. No âmago dessa mudança está um conflito entre proposições em favor do sistema de Estados e proposições em favor de um princípio alternativo organizador da ordem mundial: em última análise. o direito internacional identificou e sustentou a idéia de uma sociedade de Estados soberanos como o "supremo princípio normativo" da organização política da humanidade63. o desenvolvimento . que quando normas internacionais que protegem direitos humanos básicos entram em conflito com as leis do Estado. cada indivíduo deve transgredir as leis do Estado (exceto quando não há possibilidades de "escolha normal")62. apenas e exclusivamente"64. bem como a renovada intensidade de muitas lutas nacionalistas indicam que os argumentos em favor de uma comunidade cosmopolita podem ter sido. de outro. perseguir certos interesses estratégicos. é exemplificado também pelos resultados dos julgamentos pelo Tribunal Internacional de Nuremberg. de um lado. e. O hiato entre a idéia de associação a uma comunidade nacional. alcance e fonte do direito internacional foram contestados. 1. pela primeira vez na história. O Tribunal estabeleceu. de cidadania. Desde que a OTAN foi criada. a manutenção de uma organização de Estados soberanos (que em princípio permite a um Estado membro individual não agir se tal lhe parece mais apropriado) e. A dominância dos Estados Unidos e da União Soviética como potências mundiais. Na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). por outro. por exemplo. a matéria. seu objetivo de segurança coletiva teceu delicados vínculos entre. que às vezes debilita a autoridade e a integridade do Estado. 2. DISJUNTIVA 4: POTÊNCIAS HEGEMÔNICAS E BLOCOS DE PODER Há uma outra disjuntiva envolvendo a idéia do Estado como um ator autônomo. uma comunidade cosmopolita. no fim dos anos 40. e fortaleceu-se uma opinião contrária à doutrina de que o direito internacional é e deve ser um "direito entre Estados. e a criação no direito internacional de novas formas de liberdades e obrigações. A capacidade de um Estado tomar a iniciativa de uma certa política externa. O direito internacional é "um vasto e cambiante corpus de normas e quase-normas que lança as bases da coexistência e da cooperação na ordem internacional. Mas esse conflito está longe de ser resolvido. isto é. que tradicionalmente atribui aos indivíduos tanto direitos quanto deveres. O quadro jurídico do Tribunal de Nuremberg assinalou uma mudança altamente significativa na orientação legal do Estado moderno. por um lado. e a existência de alianças como a OTAN e o Pacto de Varsóvia limitaram a capacidade de decisão de muitos Estados depois da guerra. pois as novas normas questionaram o princípio da disciplina militar e subverteram a soberania nacional num dos seus pontos mais sensíveis: as relações hierárquicas entre os militares: 4. Tradicionalmente. o sistema global de Estados caracterizado pela existência de grandes potências e blocos de poder. apressadamente apresentados.3. pode-se descobrir claras evidências do que se poderia denominar a "internacionalização da segurança" na sua estrutura de comando militar unificada e integrada.

A existência de uma estrutura de comando integrada supranacional — chefiada pelo Supremo Comandante Aliado na Europa. A soberania.nacionais. . que são difíceis de acompanhar através de mecanismos nacionais de cobrança e de controle67. opera segundo sua própria lógica e seus próprios procedimentos de decisão. os "exércitos nacionais" da OTAN operariam no âmbito de estratégias e decisões desta última66. Qualquer concepção de soberania que a tome como uma forma ilimitada e indivisível de poder público. está mudando. numa situação de guerra. contratos de armamentos. Nenhuma descrição da OTAN. não há dúvidas de que houve.de uma organização internacional que de facto. A associação à OTAN não cancela a soberania. regionais e internacionais e é limitada pela própria natureza dessa pluralidade. Mesmo sem esse envolvimento. 4. Ainda que um padrão complexo de interconexões globais já tenha sido observado há bastante tempo. os Estados têm ao mesmo tempo sua autonomia limitada e sua soberania afetada. que sempre foi um general americano nomeado pelo presidente dos Estados Unidos -garante que. por breve que seja. (No momento em que este trabalho está sendo redigido. a autonomia e a soberania do Estado podem ser limitadas. tal como ela deve ser concebida hoje em dia. antes. já se divide entre um certo número de agências . As "disjuntivas" revelam um conjunto de forças que se combinam para limitar a liberdade de ação de governos e Estados ao tornar menos nítidas as fronteiras da política doméstica. ademais. um aumento da internacionalização das atividades domésticas e uma intensificação dos processos de decisão em contextos internacionais68. por sua vez. ao estabelecimento de redes ou coalizões de pessoal transgovernamentais. se o Pacto de Varsóvia sobreviver. ao alterar o arcabouço jurídico e as práticas administrativas dos governos e ao obscurecer as linhas de responsabilidade e prestação de contas (accountability) dos próprios Estados nacionais. poderosas embora informais. tudo leva a crer que. prestígio internacional e outros meios de promoção nacional.) A DEMOCRACIA E O SISTEMA GLOBAL A ordem internacional. ao transformar as condições do processo de decisão. ao modificar os contextos institucional e organizacional das comunidades políticas nacionais. recentemente. está posta em questão. Tais sistemas podem levar. Os processos globais afastaram sensivelmente a política das atividades cristalizadas em primeiro lugar e principalmente em torno de objetivos estatais ou interestatais. pois a atuação da OTAN implica rotineiramente a integração das burocracias nacionais de defesa em organizações internacionais de defesa. Aspectos da soberania são negociados através da aliança da OTAN. ele será remodelado de acordo com o modelo da OTAN. 3. competindo por recursos escassos. portanto. ela qualifica de diferentes maneiras a soberania com respeito a cada Estado. A soberania de um Estado nacional é decisivamente qualificada no momento em que suas forças armadas envolvem-se num conflito da esfera da OTAN. se não de jure. poderia omitir o fato de que seus membros são também rivais. e com ela o papel do Estado-nação. criam sistemas transgovernamentais de decisão que podem escapar ao controle de qualquer Estado membro individual. Estas. É certamente muito forte a evidência de que as relações internacionais e transnacionais debilitaram os poderes do moderno Estado soberano. A observação apenas desses processos permite dizer que operando num sistema internacional cada vez mais complexo.

