Risco e Justiça

Paulo vaz
Risco e Justiça in Calomeni, Teresa Cristina B. (org) - Nichel Foucault - entre o murmurio e
a palavra. Campos: Editora Faculdade de Direito de Campos, 200+, pp 101-131
Trinta anos ja se passaram desde o aparecimento de vigiar e Punir, livro no qual Foucault
expös grande parte de suas teses sobre o direito. Nuita coisa aconteceu desde entao. Talvez seja a
hora, portanto, de aplicar a Foucault um de seus principios basicos de analise do pensamento, a
raridade discursiva, com sua estratégia de reconduzir um enunciado teórico qualquer as suas
condiçoes de enunciaçao, ao contexto onde ele apareceu. Nao se trata mais de manter intocada
sua conceituaçao da sociedade, pois mudamos. Cabe, sim, usando alguns de seus principios
metodológicos, avaliar a distancia que nos separa da sociedade disciplinar; em outras palavras,
mais do que suas hipóteses, cabe reativar seu modo de conceber o questionamento do presente. A
figura Foucaultiana do intelectual requeria a intervençao no debate politico do presente através da
analise de nossa herança intelectual. Nanter a figura implica hoje historicizar seu pensamento,
admitir que parte do que Foucault pensou pertence a um mundo que nao existe mais.
A circunscriçao temporal do pensamento de Foucault sera feita através de dois
movimentos. No primeiro, suas teses serao associadas ao momento histórico singular que as
tornaram possiveis. vigiar e punir resume e resulta de diversas lutas anti-autoritarias que estavam
ocorrendo desde o inicio da década de 60 do século passado. O segundo movimento é o esforço de
conceituar o sentimento de distancia entre nosso presente e aquele onde Foucault escrevia. Essa
distancia sera aqui apreendida pela passagem da norma ao risco como o conceito basico a partir do
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qual seres humanos da cultura ocidental pensam o que sao e o que podem ser, definindo a partir
dai o que devem fazer consigo mesmos para se tornarem o que devem ser.
A estratégia de circunscrever temporalmente as teses de Foucault sobre a sociedade
disciplinar nao é novidade. Deleuze, em seu curto artigo Pós-escrito sobre as sociedades de
controle, abriu o caminho, que é explorado desde entao por varios autores. Uma vez mais, a
circunscriçao temporal nao significa o abandono do pensamento de Foucault. O fato de que cada
vez menos se utilizem técnicas disciplinares de poder nao invalida suas intuiçoes sobre a relaçao
entre poder e sujeito e sobre como se pensar a história do pensamento.
vigiar e punir, hoje
No final da introduçao de vigiar e punir, Foucault diz que foi a luta entao vigente contra a
prisao o que tornou possivel e necessaria a redaçao do livro. Além de mostrar seu engajamento
politico, este enunciado é tipico do modo como ele pensa as relaçoes entre presente e passado. É
uma descontinuidade na história o que a oferece ao intelectual como objeto, ou ainda, é uma
fratura virtual nos modos de ser e pensar de um dado presente o que torna possivel e necessaria a
investigaçao da história. E a investigaçao narra que também houve uma descontinuidade no
surgimento do que hoje esta sendo questionado. Uma história perpassada por descontinuidades
visa mostrar que nosso presente nao é necessario, que nosso modo de punir nao é o mais racional
e adequado a uma suposta natureza humana, que ele surgiu por acaso e que pode ser
transformado. Nais precisamente, a descontinuidade é simultaneamente ontológica, metodológica e
retórica. Ontológica porque as crenças e valores as quais aderimos com tanto ardor nao sao
verdadeiras, nao tem fundamento; surgiram ao acaso das lutas dos homens em torno do que se
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tem por verdadeiro e por acaso podem desaparecer. Netodológica porque é a possibilidade de
mudança no que hoje existe, é o descortinio de uma descontinuidade virtual, o que suscita a
investigaçao da nossa história intelectual. E retórica porque a narrativa quer atualizar uma
descontinuidade na história ao tornar dificil que continuemos a considerar naturais e adequadas as
praticas que sao historiadas, sejam elas o modo de lidar com a morte e o sofrimento, a forma de
punir quem comete atos ilegais, o que acreditamos ser racional ou nossa relaçao com os prazeres
sexuais.
Concretamente, Foucault argumenta em vigiar e punir que a prisao nao era o modo de
puniçao imaginado como correto por aqueles que entao criticavam o suplicio no final do século
Xv!!!. Ao contrario, o que os criticos da puniçao ostentatória propunham como alternativa era uma
relaçao qualitativa entre um dado crime e seu castigo, o que é diametralmente oposto a uma mera
modulaçao quantititativa da pena segundo o tipo de crime e o comportamento do prisioneiro. E por
que entao a prisao foi rapidamente aceita? Segundo Foucault, a prisao sucedeu ao suplicio porque
ela era a forma pura e concentrada de outras instituiçoes disciplinares, como colégios, hospitais,
asilos e fabricas, que estavam se desenvolvendo desde o século Xv!!. A aclimataçao rapida das
sociedades ocidentais a prisao e seu carater de inevitabilidade decorre da semelhança de técnicas
de poder. Nas a hegemonia da prisao desde meados do século X!X como forma de punir marca o
nascimento da sociedade disciplinar. A prisao se parece com escolas, fabricas, hospitais e
sanatórios; nelas, os prisioneiros aprenderiam, trabalhariam e se curariam de seus desvios,
voltando a ser bons cidadaos. !nversamente, porém, para se aprender, trabalhar e se ficar sao e
saudavel, seria preciso que os seres humanos aceitassem se comportar um pouco como
prisioneiros, sendo vigiados e obedecendo regras disparatadas em nome da eficiência.
