Henri Charriére Papillon

Digitalizadora: Mônica Revisora: amandikaloka (http://amandikaloka.4shared.com) (http://www.esnips.com/user/amandikaloka-amandikaloka) Observação da revisora: A outra versão do livro disponível na internet é uma tradução portuguesa. Eu tirei as gírias e expressões que só seriam entendidas por portugueses e as traduzi para o português do Brasil, ou PT-BR. E, para os que têm vocabulário fraco, adicionei várias notas de rodapé.

Ao povo venezuelano, aos seus humildes pescadores do golfo de Paria, a todos, intelectuais, militares e demais pessoas que permitiram que eu refizesse a minha vida. A Rita, minha mulher e a minha melhor amiga.

Apresentação

Este livro não teria certamente vindo a lume se, em julho de 1967, nos jornais de Caracas, um ano após o tremor de terra que devastou a cidade, um jovem de sessenta anos não tivesse lido que neles se escreveu acerca de Albertine Sarrazin, esse pequeno diamante negro todo brilho, riso e coragem, que se tornou célebre em todo o mundo por haver publicado, em pouco mais de um ano, três livros, dois dos quais relatando as suas fugas e as suas prisões. Esse jovem chamava-se Henri Charrière e vinha de longe. Do presídio, para sermos mais precisos, de Caiena, para onde fora em 1933, condenado, por um crime que não cometera, a prisão perpétua - quer dizer: até a morte. Henri Charrière alcunhado, noutros tempos, Papillon pela gente do milieu1, nascido francês de uma família de professores primários da Ardècbe, em 1906 - é hoje venezuelano. E isso porque esse povo preferiu o seu olhar e a sua palavra à sua ficha criminal e porque treze anos de evasões e de lutas para escapar ao inferno do presídio marcam mais o futuro que o passado. Por conseguinte, em julho de 67, Charrière vai à livraria francesa de Caracas e compra L'Astragale. Na cinta do livro vê-se um número: 123 000. Ao ler isto, ele, com toda a simplicidade, pensa: “É bonito, mas se a menina, com o seu osso fraturado e todas aquelas andanças, vendeu cento e vinte e três- mil livros, eu, com os meus trinta anos de aventuras, vou vender três vezes mais. “ Raciocínio lógico, mas dos mais perigosos, e que, depois do sucesso de Albertine, entre outros, faz amontoar, nas secretarias dos editores, dezenas de manuscritos sem esperança de virem a ser publicados. É que a aventura, a

1

Milieu: o m eio d os fora-d e-lei. (Nota d o Trad utor.)

desdita, a injustiça, não fazem, por si só, um bom livro. É preciso saber descrevê-las, isso é, possuir esse dom raro que faz com que um leitor veja, sinta e viva, como se lá tivesse estado, tudo quanto viu, sentiu e viveu aquele que as escreveu. E é nisto que Charrière tem sorte. Jamais lhe passara pela cabeça escrever uma linha que fosse das suas aventuras: é um homem de ação, cheio de vida, um generoso furacão de olhar malicioso, de voz quente, meridional, um tanto áspera, que podemos escutar horas a fio, pois ele conta as coisas como ninguém, ou seja, como todos os grandes narradores de histórias. E deu-se o milagre: sem ambições e sem contatos literários (envio-lhe as minhas aventuras, para que alguém do ramo as escreva, alarmou-me ele na sua carta), o que ele escreve é “igual ao que ele conta”; vemos, sentimos, vivemos tudo aquilo e se, desgraça nossa, pretendemos parar no fim de uma página, onde ele conta que se prepara para ir à latrina (lugar de múltiplas e consideráveis funções no degredo), nos vemos obrigados a virar a página, pois já não é ele que para lá se dirige, mas nós próprios. Três dias depois da leitura de L'Astragale, escreve, de uma vez só, os dois primeiros cadernos de formato escolar, daqueles que têm uma mola de arame em espiral para prender as folhas. É só o tempo de escutar uma ou duas opiniões sobre essa sua nova aventura, talvez para ele mais surpreendente que todas as outras, e atira-se ao resto, em princípios de 68. Em dois meses termina os treze cadernos. E, tal como aconteceu com Albertine, é pelo correio que, em Setembro, vem parar às minhas mãos o seu manuscrito. Daí a três semanas estava Charrière em Paris. Eu e Jean-Jacques Pauvert havíamos lançado Albertine: Charrière me confia seu manuscrito.

Neste

livro, escrito

com

a

tinta

ainda

vermelho-vivo

das

recordações,

datilografado por entusiastas, variadas e nem sempre muito hábeis datilógrafas, eu praticamente não toquei. Apenas refundi a pontuação, traduzi certos espanholismos muito obscuros e corrigi uma ou outra frase de sentido pouco claro, assim como uma ou outra inversão de palavras devida à prática cotidiana, em Caracas, de três ou quatro línguas aprendidas oralmente. Quanto à sua autenticidade, essa eu posso atestá-la. Charrière veio por duas vezes a Paris e, nessa altura, conversamos longamente. Durante dias e algumas noites também. É evidente que, ao fim de trinta anos, certos pormenores se devem ter desvanecido na sua memória. Mas isso não tem importância. No que toca o fundo do problema, basta-nos recorrer à obra do Professor Devèze, Cayenne (julliard, col. Archives, 1965), para logo verificarmos que Charrière não exagerou no que respeita aos costumes e aos horrores do degredo. Muito pelo contrário. Mudamos, por princípio, todos os nomes dos forçados, guardas e chefes da administração penitenciária, já que o intuito deste livro não é o de atacar esse ou aquele, mas de fixar tipos e todo um meio. O mesmo se fez quanto às datas: algumas são exatas, outras indicativas de épocas. Isso basta. É que Charrière não pretendeu escrever um livro histórico, mas apenas contar, tal como ele a viveu ao vivo, com dureza e fé, a extraordinária epopéia de um homem que se recusa a aceitar o que pode haver de desmedido entre a compreensível defesa de uma sociedade contra os malfeitores e uma repressão, por assim dizer, indigna de uma nação civilizada. Jean-Pierre Casteinau

Primeiro Caderno O “CAMINHO DA PODRIDÃO”

O tribunal criminal Tão forte foi a bofetada que só ao fim de treze anos consegui me colocar de pé. Foi, realmente, um sopapo fora do comum, e para me pregarem um só cara não bastou, foram precisos vários. Estamos a 26 de Outubro de 1931. Vieram me buscar, às seis da manhã, na cela que ocupo na Conciergerie, há quase um ano. Estou barbeado de fresco, bem vestido, e o terno de bom corte me confere um certo ar de elegância. Camisa branca, laço à papillon azul-claro, uma nota requintada na minha indumentária. Tenho vinte e cinco anos, mas pareço ter vinte. Os policiais, um tanto o quanto intimidados pelo meu ar de gentleman, me tratam com toda a delicadeza. Até tiraram as minhas algemas. Nos encontramos os seis, eu e mais cinco policiais, sentados em dois bancos compridos, no meio de uma sala nua. Lá fora o dia está cinzento. À nossa frente, uma porta que certamente comunica com a sala de audiências, pois nos encontramos no Tribunal de la Seine, em Paris. Em momentos, serei acusado de homicídio. O meu advogado, maitre Raymond Hubert, vem me cumprimentar: “Não há nenhuma prova satisfatória contra você; estou certo de que iremos ser absolvidos.” esse “iremos” me faz sorrir. Poderia-se dizer que também ele, maitre Hubert, vai comparecer ao tribunal como inocente e que, no caso de eu ser condenado, também cumprirá a pena. Um oficial de diligências abre a porta e nos convida a passar para a sala. Por essa porta, aberta de par em par, rodeado por quatro policiais, entro em uma sala enorme. Para me lixarem a vida, cobriram tudo de vermelho cor de sangue: carpetes, cortinados, e até mesmo as vestes dos magistrados que daqui a instantes me vão julgar. Meus senhores, os juízes!

De uma porta, à direita, saem, um por um, seis indivíduos. O presidente e mais cinco magistrados, de borla na cabeça. O presidente detémse em frente à cadeira do meio e de um lado e do outro dele postam-se os assessores. Reina um silêncio impressionante na sala, com todo mundo de pé, inclusive eu. Os magistrados se sentam e todos os imitam. O presidente, um sujeito de bochechas rosadas e ar austero, fixa-me nos olhos sem deixar transparecer o que quer que seja. Chama-se Bevin. Irá dirigir os debates com imparcialidade e mostrará a todo mundo, com essa atitude, que, como magistrado de carreira, que é, não se sente muito convencido da sinceridade das testemunhas e dos policiais. Não, ele não terá qualquer responsabilidade na bofetada que vou apanhar, apenas me deixa à mercê dos outros. O promotor-geral é o magistrado Pradel. É um promotor bastante temido por todos os advogados da barra. Goza da triste fama de ser o primeiro fornecedor da guilhotina e das penitenciárias da França e do além-mar. Pradel representa a vingança pública. É o acusador oficial e nada tem de humano. Representa a lei, a balança, é ele quem a maneja e fará tudo para que essa se incline para o seu lado. Tem um olhar de abutre, fecha um pouco as pálpebras e olha-me intensamente, com toda a altivez. Antes de mais, devido à altura da cátedra, que o coloca em uma posição mais elevada que a minha, e, depois, a sua própria estatura, um metro e oitenta, pelo menos, que ele ostenta com uma infinita arrogância. Não tira a capa Vermelha, mas coloca o barrete à sua frente. Apóia-se nas mãos, ou melhor, nas manoplas. Uma aliança de ouro indica que é casado e, no dedo mínimo, como anel, tem um cravo reluzente. Curva-se um pouco para mim, como que para melhor me dominar. Tem todo o ar de me dizer: “Se pensa, rapaz, que pode escapar de mim, está muito

enganado. Então não vê que as minhas mãos são como serras, que as minhas garras, já a postos, irão despedaçá-lo? Se sou temido por todos os advogados e cotado, no meio da magistratura, como um perigoso promotor-geral, é porque jamais deixo escapar a presa. “Não me interessa saber se você é culpado ou inocente, apenas irei me servir de tudo quanto você tem contra si: a vida boêmia em Montmartre, os testemunhos conseguidos pela Polícia e as próprias declarações dos agentes. Com todo esse estendal de misérias acumulado pelo juiz de instrução, eu só tenho o trabalho de torná-lo suficientemente repelente para que os jurados façam-no desaparecer do seio da sociedade.” Parece-me, realmente, ouvir, com toda a nitidez, as suas palavras, a menos que eu esteja sonhando, porque, na verdade, esse “devorador de homens” consegue me impressionar: “Deixa rolar, réu, sobretudo não tente se defender: eu irei levá-lo ao “caminho da podridão”. “Espero que não tenha fé nos jurados! Nada de ilusões. Esses doze indivíduos não conhecem a vida. “Repare bem neles, aí, alinhados na sua frente. Está vendo como eles são, doze nabos importados para Paris lá da sua longínqua aldeola da província. São todos uns pequeno-burgueses, reformados, comerciantes. Não vale a pena perder tempo a descrevê-los a você. Decerto, não terá a pretensão de que eles o compreendam, a você, aos seus vinte e cinco anos e à vida que tem levado em Montmartre. Para eles, Pigalle e a Place Blanche são o Inferno, e todos aqueles que vivem de noite inimigos da sociedade. Têm todos imenso orgulho em fazerem parte do júri no Tribunal de la Seine. Sofrem, além disso, asseguro-lhe, com o fato de serem uns pequeno-burgueses mesquinhos.

“E então apareces você, belo e jovem. Está claro que não vou ensaiar nada em descrever-lhe como um dom-joão das noites de Montmartre. Deste modo, farei logo destes jurados seus inimigos. está muito bem vestido, devia ter aparecido com um terno mais modesto. Nisso você cometeu um grande erro tático. Pois não vê que eles o invejam? Todos se vestem na Samaritaine, nunca nenhum deles entrou em um alfaiate.” São dez horas, vão começar os debates. Tenho, diante de mim, seis magistrados e, entre eles, um agressivo promotor, que irá empenhar todo o seu maquiavélico poder, toda a sua inteligência, em convencer estes doze zés-ninguéns de que sou, acima de tudo, culpado, e de que o veredicto do dia apenas pode ser prisão ou guilhotina. Vou ser julgado pelo assassinato de um chulo, de um denunciante do milieu de Montmartre. Não existe a mínima prova, mas os dedos-duros - que ganham um galão sempre que descobrem o autor de um delito - sustentarão que o culpado sou eu. À falta de provas, dirão que dispõem de informações “confidenciais” que não deixam margem a dúvidas. Uma testemunha arranjada por eles, verdadeiro disco gravado no 36 do Quai des Orfèvres, que atende pelo nome de Polein, constitui a peça mais eficaz da acusação. Como continuo a insistir que não o conheço, o presidente me pergunta, a dado momento, com toda a imparcialidade: - O senhor diz que a testemunha mente. Muito bem. Mas porque ele mentiria, diga-me? - Senhor presidente: se tenho passado as noites em branco desde que fui preso, não é por sentir remorsos de ter assassinado Roland le Petit, visto que não o fiz. É justamente por tentar descobrir o motivo que levou essa testemunha a mostrar-se tão encarniçada contra mim e a contribuir, todas as vezes que a acusação fraqueja, com novos elementos que a vêm reforçar. E cheguei, senhor

presidente, à conclusão de que a polícia deve tê-lo surpreendido praticando qualquer delito grave e que negociou com ele: nós o deixaremos em paz com a condição de que você se encarregue do Papillon. Nem eu supunha quanto isso era verdade. Aquele sujeito, Polein, apresentado em pleno tribunal criminal como um indivíduo honrado e isento de condenações, viria, anos mais tarde, a ser preso, e condenado por tráfico de cocaína. Maitre Hubert faz o possível para me defender, mas não tem a mesma envergadura do promotor de justiça. Apenas maitre Bouffay consegue, durante breves momentos, com a sua calorosa indignação, pôr em dificuldade o promotor. Mas foi, infelizmente, sol de pouca duração e a habilidade de Pradel não tardou a ganhar vantagem no duelo. Este, ainda por cima, lisonjeia o júri, triunfante de vaidade por se ver tratado de igual para igual, como colaborador daquela impressionante personagem. Aquela partida de xadrez terminou às onze horas da noite. Os meus defensores sofreram xeque-mate. E eu, que sou inocente, estou condenado. A sociedade francesa, representada pelo promotor-geral Pradel, acaba de condenar um jovem de vinte e cinco anos. E nada de abatimentos, nem por sombras! A farta dose foi-me servida pela voz monocórdica do presidente Bevin. - Levante-se o réu. Eu me levanto. Na sala reina um silêncio total. A minha respiração se suspende, meu coração bate ligeiramente mais depressa. Os jurados ou olham para mim, ou baixam a cabeça, envergonhados. - Tendo o júri respondido afirmativamente a todos os quesitos com exceção de um, o de premeditação, o réu é condenado a trabalhos forçados por toda a vida. Tem o réu alguma coisa a alegar?

Fiquei impassível, em uma atitude perfeitamente normal, apenas apertei, com um pouco mais de força, a trave da barra onde me apoiava. - Tenho, sim, senhor presidente, quero afirmar que sou totalmente inocente e que sou vítima de uma tramóia da Polícia. Do canto das senhoras elegantes, convidadas de honra, sentadas por detrás dos jurados, chega aos meus ouvidos um murmúrio. Sem elevar demais a voz, dirijo-me a elas: - Silêncio, minhas senhoras cobertas de pérolas que vêm aqui para saborear emoções doentias. A farsa acabou. Eis um crime maravilhosamente solucionado pela Polícia e pela Justiça de vocês. Deveriam se sentir contentes! - Guardas - disse o presidente -, levem o condenado. Antes de sair, ainda ouço uma voz gritar: - Fique tranquilo, homem, que eu vou falar com você. É a minha valente e nobre Nénette a gritar o seu amor para mim. A gente do milieu, que se encontra na sala, aplaude. Eles bem sabem como as coisas se passaram, e manifestam assim o seu orgulho por eu não ter alinhado com os outros, nem denunciado ninguém. De regresso à salinha onde havíamos estado antes dos debates, os guardas põem em mim as algemas e um deles fica ligado a mim por uma curta cadeia, o meu pulso direito preso ao seu pulso esquerdo. Nem uma palavra. Peço um cigarro. O ajudante estende-me um e o acende para mim. Todas as vezes que o tiro ou o levo à boca, o policial se vê obrigado a levantar ou a baixar o braço para acompanhar o movimento. Fumo, de pé, cerca de três quartos do cigarro. Ninguém diz uma palavra. Sou eu que, olhando para o ajudante, digo: - Vamos.

Descidas as escadas, escoltado por uma dúzia de policiais, eis-me no pátio interior do tribunal. Aqui tenho o camburão da polícia à minha espera. Não é propriamente um carro individual; há bancos para nos sentarmos, talvez uns dez. O ajudante diz: - Conciergerie.

A Conciergerie

Uma vez chegados ao último castelo de Maria Antonieta, os policiais me entregam ao carcereiro-mor, que assina um papel, a quitação. Vão-se embora sem uma palavra, mas antes, para minha surpresa, o ajudante aperta as minhas mãos algemadas. O carcereiro-mor pergunta-me: - Quantos pegou? - Prisão perpétua. - Não pode ser! Olha para os policiais e percebe que falo verdade. E esse carcereiro de cinqüenta anos, que já viu tanta coisa e conhece perfeitamente o meu caso, dirige-me estas palavras compreensivas: - Ah, que patifes! Mas eles endoideceram! Tira as minhas algemas com cuidado e tem a gentileza de me acompanhar em pessoa a uma cela devidamente isolada, reservada aos condenados à morte, aos doidos, aos tipos perigosos ou aos condenados a trabalhos forçados. - Coragem, Papillon - diz para mim, fechando a porta. - Vamos mandá-lo algumas das coisas que lhe pertencem e a comida que ficou na outra cela. Coragem! - Obrigado, chefe. Pode crer que me sinto cheio de coragem e de fé. Aposto que essa minha condenação a prisão perpétua vai ficar atravessada nas goelas deles. Daí a minutos, sinto um raspar na porta. - O que é? - pergunto. me responde uma voz:

- Nada. Sou eu que estou pendurando um cartaz. - Por quê? O que diz ele? - Trabalhos forçados por toda a vida. Intensa vigilância. Penso para comigo: “Eles são realmente malucos. Eles pensam que, por acaso, o choque causado por essa avalanche que desabou sobre mim pode me perturbar ao ponto de me levar ao suicídio? Sou e serei corajoso. Lutarei contra tudo e todos. A partir de amanhã, vou entrar em ação.” De manhã, enquanto bebia o café, perguntei a mim mesmo: “Recorrerei? Para quê? Terei mais sorte perante outros juízes? E quanto tempo eu iria perder com isso? Um ano, talvez dezoito meses... e para quê? Para apanhar vinte anos em vez de pena perpétua?” Como estou mais que decidido a fugir, a quantidade não conta e, então, lembrome da pergunta que um condenado fez ao presidente do tribunal: “Quanto tempo duram os trabalhos forçados perpétuos na França?” Dou voltas na cela. Mandei um telegrama a minha mulher, para consolá-la, e outro a uma irmã minha que, sozinha contra todos, fez o possível para defender o irmão. Acabou-se, caiu o pano. Os meus sofrem, certamente, mais que eu, e o meu pobre pai, lá longe, na província, deve suportar com grande custo a sua pesada cruz. Sinto um sobressalto: mas... eu sou inocente! Sou, de fato, mas para quem? Sim, aos olhos de quem? Penso para comigo: “Sobretudo nunca caia na asneira de dizer que é inocente, todos ririam de você. Pegar prisão perpétua por causa de uma briga e, ainda por cima, afirmar que foi outro que o arruinou, devia ser legal. O melhor é não abrires a boca.”

suscetíveis de virem a ser. também. Dega. naturalmente. . em 1932. em um abrir e fechar de olhos: . meus companheiros de fuga. Só o percebi exatamente na altura em que. o guarda está olhando pra cá.Vai recorrer? . nunca pensara na eventualidade de uma tão pesada pena.Sim. 2 Dez mil franco s. Certamente o verei no barbeiro.Dez pacotes de libras esterlinas2. Tem “algum” com você? . O Hubert é que é o seu advogado? É um idiota. Dega. .Não. Manda a sua mulher. sorrateiramente.Então. O que é preciso é comer bem e fazer muita ginástica. cerca d e cinco m il. De fato. Vai lá todos os dias fazer a barba. no futuro. ao Dante. para esperar mais tempo pela sua vez. Primeira coisa a fazer: entrar em contato com sujeitos já condenados. Peço que me levem lá. jamais me preocupara em saber o que era o “caminho da podridão”. apanhei perpétua. Bem. mal chego. ou seja.Como. E você? . Dega. Não perca a força.Cale-se. porque. como é que vai a vida? -Bem. Escolhi um marselhês. . Que o dê ao Dominique le Riche e garanto que ele chegará nas suas mãos. Apanhei quinze. Sopro-lhe isto.Um bom conselho: arranja “algum”.Nada. fez passar outro na sua frente. nunca vai passar o “governo”. durante o tempo em que estivera preso tanto na Santé como na Conciergerie. Papi. com um “governo” bem recheado. em 1969. e você? Ouvi dizer que tinham lixado você? . . ainda vai precisar de uma boa musculatura. vejo-o de nariz virado para a parede.

Oh! Não é nada de grave . condenado para toda a vida! Consegui o “governo”. Faz parte de mim mesmo. É noite lá fora. colocado sobre uma cama de ferro. que se abre desenroscando-o pelo meio. composto por uma peça macho e outra fêmea. para que ele suba pelo cólon acima.e aquele grande metido se desata a rir. a minha liberdade. Podem me deixar nu em pêlo. É toda a minha vida. Respiro fundo. Ponho um lenço dobrado sobre o rosto. beijo-o em um ímpeto. e só depois o enfio no ânus. me obrigarem a tossir. Chegado a esse ponto.Ele diz que está doente.. . fere os meus olhos. extraordinariamente bem polido. E a vida é assim. para vos contar tudo quanto vivi e revivi. . realmente. que eu guardo dentro de mim. A grande lâmpada do teto deixa o vigia me ver por um buraquinho aberto na porta. é impossível saberem que guardo qualquer coisa. afastarem as minhas pernas. a me dobrar em dois. passando em revista os mínimos pormenores de todo esse horrível processo.Então? Aproveitamos vir aqui para a tagarelice? . Já estou no “caminho da podridão”. É um tubo de alumínio. essa luz potente me ofusca. Um fulano que se ri às gargalhadas por causa de um gracejo sobre um rapazola de vinte e cinco anos. a fundo. Fico estendido em um colchão. vou ser obrigado a demorar um pouco. porque a luz. Contém cinco mil e seiscentos francos em notas novas. É que eu penso me vingar! Não penso mesmo em outra coisa. a estrada da vingança.Que tem? Uma indigestão de juízes? . É esse o meu cofre. e para que possam perceber a continuação desta longa história e compreender. sem travesseiro..responde Dega. Mal apanho esse pedaço de tubo de seis centímetros de comprimento. depois daqueles primeiros dias em que me senti enterrado em vida: . Subiu muito alto. Estou sozinho nesta cela. no intestino grosso. as bases que serviram de sustentáculo na minha luta..

O primeiro a ser morto será Polein. A essa hora. vinda da rua. deixemos isto. tenho que calcular o tempo exatamente necessário para que a mala. A seguir. Atenção: é preciso que expluda. primeiro andar. nitratos compostos e óleos (No ta da reviso ra: http :/ / am and ikalo ka. o mais depressa possível. direi em um tom autoritário: “Levem essa mala para a sala de reuniões. E porque não nitroglicerina? Bom. de aparência inofensiva. a Paris. Estou a ver a mala. pelo menos. vou perder a vergonha. pelo menos. chegue ao seu destino no preciso momento em que vá pelos ares. que estão de guarda. em uma mala. a falsa testemunha. a accionar o detonador. às dez da manhã. na sala de reunião da Polícia judiciária. há. o maior número possível deles. chedita3 é melhor. agora que possuo um “governo”. Dinamite? Não. Primeiro que tudo. 36. Ah! Já sei. regressarei. Uma vez livre. os dois informantes que testemunharam. nem por um momento considero a hipótese de não fugir.Que farei quando fugir? Porque. que eu já vou lá. cento e cinquenta dedosduros à espera de ordens e de ouvir ler o relatório. quinze. vinte quilos. Me esforço para calcular que quantidade será necessária para fazer o maior desgaste possível. o que eu tenho que fazer é matar todos os dedo-duros. Mas dois delatores não basta. Ainda não sei bem: uns dez. Quai des Orfèvres. o máximo de explosivos. E quem levará a mala? Bem. pedirei depois conselho aos que percebem mais da coisa que eu. Chego de táxi na porta da Polícia Judiciária e aos dois policiais. Meterei.com) . Quantos degraus é preciso subir para chegar até lá? Não me posso enganar. Continuo de olhos fechados e lenço sobre as pálpebras comprimidas. carregada de explosivos e o relógio. Digam 3 exp lo sivo p o d ero so constituído de percloratos. Ou. vai chegar para todos. regulado como deve ser.4shared. A cabrada pode ficar descansada que a ração será boa. voltarei a Paris.

que não teve grande . junto ao pratinho da sopa. continuar vivendo em paz? Devem ter voltado a casa. Bem. Sinto. sem a faixa de pano. precisamente. com o peso da água. Cheios de importância. se é leiteiro. utilizarei sempre esse processo. e se eles não me obedecem? E se entre todos estes imbecis vão colocar no meu caminho. Não posso admitir que a minha cabeça não acabe descobrindo um só golpe cem por cento seguro. De hoje em diante. Todas as noites. Torno a me deitar. despenteada. Não há dúvidas de que fugirei e regressarei a Paris. o lenço adere melhor aos olhos. A água fresca me faz bem e. viajo através de Paris como se a fuga já se tivesse consumado. como um rústico qualquer. que os espera. e os minutos correm lentamente. e até mesmo durante o dia. E.” Mas. reagirá como um policial ou como um empregado de alfândega. os dois únicos sujeitos inteligentes desta insigne corporação? Lá se ia tudo por água abaixo. De tanto arquitetar. rompantes de vaidade perante os vizinhos e a burguesa. todos satisfeitos por terem cumprido o seu dever com dê grande. o que irei fazer com os jurados? Nada. aqueles catequéticos. E. raios a partam! Molho o lenço e torno a colocá-lo como antes. com terrível acuidade. E essa luz. Se se trata de um policial reformado ou de um empregado de alfândega. tenho que inventar outro processo. Me levanto para beber um gole de água. minha cabeça dói. Nenhum deles está preparado para poder julgar alguém. as longas horas que levo a arquitetar a minha vingança. Dou tratos e mais tratos à imaginação. bem entendido. então. a primeira coisa a fazer é apresentar a conta a Polein e depois aos dedos-duros. E os jurados? Esses cornos irão. essa luz. Concordaram com a tese do promotor de justiça. São todos uma cambada de imbecis.ao comissário Dupont que o inspetor-chefe Dubois está envia isso para ele e que não vai demorar. como se o projeto estivesse já em vias de execução.

Se a porta não for bastante grossa. sim. julgado e assente: não lhes farei mal. com o rapaz que foi metido no porão e deixado para morrer de fome. no entanto. Portanto. Agir exatamente como no Conde de Monte Cristo. Esse magistrado. . aprendida com Alexandre Dumas. Esse abutre. infligidos a um jovem. vai para tantos anos e que hoje me assaltam com tão terrível nitidez. eu me encarregarei de forrá-la com um colchão e estopa. Vida de tal modo intensa. para ele. reúne todas as condições para que eu o execute o mais cruelmente que eu puder. Ao escrever todos estes pensamentos. não farei mal algum aos jurados. Não. acima de tudo. me ocuparei exclusivamente desse abutre. encerrado em uma cela. espessas paredes e uma porta pesada. é sem o mínimo esforço de memória que a caneta vertiginosamente traça tudo o que na realidade pensei nessa época da minha vida. antes de o levarem à loucura. é isso mesmo: depois de Polein e dos dedos-duros. o pai. que ele cria com uma imaginação tão incrivelmente fértil que. Não são realmente pessoas responsáveis. é responsável. podem. Depois de ter a vivenda. Levanta voo e vai vagabundear por onde quiser. os castelos no ar que o seu fecundo espírito inventa. chega a pensar que está vivendo tudo quanto vai sonhando. que o indivíduo se desdobra literalmente. vestido de vermelho. de tal modo viva.trabalho para enrolá-los. tenho uma receita pronta. Sim. Mas e ao promotor-geral? Ah!. pergunto a mim próprio até que ponto o silêncio absoluto e o completo isolamento. as várias etapas da sua vida. Aliás. fica decidido. Alugarei uma vivenda que tenha um porão muito fundo. a infância. que foram realmente os meus. dar asas a uma verdadeira vida imaginativa. E também. Passaram-se trinta e seis anos e. nesse formidável desdobramento. O seu lar. a família. a esse senhor não o vou deixar escapar. a mãe.

Os seus olhos de abutre se deslumbram e se debatem sob a luz de um potentíssimo projetor que lhe assentei em cima. com o propósito de transformá-los no bom sentido? Ora. quando chegar é só prendê-lo. . face a face. olho para ele com o mesmo olhar que ele me lançava no banco dos réus. A sua glória se resume em ser o melhor fornecedor do degredo. vejo-o. “Você me reconhece. Acha que valeu a pena ter suado durante tantos anos seguidos para vir a ser um sujeito superiormente instruído. confesse: o seu saber serviu para salvar os homens. dada a sua superior formação universitária. simplesmente. na sua nojenta carreira. ou para afundá-los? “Você nada fez por eles. ter sacrificado tantos anos de juventude para vires a ser um grande orador? Tudo isso para chegar a quê. movido que é. com extraordinária nitidez. Como já tenho as argolas soldadas à parede. que você. para exercer influência sobre os outros. patife? Sou eu. pois encontro-me colado a ele. todo contente. E então é que vou me refestelar! Tenho-o à minha frente. De tal modo a cena é nítida que eu sinto o seu hálito na cara. subir. ouço perfeitamente as minhas perguntas e as respostas que ele me dá. Sim. através dos meus olhos fechados. o frenético fornecedor do carrasco e da guilhotina. mandou para o degredo por toda a vida.localizo-o e rapto-o. ter aprendido latim e grego. ter estudado tanto durante noites a fio nos códigos de Direito Romano e outros. Vivo intensamente esse momento. quase nos tocamos. Papillon. degrau a degrau. em vista a torná-los melhores. por uma única aspiração: subir. O suor cai nele em grandes gotas que escorrem pelo rosto congestionado dele. Sim. Subir. imbecil? Para criar uma nova e justa lei social? Para convencer as pessoas de que a paz é o que há de melhor no mundo? Para pregar a filosofia de uma maravilhosa religião? Ou.

sim? Conserve o seu ar de triunfo. esse silêncio estão enlouquecendo-o. Primeiro. lembro-me perfeitamente do seu sorriso triunfante. Pois não foi graças a você. Ah. umas cinco ou seis cabeças? Seja como for. a mais. no entanto.“Se Deibler4 soubesse ser reconhecido. que ele. E volto à mesma: “Bem. terá a vantagem de não me ver. ontem. vinte anos? Olhe para você. Não tenho cigarros. um caixote do melhor champanhe. grite à vontade. para continuar vendo o que se passa. nem com o lenço em cima deles. então. sim. você está pensando que. com toda a força que tiver. Papillon. se eu arrancá-los. no fim do ano. vou ficar de pé. Começo a andar. ao passo que eu fico privado do prazer de ler. Assim não preciso de ficar de olhos fechados. solidamente amarrado a essa parede. estou vendo o ar triunfante que você assumiu quando ouviu a minha condenação. o que está acontecendo comigo? Por que dez. sim. O que eu iria fazer com você? A receita de Dumas? Deixá-lo morrer de fome? Não. cinco passinhos curtos. vou arrancar os seus olhos. o último. quantos anos já foram! Quantos? Dez? Vinte anos?” Mas. Como ia dizendo. nos seus 4 O carrasco em 1932. Pois é. Acabou-se. Pois vou transformá-lo em um rito de dor! Você ainda tem uma vantagem sobre mim: eu não podia gritar e você pode. . Então? Está ficando idiota. Vou começar a andar de um lado para o outro. desde a porta à parede. Grite. ou seja. Estou vendo o seu sorriso. Dois anos. Parece que foi ontem e.juro a mim mesmo. esse ano. mas não mais do que isso . deveria mandar para você. Papillon? essa cela. seu grande porco. A cela tem quatro metros de comprimento. de mãos atrás das costas. um sujeito novo e guarda na barriga cinco mil e seiscentos francos. vá lá. é um sujeito forte. agora tenho você aqui. isso não basta. dá pra passar dois anos na perpétua. cortou. após o seu interrogatório.

isso sim. o homem mais perigoso de Paris. ficamos entendidos.. de um lado para o outro. “Vou é cortar a sua língua. estaria eu. agora. depois do seu cérebro. aos seus filhos. Ficará para depois. tão convincente. sinto a cabeça a andar à volta. Com efeito. mais que isso. essa língua terrível. Só pode ser um pederasta passivo e covarde. tão hábil. de repente. Foi por saber manejá-la tão bem que conseguiu convencer o júri a responder “sim” às questões que lhe foram apresentadas. aos olhos daqueles doze nabos. Você. uma amante? Talvez um amante. Como é? Já é manhã? Passei. e toda aquela história. ela é a executora. descreveste os dedos-duros como se fossem uns santos. Sim. mas sempre o vejo na minha frente. afiada como um cutelo . sem pé nem cabeça. De vez em quando. Essa mesma língua que diz palavras doces à sua mulher. Se não tivesse essa língua tão pérfida. e nunca sequer teria saído de lá. devo é começar por arrancar a sua língua. afiada como uma lâmina! Essa língua que se prostituiu para a sua gloriosa carreira. um pequeno ruído na porta. sentado na esplanada do Grand Café. Até que. tem razão. de chinelos calçados para . da Place Blanche.. não devo arrancar-lhe os olhos. da testemunha pôde se manter. pelo menos não agora. “Graças a ela. uns sacrificados ao seu dever. vou arrancar-lhe essa língua. à sua amante. porque. É o guarda que. tão treinada em deformar pessoas. Foi ainda devido a ela que eu passei a ser.ou. uma noite inteira aos tratos com a vingança? Que belas horas acabo de passar! Que curta me pareceu essa noite tão longa! Fico à escuta. apaga-se a luz e uma fraca claridade infiltra-se na cela através das tábuas da janela. então. Por conseguinte. Nada. sentado na cama. Mas com quê?” Dou voltas e mais voltas. fatos e coisas. O mais completo silêncio. as suas reações.olhos.

Me dá vontade de rir desse ruído que se repete. seu zé-ninguém. conseguiu eliminar um indivíduo que lhe poderia acarretar alguns dissabores. eu sei que os seus colegas não são nenhuns meninos de coro. Esse indivíduo não pode morrer assim tão depressa. seu carcereiro velho. um postigo de vinte por vinte centímetros. um Lucky Strike.não fazer barulho. Não se preocupe. Já faz muito tempo que sei disso. e partir. Mas isso não lhe basta. por exemplo. Como fui condenado. a seis francos e sessenta cêntimos o maço. Como funcionaria a administração penitenciária. de fato. onde ajudará a sustentar outros funcionários. até isso vai acabar. de tempo em tempo. vão cometer a grande tolice de me mandarem. dado que. Há quem precise dele. já em uma segunda fase. Daqui a uns dias. do modo que você receia: o suicídio. apresenta-se.” Pude. levanta o postigo corrediço e cola o olho ao minúsculo buraco que lhe permite me ver sem que eu o veja. Pelo menos. se não houvesse prisioneiros? Devia ser bonito! Portanto. para essa Guiana Francesa. deixarei de ter direito ao restaurante. deliciado. que eu não vou escapar. quando criou o degredo e lhe perguntaram quem iria guardar esses bandidos. o mais depressa possível. concebido pela República Francesa. para onde. Clac. Eu sei. verificar que ele. O mecanismo. mas. o fundador do degredo. na primeira. Funciona às mil maravilhas. posso comprar cigarros e algumas víveres em uma cantina modesta. graças a Deus. comparado com os sujeitos de lá. . não mentira. é um anjinho. agora. Comprei dois. que ainda há pouco fez esse ruído. respondeu: “Outros mais bandidos que eles. se abre. é necessário vigiá-lo até ele ir para o desterro. não lhe pode escapar mediante o suicídio. pagando. clac. A Conciergerie é a antecâmara da reclusão. Eu só peço uma coisa: continuar vivo e de boa saúde. pois Napoleão. Você. Fumo. Estendem para mim o café e um pão redondo de setecentos e cinqüenta gramas. no meio da porta.

. Não quero ser desterrado.Sim. .Quarenta e dois. inclusive o colchão. se encontram em perfeito estado. . dobradas em acordeão. Como tenho algumas relações. .Trato de gastar o meu pecúlio porque depois vão confiscá-lo para pagar as despesas judiciais. talvez consiga ser agraciado com uns cinco anos. vai sair daqui já velho.Então é porque é bom. em vez de quinze. no dia seguinte. e assim ele. juntamente com tudo o que me pertence. No balneário não há guardas. com exceção de nós próprios. Vou mostrá-los ao guarda. é claro.O que pensa em fazer. Estamos sozinhos. Dega? . vai mandar.Você é doido. a fim de dar cabo dos parasitas. encontro lá Dega.Não se incomoda muito? . já faz sete dias que ando com ele. . Tem tanto medo assim do degredo? .Quantos anos você tem? . Mesmo que só pegue dez anos. Dega me manda um recado para eu ir à desinfecção. E. terei talvez mais uns oito ou dez anos. Realmente.Obrigado.” Tiro os fósforos e encontro os piolhos. Dega.Não.Vou tentar passar por doido. amanhã. . Acho que está bem fechado. eu já tenho o “governo”. no entanto. Aqui na França. porque as notas. para um banho de vapor. . mediante um bilhetinho metido dentro do pão: “Vão três piolhos em uma caixa de fósforos.Sempre que for à latrina. Graças a você. gordos e de boa saúde. Bem sei o que isso quer dizer. lave-o bem antes de metê-lo de novo. .

não é por sessenta minutos que multiplico cada hora do dia. completamente só.Acredito em você. diga-me. sem poder falar com ninguém. . Acredite. o que ainda não é certo. Papillon. e. Papillon.. . os outros presos? . Papi. é um passo. mesmo assim. E você se vê com mais dez anos de reclusão nas costas? Mesmo que lhe tirem cinco anos. e daí a me assassinarem. . mas você é novo e eu tenho quarenta e dois anos. É que. Dega. Se conseguir escapar de tudo isso. certamente. ou então a tuberculose. com franqueza. a respeito de fuga. ainda fico longe da verdade.Sim.É possível. Dega. a malária infecciosa. sim. o que está metendo tanto medo em você! Não são. Todo mundo sabe que eu sou milionário. e cada uma é de mil e oitocentos a dois mil sujeitos. no hospital e. agora. julgando que eu tenho comigo cinqüenta ou cem mil “dele”.São. mas também tenho confiança em mim e sei que não ficarei lá por muito tempo. tem muita probabilidade de ser morto para roubarem o seu “governo” ou de morrer na fuga. disso você pode estar certo. mas é que eu conheci indivíduos vindos do desterro depois de cinco ou sete anos e sei o que digo. dizem que isso não é assim do pé para a mão. acha que vai suportar. mas por seiscentos. sem saídas. por ano. isso falando francamente. como muita gente pensa. o paludismo.Preste atenção. e o que eu lhe garanto é que não vou levar muito tempo para me escapar. . nesse isolamento completo? Pois eu. Se não apanhar lepra. que não vai enlouquecer. As levas se sucedem. você sabe. Passam nove meses. lá na Guiana é terrível. Todos os anos há uma invasão de oitenta por cento. e não me envergonho de lhe dizer. metido naquela cela. Sou marinheiro. conheço o mar. tenho medo. sem livros. São uns autênticos farrapos humanos. arranja uma febre-amarela ou uma disenteria que não perdoa. que não é para desencorajá-lo que lhe digo isto.

Eu sou forte e rápido. jovem e elegante.. com a sua trouxa. Punha em branco os títulos de quinhentos francos e imprimia-lhes em cima. Dega esteve metido naquela história da falsificação dos papéis de crédito da Defesa Nacional. de maneira muito original. aprendi. Em 1929. bancos e comerciantes aceitavam-nos com toda a confiança. Quanto à fuga. Louis Dega vivia em paz e sossego. O bar era também o ponto de encontro de todos os grandes viciosos internacionais. Portanto. de vez em quando. Dega era milionário. na capela. certo dia. a perguntar pelo senhor Louis Dega. além disso. Uma noite. com uma faca. a porta se abriu.Sou eu. no barbeiro.. dirigindo o seu bar de Marselha. quando. Pouco depois. ao domingo. apresenta-se no bar uma mulher bela. no médico ou. Eu tenho “massa”. e você também. não precisamos de ninguém. sei me orientar com uma bússola e guiar um barco. que deseja? Faça o favor de passar para a sala ao lado.Presta atenção. quer fazer um pacto comigo? Promete que não vai para os malucos e eu prometo que não vou largar do seu pé. seremos temidos. minha senhora. O que mais você quer? Ele me olha bem nos olhos. Nos abraçamo. desde muito novo. isso já durava há vários anos e. . onde. títulos de dez mil francos. pode ficar sossegado: seremos mais do que respeitados. se juntava a fina-flor do milieu do Sul. Ele sai por um lado. no que se refere aos outros presos. a Seção de Finanças do Ministério Público já não sabia que tratos dar à imaginação. e eu por outro. Está assinado o pacto.. a me defender e sei me virar bastante bem. Não estamos muito distantes um do outro. poderemos encontrar-nos. todas as noites. com enorme perfeição. um tal Brioulet é caçado em flagrante delito. feitos por um falsário. Como o papel era o mesmo. . Ajudamos um ao outro.

no dia seguinte. Ando. Vendo-se ultrajada. que está preso. ganhará todo o dinheiro de que precisa e ainda lhe sobrará algum. desfeita em lágrimas. esse o homem com quem eu acabava de assinar um pacto de vida e de morte. . cinco. sendo depois submetidos a julgamento. Foi então que Dega.. então. três. por ter vendido uns papéis de crédito falsificados. Estive com ele no parlatório da Santé. contava tudo o que sabia ao juiz de instrução. Uma brigada dos mais hábeis policiais franceses partiu à caça de Dega. Um. Maitre Raymond Hubert veio visitar-me. acusando formalmente Dega de ser o sujeito que fornecia os títulos falsos.. em Paris. entre na vida. nestas idas e vindas da janela até a porta da cela. Não lhe fiz quaisquer observações. Bonita como é. e parecia-me um tanto pra baixo. dois. há várias horas. um dos maiores corruptos da França.. Um mês depois. à mesma hora. Se precisa de dinheiro. meia volta. Conclusão: por vinte mil miseráveis francos e uma frase idiota. deu precisamente a única resposta que nunca devia ter dado: . Cada acusado tinha um grande advogado para se defender. o prazer de conhecer o seu marido. quatro. o gravador e onze cúmplices eram apanhados.Não tenho. Era. Um. meia volta. Brioulet. minha senhora. Indignado. o mais corrupto dos franceses. o falsário. mas Brioulet nunca se retratou. perante o perigo que representava uma mulher ao corrente do seu papel nesse negócio dos títulos de crédito. quatro.Olhe.. arruinado e prematuramente envelhecido. o qual durou catorze dias. dois. e ele me deu o endereço desse bar. cinco. a pobre mulher saiu a correr. eu sou a mulher de Brioulet.. e metidos na prisão. ele. em diferentes lugares. três. e foi contar tudo ao marido. dizendo para eu lhe pedir vinte mil francos para pagar o advogado. foi condenado a quinze anos de trabalhos forçados. .

um grito. para atravessarem essa porta tão grossa. no Dega. dou um murro no peito. Me abaixo. Deixemos o procurador como ele ficou. nem lápis. No entanto. Nem livros. na realidade. as argolas presas na parede. estou. na minha frente. completamente tapada com tábuas. através da porta da cela. tudo o que me possa chegar aos ouvidos será sempre um grito. . me deixam perturbado.Fumo. Não consigo saber o que se passa. equilibrado e apto a suportar o que quer que seja. sozinho. no meio da noite. Resolvo adiar os meus projetos de vingança. e a janela gradeada.Mas que é que você tem a ver com isso? Pense em você. me levanto. E as pernas? Merecem felicitações. Suprimiram todos os meios de distração. chega-me aos ouvidos. Mas estes gritos. um grito de desespero. Os Chineses inventaram a tortura da gota de água. um grito agudo. É tão fácil ficar doido nestas celas onde nada acontece! Falo sozinho em voz alta. me sinto consciente. e somente em você. E devem ser muito fortes. dou voltas e reviravoltas como uma fera em uma jaula. o que é sinal que tudo vai bem: tenho os músculos dos braços a funcionarem às mil maravilhas. De repente. a sensação de ter sido abandonado por todos e de me achar literalmente enterrado vivo. O que será? Parecem os gritos de um homem a ser torturado. realmente. Doeu imensamente. Tenho. só tem uns buraquinhos por onde se filtram uns tênues raios de luz. perguntando: . Impressionadíssimo com aquele grito dilacerante. e no seu novo sócio. Sim. mas os Franceses inventaram o silêncio. porque continuo ainda indeciso quanto ao processo a empregar para dar cabo dele. amarrado. nem papel. Talvez seja um doido. pois há mais de dezesseis horas que andas de um lado para o outro e nem sequer se sentes cansado. a Polícia judiciária não fica aqui. horrivelmente angustiado.

Era um comerciante? .Não. Um velho padre aparece. é verdade.Boa noite.Porque. meu filho. . apresso-me a responder: . com todo o conforto.Oh! Não digas isso. no meu almofadão.A minha mãe morreu quando eu tinha onze anos. .A Políca diz que eu matei um homem e. Como se sente? E o bom de velhote entra pela cela dentro e se senta.Da Ardèche. .E os seus pais? .De que onde você é? .Ainda é vivo? . de repente.É. . uma vez que ela diz isso. O que você fez? Percebo. .Então porque se refere a ele no passado? . mas estive de férias. por isso. que é ridículo confessar a ele a minha inocência e.Abriram a porta. se bem que esteja vivo. é porque. Não está sozinho. .Era professor primário. com certeza. O meu pai gostava muito de mim. era um vagabundo. tem um padre à sua frente. eu já morri. Desculpa não ter vindo mais cedo. .Qual a sua profissão? . . .

Obrigado. . O que eu posso fazer por você? Quer rezar comigo? .Há quanto tempo não chorava? .Há catorze anos. . E. meu pobre filho. eu rezo por você. de novo. com o seu dedo rechonchudo. .E foi por uma dessas histórias do milieu que te condenam a trabalhos forçados por toda a vida? Não entendo.Mas isso é incrível. uma grande lágrima. recolhe do meu rosto.. O bom Deus ama todos os seus filhos. “ Surgem as lágrimas nos meus olhos e o bom padre. meu filho. ao vê-las. batizados ou não.As suas lágrimas. erguendo-se.Não. eu o imito.Perdoe aos que tanto o fizeram sofrer. mas nunca recebi educação religiosa. Ele agarra a minha mão e me diz: . sentados lado a lado na borda da cama.. me enviou. Foi um assassinato? . beija-me na testa.Por que catorze anos? . por isso não sei rezar. foi um crime.Desculpe. por seu intermédio. “Pai Nosso. . que estais nos Céus .No dia em que morreu minha mãe. meu filho. senhor prior. . como ele se ajoelha.Não tem importância. Nos encontramos. Quer repetir cada palavra que eu vou dizer? Tem um olhar tão doce e espelha-se no seu rosto uma bondade tão luminosa que eu me envergonho de recusar a ele o que me pede e. leva-a aos lábios e bebe-a. .. são para mim a maior recompensa que Deus.

Ir à cela trinta e sete a dizer ao Dega que comunique ao advogado que quer ser enviado para a Central de Caen. . .O que eu posso fazer por você? . no meio da cela.Ah!. como e de que forma poderei vir a dar cabo de todos aqueles que me colocaram aqui. depois de estar com ele. uma noite.Um delito. será preciso esperar mais dois anos antes que haja outro.Para fugir assim que puder. Mas. que sé esqueceu do seu breviário. com a idade. . por exemplo. meu padre. muito jovem. . e. uma hora. Eu já fiz isso hoje. verdadeiro caixeiro viajante do Santíssimo. digo: . vai renunciar ao castigo e à vingança. isso não! Nunca irei perdoá-los.Retiro imediatamente a mão e. sem querer.Você acredita nisso que está dizendo. não.E porque tem tanta pressa em ir para esse horrível degredo? Olho para esse padre. Mas. meu padre? Pois olhe: não há um dia. É jovem. É que. de um salto. certo de que ele me não trairá. penso como ele. . Fico à espera da resposta. tenho que ir depressa embora da Conciergerie para uma das centrais de onde partem as levas de presos com destino à Guiana. eis-me. meu filho. o senhor terá de voltar aqui.Qual? . meu padre. . .repete o padre. . Decorridos trinta e quatro anos. se perdermos o primeiro barco.Sob que pretexto? . E quer que lhe confesse uma coisa. ainda. um minuto sequer que eu não leve a arquitetar quando.Diga.

Espere pela resposta. . O padre me deixou ficar com o breviário até o dia seguinte. . . estou certo disso. o padre da Conciergerie? A visita deste santo homem me fez bem.4shared. tem um olhar são e uma alma nobre. é substituída por uma camisa grossa de pano cru e meu belo terno por um jusão e umas calças de burel5. que ainda há pouco usava. os policiais. esse padre. Um raio de sol me visitou hoje! Graças a esse santo homem. parda. É que você sabe. Dega está de acordo.Vistam-se! A camisa de seda. marrom ou preta. em contrapartida. ao trinta e sete.. além de ter prestado um serviço pra mim. Faz frio e eu fico com a pele toda arrepiada. os Polein e. Os sapatos desaparecem. Meia volta.Ponham tudo na frente de vocês. Não demorou muito. A resposta ao nosso pedido não demorou muito. como consente que haja seres tão diferentes à superfície da Terra? O procurador. às quatro da manhã. g er. sete homens alinham-se no corredor da Conciergerie.com) . us. fico com os pés metidos em um par de tamancos. Uma semana depois. meu filho. Os dedosduros estão todos presentes. Até 5 tecid o g ro sseiro d e lã. e ainda vai refazer a sua vida.Em pelota! Começamos a nos despir devagar. Pois eu vou lá. tenho esse pressentimento. vejo a cela toda iluminada! Se Deus existe. na vestimenta de alg uns relig io so s e p enitentes (Nota da revisora: http:/ / amandikaloka. sem faltar um. um passo atrás! E a cada um de nós se depara um embrulho.Deus o ajudará.

assim se chama a Central de Caen. ficámos transformados nuns forçados. ou seja.aqui. .Direita! Em fila! Em frente. um a um. onde. marche! Escoltados por uns vinte guardas. o carro celular. ainda t~os um ar normal. somos colocados em uma espécie de armário estreito. . Toca a andar para Beaulieu. Olho para os outros seis: que horror! Acabou-se a personalidade de cada um: em dois minutos. chegamos ao pátio.

Têm duas saídas ao seu dispor: uma que os levará ao desterro. furioso com a resposta. Condenados: vão ficar aqui. se se comportarem como devem...Levem esse homem daqui! Enquanto o diabo esfrega um olho. O diretor. Silêncio obrigatório em todas as horas do dia.Qual era a sua profissão? .Toureiro. Ouvimo-lo gritar: . Ninguém resistiu ainda a duas penas destas consecutivas. provisoriamente. berra: . sem demora. seus cafajestes! . meia palavra basta! Dirigindo-se a Pierrot le Fou. para longe da nossa vista. somos logo conduzidos ao escritório do diretor. nem de cartas de quem quer que seja. nada de visitas. Ele está postado por detrás de uma secretária império. e levado. senhor diretor.A central de Caen Mal chegamos. extraditado da Espanha: .. passase o seguinte: a mais pequena falta será punida com sessenta dias de cárcere. Em caso de má conduta. são preciso cinco contra um e ainda por cima com matracas. até partirem para o desterro. ou se quebra. isso é uma casa de correção. matraqueado por quatro ou cinco guardas. o toureiro se vê espancado. colocada sobre um estrado de um metro de altura. Para bom entendedor. Aqui. outra ao cemitério.Seus grandes covard. ou se ajeita. a pão e água. Sentido! O diretor vai falar.

Os guardas ficam. Quis a sorte que Dega ficasse na cela contígua à minha. ao mesmo tempo. “Depois de dez minutos. na pequena cidade do Norte. É o terror dos condenados. Um belo dia. quem não percebeu. Conheci. usou um cartucho de dinamite bastante grande. desaba. mais tarde. pega. Com um dedo. um único dedo. que desceu para o porão. seguro na sua mão esquerda. Compreendi o que ele queria dizer: “Porte-se com juízo se quiser chegar com vida ao degredo. com a vantagem de poderem espancar e flagelar os homens sem se cansarem e. durante uma curta estada na enfermaria. Depois desta cena. também nunca mais vai perceber. de um metro e noventa ou mais. e depois o silêncio. que já dorme. Deita-se ao lado da mulher. Apenas o roçar pelo cimento de qualquer coisa arrastada pelo chão. Tremenda explosão. um edifício de seis andares. a mulher. fomos apresentados a uma espécie de monstro arruivado. a administração ficará livre de responsabilidades. sob as ordens dos guardas. que ficou literalmente reduzida a migalhas. mas. Felicitemos o diretor da Central por ter sabido escolher tão bem o seu carrasco. e acende um cigarro. com um açoite novinho em folha na mão direita. já todos (exceto Pierrot le Fou. uma masmorra infame) nos achamos instalados em uma cela. toca as minhas calças. antes. assim. onde vivia. entre a sua cabeça e a da mulher. com o qual. e três crianças morrem esmagadas pelos . Dega se encontra perto de mim. fogo à mecha do cartucho de dinamite. O sujeito em questão era mineiro de ofício. É o preboste. no caso de algum morrer. Resultado: tiveram que apanhar com pás os restos da pobre mulher. Parte do prédio. da ala disciplinar da Central. um prisioneiro que desempenha as funções de carrasco. a história dessa besta humana. decidiu se suicidar suprimindo. Para isso. zarolho.Um “ah!” de animal ferido de morte.

Durante o dia. Um. Não temos direito de nos deitar durante o dia. podendo. dos desgraçados que lhe venham parar às mãos. . não caminhar nem muito depressa nem muito devagar. em um dos extremos da cela. são mais bem iluminadas que as da Concergerie.. E é esse semilouco que dispõe. colocar as mãos atrás das costas. Tribouillard. Após ter sido condenado. fazer a cama. quatro. automaticamente. não temos direito de nos deitar. meia volta. cinco. quatro. Temos de nos levantar. Quanto a ele. dar todos os passos do mesmo tamanho e virar... o prisioneiro não tem possibilidades de se estender.. da qual só lhe restam o dedo mínimo e metade do polegar. três. há que aprender a baixar a cabeça. meia volta volver. como bem lhe apetece. nos lavarmos e caminharmos de um lado para o outro ou nos sentarmos em um banco preso à parede. assim principia o interminável vaivém da parede até a porta da cela.. além de ficar ainda com uma ferida na cabeça suficientemente grave para necessitar de uma trepanação. À noite. quatro. Para se conseguir adquirir o automatismo deste movimento contínuo.. cinco. Para cúmulo do requinte do sistema penitenciário. As celas. e dá pra distinguir os ruídos exteriores. dois. três. e o olho e a orelha esquerdos. quatro. Por conseguinte.. Ás cinco da manhã. aqui. um. catorze horas a andar. dois. sobre o pé esquerdo e no extremo oposto sobre o direito.. a cama é erguida e encostada à parede e assim deveria ficar.. dois. cinco. Os restantes locatários sofrem ferimentos de maior ou menor gravidade.escombros.. uma estridente apitada acorda todo mundo.. Um. ouvem-se os . é eleito preboste dos presos disciplinares da Central. perdeu parte da mão esquerda. ser mais bem vigiado. desse modo. cinco. Um. três. bem como uma velha de setenta anos. dois. três.

de fato? Eu.. as árvores ficam despidas do seu manto de neve e. Se me surpreendessem olhando pela fresta da janela. distingo-as perfeitamente. porque terá saído da colméia? Que inconsciente atrevimento. a menos que tenham frio e queiram entrar na prisão. Nada. Felizmente que o preboste não possui asas. foi deixado nesta cela. a isso se resume o meu universo. se não pouco tempo viveriam. Que direito eu tenho que gozar o espetáculo da natureza? Uma borboleta esvoaça. Como é que não morreu? E essa abelha. uma abelha zumbe. Que procuram esses insetos em um lugar desse? Parecem ter enlouquecido. perto. por isso. é um ser ressuscitado. andar para cá e para lá dentro desta cela. absolutamente nada. que tapam a janela. três. para eles. Uma borboleta. uma borboleta azul-claro com uma risquinha preta. Sacudidas pelo vento.assobios ou as canções dos camponeses que regressam a casa.. .Um dois. Parecia um daqueles postais típicos do Natal. Pois é como eu digo: duas barras e não dois tabletes. junto à janela. consegui ver os campos cobertos de neve e umas quantas árvores altas iluminadas por uma grande Lua. A repressão da justiça transformou-se em uma espécie de pêndulo... houve. seria severamente castigado. no inverno. aproximarem-se destes lugares. Tive a minha prenda de Natal: por uma frincha das tábuas. todos contentes com a cidra que beberam. Recortam-se em grandes manchas escuras sobre o resto. que aqui estão temporariamente. O que importa é que o condenado não possa se distrair. não passo de um morto-vivo. Para os presos. cinco. é Natal mesmo em uma parte da prisão. da parte da direção. com esse sol invernal. Está tudo matematicamente calculado. O meu réveillon de 1931 resumia-se e esses dois pedaços de chocolate. . quatro. uma prova de boa vontade: fomos autorizados a comprar duas barras de chocolate. É Natal para todo mundo. E não terão eles razão.

ao mesmo tempo. sempre é uma voz. e eu necessito de ouvir qualquer coisa... atiro a água a ferver à cara do preboste. para purificar o ar. Infelizmente. pois se o consegui! O preboste surpreenme deu no preciso momento em que eu murmurava umas palavras ao ouvido de Julot. virado para a parede. era o antepenúltimo de uma fila de oito. vejo o médico debruçado na cadeira. já não posso mais. Eu que queria ver gente. conhecido pelo homem do martelo. Julot não consegue conter-se. mas enfim. decerto. porque chegara mesmo a cair. o que se está acontecendo no corredor e. de ouvir uma voz. pelas asas. como eu não previra o golpe. entram em uma luta desenfreada e. a tampa de uma marmita levantando-se com o vapor. Olho à minha roda. do consultório. Completamente nu no meio do glacial corredor. que não dera por mim. mas não a largo e. de uma assentada. com um reflexo rápido. com um pontapé estende-me novamente por terra e desata a açoitar-me com o azorrague. tão . não me enganei. os guardas vão assistindo impassíveis à batalha. por muito desagradável que seja. fui bater com o nariz na parede. como Julot não tem importância. tento perceber o que acabava de me suceder. No dia seguinte ao da visita dos dois encantadores insectos. que só estava à espera disso. queimo os dedos. Salta-lhe em cima. essa grande panela de esmalte encontra-se sobre um fogão a carvão. Então. preciso de ver uma cara. voltando a pôr-me de pé. e volto a pôr-me de pé. Nisto. A reação daquele grisalho selvagem foi terrível. o colosso. O vapor deve servir. Ninguém se preocupa comigo. O sangue jorra e eu. quase me deitou por terra e. à espera da minha vez de passar perante o médico. sufoco de solidão. com o nariz a dois palmos desta. tentando observar. Cono esboço um gesto de protesto. Com um murro na base do crânio. agarro na panela. procurando alguma coisa que me possa servir de arma. destinado a aquecer o consultório do médico.Este Tribouillard é um sádico terrível e pressinto que ainda nos iremos pegar por qualquer motivo. dou parte de doente.

Da garganta do canalha solta-se um grito lancinante. Quando finalmente se pôs de pé. COM a mão. o que me impede de sentir as pancadas. Ouço pancadas na parede. Tratam de tocar o alarme para pedir reforços. Quando chega à terceira. horrível de ver. a pele do peito. ensangüentado. desata a vomitar e a babar-se.ocupado estava com Julot. Com os punhos é impossível. Ficou bem marcado. Como a gola da camisola é estreita. Percorro. Bater. e esbarro com umas grades de que não me tinha apercebido. pan. pelo que está agora completamente cego. Quanto a nós. as pancadas não se repercutiriam o suficiente. como tem três camisolas vestidas. uns doze talhos. os quais não tardam chegando de todos os lados. Que horas serão? Não sei. Felizmente não demoro para desfalecer. pancadas longínquas. completamente nu. não são tão malucos a ponto de se lembrarem de nos atacar. Aos apalpões. Já tem a sua conta. que assistiram à cena. fazendo cair as matracas em cima de nós em uma saraivada contínua. pan. os sentidos. não vejo nada que me possa servir para tal. Os dois guardas. Rola-se pelo chão e. vem a pele atrás. com o corpo em carne viva. Pan. pan. Na cabeça tenho.não se vê a mais pequena luz. Julot aproveita e dá-lhe um terrível pontapé nos testículos. Aqui não há noite nem dia . lá vou vendo que a masmorra é fechada por uma porta distante . Aproximo-me do lado onde suponho que se encontra a Porta. o corpo dorido. nada vamos perder com a espera. pan. pan. Venho dar comigo dois andares mais abaixo. pelo menos. O gigante vai abaixo. só a muito custo consegue desembaraçar-se delas. Recobro. tenho que bater também duas pancadas na parede. pois a escuridão já não é tão densa. O seu único olho ficou também queimado. ao tentar tirá-la. parte da pele do pescoço e toda a pele da cara vêm coladas à camisola. Se quero receber a comunicação. mas com quê? No escuro. Estas pancadas são o toque do “telefone”. a pouco e pouco. metido em uma masmorra inundada de água.

” As pancadas recomeçam: pan. de degrau em degrau. a seguir. Quase ia quebrando a cara. porque este. não lhe poderá chegar. essa precisamente com que eu esbarrei. pan. Estamos perfeitamente possessos por trocar frases. Pus o pé em cima de uma coisa qualquer dura e redonda. Pode molhá-lo. Quem será que me chama? Esse sujeito merece que eu lhe responda.. Ele me viu descer agarrado por um pé. um i. por causa da lã. as letras do alfabeto desfilam a toda a velocidade. Pan. pan. .vai ter problema nisso por uns tempos. pois. e diz para mim que a minha cabeça ia batendo no chão.. pois arrisca-se bastante. preparo-me para responder. um p. no escuro. em contrapartida. Acha que Tribouillard ficou gravemente queimado e que. que a minha cabeça está aos altos e baixos. sem recearmos ser surpreendidos. mas que não há feridas. pan. Assim fica sabendo que registrei a letra p. vem um a. quando alguém entra na cela de um prisioneiro perigoso não corre perigo. eu tenho um braço quebrado. lançar-lhe a comida e insultá-lo à vontade. a b c d e 1 g h i j k 1 m n o p. De ouvido colado à parede. mas.. Estas duas pancadas querem dizer para aquele que chama: “Continua. e. A frase é a seguinte: “Papi. Detém-se na letra p. “ É Julot. pan. também não é fácil bater-lhe sem se arriscar. para fazêlo. pan. se for apanhado em flagrante. pan. dentro da sua jaula. me impede de chegar.de mim mais de um metro. pan. à qual uma grade. Digo-lhe que não tenho nada quebrado. as feridas são realmente profundas . Apodero-me imediatamente dela e.. Não chegou a perder a consciência. pan. As pancadas repetem-se de tempos a tempos. estou a ouvir. “Telefonamos” um ao outro. etc. durante mais de duas horas. é uma colher de madeira. stop. stop. pan. terá de abrir a grade. fico à espera. como vai? Você deve estar mal. Assim. Bato com força: pan. Toco nessa coisa. Respondo: pan.

Não saia daí. não passava de ajudante do preboste. e que não é um sorriso maldoso. daí a pouco. (Nota d o Trad utor. abre-se a porta. Aqui tem pão e água. que sorte!. é esse o meu verdadeiro sobrenome.e com isso ele quer me dar a entender que não é um inimigo. Irei sempre me recordar desse Batton. a promoção.) Trib o d a Am érica d o Norte. Deve estar um guarda no corredor . Passamos o dia a “telefonar” um ao outro. por 6 7 Batton é hom ófono d e b âton. Como é preciso uma paciência de “sioux”7 para localizar de onde provém o toque do “telefone” e como só o preboste se encarrega disso. porque os guardas não mexem uma palha. Chego sabendo. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka.Chamo-me Batton6. Antes do incidente. e eu vejo que está sorrindo.Quem assim fala é o novo preboste. por conseguinte. graças a mim. q ue sig nifica p au.Já lá para o fundo. Realmente. De fato.4shared . é uma farra entre mim e Julot. porque só voltará a ver mais daqui a vinte e quatro horas. e testemunha. Não coma tudo de uma vez. canalha! Bem lá no fundo e em sentido! . um maço de cigarros e um isqueiro com um pouco de pedra. Com isso quer ele dizer que me recompensa por ter eliminado Tribouillard. Veja logo que eu tenho um nome condizente com o cargo.com) . Ouço gritar: . Fico à espera. isso é para você se vestir. . Com uma grande lanterna de marinheiro ilumina a masmorra e o meu corpo nu. deste modo. Deve-me. é ele o chefe titular. dentro da bola de pão encontro um grande pedaço de carne assada e no bolso das calças.Tome. Tais presentes valem um milhão aqui. Agora. mas depois levanta a lanterna à altura do rosto. tranqüilos que estamos pelo lado de Batton.Três pancadas dadas muito depressa e repetidas anunciam-me que há complicação. Berra como um selvagem. o seu reconhecimento. Põe um dedo em frente dos lábios e aponta as coisas que trouxe para mim. . Duas camisas em vez de uma e umas ceroulas de lã que vão até os tornozelos.

que está iminente a nossa partida para o degredo: mais uns três ou quatro meses. Julot responde: . cada um escoltado por dois guardas. parece dizer o seu olhar. O diretor desempenha as funções de presidente. deve estar com febre. da vida de seres humanos”. que logo o tratará. pelo médico da Central. conduzidos ao gabinete do diretor. . . Ele. Somos tirados da masmorra daí a dois dias e. Terá de esperar. diz para mim: . por detrás de um móvel. Com o braço quebrado.ele.E você. Viro a cabeça para o diretor e fixo-o. portanto. É para aprender a não atacar ninguém. quando ele aparecer por aqui. três pessoas. isso não impede que não condene ambos a continuarem na masmorra até novas ordens. ah! Meus rapazes. pois talvez a dor lhe sirva de proveito. Será levado ao médico. olhos nos olhos: “Este indivíduo todo metido dispõe. Muito de mansinho. o subdiretor e o carcereiro-mor de assessores.Ali.Eu tenho um braço quebrado. de olhos inchados. não pode deixar de sofrer horrivelmente. pensando que eu pretendo falar. se encontram sentadas.Pois quem quis isso foi você. com muita facilidade. então aqui estão! Que têm vocês a dizer? Julot está extremamente pálido. há três dias. É uma espécie de tribunal. não lhe agrada essa decisão? Tem alguma coisa a acrescentar? Respondo-lhe: . Julot olha para mim de frente. Julgo que virá na próxima semana e será uma espera salutar para você. Certamente que não está à espera de que eu mande vir um médico de propósito para um indivíduo da sua espécie. De frente para a entrada.

oh.. onde . ele me atirava para a masmorra a bola de pão regulamentar.Levem-no e tratem-no como deve ser! Espero vê-lo. Batton.Absolutamente nada. Quando. lançava-me também. Estou estendido no chão. senhor diretor. tiraram as minhas algemas. esse sim. se entende! Põe-se a gritar para os guardas: . outros dois o esquerdo. O carcereiro-mor assustou-se. Gostava apenas de lhe cuspir na cara. privado do uso das mãos. sem conseguir entender bem o que está acontecendo. tanto que eu desmaiei de dor. coberto de carne inchada. me levaram para a enfermaria. pedaços de pão que eu podia tragar com uma dentada. providas de uma corrente que liga o meu indicador esquerdo ao polegar direito. para não perder nada. Ele fica de tal modo estupefato com as minhas palavras que chega a corar. todavia. no décimo primeiro dia. Não preciso contar o que eles fizeram comigo. Já vamos domesticá-lo! Ainda vai limpar meus sapatos com a língua. Põem-me umas algemas. Todos os dias. Basta saber que conservei as algemas atrás das costas durante onze dias. que eu. não podia comer. e o carcereiro-mor me levanta pelos cabelos como um animal. com as mãos levantadas à altura das omoplatas. em quantidade suficiente para me manter vivo. não conseguia ferrar-lhe os dentes. depois me deitava de barriga para baixo. por cima e por baixo. mas não o faço porque tenho receio de sujar a minha saliva. Depois de me terem feito recobrar os sentidos. Mas o carcereiro-mor. ele fica entregue aos cuidados de vocês. Devo a vida a Batton. e comia-os como se fosse um cão. em alguns lugares. o metal já tinha penetrado na carne e o ferro se encontrava. Não poupem esforços. pedir perdão se arrastando pelo chão. Dois guardas torcem o meu braço direito. Mesmo apertando-a com a cabeça de encontro às grades. Mastigava muito bem cada pedacinho. daqui a uma hora. Eu os amontoava com o pé.

já chegaram. trato de chamar Julot. soprando depois o fumo pelo buraco do aquecedor. depois de onze dias de jejum. a partida será em breve. serve para isto.. sim. temendo que qualquer patife decifre o “telefonema”. mas as voltas que dei para guardar essa fortuna eu não posso descrever. chefe. Regresso à masmorra e o carcereiro-mor. Bem pode esperar por isso. Pobre idiota! Ele me diz isso porque está convencido de que eu não toquei na comida durante estes onze dias. Segundo ele. esse Julot é imprudente. .. que esteja bem entendido. Que se passará? Dão-nos um banho sensacional. que não funciona.limparam os meus pulsos com água oxigenada. Ele julga que eu não como há onze dias e me aconselha a fazê-lo devagar. já estou vendo. um mês antes do embarque. ao ver as onze bolas de pão. o que costuma acontecer. Ao anoitecer. Consegui salvá-lo. Tenho feridas horríveis no ânus.Bebi muita água. Mais tarde. Saímos das masmorras daí a três semanas. . Batton passame mortalhas e tabaco. Tenho receio de lhe contar a verdade. com sabão e água quente. Ponho-me a fumar. geralmente. O enfermeiro exigiu que me dessem uma injeção antitetânica. sente-se com excelente moral e felicita-me por eu ter aguentado.isso agora é que vai ser um festim! É curioso que não você tenha emagrecido. E agora trate de comer para se recompor. pois pergunta-me se consegui salvar o “governo”. Ao menos.Ah! Então é isso. me diz: . O enfermeiro lhe disse que as ampolas das vacinas. Tem o braço no gesso. destinadas aos forçados. e que se eu comer muito de uma vez. . acabarei morrendo de indigestão.