da maneira pela qual a interconexão global cria cadeias de decisões políticas e resultados interligados entre os Estados e seus cidadãos que alteram a natureza e a dinâmica dos próprios sistemas políticos nacionais. Estados podem ter aberto mão de alguns direitos e liberdades. digamos. especialmente se as áreas de interconexão crescerem entre. da maneira pela qual os nacionalismos locais e regionais estão erodindo os Estados-nação por baixo. o significado e o lugar da democracia devem ser repensados em relação a uma série de estruturas e processos locais. ameaça as bases do Estado moderno como uma ordem impessoal.) nenhum governante era soberano no sentido de absoluta supremacia sobre um dado território e um dado segmento da população cristã. acima (. não é uma teoria do Estado ou uma teoria da ordem internacional. criando demandas potencialmente conflitantes. as organizações governamentais internacionais e as estruturas legais internacionais? Fazendo uma extrapolação a partir das tendências atuais e projetando-as na forma de um tipoideal. política.Em consonância com esses desenvolvimentos. Mesmo que a teoria da democracia já não possa ser elaborada tão-somente como teoria da comunidade política territorialmente delimitada. o Estado-nação não pode ser posto de lado como um ponto de referência central. e com autoridades subestatais ou . estão modificando por cima a natureza do Estado soberano.. como observou Hedley Bull. Como poderemos entender a democracia num mundo de autoridades políticas independentes e interdependentes? Não é verdade que um sistema de estruturas interligadas de autoridade. e em terceiro lugar. abaixo dele. não seria por demais fantasioso imaginar. ele tinha de partilhar a autoridade com os vassalos. parece claro que uma descrição geral do impacto da globalização tem de ser qualificado com respeito a diferentes padrões de desenvolvimento local e regional. Se os Estados modernos chegassem a repartir sua autoridade sobre os seus cidadãos e a sua capacidade de ganhar-lhes a lealdade com autoridades mundiais e regionais. cuja característica essencial era "um sistema de autoridades que se recobriam de múltiplas lealdades"71.. em resumo. o desenvolvimento de um sistema internacional que é a contraparte moderna e leiga do tipo de organização política que existia na Europa cristã da Idade Média. regionais e globais que em parte se recobrem.. uma ordem jurídica privilegiada e como uma ordem constitucional como uma estrutura de poder circunscrita com jurisdição suprema num território e responsável a um corpo determinado de cidadãos?70 Poderá a própria idéia de comunidade ou Estado democrático manter-se. O que se necessita. legal e militar. e com o Papa e (na Alemanha e na Itália) com o Imperador Romano. A democracia tem de acertar contas com esses três desenvolvimentos e suas implicações para os centros de poder nacionais e internacionais.. o governo do Reino Unido. a Comunidade Européia. da maneira pela qual os processos de interconexão econômica. Além disso. Pois é essencial dar-se conta de pelo menos as consequências centrais da globalização: em primeiro lugar. entre outras. Os processos globais não podem ser exagerados a ponto de eclipsar inteiramente o sistema de Estados ou de confundir-se simplesmente com a emergência de uma sociedade mundial integrada69. Nos termos de Bul: "Na Cristandade ocidental da Idade Média (. mas ao longo do mesmo processo obtiveram e ampliaram outros.). em segundo lugar. por um lado. mas uma teoria do lugar cambiante do Estado democrático no contexto da ordem internacional.

poderia reivindicar várias vantagens. responsável e legítimo que formas anteriores de organização política . Tal sistema. ademais. Poderia ser menos ordeiro e seguro porque. o acordo no sentido de tolerar diferenças de crença e de ideologia foi um princípio constitutivo do moderno sistema de Estados. por outro. Mas faz parte do meu argumento a proposição de que existem áreas e regiões onde se observam lealdades cruzadas. isto é. que constituía a condição crítica de fundo para o nascimento do Estado moderno. é mais sujeito a controles (accountable) que os modelos democráticos tradicionais com seus mecanismos de controle. Mesmo que concentrações maciças de poder formemse e reformem-se no interior de muitos Estados (especialmente nos seus aparatos de coerção e de administração). através do reconhecimento da igualdade política dos indivíduos adultos e da outorga a eles do direito de . vale lembrar. como solução conceitual e institucional dada aos conflitos e turbulências criados pelo sistema anterior. a vantagem de fornecer mecanismos institucional para o convívio pacífico de grandes populações e para evitar. um sistema de "soberania dividida" manteria a ordem e forneceria um corpo de normas e procedimentos para sustentar a tolerância? Se o moderno Estado secular foi a solução conceitual e institucional de demandas. reivindicações e interesses conflitantes de governantes e governados.subnacionais. e por outro o risco de enorme concentração de poder que poderia acompanhar um sistema de "governo mundial". as instituições e práticas da democracia representativa? A democracia representativa tem sido defendida como a inovação institucional chave para sustentar ao mesmo tempo a autoridade e a liberdade: o dilema de como assegurar o poder soberano do Estado e definir ao mesmo tempo limites estritos para esse poder pode ser resolvido. Mas nada garante que tal sistema seria mais ordeiro. segundo os líberal-democratas. tais concentrações com frequência apóiam-se sobre domínios fragmentados de autoridade política. de todos os pontos de vista. seguro. em parte. mesmo em regiões onde há estruturas de autoridade superpostas e divididas. a ponto tal que o conceito de soberania deixasse de ser aplicável. tenha sido subvertida. os perigos típicos e os "continuados ciúmes" (Hobbes) do sistema de Estados. que deslocam a noção de soberania como uma forma de poder público ilimitado.talvez até menos. qual seria se é que se pode pensar em alguma -sua contraparte num sistema político no qual o Estado territorial tem de partilhar sua "autoridade exclusiva" com outras organizações e agências? Além disso. Era um sistema de estruturas superpostas de autoridade e de lealdades conflitantes. Este desenvolveu-se precisamente no contexto dos cismas e terríveis conflitos que dominaram a Europa desde o início da Reforma73. especialmente se se cristalizasse numa forma de organização política universal — uma ordem internacional "neomedieval": notadamente. Este último emergiu. conceitual e institucionalmente. por um lado. e articulam-se com eles. Como poderíamos justificar a idéia de que um novo medievalismo secular poderia sustentar e defender o princípio da tolerância? Como. haverá razões para pensar que o sistema de estruturas de autoridades superpostas. mesmo onde ele já existe. então seria possível dizer que uma forma neomedieval de ordem política universal teria emergido"72. indivisível e exclusivo. Não sou de opinião que a soberania nacional no mundo atual. Longe disso. interpretações conflitantes sobre direitos e deveres e estruturas de autoridade interligadas.