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Pode-se dizer que Foucault apresenta quatro teses maiores sobre o poder nos livros e
artigos escritos na década de /0 do século passado. A primeira é uma conceituaçao da mudança
histórica: a passagem da !dade Classica a Nodernidade é apresentada em vigiar e punir através de
uma mudança no objeto da açao punitiva. Enquanto no suplicio o que importava era fazer o corpo
sofrer, a prisao visa castigar a alma: quer corrigir, disciplinar, readequar os prisioneiros a sociedade
(Foucault, 19/9, p. 16). A argumentaçao se apóia na idéia de reabilitaçao e em sua consequência
pratica - um prisioneiro continua a ser julgado mesmo após ter recebido sua sentença. Se as penas
sao moduladas quantitativamente segundo nao só a natureza do crime, mas, sobretudo, segundo o
comportamento dos individuos durante o cumprimento da sentença, o desejavel é que o prisioneiro
compreenda que agiu erradamente quando cometeu um crime. De modo menos singelo, o que a
prisao faz através dessa pretendida transformaçao espiritual é injetar um pouco de ma-consciência
naqueles que até entao nao a tinham. O sofrimento visado na modernidade é a culpa, a mordida da
consciência: o arrependimento se torna condiçao da liberdade.
A segunda tese é a invasao da lei pela norma trazida pela mudança no objeto da açao
punitiva. O novo modo de punir muda a teoria e pratica judicial, pois a prisao faz dos prisioneiros
delinquentes, primeiro numa dimensao de idealidade (Foucault 19/9: 251-6). O delinquente é um
personagem, um ser que tem em seu passado individual o principio de explicaçao de seus atos. A
dimensao de idealidade faz com que um individuo seja julgado nao pelo que fez, mas pelo que ele
é: na fixaçao da sentença e durante a puniçao, o passado do individuo e o que revela de suas
propensoes futuras estao em jogo. Ouem julga, por sua vez, nao sao apenas os juizes, mas
também os especialistas em normalidade - psiquiatras, psicólogos, médicos, servidores sociais, etc.
- que empregam seu olhar clinico durante a formulaçao e o cumprimento da sentença. E se o
comportamento do criminoso é visto como determinado por seu passado, a teoria criminológica
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recorreria a causas de longo prazo, como a anomia social (a ausência de oportunidades absoluta ou
relativa) e a causalidade psicológica inconsciente, encarregada de explicar trajetórias criminosas ou
irrupçoes subitas de violência.
A terceira tese, inovadora e aparentemente paradoxal, é a de que um sistema penal deve
ser concebido como um esforço nao para eliminar ilegalidades, mas como um modo de administra-
las (Foucault 19/9: 2/2). Aparentemente paradoxal porque estariamos diante de uma circularidade:
como poderia haver ilegalidades antes de existir a lei? Contudo, o paradoxo desaparece quando
pensamos que o que se esta analisando é uma mudança histórica, onde um dado sistema legal
entra em crise porque seu modo de administrar ilegalidades nao funciona mais. O modo de a prisao
gerir ilegalidades - que também determina a forma do aparato de segurança, a policia - decorre do
fato de ela criar concretamente a delinquência através do fenömeno da reincidência: sao os
mesmos que nela entram e saem. Desde cedo, a prisao conviveu com a constataçao de seu
fracasso; criticos apontavam que, ao invés de reabilitar, ela era lugar de aprendizado do crime,
onde jovens presos por um leve deslize se tornam criminosos de carreira. Partindo da suposiçao de
que a lei serve para gerir ilegalidades, Foucault propoe, porém, que a criaçao de um meio fechado
de delinquentes era elemento da estratégia de poder por três razoes principais (Foucault 19/9:
2/2-9). Em primeiro lugar, dado o efeito de negatividade - criminosos eram doentes, anormais,
estranhos - o movimento operario de contestaçao ao capitalismo procurou se diferenciar dos
`criminosos comuns' e, assim, pouco utilizou formas de luta que têm um potencial de imensa
perturbaçao e de difusao rapida, como saques e quebras de maquinas. Em segundo lugar, o meio
fechado e local de delinquentes facilita o trabalho da policia por ser controlavel: é facil de infiltrar,
de encontrar informantes e de organizar atividades ilegais lucrativas, ao mesmo tempo em que se
mantém o crime dentro de limites toleraveis. Por fim, a presença constante do delinquente nos
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jornais, um ser cujos elos com a populaçao de baixa renda foram cortados pela carga de
negatividade, torna aceitavel e desejavel a vigilancia da policia pela sociedade.
A quarta tese é, na verdade, a generalizaçao da terceira. Foucault famosamente propös
que o poder, especialmente na modernidade, era produtivo. Nuita tinta foi gasta na tentativa de
compreender este enunciado, com alguns chegando ao equivoco de supor que deveriamos
compreender o poder como `bom'. O poder moderno é produtivo no sentido de que seu exercicio,
ao contrario da forma classica de poder, nao visa extinguir do real a negatividade que ele designa.