Como acabamos de sair das masmorras. Não quero mais chatices. masmorras. realmente. pois. Julot ri como uma criança e Pierrot le Fou.” Quem me mandou isso? Nunca virei a sabê-lo. por completo. Eu.Creio que fomos anistiados das masmorras. deparo-me com um pedaço de madeira. Agora. Amanhã vacina. fiquei por ali.O que aconteceu? Um desconhecido com uma fronha medonha me diz: . e que não ignora que. Nele está escrito: “Partida oito dias. Cada um de nós é conduzido a uma cela normal. uma vez expedida a mensagem. Talvez estejam com medo que venha por aí algum inspetor. E. Aviso logo Julot pelo “telefone”: “Espalha. não me apetece nada voltar para as . ignoramos. O que importa é que estamos vivos. murmurada entredentes: . O barbeiro não quis responder à minha breve pergunta. menos que nunca. que tomo ao fim de quarenta e três dias. Sinto-me ótimo na minha cama. qualquer recluso que teve a amabilidade de nos advertir. na primeira sopa quente. o que está acontecendo.” Ouvi “telefonemas” durante toda a noite. todos o saberão. Decerto. A mensagem deve. todo ele irradia alegria de viver. ter chegado às minhas mãos por mero acaso.Sinto-me voltar à vida. Ao meio-dia. se um de nós vier a sabê-lo.

vindos de Caen. Sou preboste. Conte comigo que eu conto com você. Quer dizer que fazemos parte da lista e que não tardaremos chegando ao degredo. Coragem. Dega encontra-se perto de mim. Vou tentar ser agraciado. . Três vacinas a cada um e dois litros de leite. chegados da cidade. e se eles vão transportar só sessenta por dia.Acho que não. sem fazer muito mal. Os enfermeiros. Parece pensativo.SEGUNDO CADERNO A CAMINHO DO DEGREDO Saint-Martin-de-Ré À noite. Dega. Dega diz para mim: . . pousa a mão no meu braço e acrescenta: . vacinam-nos contra as doenças tropicais. depois de termos sido vacinados. Batton me passa três gauloises e um papel.O que interessa é termos sido vacinados.Acha que terão camburões suficientes para levarem todos nós de uma vez só? . reúnem-nos em grupos de trinta no corredor da ala disciplinar. Aceitei esse lugar porque tenho nove filhos e pressa de ir embora daqui. Conversamos em voz baixa debaixo do nariz dos guardas. mas procuro fazer o menos mal possível aos presos. Ele me fita com os olhos a brilharem de contentamento. pois todos sabem que não vão nos meter na prisão. Adeus. Boa sorte. onde leio: “Papillon. A partida está marcada para depois de amanhã.Saint-Martin-de-Ré ainda fica longe. Ninguém respeita as regras de silêncio. isso ainda vai durar uns dez dias. vai começar outra etapa. sei que você vai embora com uma boa recordação de mim. pois só aqui somos perto de seiscentos.” De fato. no dia seguinte. que não se atrevem a nos repreender diante dos enfermeiros.

. recapturados na França. e nos colocaram de lado. aliás. não houve incidentes dignos de menção especial. Os guardas se recusaram a deixar entrar um pouco de ar. Mal chegamos. Julot. grupos de dez em cada cela. Não foi longa a travessia. porque. mesmo entreabrindo apenas as portas. Pois eu regresso ao mesmo lugar de onde há cinco anos eu fugi. Já cheira de longe. Papi. em Saint-Martin. se manifestarem em relação a nós. Durante a viagem. Bem se enganava ele. Eram. a ele e a mais dois. vão colocar. Sem. na cidadela. que estava a nosso lado. já que Saint-Martin-de-Ré é uma ilha e. Na chegada a La Rochelle. presenciaram a descoberta dos cadáveres desses dois pobres diabos. que regressavam ao ponto de partida. quando me preparava para enganar o receptador que me denunciou há dez anos. juntamente conosco. logo o chamaram. E Julot. . fomos forçados a apanhar um barco para atravessar o braço de mar. Ele sorriu.Para a vida e para a morte. aglomerados no cais. assim.Sim. vivos ou mortos. E como os guardas eram obrigados a nos entregar. acrescentou: . os cadáveres foram também carregados. pela segunda vez. ao acaso. mas sempre conseguimos respirar à vontade a aragem marítima.Já cheira de longe. Eu me deixei apanhar como um caipira. todos três. dois dos nossos companheiros de viagem haviam sucumbido asfixiados. a não ser o fato de termos nos sufocado. Eu disse a Dega: . fugitivos do degredo. Temos de procurar ficar uns ao pé dos outros. cada qual metido na sua minúscula gaiola do caminhão. a bordo. Os patetas.

que neste cortejo de mil e tantos indivíduos. Marchamos em grupos de cento e cinquenta presos. Parece uma enorme salsicha. Depois. .. Realmente. despido e minuciosamente revistado. bretões. de um momento para o outro. . os indivíduos que pertencem ao milieu. . os tamancos batem no chão. revistados esmiuçadamente.Vistam-se! Voltamos para onde viemos. que sou eu.Você é o Papillon? . só há dois tipos da Ardèche: eu e um aflorestal que matou a mulher. sim. até a planta dos pés. Até há um da Ardèche. gente de Toulouse.. marselheses. Primeiro. À tarde. Cada qual se senta na terra. Primeiro todos os recantos do corpo.Metidos em celas. dois!. Sem que se saiba o motivo. Temos o direito de falar. somos esquadrinhados. de fumar e somos magnificamente alimentados. Um. A cela.diz para mim se afastando. é baixo e franzino. etc. formam-se grupos por categorias sociais. em grupos de dez. Silêncio absoluto obrigatório. ouve-se a voz de dispersar. Os outros grupos são formados ao acaso. e depois as roupas. o pátio onde passamos longas horas marchando em fila. pois há mais anjinhos que tolos. quando vejo aproximar-se um tipo. Conclusão: o povo de lá é gente boa. mas com o uniforme fica difícil. Tento identificá-lo. Devo confessá-lo. Estes dias de espera passam com nós olhando o que se passava. Usa óculos. um por um. o refeitório. em favor da Ardèche.Vai falar comigo lá na latrina .Sou eu. estava eu sentado apanhando sol.pergunta com acentuado sotaque. . O que você quer? . esse período só é perigoso por causa do “governo”. dois! Um. e cuja origem pouca tem importância: corsos. pode-se ser chamado. parisienses. inicia-se uma nova existência feita de espera.

friamente. sem azar. na mesma posição.Quanto está aí dentro? . revelarei o meu segredo.Vinte e cinco mil francos. 8 9 Diz-se. em g íria. d o p reso com long o cad astro.. Sem mais palavras. Não sei se pode. instalados no meio do pátio e. no ânus..Sim. e introduzo-o.. Então.Não posso continuar com o “governo”. subo as calças. O que será que ele quer com você? . um bandido das montanhas9. O indivíduo encontra-se a meu lado. perguntando a mim próprio se um sujeito poderia aguentar dois. na frente dele.Sou cunhado de Pascal Matra. Se lhe digo que não sei se poderei aguentar dois. Não sei em quem posso ter confiança e tenho medo que me roubem ou que os guardas o encontrem. Peço-te por tudo. porque estou com disenteria. aliás. não me incomoda. pergunto-lhe: . viesse falar com você.) . Ponho-me de pé. Ele disse-me que.É um corso8 . que guarde ele pra mim durante alguns dias. .Já vou saber. E mostra-me um “governo” muito mais grosso que o meu. se precisasse de ajuda. finjo que estou mijando.Decerto. Papillon. (No ta d o Trad utor.explica-me Dega. muito limpo. Diz para mim. uma vez aí. Pascal é meu amigo. Dirijo-me aos urinóis. agarro no “governo”. Tenho medo de que ele esteja me estendendo uma armadilha e me peça isso só para saber se eu também tenho algum. . O que é? . sem sequer me olhar: .

Agora . olhos claros e francos. na Butte. . acompanhado da mãe nas ilhas da Salvação. Quis o acaso que encontrássemos um tipo curioso. e nascera na ilha Real. Eu e Dega percebemos logo que se tratara de um acidente. Procuramos entrar em contato com os que fugiram do degredo. sermos catalogados como perigosos. . por causa dos lindos olhos de Casque d'Or. um valentão famoso. se possível com Julot ou com Guittou. são logo . era um forçado. como nos tratam. uma das três: sendo as outras a de São José e a do Diabo. porque os assim referenciados mal desembarquem em São Lourenço do Maroni.Não. onde o pai era guarda. por exemplo. Papillon. deveremos evitar. caçado.O meu nome é Ignacíc. Tinha dezenove anos. um rosto aberto. um caso à parte: um corso. que a sua ama. a todo o custo.Obrigado. porque nos pode fornecer uma série de pormenores sobre aquilo que nos espera.Não pesa muito? . onde viveu catorze anos. Estamos sequiosos por obter informações: como se passam as coisas por lá. não como filho de um guarda. porto de chegada. Tinha vivido. não se fala mais nisso. . Apanhara doze anos de degredo. etc.. lá nas ilhas. Dá-nos preciosos conselhos: se quisermos tentar a fuga teremos de fazê-lo do continente. Galgani – ele me diz antes de se ir embora. Conta-nos como é a vida nas ilhas. como proceder para ficar a dois com um companheiro. é útil para nós. porque das ilhas é impossível. Embora ele pouco conheça do milieu.o que é o destino! . devido a roubo por arrombamento.Então.voltava para lá. mas como forçado. Volto para junto de Dega e chamo-o à parte para lhe contar o sucedido. em um duelo à faca. Diz para nós. que nasceu no degredo.

só menos de cinco por cento dos presos são enviados para as ilhas. pois os que estiverem doentes ou forem dos fracos para suportar a viagem serão envenenados. contou como as coisas se passaram. a razão de um ou dois trabalhinhos por ano. Devido a isso. Eu e Dega esperamos não ficar internados nas ilhas. Em geral. lançava mão da sua chantagenzinha perante o Deuxième Bureau. que se apressava a intervir. a partir de 1920. correu o seguinte boato: não ir para a enfermaria de jeito algum. contou que não passa de um boato.internados. a coisa não adiantou. tinha. assaltado a Embaixada da Aleebra ou Lausane. grande especialista em abrir cofres. lá foi vivendo em paz e sossego. De cada vez que ia preso. mais a história de Tribouillard e do diretor. Um comprimido de cianeto . é um lugar infecto. . Francis la Passe.isso segundo o que conta o irmão de Franci la Passe . que vai minando o forçado com toda a espécie de doenças. Os cofres-fortes e o Deuxième Bureau já podiam. durante a guerra. realmente. que entregou à Polícia francesa. um envenenado. durante anos ou a vida inteira. mas o irmão dele. os outros ficam no continente. Conseguira apoderar-se de documentos importantíssimos. Pegou vinte anos e viu-se obrigado a partir juntamente conosco. desta vez. daqui em diante. estou ferrado! Um dia. Houve. mas não deixo de sentir um nó na garganta: e se me tivessem classificado de tipo perigoso? Com a perpétua que apanhei. fingiu-se de doente e deu entrada na enfermaria. Isso deve ser balela. os dedosduros tiraram-no da prisão. onde ele cumpriria uma pena de cinco anos. por conta retos franceses. como Dega já referira. dormir tranquilos. conforme a maior ou menor gravidade das informações.acabou com tudo. E então. que. Mas. O garoto que se suicidou. um parisiense. que têm um clima saudável. empregado na enfermaria. De fato. Para não embarcar. segundo se dizia.

seis anos mais tarde. Soubemos da história por um amigo dele. escutando-as. Ontem. Chama-se André Baffiard. juntamente com as lentilhas. por ter engolido bicromato de potássio. A fortaleza está cheia a até não poder mais e as sentinelas montam guarda dia e noite. O autor do golpe chegou a morrer. André assassinara uma abastada proprietária. Com isso faz doze dias que aqui estamos. Nunca se soube quem foi. mostrou-nos um pedaço de tripa com cerca de doze centímetros: estava crivada de buracos. umas verdadeiras. percebe-se o porquê. nada menos de dezessete. Sucumbiu no meio de dores atrozes. No entanto. Bateram-se como cães e um deles veio parar na nossa cela.Este pátio é um ninho de histórias. Estalou uma desordem nos balneários. porque a culpa é da direção: os guardas têm ordem para nunca deixarem os dois irmãos encontrarem-se. O enfermeiro. Dois meses mais tarde. Émile foi condenado a prisão por roubo e pega três anos. estou perante um mistério: o “governo” que introduzo em último lugar é também. Não morreu. em Saint-Martin-de-Ré. e seu irmão. outras falsas. tentaram assassinar Clousiot. Como é que eles davam a volta dentro da barriga é que eu nunca consegui saber. enquanto o barbeavam. cobrindo-me dos olhares curiosos. Um “governo” já dá trabalho. sempre está acontecendo o tempo. sempre o último a sair. no barbeiro. Não podem castigá-lo. Uma história que contarei. Põe-se à minha frente enquanto eu executo a operação. Dega é obrigado a acompanhar-me. Um dia. escondera a “pasta”. Émile. Seja como for. para meu mal. em Caiena. quanto mais dois. mas o fato é que assim era. Galgani está cada vez mais doente. e. Depois de conhecer a sua história. Duas facadas junto ao coração. que ajudou o médico na autopsia. entre dois irmãos. o seu assassino era encontrado estrangulado no leito. por causa dos “governos”. surpreendentemente. onde se encontrava doente. na . tanto à do pátio como à da cela. Quando vou à latrina. diz para mim.

Só no dia seguinte. É a execução. às quatro e meia da manhã. se o presidente morresse. quem matou a velha e ele. ele solicitaria o adiamento da execução por vacância da chefia do executivo. o procurador que requereu a pena capital. dá à dica e conta que André ainda irá pagá-las: porque foi André. abre-se a porta da cela de André. pelo advogado. André é preso e os dois irmãos condenados à morte. acompanhado pelo portador da ordem de prorrogação. Doumer. ao cabo de longas horas de angústia e 'de incerteza. nunca uma execução ficou a meio. Não tarda que um dos presos vá contar ao diretor da prisão o que acaba de ouvir. Não é possível. que. ao sair da prisão. A coisa resolve-se depressa. porém. na véspera da sua execução. O pedido de Êmile é aceite. furioso com o irmão. Sai todo mundo para o corredor. Foi só o tempo de prevenir o Ministério e de saltar para um táxi. Ficam em celas contíguas. quem escondeu o dinheiro. E no entanto. e ambos pedem. Émile é mantido no grupo dos condenados à morte. a comutação da pena. aparece o advogado de André. não morrera imediatamente. Émile. mas o de André é recusado. o presidente Doumer fora assassinado por Gorguloff. André tem a garganta de tal modo apertada que não consegue engolir a saliva. no momento em que o diretor se adianta para falar. e assim. por uma questão de humanidade para com este. no meio de outros presos. de algemas nos pés. Toda a noite o advogado estivera de guarda diante da clínica. Mas. explica. O advogado chegou à . a correr. Não falta ninguém: o diretor. por esse não lhe ter mandado dinheiro para cigarros. é possível. sim. o escrivão. ao fim de quarenta e três dias. Por isso. os dois irmãos passeiam. é que ele virá sabendo. Ao quadragésimo sexto dia. não quer lhe dar um centavo. todos os dias. No entanto.prisão. na ala da Santé reservada aos condenados à morte. depois de ter informado o ministro da justiça que. pelo pátio da prisão. antes da hora da execução (das quatro e meia às cinco). acompanhado de outro tipo que entrega um papel ao procurador. cada um por seu lado. Doumer morreu às quatro horas e dois minutos. um à frente e o outro atrás.

que escapou por um triz à guilhotina. Émile foi imediatamente devorado por eles. “Lebrun assinou”. deram-no como desaparecido no decorrer de uma tentativa de fuga. e naquele momento. Ausente à chamada da noite. em São Lourenço do Maroni. não prestava atenção em mais nada. Um dia. e penso comigo que. mas ainda a tempo de evitar o pior. na ilha de São José. de pé. empurrouo. gozava de um regime de exceção. Como nenhum presidente recusou alguma vez a primeira graça. a caminho da Guiana. Só quatro ou cinco presos. Émile pescava à linha. apesar de tudo quanto já sofri. Desinternaram-no pela sua “boa conduta” e. Mais tarde. concluiu André. no dia da eleição do novo presidente. fazendo-o perder o equilíbrio. Não se falou mais nele. exceto os guardas. dispondo até de uma pequena cela só para ele. vivinho da silva. que lhe é solicitada. com um cano de três metros de comprimento. não me dava com ele. e mal Albert Lebrun fora eleito. depois de uma história qualquer com outro forçado. Saber que matou uma pobre velha para roubar me enche de náuseas. em cima de urna rocha. acabará por assassinar o irmão. aliás. A pena dos dois irmãos foi comutada em trabalhos forçados perpétuos. É claro que todo mundo ficou sabendo. Efetivamente. convidou-o viciosamente a entrar na sua cela e matou-o com uma facada no coração.Santé três minutos depois de a porta da cela de André ter sido aberta. o advogado apresentou-se em Versalhes. amortecia qualquer outro ruído. Como naquele local o mar se achava infestado de tubarões. um sujeito cheio de sorte. André aproximou-se do irmão pelas costas e. No entanto. que apanhavam cocos em um ponto elevado da ilha. “e aqui eu estou. que eram enormes. nada deve se comparar com o calvário por que ele já passou. é que assistiram à cena. André Baillard nunca foi incomodado. . O barulho das ondas. Vários forçados o testemunharam.” Olho para esse fulano. É. já o advogado lhe apresentava um pedido de agraciamento.

é uma vergonha que um povo civilizado tenha uma pena acessória de degredo. enchendo. Abre-se uma porta e vemos. No entanto. sempre. o retângulo. pelo menos. diferente do dos Policiais e também do dos . foi agraciado. é conhecido por La Martinière. Sabemos como se chama o barco que nos conduzirá ao degredo. É verdade que todos eles são uns ladrões incorrigíveis e se percebe que a sociedade procura se defender. aparecerem uns homens vestidos de modo diverso dos guardas que até aqui conhecemos. então. absolveram-no. que são degredados . pois passam a vida a deixar-se capturar. da sua “boa conduta”. terse sido acusado disso. Já estamos em Saint-Martin-de-Ré há dezessete dias. Um preso. que pertencem a duas categorias bem distintas: uns oitocentos a mil forçados e novecentos degredados. em toda a sua vida de gatunos. nem de eliminar tão sumariamente aqueles que causam aborrecimentos à sociedade. Transportará mil oitocentos e setenta condenados. Os oitocentos ou novecentos forçados são reunidos.e que. com remissão. pouco habilidosos. de pé. A pena mais leve serão sete anos de trabalhos forçados. não chegaram a roubar dez mil francos. fica automaticamente condenado a trabalhos forçados por toda a vida. Há pequenos larápios. É gente que mais necessita de tratamento do que ser castigada de modo tão desumano. cuja condenação à morte tenha sido comutada. pela manhã. Em relação aos degredados. Um povo não tem o direito de se vingar. Há cerca de uma hora que aqui estamos. o caso é diferente. em filas de dez.Reconhecido o crime como legítima defesa. Quando se acabou o degredo.o que no meu tempo vinha a dar no mesmo que ser condenado à perpétua . Saint-Martin-de-Ré está abarrotada de presos. escalonando-se as outras até a prisão perpétua. Para se ser forçado é necessário cometer um crime bastante grave. pois bastam três a sete condenações ligeiras para que um indivíduo seja enviado para o degredo. por completo. ou. no pátio da fortaleza. É aqui que se nota a maior falta de senso da justiça francesa. Têm uma farda de corte militar azul-celeste e um ar aprumado.

Esperamos ouvir um “sentido”. de trinta e cinco a cinquenta anos. por sua vez. O comandante Barrot. por três ou quatro médicos. é essa palavra que passará a designá-los: transportado Fulano ou transportado número tal. etc. cujo centro administrativo é a cidade de Caiena. São cerca de oitenta e alguns usam galões. aqui lhe entrego estes oitocentos condenados.soldados. e que poderão condená-los. Têm todos a pele crestada pelo sol e idade variável. sobre uma mesinha trazida para esse efeito. Senhor comandante Barrot. (http :/ / am and ikaloka. O estado-maior desta gente faz-se acompanhar pelo diretor de Saint-Martin-de-Ré.com) . com ares de importância e superioridade. representantes da administração penitenciária da Guiana Francesa. presente. Assistimos depois à troca das assinaturas entre as duas administrações. E logo se dá início à chamada: “Fulano.4shared . Queira fazer o favor de verificar se se acham todos presentes. juntamente com essa lista. O coronel da Polícia agarra em uma espécie de funil e leva-o aos lábios. vendo-se a coronha da arma. e por dois padres de sotaina10 branca. Usam. no porta-voz: .Ouçam todos com atenção. agarra. nada mais do que isso. A partir de agora. doravante. todos eles. vestidos à moda colonial. Os velhos são mais simpáticos que os novos. só que os seus são de ouro e os do polícia da prata. que tem tantos galões como o coronel. passam a estar sujeitos às leis especiais do degredo. A partir de agora. por um coronel da Polícia. um cinturão munido de um revólver. Sicrano. que andam de peito inchado.” isso demora duas horas e tudo está em ordem. aos regulamentos dos tribunais internos. o que lhes couber em sorte. Mas ele berra: . vocês estão sob responsabilidade das autoridades do Ministério da justiça. os quais tomarão as devidas decisões a seu respeito. a penas que vão da simples ri ? É claro que tais penas disciplinares de prisão e reclusão serão cumpridas nos vários 10 Batina d e sacerd ote católico.Transportados.

que se apresente na enfermaria. espero que isso fique compreendido. Durante a viagem. Desejolhes boa viagem. se se portarem como devem. Os agentes de segurança.Tudo foi previsto.locais pertencentes à administração. isso ou aquilo. E assim terminou a cerimônia. Se ele quiser dinheiro. Peçolhes que esperem pela chegada para ajustarem as suas contas pessoais. pois estarão melhor no degredo que em qualquer prisão da França. e não têm que recear ser maltratados. Vou à procura de Francís la Passe e digo-lhe: . Se entre vocês houver alguém que não se sinta em boas condições físicas para fazer essa viagem. não é um forçado. Amanhã. cantar e fumar. façam-no nestes termos: “Senhor guarda. que aqui veêm.Estou a ver. é um degredado. Aquela frase dele: “Esperem pela chegada para ajustarem as suas contas pessoais”.” A seguir à sopa. o mais depressa possível. meu velho Papillon. cada um receberá um saco de marinheiro com a farda do degredo.Continua. que tinha razão quando te afirmava que o maior perigo a vencer são os outros forçados. Poderão falar. traz muita água no bico.O seu irmão continua a prestar serviço na enfermaria? . confie em mim. .Então. a disciplina será das mais rigorosas. . embarcarão no La Martinière. . e pede que ele lhe dê um bisturi. Sempre que se dirigirem a eles. não precisarão de mais roupa além dessa.Não se preocupe. Viajaremos juntos. . logo me dirá. onde receberá a visita do capitão médico que acompanha essa leva de presos. o que achou disto? . divertir-se. Dega. O que não deve haver de crimes e assassinatos! . que eu pagarei o que for preciso. Não se sintam desesperados por partirem. têm o nome de guardas.Entre em contato com ele.

.Aqui tenho Galganí. Mal eu queira. que. manter-se vivo. devido à partida. uma vez chegado ao degredo. o pai. para só pensar em uma coisa: na fuga. aperta-me a mão. Ao ver como o passado se esfuma e fica relegado para segundo plano em relação ao dia-a-dia. os policiais. Mas nisso estava enganado. se a isso se pode chamar sociedade. acima de tudo. O seu único defeito era o comprimento excessivo da lâmina. Parece-me de melhor saúde. ouvir e fazer que não nos sobra tempo para pensar. junto às latrinas do pátio e pedi que fossem à procura de Galgani. a minha mulher. no meio do pandemônio que há neste pátio enorme abarrotado com oitocentos homens. logo eles voltarão a estar presentes. deve ser difícil encontrá-lo. Sentei-me. como e por que foi ali parar. se fala. o julgamento. pois nem as grossas lentes que usa vê melhor. perderam alguma importância que tinham antes. trazem-no até junto de mim. . depois. mas dir-se-ía que. Mas isso é apenas uma regressão minha. Onde estão eles. pois o mais absorvente e importante era. todos eles. uma pessoa quase se esquece de quem foi. cada um tem um lugar no meu coração. Aproxima-se e. mal o meu cérebro se renova ao abrir a gaveta correspondente a cada um. Há sempre tanta coisa para dizer. às meus amigos? Estão vivos. acho. a estas novas amizades e aos vários conhecimentos. Julot. mas não deixava de ser uma arma temível. os jurados. se pertence a uma nova sociedade. sem dizer palavra. A vantagem desta vida em comum é que se vive. ao grande salto no desconhecido. os magistrados. realmente. Guittou ou Suzini nunca mais foram vistos desde que aqui chegamos. mas. pois queria entregar-lhe o “governo”.Dali a duas horas já eu estava de posse de um bisturi com um fortíssimo cabo de aço.

Agora. além de que não se sabe se ficaremos juntos ou se nos voltaremos a nos ver lá no degredo. pode guardá-lo. Por isso é que nunca mais apareci. ande comigo até a latrina para eu dar o “governo” para você.Porque diz isso? . que já está bom. Já o ameaçaram? Pensam que você está carregado? . guarde-o você. que tenha o lucro disso. . Prefiro viver sem um tostão a ir desta para melhor por causa dele.Queria devolver o “governo”. .. . Fiz-lhes ver ostensivamente. não quero. Digo-lhe: .Sim. É uma enorme responsabilidade para mim. Todas as vezes que eu vou à latrina. tenho sempre três árabes à espreita. que não estou carregado. quer de noite. passam a vida me seguindo para pegarem o momento em que ele volte às minhas mãos. mas mesmo assim continuam me vigiando. pois. quer de dia. ofereço-lhe. para eles não desconfiarem que estamos era contato.Não. Pensam que algum outro tem o “governo”. é melhor você ficar com ele. Portanto. durante a viagem. como não sabem quem é. como quem não quer nada. fique com ele para você. que se sente perseguido. Galgani lança-me um olhar infeliz. Ao menos.Entre a cozinha e a lavandaria. não há razão para você arriscar a vida só para guardares a “massa” pra mim. lá tenho um dos três caras atrás de mim.Em que lugar do pátio costumam ficar? Ele responde: . se você se arrisca. Galgani.Você está com medo. Olho para Galgani e vejo que está realmente aterrorizado.Vai. . no fim de contas. .Não quero que me assassinem por causa do “governo”. Dou-lhe ele. mas.

e tão entroncado como eu. Mokrane põe-se de pé. esboçava um gesto para se atirar a mim.Nem por isso! Vim até aqui para lhe dizer que Galgani é meu amigo. um metro e setenta e quatro. perceba. ofereço-lhe uma saída airosa: fechar de olhos. portanto. que eu já venho.-Bem. saco o bisturi novinho em folha e. na sua companhia. o primeiro a pagá-las será você. Por isso. . é melhor você vir comigo. impressionado pela minha atitude e pelo comprimento da arma. aproximadamente. quando. Sei perfeitamente que isso não é verdade. Se lhe acontece alguma. Percebi logo o que se passava: tinha sido aquele corso que. para o pouso habitual dos patifes. e a seguir os outros. Mokrane. veja bem as coisas.Se der mais um passo. digo-lhe: . conservando a lâmina metida na manga direita e o cabo na mão. Deve saber que Galgani é cunhado de Pascal Matra e que. É da minha altura.Então. mato-o como um cão. Sentindo-se atingido pelas minhas palavras de provocação.Se me levantei foi para discutir e não para dar porrada. Efetivamente. responde: . Girando. E você? .Indo. Mas. lá estavam eles no lugar indicado. mas não me interessa comprometê-lo perante os amigos. não pode deixar de ter um “governo”. São quatro: três árabes e um corso de nome Girando. . Papillon. fique aqui. em um abrir e brandindo-o. Desorientado por me ver armado em um lugar onde constantemente nos passam revista. como vai isso? . Quem quiser que. posto à margem pelas criaturas do milieu. Dirijo-me. Tirei o bisturi do boné. foi denunciar a coisa aos outros.

Esta noite... no fundo. Só mais tarde é que me dei conta de que tinha cometido um erro. pensamos que é o último dia que passamos em terras da França e sentimo-nos mais ou menos nostálgicos por deixar. é assim mesmo.Fica para amanhã. que quando. Uf! Consegui safar-me desta. . Dega não abre boca. Os dados que temos sobre o que nos espera são de tal maneira contraditórios que não sei bem se me devia sentir alegre. porque.Claro. o nosso país. Papillon. triste ou desesperado. É que todos nós. lugar esse onde se consegue um pouco mais de ar que em qualquer outro. . Sinto-me literalmente desorientado. Mokrane. se está duro como nós é preciso arranjar “cacau” para ir pra frente. perto da porta gradeada que dá para o corredor.. nesta cela que contém cerca de onze indivíduos. antes da partida. ninguém dá um pio. tendo como destino uma terra desconhecida e uma vida inteiramente nova. Galgani regressa na minha companhia. Mas já fica sabendo que isso aqui é sagrado. Está sentado a meu lado. Digo: . se eu matasse esse cara já não partia amanhã. sumiu-se de tal maneira que eu embarquei com os dois tubos em meu poder. Tem todo o direito de tocar a vida. no dia seguinte. por assim dizer. Nao me apetece ouvir um sermão do tio Dega. Contudo.Não sabia que Galgani era seu amigo... . Vire-se para outro lado. que eu aperto. Estende-me a mão. mas ele me responde: . para sempre. Pensava que era um anjinho e bem deves compreender.Bom.Não fale com ninguém sobre esse incidente. Tento convencer Galgani a aceitar o “governo”. Se você se levantou para discutir.

tudo isso perpassa rapidamente Perante os meus olhos. Ninguém dorme. os latidos de “Clara”. pelo Meu espírito: uma infância no seio de uma família cheia de amor. possuo. O filme da minha vida perpassa. temos de nos sentar a um nível inferior ao das nuvens de fumo. confere a essa noite de espera. pertencem todos. essa projeção de uma lanterna mágica acesa. véspera do salto para o grande desconhecido. Dega. lá dentro. esse filme falado. que nesta cela me rodeiam. floresciam em frente da porta. as flores campestres. em que ouço a voz da minha pobre mãe. dado que já esteve condenado à morte. o perfume das mimosas que. A gravidade. Acho que posso contar com quarenta mil francos. se não queremos que os olhos ardam. Tudo o resto só pode ser. dos pêssegos e das ameixas que o pomar copiosamente nos prodigalizava. todas as Primaveras. a importância do momento. um paraíso inesperado. porque se Galgani é incapaz de defender essa quantia aqui. O fumo dos cigarros escapa da cela como uma nuvem sugada pelo ar do corredor e. metidos na barriga. para eu ir brincar com ela. com exceção do pequeno corso nascido no degredo. mais vinte e cinco mil francos de Galgani. para ele. aqui ao meu lado. todo esse filme. a de meu pai. uma suave emoção. e as meninas e os rapazes meus companheiros de infância. o gosto das nozes. a toda a velocidade. que tanto me amava. companheiros dos mais belos momentos que passei na vida. de nobreza. a que assisto independentemente da minha vontade. o sussurro dos regatos. ao milieu e aparentam um ar amorfo. cinco mil e seiscentos francos que me pertencem. a nossa casa vista de fora e. sempre meiga e carinhosa. Vejamos: tenho vinte e seis anos e uma ótima saúde.Os tipos. Chegou a hora de deitar contas à vida. Os gestos familiares dos meus. do mau grado meu. tem dez mil. o que se justifica. a não ser André Baillard. a cadela de caça do paizinho. muito menos o será a bordo . de boas maneiras. a chamar-me do jardim. de educação. fê-los praticamente emudecer. pelo subconsciente.

Com tal indumentária. .ou lá na Guiana. procuro trazer à memória as imagens do julgamento. etc. apareceram uns reclusos que alinharam diante das grades da cela. esse Pierre C. Quarenta mil francos é muito dinheiro. alguns cúmplices. todos receberão fatos sob medida. um homem do milieu. que tapa o saco. Servir-me-ei dela para seu bem. Pierre. levando Galgani. e é só nisto que eu tenho que pensar. e só me proporciona imagens banais. de marinheiro cheios até acima.. na minha companhia. . que ficou metida por entre as grades: C. É um sujeito excelente. um metro e setenta e três. sapatos: quarenta e um. a cumprirem pena ou já libertos. um indivíduo direito. essa ficha mostra-me quão minuciosa e bem organizada é a direção da prisão para onde vamos.. correto. algum proveito vai ter. Por um esforço da vontade.. A posse de tão temível arma me dá uma relativa segurança.. dos jurados. cada um com uma grande etiqueta. etc. do promotor.. bem entendido. Aqui está tudo registrado. Já se comprovou a sua utilidade no incidente com os árabes. a vinte anos de trabalhos forçados. forçados. Por volta das três da madrugada. consigo ver a farda. que é branca com riscas verticais encarnadas. e guardas. por assassinato.. visto que a “massa” é dele e não minha. então. padrão quarenta e dois. posso contar com essa “massa”. sem grande custo. Matrícula X. um bordelês que foi condenado em Paris. e ela recusa-se categoricamente a obedecer-me. Através do tecido grosseiro. Mal chegue. mas também lucrarei com isso. foi por isso que não veio buscá-lo.. ele bem o sabe. contente por sentir o frio do seu cabo de aço. O balanço é positivo. Apalpo o bisturi.. trinta anos. vai dar para comprar. Compreendo. Por conseguinte. é Pierrot le Fou. É melhor que na caserna. onde cada um recebe uma indumentária ao acaso. Leio uma delas. não deverá ser coisa fácil passar despercebido. que. conheço-o bem. Aliás. vou tratar de escapar juntamente com Dega e Galgani. onze sacos de lona.

.Eu? Olha: sempre sonhei ir até as Américas. Não parece? Ficar maluco.Como vai. também é esse o meu parecer.E o meu.O que interessa é o resultado final. que me espera. apetece-me abrir o saco e me enfeitar. como eu as vi. Pierrot. . Pierrot.Já viu. E agora os dedos-duros oferecem-me essa viagem de graça. mas como sou jogador nunca conseguir economizar o suficiente para a viagem. completamente só. a outros projetos. de fato. Sinto um grande alívio ao fazer essa verificação e ao ver que a vida coletiva. Sente-se que está realmente seguro de si: . não parece. .para viver intensamente. as cenas da Conciergerie ou de Beaulieu é preciso estar só. Papí? . ou morrer de miséria fisiológica em um calabouço de qualquer prisão da França é. essa roupa é para mim do mesmo jeito! . Não tenho do que me queixar. metido em uma cela. ninguém vai dizer nada.E você. como vai? . Prefiro o degredo a sofrer quinze anos de reclusão na França . Pierre le Fou aproxima-se das grades e diz para mim: . Papillon? Fala com a maior das naturalidades.Estou com pressa de vestir isto. a outras reações. o que essa ficha diz sobre você? Curva-se para o olhar com atenção e puxa por ela: . pior que apanhar a lepra ou a febre-amarela. irá dar lugar a outras necessidades.essa viagem de graça que os dedos-duros me proporcionaram tem efetivamente as suas vantagens.concluiu. não há sombra de gabarolice nas suas palavras.

Agarrem os sacos e encostem-se à parede.Saiam de dois em dois para o corredor. . Passaram-se uns vinte minutos antes que ficássemos todos em fila. impecavelmente branca. mas nada tem nos ombros. Partida para o degredo Ás seis horas.respondo. quatro guardas. Talvez a gente venha a conhecer outros países menos belos que o nosso.. com o saco à frente.. Nem eu imaginava como era verdade o que dizia. Não é hora para arranjar histórias. com o saco à frente. espere um pouco mais. Ele compreende e afasta-se das grades. . na manga esquerda.A nossa bela terra não possui uma justiça tão bela. tem botões dourados. Um deles ostenta três galões de ouro em V. Louis Dega olha para mim e diz para mim: . Hoje vêm de branco. de novo. Aparecem alguns reclusos com café.Dispam-se. sempre com a pistola à cinta. agarre as trouxas e coloque-as na cela. Eu preciso de sossego. Vistam- . Isso mesmo. o futuro encarregar-se-ia de o confirmar. tudo de pé. embrulhem a roupa dentro do casaco e façam um nó com as mangas. e.. a essa hora. filho. a seguir. A camisa. na etiqueta está escrito o seu nome. já estaremos longe da nossa bela terra. Pierre. E. Cada um tratará de procurar o respectivo saco.Não mexa aí.. virados para o corredor. Você aí.É a última noite.. . mas mais humanos para com aqueles que cometeram alguma falta . caiu o silêncio. Amanhã. Dega.

que irá morrer.se. de carabina em punho. eu Louis Dega. Três metros à nossa frente. Com o dos galões à frente. Em fila. a nossa pequena coluna encaminha-se para o pátio. agora. Quarenta homens são chamados. Como ninguém fala. que os puxa pelo cinturão. os sapatos e as meias. . Paula. Tirem o casacão de lã do saco. Pendurem os sacos no ombro esquerdo!. dois outros de cada lado e o quarto na retaguarda.. Conservam-se de frente para nós. lentamente.. juntam-se ao cortejo. umas calças de riscas. Já estão todos vestidos? . e assim marcharão durante todo o trajeto.. das janelas de uma casa. Dega também os viu. para o caso de chover. bem corno os três reincidentes: Julot. atrás de mim. Nada de cadeias ou de algemas... por outro guarda. durante um bombardeamento em Marselha. meu amigo.Bom. sim. Será essa a última vez que verei minha mulher. com recuadas. mantendo-se a cerca de dois metros de distância. e Antoine D. No meio do caminho. ouve-se assobiar baixinho por entredentes. cada um deles. À medida que vamos saindo da fortaleza. outros guardas. ponham as cuecas. e o seu amigo Antoine Giletti noutra. e para se protegerem do frio. uma camisa interior de lã. dois a dois. Estes quarenta homens são alinhados em filas de dez. em uma janela. a coluna põe-se em marcha.. senhor guarda. entre eles. e assim caminhamos de olhar fixo nas janelas o máximo de tempo que podemos. Ergo a cabeça e vejo a minha mulher. o silêncio é absoluto. de espingarda ou metralhadora em punho. Nénette. a mulher de Dega. bem como o meu amigo Antoine. Uma multidão de curiosos é sustida pelos guardas: toda essa gente veio assistir à nossa partida para o degredo. Galgani Santini. mais tarde. Não há um prisioneiro.Já. um blusão. Em menos de duas horas. conseguiram alinhar oitocentos e dez forçados. .. dez guardas. marcham. Abre-se o grande portão da cidadela e. guiados.

se aproxima um indivíduo. Apresento-lhe Dega. portanto. 11 militar p ertencente a um tipo especial de corporação. para sempre. por enquanto fechadas. Já sabe o que o espera. para nossa grande desgraça. de repente. quando.um guarda. Há argolas suficientes para prender as redes. os quarenta primeiros. uma vida normal. Há um letreiro onde se lê: “Sala n. é Julot. dizendo: . para uma gaiola com sólidas grades de ferro. Nós. somos encaminhados. em que todo mundo percebe que mil e oitocentos homens estão prestes a deixar. comece a andar.1.diz o outro. um gendarme11.Não se afoite mais por essas bandas se quiser chegar com vida ao degredo.Sei. Julot barra-lhe a passagem com o braço. ou seja quem for dentre o público que venha perturbar esse momento realmente pungente. Está entendido? .Então. Pendure o saco na mesma argola onde pendurou a rede. mas que.4shared. Estávamos nós conversando. Nesse lugar ficamos bem perto de duas vigias. uma vez no mar alto. . categoria muito especial.com) .E sabe porquê? . serão abertas.” Cada um de nós recebe uma rede enrolada. pois há dez anos que fez essa mesma viagem. que tem o encargo de velar p ela o rd em e segurança pública na França e em alguns outros países (http :/ / amand ikalo ka. quarenta homens. Sinto alguém me abraçar. ande por aqui. Subimos para bordo.Vai.Está . Ele já conhece isto. respiraremos melhor que em qualquer outro lado da gaiola. . Contínua a estreita vigilância. Diz: .

Seis homens são chamados lá fora nus em pêlo. Quatro guardas entram na gaiola e desatam a esquadrinhar a roupa e o calçado. dois aguçados pregos de carpinteiro. Dega fica contente com essa manifestação de força e não o esconde: .O sujeito desaparece. arma temível. gritando: . com um facão cravado nas costas. acompanhado por dois médicos e pelo comandante do navio. pois o ferro magoa-me. os seis homens nus e em sentido. Barrot no meio. onde haja uma janela aberta. . continuam outros a nos vigiar. Recupero o bisturi. tinha mais de vinte centímetros de comprimento. todo mundo volta a se vestir sem esperar por ordens. Diante deles.diz uma VOZ. Já percebi que vão revistar nós todos. descobrem três facas. e rápido! Despimo-nos. somos despertados por um grito de dor. . Mas o pé tapa o bisturi. Um único incidente: uma noite. chega. um sacarolhas e um “governo” de ouro. mas. Logo uns vinte e cinco ou trinta guardas assestam sobre nós pistolas e espingardas. O chefe da leva de presos.Todo mundo pelados. posso dormir sossegado. apoiando-me mais na perna esquerda que na direita. do lado de fora. Na revista. Mal os guardas viram costas. Puseram as armas de lado antes de entrar e fecharam a porta atrás de si. O golpe fora desferido de baixo para cima e atravessara a rede antes de trespassar o desgraçado. alinhados. com as armas apontadas para nós. Julot responde: .Na nossa companhia.Com vocês por perto. comandante Barrot. A viagem durou dezoito dias. você fica mais seguro do que em qualquer moradia à beira-mar. A faca. Coloco o bisturi debaixo do pé direito. Os guardas afastaram-se para o fundo da cena. descalço.O primeiro a se mexer é um homem morto . os outros ao pé da escada. Um sujeito é encontrado morto.

pergunta o comandante Barrot.diz Barrot.Bom. agarrando em uma das facas e apontando para o seu proprietário. sempre nus. Abre o “governo”. Como se chama? . senhor. não é? . .isso é deste . um pelos pregos. agarrando nele. . não conseguimos ver nada.É italiano? . É um indivíduo novo. ficou ainda uma faca e o “governo” de ouro. E assim chega a vez de todos. .Sim. .Peço desculpa. subiram as escadas acompanhados por dois guardas.Esse aqui fará a viagem em uma das gavetas. outros pelas facas.. outro pelo saca-rolhas. corpo atlético.Está certo.Sou.Isso lhe pertence. . No chão. . . sim.Trezentas libras inglesas.diz o guarda que procedeu à revista. . Depois. e um só homem para as duas coisas. vinte e três ou vinte e cinco anos. cada um reconhecendo ser o proprietário dos objetos encontrados. já se vai ver. Como o comandante se encontra rodeado pelos outros.Bom . . de boa compleição. mas ouvimo-lo dizer: . um metro e oitenta. . é meu. duzentos dólares e dois diamantes de cinco quilates. olhos azuis. .É realmente minha.Salvidia Rornéo. . mas a faca não me pertence. pelo menos.O que é que contém? .diz o guarda apontando para o “governo” de ouro. mas pela faca. por cima da casa das máquinas.Não o castigo pelo “governo”.

perguntou o comandante Barrot.Se não é sua. ou sabe quem a pôs lá. Responda. um verdadeiro colosso. ao último degrau da escada. Nem um grito lhe escapa dos . O primeiro dá uma ordem a um imediato que sobe ao convés. de joelhos. Ou acha. .Não diga uma coisa dessas. mas com toda a força. Os dois comandantes. .. diga de quem é a faca. com uma tina de madeira cheia de água salgada e uma corda grossíssima. .Não sei. da largura de um pulso. Prendem o infeliz. O marinheiro molha a corda na tina e depois acerta-a pausadamente.Guarda. . . se calhar. conferenciam entre si.Não é minha. .Não. onde morrerá assado.Não é minha e não compete a mim dizer de quem ela é.Essa faca não me pertence. Não sou nenhum delator. .Então de quem é a faca? . Vai pagar caro por essa manifestação de indisciplina. Não tarda a aparecer um marujo inglês. . nos rins e nas costas do pobre diabo. que tenho cara disso? . é tudo que eu sei. encontrei-a dentro do seu sapato .Então eu estou mentindo? . deve ser de alguém. nas nádegas. você simplesmente se enganou.replica o guarda. . já o disse e repito-o. o do barco e o da leva de presos. algeme esse sujeito.Está me gozando? Encontram uma faca dentro dos seus sapatos e você não sabe a quem ela pertence? Você me toma por um imbecil ou quê? Ou a faca é sua.Se não quer ir parar nas gavetas. porque ficam em cima das caldeiras.

como julgamos. irrompe da nossa gaiola um grito de protesto: . mais nós berramos. Os degredados vão dirctamente dali para cento e . A cena não chegou a durar um minuto. No meio desse silêncio sepulcral. e é lá também que se procede a uma separação por categorias. seis anos mais tarde. ficarmos com uma idéia do que nos espera uma vez chegados ao destino. já sabem com o que contar.Assassinos! Bandidos! Imundos! Quanto mais nos ameaçam de disparar. mas deixou todo mundo aterrorizado. Viria a morrer. em uma fuga comigo. Entendido? De pé! Só três homens ficaram realmente queimados.É nessa aldeia que fica a penitenciária. por exemplo. Julot explica: . . o sangue escorre das nádegas e das costelas dele. Ao mínimo incidente. Apodera-se de nós um terror coletivo e os que ficaram queimados não se atreviam a fazer queixas.Espero que agora tenham percebido. Os jatos de vapor eram projetados à altura do peito. em menos de um segundo.Lancem-lhes jatos de vapor! Os marinheiros lançam mão das mangueiras e ondas de vapor nos fustigam com tanta violência que. Quanto ao flagelado. que São Lourenço do Maroni é uma aldeia situada a cento e vinte quilômetros do mar. seus cabeças de burro. por muito que Julot se tenha esforçado por nos dar informações exatas. deixaram-no na nossa companhia.lábios. todo mundo está por terra. na margem de um rio chamado Maroni. Sabemos. Mas nada seria exato . e levaram-nos para a enfermaria. pelo menos.Súcia de bandidos! Foi quanto bastou para desencadear uma gritaria geral: . mas eis que o comandante grita: . Durante estes dezoito dias de viagem. temos tempo de sobra para nos informarmos ou.

os quais ficarão em São Lourenço e trabalharão em jardinagem e no amanho das terras. na limpeza da aldeia e da prisão ou noutras ocupações: carpintaria. para que ela infecte. onde está situada a reclusão. Outra esperança: se o barco destinado a transportar os internados para lá não estiver prestes a partir. passará um cabelo molhado em urina pela carne. Tem de se fazer o possível por baixar ao hospital durante esses poucos dias de espera. que é a mais pequena. c) Finalmente. Devemos evitar as ilhas. b) A seguir. enviam-nos para lugares muito duros: Camp Forestier. Estas ilhas distam quinhentos quilômetros de São Lourenço e cem de Caiena. para outra penitenciária chamada SaintJean. etc. e Diabo. Os forçados. alfaiataria. a maior. o que põe termo a todas as chances de fuga. Crique Rouge e Kilomètre 42. é puxar dinheiro e oferecê-lo ao enfermeiro. os sujeitos perigosos de segunda ordem. onde ficarão internados durante alguns anos ou para o resto da vida. custe o que custar. lavanderia. Quando é preciso. a categoria normal. Cascade. “Por conseguinte a Hora H é o momento da chegada: se nos chamam logo e nos metem em uma cela é porque ficaremos internados nas ilhas. mais conhecido pelo Campo da Morte. e os forçados são logo divididos em três grupos: a) Os muito perigosos. São José. Há um único processo: ferirmo-nos logo.cinqüenta quilômetros de distância. Os seus nomes são: Real. esse dar-nos-á uma injeção de essência de terebintina em uma articulação. não vão para essa última. que serão chamados logo à chegada e metidos em celas da ala disciplinar. . pois os homens que lá estão são presos políticos. ou far-nos-á cheirar enxofre e dirá ao médico que estamos com quarenta graus de febre. pintura. colchoaria. que se destina a trabalhar na administração. a fim de irmos parar ao hospital e de lá fugirmos. nas cozinhas. eletricidade. normalmente. Charvin. dar cabo dos joelhos ou espetar a barriga. enquanto não forem transferidos para as ilhas da Salvação. forja.

moradores na aldeia. um metro cúbico de madeira por dia. juntamente com os demais. terá tempo para iniciar a ação. Obrigam os presos a cortar. Ele pensa que o levarão logo diretamente do cais para o hospital.“Se não for chamado e ficar. aliás. Julot meteu-nos na cabeça estas preciosas informações.” Durante toda a viagem. onde depressa se cansa. em plena floresta virgem. Quando se sai para trabalhar fora dos muros da penitenciária e só se regressa à noite. abrirá um joelho com ele. que prepararão a fuga. como fugitivo reincidente que é. É preferível pagar ao guardalivros para que ele nos dê um trabalho na cidade. Mal chegue. . um canivete. em barracões no campo prisional. Ao descer do barco. guarda. de varredor de ruas ou de empregado em qualquer serração da construção civil. sabe muito bem o que deve-se fazer. de colheita de uva. caíra da escada diante de todo mundo. há alguns onde ninguém conseguiu resistir mais de três meses. ou melhor. uma faquinha. exatamente o que se passou. Por isso. no seu “governo”. não se deve procurar um emprego no interior da penitenciária. ou com chineses. Nesse caso. há tempo de sobra para entrar em contato com outros forçados já em liberdade. É preciso também evitar os presídios que rodeiam a aldeia. Pela parte que lhe toca. Não desconhece que irá diretamente para uma cela. Foi.

Depois de termos sido alinhados sobre a ponte. já o não saúdam à passagem. Só na ponte é que ferirá o joelho .São Lourenço do Maroni Os guardas revezam-se para mudar de farda. Ninguém fala. através delas. Distinguimos agora as primeiras casas de madeira com telhado de zinco. enquanto eu sustinha. Julot entre mim e Dega. Ficamos na quarta fila. toda essa vegetação verde-escura. portanto. com ambas as mãos. São duas da tarde e um sol de fogo surpreende os meus olhos e o meu crânio raspado. corta as calças no joelho. Como estão habituados a vê-lo descarregar a sua carga humana. Avançamos muito devagar.Estamos chegando. porque fecharam as vigias. Está um calor horrível. Julot. assustados com a sereia do vapor. quando vamos a passar na passarela. Negros e negras vieram à porta ver passar o barco. chamam os . deixa-se cair e vai a rolar até lá abaixo. despedaçando os bordos das costuras. Subimos ao tombadilho. essa floresta virgem é impressionante. Os pássaros. um a um. arrepanha a pele do joelho. a floresta. conduzem-nos até a passarela. Passa-me o canivete e agarra sozinho no saco. Três apitos da sereia e o barulho da hélice nos indicam que chegamos. Depois. Deixamos de ouvir o barulho das máquinas e mergulhamos em um silêncio profundo. A água é cor de lama. Então. Subimos. enterra a lâmina e faz um golpe de sete a oito centímetros de comprimento. Levantam-no e. exuberante e densa. o Maroni. Julot. ao verem-no ferido. com calma. o saco dele. Julot diz para nós: . Os guardas abrem a porta da gaiola e dispõem-nos em grupos de três. com um capacete colonial em vez do boné. Vê-se. de canivete na mão.para não deixar atrás de si um fio de sangue. o que nos permite observar. levantam voo. vestidos de branco. Regressam depois.

acaba de agarrar uma lista. Tudo se passou como fora previsto: lá vai ele em uma maca. Do outro lado. muito alta. os sujeitos que vão pondo o pé na terra e se enfileiram uns atrás dos outros. mestiços. E vocês aí. e assim desaparece da nossa vista. coberto de galões.Alto! Ponham os sacos à frente de vocês. eu e Dega. um. Uma vez chegados a meio do pátio. marche! “ A nossa chegada é presenciada por inúmeros forçados. um por um.Jules Pignard! . inanimados. dois. Girasol. mulheres com trajes de verão e garotos. gritam-nos: . dois. Suzini. examinam. Cada um de nós recebe um chapéu de palha. destroços de brancos (estes brancos devem ser os forçados que já foram libertos). pois um guarda. Chamam Guittou: . o cortejo põe-se em marcha. Andamos cerca de dez minutos e paramos diante de uma porta de madeira. “Um. Capacidade: três mil homens. alguns civis. índios.Por aqui! É ladeado por dois guardas. Lembramo-nos do que Julot nos disse. o mesmo. . Também vieram observar os que acabam de chegar. levado por dois homens. Olhamos um para o outro.Bom. chineses. distribuam os chapéus. bem vestidos. levaram-no para o hospital.Jules Pignard (é Julot) feriu-se.” Abre-se a porta e entramos em filas de dez. debruçados das janelas ou empoleirados em pedregulhos para verem melhor. onde está escrito: “Penitenciária de São Lourenço do Maroni. Atingidos os duzentos. outro tanto. . Negros. estão os guardas. Somos observados curiosamente pela mais variegada gente. . e bem que estávamos precisando: já dois ou três caíram para o lado. todos com um capacete colonial na cabeça.maqueiros.

tanto melhor! Grandet é o sujeito que roubou o cofre-forte de uma central. Posto isso. a estas horas. uma vez que viemos parar a um barracão coletivo. as latrinas. tendo. que . uma barra de ferro ao longo da parede. etc. até o momento em que. Tanto eu como Dega e Pierrot le Fou estamos radiantes. um trabalhinho que fez rir a França inteira. Fulano. Passa-se de um para o outro de repente. a noite e o dia não são precedidos de crepúsculo. à esquerda. Pendurados nas grades das janelas. Coisa esquisita! Ora. Caso contrário. como nos explicou Julot. Dega. Nos trópicos. já estaríamos. nas celas.É legal. Eu. Carrier e eu próprio nos enfileiramos com os demais diante do barracão. ficam os balneários.Estes são os que ficam internados nas ilhas. Cada um se instala onde quiser. Grandet se lembra de dizer: . Vou até o fundo da sala: à direita. e a essa hora. Aqueles que eu for chamando sairão das fileiras com o saco ao ombro e deverão se alinhar diante daquele barracão amarelo. nem de madrugada. Dega. por volta das cinco da tarde. A noite cai de súbito às seis e meia da tarde. todas com cobertores. Abrem a porta para nós e entramos para um compartimento retangular com vinte metros de comprimento. precisamente. à direita e à esquerda. e à mesma hora. Entre a barra e a parede estão estendidas as lonas que nos servirão de cama. Todos se mostram contentes. Pierrot le Fou. dois velhos forçados surgem com dois candeeiros de petróleo. não há água corrente. durante todo o ano. não seremos internados. nessa leva não chamaram um único internado. assistimos à distribuição dos que ficaram para trás. um pouco afastada dela. já tudo terminado. aproximadamente. o número um.Ouçam-me com atenção. Santori e Grandet ficamos lado a lado. Presente. e assim se formam os grupinhos. o guarda prossegue: .

bem sei. Você. quem é? . Há uma tábua presa à parede para pôr o pão. o enfermeiro passeia pelo barracão. Mas você veio parar aqui em 29. a tigela e as restantes coisas.Ah. Trazem-nos café e um pão redondo. nos vestimos. velhote. vestido de branco sem riscas. Às nove. dão uma luz muito fraca e três quartos do compartimento ficam completamente às escuras. na visita. sim. diz: .Inscrevo-o também na visita. em Paris. estou a reconhecê-lo. uma vez passada a agitação da chegada.Dega. pois. nós estamos em 33 e você ainda está aqui? . Ao chegar perto de mim. Deitado no meio de Dega e de Pierrot le Fou converso um pouco com eles até adormecer. E esse aqui.Quem está doente? . tenho que falar com vocês. entram dois guardas e um forçado.Não. . No outro dia de manhã. ainda novo.Sou Sierra. o argelino.suspendem em um gancho cravado no teto. Dá parte de doente. Papi? Não me reconhece? . Ficamos de pé. com uma crise de asma. morre-se de calor. . É meu amigo. Logo nos veremos. ora. está com disenteria e você. .Como vai. Papi. Ambos os guardas são de Córsega e falam na sua língua com os presos compatriotas. nos lavamos. Não corre uma aragem. Às nove horas já todo mundo dorme. não se sai daqui assim tão depressa como isso. todo mundo dorme em cuecas. Entretanto. gritando em voz alta: . pelas onze horas. Contudo. ainda é escuro quando toca o clarim. Prossegue o seu caminho.Estou. conheci-o no Chez Dante.

por entre os barracões.Você. com uma cruz vermelha desenhada. Sierra mandou-o passar para um gabinete contíguo à sala. somos doze. veremos isso à hora da visita. eles vêm nos buscar. Sierra aparece. o único pintado de branco. você e você aí. Atravessamos. Dega. a pé. . Papi. . Passamos para uma grande sala.Temos. dois guardas. Doentes. . Aquele espanhol eu sei muito bem quem é: é Fernandez. um de vocês que chame o guarda e chame o enfermeiro. Sierra começa a falar espanhol com o velhote que nos acompanhara.Dirige-se para os que levantam o dedo e inscreve-os. um velhote de pele crestada: . Sinto-me contente por poder prestar-lhe um grande serviço.. por disenteria. Você. Oh! Deixe-me falar! Você. Do resto eu me encarrego. dizendo que Dega está com falta de ar. a você e ao seu amigo. Sierra. Só peço uma coisa. Vocês estão internados.. Depois de trocarem umas palavras. Quando volta a passar por nós. Têm “massa”? . vem acompanhado por um dos guardas. venham cá. e você. o que matou os três argentinos no Café Madrid. e entramos para uma sala de espera onde já se encontram uns sessenta homens. de noite bata à minha porta. esse e aquele ali. senhor Bartiloni. Papillon. com uma imaculada bata de médico. Você. por toda a vida.Deixe-me abraçá-lo. por cinco anos. são os amigos de quem lhe falei.Então me deem quinhentos francos cada um e amanhã de manhã serão hospitalizados. o recinto da prisão. após o que se dirige para nós: . pode contar comigo. Paramos finalmente diante de um edifício mais novo. ou melhor. que percebemos imediatamente ser o consultório do médico. Dega. Dirige-se a nós: .Apresento-lhe o meu chefe. Às onze. Papillon: o guarda-enfermeiro Bartiloni. em Paris. Em cada canto da sala.Está bem.

Vocês têm de se virar. de carabina pousada nos joelhos. Quando o doutor vier fazer a visita. Diga a ele que Papillon e Dega estão aqui. O enfermeiro desta sala é um sujeito de trinta e cinco anos. e ele me responde: . No hospital. hospitalizados em uma enorme cela. a quem tratam por Chatal. Ele que apareça à janela. no edifício da frente. O enfermeiro entra e sai da sala à vontade. o enfermeiro queimará. que o inchaço encobre o olho dele. Somos amigos. Ele diz: . Tão conscienciosamente o fez. e nela se encontram sessenta doentes. como sendo minha. se encontram três guardas. dez minutos antes da visita. Chatal apresentar-lhe-á.Papillon: se pensa em se mandar. Fernandez sai do gabinete e. É um Porta-chaves. Fernandez está com a bochecha monstruosa: picou a pele por dentro da boca e soprou o mais possível durante uma hora. que lhe é aberta por um árabe. uma vez cá fora. um pouco de enxofre e vai fazê-lo respirar o gás com a cabeça coberta por uma toalha. Ele recusa os quinhentos francos. Eu não quero nada. por cem francos por semana cada um. a maior parte deles com disenteria. poderão ficar um mês. mas mil e quinhentos francos.Sim. No que diz respeito a Dega. Não quero insistir. Dega foi para lá no meio da noite. ou quê? No dia seguinte. Dega e Fernandez. somos.Essa “massa” é para o guarda. Sierra já lhe deu as devidas instruções a nosso respeito. uma análise de fezes de um cara atacado de ameba. eu. As grades das janelas são como .Está precisamente ali. A cela fica em um primeiro andar. Pergunto ao enfermeiro por Julot. me avise a tempo. Só tem que bater à porta. para eu ir também. passo-lhe não mil. entrega quinhentos francos a Sierra. Entro por meu turno no gabinete e. na nossa frente. Sentados à direita e à esquerda da porta. um presidiário que serve para auxiliar os guardas. Quer que eu diga alguma coisa para ele? .

o enfermeiro traz para mim uma carta dele. onde está escrito: Bravo. onde penamos juntos. estacionava. quando as mais belas jóias se encontravam em exposição na vitrine. partia o pau com uma valente paulada. Para ganharmos a estima dos outros. tornou-se amigo de Dega. munido de um grande pedaço de pau. Chegava de automóvel diante de uma ourivesaria. por isso o alcunharam de homem do martelo. Então ele descia do carro rapidamente. Sento-me ao pé da janela. às três da tarde. Entreguei. nós vamos acabar com eles. guiado por outro sujeito. é o preço semanal desta nossa estada aqui. É o . que arrancava a toda a velocidade. Então também foram internados? Coragem. Nunca me chegou a contar como e por que razão o identificaram. Entre o nosso edifício e o de Julot há um jardim cheio de lindas flores. resolveu atacar uma das maiores joalharias de Paris. Foi condenado a vinte anos e fugiu ao fim de quatro. ontem. E foi precisamente quando regressou a Paris. Angers. Tours e Havre. Ele me diz: “Estou vendo se vou parar nessa sala. Há uma semana que estamos no hospital. Daí a uma hora. O nosso amigo aparece à janela com uma lousa na mão. que o apanharam: andava à procura do sujeito que lhe servira de receptador. agarrava em quantos estojos podia e se metia no automóvel. tendo conseguido mais de um milhão em jóias.trilhos de trem e pergunto a mim mesmo como iremos cortar isto. Depois de se ter saído bem em Uon. Se eu não conseguir. com o motor ligava. duzentos francos a Chatal. Julot era especialista em se servir de um pedaço de pau. oferecemos tabaco a todos os que não o têm. segundo nos contou. em pleno dia. um marselhês chamado Carora. O receptador viu-o rondando lá pela rua e tratou de avisar a Polícia. e assim Julot foi preso e voltou para o degredo conosco. pois ele não entregara à sua irmã uma considerável quantia que ficara devendo. conseguiu nos unir bastante. veja você se vem para a minha.” O incidente da Central de Beaulieu. Um valentão de sessenta anos. O carro. com o intuito de acabar com a saúde dele.

seu conselheiro. Passa o tempo dizendo-lhe que se ele tem muito dinheiro e a coisa se sabe na aldeia (pelos jornais que vêm da França todos estão a par dos “negócios” polpudos) é melhor não fugir, porque os libertos tratarão de matá-lo para roubarem o “governo” dele. O velho Dega vem me contar todas essa conversa entre ele e o velho Carora. Não me canso de repetir para ele que o velho certamente não passa de um covardão, pois há vinte anos que está metido aqui, mas Dega não liga. Anda impressionadíssimo com as balelas do velho e eu tenho um trabalho dos diabos para manter o moral dele. Mandei um bilhete a Sierra a fim de que ele envie Galgani para o hospital. Não demora nada. No dia seguinte já o temos aqui, mas em uma enfermaria sem grades. Como vou fazer para lhe passar o “governo”? Explico a Chatal que tenho imperiosa necessidade de falar com Galgani, deixando-lhe supor que se trata de preparação de um plano de fuga. Ele diz que poderá trazer o outro pra mim, por cinco minutos, ao meio-dia em ponto. Quando a guarda se revezar, vai trazê-lo até a varanda e poderei então falar com ele da janela, tudo isso de graça. Galgani vem, então, conversar comigo ao meio-dia em ponto, e eu lhe passo o “governo” diretamente para as mãos dele. Galgani enfia ele na minha frente, chorando. Dois dias depois recebo uma revista que ele me manda, com cinco notas de mil francos dentro e uma única palavra: obrigado. Chatal, que me entregou a revista, viu o dinheiro. Não me fala em nada, mas eu lhe ofereço algum, que ele recusa. Digo a ele: - Queremos sair daqui. Vem conosco? - Não, Papillon, já estou comprometido por outro lado, só daqui a cinco meses, quando o meu sócio for posto em liberdade, é que vou tentar fugir. Assim a fuga é mais bem preparada e mais segura. Você, como é internado, percebo que tem mais pressa, mas daqui, com essas grades, não vai ser coisa fácil. Não conte

comigo para ajudar, não quero arriscar a minha posição. Prefiro esperar, com toda a calma, pela saída do meu amigo. - Ótimo, Chatal. Na vida deve-se usar de franqueza, nunca mais falarei alguma coisa pra você. - Mas, seja como for - disse ele -, continuarei a levar seus recados e os bilhetes. - Obrigado, Chatal. Ouvimos, essa noite, umas rajadas de metralhadora. Soubemos, no dia seguinte, que tinha sido o homem do martelo que fugira. Que Deus o ajude, ele era um bom amigo. Deve ter havido uma ocasião, e ele tratou de aproveitá-la. Melhor para ele. Quinze anos mais tarde, em 1948, eu estava no Haiti, onde, acompanhado por um milionário venezuelano, viera fechar contrato com o dono do cassino, para abrir uma sala de jogo ali. Uma noite, à saída de um cabaret, onde estivera a beber champanhe, uma das meninas, que nos acompanhava, negra como o carvão mas educada como uma filha de boas famílias francesas da província, declarou: - A minha avó, que é sacerdotisa vudu, vive com um velhote francês. É um fugido de Caiena e há vinte anos que está com ela, sempre bêbado. Chama-se Jules Marteau. A minha bebedeira passou logo: - Olha, menina, leve-me já para a casa da sua avó. Ela, em um dialeto haitiano, dá as indicações precisas ao motorista, que arranca a toda a velocidade. Passamos diante de um bar iluminado e ordeno: - Pare aqui.