Mesmo que certos mecanismos proporcionem um certo grau de controle de algumas dessas organizações . Pode-se perguntar se ele oferece uma solução aos problemas fundamentais do pensamento político moderno. se é que têm algum. o governo deve agir em seu nome — nesse momento mesmo. o FMI e a OTAN. é o de que essas objeções podem ser respondidas.a natureza da sua responsabilidade. como indiquei no início do trabalho. tem sido o princípio subjacente da legitimidade nas democracias ocidentais. que esboçarei no restante deste trabalho. Ademais. o FMI e a OTAN aos Estados membros . Nas democracias ocidentais.o mecanismo equivalente num sistema de soberania dividida? Se a eficácia do sistema da democracia está sendo tensionado e debilitado pela interconejcão global. que se preocupa. É parte do argumento deste trabalho dizer que a ordem internacional atual caracteriza-se ao mesmo tempo pela persistência do sistema de Estados soberanos e pelo desenvolvimento de estruturas plurais de autoridade. perante os cidadãos comuns dos Estados-nação na qual elas operam ou perante os vários grupos afetados por elas além das fronteiras de um dado Estado. O argumento apresentado neste trabalho sugere não apenas que as decisões rotineiras e extraordinárias dos representantes das nações e Estados-nação afetam profundamente os cidadãos de outros Estados-nação — que muito provavelmente não tiveram a ocasião de dar ou negar o seu consentimento — mas também que a ordem internacional é estruturada por agências e forças sobre as quais os cidadãos têm um controle mínimo. que se manifesta no princípio do governo da maioria. mais e mais. com a rationale e a base da ordem e da tolerância. disso. porém. o alcance e a relevância desse princípio são contestados pelos processos de reestruturação global. As objeções que se podem fazer a tal sistema híbrido são severas. por um lado. é preciso saber a quem prestam contas organizações tão diversas quanto empresas multinacionais. se é possível questionar as bases democráticas das organizações e das forças da ordem internacional. da responsabilidade política e do governo legítimo. Meu pensamento. para ser legítimo. A natureza potencialmente fragmentada e não-democrática . por outro.as multinacionais prestam contas aos acionistas. a cidadania reivindica o princípio da legitimidade democrática. em outras palavras. pela teia de organizações e redes regionais e globais emergentes. permanece uma questão aguda e urgente. Contudo. pode-se.se é que existe algum . entre outras coisas. e os perigos que elas apontam podem ser coerentemente tratados no quadro do pensamento constitucional e democrático. o princípio do consenso. tanto filosófica como politicamente. questionar sua legitimidade. que mecanismos poderiam assegurar o controle sobre os governantes e a responsabilidade destes na nova ordem internacional? O desafio que a interconexão nacional e internacional das decisões e resultados apresenta à idéia e à coerência da democracia. e os limites impostos aos controles que as nações têm sobre seu destino e que os cidadãos têm sobre suas instituições. no momento em que. a evolução recente da Europa do Leste trouxe de novo à tona — como se isso fosse necessário — a importância e a intensidade dessa conexão. levantam questões urgentes sobre a natureza das organizações e forças que estão colocando esse desafio. Mas qual seria . e a respeito das quais os cidadãos não tem como sinalizar seu acordo ou desacordo. Como já se observou. da democracia. reclama para si o controle do seu destino e afirma que. tradicionalmente a legitimidade é estreitamente relacionada a princípios e procedimentos democráticos.voto74. se é que ela existe. da mesma forma. Penso que os perigos podem em princípio ser evitados se se vincular o sistema de autoridade múltipla a princípios e normas ordenadoras fundamentais.

a um "modelo federal de autonomia democrática"75. equilíbrio e contrapesos capazes de proporcionar . As teses. As agências e organizações internacionais bem como os Estados poderiam optar por fazer parte dessa estrutura se escolherem um futuro político democrático. Essa tradição .desses desenvolvimentos pode ser superada desde que eles façam parte de uma ordem comum comprometida com uma estreita colaboração e com outros princípios e orientações constitucionais similares. ainda que de modo muito rápido. Concepções de soberania que descuidam da demarcação dos limites e alcance legítimo da ação política devem ser tratadas com máxima cautela. o de examinar a aplicação dessa teoria nos mundos entrelaçados da vida nacional e internacional. ela tornou-se uma teoria da possibilidade e das condições do exercício legal do poder político. portanto. o de oferecer uma teoria da democracia e das condições da autoridade legítima. Na esperança de concluir este trabalho com algumas observações construtivas. Refirome. os defensores da segunda tenderam a considerar o Estado como um ente "comissionado" para a realização da vontade do povo.da ação estatal76. SOBERANIA. Os defensores da primeira tenderam a atribuir ao Estado a autoridade final para definir o direito público. segundo. devo dizer. Essas teses não constituem. Ela estabeleceu um novo vínculo entre poder e direção política. enfrentam uma objeção comum: ambas apresentam concepções do poder político com implicações tirânicas. e é essencial na tradição de análise política que não localiza a soberania nem no Estado nem na sociedade79. aqui. Uma alternativa às teses da soberania do Estado e da soberania popular está implícita na concepção lockeana da comunidade política independente. e forneceu um modo alternativo de conceber a legitimidade das reivindicações de poder: uma alternativa às concepções teocráticas da autoridade dominante na Europa medieval. a seguir exponho esse modelo. assim. diretamente. Da teoria da soberania desenvolvida por Jean Bodin para a frente.buscou. modalidades de mediação. A teoria de soberania tornou-se uma teoria do exercício do poder segundo o direito.que é sobretudo uma tradição de pensamento constitucional . obviamente. AUTODETERMINAÇÃO E AUTONOMIA DEMOCRÁTICA 1. Ela tinha duas preocupações predominantes: com a sede da autoridade soberana e com as formas e limites . Historicamente. Os perigos inerentes a um "novo medievalismo" podem ser enfrentados se suas partes componentes promulgam uma estrutura comum de normas de ação consensuais. submetendo-se ele. nas relações entre Estado e sociedade.com o alcance legítimo . contudo. A tese da soberania do Estado coloca o Estado numa posição de poder total face à comunidade. elas sugerem uma orientação para análises futuras. a idéia de soberania serviu para pensar de maneira diferente um velho problema: o da natureza do poder e do governo. 3. às determinações do "público"77. 2. a tese da soberania popular coloca a comunidade (ou a maioria) numa posição de total predomínio sobre os cidadãos individuais: a comunidade é todo-poderosa e portanto a soberania do povo poderia destruir facilmente a liberdade dos indivíduos78. Tornou-se. a teoria do poder legítimo ou da autoridade. uma exposição completa do modelo. duas posições ficaram bem estabelecidas: a da soberania do Estado e a da soberania popular. A rapidez da exposição aparece na apresentação em forma de teses. No âmbito dos debates sobre a soberania. As duas posições. são referidas a dois objetivos fundamentais: primeiro.