O poder nao tem mais o direito de marcar, banir, estropiar ou matar; deve, sim, cuidar da
normalidade de todos os individuos. Seus efeitos dependem do fato de ele produzir no real aquilo
que ninguém pode ser: a estranha classe dos anormais, povoada por loucos, delinquentes e
perversos sexuais. Essa tese é trabalhada mais extensamente no livro História da Sexualidade ! - A
vontade de saber, especialmente nos capitulos `A implantaçao perversa' e `Direito de morte e poder
sobre a vida'. De certo modo, essa caracteristica do poder moderno é uma herança do pensamento
cristao. O que se tem como positivo, como `bom', na modernidade nao tem realidade própria; todo
o ser do normal consiste em nao ser anormal, assim como o caminho da pureza permaneceria
indefinido sem os pecados, as tentaçoes.
O `bem' talvez seja sempre a negaçao de uma negatividade inventada pelo poder. Nas, na
Nodernidade, essa produçao no real da negativade ética provia uma letigimaçao pastoral para o
exercicio do poder. Os novos padres - médicos, psiquiatras, professores, pais, etc - sempre tinham
para si a `boa consciência' de exercer o poder baseado na verdade - na forma moderna de
verdade, a ciência - e para o bem de todos os desviantes. Fazia-se o que tinha de ser feito para
salvar as ovelhas negras: loucos se tornariam saos, perversos teriam uma sexualidade saudavel,
doentes se curariam e deliquentes se tornariam bons cidadaos. Um outro efeito da produçao no real
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da negatividade ética, talvez mais importante, é a delimitaçao da forma de cuidado de si dos ditos
normais. Todos eles temerao haver em si algo que os tornaria anormais e, assim, passarao suas
vidas a lutar contra si mesmos, contra seus desejos, para se constituir como sujeitos normais. Os
normais sao culpados; o exercicio de sua liberdade consiste no esforço de livrar-se das tentaçoes. A
divisao da sociedade entre normais e anormais faz existir essa mesma divisao no interior de cada
ser humano. O campo das experiências intimas do sujeito moderno é, portanto, delimitado pelo
temor da anormalidade e pelo prazer ressentido em ser normal. Nada muito diferente do campo
delimitado pelos conceitos de pecado e paraiso.
Após essa breve revisao das teses foucaultianas sobre poder, direito e subjetividade,
podemos abordar o contexto histórico que as tornou possiveis. Se Foucault colocou como condiçao
de possibilidade de seu texto a luta dos prisioneiros, se criticava a aceitaçao do movimento operario
da negatividade de atos ditos `delinquentes' e se mostrava como o desejo de normalidade era, de
fato, instalado em nós pelo poder, seu livro buscava uma espécie de aliança estratégica entre o
movimento operario de contestaçao ao capitalismo e as lutas libertarias que ocorreram desde o
inicio da década de 60 até meados da década de /0. Nao só havia inumeraveis greves; também
estava surgindo o feminismo, o movimento dos estudantes, a liberaçao sexual, a defesa do uso de
drogas, a luta contra o racismo, etc. Desse modo, nesses anos, a prisao e outras `instituiçoes
totais', como o asilo, começaram a ser questionadas diferentemente. Pelo fato de o prisioneiro
continuar a ser julgado após ter sido sentenciado, denunciava-se que havia nas prisoes abusos de
poder. As criticas frisavam a ausência de tratamento humano de loucos e delinquentes, que seria a
responsavel pelas falhas em reabilitar e curar. Abrir os muros era a palavra de ordem. O que
ocorria com prisioneiros e loucos era o caso exemplar da situaçao de todos os cidadaos, oprimidos
pelo Estado e seus funcionarios, cujo o poder era exercido em nome da verdade. Por um breve
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momento, pensou-se que a experiência de loucos e prisioneiros condensava a de cada um dos
cidadaos. Nesmo Hollywood nao resistiu; basta lembrar de filmes como Um Estranho no Ninho e
Papillon.
O resultado desses movimentos sociais em relaçao as praticas de puniçao, esperavam
criminologistas, psiquiatras e ativistas, seria a multiplicaçao de penas e tratamentos alternativos,
que nao recorressem ao encarceramento. O resultado, porém, foi a reinvençao da necessidade da
prisao desde o final da década de /0, só que com a pura e simples funçao de conter os prisioneiros
(Garland 2003: 8, 1/8). O que agora importa na prisao sao seus muros, sua capacidade de isolar os
prisioneiros do restante da populaçao. Essa reinvençao aparece como realidade nos paises
desenvolvidos e como `esperança' nos paises subdesenvolvidos. A singularidade da `periferia'
decorre da existência do crime organizado de carater transnacional. Nos paises subdesenvolvidos, a
prisao nao produz mais um meio fechado de delinquentes. A promiscuidade entre criminosos e
policiais funciona hoje em favor dos primeiros, seja por que o trafico de drogas rende dinheiro
suficiente para corromper, seja porque seu elo com o trafico de armas permite ao crime organizado
usar a violência contra funcionarios do sistema de justiça como tatica politica (Lee !!! 1989: 12). O
mundo descrito por Foucault se rompeu em dois pontos basicos: o personagem do delinquente é
substituido pelos criminosos de alto risco, com o que isso envolve de mudanças na teoria e na
pratica da justiça, e a estratégia de segurança via meio fechado de delinquência fracassa
estrepitosamente diante do poderio do crime organizado transnacional.