Entro no bar e compro uma garrafa de Pernod, duas de champanhe e mais duas de rum local: - Toca a andar. Chegamos à beira-mar, junto a uma pequena e bonita vivenda branca, de telhas encarnadas. A água do mar quase chega às escadas, a menina bate à porta, uma, duas vezes, até que aparece uma mulherona negra, de cabeleira toda branca. Traz uma camisola vestida, que lhe chega aos tornozelos. As duas mulheres conversam em dialeto e, por fim, a velha dirige-se a mim: - Entre, senhor, essa casa é sua. Um candeeiro de petróleo ilumina uma sala muito limpa, cheia de pássaros e de peixes. -Deseja ver o Julot? Espere aí, que eu vou chamá-lo. Jules, Jules! Tem aqui uma pessoa que quer ver você. Envergando um pijama às riscas azuis, que me faz lembrar a indumentária de um presidiário, aparece-me um velhote descalço. - Mas então, Bola de Neve, quem é que me vem ver a uma hora destas? Papillon! Não, não é possível! Abraça-me, dizendo: - Traga pra cá o candeeiro, Bola de Neve, para eu ver aqui as trombas do meu amigo. Claro que é ele! Ele mesmo! Pois você é muito bem-vindo. A barraca, a pouca “massa” que possuo, a neta da minha mulher, é tudo teu. É só abrir a boca. Bebemos o Pernod, o champanhe, o rum e, de vez em quando, Julot desata a cantar. - Acabamos com todos, hem, rapaz? Está vendo, o que é preciso é ser aventureiro. Andei pela Colômbia, pelo Panamá, pela Costa Rica, pela Jamaica até que, vai para dez anos, vim parar aqui e sinto-me feliz na companhia de

Bola de Neve, que é a melhor mulher que um homem pode encontrar. Quando vai embora? Fica muito tempo? - Não, só uma semana. - Que veio fazer aqui? - Assinar um contrato com o dono do cassino, para abrir uma sala de jogo. - Olha, rapaz, eu bem que gostaria que você ficasse para o resto da vida aqui, perto de mim, nesse bairro de carvoeiros, mas se entrasse em contato com o dono do cassino, aconselho você a não se meter com esse sujeito, que vai cabar com você assim que ver que o negócio está dando certo. - Obrigado pelo conselho. - Quanto a você, Bola de Neve, trate de preparar a sua dança de vudu “para não turistas”. Uma dança de verdade, aqui para o meu amigo! Mais tarde contarei sobre essa famosa dança de vudu “para não turistas”. O certo é que Julot já fugiu, enquanto eu, o Dega e o Fernandez continuamos à espera. De vez em quando, me ponho a olhar disfarçadamente para as grades das janelas. São autênticos trilhos de trem, não há nada a fazer. Só nos resta a porta, com três guardas de guarda, noite e dia. Desde que Julot fugiu, intensificou-se a vigilância. As rondas são menos espaçadas, o médico menos simpático. Chatal só aparece na sala duas vezes por dia, para dar as injeções e tirar a nossa temperatura. Passa-se outra semana, de novo desembolso duzentos francos. Dega fala de tudo, menos de fugir. Ontem, ao ver o meu bisturi, ele me disse: - Continua com ele? Por quê? Respondo-lhe de mau humor: - Para defender a minha pele e a sua, se for preciso.

Fernandez afinal, não é espanhol, mas argentino. É um sujeito honesto, um verdadeiro aventureiro, mas também se deixou impressionar pelas balelas do velho Carora. Um dia, ouço ele dizer para Dega: - Parece que lá nas ilhas é muito saudável, não é como aqui, e não faz calor. Nesta cela, pode-se ficar com disenteria só de ir à latrina, pode-se apanhar os micróbios. Todos os dias morrem, nesta sala de setenta pessoas, um ou dois sujeitos de disenteria. Fato curioso é que isso acontece sempre durante a maré baixa da tarde ou da noite. Não há um só doente que morra de manhã. Por quê? Mistérios da natureza. Esta noite, tive uma discussão com Dega. Disse-lhe que, às vezes, durante a noite, o porta-chaves árabe comete a imprudência de entrar na sala e destapar a cara dos doentes em estado mais grave. Podíamos espancá-lo, e eu vestiria o traje dele (não temos mais do que a camisa e as sandálias). Uma vez assim vestido, saio e arranco a carabina de um dos guardas e aponto-a depois para os outros, obrigando-os a entrar na cela, que fecho à chave. Saltamos então o muro do hospital, que dá para o Maroni, atiramo-nos à água e deixamo-nos arrastar pela corrente. Depois veríamos. Como temos dinheiro, podemos comprar um barco e víveres para nos lançarmos ao mar. Ambos rejeitam peremptoriamente o meu plano e, não contentes com isso, põem-se a criticá-lo. Percebo, então, que se deixaram ir abaixo, o que me decepciona muito, e assim vão passando os dias. Há três semanas menos dois dias que aqui estamos. Só nos restam dez a quinze dias, no máximo, para tentar a sorte. Hoje, 21 de Novembro de 1933, dia memorável, entra na sala Joanes Clousiot, o indivíduo que tentaram assassinar no barbeiro, em Saint-Martin. Está quase cego, tem os olhos cheios de pus. Depois de Chatal sair, vou até junto dele. Ele me diz, rapidamente, que os

outros internados já partiram para as ilhas, há mais de quinze dias, mas que ele ficou esquecido. Vai fazer três dias que um dos guarda-livros veio avisá-lo. Então meteu um grão de rícino nos olhos, que criaram pus, o que originou a sua vinda para aqui. Sente-se louco para ir embora. Confessa para mim que está disposto a tudo, a matar até, se for preciso, mas o que ele quer é fugir. Tem em seu poder três mil francos. Se lavar os olhos com água quente ficará logo vendo às mil maravilhas. Exponho-lhe o meu plano de fuga, que ele aprova, fazendo-me notar, no entanto, que, para dominar os guardas, há que “arrumar” dois ou, se possível, três. Podemos desmontar os pés da cama, que são de ferro, e, cada qual empunhando um, espancar os guardas. A seu ver, mesmo com uma carabina na mão, eles não acreditam que as utilizaremos e, por conseguinte, poderão chamar as outras sentinelas do pavilhão contíguo, aquele de onde Julot escapou, e que fica a menos de vinte metros do nosso.

TERCEIRO CADERNO A PRIMEIRA ESCAPADELA A fuga do hospital

Resolvi, essa noite, falar com Dega e, a seguir, com Fernandez. Dega confessa que esse plano não merece a confiança dele, que está resolvido a pagar mesmo uma grossa quantia que seja para se livrar do internamento. Ele me pede, portanto, para eu escrever para Sierra e lhe fale desta proposta, a fim de que ele nos diga se isso é viável. Chatal nos traz, nesse mesmo dia, o bilhete com a resposta de Sierra: “Não dê dinheiro a ninguém para livrá-lo do internamento, porque é uma ordem que vem da França e ninguém, nem sequer o diretor da penitenciária, poderá evitar isso. Se se sentem desesperados no hospital, poderão tentar fugir logo no dia a seguir ao barco que faz a rota para as ilhas, e que se chama Mana, ter partido.” Ficaremos oito dias nas alas celulares antes de partirmos para as ilhas e talvez seja mais fácil fugirmos de lá do que deste hospital com grades onde viemos parar. Sierra acrescenta ainda que, se eu quiser, mandará um forçado liberto falar comigo, a fim de preparar o barco para mim, que esperará por mim atrás do hospital. Trata-se de um tipo de Toulon, chamado Jéstis, e foi ele quem, há dois anos, preparou a fuga do doutor Botigrat. Se quiser vê-lo, tenho que ir tirar uma radiografia, em um pavilhão especialmente equipado para esse efeito, o qual faz parte das instalações hospitalares. Contudo, os libertos só têm acesso para lá mediante uma falsa ordem de comparência em tal ou tal dia. Sierra aconselha-me a tirar o “governo” antes de ir à radiografia, pois era possível que o médico o descobrisse se olhasse um pouco mais abaixo dos pulmões. Mando recado a Sierra dizendo-lhe que envie Jéstis à radiografia e que combine com

Chatal para eu também ir lá. Fica marcado para depois de amanhã às nove, assim me avisa Sierra, nessa mesma tarde. No dia seguinte, Dega, juntamente com Fernandez, requer a saída do hospital. O Mana partiu nessa mesma manhã e esperam, assim, poder fugir das celas da penitenciária; desejo-lhes boa sorte, mas não mudo de planos. Estive com Jesus. É um velho forçado liberto, seco como um varapau, rosto crestado, marcado por duas horríveis cicatrizes. Tem um olho sempre a chorar, quando olha para nós. Má cara, olhar ruim. Não me inspira a mínima confiança, e o futuro dará a razão pra mim. Trocamos algumas palavras com pressa: - Posso arranjar-lhe um barco para quatro pessoas, cinco, no máximo, um barril de água, comida, café e tabaco; três pangaias (remos dos índios), sacas de farinha vazias, uma agulha, linha e corda para fazer a vela e o estai; uma bússola, um machado, uma faca e cinco litros de tafiá (rum da Guiana), tudo isso por dois mil e quinhentos francos. Faltam três dias para a Lua nova. Se aceita as condições, daqui a quatro dias esperarei por você todas as noites, com uma canoa, das onze até as três da manhã, durante, oito dias. Depois da mudança de Lua, deixarei de vir esperar. A canoa vai se encontrar exatamente diante do ângulo que o muro do hospital faz junto à terra. Guie-se pelo muro, pois enquanto você não alcançar a barca não conseguirá descobri-la, nem mesmo a dois metros de distância. Embora ele me não inspire confiança, digo-lhe que sim. - A “massa”? - pergunta Jésus. - Mando-lhe por Sierra. E nos separamos, sem sequer apertarmos as mãos. Não foi incomum. Às três horas, Chatal vai à penitenciária levar a "massa" a Sierra. Digo comigo: “Estou arriscando essa "massa”, graças ao Galgani, porque realmente isso é

muito perigoso. Oxalá que Jésus não gaste estes dois mil e quinhentos "pacotes" em tafiá.” Clousiot está radiante, cheio de confiança em si próprio, em mim e no nosso plano. Há só uma coisa que o apoquenta: Em certas noites, acontece, até frequentemente, o árabe porta-chaves não entra na cela e, a fazê-lo, nunca é muito tarde. Outro problema: quem havemos de escolher para fugir conosco? Há um corso do milieu de Nice, chamado Biaggi. Está preso aqui desde 1929, e metido nessa cela, sob apertada vigilância, como castigo de ter matado um cara. Eu e Clousiot discutimos se devemos ou não ir falar com ele, e quando. Enquanto assim conferenciamos, em voz baixa, aproxima-se de nós um efebo de dezoito anos, belo como uma mulher. Chama-se Maturette e foi condenado à morte - e a seguir agraciado devido à sua pouca idade, dezesseis anos - por ter assassinado um motorista de táxi. Eram dois caras, um de dezesseis e o outro de dezessete anos, e essas duas crianças, em vez de se acusarem mutuamente, no tribunal, declararam ambas ter matado o motorista, que tinha sido apenas atingido por uma bala. essa sua atitude durante o julgamento conquistou para os dois pirralhos a simpatia de todos os cadastrados. Maturette, muito efeminado, aproxima-se, pois, de nós e, com voz de mulher, pede fogo. Assim fazemos e, mais, eu lhe ofereço quatro cigarros e uma caixa de fósforos. Agradece-me com um sorriso provocante, e nós esperamos que ele se retire. De súbito, Clousiot diz para mim: - Estamos salvos, Papi. O árabe vai entrar aqui tantas vezes nós quisermos e quando nos apetecer. - Como é que isso é feito? - Muito simples: vamos falar com o pequeno Maturette e dizer-lhe que se “faça” com o árabe. Sabe que os árabes gostam de rapazinhos, e daí a ele entrar aqui de noite para comer o menino é um passo. Basta ele se mostrar esquisito,

dizendo que tem medo que o vejam, para o árabe aparecer às horas que mais nos convenham. - Deixa isso comigo. Vou ter com Maturette, que me acolhe com um sorriso encorajador. Julga que fiquei emocionado com aquela demonstração provocante, mas eu não estou com meias palavras: - Está enganado, vem comigo pra latrina. Ele obedece e, uma vez lá, eu despejo o sermão: -Se repetir uma palavra do que vou dizer você é um homem morto. Vejamos. Quer fazer isto, isso e isso por dinheiro? Quanto? Quer fazer esse favor? Ou prefere safar-se conosco? - Prefiro partir com vocês, está bem? Sim senhor, fica assente. Apertamos as mãos. Ele vai se deitar e eu, depois de trocar umas palavras com Clousiot, faço o mesmo. Por volta das oito da noite, Maturette senta-se à janela. Nem tem sequer de chamar pelo árabe, esse é que vem por vontade própria, e começam os dois a conversar em voz baixa. Às dez, Maturette se deita. Nós, desde as nove que estamos na cama, com um olho aberto, outro fechado. O árabe entra na sala, dá duas voltas e encontra um sujeito morto. Bate à porta e, pouco depois, entram dois homens com uma maca para levar o corpo. Esse morto chega a nos ajudar, porque justifica as rondas do árabe a que horas forem da noite. A nosso conselho, Maturette, no dia seguinte, marca-lhe encontro às onze da noite. O porta-chaves chega à hora marcada, passa diante da cama do garoto e puxa os pés dele para acordá-lo, após o que se dirige para as latrinas. Maturette segue-o. Daí a um quarto de hora aparece o porta-chaves, que se encaminha diretamente para a porta e sai. Maturette dirige-se logo para

a cama, sem dizer palavra. Abreviando: no dia seguinte, a mesma coisa, mas desta vez à meia-noite. Está tudo a correr bem, o árabe aparecerá na hora que o menino disser. A 27 de Novembro de 1933, às quatro da tarde, com dois pés da cama prestes a soltarem-se e a servirem de cacetes, estou eu à espera de um recado de Sierra. Chatal, o enfermeiro, me aparece sem papel e me diz apenas isto: - François Sierra disse-me para lhe avisar de que Jesus está à sua espera no lugar combinado. Boa sorte. Às oito da noite, Maturette diz ao árabe: - Aparece depois de meia-noite, porque a essa hora poderemos ficar mais tempo juntos. O árabe promete, e, à meia-noite em ponto, já tudo está a postos. De fato ele chega cerca de quinze minutos depois, vai direito para a cama de Maturette, puxa os pés dele e se dirige para as latrinas. Maturette entra com ele. Arranco o pé da cama, que faz um certo barulho ao cair. Da parte de Clousiot, não se ouve nada. Tenho que ficar atrás da porta da latrina, devendo Clousiot caminhar em direção a ele, para chamar a atenção dele. Ao cabo de vinte minutos de espera, a cena desenrola-se em um abrir e fechar de olhos. O árabe sai da latrina e, surpreendido por ver Clousiot de pé, diz-lhe: - O que você está fazendo aqui parado no meio da sala a essa hora? Trate de se deitar. Enquanto ele assim fala, aplico-lhe uma cacetada em cheio na nuca que o deita por terra sem fazer barulho. Visto, à pressa, o traje dele, calço os seus sapatos, nós o arrastamos para debaixo de uma cama e, antes de o empurrarmos completamente, damos-lhe outra cacetada na cabeça. esse já tem a sua conta.

Nem um só de entre oitenta homens desta cela se mexeu. Dirijo-me rapidamente para a porta, seguido por Clousiot e; por Maturette, ambos em camisa, e bato à porta. Um guarda abre e eu assento-lhe o ferro na cabeça. Um dos que se conservaram sentados deixa cair a carabina, devia estar com certeza dormindo, e fica também sem sentidos, antes que tenha tempo de reagir. Os meus não gritaram, mas o de Clousiot fez “Ah!” antes de ir abaixo. Os meus dois ficaram desmaiados na cadeira, o terceiro estendido ao longo do chão. Retemos a respiração. Parece-nos que todo mundo deve ter ouvido esse “Ah!” Não há dúvida de que foi bastante alto, mas o fato é que ninguém se mexe. Não os levamos para dentro da sala, vamos é embora com as três carabinas, Clousiot à frente, o garoto no meio e eu atrás, e assim descemos as escadas fracamente iluminadas por uma lanterna. Clousiot largou o ferro, eu conservo o meu na mão esquerda e com a direita seguro a arma. Lá em baixo, nada. À nossa volta, a noite é breu. Tem-se de olhar com atenção para se conseguir distinguir o muro junto ao rio, e para lá nos encaminhamos sem perda de tempo. Uma vez ao pé dele, ajudo os outros a subir. Clousiot trepa, cavalga no muro e puxa Maturette e depois a mim. Deixamo-nos escorregar no escuro, do outro lado do muro. Clousiot cai mal, dentro d -um buraco, e machuca um pé, eu e Maturette nos saímos bem. Ficamos de pé. Antes de saltar largamos as carabinas. Clousiot, não consegue se levantar, diz que tem a perna quebrada. Deixo Maturette com ele, e corro em direção à esquina, roçando a mão pelo muro. Como não se vê nada, ao chegar à extremidade da parede não me apercebo disso e cai de cara no chão. Ouço, vinda do rio, uma voz dizer: - É você? - Sim. É Jésus? - Sim.

Ele acende, em um ápice, um fósforo. Vi onde se encontrava, me meto na água, chego ao pé dele. São dois. - Sobe você primeiro. Quem é? - Papillon. - Bom. - Temos de recuar, Jésus, o meu amigo partiu uma perna ao saltar o muro. - Então segura no remo e trata de remar. As três pangaias cortam a água, e depressa a ligeira canoa percorre os cem metros que nos separam do lugar onde supomos que eles estejam, porque não vemos um palmo à frente do nariz! Chamo: - Clousiot! -Não fale, porra! - diz Jésus. - Acende o isqueiro, Enflé. Do isqueiro soltam-se umas faíscas. Clousiot assobia à lionesa, por entre os dentes: é um assobio que não faz barulho mas que se ouve bem. Parece o silvo de uma serpente. Continua a assobiar, o que nos permite encontrar o lugar onde está. Enflé desce, toma Clousiot nos braços e colca-o na canoa. Maturette sobe, por sua vez, e Enflé a seguir. Somos cinco, com a água a dois dedos do bordo da canoa. - Não façam um gesto sem eu avisar primeiro - diz Jésus. - Pare de remar, Papillon, e põe o remo atravessado em cima dos joelhos. Arranca, Enflé! E a toda a velocidade, com a, ajuda da corrente, a canoa some-se pela noite dentro. Quando, ao cabo de um quilômetro andado, passamos diante da penitenciária, fracamente iluminada pela energia produzida por um reles dínamo, nos encontramos já no meio do rio e deslizamos a uma velocidade incrível,

arrastados pela corrente. Enflé tirou o remo da água. Basta Jésus para, com a ponta do seu, que mantém colado contra a perna, conservar o barco em equilíbrio. Não o impele, apenas o dirige. Jésus diz: - Já se pode falar e fumar. Parece-me que nos safamos. Tem certeza de que não mataram ninguém? - Acho que não. - Ora que porra! Você me enganou foi certo, Jésus! - diz Enflé. Disseste-me que se tratava de um fugido como outro qualquer e afinal é uma fuga de internados, pelo que me é dado perceber. - São, sim, são internados, Enflé. Não quis dizer senão você não me ajudava e eu tinha necessidade de um homem. Não se chateie. Se nos caçarem, eu tomo as responsabilidades. - Assim está bem, Jésus. Por meia dúzia de coroas, não estou disposto a arriscar a cabeça, no caso de haver mortes, nem a perpétua, se houver feridos. - Ofereço mil francos ao dois - interrompo eu. - Ah, assim está bem, meu rapaz. Assim não tenho nada a dizer. -Obrigado; olha que se morre de fome na aldeia, é pior vir cá para fora que ser forçado. Ao menos, esses se empanzinam todos os dias e andam vestidos. - Então - diz Jésus para Clousiot -, dói muito? - Vai indo - responde o último. - Mas como vamfazê-los, Papillon, com essa perna quebrada? - Logo se vê. Para onde vamos, Jésus? - Vou escondê-los em uma gruta a trinta quilômetros da desembocadura do rio. Ficarão lá oito dias, para deixar esfriar a fúria dos guardas e dos caçadores de

através delas. a dada altura.É aqui que vão ficar oito dias à espera. e. são agora seis horas. A canoa esmaga os arbustos que. Vamos avançando. Clousiot sua às bicas e. Fazer fogo. Como continua só em camisa. onde nos detemos. De súbito. tem as pernas nuas. diz: . As margens são limpas e cobertas de erva. durante mais de uma hora. à escuta. tudo isso pode ser fatal. formando como que uma rede protetora de folhagem. aplainamos alguns troncos secos. depois de procurar muito. atingimos finalmente o esconderijo que só Jésus conhece. para trazer comida. se tornam a levantar. Eu apareço ao sétimo. as árvores enormes e. penetrando no meio da selva. Nos fala que. Sob essa abóbada imponente. são os mais perigosos. Temos de dar a impressão de que vocês saíram hoje mesmo do Maroni e se meteram no mar. a luz do dia. tossir. então. Jésus diz: . desembocamos em uma espécie de canal. entramos positivamente na selva. Com o machado. Só um bruxo é que poderia adivinhar que aqui há água suficiente para um barco poder navegar. tocariam no fundo. Os guardas andam em barcos a motor. Enflé puxa o pé dele. falar. ouve-se a gritaria de milhares de animais desconhecidos. São cerca de quatro da manhã quando. após a nossa passagem. A noite começa a clarear. uma minúscula árvore de cerca de dois metros. quando a maré começar a encher. não consegue penetrar. então. Os caçadores de homens usam barcos sem motor. se eles andarem perto. grandes demais para poderem entrar na gruta. afastando os ramos que barram a nossa passagem. que está estendido na margem. Tira. E agora vamos é tratar de Clousiot. Dentro estão duas pangaias.homens. do meio da espessa vegetação. ele regressará a São Lourenço.

Mergulhamos o maço em uma cabaça e passamos o suco da nicotina pela cara. Como a coisa se agravou com o ataque aos guardas. pertencentes a degredados.Ao sétimo. mantêmnos quentes no meio desta umidade penetrante. se não derem com ela. Bebemos rum. não tivermos aparecido. E os mil prometidos? Afasto-me um pouco e regresso com uma nota novinha em folha. Os casacos de lã são formidáveis.. Jésus havia comprado quatro pares de calças. é porque nos pegaram na aldeia. fixam-se os troncos à perna de Clousiot. coisa que ele ignorava. . Com a corda da cânhamo nova que há dentro da canoa. mãos e pés. Vamos na segunda garrafa. que ainda estão por colocar. Maturette e Clousiot vestem-nos. Os mosquitos não nos deixam em paz: temos de sacrificar um maço de tabaco. quatro camisas e quatro casacões de lã.Vamos embora. Serve para aquecer. fiquem aqui durante oito dias .diz Jésus. desde que partimos. que fica assim mais aliviado. ao fim de dez dias. porque. é o que vale. Atirou-a por cima deste e. . confessou-nos que não tinha deixado a carabina junto ao muro. Clousiot. Jésus diz que isso é bom. Se nós. os caçadores de homens vão pensar que estamos armados. deve ir por lá uma balbúrdia infernal. cada coisa no seu lugar. Como são os mais perigosos. joguem-se no mar. como o rio era logo ali. vão preparando a vela. o osso deve ter voltado ao lugar. o mastro e pondo o barco a postos. mas eu prefiro continuar com o traje do árabe. deve ter caído. por outro lado. e fixem os gonzos do leme. Enflé diz: . pelo lado deles.Até mais.Pronto! Na posição em que está agora dói-me menos. já não teremos nada a recear: . Ao oitavo. dentro da água. Entretanto. nós voltaremos.

mas ele diz que. são banhadas pelo sol. por meio da bússola. nos dirigirmos para o norte. Começa a aquecer. Passados poucos minutos. Por conseguinte. haveria a probabilidade de chegar ao presídio de Charvein. a piroga12 desaparece. Podíamos começar fazendo café. eu. Despendemos tantas energias. e pensando que nós guardamos conosco as carabinas. Maturette também. Ao fim de dois ou três dias de marcha. Fica para depois. devíamos subir pela margem do ribeiro até a selva sem água e.Quanto tempo duram na França os trabalhos forçados por toda a vida. livres. Dito e feito. Se nos sairmos bem desta. Uma vez aí. O único inconveniente é a perna de Clousiot. Caso fôssemos descobertos e tivéssemos de largar o barco. Maturette e Clousiot. A nossa primeira reação é rir: saiu tudo às mil maravilhas.armados apenas com um revólver e uma faca de talho. acende-se uma fogueira e cada um bebe a sua grande caneca de café preto. aqui estamos nós os três sozinhos. E lá se vão eles embora. no alto. Diria-se que nos encontramos debaixo de arcadas que. senhor presidente? E desato-me a rir. mais conhecido por presídio da morte. desde ontem à noite. teríamos de pagar a alguém para que fosse avisar Jésus que estávamos em tal lugar. os dois velhos presidiários. que apanhou perpétua. até depois. que não temos coragem para ir ver as coisas e inspecionar o barco. dá pra suportar. livres. É delicioso. Estamos livres. http :/ / am and ikaloka. não se aventurarão muito. Digo em ar de chacota: .4shared . não se pode dizer que a minha perpétua tenha durado por aí além. A luz do dia penetra no mato de um modo muito especial. Há precisamente trinta e sete dias que chegamos ao degredo.com . deixamos de ouvir ou de ver o que quer que seja. adoçado com açúcar mascavado. mas que não deixam filtrar o mínimo raio de luz. Clousiot comenta: 12 Canoa ind íg ena. Até depois. estando com ela metida em talas.

Cada espadeirada que o sáurio dá com a cauda. . Veio aqui beber e banhar-se um bando de baquires. porque eu. no qual nos lançaríamos ao mar. fizemos café. uma espécie de porquinhos selvagens. parece muito fraco para com ele nos lançarmos no mar. esse espetáculo durou vinte minutos. Tirei o casaco para me lavar com um grande sabonete de Marselha que achei dentro da canoa. para dizer a verdade. arrancando as raízes aquáticas. Tem uns pêlos enormes. uns dois mil. feito de madeira queimada. Dormimos bem e. a subirem em cima dele. não tem barba. de um negro arroxeado. Maturette faz a minha barba. de manhã. Um caimão surge. Não dou resposta. tentando morder as a bocarra dele. não me atrevi a dizer nada. sai de lá uma aranha enorme e peluda. e ferra a pata de um dos porcos. quer à esquerda. Um deles foi abaixo e flutua de barriga para cima. não se sabe de onde. sempre pensei. Passamos o primeiro dia conversando e a tomar contato com aquele mundo desconhecido que era a selva. primeiro para não influenciar os meus amigos e. Metem-se pela água dentro e nadam. Quando me preparo para vestir o casaco. Os macacos e uma espécie de pequenos esquilos fazem cambalhotas incríveis por cima das nossas cabeças. bem rápido. pelo menos. A Colômbia não é pertinho. até o último instante. a seguir. então se vê os porcos atacarem o caimão. É imediatamente devorado pelos companheiros. e depois o caimão sumiu. quer à direita. Não tornamos a vê-lo. como Jésus tinha o ar de achar isso naturalíssimo. que desata a berrar como um danado.. Ao ver que me enganara. e. Maturette. atira um porco ao ar. e esse barco. Deviam ser. que a canoa onde viéramos se destinava apenas a nos trazer até o local onde deveria estar o verdadeiro barco. com o meu bisturi. A água está tinta de sangue. depois. não quis dar a impressão de não conhecer os barcos habitualmente utilizados nestas fugas. é a vez de Clousiot. Ele.Ainda não se deve cantar vitória.

Estamos aqui há cinco dias e quatro noites. este. nesta manhã. A comida ainda chega: temos uma lata de óleo e uma série de caixas cheias de farinha de mandioca. os seus quinhentos gramas. que lhe fez um alto do tamanho de uma noz. A água escorregava . Os fósforos e a lixa estão metidos em garrafas bem arrolhadas. inclusive o pequeno barril de água. e armado com a faca e o machado. estes penetram na madeira como se ela fosse manteiga. mas não tenho o direito de lhes ocultar o fato. é enorme e sinto imenso nojo ao esmagá-la. sul. o obrigaremos a arranjar um barco mais seguro. irei como ele até a aldeia buscar outro bote. A bússola é de aluno de escola primária. a um curioso espetáculo: um bando de macacos de focinho cinzento em luta com outros macacos de focinho preto e peludo. mas certamente menor do que nos lançarmos ao mar neste caixão. Tiramos tudo de dentro do barco. Deve pesar. Custa-me explicar isso aos outros. sem mais graduações. costuramos os sacos de farinha em forma de trapézio. Jésus deve ter deitado muito permanganato para ela não se estragar. Como o mastro mede somente dois metros e cinquenta. Ao colocarmos os parafusos destinados a fixar os gonzos das portas que suportarão o leme. essa noite choveu torrencialmente e nos abrigamos debaixo de folhas de bananeira selvagem. Que faremos? Quando Jésus aparecer. O barco está podre. pelo menos. Faço um estai em forma de triângulo isósceles: isso irá ajudar a subir a proa do barco sobre as ondas. Corre-se um grande risco. Ao armarmos o mastro. Nós o desarmaremos. para reforçar. com uma corda na orla.com uma bolinha platinada na ponta. Maturette se machucou no meio da confusão com um ramo na cabeça. A água está roxa. reparo que o fundo da canoa não é muito sólido: o buraco onde entra o mastro está gravemente gasto e corroído. Assistimos. indica apenas norte. O patife do Jésus atira-nos para a morte. oeste. Com isso se vai longe.

a cerca de dez metros do braço do rio. Então o animal fica suspenso no ar. mas a pata fica-lhe presa no arame e o ramo dobrado desprende-se. acabamos por concluir que alguém deve ter posto ali aquela armadilha e que. De tempos a tempos. pelo menos. à procura de passagem. de um só golpe. dissimulado por pedacinhos de madeira. duas vezes maior que um galo dos grandes. Vamos até cerca de cento e cinquenta metros de distância do bote. tão estridentes e irritantes são os gritos que eu digo a Maturette que pegue o cutelo e vá ver o que se passa. depois de o ter obrigado a arranjar-me outro barco. e nos deparamos com um maravilhoso faisão suspenso no ar ou qualquer outro pássaro no gênero. possivelmente. Quando vê a porta. . um laço de arame. cinco quilos. não será a única por estes lugares: Vamos lá ver! Voltamos atrás e então nos deparamos com uma coisa curiosa: uma autêntica barreira de trinta centímetros de altura. Caiu em um laço e jaz pendurado de um ramo por uma das patas. Estou vendo que o animal deve ter chocado com a barreira. Ostenta esporões. contornando-a depois. Nisto. estendendo-se paralelamente à água. encontra-se uma porta e nela. Decidimos comê-lo. Pergunto a mim próprio se. mas depois. para acabar com aqueles gritos horripilantes e tento adivinhar o seu peso: tem. condena três sujeitos a uma morte certa. somos sobressaltados por uma gritaria ensurdecedora. Volta daí a cinco minutos. passa. e faz-me sinal para que o acompanhe. feita de folhagem e de lianas entrelaçadas. ia pensando no grande criminoso que Jésus é. não darei cabo do canalha. Enquanto bebia o café matinal. até o dono da armadilha aparecer. Ter-se aproveitado da nossa inexperiência para nos impingir esse bote todo podre! Para poupar seiscentos ou mil francos. como os galos.pela superfície envernizada das folhas e assim escapamos do molhado. só os pés é que ficaram encharcados. Corto-lhe o pescoço. amarrado na ponta a um ramo dobrado. pensando bem.

em direção ao formigueiro. todos do mesmo tamanho. Decidimos montar guarda às armadilhas. em bocados. corremos o perigo de ser descobertos. Não consegui perceber qual foi a falta grave que uma das operárias cometeu. sou eu que estou de guarda. Não podemos acender nada de dia. as quais chegam da direita. Cá em baixo. No dia seguinte. Dispõem-se em semicírculo e vigiam as carregadoras. essa noite comemos faisão. ou galo. A barreira parece-nos bem cuidada. Estou. uma risca cinzenta. Sigo-as até a planta que elas desmantelam. mas sei que teve de sair da fila e que duas formigas-policiais lhe deceparam. de noite. portanto. com a precipitação e a pressa de entrarem logo na fila. uma delas. o caçador não deve aparecer. com toda a rapidez. os quais vão caindo por terra. esqueço-me do que estou fazendo. Transportam. de guarda. O caldo fez-nos um bem extraordinário e a carne. o corpo em dois. e dividem-na. O barco encontra-se dissimulado sob a folhagem e todo o material na terra. A seguir. Rasgam. intervêm as formigas-policiais. a cabeça e. no meio do mato. o que significa que foi feita decentemente e que. às dez horas. mas. as cortadoras que preparam apenas os pedaços. que empurram as operárias até o respectivo lugar. não se sabe bem. mas um pouco diferentes. era deliciosa. Nessa altura. surgem engarrafamentos. intrigado com umas formigas-mandioca enormes e pretas que transportam grandes pedaços de folhas para um vasto formigueiro. junto ao maxilar. em fila. gênero bananeira. por altura do busto. primeiro. cada uma delas. mas. a outra.Esta descoberta deixa-nos muito apreensivos. cada um. que têm. . Têm mais de um centímetro e meio de comprimento e grandes patas. de vez em quando. e desaparecem pela esquerda. uma folha grande. Temos. Comemos. enormes pedaços de folhas. com incrível destreza. Agarram rapidamente na carga antes de partirem em fila. os policiais mandaram parar duas operárias. ainda que cozida. e observo a sua perfeita organização. duas tigelas cheias. portanto. encontra-se uma fila de formigas da mesma raça.

Não. dos policiais. a seguir. A ilha dos pombos De tal modo estava absorto na contemplação daquele pequeno mundo e.Quantos são? . onde as três partes do corpo da outra foram enterradas e. É um homem de tronco nu.Não se mexas ou é um homem morto. a seguir. . É de estatura média.Está armado? . atarracado e crestado pelo sol.Está sozinho? . cobertas de terra. os seus olhos e o nariz estão cobertos por uma tatuagem de um azul muito vivo.que depuseram o seu pedaço de folha e cavaram.Três. com as patas. Calvo. . Tem uma espingarda de dois canos na mão. um buraco. . que fui perfeitamente apanhado de surpresa por uma voz que dizia: . . No meio da testa. Vire-se.Leve-me até junto dos seus amigos. com shorts caqui e um par de botas de couro vermelho calçadas. para ver se a sua vigilância se estendia até a entrada do formigueiro. .Não. tem outra tatuagem representando uma barata.

.Pois bem. pode se gabar de ter posto a aldeia em pé de guerra. Ele aceita e senta-se na nossa companhia.-Não posso porque um deles tem uma carabina e não quero que se matem sem saber quais são as suas intenções.Tem razão. . com estas palavras: . estende-me um pouco de café e bebe também. .Fomos nós. Digo-lhe: . já ouviu falar de mim? .Eu sou o Bretão da Máscara.Sou eu. . .Sim. Vocês é que são os três caras que fugiram do hospital? . Aproxima-se de mim e. eu apenas armo ratoeiras para apanhar hocos.Ah! Então não se mexa e fale baixo. Riu-se baixinho da partida que eu lhe preguei com a história da carabina e diz para mim: . baixando o cano da espingarda. mas vejo que não é um caçador de homens. .Vem ver os meus amigos. O tigre deve ter me comido um. estende-me a mão.Não.Quem é o Papillon? . a não ser que tenham sido vocês. com essa sua fuga! Metade dos libertos encontra-se detida na Polícia.Quer café? De um saco que trazia às costas tira uma garrafa térmica.

esse pássaro selvagem é um galo da selva. levo-o para a aldeia e vendo-o a qualquer pessoa que tenha um galinheiro. para baixo. para as cercas que haja em volta. hocos vivos. mal vê nos ares uma ave de rapina. há vinte anos. aranhas. viver na França já não lhe interessa. põe-se diante da porta e ninguém percebe como ele descobre que falta uma ou duas galinhas. o que ele recusa. coleções de borboletas e. para cima. Bom. está ele plantado diante delas. . com o ar de contar todas as galinhas e galos que vão saindo. tanto mais que não houve sequer um caçador de homens que se dispusesse a procurar-nos. sobretudo. serpentes. Eis o que nos conta: . Vende-os por duzentos a duzentos e cinquenta francos. Como caiu na asneira de se deicar tatuar na cara. Mata ratos. Sem lhe cortar as asas. enquanto come juntamente com eles. Nunca mais abandona o galinheiro.Acreditei. nem homens. quando se abre a porta. e vai à procura dela ou delas. metemos o bicho. centopéias e. Pois bem: eu apanho um. Adora a selva e vive exclusivamente dela: peles de serpente. E. É um cão de guarda como não há outro igual. Proponho-lhe pagar pela ave. mete-os dentro do galinheiro à bicada. sem lhe fazer seja o que for. nem galo. peles de tigre. porque é um bicho muito procurado. na Guiana. tendo sido libertado há cinco. então. vai olhando para todos os lados. Tem quarenta e cinco anos. porque todo mundo sabe que vocês partiram com uma carabina. que foi a ave que nós comemos. ao cair da noite.. Segue-os. À noite. dentro do galinheiro e de manhã. mas o fato é que é verdade. É claro que nunca viu galinha. indignado. Explica-nos que está aqui. para aprenderem chegando na hora. enquanto ele faz frente ao inimigo. e. Essa extraordinária ave nós havíamos comido como se fosse o mais vulgar dos galos. seja galo ou galinha. musaranhos. obriga logo o “rebanho” a esconder-se no meio das ervas.

Vou dizer-lhe como deve agir e. . de maneira alguma.E então que havemos de fazer? . Enflé e mais uns trinta libertos se encontram presos no posto da Polícia de São Lourenço. em cru. ao passo que os guardas ficaram com um ligeiro inchaço na cabeça. Isolaram-no. Aí se encontram cerca de duzentos leprosos. É uma ajuda barata. põe os pés lá. O árabe foi metido nas masmorras. mais.A mim não vieram inquietar porquê todo mundo sabe que eu nunca me meto nesse negócio de fuga . nem sequer o médico. As duas pancadas que o prostraram não lhe causaram qualquer ferimento. acusando-o de cumplicidade. aproximar-se da aldeia. Para conseguirem uma boa embarcação. À primeira onda mais forte. vou ajudar-lhe.afirma. às oito horas. quero que você e os seus amigos saiam triunfantes. que também são leprosos. Todos os dias. para vinte e quatro horas. Não devem. . construídas por eles. Não há ninguém. .Tenho. Nunca se metam nisto. ele mostra vontade de o ver e depois exclama: . caçador de homens ou padre. Quando lhe falo no bote. seria um suicídio. realmente são. guarda. parte-se em dois. vai um bote levar-lhes a comida. que ponha pé na ilha. você bem que merece. Diz para nós ainda que Jésus é um patife dos piores. Os leprosos vivem em minúsculas palhoças. e as autoridades tentam identificar algum que tivesse andado rondando o edifício de onde nós escapamos. Não há lá nenhum guarda e ninguém. terão de ir à ilha dos Pombos. O enfermeiro do hospital entrega um caixote com medicamentos aos dois enfermeiros da ilha.Diz para nós o Bretão da Máscara que Jésus.Mas o cara queria atirá-los para a morte! essa piroga não se aguenta no mar mais que uma hora.Tem “massa? . Têm .

a seguir. São. passo para a minha piroga. não podem vender nada fora da ilha. onde voltam a refugiar-se. Há de tudo naquela ilha. na minha vida. tornarei a pôr os pés naquela ilha. sozinho. sou incapaz de vencer a minha repugnância . para estas excursões. Desculpa-me. Os guardas disparam sobre toda e qualquer piroga que entre ou saia da ilha dos Pombos. com alguns barcos roubados na aldeia mais próxima. ou poderia enganar-se. enchendo-os de pedras: quando precisam de uma embarcação.Como vamos de fazer? . Foi em pleno dia e. Criam galinhas e patos. . São João e com os chineses de Albina. por isso traficam clandestinamente com São Lourenço. Conclusão: a sua piroga só pode servir no Maroni e mesmo assim não muito carregada! Para se fazerem ao mar.“Ma Doué” . Vou levar você o mais perto possível e. tiram as pedras e o barco volta à superfície. uma vez feitas as patifarias.disse o Bretão -. o que melhora a ração deles. nunca serias capaz de encontrá-la. Fica a cerca de cento e cinquenta quilômetros da embocadura do rio.Olha: eu o acompanho pelo rio até ver a ilha. na Guiana Holandesa. para isso. que levaremos a reboque. o que eu vi bastou. Por outro lado.Porque não vem conosco até a ilha? . um dia cheguei a pôr o pé no pontão onde oficialmente atraca o barco da administração. gente de todas as raças e de todas as regiões da França. mas nunca. É por isso que os leprosos afundam os barcos.uma sala comum onde se reúnem. todos eles. O delito mais grave é possuir um barco. portanto temos de voltar atrás. Raramente matam uns aos outros. perigosos assassinos. Papí. têm de arranjar outro barco e o melhor. contudo. mas cometem inúmeros desaforos quando saem clandestinamente da ilha. Oficialmente. . e você foge como puder da ilha. Você. Contam. mergulham. é a ilha dos Pombos. De São Lourenço lá são cinquenta quilômetros.

de um vermelho acastanhado.Impossível. em falar e lidar com eles. Clousiot fica ao pé do Bretão. de maneira nenhuma. Diz o Bretão: . quando desembocamos no rio. Maturette no meio e eu à frente. nunca conseguiria encontrar esse lugar. à distância de vinte quilômetros. que ficará de guardando as coisas.Não. o estuário deste majestoso rio que se precipita no mar palhetado de mil e um revérberos de rosa e prata.Ao cair da noite. .Bom.Não senhor! Vou com a piroga vazia e voltarei aqui para buscar Clousiot. . mais vermelha no seu vermelho. por conseguinte. vou dormir um pouco. mais prejudicial que útil. incendeia o horizonte. Mil e uma centelhas de um enorme fogo de artifício lutam entre si. para ser cada uma mais intensa. andar pelo rio. Vemos.Quando partimos? . Cai a noite. . E de dia não pode. Um sol imenso. mais amarela no seu amarelo. que segue ao leme. . nem mesmo em pleno dia. Eu seria.Três horas. tem é que ir carregar as coisas a bordo da piroga.em estar ao pé deles. é quase noite. . nitidamente. O rio ainda é um lugar muito perigoso. Temos alguma dificuldade em sair do esconderijo e. que amarramos à nossa. A caça por vocês não terminou. do lado do mar. mais matizada nas suas cores que a outra. Ele vai buscar a sua piroga.Que horas são. . Bretão? .

arrastando-nos cada vez mais depressa.Avante . Batemos com tanta força. . temos a maré cheia. Dentro de uma hora. depressa chegaremos à ilha. Quando já se distingue bem o recorte das rochas. já estamos perto da ilha para onde nos encaminhamos: uma grande mancha. se bem que eu tenha . sem grandei esforço. A maré recrudesce. Não fumem mais. o barco é arrastado de fianco para a ilha. o Bretão mete-se na sua piroga. desprendea em um ápice da nossa e diz. simplesmente.É ali .Não têm de quê. com bastante rapidez. . Seis horas mais tarde. assim.Boa sorte. . Como já não é o Bretão a dirigir. encalhamos a três quartos na vegetação mergulhada na água. bem sincronizados. Os remos entram na água e nós deslizamos no meio da corrente. mas não me saio bem da manobra e assim. Maturette faz o que pode. Ainda procuro endireitá-lo e fazê-lo dar uma reviravolta. mais sentimos a maré nos empurrar. chut. mas deve ser difícil nos verem de tão longe.diz o Bretão. de meia em meia hora. sentimos a diferença. quase no meio do rio. ligeiramente para a direita: .diz o Bretão em voz baixa. impelidos pela corrente. Aproximamo-nos.Reme com forca para conseguirmos chegar até a meio do rio. que nos ajudará a subir o Maroni e.Obrigado.. A noite cairá de um momento para o outro. chut. Em cadência. A noite não está muito escura. baixinho: .É o fim do dia. com ela nos empurrando. chut. por causa do nevoeiro que se estende sobre o rio. Deslizamos a grande velocidade. rapaziada! . Quanto mais avançamos para o meio do rio. eu e o Bretão nos entregamos aos remos.

travado com a pangaia. até ficarmos cobertos por um enorme tufo de plantas.Que vem aqui fazer? Roubar? Julga que temos muita coisa? . etc. amigo.É um homem que fugiu. aqui você nada tem a temer. que esse é um gesto que aqui ninguém faz: não desejam me contaminar. que. . e então adeus víveres. Estendo-lhes a mão. mas não tenho a carabina comigo. depois de ter quebrado alguns ramos e pendurado aqui e além pedaços de sacas de farinha que preparara antes de partir. Chouette! Quatro vultos saem das palhoças. deixando os meus amigos no bote. Percebo. Caminho. .De graça ou pagando? . mas ninguém me toca. Distingo uma luz e. Puxa. decido deixar que eles me descubram. tentando morder minhas pernas. na minha direção. tarde de mais. sim.Quem está aí? Quem é? É você. “Oxalá que o cão não seja também leproso”. e como não sei como devo me apresentar. material. puxa.” . Avanço.Não. .Cala o bico.Avança devagar. se em vez de ramos e folhagem encontrasse um rochedo. precipita-se. Quando a luz flameja. . de bússola na mão. Se traz ela com você. a piroga ficaria feita em mil pedaços. “Que palerma. mas. Acendo um cigarro. deparo-me com três palhoças de onde sai um ruído de vozes. que desata a ladrar e a dar saltos. de repente. não lhes distingo as feições. penso eu.Sou eu. os cães não têm lepra. . Maturette salta para a água e puxa pelo bote. um cãozinho. Avanço mais. preciso que me ajudem. estou perto deles. aposto que é você o homem da carabina. Marcel? . coloque-a no chão. Bebemos um golo de rum e eu escalo sozinho a margem. como é de noite. e conseguimos amarrar o barco.

Sento-me em uma cadeira de palha. Há um.. sobretudo. sustém um comprido e grosso charuto que. A voz que mandou Chouette calarse diz: . É uma coisa horrível. Como estou sentado e eles cinco de pé. o direito está a . sim. esforço-me por não desviar os olhos nem exteriorizar a impressão que me causa. porque me puseram a luz bem à frente.Anguille. tem um cheiro nauseabundo. que a mecha desta candeia. a nu. vê-se bem. carne e osso. em cima da mesa. obrigado. O fumo.Vamos para a palhoça . que lhe restam da esquerda. amigo. envolta em ligaduras. pela primeira vez na vida. deixando ver três grandes dentes amarelos que entram no maxilar superior. E como digo: não dois buracos. decerto.diz Chouette. Tem o nariz completamente roído. que se senta à minha frente. Põe uma das mãos. um buraco no meio da cara. em cima da mesa. acesa com óleo de coco. Aqui não temos nada de beber para lhe oferecer. então. pois o charuto tem uma cor esverdeada. produz. Com os dois dedos. É a mão direita. ele próprio confeccionou com uma folha de tabaco semi-seca. . Chouette acende mais três candeias e coloca uma à minha frente. vai perguntar à casa comum se eles querem que a gente o leve para lá. Só tem uma orelha.Não. mas um só. A minha. o rosto de um leproso. se Toussaint concorda. . a menos que lhe apeteça uns ovos. sem costas. do tamanho de uma moeda de dois francos. não lhes vejo a cara. e eu vejo. Não tarde com a resposta e veja lá. Põe-me à frente um cesto de palha cheio de ovos. A cabana é iluminada por uma candeia pousada em cima da mesa. Só tem pálpebra no olho esquerdo. O lábio inferior está todo comido do lado direito.Sente-se.

perdendo-se depois no meio da cabeleira grisalha e abundante. Três minutos depois. rapaz. . Quando aqui cheguei. em toda a minha vida. . nos encontramos em . Traga-o até o centro. .O meu nome é Jean Sans Peur e sou dos arredores da cidade.Obrigado por querer me tocar.Havemos de ajudar. apresentando-me o lado esquerdo. Ele recua.Tratam.Onde é que está o cara? No limiar da porta. a mim próprio injeções de óleo de choumogra. Em dez anos. . .Toussaint e os outros querem vê-lo. Começa a secar deste lado. mas nunca mexa em um doente. não quero que lhe aconteça o mesmo que eu. aqui tem no que me tornei. Olha aqui.Apodera-se de mim uma imensa piedade e esboço o gesto de lhe tocar na face esquerda. quatro ou cinco à frente.Vira a cabeça. um gesto de amigo. Só vi. nem coma ou beba da sua vasilha. . era mais belo.Acompanhe-me. saudável e forte que tu. Fala-me em uma voz rouca: . Jean Sans Peur levanta-se e diz: . o desse que teve a coragem de enfrentar o meu olhar. eu ao lado de Jean Sans Peur e os restantes atrás.Obrigado. Saímos todos para o meio da escuridão.descoberto e uma chaga profunda parte-lhe deste olho até o alto da testa. um rosto de leproso.Não tratam você? . surge um vulto pouco maior que o de uni anão. . Estou melhor desde que comecei a dar. dizendo: .

um terraço iluminado pelo luar. Sentado em um tamborete.Em que lugar? . há uma casa.Como sabe disso? . para dentro do bote. . O primeiro inicia a conversa: . para transportarmos o meu amigo.Que tem ele? . . com uma espécie de chaminé acesa.Então deve ser recuperável? . que estava ferido. e você deves ser Papillon. É uma sala retangular.As notícias chegam depressa ao degredo.Em frente ao muro do hospital. afastam-se para nos deixarem passar. de rosto branco e olhos negros.Nós nos vimos obrigados a nos jogar na água.Uma perna quebrada. porque nesse local o rio não é muito fundo. . Vê-se a luz em duas janelas. aproximadamente. todas da mesma altura. . de dez metros de comprimento. e um banco comprido. o Corso. tão depressa como os seus golpes. exatamente onde saltamos.Sou.Que lhe fez? . Chegados diante da porta. se encontram cinco ou seis homens. . há uns vinte homens à nossa espera e vamos ao seu encontro. está um indivíduo sem idade definida. rodeada por quatro enormes pedras. . Diante da porta. essa sala é iluminada por duas grandes lanternas de petróleo. É uma espécie de planalto no cimo da ilha. Onde é que colocou a carabina? . No meio. por trás dele.Sou Toussaint.Jogamos no rio.Acho que sim. por quatro de largo. .

prefiro pagar. mas em duas horas arranjamos uma. se não. . de quatro metros.Na piroga.Disse que queria ajuda. um mastro de pau-ferro. vou vender-lhe o meu. e uma vela de linho nova. . . Tem tudo quanto é preciso: um leme com a cana completa. tenho dinheiro para pagar. .Sim.Não. que eu em troca dou-lhe o barco. de novo e de tão limpo que está.Tem. Quanto ofereces? . Não tem quilha.Um barco. Retira-o daí a momentos e deita café noutras canecas. colocados ao pé das pedras. Aquilo não é um barco..Quer que lhe dêem um barco? . se tiver. vai à procura da carabina na próxima noite. .Muito bem. .Onde está? . assente. .Faz você o preço. que me foi buscar. Puce. . faça café aí! Puce. Só lhe falta uma coisa: uma quilha. dirige-se para uma tábua presa à parede por cima da lareira.Três mil francos. que é formidável e novo em folha. roubei-o a semana passada em Albina. agarra em um caneco delata reluzente. que espécie de ajuda? . não sei o valor dessas coisas aqui. é um transatlântico.Cortei uns quantos ramos ao meio e arranjei uma espécie de talas. o semi-anão. deita-lhe café tirado de uma garrafa e o põe sob a luz.Bem. . esplêndida. negócio.Tem dores? .

Vou-me indo aos poucos. pois só pode partir de noite. dizendo: .digo eu. porque eu tenho lepra seca. e torna a me dar o caneca dizendo: .Está aqui . quando.Pode beber sem receio. Vou à pressa falar com os outros. Ficamos os três na palhoça.Olha. perdi outro dedo! Onde diabo terá ele caído? . depois de tirar tudo o que está lá dentro. com a maré na vazante. Chega-me às narinas um cheiro de carne grelhada. nisto. Puce pede-me que lhe ofereça de presente a piroga e uma pangaia. mostrando-lhe o recipiente. Nenhum doente bebe por ele. dou a Clousiot e a Maturette .pode beber. porque esse só serve para os que estão aqui de passagem. Eu as dou. e a seguir pouso-o em cima do joelho. e ele corre a afundá-las em um lugar só dele conhecido. Descola-o e atira-o ao lume. Só nessa altura reparo que tem um dedo colado. mas não apodreço. já tudo foi tirado e o material da piroga cuidadosamente arrumado. Puce estende-me o recipiente. não sou contagioso.” Toussaint dirige-se a mim: .enquanto Toussaint os vai passando aos indivíduos sentados atrás de si. Ninguém aqui pode ajudá-lo. Estendido entre os cobertores. Uma hora depois. Tento perceber o que se passa. A noite passou-se depressa. Agarro na caneca e bebo. Vinham envoltos em papel grosso de embrulho. deitados em cobertores novos que Toussaint nos mandou. Puce diz: . Traga o ferido para uma palhoça e esconda o barco. compreende porquê. Penso comigo: “Deve ser o dedo. Tem de avisar os seus amigos.vai ser obrigado a passar aqui o dia todo. agarramos em Clousiot e o levamos para uma palhoça.

pormenores do que se Passou desde que cheguei à ilha e do negócio que fizera com Toussaint.E a quilha. É um barco magnífico. aparece Toussaint: . caso queiram. vem aqui dizer. Aqui ninguém vos incomodará. A vela e as cordas também novas. De lado tem. os três mil que possuo. Lembro-lhe: .Quer dizer que a brincadeira ficou por seis mil e quinhentos francos. Não se avista nada. Podem apanhar papaias e comê-las. Enquanto tiver um tostão.Não estamos aqui para fazer contas de armênios. para deixar passar o mastro. Toussaint? . sendo um deles furado. ou seja. fixas. que deve ter proferido sem refletir: . com dois bancos.Bom dia. solidamente fixa com parafusos dos maiores e com os quatro furadores que possuíamos. Depois se verá. Podem sair à vontade. novinho em folha. sobretudo o barril da água. eu e Maturette temos dificuldade em virá-lo. Clousiot solta com uma frase tola. Ao meio-dia. . Com duas tábuas tem-se a quilha. muito pesada.Vamos já fazê-la com uma tábua da porta da enfermaria. É de madeira raiada. . Mãos à obra. a coberto da noite. Nenhum leproso entra na palhoça. Já trouxemos o barco para a terra. é porque não há novidade. Enquanto o pano branco estiver lá. de cinco metros de comprimento. Vou darlhe metade Papillon. Se ele vir qualquer coisa. afilada de trás para a frente. Tem cara postado em um coqueiro. está pronta uma quilha. no alto da ilha. umas argolas para amarrar a carga. para ver se há algum barco com guardas no rio. vou pagando. É pesado. Venha cá vê-lo. Vamos. Ao amanhecer.

bem amarrado a uma árvore da floresta.Não toque nelas ainda. Tem o tronco e o braço direito igualmente paralisados e conta que em breve aconteça o mesmo à perna direita. quando ia agarrar umas charneiras que eles haviam arrancado de um dos móveis da enfermaria para reforçar a fixação da quilha. em menos de três horas. O olho direito é fixo. a não ser uma vez. Enquanto trabalho. Ele. que ficou suja de sangue. Um leproso deitou-lhe rum em cima e pegou-lhe fogo. sem chagas. Toussaint vai-nos explicando como havemos de fazer e nós obedecemos. refere-se a isso e explica-nos que sofre de lepra seca. . E logo ele nos explica: . Ninguém mais fala. vê desse olho.Fazendo círculo à nossa volta. como se fosse de vidro. deixe estar. é que mexe.já te pode servir delas. cerca das três horas. por volta das seis. Então. quando fala. o esquerdo. uma corrente fortíssima.Você.disse o tipo . vemos que só um lado da cara. . Cortei-me ao arrancar uma. isso por duas vezes. Quando for obrigado a parar. vou conversando com Toussaint. as seis horas que a maré leva a encher. várias vezes. se bem que eu tivesse limpado. O rosto dele parece normal. a cerca de cem quilômetros da saída. Tem que esperar. Não parta logo. É possível que aqueles que os amaram ou conheceram nunca venham sabendo de que horrível modo eles se decompuseram em vida. mas não consegue mexê-lo. o levará. porque nunca nenhum dos três se lançou ao mar. mas. aliás. o que faz três horas da manhã. Toussaint diz para um dos leprosos: . explica lá ao Papillon o que tem que fazer. um dos leprosos me disse: . os leprosos observam-nos sem dizer palavra. Não vou aqui dizer os nomes dos leprosos. que já desceu o rio.Agora . Enquanto trabalhamos. serão nove horas. Ao cair da noite.A maré começa a vazar logo à tarde.

.porque a corrente ainda leva algum tempo para mudar. suporta dois estais. e você se agarre-se bem ao leme. . um de mezena. estejam a entrar no mar. mas toma cuidado: não pare nas costas. Tem uma hora e meia antes do amanhecer para vencer cinquenta quilômetros. Tanto a Guiana Holandesa com a Inglesa entregam os fugidos. direito às ondas do mar. na altura em que amanhece. . para lhe dar maior estabilidade. A Trinidad não o entrega. que tem que ter quando lhe avistarem. mas obriga-o a partir em quinze dias. esse barco só tem uma vela.Isso mesmo. Atire-se no meio do rio às quatro e meia da manhã. Esse quilômetro de avanço. ao passo que você já a terá transposto. Conhece o caminho? .Não. representa para a vida para você. fora da embarcação. só com os estais. A Venezuela devolve-o. É preciso que às seis da manhã. Se vires que o vento vem acompanhado de uma onda muito alta e que vai cair em cheio na água. quantas havia na piroga? . não poderiam perseguir-lo. trazê-la para bordo e içá-la então novamente. Os seus amigos que se deitem no fundo do bote. deve passá-la antes pela argola própria para isso e dá uma volta ao pulso com ela. que são sempre altas na barra. largue todo o pano e verá como o barco retoma o equilíbrio. deixe a vela bater ao vento e atirr-se para a frente.Uma vela e um estai. Portanto não poderão passar. para continuar viagem. para lhe alçar a proa. Se tal acontecer.O barco é pesado. joga-se o seu destino. Não amarre à perna a corda que segura a vela. Nessa hora e meia. Ainda que os guardas lhe vissem. Só sei que a Venezuela e a Colômbia ficam para noroeste. Põe a vela a todo o pano. e outro enfunado. pois chegariam à barra precisamente na altura em que a maré começa a encher. depois de lhe pôr abrindo estradas durante um ano ou dois. Só nas ondas azuis é que será oportuno mandar o menino descer a vela. da ponta do barco à base do mastro. com risco de se virar.

um por um.Bravo .Quanto tempo deve andar ao largo? Ao que eu respondi prontamente: . Toussaint pede-me que repita. .Ainda fica com dinheiro? . Quanto dá por ela? . só fiz dois dias a nordeste. Papillon? . Então pergunta Jean Sans Peur: .É caro? .Por quanto é que lhe vendeu o barco.responde Toussaint.responde Toussaint. o que dará precisamente oeste. Está descalço. é tudo quanto temos.Toma a minha pistola.Ouço-o com a máxima atenção. que não têm dedos. Só para saber.Não. da última vez.Posso. e chegarás a Curaçau ou à Colômbia. os conselhos que acabam de me dar. Toussaint? . exatamente três mil.Não.diz o leproso que me dera as explicações. o que eu faço sem me enganar. . . Toussaint . Pode pagar. se mete ao mar. mas. . na Guiana Inglesa.Também quero ajudá-los. Com três dias para norte. de vez em quando. viro para noroeste. A lepra dele só é visível nos pés.Três mil . Jean Sans Peur pergunta: . passará perto da Trinidad. como é leproso. por isso fui parar à Guiana Inglesa. Confessa que nunca foi mais longe que Georgetown. ou de Barbados. ao quarto. . nada mais. Explica-me que. Eu.exclama Jean Sans Peur. recambiam-no logo. Contando com a deriva.Faço três dias norte-nordeste. .Mil francos .Quero ajudar estes rapazes. isso dará norte-norte e. não perguntei por causa disso. . que estão na posse do meu amigo Clousiot. e pela Venezuela sem sequer dar por isso.

nesta altura. Sinto-me envergonhadíssimo. perante uma atitude tão nobre: . meu Deus. Só precisamos dele para jogar ou para pagar às leprosas de Albina que aqui vêm de vez em quando.Obrigado . É o caixote que chegou de manhã . por esse preço. envergonhado da minha mentira e digo: . Toussaint perde pelo menos dois mil. peço-lhes! Um negro retinto. completamente mutilado .diz Maturette. Aparecem doentes de todos os lados e todos eles deitam qualquer coisa. Mas não lhes posso agora dizer que ainda me resta dinheiro! Que vou fazer. esse que você tem aí. Não há razão para que eu também não faça qualquer coisa por vocês. porque é um excelente barco.Obrigado por tudo . Aceite-o sem escrúpulos. no entanto.Há.Não se sacrifiquem. Sinto-me. sim.em vez de mãos tem dois cotos. e nem um só dedo -. há um motivo.acrescenta Clousiot. diz: . .. Estas palavras tiram-me um peso de cima e evitam que confesse que tenho mais dinheiro. fixando Jean Sans Peur. é uma infâmia de minha parte. não posso aceitar isso da sua parte. Ele olha para mim e diz: . não há motivo para tanto. Três mil francos é muito dinheiro e. Ocorre então uma cena comovente: Choutte põe um chapéu no chão e os leprosos lançam lá para dentro uma série de notas e de moedas.Não é o dinheiro que nos ajuda a viver. Os leprosos puseram duzentos ovos para cozinhar. metendo-os depois em um caixote marcado com uma cruz vermelha.Não.

trinta quilos cada uma. álcool. Contou-se o dinheiro que havia no chapéu: oitocentos e dez francos. Não sei como lhe agradecer. tabaco em folha e duas garrafas cheias de fósforos e de lixa.com os medicamentos desse dia. Clousiot entregou-me o “governo” dele. Puxamos o bote até o lugar onde havíamos ancorado. contribuindo todos os seus membros para que sejamos bem sucedidos. Pergunto-lhe: . com as seguintes palavras: . muito simplesmente. O enfermeiro preparou um caixote com algodão. Diz então Jean Sans Peur: -Têm tudo a seu favor. ligaduras. aspirina.Tome a pistola. Contém uma nota de mil e quatro notas de quinhentos francos. para eu mudar. Espero que não seja obrigado a utilizá-la. às quatro e meia da manhã. Por volta das cinco. fossem apanhados. pelo menos. começa a chover. com as patas bem amarradas à carapaça. Trazem-nos também duas tartarugas vivas. podem partir agora e ganhar uma boa meia hora de avanço.Como vou fazer para saber as horas? . pelo menos. uma tesoura e adesivo. Um dos leprosos aparece com umas tabuinhas delgadas e bem aparadas e duas ligaduras Velpeau. uma saca de cinquenta quilos de arroz. antes de mais nada. ofereço-lhe. Ofereceme isso. as talas da perna de Clousiot. Como não correm o risco de ser vistos. de. seria lastimável que. no último momento. e a seguir a todos os outros. o fogão da enfermaria e uma lata de gasolina. Ficarão assim mais perto da embocadura quando tiverem de partir. ainda por servir. Assim só tenho que dar a Toussaint mil e duzentos. que eu abro à frente de todos. tintura de iodo. duas sacas de carvão. vocês deram tudo por tudo. por falta de uma arma. Passo a Toussaint mil e quinhentos francos e ele devolveme trezentos. essa miserável comunidade deixou-se comover pelo nosso caso.

o seu aprumo e a nossa sorte em termos encontrado o Bretão da . que não quis mudar as talas. empecilha-nos os movimentos com os ramos. Jean Sans Peur despede-se: . . Não é como a piroga fica com quarenta centímetros fora da água. Fumamos. Fato estranho: nenhum de nós faz referência às horríveis feridas de todos aqueles leprosos. a sua generosidade. Caiu a noite. com a vela enrolada. com o olhar fixo nas águas. visto que só deverá ser colocado à saída. está deitado. mas felizmente mais devagar.diz Toussaint. . Continua a chover.Adeus. enquanto Maturette se instala na proa. Urna árvore enorme. bebemos rum. Com os cobertores. entre mim e o barril da água. Jean.Obrigado. levados pela vazante. pelo menos. do lado da costa holandesa. Fica aos meus pés.. depois de carregado com todo o material mais nós os três. para não irmos de encontro aos rochedos. O mastro. obrigado. um pouco inclinado para a esquerda. Experimentei logo uma sensação de segurança que a piroga não me dava. Maturette vai todo debruçado na proa. Toussaint. Continua a chover. fez-se um nicho no fundo do bote para Clousiot. Os leprosos ofereceram-nos seis garrafas empalhadas cheias de rum. se mandem depressa. Montamos o leme com o seu dispositivo de segurança e a cana e pomos no banco uma almofada de palha para eu me sentar.Vja conforme a maré esteja cheia ou vazia. não conseguimos ver nada a dez metros de distância. terei de descer pelo meio do rio. Conseguimos livrar-nos dela rapidamente e continuamos a vogar a trinta à hora. empurrando energicamente o bote com o pé. O nosso único assunto de conversa é a sua bondade. que desce o rio como nós. mil vezes obrigado a todos! E não tardamos a desaparecer. Pomos o barco no rio.Boa sorte! . Como há duas ilhotas no caminho. que começou já fazia duas horas e meia e nos arrasta a uma velocidade incrível.

que nos levou até a ilha dos Pombos. e se não nos guiássemos pelo fluxo e refluxo das águas. coberto de nevoeiro. Há quanto tempo acha que partimos? . Cada vez chove com mais intensidade.Endoideceu? Como é que sabes? . . Viro o leme para a direita. e de cada vez cortei um pedaço de cartão.responde Clousiot. Ora eu tenho trinta e nove cartões. mas estes casacões de lã são tão bons que. estou encharcado até os ossos. Não sentimos frio. no escuro criado pela vegetação. Antes de chocarmos de encontro à vegetação.Máscara. a fim de cortar o rio de través e aproximar-me da margem. seria impossível dizer onde começa o mar e termina o rio. conservam o calor. Não descemos. há três horas e um quarto que vimos a caminho. Como cada um corresponde a cinco minutos.Tenho vindo a contar de trezentos em trezentos segundos.Espera um pouco: três horas e quinze minutos. nem subimos. Eu remo também.Agarra na pangaia e chega-lhe com força. Ou eu me enganei muito. Paramos de fumar e de falar. Aportamos devagarinho.Já vou dizer . devido ao frio e à chuva. vemos que a corrente se imobilizou.Neste momento . desviamos os ramos e abrigamo-nos debaixo deles. Continua a chover. Assim nos deixamos ficar. A grande aventura .diz Maturette . com o leme preso debaixo da perna direita. O rio está cinzento. mesmo molhados. ou daqui a quinze ou vinte minutos paramos de descer. do lado da Guíana Holandesa. Só a mão com que seguro a cana do leme está anquilosada. desde que partimos. . e eu segredo: .vamos a mais de quarenta à hora. .

e farto-me de dormir. Com mais hora e meia de espera. Bebemos cada um uma boa golada de rum. que arrasta ervas. preso no calço e no buraco que há no meio do banco. tenho a impressão de que não estamos a mais de dez quilômetros da embocadura. nem chuva. Mas tenho que dormir. em seguida. a vela. arvores. Maturette estende um cobertor entre o banco e o barril. Já há muito tempo que a vazante começou. Viemos parar muito mais abaixo do que supúnhamos. nós o colocamos então. quando terei ensejo de o fazer? Deíto-me ao longo entre o barril e o mastro. Para pôr a vela em posição. posso dormir sete horas. bem abrigado. Consulto os outros: içamos a mastro aqui? Sim. uma vez no mar alto. a servir de teto. Procuro ver onde ele acaba e principia o mar.Papi. Só olhando para o céu é que consigo adivinhar onde se encontra a costa. Deixou de chover. Não há nada que me perturbe neste meu sono de chumbo. basta eu soltar a corda que a prende ao mastro. porque. Aqui onde estamos não corre vento. Os estais serão aparelhados por Maturette quando a mim me parecer oportuno. nem a má posição. até que Maturette me acorda: . mas deixo-a enrolada em volta do mastro. e assim. ou quase. um quarto de Lua permite-nos ver nitidamente. se bem que me encontre em uma grande excitação. primeiro que venha a vazante. mas será assim no meio do rio? E soprará com força? Saímos do nosso abrigo de folhagem. o fim do rio e a entrada do mar. Durmo. nem sonhos. Iço. formas escuras. cada vez mais rápida. O barco está virado em direção ao mar e a corrente me escapa por entre os dedos. ponho-me a dormir. parece que estamos na hora. a dormir. e eu. o rio. do meu lugar . a cem metros à nossa frente. mas o bote continua amarrado a uma grossa raiz por um nó corredio.A maré encherá durante seis horas.