Os direitos definem esferas legítimas de ação (ou inação) independente. outros. Outros direitos.proteção tanto ao direito público como ao direito privado. Esse terreno de pensamento é demarcado pelo "princípio da autonomia". b) a noção segundo a qual os indivíduos devem usufruir de direitos e obrigações iguais no quadro social geral que molda suas vidas e oportunidades significa que eles devem usufruir de "uma estrutura comum para a ação" para que possam desenvolver seus projetos . por isso mesmo. d) a idéia de que as pessoas devem ser livres e iguais na "determinação" das condições da sua própria existência significa que elas devem ser capazes de participar de um processo de deliberação. ou a comunidade e seus representantes82. em bases livres e iguais. Ainda que os benefícios dos direitos sejam definidos com respeito a indivíduos particulares (ou grupos. O princípio da autonomia pode ser enunciado como segue: os indivíduos devem usufruir de direitos iguais (bem como. Segue-se que os direitos têm uma dimensão estrutural. isto é. ou detentor de direitos. ou seja. .isto é. destinados a especificar a capacidade das pessoas de usufruir de uma série de liberdades não só em princípio como na prática. outorgando tanto oportunidades como obrigações. de tal maneira que essa ação reduza ou infrinja a liberdade de outros. O processo de deliberação. pois circunscrevem redes de relações entre o indivíduo. isto é. Tal princípio deve insistir. Uma decisão legítima. é um princípio de poder legítimo. com uma profunda incidência nos âmbitos do Estado e da sociedade civil. contra a soberania popular na especificação dos limites do poder do público. a respeito de questões públicas importantes. mas da "deliberação de todos"83. devem ser ao mesmo tempo formais e concretos.como agentes livres e iguais81. eles devem ser livres e iguais na determinação das condições da sua própria existência. aberto a todos. ou agências). Isso implica a especificação de uma ampla gama de direitos. e insistir. criando espaços para a ação -e constrangendo. assumir deveres iguais) no quadro social geral em que as oportunidades abertas a eles são geradas e limitadas. o conceito de "direitos" conota qualificações ou titularidade (entitlements) para desenvolver ações e atividades sem risco de interferência arbitrária ou injusta. eles constituem um fenômeno social. só um princípio de soberania centrado no ceticismo a respeito da soberania estatal ou da soberania popular pode ser tomado como um princípio aceitável. nesse quadro. na determinação. contra a soberania do Estado. numa estrutura reguladora que ao mesmo tempo torna possível e restringe esse poder. 4. Em última análise.individuais e coletivos . desde que não mobilizem aquele quadro de modo a negar os direitos de outros80. não deriva da "vontade de todos". pelo "povo". c) num primeiro momento. especificando os limites da ação independente. é compatível com os procedimentos e mecanismos do governo da maioria. Várias noções devem ser esclarecidas: a) o princípio da autonomia procura articular os fundamentos da possibilidade de consenso. Os direitos são titularidades no âmbito das limitações da comunidade tornando possível a ação independente . das condições que governam sua própria vida. por isso mesmo.

Enquanto que no passado a obtenção. É um princípio situado no coração do projeto liberal-democrático moderno. mais recentemente as lutas referiram-se a outras coisas. moldar e organizar suas vidas. com o exame das condições e regras a serem usufruídas necessariamente pelas pessoas para que elas sejam livres e iguais. 7. políticos. tais como a liberdade de expressão. no ordenamento de sua própria associação: os direitos civis. de modo central. princípio da autonomia. esse experimento revela que cinco categorias de direitos são cruciais para permitir que as pessoas participem. leis e instituições elas considerariam justificadas caso elas tivessem acesso a uma informação mais completa de sua posição no sistema político e das condições da sua participação86. A autonomia do cidadão pode ser representada pelo conjunto de direitos de que os indivíduos usufruem em virtude do seu status de membros livres e iguais da sociedade. a base normativa deriva de uma reflexão sobre as condições em que a autonomia é possível. Tal experimento mental prende-se ao interesse em examinar as maneiras pelas quais as práticas. e com a condições subjacentes da sua liberdade e igualdade. Em conjunto. A base empírica deriva do desenvolvimento das diferentes condições e sítios em que se travou a luta pelo reconhecimento da condição de membro da comunidade política e. A luta pela participação em igualdade de condições em comunidades políticas remodelou a política ocidental moderna. ou seus fundamentos últimos. 5. Preocupa-se. Mas tal exposição não seria completa sem uma reflexão sobre a base organizacional . normas e garantias constitucionais . A meu ver.e) a qualificação presente no princípio . sociais e reprodutivos87. de credo religioso e de associação. a luta pela participação plena nessa comunidade. de direitos envolvia a luta pela autonomia ou independência com relação ao local de nascimento e às ocupações predeterminadas. O princípio da autonomia pode orientar uma exposição de natureza e significado do poder legítimo. O princípio da autonomia especifica ao mesmo tempo que os indivíduos devem ser "livres e iguais" e que as "maiorias" não podem ser capazes de impor-se sobre outros. potencialmente.isto é. com a sua capacidade de assumir obrigações voluntariamente. Deve haver sempre arranjos institucionais . em termos de liberdade e igualdade. é "política e não metafísica"84.destinados a proteger a posição dos indivíduos ou das minorias. preocupado com a capacidade dos indivíduos de determinar e justificar suas ações. A base do princípio da autonomia é ao mesmo tempo normativa e empírica. instituições e estruturas da vida social poderiam ser transformadas para permitir aos cidadãos entender. bem como a liberdade das mulheres no casamento e além dele85. Tomando emprestada a frase de John Rawls. esses feixes de direitos constituem o espaço inter-relacionado no qual o princípio da autonomia pode ser buscado e realizado.de que direitos individuais requerem proteção explícita -representa uma demanda bem conhecida de governo constitucional. a rationale do. e sobre que regras. Isso se deve a que a luta por direitos re-formou antigas noções a respeito das esferas legítimas de ação independente. 6. A base normativa do princípio da autonomia se define no âmbito da tentativa de elaborar e projetar uma concepção de autonomia baseada num "experimento intelectual": um experimento sobre como as pessoas interpretariam suas capacidades e necessidades. econômicos.