Entre as décadas de /0 e 80, experimentamos, portanto, uma outra descontinuidade
histórica, similar aquela que deu origem a prisao com reabilitaçao. O intenso questionamento da
prisao nao produziu os resultados que se esperava: a prisao nao se humanizou, as penas
alternativas ocupam um lugar marginal no sistema de puniçao e se multiplicaram as famosas
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prisoes de segurança maxima. Como disse anteriormente, essa descontinuidade - a transiçao da
prisao com reabilitaçao para a prisao sem reabilitaçao - deve ser pensada como a passagem da
norma ao risco. A idéia de reabilitaçao esta contida na de norma. Esta ultima veio substituir a de
natureza humana e requer o esforço de curar. Ouando dizemos que algo é anormal, implicitamente
estamos supondo que algo pode e deve ser feito para superar o `erro'. Desse modo, a idéia de
norma supoe que o futuro pode ser diferente: no presente, ainda existiria uma separaçao entre
normais e anormais, mas no futuro só a norma vigorara. Reabilitaçao, norma, progresso e utopia -
esses conceitos tao importantes para o sentido de tempo dos seres humanos modernos têm uma
`semelhança de familia'.
A prisao sem reabilitaçao implica a idéia de risco: o que se visa é manter a segurança e o
prazer de parte da populaçao através da continência do risco posto por outros. E essa passagem
nao ocorre apenas nas praticas de puniçao; o conceito de risco parece hoje ocupar o lugar da
norma em todas as praticas que articulam o sofrimento humano e o tempo. O cuidado com a
saude, por exemplo, é hoje marcado pela hegemonia da medicina preditiva. Somos incitados a
cuidar de nosso futuro nos nossos minimos atos cotidianos, com o cuidado sendo entendido como o
esforço de evitar futuros indesejaveis como doença e morte prematura. Cada vez menos comemos
uma feijoada - ou um bife com fritas - sem um pouco de ansiedade, seja com a aparência do
corpo, seja com colesterol e doenças coronarias ou talvez cancer
1
.
O conceito de risco
1
Escrevi uma série de artigos nos ultimos / anos descrevendo a passagem da norma ao
risco tendo em vista as transformaçoes da medicina e o cuidado de si. Os mais recentes e
completos sao `Um corpo com futuro' e `Kinds of self-surveillance: from abnormality to individuals at
risk' (com Fernanda Bruno).
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Um modo de aprofundar o diagnóstico é fazer um esforço de clarificaçao conceitual, tao
mais necessario pelo fato de que o conceito de risco adquiriu recentemente uma enorme
relevancia. Ele aparece em uma série de praticas sociais e disciplinas teóricas: ecologia, mercado
financeiro, industria de seguros, empresa `responsavel', saude, justiça criminal, justiça civil,
probabilidade, psicologia cognitiva, etc. Essa variedade condena de antemao qualquer esforço
simples de unificaçao. Contudo, ele pode ser melhor compreendido se prestamos atençao a sua
história e ao seu uso corrente.
Segundo Hacking, a palavra vem do francês risqué que, por sua vez, deriva do italiano
rischio e data do século Xv! (Hacking 2003). O termo começou a ser usado em conexao com a
navegaçao comercial; estava em jogo a distribuiçao de lucros nesse empreendimento outrora
aventuroso. Além desse uso pratico, o advento do termo marca uma outra relaçao dos individuos
com o tempo. A modificaçao pode ser vista na mudança semantica sofrida pelo conceito de
prudência. No século Xv!, na linguagem cortesa, a palavra denotava covardia, a baixeza do frugal,
a falta de honra e o egoismo. Desde o século Xv!!, porém, o prudente passa a designar o sabio que
aceitou o dever moral de se precaver em relaçao ao futuro, de poupar para os dias chuvosos,
aquele que tem a virtude da previsao (Hacking 2003: 25). Essa outra relaçao com o tempo,
portanto, implica os conceitos correlatos de previsao e acidente, a tentativa de trazer um
acontecimento futuro indesejavel para o presente, calcula-lo e definir os modos de enfrenta-lo.
Precisemos a relaçao nova com o tempo. O conceito de risco esta em oposiçao ao conceito
filosófico de necessidade nas suas dimensoes epistemológica e existencial. Ele se aplica em
situaçoes onde o futuro nem é necessario, absolutamente previsto, nem totalmente desconhecido.
Numa definiçao simples da diferença entre risco e incerteza, se nao sabemos ao certo o que ira
acontecer, mas conhecemos as chances dos eventos, temos o risco; se nao conhecemos sequer sua
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probabilidade, se nao é possivel nenhuma estimativa, estamos diante da pura e simples incerteza
(Garland 2003: 52). Risco designa assim uma relaçao epistemológica de conhecimento parcial do
futuro. Por outro lado, nao haveria sentido em falar de risco se no conceito nao houvesse embutido
o esforço de evitar o indesejavel. Se a cultura ocidental desde o século Xv!! fosse marcada por uma
aceitaçao fatalista dos eventos futuros, embora enfrentasse inumeros perigos, nao haveria risco. O
futuro parcialmente conhecido é também transformavel.
