Um corpo com futuro

Paulo vaz
Nada pode faltar a um vivo se admitimos
que existem mil e uma maneiras viver.
(G. Canguilhem, La connaissance de la vie,
1952)
Embora existam muitos modos de estar
vivo, é certo que existem muito mais modos de estar
morto, ou mlhor, de nao estar vivo
(R. Dawkins, The Blind
Watchmaker, 1986)
VAZ, Paulo. Um corpo com futuro. In: PACHECO, Anelise; COCCO, Giuseppe; VAZ,
Paulo. (Org.). O trabalho da multidão. Rio de Janeiro: Gryphus, 2002, v. 1, p. 121-146.
1 - Cuidado de si e medicina
Em 1920, um médico, J. Hersch publica um estudo intitulado ¨A desigualdade perante a
morte na cidade de Paris". Ao analisar a correlaçao entre morte por tuberculose e pobreza, o
autor conclui: ¨... Na classe dos bairros mais pobres, a metade de todos aqueles que morrem é
condenada a morte por sua situaçao social"
1
. Cerca de 50 anos depois, no jornal Le Nonde de
22 de janeiro de 19/5, outro médico, Dr. Escoffier-Lambiote, numa reportagem também
intitulada ¨A desigualdade perante a morte", ao notar que a mortalidade excessiva era devido a
doenças que dependem do comportamento, afirma que ¨a hierarquia que hoje se estabelece
entre os homens é funçao do conhecimento e nao apenas, como foi o caso desde milênios, do
nascimento e do dinheiro"
2
.
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Na distancia entre esses dois enunciados, desdobra-se uma mudança decisiva
no modo como os individuos sao convocados a cuidar de sua saude. O relatório de Hersch
supoe, implicitamente, que uma parte relevante do cuidado cabe a açao coletiva na forma da
intervençao do Estado, intervençao que objetivaria reduzir as desigualdades de renda e
melhorar as condiçoes de higiene da populaçao, especialmente de suas camadas mais
desfavorecidas. Nas quando a desigualdade torna-se funçao do conhecimento, a
responsabilidade pelo cuidado com a saude cabe, sobretudo, a cada individuo, na capacidade
que tem de mudar seus habitos por conhecer e dar peso as informaçoes médicas. O estudo de
Hersch repete argumentos surgidos desde a primeira metade do século X!X sobre a relaçao
entre miséria e causas da morte. Os médicos encontravam o limite de suas intervençoes
terapêuticas na situaçao social, a qual requeria uma açao politica. A partir do final do século XX,
porém, os individuos extraem a maior parte das informaçoes sobre habitos prejudiciais a saude
nos meios de comunicaçao.
Como explicar essa descontinuidade histórica? Uma explicaçao interna, que só
admite a preocupaçao dos cientistas com seus objetos de investigaçao, sem duvida faria
referência ao sucesso terapêutico da medicina desde Pasteur. A multiplicaçao das vacinas, a
higiene nas intervençoes cirurgicas, a descoberta do mecanismo de compatibilidade sanguinea
facilitando as cirurgias, a descoberta dos antibióticos, tudo isso significou um enorme sucesso
no combate as doenças infecciosas e, por conseqüência, o aumento na expectativa média de
vida e a ampliaçao do papel das doenças crönico-degenerativas nas causas de morte. Assim,
era necessario que a determinaçao do comportamento no surgimento das doenças passasse ao
primeiro plano da pesquisa médica. O problema com esse tipo de explicaçao é a de que o
contexto histórico só atua negativamente, fornecendo aos cientistas preconceitos que impedem
a percepçao adequada dos objetos de pesquisa.
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Nao se pode deixar de notar, porém, que a individualizaçao da responsabilidade pelo
advento da doença ocorre exatamente quando se iniciam duas das caracteristicas maiores da
sociedade contemporanea, que sao a crise da politica e do Estado-Naçao. Nao haveria uma
relaçao mais positiva - na forma da constituiçao de objetos e de hipóteses explicativas - entre a
nova forma de cuidado com a saude e o advento de uma sociedade onde os individuos podem
tudo, menos mudar a sociedade em que vivem, ou ainda, com o advento de uma sociedade que
tem uma estrutura sistêmica remota, inalcançavel, ao mesmo tempo em que o cenario do
cotidiano - relaçoes afetivas e de trabalho - é fluido e nao-estruturado, um cenario onde os
individuos sao obrigados a mudar para acompanhar as incessantes transformaçoes promovidas
pela mudança tecnológica?
Embora os nexos causais sejam faceis de perceber, é igualmente redutora a explicaçao
da distancia entre os dois enunciados médicos pela mera referência a proximidade entre a
individualizaçao do destino associada a crise da politica e o novo papel da responsabilidade
individual no advento de doenças. A reduçao consiste em recusar as novas teorias e tecnologias
médicas qualquer papel na transformaçao de nossas crenças e comportamentos. A questao
permanece: como articular as mudanças sociais que ora experimentamos com as
transformaçoes conceituais e tecnológicas recentes da medicina?
Talvez a individualizaçao das causas de adoecimento e morte indique um caminho. Na
realidade, o conceito de cuidado é um fio capaz de articular as transformaçoes da medicina
contemporanea as mudanças sociais, evitando tanto as narrativas internas da ciência e sua
contrapartida, o determinismo tecnológico, quanto as narrativas externas frisando o contexto
histórico e que recusam, assim, qualquer papel as descobertas cientificas e tecnológicas na
mudança social. Se analisarmos as transformaçoes no cuidado, percebemos os efeitos que uma
mudança no que a medicina propoe como verdade e no que ela pode fazer com nossos
sofrimentos provoca no comportamento dos individuos. Nas observaremos também como
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mudanças de valores, derivadas de transformaçoes sociais, podem afetar o campo de questoes
e hipóteses da medicina.
Para o conceito de cuidado funcionar como fio articulando medicina e
sociedade, precisamos pensar como os valores sociais e o que se tem por verdade podem
determinar os modos com que os individuos pensam o que sao e o que podem ser,
estabelecendo, nessa distancia entre presente e futuro, o que devem fazer consigo mesmos. A
variaçao histórica do cuidado de si sera, entao, apreendida nas diferenças com que cada
momento histórico define a parte dos individuos que precisa ser cuidada, por que eles precisam
cuidar de si, como este trabalho de cuidado pode ser realizado e, por fim, o que eles esperam
ser se cuidam de si mesmos
3
.
Por essa definiçao, percebemos como uma transformaçao conceitual e
tecnológica da medicina, ao significar uma transformaçao no conjunto de comportamentos que
se considera doentios ou passiveis de provocar doenças, modifica a parte do individuo que
precisa ser cuidada, o modo de trabalhar sobre si mesmo e o que esperamos ser. Desde o
nascimento da medicina moderna com a anatomia patológica de Bichat, ¨uma explicaçao causal
é o que reduz um acontecimento necessario a um acontecimento acidental"
4
. Assim, para a
medicina moderna, uma causa de morte aparece, em geral, como uma circunstancia
contingente em relaçao a qual a morte é também um acontecimento contingente. A supressao
da causa seria exatamente o que nos impede de morrer, o que nos da ainda algum tempo de
vida. Desse modo, a medicina moderna vinculou-se a questao do sentido da vida.
!nversamente, através da variaçao histórica no que precisa ser cuidado, observaremos a
mudança no tipo de comportamento que a cultura ocidental prescreve como problematico,
lançando uma nova luz sobre as diferenças históricas nas hipóteses e objetos de pesquisa da
medicina.
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2 - A verdade, passada e presente
A partir de meados do século XX, ganhou força entre filósofos e historiadores a inversao
das relaçoes de dependência entre passado e presente. Tornou-se quase um truismo afirmar
que o passado nao existe em si mesmo, que todo passado é um passado do presente e que,
portanto, quando um presente se concebe como limitado pela história que o precede, ele esta
apenas imaginando seu lugar numa dada ordem temporal.