Há aqui duas questões: a primeira é a de mudar os limites territoriais dos sistemas de responsabilidade política de tal maneira que as questões que escapam ao controle do Estado-nação — por exemplo aspectos da administração monetária. e que coloca os próprios Estados-nação em posição de interferir em outros Estados e impor-se a eles. desses centros. a reforma do poder do Estado e a reestruturação da sociedade civil89. em última análise. Em outro lugar. 8. Tal é o significado da democratização hoje em dia. questões ambientais. de diferentes mecanismos e procedimentos democráticos. A segunda é a questão da . A autonomia democrática. eu me referi às "condições de realização" (conditions of enactment) do princípio da autonomia: tais condições seriam. Isso porque se escolhermos hoje a democracia. enfim. de maneira que essa base incorpore os setores e grupos de pessoas afetadas por tal interconexão. requer o alargamento da noção de base política territorial relevante. porém. para que essa autonomia seja possível mesmo numa área limitada. novas formas de regulamentação das comunicações — possam ser melhor controladas (trata-se de uma mudança que implicaria. A autonomia democrática será o resultado. esolhemos necessariamente a operacionalização de um sistema radical de direitos numa estrutura de poder complexa. O problema da democracia em nosso tempo consiste em especificar o modo pelo qual o princípio da autonomia pode ser inscrito e assegurado numa série de centros interconectados de poder e autoridade. isso envolve. de um núcleo. e apenas o resultado. à cidadania. em princípio.e institucional do princípio. o deslocamento de algumas decisões do Estado-nação para um quadro regional ou global ampliado). Isso porque a reflexão abstrata sobre princípios tem de ser suplementada por análises detalhadas das condições em que tais princípios podem ser realizados: sem essa análise o próprio significado do princípio dificilmente pode ser enunciado88. uma moldura em expansão. A ênfase. no plano da sociedade civil. recai: na inscrição do princípio da autonomia numa constituição e numa declaração de direitos. ou uma federação de Estados e agências democráticas que abranja as ramificações das decisões e torne essas decisões responsáveis. A democracia no interior do Estado-nação requer a democracia no interior de uma rede de forças e relações internacionais entrecruzadas. experimentação. saúde. e realizados no interior. o reconhecimento de que um "duplo processo de democratização" é indispensável: a transformação independente tanto do Estado como da sociedade civil. A forma e a : estrutura internacionais da política e da sociedade civil têm de ser incorporadas aos fundamentos da teoria da democracia. as condições de realização do princípio da autonomia têm de ser pensadas em relação às redes internacionais de Estados e organizações e em relação às redes internacionais da sociedade civil. 9. A natureza dessa transformação foi indicada no modelo que eu chamo de "autonomia democrática". na reforma do poder do Estado. no sentido de maximizar sua responsabilidade política (nos termos da constituição) face aos representantes eleitos e. ou de uma federação de Estados e agências. por exemplo. A estrutura das decisões e resultados políticos interligados que tornam os Estados-nação incapazes de controlar uma grande variedade de recursos e de forças. em última instância. requer. Os princípios e requisitos da autonomia democrática têm de ser inscritos nos centros nacionais e internacionais de poder. nesse modelo. intergovernamental e transnacionaL A autonomia democrática só pode ser plenamente garantida nas e através das agências e organizações que constituem um elemento e ao mesmo tempo atravessam as fronteiras territoriais do Estado-nação. Num mundo interconectado.

11. por exemplo. As implicações disso para a sociedade civil são. A base institucional do modelo federal de autonomia democrática pressupõe.necessidade de articular comunidades políticas territorialmente delimitadas com agências. bem como da forma e da estrutura das forças e agências centrais da sociedade civil internacional. por isso mesmo. da regulamentação dos procedimentos de negociação para minimizar a utilização de argumentos de força nas relações intra e entre associações . Face ao sistema global a democracia requer a remodelação da natureza e do alcance das comunidades políticas territorialmente delimitadas. Tal assembléia. um reforçamento do papel dos parlamentos regionais (como por exemplo do Parlamento Europeu). ou um corpo complementar a ela) seria um objetivo. Entre outras coisas. o que está em questão aqui é a redução do poder que têm as companhias multinacionais de influenciar a agenda política (utilizando-se. Lado a lado com essas mudanças. 10. podem distorcer sistematicamente os processos democráticos e. a abertura das organizações governamentais internacionais ao escrutínio público e a democratização dos órgãos internacionais "funcionais" (talvez mediante a criação de conselhos de supervisão eleitos e que sejam representativos de suas bases políticas) seriam significativas91. de tal maneira que este último torne-se parte de um processo democrático. Em última análise. Isso requer a inclusão do princípio nos regulamentos dos parlamentos e assembléias (nos níveis internacional e nacional). participação de cidadãos na diretoria das empresas. bem como a expansão da influência dos tribunais internacionais. com bases políticas territoriais definidas de acordo com a natureza e o alcance das questões internacionais controversas. O que está em questão. claras. em parte. a formação de uma assembléia investida de autoridade de todos os Estados democráticos (uma Assembléia Geral das Nações Unidas reformada. nessa redução. Ademais. Uma federação democrática de Estados e sociedades civis é incompatível com a existência de conjuntos poderosos de relações e organizações que. a dívida externa do Terceiro Mundo. de maneira a possibilitar a indivíduos e grupos que acionem as autoridades políticas para o efetivo reconhecimento e garantia de direitos fundamentais no interior e além das associações políticas92. a destruição da camada de ozônio e a redução dos riscos de uma guerra nuclear)93. ao mesmo tempo em que aquelas agências. em suma. de início. forneceria uma instância internacional para o exame de questões globais urgentes (como por exemplo a oferta de alimentos. associações e organizações adotem em seu modus operandi uma estrutura de regras e princípios compatível com os da autonomia democrática. como fontes legítimas independentes do direito internacional90. distorcer seus resultados. é a democratização tanto do sistema de Estados quanto os quadros (frameworks) interligados da ordem civil internacional. em princípio. de modo que as decisões desses órgãos sejam reconhecidas. de expedientes tais como participação especial no capital. caso seja possível chegar na prática a um acordo sobre seus termos de referência. o modelo pressupõe que o princípio da autonomia se consolide (bem como que se consolidem os vários direitos a ela associados) de modo que o processo de decisão democrático seja dotado de forma e de limites. Paralelamente a tais desenvolvimentos o modelo antecipa a possibilidade de referendos gerais abrangendo grupos mais amplos que os das nações e Estado-nação. associações e organizações-chave do sistema internacional. dadas as bases sobre as quais se desenvolvem suas operações. financiamento público das eleições) bem como a restrição das atividades de poderosos grupos de interesse internacionais que perseguem seus objetivos sem limitações (através.