O esforço de elaboraçao conceitual precisa ser aprofundado, pois até aqui nao é possivel
propor nenhuma explicaçao para a relaçao entre a difusao do conceito e a singularidade da cultura
contemporanea; afinal, pode-se argumentar que desde que ha cultura humana os homens tentam
prever o futuro e que o esforço de domesticaçao do acaso tem origem no surgimento da onto-
teologia em Platao, com sua escolha ontológica da permanência ao propor que ha mais ser no que
é imutavel. A associaçao entre risco e cultura contemporanea é entrevista quando pensamos que
estes calculos do futuro requerem a coleta de dados. É preciso haver uma verdadeira avalanche de
dados para que conceitos como homem médio e norma surjam (Hacking 1990). A associaçao ganha
contornos mais nitidos se observamos a diferença entre as técnicas estatisticas de construçao da
norma e da construçao do risco. Partindo de uma populaçao heterogênea, a construçao da norma
trabalha os dados com a finalidade de construir a polaridade entre uma imensa maioria homogênea
e o seu desvio. As técnicas de inferência estatistica que calculam o risco, ao contrario, partem de
uma populaçao heterogênea para nela encontrar varios sub-grupos homogêneos (Pratt 1995).
Nesse caso, nenhum individuo tem um risco zero em relaçao a alguma coisa; ha apenas grupos
com diferentes niveis de risco.
A associaçao entre risco e cultura contemporanea é fortalecida se atentamos a diferenças
no modo como se problematiza a açao humana. Os conceitos modernos de progresso e revoluçao
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assumiam implicitamente que, no presente, a açao humana se encontrava limitada e que a funçao
da politica era liberar os homens dos entraves a sua liberdade. A preeminência do conceito de risco
na problematizaçao da tecnologia em praticas como bioética implica, ao contrario, que a açao
humana pode muito e que é preciso encontrar limites a este poder. A mesma diferença é percebida
na substituiçao da problematica moderna da liberaçao e do desejo pela do risco. Nietzsche e Freud
tanto afetaram as praticas cotidianas ocidentais porque ao invés de tentarem definir o que seria
licito de ser desejado por todos, preocupavam-se em indagar os motivos de os homens nao
fazerem o que desejavam, questionando a cultura moderna por sua limitaçao a liberdade ao
pressionar inconscientemente para que todos se parecessem, para que desejassem a mesma coisa
as espensas do que `verdadeiramente' desejavam (vaz 2003). O conceito de risco, por sua vez,
ocorre numa sociedade onde ha uma margem de autonomia individual em relaçao a escolha de
estilos de vida, em relaçao ao que ser e fazer. Ele define a margem exterior do aceitavel tendo em
vista o desejo dos individuos de continuar a viver. Em suma, esse conceito se torna hegemönico
quando ha escolha individual em relaçao a identidade, quando se reduz a pressao social
homogeneizadora.
A continuidade da elaboraçao conceitual passa pelo retorno a linguagem cotidiana e a
distinçao entre risco e perigo. Este ultimo designa um mal contingente, identificado e atribuido a
alguma coisa, pessoa ou situaçao como uma caracteristica intrinseca delas. Risco, por sua vez,
refere-se a possibilidade de dano e mede a exposiçao ao perigo. Em termos simples, risco é a
medida da probabilidade do potencial de perigo (Garland 2003: 50). Por isso, ele nao é o atributo
de individuos, mas é o que qualifica fatores supra-pessoais - genes, história individual, habitos de
vida - cuja a presença pode acrescer a probabilidade de dano que um individuo pode sofrer ou
provocar se ele esta, respectivamente, em risco ou coloca os outros em risco. Uma outra diferença
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decorrente é que um risco, ao contrario de um perigo, nao pode ser afastado imediata e
definitivamente. Fatores de risco só podem ser reduzidos ou ampliados, o que implica um cuidado
de si crönico, permanente, para a vida toda. Ninguém tem risco zero e os fatores de risco agem a
longo prazo; a prudência em relaçao a um risco qualquer deve ser diaria e interminavel. Desse
modo, evitar um evento futuro indesejavel torna-se a base de decisoes individuais e coletivas; de
fato, torna-se um dever, uma obrigaçao moral. Nao agir se precavendo contra riscos é cada vez
mais socialmente visto como negativo.
A cronicidade e a obrigatoriedade do cuidado geram um paradoxo temporal. Como uma
açao do presente é irreversivel, um futuro possivel tem como correlato uma consequência
determinada no presente. Esse paradoxo ganha contornos dramaticos em decisoes sobre
mastectomia ou histerectomia preventivas (seriam casos de auto-destruiçao ou de auto-
preservaçao?), embora esteja na base de diversas atitudes cotidianas de muitos individuos em
relaçao a prazeres ligados a sexo, bebida, drogas e alimentaçao. Ou pode nos deixar perplexos,
quando conter riscos legitima praticas de aprisionamento de individuos mesmo após terem
cumprido a pena, como é o caso da prisao perpétua por três ofensas a lei no estado da Califórmia
(que no ano de 2003 foi reconhecido como legitima pela Suprema Corte) ou os direitos que o
governo americano se atribui em relaçao aos presumidos terroristas na base de Guantanamo.
Ha um outro ponto a ser feito a partir da diferença entre risco e perigo. Este só se torna
aquele quando se avalia a probabilidade de um evento adverso e se estima a magnitude de seus
efeitos. Nao existe, portanto, risco sem o nosso conhecimento deles. Em outras palavras, o risco
nao é algo que exista desde sempre, anterior a sua descoberta. Ao contrario, ha seleçao e
construçao sociais, pois depende de convençoes de percepçao, juizo e medida. Ha variaçao cultural
na seleçao, nos juizos feitos, na distribuiçao de responsabilidades por sua administraçao e nos
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métodos de lidar com os riscos. Os riscos que identificamos revelam nao só o que acreditamos
existir no exterior de nossa cultura, mas também, e sobretudo, sua própria constituiçao interna
(Garland 2003).