que Deus nos abençoe . . de um momento para o outro. Temos de nos afastar rapidamente e com genica da margem. levados pela corrente.diz Clousiot. a cerca de dois quilômetros. porque.Impossível. onde a corrente nos prende. do lado direito. a um quilômetro de distância. Avante. . Acha que teremos tempo de sair? . Deve ser mais tarde que o combinado. a holandesa. Maturette repete em surdina: . como em pleno dia.diz Maturette.Sim. e. Deslocamos sem grande custo. a costa francesa. eu com outro. . os remos bem fundo na água e puxamos com força. do esquerdo.me encarregarei da manobra.Aparelha os estais e amarra-os bem! O vento mete-se por ali adentro e o barco empina-se como um cavalo e desliza como uma flecha. e que Deus nos ponha a virtude! . Metemos.Em suas mãos me confio . . De um momento para o outro. Na proa.Repare como as ondas estão altas e com a crista branca! Já teria começado a encher? .exclamo. . na popa. Maturette com um remo. E arrancamos. levanta-se vento que nos empurra para o meio do rio.repete Clousiot. .Atenção.Não temos tempo de sair.Não sei. estou vendo coisas descendo. à uma. o rio fica todo iluminado. Distinguimos perfeitamente. . Visíveis. à nossa frente. os cabritinhos brancos na crista das ondas. Ainda mal nos afastamos uns vinte metros da margem e já descemos uns cem.Ora que porra! Nos enganamos nas horas . não chegamos a tempo.

não me arrasta. Como somos deportados franceses deve ter sido por isso que pararam com os tiros. pan-inh. As ondas sucedem-se com a mesma cadência. Com o barco virado a três quartos. preso pelo pulso. Não foram os guardas. puxando com toda a força pela corda que prende a vela. para iluminar essa vitória da nossa energia sobre os elementos. fica a direito à minha frente. a qual. Pan-inh. O segundo eu consegui localizar. que se infla de tal maneira que. Tão depressa vemos que o barco é atirado para o meio do estuário como. são altas.. Mas sim sujeitos da Guiana Holadensa. Solto a vela. E você. assim. Viro devagar de bordo.. solto a vela e assim saímos do estuário com o vento a soprar por trás. O barco leva uma inclinação de mais de quarenta e cinco graus. Taque-taque.. Deslizamos a uma velocidade vertiginosa. Vêem-se nitidamente alguns homens correr até a margem. o barco sobe e desce nas ondas. Uf! Até que enfim! Dez minutos mais tarde. e fica por aí. pan-inh. Pan-inh.Hurra! Hurra! Já estamos fora! . com a mesma facilidade de um garoto a saltar ao eixo. no entanto. Passamos estas ondas. por um pouco. . Só aquele taque do costado ao descer da onda e ao ferir a água. bem como o estai.-Cale o bico e deixe-se sentado ao pé das cordas do estai da mezena e da bujarrona.grita Clousiot a plenos pulmões. Vão diminuindo de altura à medida que nos embrenhamos . E. Clousiot. vou parar junto à margem francesa. o bom Deus concede-nos um nascer do dia deslumbrante. que. o mais devagar que posso. com uma ventania de acabar com tudo. sem vibrações nem sacudidelas. pois sopra com força. cale-se também! Pan-inh. o que não é difícil.. e a bujarrona muda sozinha. em poucos minutos. mas a ultrapassamos facilmente e o chuit-chuit do barco nas águas do rio transforma-se em um taque-taquetaque. a primeira onda do mar tenta barrar a nossa passagem. Aproveito o vento o mais possivel. Somos visados por tiros de carabina.

sigo reto. me volto. e fazemos uma saúde. não temos dificuldade em nos secarmos. sentado de frente para mim.Então não vai querer. Maturette está sentado ao meu lado esquerdo e nós olhamos uns para os outros. o que nos proporciona uma viagem confortável. se Deus quiser. mais aquela massa verde nos revela os segredos das suas reentrâncias. Mais ao norte.Quererá dizer. O Sol depressa se levanta. de metal.. pois dei mais corda à vela que. Quanto mais nos afastamos. mas com o barco menos inclinado. as ondas da altura de três metros. para onde é que vai? .mar dentro. A água está suja. Os rostos deles resplandecem de felicidade. mas muito arrastadas.me dá a tafiá para regarmos essa saída . mas. cheia de lama.diz Clousiot. tornar-se-á azul. fica meio enfunada sem ficar tensa. quando. e o meu deve estar na mesma. . de vez em quando.diz Clousiot.Para a Colômbia. passa-me e fumamos os três. Clousiot então pergunta: . O vento continua forte e nós fugimos rapidamente da costa. senhor capitão. batido pelo vento. com as costas apoiadas no barril. depois faz-me um cigarro. assim. Molhada. Começou então a grande aventura. . Quer tirar a cabeça de fora para ver melhor. mais tarde. Estava eu virado para trás. Clousiot soergue-se. Maturette deita uma boa porção dentro de um copo de três. porra! . A bata do hospital é transformada em um alhornoz estilo árabe. nisto. para onde eu. acende-o. Não preciso olhar para a bússola: com o Sol por cima do meu ombro esquerdo. Maturette ajuda-o a ajeitar-se. parece-nos negra. refresca a cabeça e evita as insolações.. vendo-a esfumar-se no horizonte. O mar é de um azul opalino. uma onda mais arrevesada me chama à ordem .

e me lembra o quanto sou responsável pela vida dos meus companheiros e pela minha. O fogão a petróleo está bem seguro. Aliás. não sou grande bebedor.Eu seguro no fogão e você na marmita . Arrependo-me de não ter lembrado de arranjar uns óculos escuros. .Um golo de rum? Recuso. lá na popa. E um bom café em cima. . onde é proibido fumar. Verifico que durante o dia não há necessidade de sempre recorrer à bússola. temos a sensação de que a água aqui já é muito profunda. decorreu da melhor maneira. está muito calor. . Ainda só navegamos há cinco horas no mar alto e. De vez em quando. Clousiot confessa: .diz Clousiot. As reverberações do Sol fatigam-me a vista. tomada a bordo.diz Maturette. Nós o comemos quente. em Fernandez. . Se tivessem aceitado.. situo o Sol em relação à agulha e deixo-me guiar por ele.Com certeza que teria complicações para atrair o árabe à sala na hora exata. com duas latas de sardinhas.E daí! .Vou tratar de fazer arroz . A primeira refeição. Está um dia maravilhoso. As ondas diminuíram de altura e nós as cortamo sem bater com o casco do barco. eu também tive sorte por te ter decidido me acompanhar.Que sorte eu tive em encontrar você no hospital! . Pela posição do Sol calculamos que sejam dez da manhã.Não é só vcoê. Clousiot passa o tempo fazendo cigarros e acendendo-os para mim. Nisto. Penso em Degas. . é muito fácil.acrescenta Clousiot. O arroz cheira otimamente.. . no entanto. estariam agora aqui conosco.

e o médico. corajoso e hábil.“Bem.. .diz Clousiot. por isso devem saber que se não os mandasse buscar é porque era impossível. apesar da minha pouca idade e do que sou. porque escapou. eles se conhecem. obrigado a vocês dois por terem tido confiança em mim.diz Maturette -.“Não sei. Depois deve ter pensado: “O meu protegido. Maturette foi-nos muito útil e só tenho a felicitar-me por tê-lo trazido também. Jesús ajudaria os dois a fugir e a virem conosco. . . Papillon. assim como Galgani. Tentarei me mostrar sempre à altura.Foi ele que quis fazer-lhe um jeito .. .Sim. não era tão idiota assim. como estava você ali.Obrigado . .Com o rumo que as coisas tomaram.” Proferimos frases sem pés nem cabeça.A propósito. com aquela carinha de menino do coro.Eu não sabia que estava internado.E François Sierra. era impossível. Enfim. Maturette. sob apertada vigilância? .Vai lá saber por que motivo é que o médico lhe fez isso. Se Jésus tivesse sido um cara honesto e nos tivesse arranjado um barco corno devia ser. não é nada. pois é um rapaz dedicado. que eu tanto gosto tinha em que me acompanhasse. Por quê? “ . eis tudo. Eu riposto: . senhor doutor. Eu digo: . disse-me: “Vejo pela sua ficha que está internado nas ilhas. naquela cela do hospital.” E assim fiquei hospitalizado. Que quer dizer internado?” . podia ter esperado por eles escondido. Fui à consulta porque me doía a garganta e para dar um passeio. Para o hospital.. ao me ver.

quando fugi.É meio-dia ou uma hora. De noite. essa noite.Segurem-se bem. A leste. está tudo escuro. na sua trajetória leste-oeste. Baixamos a vela grande e a bujarrona. De dia. por seu turno. a menos que ainda ande escondido pelo mato. para me impedir de dormir.. Içamos apenas a bujarrona. do lado de onde sopra o vento. decidi dormir. deixei escrito debaixo da almofada: “Partiu sem deixar morada. Na manhã do sexto dia. queimava-me com o cigarro. . Clousiot. porque vem aí uma tempestade. As nuvens negras aproximam-se a uma velocidade vertiginosa. por detrás de mim. então. recorro a ela. Como o mar está plano. Começam a cair grossos pingos de chuva. Clousiot. o homem do martelo? Já deve ir longe. graceja: . que nos arrasta pelas águas lisas. adormecia. levaram menos de um quarto de hora da linha do horizonte até junto de nós. Estou morto de fadiga. apesar de tudo. bem abrigado do sol pela vela estendida por cima de mim. Aqui as temos e uma ventania de violência inaudita . deixamos só armado o estai de mezena e eu caio a dormir como uma pedra no fundo do barco. o Sol. serve de bússola. somos saudados por um sol brilhante. Levanto-me e retomo o meu lugar. Maturette passava-me pela cara um pano molhado na água salgada e eu. por um mar de súbito calmo e por peixes voadores que passam à nossa beira. O estai e a bujarrona são suficientes para fazer singrar o barco a toda a velocidade. está tudo escuro e o vento é cada vez mais frio. Vogamos sem problemas durante cinco dias. Mando atar bem a vela grande em volta do mastro.Quem sabe se não iremos encontrar Julot.” Desatamos a rir.Eu. mas eu o acordei porque o vento arrefeceu e no horizonte. Acordo com o Maturette a abanar-me e a dizer: .

o barco sobe e desce a alturas incríveis e a sorvedouros tão profundos que temos a impressão de não tornarmos a sair dali com vida. apesar de tão incríveis mergulhos. umas atrás das outras. que grande parte da água que antes havia entrado é expulsa pela borda fora. vence uma nova crista de onda. viu como é? . o vento uivando à nossa volta. Vejo que fiz uma descoberta . formam-se como por encanto. corto-a. Deve ter mais de setenta e cinco centímetros de água. Com o nervosismo. o Sol sumiu-se por completo. apanho com uma onda de lado. no entanto. coisa extremamente perigosa. Se ele soubesse que a minha falta de experiência esteve quase a nos virar do avesso em alto mar! Resolvo não luta mais com as ondas. e me meto em uma enorme quantidade de água. Como se fosse uma palha. ele volta sempre ao de cima. com o desencadear de toda a fanfarra das forças da natureza. . achando que devo opor uma certa resistência a uma onda mais alta. ondas. chove torrencialmente e não se vê um palmo à frente do nariz. Apanho as ondas a três quartos. a uma velocidade incrível. e deixo de me preocupar com a direção para tentar manter simplesmente o bote o mais equilibrado possível.É verdade. prestes mesmo a voltar-se. – Você não se sai nada mal nisso aí. passa e torna a passar. E. muito cedo. chuva. Papillon! Conseguiu esvaziar logo a água do barco! . deixo-me ir até o fundo juntamente com elas e volto depois à superfície. a minha primeira tempestade. com a sua crista de espuma. É uma tempestade. O barco fica completamente inundado. Ao baterem no casco. relâmpagos. trovões.desaba sobre as nossas cabeças. e o barco inclina-se de tal modo. possivelmente.respondo eu. Seguro o leme com as duas mãos e.grita Clousiot.Bravo! . as ondas fustigam-me impiedosamente o rosto. As ondas.

importante e que. Você é um ás. iluminando com os seus últimos raios toda essa imensidão. . projetando-se em grandes línguas amarelas. Caminho ao encontro da noite com a maior das calmas.Então. em um espetáculo inolvidável: o céu de um vermelhoacastanhado. mas agora já consigo distinguir as coisas à minha volta. no meio desta paz. com os tachos. conforme a cor do raio que nelas incide. o vento acalma e as ondas são menos altas. O Sol está quase se pondo. farinha. Deixa de chover. muito escuro. reparou como eu fiz para esvaziar o barco? . tanto pelo céu. e as ondas que.Olha. Iço a vela e aí vamos nós. Consegui me livrar desta tempestade. como pelo mar. Por detrás de mim.pergunta-me Maturette. Clousiot. são azuis no fundo. tínhamos ido ao fundo. com o vento que está não demoram a ficar secos. ao erguerem-se. a seguir verdes e com a crista vermelha. Eles despejaram. Arroz. O Sol volta a brilhar por cima de nós. que me serviu de lição. Tiramos para fora os cobertores: amarrados ao mastro. o céu está limpo. já vê que as lições da Marinha de Guerra sempre servem para alguma coisa.Foi na Marinha que aprendeu tudo isso? . Invade-me uma sensação de bem-estar fora do comum e. o Sol meio mergulhado no mar. . um café duplo e uma boa golada de rum. com as suas nuvens brancas. óleo. tudo já se acalmou. amarela ou cor-de-rosa. e nós exatamente no meio. . o vento continua a soprar raivosamente. tenho a certeza de que posso confiar em mim. à frente. suprimi oitenta por cento do perigo. pois consegui aprender todas aquelas manobras necessárias sem a ajuda de ninguém. a água que ficou no barco. .Foi. se você não tivesse feito aquilo e uma segunda onda tivesse vindo de encontro a nós. assim. todos contentes. Por volta das cinco horas.

Agarro na faca de talho e mando Maturette deitar-lhes uns bagos de arroz. deixo-o boiando. Há onze dias que andamos no mar. Estão todos pelados. já começa a fermentar. com o vento e o mar que pegamos. com um golpe. a não ser uns vendavais e uma bátegas de água que nunca foram além de três horas. Devem ser duas horas da tarde. pela altura a que está o Sol. Vá-se lá saber agora. É um peixe de dois quilos. Os peixes. mas em que posição em relação à Trinidad ou a qualquer outra ilha inglesa? Mas basta falar no burro. O mesmo sucede a Maturette e a Clousiot. na nossa frente. vêm à tona de água. agora violetas. a pouco e pouco. nós o vemos agora . Untamos a cara com óleo. A noite cai repentinamente. Vemos. O lugar onde Maturette lavou a louça está rodeado de peixes.. do seu fogo de artifício. em carne viva. É um navio. assim como o nariz. é isso mesmo.. um ponto escuro que. com farinha de mandioca. que. Nós o limpamos e o cozinhamos em água e sal. logo que o Sol desaparece por detrás do mar. Será um navio ou uma chalupa de alto mar? Foi engano. dardejando os derradeiros raios. atraídos pelo arroz. não vinha na nossa direção. Não corre uma aragem. aliás.Devemos ter andado muito tempo à deriva. Comemos à noite. muito ao longe. disso tenho eu a certeza. realmente. eu. Quando acordo tenho os lábios a arder. só vimos um barco. está uma calmaria completa. Começo a me perguntar onde diabo nós estamos. Que estamos no mar alto. no horizonte. como continua a calmaria. São dez da manhã. depois de ter apanhado água. Durante esse lapso de tempo. procuramos arranjar uma sombra com a ajuda do vento. Durmo durante cerca de quatro horas. quantas milhas nos desviamos em quatro horas? Vou me inclinar para noroeste para corrigir o rumo. Depois da refeição. se vai tomando maior. Navegamos mais seis dias sem acontecer nada de especial. mas não é o suficiente: o sol dos trópicos depressa seca o óleo. duas vezes por dia. A mão direita também está pelada. e como um deles quase tem a cabeça de fora.

. . . É fato que se aproxima. Trata-se de um petroleiro. ouve-se o silvo de uma sereia. devagarinho. .Porque somos fugidos e não seguimos na sua direção. o barco decerto não nos viu. . mas que estamosmuito bem.French Guyane. porém.Where are you coming from? .Diga-lhe que agradecemos.Falam francês? . o cozinheiro.Vamos para onde Deus nos levar. Aproxima-se devagar.distintamente atravessando-se no nosso caminho. . e.Não há perigo. sim.O capitão pede que subam para bordo. Depois içará o barquinho de vocês.Falamos. É evidente que devem estar se perguntando o que faria essa casca de noz aqui. no alto mar? . De repente. Um petroleiro com passageiros parece coisa rara pra mim. Percorre um caminho diferente do nosso. Como não há vento e as nossas velas pendem inertes. melhor se distinguem as pessoas na coberta.Que fazem aqui. o mar está calmo. Quanto mais se aproxima. mas de esguelha. A dama fala com o capitão e diz para nós: . O navio se aproxima. ao largo.diz uma das mulheres. a seguir. e o barco muda de direção. Percebemos que se trata de passageiros. .diz Clousiot. . já se distinguem perfeitamente os oficiais de bordo e demais homens da equipagem.Oxalá que não se aproxime muito . . vemos aparecer umas mulheres de vestidos às cores e uns homens de camisas berrantes. encaminhando-se para nós. e o capitão se dirige a nós em inglês.Porque não querem ajuda? .

.Para onde é que vão? .No alto mar.Olhem a carta! Olho para o mapa e digo: . um dos marinheiros atira um boné. como esperado. eu me afasto com um pouco de medo do remoinho das hélices e. que dois dias mais tarde chegamos. Onde estamos? . com o seu galão dourado e uma âncora.tenho que ir para oeste um quarto sul para encontrar as Antilhas Inglesas. quase nos tocando. pão e uma perna de carneiro assada. aproximadamente? .Que caminho havemos de seguir para irmos ter às Antilhas? .Sabem ler uma carta marítima inglesa? . à Trinidad. não é assim? . Daí a pouco descem. . obrigado a todos! .Chegarão lá em dois dias .Adeus. uma carta inglesa. que vem cair precisamente no meio do barco. .É. nessa altura. ..O comandante do barco felicita-o pela sua coragem de marinheiro! . adeus! E o petroleiro afasta-se lentamente. E é assim.Sabemos. em uma corda.Obrigado.Para a Martinica e para muito mais longe ainda.responde o capitão. .Quantas milhas. alguns pacotes de cigarros. com esse boné posto.

Por volta das nove. deito a âncora. Untamos a cara com manteiga de cacau. que os caras do petroleiro nos deram de presente. para ver a reação das pessoas e. Procedo assim. o fundo for de coral.Viva a liberdade!. por acaso. mais tarde. os pássaros já nos anunciavam terra. A trezentos metros da costa. que fica logo presa. que correm em direção à praia para a qual nos dirigimos. reúne-se uma multidão de cores variadas. se.exclamou Clousiot.Trinidad Muito antes de nós a termos visto. . com o cimo coberto de coqueiros.ajuntou Maturette. Só às quatro da tarde é que conseguimos ver.. possuído da maior emoção. Estamos chegando!. em pormenor.. Todo mundo veio até a beira-mar para nos receber.Conseguimos ir bem nessa primeira etapa. a mais difícil de todas! . Uma brisa fresca.gritaram ambos. . por um lado. Viemos sabendo. Em menos de vinte minutos.. uma ilha comprida.Estamos chegando!. nem se as casas são habitadas. Só depois de uma hora é que distinguimos as pessoas. Ainda não nos apercebemos bem se se trata de uma ilha ou de uma península. Às sete e meia da manhã. .. . para não rebentar com o barco. Cada um exterioriza a sua alegria com exclamações pueris. por outro.. para nos aliviarem das queimaduras. avistamos terra. nos impele uma boa velocidade sobre as águas pouco agitadas. mas não muito forte. marginada de amontoados de casas brancas. Recolhemos as velas e ficamos à . .. eles começaram a esvoaçar à nossa volta. que essa aldeia se chama São Fernando.

acariciam-nos. em território inglês: uns quantos degraus de madeira e uma porta com uma rede metálica.4shared . negras.espera. mestiças ou índias.Good captain.diz. que se encontra na praia.com) . assim me explica. . Diz que podemos deixar tudo dentro do barco até o dia seguinte. A bordo. dois negros que remam e um branco com um capacete colonial. Um botezinho encaminha-se para nós. seguido por Maturette. Todos querem nos ter em suas casas. Miram-nos. O branco. . e eu. long ride on small boat!13 Cai a noite. Podem ir sem perigo até a praia. o branco.Agradecidos. de uma assentada. . senhor. enquanto os negros riem mostrando os dentes. muito maior. Mal entro. em um francês de lei. depois de ter pedido que empurrem o meu barco um pouco mais para cima e de tê-lo amarrado a outro. É um delírio. e as mulheres. 13 Bom cap itão. convidam-nos por gestos.De areia. o faz transportar para a sua casa. tocam-nos. dou com Clousiot sentado em uma poltrona. em francês. Mal tocamos na areia. pelas suas palavras tão amáveis. o branco.Sejam bem-vindos à Trinidad . Maturette agarra em um punhado de areia e leva-a aos lábios para a beijar. a quem eu participei o estado de Clousiot. Entro atrás do inglês. Diziam-me. O fundo da praia é de coral ou de areia? . Todo mundo me trata por captain e eu rio desse batismo. logo dez homens entram na água e. que fica próximo da praia. Puxamos a âncora para bordo e as ondas empurram-nos devagarzinho até a praia. puxam o barco para seco. acompanho o inglês até a casa dele. que ninguém tocará em nada. g rand e viag em em um b arq ue p eq ueno! (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. É um bangalô como os que há por toda parte.

chama-se Master Bowen. Master Bowen telefona também para Porto de Espanha.acrescenta a menina. O que mais dizer? Uma recepção excepcional. . apenas quantos dias tínhamos andado no mar e como havia decorrido a viagem. manteiga e doce. que lhe diz para levar o doente.diz para nós o cavalheiro. no dia seguinte à tarde. Foi o nosso primeiro serão de homens livres. esse responde que nos arranjará quarto no albergue da organização. minhas senhoras. . pelo telefone. estendendo-nos duas cadeiras de palha. um médico. Tenho um filho estudando na Inglaterra. lá na praia. à sua clínica. Nem urna palavra sobre o nosso passado. Servem-nos chá com leite.E tornam a dizer: .Por quê? Bem sabemos de onde vêm. não se incomodem por nossa causa.Façam o favor de se sentarem .Obrigado.dirige-se a nós a senhora. em francês. nunca poderei esquecê-lo.Sejam bem-vindos a essa casa . Master Bowen consulta. Se quiséssemos escrever-lhes. colocariam para nós as cartas no correio. mulher e filhos.Sejam bem-vindos a essa casa. que podemos aparecer quando . ao capitão do Exército de Salvação. cheia de indescritíveis atenções para com três foragidos. . como do porte desta família.A minha mulher e a minha filha . ou seja. capital da Trinidad. a quarenta quilômetros daqui.com a perna ferida assente em uma cadeira. ao pé de uma senhora e de uma menina. . em Porto de Espanha. . tem o seu escritório na capital. torradas. onde lhe tirará urna radiografia e verá o que se deve fazer. nenhuma pergunta indiscreta. O cavalheiro é advogado. tanto do povo. Salvation Artay. se tínhamos parentes vivos. . se Clousiot sentia muitas dores e se desejávamos que avisassem a polícia já amanhã ou se preferíamos esperar mais um dia. todo fanfarrão. estejam descansados.

porque isso não nos incomoda. camisa branca. Um índio bate à minha porta.pergunta-me a menina. tomo um banho. o que mais dizer? Sentia o coração a palpitar. Perante tanta bondade. Entro para a casa de banho. Já por várias vezes. Na casa de banho têm roupa que espero lhes sirva. o que parece agradar ao advogado. Faz-me uma reverência como os muçulmanos e se retira. nós cinco ficamos ainda a trocar impressões acerca de diversos assuntos. Clousiot foi o primeiro a se deitar. cheia de sardas e tem entre dezessete e vinte anos. não me atrevi a perguntar-lhe a idade. mas a coragem de vocês ao se jogarem no mar . e nós respondemos que somos forçados. sem qualquer sotaque ou pronúncia defeituosa. mas que ele. O que mais intrigava aquelas adoráveis senhoras era a maneira como iríamos refazer a nossa vida. solicitara que algumas pessoas se beneficiassem dessa medida. sapatos de tênis e meias brancas. Diz para nós: .Não recusem. de calça cinzenta. nem quero saber. explicou-me. pois em casa do senhor doutor não havia ninguém da sua altura. se estiver em bom estado.Querem tomar banho e fazer a barba? . não encontraria roupa que lhe servisse. pois iremos precisar dele quando formos embora. Cortar o passado. É loura. com um embrulho debaixo do braço e entrega-o a Maturette.quisermos e que guardemos bem o barco.São muito novos e têm a vida pela frente. como o pai. A menina fala em um francês corretíssimo. faço a barba e apareço bem penteado. mas nunca fora atendido. ignoro o que fizeram para serem condenados. . contar só com o presente e com o futuro. . o pequeno Maturette. Master Bowen lamentava que a Trinidad não admitisse que os fugitivos se instalassem na ilha. em uma indescritível emoção. Pergunta se somos forçados ou simples degredados. dizendo que o senhor doutor reparara que eu era pouco mais ou menos da sua estatura.

leitor . tudo quanto até aí vira. de um dia para o outro. tínhamos a mesa posta. pois. Não sou um intelectual que possa descrever.se porventura esse livro vier a ter algum leitor -. ao ponto de ser impossível para vocês. navegando durante tantos dias. percebi que eram seres perfeitamente dignos de toda a confiança. quer por gestos. mesmo em liberdade. assim. o fato de me ver perante uma responsabilidade real. com a desejável inspiração. ao acordarmos. e isso é muito louvável. continua a ouvir o tilintar das cadeias e a julgar-se espiado. de vícios. toda a imensa noção de respeito que em relação a nós então sentimos: uma sensação de reabilitação. denota que estão dispostos a pagar seja o que for para serem homens livres. pois com isso pretende dizer o seguinte: vocês são seres normais. tendo conhecido vocês há apenas doze horas. dános uma lição sem igual. As duas senhoras dizem-nos com toda a naturalidade que Master Bowen foi para Porto de Espanha e que só voltará para casa à tarde. passara e suportara. como que por encanto. esse batismo imaginário. deixo vocês sozinhos em minha própria casa. esse banho de pureza. na posse de todos os dados que lhe permitam tomar a nossa defesa. passivamente obediente. que assim deixa a sua casa entregue a três forçados fugitivos. toda a emoção.essa manifestação de confiança da sua parte causou-nos a mais viva emoção. Dormimos até as oito da manhã e. essa maneira discreta de nos dizer: depois de ter conversado com os três. Este homem. com suficiente intensidade. à nossa espera. essa elevação do meu ser acima da lama onde me atolaria. com a minha mulher e a minha filha. um cara perigoso. tudo o que seria suscetível de fazer de mim um indivíduo cheio de taras. para não dizer de uma nova vida. comportarem-se mal em minha casa.em um barquinho. a . por isso os deixei como se fossem velhos amigos . quer por palavras. conseguiriam fazer de mim um homem diferente daquele misto de forçado que. vejam como eu tenho confiança em vocês.

está sentada a meu lado debaixo dos coqueiros da casa de seu pai. emocionado que não sei que lhe responder. ver o seu barco. cabelo castanho alourado. Obrigado. a injusta incompreensão das autoridades inglesas origina que. A senhora Bowen vem ao nosso encontro. em casos como o seu.superfície. em tão pouco tempo. no carro dele. muito cedo. porque revoltado. doutor Bown. Está vendo se consegue levá-los. Sinto-me de tal modo. mais compreensiva. Porto de Espanha. de olhos tão azuis como esse mar que nos rodeia. Faço votos para que vá ter a uma nação mais hospitaleira que a nossa e. peço que você não queira mal a quem vive nestas ilhas. Todas as ilhas inglesas agem da mesma maneira. pois não são eles os responsáveis por essa maneira de encarar as coisas. sem escolta policial Tenta igualmente evitar que vocês passem a primeira noite no posto da polícia de Porto de Espanha. dão a esse jardim aquele toque poético imprescindível à situação. infelizmente. mas de fato terrivelmente perigoso. Se na próxima viagem sofrer muito. vermelhas. o senhor não possa ficar. É uma mulher belíssima. para ficarmos sabendo o que está acontecendo com você. . amarelas e malva. enviadas por quem não nos conhece. Trinidad. As buganvilas floridas. obrigado por ter feito de mim. preso com um cordão branco. que achei muito leve e pequeno para a longa viagem que o espera. deixou de ter razão de ser. Há quanto tempo não me chamam de senhor!).Senhor Henri (me chama de senhor. até a capital. . as ordens vêm da Inglaterra.O meu marido só chega às cinco horas. Dão-lhe apenas quinze dias para descansar antes de voltar ao mar. Traz um vestido branco muito simples. Se Deus o permitir. A morada do papá é 101 Queen Strect. O . olhos verdes. um homem diferente do que eu era! A loura donzela. sobretudo. peço-lhe que nos escreva umas palavrinhas. e um par de sandálias verde-cloro. Fui essa manhã. advogado de Sua Majestade. de uns quarenta anos. como papai lhe disse ontem.

O barril.Captain.ninguém a viu.pergunta a menina.Vamos lá vê-las. que escondo entre os cobertores . Ao examinarem o bote.Porque não libertam as tartarugas? . o facalhão de talho. Ás cinco chega Master Bowen: . que está ferido. uma indiazinha crescida estende-me a mão com toda a desenvoltura. irá diretamente daqui para a clínica de um médico amigo nosso e vocês dois vão para o albergue do Exército de Salvação. segundo diz. Good afternoon.O que vamfazê-los com elas? Jogamo-as ao mar? Ou querem ficar com elas? . ficarei assim com uma recordação sua. o machado.O tanque do jardim está cheio de água salgada. . exceto a bússola. boa-tarde. . e então disse ao nosso companheiro: . acaba de regressar do barco. descobriram uma bala incrustada por baixo do leme e houve então alguém que lhe pediu licença para a arrancar dali como recordação. Ninguém tocou em nada. Dirigimo-nos para o barco. Tiro as duas tartarugas para fora: . os cobertores e a pistola.Têm tartarugas? . o tabaco. captain.Ótimo. Maturette vem falar conosco no jardim. Vamos colocá-las lá. a faca. Distribuo pelas pessoas presentes tudo quanto há no bote. Ele respondeu: . No caminho. O índio percebeu que tinha de falar com o capitão.companheiro de vocês. que. está rodeado de curiosos. diz para nós toda essa multidão morena.

com os seus automóveis e bicicletas. Fala um pouco de francês e todo mundo nos dirige a palavra em inglês. Instalamos Clousiot no banco traseiro do carro. Às quinze para as seis. meus senhores. a Clínica São Jorge. que não nos custa muito perceber que só nos dirigem frases simpáticas. Eles nos conduzem a um quarto com três camas . chega a mãe com uma mala na mão dizendo: . não fala francês. Uma vez chegados ao albergue do Exército de Salvação.Está tudo em ordem. a seguir.a terceira estava prevista para Clousiot . que não compreendemos. mestiços acotovelam-se nos passeios desta cidade feita de madeira que é Porto de Espanha.Tomem estas coisas do meu marido. Chega o médico. Estou eu agradecendo à menina.. Atravessamos a cidade no carro de Bowen. chegamos à clínica. uma vivenda com o piso do térreo de pedra e o resto de madeira. mas pede que nos digam que Clousiot será bem tratado e que poderemos vir visitá-lo quando quisermos. nós as damos de todo o coração. E desaparecemos no automóvel. negros. diz o capitão: . que se encontra rodeado por todo os seus oficiais. a nossa. mil vezes obrigado. Deixamos primeiro o ferido na clínica e vamos a seguir ao albergue. Maravilhamo-nos ao vêla assim iluminada. Brancas. quando nisso. aperta a mão de Bowen e. mas os rostos são tão sorridentes. que tem o volante à direita. Vou levá-los à capital. Os enfermeiros levam Clousiot de maca para uma sala onde está um índio sentado na cama. de ambos os sexos.Obrigado. somos recebidos pelo capitão da organização. bem situada em um largo iluminado onde se lia Fish Market (Mercado do Peixe).e uma casa de banho anexa. Depois de nos indicar o quarto. O que dizer perante tanta bondade? . amarelos. onde havia um sabonete e uma toalha para cada um de nós. os olhares tão acolhedores.

Entramos em um bar e pedimos cervejas. o jantar é servido às sete horas.4shared .Salvation Army. depois de nos ter servido: .. (http :/ / am and ikaloka. que nos deixam circular à vontade em uma cidade tão grande corno esta. nos sentirmos assimilados por eles. senhor.Half a dollar. Todas estas sucessivas provas de confiança dos outros. Pois. acotovelando as pessoas . os seus cabelos de azeviche caídos sobre os ombros. nos peça. ninguém nos presta a mínima atenção -. com a sua argola de ouro no nariz. Cuidado.Se quiserem comer. parece-nos fantástico que uma mestiça índia. reconfortam-nos e restituem-nos a personalidade.co m) .Se preferem ir conhecer a cidade.4shared . que tão naturais são para todo mundo.com) 50 centavo s. please? Dez minutos depois. apesar de tudo. sir.ninguém olha para nós. saboreamos emocionados estes primeiros passos dados em liberdade. . basta dizerem o seguinte: . de tão natural que é. p or favor. please14 parece una coisa insignificante. a blusa entreaberta deixando-nos entrever toda a beleza dos seios. e respiramos fundo. não se percam. ou para tomar um sorvete. Precisamos andar perto dos outros. (http :/ / am and ikaloka. não temos fome. dando-nos também a perfeita consciência de que é impossível para nós traí-la. um tanto amendoados.Não. todas estas coisas 14 15 fúteis. aqui têm dois dólares antilhanos para tornar um café ou um chá. integrados na multidão. Dizer two beers. ser acotovelados. os seus grandes olhos de um negro violáceo. Quando quiserem voltar. caminhando pelo passeio.15 O seu sorriso de dentes de pérola. Eu e Maturette caminhamos devagar no meio da multidão. portanto daqui a meia hora. . lá estamos nós na rua. parecem-nos Duas cervejas.

Papi. Quebec. Entendo que devemos ir tomando o gosto a pouco e pouco. que só ficou com meio dólar. Saímos. e. de um momento para o outro.Talvez tenha razão.fantasticamente mágicas.Sim.Então ainda não faz uma hora que pode se considerar verdadeiramente livre e já está pensando em se embebedar? . isso é verdade. Além do mais. . cabarés e restaurantes abarrotados de homens e de mulheres que . em um homem livre! Quem pagou foi o Maturette. com os cartazes flamejantes dos cinemas e dos bares e boates. Amsterdam. Los Angeles. com o olhar das jovens negras ou índias que riem para nós -. A cerveja está deliciosamente fresca e ele diz para mim: . Descemos a grande e larga Watters Street. bares. para ficarmos mais à altura da situação. . com toda a honestidade. barcos de turistas com nomes de encanto: Panamá. e.Ora essa. acho que não devemos mergulhar nos prazeres que neste momento nos proporcionam. Papi. e nunca de forma bruta.de tal modo estamos maravilhados com todos estes bondes que passam. não pode ser. a avenida principal que atravessa a cidade de uma ponta à outra. Temos de aprender a ser livres aos poucos. . como ele quer. Vejamos. não exagere! Entre beber duas cervejas e ficar bêbado ainda demora. colados uns aos outros. tem razão.Vemos. à nossa frente os barcos iluminados. mas eu. com burros puxando as suas carrocinhas. Boston. não me parece conveniente. de forçado condenado à pena perpétua. esse dinheiro não nos pertence. com os automóveis.Bebe outra? Uma segunda rodada. vamos parar aos cais. sem mesmo nos darmos por isso . cargueiros: Hamburgo. você não pode ter se transformado. ao longo de todo o cais. de morto-vivo. Londres.

ouriços-do-mar. . sem dúvida. mexilhões. transbordante de vida. As mesas.Trocar mil francos? . (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka.16 . que cantam. mas. ostras. . convidam a sentarmo-nos. moldadas em corpetes de diversas cores. As meninas. eu troco p ra vo cê.e mostro-lhe uma nota de mil francos. .Sim . Dirijo-me a uma delas e digo-lhe: .4shared . Na esplanada de um bar.Você francês? . camarões.com ) . . uma irresistível necessidade de me confundir com essa multidão. muito decotados. Agarra a nota e desaparece na sala lotada de gente.Sim. ainda mais nos pedem para aproveitarmos de todas estas belas coisas. .Dinheiro francês b om ? . talvez ordinária. . de pele morena e perfil delicado.Passaporte? 16 17 .com) Vem aq ui.Sim. todas as qualidades de marisco em exposição provocando o transeunte. de repente.Tudo dólares antilhanos? .Sim. onde se encontra um chinês.bebem.Come here17 .e conduz-me até o caixa.Yes. Depois torna a aparecer.French money good? .4shared . (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. cobertas com toalhas aos quadrados vermelhos e brancos. mulatas sem um traço negróide. Sinto.O. I change for you. navalhas. metidos em gelo.K. que bagunçam em altos berros.

Troca umas palavras com a menina.Não tenho. O outro ignora certamente o que se passa. E o chinês. e o traz ao caixa. e eu recebo duzentos e cinquenta dólares antilhanos.O seu cartão de identidade? . . que olha para a sala e se dirige a um fulano tipo marinheiro com um boné igual ao meu. friamente.Carta de marinheiro? .Não tenho. O chinês pergunta-lhe: .Não tenho. . de braço dado.Bom. regalamo-nos com uma orgia de mariscos regados com um vinho branco seco delicioso.Pronto. preenche uma ficha de câmbio de mil francos em nome do desconhecido. sentados a uma mesa. . um galão dourado e uma âncora. cinquenta deles em notas de um e dois dólares.. saímos cá para fora e. . Dou um dólar à menina.Papéis de imigração? . o faz assinar e depois a mulher afasta-se com ele.

a alma desta multidão feliz e alegre. Mas elas não têm nada de sórdido. Maturette e eu andamos de bar em bar. auscultando. para elas. de longas pestanas. como se fosse ontem. Em vez dessas caras muito maquilhadas. como se dissesse: “Olha para os meus seios. o dinheiro não é o principal. nada de comum com as mulheres da escória de Paris.” Todas estas meninas. Rápido. provocam o gosto pelo sexo. sem nada de baixo. ou a mestiça de chinês e de hindu com a argola de ouro no nariz.QUARTO CADERNO PRIMEIRA ESCAPADELA (continuação) Trinidad Vejo. embriagados pela luz. exteriorizam o amor. não dão a impressão de que estão a fazer um trabalho. são meninas de todas as raças. Andávamos por toda a parte. cada uma delas com flores de cores diferentes nos cabelos. cara cor de cobre. Chegados a uma pequena praça bem iluminada. brilhantes. cambaleantes. a todo o momento. São duas horas. desde a chinesa à negra africana. marcadas pelo vício e de olhos febris cheios de manha. vamos para casa. Um bar cheio de marinheiros e dessas meninas dos trópicos que os esperam para depená-los. vejo as horas em um relógio de uma igreja. como eles são perfeitos. exibindo um seio descoberto. passando pela mestiça clara de cabelos lisos. essa primeira noite de liberdade naquela cidade inglesa. à hindu ou à javanesa. de comercial. a menina de perfil romano. iluminada por dois olhos enormes. Duas horas da manhã! Depressa. cujos pais se conheceram nas plantações de cacau ou de cana-de-açúcar. do Havre ou de Marselha. Abusamos . Como dois besouros encandeados com as luzes. negros. divertem-se mesmo e sente-se que. os corações transbordantes de alegria. ou de um templo qualquer. São outra coisa completamente diferente.

Papi? . mas sem nexo: o tribunal. não o consigo. dá-nos a chave do quarto e deseja-nos boa noite. com precisão.. Pago. Quando ia apagar a luz. nem chocada por entrarmos tão tarde. Saint-Martin-de-Ré. o marulhar das ondas. os uivos do vento. toda essa mistura de raras sensações.Agradeça a ele por mim. tudo isso 18 Dois d ólares. as coisas. uma mulher com o uniforme do Exército de Salvação. sem ordem cronológica. recebenos amavelmente. loira. muito jovem. Não parece admirada. Deitamo-nos. tudo isso me excitou tanto que não consigo dormir. ele foi bestialmente generoso conosco. o seu bom Deus é realmente um grande cara. Vamos. a saída desse cemitério onde estava enterrado. a tempestade. essa noite que me reintegrou na vida no meio de tanta gente. os leprosos. que nós adivinhamos serem de bom acolhimento. No vestíbulo. Que acha. no hotel.com) . Depois de algumas palavras em inglês. Esta ressurreição. Encontrei um pijama na mala. esse regresso do túmulo. as imagens. em um bailado fantasmagórico. Maturette disse-me: . todas estas sucessivas emoções. O Exército de Salvação deve ter uma bela opinião a nosso respeito. como você diz. Diria-se que tudo o que me aconteceu em um ano aparece ao mesmo tempo na galeria das minhas recordações. (http :/ / am and ikaloka. Jésus. a Conciergerie. e entramos.4shared .Não há dúvida de que podemos agradecer ao bom Deus por nos ter proporcionado tantas coisas em tão pouco tempo. bastante constrangidos. de vinte e cinco a trinta anos. Por mais que tente afastar estas imagens. E o mais engraçado é que elas surgem misturadas com os grunhidos dos porcos. enfim. Tribouillard. E apago a luz. Boa noite. two dollars18.. No caleidoscópio dos meus olhos fechados. surgem. E.da situação. os gritos dos hocos. Mando parar um táxi que nos leva.

depois de termos passado por duas sentinelas de ébano. Sim. Depois desta formalidade. Divertiram-se muito? . batem à minha porta. . Todos os policiais nos saúdam e nos olham sem especial curiosidade. de fato. nos diversos bares por onde passamos. . meus amigos .Bom dia. Vamos a pé. minha senhora. acham que Porto de Espanha é uma terra simpática? . Desculpe. ainda há pouco.Mas. Só adormeço ao amanhecer. Era preciso aproveitar a primeira noite de homens livres. Entramos em um escritório sóbrio e imponente. chegamos tarde. Têm de se apresentar lá para declarar às autoridades que entraram clandestinamente no país. Bebemos uma pequena chávena de café e lá vamos a caminho da Polícia. meus amigos. . Nos arrumamos rapidamente e descemos à sala do andar de baixo. sorridente.Bom dia. Umas dez horas. É Master Bowen. onde nos esperavam Bowen e o capitão.Então.acrescido da música dos violões de uma corda que os hindus tocaram. iremos ver o amigo de vocês.disse o capitão em um mau francês. Um . são cerca de duzentos metros. Ainda na cama? Chegaram tarde. Simpaticíssima. depois de tudo o que vos aconteceu. . Gostamos muito.Sim. Vim para acompanhar vocês ao posto da Polícia.Bom dia a todos. fardadas de caqui. Tiraram-lhe radiografias de manhã cedo e os resultados saberão mais tarde. como vão? Uma graduada do Exército de Salvação diz para nós: .Bom dia. de modo nenhum! É normal.

. Se há algum conserto a fazer. doenças ou qualquer outro pretexto para protelar a sua partida. cheio de insígnias e medalhas. . Sabemos que é um castigo desumano e pouco digno de uma nação civilizada como a França. Eu fui por crime de morte.Trabalhos forçados perpétuos. gostaria de falar um pouco. É impossível. Está em calções e diz em francês: . Mas não vão para a Venezuela.Na Inglaterra. Antes de tomar nota oficialmente das declarações de vocês. são presos e obrigados a trabalhar . . . por assassinato .Tinha dezessete anos.Que pena pegaram? . Mas. camisa e gravata de caqui.Aos dezessete anos sabe-se muito bem o que se faz . os carpinteiros da Marinha Real se encarregarão disso. as autoridades inglesas não têm nada que julgar a justiça francesa. . infelizmente. é por assassinato. Vou mandá-lo vir para aqui. Espero que os países sul-americanos os aceitem.. levanta-se.Eu. Sentem-se.Por crime de morte. Também peço que joguem a partida honestamente e que não procurem subterfúgios.Porque foram condenados? . porque.Vinte e seis e dezenove anos. teriam enforcado vocês. O barco de vocês está em bom estado. . para o porto. . . uma boa bússola e um mapa.oficial dos seus cinquenta anos. Bem.Então não é por crime de morte. Mas com o que não estamos de acordo é que mandem os condenados para a Guiana Francesa. Podem repousar livremente em Porto de Espanha de quinze a dezoito dias. Que idade têm? . com provas.Bom dia. parece. nem noutra ilha inglesa.diz Maturette.diz o oficial. com certeza. . Receberão os víveres necessários para a viagem. senhor.Não. vocês não podem ficar em Trinidad.

responderão em francês. Toca uma campainha e um funcionário vem nos buscar. saudáveis e têm um ar simpático. O fato de terem vindo até aqui.Da Guiana Francesa. . pelo fato de cometer uma grande falta. Estou contente por poder ajudá-los a tornarem-se homens bons e responsáveis. fardados e à paisana. Se acontecer qualquer coisa e tiverem necessidade da minha ajuda. Se tiverem problemas. Sou o sargento Willy. feriram ou mataram alguém? . em uma sala onde vários policiais. . Se mudarem de hotel. avisem-nos.De onde vêm? . Espero que. não se dêem por vencidos.Soubemos antes de partir.Não ferimos gravemente ninguém. Tenho a certeza de que se portarão bem. demonstra o contrário. São completamente livres para fazer o que quiserem durante esse período. Um homem. telefonem para esse número.Para descansar. Sabemos que podemos confiar em vocês. não hesitem e telefonem para mim.Como sabem? . Vocês são novos. . . escrevem à máquina. depois de tudo o que suportaram.nas estradas até serem entregues às autoridades francesas.A idade de vocês. têm de quinze a dezoito dias para descansar na ilha. um dos últimos toma nota das nossas declarações.Para fugir. a situação penal de vocês em relação à França? Meus senhores. . . não quer dizer que esteja perdido para sempre. Olhem estes dois números de telefone no meu cartão de visita: esse é o número oficial da Polícia e aquele o da minha casa. cometeram algum delito. Boa sorte.Porque vieram à Trinidad? .

.Quero ir com eles.Sim. Ele fica de tal modo surpreendido que z: . Não lhe contamos nada acerca da noite passada na cidade.Fez tão bem que não é preciso refazer a operação. Bowen acompanha-nos à clínica.Esses gringos são legais! Bowen. . . sem escolta. que tinha saído ao encontro do médico.Está bem. Clousiot fica contente de nos ver. Vamos só pôr-lhe um aparelho de gesso e um ferro para que possa andar um pouco. nos encontramos os três no nosso quarto de hotel. O perônio fraturado foi bem ajustado.Eu e um outro que não está aqui. Só lhe dizemos que nos deixam ir aonde quisermos. no dia seguinte. entra com ele. a janela aberta de par em par e os ventiladores a trabalhar para refrescar o ar. digo-lhes: . Quando percebo que se está falando sobre o passado. Nos desfazemos em agradecimentos. Bowen e o doutor vão-se embora e nós passamos o resto da manhã e o princípio da tarde com o nosso amigo.Sem escolta? . Felicitamo-nos uns aos outros pelo nosso bom parecer e pelo aspecto que nos dão os fatos novos. Prefere ficar aqui ou quer ir com os seus camaradas? .Alguns minutos depois. Pergunta a Clousiot: . Estamos contentíssimos quando.Quem é que tratou dessa fratura antes de pôr as talas? . . amanhã de manhã pode ir ter com eles.

a caminho de São Fernando. chamamnos pelos nomes. espero por vocês. Depois de uma troca de palavras amáveis.. que nos acolheu com tanta bondade. cor de cauchu. que tantas alegrias nos prodigalizaram. por uma inefável felicidade. Diria-se que estas mulheres compreendern a nossa emoção. O regresso a essa casa. comove a nós todos.Vamos mais é esquecer o passado e nos preocuparmos com o presente e com o futuro. Bowen chega: . telefono para casa dele. na casa de vocês. há ônibus para São Fernando. tenham sido bafejadas. Porque não vêm passar a tarde conosco? Venham. Sentem-se. dois mil e cem até o Panamá. em São Fernando.Senhor Henri. no mercado do peixe. Para onde vamos? Colômbia? Panamá? Costa Rica? Vamos consultar Bowen a respeito do país onde teremos mais possibilidades de ser admitidos. perto do hotel. Ligo para o escritório de Bowen. Clousiot está magnífico com o seu traje meio militar. quer mais pudim?” Senhora e senhorita Bowen: espero que Deus tenha recompensado vocês pela bondade conosco e que as suas excelsas almas. diz: . E lá seguimos os três. As distâncias são grandes: mil e duzentos quilômetros para chegar ao primeiro porto colombiano. E em vez de nos tratarem por “senhor”. Falamos com elas e desdobra-se um mapa em cima da mesa. dois mil e quinhentos até a Costa Rica. e é a filha que responde. passe-me o açúcar. sempre que se dirigem a nós.Aqui estão. até o fim dos seus dias. “Henri. ponham-se à vontade. caros amigos. porque nos recebem dizendo: . mas ele não está. Santa Marta. de novo. André (Maturette charna-se André).

Passamos a tarde com Margaret e a mãe estudando a rota. deixa pra lá. O governador é meu padrinho. peixe. mamãe e eu nos encarregamos disso. .Conheço um lugar seguro . Terceira etapa: Honduras Britânicas.As Honduras Britânicas. tem fronteira com a República das Honduras e. marmeladas. . . Olho para os meus amigos e digo-lhes: . . menina.acrescenta ela com simplicidade -. . É uma possessão inglesa que.Se isso não acontecer . etc.pergunta o pai. . nunca chegaram por mar. Primeira etapa: Trinidad-Curaçau. com o México.Destino: Honduras Britânicas.diz Margaret. Margaret diz que o supermercado Salvattori terá muito prazer em nos oferecer essas conservas. além dos víveres oferecidos pela Polícia.. mil quilômetros. Segundo o cônsul. Quanto ao Panamá e a outros países.Não. . Henri. três mil quilômetros. um caixote com conservas: carnes.Telefonei a todos os consulados e tenho uma boa notícia: podem aportar a Curaçau e ficar lá alguns dias a descansar. Como nunca se sabe o que pode acontecer em uma viagem por mar. ao Norte.Cale-se. ao Sul. . legumes. decidimos levar.Mas é muito longe. Segunda etapa: de Curaçau a qualquer outra ilha que se encontre no caminho. pelo menos. é a mesma coisa. a filha de Bowen. A Colômbia não tem legislação alguma a respeito dos fugitivos.Onde? .

todas elas se portam de maneira diferente. E é preciso insistir para que bebam um drinque. mas para beber urna cerveja ou um verdadeiro whísky com soda. Mas. Deixam-se ficar muito tempo sentadas. Clousiot senta-se em um banco do largo e cada um por sua vez. enquanto o outro vagueia pela cidade. de bonde. O barco foi pintado de novo e acrescentaram-lhe um rebordo de dez centímetros de altura. O mastro foi substituído por outro mais alto. Nenhuma nervura interior estava danificada. até porque temos dinheiro e não seria justo nos aproveitarmos da bondade de vocês quando podemos muito bem comprar os víveres. não é possível. Em geral. Maturette e eu. conosco. Somos conhecidos e bem recebidos em alguns bares do porto. não é para tornar o habitual copo minúsculo. Saímos todas as noites. Nos bares onde se dança. Já estamos aqui há dez dias. O barco está ancorado em Porto de Espanha. o barco conservava-se intacto. todo mundo sabe quem somos e de onde viemos. Tudo isso nos dá muito prazer porque é uma maneira indireta de nos dizerem que conhecem a nossa situação e que estão do nosso lado. dos oficiais ou dos turistas. percebemos que nos bares onde somos conhecidos pagamos menos que os marinheiros.Não. A quilha foi consolidada. Os policiais de serviço nos coumprimentam. A mesma coisa está acontecendo em relação às meninas. às onze horas. Já sabemos ir ao porto.. graças ao ferro que lhe fixaram sob o aparelho de gesso. No entanto. nunca o fazem sem que lhes tenham pago vários copos. No . mas mais leve e o estai e a bujarrona de sacos de farinha por boa lona ocre. quando se sentam às mesas dos marinheiros. bebem sem parar e procuram que eles gastem o mais possível. Nos despedimos e prometemos uma visita antes da partida. em um abrigo da Marinha de Guerra. Se aceitam. fazemos-lhe companhia. e vamos lá muitas vezes à tarde e todos os dias à noite. mas ninguém faz qualquer alusão a isso. Clousiot anda sem grande dificuldade. religiosamente.

mas aceito. a rota é em direção oeste e um quarto para o norte. logo acima de capitão-de-fragata http://amandikaloka. que me perguntou se eu não queria ir ao mar no dia seguinte. um navio de guerra aproxima-se de nós. à cerca das oito da manhã. O capitão-de-mar-e-guerra apresentou-me a um oficial da Marinha. Um oficial jovem me explica que o comandante acaba de dizer aos cadetes da equipagem que merecemos todo o respeito dos marinheiros por termos feito uma viagem tão grande em uma embarcação tão pequena e por irmos empreender outra viagem ainda maior e mais perigosa. um capitão-de-mar-e-guerra19 me deu uma bússola com a rosa-dos-ventos (ele chama de compasso) e explicou-me como posso saber onde me encontro aproximadamente. No outro dia. É uma saudação oficial que eu não compreendo. onde o navio de guerra já está atracado ao desembarcadouro reservado à Marinha.com . Duas horas depois. lá estou com Maturette. onde o comandante do barco nos recebe na ponte de comando. 19 terceiro posto de oficial superior na hierarquia da Marinha do Brasil. Passam junto de nós e gritam “hurra!”. O marinheiro faz sinal para nós seguirmos. todos de branco. à hora marcada. Voltamos ao porto. depois de nos terem apresentado aos oficiais. enquanto estamos a bolinar.4shared. comandante do navio-escola Tarpon. Um marinheiro vem conosco e saio do porto com vento favorável. Agradecemos a esse oficial tantas honras. que estão em sentido. O comandante diz a eles algumas palavras em inglês e todos eles saem da forma. dão a volta e içam e arriam a bandeira duas vezes. A equipagem e os oficiais. Para chegar a Curaçau. São impermeáveis pretos com um grande zíper e munidos de carapuças. fazem-nos passar diante dos cadetes e dos oficiais subalternos. Não compreendo a razão deste convite. entrando e saindo do porto.edifício da Marinha. Dão-nos três trajes de oleado que nos serão muito úteis. Nós acostamos ao cais. Subimos a bordo. Um apito saúda a nossa chegada e. estão alinhados na coberta. e sair um pouco do porto. com a ajuda do mapa.

. Achamos que é uma manobra para que se lhes forneça um barco. . segundo a versão deles.Claro. Um carro da Polícia vem me buscar. mas dizem que não sabem conduzir uma embarcação. Tratamos de mandá-los embora: seria lamentável se eu fosse obrigado a entregá-los ao capitão do primeiro barco francês que passasse. Viveram semanas. durante companheiros os abandonaram aqui e voltaram a partir.Não. Master Bowen vem nos ver e pede-nos. dê ordem para que tragam os três franceses ao pátio. que levemos três degredados que foram presos há uma semana. Peço que me deixem vê-los antes de dar uma resposta.Porque disseram que eram degredados? . . Precisamos que vocês nos façam um favor. mas antes desejo falar com eles. somos forçados. com todo o prazer. vou fazer o impossível. Não gosto disto. Eles desembarcaram na ilha e os seus companheiros partiram para a Venezuela.Bem. .Se nos for possível. . mas fomos tratados com tanta nobreza que não podemos nos recusar a levá-los conosco.Senhor superintendente. Willy. Nós pensamos que eles afundaram o barco. Quero vê-los sozínho e peço ao sargento que se retire.Na prisão estão três desterrados algumas franceses. o oficial com galões que nos interrogou quando chegamos. O sargento Willy serve de intérprete. Deve compreender que é perigoso levar a bordo três desconhecidos. e afirmam aqui. obrigado. Vou falar ao superintendente.Vocês são degredados? .Dois dias antes de partimos. seus clandestinamente. na que os ilha. . .Então como vai? . da parte do superintendente da Polícia.

Fizemos mal. Ele diz que.Sou da última leva. . .. .Da leva de 1929.Quê.Porque não quero pagar o bem que nos fizeram com uma sacanagem. não queremos voltar ao mar. .Sim.diz o terceiro. os presos.E eu da de 27 . de modo que é capaz de haver mais diferença entre mim e vocês que entre mim e os gringos. .Pensávamos que eles preferissem um cara que tivesse cometido um pequeno delito em lugar de um grande. . você vai deixar que nos entreguem às autoridades francesas? . mas existem presos e presos.Por quê? . e vocês? . que antes dos gringos vem nós.Eis a questão: o superintendente mandou-me chamar para me pedir que os levasse conosco. que somos três.Um durão. depois. Tudo depende de como se encaram as coisas. Que dizem disto? . e como nenhum de vocês sabe mexer em um barco.Por quê? . deixaria-nos na ponta da ilha e continuaria a navegar. .Eu acho. quem és? . .Não o conhecemos.Não posso fazer isso. Podíamos fingir que íamos com vocês.Porque você é um preso. . E você. se eu recusar. . será obrigado a entregar vocês ao primeiro navio francês que aportar. mas você.Por motivos que só nos dizem respeito.

partimos. Vamos lá ver esse paquete aí.Até a vista. vão ver primeiro o bote. . .Não. Os três sujeitos parecem mais confiantes depois de terem visto a embarcação. E. puxados por um rebocador. Não. mas uma dúzia das meninas dos bares assiste à partida. Como uma das meninas me beija. às quatro horas da tarde. nós os três e os três desconhecidos. você ficou noivo assim tão rápido? Isso não é bonito! .concordaram os outros dois. assim como a família Bowen e o capitão do Exército de Salvação. que nos liga ao rebocador.. Provavelmente o que vocês utilizaram era mau. logo nós. lá partimos.Escutem. adeus! Mas fiquem sabendo que permanecerão para sempre nos nossos corações. . . .. Breve saímos do porto. .Não tenho coragem para recomeçar . Não sei como souberam.diz um. está bem.Isso. com as velas enfunadas. rindo: . Vamos até o porto. mas também não os deixarei desembarcar antes de Curaçau. Vou pedir ao superintendente que deixe vocês virem ver o barco. nos atiramos às primeiras ondas das muitas que temos de vencer antes de chegarmos ao nosso destino. acompanhados do sargento Willy. Margaret diz para mim. não sem termos enxugado uma lágrima e olhado até o último momento para o grupo que viera dizer-nos adeus e que agita grandes lenços brancos.Sim.Henri.. Mal se solta o cabo. Nova partida Dois dias depois.

seriam dez anos. Temos a certeza de que nenhum dos outros está armado.Qual foi a idiotice? -Matei a minha mulher com um ferro de engomar.Não. O machado está junto de Clousiot. uma comigo. Peguei perpétua por causa de uma idiotice que disse no tribunal.És bretão e não sabes conduzir um barco? . . . o navioescola acompanha-nos perto de uma meia hora. sou de Angers.Vinte anos.Como se chamas? .27. quinze anos. assim como o cutelo.Eu chamo-me Dufils. sou bretão. um jurado me perguntou por que razão tinha utilizado um ferro de engomar para a agredir. E foi por causa desta frase idiota que. eles me arruinaram. respondi que escolhera um ferro de engomar porque ela já me andava a fazer muitas rugas. . no máximo. Sem isso. Na altura do julgamento. Tomamos as devidas precauções para que haja sempre dois de nós acordados durante a viagem. Ao pôr do Sol. .De onde é que fugiram? . Leva 29.Há duas facas a bordo.Leroux. . Não sei por quê. segundo o meu advogado.A pena? . .E você? . .Kargueret. Saúda-nos e vai-se embora.De que leva? . . outra com Maturette. Leva 29.

tinham-nos dito que eram pescadores. depois a Inglesa e por fim a Trinidad. O barco se encheu de água um monte de vezes. temos de saber o que se passou.Estou em má posição para julgar. até porque nos deixavam muito à vontade.Como cinco? Onde estão os outros dois? Faz-se um silêncio de constrangimento. Fugimos cinco e não houve nada mais fácil. Por pouco não nos afogamos vinte vezes. para vir sem pagar. Clousiot diz: . . e como estamos todos na mesma embrulhada. Não pagaram nada para dar o salto e afirmavam que o trabalho que iriam fazer a bordo valia mais que o dinheiro. julgando que íamos matá-lo. enganou todo mundo quanto aos seus méritos de marinheiro. .insiste o Bretão .Foi assim que as coisas se passaram e ficamos os três de acordo para matar esse cara. aqui só há homens. pois. Para ser juiz nesse caso.Isso é coisa para pensar. primeiro a Guiana Holandesa. que faltam..que faria você no nosso lugar? .De um campo de trabalho florestal chamado Cascade. . e só nos salvamos por milagre. não se sabe onde está a verdade. Sem isso.Mas .diz o Bretão. Desembucha. fomos contra um rochedo. O tipo merecia a morte. precisava ter vivido o momento. a oitenta quilômetros de São Lourenço. mas os dois caras de Cannes.Olha.Vou contar tudo . E o outro. . Ora. .dizem os outros dois. Papillon? . Não foi difícil sair. O que diz. partimos cinco. Juro que essa é a verdade nua e crua. abandonando o leme. Entre Georgetown e a Trinidad matei o que dizia que podia muito bem ser o chefe do grupo. Nos viramos como pudemos.É verdade . . atirou-se ao mar. nós nos demos conta de que nem UM nem outro percebia o que quer que fosse de navegação.Realmente. . Íamos ao longo da costa.

É Clousiot. pois um grupo de oito pôs-se a brincar com o barco. Mas tenho a impressão de que vocês tiveram tanto medo. uma bússola verdadeira. Estamos em 9 de Dezembro de 1933. a não ser termos cruzado por duas vezes com bandos de golfinhos. Mas o que nos impressiona mais é o jogo seguinte: três golfinhos em triângulo. e uns óculos escuros de celulóide.Eu teria matado o cara. Passavam primeiro por baixo e iam sair mesmo à nossa frente. eles avançam ainda mais . Clousiot e Maturette têm um boné cada um. Comemos bem antes de partir e decidimos só fazê-lo. Agora estamos mais carregados que antes. não é assim? . Na altura de estarem virtualmente sobre nós. metida em uma caixa dupla de suspensão. em caso algum. que nos dá essa informação. mergulham e saem à direita e à esquerda do barco. esse barco é bom e já o provou.Mas aqui nada de pânico. a mais do que da partida. e. de novo. três coisas preciosas: um relógio de metal à prova de água. às vezes. não falemos mais nisso.Se é! . mas o barco tem mais dez centímetros de altura. . Quem tiver medo que cale o bico. vêm diretos para nós a uma velocidade louca. Isso compensa largamente a sobrecarga. exteriorizá-lo. tocávamos em algum. Ninguém deverá. Três dias se passam sem mais história. o contabilista da sociedade.respondem em coro. Tenho. aliás. . porque é uma trapaça que podia ter custado a vida de todos. que se aqui estão é porque foram levados a isso. amanhã de manhã.Bem. e há quarenta e dois dias que a escapadela começou na sala blindada do hospital de São Lourenço. um à frente e dois atrás. continuam a tê-lo. Fuma-se e bebe-se café. em posição paralela. Fizeram-nos suar frio. Apesar do vento forte e de navegarmos a todo o pano.Clousiot diz: . aconteça o que acontecer. comprado em Trinidad.