pp. Majority Rule.como por exemplo empresas privadas e cooperativas. London. London. Laski. por A. in: The End of the Keynesian Era.. 103. Studies in Law and Politics. e Bird. realizada em Yokohama. "The Pule of Capital and the Rise of Democracy". Cambridge. [ Links ] 3 Para uma avaliação crítica dessas teorias/ver o meu livro Models of Democracy. Claus. ver o meu livro. trata-se de uma sociedade aberta a organizações. Power and the Pursuit of Peace. por exemplo. The Constitucion of Liberty Routledge and Kegan Paul. verão. [ Links ] 8 Macpherson. 1989. cap. 2. uma teoria da democracia nos processos e estruturas interligados da ordem global e uma teoria do impacto da ordem global no Estado democrático. Goran. D. 24 Callieres. The Life and Times of Liberal Democracy. [ Links ] 19 Cf. C. The Life and Times of Liberal Democracy. 1985. London. 1977. [ Links ]" 20 Cf. 1963. 286 e ss. [ Links ] 7 Skinner. 2ª. Review of Economic Studies. mas deve presumir que os processos e práticas democráticos têm de articular-se à arena complexa da política nacional e internacional. Cambridge. Polity Press. [ Links ] 22 Gaurevitch Peter. Models of Democracy. H. 8 e 9. Carole. The Foundation of Democracy. [ Links ] e Keane. trad. B. Ver. International Organization. Cambrige.. Polity Press. 68-69. New Left Books. E. Michael. The Modern World-System. 1963.1985.. pp. Churches in the Modern State. Harold. Immanuel. F. John.. [ Links ] 4 É claro que houve exceções. 1978. Green and Co. Japão. Terence Ball.. e Figgis. Os temas e argumentos deste artigo serão ampliados num trabalho a ser publicado brevemente. Cambridge.. Cambridge. Francis. Oxford. [ Links ] e Anderson. "The Second Image Reversed: The International Sources of Domestic Politics". 237 é ss. pp. [ Links ] Howard. artigos 4 e 6.bem como boas razões para ser pessimista. Cambridge University Press. Cambridge University Press.. in Political Innovation and Conceptual Chatige. suas críticas construtivas foram particularmente úteis. London. [ Links ] 23 Ibid. R. edição.. K. [ Links ] 2 Fukuyama. "Food bungle in Bangladesh". 1988. Cambridge. Models of Democracy. Cambridge University Press.. 1989. On the Manner of Negotiating with Princes. Longmans. dezembro. [ Links ] 6 Hayek. associações e agências que desenvolvem seus próprios projetos e se submetem aos limites impostos por uma estrutura comum de ação e pelos processos democráticos. "The end of history? National Interest. 1932. [ Links ] Pateman. p. eds. [ Links ] 5 Ver por exemplo Brittan. 12. no seu Interpreting Political Responsibility Polity Press. [ Links ] 16 Ver Leftwich. [ Links ].públicas e privadas. H. "Democracy". 5. Carole. pp. 4. Uma teoria do poder legítimo constitui. 1978. 1975. 405-6. George Allen and Unwin. 1977. Cambridge. Oxford. [ Links ] e Sobhan. "Politics of food and famine in Bangladesh". 1989. London. 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Chatham House. caps. New York. parte II. [ Links ] 9 Ver por exemplo. 1960. Russell L. 12 Dunn. Há boas razões para ser otimistaquanto ao resultado . Cambridge. R. 349 e ss. é preciso que haja um conjunto de esferas sociais . inescapavelmente. Polity Press. Claus. 908. Verso. François de. Oxford University Press. [ Links ] 11 Ver o meu Political Theory and the Modern State. 1 Agradeço os comentários feitos por Tony McGrew. Disorganized Capitalism. B. War and the Liberal Conscience. [ Links ] 17 Offe. NJ. Adrian.Whyte. ed. Foreign Policy. Paul. Cambridge. Se se pretende que indivíduos sejam livres e iguais na determinação das condições de sua existência. 17-22 de março de 1990. * Trabalho apresentado na Conferência "Aprofundando e Globalizando a Democracia". pp. Oxford. por Skidelsky. Political Theory and the Modern State. e o estabelecimento de normas impedindo o patrocínio -de representantes políticos por parte de interesses setoriais. Cambridge University Press. sejam esses últimos indústrias ou sindicatos específicos). Polity Press. London. Polity Press. Democracy and Civil Society. [ Links ] 18 Held. Redefining Politics.. 1987. pp-54-93[ Links ] Ver também suas obras escolhidas (com G. F.. 267-289. 1º. New Left Review. Semelhante teoria não requer a premissa de uma ordem internacional cosmopolita harmoniosa. Economic and Political Weekly. "Responsability Without Power". [ Links ] F. Londori. 1983. pp. W. 1979. C. Studies in Law and Politics. pp. l990.e Giddens. O destino da democracia no fim do século XX e inseparável do resultado desse processo. 283-4. Michelle Stanworth. S. Disorganized Capitalism. Cole) in The Pluralist Theory of the State. Martin Robertson. 42. 1913. [ Links ] 10 Entre as honrosas exceções estão Laski. 254-262. "The Political Business Cycle". Também está em questão uma sociedade civil que nem é planejada nem meramente orientada pelo mercado. [ Links ] e Pateman. Hanson. 11. 1970. Hanson. Cambridge. Notre Dame. James Farr and Russel L. pp. The Problem of Political Obligation: A Critique of Liberal Theory. 32. 1974. por Hirst. 27. vol.. Participation and Democratic Theory. [ Links ] 21 Ver Wallerstein. Anthony. 171 e ss. Methuen. Chatham. D. Therborn. maio/junho de 1977.