A oposiçao entre riscos objetivos e subjetivos, tao relevante na profissao de analista de
risco, com sua perene questao de por que os leigos discordam dos cientistas em relaçao as
estimativas do que se deve evitar, pode ser vista como uma falsa questao. Um risco dito `objetivo'
significa nada mais e nada menos do que um risco construido por peritos socialmente autorizados,
isto é, um risco objetivo é aquele que foi cientificamente construido usando os melhores dados e
conhecimento disponiveis. Ja o risco percebido seria baseado em impressoes subjetivas. Embora
falsa, a oposiçao é politicamente relevante, pois os Estados crescentemente agem para evitar riscos
e devem, portanto, encontrar meios de legitimar suas açoes.
A relaçao entre risco e ciência acrescenta uma razao para a preeminência do risco na
cultura contemporanea. Cada vez mais os individuos usam o conhecimento cientifico quando
organizam suas vidas. Uma caracteristica central da sociedade contemporanea é a nova relaçao
entre atores leigos e peritos, onde a opiniao ou conselho de algum cientista sobre algum tema
(dieta, saude, finanças, etc.) rapidamente passa para a consciência e a rotina diaria dos individuos
através dos meios de comunicaçao. Logo, a conduta do publico hoje é cada vez mais governada
pelo conhecimento reflexivo, ao invés da tradiçao ou da força do habito. A ciência esta como nunca
presente em nossas mentes, o que acarreta problema de credibilidade para os cientistas, na
medida em que podem divergir sobre os riscos que existem e o quanto devemos nos preocupar
com ele, e na medida em que sua opiniao sobre riscos torna-se a base para politicas publicas.
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Em resumo, o conceito de risco requer, primeiro, um estatuto do futuro como
simultaneamente incerto, passivel de ser conhecido parcialmente e transformavel. Requer também
dados que permitem construir no tecido social diferentes sub-grupos. Requer ainda uma forma de
problematizar a açao humana onde o individuo tem a liberdade de escolher reflexivamente seu
estilo de vida e o dever de construir uma relaçao de si para consigo de cuidado crönico. O conceito
aponta, por fim, para o peso da ciência na politica e na vida cotidiana, assim como ao complexo
jogo de forças entre peritos, movimentos sociais, o Estado e os meios de comunicaçao na
construçao de causas publicas e na elaboraçao dos estilos de vida saudaveis.
Uma ultima observaçao sobre a história recente do uso do conceito de risco nas praticas
politicas. O aparecimento do conceito no contexto politico se deveu ao crescimento do movimento
ecológico. Ou seja, ele era promovido por grupos situados a margem da sociedade, que propunham
evitar um futuro catastrófico que atingiria a todos através de mudanças sociais. Desde o final da
década de 80, porém, o conceito de risco passou a ser promovido pela classe média, enfatizando a
saude e a segurança contra o crime.
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Após o esclarecimento conceitual, cabe analisar brevemente como o risco transforma o
aparato de justiça penal. Cabe notar que um elemento nao muda. Se a prisao é desejada como
modo de conter riscos, o objeto da açao punitiva continua sendo a alma: castiga-se um individuo
nao pelo que fez, mas pelo que é e pode fazer. O que muda é a visao de como essa alma se
constitui no tempo e age no presente. As novas propostas de `causa do crime' mostram a diferença
(Garland 2003: 182-6). Uma teoria é a `causalidade situacional', que propoe que o criminoso é livre
em seus atos. O crime seria uma questao de oportunidade momentanea, de avaliaçao por quem
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esta prestes a cometer um crime, da situaçao segundo um calculo de risco de aprisionamento e
beneficio do ato. Tal concepçao sustenta praticas que tentam ou reduzir a `oferta' de crimes no
ambiente, `revitalizando' lugares de alto risco e instalando dispositivos de vigilancia, ou diminuir a
`demanda', elevando o elemento de custo no calculo dos possiveis criminosos, o que é a base da
politica de `tolerancia zero'. Conhecemos o resultado dessa reavaliaçao da causalidade: o
incremento da infra-estrutura privada de vigilancia e proteçao, condominios fechados, punitividade
exacerbada, reforço do policiamento, etc. É preciso ainda realçar um detalhe: essas teorias e
propostas supoe uma causalidade de curto prazo, se opondo a tese moderna da anomia; nelas,
distribuir renda nao vale mais como prevençao. Embora suas taticas de segurança se espalhem por
diversos paises, essa concepçao de causa conquista maior adesao da opiniao publica em paises
desenvolvidos, onde o que parece haver é só uma extensa classe média e alguns muito ricos.
Ouando os criminologistas se esforçam para subjetivar o crime, quando tentam construir
uma teoria mostrando que os criminosos sao essencialmente diferentes dos `bons cidadaos', eles ou
recorrem a novidade cientifica da genética, ou entao aceitam o papel da situaçao, mas ressaltam
que os que cometem crimes diante de oportunidades o fazem porque nao têm suficiente auto-
controle (Gottfredson e Hirschi 1990: 85-121). Essa deficiência, por sua vez, teria uma explicaçao
cultural, que é a recente permissividade da educaçao de crianças e jovens por pais e professores.