Amainada a tempestade. mas dava para ver as suas caras com medo! A meio da noite do quarto dia. chocavam-se umas contra as outras. Ninguém falava e só Clousiot gritava de vez em quando: “Pra frente. Foi realmente qualquer coisa de medonho. bem entendido. e. A brincadeira durou metade da noite. previa com antecedência o ângulo de ataque. amigo! Você vai vencer isso. O mínimo erro nos seus cálculos e lá vamos nós desta para melhor. Antes de mais nada. brilhando a toda a força. o barco tem água a três quartos e fica tudo a boiar. bem quente. uma boa parte delas entrava no bote. assim de repente. e. Quero dormir. outras peque nas. inclusive por mim. por causa da chuva. de caçarolas e latas em punho. não se percebia nada. Ainda não estou deitado há dez minutos e já ele se deixa apanhar de lado. A luta noturna contra a tempestade deitou-me abaixo. completamente empinado. cobertores. bolachas de bordo. é alucinante. café. desencadeia-se uma tempestade abominável. sem me enganar. foi saudado por todos. são deliciosas. uma vez molhadas no café.. Umas eram profundas. perto de sete longas horas. como venceu o resto!” ou “Atenção a uma que vem de trás!” Coisa rara: às vezes. Um café com leite Nestlé. esse Sol novo do começo do dia. Mas sem lógica nenhuma. O pior é que as ondas não iam na mesma direção.. não posso mais.depressa que nós. lá consigo chegar ao . embora o vento ainda sopre forte e as vagas sejam altas e indisciplinadas. estas ondas rebentavam nas minhas costas e. Com água até a barriga. Os três novos não disseram nada. esvaziavam a água sem parar. as ondas ululantes e cobertas de espuma apanhavam-nos a três quartos. o barco nunca teve água que ultrapassasse um quarto da sua altura. esse jogo dura horas. Muitas vezes. com alegria. fogão. duras como ferro mas que. caixas. pelo que nunca corremos o risco de afundar. Os cinco homens. Bom: eu calculava a velocidade delas e. peço a Maturette que me substitua um pouco. apenas vimos o Sol por volta das oito. A pesar de tudo isto. desabava uma na popa do barco.

atirou pela borda fora. Dá pra pôr as latas de conserva no fundo do barco e fazer lume com as tábuas dos caixotes. ninguém deve dizer: tenho fome. esse por vontade nossa. Há latas de bolachas de manteiga. virei a popa para a onda.Galera. e ninguém deve dizer: quero fumar. percebo que a minha pequena mala também desaparecera. uma boa dose e depois vamos ver o que há no caixote de reserva para sabermos com o que podemos contar. a lata de gasolina e o barril da água. Digo: . É meio-dia quando. fixa: esvaziar. Duas horas depois está tudo seco. o fogão. Mesmo no fundo do barco encontramos duas garrafas de rum. Tem polpa de fruta. à prova de água. essa água que ele próprio. ninguém deve dizer: tenho sede. primeiro um gole de rum. e mal tenho tempo de me agarrar a ele. esvaziar o mais depressa possível. os sacos de carvão. Com uma manobra rápida. evitando assim uma onda que vem direita a nós. Todo mundo esvazia o barco. mas que nos empurrou com muita força para mais de dez metros de distância. ao preparar-me para mudar de calças. esvaziar o mais depressa possível essa água que torna o barco tão pesado e que o impede de se defender das vagas. Esvaziem uma e façam um fogão com ela. todos têm uma idéia fixa: esvaziar.leme. Todo o tabaco se perdeu ou se molhou e os mapas desapareceram com a caixa de alumínio. Não é tão ruim. A partir de agora. tendo perdido a lata. Tivemos medo. mas perdemos os cobertores. decidiu sem hesitação. Estão todos de acordo? . assim como dois impermeáveis. Temos de racionar as bebidas. e a marmita grande de que Maturette se serve deita quinze litros de cada vez. mas agora o perigo já passou. Devo reconhecer que os três novos se portaram bem e que o Bretão. não sem desgosto. Temos de nos refazer para estar à altura dos acontecimentos. Ninguém se preocupa em recuperar seja o que for. que não pôde entrar no barco.

a fim de que não haja ciúmes. encontramos uma caixa de cigarros. Já levamos seis dias de viagem e ainda não consegui dormir. Entramos no sétimo dia. Empresto-lhe o impermeável. Papi. No caixote intacto. Fizemos um pouco de chá verde para todos. pois não 20 conserva de carne bovina em salmoura. . não devemos estar muito longe de Curaçau. que não me satisfaz mas dá um pouco de luz. comercializada em latas (Nota da revisora: http://amandikaloka.. Clousiot se recusa a acender os cigarros para mim. Comeram sem esperar por mim e eu encontro uma espécie de sopa feita com farinha de milho. Perdeu o casaco e está em mangas de camisa. durmo a sono solto perto de cinco horas. Tenho a impressão de que me dirigi muito para norte e agora tenho que virar a oeste. para me ajudar a ficar acordado e. o que perfaz vinte e quatro. Distinguemse perfeitamente a Ursa Maior e a Ursa Menor. cortada em pedaços. Acordo às dez da noite.Eh galera. Como o mar está calmo essa noite.com) . Não se vê uma nuvem e no meio do céu estrelado temos a Lua cheia. O mar continua calmo. o que nos permitiu comer uma sopa à base de corned-beef20. onde molhamos as bolachas de bordo.4shared. não há incidentes desagradáveis entre nós. de conserva. Os outros cinco decidem que só eu fume. contendo três pequenos maços de oito. durmo. Todos se portaram bem e a Providência fez que o vento amainasse. O Bretão treme com frio. Com uma tigela cheia desta sopa. claro. A Estrela do Norte brilha em todo o seu esplendor e só o Cruzeiro do Sul ganha dela em luminosidade. Graças a essa compreensão. É delicioso. mas não faz mal. Fumo e espero que se levante o vento. O chá está quase frio.Sim. que devoro juntamente com algumas salsichas defumadas. estamos. o suficiente para esperar pelo dia seguinte. Está uma noite maravilhosamente estrelada. metemos um bom emplastro quente na barriga.

e essa Lua tropical é tão brilhante que o seu reflexo me incomoda. porque é noite. o vento deixa a desejar e só às quatro da manhã é que uma brisa forte nos permite seguir viagem. os nossos olhos procuram em vão. . essa brisa. . .Faça como quiser. Já não tenho os meus óculos escuros. Creio que o que disse é o melhor. com certeza! . apercebe-se no horizonte. Nem o menor indício de uma terra próxima.Obrigado. . Primeiro os gritos. agora que não há mais água doce e que perdemos todos os víveres. com força suficiente para fazer avançar rapidamente o barco. de onde raio vêm estas gaivotas e estes alcatrazes? Durante todo o dia. Papillon . dura mais de trinta e seis horas. Cerca das oito horas da noite.diz o Bretão. vai embora e volta a pousar. Seria um caso sério.Confiamos em você. depois elas próprias voando em torno do barco. esse vaivém dura mais de três horas. até que o dia nasça com um Sol radioso.repetem os outros em coro.podemos deixar de passar pelas Antilhas Holandeses. Nada no horizonte que nos indique terra firme. muito longe. que aumentará durante a manhã. . Curaçau Gaivotas.Aquilo é terra.digo eu. neste dia lunar. muito. . A Lua cheia aparece ao mesmo tempo que o Sol se põe. confiamos em você . Uma delas pousa no mastro. Durante a noite. uma linha negra. assim como todos os bonés. e com ondas tão pequenas que nem chegam a bater-nos no casco. que acompanharam a famosa onda.Sim. exceto os de reserva.

um cordão de luz.Sim. Numa palavra. Ninguém grita “salve-se quem puder”. projeta uma sombra que só deixa eu ver.. desancados e derrotados. mas. primeiro unido. infelizmente. todo mundo está de acordo em dizer que vê uma linha escura que deve ser terra. mas quando a onda seguinte aparece. Claro que as velas foram arriadas e enroladas. essa massa escura não é muito alta e nada indica se a costa é constituída por falésias. com o seu aparelho de gesso. a âncora não prende logo. alguns golpes nos joelhos. é preciso que ele ande. Com bom vento forte. coisa bizarra. vem sem âncora. aproximo-me e então. Os meus camaradas puxam a corda para bordo. Eu sangro de uma orelha que bateu em um rochedo. rumamos para ela a toda a velocidade. mais ou menos a um quilômetro. Içamos o estai e a bujarrona. Saio-me tão bem da minha manobra que ficamos plantados entre dois rochedos. mas disciplinada. nós a perdemos. à superfície da água. mas vivos. a âncora desprende-se logo à primeira. com efeito. deito a âncora. Tem o braço. sem isso não se pode fazer nada. Aproximo-me. as ondas fazem-nos chegar tão perigosamente junto dos rochedos desta terra que eu decido içar a vela e ir violentamente à deriva.. portanto incômodo. Todo o resto da noite fico a espreitar essa sombra que se precisa pouco a pouco.. Para poder dirigir o barco. o barco dá uma volta sobre si mesmo e faz frente à onda que o empina cada vez que passa. A Lua. . a cara e as mãos em sangue. mergulhamos todos para chegar a essa terra. com o barco completamente desconjuntado. Apesar dos meus esforços. céu limpo e uma onda alta. nas mãos e nos tornozelos. cheios de arranhões. que está se pondo do outro lado. Poderíamos muito bem esperar nesta incômoda mas segura posição até o romper do dia. foi um pouco mais maltratado pelas ondas. Só Clousiot. Chegamos. Os outros. É muito turbulento. por rochedos ou por uma praia. depois fragmentado. mas. O vento sopra com força.

que começa a se desfazer. Olhamos para as famosas luzes. Chamamos: “Olá! Olá!” Ninguém. Consigo arrancar a bússola. saberíamos mais tarde. aos pares. . muito cansados. em terra firme. À volta do poço. Nos dirigimos para o interior desta terra. Partimos e vamos devagar por causa de Clousiot. ao abrigo das ondas. Avançamos até uma pequena casa. para fazermos uma maquinha. Logo. moeda holandesa. Nem vivalma. Chegamos junto de um poço.Sun.São franceses? . Em cima da chaminé está um saco de pano fechado com um cordão. eu o pego e o abro. Ninguém em casa. é uma fila de candeeiros que serve para indicar aos pescadores. que está fixa ao banco de trás. giram sem tirar água.Sim. um de cada vez. Sento-me ao lado do motorista. as velas do moinho. carcaças ressequidas de burros e de cabras. com Maturette junto de mim. senhor. e burros. cactos enormes. tínhamos de nos revezar. nem nas imediações. cujas portas abertas nos convidam a entrar. recuperamos a capa impermeável e eu volto ao barco. Volto a pôr o saco sem tocar em nada. nem nas imediações. que o local é perigoso. Ao fazê-lo. Só há cactos. estamos em território holandês: Bonaire. a fim de transportar Clousiot. estamos todos vivos. quando um velho Ford nos barra a passagem. encontramos água e todos bebemos. Curaçau ou Aruba. .Seja como for. . . Instalamos Clousiot sobre os joelhos dos três que vão atrás. o tecido se parte e vejo que está cheio de florins. só burros e cabras. que antes o faziam funcionar.Naufragaram? . Ninguém por estes lugares. O poço está seco.Queiram subir. Quando o dia desponta. por uma concha de sopa.

que impede a passagem. O sujeito levanta o capô e vê logo que foi um solavanco que desligou um fio das velas.Há afogados? . O corpulento cavalheiro ri a adoidado. O homem fala em holandês com um negro muito claro e vestido com asseio. . . Antes de subir. Há uma pequena vivenda pintada de branco.E antes? . .Trinidad. Apontando os burros. Aqui vivem os burros e as cabras que comem esses cactos cheios de picos.Pois eu sou o proprietário desse terreno. com um barulho de asmático.Da Guiana Francesa. uma península ligada a Curaçau que é conhecida pela ilha dos Burros. olha para todos os lados. . que a todo o momento diz: . mas o pior é pegar dois burros e pôr arreio neles. .Forçados ou degredados? . ofegante. pára. . Não é coisa fácil. Voltamos a partir e. sugiro: .Tenho uma espécie de arreio no porta-malas.Isso não é muito lisonjeiro para as verdadeiras meninas de Curaçau .digo.de onde vêm? .Forçados.Ya master. teremos quem nos puxe. chamamlhes “as meninas de Curaçau”.Se o carro não aguenta mais.Não. vimos uma barreira branca. Esses picos foram batizados pelo povo. com ar inquieto. .. depois de termos passado por caminhos ladeados de pequenos precipícios. O Ford. ya master.

mistura de palavras inglesas. um dos quais era o doutor Naal. se tiverem sede. o mais baixo.Senhor Naal. . com uma cara de padre pobre. na obrigação de mandá-los prender. Vimos de Trinidad. dirigindo-se tanto ao doutor Naal como ao comissário. até que eu volte. quando o negro nos diz em papiamento. e ainda não faz muitas horas que estilhaçamos o nosso barco nos rochedos daqui. Prepara um café muito fraco. e um deles.Depois. diz: . Ainda não tinha percorrido cinquenta metros. com seis policiais vestidos à alemã. porque disse ao comissário que nós éramos ladrões? . Fala depressa e ruidosamente. holandesas. que o seu patrão. Sou o chefe deste pequeno grupo e posso afirmar que nenhum de nós cometeu a mais pequena falta. tuf-tuf. francesas e espanholas. Cometeram algum delito depois da sua chegada à ilha? Qual? E qual de vocês? . do gênero camburão.Sou o chefe da segurança da ilha de Curaçau. lá se vai. na erva. com esse calor. à sombra. foi chamar a Polícia porque tem medo de nós. O Ford. dialeto holandês das Antilhas. somos forçados fugitivos. O comissário volta-se para o gordo doutor Naal e fala-lhe em holandês. e que lhe recomendara que nos vigiasse porque nós éramos ladrões fugitivos. Queiram descer. dirigindo-se a nós: . Esperamos mais de uma hora. o doutor Naal.Cavalheiro. e um carro conversível com motorista fardado e três cavalheiros. quando chega um caminhão. por essa mesma responsabilidade.Dei ordem a esse homem para fazer companhia a vocês e para dar-lhes de beber. Descemos e sentamo-nos. Descem. barbeado de fresco. Discutem os dois quando chega um indivíduo em uma bicicleta. E o pobre diabo do mulato não sabe o que fazer para ser agradável. faz bem. mas que. Vejo-me.

O comissário olha-me nos olhos e. que os viu entrar e sair da casa dele.Porque esse homem que chegou agora me contou. Antes de mandar revistar vocês. voltando-se bruscamente para o homem da bicicleta. mas a culpa não é minha. . efetivamente. É um empregado meu que se ocupa de uma parte dos burros. o carro regressa e o comissário diz para mim: . O doutor Naal faz um gesto como quem vai dizer alguma coisa. o comissário interrogou o homem. e quando me preparava para entrar nela o comissário pára e diz para mim: . Metem o homenzinho no camburão. Se vocês são inocentes. . lamento bastante o incidente.A bolsa. Acha isso um roubo? . que veio com o comissário.E a bolsa dos florins? . antes de eu ter encontrado vocês. Estava escondido atrás de um cacto. escrupulosamente. e até parti o cordão. Naal e o outro fulano. Será castigado por ter querido causar um prejuízo tão grande. em cima da chapa de uma chaminé. para o qual os outros cinco também sobem.que o meu empregado me disse que a bolsa tinha desaparecido. Só bebemos água.tenho que explicar . entram em casa conosco. Muito secamente e à maneira alemã. fala-lhe com dureza. supondo que ele mentira. abri-a.Você disse a verdade. Não fiz mais que ver de que moeda se tratava para saber em que país estávamos.. esse homem é um infame mentiroso.E porque entramos na casa. Coloquei. Menos de um quarto de hora depois. o comissário impede que ele intervenha e faz subir o sujeito para o lado do motorista do seu carro onde entra acompanhado de dois policiais. já somos ladrões? É estúpido o que o senhor diz. o dinheiro e a bolsa no mesmo lugar.diz para nós Naal .

Duas horas depois. você passou um mau bocado por causa dessa história da bolsa. mas o incidente acabou por favorecê-lo. passamos a outra divisão. com ar condicionado. de madeira. o doutor Naal pede-me desculpa e promete interceder por nós.Está bem. cujas casas são de estilo holandês. Senhor comandante. porque prova que é um homem honesto. percorrem a cidade. No pátio. está sentado em uma cadeira de braços. Vamos à frente do caminhão e depressa o perdemos de vista. Como se chama? . Henri. loiro.Bom. Terminada a conversa. chefe do grupo de seis que prendemos. Com os dólares da Trinidad. comissário. a fim de que possam descansar.. o comissário diz em francês: . Entramos no Comissariado da Polícia. Vou tomar providências para que lhes dêem uma sala bem iluminada e com camas. Seguimos por estradas bem asfaltadas e chegamos à cidade. A temperatura é agradável. ao lado do motorista. de um lado para o outro. com cerca de quarenta anos. Tem no meio uma mesa grande. Centenas de pessoas. De um grande escritório. Um homem alto e forte.Henri. que agirá em conformidade. somos fechados em uma sala muito grande. O comissário e eu próprio interviremos a seu favor. Levanta-se e fala em holandês. O seu caso será submetido ao governador. . Estende-me a mão e saímos.Apresento-lhes o primeiro-comandante da Polícia de Curaçau.Sente-se no meu carro. . pedimos a um . esse homem é um francês. sobre duas rodas. onde vários oficiais de polícia. com bancos. retangular. todos de branco. Seja bem-vindo a Curaçau a título de náufrago. têm cada um a sua secretária. É tudo muito limpo e a maior parte dos habitantes anda de bicicleta. com uma dúzia de camas.

procurar embarcá-los um a um em petroleiros de países diferentes. que nos compre tabaco. . Ia bater à porta que. porque isso traria graves consequências para todos. .Vamos. Ele recusa o dinheiro e nós não percebemos o que respondeu. Volta poucos minutos depois. Como Curaçau tem uma das maiores refinarias do mundo.Sim. Tabaco. como chefe. Volto ao gabinete do comandante da Polícia. Mas certamente esse tabaco ainda não veio. pelas grades da janela.esse negro de ébano .Não. Você. e à tarde. cigarros. cerca de vinte a vinte e . todos os dias. . estilo peão. passam por aqui. creio. Um homem baixo. vestindo um traje cinzento de prisioneiro com um número no peito.tem todo o ar de que faz bem o serviço. . que trata o petróleo da Venezuela.diz Clousiot . diz para nós: . nesse mesmo momento. se abre. papel e fósforos. das dez ao meio-dia. pode sair duas horas de manhã. Pela tarde vêm me buscar.Que vão fazer de nós? . fósforos e papel. Cada um de nós bebe por uma das tigelas trazidas pelo prisioneiro. para que não haja confusões.O governador deu ordem para deixar vocês à vontade no pátio da prisão.policial. Inglês e francês.O dinheiro. . Diga aos seus camaradas que não tentem fugir. Tem dinheiro? . com tudo e mais uma cafeteira fumegante com cacau ou chocolate.Um policial à paisana vai acompanhá-lo aonde você quiser ir durante as saídas. das três às cinco.

esse franganote.Ainda não sei. Chega-se a um país qualquer em um grande petroleiro e entra-se oficialmente lá na terra. Seria a solução ideal para vocês.E vocês acham que esses policiais de cabeça quadrada vão fazer documentos de identidade falsos ou duvidosos pra nós? Não acredito.Obrigado. . O melhor que podia acontecer era fecharem os olhos e deixarem-nos embarcar clandestinamente em .cinco petroleiros de toda a parte do mundo. Estados Unidos da América e os países de leis inglesas? . deixem-nos ajudar vocês a pôr o pé em uma nova vida. esse menino de traços mais finos que os de uma mulher. tenham confiança. a Europa igualmente impossível.disse Clousiot . O Bretão acredita neste plano maravilhoso. Canadá. para não darmos o fora. Costa Rica. diz com a sua voz efeminada: . Acabou-se a aventura. Cuba. Maturette? E essa criança de dezenove anos. Tenho medo de que seja conversa fiada para nos manterem quietos. Nicarágua.Impossível. Guatemala. acidentalmente transformado em forçado. pois chegariam aos vários países sem qualquer problema. .Acabou-se o bote. Conto tudo fielmente aos meus camaradas. diz: . Isso é que vai ser bom. diz para mim: . radiante.Que países.A sua opinião. O cara do ferro de engomar. o mais sabido do bando. México. Papillon? . . Clousiot. Leroux é da mesma opinião.E você. .Pois eu . comandante. Fiquem descansados. por exemplo? Panamá.bem que receio que você tenha razão.

Saio raramente. . do comandante da Polícia e de um graduado vestido de branco.Os franceses são quase todos católicos. portanto. Não acredito nessa história. cidade onde há mais protestantes que católicos.Esperamos que nos embarquem. um a um. é melhor para nós conversarmos.um petroleiro.diz em francês o comandante da Polícia. Uma tarde. E fariam isso para se desembaraçarem de nós sem dores de cabeça. Trazem um tamborete. por pouco tempo. Efetivamente. . mais nada. Há algum entre vocês que o não seja? Ninguém levanta a mão. Sentemos aqui à volta da mesa. Começamos a ficar irritados. aqui estão os franceses . Tenho sangue francês e bispo de Curaçau. vemos três padres rodeados de policiais que visitam as celas e as salas. na altura em que Catarina de Médicis os perseguia até a morte. Os meus antepassados eram protestantes huguenotes refugiados na Holanda. mas onde estes são profundamente crentes e praticantes. e apenas. que estava diante da porta. . -Meus amigos. entram os três acompanhados do doutor Naal. sou descendente de franceses. Todo mundo se senta. em petroleiros. no pátio. onde está um negro acusado de estupro. Param mais tempo em uma cela. durante a manhã. inclusive os que acompanham o bispo. Supondo que virão nos visitar. meus filhos. vamos todos para a sala e nos sentamos nas camas. e colocam-no na ponta da mesa. Já faz uma semana que estamos aqui e nada de novo. Acho que o padre da Conciergerie quase chegou a me batizar e que. essa é a minha opinião. Qual é a sua situação? . . chamo-me de Bruyne. para fazer algumas compras. Assim o bispo vê todo mundo. também devo considerar-me católico. Tiveram uma conduta exemplar. que deve ser oficial de marinha.Eminência.Felicito vocês. a mais próxima de nós.

todos nos confessamos ao bispo. .Os meus agradecimentos. . meu filho. . Meus filhos.Hum! Que diz disto. Querem vir confessar-se amanhã à tarde? Confessá-los-ei pessoalmente para que o bom Deus os perdoe. no que é imitado pelo Bretão. até agora. começa primeiro pelo maior pecado. e isso com toda a sinceridade.Está bem. .. achou essa saída. que. comandante? Responda-me em francês. Sou o último. . já que o senhor o fala tão bem.Mas é por aí que é preciso começar. Nunca me falou nisso.Nenhum. vou fazer tudo para ser útil.Quantos já embarcaram assim? . por enquanto. . não prometo nada. vou rezar missa por vocês. mas devo confessar que. . Apenas lhes digo.Depois de amanhã. para tal. nós afloramos com os lábios o anel episcopal e os acompanhamos até o seu automóvel. .Gostaria que eles viessem de táxi ou de carro particular.Vamos. nenhum capitão de navio aceitou levar quem quer que fosse. faz favor.Eminência. a partir de agora. o governador pensou sinceramente em ajudar estes homens. e. O governador não poderia dar a cada um deles um passaporte excepcional? . Vendo que Naal lhe beija o anel. . No dia seguinte. eminência .Não sei. sobretudo porque eles não têm passaporte.Eu próprio os acompanharei. que se encontra no pátio. Pode mandá-los à catedral às três horas? Será possível? .diz o doutor Naal.

Pega nas minhas mãos e me olha nos olhos. para que aquele que ele escolheu como vítima saia mais forte e mais nobre que nunca. a eles o deves. nunca teria subido tão alto e ficado tão perto da verdade de Deus. e o seu olhar cinzento-claro penetra em mim como um bálsamo em uma ferida. de castigar cada um consoante a importância do mal que te fez. mesmo acreditando que seria um mal justificado. se não tivesse passado por esse calvário. decerto. meu filho. sempre com as minhas mãos nas suas. cheia de bondade se irradia em todos os seus traços. Doce. Eu o ajudarei. tem uns olhos e uma cara tão puros que nele se reflete algo de infantil. os seres maus por natureza que. algumas vezes. Olha. fala-me com suavidade. Deve viver para salvar os homens e não para fazer o mal. Ele disse: “Ajude a si próprio. não sou batizado. nas passagens difíceis de confessar. A sua alma límpida e. as engrenagens desta máquina horrível que o esmagou. . de sessenta anos. Fizeram de você um outro homem. obriga os seus filhos a suportarem a maldade humana.” Ajudou-se em tudo e até lhe permitiu salvar outros homens e trazê-los para a liberdade. quase em um murmúrio: . na França. de diversas maneiras. baixa os olhos para me ajudar na minha confissão. o torturaram e lhe fizeram mal. Essas idéias de vingança. disse-me que. E direi mais: as pessoas. Bem. sobretudo. muito docemente. superior ao primeiro. na prisão.Tinha razão. esse príncipe da Igreja escuta-me sem me interromper. bondade e caridade. Não creia. que todos esses .Eminência. somos todos filhos de Deus.Deus. batizado ou não. esse padre. Deus foi generoso com você.. prestaram-lhe o maior serviço possível. Vou sair do confessionário e você me contará tudo. e se hoje você sabe o que é honra. antes de mais. mas um padre. mas algumas vezes. não podem ir para a frente. e a energia necessária para ultrapassar todos os obstáculos e se tornar um homem superior. Confesso-lhe a minha vida em pormenor. Com paciência e atenção. os sistemas.

pecados, que cometeu, são excessivamente graves. Há pessoas de situação social bem mais elevada que praticaram faltas muito mais graves do que as suas. Só que elas não tiveram, através do castigo infligido pela justiça dos homens, ocasião de se engrandecerem como você. - Obrigado, eminência. Fez-me um bem enorme para o resto da minha vida. Não o esquecerei nunca. E beijo as mãos dele. - Vai partir, meu filho, e enfrentar novos perigos. Gostaria até de batizar-te antes. Que acha? ' - Deixe-me assim por enquanto, eminência. O meu pai me educou sem religião, mas tem um coração de ouro. Quando minha mãe morreu, soube encontrar, para me amar ainda mais, gestos, palavras, atenções de mãe. Se me deixo batizar, parece-me que cometerei uma espécie de traição com ele. Dê-me tempo para eu ser completamente livre, com uma identidade estabelecida, um modo de vida normal para, ao escrever-lhe, pedir, sem o desgostar, se posso abandonar a sua filosofia e me batizar. - Compreendo, meu filho, e estou certo de que Deus está com você. Abençoo-lhe e peçoa Ele que o proteja. - Vejam como o bispo Irénée de Bruyne mostra o que é neste sermão - diz o doutor Naal. - Tem razão. E, agora, o que espera fazer? - Vou pedir ao governador que dê ordem à alfândega para eu ter a preferência no primeiro leilão de barcos apreendidos aos contrabandistas. Vocês vêm comigo para dar a sua opinião e escolher aquele que mais lhes convenha. Quanto ao resto, alimentos e roupa, será fácil.

Depois do sermão do bispo, temos constantemente visitas, sobretudo pela tarde, por volta das seis horas. Muita gente quer nos conhecer. Sentam-se nos bancos, à roda da mesa e cada um traz qualquer coisa, que deposita sobre uma cama, sem dizer “trouxe isso”. Ás duas da tarde, aparecem sempre as irmãzinhas dos pobres, acompanhadas pela superiora, as quais falam muito bem francês. Trazem as marmitas sempre cheias de coisas boas cozinhadas por elas. A superiora é muito nova, menos de quarenta anos. Os cabelos, escondidos em uma touca branca, não se vêem, mas tem os olhos azuis e as sobrancelhas louras. É de uma família holandesa importante (informação do doutor Naal) e escreveu para a Holanda a pedir que descubram outro processo de nos ajudarem sem ser o de nos expedirem por mar. Passamos bons momentos juntos e ela insiste, por várias vezes, para que lhe conte a nossa fuga. Também acontece pedir-me que o faça diretamente às irmãs que a acompanham, as quais falam francês. E se me esqueço ou omito um pormenor, ela chama-me a atenção: “Henri, tão depressa, não, você omitiu a história do hoco... Porque se esqueceu das formigas? São muito importantes, porque foi por causa delas que vocês se deixaram surpreender pelo Bretão da Máscara!” Se conto tudo isso, é porque são momentos tão doces, tão opostos a tudo o resto que suportamos, que uma luz celeste ilumina, com uma certa irrealidade, todo esse caminho da degradação em vias de desaparecer. Vi o barco, um barco magnífico com oito metros de comprimento, uma boa quilha, um mastro muito alto e velas enormes. É realmente feito para o contrabando. Está todo equipado, mas selado pela alfândega. No leilão, um cavalheiro começa a fazer uma oferta de seis mil florins, cerca de mil dólares. em uma palavra, nós o compramos por seis mil e um florins, depois de algumas palavras murmuradas pelo doutor Naal ao tal cavalheiro. Em cinco dias estamos prontos a partir. Pintado de novo, cheio de mantimentos, bem arrumados no porão, esse barco de meia ponte é um presente de rei. Seis

malas, uma para cada um de nós, com roupa nova, sapatos, tudo o que é preciso, são embrulhadas em uma lona impermeável e depois colocadas no barco.

A prisão de Rio Hacha

Partimos ao romper do dia. O doutor e as irmãzinhas vieram dizer adeus. Largamos com facilidade do cais, o vento está bom e vagamos normalmente. O Sol nasce radioso; um dia sem incidentes nos espera. De repente, percebo que o barco tem muitas velas e pouco lastro. Decido ser prudente. Vamos a toda a velocidade. esse barco é um puro-sangue, mas ciumento e irritável. Dirijo-me para ocidente. Concordamos desembarcar clandestinamente na costa colombiana os três homens que trazemos da Trinidad. Não estão interessados em uma longa travessia, dizem que têm confiança em mim, mas não no tempo. Efetivamente, segundo os boletins meteorológicos dos jornais lidos na prisão, vai haver mau tempo e até, provavelmente, furacões. Reconheço-lhes esse direito, e, portanto, ficou estabelecido que eles

desembarcariam em uma península deserta e desabitado chamada Guajira. Nós, por nosso lado, seguiremos até as Honduras Britânicas. O tempo está esplêndido e a noite estrelado. A Lua facilita esse nosso projeto. Vamos direto à costa colombiana. Deito a âncora e sondamos, aos poucos, o fundo, para ver se eles podem desembarcar. Infelizmente, a água é baixa, profunda e temos de nos aproximar perigosamente de uma faixa de terra rochosa para conseguirmos menos de metro e meio de profundidade.

Apertamos as mãos uns dos outros, e cada um deles, foram para a terra com as malas à cabeça. Observamos a maré com interesse e um pouco de tristeza. Estes camaradas se deram bem conosco e mostraram-se à altura dos acontecimentos. Lamentamos que abandonem o barco. Enquanto se aproximam da costa, o vento pára completamente. Merda! Agora o que interessa é que não nos vejam da aldeia assinalada no mapa, e que se chama Rio Hacha! É o primeiro porto onde se vê autoridades policiais. Esperemos que não. Parece-me que depois nos encontremos bem à frente do ponto indicado, por causa do pequeno farol que se vê na ponta que acabamos de contornar. Esperar, esperar... Os outros três desapareceram, depois de nos terem acenado com um lenço branco. Venha vento, gaita, vento para sairmos desta terra colombiana que é um ponto de interrogação para nós! Na verdade, não se sabe se eles entregam ou não os presos fugitivos. Nós três, preferimos a certeza das Honduras Britânicas à incerteza da Colômbia. Só às três da tarde é que se levanta o vento e podemos então partir. Iço todas as velas, e o barco, talvez um pouco inclinado de mais, lá ia singrando, quando, duas horas depois, avistamos um barco que se dirige para nós, cheia de homens que disparam para o ar, para nfazê-losem parar. Emprego toda a velocidade que posso, sem obedecer, tentando ganhar o largo e sair das águas territoriais. Impossível. A poderosa vedeta alcança-nos em menos de uma hora e meia de perseguição e, ameaçados por dez homens armados de espingardas, somos obrigados a nos render. Estes soldados ou policiais que nos prenderam têm todos umas caras bastante estranhas; calças sujas que já devem ter sido brancas, camisolas brancas que nunca foram lavadas, todas esburacadas, e descalços, exceto o “comandante”, que estava mais bem vestido e mais limpo. Apesar de andrajosos, estão armados até os dentes: uma cartucheira cheia de balas, espingardas de guerra bem

cuidadas e ainda uma bainha com um grande punhal, o cabo ao alcance da mão. Aquele a quem chamam “comandante” é um mestiço com cara de assassino. Traz um grande revólver pendurado de um cinturão cheio de balas. Como só falam espanhol, não percebemos o que dizem, mas nem o olhar, nem os gestos, nem o tom de voz são simpáticos, tudo neles é hostil. Vamos a pé do porto até a prisão, atravessando a aldeia que é, efetivamente, Rio Hacha, enquadrados por seis patifes, além de outros três que vêm dois metros atrás, com armas apontadas sobre nós. A recepção não é das mais acolhedoras. Chegamos ao pátio da prisão, rodeado por um pequeno muro. Uns vinte presos, barbudos e sujos, uns sentados, outros de pé, olham-nos também com um olhar hostil. “Vamos, vamos.” Compreendemos o que querem dizer. É difícil pra nós caminhar depressa, porque Clousiot continua a se mover apoiado no ferro do aparelho de gesso. O “comandante”, que ficou para trás, vem falar conosco, com a bússola e a capa impermeável debaixo do braço. Desata a comer as nossas bolachas e o chocolate, e logo compreendemos que roubarão tudo de nós. Não nos enganamos. Somos fechados em uma sala asquerosa, onde há uma janela gradeada. No chão, tábuas com uma espécie de almofada de madeira: são os catres. - Franceses, franceses - vem-nos dizer à janela um preso, mal os policiais se foram embora, depois de nos terem fechado à chave. - O que quer? - Francês, não é bom, não é bom! - Que é que não é bom? - A Polícia. - A Polícia? - Sim, Polícia não é bom.

E vai embora. É noite, a sala é iluminada por uma lâmpada elétrica de fraca amperagem, pois dá pouca luz. Os mosquitos zumbem-nos aos ouvidos e se metem nos nossos narizes. - Estamos ótimos! Vai custar caro nós termos aceitado desembarcar aqueles sujeitos. - Que quer, não sabíamos! Foi sobretudo porque não havia vento. - Você se aproximou muito - diz Clousiot. - Vê se cala o bico. Não é altura de nos acusarmos ou de acusar os outros, mas sim de nos ajudarmos mutuamente. Temos de ser mais unidos que nunca. - Desculpa! Tem razão, Papi. Ninguém teve culpa. Oh!, seria muito injusto ter lutado tanto para dar o fora e acabar assim tão lamentavelmente. Não nos revistaram. Tenho o “governo” no bolso e me apresso a metê-lo. Clousiot me imita. Fizemos bem em não termos nos livrado da “carteira”, que, aliás, é impermeável e fácil de meter por ser pouco volumosa. No meu relógio são oito horas da noite. Trazem-nos açúcar mascavado de cor acastanhada, um quadrado a cada um, e uma espécie de pasta de arroz cozido em a e sal. - Buenas noches! - diz o portador. - Deve querer dizer boa noite - comenta Maturette. No dia seguinte, às sete da manhã, servem-nos um café excelente, em copos de madeira. O comandante passa por volta das oito horas. Peço-lhe que me deixe ir ao barco buscar as coisas. Ou ele não percebeu ou fingiu que não compreendeu. Quanto mais olho para ele, mais lhe acho com cara de assassino. Traz, do lado esquerdo, uma pequena garrafa metida em um estojo de couro; tira-a, destampa-a, bebe um gole, cospe e passa para a minha mão. Perante esse primeiro gesto amável, aceito-a e bebo por ela. Felizmente bebi pouco, parece

lume e sabe a álcool desnaturado. Engulo rapidamente e desato a tossir. E ele ri com espalhafato, esse índio misturado com negro! Ás dez chegam vários civis vestidos de branco e engravatados. São seis ou sete e entram em um edifício que parece ser a direção da prisão. Mandam nos chamar. Estão todos sentados em cadeiras, em semicírculo, em uma sala dominada por um grande retrato de um oficial branco cheio de condecorações: “Presidente Alfonso Lopez, da Colômbia.” Um dos sujeitos manda Clousiot sentar, dirigindose a ele em francês. Nós ficamos de pé. O indivíduo do meio, magro, nariz em forma de bico de águia, com óculos de meias-lentes, começa a me interrogar. O intérprete, sem traduzir nada, diz para mim: - O senhor que acaba de falar e que vai interrogá-lo é o juiz da cidade de Rio Hacha e os outros são notáveis, seus companheiros. Eu, que sirvo de tradutor, sou haitiano e dirijo os tragos de eletricidade deste departamento. Embora não o confessem, suspeito que entre os presentes há quem compreenda e fale um pouco o francês, talvez mesmo o próprio juiz. Este se impacienta com o preâmbulo do intérprete e começa o interrogatório em espanhol. O haitiano vai traduzindo as perguntas e as respostas. - São franceses? - Sim. - De onde vêm? - Curaçau. - E antes? - Trinidad. - E antes? - Martinica.

- Está mentindo. O nosso cônsul em Curaçati foi prevenido, há mais de uma semana, de que seis fugitivos da penitenciária francesa iam tentar desembarcar aqui, e recomendou que se vigiasse a costa. - Bom. Somos, de fato, fugitivos da penitenciária. - Cayeneros, então? - Sim. - Se um país tão nobre como a França os mandou para tão longe e os castigou tão severamente é porque vocês devem ser bandidos muito perigosos. - Talvez. - Ladrões ou assassinos? - Criminosos. - Matador, é a mesma coisa. Então vocês são matadores? Onde estão os outros três? - Ficaram em Curaçau. - Continuam a mentir. Desembarcaram-nos a sessenta quilômetros daqui, em uma terra chamada Castillette. Foram presos, felizmente, e estarão aqui dentro de algumas horas. Roubaram o barco? - Não, foi-nos dado pelo bispo de Curaçau. - Bem. Vão ficar presos aqui até que o governador decida a sorte de vocês. Por ter cometido o delito de desembarcar três cúmplices em território colombiano, tentando em seguida fugir para o mar, condeno o capitão a três meses de prisão e os outros a um mês. Portem-se bem, se não querem ser castigados corporalmente pelos policiais, que são homens muito duros. Têm alguma coisa a dizer? - Não. Desejo apenas ir buscar as minhas coisas e os víveres que estão a bordo.

- Foi tudo confiscado pela alfândega, à exceção de umas calças, uma camisa, um casaco e um par de sapatos para cada um de vocês. O resto foi confiscado e não insistam: não há nada a fazer, é a lei. Nos retiramos para o pátio. O juiz é assaltado pelos miseráveis presos: “Senhor doutor, senhor doutor!” Ele passa longe deles, cheio de presunção, sem responder e sem parar. Todos da prisão desaparecem. Os nossos companheiros chegam à uma hora, em um caminhão com sete ou oito homens armados. Descem, atrapalhados com malas. Entramos com eles na sala. - Foi um erro monstruoso o que cometemos e que o obrigamos a cometer - diz o Bretão. - Não temos desculpa nenhuma, Papillon. Se quiser me matar, pode fazê-lo, que nem me defenderei. Não somos homens, não passamos de umas nojeiras. Fizemos isso por termos medo do mar; pois bem: o que sei agora da Colômbia e dos Colombianos leva-me a pensar que os perigos do mar eram uma brincadeira em comparação com os que corremos nas mãos destes safados. Foi por não haver vento que vocês se arruinaram? - Foi, sim, Bretão. Mas não é preciso matar ninguém, todos nós somos culpados. Eu só tinha de me recusar a desembarcá-los; se o tivesse feito, nada disto aconteceria. - Você és muito bom, Papi. - Não, eu sou justo. Relato-lhes o interrogatório: - Enfim, pode ser que o governador nos ponha em liberdade. - Ah, pois! Como diz o outro: esperemos, que a esperança faz viver. Na minha opinião, as autoridades deste lugarejo meio civilizado não podem decidir o nosso caso. É nas altas esferas que será resolvido se podemos ou não

ficar na Colômbia, se nos entregam à França ou se nos dão o barco para irmos mais para a frente. Seria o diabo se essa gente, a quem não fizemos mal algum, tomasse a decisão mais grave, até porque não cometemos nenhum delito no seu território. Já estamos aqui há uma semana. Tudo na mesma, a não ser falando em sermos transferidos para uma cidade mais importante, Santa Marta, que fica a duzentos quilômetros. Estes policiais, com ventas de embusteiros ou de corsários, não mudaram de atitude conosco. Ainda ontem ia levando um tiro de um deles, só por ter pego, no lavabo, o sabão que me pertencia. Continuamos nesta sala infestada de mosquitos, felizmente um pouco mais limpa agora que quando chegamos, graças a Maturette e ao Bretão, que a lavam todos os dias. Começo a desesperar e a perder a confiança. essa raça de colombianos, mistura de índios e de negros, ou de índios e espanhóis, que eram, antigamente, os senhores deste país, fazem-me perder toda a confiança. Um preso colombiano me empresta um jornal de Santa Marta. Na primeira página, as fotografias de nós seis e, por baixo, a do comandante da Polícia, com o seu enorme chapéu de feltro e um charuto na boca, e a de uma dezena de policiais armados com as suas carabinas. Compreendo que a captura é romanceada e aumentado o papel que eles desempenharam. Diria-se que, com a nossa prisão, salvaram a Colômbia de um perigo terrível. E, no entanto, a fotografia dos bandidos é muito mais simpática que a dos policiais. Os bandidos têm ar de pessoas honestas, enquanto os policiais, meu amigo!, a começar pelo comandante... Estamos ferrados! O que fazer? Começo a aprender algumas palavras de espanhol: Jugarse, preso, matar, cadena, esposas, ombre, mujer.

Fuga de Rio Hacha

Há um sujeito no pátio que anda sempre algemado, e consigo travar relações de amizade com ele. Fumamos o mesmo charuto, um charuto comprido e fino, muito forte, mas fumamos mesmo. Compreendi que ele faz contrabando entre a Venezuela e a ilha de Araba. É acusado de ter matado uns caras da Guarda Costeira e está à espera do julgamento. Uns dias, parece extraordinariamente calmo, outros nervoso e excitado. Noto que está calmo quando o vêm ver e lhe trazem umas folhas, que ele masca. Um dia me dá metade de uma e eu logo percebo. Deixo de sentir a língua, o céu da boca e os lábios. São folhas de coca. esse homem de trinta e cinco anos, com os braços cabeludos e o peito coberto de pêlos encaracolados e muito negros, deve ter uma força fora do comum. As solas dos pés são tão grossas que chega a tirar bocados de vidro ou pregos que se espetam nelas sem nunca atingirem carne. - Fuga, você e eu - digo, uma noite, para o contrabandista. em uma das visitas do haitiano, pedira-lhe um dicionário de francês-espanhol. O cara compreenme deu, e fez sinal de que também queria fugir. Mas o pior eram as algemas! São algemas americanas com mola de segurança e uma fenda para a chave, que é certamente espalmada. Com um arame achatado e um ferro na ponta, o Bretão faz uma gazua21 pra mim. Depois de várias tentativas, passo a abrir, sempre que quero, as algemas do meu novo amigo. De noite fica sozinho em um calabozo, cujas grades são bastante grossas. As nossas são finas, é possível, com certeza, afastá-las. Assim, só teríamos que serrar uma grade, a de Antônio - chama-se Antônio o colombiano. - Como se poderá arranjar uma sacette22? - Plata.
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ferro to rto o u g ancho , d e arame, com a ponta chanfrada, utilizado para ab rir fechad uras (No ta d a reviso ra: http:/ / amandikaloka.4shared.com)
22

Serra. (Nota d o Trad utor.)

- Cuanto? - Cem pesos. - Dólares? - Dez. Numa palavra, por dez dólares, que lhe dou, arranja duas serras de cortar metal. Explico-lhe, fazendo desenhos no chão, que sempre que ele serrar um pouco, deve misturar a limalha de ferro com o arroz que nos dão, e tapar bem as fendas. No fim, antes de entrar, abro-lhe uma algema. Se por acaso verificarem-nas, só tem que apertá-la um pouco, pois ela se fecha sozinha. Leva três noites a cortar a barra de ferro. Explica-me que em menos de um minuto acabará o trabalho, e que é capaz de dobrar a barra com as mãos. Ficou combinado que ele virá me buscar. Como chove muitas vezes, diz que fugirem os na “primera noche de lluvia”. essa noite chove torrencialmente. Os meus camaradas estão a par dos meus projetos, mas ninguém quer me seguir, pois acham que a região para onde vou é muito longe. Quero ir até a ponta da península colombiana, na fronteira com a Venezuela. No mapa, que temos, está escrito que esse território se chama Guajira, e que é um território contestado, nem colombiano nem venezuelano. Antônio diz que “eso es la tierra de los indios” e que lá não há Polícia, nem colombiana nem venezuelana. Apenas passam por lá alguns contrabandistas. É arriscado, porque os índios guajiros não toleram que um homem civilizado penetre no seu território. No interior são mais perigosos, mas na costa há pescadores índios que, por intermédio de outros índios meio civilizados, negociam com a aldeia de Castillette e com um lugarejo chamado La Vela. Antônio não quer ir até lá. Os seus companheiros, ou talvez ele próprio, teriam matado em combate alguns índios, em um dia em que o barco, cheio de contrabando, fora forçado a refugiar-se na costa ocupada pelos índios. No

entanto, compromete-se a me levar até perto de Guajira; a seguir terei de continuar sozinho. Tudo isto, é inútil dizer, foi muito difícil de combinar, entre nós, porque ele emprega palavras que não estão no dicionário. Ora, como eu ia dizendo, essa noite chove torrencialmente. Estou junto da janela. Há dias descolamos uma prancha do batente, que hoje nos irá servir de alavanca para separar as barras de ferro da janela. A uma tentativa feita há duas noites atrás, vimos que cediam facilmente. - Rápido! Fujamos!... A cara de Antônio aparece colada às grades. De uma vez só, e com a ajuda de Maturette e do Bretão, as barras se afastam e são arrancadas. Empurram-me, levantando-me no ar, e dão-me palmadas nas nádegas antes de eu desaparecer. Estas palmadas são o aperto de mão dos meus amigos. Estamos no pátio. A chuva torrencial faz um barulho infernal ao cair nos tetos de chapa de zinco. Antônio segura a minha mão e leva-me até o muro. Saltá-lo é uma brincadeira, pois só tem dois metros de altura. Todavia, corto a mão com um dos vidros que estão espetados no topo, mas não faz mal, fujamos! esse maldito Antônio consegue reconhecer o caminho no meio desta chuva que não nos deixa ver um palmo adiante do nariz, aproveita-se disso para atravessar a aldeia nas calmas, depois metemos por uma estrada entre a selva e a costa. À noite, já muito tarde, aparece-nos uma luz. Temos de fazer um desvio pela selva, felizmente pouco cerrada, mas retomamos o mesmo caminho. Andamos pela chuva até o romper do dia. Na partida, Antônío me deu uma folha de coca, que masco da mesma maneira que o vi fazer na prisão. No dia seguinte não estou nada cansado. Será a folha? Deve ser. Mesmo de dia continuamos a andar. De vez em quando, ele se deita na terra e encosta o ouvido ao chão, que está todo molhado. E continuamos.

Ele tem uma maneira curiosa de andar. Não corre nem avança a passo, dá pequenos pulos sucessivos, todos do mesmo tamanho, balançando os braços como se remasse no ar. Deve ter ouvido qualquer coisa, pois arrasta-me para a selva. Continua a chover. Com efeito, vemos passar um cilindro puxado por um trator, com certeza para aplanar a estrada. São dez e meia da manhã. A chuva parou, e o Sol descobriu-se. Entramos na selva, depois de termos andado mais de um quilômetro a cortar o mato, e não pela estrada. Deitados debaixo de um arbusto muito frondoso, rodeados por uma espessa vegetação cheia de picos, creio que nada temos a temer, mas, no entanto, Antônio não me deixa fumar, nem sequer falar baixo. Como ele continua a chupar o suco das folhas, eu decido imítá-lo, se bem que mais moderadamente. Possui um saquinho com mais de vinte folhas e me mostra. Os seus dentes magníficos brilham no escuro quando se ri baixinho. Como a selva está cheia de mosquitos, Antônio mascou um charuto e, com a saliva cheia de nicotina, molhamos a cara e as mãos, posto o que eles nos deixam em paz. Sete da tarde. Caiu a noite, mas o luar chega para nos iluminar o caminho. Ele aponta, no relógio, para as nove e diz: - Lluvia. Percebo que às nove horas choverá. De fato, às nove e vinte começa a chover, e nós retomamos o caminho. Para me manter próximo dele, aprendi a andar aos saltos e a servir-me dos braços como remos. Não é difícil, avança-se com mais velocidade do que se andássemos depressa, sem, no entanto, corrermos. Durante a noite, vimo-nos obrigados, por três vezes, a entrar na floresta, para deixar passar um automóvel, um caminhão e uma carroça puxada por dois burros. Graças às folhas, não me sinto fatigado ao chegar a madrugada. Às oito pára de chover, e, então, temos, outra vez, o mesmo, avança-se devagarinho a cortar o mato durante mais de um quilômetro e penetra-se na selva, que nos

Nove da noite. começamos a comer.Castillette . Anda-se. Faz alguns dias que estamos encharcados e que não comemos. Saímos da praia e atravessamos o caminho para entrar na selva. essa noite. durante todo o tempo que durar esse quarto de Lua choverá todos os dias à mesma hora. As pupilas de Antônio estão de tal modo dilatadas que não se vê a íris. mas só a . Como o caminho acompanha a costa. Marcha despreocupadamente e já faz várias horas que não encosta o ouvido ao chão. O inconveniente destas folhas é que não se consegue dormir. vem-lhe colado um líquido amarelo parecido com gema de ovo. O sol secou-nos a roupa. começa a chover a uma determinada hora. na estrada. As minhas devem estar na mesma. os quais não têm casca. mas apenas uma pele. Ajudo-o a escavar um buraco na areia e. Antônio pára para observar um traço na areia. Só mais tarde é que vim sabendo que. Agora caminhamos sobre areia úmida. A salvo de todos os olhares. mal tínhamos começado a andar. efetivamente. salta-se durante todo o resto da noite e uma grande parte da manhã. São ovos de tartaruga. a ser um pouco de açúcar mascavo. não sei. pouco depois. aparecem ovos. de cinquenta centímetros. Quando o tira. ele corta um ramo para fazer um cajado. Ainda não pregamos olho desde que partimos. que sai do mar e se prolonga até a areia seca. 'quando chegamos. Seguimos o traço e.serve de refúgio. Antônio tem todo o ar de estar convencido de que não vamos ter mais encontros pelo caminho. Chove. nos trópicos. cerca de trezentos ou quatrocentos.diz Antônio. Antônio. Depois de uma caminhada penosa de mais de duas horas. de novo. tirou a camisa e nós a enchemos com cerca de cem. nos encontramos. Abandonamos a estrada. O diabo do homem pega na minha mão sem hesitar e entramos na selva. ouvimos gritos e depois vimos luzes.' ao lugar onde ele se alarga. ele enterra o pau. quando. . Diria-se que a chuva espera por essa hora para principiar a cair. no primeiro dia. ou por outra.

dos dias más. dará meia-volta. e. guarda seis notas de cinco florins. De mañana en adelante no hay policias. Apesar da minha insistência. deitamo-nos com os casacos a servirem de almofada. também. ele recusa-se a aceitar mais. pois tivemos de bater duas pedras. portanto é meio-dia e eu acerto o meu relógio. Tudo isso evitado por Antônio de forma magistral. O sol escalda. Tem cerca de cinquenta centímetros de largura e acompanha a orla da floresta. Antônio diz: -Mañana você sigues solo. Antônio se senta em uma grande raiz de árvore e faz sinal para que eu o imite. corta a pele que envolve o ovo. partimos após termos sorvido algumas gemas de ovo e acendido um charuto. volto com cento e trinta dólares na Trinidad e mais sessenta florins. para atearmos um pouco de musgo seco. Antônio esvazia o seu saco de folhas de coca: há sete lá dentro. depois muito pensar. então. Agradece-me. com as notas na mão. pega nas notas. pois não tem erva. pelo sol deve ser meio-dia. depois aspira a gema. No meu relógio. Tinha decidido que íamos nos separar ali. outra eu. deixa escorrer a clara. mas agora ele parece querer acompanhar-me mais um dia. Com uma dentada de lobo. O caminho não é largo. Bem. sorvendo um e passando-me outro. são onze horas. Neste momento. não compreende estão novas e como não se molharam. um pequeno pau espetado no chão não produz sombra. . é um carreiro que se vê que é utilizado. durante mais de meia hora. Vêem-se. entro na floresta. Andamos. dominando a praia a uma altura de dois metros. opera-se qualquer mudança nele. dá ele a entender. Abre uma série de ovos. Último posto fronteiriço essa noite. me dá quatro e guarda três para si. Depois. Olha-me com espanto. marcas de ferraduras de cavalos e de burros. Nós o reconhecemos pelo ladrar dos cães e por uma casinha iluminada. toda a noite sem tomarmos precauções.gema. Fartos até mais não poder. às dez horas. Afasto-me um pouco. o que nos deu muito trabalho. uma contra a outra. diz para mim Antônio. visto que nunca as viu secar. portanto devolveu-me o restante. uma ele.

uma bela carabina e um enorme revólver à cinta. mas era evidente que sabia quem chegava. . Antônio e o cavaleiro falam rapidamente e vê-se que o meu projeto de atravessar a Guajira não agrada. mas uma espécie de sunga de couro.Caminhamos há três horas quando vemos um homem. Antônio tinha reconhecido de longe o cavaleiro. . .Para o mais perto possível dos pescadores índios. e abraçam-se os dois dando grandes palmadas nas costas um do outro. não tinha dito. O cavaleiro monta. Encontrarei por toda a parte essa forma de cumprimento. sem compreender.Para onde vai? . uma camisa verde e um casaco desbotado. Antônio estende-me a mão e. gênero militar. Ele me dá um punhal com a bainha de couro e o cabo de chifre polido. tenho os pés em sangue.você não está armado.Ele quer passar pelo território dos índios. só levado a galope. . Como arma. . pelo menos. Estamos sentados à beira do carreiro. um francês. procurar um meio para voltar a Aruba ou a Curaçau. hijo mio. uma vez lá.Caramba! Antônio. e de pele acobreada. não usa calças. Percebo tudo por gestos.O índio guajiro é mau .E aquele? . Apeia-se do cavalo. Antônio faz sinal para que eu monte o cavalo: com os sapatos pendurados aos ombros.diz o homem. toma. fico descalço para sarar as feridas. entrar na Venezuela e. um par de botas. esse homenzarrão de quarenta anos. a cavalo. . Este homem traz um grande chapéu de palha. que se aproxima de nós em linha reta. escarranchado atrás do amigo de Antônio. Desaperto os sapatos.Compañero de fuga. . também verde.

O mar cintila. cinco ou seis árvores. Uma hora depois. que se prende ao cinto para as meter. Procuro calcular a distância: dez quilômetros talvez. volta a montar a cavalo e parte a galope. levando os sapatos sempre pendurados. avisto pessoas. sob um sol que queima. ele passa-me uma garrafa de anis e eu bebo um pouco de cada vez. Caminho descalço. castanho-claro. impermeável. oferecendo-me também um saco especial. ou de folhas. batendo-me nas costas. Caminho devagar em direção a eles. ele me dá queijo. já afastadas da praia. identifico as cinco ou seis coisas: são cabanas com teto de bambu. recomeço a caminhada em um passo bastante rápido. Em seguída. Descobre o Sol.galopamos durante todo o dia e toda a noite. Três seguram arcos e flechas. De tempos em tempos detemo-nos. ou talvez pedregulhos. duro como sola. Os índios Caminho até a uma da tarde. estas também já me viram. parece-me ver ao longe. ao ombro esquerdo. e desembarcam umas dez pessoas. Não fazem gestos. De uma delas sai fumo. Estão todos reunidos diante das casas e olham para mim. e duas bolachas mais seis folhas de coca. um de cada lado. como o vi fazer com Antônio. ou de palha. Não há mais árvores ou mato no horizonte. No momento em que resolvo deitar-me. Percebo que algumas delas gritam e fazem gestos na direção da praia. Vejo então quatro barcos que se aproximam rapidamente da praia. De madrugada pára. nem . mastigando-a. Aperta-me nos seus braços. Vejo nitidamente que tanto os homens como as mulheres estão nus: têm apenas um pano à frente para esconder o sexo. prateado. Agarro em metade de uma folha larga e.

O rosto. quando tudo já está bem depilado. Todo mundo nos rodeia. Nenhum deles se mexeu nem disse nada. nus. que caminho diretamente para ele. Todos riem do modo como fumo. Um cão começa a ladrar e lança-se a mim. A atitude de um deles é tão nobre. Está descalço. Esse exame dura dois minutos. pois a mordida foi realmente séria. que uma índiazinha fora buscar. é atingido no traseiro por uma pequena flecha. onde nada se move. sorri e tocame no ombro. saída não sei de onde (de uma zarabatana. A ferida já não sangra. aceito-o e começo a fumar. com bicos enormes.de hostilidade nem de amizade. cor de cobre. parece o de uma estátua de cobre. chegam à altura do lóbulo. Não tem arco nem flecha. arregaçame as calças. nem no peito. Paro a três metros dele. mas falta um pedaço de carne mais ou menos do tamanho de meia moeda de cem soldos. As orelhas estão escondidas pelos cabelos. com uma franja comprida até as sobrancelhas. são esplêndidos. então. Só uma delas tem seios grandes e caídos. os seus traços tão finos. É tão alto como eu e traz os cabelos bem cortados. sentada em círculo.fazem-no com a ponta acesa dentro da boca. quase violeta. Depois. negros como azeviche. As crianças detêm-se atrás das mães. Um homem estendeme um charuto aceso. Em seguida. Aproximo-me a coxear. Foge ganindo e entra em uma das casas. de olhar severo. Ele me morde na parte inferior da barriga da perna e arranca um pedaço das minhas calças. nem nos braços. que. Depois. todos fazem o mesmo. justos e firmes. são musculosas. lava a ferida com água do mar. na parte de trás. Uma vez ali. cor de cobre. Os corpos. pois eles . vim sabendo depois). é tão manifesta a nobreza da sua raça. nem nas pernas. Não tem um só pêlo. Quando volta a investir. dá dois passos e me olha fixamente nos olhos. As mulheres têm os seios direitos. A mulher arrancame os pêlos e. Os olhos são de um cinzento-aço. para fazer . comprime-me a carne. As coxas. e as pernas bem torneadas e esbeltas.tanto os homens como as mulheres . e uma jovem índia pega-me pela mão e leva-me para a sombra de uma das cabanas. musculosos. que. Estou apenas a dez metros do povo.

faz-me sinal para que me levante. prepara algas do mar que lhe trouxeram. coluna vertebral. Depois. que ela tinha aumentado. descobrindo outras tatuagens. vermelha. Entramos na maior das cabanas e aí sinto-me completamente desconcertado. Neste momento. Todos. Outra índia jovem quer ajudá-la. uma pedra redonda e achatada. várias espingardas de cano duplo e um sabre militar. com caçadores. Espalhados por toda a parte. Cada um dá a sua opinião. palmeiras. coloca-as sobre a ferida e prende-as com o pano tirado das calças. cada tatuagem. e nas vigas estão suspensas redes de cores vivas. um ferro afiado. homens e mulheres. Todos riem desse gesto. cor de tijolo. Ainda não satisfeita.correr sangue. Na parede. a toda a largura dos rins. uma cena de caça. Ao verem estas tatuagens. a figura de um homem. Reparo também em uma carapaça de tartaruga. longa e minuciosamente. Observa-a e. A cabana é feita de terra batida. Tem oito portas. um grande marinheiro crucificado e. despe-me a camisa para ver melhor. tocando-lhe. ela vê. e que foi por isso que todos riram. o focinho de um tigre. os homens afastam as mulheres e põem-se a examinar. feitas de pura lã. arcos de várias dimensões. corta as duas pernas das minhas calças bastante acima dos joelhos. através de um rasgão da camisa. sou definitivamente aceito pelos homens. que servem de assento. Levanto-me e dispo o casaco. A partir desse momento. castanha e polida. Compreendo que quisera mostrar à outra que eu lhe pertencia em exclusivo. cercada de outras pedras chatas. mas ela repele-a com dureza. elefantes e tigres. se mostram muito interessados nas tatuagens do meu peito: à direita. uma borboleta tatuada perto da base do pescoço. Como estão todos a olhar para mim esforço-me por não me mexer. O chefe primeiro que todos. Sobre uma pedra. é redonda. à esquerda. quando o chefe sorrira e me tocara no ombro. As mulheres tinham-me aceite desde o início. uma cabeça de mulher. sobre o estômago. Contente com o seu trabalho. espeta na ferida. na qual um homem . No centro.

outro povoado. em seguida. o poente. Sobre a mesa. Principia por desenhar índios nus. de dois quilos. Convidam-me a comer e eu como devagar. assado na brasa. Com os outros sentados em círculo e a jovem índia a meu lado. um sol. metade de uma cabaça contendo no fundo uns dois ou três punhados de pérolas. à direita. e as antipáticas mulheres vestidas. representado por um círculo. no lado referente do à costa colombiana. homens e mulheres vestidos. homens de espingarda e chapéu. em divisão com outro povoado. onde lavo as mãos e a boca com a água do mar.poderia se deitar e em uma chaminé feita de pedras dispostas umas sobre as outras. dão para eu beber um suco de fruta fermentado. a aldeia deles e depois o mar. Todos observam. por meio de gestos e palavras. agridoce. À direita do povoado indígena. o chefe levanta-se e se dirige para o fundo da cabana. pelo menos. À esquerda. Os homens aparecem com uma espingarda ou com um pau na mão. Para me indicar a posição que ocupem relação à aldeia. ele percebe que se esquecera de qualquer coisa e desenha um caminho que vai da aldeia indígena ao lado da direita e outro que segue pela esquerda. Quando percebe que compreendi o que ele queria dizer. Depois regressamos. com a mão pousada na minha coxa. muito bom. Depois de eu ter observado bem os desenhos. que estava delicioso. Subitamente. do outro. pega novamente no giz e cobre de traços os povoados de ambos os lados. e. em um chifre de boi. a mulher pega-me na mão e levame à praia. sem qualquer indício de cimento. O jovem chefe olha com orgulho para a sua obra. volta com um pedaço de pedra branca e começa a fazer desenhos sobre a mesa. tentamos trocar algumas informações a nosso respeito. no lado referente à costa colombiana e venezuelana. cada um por sua vez. do qual saem raios em todas as direções. desenha. sobre uma folha de bananeira. Não há engano possível: de um lado. Quando acabo o peixe. o. me trazem um peixe grande. um sol cortado no horizonte por uma a colina sinuosa. deixando somente intacta a sua . casas com janelas. nascente.

Tocou no meu corpo. com dois homens armados que o vigiam. Fiz a mesma coisa e ela veio para o meu lado. Compreendo que me quer dizer que as pessoas daqueles lugares são más. o chefe de braços abertos para o fugitivo. Por sua vez. perseguido pelos dois. É mais complicada que a deles. pois. cheios de cicatrizes pequenas mas estriadas. então. onde duas pessoas podiam. dormir atravessadas. nas orelhas. Mal seca. de Saint-Etienne. com o cão e. O meu desenho não deve ter saído tão mau como isso. que ele não quer nada com elas e só a sua aldeia é boa. Tinham compreendido. ao acariciar-lhe o rosto. em seguida a uma conversa bastante longa entre os homens. que desenho com os índios. nos olhos. onde viviam mais seis índias e quatro índios. levantamo-nos e dirigimo-nos para a cabana grande do chefe. na boca. em direção à aldeia. Deitei-me na rede. faço o mesmo homem correr. muito larga. Depois de termos passado uma hora na rede. com as espingardas em punho. Eram as feridas feitas pelos corais. a índia levou-me para a sua cabana. facilmente. à frente deles. deitou-se em uma outra rede no sentido da largura. os policiais estão parados e ele continua a correr. Mostra-me as espingardas. o chefe abriu os braços. ela pega na minha mão. depois.aldeia. Nessa mesma noite. . com os seus dedos longos e finos. quando mergulhava para apanhar ostras perlíferas. na última. A quem ele o diz! Limpam a mesa com um pedaço de lã molhada. tal como no meu desenho. mas ao comprido. espantada por senti-la macia e sem calos. mas muito ásperos. Faço três vezes a mesma cena e de cada vez coloco o homem mais distanciado dos seus perseguidores. Instalou uma magnífica rede de lã. Tinham seis caixas cheias de cartuchos de chumbo tipo zero-zero. ela. me dá o giz e cabe a mim contar a minha história em desenhos. que examino: são de calibre 12 e 16. Desenho um homem com as mãos amarradas.

Não se cobre nunca com pano algum. o seu perfil é muito puro e os cabelos. Instalamo-nos sem cerimônia alguma na cabana. as nádegas ficam completamente à mostra. etc. de pura lã. Há utensílios de cobre e de alumínio. sabres. Uma das cabanas está desabitada e em mau estado. panelas. não sabe beijar. a da entrada principal e mais duas. Auxiliada pelas outras mulheres. que tem três portas. ao passo que ela o faz sempre pela do sul. um fomo. por exemplo. não quer. Os bicos são compridos e mais escuros que a pele acobreada. eu. Logo que a casa fica pronta. entrançados com risco ao meio. enfeitadas com franjas entrançadas e desenhos de cores muito violentas. copos. Os índios possuem todos os tipos de ferramentas cortantes: facas. machados. Acariciamo-nos mutuamente. tonéis de ferro e de madeira.A índia é de estatura mediana. panelas. são de um tamanho descomunal. ela começa a trazer coisas dadas pelas outras índias (até um arreio de burro): um tripé de ferro a servir de fogareiro. amarelocanário. não quer andar do meu lado e quando não há nada a fazer. punhais. uma mó de esmeríl. As redes. Tem os seios admiravelmente bem feitos. Não tardei a ensinar-lhe corno se faz à maneira civilizada. Cada uma das portas tem a sua razão de existir. altos e em forma de pêra. azul-da-prússia. enxadas e um ancinho com dentes de ferro. Não compreendo. Há quinze dias que cheguei. morde. tem os olhos cinzento-aço como os do chefe. No círculo da cabana. uma rede onde quatro adultos poderiam dormir atravessados. latas. regadores. na altura devida. mas recusa-se obstinadamente a ir até o fim. pois foi ela quem me provocou e. a única roupa que usa é a tanga presa à cintura fina por um fio. negro de azeviche. essas três portas formam um triângulo isósceles. vem sempre atrás de mim. Quando beija. ela ajeita o teto com folhas de coqueiro e tapa os buracos da parede com aplicações de urna terra vermelha cheia de argila. vermelho-sangue. uma em frente da outra. chegam-lhe até os quadris. Não devo entrar ou . Quando caminhamos. devo entrar e sair pela porta do norte.

sair pela sua porta. penteio e entranço-lhe o cabelo. colocando o braço da mulher em volta da cintura do marido e o braço direito do homem em torno da cintura da mulher. Há uma coisa que me surpreende: nunca usa as frigideiras ou as panelas de ferro ou de alumínio. na casa. Vão pescar bastante longe. Assisto à abertura das ostras. Às escondidas de todos. nem beijar-lhe de determinada maneira a boca e os seios. nunca bebe por um copo de vidro. Parece feliz quando a penteio. meia para a mulher que abre as ostras e uma e meia para a mergulhadora. Só depois de nos instalarmos na casa é que ela se entregou. uma para o pescador. uma felicidade indescritível ilumina-lhe o rosto. Assisto. à abertura das ostras. O regador de crivo serve para nos lavarmos e as necessidades são feitas no mar. dá as pérolas a seu tio. para lhes tirarem as pérolas. mas não à pesca. Depois desta cerimônia vão embora. nem esfregar-lhe as mãos com uma pedra semelhante à pedra-pomes. utiliza sempre os recipientes de barro fabricados por eles próprios. Se essa vive com a família. trabalho feito pelas mulheres mais velhas. Os amigos entram pela porta principal e tanto eu como ela só a devemos utilizar quando acompanhados de visitas. de maneira a meter o dedo indicador no umbigo desta. então. Cada jovem que pesca pérolas possui a sua sacola. pelo . Nunca compreendi porque é também o tio quem entra em primeiro lugar em casa dos noivos. nem ela pela minha. irmão de seu pai. por vezes. Não quero entrar em pormenores. pelo receio de que nos surpreendam. que representa a comunidade. já que não me convidaram a entrar em uma das canoas. pois percebo que um homem não deve pentear a sua mulher. portando. sem exceção. Lali (é o nome dela) e eu instalamo-nos. invadido. mas em matéria de amor era ardente e exímia por intuição: enrolava-se-me como uma liana. As pérolas encontradas nas ostras são repartidas da seguinte maneira: uma parte para o chefe.

dividida em compartimentos. atravessa todo o tórax e acaba no ombro direito. pois não poderia levar comigo uma coisa que não é minha. escorre sangue das feridas. então como faz negócio? Com a ajuda do dicionário. azul e vermelha e linha de coser. esmaga as algas marinhas e aplica-as sobre os ferimentos. pois o chefe não se cansa de me pedir que lhe faça tatuagens. Às vezes. escrevo em um papel: agulhas. assim. não usa nenhuma peça de roupa. Não faço nada sem que me peçam por sinais. a não ser a tanga. Está seguro de que. nunca entro na cabana do chefe. Se não sabe uma única palavra de espanhol. Como os burros não vão carregados. para tentarem ver ou ouvir o que fazemos quando ficamos sozinhos. O índio é pequeno e seco.menos a cerca de quinhentos metros da costa. serei obrigado a regressar. O índio tem dois burros e uma carabina Winchester de repetição. sem que alguém ou ele próprio me pegue pela mão e me conduza. que começa no flanco esquerdo. vi o índio que faz a ligação entre a aldeia e o primeiro povoado colombiano. Viajamos todo o dia pela mesma estrada que tomei para chegar até a aldeia. Quando o índio se vai embora. o índio monta em um e eu no outro. como todo mundo. situado a dois quilômetros do posto da fronteira. tem a simplicidade de me emprestar uma espingarda de dois canos e seis cartuchos. . Tem uma ferida horrível. Os índios metem as pérolas em uma caixa de charutos. Lali anda desconfiada de que três moças índias da sua idade se deitam na erva. mas a uns três ou quatro quilômetros do posto fronteiriço índio. Essa ferida cicatrizou deixando uma marca empolada da grossura de um dedo. tinta-da-china. Há dias em que Lali volta toda arranhada nas coxas ou no tronco pelos corais. onde as põem de acordo com o seu tamanho. Então. o mais perto possível da porta da nossa casa. Para me obrigar a voltar. Ontem. Esse povoado é conhecido por La Vela. o chefe autoriza-me a acompanhá-lo. volta as costas ao mar e embrenha-se pelo interior.

E. Diz para mim o índio branco: . . que o índio da minha aldeia nunca vai além deste lugar. muito jovem. Esfregam em seguida as feridas e lambem as mãos. Compreendo.Buenos dias. Diz que é para Lali.Vuelva a verme . Lançando-se sobre mim como uma louca. Todo mundo se aproxima. engastadas em aros de prata muito brilhante. Ainda mal havia percorrido metade do caminho quando vejo Lali. pálido. fala. tintas com o sangue um do outro. até o momento em que chega um sujeito que tem os olhos. todo o fácies. sozinho. na companhia de uma de suas irmãs. arranha-me o peito . Lali deve ter entre dezesseis e dezoito. os cabelos. me dá um colar feito com moedas colombianas. agora. dois homens agem da seguinte maneira: encostam um dos braços ao do outro e depois cada um deles fere com uma faca o braço do parceiro. Parto.Lá pelas cinco horas. exceto a cor. É branco.pois protejo a cara . Você eres el matador que se lué con Antônio? Antonio es mio compadre de sangre. e tem os olhos vermelhos como os de um albino. conduzindo os negócios de modo a defender encarniçadamente os interesses da sua raça.Agujas. Nada más.diz para mim o índio branco. . de um índio. Fala espanhol melhor que eu e vê-se que sabe fazer contato com os civilizados. o nariz. tinta china roja y azul. O índio fala. . chegamos às margens de um riacho onde se vêem cinco casas de índios. então. Para se ligarem por um pacto de sangue.Você to tendrás de aqui a un cuarto de luna. À partida.Que quieres? . Usa calças de caqui.e morde-me cruelmente no . talvez com doze ou treze anos. fala. me dá um arco. para assegurar-se de que voltarei.