Boston. Robert. "The International Order in a Multicultural World". 397 e ss. pp. Violence and Law in the Modern Age. 1989.. 1-22. e Ball. "Swallowing the IMF medicine in the seventies".. NJ. op. Comparative Political Studies. 140 e ss. R. Oxford. The Open University. [ Links ] Voltarei a essas questões adiante. eds. 1988. International Agencies: The Emerging Framework of Interdependence. 1989. 230-233.. 1988. "Transnational relations as a threat to the democratic process". Joseph S. a lei sobre grampeamento de telefones foi alterada em razão da intervenção da Comissão Européia. Power and the Pursuit of Peace. [ Links ] Ruggie. 1978. 1980. eds. Restructing the World Economy. 1 (1) (D312).Human Rights and International Relations.. [ Links ] 39 Ver Bozeman. 12-20. Pantheon. [ Links ] 55 Ibid. 1982. [ Links ] Herz. [ Links ] 53 Ver Luard. [ Links ] 26 Ibid. Milton Keynes. [ Links ] e Kolko. p. Macmillan. D. Ithaca. The Open University. Edward.. pp. The Nation-State and the Crisis of World Politics. The Study of Global interdependence. The Antonomies of Interdependence.. 1986. Cambridge. "Sovereignty": an Institucional Approach". Hedley Bull e Adam Watson. Richard A. [ Links ] e Gilpin. parte 1.25 Bull. H. [ Links ] Mansbach. Robert. e Hinsley. Lawrence. 7 (30). [ Links ] 61 Capotorti. Modernization and the Transformation of Internacional Relations. p.. Mary e Falk. ed. The Open University. 43 Essas questões são discutidas no meu Foundations of Democracy. New York. Milton Keynes. London. in The Expansion of International Society. 1986. por exemplo. 1976. John G. International Organization. 1984. London. International Law.. 13. [ Links ] 42 Parte do material desta seção foi adaptada do meu livro Political Theory and the Modern State. p. Charles W. [ Links ] e Gilpin... 1988. Madison. Tony. "Human rights: the hard road towards universality". 1987. Joseph S. [ Links ] . [ Links ] e Cooper. 1905. pp. [ Links ] Gourevitch. Peter J. por Hans Reiss. eds. ed. Scott/Foreman. University of Wisconsin Press. 1977. "International regimes. I. 40. "Transnational Relations as a Threat to the Democratíc Process". e.M. 1977. caps. James N. e Wittkopf. Stephen D. compilação do ESRC. cit. p. 1984. [ Links ] 29 Ver Morse. [ Links ] Krasner. MIT Press. McKay. Princeton. 6 (28) (D209). pp. 1986. David. 392-5. ed. Cambridge University Press. [ Links ] 45 Held e McGrew. New York. 370. 1972. The Ties that Bind. pp. 278-80. 58 Cassese. 345 e ss. [ Links ] e Richelson J. Kaiser. J.. 4 (13) (D308). 392-5. Transnational Relations and World Politics. 1986. D. New York. 358-360. "States and political blocs": the EEC". [ Links ] 51 Ver Keohane. a ser publicado brevemente. 1987.. Giddens. "Reflections on the nation-state in Western Europe today". Oxford University Press. "Governing the world economy: Bretton Woods and the IMF". Dan.. Basil Blackwell. pp. Open University. [ Links ] nesse volume. L. [ Links ] . New Forces. Mas essa comparação excederia os limites deste artigo. Edward. change and conflict".. Cox. cit. World Politics. [ Links ] 52 Cooper. Robert O. pp. pp. Free Press. After Hegemony. e Pollitt. The Nation-State and the Crisis of World Politics. também . 6 (26) (D209). pp. 1972. Englewood Cliffs. in The State and Society. 1980. "Toward Global Politics?" in Global Polítics.. Marvin S. 1795. 215. pp. 21. in Transnational Relations and World Politics. Development Dialogue. Principies of World Politics. [ Links ] 57 Ver Wickham. "The world political economy and the crisis of embedded liberalism". 1-22.. [ Links ] 27 McGrew.. 1984. Sovereighty. Cambridge University Press.. Mass. NY. [ Links ] 68 Kaiser. Columbia University Press. Entre as primeiras e mais importantes obras sobre essa matéria estão Kant. eds. Economic Policy in an Interdependent World. [ Links ] Rosenau.. New York. "Transnational relations as a threat to the democratic process". Prentice Hall. 1981. e Johnson.. p. e Nye. 1986. Edward. R. Allen and Unwin. 1987. [ Links ] 59 Ver Noel Emile. 41 Hinsley. "Democracy. R. 10-11. Smith. 1986. [ Links ] 28 Kegley. George. pp. 1976. Tony. Princeton. in Democractic Government and Politics. Oxford University Press. The Hague. Beyond Sovereignty University of South Carolina Press... 1984. [ Links ] e Katzenstein. in The State and Society. Transnational Relations and World Politics. pp. [ Links ] 60 Ver Negro. [ Links ]. "Violence.. The Nation-State and the Crisis of World Politics. Os números para 1984 eram. Stephen. vol. e Nye.615. Cambridge. Cambridge. [ Links ] 31 Ver Morse. respectivamente. in New Forms of Democracy.. Journal of Common Market Studies. "The second image reversed". Dealignment. Columbia University Press. War and Change in World Politics. pp. G. Kaldor. Robert O. Robert W. Hedley. p. 47 Keohane. [ Links ] Ruggie. Oxford. London. [ Links ] 65 Herz. 280. Cambridge.. 1977. Harvard Uniyersity Press. "States and military blocs: Nato".. 1989. Polity Press. [ Links ] ver . Gilpin. Princeton University Press. [ Links ] 48 Keohane e Nye. Macdonald. 1970. 1976.. Stanley. The Anarchical Society. Antonio. The Political Economy of International Relations. [ Links ] 66 Smith. [ Links ] 63 Bull. J.. [ Links ] 37 Herz. John H. Cambridge. [ Links ] 49 Ver. Free Press. 1. ed. "International institutions". in Britain in the World. in Kant's Political Writings. Robert O. Christopher. Adda B. [ Links ] 38 Bull. 62 Casesse.1987. . dos Estados Unidos e dos países de industrialização recente seria muito ilustrativa.. Violence and Law in the Modern Age.cap. Little. 1988. Antonio. transactions and change: embedded liberalism in the post-war economic order". Richard N.J. The Anarchical Society. S.511. Cornell University Press. documento de pesquisa não publicado. J. The Anarchical Society.. "Political economy and Britain's external position"." 1784. Ann. 229-35. 1988. F. Old Forces and the Future of World Politics. 1983[ Links ] Em 1909 havia 37 organizações intergovernamentais e 176 organizações internacionais não-governamentais. [ Links ] Keohane. [ Links ] falta a referência no original. War and the Rule of Law in the International Comunity". e as descobertas do Tribunal Europeu de Justiça levaram a mudanças na legislação britânica sobre várias questões tão importantes como discriminação sexual e igualdade salarial. 226-252. Robert O. pp. p. Sage. Milton Keynes. Cambridge. 56 Cf. 54 Burnheim. Milton Keynes.. [ Links ] 50 Cf. 1983. Modelski. por exemplo. Keohane e Nye. Longmans. St. 234 e ss.H. especialmente pp. Government and Opposition. [ Links ] 34 Ver em particular. "The Single European Act". XXI (1 and 2). New York. "Conceptualizing Global Politics". 2. e Vicent. 222. [ Links ] 35 cf. e Brown.. p. [ Links ] 36 Krasner. [ Links ] e Hoffmann. The Political Economy of International Relations. [ Links ] e Girvan. artigo 8. et al. [ Links ] 40 Ver Cassese. 1983. New York. 32 Ver Keohane. 132. 220 e ss..Martinus Nijhoff. Political Theory and the Modern State. Karl. . 19-20.. Cambridge. 131 [ Links ] 67 Cf. Cambridge University Press. Morse. por exemplo. Boston. International Regimes. nation-states and the world system". cap. e "Perpetual Peace". J. F. London. 1986. London. Cambridge University Press. Eugene R. London. pp. pp. Evan. N. 1. London. "Idea for a Universal History with a Cosmopolitan Purpose". Anthony. Brown. [ Links ] Soroos. Held.. 150 e ss. "Globalization.. in Global Politics. 1. eds. Between Power and Plenty: Foreign Economic Policies of: Advanced Industrial States. J. Production Power and World Order. The Web of Politics. Columbia. London. Goldthorpe. ed." Oxford. in The Structure and Process of International Law. in Order and Conflict in Contemporary Capitalism. Economic Policy in an Interdependent World. Harris. 1. 44 Held. 36 (1982). pp. 6 (27) (D209). Mass. [ Links ] 33 Kaiser. p.. 8 e 9. Transnacional Relations and World Politics. [ Links ] 64 Ver Oppeheim. [ Links ] e McGrew. Princeton University Press. Francis Pinter. Richard. 280 e 4. "Globalization and the Advanced Industrial State". 2º.. John. Power and Interdependence.. [ Links ] 30 Ver Keohane e Nye. Macmillan. [ Links ] 46 Uma comparação entre as experiências dos países europeus. op.eds. [ Links ] Na Grã-Bretanha. Macmillan.