Trata-se de uma novidade de grandes conseqüências. Afirmar que todo passado é um
passado do presente implica pensar que os diferentes tipos de narrativas que um dado presente
forja para si dependem do modo como ele pensa seu lugar no mundo, dependem do sentido e
valor que atribui as suas crenças em relaçao a outras que existiram, existirao ou poderiam
existir. A forma do passado esta vinculada a uma decisao ética: que relaçao estabelecer com as
crenças e valores que se tem por verdadeiro? Ou ainda, para que serve a diferença do passado?
Se um historiador narra uma história de progresso do saber ou da moral, claramente seu
interesse na constituiçao da causalidade do passado é o de fundamentar seus modos de pensar,
agir e ser. Ao contrario, se o historiador frisa em sua narrativa histórica a casualidade, talvez
queira, ao mostrar o arbitrario do que existe, nos convidar a sermos outra coisa do que somos.
No interior da história da ciência, a aceitaçao da dependência entre passado e
presente esclareceu o procedimento basico das narrativas de progresso, que é a naturalizaçao
do objeto, a sua extensao para o passado. Uma narrativa de progresso do conhecimento tem a
forma da permanência do objeto e variaçao da percepçao. Neste gênero, o contexto histórico é
convocado apenas para explicar por que os homens de outrora nao pensavam como pensamos,
nao viam o que vemos. As diferenças históricas de percepçao decorreriam de preconceitos,
ausência de instrumentos adequados, etc.
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Ouestionar as narrativas de progresso é problematizar sua suposiçao basica, a
permanência do objeto no tempo. Sera que essa permanência, antes de ser um dado, nao seria
um resultado inevitavel do conceito de verdade? De modo mais abstrato, sera que podemos
separar, no que foi dito pelos homens do passado, os momentos em que usavam um
vocabulario descritivo daqueles em que usavam um vocabulario explicativo, de modo a poder
garantir que falavam das mesmas coisas que nós, apenas tendo diferentes concepçoes sobre
elas? Nas e se houver indeterminaçao da traduçao?
5
Nao poderiamos pensar que ha uma
dependência entre fato e teoria, entre o que pensamos e o que percebemos? O aparecimento
dessas questoes ja indica que passamos a considerar uma narrativa de progresso como uma
estratégia retórica, uma construçao.
Embora ja compreendida em seus mecanismos, a retórica da permanência do objeto
continua a ser usada, especialmente quando um autor propoe uma nova teoria e, portanto, tem
o desejo de tratar as concepçoes e hipóteses diferentes da sua como arcaismos a serem
ultrapassados. Um exemplo recente é a teoria dos marcadores somaticos proposta por António
Damasio em seu livro O erro de Descartes
6
.
Ao longo dos anos, Damasio colecionou casos de individuos que sofreram lesoes no
córtex pré-frontal. Destacava-se, entre os seus sintomas, a ausência de emoçoes. Ao contrario
do que esperaria o senso comum, essa ausência provocava um enorme déficit na capacidade de
decidir. Os doentes tanto demoravam para tomar decisoes, mesmo se a escolha era banal,
quanto decidiam sempre com sérios prejuizos para suas vidas profissionais
¯
. De fato, nos casos
selecionados para exposiçao, uma mesma linha de tempo é constante: antes da lesao no
córtex, os individuos eram bem sucedidos profissionalmente; após a lesao, suas carreiras
entram em derrocada.
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A demora em decidir permite uma analogia com o funcionamento do computador.
Embora haja processamento rapido de informaçoes, é um desafio para programadores construir
programas que façam uma pré-seleçao das alternativas, considerando tanto que algumas sao
por demais improvaveis, quanto que é necessario tomar decisoes rapidamente. Estas duas
dificuldades formam a base do problema do enquadramento formulado pela !nteligência
Artificial: como construir um robö capaz de realizar tarefas em tempo real em ambientes que
nao sao simplificados?
8
Para Damasio, seus pacientes, assim como os computadores, ambos
sem emoçoes, sofrem da demora em decidir. O agravante é que seus doentes nao têm a
velocidade de processamento dos computadores. Por diferença, Damasio propoe que, nos
individuos saos, as emoçoes sao uma espécie de interface entre o pensamento e o futuro que
realiza uma pré-seleçao das alternativas a serem examinadas na memória de trabalho
9
.
A explicaçao de porque os doentes decidem sempre com prejuizo para suas vidas
profissionais e pessoais reside no modo como o corpo qualifica os estados futuros. Os
marcadores somaticos excluem alternativas basicamente por qualifica-las como arriscadas. Sem
a emoçao de risco, os doentes com lesao no córtex pré-frontal decidem mal; afinal, perderam
sua capacidade de planejar seus futuros enquanto seres sociais. Despreocupados, tornam-se
incapazes de agir deliberadamente tendo em vista sua própria sobrevivência.
Após a formulaçao da hipótese sobre o papel dos marcadores somaticos na tomada de
decisao, Damasio estende a presença dos sintomas para além dos individuos que sofreram
lesao cerebral. A doença mental se espalha pela sociedade. Todos os individuos que adotam
comportamento de risco podem ser considerados como sofrendo da mesma sindrome,
especialmente os sociopatas e os drogados
10
. Todos sofrem de miopia para o futuro, todos têm
um limiar para as emoçoes de risco muito elevado. Sao seres controlados pela perspectiva do
prazer ou ganho imediato, perspectiva que sobrepuja com facilidade a preocupaçao com o
futuro.
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Uma teoria que pretende legislar sobre o modo correto de decidir precisa de
fundamento. Nao é surpreendente, pois, que Damasio inicie seu livro com o acidente sofrido por
John Gage em 18+8
11
. É necessario naturalizar seu objeto, mostrar que a doença existia no
passado, embora os homens de outrora nao fossem capazes de reconhecer sua doença. O caso
foi escolhido com cuidado. Uma barra de ferro tinha atravessado o cérebro de Gage; mesmo
assim, ele nao morreu, nem teve alteraçoes maiores nas suas capacidades cognitivas de
atençao, percepçao, memória e linguagem. Caso tao espantoso que chegou a ser usado como
refutaçao para as tentativas entao em voga de localizar as doenças mentais em lesoes
cerebrais. Dai sua importancia retórica: embora tenha sido usada para questionar a
identificaçao da mente ao cérebro, Damasio ira mostrar que, na realidade, a lesao de John
Gage indica a existência de um subsistema cerebral responsavel pelo cuidado de si.
Utilizando técnicas avançadas de visualizaçao do cérebro, Damasio restitui a trajetória
do bastao e define com relativa precisao as regioes cerebrais afetadas. Observa, assim, que
houve uma lesao no córtex pré-frontal semelhante aquela de seus doentes. Ao mesmo tempo,
após o acidente, Gage teria deixado de ser Gage. Antes, era um operario exemplar; após o
acidente, nunca mais conseguiu se fixar em emprego algum, usava linguagem obscena diante
de senhoras, expös sua desgraça em circo e chegou até a morar no Chile. Gage tornou-se
incapaz de garantir sua sobrevivência. E para explicar porque os homens de outrora, apesar da
alteraçao reconhecida de comportamento, nao foram capazes de conecta-la a lesao visivel do
cérebro, Damasio recorre ao argumento médico tradicional de secularizaçao insuficiente da
sociedade: os cientistas e homens do século X!X ainda queriam acreditar na alma, nao podiam
admitir que houvesse uma contrapartida anatömica para nossas açoes morais. ¨Poucos foram
os que olharam para onde Gage involuntariamente apontava. De fato, é dificil imaginar alguém
nos dias de Gage com o conhecimento e a coragem para olhar na direçao adequada. Era
aceitavel que os setores cerebrais cuja destruiçao teria provocado a paragem cardiaca e a
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paragem respiratória de Gage nao tivessem sido tocados pelo bastao de ferro. Era também
aceitavel que os setores cerebrais que controlam a vigilia estivessem afastados da rota do ferro
e por isso tivessem sido poupados. Até se aceitava que o ferimento nao tivesse deixado Gage
inconsciente por um longo espaço de tempo. Porém, compreender a alteraçao de
comportamento de Gage significaria acreditar que a conduta social normal requeria uma regiao
cerebral correspondente particular, e este conceito era ainda mais impensavel do que o seu
equivalente para o movimento, os sentidos ou mesmo para a linguagem".