A garota já ali não estava e Lali olha-me ternamente com os seus grandes olhos cinzentos e mordisca-me os lábios. A determinada altura. essa deita-se ao lado da irmã e eu ao lado de Lali. Percebo que está à espera dela. tira a tanga à irmã e lava-a também. estou sentado. Seguidamente é ela que. mato uma coruja. Lali instala a irmã entre as minhas pernas e. mesmo à minha frente. Só mais tarde percebi que ela tinha pensado que eu tentava obter informações para ir embora. abraçado a Lali. Sorri para mim e fecha os olhos. Depois..eu. Tenho dificuldade em controlá-la. Com jeito. que não era feliz com ela e que talvez sua irmã fosse capaz de me fazer ficar. Caminhamos lentamente. Não sei como me desenvencilhar de tão estranha situação. Tirolhe a colar e coloco-o no pescoço de Lali. Monto a indiazínha no burro e sigo atrás. Alvejei-a sem saber do que se tratava. Então acontece uma coisa que só mais tarde compreendi. onze horas da manhã. Diante da casa está sentado o índio que costuma guiar a canoa de Lali. passa-os em torno da cintura dela. Sento-me a seu lado e ele fala-me de coisas que não entendo. se atira à água para se banhar. Vou tomar um banho. Chegamos à aldeia de madrugada. Quando as duas regressam. Estou cansado. . Está feliz por ter dado a perceber que compreendera que eu sabia que não fora isso que me impedira de partir. dando a entender que sabe que Lali está a dormir. É excepcionalmente musculoso. em uma mímica engraçada. onde a deito. pego-lhe no colo e levo-a para a rede. dera de presente a Lali. Acordei com a mão de Lali a tapar-me os olhos: era tarde. De repente acalma-se. para bebê-la com limão e açúcar. mesmo empregando todas as minhas forças. por sua vez. à espera que a água que pus ao lume aqueça. agarrando-me nos braços. Lali lava-me. afasto a menina. Vejo que a garota está sem tanga e traz ao pescoço o colar que. apenas porque vira olhos a brilharem no escuro.pescoço. Lali quer por força levá-la conosco e a amarra à sela.

Compreendo que. ou eu e que sou incapaz de te explicar porque pus óleo? “ O chefe passa por nós. com uma remada. Lali. mas parece que ele pensa que não o compreendi. aponta para o mar. Untou o corpo todo com óleo. Depois. Estas transportam um enorme lagarto verde. é tão graciosa que. A quinhentos ou seiscentos metros da praia. onde já tem dois barcos pescando. e ele traz um arco e flechas. o índio o impele mar dentro. fingindo não compreender. ela esboça um gesto de amuo como se dissesse: “Será que és burro. posso ir com Lali. meio a brincar. se quiser. acompanhado de duas índias. Acabou de caçá-lo e convida-me a ir comê-lo mais tarde. todas elas presas ao pescoço. Quando lhe faço sinal para recomeçar uma vez mais. Lali aparece. Subo e me coloco no meio. equilibra a canoa e impede-a de recuar em direção à praia. Empunhando uma grande faca. com água pelo busto. segue a barra de ferro de cerca de quinze quilos que serve de . encontramos uma espécie de canal. Vamos os três: Lali. ao mesmo tempo que. origino que ela a repita várias vezes. Sabe que eu não gosto. Têm uma maneira curiosa de entrar para o barco: o índio é o primeiro a subir e instala-se na popa. feita de madeira muito leve. o seu habitual companheiro de pesca e eu.jovem e robusto como um atleta. pelo menos. A pequena canoa. diz para mim que gostaria que eu o tatuasse. feita meio a sério. examina-as longamente e depois. a água deve estar muito fria. A mímica. mas faz-me compreender que. Lali diz-lhe qualquer coisa e ele. com uma grande pangaia na mão. é facilmente posta na água. em um salto. Observa as minhas tatuagens. As ondas vão aumentando de tamanho à medida que nos afastamos. Com ela ao ombro. por sinais. Lali prendeu as tranças no alto da cabeça com cinco tiras de couro vermelho. Lali sobe para o barco. entram na água. com o tempo nublado. Respondo-lhe que sim com um gesto de cabeça. tocando-me no ombro. três atravessadas e duas ao comprido. de quatro ou cinco quilos.

Lali e eu deixamo-la levar. pelo tempo que ela demora. pois faz questão de ser ela a fazê-lo. explica-me que quer que eu a triture com os dentes e a engula. conservando-a ali alguns momentos. sem que Lali tenha entrado na canoa. Lali nem uma só vez subiu para o barco.âncora e que o índio levou até o fundo. mas. Depois. Trinco a pérola e engulo os fragmentos. Lali extrai a pérola de dentro da ostra: é do tamanho de um grão. Quando estão já todas amontoadas na praia. pelo menos. abre umas trinta antes de encontrar uma pérola. Lali leva mais de três horas. A temperatura. Lali subiu para a canoa. ajudada pelo índio. Perante a minha recusa. com a faca. Rapidamente. que as ondas depressa conduzem à praia. Regressamos a terra. Lali impede a velha de abrilas. Delicadamente. mergulhando e vindo à super. O barco está ancorado. as ostras para a areia seca. suplica-me que ceda aos seus desejos . Lali abre quatro ou cinco ostras. . pois a cada onda sobe e desce. Deixamos os outros trabalhando e vamos embora.e é tão cheio de suavidade o pedido que acabo por fazer-lhe a vontade. De cada vez traz ostras no saco. No segundo. Parece uma criança: abre-me a. umas duas dúzias delas. deita-me na areia e verifica se não ficaram alguns pedaços presos entre os dentes. Para descansar deixa-se ficar cinco ou dez minutos agarrada a ele. Parece uma das maiores ali pescadas. Mudamos duas vezes de lugar. A velha índia está à espera. que o índio esvazia na canoa. Depois tira-a e põe-na na minha boca. pois o saco traz mais ostras e maiores. Lali segura a pérola com os dedos e mete-a na boca. Não se vê o fundo.boca. sem sair da água. e encontrar-se a uns quinze ou dezoito metros. no fundo do mar. todos eles discretos. e como brilha! A natureza dotou-a de vários tons. visto que as ostras estavam muito frias. deve ser bastante baixa. que me dá para comer para que a pérola entre bem dentro de mim. É preciso dizer que comi. mas não se mantem imóvel. Por meio de uma série de gestos e movimentos das maxilas. a colheita é mais rendosa. Durante bastante tempo.

Têm uma carne deliciosa. que chegam a pesar cento e cinquenta quilos. As agulhas e a tinta-da-china vermelha. Na cabana do chefe. Ele nunca as usa. já que os índios não têm barba. nunca atingem o peso e o tamanho das tartarugas da Orenoco ou do Maroní. as tartarugas já não conseguem endireitar-se. Lali depilou-me o corpo todo. pois não sei desenhar o suficiente para fazer um focinho tão perfeito. azul e violeta já chegaram há tempo. Anos depois. depois de cozidos ao sol. os seus ovos. Vi levarem algumas. No entanto. Acho graça. com dentes igualmente grandes. viria a ter problemas com elas. por vezes. Fiz uma tatuagem no braço de Zato. Uma das navalhas é usada para aparar os cabelos. Quer um focinho de tigre igual ao que tenho. os quatrocentos quilos e cuja carapaça tem dois metros de comprimento por um de largura. os Guajíros têm contatos com a civilização. Os índios da costa entregam ao índio branco pérolas e também tartarugas vivas. antes de lhe fazer uma grande tatuagem no peito. visto que tenho o cuidado de assentar em um papel a data e o dia. Não há engano possível.Faz um mês que estou aqui. que haviam estado três semanas sem comer e sem beber naquela posição. como já expliquei. Esta comunidade índia chama-se Guajíra. chamadas Motilones. cujo peso ultrapassa. Mal vê um pêlo arranca-o e esfrega-me com uma pasta feita de algas misturadas com cinza. ainda vivas. Ficou encantado e fez-me compreender que não queria que eu tatuasse quem quer que fosse. branca e tenra. Parece-me que depois desta operação os pêlos crescem com mais dificuldade. Os grandes lagartos verdes proporcionam. por sua vez. o chefe: um índio com plumas de todas as cores na cabeça. que se estende até a base das montanhas. . onde existem outras comunidades. Uma vez viradas de barriga para o ar. descobri três navalhas de barbear Solingen. Os seus membros vivem tanto na costa como na planície interior. Através do comércio. óptimos manjares.

A minha atitude faz que ninguém me inveje e me olhe com má vontade. todas extraordinariamente belas. Ponho-as em uma gamela sem as separar segundo o seu tamanho. nem galinha. Não existe. ficando. as quais. por duas cabras e por uma dúzia de carneiros e de ovelhas. por exemplo.sobre a areia. niquelada em uma das faces. Para poder me barbear e me ver. tive de tirar de um barco naufragado uma placa de quarenta centímetros quadrados. Trata-se do feiticeiro das várias aldeias de guajiros. faltando outras que lhes poderiam ser úteis. O feiticeiro tem também umas vinte galinhas. vai uma índia diferente. Ás vezes. Apenas o seu aspecto é que é um pouco repugnante. rodeado por cobras. nada falta à tribo. A minha política em relação aos meus amigos é simples: nada faço que possa diminuir a autoridade e o saber do chefe e ainda menos molestar a reputação de um indivíduo muito velho que vive sozinho a quatro quilômetros para o interior. Mandam-lhe também broas de milho. portanto. concluo que a posse de animais domésticos deve ser um privilégio do feiticeiro. com a forma e o tamanho de um feijão. ou o tom prateado. O que acontece. sobressaem uma de cada vez: ou o tom negro. porém. já todos me adotaram. Sempre que Lalí vai à pesca traz para casa as pérolas que lhe cabem e me dá. é que os índios possuem coisas que não servem para nada. essa pérola tem três cores sobrepostas. são também saborosos. com reflexos cor-de-rosa. ou o tom de aço inoxidável. Graças às pérolas e a algumas tartarugas. Guardo também uma pérola grande. de aspecto barroco. feitas no próprio dia e cozidas em cima de pedras rodeadas de lume. Ao fim de dois meses. levar-lhe peixe e ostras frescas. todas misturadas. de cesto à cabeça. elas . em toda a aldeia um simples espelho. segundo o tempo que faz. três negras e sete de um cinzento metálico. nem ovelha. Todas as manhãs. nem carneiro. Dado que nas duas aldeias que conheço não há nem cabra. em uma caixa de fósforos vazia ponho de parte apenas duas pérolas cor-de-rosa. mas nem sempre.

macia como uma luva. Vi duas cobras. uma de pele de carneiro e a outra de pele de cobra. manda-me sentar em uma pedra próxímo do lume. Nada tem que a proteja. com mais ou menos um metro. da grossura de um braço. ao centro. galinhas. mandame pessoalmente três ovos e uma faca de madeira bem polida. Em vez de dormir em uma rede. deve ter uns vinte metros quadrados. a outra. mas eu consigo agüentar sem tossir durante os dez minutos que dura a cerimónía. Lali acompanhame até meio caminho e espera por mim à sombra de enormes cactos. Quando o feiticeiro deseja me ver. A tenda é bastante espaçosa. estão três pedras que rodeiam uma fogueira que se adivinha manter-se sempre acesa. feita de pele de boi com o pêlo voltado para dentro. podendo-se apertá-la ou alargá-la à vontade. ele o faz em uma espécie de cama feita de galhos de árvores. A fumarada quase me sufoca. mais de um metro acima do chão. . pôs-me a faca de madeira na mão e fez-me sinal para continuar sozinho na direção que o seu braço indicava. Seguidamente queima-me as calças e me dá duas tangas de índio. exceto alguns arbustos que crescem do lado de onde vem o vento. depois obriga-me a despi-los e. Atira para a fogueira umas folhas verdes que deitam muito fumo e cheiram a hortelã. Enfia-me no braço uma pulseira entrançada feita de tiras de pele de cabra. tinha um V amarelo na cabeça. No interior. uma de cerca de três metros. que Lali transformou em calções. Da primeira vez. Pensei: “Que desgraça estas cobras não devem fazer às galinhas e ovos!” Não consigo compreender como é possível viver em uma tenda acompanhado de cabras.regressam com ovos e leite coalhado. O velho índio examina todas as costuras das minhas calças. de carneiro e de cobra. É uma pulseira com dez centímetros de largura que se prende com uma tira de pele de cobra. ovelhas e até com o próprio burro. quando fico nu em pêlo. O velho índio vive em uma enxovia repugnante.

não sem haver notado como o seu rosto e o seu pescoço são magros e cheios de rugas. quando os fecha. Os olhos. Já adotado pelo feiticeiro. ossos do ofício. Por exemplo: viu-me indo à pesca e notou que remo bem e que sou capaz de dirigir convenientemente a canoa. Lali olha para a tanga e desata a rir. se ficar muito mais tempo aqui. o feiticeiro tem uma ferida do tamanho de uma moeda de dois francos coberta de mosquitos. Se concordar em receber-me manme dar-á a grande.. Lali. mas dou-me conta de que. usa uma franja até a altura das sobrancelhas. Enfim. mostrando uns dentes tão belos como as pérolas que pesca. enxota-os e se o apoquentam muito espalha cinza em cima da chaga. quando eu quiser ver o feiticeiro. cortados a direito na ponta. caem-lhe sobre os ombros. três em baixo.No tornozelo esquerdo. Saio dali envergonhado de ter o rabo à mostra. Lali explica-me depois que. disponho-me a partir quando ele me dá uma faca de madeira mais pequena que aquela que me envia sempre que me quer ver.. Os cabelos. Cheira-me. De vez em quando. como todos os índios. Despeço-me do velho índio. vêem-se apenas cinco dentes. que passa os dias a me observando. ficam duas bolsas. Sinto-me ridículo. têm o olfato muito apurado. Mas nada de brincar com os índios: a liberdade vale bem alguns inconvenientes. nada mais tenho que fazer do que envíar-lhe essa pequena faca. Não tem pestanas nem sobrancelhas. dois em cima. Os índios. gostaria de me ver participar mais ativamente na vida da comunidade. escorridos e negros. têm as pálpebras tão cheias de peles que. diga-se de passagem. amendoados como os de todos os índios. a fim de saber se fui submetido à cerimônia do fumo. Na boca desdentada. Examina-me a pulseira e a outra tanga de pele de cobra. à frente. E. Acostumei-me a essa vida. pode bem suceder que nunca mais tenha vontade de me ir embora. pequena e .

Três barbatanas de tubarão passam muito perto de nós. Os homens conduzem-no ao feiticeiro e ele regressa à aldeia com um emplastro de argila branca. Por exemplo: elas chegam juntas diante da porta maior. toda contente. O índio. mergulha. estávamos os três deitados na rede. prejudicava-o. de ir pescar com Lali. desaparece na escuridão das águas. Se eu fosse com Lali. que lhe cobre a testa. separam-se. quer que seja eu a conduzir o barco dela. que acompanha Lali à pesca. portanto. Ela. como qualquer pessoa. mas cortados por altura do queixo. São dez horas da manhã. é coisa que não devo fazer. mas ela não dá importância ao aviso. por isso. Os seios de Zoraima são do tamanho de tangerinas. tiram a tanga. Nessa manhã tive. enquanto Zoraima. Antes de mergulhar. deve ser bastante fria. Sei também que o jovem pescador. O seu primeiro mergulho deve ter . Mas. que penduram na rede. Chamo a atenção dela. Lali dá uma volta e entra pela sua porta. não tem os cabelos compridos. e entra em casa pela minha porta. com ela. Quando Lali me vê pensativo. essa chega. Lali levantou-se de onde estava para me deixar colado ao corpo nu de Zoraima. a que dá para o mar. Como Lau é a melhor mergulhadora da aldeia. lá no fundo negro do mar. Leveia um pouco mais longe do que era hábito. com o saco preso ao braço esquerdo e a faca embainhada à cintura. Ora isso não me convém. ao fazê-lo. Aqui há dias. isso deve ter um significado importante. quase lhe tapa os olhos. Entramos na água como de costume e tudo correu otimamente. feriu-se em um dos joelhos: um golpe grande e profundo. Está radiante por me ver ali. Com incrível rapidez. pelo que imagino que a água. e a franja. Sempre que a irmã a chama. esfrega-se com óleo. na canoa. ambas tomam banho e. uma vez aí. A garota parte sempre desolada por eu não a ter possuído. com Lali no meio.leve. corre logo à procura da irmã. que a leva no barco. o Sol brilha. ao entrarem em casa. a garota. o seu barco é o que traz sempre mais ostras e maiores. portanto. passa pela minha. não empurra a canoa com os pés. apanhadas em locais mais fundos. é irmão do chefe.

mas. A bordo há um rolo de correias: amarro uma das pontas ao saco. Lali deve ter compreendido a manobra. tomo a puxar. cinco . Nessa manhã. Está contente por havermos apanhado tantas ostras. quando vem novamente à superfície. não traz a sacola. Puxo. quando me preparo para içar a âncora. pois. em dado momento. o que lhe permitiu apanhar e trazer mais ostras. Lalí parece explicar-lhe o que eu fiz: amarrando a sacola à corda. A velha separa as pérolas. Ocorreme uma idéia. olha para mim muito orgulhoso. verifico que corremos o risco de nos afundarmos. em oito mergulhos a quinze metros de profundidade. Esvazio as ostras Para dentro da canoa. Abrindo as ostras. após um demorado mergulho. o saco vem muito cheio. parece ter-se prendido nalgum coral. deixamos a âncora presa pela corda a uma pangaía. o barquinho fica quase cheio. Lali mergulha. conseguir fazê-lo de novo com muita perícia. três para mim. Então. Comi pelo menos três duzías. que habitualmente não assiste a essa operação e espera em casa que lhe levem a parte dela. basta mais dois dedos de altura para que a água entre. e desenrolo a corda à medida que ela vai descendo. no lugar onde fica a pesca. que dou a Lali. logo à primeira tentativa. mas na areia seca. no lugar onde é hábito abrir as ostras. O índio. Três pérolas para o chefe. A velha nos espera. desprende-a. pois a sacola volta à superfície com poucas ostras. que são mais ou menos do tamanho de uma bela ervilha. Experimenta desfazê-lo para. Está tão cheio de ostras que. Lali. Lali comeu cinco ou seis. a velha encontra treze pérolas. ficou até que abrissem a última ostra. que costuma acompanhar Lali. duas para a velha. Quando Lalí sobe para bordo. O jovem examina o nó que eu dei na corda para prendê-la ao saco. Chegamos na terra sem incidentes.sido de exploração. nos espera também. Segurando-se ao barco para descansar. alivieí-lhe o esforço da subida. Então. fez-me sinal para puxar a sacola. que ficará a flutuar até que ali voltemos.

etc. Resolvo oferecê-las ao índio ferido. Ajudo o pescador chegando até a sua cabana. com franjas. se encontram exatamente as mesmas coisas heterogêneas que em casa do chefe: muitos vasos decorados com os desenhos prediletos dos índios. que. mas que vivem em uma região do interior. Ao chegar a casa. Lali recebe as três pérolas que me cabem e as entrega para mim. Com a ajuda do dicionário. Para chegar lá. ponho as pérolas lá dentro e fecho-a de novo. Esta cena repete-se durante cerca de duas semanas. umas brancas. Na casa de Zorrillo. quer dizer raposinho. é necessário caminhar vinte . vou ver o índio branco. Fico sabendo que a Polícia o interrogou a meu respeito e a respeito de Antônio. aceita. que. observavam a cena. todas curtidas. riem e se aproximam. um tinteiro e papel químico. um pincel fino. um tanto afastadas do nosso grupo. brancos e de cores. papel transparente. A mulher e a filha. de lagartos e de enormes sapos. Explico-lhe que não sei desenhar bem. Sabe também que os franceses estão na prisão em Santa Marta.para Lali. De vez em quando. obriguei Lalí a comê-la. Digo-lhe também que traga roupa que me sirva e que deixe tudo em casa dele. Ele disse-me chamar-se Zorrillo que. juntamente com três camisas de caqui. Ele respondeu-lhes que eu passara para a Venezuela pelas montanhas e que Antônio morrera vitimado pela mordida de uma cobra. peles de cobras. se não houver. Então. magníficas redes de pura lã. das seis que nos couberam. entrego as pérolas ao pescador. em silêncio. outras coloridas. Todos os dias. peço-lhe que me traga um espelho retangular com a superfície do meu peito. Ela ficou louca de alegria e cantou durante toda a tarde. Disse-me que todos esses objetos são feitos por índios da mesma raça dos da tribo dele. Ontem. em espanhol. Ele não as quer. em plena floresta. cerâmicas artísticas tanto pelo formato como pelos desenhos e pelas cores. guardei uma. mas eu abro-lhe a mão. pode ser substituído por um lápis-tinta. cestos entrançados. Diz para mim que o chefe lhe pedira que me perguntasse por que razão não fazia a tatuagem do focinho de tigre.

Levo apenas um pacote de bombons de várias cores. mas ele recusa. mas o barco não foi capturado. Presenteia-me com vinte folhas de coca. a não ser essa mistela fermentada que é preparada com frutos. vou ver o chefe e ofereço-lhe os bombons e os cigarros. Diz para mim que posso beber dela. que essa fresco porque é conservado em bilhas de barro. Quando chegamos. pedindo-lhe que me traga. mas que não posso levá-la. Encolho os ombros e todos riem. Não há notícias de Antônio. alguns jornais ou revistas em espanhol. Ele sabe apenas que se registrou nova escaramuça entre guardas costeiros e contrabandistas. à maneira civilizada. que lhe são enviadas por esses índios. De vez era. virados para o mar. passo-lhe as mãos à volta do pescoço e acaricio-lhe os seios. O chefe encosta a cabeça de Zoraima à minha e faz-me compreender que ela quer ser minha mulher. pois com o meu dicionário aprendi bastante em dois meses. Tomo-a nos meus braços. com os braços à volta da minha coxa. Cinco guardas e um contrabandista foram mortos. O pacote está aberto diante de nós e as mulheres e as crianças servem-se com discrição. Lali não faz nenhuma cena e aceita vir ao meu lado. além dos artigos apontados. essa faz gestos e segura os seios da irmã com as mãos. Lali e a irmã estão à minha espera a mais de três quilômetros da aldeia. e recomenda que eu mastigue uma quando me sentir deprimido. Nunca vi na aldeia uma gota de álcool sequer. esse índio albino é um tipo ajuizado. quando. enrolados em papel fino. os . pára e beija-me na boca. e a irmã à minha esquerda. Chupam os bombons. Bebemos o sumo fermentado. para me fazer ver que Zoraima tem seios pequenos e que é por isso que eu não a quero. na mesma posição.e cinco dias a pé. Percebo que Zoraima se sente muito infeliz. Lali instala-se à minha direita. Despeço-me de Zorrillo. Deixo Zorríllo e vou embora em um burro que ele me emprestou e que amanhã regressará sozinho. e sessenta maços de cigarros. Ela fica radiante de felicidade. Reparo em uma garrafa de anis e a peço. como Lali. abraçada. Acendo alguns cigarros. Sentamo-nos diante da porta.

o papel químico. pois preferem os seus charutos. a . tudo corre bem. mas o seu corpo. pega na irmã pelo braço. Lali foi buscar o chefe. Esfrego-lhe as costas. com todos os pormenores e do mesmo tamanho. Lali e Zoraima observam-me. no meio da cabana. Depois. Depois grelhei uma lagosta de. o papel fino. que são sempre muito saborosos. o tinteiro e o pincel. a partir desse momento. quando entramos. acabo por possuí-la ali. ela esfrega-me as pernas e os braços e voltamos para casa. Depois de três sessões. Zoraima e outras mulheres tentando furar a parede com um ferro. Ela gemeu um pouco. pois estou cheio de terra. consigo ter no espelho a réplica perfeita do focinho de tigre. um tubo de cola que eu não tinha pedido mas que pode vir a ser útil. dois quilos e comemos com prazer essa deliciosa carne. mas. que fumam com a ponta acesa dentro da boca. e vejo Lali. Lali vem atrás de mim. No espelho aparece claramente. tem um ar tão infeliz e apaixonado. de uma hora de trabalho cada. curiosas e interessadas. uso a cola: misturo-a com a tinta e. para que a parede se abra sem rachar. como a tinta escorre.índios experimentam. mas deitam-nos logo fora. tenso de prazer. com um fio. percebe tudo. Zoraima pega nas minhas mãos e coloca-as nos seios. sem saber bem o que faço. vários lápis-tinta. Recebi o espelho. Levanta-se. Cubro os traços com o pincel. Lali está sentada no lugar onde nós nos deitamos e. ela vem atrás de mim e nos banhamos juntos. à altura do meu peito. põe os braços em volta do meu pescoço e beija-me com ternura. Ouço barulho. me afasto e vou tomar banho no mar. Assamos grandes peixes na brasa. obriga-a a sair pela minha porta. Despeço-me de todos e vou-me embora. Com suavidade. volta e saí pela sua. com Zoraima. que. a cabeça do tigre. Sento-me e penduro o espelho. Em pouco tempo. pelo menos. molham-na com o regador. Percebo que elas vão fazer uma quarta porta e. os seus olhos exprimem tanta volúpia. no chão. envolve-me e não me quer largar.

que a civilização não tornou hipócritas. Cada um dos índios pega na folha e. comparam o tigre do meu peito com o desenho. reagem com naturalidade à medida em que vão percebendo as coisas. Em menos de meia hora. estas criaturas hipersensíveis ficam profundamente emocionadas. por sua vez. É só neste momento que o chefe compreende que todo esse trabalho é por sua causa. A superioridade dos índios puros. O lápis-tinta acompanha os traços com fidelidade. São muito superiores a nós. o contorno da tatuagem. começo a copiar. a folha com o desenho que acabei de fazer. Zoraima remove os escombros. perante a curiosidade geral. Faço alguns traços e o deslumbramento de todos chega ao auge quando surge na barriga de Lali uma pequena parte do desenho. aparece um desenho tão perfeito como o original. de maneira a fixar definitivamente. com o papel transparente. Não compreende o que quero fazer. alegres ou tristes. quando são alvo da mais pequena atenção. ponho o papel químico e. é espantosa. Faço deitar Lali em cima da mesa. vê-se a ele próprio e ao tigre. A sua reação é imediata. Depois picála-ei com três agulhas presas a um pau. pois. mirando-a. já . olhando para o espelho. como são estes Guajiros. O desenho está seco. e sentem-se contentes ou descontentes. o que é fácil e rápido. Os seres. Resolvi fazer as linhas gerais do desenho com a navalha. passo-lhe um pano ligeiramente úmido sobre o ventre. logo na primeira sessão. entrará e sairá sempre por essa porta e nunca mais utilizará a minha. dão-lhe tudo o que possuem.porta está feita. quando acolhem uma pessoa. O chefe aparece com três índios e com o irmão. então. De agora em diante. Zato está deitado sobre a mesa. cuja perna já está quase cicatrizada. Copiei o desenho do papel fino para um outro papel branco mais resistente e. o que o encanta e surpreende. entrego-me ao trabalho. como um lápis duro. passo-o para a sua pele. por cima. Na manhã seguinte. ponho o espelho em cima da mesa e. interessados ou indiferentes.

sem mexer sequer a cabeça. acostumados a andar descalços. meses. Recebi tudo o que pedira e mais uma pomada que Zorrillo trouxera por sua conta. permitem-me que faça longas caminhadas à caça de lagartos sem me cansar. Esqueci-me de dizer que. Zato pode exibir a tatuagem do focinho de tigre. desfazia uma pílula de Stovarsol e aplicava-a no ferimento. o enfermeiro. a chaga estava reduzida a metade. Oito dias mais tarde. Estamos em Abril e há quatro meses que me encontro aqui. Mandei ao feiticeiro a faca pequena de madeira e ele responme deu mandando-me a dele. os olhos. depois de algumas visitas. algodão. que lhe mostro através do espelho. ele continuou o tratamento sozinho. um para cada cabana e dois para a dele. comprimidos de quinino e Stovarsol. Logo que a crosta da ferida cai. mas o desenho está maravilhosamente nítido. as narinas. Estou satisfeito com a minha obra: aquela cabeça de tigre está ainda mais bela que a do meu peito e os tons sobressaem mais. gaze. A tinta é rejeitada pelo sangue e só agarra bem nos lugares onde o corte foi um pouco mais fundo. No hospital tinha visto um preso com uma ferida tão grande como a do feiticeiro e Chatal. O chefe mantém-se estendido na mesa. Levei muito tempo e tive muita dificuldade em convencê-lo a deixar-se tratar. com medo de estragar o desenho. Faço os traços com a navalha. o bigode. semanas. Sinto-me forte.preparada com um leite de argila branca que deixei secar. tenso. pedi a Zorrillo que me trouxesse tintura de iodo. e um belo dia enviou-me a faca grande de . Sinto-me em forma. O decalque sai às mil maravilhas e aguardo que fique bem seco. Corre um pouco de sangue. Quando tudo está pronto e um traço vermelho fino substitui o traço do desenho. Os pés. a língua vermelha. depois da minha primeira visita ao feiticeiro. Zato está tão contente que encomendou seis espelhos a Zorrillo. cubro-lhe o peito com tintada-china azul. mas. Passam-se dias. que vou limpando. volto a picar alguns lugares com as agulhas. em seguida. imóvel. água oxigenada. com a boca bem aberta. os dentes brancos.

As minhas mulheres não me deixam. durante toda a semana. e uma outra mulher de Zato levou-lhe um cesto grande com bolachas. Todos o seguem. Bebemos todo o sumo fermentado que havia. a terra diante da cabana de Zato é regada e depois pisada pelos homens e pelas mulheres. a mãe ergue o filho. a cena repete-se cinco ou seis vezes. gritando e levantando o bebê nos braços. levanta-a nos braços. pois. de modo a que a cabeça fique sob a axila. Zato grita e estende novamente os braços. assim. Zoraima fica comigo. volta-se para oriente e grita três vezes. pega na criança. pela porta grande da casa. Zato já sabia que é um rapaz. Zato avança. ela apareceu caminhando na direção da aldeia. Depois senta a criança no braço direito. É Lali quem me explica isso por mímica. um .madeira para que eu fosse verificar que ele se encontrava completamente curado. O nascimento deve ter ocorrido por volta das quatro horas da tarde. a mãe em último lugar. Antes de ela chegar. levanta outra vez o garoto e volta a parar. escondeu-se atrás de uma rocha. erguendo três vezes o bebê. pára e grita. em vez de levantar o bebê e gritar alegremente. A mulher. De manhã e de tarde. A índia avança. que a protegia do olhar de todos. sem uma palavra. Quando Zoraima vai mergulhar. Nunca ninguém soube que fora ou quem conseguira o milagre. ao pôr do Sol. Zato não sai da soleira da porta da sua cabana e os restantes estão à sua direita ou à sua esquerda. foi para a praia. Nasceu um filho de Zato. água doce e açúcar mascavo em cartuchos de dois quilos. movendo esse até o peito. e com o braço esquerdo tapa a criança. Então. ao sentir as dores do parto. sem se voltar. Lali faz-me companhia. Julgo perceber que. Fazem. Ela torna a andar alguns metros. Quando Lali está à pesca. sem se mexer. Quando chega apenas a cinco ou seis passos. Zato estende os braços e grita. ela teria chegado com a criança nos braços. Nos últimos trinta ou quarenta metros. se fosse uma menina. de repente pára e levanta o garoto. A seguir entra.

foram instaladas duas forquilhas de madeira do mesmo tamanho: são as bases para um enorme espeto. Os cavalos são excelentes. onde o Sol nasce. o que não me surpreendeu depois de saber que era o seu pai. pequenos. No dia seguinte. seca e verde. cada um deles traz um pacote de ervas secas. vivos. pelo mar: está seca. Entra sozinho na casa e volta com o bebê nos braços. coloca-o atravessado no peito com a cabeça debaixo do braço esquerdo e toma a entrar . mas como vinham a galope depressa chegaram perto de nós. branca e polida. de vários tamanhos. todos índios. Levanta-o e apresenta-o a todos. Descendo do seu puro-sangue. em torno delas. Também há grossos troncos de árvores. Todos trazem um enorme punhal à cinta e dois vêm armados de caçadeiras. Um dia de manhã. com as patas amarradas umas às outras para não poderem fugir. dois mil ovos de tartaruga. e dois carneiros esperam o momento de ser sacrificados e devorados. O chefe tem uma carabina de repetição e um magnífico casaco com mangas de couro negro. com colares à volta do pescoço e grandes chapéus de palha. mas muito nervosos. fizeram-se anunciar disparando tiros para o ar. cuja quantidade vai aumentando todos os dias. mas estão descalços e com o traseiro à mostra. dirige-se a Zato e os dois tocam-se mutuamente no ombro.círculo grande de argila vermelha bem batida. Na garupa. vão acumulando madeira. todos malhados. Quatro tartarugas. depositou na praia. vamos lá saber quando. Por cima das pedras. pelo menos uns vinte jarros enormes. voltadas de barriga para o ar. a cavalo. armam uma grande tenda de pele de boi e aí compreendo que vão ali realizar uma festa. Depois. pelo menos. faz o mesmo gesto que Zato: vira-o para oriente. que a maré. cheios com a bebida preferida dos índios. além de um cinturão cheio de balas. há muito tempo. Sob a tenda. Vestem tangas e uns coletes de pele de carneiro. Muita desta madeira foi trazida. Dispõem-se pedras e. colocam grandes recipientes de barro. mais de trinta lagartos. chegam uns quinze homens. Ainda longe. Há também. O chefe dos recém-chegados é estranhamente parecido com Zato.

e sete ou oito crianças. a começar pelo chefe. uma espécie de sinal. Todas as índias. com franja. grandes. Ela molha-o em tintas de cores diferentes para desenhar. têm desenhos coloridos no corpo e no tosto. risca ao meio. mostra-me que o braço de cada um dos três tem uma mancha negra idêntica. eu tinha sido apresentado a todos os cavaleiros. e caindo até as orelhas. Tem um perfil de italiana. mais alta que as outras. Então. sobretudo a do focinho de tigre. Os seus cabelos são negro-violeta. diria-se uma figura de camafeu. só rapazinhos. com o pacote de ervas pendurado ao pescoço. Lali coloca no pescoço de algumas colares de pedaços de coral e no pescoço de outras colares de conchas. que acabara de chegar. pego no meu pincel e. Noto uma índia admirável. As tatuagens de Zato são muito admiradas por todos. com pestanas compridas e sobrancelhas bem arqueadas. Os pincéis são feitos com pedacinhos de lã atados em paus. as visitantes dispõem-se a pintar as índias da minha aldeia. Com efeito. Por volta do meio-dia. vinte índias. começando no umbigo . Assisto à obra-prima executada pela bela índia nos corpos de Lalí e de Zoraima. Zato chama a minha atenção para o fato de que o dedo mínimo do seu pé esquerdo é torto e fica por cima do outro dedo.em casa. todas jovens. que são de estatura média. Lali a apresenta para mim e leva-a à nossa casa com Zoraíma e uma outra índia muito jovem que traz umas canecas e urna espécie de pincéis. acontece a mesma coisa. todos os cavaleiros saltam dos cavalos e prendem-nos um pouco mais longe. Com seu irmão e com o chefe. Depois. Então. chegam as índias. os olhos verde-jade. em uma carroça enorme puxada por quatro cavalos e guiada por Zorrillo. Foi assim que compreendi que o recém-chegado era seu pai. Antes da chegada de Zorrillo. Os seios de mármore juntam-se na base para se afastarem harmoniosamente. Os cabelos estão cortados à maneira índia. Na carroça estão. pelo menos. que acabam de chegar.

parece carne de vaca. aquela ferida que todos conheciam. quando há incidentes com outra raça de índios.de Lali. desde que elas estejam de acordo. Em certo sentido . Os homens comem de um lado. perto de Zato e do pai. exceto as que nos servem. tenho que pedir autorização a Zorrillo. duzentas cabeças de gado. as mulheres do outro. homens e mulheres. A festa termina muito tarde. estão bêbados. faz-se um acordo segundo o qual. pois sem essas epidemias . porém não há nenhum incidente desagradável. Sentei-me na tenda. Zorrillo explica-me que o chefe é o pai de Zato e que lhe chamam Justo: é ele quem julga as controvérsias surgidas entre os membros da sua tribo e entre as diversas tribos de Guajiros. pois nas montanhas e na planície todas as tribos têm muitas vacas e muitos bois. para evitar a guerra. reúnem-se todos para discutir se haverá guerra ou se se resolvem amigavelmente as coisas. tanto das visitantes como das outras. pintei os seios das jovens índias. Imagine o que fiz! Durante mais de duas horas. cada um dos quais vai até a base dos seios. com uma espécie de dança. A carne delas é vermelha e apetitosa.diz Zorrillo . O preço atinge. Todos olham a cicatriz cor-de-rosa que ficou no lugar da ferida. desenho uma planta com dois ramos. Só Zorrillo e eu estamos sabendo. Para que todos dancem. As três outras querem que eu lhes faça a mesma coisa. Zoraima exigiu uma pintura exatamente igual à de Lali. o assassino tem de pagar o morto à tribo deste.isso é bom. Quando um índio é assassinado por outro de uma tribo diferente. pinto pétalas cor-de-rosa e o bico do seio de amarelo. um índio toca uma flauta de madeira de som rude e bate em dois tambores de pele de carneiro. montado em um burro. com o seu pistilo. Entretanto. Muitos índios. Infelizmente. Diria-se uma flor semi-aberta. os índios assavam os carneiros no espeto e duas tartarugas na brasa. O feiticeiro veio. às vezes. Ele diz para mim que posso pintá-las como quiser. os lapus. os índios nunca os vacinam contra a febre aftosa e as epidemias matam grande quantidade de animais. e ficam espantados por vê-la cicatrizada. depois. Zorrillo diz para mim também que.

podem ir com o cavalo a uma dístância de meio dia deste lugar. Fica . Segundo ele. e nos quais eu aprenderia frases usuais. um tigre. Quer apenas que eu leve. No entanto. pois as autoridades têm medo de que eles levem a febre aftosa para esses países. pois as pessoas que me escutassem se impacientariam e eu acabaria as minhas frases sem que elas prestassem muita atenção à pronúncia e ao sotaque. ele próprio poderia ir comigo. Zorrillo informa. nem na Venezuela. se eu aprendesse a gaguejar bastante seria uma grande vantagem para mim. também. oficialmente. Segundo Zorrillo. de que há muito contrabando de gado pelas montanhas. que significa que ele é meu amigo e não será capaz de recusar a satisfação de qualquer desejo meu. que ele nos dará uma cabana. Tira a pulseira de couro preto e me dá. há perto de cem cabanas. sempre que for necessário. Aproveito essa longa visita de Zorrillo para dizer-lhe que confio nele. até perto de Santa Marta. Ele descreve-me os perigos dos primeiros trinta quilômetros junto das fronteiras. ou melhor. entretanto. o meu material de tatuagem para lhe fazer. é um gesto importante. Pelas informações dos contrabandistas. acrescentando que já fizera essa caminhada e que a Colômbia era realmente a melhor solução. e que lá terei tudo o que for preciso. e falo-lhe na minha idéia de ir para a Venezuela ou para a Colômbia. respondo-lhe que sim mas que não posso aceitar. o lado venezuelano é mais perigoso que o colombiano. onde existe erva alta e boa. onde. ele explica que Lali ou Zoraima. livros que ensinem espanhol. pois aqui há muito pouca erva. Diz para mim que venha com Lali e Zoraima. Está de acordo com a minha idéia de comprar outro dicionário. Pergunta-me se eu quero um cavalo. O chefe visitante . segundo parece.haveria gado demais. que espero que não me traia. Por outro lado. ser vendidos nem na Colômbía. Os animais não podem.justo . do lado colombiano.manda-me dizer por Zorrillo que o vá visitar à sua aldeia. Aceito a oferta e ele diz que em breve me mandará o cavalo.

pelo menos na aparência. Estou espantado. no mesmo dia. conclui Zorrillo. e se encarregará de vender as minhas pérolas por dinheiro colombiano. de fato. Lamentarão que eu vá embora. Qualquer delas. Devo estar alerta. sobretudo Lali. para que esse morresse. a tenda de pele foi desmontada e tudo volta a ser como dantes. a preparar a minha partida.resolvido que ele me trará os livros. sim. Volto para casa. Lali. graças a Zorrillo. então. Posso tentar convencê-las a deixarem-me partir. assegurando-lhes que voltarei? De modo nenhum! Nunca devo mostrar que tenho vontade de me ir embora. quando chegar a ocasião. Zorrillo chegou à cabana . que ele chamou. é muito capaz de me abater com um tiro de espingarda. é preciso tomar todas as precauções. mas não é certo. com uma cauda comprida que vai quase até o chão e uma crina de um belo cinzento com reflexos prateados. podem. apoiarão a minha decisão de partir. a começar pelo chefe. sobretudo. o mais pormenorizado possível. matar-me com um tiro de espingarda. Acrescenta que talvez já não haja perigo. porque eu estava protegido por não sei qual divindade indígena e que o vidro podia aparecer dentro da barriga delas. Zorrillo põe-me a par de uma coisa que eu não sabia: Zoraima está grávida. Não tinha percebido. uma vez que é o meu desejo. foram-se todos embora. Por outro lado. um mapa. para servir de intérprete. A situação é muito séria. O feiticeiro consegue dizer-me tudo isso. Zorrillo explica-me que os índios. Se elas virem que estou. Recebo um cavalo magnífico. mas compreenderão que é normal que eu queira voltar para junto dos meus. Ele respondeu-lhes que não o fizessem. diz ele. há perigo? Não. sem nada sofrerem. O pior vai ser Zoraima e. A festa acabou. mas especialmente Lali. Lali e Zoraima não estão nada contentes e o feiticeiro manda-me chamar para me dizer que elas lhe haviam perguntado se podiam dar vidro moído ao cavalo. E contra mim. malhado.

tatuagem ficou pronta. entrega a Zorrillo trinta e nove moedas de ouro de cem pesos. Justo põe nas minhas mãos as rédeas de couro e. chega Zorrillo. pois a primeira crosta caiu depressa. pois pretendo que ele troque o meu cavalo. felizmente. por um caminho completamente diferente do meu. que eu não poderia entrar armado na Colômbia. Então Justo me dá duas pequenas flechas do comprimento de um dedo. entro e vejo Lali e Zoraima debruçadas sobre o mapa. aliás. Escolho aquele que me parece ser o mais calmo e ele manda pôr nele uma sela. Assim que toma conhecimento do meu plano. O que as inquieta são as setas indicando os quatro pontos cardiais. e ninguém na aldeia sabe que o velho índio nos chamou ao mesmo tempo.do feiticeiro. diante de mim. Justo manda buscar os cavalos. só de noite. Fui ver justo. mas não aceito. Elas tentam compreender o que representam aqueles desenhos. mas Justo tem três cavalos colombianos de pêlo ruço. Quer oferecer-me a sua Winchester de repetição. Com minha autorização. Em seis dias. mas. Lali tem ciúmes. graças a uma lavagem à base de água e de cal viva. que esse deve guardar e me entregar no dia da minha partida. Zorrillo explíca que são setas embebidas em um veneno muito violento e muito raro. eu guardara o desenho e utilizei-o para decalcar o focinho do tigre no seu peito. ele falou a justo do meu projeto. Zoraima também me solicita. Zorrillo diz. Lali e Zoraima vieram comigo. Por sorte. pois o freio deles é de osso e não usam sela. o pai de Zato. e obriga-me a fazer amor seja onde for e a qualquer hora do dia ou da noite. Justo está tão contente que se vê ao espelho várias vezes por dia. . Equipado à maneira colombiana. Os cavalos malhados dos Guajiros não existem na Colômbia. a. mas adivinham que esse papel é algo de muito importante na nossa vida. Já se passaram seis meses e eu estou com pressa de partir. estribos e freios de ferro. Estão confusas. Durante a minha visita. envolvidas em lã e colocadas em um pequeno estojo de couro. Um dia. O ventre de Zoraima começou a crescer bastante.

É minha filha e ela o ama. com um índio. Quanto a Zorrillo. havia conhecido um branco e que anteriormente os considerava todos inimigos. não movem nem um músculo da face. Pego em um casaco de pele de carneiro que Justo me deu o coloco-o em Lali. penso que você vai para uma terra onde tem muitos inimigos. Poderá ficar aqui comigo. atrás de mim. faz um pouco de frio. Zoraima vem a cavalo. os índios . ficam com os olhos . Quando estão tristes. Diz para mim que soube por Zorrillo um pouco da minha vida e que imagina ter sido rica a parte que não conhece. mas ela não diz uma palavra durante a viagem. Despeço-me desse homem magnífico e volto para a minha aldeia. pois considera-me um homem. Cabe a ele a responsabilidade de guardá-las até a minha partida.sobretudo as índias mantêm o rosto impassível. prende-o à casa e põe diante dele algumas ervas. sem que ela diga uma palavra: aceita o casaco sem um gesto. Acrescenta que Zato e ele olharão por Lali e por Zoraima e que o filho de Zoraima. Se o fizer dar-lhe-ei aquela índia bonita que conheceu na festa. Durante a noite. Está montada. A sela fere-lhe as coxas. mas não lhe retira nem a sela nem os arreios. Fique. Não sei como expressar o meu reconhecimento perante a generosidade de Justo. mas que agora lhes teria amizade e procuraria conhecer outro como eu. Depois de ter passado cerca de uma hora com Zato. pela primeira vez na sua vida. foi para casa por outro caminho. Lali não diz uma única palavra. -Não gostaria de vê-lo partir. Por mais que o cavalo trote não segura a mira para se apoiar.Zorrillo nunca tinha visto nem possuído setas envenenadas. Diz que. no cavalo de pêlo ruço. volto para minha casa.disse-me -. se for um homem. é claro. Terá uma cabana grande e todo o gado que desejar. Durante todo o trajeto da volta. -Antes de partir . ao passo que entre nós só tem amigos. Chegamos à aldeia: vou cumprimentar Zato e ela afasta-se com o cavalo. terá sempre um lugar de honra na tribo.

Nenhuma diz uma palavra. Lali chegou. beijo-a. para compreender tudo. de vez em quando. Acaricio os seios e o ventre de Zoraima. Todos os dias. muito baixa. a primeira em mais de cinco meses: parti para visitar o feiticeiro sem autorização. são quase oito horas. Pela primeira vez. levanto-me e vou deitar-me noutra rede. mas não choram. as mulheres fazem comida. Lali e Zoraíma ficam sentadas. mas elas nada comem. Quando acordo. sinto que alguém me toca. Ao mexerme. .tristíssimos. As flores são compradas de uma índia que. como se dissesse: tem razão. ver a sua expressão. Estou realmente deprimido. entrega-se a mim. Finjo que continuo a dormir. aparece na aldeia. Lali quer por força fazer amor. A idéia do que sera a sua vida depois da minha partida me faz sofrer. Qual a razão? Só pode haver uma: quer que eu a engravide. Percebo que Lali essa sentada em um tronco de árvore. em um canto escondido da praia. Com uma espécie de desespero. Uns momentos depois. No caminho. Zoraima levantouse e deixou para ela o lugar a meu lado. Puxo Lali. passando flores de laranjeira pela pele. faço-a se deitar. O pescador veio buscar Lali: bastou a ele olhar para ela. mas nunca choram. ínvisível. Foi-se embora. hoje de manhã. mas ela permanece insensível como mármore. Quando já estou deitado. no mesmo lugar. sinto a presença de Zoraima: ela costuma perfumar-se. O Sol já nasceu. Eu acariciava o ventre e os seios de Zoraima e ela mordiscava-me o lóbulo das orelhas. durante a noite. Com medo de que isso tornasse a acontecer. segurou a irmã pelo braço. Estávamos deitados na areia fina. bati na barriga de Zoraima e a dor a fez gritar. Saí a cavalo e ia cometendo uma falta grave. elas permanecem imóveis. passou a mão na barriga arredondada dela e depois no seu próprio ventre. Há três dias que isso acontece. liso e chato. me olhando. mas ela fecha firmemente a boca. não sei o que fazer: limito-me a acariciá-las e a beíjá-las para demonstrar que as amo. Podem até gemer. vi um gesto de ciúme dela em relação a Zoraima. Vou com elas à praia e deito-me na areia seca.

Beija-me e acariciame. à hora do almoço. sem se mexer. para servir de colchão. Lali volta a cabeça e também me vê a chorar. ela e Zoraima saem. mas continuam sem comer. Lali atrás. que estendi no chão. que devo colocar na água. Conforme pude. Pego no casaco de pele de carneiro. Depois de quatro dias de completo jejum. Estou tão confuso que parto sem me despedir dos outros e sem prevenir o chefe. cujo ventre está cada vez mais empinado. e olha fixamente para o teto. que também quase não como. Levanta-se de um salto e vem sentar-se entre as minhas pernas. Zoraima parece ralhar com Lali. com febre. Olho para ela. Ela está deitada em uma rede. mergulhou e voltou com trinta ostras para eu comer. limitou-se a chupar alguns limões. Lali está deitada. Durante estes seis dias. várias vezes. em vez de me dirigir diretamente a sua casa. Depois. dobrada. em casa. Zoraima as vê e começa a gemer. que dou a Zoraima. para que fosse falar com ele. essa mostra-me um pedaço grande de açúcar masco. Choro por mim ou por elas? Sei lá. Já não sei o que fazer. Zoraima monta em primeiro lugar. grossas lágrimas correm-me pelo rosto. Choro. e. nadou uns duzentos metros. olho para Zoraíma. Ele me viu e fez um sinal. que encontrei já arreado quando saí. Elas bebem água.me dei conta do que estava fazendo e. Lali já não vai pescar. dissolve-o na água e bebe-a em dois goles. Zoraima come uma vez por dia. Volto para a cabana e ponho a noz no jarrão. começo a chorar. eu no meio. então.o . Ele me dá uma espécie de noz. bem na frente. Zoraima abraça-me e Lalí começa a falar sem parar de gemer. passei várias vezes a cerca de duzentos metros da tenda. expliquei-lhe que Lali e Zoraima não se alimentam. Estou sentado ao lado de Lali. gemendo com doçura. O mudo desespero delas perturba-me a tal ponto. e Lali coloca uma rede dobrada sobre a sela. sem saber exatamente porquê. pouco depois ouço-as vir com o cavalo. enquanto a irmã lhe responde. Há seis dias que essa situação se mantém. fez hoje uma verdadeira loucura: entrou na água sem o barco.

o que faria quando pudesse defender-se? − Perseguiria o meu inimigo. segurando-se bem ao meu cinto. Por que razão fugia como se ela fosse o cão que tinha me mordido no dia da minha chegada? Respondi: . Zoraima disse mais ou menos a mesma coisa. pensando que íamos para lá. falso. Pelo caminho. acaricio a minha Zoraíma. para enterrá-lo tão fundo que ele nem sequer se pudesse virar na cova. com a direita. Lali beija-me o pescoço. depois Zoraima. se tentassem matá-la.Andaria até sobre espinhos para ir curá-lo. . pois achava-se uma índia capaz de fazer a felicidade de um homem e um homem feliz não vai embora. Estava profundamente decepcionada.Se a perseguissem como se persegue um animal. com três burros e um cavalo carregado. pois nunca lhe dissera ou dera a entender o que quer que fosse. por toda a parte. puxa as rédeas e diz: “Zorrillo. depois de tudo isso. Entramos em sua casa. Chegamos ao povoado de Zorrillo no momento em que ele próprio acaba de chegar da Colômbia. embora elas dessem a própria vida por ele. Lali é a primeira a falar. mas Lalí diz que não. Por minha vez. Lali pensava que não dava a ela importância alguma. acrescentando que tinha medo de que seu filho saísse ao pai e fosse um homem sem palavra. o que faria? . como agirias se tivesses duas mulheres maravilhosas à sua espera? . capaz de pedir às suas mulheres coisas difíceis de fazer e. Lali. até o momento em que eu começara a chorar.Se o seu pai estivesse doente. Sabia que eu ia partir. − E. várias vezes. Zorrillo explica-me que.” Vamos ver Zorrillo. mas achava-me falso como uma cobra. de modo que a minha partida era um fracasso tão grave que não valia mais a pena continuar a viver. seguro as rédeas com a mão esquerda e.Tomei a direção da cabana do feiticeiro. nunca conseguiriam compreendê-lo.

à tarde. Voltamos os três a cavalo. Lali também passará mais tempo a pescar. eu estiver velha e feia? Voltarei muito antes de você ficar feia e velha. à mesma hora. Assim. deve entrar nela. Ele dirá se devemos deixar a minha porta aberta ou fechada. a serem abandonadas e ridicularizadas perante as outras mulheres e os homens do povoado. esse lento regresso à aldeia. porque Lali desconfia de que também essa grávida. Elas preferem saber. quando voltares. Lamento não ter aprendido mais que uma dúzia de palavras em guajiro: gostaria de lhes dizer . dia e noite. tão cheios de amor. diante de todos. que me abalaram profundamente. Na véspera temos de ir os três à cabana do feiticeiro. nu.. se é homem a criança que está no ventre de Zoraima. Assim que Zoraima tiver o filho. Deve partir como veio. quer dizer.Sim. por causa do ventre de Zoraima.Voltaria logo que pudesse. Tem que dizer que a casa é sempre a sua casa e que nenhum homem. Zorrillo trará a roupa que vestirei: devo fazê-lo na aldeia. inteiramente vestido. mas em pleno dia. Os murmúrios e os sons saídos da boca dessas duas filhas da natureza eram tão perturbantes. mas é preciso que outro homem nos proteja. . sairá com um pescador para apanhar muitas pérolas. Na última Lua não lhe veio a menstruação. Você deixo que os seus olhos se inundassem de lágrimas. Para se manter ocupada. No entanto. por causa da gravidez de Zoraima. jamais o poderia ter feito sem sinceridade. à exceção do seu filho. se o fato se repetir. mas tem medo de se enganar. Partirei oito dias depois da primeira Lua. Foi uma noite deliciosa de ternura. não teve nada de triste. e não como um ladrão. depois de ter falado como guajiro. e dizer quem vai olhar por nós. é a prova evidente de que engendrou um filho. Zato é o chefe. Dormimos em casa de Zorrillo. que guardará para mim. devagar. Zorrillo tem que vir à nossa aldeia no dia da sua partida para nos repetir o que vai dizer. pode partir quando quiser. É o que eu farei! − − E se.

diante da minha cabana. Ao nascer do Sol. dizia a todos uma palavra gentil e eles. dentro de vinte dias estarei a caminho. retireí-me com Lali e Zoraima. Lali teve a prova de que está grávida. A primeira coisa que devo fazer e ir falar com Zato para me desculpar por ter saído sem dizer nada. não devemos fechar a porta. serão duas ou três as crianças que me esperarão quando voltar. portanto. respondiam qualquer coisa.Zato. Em seguida. Volto a examinar o mapa. põe a mão no meu ombro e diz para mim: “Uflu” (Cale-se. grande chefe desta tribo que me acolheu. . Voltamos para casa e ficamos à espera de Zorrillo. Não. envolvendo-nos em fumo durante mais de dez minutos. Com mais oito que devo esperar ainda. Zoraima põe-se por cima de mim. onde todos me querem bem? Decidindo voltar para a civilização. não farei a minha infelicidade? O futuro o dirá. Em redor de uma fogueira. pois são uma e a mesma pessoa. para melhor me sentir dentro dela. Por que três? Ela diz para mim que a sua mãe teve gêmeos duas vezes. Por intermédio de Zorrillo. Onde seria eu mais feliz do que aqui. Passamos o dia inteiro a fazer amor. por sua vez. Fomos ao feiticeiro.tantas coisas que não podem ser ditas através de um intérprete! Chegamos. e Lali envolve-me como uma hera. devo dizer que é preciso que você me autorize a abandonar a aldeia por muitas luas. Chega o momento da partida. passamos toda a noite a falar. Antes de eu falar. Ao fazê-lo. penso outra vez no que me disse Justo. de fato. faz-nos sentar perto do fogo e queima folhas verdes.) Será Lua nova daqui a doze dias. que me deu tudo. Zorrillo traduz o que eu digo: . naquela mesma noite. Essas três semanas passam como por encanto. que chegou. Devemos somente pôr um ramo de árvore atravessado. alterando alguns pormenores na maneira de passar pelas aldeias. Zato é tão nobre como seu irmão. A rede em que dormimos os três deve ficar presa no teto da cabana e elas duas deverão sempre passar a noite juntas.

Adeus. Entro na minha cabana. que precisa de mim. . índios selvagens da península colombo-venezuelana. com medo do sofrimento e da luta. Se morrer no cumprimento do meu dever. com Lalí. tranquilidade e nobreza. Durante muito tempo. A minha cabana é delas e das crianças que vão nascer. Além de você. guajiros. que são a minha família. as calças de caquí. ensinaram uma coisa muito importante para o futuro: que mais vale ser um índio selvagem que um juiz.Porque quer deixar os seus amigos? . o modo como se defendem. essa tribo guajira. Graças a você. o meu pensamento estará conosco. com Zoraima. foi para mim um porto onde pude respirar. pude viver feliz. Felizmente. Sempre os amei e continuarei a amá-los. Farei o possível por voltar depressa. espero que você. faça lembrar. estive protegido. seguido por Lali e Zoraima. olhei demoradamente essa aldeia idílica onde acabo de passar seis meses. Se alguém se esquecer disso.Porque tenho que castigar aqueles que me trataram como um animal. com os meus filhos e com todos os guajiros. Zato. Vou falar com o meu pai. paz. Visto a camisa. mulheres que trouxeram a alegria ao meu coração. tanto das outras tribos como dos brancos. Aqui encontrei amor. a sua terra é grande e está livre da ingerência dos dois países que a cercam. meias e botas.. Deixo aqui a minha alma. comer bem. é capaz de permanecer nele a vida inteira. Vou enfrentar os meus inimigos. tão temida. após encontrar um abrigo quente e bom. Mas isso não pode transformar um homem como eu em um animal que. deixo os meus filhos que são o fruto dessa união. nas minhas mulheres. encontrar amigos nobres. peço que um homem chamado Ush proteja também dia e noite a minha família. na sua aldeia. A sua maneira selvagem de viver. Lali e Zoraima. um refúgio insuperável contra a maldade dos homens.

no momento da minha partida. sem cálculos. . não há dúvida. mulheres incomparáveis. Quando? Como? Não sei. Voltarei um dia. Levo um chapéu de palha na cabeça e seguro. mulheres que. com firmeza. Lali e Zoraima acompanham-me durante uns cem metros. meteram em um saquinho de pano todas as pérolas existentes na cabana. quando. com um grito. que gostariam que ficasse com eles. querem dizer que não desejam me ver partir. espontâneas. Com esse gesto. as rédeas do meu cavalo. Zorrillo monta a cavalo e partimos em direção à Colômbia.Adeus. com um gesto simples. Lali e Zoraima. cobrem o rosto com o braço esquerdo e estendem o braço direito na minha direção. Lá para o fim da tarde. Pensei que elas iam beijar-me. de reações tão próximas da natureza. começam a correr em direção à nossa casa. sem olharem para trás. sem exceção. Todos os índios da tribo. de repente. Mas faço a mim mesmo a promessa de voltar.

como me disse Zorrillo. ou então de caminhão ou de ônibus e. em dois dias. pudemfazê-los. o que me rendeu mil . Realmente. por isso. tenho que passar por um forasteiro que trabalha em qualquer lugar e faz seja o que for. o risco de ter de responder a perguntas embaraçosas: “Conhece Fulano de Tal? Como se chama o presidente da Câmara? Que faz a senhora X? Quem toma conta da fonda?” Não. quem tem um cavalo tem um domicílio. os postos fronteiriços de La Vela. em uma espécie de estalagem que fornece comidas e bebidas. Zorrillo trocou três das minhas moedas de ouro de cem pesos. Decidimos que ele levaria o cavalo. sem problemas. a partir de Santa Marta. Partimos em direção a Santa Marta. gaguejar bastante ajuda muito a díssimular o sotaque e a maneira de falar. Zorrillo foi-se embora. é melhor continuar a pé. me deixará a meio caminho e voltará para trás. a aldeia de onde fugi. o mesmo percurso que eu tinha levado tanto tempo para fazer com Antônio.QUINTO CADERNO REGRESSO À CIVILIZAÇÃO Prisão de Santa Marta Não é difícil sair do território índio da Guajira. essa manhã. Zorrillo. pertence a uma aldeia determinada e corre. Aos olhos das pessoas daqui. Não me saí de todo mal e. Com Zorrillo ao lado. e nós atravessamos. de comboio. A cavalo. fiz a minha primeira experiência de conversação com um civil colombiano. Mas nem só estes postos são perigosos. há também uma faixa de mais de cento e vinte quilômetros até Rio Hacha.

faço o papel de um homem que. decido dormir. um porto bastante importante. O motorista engana-se na estrada e mete por um caminho lamacento onde o caminhão se atola e de onde não podemos sair. com uma roda na estrada e a outra na parte que estamos desbravando. Ao fim de uns cinquenta quilômetros. pela manhã. com um machete (catana para . Há sempre uma taberna de seis em seis ou de dez em dez quilômetros. esse caminhão vai buscar cabras ou cabritos. não sabe bem onde está. Depois de várias tentativas. Depois de muito discutir. O colombiano não se apoquenta: deita-se na parte de trás do caminhão e diz para mim que durma na cabina. Ele tem ainda de percorrer quarenta quilômetros na direção de Santa Marta. portanto tenho o suficiente para me manter durante bastante tempo. E bebe de cada vez cinco ou seis copos de um álcool que é pior que fogo. O caminhão impede-lhe a passagem. do lugar onde Zorrillo me deixou. apesar de todas estas paradas. Há lama até os eixos. Acordam-me julgando que eu era o motorista. Mas eis que chega uma carroça puxada por dois cavalos. de touca. que vai quase até Santa Marta. Assim. O motorista apeia e me convida. a cento e vinte quilômetros. finjo que bebo. Subi para um caminhão. Cada um deles. Não sei que faça. O dia ia nasceu. cerca de vinte metros. Na carroça estão duas freiras. não conseguem desatolar o caminhão. não há nada a fazer. para que a carroça possa atravessar esse troço de estrada em péssimo estado. não sei bem. vestidas de preto. acordando em sobressalto. Um bom operário ganha de oito a dez pesos por dia. os dois homens põem-se de acordo em cortar um pedaço de mato. e três menininhas. O fato de estar com ele evita que me façam perguntas e. O motorista acorda e discute com o carroceiro. já que estava na cabina. são quase sete horas.pesos. vou mais depressa do que a pé. mas quem paga sou eu. mais ou menos. Eu. Gaguejando.

A irlandesa pergunta-me baixinho: . Nós o levaremos até muito perto de Santa Marta. então. ao lado das três menininhas.cortar a cana-de-açúcar e que todos os homens que encontramos pelo caminho trazem na mão). os seus cabelos são muito claros e. Têm a pele muito branca. Uma vez na estrada boa. . entre vinte e cinco e trinta anos. ao lado. que as Irmãs. . perante a dificuldade de ter de falar mais tempo. poderia ter dito que ficaria com o motorista para ajudar. não é verdade? . Uma é espanhola. que corre o risco de se enterrar na lama. Eis-me nas traseiras da carroça. é por causa do sol. avançamos rapidamente e. prefiro dizer: . a oito quilômetros. e depressa percorremos os cinco ou seis quilômetros que o caminhão andou por engano. se está moreno.Sou.De Rio Hacha. Partimos. nessa altura. sou de Baranquilla. você não é colombiano. As três menininhas e o carroceiro sentam-se a uma mesa e eu e as freiras nos instalamos em outra. Cerca de duas horas depois está aberta a passagem. Por outro lado. me perguntam para onde vou. depois de me terem agradecido.Gracias. As irmãs são jovens. pareceria anormal. mas.Santa Marta. pelo meio-dia. cortam tudo o que pode impedir a passagem e eu deito o mato na estrada para diminuir a altura e também para proteger a carroça.Mas não vai pelo bom caminho.Não.Você não é daqui. É. de onde vem? . paramos em uma estalagem para comer. Não é possível recusar. . Respondo: . a outra irlandesa. tem que voltar atrás conosco. gracias. as irmãs vão à frente com o carroceiro.

Olha para mim e diz para mim em francês: . minha irmã.Sim.. .Sim. . Você é o francês que fugiu da prisão de Rio Hacha. Têm o ar de quem está a refletir. mas a minha companheira diz que viu a sua fotografia em um jornal. levantam-se e voltam para os lavabos. Ela voltam todas sorridentes e a irlandesa pergunta-me co. não é verdade? Negar seria ainda mais grave.Eletricista. Devo partir antes que elas cheguem ou ficar? Dá no mesmo.É bom sabê-lo. chama-se Pérez. . até hoje. levantam-se para irem lavar as mãos e a irlandesa volta sozinha. reajo rapidamente.Ah! Tenho um amigo na companhia de eletricidade. A espanhola chega e a outra diz-lhe: . Fico à mercê do destino que.Não vou traí-lo. Conhece-o? . Responde muito depressa e eu não consigo compreender. Por favor. não me denuncie. Amo a Deus e o respeito. depressa me encontrarão. .Henri. não me foi adverso. essa região não tem uma selva muito densa e os acessos aos caminhos que levam às cidades serão facilmente fiscalizados. . Após a refeição. Não sou o meliante por quem todos me tomam.Conheço.Que fazia lá? . é espanhol. mo me chamo. Durante os cinco minutos que dura a sua ausência. Se elas pensam em me denunciar.

Encontra-se ali um ônibus. paramos diante de uma grande estalagem. Uma das meninas. Na carroça. 23 Carteira d e id entid ad e. de costas. Não fale. antes pelo contrário. que vinha de Santa Marta para Rio Hacha. o que não lhe acontecerá. com o meu chapéu de palha a tapar a minha cara e finjo que durmo.. Continuamos. Agradeço-lhe calorosamente. dois postos de Polícia onde pedem sempre aos passageiros a cédula23. com a cabeça apoiada sobre o meu ombro. o carroceiro pára os cavalos ao pé do ônibus. .O Henri vem conosco até o convento. porque antes de chegar a Santa Marta. uma sorte para mim ter encontrado estas freiras. há.Como están por aquí? . e a angústia. Compro uma caixa de doze maços de cigarros e um isqueiro. o carroceiro não percebe que falo mal. hermana. As irmãs pagam a despesa de nós todos. . que sentia depois de ter sido descoberto. (No ta d o trad utor. se for na carroça. Estou deitado na carroça. . com cerca de oito anos. Um ônibus.diz ela -. pelo menos. Não me dirigem palavra durante todo o trajeto e fico reconhecido por isso. não corre perigo. ao nosso lado. De fato.É muito perigoso . Foi.) . que fica a oito quilômetros de Santa Marta. dorme mesmo. Chego ao pé da irmã irlandesa e digo-lhe o que tenho na idéia. (No ta d o Trad utor. desapareceu completamente. Para o fim da tarde.) 24 Po sto d e Po lícia.” Tenho vontade de pegá-lo. estava sendo inspecionado pela Polícia. ao cair da noite chegamos a um alcabate24.Muy bien.pergunta a irmã espanhola. Quando a carroça chega junto ao posto. e as pessoas julgarão que é um trabalhador do convento. Desta maneira. Tem um letreiro onde leio: “Rio Hacha-Santa Marta.