Exatamente como os que se descuidam da saude, os criminosos estao presos ao curto prazo, só
enxergando o prazer do ato criminosos e se esquecendo do riscos, tanto para si, quanto para os
outros. Nao deixa de ser sugestivo que no discurso conservador fenömenos diferentes como uso de
drogas, obesidade e crime tenham uma mesma razao ontológica, um auto-controle fragil e nao um
desvio no objeto de desejo, e um mesmo principio explicativo, a educaçao permissiva.
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As novas causalidades propostas para o crime afetam sobretudo o aparato de segurança. O
que transforma o sentenciamento e a puniçao é o novo modo de se avaliar a propensao a cometer
crime (Castells 1991; Pratt 1995; Rose 2002). Os criminosos sao classificados como sendo de baixo,
médio ou alto risco segundo tabelas estatisticas de fatores de risco, como crimes anteriormente
cometidos, uso de alcohol ou drogas, situaçao familiar, etc. Ouanto maior o numero de fatores,
maior é a probabilidade de cometer violência no futuro e maior deve ser o tempo de reclusao. Por
consequência, muda o modo de diagnosticar, com um crescente ceticismo em relaçao ao olhar
clinico de psiquiatras e psicológos.
A transferência de responsabilidade do Estado para o individuo também exerce seu papel
aqui. De um lado, o Estado reconhece que a policia nao é suficiente para garantir a segurança; de
outro lado
2
, individuos e empresas tem um papel na prevençao do crime. Essa transferência se
associa a tese da causalidade situacional, reforçando o aparato privado de segurança e a crescente
presença de objetos de vigilancia no cotidiano.
Uma outra diferença, especialmente relevante para aqueles que estudam os meios de
comunicaçao, é o fato de o crime ter se tornado uma questao politica maior desde a década de 80.
Embora os meios de comunicaçao cubram o crime ao menos desde o século X!X, a novidade é a
relevancia da criminalidade na politica. No Brasil, a segurança era na primeira campanha eleitoral
um dos dedos do entao candidato Fernando Henrique Cardoso; na campanha do ano passado, a
rebeliao em Bangu ! foi tema de perguntas aos candidatos. Nos Estados Unidos, durante as
décadas de /0 e 80, quando convocados a responder sobre qual era a questao social mais
importante, no maximo 5¾ dos Norte-Americanos escolhiam o crime; na década de 90, porém,
2
Nargareth Thatcher uma vez disse que o aumento da criminalidade era em parte causado
pelas vitimas, que nao se preveniam o suficiente (O'Nalley 1996).
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essa percentagem chegou a cerca de 50¾ em 199+ e nunca caiu para menos de 20¾ nos outros
anos. Nas uma consequência importante é que a entrada do crime na politica implica que o sistema
de justiça penal perdeu parte importante da autonomia que tinha na Nodernidade. Juizes se
deparam com leis draconianas e ineficazes impostas por politicos ou pela populaçao; peritos
avaliam réus ou prisioneiros considerando a possibilidade de serem responsabilizados
posteriormente se a populaçao ou a midia considerarem que eles foram lenientes e nao contiveram
adequadamente os riscos; policiais e funcionarios de prisao estao sob intenso escrutinio, suspeitos
de serem corruptos ou coniventes.
Na realidade, essa entrada do crime na politica é diferente daquela ocorrida nas décadas de
60 e /0 do século passado. A responsabilidade pela existência de sofrimentos evitaveis nao é a
opressao, mas a leniência do Estado, que nao protege adequadamente seus bons cidadaos. Desse
modo, ao invés de loucos e prisioneiros personificarem a situaçao de opressao de cada individuo,
na nova causa publica, a experiência da vitima é que é tida como coletiva e comum. A vitima que
sofre é uma metonimia personalizada do problema geral de segurança (Garland 2001: 11). O
Estado opressor é substituido por aquele que tem o dever de proteger.
Essa nova forma de causa publica é uma oportunidade rara para politicos conservadores
em diversos paises do mundo. Nichael Dukakis perdeu a eleiçao para George Bush porque foi
acusado de ser por demais humano com criminosos e desrespeitoso com as vitimas (Anderson
1995). Clinton, temendo o mesmo destino, nao concedeu indulto a dois condenados a morte no
Estado que governava (Anderson 1995). Na campanha para as eleiçoes de 1999 na Argentina,
Nenen, atacando a tese de Eduardo La Rua de que o crime era o resultado da situaçao econömica,
disse que nao se devia confundir a dignidade do pobre com a patologia do criminoso (Chevigny
2003: 85). No Néxico, o candidato do PR! nas eleiçoes de 1999 para o Estado do Néxico disse que
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nao teria piedade com criminosos porque direitos humanos sao para homens e nao para ratos
(Chevigny 2003: 90). A ressonancia dessas frases com algumas de politicos conservadores no Brasil
é notavel, como sabemos. E elas produziram efeitos em campanhas politicas, mas só a nivel
municipal e estadual.