12
Para quem deseja pensar como a cultura pode ter um papel ativo para além da criaçao
de preconceitos, a questao interessante nao seria a de compreender por que os homens de
outrora nao viam o que hoje vemos. Seria, sim, muito simplesmente, por que eles nao viram
doença na personalidade alterada de Gage? Por que Gage nao foi internado? Por que o
deixaram vagar durante 10 anos de trabalho em trabalho por diversas cidades e paises? A
resposta, neste caso, nao residiria na recusa quase religiosa dos homens de outrora em admitir
um substrato anatömico para a consciência moral.
A mudança de questao indica, de imediato, que o problema nao é narrar a
superioridade das crenças do presente sobre aqueles do passado, mas pura e simplesmente
atentar para a estranheza de nossas crenças. Talvez os homens de outrora nao estabeleceram
a relaçao entre conduta social desviante e lesao cerebral simplesmente porque sua sociedade
nao reconhecia, no comportamento de Gage, um desvio relevante.
O foco deve incidir sobre a singularidade de nossas crenças. Oue mundo é esse, o
nosso, onde o valor é vencer na vida? Oue mundo é esse, onde a decisao implica a geraçao
rapida de cenarios desastrosos para que se possa evita-los? Oue cultura é esta, onde qualquer
escolha entre objetos é rapidamente traduzida como uma opçao entre o certo e o incerto? Oue
cultura é essa, onde podem surgir teorias que aproximam drogados e criminosos? Oue cultura é
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essa, que nao admite lentos e descuidados? Para colocar diretamente a alternativa: teria
Damasio descoberto, enfim, a verdade sobre o modo como os homens decidem ou, ao
contrario, seus objetos de pesquisa e hipóteses explicativas se tornaram possiveis graças a uma
mudança nos comportamentos que nossa sociedade considera como merecedores de atençao e
cuidado? A teoria dos marcadores somaticos faria algo mais do que fundamentar
cientificamente uma crença cultural de que o prazer tem que ser avaliado segundo seu
potencial de risco para o individuo?
Em termos metodológicos, essa forma de articulaçao entre contexto e ciência supoe a
adoçao do principio de raridade discursiva
13
. Nao se pode pensar qualquer coisa em qualquer
momento e lugar. A restriçao do pensavel nao vale apenas para o passado. Deve valer
especialmente para quem, no presente, se preocupa em estabelecer uma relaçao entre suas
crenças e aquelas que existiram. Sua questao é: por que surgem hoje precisamente esses
enunciados, quando tantos outros seriam, e foram, possiveis? O principio de raridade discursiva
foca seu olhar na constituiçao social dos objetos de conhecimento. Nas atenta ainda aos efeitos
de verdade dos enunciados cientificos sobre nossos comportamentos.
3 - verdade e poder
Esta visao sobre as relaçoes entre verdade e poder segue algumas intuiçoes abertas por
Nietzsche e formalizadas por Foucault. Uma primeira intuiçao de Nietzsche é extraida de sua
conhecida apresentaçao do conceito de ressentimento através do dialogo entre uma ave de
rapina e um cordeiro em A genealogia da moral. Num raciocinio aparentemente lógico, os
cordeiros dizem para eles próprios: ¨estas aves de rapina sao mas; e quem for o menos possivel
ave de rapina, e sim o seu oposto, ovelha - este nao deveria ser bom?"
14
Só aparentemente lógico; para acusar, é preciso ¨discriminar entre a força e as
expressoes da força"
15
, isto é, precisa-se criar a ficçao de um sujeito, tido como causa, que
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permanece para além de suas açoes efêmeras, tidas como efeitos de sua vontade. Ouando
responsabilizamos alguém pelos sofrimentos que experimentamos, supomos que outra coisa
poderia ter sido feita e que esta açao, a verdadeira, estava ao alcance de sua vontade.
O cordeiro, ao dar sentido a seu sofrimento, nao se contenta em inventar sujeito,
verdade, dever e livre-arbitrio; compara-se ainda a ave para transformar sua fraqueza em um
empreendimento voluntario, algo desejado, escolhido, um mérito. De fato, o cordeiro supoe-se
mais forte, pois além de ter o desejo de fazer o que a ave faz, tem uma força suplementar que
o permite conter-se e nao fazer o ¨mal"
16
. Ficçao extremamente danosa, pois é a criaçao do
ideal ascético de tantos efeitos na concepçao ocidental de sujeito: é preciso mais força para se
conter do que para fazer. valoroso é aquele que luta contra seus desejos e nao faz o que quer
para agir segundo a verdade.
Se passamos a acreditar que as crenças dependem do contexto em que se vive, lutar
contra si mesmo para agir segundo a verdade torna-se, na realidade, agir do modo com que
uma dada cultura quer que se aja. Podemos compreender, portanto, como a adesao a verdade
pode funcionar como mecanismo de padronizaçao de comportamentos.
A critica de Nietzsche ao ideal ascético permite ainda uma outra visao sobre o processo
de secularizaçao. Se o mecanismo de poder reside na adesao ao que se tem por verdadeiro,
nao importa se o lugar de onde se diz a verdade é ocupado por um padre ou um cientista; em
ambos os casos, obtém-se o mesmo efeito de padronizaçao. Nuda-se o ocupante, mas
mantém-se o lugar. A secularizaçao, portanto, nao significa apenas a crescente ausência do
sagrado na sociedade; significa, mais profundamente, um processo de substituiçao. Foucault
implicitamente admite esta visao sobre a secularizaçao quando afirma que a norma é a
traduçao laica do conceito de pecado.

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Uma outra intuiçao pode ser extraida da exposiçao feita por Nietzsche do conceito de
ressentimento. Em sua linguagem vivida, Nietzsche disse: ¨enquanto toda moral nobre nasce de
um triunfante Sim a si mesmo, ja de inicio a moral escrava diz Nao a um ¨fora", um ¨Outro", um
¨nao-eu" - e este Nao é o seu ato criador."
18
Foucault formaliza e limita temporalmente essa
intuiçao de Nietzsche ao propor que a forma moderna de poder se caracteriza pela produçao
positiva no real da negatividade ética. A forma moderna de poder divide os homens entre bons
e maus para que cada um se divida em seu interior
19
. Deste modo, para haver incorporaçao e
cuidado do individuo com o que nele é sua parte ma, é preciso que exista no real aquilo que
ninguém pode ser.
Uma terceira intuiçao da conta de como essa forma de poder pode se legitimar.
Encontramos aqui a tese de Nietzsche sobre as estratégias de poder do sacerdote ascético, cujo
reino é a dominaçao sobre os que sofrem. ¨Ele traz ungüento e balsamo, sem duvida; mas
necessita primeiro ferir para ser médico; e quando acalma a dor que a ferida produz, envenena
no mesmo ato a ferida.".
20
Foucault, mais uma vez, formaliza essa intuiçao ao propor que a
forma moderna de poder é oblativa.
21
Aqueles que exercem o poder se legitimam por se
apresentarem como quem cuida dos homens, como quem cuida da negatividade que nos
habita, negatividade que foi inventada pelo próprio poder. E estao até dispostos a se sacrificar
pelo nosso bem. Obviamente, o objetivo deste cuidado é o de fazer os homens retornarem ao
comportamento tido como desejavel pela cultura. Da-se legitimidade aqueles que querem nos
conduzir ao reto caminho.