À nossa frente. As mulheres com os filho no colo. É levada para o posto. . Provavelmente. Neste caso não há nada a fazer. pagarei o que for preciso.Me alegro. A irlandesa virase para mim: . Como há duas filas. nos deparamos outro posto muito bem iluminado. Se eu soubesse. situada na costa atlântica: duzentos e cinquenta mil habitantes. Por falta de espaço. que o carroceiro ouviu. Fico danado com ela por essa sua frase imprudente. E partimos tranquilamente.Tenha calma. mas arranjarei uma cédula antes da minha viagem de Santa Marta para Baranquilla. .Cédula! Cédula! E todos tiram e mostram um cartão com a fotografia. como são demoradas as formalidade com o ônibus. está um minúsculo ônibus cheio de passageiros. Henri. esse ônibus só tem uma porta à frente. há malas e grandes embrulhos. vamonos. Abrem as malas dos automóveis e os policiais vêem o que têm dentro. não tem a cédula. segundo o dicionário. Meu Deus. Duas filas de carros de toda a espécie esperam. se passo deste posto.. não podemos obter uma passagem de favor. cidade muito importante. Zorrillo nunca me falou disto. Sintome perdido. teria procurado arranjar um falso. temos de nos resignar a esperar. no tejadilho. Uma à direita. Uma mulher é obrigada a descer e a remexer na mala de mão. muchachos. a nossa à esquerda. Homens e mulheres descem. Às dez da noite. Os veículos passam um por um. Penso que. Quatro policiais mandam descer os passageiros. com certeza. Em cima. Depois voltam a subir um por um.

Deveria ter aproveitado esse incidente para me . Um muro alto. . Que Dios los proteja. Resolvi sentar-me. As emoções dos minutos que acabam de se desenrolar devem ter dado volta à barriga das irmãs. No patamar do pátio. e as três meninas são levadas para o interior do convento.Muy bien. A irlandesa diz para mim que não quer acordar a madre superiora a fim de lhe pedir autorização para eu dormir no convento. . a carroça avança para aquela luz incandescente. Parece-me que. E passamos calmamente. quando a irlandesa chega. hermanas.Chegada a nossa vez. mas sem exagero. Começo a fumar. deitado. por uns momentos. Estou tão emocionado que. minha irmã.Por una urgencia. Nesse caso. hermanas.dizem os policiais. eu não sei o que fazer. Chegamos ao convento por volta da meia-noite. Só me podem ver de perfil. dígo-lhe: . O carroceiro partiu para recolher os cavalos e a carroça. Voltamos a partir.Vayanse con Díos. .Como están todos por aquí? .Amén . Estou apoiado contra a grade da carroça e as irmãs estão de costas para mim. Somos muy apuradas.Obrigado.repete a irmã espanhola.Gracias. por eso no me detengo.Não tem de quê. uma porta grande. pois que dali a cem metros mandam parar o carro para descerem e se perderem. .responde ela. estabelece-se uma discussão animada entre a irmã porteira e as duas irmãs que vinham comigo. bijos. . . posso dar a impressão de que me escondo. Y como viajan tan tarde? . na floresta. mas o medo que tivemos foi tanto que nos revirou os intestinos . sem que nos tenham pedido nada. e enfiei bem o chapéu na cabeça.

. sim.Fugi. .Sou. Tive um sonho terrível. Este engano veio a custar. Dormiu bem? . . minha irmã. quando batem à minha porta. Uma cara extremamente severa. Da janela.Disseram-me que era francês. Henrí. sete anos no xilindró. de uma pessoa de cinquenta anos ou talvez mais. sim. madre. vejo as luzes da cidade.Bom dia.Fugiu da prisão de Rio Hacha? .Dormi.Señor.retirar e partir para Santa Marta. deram-me um quarto no segundo andar. Entramos. fita-me com os seus olhos negros. sem afabílidade. sabe usted hablar español? . que quer vê-lo. acordada a madre superiora. la hermana va servir de interprete. Um grande barco sai do porto. Distingo o farol com os seus focos. Junto ao primeiro degrau está a irmã irlandesa que me recebe com um ligeiro sorriso: . o Sol já vai alto. mais tarde. uma vez que sabia que só tinha de percorrer oito quilômetros.Bueno. madre. Em resumo. .Queira acompanhar-me ao gabinete da nossa madre superíora. Adormeço e. Desço. Lali rasgava o ventre na minha presença e o nosso filho saía aos pedaços. Barbeio-me e arranjo-me rapidamente. Uma mulher está sentada a uma secretária. . .Muy poco. .

. . Onde esteve? Diga a verdade. Esses selvagens nunca admitiram ninguém no seu território.Há quanto tempo? .Estive com os índios.isso não prova nada.Que fez entretanto? . posso permanecer o tempo que for preciso para que se informe se houve algum roubo de pérolas.Madre.O quê? Você.Madre.Cerca de sete meses.Pérolas pescadas por eles. estive com os índios e tenho a prova. Sei que está em boas mãos. que são toda a minha fortuna. Desprendo o saco. Prometo-lhe que não darei um passo fora do meu quarto até o dia em que decidir o contrário. daqui. talvez quinhentas ou seiscentas. é mais fácil. .Quantas pérolas há aqui? . que está preso com um alfinete no meio das costas do meu casaco. . Olha-me fixamente. imagine.Vou entregar-lhe o meu saco de pérolas. Não aceito essa resposta. Pagarei a minha pensão. . Ela abre e tira um punhado de pérolas. Pouco mais ou menos. para que fique com a consciência tranquila. . Penso que deve estar a dizer para consigo própria: “E se você foge? Se já fugiu da prisão.Qual prova? . com os Guajiros? Não é possível. Tenho dinheiro. se quiser.” . . Nem um missionário lá conseguiu entrar. . Pode tê-las roubado nalgum lugar.Não sei.. e dou a ela.

Sentado à mesa da cozinha. Que se lixem as pérolas. . mal começo a servir-me de carne com batatas cozidas. Saio desta entrevista meio tranquilizado. armados de espingardas. e um graduado empunhando um revólver.. à minha frente. Não posso deixar de pensar que me encontro em maus lençóis. decido fugir essa noite. e. À uma hora. quando a porta se abre e aparecem quatro policiais de uniformes brancos. o te mato! . enquanto as minhas filhas estiverem na capela. Os campos à volta estão bem cultivados. Comerá na cozinha com o pessoal. a madre superiora que as guarde para o seu convento ou para ela própria! Ela não tem confiança em mim. não me devo enganar. Henrí. batem à porta: .Obrigado. Tem um ar preocupado. para ver em que lugar poderei saltar o muro. A irmã assiste ao meu café-da-manhã de pé. E a tal ponto. E com estas palavras saiu da cozinha. pois como é possível que. por tudo o que fez por mim. que. pode ir até o jardim. meu amigo Henri.Queira descer para comer. .Ainda queria fazer mais. portando instruída. um pão negro e muito mole. aliás. De manhã e à tarde.No te muevas. Digo: . Sim. Não. essa tarde vou até o pátio. não é preciso ficar fechado no quarto. obrigado.Vou já. minha irmã. mas não posso. Quando me preparava para subir até o meu quarto. sem proferir uma palavra e sem nunca se sentar. Bebi uma grande tigela de café com leite e comi pão com manteiga. Sentado diante da janela olho a cidade e o porto. . sendo catalã e madre superiora de um convento. Conclusão: essa noite vou embora. não fale francês? É uma coisa bastante estranha.Combinado. a irmã irlandesa levou-me à cozinha.

. sento-me e coloco a trouxa entre os pés. Tiro o chapéu e. Saímos.Vamos . Acompanha-me ao meu quarto. que me examina. Os cinco policiais e eu nos acotovelamos nessa lata velha que arranca a toda a velocidade e que é conduzida por um motorista fardado de polícia. sem esperar que me digam alguma coisa. . que trabalham na cozinha. não escondendo a sua satisfação.diz o chefe. Pouco depois chega um homenzinho de avental azul. Devem ter pensado que eram lápis. A irmã irlandesa dá um grande grito e desmaia.É o francês que fugiu há um ano da prisão de Rio Hacha? . − − Você sabe hablar español? Non. Entro no seu gabinete. .Llama el zapatero. estou decidido a portar-me como um homem e não como um frangalho.esse francês é de tão bom temperamento que não está emocionado por ter caído nas nossas mãos. são para me dizer: . sem tocarem nelas. de tal modo que as primeiras palavras do oficial. Duas freiras.Põem-me as algemas. levantam-na. Revistam a minha trouxa e encontram logo as trinta e seis moedas de ouro de cem pesos que ainda tinha. com martelo de sapateiro na mão. faço os possíveis por me manter digno. “Não devo pedir piedade nem perdão. mas o estojo com as duas flechas deixam-no. está esperando um carro caindo aos pedaços. negro como um tição. Seja um homem e pense que nunca deve perder a esperança. O chefe mete as moedas de ouro no bolso. Estou completamente deitado abaixo e não protesto. E quando saio do carro. No pátio.” Tudo isso perpassa rapidamente pelo meu cérebro.

.diz Clousiot.Conte o que se passou . Não há dúvidas. Julgávamos que você tinha se mandado para sempre.Estou a ver: é o tipo do assassino. Que seja francês ou colombiano.Os franceses que trouxe para a Colômbia.Não. .) . Mas estar com eles me dá novas forças. Claro. Não sou o francês que fugiu há um ano de Rio Hacha.É a mesma coisa.Está mentindo.Tirem-lhe as algemas e dispam-lhe o casaco e a camisa. mas há sete meses. não estou a mentir.Não. . .Não. Abraçamo-nos.. . . os assassinos (matadores) são todos os mesmos: uns indomáveis. Maturette chora como um garoto que é. Todas as tatuagens estão anotadas. (Pega em um papel e lê. meu malandro . Sou apenas o segundo-comandante desta prisão. Volto a encontrar os meus cinco amigos.Para você talvez. . E vocês? . Os outros três também parecem desolados. . que me levam para um calabouço cujas grades dão para o pátio. porque eu não fugi há um ano. . Não sei o que vão fazer com você. não sou quem pensa.Mais tarde. . Sigo os policiais. para mim não. por agora.Falta-lhe o polegar da mão esquerda.pedem-me. mas.Quais camaradas? . vou juntá-lo aos seus antigos camaradas.

De tarde.E a sua perna? .Vou andando.. que está acompanhado do cara que me interrogou. já não coxeio.Tratam-nos bem? . há possibilidades? .Ainda agora chegaste e já pensa em se mandar! . mas de noite montam uma guarda especial para nós. quase preto. Um bigode muito curto orna os seus lábios grossos.Não. onde. Traz a camisa . . parece.Três guardas. Estamos à espera de que nos transfiram para Baranquilla. Pensam que vou abandonar assim a partida? Vocês são muito vigiados? . A cadeira de honra está ocupada por um homem muito escuro.Estamos aqui há três meses.. vamos ser entregues às autoridades francesas.Bando de cornos! E para fugir. aparentando cerca de cinquenta anos. . no pátio.Parece que há uns caras muito perigosos: ladrões e assassinos. que mais parece um negro que um índio.Não! Mas às vezes!.. Sigo o polícia e entro no gabinete onde já estivera de manhã. Tem os cabelos curtos e encarapinhados e os seus olhos são negros e cheios de maldade. .De dia nem por isso. . passeamos no pátio. . ao sol. quando me chamam. estou a falar a sós com Clousiot. . duas horas de manhã e três de tarde.Quantos são? .Nem bem nem mal.Estão sempre fechados? .E os presos colombianos que tal são? . Encaro com o comandante da prisão.

. O sapateiro também lá está. .Francês.Estive com os Guajiros. mataram mais de vinte e cinco guardas costeiros. . . . Foi o chefe de uma tribo da montanha.Vivi lá sete meses e os Guajiros nunca saem do seu território. que ia ser fuzilado por ter matado vários guardas costeiros.Não brinque comigo.Francês. os guardas são mortos pelos contrabandistas. que deve representar uma condecoração qualquer. mas ao ajudar a libertar um homem como Antonio. cometeu um ainda maior. . a quem chamam o Justo. Que fez durante todo esse tempo? .entreaberta e não usa gravata. pois não poderá deixar de jogar sempre a meu favor. houve algum roubo de moedas de cem pesos de ouro? .Faça-o. Nos nossos boletins não está registado nenhum roubo dessa natureza.Como sabes? .Estou a dizer a verdade. chefe. Onde roubuo as trinta e seis moedas de cem pesos? . cometeu um delito grave. Mas isso não impede que nos informemos. .São minhas.Ouça.É capaz de ser verdade.Nunca ninguém viveu com os índios. .Não. que me deu. você foi apanhado depois de sete meses de fuga. Ainda esse ano. Do lado esquerdo. exibe uma fita verde e branca. Sabemos agora que você . ao fugir da prisão de Rio Hacha. sem mais nem menos? . se não mando lhe darem uma sova.Não.Como pode um índio possuir semelhante fortuna? E por que razão lhe deu o dinheiro. . tem razão. .

. sobe do chão um cheiro nauseabundo de terra viscosa. dois ou três presos.Francês. chegamos a um corredor muito mal iluminado. vai ser fechado em uma masmorra até partires para Baranquilla. Quando fecham a porta que dá para o corredor. Todos nós os cobrimos com a roupa. À direita há uma lata com agua. Tape-o com o casaco. Não a desperdice.Calem-se! Deixem-no falar! . deixando-o com os outros franceses. Chamam-me. Saio e levam-me até a uma escada que dá para um subterrâneo. de todos os lados. porque só lhe dão uma pequena porção todas as manhãs e você não pode pedir mais. Depois de descermos mais de vinte e cinco degraus. se encontram as masmorras. do gênero dos policiais que me prenderam em Rio .próprio és procurado pelas autoridades francesas. sou francês.grita uma voz. francês. à direita e à esquerda. É um perigoso assassino. É para você se deitar. encostados às grades e com as pernas de fora. . A minha algaraviada em espanhol é perfeitamente compreensível para eles.Escuta lá. Aqui não precisa dele porque faz muito calor. e que foi condenado a uma pena de prisão perpétua. Só consigo distinguir os dois que estão na cela da frente. francês! Que hás hecho? Por que está aquí? Sabe que estas masmorras são as celas da morte? . mas não deixe de tapar o balde para que cheire menos mal. À esquerda está um balde para fazer as necessidades. Aproximo-me da grade para tentar ver as caras. . Abrem uma e empurram-me lá para dentro. não quero correr riscos. toma bem atenção: no fundo da masmorra está uma prancha. Um é de tipo índio espanholado. Cada um daqueles buracos com grades tem um.Sim. se for confirmado que não houve roubo. Por isso. onde. Estou aqui porque fugi da prisão de Rio Hacha. As moedas de ouro serão entregues.

mas pouco mais durará. − − Há quanto tempo se encontra aqui o mais “antigo”? Oito meses. O seu também não é mais.Juro que é verdade. o mar chega às masmorras. Aqui. só um. o outro é um negro muito claro. durante a maré cheia.Não. Mas nunca a perpétua. . Quem passar mais de três meses aqui já sabe que não escapa. ou vinte anos ou a morte. na Colômbia. não há razão para sustos. Nem consegue pôr-se de pé. E você. Em um dia em que a maré seja muito forte. . jovem e bem parecido. . uma vez que lhe condenaram a prisão perpétua. Também me avisa de que não devo apanhar as ratazanas que porventura subam por cima de mim. No entanto. pois nunca ultrapassa a altura do ventre.Hacha. morrerá afogado.Está vendo? O seu país é tão selvagem como o meu. Vai já para um mês que se arrasta de joelhos. mas apenas dar-lhes uma pancada. O negro previneme de que.Há quanto tempo está aqui? -Dois meses.Matou muitos? . elas mordem.Nunca lhe disse que éramos civilizados. . que fez? . não se condena um cara a tanto tempo. segundo ele diz. .Sabe que mais? É igual em toda a parte. .Mas então o seu país é uma terra de selvagens? . Tem razão. Pergunto-lhe: . A Polícia é a mesma merda em toda a parte. Se as agarrar. .Agora não nos vamos zangar por causa dos nossos países.Não é possível! Só por isso.

o cara que pega no balde deixa cair no chão um pequeno . Um guarda entra com dois cadastrados. Quanto vai pegar? . todos os dias. ao procurá-lo. .Fez bem em matá-los. Atrás deles. que trazem um barril de madeira preso a duas traves. ao fundo. Remexi o esterco e encontrei uma meia branca cheia de sangue. A mulher confessou. antes de eu matá-los. como o transferiram.Não pode ser! Que horror! .Isso não é razão! . encontrei uma sandália dele no estrume.Foi o que eu disse quando tive conhecimento da coisa. Com o primeiro tiro parti as pernas do pai.Porquê? -Deram o meu irmão mais novo de comer a uma porca.O meu irmão tinha desaparecido há três dias e. pedra no filho deles. despejam no barril os baldes que servem de latrina. Fiz eles rezarem a última oração e os fuzilei. no máximo.. .O meu irmãozinho.Como soube? . . já me sinto mais sossegado. Cela por cela. Um cheiro de mijo e de merda envenena o ar e nos sufoca. . Ninguém diz nada. Percebi logo. que tinha cinco anos. a mulher e o filho. e o menino ficou várias vezes ferido na cabeça.Vinte anos.Matei um homem. distinguem-se vagamente mais dois guardas armados de espingardas. atirava.Porque está na masmorra? − Bati em um polícial que era da família deles. Quando chega a minha vez. Abrem a porta do corredor. Esse estrume provinha do redil onde estava a porca. . Estava aqui na prisão. .

se enche de água duas vezes por dia. tento ler o que diz o bilhete. Então. consigo inflamá-lo. Tenha cuidado. Estou lixado nesta masmorra nojenta. Descalço-me e penduro tudo nas grades. A seguir. faço um rolo fino e. segundo parece. Com a distribuição dás cigarros. Sinto-me reconfortado. que foste tão generoso comigo. estou convencido de que não foi a irlandesa nem a espanhola que me denunciaram. Estamos com você até a morte. Mas não consigo. Irmãs. afasto-o logo para um lugar escuro. com o papel que vinha a embrulhar o pacote. No entanto. conte conosco. vai me . “ Estas palavras me animam. por despir as calças. E fiz eu dois mil e quinhentos quilômetros para chegar a isto. depressa: “Coragem. desta vez. acendo um e. Amanhã vamos mandar-lhe papel e lápis para que nos escreva. acendo dois cigarros e atiro-os aos dois sujeitos que estão em frente. O resultado não poderia ter sido melhor! Meu Deus! Você. o resultado é o mesmo. Em primeiro lugar. Ninguém fala. ao cabo de várias tentativas. Após a distribuição. e desta vez para sempre. fósforos e um papel escrito em francês. Papillon. carroceiro ou madre superiora. chamo o meu vizinho. Leio. que. que estende o braço para apanhar os cigarros e os passa aos outros. também. Teria ele ouvido? Mas que adianta isso? está aqui. Estão todos a fumar. Cá estou eu outra vez mergulhado na degradação e. até o pescoço! Essas irmãzinhas do Bom Deus eram bem as irmãs do Diabo. Não estou só e posso contar com os meus amigos.embrulho. à luz frouxa que vem do corredor. Com o pé. abro-o e encontro dois maços de cigarros. Depois de se terem ido embora. O calor é tão sufocante que tiro a camisa e acabo. Ah! Mas que burro fui em ter acreditado naquelas irmãzinhas da caridade! Mas teriam sido elas? Se calhar foi o carroceiro? Fomos imprudentes ao termos falado em francês umas duas ou três vezes. fico sabendo que somos dezenove nestas masmorras da morte.

que exalavam uma paz tão serena. posso dizer “a minha tribo”. eu não tinha fugido para que aumentasse a população índia da América do Sul.abandonar agora? Talvez esteja zangado. E esse presente incomparável: ser livre. deve compreender que preciso regressar ao convívio de uma sociedade civilizada e demonstrar que posso fazer parte dela sem constituir uma ameaça. e agora mereço o que está acontecendo comigo. tinha me dado a liberdade mais segura e mais bela. embora primitiva. porque todos eles haviam me adotado. os doze caipiras do júri. É o meu verdadeiro destino . me deu uma comunidade que me havia adotado inteiramente. Uma sociedade que só pensa em me aniquilar. voltarão a sofrer quando o souberem. eu. de reflexos verdes e negros. Fiz mal em ter renegado a minha tribo.. sem que nada faltasse: espezinheí e desprezei tudo isso! Para chegar aonde? Junto de pessoas que não se interessam por mim. E eu que não lhes dei o apreço devido! Aquele mar tão azul. essa maneira de viver sem dinheiro e. E a minha família? Devem ter ficado tão contentes quando os guardas anunciaram a minha fuga. no entanto. porque. porque deve haver um jornalista que mande a notícia para a França. era doce e tranquila. A vida ao ar livre. o monte de dedos-duros e o procurador vão divertir-se muito. me deu. Fiz mal. Pessoas que nem sequer se dão ao trabalho de ver o que em mim há de recuperável. me deu o sol. sem Polícia. Sim. Sim. E. sem magistrados e nenhum ser mau e invejoso à minha volta. Meu Deus.. o nascer e o pôr do Sol. mesmo. . em comunhão com a natureza. Um mundo que me repele e que não me dá esperanças. no entanto. que fui novamente apanhado. o soldado do Poleín. em boa verdade. o filho ou o irmão que escapara dos carrascos! Agora. o mar e uma cabana onde eu era o chefe incontestado.com você ou sem a sua ajuda. duas mulheres admiráveis. seja de que maneira for! Quando souberem da minha captura.

Digo alto: . Sigo o seu conselho. faço uma espécie de cadeira.e serei uma pessoa normal. Procura trepar pelas paredes. Ouço barulho na água: é uma ratazana dos esgotos. no máximo. que se revolve. Diz para mim o negro: . Me calço para não pisar nesse lodaçal. Ouço vários presos gritarem: . Quando a água desaparece.Negro. O negro me atira um pedaço de madeira de dez centímetros de comprimento e diz para mim . Já me chega aos tornozelos. provavelmente melhor que os outros indivíduos de qualquer sociedade ou de qualquer país. Têm as pernas viradas para fora. com o casaco. dou-lhe com ele na cabeça. se quiser matar todas. Normalmente uma hora ou. A água começa a subir. de centopéias e de caranguejos minúsculos é a coisa mais repugnante e deprimente que um homem pode suportar. Salta para o corredor chiando.Depende da força da maré. agarram-se aos varões.Francês. quanto tempo fica a água na cela? . Destapo o meu balde-latrina e. para o corredor. que me permite estar em uma posição um pouco mais cômoda. quando ela se aproxima. Agarro em um dos meus sapatos e. de ratazanas. Fumo. Suba para as grades. agarre-se bem e deixe-se estar quieto. e. fica uma lama viscosa com mais de um centímetro de espessura. mas as grades cortam-me as coxas e não consigo aguentarme muito tempo nesta posição. duas.Está llegando! A água sobe devagar. com os braços. muito devagar.Tenho que conseguir provar que posso. uma boa hora depois. Esta invasão de água. ainda agora começou e não acabará. pois agora fico praticamente sentado. que sou . O mestiço e o negro estão empoleirados nas grades. tão grande como um gato.

que nas ilhas da Salvação. se tivesse ficado no degredo. Só lamento uma coisa: a minha tribo guajira. Lali e Zoraima. ou os irmãos do procurador. o que me impede de pensar noutra coisa. como aos crápulas? Não estou desesperado. quer dizer. foi porque elas não eram bastante fortes para o afastarem mais depressa. nada disso lhe teria acontecido. talvez haja quem sinta um pouco de piedade por mim. sem o conforto da civilização. está escrito que a sua sorte depende das marés. dentro de onze horas.” Entre as pessoas que lerão estas páginas. construída pela Inquisição espanhola. dirão: “Bem feito. quando fugiu do degredo. que é o tempo que a água leva a descer. saiu de Trinidad e de Curaçau calculando as horas das marés. e até direi mais: prefiro estar aqui nestas masmorras da velha fortaleza colombiana. nada mesmo.” Pois bem. A água apenas voltará na maré seguinte. Os outros. quer queira quer não. mesmo neste buraco infecto. Penso que os meus selvagens nunca infligiriam .que empurre a lama para o corredor. a começar pela prancha onde durmo. onde deveria encontrar-me a essa hora. Foi graças às marés que pôde sair facilmente do Maroni. Levo mais de meia hora neste trabalho. tem muita importância sobre você e a sua vida. os primos diretos dos doze caipiras que me condenaram. a vida livre no seio da natureza. Faço essa reflexão algo ridícula: “Papillon. Terão de tomar muitas precauções se quiserem que eu percorra o caminho de regresso. A Lua. e muito menos masmorras. Daqui. posso muito bem tentar fugir e. se o prenderam em Rio Hacha. estou a dois mil e quinhentos quilômetros do degredo. São os bons. mais as cinco que demora a subir. É preciso contar seis horas. tanto aos bons. querem que lhes revele uma coisa. com a descrição do que tenho que suportar nestas masmorras colombianas. e agora está permanentemente à sua mercê. e depois do fundo da masmorra até a porta. mas também sem policiais ou prisões. se elas alguma vez forem publicadas. Já não é ruim.

atirei-lhe um cigarro aceso e ele. nestas mesmas masmorras. das crianças que nascerão. os párias da sociedade. O colombiano. A pessoa que o denunciou será punida pela própria vida. Quem. teria prevenido a Polícia? Se eu vier sabendo. abaixo do nível do mar. muito valor. embora esteja no fundo de uma masmorra. me acho. quer não. um lápis e dois maços de cigarros. Ele sabe disso. que nunca cometeu delitos em território colombiano. que parecem insignificantes. Provam que nós. vai me pagar um dia. corre um grande risco. quer queiram. sem dúvida. têm. Estes pormenores. será por elas e por todos os guajiros que lhe deram a honra de aceitá-lo como um dos seus. em plena fuga e no caminho da liberdade. um dia. mas também uma nobreza fora do comum. Recebi papel. para que os outros não vejam. fez o mesmo que eu. e o fato de aceitar ajume dar no meu calvário revela não só uma grande coragem. Posso sonhar e errar pelo espaço sem ter de pôr um lenço nos olhos por causa da intensidade da luz. Quando devolvi o pau ao negro. Deveria dizer três noites. e se. Deito-me na prancha e fumo dois ou três cigarros no fundo da cela. tiver de voltar não será para se vingar. para mim. dos seus filhos. Sempre pelo mesmo . Isso aqui não é como a Conciergerie. Se o pegam.semelhante suplício a um inimigo. Encontro-me aqui há três dias. temos ainda um pouco de civilidade e de vergonha. pois está sempre escuro. Mas digo eu com os meus botões: “Não comece a meter água. Papillon! Já tem muito o que fazer na França para se vingar e não veio cair neste país perdido para praticar o mal. Se voltar a essa terra. do convento. provavelmente. por pudor em relação aos outros. mas para fazer a felícídade de Lali e de Zoraima e.” Continuo ainda no “caminho da podridão” e. e ainda menos a um homem como eu. Ninguém pode negar. Enquanto acendo um cigarro de marca Piel Roja não posso deixar de admirar a solidariedade que reina entre os presos. colocariam-no. que me traz o embrulho.

ainda consegui escrever: “Obrigado por tudo. Viva a fuga!” Fuga em Santa Marta Só vinte e oito dias depois é que saí daquele antro imundo. me levaram ao gabinete do comandante. Um abraço dos seus amigos. É melhor que seja sempre o mesmo a trazer as mensagens. leio: “Papillon. mediante a intervenção do cônsul belga em Santa Marta. Bravo! Dê notícias. De repente. O negro. Assim. que prevenisse o cônsul de que um belga estava naquelas masmorras. na ocasião de uma visita. Não foi fácil responder. de uns cinquenta anos de idade. sempre na mesma. Um colombiano ainda teve tempo de lhe dizer que o francês estava nas masmorras da morte. mas não a deixaram falar conosco. se houver azar. mesmo assim. de nome Mausen. tivera a idéia de dizer à mãe. que se chamava Palados e que saíra três semanas após a minha chegada. um domingo. Uma irmã que fala francês apareceu para vê-lo.sistema do papel a arder. um dia. um preso belga receber a visita do cônsul.Se você é francês. É tudo. “ . nunca se sabe o que daí pode vir. mas. Ela disse: voltarei. Eu vou aguentando. Escrevam ao cônsul francês. percebi a situação: . sabemos que aguenta bem o golpe. estava sentado em uma cadeira de braços com uma pasta de couro em cima dos joelhos. A idéia surgira-lhe ao ver. cabelos louros quase brancos e cara redonda. que me diz: . a fim de que. um cavalheiro vestido de branco. Não toquem nas pontas das flechas. porque faz reclamações ao cônsul belga? No gabinete. Nós. fresca e rosada. só um seja castigado.

as costas. fere os meus olhos.Mas não é você! Não é possível! O que esses safados lhe fizeram. Até o seu corpo cheira a podre! Fiquei todo nu e eles colocaram a minha roupa perto da porta. .Não consigo me habituar a essa luz.Sento-me virado para o interior da cela. . muito obrigado por ter se incomodado por minha causa. .Obrigado. Levem-no ao barbeiro e depois juntem-nos aos cúmplices.O senhor é que diz que eu sou francês. juntaram-me logo aos meus amigos. Devia estar com um aspecto dos diabos. antes que esse animal mude de opinião! Virei vê-lo. É verdade que sou fugitivo da justiça francesa. . Mas.Quanto a mim. pois não cometi nenhum delito no país de vocês. as coxas e as pernas cheios de picadas vermelhas. . além disso. senhor cônsul . é incrível. não deixo de ser belga.Bueno.diz o homenzinho com cara de padre. Fugir é uma reação normal em um preso. senhor cônsul. . Tinha os braços. Como o barbeiro não aparecesse. mas.Porque não disse antes? . para ficar nesse estado! Fale. vou mandar esse sujeito para perto dos seus camaradas. Está cego? Que tem você nos olhos? Porque está sempre piscando? . previno-o de que à primeira tentativa de fuga volto a metê-lo no mesmo lugar. porque eles não paravam de dizer: . como as que fazem . . era uma coisa que não lhes dizia respeito. acostumados à escuridão. O dia é muito claro para mim.digo eu em francês -.Cheira mal pra caramba.Meu Deus! Como deve ter sofrido nessas horríveis masmorras! Vá embora depressa. . diga para nós qualquer coisa.Ah! Está vendo? . estou muito melhor.. Adeus.Assim.

sinto uma alma nova. O outro responde que espere pela hora da saída. se não há barbeiro. há. mais porcaria sai. até que altura subia? E as ratazanas? E as centopéias? E a lama? E os caranguejos? E a merda das selhas? E os mortos que saíam? Morriam de morte natural ou se enforcavam? Ou eram “suicidados” pelos guardas? Era um nunca mais acabar de perguntas. Depois de várias ensaboadelas e enxaguadelas. não precisava de espelho para me dar conta disso. Ajudado por Maturette. pelo menos. em voz baixa. sinto-me finalmente limpo. tão perturbados ficaram por me verem nesse estado. E aqueles cinco forçados. Estava nojento. adoçados com papetón (açúcar mascavo). . Quanto mais me lavo. bebi. Saio completamente nu.diz Clousiot. água no pátio. O barbeiro chega. pelo menos. mas eu digo-lhe: . e de mordidas dos caranguejos liliputianos que flutuavam com a maré. que já tinham visto tanta coisa. Os meus amigos não param de me interrogar: .Um peso. Quer cortar-me o cabelo à escovinha. O negro da masmorra da frente veio me cumprimentar. No pátio havia um negociante de café.E a água. Corta o cabelo normalmente e faz a barba. Durante as três horas que lá estivemos. vestido com roupa limpa. . uma dezena de cafés bem fortes. a história que houve entre o cônsul belga e a mãe dele. Seco ao sol em cinco minutos e visto-me. Clousiot chama um guarda e diz que. com o cabelo cortado. Lavado. que lhe darei dois . Clousiot traz a roupa lavada que vou vestir. barbeado. Esse café parecia a melhor bebida do mundo.Faça bem o seu serviço. Pagarei. . lavo-me e torno a lavar-me com sabão preto.Não. calaram-se. Explica-me.os percevejos. Aperto-lhe a mão. Falei tanto que acabei por ter sede.Quanto? .

pelo espírito. Obriga-me a deitar nela.Ora. Clousiot: como se arranja umas coroas de vez em quando? . Masco a verde. Tenho a impressão de que a cela dos meus amigos e um palácio. então. isso insensibiliza a língua e os lábios.Vendem disso aqui? .Sim. O filme não pode acabar.Sei lá! Ouve. . Admira-se. Retira-se todo contente. jogar damas. falar espanhol entre nós e com os guardas e presos colombianos para aprender bem a língua .Amanhã falaremos. tenham confiança em mim! Encontrei as flechas e duas folhas de coca. que comprou com o seu dinheiro.tais eram as nossas atividades. do hospital de São Lourenço até Santa Marta.Sente-se muito orgulhoso por ter contribuído para a minha saída. prove. de fato. . e a partir daí tenho tido sempre dinheiro. beber.Troquei-as em Rio Hacha.Está brincando conosco! . as quais ocupavam o dia inteiro e até mesmo parte da noite. Deíto-me atravessado. cartas (com cartas espanholas). Tem que continuar e continuará! Deixem-me recuperar forças e podem estar certos de que haverá novos episódios. Clousiot tem uma rede só para ele. Por hoje chega. e tudo isso me incita a não ficar por ali. Perpassam-me. todos os pormenores da fuga. uma completamente seca e a outra ainda um pouco verde. Explico aos meus amigos que são as folhas de onde se extrai a cocaína. . Explico-lhe que se ele se deita ao comprido é porque não sabe servir-se de uma rede. dormir. Todos eles me olham estupefatos. . dizendo-me: . Comer.

O cônsul pôs-se à minha disposição para me proteger. mesmo. a sua pele tornou-se cinzenta. de pais belgas. propõe-lhes antes um negócio.Sim. Mas ele.Já eu . há testemunhas. esse cometeu um abuso de confiança em uma companhia de bananas americana.diz o cônsul -. Quanto às moedas. Um dia desses vou levantar o problema. nem com padres. mandar assassiná-lo. Falei-lhe das freiras e das pérolas. mas mal. não tem relações nem com freiras. Ao ouvir falar de fuga. ele deveria ser prevenido da nossa partida para Baranquilla com vinte e quatro horas de antecedência. Não se deve tentar o Diabo. isso é outro assunto. Dê tempo para eu pensar. No domingo. ou. . .digo eu -. Pergunto ao negro se ele não quereria fugir comigo e.Mas agora não reclame coisa alguma. qual a melhor maneira de atuar.É uma idéia. . como é protestante. há. pois ele seria capaz de voltar a metê-lo naquela horrível masmorra.É muito arriscado . Essas moedas de ouro de cem pesos são uma verdadeira fortuna. . sim. porque. Apenas conhece o bispo.Como são uns interesseiros. Não valem só trezentos pesos.. Quanto às pérolas. . .diz. . tenho trinta e seis moedas de cem pesos. se bem compreendi. Além disso. você poderá reclamar as pérolas na minha presença . na posse do comandante e cada moeda vale trezentos pesos. falei com o cônsul e com o prisioneiro belga.Então. de ouro. Preencheu uma ficha onde declara que nasci em Bruxelas. mas quinhentos e cinquenta cada uma. É uma boa maquia. como você julga. a seu ver. aconselha-me a não as reclamar.

- Suplico, homem. Não pense sequer nisso. Se fracassar, espere uma morte lenta, terrível. Espere até chegar a outro lugar, a Baranquilla, por exemplo. Mas aqui seria um suicídio. Quer morrer? Então fique quieto. Em toda a Colômbia, não há masmorras como a que você conhece. Porque vai correr esse risco? - Porque, como o muro aqui não é muito alto, deve ser relativamente fácil... - Hombre, facil o no, não conte comigo. Nem para fugir, nem para ajudar. Nem quero falar nisso. Aterrorizado, deixa-me, dizendo: - Francês, você não é um homem normal. É louco. Pensar em coisa assim, em Santa Marta!... Todas as manhãs e todas as tardes observo os presos colombianos que aqui estão por crimes mais graves. Têm, todos eles, focinhos de assassinos, mas vêse que eles estão dominados. O terror de serem enviados para as masmorras os paralisa completamente. Há quatro ou cinco dias, vi sair da masmorra um diabo ligeiramente mais alto que eu, a quem chamam El Caimán. É considerado um homem extremamente perigoso. Falo com ele e, depois de três ou quatro passeios, digo-lhe: - Caimán, quieres jugarte comigo? Olha-me como se eu fosse o Diabo e me responde: - Para voltarmos para de onde saímos, se a coisa der mal? Não, obrigado. Preferia matar a minha mãe a voltar lá para baixo. Foi a minha última tentativa. Nunca mais falarei de fuga seja a quem for. De tarde, vejo o comandante da prisão. Pára, olha para mim e diz: - Como está? - Vou indo, mas iria muito melhor se tivesse as minhas moedas de ouro.

- Porquê? - Porque poderia pagar a um advogado. - Venha comigo. Leve-me para o seu gabinete. Estamos sós. Ele me dá um charuto. (“Isso está correndo bem”, penso.) Acende-me. (“Corre cada vez melhor”.) Fala suficientemente bem espanhol para compreender e responder

calmamente, falando devagar? - Sim. - Bem. Diz que queria vender as suas vinte e seis moedas. - Não, são trinta e seis. - Ah, pois! E com esse dinheiro pagaria um advogado? Mas só nós dois sabemos que você tem essas moedas. - Não, há o sargento e os cinco homens que me prenderam e o segundocomandante, que as tirou antes de dá-las a vocês. E há ainda o meu cônsul. - Ah! Ah! Bueno. Até é melhor que muita gente o saiba, porque assim agiremos às claras. Sabe que lhe prestei um grande serviço? Calei-me, não pedi informações à Polícia dos países onde estiveste para saber se teria havido algum roubo de moedas. - Mas devia tê-lo feito. - Não, para seu bem foi melhor não o fazer. - Agradeço-lhe, comandante. - quer que eu as venda? - A quanto?

- Bem, ao preço que me disse terem-lhe pago: trezentos pesos. Dê-me cem pesos por cada moeda como pagamento de lhe haver prestado um serviço. Que diz? - Não. Dê-me as moedas, que eu pagarei não cem, mas duzentos pesos cada uma. Isso parece valer o que fez por mim. -Francês, você é muito astucioso. Eu sou um pobre oficial colombiano muito confiante e um pouco estúpido, mas você é inteligente e bastante astucioso, como já lhe disse. - Mas então que oferta razoável me propõe? - Amanhã mando chamar o comprador aqui, ao meu gabinete. Ele vê as moedas, faz uma oferta, e ficará metade para cada um. Ou assim ou nada. Ou he mando para Baranquilla com as moedas ou guardo-as para averiguações. -Não, a minha última proposta é esta: o homem chega aqui, vê as moedas, e tudo o que houver acima de trezentos e cinquenta pesos por cada uma é para si. - Está bien, tu tienes mi palabra. Mas onde vai você guardar tanto dinheiro? - Quando eu o receber mandará chamar o cônsul belga. Dar-lhe-ei a grana para pagar o meu advogado. - Não, não quero testemunhas. - Não há riscos: assinarei que me devolveu as minhas trinta e seis moedas. Aceite a oferta, e, se se portar corretamente comigo, vou lhe propor outro negócio. - Qual? - Tenha confiança em mim. É um negócio tão bom como o outro e havemos de ganhar cinquenta por cento. - Qual é? Diz para mim!

- Vire-se, que amanhã à tarde, pelas cinco horas, quando o meu dinheiro estiver em segurança, nas mãos do meu cônsul, direi-lhe do que se trata. A entrevista foi longa. Quando regresso ao pátio, todo contente, os meus amigos já estão na cela. - Então, o que passa? Conto-lhes a nossa conversa. Apesar da situação em que nos encontramos, nos torcemos de rir. - Que raposa nos saiu esse cara! Mas você comeu as papas dele na cabeça. Acha que ele vai no embrulho? - Aposto cem pesos contra duzentos. Ninguém aposta? - Não, também acho que ele vai na conversa... Penso durante toda a noite. O primeiro negócio já canta. O segundo, vai ficar contentíssimo por recuperar também as pérolas. Resta um terceiro. O terceiro... vou oferecer-lhe a grana toda para que me deixe roubar um barco no porto. Esse barco, poderia comprá-lo com o dinheiro que tenho escondído. Veremos se ele resiste à tentação. Que arrisco eu? Depois dos dois primeiros negócios, nem sequer me pode castigar. Veremos. “Não vendas a pele do urso... Poderias esperar até Baranquilla, mas para quê? Cidade mais importante, logo prisão mais importante, mais bem guardada, muros mais altos. Devo mais é regressar para junto de Lali e de Zoraima, espero por lá uns anos, vou até a montanha com a tribo que tem bois e entro então em contato com os Venezuelanos. É preciso que me saia bem desta fuga.” Durante a noite, penso na maneira de melhor orientar o negócio, para que tudo saia bem. No dia seguinte, as coisas não se arrastam. Vêm-me buscar às nove da manhã, para falar com um cavalheiro que me espera no gabinete do comandante.

Quando chego, o oficial sai e veio-me então na presença de uma pessoa de perto de sessenta anos, com um terno e uma gravata cinzentos. Em cima da mesa está um grande chapéu de feltro cinzento, gênero cowboy, onde sobressai uma grande pérola azul-cinzento, como um alfinete de gravata. O homem, magro e seco, aparenta uma certa elegância. - Bom dia, cavalheiro. Fala francês? -Falo, sou de origem libanesa, Sei que tem moedas de ouro de cem pesos e estou interessado nelas. Quer quinhentos pesos por cada uma? - Não, seiscentos e cinquenta. - O senhor está mal informado! O máximo, por cada moeda, é quinhentos e cinquenta. - Escute, como você quer todas, dou-lhas por seiscentos. - Não, quinhentos e cinquenta. Chegamos a acordo por quinhentos e oitenta. Negócio fechado. - Que han dicho? - Fizemos negócio, comandante, por quinhentos e oitenta. A transação se realizará amanhã à tarde. Ele vai embora. O comandante se levanta e diz para mim: - Muito bem... e para mim, quanto? - Duzentos e trinta por moeda. Está vendo? Quase duas vezes o que queria ganhar, cem pesos por moeda. Sorri e pergunta. - O outro negócio?

- Primeiro, é preciso que o cônsul esteja aqui, de tarde, para receber o dinheiro. Quando ele for embora, digo-lhe qual é o segundo negócio. - É verdade que tem outro a me propor? - Dou-lhe a minha palavra. - Bien, oialá! Ás duas horas, chegam o cônsul e o libanês. esse último me dá vinte mil oitocentos e oitenta pesos. Dou doze mil e seiscentos ao cônsul e oito mil duzentos e oitenta ao comandante e assino um recibo declarando que esse me devolveu as minhas trinta e seis moedas de ouro de cem pesos. Ficamos sós, o comandante e eu. Relato-lhe a minha conversa com a madre superiora. - Quantas pérolas? - Entre quinhentas e seiscentas. - É uma ladra, essa superiora. Ela deveria tê-las entregue à Polícia. Vou denunciá-la. - Não, vai mais é falar com ela e dar-lhe uma carta minha, em francês. Antes de falar na carta, peça-lhe que mande chamar a irlandesa. -Já estou percebendo: é a irlandesa que lerá a sua carta escrita em francês e traduzi-la. Muito bem. Vou lá imediatamente, - Espere pela carta. - Ah, é verdade! José, prepare o carro, com dois policiais! grita ele através da porta entreaberta. Instalo-me à secretária do comandante e, em papel com o timbre da prisão, escrevo a seguinte carta:

“Senhora Madre Superiora,

ao cuidado da boa e caridosa irmã irlandesa. Quando Deus me conduziu à sua casa, onde julgava ir receber a ajuda a que tem direito, pela lei cristã, todo aquele que é peregrino, resolvi confiar-lhes um saco de pérolas, que me pertence, a, fim de lhes provar que não partiria clandestinamente de sua casa, que é a casa de Deus. Mas algum ser vil considerou seu dever denunciar-me à Polícia, que logo se dirigiu até aí para me prender. Espero, por isso, que a alma abjecta que cometeu tamanha injustiça não pertença a nenhuma das filhas de Deus que se alberga nessa sua casa. E não lhes posso prometer que perdoarei a quem tanto mal me fez, porque mentiria. Antes pelo contrário, pedirei com fervor a Deus ou a um dos seus santos que castigue sem misericórdia o culpado ou a culpada de pecado tão monstruoso. Peço-lhe, Senhora Madre Superiora, que entregue ao comandante Cesário as pérolas que lhe confiei. Ele as devolverá religiosamente, disso tenho a certeza. essa carta servirá de recibo. Aceite, Senhora Madre Superiora, etc.” Como o convento fica apenas a oito quilômetros de Santa Marta, o carro regressou uma hora e meia depois. O comandante manda me buscar. - Já estão aqui. Conte-as para ver se faltam algumas. Apesar de ignorar quantas eram, conto-as, apenas para fícar sabendo quantas estão nas mãos desse pilantra: quinhentas e setenta e duas.
− −

É isso? É.

- No falta ninguna? - Não. Agora conte-me o que aconteceu. - Quando cheguei ao convento, a superiora estava no pátio. Com um polícial de cada lado, dísse-lhe: “Minha senhora, porque se trata de um assunto muito

grave, que deve adivinhar qual seja, tenho que falar à irmã irlandesa na sua presença.” - E então? - Foi tremendo que a freira leu a carta à superiora. Essa não disse nada. Baixou a cabeça, abriu a gaveta da sua secretária e disse: “Aqui está a bolsa, intacta, com as pérolas. Que Deus perdoe ao culpado o crime cometido na pessoa desse homem. Diga-lhe que rezamos por ele.” E é tudo, hombre! Termina, radiante, o comandante. - Quando é que se vendem as pérolas? - Mañana. Não pergunto de onde vêm, já sei que é um matador perigoso, mas também sei que é um homem de palavra e honesto. Tome, leve esse presunto, essa garrafa de vinho e esse pão francês para festejar com os seus amigos um dia tão memorável. Boa tarde. Chego com uma garrafa de dois litros de chianti25, um presunto com perto de três quilos e quatro pães compridos. É um autêntico banquete. O presunto, o pão e o vinho diminuem rapidamente. Todos comem e bebem com apetite. - Acha que um advogado pode fazer alguma coisa por nós? Desato a rir. Pobres diabos! Até eles acreditaram na história do advogado! - Não sei. É preciso estudar o assunto e consultar um, antes de pagar. - O melhor - diz Clousiot - seria entregar a grana só em caso de êxito. - É isso, temos de arranjar um advogado que aceite essa proposta. E não falo mais nisso. Tenho vergonha.
25

denominação dos vinhos tintos algo ásperos e ácidos, quando jovens, produzidos na província de Siena (Itália) e ger. engarrafados em frascos bojudos revestidos de palha trançada
(Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka.4shared .com)

O libanês volta a aparecer no dia seguinte. - É muito complicado - diz. - Temos de classificar as pérolas segundo o tamanho, o brilho e, por fim, a forma; depois, ver se são bem redondas ou barrocas. Em poucas palavras: não só é complicado, como, ainda por cima, o libanês diz que tem de trazer um outro possível comprador, mais competente que ele. Fechamos o negócio em quatro dias. Paga trinta mil pesos. No último instante, retiro uma pérola cor-de-rosa e duas pretas, para dá-las de presente à mulher do cônsul belga. Como bons comerciantes, aproveitam para dizer que só estas três pérolas valem cinco mil pesos. Apesar disso, fico com elas. No entanto, o cônsul belga levanta dificuldades em aceitá-las, mas não se importa de guardar os quinze mil pesos para mim. Assim, tenho em meu poder vinte e sete mil e seiscentos pesos. Agora, trata-se de ver se o terceiro negócio correrá bem. Mas como deverei atacar o assunto? Um bom trabalhador, na Colômbia, ganha entre oito e dez pesos por dia. Portanto, vinte e sete mil e tal pesos são uma boa quantia. Vou malhar no ferro enquanto está quente. O comandante recebeu vinte e três mil duzentos e oitenta pesos. Com mais estes vinte e sete mil, ficaria com cinquenta mil. - Comandante, quanto é que é preciso para montar um negócio que faça um tipo viver mais desafogadamente do que você? - Um bom negócio vale, assim, entre quarenta e cinco e sessenta mil pesos. -E o lucro? Três vezes o que você ganha? Quatro vezes? - Mais. Cinco ou seis vezes. - Mas então porque não se torna comerciante? - Precisaria a ter o dobro do dinheiro que tenho. - Escute, comandante, tenho um terceiro negócio a propor.

- Não brinque comigo. - Juro que não. Quer os meus vinte e sete mil pesos? São seus quando quiser. - Como? - Deixe-me ir embora. - Escuta, francês, sei que não tem confiança em mim. Há algum tempo atrás, talvez tivesse razão. Mas agora que, graças a você, saí da miséria, que já posso comprar uma casa e mandar os meus filhos para a escola dos ricos, fica sabendo que sou seu amigo. Não pretendo roubar-lhe, nem quero que lhe matem. Mas quanto a isso, não posso fazer nada por você, mesmo que seja por uma fortuna. É impossível arranjar maneira de você fugir com possibilidades de êxito. - E se eu provar o contrário? - Então veremos, mas pense bem. - Comandante, tem algum amigo que seja pescador? - Tenho. - Talvez ele seja capaz de me conduzir ao mar alto e de me vender o seu barco. - Não sei... - Quanto vale o barco, mais ou menos? - Dois mil pesos. - Se eu lhe der sete mil, e vinte mil a você, que tal? - Francês, dez mil já chegam, guarde algum para você. - Trate então das coisas. - Vai sozinho? - Não.

- Quantos? - Três, ao todo. - Deixe-me falar com o meu amigo pescador. Estou espantado com a mudança deste sujeito em relação a mim. Com aquela tromba de assassino tem, afinal, um íntimo bom. No pátio, falei a Clousiot e a Maturette. Dizem-me que faça o que quiser, que eles estão prontos a me seguir. Me dá grande satisfação o fato de entregarem a sua vida nas minhas mãos, mas não abusarei, serei prudente em extremo, porque acabo de contrair uma grande responsabilidade. Porém, tenho que prevenir os outros camaradas. Acabamos de jogar uma partida de dominó. São quase nove horas da noite. Chegou o momento de tomarmos o último café. Chamo: - Caletero! E servem-nos seis cafés bem quentes. - Tenho que falar com vocês. É o seguinte: creio que conseguirei fugir daqui. Infelizmente, só podemos ir três. É normal que eu parta com Clousiot e Maturette, que são os que fugiram comigo dos valentões. Se algum de vocês tem alguma coisa a objetar, que o diga francamente, sou todo ouvidos. - Não - diz o Bretão. - É justo, sob todos os pontos de vista. Em primeiro lugar, porque saíram juntos do degredo. Depois, se vocês estão nesta situação, é por nossa causa, que quisemos desembarcar na Colômbia. Obrigado, Papillon, por ter pedido a nossa opinião, mas tem todo o direito de agir assim. Oxalá que vocês se saíam bem, porque, se são apanhados, é a morte certa... E então em que condições! - Nós sabemos - dizem em coro Clousiot e Maturette, O comandante falou-me essa tarde. Diz para mim que o seu amigo está de acordo e pergunta o que queremos levar no barco.

- Um barril de cinquenta litros de água doce, vinte e cinco quilos de farinha de milho e seis litros de óleo. É tudo. - Carajo! - exclama o comandante. - Com tão poucas coisas, não poderá navegar. -Posso. - Você é valente, francês. Pronto! Ele está resolvido a executar a terceira operação. friamente: - Faço isto, quer acredite, quer não, pelos meus filhos e, depois, por você. Merece-o pela sua coragem. Sei que fala verdade e agradeço-lhe. - Como fará para que não se veja que eu estava de acordo com você? - A sua responsabilidade não ficará comprometida. Partirei à noite, quando o segundo-comandante estiver de serviço. - Qual é o seu plano? - Amanhã, o senhor começa por reduzir em um polícial a guarda da noite. Dentro de três dias tira outro. Quando só houver um, mande instalar uma guarita diante da porta da cela. Na primeira noite de chuva, a sentinela vai se abrigar na guaríta e eu saltarei pela janela. Quanto às lâmpadas, que há em volta do muro, tem de arranjar maneira de provocar um curto-circuito, é tudo o que lhe peço. O senhor mesmo pode fazer isso, atirando um fio de cobre de um metro, preso a duas pedras, para cima dos dois fios que vão do poste às lâmpadas que iluminam a parte superior do muro. Quanto ao pescador, o barco deve estar preso a uma corrente, cujo cadeado ele próprio rebentará, de modo que eu não tenha que perder tempo. As velas devem estar dispostas de maneira E acrescenta

que possam ser içadas rapidamente. Precisamos ainda de três grandes pangaias. - Mas o barco tem um pequeno motor - diz o comandante. - Ah! Então melhor ainda: ele que deixe o motor em ponto morto, como se o aquecesse, e que vá beber um copo. Quando nos vir chegar, deve ir para junto do barco, vestido com um impermeável preto. - O dinheiro? - Cortarei ao meio os seus vinte mil pesos, quer dizer, cada nota será cortada ao meio, e pagarei com antecedência os sete mil pesos ao pescador. Dareí a ele metade das notas e a outra metade será entregue a ele por um dos franceses que fica aqui. Depois lhe dírei quem é. - Não acredita em mim? Faz mal. - Não, não é nada disso, mas pode cometer um erro ao provocar o curto-circuito. Nessa altura não lhe pago, pois sem curto-circuito não me posso ir embora. - Está bem. Está tudo pronto. Por intermédio do comandante, dei os sete mil pesos ao pescador. Há cinco dias que só há uma sentinela e a guarita já está instalada. Agora esperamos pela chuva, que não chega. A grade foi cortada com uma serra dada pelo comandante. O corte foi bem disfarçado, tendo eu ainda posto por cima dela uma gaiola com uma papagaio que começa a dizer “merda” em francês. Estamos em pulgas. O comandante tem metade das notas. Todas as noites esperamos. Não chove. O comandante deverá, uma hora depois de ter começado a chover, provocar o curto-circuito do lado de fora do muro. Mas nada, nada de chuva nesta estação. É inacreditável. A mais pequena nuvem que consigamos divisar através das grades enche-nos de esperanças, mas, depois, nada. É de ficar doído. Há

dezesseis dias que está tudo pronto, dezesseis noites de vigília, com o coração apertado. Um domingo de manhã, o próprio comandante vem me buscar e me leva ao seu gabinete. Devolve-me o pacote com as metades das notas e três mil pesos em notas inteiras. - Que se passa?

Francês, meu amigo, só tem essa noite. Partem para Baranquilla amanhã às seis horas. Só te dou três mil pesos do pescador porque ele gastou o resto. Se chover essa noite, ele estará à sua espera e quando ver o barco dê a ele, o dinheiro. Tenho confiança em você e sei que nada tenho a recear. Não choveu.

Fugas em Baranquílla

Ás seis da manhã, oito soldados e dois cabos, acompanhados por um tenente, nos algemam. E lá vamos nós, em um caminhão militar, a caminho de Baranquilla. Fazemos os cento e oitenta quilômetros em três horas e meia. Ás dez da manhã, chegamos à prisão, que se chama a “SO”, Calle Medellin, em Baranquilla. Tanta canseira para não parar lá e, afinal, saiu tudo furado. É uma cidade importante, o primeiro porto colombiano do Atlântico, mas situado no interior do estuário do rio Madalena. A prisão e grande: quatrocentos presos e perto de cem guardas, funcionando nos mesmos moldes de qualquer prisão européia. Tem dois muros com mais de oito metros de altura. Somos recebidos pelos oficiais, encabeçados por Dom Gregorio, o diretor. A penitenciária compõe-se de quatro pátios, dois de cada lado, separados por uma

mas uma gaiola: um teto de cimento assentado sobre grossas barras de ferro e. é.Vocês são os fugitivos do presídio francês da Guiana? . onde se reza missa. Entramos e saímos à vontade. de vinte metros por quarenta. os seis franceses. não é uma cela. encontraram os vinte e três mil pesos e as flechas. estes franceses! Encontrarmo-nos nesta prisão de Baranquilla é o pior de toda a nossa aventura. o que não quer dizer que estivéssemos fingindo passar por bons rapazes. das seis da manhã às seis da tarde. as latrinas e os lavatórios. as quais têm uma grade que dá para o pátio.Nunca o negamos. É aqui que seremos entregues às autoridades francesas. . reúnem-nos os seis na capela. A nossa cela encontra-se no meio do pátio. uma centena. Na revista. servindo também de parlatório. realmente. Aliás. Metem-nos no pátio dos mais perigosos. Temos que fugir. cada grade é provida de um toldo que é abaixada quando chove. estão repartidos pelas celas escavadas nas quatro paredes deste pátio. somos os únicos nessa gaiola central. Creio que é meu dever prevenir o diretor da prisão de que elas estão envenenadas.capela. passear e até comer no pátio. em presença do diretor. seja de que maneira for. . o ponto crucial de toda a questão. Baranquilla. Passamos o dia no pátio. de alguns guardas e de sete ou oito jornalistas. Os outros presos. Dois dias após a nossa chegada. que para nós não passa de uma enorme prisão. Podemos falar. Nós. Sim.Por que razão foi cada um de vocês tão severamente castígado? . − Eles até têm flechas envenenadas. É preciso dar tudo por tudo. em um dos cantos. expostos dia e noite aos olhares dos outros presos e sobretudo dos guardas.

Que. decididos a não viver neste país. tão nobremente representados pelo bispo Irénee de Bruyne. visto que entram no jogo deles. nos impeçam de ir embora. a nós.É possível que vocês sejam batizados catolicamente. . e mais dois outros camaradas estávamos. pelos nossos próprios meios. Deixem-nos ir.são quase todos católicos. Ou até mais que isso. . . mas a sua maneira de agir é pouco cristã. quando se quer. Pelo contrário. Não podemos considerar admissível que não queiram arriscar a experiência de uma problemática regeneração nossa e que. até outro país.Que vocês são colaboradores da quadrilha que nos persegue. mas ao seu sistema policial e judicial.Vocês nos querem mal. tal como nós.Que têm vocês a dizer sobre nós? . .diz um jornalista de um diário católico . . pessoalmente. privaram-nos do nosso barco e de tudo quanto nos pertencia e que tinha sido uma dádiva dos católicos de Curaçau. Colombianos? -Não aos Colombianos em si. . os Colombíanos. Além do mais. até outro país que talvez aceite o risco de nos acolher.Os Franceses . fazíamos todos os esforços para nos afastarmos. . O que interessa é que não cometemos nenhum delito em terra colombiana e que a sua nação não só nos recusa o direito de refazermos a nossa vida. para cúmulo. toda falta pode ser reparada. e estamos.Mas eu. Prenderam-nos no mar e não ao desembarcar. É inaceitável. por mar. mas também desempenha o lindo papel de perseguidora de homens e de polícia ao serviço do Governo francês.A Colômbia acha que não deve aceitar vocês no seu terrítório. .Que quer dizer com isso? ..Isso não tem importância.

uma dúzia de prostitutas mantêm a boa tradição francesa da prostituição hábil e requintada. de Saigon a Brazzaville. que vieram até ali. do Cairo ao Líbano. Na quinta-feira me chamam ao parlatório. Em um bairro especial da cidade.Sim. Diz para mim que em Baranquilla vive uma dúzia de franceses. . para sair dela. o irmão de Louis Dega.Viu o meu irmão? Conheceu-o? Relato-lhe exatamente a odisséia de Dega até o dia em que nos separamos no hospital.É você o Papillon? . . a maneira de se viver à custa dela. velha como a Terra . às quintas-feiras e aos domingos. . . . Sempre os mesmos tipos de homem.Topa? Desta vez. mas o que eu digo é que cada um faça o que quiser. Todos eles são pilantras e cafetões. com as mulheres.Obrigado.− Vamos ver se conseguimos alguma coisa. Parece-se muito com Louis Dega. Li os jornais e vim visitar você. Quanto a mim.Caros amigos. Maturette diz para mim: . de cerca de quarenta e cinco anos.a prostituição e. não sei se unidos seremos mais fortes. Faz-me saber que o irmão está nas ilhas da Salvação e que a notícia veio até ele de Marselha. As visitas realizam-se na capela. Aparece-me um homem bem vestido. os mesmos tipos de mulher. que. nada de enrolações. de Buenos Aires a Caracas. também. da Inglaterra à Austrália. exibem a sua especialidade. . em busca de fortuna. Observo-o. tentarei me livrar dessa famosa “80”.Eu sou Joseph. Uma vez no pátio. vai ser uma grande trabalheira. viu! Estamos enterrados na merda até o pescoço e.

Chega de brincadeira. A seguir. De onde. esse está se lixando para a concorrência. E há mulheres e até mesmo homens que. mesmo que o fugitivo nunca lá tenha posto os pés para pedir proteção. Todos desatam a rir. Já estou bem informado. . Têm medo de que a nossa presença na prisão da cidade venha a causar-lhes problemas e prejudicar o seu comércio florescente. Com efeito. temos de lhe dizer que não voltem.exclamam os cinco em coro.Em primeiro lugar. se algum de nós fugir.Senhor cafetão. me dá licença pra fugir? . a nossa extradição foi concedida à França. Clousiot graceja: . Agradeço a esse excelente rapaz que me demonstraria que as suas promessas eram sinceras. autorizações de estada caducadas ou falsificadas. indiretamente. A extradição é coisa certa. a Polícia irá procurá-lo nas casinhas das francesas. não há o que ter ilusões. mas os seus colegas da “corporação” receiam ter aborrecimentos se algum de nós fugir. Pensam que estou brincando.Joseph Dega me conta uma das boas: os cafetões franceses de Baranquilla estão inquietos.Pois bem. segundo os jornais. podem ter aborrecimentos sérios. Dega diz para mim ainda que está à minha disposição para o que for preciso e que virá me visitar às quintas e domingos. Um barco especial largará da Guiana Francesa para vir nos buscar e nos reconduzir ao lugar de onde viemos. meus senhores. . já bem instalados na cidade. Informa-me também de que. a nossa presença aqui preocupa os sacanas dos cafetões das nossas compatriotas.O quê? .Combinado. Tenho muitas coisas para contar. . a Polícia arrisca-se a descobrir coisas interessantes: papéis falsos. Combinado? . se forem descobertos. . Não aquele que veio me visitar. Se as putas vierem nos visitar.

tento me dar conta da capacidade e da vontade de fuga de alguns indivíduos escolhidos. Estão longe de ser uns anjinhos. Depois. ninguém fala. falsários de categoria. De vez em quando. Em poucos segundos. e. abacaxis. mamões. Há gente de todas as cores. da cor de tijolo do índio mongolóide. Estabeleço contatos. à porta da capela. Às vezes. No momento em que lhe tiram a toalha dão-lhe um soco na nuca. aconteça o que acontecer. ao negro-violeta e à cor branca pura. havendo até presos que vendem coisas de comer e de beber que lhes trazem de fora: café. estão permanentemente em alerta. A maior parte deles são como eu: como receiam ou cumprem já uma longa pena. laranjas. executados com uma rapidez surpreendente. escroques de espirito engenhoso. Assim. no nosso pátio encontra-se uma centena de presos colombianos.Como já disse. Há verdadeiros ladrões. A alimentação é suficiente. Por cima dos quatro muros deste pátio retangular. há um caminho de ronda muito bem iluminado à noite. vêem-se com uma toalha apertando sua boca deles e tapando seus olhos. pronta a ser enterrada ao mais pequeno movimento. ao mesmo tempo. tão banal na América. a vítima é despojada de tudo quanto ganhou. Do negro retinto dos senegaleses à pele cor de chá dos crioulos da Martinica. esses pequenos comerciantes são vítimas de assaltos à mão armada. etc. de cabelos lisos. essa última não está armada. a fim de colocarem-na para dormir. que a ponta de uma navalha se encosta aos seus rins ou pescoço. que matam por dinheiro. para impedi-los de gritar. uma guarita com a sua sentinela. e sentem. o comerciante arruma a mercadoria . quatro sentinelas. noite e dia. os ricos. sumos de frutos do país. Aqui. os políticos e os aventureiros alugam os serviços destes homens. mais uma no pátio.como se fechasse a loja e . se encontram de serviço. em cada canto. De um momento para outro. traficantes de narcóticos e alguns assassinos especialmente treinados mediante muitos e variados “exercícios” para o bom desempenho da profissão. especialistas em assaltos à mão armada.

de revólver em punho.Já não posso ouvir tanta besteira! Quando quiserem falar desse futuro.procura saber quem foi o autor do golpe. um deles pode reagir mal e. Escuto-os com atenção. A fatalidade de que vocês falam só se pode aceitar quando se é . O plano não me agrada muito. seríamos obrigados a matá-lo. corremos o risco de não conseguirmos intimidar os guardas. para que possa chegar às minhas mãos bem disfarçado. Surpreendidos por nós. Ate discutem os castigos que poderão ser infligidos a nós e os “tratamentos” que nos esperam. Dois ladrões colombianos vêm me visitar para me fazerem uma proposta. pois. Com a diferença de que. Digo que não.. no máximo. com uma arma desse tamanho. que dá para um pequeno posto de guarda. Daí a estarmos completamente vencidos não é muita coisa. tem de ser pequeno. O polícial-ladrão aceitaria. Seria. . Vão discutir num canto qualquer. de calibre 6. incita também os meus camaradas. avisam os cúmplices de que podem vir “trabalhar” sem perigo. não ficasse nenhum desses policiais de guarda à porta da capela. a missão de bater à porta de saída da capela. não falem na minha frente. onde eu não esteja presente. não poderiam nos impedir de alcançar a rua. então. Então. E. nesse caso. Ou. O desejo de ação não atormenta apenas a mim. chegam a admitir que o barco que vem nos buscar ainda nos encontrará na prisão. Sempre que estão de serviço em um determinado setor. necessário que alguém me passasse um revólver durante a hora da visita. Se o descobre. O revólver. no máximo. em certos dias de depressão.35.. Os meus dois visitantes conhecem todos eles e me explicam que eu teria muito pouca sorte se. de quatro a seis homens. durante a semana. sem qualquer dificuldade. Parece que há na cidade policiais que também são ladrões. tem duelo com navalha. nada mais teríamos a fazer senão nos misturar com a multidão.

Não tem problema nenhum: não terão de ir à capela. Ainda digo mais: se eu vejo essa data se aproximar sem que eu tenha feito o que quer que seja nesse sentido. de cada lado. confessem. mantendo-se de pé. O Bretão. das mãos de uma das mulheres. Os colombianos pedem que eu vá à missa no domingo pra ver como as coisas se passam. que dá para o posto da guarda é protegida por uma grade de ferro. recuso a honra: não conheço bem os homens que vão agir. eu me preocupo com todos. domingo da manhã. O chefe receberá um revólver. os quatro que estão metidos no negócio assistirão à missa. também de grande calibre. Não vão me entregar à França se eu matar um policial deles. Como a capela está lotada. e. passando-as aos dois homens. será muito mais fácil fugir. Primeiro. E. como estarei só. ainda mais atrás. A capela é retangular. mato um guarda colombiano para ganhar tempo. Propõem que seja eu o chefe da revolta. penso em todos. e o homem do ferro de engomar não querem participar nesta aventura. que deverá ír logo embora. Entre as visitas deverão estar dois homens e as armas . ouvimos a missa e. terei muito tempo à minha frente. Domingo. cerca de vinte. depois de todo mundo ter entrado. a porta da rua. durante o ofício.impotente. Os colombianos preparam outro plano. logo que ela acaba. Serão dois revólveres de grande calibre. 38 ou 45. Respondo pelos quatro franceses. os presos que têm visitas ficam na capela. Atacamos ao segundo . Tem uma coisa que eu quero dizer: quando penso em me mandar. a capela está sempre cheia de visitas e de presos. atrás da qual se encontram guardas. desta vez melhor. E seis homens não é fácil. e assim poder coordenar a ação para o domingo seguinte. No dia da missa. ao meio. quando rebento os miolos para arquitetar como vamos fugir.que as mulheres trarão escondidas entre as pernas. Por último. Vocês são impotentes? Cortaram os colhões de algum de vocês? Se assim é. em fila cerrada. há duas portas que se comunicam com os pátios. A porta principal. com o coro ao fundo. Então. os guardas deixam a grade aberta.