O sucesso parcial no Brasil do populismo do medo é explicado pela relaçao entre crime
organizado, a percepçao social do aparato de segurança e puniçao e pela distribuiçao de renda. A
globalizaçao dotou o crime organizado de uma dimensao transnacional em atividades muito
lucrativas e provocou uma longa crise fiscal do Estado Brasileiro. A imagem da prisao passada pelos
meios de comunicaçao é a de que, nela, os criminosos continuam a praticar crimes pelo controle
indireto de seus subordinados livres e têm uma série de regalias por corromperem. O arsenal do
crime organizado é também frequentemente dito mais avançado e poderoso do que o Estado. Essa
situaçao, onde uma atividade ilegal extremamente lucrativa convive com a crise financeira do
Estado-Naçao, faz com que a forma da denuncia no Brasil privilegie os temas de corrupçao,
despreparo policial e `poder paralelo', e nao tanto o da leniência, quando aponta uma falha
sistêmica como a responsavel por sofrimentos evitaveis. A adesao a politicas de `lei e ordem'
depende de a populaçao acreditar que os aparelhos de segurança e puniçao funcionem, o que
obviamente nao é o caso no Brasil. E a concentraçao de renda no Brasil torna dificil desistir da tese
da anomia e optar por explicaçoes individualizadas.
A situaçao brasileira é curiosa. O crime se tornou uma causa publica, mas as politicas de lei
e ordem se deparam com o ceticismo em relaçao aos aparatos de segurança e puniçao. A classe
média fica sem esperanças. Os meios de comunicaçao de elite, por sua vez, reconhecendo que a
mudança na distribuiçao de oportunidades demora, que é dificil a reforma do Estado e que a
criminalidade ligada as drogas nao tem soluçao na esfera de uma naçao, tentam orientar os
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individuos sobre os modos de se precaver do que nao admite precauçao, o crime aleatório. O
resultado é o crescimento vertiginoso no Brasil da estrutura privada de segurança. A transferência
de responsabilidade do Estado para os individuos é inevitavel dada a inexistência de alternativas
viaveis.
Risco, sofrimento e tempo
Grande parte do pensamento moderno acreditava que a maioria dos sofrimentos existentes
no presente tinham uma causalidade e podiam nao existir no futuro se houvesse uma
transformaçao da sociedade e dos homens. Como argumentei, essa crença estava implicita nos
conceitos de progresso e norma. O que acontece, porém, com a relaçao entre sofrimento e tempo
quando o conceito de risco passa a organizar nosso sentido de futuro na politica - pensemos no
ataque preventivo ao !raque ou no modo de combater a criminalidade - e nas praticas de cuidado
de si? O que acontece quando o cuidado esta focado na segurança e no esforço de prolongar a
vida individual?
Ouando o conceito de risco era adiantado pelos que estavam a margem da sociedade e se
vinculava a problematica ecológica, embora o futuro tivesse ganho a forma da catastrofe a evitar, o
efeito era a universalizaçao das vitimas, sem distinçao de naçao, credo, raça e mesmo espécie.
Repetindo grande parte dos movimentos coletivos modernos, a separaçao que havia entre nós
(aqueles preocupados com a continuidade da vida na Terra) e eles (aqueles presos ao lucro e ao
curto prazo) seria temporaria; o movimento era feito em nome de todos. A apropriaçao do conceito
de risco pela classe média, porém, faz com que a causa publica no discurso contra o crime nao
tenha mais nenhuma possibilidade de universal no futuro; a segurança de uns depende da
contençao do risco posto por outros. A mobilizaçao social nao universaliza; ela obrigatoriamente
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contrapoe uma parte da sociedade a outra. Em relaçao a saude, o cuidado é ocasiao de prudência
individual. É sugestivo que emerjam aqui e ali propostas, como aconteceu na !nglaterra, de nao
prover assistência publica de saude para fumantes e obesos. Embora facilmente criticaveis como
tentativa de reduzir custos e culpar a vitima, pelo mero fato de serem concebidas, anunciam o
nascimento de um novo contrato entre Estado e individuos: segurança para quem é prudente e
maximiza seu estilo de vida. O resto sao os monstros, aqueles que estao aquém da humanidade e
da possibilidade de correçao (Rose, 2002). O lugar do monstruoso, que substitui o do anormal,
parece estar sendo ocupado por pedófilos, traficantes e terroristas.
Para varios que começaram a pensar na vigência ainda do pensamento moderno, essa
relaçao entre sofrimento, tempo e divisao social é surpreendente. Certamente que o fim da divisao
social ansiada pelos modernos podia, e foi criticada pelos filósofos da diferença, como
uniformizaçao social, mecanismo de poder e continuidade da crença no Deus cristao. Contudo, é
facil perceber o perigo existente na crença contemporanea de que o modo de evitar sofrimentos
futuros requer a exclusao de alguns seres humanos. Também surpreende que o que se queira nao
é mais um futuro diferente. Nais precisamente, a invocaçao do futuro hoje nao funciona mais para
se incitar a mudanças no presente; ao contrario, invoca-se uma catastrofe evitavel para que
envidemos esforços em manter nossa vida como ela é. Nais uma vez, no cuidado com a saude e na
invocaçao do risco do crime, o que se quer é a segurança para aqueles que sabem ter prazer com
moderaçao.
É preciso ver que a fronteira do monstruoso nao existe sem praticas cotidianas de criaçao
do nós. O cuidado com a vida, a vida prudente, planejada e maximizada, a tolerancia em relaçao
aos diferentes modos de se obter prazer definem o `nós'; os monstros, por sua vez, se definem por
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sua desconsideraçao do direito a vida. Talvez seja a hora de nao nos esquecermos que o cuidado
com a vida ja teve e pode ter outros sentidos.
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