A ultima intuiçao relevante é a constituiçao de uma divida infinita no interior dos
individuos quando este pensa o seu ser e se propoe a transforma-lo. !nfinita porque é
impossivel de ser paga e, assim, conduz o individuo, na problematizaçao que faz de si mesmo,
a continuamente pensar no que deve ser e fazer, mas nao no que pode. Nietzsche a propoe
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quando analisa os efeitos de poder da crença no Deus cristao. Em primeiro lugar, acreditar em
um Deus onisciente significa que nada escapa de seu saber, nem mesmo nossos pensamentos.
A contrapartida subjetiva dessa crença é, portanto, olhar para nós mesmos com os Seus olhos.
O individuo é obrigado a reforçar sua autoconsciência, a escavar e a interpretar seus
pensamentos e açoes. E se esse Deus é construido como a antitese ultima para seus inelutaveis
instintos animais, cada individuo que Nele acredita reinterpreta seus instintos como culpa em
relaçao a Deus.
22
Dito de outro modo, o individuo ficara inquieto por toda a sua vida com o que
sente, deseja e faz, cuidando de si na distancia entre Deus e o diabo, entre bem e mal. É esta
intuiçao que conduz Foucault a dizer que a forma de poder moderna produz o sujeito, isto é, o
desdobramento de si, a autoconsciência, a interpretaçao de suas crenças e comportamentos
segundo a verdade.
Em suma, as relaçoes de poder podem ser pensadas como interferência continua no
processo social de constituiçao dos individuos como sujeitos. Por isso mesmo, podem ser
caracterizadas também como a produçao de uma economia cognitiva, no duplo sentido do
termo economia: tanto propicia a ordenaçao de si, quanto simplifica o questionamento. Trata-se
de uma estratégia onde o individuo pensa a sua singularizaçao a partir das crenças e valores
geradas pela sua sociedade. Concretamente, trata-se, primeiro, de naturalizar estas crenças e
valores, propor que nossa cultura enfim descobriu a verdade do homem e do mundo, reduzindo
assim o que pode haver de inquietante no fato de que os homens ja pensaram e agiram
diferentemente. Um outro procedimento de simplificaçao é propor um sentido para a vida,
evitando que se coloque em sua radicalidade a questao do que nos pode ser a vida. Nestes dois
procedimentos, o que faz problema é a ambigüidade do cuidado de si. Tornar-se sujeito de sua
conduta certamente requer a constituiçao de si como objeto de cuidado. Contudo, cada cultura
designa o que precisa ser cuidado a partir de um jogo de ameaça com o descuido e promessa
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de uma recompensa, ao mesmo tempo em que define quais sao os individuos com o direito e o
dever de cuidar em verdade dos outros.
3 - Disciplina ou a norma
Essa descriçao abstrata do poder como interferência torna-se concreta ao situar as
diferenças históricas na sua implementaçao. O modo de o poder funcionar em nossa sociedade
ganha relevo na comparaçao com a sociedade moderna, descrita por Foucault como sociedade
disciplinar. As técnicas disciplinares funcionaram durante a vigência do capitalismo de produçao.
Nesse caso, deviam permitir a separaçao entre a força e o produto de seu trabalho, seja por
tornar aceitavel a exploraçao, seja por permitir o uso potencializado da força. Seu objetivo,
portanto, era produzir um corpo dócil, isto é, um corpo eficaz economicamente, mas submisso
politicamente
23
.
Esse alvo requer a produçao de uma experiência singular de tempo e espaço. As
instituiçoes disciplinares sao instituiçoes fechadas, no interior das quais cada corpo deve ocupar
um lugar determinado que define o seu ser. Os espaços disciplinares sao espaços fechados,
quadriculados e hierarquizados, evitando, assim, o nomadismo e os contatos fortuitos e incertos
entre os corpos
24
. Um exemplo é dado pelas escolas onde se distribuiam os alunos segundo as
notas que obtinham. O lugar revela o valor de cada um, ao mesmo tempo em que se localizam
as zonas problematicas onde ocorrem as trocas horizontais perturbadoras da transmissao de
conhecimentos do professor aos alunos.
Estas instituiçoes se caracterizam por uma ambiçao pedagógica: elas corrigem para
formar. Sendo estacas para paus tortos, as instituiçoes ordenam a passagem do tempo em
séries e colocam provas ao final de cada uma. Desse modo, a transiçao entre as séries sera
considerada um aperfeiçoamento. !nserindo uma temporalidade de progresso no efêmero e
sazonal, as instituiçoes disciplinares geram a cisao fundamental entre tempo de formaçao e
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tempo adulto, entre o momento de aquisiçao de uma competência e aquele de seu exercicio
25
.
vocaçao pedagógica que nao se restringe as escolas; também é atuante nas familias, fabricas,
hospitais, sanatórios e prisoes. De modo abstrato, a operaçao temporal das instituiçoes
disciplinares é a duraçao e a descontinuidade
26
: sempre é preciso tempo para se tornar um bom
cidadao saudavel e trabalhador.
As técnicas de poder da disciplina sao modos de produzir a culpa. Para se sentir
culpado, um individuo precisa olhar para si mesmo, para seus atos e pensamentos, com os
olhos do Outro, cindindo-se entre o que deseja e o que deve ser. Sao técnicas, portanto, de
interiorizaçao do olhar e do juizo. Nas instituiçoes disciplinares, para haver formaçao, é preciso
que haja cuidado. Existirao nelas sempre figuras encarregadas do aprendizado que mesclam
nas suas funçoes a autoridade, o saber e o zelo: pais, professores, médicos, psiquiatras,
assistentes sociais, carcereiros, etc. A condiçao do exercicio deste zelo é a vigilancia. Submeter
os atos cotidianos dos individuos a este campo hierarquico de visibilidade é trabalhar para que
cada um passe a se ver com os olhos do outro

.
A interiorizaçao se completa com o dispositivo do panóptico. Procedimento arquitetural
usado em prisoes e asilos, consistia de uma torre central com janelas escuras e de celas
vazadas dispostas no perimetro do circulo. Trata-se de um mecanismo de produçao da
consciência de si; ao dissociar a simetria entre ver e ser visto, gera, em cada individuo situado
no interior de uma instituiçao disciplinar, a certeza de poder sempre estar sendo vigiado sem
poder jamais confirmar a vigilancia. Desse modo, o poder é simultaneamente visivel e
inverificavel
28
. A torre panóptica cumpre a mesma funçao que a crença em um Deus onisciente
na padronizaçao de comportamentos. A visibilidade virtual dos atos é modo de agir sobre o
invisivel, pois cada individuo se inquietara com o que acontece no seu intimo e que os outros
nao têm acesso.
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Nao basta, porém, interiorizar a vigilancia; é preciso ainda que cada um se julgue -
pior, deseje se julgar - segundo os valores sociais vigentes. Para propiciar esta interiorizaçao
dos valores sociais é que surge a sançao normalizadora. A norma é uma lei imanente; é uma
regularidade observada e um regulamento proposto. Por exemplo, numa escola, observava-se o
tempo regular - aquele dado pela média dos alunos - de aprendizado de uma tarefa; esta
regularidade torna-se, na seqüência, uma regra: aqueles que se retardam, sao reprovados. O
juizo incide sobre o valor dos individuos e sua aplicaçao produz obrigatoriamente tanto aqueles
que escapam a regra, quanto hierarquiza os regulares. A funçao primeira, portanto, da sançao
normalizadora é trazer a existência, produzir positivamente no real, a negatividade ética
personificada, pois deste modo consegue agir sobre o desejo. Cada individuo experimenta uma
inquietaçao com a normalidade do que faz e pensa, esforçando-se por pertencer aos normais,
por adequar-se a regularidade.