elas articulam. definindo um quadro. Bernard. The Status of Law in International Society. [ Links ] 70 Cf. ver Dunn.. Conn. 214-225. e ver o meu livro Models of Democracy. pp. John. Skinner. Antonio. Cambridge.refiro-me à sua capacidade real. cap. "Rights". Oxford. "On legitimacy and political deliberàtion". seção II. pp. [ Links ] 83 Manin. [ Links ] 92 Na Europa isso significaria. eds. Rawls. cap. The Anarchical Society. 94 Os modelos para a organização de tais esferas teriam muito que aprender das concepções de democracia direta. pp. Polity Press. 1988. 245 e ss. a ser publicada em breve. e. Daedalus. [ Links ] 74 Para uma discussão desse dilema. 1983. Berlin. 44-57. 88 Cf. J. 1984. "Justice. [ Links ] 86 Cf. do governo legítimo. Theory and Practice. [ Links ] 72 Ibid. Cf. O estado atual da teoria da democracia e os conhecimentos que temos das experiências democráticas radicais não permitem previsões seguras sobre as estratégias mais adequadas para a mudança no campo da organização. nos limites deste trabalho. Amartya K. ver o meu Political Theory and the Modern State. O'Neil. Fundamental Legal Conceptions. Wesley. "Justice as fairness: political not metaphysical". Habermas. pp. 1985. e Pollitt.de valer-se das oportunidades que se oferecem a eles. 2º. "Justice as fairness: political not metaphysical". in Political Innovation and Conceptual Change. Ver Held. qualificação profissional. The Foundations of Modern Political Thought. Oxford University Press. O modelo federal da autonomia democrática é um tema central do meu livro Foundations of Democracy. [ Links ] para uma discussão da noção de "estrutura básica da sociedade" como um quadro limitativo da ação. Polity Press. A menos que sejam livres nessas cinco esferas. 76 Hinsley.. artigo 6. Bull. e um maior desenvolvimento do papel do sistema de tribunais de justiça europeus. New Forms of Democracy. Christophe. em Political Theory and the Modern State. ver Burnheim. F. tal como indicado no quadro abaixo. 254-5. nº 3. numa coletânea editada por Nussbau. contudo. Cambridge University Press. NJ.1987. especialmente pp. 1986. Locke. Oxford. que elas fazem referência a condições fundamentais de realização da participação política. Clarendon Press. 1970. Oxford. 9. [ Links ] . 1986. portanto. 84 Cf. cap. Cambridge. 73 Ibid. Gender and International boundaries". Four Essays on Liberty. John. Clarendon Press. p. os cidadãos não podem participar plenamente do "governo" do Estado e das questões civis. [ Links ] e Legitimation Crisis. Jurgen. 2. 36-41. 352 e pp. Yale University Press. "Central perspectives on the modern state". p. 248. pp.. 9. Richard. 1985. 270-71. 90 Deixo em aberto aqui um conjunto de questões referentes à aplicação (enforcement) do direito internacional. David. pp. Oxford. [ Links ] 81 Cf Rawls. 304-5. 82 Ver Dagger. uma rede mais restrita de Estados regionais e sociedades democráticas ainda poderia oferecer a possibilidade de uma regulamentação e meios de controle mais efetivos do que os que existem no atual sistema de Estados. State. John. 189-213. Oxford University Press.. ligada a condições de saúde. [ Links ] 75 A idéia da "autonomia democrática" foi apresentada no meu livro Models of Democracy.69 Ruggie. ed.. "Human rights and the future international comunity". Philosophy and Public Affairs. [ Links ] 77 Para uma análise mais completa. Seria útil constituir uma ordem legal "capacitadora". XIV 3. 164 ss. Philosophy and Public Affairs 14. [ Links ] 85 Ver o meu artigo "Citizenship and Autonomy". Martha. pp. Princeton University Press. Is Democracy Possible?. 1985. a ser publicado brevemente. 41-82. Falk. New Haven. 93 Caso tal assembléia se revele um sonho impossível (e há boas razões para pensar que essa hipótese é muito provável). 1969. e. 3. a proteção e reforçamento do programa europeu de direitos humanos. Princeton..H. [ Links ] que faz uso proveitoso de uma série de distinções apresentadas em Hohfeld. Devo sublinhar.. [ Links ] 87 Não seria apropriado. in Political Theory and the Modern. e Sen.4. Political Theory. pp. [ Links ] 91 Sobre a representação estatística. Richard A. recursos .. G. ver o artigo 1. Isaiah. 353-8. Onora. [ Links ] 78 Cf. 254. vol.. tentar uma justificação adequada ou uma explicação dessas categorias. pp. 6. do meu livro Political Theory and the Modern State. 1976. Heinemann. [ Links ] 79 Sobre o conceito lockeano de comunidade política. [ Links ] 89 Models of Democracy. 11-51. The anarchical Society. [ Links ] 80 Eu modifiquei a minha concepção anterior desse princípio em Models of Democracy.. por exemplo.Sovereignty. pp. 111-17. International Law in a Divided World. ou âmbito comum de ação. 112. London. 351-362 para uma interessante discussã [ Links ]o do "processo de deliberação". 222-3. antes. pp. [ Links ] 71 Bull. Cambridge.. pp. Nesse sentido específico. As cinco categorias de direitos não articulam uma lista interminável de bens. 15. pp. Mas seria necessário utilizar um enfoque experimental de tais estruturas organizacionais. as condições necessárias para a participação livre e Igual. a "música do futuro" (Marx) somente pode ser composta na prática através da inovação e da pesquisa. 1964.. p. [ Links ] e Cassese. Uma constituição e declaração de direitos que estipulem as liberdades correspondentes a cada um desses cinco domínios reforçaria a capacidade dos cidadãos .

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