29
Ao mesmo tempo, o individuo lutara pelo mérito; medira seu
valor a partir de sua classificaçao entre os regulares.
30
O exercicio do poder na Nodernidade
supoe a distribuiçao dos homens entre normais e anormais, distribuiçao que produz no interior
de cada individuo uma cisao e um esforço de se conformar aos valores sociais. Essa tensao
culpabilizadora continua provoca a homogeneizaçao dos comportamentos.
Podemos entao descrever a mecanica do poder disciplinar. De inicio, da atençao as
diferenças visiveis e mensuraveis de comportamento. A seguir, hierarquiza as diferenças
segundo a polaridade entre normal e anormal, atribuindo identidade aos anormais segundo o
pendor que os conecta mais ou menos fortemente aos desvios de comportamento. Por fim,
produz em todos a experiência da culpa pela inquietaçao continua com a normalidade de seus
atos e desejos.
Para se compreender a perpetuaçao da divida, é preciso atentar para a existência de
uma multiplicidade de instituiçoes disciplinares, todas funcionando segundo os principios de
correçao e integraçao e tendo como modelo analógico a prisao. Crianças, alunos, trabalhadores,
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Um corpo com futuro
doentes e loucos pareciam-se com prisioneiros; inversamente, todo prisioneiro era tido como
filho, aluno, trabalhador, doente e louco. Cada instituiçao, portanto, propunha um trajeto para o
individuo, trajeto marcado pelo esforço de se constituir na normalidade.
Como experiência individual, a perpetuaçao da divida se dava pela quitaçao aparente:
um tempo de adiamento e recomeço.
31
Durante o periodo de formaçao, o individuo, vigiado e
inquieto com seu ser, nao pode ainda. Adia e se sacrifica para um dia poder. Contudo, o
término da formaçao em uma instituiçao é simultaneamente a entrada em uma outra. A ascese,
no que comporta de sacrificio e adiamento, acaba por restabelecer a divida ao ser esforço
constante de se normalizar e transito entre instituiçoes. A mudança de instituiçao significa
formas diferentes, mas sucessivas, de o individuo pensar que nao pode, mas, sim, deve. A
quitaçao é aparente porque nao se paga a divida; apenas muda-se o credor. O sonho de uma
sociedade disciplinar é nao permitir vacuos entre as instituiçoes, é fazer com que a vida, ao
longo dos dias e dos anos, se esgote nos espaços fechados pedagógicos: ¨você ainda é uma
criança e nao um adulto; você ainda é um estudante e nao um profissional; você ainda é um
trabalhador e nao um aposentado; você agora precisa cuidar de seus filhos; você agora esta
doente; você é louco; você é um prisioneiro; você esta no asilo". Norre-se, enfim.
5 - Controle ou o risco
A sociedade disciplinar teve seu apice no inicio do séc. XX. Desde meados deste século,
porém, ela entra em crise, crise que nos anos 90 se completa. Nudaram as técnicas de poder,
mudou o sentido da vida que nossa cultura nos propoe, mudou o sujeito. Por estarmos no seu
inicio, por ainda assistirmos a instalaçao de uma nova forma social, é dificil precisar seus
contornos. A exposiçao só pode ser comparativa e estratégica; apreender o fim da forma
disciplinar pela relativa pacificaçao no que antes, nos comportamentos humanos, inquietava e o
aparecimento de novos objetos de preocupaçao social.
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Um corpo com futuro
Nas doenças sexuais, por exemplo. A disciplina inquietava-se com a forma dos atos e
vinculava a identidade dos individuos as predileçoes por certos desvios: pensava-se, por
exemplo, que praticar o ato sexual com alguém do mesmo sexo ou, entao, ter uma estranha
predileçao pela violência no ato, era causa e efeito de perturbaçoes psiquicas. Hoje, contudo,
cada vez mais sao toleradas socialmente as diferenças na forma do ato; na realidade, o
¨desvario sexual" em suas diversas formas aparece positivamente na industria cultural. Em
contrapartida, surgiu uma nova doença do sexo: a dependência sexual. Como se trata de
dependência, nao importa a forma do ato, mas a relaçao que se estabelece com o prazer:
seriamos capazes de autocontrole em relaçao ao que nos proporciona prazer? E levariamos em
conta a possibilidade de contrair A!DS? O que inquieta nao é mais o jogo entre a diferença
visivel na forma do ato e a identidade dos individuos; é, sim, o jogo entre um habito e sua
conseqüência, o jogo entre prazer e futuro.
Experimentamos a formaçao de uma sociedade de controle ou da fragilidade.
32
Se uma
sociedade pode ser definida pelos valores que propoe como positivos e se estes emergem por
negaçao da negaçao, a passagem da disciplina ao controle é também a passagem do anormal
ao risco como conceito primario a partir do qual se pensa a relaçao dos individuos consigo
mesmo e com os outros. Os valores maiores de nossa sociedade parecem ser, na relaçao
consigo, o bem-estar, a juventude prolongada, o autocontrole e a eficiência; na relaçao com os
outros, a tolerancia, a segurança e a solidariedade. Estes valores implicam o cuidado a partir do
risco como fundo de negatividade a ser evitado. Tudo o que nos proporciona prazer, e que é
nosso direito usufruir, pode implicar dependência e risco de morte prematura. O outro, por sua
vez, só nao é tolerado em seus habitos de prazer quando nos poe em risco.
Ouando se pensa a substituiçao da norma pelo risco, estao sendo propostas relaçoes de
continuidade e descontinuidade. O risco provém de uma longa história; sempre poderemos
traçar suas conexoes com os conceitos de pecado e norma e reafirmar a pertinência de nossa
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Um corpo com futuro
cultura a ¨cultura judaico-crista". Nestes conceitos, esta em jogo um modo de regrar o prazer.
O recuo pode ser maior; encontraremos entao sua continuidade com a cultura grega, na
medida em que esta instalou o projeto ocidental de fundar a açao na verdade. Como os
conceitos de meio termo e norma, também o risco pretende conectar fato e valor, ser ao
mesmo tempo verdade e lei. Sua ambiçao seria substituir, nas escolhas que fazemos, a
atividade de valoraçao pelo calculo do futuro.
Podemos também, com o conceito de risco, constituir a singularidade de nossa cultura.
Através da sua emergência histórica, apreendemos a invasao do cotidiano pela ciência e pela
tecnologia, assim como a articulaçao nova entre midia e medicina, com a midia legitimando-se
por ocupar o lugar daquele que na sociedade adverte da existência de riscos nos habitos
individuais e propoe os meios de contorna-los. Nao experimentamos apenas a estetizaçao do
cotidiano; experimentamos ainda a cientificizaçao de nossas vidas e mortes. As paginas de
nossos jornais e revistas estao repletas de reportagens sobre como bem gerir nosso cotidiano
tendo em vista os habitos de vida e os riscos que se corre.
Ouando se pensa a decisao individual, o que faz problema hoje é o peso que o individuo
atribui a informaçao sobre o risco quando esta diante da oportunidade de uma açao prazerosa.
Uma campanha televisiva sobre a A!DS resume a relaçao entre midia, consciência, informaçao e
prazer. Um casal esta num quarto entregue a jogos amorosos; na televisao ligada passa uma
campanha sobre a A!DS onde o locutor adverte dos riscos e recomenda o uso de preservativos.
Um dos amantes desliga a televisao; miraculosamente, ela volta a funcionar e o casal continua
a escutar a recomendaçao. O milagre se repete até que o casal, enfim, para que o ato comece,
procura o preservativo. A peça publicitaria condensa a experiência de cada individuo na
sociedade contemporanea: uma consciência premida entre a pressao do prazeroso e a
informaçao sobre o risco veiculada pela midia, a soluçao sendo que o prazer comporte o risco e,
assim, se comporte, seja moderado.
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Um corpo com futuro
Aprofundemos o modo hoje de se pensar a decisao. !nicialmente, ela se da como um
jogo entre a conseqüência de uma escolha e o prazer que podemos extrair desta escolha. Deste
modo, podemos dizer que a hesitaçao nao se da entre dois objetos de desejo, de tal modo que
ai apareça a hesitaçao e se conecte as escolhas a identidade do sujeito, como ocorria na
Nodernidade. A hesitaçao, quando ela aparece, é aquela entre fazer e nao fazer algo, entre o
prazer e o risco futuro, entre a emoçao imediata derivada de uma açao e o futuro
cientificamente simulado. Desse modo, a escolha torna-se a opçao entre certo e incerto: de um
lado, entre a certeza do prazer próximo e a incerteza de mais prazer no futuro se formos
moderados; de outro lado, entre a certeza relativa do risco futuro e a possibilidade de sempre
se morrer antes apesar do autocontrole. Na realidade, o jogo é entre o vicio e o risco: a perda
de controle na relaçao com o que da prazer é descuido em relaçao ao futuro.
Se o futuro na forma do risco é o que orienta nossas escolhas no presente, o incerto
deriva da própria açao humana. Sua forma é a relaçao entre um prazer momentaneo e o que,
na sua efetivaçao, pode ameaçar a continuidade de uma vida prazerosa. Nesse caso, o sacrificio
nao tem o sentido do esforço para se conformar a normalidade. Objetiva, sim, manter-se em
vida consumindo. Compromisso entre a lógica instantanea do hedonismo e a continuidade do
consumo, pois a unica recompensa de uma renuncia ao prazer é a sua renovaçao multiplicada
pela duraçao estendida da vida. Explica-se a insistência social na eficiência, autocontrole e
juventude prolongada; todo individuo, se é eficiente e controlado, tem o direito a ter prazer
durante muito tempo.
A perpetuaçao da divida se da através da constituiçao de uma moratória ilimitada,
forma de divida onde nao se tem a ilusao de paga-la, mas apenas a de adiar a sua cobrança.
33
Divida impagavel, pois diz respeito a capacidade de se manter em vida consumindo, o que
institui, como cobrança, a expulsao do consumo pelo desemprego ou morte. Sob outro ponto de
vista, a divida é impagavel por que vivemos em uma sociedade sem exterioridade. As antigas
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instituiçoes disciplinares começam a se abrir e eliminam o que seria a sua alteridade, mesmo
que esta fosse uma outra instituiçao disciplinar. Trata-se de um duplo movimento; de um lado,
elas tendem a se confundir por interpenetraçao; de outro, cria-se um espaço homogêneo e
aberto, sem limite visivel.
Subjetivamente, a experiência é a de nunca poder terminar nada. A sociedade
disciplinar separava tempo de formaçao e tempo adulto, criando a infancia, a escola e a fabrica.
Hoje, porém, postula-se a necessidade de cada vez mais cedo as crianças irem para a escola.
Por outro lado, multiplicam-se os discursos, as praticas e as instituiçoes que cuidam da
reciclagem de profissionais. Surge a formaçao permanente, onde desde cedo se começa e onde
nunca se pode parar de estudar, senao corre-se o risco do desemprego. Um outro exemplo: a
nova dietética pode ser vista como o fim da separaçao entre alimentaçao de hospital e
alimentaçao cotidiana. As recomendaçoes sobre como se alimentar generaliza a comida de
hospital e estabelece um compromisso com o prazer: como alimentar-se com prazer cuidando
da saude e da forma do corpo? A comida ideal hoje é a salada saborosa; por outro lado,
ninguém come feijoada ou carne vermelha impunemente. Em todos esses casos, o resultado é
a sensaçao subjetiva de nunca terminar nada: nunca afastaremos a obrigaçao de aprender,
trabalhar e cuidar do corpo.
6 - A objetivaçao do perigo
É hora de responder explicitamente a questao formulada no inicio do texto
sobre a articulaçao entre contexto histórico e ciência. O conceito de fator de risco esta
implicitamente suposto pelo Dr Escoffier-Lambiote quando afirmou que a desigualdade diante
da morte passou a depender do acesso ao conhecimento. A relevancia e generalidade desse
conceito hoje sao impensaveis, porém, se nao forem correlacionadas ao avanço crescente do
individualismo desde a década de 60 ou, mesmo, ao surgimento de um capitalismo da
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superproduçao, onde o que importa é fazer existir um consumo para além da necessidade. Oue
outra forma de restriçao seria admissivel numa sociedade hedonista, senao uma que se legitima
pela promessa de extensao de uma vida prazerosa? Ao mesmo tempo, as mudanças conceituais
e os avanços tecnológicos da medicina foram decisivos para a conformaçao de nosso contexto
histórico. Como pensar nossa forma de moralidade sem o conceito de fator de risco médico e
sem a ampliaçao efetiva da expectativa de vida?
Para que a argumentaçao nao seja circular, é preciso narrar uma breve história
do conceito de fator de risco. Sua origem é moderna; reside na objetivaçao do perigo posta em
cena pela psiquiatria e pela medicina higienista do século X!X. Na psiquiatria moderna, o risco
se da sob a forma de uma percepçao do doente mental como individuo perigoso, suscetivel de
uma passagem imprevisivel ao ato violento. ¨A periculosidade é esta noçao misteriosa,
qualidade imanente a um sujeito, mas cuja existência permanece aleatória, desde que a prova
objetiva só é dada após a sua realizaçao. Assim, a propriamente falar, só existe imputaçoes de
periculosidade e o diagnóstico que a estabelece é o resultado de um calculo de probabilidade
intuitivo dissimulado sob um juizo substancialista".
34
O risco aqui é perigo imediatamente
incorporado ao individuo. A sua prevençao requer a vigilancia na forma do internamento. A
prudência sempre recompensa. Se tiver havido severidade na atribuiçao de periculosidade a um
individuo, o erro nunca sera provado e é sempre possivel pensar que ele teria podido passar ao
ato se nao tivesse sido impedido
35
.
Ouanto a medicina higienista, sua açao consistia em estabelecer como perigo as
condiçoes sanitarias que favoreciam a açao de agentes patogênicos externos. Dupla
objetivaçao, portanto: tanto se definem micróbios - virus e bactérias - como agentes
causadores de doença, quanto se delimitam as condiçoes sanitarias que reduzem sua açao. A
objetivaçao concordava com a coletivizaçao do sofrimento própria da Nodernidade, pois
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Um corpo com futuro
requeria a intervençao estatal na transformaçao das condiçoes de saude que evitasse a açao
dos agentes patogênicos externos.
A partir de meados do século XX, a objetivaçao do perigo mudou de forma graças ao
surgimento da epidemiologia dos fatores de risco. Ainda em 1929, o conceito era impensavel.
Um estudo de uma companhia de seguros americana estabeleceu uma correlaçao negativa
entre a longevidade e o peso corporal.
36
A correlaçao pareceu espuria; hoje, porém, esta tao
consolidada a idéia de que a obesidade é um fator de risco que a Organizaçao Nundial de
Saude ja a considera como doença. virtual, certamente, pois se define pelo fato de aumentar a
probabilidade de contrair outras doenças.
A renovaçao de epidemiologia dependeu das pesquisas sobre as causas de óbito por
cancer brönquio-pulmonar após a segunda guerra mundial. A primeira pesquisa de envergadura
foi apresentada em 19+9

e, nela, os autores concluiram que (1) a fumaça do tabaco
desempenha certamente um papel na etiologia do cancer de pulmao, pois só 3,5 ¾ dos
atingidos nao eram fumantes, contra 26,3 ¾ do grupo de controle; mais de um em cada dois
era um fumante excessivo, contra menos de um em cinco no caso dos nao atingidos; (2) o
tabaco nao pode ser a unica causa, desde que existe um pequeno numero de cancer de pulmao
entre nao fumantes.
A pesquisa ja delineia os elementos basicos da inovaçao no raciocinio causal própria ao
conceito de fator de risco. Na medida em que muitos fumantes morrem de outras causas, nao
basta fumar para que se desenvolva um cancer de pulmao; isto é, o risco nao é uma causa
suficiente. E como um pequeno numero de nao fumantes contrai esta afecçao, um fator de risco
também nao é uma causa necessaria. Fumar aumenta o risco e este aumento pode ser
calculado. Como descriçao positiva, o raciocinio causal para estabelecer um fator de risco deve
provar primeiro que o fator presumido causal esta mais freqüentemente presente entre os
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Um corpo com futuro
sujeitos atingidos pela doença do que entre os que nao foram atingidos. Segundo, deve provar
também que os sujeitos expostos ao fator causal desenvolvem a doença com mais freqüência
do que aqueles que nao foram expostos.
38
Desse modo, precisamente, um fator de risco
designa algo - um habito e/ou uma predisposiçao genética - que aumenta a probabilidade de
contrair uma dada doença.
Ao ser estabelecido o conceito de fator de risco, ocorreu a multiplicaçao das pesquisas
epidemiológicas articulando habitos e propensao acrescida de contrair doenças nao-infecciosas,
como os canceres e as doenças cardiovasculares. Surge assim a forma contemporanea de
antecipar e evitar um futuro indesejavel, que é o diagnóstico dos riscos. Comparativamente ao
perigo moderno, um risco nao resulta da presença de um perigo preciso, portado por um
individuo ou grupo de individuos, mas da colocaçao em relaçao de dados gerais impessoais ou
fatores que tornam mais ou menos provavel o advento para alguém de acontecimentos
indesejaveis.
39
Nesse caso, a prevençao prescinde da vigilancia em espaços fechados. De fato,
ao menos em relaçao a saude, a responsabilidade pelo cuidado pode passar das figuras de
autoridade e saber para o próprio individuo. A privatizaçao do destino, própria de nossa cultura,
é reforçada pela individualizaçao do cuidado com nossas vidas e mortes. O horror desse
movimento onde a vigilancia sai dos espaços fechados disciplinares é a impossibilidade de
localiza-la também no tempo.
Com o mapeamento do genoma, a objetivaçao do perigo ganha em acuidade e pode
ser cada vez mais incorporada ao individuo, na medida em que articula habitos de vida a
predisposiçoes genéticas (o ¨terreno"). Como se sabe, a maior parte dos efeitos de uma lesao
genética sera probabilistica. Desse modo, seu efeito provavel podera ser auxiliado ou impedido
pelos habitos de vida. Alguns médicos vêem com entusiasmo esta junçao entre genética e
epidemiologia. Jacques Ruffié, médico e professor do prestigioso College de France, afirma que
essa junçao inaugura um novo estagio do saber médico, que é o nascimento da medicina
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Um corpo com futuro
preditiva. Nao se endereçando a doentes, mas a individuos saos, ¨...seu alvo é, considerando o
patrimönio hereditario e o meio, conduzir cada individuo a conservar uma boa saude até a
idade mais avançada de sua vida... Graças ao conhecimento de nossos fatores de risco, daqui a
pouco nós poderemos tornar nossos idosos em centenarios alertas. Na condiçao, porém, de
conhecer nosso capital saude e de assegurar a sua gestao, do mesmo modo como nós gerimos
nosso patrimönio imobiliario"
40
.
Ja estamos podendo até processar médicos se estes nao nos informam corretamente
sobre as probabilidades envolvidas em nossa condiçao. Na Alemanha, num caso que gerou
jurisprudência, um médico foi condenado por só ter dito a uma gravida que a probabilidade de
sua criança nascer com alguma ma-formaçao nao era ¨grande demais", ao invés de citar a
probabilidade exata.
41
Se a saude é um capital, o médico é um corretor de investimentos.
Nem todos os médicos sao tao entusiastas com o advento da medicina preditiva.
François Jacob, biólogo que ganhou o prêmio Nobel, observa que ¨até agora, um individuo só
era considerado doente após ter problemas de saude. As pessoas vinham consultar-se
queixando-se de algumas dores. Com os dados sobre o genoma, serao reveladas doenças por
vir ou riscos de doenças... Pessoas vao tornar-se doentes antes da hora. Seu estado, seu futuro
serao discutidos em termos médicos mesmo que elas se sintam em forma e assim permaneçam
por anos".
42
De fato, a epidemiologia dos fatores de risco e a genética estao promovendo a
generalizaçao do conceito de portador. Pelas predisposiçoes e pelos habitos de vida, todos
somos portadores virtuais de alguma doença. Assim, pela crença numa possibilidade, devemos
nos comportar como doentes sem ainda estarmos doentes.
O conceito de fator de risco produz ainda um novo sentido para a vida, aparente no
estranho conceito de ¨morte prematura". Se ha algo como uma morte prematura, deve existir o
seu oposto: a hora certa de morrer. O individuo deve bem administrar o seu capital-saude a fim
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Um corpo com futuro
de morrer quando deve, isto é, morrer quando a maioria morre. Claro que esse limite visado é
dinamico, elevado pelo próprio sucesso das técnicas medicas e dos novos comportamentos
adotados pelos individuos. Como o capital-saude é, de fato, uma divida, pois é definido por
predisposiçoes a doenças, essa divida é propriamente impagavel. O maximo que podemos fazer
é adiar, enquanto pudermos, a cobrança inevitavel.
Nais uma vez seguindo Nietzsche, os valores positivos de uma cultura emergem por
negaçao de um fundo de negatividade inventado. Só que este fundo é povoado por seres
estranhos, que provocam os sentimentos ambiguos de horror e atraçao. Foucault disse que a
inumeravel familia dos perversos se avizinhava dos delinqüentes e se aparentava aos loucos.
43
Essa triade perseguida esta sendo substituida, respectivamente, pelos portadores, endividados
e drogados.
/ - O possivel: da abertura a distribuiçao probabilistica
Resta apenas justificar a escolha das epigrafes. A razao é simples. A emergência do
conceito de fator de risco, além de transformar a experiência subjetiva da doença, promove
uma mudança na experiência do possivel. Durante a Nodernidade, o possivel era apreendido
como uma saida das limitaçoes do presente. A doença, por sua vez, era experimentada como
uma limitaçao das normas vitais. Nesse caso, a cura de uma doença podia ser vista como a
entrada em um novo regime de normalidade. A vida, como força que resistia a morte através
da luta contra as doenças, era capaz de abrir novas possibilidades de ser. Canguilhem também
dizia que ¨O homem só é verdadeiramente sao quando ele é capaz de varias normas, quando
ele é mais do que normal".
44
O homem seria sao quando é capaz de descobrir outras
possibilidades de ser para si mesmo.
Hoje, porém, segundo a frase de Dawkins, viver significa encontrar passagens estreitas
e arriscadas num oceano de possibilidades de morrer. O passado age sobre o futuro através da
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Um corpo com futuro
restriçao dos possiveis. Das inumeraveis doenças que podem advir a um individuo, das multiplas
formas que temos de morrer, o mapeamento genético e os habitos de vida permitem antecipar
as mais provaveis e os meios de que dispomos para evitar sua emergência. Ao se dar como
antecipaçao dos acidentes e turbulências que dificultam a viagem, o possivel cientificamente
formulado torna-se o que estipula as limitaçoes a serem seguidas no presente. De fato, o que
se visa é tornar o futuro - as possibilidades definidas cientificamente - tao irreversivel e
limitador quanto as escolhas passadas. viver agora depende de saber operar na distancia entre
tudo o que pode acontecer e o que é mais provavel que aconteça, depende da restriçao de
possibilidades - e nao de sua invençao.
O novo relacionamento causal entre passado e presente, ao ser produzido por
instituiçoes com reconhecimento social de dizer o verdadeiro, dota o futuro de um estatuto de
quase-realidade: o que é provavel torna-se quase-real quando o que esta em jogo é decidir o
que fazer. A medicina preditiva atribui o estranho estatuto de quase-doente a todos os
individuos, pois todos terao alguma predisposiçao genética a alguma coisa e praticamente todos
os habitos banais comportam riscos.
O conceito de fator de risco e a experiência de ser portador provocam a desapariçao
gradual da distinçao entre os estados de saude e doença. Os riscos deste deslocamento sao
claros. Um é o de reduzir a vida a vida de hospital. O outro é reiterar ainda uma vez a
proximidade entre a medicina e a religiao. Como nao notar a proximidade entre um padre a nos
ameaçar vividamente com o inferno se pecarmos e as advertências dos inumeraveis médicos na
midia sobre o risco de certos comportamentos? Do inferno a morte prematura, do paraiso a
permanência em vida enquanto der, da autoridade da !greja aquela da ciência, as
correspondências se evidenciam, pois tanto nas ameaças quanto nas promessas podemos
duvidar da existência de referente. Assim como muitos hoje duvidam de inferno e céu, é preciso
notar que podemos nao contrair a doença e que sempre podemos morrer antes do planejado.
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Um corpo com futuro
Uma ultima observaçao. A dificuldade dos individuos hoje é a de se situar entre
a sensaçao de uma imensa impotência - somos insignificantes diante das mudanças aceleradas
provocadas pelas tecnologias no mundo do trabalho e encontramos dificuldades para
estabelecermos alianças uns com os outros visando mudanças sociais devido ao hedonismo e a
globalizaçao - e a solicitaçao social de que sejamos responsaveis por nossa vida e morte.
Alguns podem suspeitar que uma das funçoes da idéia de fator de risco é apaziguar a
impotência diante das transformaçoes sociais pela promessa de o individuo controlar sua vida e
morte.
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Um corpo com futuro
Notas
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1
Hersch, J., L'inégalité devant la mort d'aprés les statistiques de la ville de Paris - effets de la
situation sociale sur la mortalité, Paris : Sirey, 1920, apud Fagot-Largeault, A., Les causes de la mort :
Historie naturelle et facteurs de risque, Paris : vrin, 1989, p. 15+.
2
Escoffier-Lambiote, « L'inegalité devant la mort », Paris: Le monde, 19 de janeiro de 19/5, p. 19,
apud Fagot-Largeault, op. cit, p. 1+3.
3
O observador atento observara que esta definiçao de cuidado esta baseada no conceito de sujeito
moral proposto por Foucault no final de sua vida. Cf. Foucault, N., Histoire de la sexualité !! - L'usage des
plaisirs, Paris : Gallimard, 198+, pp. 32-39.
+
Fagot-Largeault, A., op. cit., p. 1.
5
A referência aqui é, obviamente, ao conhecido trabalho de Ouine sobre a indeterminaçao da
traduçao. Cf. Ouine, W. v. O., Word 8 object, Cambridge, Na : The N!T Press, 1960. Uma boa discussao
sobre a relaçao entre indeterminaçao da traduçao e a tese de Kuhn sobre a incomensurabilidade de crenças
é feita por Rorty, R., Filosofia e o espelho da natureza, Lisboa: Publicaçoes Dom Ouixote, 1988, pp2+0-266.
6
Damasio, A., O erro de Descartes, Lisboa: Publicaçoes Europa-América ,11
th,
, 1995.
/
Estes dois sintomas sao apresentados quando Damasio narra o caso de seu paciente ¨Elliot". Cf.
op. cit., pp 56-5/.
8
Sobre o problema do enquadramento, cf. Dennett, D., Brainchildren, Cambridge, Na: The N!T
Press, 1998, pp. 181-205.
9
Sobre o funcionamento dos marcadores somaticos como um sistema que seleciona e qualifica
cenarios futuros, cf. Damasio, A., op. cit., p. 186-18/.
10
Damasio faz a aproximaçao com os psicopatas na p. 190; ja a articulaçao com os drogados e seu
vinculo ao prazer momentaneo é feita na p. 226.
11
Cf Damasio, A., op. cit., pp 23-53.
12
Damasio, A., p.32.
13
Cf. Foucault, N., L'archéologie du savoir, Paris: Gallimard, 1969, pp. 155-1/3.
1+
Nietzsche, F. A genealogia da moral, Sao Paulo: Brasiliense, 198/, p. +3.
15
!bidem.
16
Cf. Nietzsche, F., op. cit, p. ++.
1/
Cf. Foucault, N., Histoire de la sexualité ! - La volonté de savoir, Paris : Gallimard, 19/6, p. 90.
18
Nietzsche, F., op. cit., p. +/2.
19
Cf. Foucault, N., ¨The subject and power" in Dreyfus, H. L. and Rabinow, P., Nichel Foucault -
beyond structuralism and hermeneutics, Chicago: The University of Chicago Press, 2
nd
ed., 1983, p. 208.
20
Nietzsche, F., op. cit., p. 1+2.
21
Cf. Foucault, N., art. cit., p. 21+.
22
Nietzsche, F., op. cit., p. 100.
23
Cf. Foucault, N., Surveiller et punir - Naissance de la prison, Paris : Galimmard, 19/5, p. 1+0.
2+
Cf. Foucault, N. (19/5), op. cit., pp. 1+3-151.
25
Cf. Foucault, N. (19/5), op. cit., pp. 158-16+.
26
Cf Deleuze, G., ¨Post-scriptum sur les sociétés de cöntrole", in Pourparlers, Paris: Ninuit, 1990, p.
2+6.
2/
Cf. Foucault, N. (19/5), op. cit., p. 1/3-1/9.
28
Cf !dem, pp. 202-203.
29
Cf !dem, pp. 18+-185.
30
Cf !dem, p. 185.
31
Cf. Deleuze, G., art. cit., p. 2+3.
32
Esta é a conceituaçao do presente proposta por Gilles Deleuze. Fragilidade também é interessante
por seus nexos com as idéia de risco e o desenvolvimento da genética.
33
Cf. Deleuze, G., art. cit., p. 2+3.
3+
Castel, R., La gestion des risques - de l'anti-psychiatrie a l'après-psychanalyse, Paris : Les Editions
de Ninuit, p. 1+/.
35
1al·ez seja esta mesma prudência` sempre legítima o que permite a exposicao espetacular e simpliíicada na
mídia das pesquisas epidemiológicas sobre íatores de risco. Aíinal. pelo próprio conceito de íator de risco. um indi·íduo
pode nao contrair a doenca mesmo mantendo seus habitos arriscados: contudo. sempre podera ser pensado que íoi a
mudanca de habito a responsa·el pela conquista de mais tempo em ·ida.
36
A pesquisa é discutida por Anne Fagot-Largeault, op. cit., p. 156.
3/
Este exemplo também é extraido do excelente livro de Anne Fagot-Largeault. Cf. !dem, p. 158.
38
Cf !dem, pp. 165.
39
Cf. Castel, R., op. cit., p. 1+5.
+0
Ruffié, J., Naissance de la médecine prédictive, Paris : Éditions Odile Jacob, 1993, pp. 61 and /5.
+1
Cf. Bauman, Z. Nodernidade Liquida; Rio de Janeiro: Zahar, 2001, p. 9+.
+2
Jacob, F., O rato, a mosca e o homem, Sao Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 10/.
+3
Foucault, N., La volonté de savoir, p. 55-56.
++
Canguilhem, G., La connaissance de la vie, Paris: Librairie Philosophique J. vrin, 1952, p. 16/.