Passo a semana em uma grande excitação. apontarão as suas armas aos guardas que estão de pé. e dizer-lhe: . Já se encontra a par do que vai acontecer. Joseph Dega não virá à visita no domingo. O caminhão imediatamente vai se colocar em marcha mal o chefe da revolta tenha subido. Os homens armados de revólveres deverão obrigá-los a entrar na capela. pois todos os guardas são obrigados a assistir à missa. O padre e o diretor servirão de escudo para enfrentar a outra guarda. Temos ordens de abater os que não se rendam. de ângulos diferentes. os policiais colocarão as espingardas no chão. esse deverá ser o último. Os três restantes. arma verdadeiramente temível. a fim de não fugirmos no caminhão. pois é com impaciência quase incontrolável que espero pelo momento de entrar em ação. fico de acordo. Vai me arranjar um táxi falso. O posto da guarda estará vazio. para que se possa subir mais depressa. a cinquenta metros. em frente da grade da porta principal da capela.OK. Obrigado. Sairemos.Dá la orden de nos dejar passar. Tudo está acontecendo como me disse Fernando. . Outro deverá fazer a mesma coisa com o padre.sinal da campainha do menino do coro. de pé. É um 45 da Guarda Civil Colombiana. uma das mulheres de Joseph veio me ver. Na quinta-feira. fechando primeiro a grade e depois a porta de madeira. Se tudo correr como se pensa. . assim não será possível nos enganarmos. Dom Gregório. Depois de assistir ao desenrolar da missa. Fernando conseguiu arranjar um revólver por outros meios. É muito amável: diz para mim que o táxi será amarelo. que nos conduzirá a um esconderijo que ele conhece. si no te mato. Os que não se encontram armados devem ser os primeiros a sair. Fora. Eu devo apontar um facão para a garganta do diretor. encontraremos um caminhão com uma pequena escada pendurada atrás.

Que essa capela se encha e que se ouça a voz de Deus . e os outros dois à esquerda. no te baré dafio. o diretor. encostada ao antebraço direito. francês. Pego Dom Gregorio pela gola do seu belo terno e lhe digo: . ouço os outros ordenarem aos guardas que deponham as armas. Calmamente. para poderem passar despercebidos se conseguirmos alcançar a rua.Misericórdia.diz o padre. Clousiot está pronto. de olhar brilhante. vestidos como devem.. O padre grita: . Primeiro toque da campainha. Fernando diz para mim: .. Beija-me nas duas faces e parece-me um tanto emocionada. cada um já sabe o que tem que fazer. presa por um elástico e coberta pela manga da camisa.. . encostado a parede. Eu fico de pé. faz três sons distintos. que o menino do coro. ao lado de uma mulher gorda. . não se afasta de mim um milímetro sequer. depois de ter tocado muito depressa a campainha. entre. Lanço-me sobre Dom Gregorio e encosto-lhe o punhal ao pescoço enrugado. eu me dirijo para o meu lugar. abotoada no punho. segundo.Entre. É no momento da elevação quando todo mundo baixa a cabeça. Tudo corre bem.Vamos. Sem os ver. Tenho a navalha aberta. Clousiot encontra-se à minha direita. Maturette.Boa sorte. O segundo é o nosso sinal. O padre também é dominado. Dom Gregorio.Sigue y no tengas miedo. está sentado em uma cadeira. como se procurasse alguma coisa. vamos a la salida. Nessa altura.

os quatro franceses inclusive. uma de cada lado da capela.Me dá a faca.Todo contente com o triunfo. estávamos todos novamente no pátio e na mesma cela. Dom Gregorio. que dava ordens. do lado de fora da capela. mas ainda teve tempo de disparar ao acaso. de repente. Fernando caí por terra e um dos que estão armados também. dispararam sobre os dois caras que. avanço ainda um metro. A seguir. quando. juntamente com os meus camaradas. se ouvem. dez dias depois da revolta. Foi só daí a uma semana que eu soube que a revolta tinha fracassado por causa de um preso de um outro pátio. Dezesseis de nós. Dom Gregorio. que recebeu a visita de Joseph. de mais de seis metros de altura. mantinham os guardas em respeito. foi uma bela correria. a pão e água. que assistia à missa. Em menos de trinta segundos. O nosso terceiro companheiro armado acaba de ser morto. seguidos de um tiro de revólver. inclusive os colombianos. e. Mais dois tiros de espingarda. a situação modificou-se completamente. quando passava dentro do campo de tiro das sentinelas. O terceiro foi abatido alguns segundos mais tarde. tratou de prevenir as sentinelas do muro de ronda. mas os guardas levantaram-se e barram a nossa passagem com as armas. vai me transferir para o pátio. em cima de um banco. dois tiros de espingarda. o que os impede de disparar. através das grades das portas laterais. para ser agradável. pálido como um morto. ferindo uma menina. Uma vez aí. para o pátio. manda me chamar e explica que. Eu fiquei ao lado do diretor. peço que guardemos um minuto de silêncio em memória de Fernando e dos . Não serviria de nada continuar a luta. ao mesmo tempo. fomos algemados e levados para uma masmorra. Logo que a ação começou. com o êxito. de pé. Elas saltaram. Felizmente que entre eles e nós se encontram mulheres. empurro a mínha gente para a porta da rua. Graças a Joseph. diz para mim: . Mesmo assim. Entrego a ele. como curioso.

Quando a sentinela quer café. Joseph explica que ele tinha pedido dinheiro e que tinha arranjado cinco mil pesos com os cafetões. Em dois dias tenho uma corda de cerca de sete metros. Na ocasião de uma visita. se arranjar um gancho seguro. se eu arranjar um gancho atado à ponta de uma corda. chama o cafetero.seus dois amigos. cada uma grita. Joseph Dega trouxe-me uma garrafa com um soporífero . Creio ter encontrado uma falha. sem que eu dê por isso. ora! É preciso que ela durma! Primeiro vou fazer a corda. com os quais conseguiu convencer Dom Gregorio. que lhe deita um ou dois cafés na lata. pendem cordas com uma lata na ponta. não deverá ser difícil prendêlo à torre. e que faz esforços. Em poucos segundos poderei transpor o muro que dá para a rua. mortos durante a ação. É um dos suportes dos beirais fixos às portas das celas para as proteger da chuva. desesperados para não adormecer.E agora. O gancho foi relativamente fácil de encontrar. o chefe da guarda poderá se certificar de que ninguém dorme. . É isso. feita com camisas de caqui. Ora. a outra volta a chamar até que ela responda. e. os pilantras subiram na nossa consideração. ao abrigo de um sol fortíssimo. alerta! Assim. por sua vez: .Sentinela. uma das guaritas tem uma espécie de torre que avança um pouco por cima do pátio. posso observar. vou lançá-la e tentarei a minha sorte. Se uma não responde. De noite. não tem mais que puxar a corda. situadas nos quatro cantos do pátio. e não ficarei quieto esperando que o barco chegue! Deitado no balneário comum. Mas como? Vejo-a levantar-se e dar alguns passos. Com esse gesto. os movimentos das sentinelas no muro de ronda. Com efeito. O único problema é neutralizar a sentinela. Depois. Então penso comigo que. de dez em dez minutos. o que fazer? O que inventar de novo? Não é isso que me vai me obrigar a me dar por vencido. das guaritas. Dá a impressão de que está incomodada pelo calor.

Faz um calor dos diabos.muito forte. E zás!. Os meus amigos sabem que é impossível termos tempo de saltar pelo menos dois.Como queiras.Como é? . Como todos os colombianos adoram as bebidas alcoólícas e dado que o soporífero tem um ligeiro sabor de anis. Várias sentinelas provaram e agora. mas um colombiano de nome árabe. dá-lhe anis. . Meio-dia de sábado. Chegou a Hora H. mais ou menos. A nosso ver. peço que me tragam uma garrafa desta bebida.Primeiro quero provar. pedem-me: . Ali. Segundo as indicações. . porque a sentinela terá tempo mais do o que suficiente para me observar quando eu lhe der o café. só se devem tomar dez gotas. Habituo a sentinela a aceitar o café que lhe ofereço.Como vai isso? . Chamo a sentinela. não posso ter a corda nem o gancho comigo.Com anis. Por outro lado. Ela baixa a lata e eu deito-lhe três cafés de cada vez.Quer um café? . .Bem.À francesa! . Digo depois à sentinela: . Assim. em cinco minutos ficará OK. A garrafa contém. seis grandes colheres de sopa. evita que um francês passe por cúmplice e seja castigado por isso.quer um café à francesa? . sempre que lhes ofereço café. diz para mim que sobe atrás de mim.

Dois cafés. Já despejei na minha lata toda a garrafa do soporífero. Vou ao cafetero: . agora! . Acrescento ainda um pouco mais. dá alguns passos de um lado para o outro.A corda! Prepara-se para a lançar. um ateu. Os meus amigos e dois ou três colombianos. me ajude mais uma vez! Suplico que não me abandone!” Mas é inútil invocar esse Deus dos cristãos.Quer forte? . “Por favor. às vezes tão pouco compreensivo. . quando nisto o guarda se levanta.digo eu ao colombiano. sobretudo comigo. em vez de sentar. quinze. . vinte minutos! E ele sem adormecer.Quero. . espreguiçase e faz movimentos com as pernas como se marcasse passo.. O colombiano pára mesmo a tempo. . Passaram-se cinco. que estavam a par da história. seguem as reações dele tão apaixonadamente como eu. Ah! Começa a cambalear. que é melhor. com a espingarda na mão. apesar de ter bebido tudo! E a troca da guarda é à uma hora! Observo os movimentos dele.Vá. . mas à francesa. vou trazer.Espera. deito tudo na lata dele e faço-a subir. Se com isso ele não cair logo! Estou em baixo e ele me vê deitar ostensivamente o anis. A cabeça pende-lhe sobre o ombro.Quero. dez. Senta-se diante da guarita. Melhor ainda. Nada indica que esteja drogado. deixa cair a espingarda no chão. com a espingarda entre as pernas. Faltam dezoito minutos para a troca da guarda. como se estivesse sobre brasas. Então peço mentalmente socorro a Deus.

cada um em sua cela. Trazem uma maca. com a espingarda ao lado. É extraordinário que esse safado não adormeça! A sentinela volta a pegar na espingarda e. Há mais de vinte policiais no caminho de ronda. Daí a instantes. .diz Clousiot. Não. na altura em que ponho o pé na parede para começar a subir. no gancho e na sentinela desmaiada.O que fazer? . Clousiot díz-me: . O colombiano atira o gancho. para levar dali a sentinela adormecida. Tem o gancho na mão. logo uns dez colombianos se põem à minha volta misturando-me ao grupo deles. deixam-nos sair novamente para o pátio. puxa para ver se está bem seguro. de armas apontadas.Está vendo! . Surpresa! Não falta ninguém. Um guarda do quarto seguinte repara. Tenho tempo certinho de me retirar. Sabemos que a sentinela ressona a sono solto e que nada consegue acordá-la. os policiais invadem o pátio. que não se prende e volta a cair. cai como que fulminada.Cuidado! Vêm a troca de guarda. ao mesmo tempo.. Segunda chamada de controle. Nos afastamos ao longo do muro. Desta vez ficou preso. aproximando-se de mim. pois convencera-se de que tudo correria bem! Invectiva os produtos americanos. Fazem a chamada. Corre dois ou três metros e toca o sinal de alarme. Movidos por esse instinto de defesa e de camaradagem que existe entre os presos. para não ser visto. A cada nome. deixando a corda lá pendurada. Faz uma segunda tentativa. quando se abaixa. Certifico-me eu próprio e. Fecham todo mundo à chave. ninguém desapareceu. Dom Gregorio encontra-se entre eles e pede que subam a corda. cela por cela. Pelas três horas. O meu cúmplice colombiano está tão pra baixo como eu. pois o soporífero era americano. convencido de que haverá uma fuga. o interpelado deverá entrar na cela respectiva.

diz que fui eu. Dos escritórios vizinhos acorrem todos os empregados civis. Ele diz para mim: . No dia seguinte.acha que os guardas são suficientemente burros para que haja ainda outro que queira beber um café à francesa? Apesar de o momento ser bastante trágico. brigam com uma dezena de civis que querem vingar o diretor.Havemos de ver o seu caso mais tarde. Esqueceram por completo a história do soporífero. enquanto eu já estava a arquitetar outra hipótese qualquer. recomeçar! É tudo o que encontro para lhe dizer. o causador do seu longo sono. com o café à francesa. francês. o que não deixa de ser uma sorte para mim. O importante já não é o meu caso. o diretor. Dom Gregorío se coloca no meio e acaba apanhando com ele no ombro e cai por terra. Declaro com prazer tudo o que ele quer. Dom Gregorio grita por socorro. pede que eu faça uma declaração por escrito contra o oficial. O chefe do corpo da guarda quer me bater com o sabre. Ele pensa que isso significa voltar a adormecer uma sentinela. que eu tinha adormecido. Levaram Dom Gregorío para o hospital. Fica com a clavícula fraturada.Com certeza.. O único que nada sofre sou eu. já não lhes interessa. mas o do diretor e o do oficial. com um aparelho de gesso no ombro. acorda. e o seu substituto me conduz até o pátio: . Dom Gregorio manda-me chamar e confronta-me com ele. Berra tão alto que o oficial só se preocupa com ele. . No meio desta confusão há vários feridos. dos guardas e a sentinela. O outro levanta o sabre.Hombre. Salto para o centro da casa e provoco-o. Quando. . ora! O polícia dormiu durante três dias e quatro noites. O oficial. não pude deixar de rir. finalmente. Levanta-o do chão.

Na noite da ação. A seguir. Corno não há problemas com o polícial do pátio. e ele dará o turno de guarda que eu disser. Foi Clousiot quem ganhou. um dos seus amigos. com o pretexto de enviá-los à minha família por intermédio de Joseph.Alguns dias mais tarde. indicarei a ele os seus nomes. É a mim que me cabe encontrá-las e tratar com elas. se treparmos bem juntos uns aos outros. Foi mais complicado do que se podia imaginar. ele procura achar um meio de cortar a corrente. Mesmo assim. Depois. Joseph Dega propõe-se a organizar uma ação exterior. na escuridão. não hesitará em disparar. Clousiot e Maturette tiraram a sorte para saber qual dos dois partiria comigo. se houver um terceiro homem. tive de subornálo por sua vez. A preparação desta nova tentativa de fuga leva mais de um mês. dará pancadas em uma chapa de zinco e cantará a plenos pulmões. ele quer tentar a sua sorte e diz para mim que. graças a um eletricista: fechando o interruptor de um transformador situado no exterior da prisão. Receberá três mil pesos. por causa da iluminação do caminho da ronda. só resta comprar a sentinela de guarda do lado da rua e a outra que fica à porta da capela. Tenho três folhas. Ele cortará a sua grade por etapas. ao mesmo tempo tive de fazê-lo aceitar dois mil para comprar um presente a sua mulher. Encontra-o. após localizar o cara que organizava os turnos e as horas de guarda. O colombiano sabe que a sentinela só quis negociar a fuga de dois franceses e que. no pátio. O colombiano do gancho está prevenido. serraremos a grade com uma serra para metais. mas não quer intervir no negócio com as duas outras sentinelas. munida de armação. A mim. Como lhe disse que a fuga durante a noite era impossível. que já há algum tempo se faz passar por doido. . mas é tudo cuidadosamente planeado. a sentinela não poderá ver se são um ou dois caras. Em primeiro lugar fui obrigado a convencer Dom Gregorio a me dar dez mil pesos.

saltamos para o lado que não devíamos. adivinho uma mão estendida. Ainda por cima. e iluminam-nos com uma potente lanterna eléctrica. de armas apontadas. Sem fazer barulho. rastejando sob os golpes das baíonetas. Resultado: Clousiot volta a partir a perna direita e eu também não posso me levantar: quebrei os dois pés. Irão buscar as outras metades no Bairro Chinês. e lanço o gancho. havia uma outra rua só a cinco metros. Clousiot anda a pé coxando e o colombiano também. Trepo pelas grades da porta do calabozo encostado ao muro. puxo-o com força até o caminho de ronda. Está quase nu. no meio da barulheira que faz a chapa de zinco. estou no caminho de ronda em menos de três minutos. . nove metros abaixo. É de joelhos que entro na prisão. Choro de raiva. pois já assim estavam. mas não do meu. De repente. Deito muito sangue de uma ferida que tenho na cabeça. deitado de barriga para baixo. Ouve-se um barulho ensurdecedor. quando começou o barulho. Iço novamente Clousiot. à direita. deixei de puxar. Desta vez. Está muito escuro. vestidos com calças e camisas escuras. Em menos de dez minutos está serrada. O colombiano deslocou um joelho. vejo melhor. Os tiros originam de a guarda saia para a rua. Claro que. contorno o beiral.A noite sem luar chega. O sargento e os dois policiais aceitaram as metades das notas. Espero por Clousiot. Assustados pelos tiros. que está preso a uma corda de três metros. provocada por uma coronhada. pensando que já não está preso e. os policiais não querem admitir que não posso me levantar. pois veste apenas uma sunga preta. Tiros de espingarda partem dos outros postos. agarro-a e puxo. A luz se apaga. O colombiano se junta a nós. Atacamos a grade. pela fivela do cinto das calças. enquanto. Mais tarde vim sabendo que se tratava dos calcanhares. Cercam-nos. para uma rua em declive. O zinco se calou. Saímos da cela. não tive de cortá-las. Clousiot passou entre o beiral e o muro e ficou preso à chapa. a casa da mulher de Joseph Dega.

Dom Gregorio manda acabar com essa selvática pancadaria. havia organizado uma fuga coletiva com cúmplices no exterior. conclui ele. felizmente. Quando estão cheias. Durante a noite. Não foi por culpa deles que fracassamos. Estou estendido. Conta que eu era o chefe da revolta da igreja. Annie veio me perguntar o que teria que fazer. O mais feroz é justamente o sargento a quem paguei para pôr de guarda as duas sentinelas cúmplices. o médico meteos em água morna salgada e aplica sanguessugas em mim. que me serve de cama. para receberem a outra metade das notas. Joseph veio me ver. Um jornalista com falta de assunto publica um artigo a meu respeito. acompanhado da sua mulher. Costuram o ferimento da minha cabeça com seis pontos. essa palavra mágica paralisa todo mundo. no hospital. Ameaça-os de os levar a tribunal. “Esperemos que a França venha a nos livrar. que tinha “envenenado” uma sentinela e que. os pés levantados e apoiados em uma tira de pano esticada. do seu gangster número um”. Há uma semana que me colocam para passear no pátio em um carrinho de mão de ferro.Os tiros acordaram Dom Gregorio. estava de serviço. O sargento e os dois guardas se apresentaram separadamente. Sem ele. as sanguessugas desprendem-se sozinhas e. põem no gesso a perna de Clousiot. teriam acabado conosco à coronhada e com as baionetas. já que a luz foi cortada no transformador. o mais depressa possível. presa a dois pedaços de madeira fixos . vermelhos e pretos de sangue e extraordinariamente inchados. para as fazerem de novo largar o sangue. O joelho do colombiano foi ligado e tratado por um curandeiro preso. por último. Disse a ela que pagasse. Annie. como os pés me incharam a ponto de ficarem do tamanho da minha cabeça. metem-nas em vinagre. se eles nos ferirem gravemente. No dia seguinte. e dormia no seu gabinete. uma vez que eles tinham cumprido o combinado. que.

talvez. por exemplo: “Se eu o matar. Durante a visita. se tenho os pés quebrados? Joseph está desesperado. Mas como. Temos dezoito dias para jogar a última cartada. O meu caso emociona toda a colônia. fazer que homens pagos por Joseph me raptem. falta a ninguém?” Estou com a neura. estou mais amarelo que um limão. não faria. nesta manhã do dia 13 de Outubro. Estamos em 12 de Outubro. Sinto-me reconfortado por saber que estes homens e mulheres estão comigo moralmente. para o fim do mês. Ficarei para sempre com os pés chatos. Quinze dias depois de tê-los quebrado. enormes. com uma escolta de guardas franceses. estou à sombra. tiraram uma radiografia. verdadeiramente. É a única posição possível para não sofrer muito. Abandonei o projeto de matar um polícial colombiano. Penso que pode ter um pai ou uma mãe a quem ajude. O jornal de hoje anuncia.verticalmente aos braços do carro de mão. meio deitado . inchados e congestionados de sangue coalhado. que deve provocar icterícia. a chegada do barco que vem nos buscar. Dom Gregorio vem me ver no pátio. Chama-se Mana. não posso decidir suprimir a vida de um homem que não me fez mal algum. Os meus pés. não podem se apoiar em nada e desta maneira sofro um pouco menos. Aproxima-se o dia em que serei entregue às autoridades francesas. No outro dia. Tenho os dois calcanhares quebrados. Sorrio com a idéia de que seria preciso encontrar um polícial mau e sem família. ou mesmo mulher e filhos. Na verdade. diz o jornal. eles já se encontram meio desinchados. Se me levarem para o hospital. dia 14. se eu comer. poderei. Poderia perguntar a ele. conta que todos os franceses do Bairro Chinês estão consternados por me verem lutar tanto pela minha liberdade. Olho para um monte de pedra de ácido cítrico.

Uma vez ali. Trouxeram cigarros e doces pra mim. transformou verdadeiramente esse dia amargo em uma tarde de sol. Annie. Nunca poderei exprimir por palavras quanto me foi salutar a solidariedade desta gente. acompanhada da mulher de um corso.Dou-lhe dez mil pesos. e voltei à prisão duas horas depois. que arriscou a sua liberdade e a sua posição para me ajudar a fugir. mais higiênica. com as suas palavras afetuosas. durante a minha estada na prisão. tenho a impressão de que não o deixarão ficar no hospital por causa deste artigo no jornal.no carro de mão. Mas uma frase de Annie me deu uma idéia.E porque não? Porque não faria ir pelos ares essa velha prisão? Prestaria um serviço a todos os colombianos. se me colocar no hospital. Sem mais rodeios. Enquanto conversava. ataco logo: . nem quanto devo a Joseph Dega. . . No entanto. O destino foi bem cruel com você. A coisa mais bela. Nem sequer saí da maca. francês. você fez tudo o que era humanamente possível para conseguir a liberdade. após me fazerem um exame minucioso e uma análise da urina. mas porque faz pena vê-lo lutar assim em vão pela sua liberdade. a manifestação da sua pura amizade.Vou tentar. fizeram um grande bem pra mim. nem sequer pus pé no chão. Estamos no dia 19 e é quinta-feira. Tiraram-me da ambulância em uma maca. A mulher de Joseph. Agora. talvez se decidam a construir uma nova. diz pra mim: -Meu caro Papillon. Uma hora depois. com toda a imprudência. com os pés no ar. Eles terão medo. Se a explodo. Não pelos dez mil pesos. só lhe resta fazer ir isso pelos ares! . Estas mulheres. o médico me manda para o hospital. veio me visitar.

mande-me o cartucho. e cinco mil se acontecer qualquer coisa. faça o impossível para que alguém me traga. Peço a Dom Gregorio que venha me ver. Ele que esteja na rua atrás da Calle Medellin.4shared. então é o fim de tudo. . 26 27 fio coberto de pólvora ou embebido em qualquer substância combustível. 22. um cartucho de dinamite. que lhe ofereço de todo o coração. Se não. uma carga explosiva (Nota da revisora: http://amandikaloka.com ) . um detonador e um rastilho26 Bickford. todos os dias. Receberá quinhentos pesos por dia.O que você está tramando? . faltam só oito dias para você me deixar. . para que ele os envie à minha família. . para comunicar fogo a algo. Joseph lá estava. (Nota da revisora: http :/ / amand ikalo ka. Às cinco horas levam-me nos braços até a capela.Conte comigo .É por isso que mandei chamá-lo. madeiras etc. se não acontecer nada. das oito da manhã às seis da tarde. Queira aceitar três mil. Se o falso táxi for. e o resto é com ele. recomendo a Annie: . Pela minha parte.diz Joseph.Hombre.Diga a Joseph que venha me ver no domingo. Através do buraco aberto pela dinamite. acabou-se a esperança. de quem me despeço para sempre. Quero entregá-los ao meu amigo antes de partir. Ele aparece logo. . chegarei ao táxi nas costas de um brutamontes colombiano. Digo que quero rezar sozinho e me conduzem até lá.Ao beijar estas encantadoras jovens. ger.Vou saltar o muro da prisão em pleno dia.com) ferramenta metálica para lavrar pedras. Prometa cinco mil pesos ao falso táxi em questão.Escute.4shared. vou ver se arranjo uma furadeira e três escopros27. . Tem em seu poder quinze mil pesos que me pertencem. na quinta-feira. No domingo.

Por dois mil pesos quero uma furadeira de três velocidades e seis brocas. na troca de guarda. . durante vinte ou trinta metros. já está! Atuo como se tivesse a certeza de que Joseph irá se sair bem. Na segunda-feira. . se faz de condutor do meu carro de mão. de manhã cedo.Sargento Lopez.Combinado. até o táxi. Falo-lhe do meu projeto e pergunto-lhe se ele se sente capaz de me levar de cavalinho. tenho que lhe falar. e Maturette. terça-feira. o brutamontes colombiano. que há no pátio. com um rolo de fita adesiva. Prepare os dois mil pesos. Agradecia que você me desse o dinheiro hoje. Guarda três mil.Tome quinhentos pesos. Compromete-se formalmente. . vai buscar o sargento a quem tinha dado os três mil pesos. . à uma hora. Pablo. que. vou para o balneário. à uma hora. o que me bateu selvagemente na ocasião da última fuga. . Uma vez no carro de mão. Duas de meio centímetro. Por aqui.O que quer? .Terá tudo amanhã. duas de um centímetro e duas de centímetro e meio de espessura. para que eu tenha tempo de colá-los e de entregá-los na quinta-feira ao meu amigo. juntamente com Clousiot. um caixote de papéis que esvaziam na altura da troca de guarda. Na terça-feira.por ter sempre me protegido dos maus tratamentos dos guardas. . chamo o colombiano até a um canto retirado. . trata-se do tipo que estava comigo da última vez. doze mil pesos. Volta para me entregar. ainda cortados ao meio.Não tenho dinheiro para comprar isso tudo. tenho as coisas comigo: estão dentro de um caixote de lixo vazio. vai buscá-las e as esconde.

um salsichão. É um velho francês. Se forem dois. .O “fogo de artifício” é para amanhã. esse lado do pátio está à sombra. É preciso fazer o buraco mesmo por baixo da torre principal. Fiquei tão surpreendido com o pedido do pão que ainda estou cheio de suores frios. fósforos e duas salsichas. Trate de me arranjar os dois homens. dou-lhe um maço de cigarros. Diz para mim: . Livre. deste importuno polícial. salsichas defumadas.Ciao. a alguns metros de nós. Ciao. a toda a velocidade. É preciso que um dos trabalhadores do cobre se ponha a malhar em uma folha de cobre. Em um grande saco de papel. às dez horas. . . Não faltava mais nada! . um cara legal.Na quinta-feira. me chamam.O motorista é um velho peruano.Mas pode ouvir. . O polícial de cima não pode vê-lo. . a descoberto.Tome dois mil pesos para o táxi. Quase no fim da hora da visita. De manhã. Está aqui tudo. vá comprá-lo! Tome lá cinco pesos. . escapei na boa! Que idéia oferecer salsichas a um tipo destes! O carrinho de mão se afasta.Previ isso. Quinhentos pesos por dia. puseram cigarros. cheio de rugas. Não esquenta. Pablo. Enquanto o guarda da entrada revista o pacote. um pacote de manteiga e um frasco de óleo. . porque esse pão nem sequer vai chegar para nós os seis.Me dá um pedaço de pão. tanto melhor. Joseph não aparece. encostando-a ao muro.Não. para que o pão não chame a atenção. dia 26.Dentro deste pão está tudo o que pediu. fósforos. que vem da parte de Joseph. . Darei quinhentos pesos a cada um.

francés! essa é a sua última façanha.Arranjou-os. e só nesse momento é que eu admito que. Pablo previne um grupo de colombianos. mesmo que saiam depois de nós. . dentro de alguns instantes haverá um buraco no muro. .Se quiserem fugir. Assim. tão grandes que se vê a rua. o buraco fica pronto. É bom que também queiram fugir. com o seu carro de mão. Logicamente. O cartucho é calçado com barro. Clousiot e Maturette. falando com os franceses. Graças às marteladas sobre o cobre e ao óleo que um ajudante deita na broca. Vamos embora. Dom Gregorio não sabe o que há-de fazer. creio eu. Você. porque os policiais vão correr e disparar sobre os últimos. A sentinela não poderá perceber o barulho da broca. a sentinela não desconfia de nada. chegarão primeiro ao táxi. O torreão e o polícia caíram cá em baixo. Numa hora. A desordem que se segue à explosão é indescritível. mas nenhuma é suficientemente larga para que se possa passar. vai me esconder um pouco da sentinela que está no outro lado. . a explosão abrirá um buraco. O cartucho é metido no buraco e o detonador. O muro abre grandes fendas por todos os lados. tem que ficar um tanto afastado do posto avançado. e eu atravessarei o buraco e chegarei ao táxi nas costas de Pablo. Uma explosão dos diabos faz tremer o quartel.Dois amigos meus vão martelar o cobre sem parar. estou perdido. na realidade. Há mais de cinquenta policiais no pátio. A sentinela cairá. O meu destino é voltar para Caiena. Não se abriu nenhuma brecha suficientemente grande. é fixado. Acendemos o rastilho. com vinte centímetros de rastilho.Bueno. Se tudo correr bem. . No momento de acender o rastilho. Os outros que se virem. juntamente com a guarita.

Felizmente não aconteceu nada à sentinela que caiu do muro de ronda. vestidos de branco. impressões digitais e toda a besteirada. preocupa-se com o estado e. fotografias. declaro. uma pequena cerimônia oficial: cada um de nós deve ser identificado e reconhecido. até que os pedreiros tenham reparado as zonas destruídas. que fiz tudo sozinho. o cônsul francês se aproxima para assinar um documento perante o juiz do distrito. Todos os presentes se admiram da maneira afável como somos tratados pelos guardas franceses. Nem animosidade nem palavras duras. de modo que todos ouçam. Regresso ao degredo Três dias mais tarde. que estavam lá há mais tempo do que nós. . O chefe da escolta. Verificadas as nossas identidades. diz para mim que a bordo serei tratado porque há um bom enfermeiro no grupo que veio cuidar de nós. que é a pessoa encarregada de nos entregar oficialmente à França. Os três. às onze da manhã. Eles trouxeram as nossas fichas antropométricas. para evitar aborrecimentos aos outros. observando os meus pés. seis no pátio da prisão e seis na rua montarão uma vigilância permanente. falam e brincam com eles como velhos amigos. conhecem vários guardas. o comandante Boural. Como não pode mandar bater em um homem ferido. eu. deitado em um carro de mão. no dia 30 de Outubro. Antes da partida. os doze guardas do degredo. Seis guardas diante do muro fendido. vêm tomar conta de nós.O chefe dos guardas está louco de raiva.

o regresso ao degredo. que acabamos de deixar. tudo isso eu encontrei 28 Barras d e ferro ao lo ng o d o s quais estão lig adas as correntes a que se prendem os pés dos preso s castig ad o s. Não passamos muito longe de Curaçau. Uma vez no porto. não pode apagar da minha memória os momentos inesquecíveis que acabo de viver. A notar um único incidente: o barco foi obrigado colocar carvão em Trinidad. foi penosa. encontra-se a incomparável família Bowen. A poucos quilômetros deste porto de Trinidad. acabaram lamentavelmente. um oficial da marinha inglesa exigiu que nos tirassem as correntes. o que implicaria a minha condução para terra.A viagem. que datam do degredo de Toulon. sobretudo por causa do calor sufocante e pelo incômodo causado pelas duas barras de justiça28. Mas. Com esse gesto. com todas as suas amargas consequências. Aproveitei-me deste incidente para esbofetear um oficial inspetor inglês. Regressar ao degredo é castigo muito grande. tudo o que distingue essa idade privilegiada. realmente o meu destino é regressar ao degredo! Isso é que é azar! Não há dúvida de que estes onze meses de fuga. Toda a simplicidade de que são capazes as crianças. natural e espontâneo que pode haver. terra do grande homem que é o bispo deste país. no fundo do porão desse velho bote. a sua maneira ingênua de ver as coisas. comparado com o que teria de sofrer aqui. Com certeza também passamos pelo território dos índios Guajiros. de tão variados e duros combates. Irénée de Bruyne. . O oficial diz para mim: .Não o prendo e não irá para terra pelo grave delito que acaba de cometer. procurava fazer-me prender. apesar do fracasso estrondoso dessas múltiplas aventuras. Parece que é proibido amarrar homens a bordo. Não. onde conheci o amor mais apaixonante e puro. Estou ferrado. apesar de tudo.

seiscentos homens estão formados em grupos. não lamento ter fugido. Uma multidão no cais. Vê-se que o seu desgosto é verdadeiro. ricos de compreensão. Sente-se que esperam com curiosidade os homens que não tiveram medo de ir tão longe. Os meus camaradas não dizem palavra.O ferido é o Papillon. Não. já que a minha alma se enriqueceu pelo contato com pessoas tão excepcionais. Ouço as pessoas dizerem: . São nove horas da manhã. mesmo assim. a minha fuga é uma vitória. se expôs tanto por minha causa! Só por ter conhecido essa gente valeu a pena ter fugido. E aqueles leprosos da ilha dos Pombos! Aqueles miseráveis forçados. Paramos no meio da cerca. e volto a entrar. Os guardas estão contentes por chegarem. Volto a ver o estuário.nestes índios indomáveis. tiveram força e nobreza suficiente para nos ajudarem! E o cônsul belga: a sua espontânea bondade! Até mesmo Joseph Dega. O sol dos trópicos já começou a queimar essa terra. que. aquele o Maturette. O mar esteve mau durante a viagem e muitos deles suspiram agora aliviados. agora devagar. diante das suas barracas. Na cerca da penitenciária. O primeiro que reconheço é François Sierra. isso constitui uma distração para essa gente. atingidos por essa horrível doença e que. Estamos na ponte do Mana. O comandante da penitenciária pega em um altifalante: . Há guardas junto de cada grupo. de amor. 16 de Novembro de 1934. sem se esconder dos outros. Está debruçado a uma janela da enfermaria e me olha. Mesmo fracassada. sem me conhecer. Chora abertamente. Como chegamos em um domingo. por onde tinha saído tão depressa. de simplicidade e de pureza. Eis o Maroni e as suas águas lamacentas. esse é o Clousiot.

. não há nada a fazer .diz o guarda.Não. levem estes homens para a seção disciplinar. .Eis o enfermeiro . José e.Estou doente. Se nos mandassem para o hospital. peço que tratem dos meus pés. . Papi? . Mas vou tentar. as perspectivas são igualmente más. no lado mais bem vigiado da prisão. depois do que já fez. verifica o gesso de Clousiot e vai-se embora. nos encontramos em uma cela especial.Vou ver o que posso fazer. François Síerra chega acompanhado do seu guarda. ao me dar outra massagem.diz para mim ele no dia seguinte. Espero que tenham compreendido a lição. Todos os países os prendem. o melhor é ficarem quietos e se portarem bem.Põem. Guardas. o internamento para o resto da vida nas ilhas da Salvação. O que é que espera esses homens? Uma pesada pena na reclusão da ilha de S. põe pomada..Quer que eu o transfira para uma sala comum? De noite. ainda inchados. .Degredados: podem agora verificar a inutilidade da fuga. No que se refere a Clousiot. Tentamos o golpe. Mal chego. Clousiot diz que o gesso da perna dói. para os entregarem à França. Portanto. . Não pudemos dizer nada um ao outro por causa dos guardas. Ninguém quer vocês. Foi o que ganharam estes homens em terem fugido. Ele me dá massagens nos pés. creio que será quase impossível. Alguns minutos depois. .Como vai. mas os seus olhos exprimiam tanta doçura que fiquei realmente perturbado. mas.. quero ir para o hospital. põem a barra nos seus pés? . depois. .

me levaram para a sala comum. tanto no passado como no presente. Quai des Orfèvres. Neste momento. Mas. Ainda não sei como vai ser. Só serei julgado daqui a três meses. estar isolado deve ser horrível para você. e rumo. Essa minha dívida para com o trio Polein . o meu primeiro objetivo é tratar dos pés. à alegria de poder vir a ser de novo um homem. uma grande etiqueta. . mas é como se já o tivesse feito. Terá a barra. em Paris (Seine). Um mês para poder andar. mas não estará só. E como não posso andar. Comissário Divisionário Benoit. Agora.que não poderei esquecer. Chegarei vestido de empregado dos Wagons-Lits Cook. no mar. o isolamento é agora mais difícil de suportar do que antes. com um belo boné da companhia na cabeça.Então é melhor que você vá para a sala comum. meus senhores! Direção: Honduras Britânicas. vagando. Há aqui quarenta homens à espera do conselho de guerra. ninguém vai botar as mãos em mim. Ah! Eis-me novamente no “caminho da podridão”. o negócio não pode falhar. já não preciso entregá-la aos policiais que estão à porta da judiciária. a masmorra parece ainda pior do que antigamente. Eu próprio a carregarei até a sala dos relatórios e. Quanto ao procurador. Tenho que começar a andar o mais depressa possível. Foi um grande alívio ter encontrado a solução. terei tempo para lhe arrancar a língua. Na mala. como terei calculado as coisas para que o relógio só funcione depois de ter saído. rumo à liberdade.. 36. Uns acusados de roubo. depressa eu escapara dela. Ontem.procurador . E em três meses passam-se muitas coisas. um mês para pôr tudo em ordem e. desta vez. três dias após o nosso regresso. à vingança. também. Eu a arrancarei aos poucos. Sim. Encontro-me em um tal estado de espírito que nem sequer preciso fechar os olhos para divagar. No entanto. essa língua prostituída. Quanto à tal mala.policiais .Combinado. boa noite. .

ter que trabalhar que nem um besta para um patrão que dá o dinheiro só para você não rebentar de fome? Não entendo. Com os meus dez anos de degredo. que tem mais de quinze metros de comprimento. de graça. Todos vêm me ver. de canibalismo! Estamos vinte de cada lado de um grande madeiro. a Zoraima. passear. as contas de luz e de telefone. para que eu conte a fuga a eles. . além das preocupações da vida. e. e não encontra melhor solução do que deixar tudo isso. o sol. e até as pérolas das ostras são suas. no meio de um bando de simpáticos nudistas.outros de pilhagem. para ir aonde. De qualquer modo. seja bem- . não consigo sequer compreendê-lo. para passar por fanfarrão. Durante o dia. tem duas belas meninas. meu caro? .Tava à procura de quê. diz para mim? Para ter que atravessar as ruas correndo pra não ser atropelado. vive pelado no meio da natureza. para ter de pagar aluguel. até. Às seis da manhã. tiram-nos esse grosso anel. que o perseguem! É verdade que veio há pouco tempo da da França e ainda não teve tempo para sentir irem embora as suas faculdades físicas e morais.continua o tipo. iniciativa de incêndio. tentativa de assassinato. come. tentativa de fuga e. caça. cinemas? Da eletricidade. presos à mesma barra de ferro. ligam o pé esquerdo de cada um dos homens à barra comum por meio de uma argola de ferro. tem que ser obrigado a escapar de todos os policiais da Terra. a areia quente. assassinato. Às seis da tarde. tudo isso em uma área de dois metros de largura. bebe. jogar damas e falar.De bondes. mais conhecida por “corredor”. alfaiate. onde. elevadores. Durante o dia. tem o mar. . não tenho tempo de me aborrecer. ora! Você estava no céu e voltou voluntariamente para o inferno.diz um parisiense que escutava a narrativa. em pequenos grupos. Todos me chamam de maluco quando digo que abandonei voluntariamente a tribo dos Guajiros. podemos sentar. com a sua alta tensão para acionar a cadeira eléctrica? Ou queria tomar um banho no lago da Praça Pigalle? Como é isso. se quiser um carro. a todo o comprimento da sala. a Lali. meu caro? .

faz o que pensou e volta calmamente para o seu lugar. Por causa da agressão aos guardas. não abre o bico. Só disse a verdade. amigos? Estão todos de acordo. juiz da instrução. foram aplicadas aos três pesadas sanções: suspensão dos seis meses de férias na Europa e suspensão do suplemento colonial do salário durante um ano. Assim. . diz para nós que fará tudo para que eu e Clousiot apanhemos cinco anos e Maturette três. a intenção de recomeçar. Estão muito contentes por nos terem aqui e esperam vir nos pegar em um local em que estejam de serviço. separa as duas filas. e como tem. etc. como a da jangada que nós próprios teríamos construído. que se passaram muito depressa. a troco de uns níqueis. Na semana passada. Pode-se dizer que o nosso encontro não foi dos mais cordiais! Contamos estas ameaças. Devido à promiscuidade. começo a andar um pouco.vindo entre nós. cúmplice indireto. vi os três guardas do hospital que espancamos e desarmamos. de noite. não? Todos estão de acordo e eu agradeço. esquecendo o papel desempenhado por Maturette. depois da nossa fuga. é muito difícil não percebermos que cada um tem o seu “governo”. Basta que durante o dia. para que tomem nota delas. Cheguei há três semanas. Não é verdade. O árabe se portou melhor. O árabe. com certeza. tendo agora o cuidado de fechar bem a argola. como todo mundo está presa à barra de justiça comum. É que. De noite. durante a instrução do processo. é fácil matar alguém impunemente. conte conosco para lhe ajudar. Faço as primeiras tentativas. Apoiando-me na barra que. Ficamos mal vistos por termos contado histórias inverossímeis. sem exageros. o interessado se desprende. com o seu grande madeira. O capitão. Percebo que são homens temíveis. na instrução do processo. o chaveiro árabe aceite não fechar como se deve uma argola. insistiu bastante para saber quem tinha nos arranjado o barco.

Receio bem que a ameaça se cumpra. Estou furioso comigo mesmo por não ter juntado ao meu “governo” uma ou duas pontas das setas envenenadas. Todos... não só aos pés. Ando cada vez melhor. só conversam entre si. Não corremos o risco de sermos assassinados para nos roubarem.E já que te chamam Papillon. alguns até têm por nós certa admiração. como ao moral. graças a uma pequena garrafa que Sierra me deixa. É um descanso nos sentirmos em segurança. Um árabe lançado às formigas Nesta sala. nos respeitam. Sempre colados um ao outro. Muitas vezes. e em voz tão . É tão bom ter um amigo na vida! Reparei que essa longa fuga nos proporcionou um prestígio indiscutível junto de todos os forçados. A grande maioria não aceitaria a coisa. François Sierra vem me dar massagens com óleo de cânfora.. que essa longa imobilidade atrofiou. teria podido talvez dar tudo por tudo na seção disciplinar. Se as tivesse comigo. pode ter a certeza de que farei os possíveis por te cortar as asas. Massagens e visitas que me fazem muito bem. mas também as pernas. de modo que tão dePressa não serás capaz de voar!. com certeza. acham-nos capazes de fazer seja o que for. Tenho a certeza de que estamos em segurança no meio destes homens. se encontram dois indivíduos taciturnos. os homens oferecem-se para me massagear não só os pés. Todos os dias faço progressos. Pelo fato de nós termos espancado os guardas. Cada dia que passa ando um pouco mais. que não falam com ninguém. sem exceção. todas as manhãs e todas as tardes. pelo que os culpados seriam mortos. Mais de dois meses à espera do julgamento.

O meu amigo e eu decidimos. se tudo correr mal. infelizmente. .Ah! Sim. a seguir à baía Sparouine.É o meu melhor amigo. Um dia. . .E onde se passou isso? . . Senta-se junto do amigo..No quilômetro 42. no caso de sermos guilhotinados.François Sierra é seu amigo? .Lançamos um idiota para as formigas carnívoras. Digo porque eles. que comeram ele todinho.Qual herança? . Talvez ele possa ajudar em uma nova fuga. Ofereço a ele também um cigarro americano. virado para mim. no campo da morte. porque é que estão nesta sala comum? .Vocês pesam que vão ser condenados à morte? . Ele me agradece e pergunta: . nós lhe enviaremos a nossa herança por seu intermédio. é possível! O que vocês fizeram? . Há poucas possibilidades de escapar. O seu inseparável companheiro aproxima-se: é um cara de Toulouse.. Fomos apanhados em flagrante. por conseguinte.Se é assim tão certo que vão ser condenados à morte. Entregaremos ele. .baixa que ninguém ouve nada.Acho que eles têm medo de que nos suicidemos se ficarmos sozinhos em uma cela. a Sierra para que ele lhe dê. .Talvez um dia.É quase certo. têm provas indiscutíveis. . ofereço a um deles um cigarro americano de um maço que Sierra me trouxe. dar a você o nosso “governo”.

E. com o chicote entre as pernas.diz o cara de Toulouse. Para o cúmulo. fazia barulho com os maxilares para nfazê-los inveja. Cada estere29 de madeira. No dia seguinte. .diz o recém-chegado -. Então.Nunca pedimos a opinião de ninguém . A situação piorou. Os guardas. com três mil francos cada um. Quando comia. Felizmente que ele 29 medida de volume para madeiras. destinado à nossa fuga. Os forçados são obrigados a cortar ali. “Quanto mais aquilo durava.com) . metiam-nos na masmorra. Frequentemente. um tormento sem fim. é preciso estar a par de toda a história. é marcado com tinta vermelha. verde ou amarela: depende dos dias. mas gostaria de saber o que você pensa de nós. Cada um de nós possuía um “governo”. nos organizamos em equipes de dois. sem nada para comer. tinham-nos posto sob de um vigilante especial. Um dia. . ao fim da tarde. a quarenta e dois quilômetros de São Lourenço. Em uma palavra. correspondente a 1 metro cúbico. decidimos comprar o árabe. todos os dias. mais o estere do dia. depois de verificado. É preciso que cada pilha seja de madeira realmente rija para que eles aceitem o trabalho. (Nota da revisora: http://amandikaloka. do princípio ao fim. que não era guarda. Não parava de nos insultar. Arrebentávamos como cães. a coisa não nos saía bem. à noite. vêm verificar se cumpriram ou não o seu dever. é um campo florestal. sentava-se comodamente. Chegava conosco ao local de trabalho. mesmo um idiota que fosse? Para dar a minha opinião.O campo do quilômetro 42. acompanhados dos chaveiros árabes. mas sim um árabe. . têm de se apresentar com a madeira que cortaram e empilharam. apesar dos nossos esforços.Que quer que eu diga se nada sei? Se fez bem ou mal em lançar um homem vivo às formigas.Vou contar ela pra você . obrigavam-nos a fazer o trabalho da véspera. um metro cúbico de madeira rija. A fim de se conseguir maior rendimento.4shared.. mais fracos estávamos e mais perdíamos a capacidade para trabalhar.

eu denunciar vocês. Foi horrível. essa correria durou dois dias. apareceu-nos à frente: “. os esteres já verificados a fim de continuarmos a operação. “. ganhou de nós perto de dois mil francos. De súbito. nos levantamos e .Ah! Ah! você roubar sempre madeira e não pagar!. À tarde. e chicoteados também pelo árabe. Cortou o ramo onde estava o ninho e esborrachou-o em cima de nós. tivemos de desmanchar os nossos esteres a toda a pressa e completar o que tínhamos desfalcado. ele nos seguiu. E então. pertencentes a umas moscas cuja picada parece que queima. tratamos de procurar.. como fazíamos com o árabe.” Continuamos a recusar. Se você não dar quinhentos francos a mim. no meio do mato. recusamos. Caíamos. Fazíamos assim. Papillon. com frequência. mas agora acompanhado dos guardas. nos deixamos ficar deitados no chão. aos cinquenta e aos cem. porém. para se certificar se roubávamos madeira. o nosso metro cúbico do dia. gênero ninho de vespas selvagens. Loucos de dor. uma vez que nos tinha arrancado tanto dinheiro. pensando que ele não nos denunciaria. Por fim. aparece de novo. “Como conseguimos ficar em dia com o trabalho. por exemplo. mas o árabe fazia-nos erguer a pontapé e à chicotada. Mas o árabe não desiste: volta no outro dia. levaram-nos até os esteres de onde tínhamos tirado a madeira e. passo a passo.Ou você pagar ou essa noite você ir parar na masmorra.. às escondidas. Um dia. Desse modo.” Julgando que aquilo não passava de uma ameaça para nos amedrontar. perseguidos e chicoteados por aqueles selvagens.sempre julgou que só tínhamos um “governo”. já não podendo mais. sem perceber. E você sabe como é que ele nos pôs de pé? Agarrou em um desses ninhos. sem comer nem beber. mas que haviam escapado da tinta. deixava-nos ir roubar madeira dos esteres que tinham sido verificados na véspera. tiraram o árabe de perto. o sistema era fácil: por cinquenta francos. Depois de terem nos obrigado a tirar a roupa.

30 Fêm ea d o vead o. as formigas trepavam pelo corpo daquele sacana. aos milhares. Enchemoslhe a boca de erva. devorado pelas moscas. os outros presos decidiram nos ajudar. com os pés e as mãos ligados com as cordas que serviam para amarrar a madeira. usando das formigas. Perdi o olho esquerdo. íamos ganhando forças. Já viu formigas carnívoras. um belo dia. encontramos em uma moita um enorme ninho de formigas carnívoras que devoravam uma corça30 de razoável tamanho. “Como o idiota continuava fazendo as rondas. (No ta d a revisora: http :/ / am and ikalo ka.4shared .. E olha que essas moscas picam ainda de maneira mais atroz que as vespas. É inútil dizer o que sofremos. Quando procurávamos madeira dura. E foi por um acaso que nos assaltou a idéia de nos vingarmos daquele filho de uma puta. você sabe quanto é doloroso uma picada de vespa. Mesmo esfregando-as com urina. as picadas doeram-nos durante três dias. Comíamos muito.. Pouco a pouco. nunca vi. a pão e água.corremos que nem doido. Nós os despimos e o amarramos numa árvore. Só vi formigas pretas e grandes. “Deixaram-nos dez dias em uma masmorra. dando. E logo uma idéia nos assaltou. Com o machado. As formigas só atacaram depois de termos remexido. demos com o cabo de um machado nos cornos dele e o arrastámos até o ninho das formigas. Quando voltaram a nos mandar pro campo. Papillon? . mas lá conseguíamos nos safar. no buraco onde se abrigavam. no chão. “Não demorou muito.com) . cada um deles. o tanto que nós dois tínhamos de amontoar. Isso representava quase um estere por dia. Avançávamos com sacrifício. Meia hora depois. um pouco de madeira. fizemos-lhe várias feridas em diferentes partes do corpo.Não. nós o amordaçamos para não gritar e ficamos à espera. Imagina você cinquenta ou sessenta picadas. com um pau. em arco. sem qualquer tratamento.

Se nós sofremos com as moscas.Esperemos que não herde nada de vocês. mal chegamos. Claro que o idiota era procurado por toda a parte. suspeitavam que nós estaríamos envolvidos no seu desaparecimento. Ainda não tinham descoberto os vestígios do árabe quando um guarda reparou que abríamos um buraco: ele nos seguira sem que nós percebêssemos e viu o que fazíamos. Ao fim de vinte e quatro horas já não tinha olhos. e. “Uma manhã. pouco a pouco. no momento era que o puxávamos para a cova (não podíamos agarrá-lo sem que as formigas nos mordessem até sangrar). “Reconheço que fomos desumanos na nossa vingança. fomos surpreendidos por três chaveiros árabes e por dois guardas. Do contrário. . desamarramos o árabe. ainda cheio de formigas. “E é tudo! Oficialmente.. tal como os guardas. afirmou que ele não tinha nenhuma ferida mortal. apoiada no relatório do médico legista. poderíamos ter esperança de salvar a cabeça. pelo que garantia que o fizemos devorar vivo. não há nada a fazer. mas quase um esqueleto. esperavam pacientemente que o enterrássemos. . A acusação. Só não morremos por milagre. temos poucas esperanças. mas é preciso não esquecer o que ele nos fez. “O nosso guarda defensor (os guardas improvisam-se em advogados) informounos de que se a nossa tese fosse aceita. Arrancam microscópicos bocados de carne e levam-nos para o ninho. todos os dias. dissemos que o matamos primeiro e o demos a seguir às formigas. É o que de todo o coração desejo. Francamente.Aquelas são minúsculas e vermelhas como sangue. Bem escondidos. É por isso que o meu amigo e eu o escolhemos como herdeiro sem haver dito nada dos nossos propósitos. íamos cavando. e os outros porta-chaves árabes. imagina você o que ele não sofreu. descarnado vivo por milhares de formigas. A sua agonia durou dois dias completos e uma manhã. “Numa outra moita. Foi o que nos ferrou. uma cova para enterrarmos os restos.

que arriscam a cabeça são vocês e os irmãos Graville. O golpe do tal ninho de vespas. não vai falar nada? “ . Por outro lado. é porque um dia tivemos oportunidade de fugirmos. os dois infelizes levantam-se. Saio ganhando!” Quanto aos homens da sala. fazendo uma revolta. particularmente. Ora de todos os que estão aqui.Ouçam. Se forem guilhotinados. Enquanto a agonia dele durou sessenta horas.. . sempre. os únicos. reações diferentes. . Não se esqueçam. Vocês fizeram bem em retribuir com juros o que ele fez. à nossa atitude de não falarmos com ninguém. rapazes. e regressam ao silêncio que acabam de quebrar por minha causa.A maioria pensa que fizemos bem em matá-lo.Vou dar a minha opinião. cada situação provoca. trinta segundos é o tempo que levam para me amarrar.Acendo um cigarro. não sei se têm razão: vocês poderiam ter julgado que uma revolta. e todos ficaram quietos!. no último momento. como homem. sem que tivesse sido previsto de antemão. nas pessoas. Quanto ao nosso silêncio. proporcionaria a fuga em comum e os outros não serem dessa opinião. nesse dia. creio eu. pensem nisto: “Se cortam a minha cabeça. mas reprovam que nós fizéssemos ele ter sido devorado vivo. Satisfeitos com a opinião.. para meterem a minha cabeça na guilhotina e a fazerem cair a lâmina. é imperdoável. Noto que eles me olham com o ar de quem diz: “Então. em uma revolta temos às vezes que matar. Mas ainda uma última pergunta. que não terá qualquer influência na minha decisão: o que pensam os homens desta sala e porque vocês não falam com ninguém? . ou moscas-de-fogo. Vejo que estão à espera de uma opinião: querem saber como é que eu. julgaria o seu caso. que .

diz para mim ele . nunca conseguimos encontrar o bom caminho. E. por favor!” Era raro não se ouvir. É um dos protagonistas da história que ma conta: Marius de la Ciotat. Saímos bem do Maroni. Clousiot e eu nos perguntávamos a quem seriam dirigidas e qual a razão dessas palavras lançadas no meio da noite. que era a mulher dele. etc. dentro de poucas horas.“Fuga dos antropófagos” “Eles comeram ele. Fiz parte de uma fuga que ficou conhecida como “fuga dos antropófagos”. além de um cara de Angers com uma perna de pau e um menino de vinte e três anos. mas. perguntolhe o que é normal perguntar: . uma ou outra dessas frases.” “Um guisado. os seis. mestre. especialista em caixas-fortes. “Partimos. do quilômetro 42. no mar. eu tou metido numa história sórdida. não teve receio em se abrir comigo. Quando soube que eu conhecera o seu pai. Compunham o grupo dos que cavavam Dédé e Jean Graville. no silêncio da noite. Tenho medo de apanhar uns cinco anos por uma simples besteira. Depois de lhe haver contado uma parte das peripécias da minha fuga. quando não as três. O que você ouve de noite “Comeram ele. Titin. os dois irmãos de trinta e trinta e cinco anos. etc. eu . nos vimos arremessados para a costa da Guíana Holandesa. hum! “ Ou então uma voz imitando a de uma mulher: “Um pedaço de homem bem grelhado. uns tipos de Lyon.E você? . Tive a chave do mistério essa tarde.é dirigido aos irmãos Graville.” . um napolitano de Marselha e eu.Oh. o perna de pau! “ “Um guisado de perna de pau. sem pimenta. .

depois iriam à procura dos outros dois.Foi ele mesmo que quis que eu viesse embora. Os Graville deviam descansar umas horas. eu e Guesepi. porque ele já não podia andar mais. com certeza. visto que à partida combináramos que cada grupo deveria assinalar a sua passagem por meio de ramos quebrados. “Ao cabo de um dia inteiro de caminhada.É uma sacanagem abandoná-lo. nem víveres nem o que quer que fosse.” “. voltássemos à beira-mar e atássemos uma camisa. e o mar avança pela floresta virgem. pouco tempo depois. quase no mesmo local onde havíamos nos separado. o perna de pau e o seu amiguinho. que.Deixei-o lá longe. encontramos terra seca. “Não seria difícil. “. nós comendo raízes de árvores e rebentos. Era rodeado de pântanos e não conseguíramos encontrar nenhum caminho. decidiu-se que eu e Guesepi. a uma árvore. Não vale a pena descrever sequer as nossas caras. umas partidas pela base. o mais alto possível. outras que o mar arrancou pela raiz e enredou depois umas nas outras. “.” . É impenetrável e intransponível por causa das árvores abatidas. Nos dividimos em três grupos: os Graville. Partimos em direções diferentes. “Ora acontece que.Onde está o rapaz? “. mas doze dias depois nos encontramos. Devo dizer que nesse lugar não há praia. com o que nos restava de energia. vêem chegar sozinho o tipo da perna de pau. dispostos a nos entregarmos ao primeiro barco-patrulha holandês. completamente exaustos. Treze dias se passaram. E nos encontramos no meio da selva. não deixaria de passar por ali. exceto os dois últimos. Mortos de fome e de fadiga.“Do naufrágio não pudemos salvar nada. felizmente vestidos.

Perdoa-me. Guesepi à beira-mar comera caranguejos e peixes crus. não está como nós. ao espetáculo dos Graville a porem pedaços de carne sobre as brasas e a serviremse da perna de pau para alimentar o fogo. as nádegas.. Ele chega em pleno festim. “A raiva pelo homem que não dividira os fósforos antes de partir e.. “. no seu único pé.E ainda por cima deixou-o descalço para por o seu sapato? Parabéns! Parece que está em forma.. a fome levou-os a fazerem uma fogueira para assar o cara e o comerem. “.. Eu só comi um pedacinho.. ao revistá-lo.O que é isto?” “. a coxa. porém.Realmente. Dédé percebe que ele traz calçado. “Guesepi recusa. durante dois dias a fio. sim. Assim. “. “Aqui.. reparando mesmo nas partes que comiam: o tornozelo.Nojento filho de uma puta! Matou o rapaz para o comer!. juro! Morreu de cansaço. O que é que tem aíá dentro? “O outro abre o saco e aparece um bocado de carne. sem nele participar. então.. Convidam-no. Dédé se levanta.“Nessa altura. o sapato do maricas..Tanto melhor para você. Guesepi viu. “. Dédé. Começou a perceber tudo ao ver a sacola cheia. E foi. tenho comido bem. vê-se logo. em uma palavra. . que lhe encontraram uma bolsa de couro cheia de fósforos e lixa. encontrei um enorme macaco ferido..Não. “. “Aínda não tinha acabado a frase e já a navalha lhe furava as tripas. “..Abre a sacola.. Tem comido bem. “. empunhando uma navalha. os Graville comerem o homem..Um pedaço de macaco. E assiste então.

Guesepi inclusive. . Não vi o cadáver. Contei a você porque todos sabem mesmo. e isso não pode.“Eu . O pior é que. mesmo com o pé esquerdo preso à barra por uma argola. Todo mundo nesta sala conhece a história. para me defender. incluindo os guardas. tenho que acusar. você não pode se defender sem acusar os outros. sobre as cinzas. Enchemos um chapéu de pequenos peixes e de caranguejos e fomos assá-los no lume dos Graville. agravada com antropofagia. pois. Papillon. levado para mais longe. Dissemos que eles desapareceram na selva. com certeza. somos acusados de fuga.estava na beira-mar quando Guesepi veio me buscar. Do lugar onde estou deitado. sentando-me. “Três dias depois éramos apanhados por um barco-patrulha e entregues à penitenciária de São Lourenço do Maroni. durante a noite. o qual tinha comido o maricas que o acompanhava.continua Marius . pedindo a todos que se afastassem do lugar. Como os Graville têm mau feitio. na realidade. dizem-lhes tudo isso o que você ouve. Negamos tudo na instrução. na escuridão da noite. essa é a minha situação. “Oficialmente. depois de assá-lo com a sua própria perna de pau. Guesepi era assassinado com uma facada no coração. que comeram o homem. tinham-no. fiquei ao pé de Clousiot. o que está acontecendo no pátio. Esta noite estou deitado em outro lugar da barra de justiça. Ocupei o lugar de um homem que foi embora e. . Um mês mais tarde. Mas ainda vi vários pedaços de carne fora do lume. Eis a história autêntica dos antropófagos. “Guesepí não foi capaz de guardar segredo.Lamento. posso ver.

que penetra na sala. que vai até o teto. Disseram-me que era terrível. Assim. Sim. Será difícil pegar menos. constantemente. há oitenta anos. tem só uma imensa grade a toda a largura. Mas como? Essa sala não tem janelas. A brisa. umas para lá. Sucedem-se continuamente. Ainda possuo bastante dinheiro no meu “governo”. portanto. . resolvo empreender de novo uma ação. Os meus pés portam-se bem e só doem quando chove. bem alimentado. pelo menos. Pela primeira vez. eles não vão ganhar para a despesa. Assim.A vigilância é apertada ao ponto das rondas se fazerem sem ritmo. ninguém conseguiu fugir dali. Naturalmente. desde já. obedecendo a um plano bem estabelecido e variado. Está situada de maneira que o vento do nordeste entra livremente. Preparo-me. Tenho vinte e oito anos e o capitão instrutor do processo pede cinco anos de reclusão. Terei. Cinco anos de completo isolamento são difíceis de suportar sem endoidecer. divagar sobre a minha vingança. não consigo encontrar uma falha na vigilância dos guardas. disciplinar o cérebro logo a partir do primeiro dia. Faz bem para mim eu estabelecer esse plano de conduta e aceitar somente o que me espera. trinta e três quando sair. o que é provável. outras para cá. essa minha semi-aceitação de ter perdido a jogada me leva a olhar para o futuro. Outra informação: desde que ela existe. chego a admitir que eles conseguirão me manter engaiolado na reclusão da ilha de São José. cruzando-se em qualquer momento. se não fugir. sobretudo. em razão do que sei. Apesar de uma semana de observação. Tenciono. que me manter em forma. para superar a terrível punição que me espera. Sairei da reclusão fisicamente em forma e na posse das minhas faculdades morais. Chamam-lhe a “devoradora de homens”. terei. Evitar o possível fazer castelos no ar e. ataca-me e faz-me realmente bem. então.

Segundo alguns boatos. está arrependido ou não? . porque me recordam as estrelas que via quando fugíamos. e. as pessoas que conhecemos. Estamos a quinze dias do julgamento.Quando? Daqui a cinco anos? . esqueci. limitando-se a fumar muito.Mas prefiro não olhar. não valem cinco anos de reclusão? Preferia não ter passado por essas coisas e estar nas ilhas desde que chegou? Em razão do que nos espera.Clousiot. tudo o que nos aconteceu. .Dá . Não aceita facilmente as loucuras da administração. pensaria da mesma maneira. . É tudo. estou divagando. apesar de tudo. Cinco anos é quase impossível de passar.Papi. inclinando-se um pouco. e que não vai ser nada bom. Então explico-lhe o que decidi fazer e vejo-o reagir muito bem. Vamos torná-las a ver quando fugirmos de novo. uma boa notícia. .diz ele. . o ano que acabamos de viver. Fico contente por ver o meu amigo mais animado. estou contente porque também passei momentos inesquecíveis. Apenas sinto uma certa angústia pelo que me espera na “devoradora de homens”. o comandante que vem presidir o conselho de guerra é conhecido por ser um homem severo.Não. homem. segundo parece.Desculpe.Do seu lugar dá pra ver as estrelas? . Divisam-se algumas estrelas no céu. Pergunto-lhe: . lamenta ter passado a prancha? me responde francamente. Portanto. mas é que eu estive na prisão. Assim. . .Não se chateie. Se eu tivesse estado com você.Clousiot sabe quando eu não quero falar. esqueceu e uma coisa que eu não tive: os sete meses que viveu com os índios. não está divagando. não perturba o meu silêncio. mas muito reto. quando andávamos à solta.

que serão os seus assessores. com a farda dos meharistas31.Clousiot e eu. O conselho de guerra começou na segunda-feira. 31 Co mp anhias mo ntad as d o Sara.. a acusação. Há quinze dias que tiraram o gesso de Clousiot. Os irmãos Gravílle apanharam só quatro anos (falta de provas do ato de antropofagia). foram condenados à morte e nunca mais os vi. Já estamos na sala quando um comandante. porque Maturette está em uma cela desde que chegamos. acompanhado de um velho capitão de infantaria e de um tenente. sem deixarem de ser severas. barbeados e com o cabelo raspado. entra. faz já portanto cinco dias de processos diversos: o processo dos homens das formigas durou um dia. esperamos no pátio o momento de sermos julgados.) . aos catorze réus que até aqui foram julgados. Anda normalmente. sem exagero. À direita. as penas aplicadas. a nossa defesa. Decidimos que eu falaria pelos três e apresentaria. Mehari: cam elo da Arábia domesticado na África do Norte. O processo durou mais de meio dia. (No ta d o Trad utor.. De um modo geral. eu próprio. são aceitáveis. sem coxear. Cinco anos. recusamos ter um guarda como advogado. um capitão. A audiência começa às sete e meia. vestidos de sarja nova. representa a administração. É sábado de manhã. O julgamento Esta manhã. um guarda com galões. às riscas encarnadas. e de sapatos. quatro anos. Outros assassinatos.

as mais vis calúnias a respeito da administração penitenciária francesa.O tribunal estaria interessado em ouvir com brevidade o relato dessa tão longa odisséia. Maturette!. Tenho tempo para observar em pormenor o rosto. esquecendo a parte do Maroni. em país estrangeiro. baixo-os. Para Maturette. de cabelos grisalhos sobre as têmporas. de quarenta a quarenta e cinco anos. Estamos a quatro metros dos juízes. deste comandante. Descrevo a família Bowen e a sua generosidade. segundo o inquérito. que nos fitam direto. o que lhe faz perder a partida. tisnado pelos ares do deserto. com certeza.” Falo de Curaçau. peço só três anos por fuga. porque.. Os meus olhos fixam-se nos dele. sopesa-nos. isso para Charrière e Clousiot. em poucos segundos. Clousiot. Chama tentativa de assassinato à eliminação momentânea dos dois guardas. afirma que foi um milagre não ter morrido sob os nossos múltiplos golpes. levaram mais longe. mas onde não estamos de acordo é sobre o envio de presos para a Guiana. O presidente: . senhor presidente! Todas essas nações ouviram. Comete outro erro quando diz que somos os forçados que. “Peço duas condenações sem acumulação de pena. a desonra da França: “Até a Colômbia! Dois mil e quinhentos quilômetros que estes homens percorreram. a nossa viagem por mar até Trinidad. um total de oito anos: cinco anos por tentativa de assassinato e três por fuga.Caso Charrière. desde que o degredo existe. ou seja. sobrancelhas espessas a encimarem uns olhos pretos. Cito as palavras do chefe da Polícia da ilha de Trinidad: “Não temos que julgar a justiça francesa. É por isso que os ajudaremos. do incidente do .. voluntariamente.. O oficial acusador é exagerado no ataque. depois. do bispo Irénée de Bruyne. Conto. Quanto ao árabe. ele não participou na tentativa de assassinato. magníficos. Perscruta-nos.

as prisões colombianas. O comandante me ouve sem me interromper. pura e simplesmente. . Vamfazê-los um intervalo de quinze minutos.saco de florins. Rapidamente. Fizemos isso com precaução. . Depois. Pede-me só alguns pormenores sobre a minha vida com os índios. porquê e como fomos para lá. Tem toda a liberdade para se defender. que me deixasse tomar a defesa dos meus camaradas e também a minha. nós o prevenimos de que lhe retiraremos a palavra se faltar ao respeito ao representante da administração.Obrigado. .Peço ao tribunal que ponha de parte. mas com expressões convenientes. apenas com o intuito de lhes fazer perder os . um metro e setenta e quatro e um metro e setenta e cinco. pois acabávamos de chegar da França. ao mesmo tempo. tinha eu vinte e sete anos e Clousiot trinta. Nenhum dos quatro ficou seriamente ferido. Um quarto de hora depois. Todavia. Temos de altura. os regulamentos autorizam-no. passo que lhe interessou muito. particularmente a masmorra submarina de Santa Marta.Obrigado. a sessão recomeça. como provo imediatamente. Não vejo os seus defensores: onde estão eles? . depois da Colômbia. O presidente: . a acusação de tentativa de assassinato.Não temos. respectivamente. o tribunal autoriza-o a apresentar a defesa dos seus camaradas e a sua. interessou-o. . É uma acusação inverossímil. uma pequena exposição sobre a minha vida com os índios.Pode fazê-lo. Tem a palavra. senhor.Charrière. Batemos no árabe e nos guardas com os pés de ferro da nossa cama. Estávamos no pleno uso das nossas faculdades físicas. a sua narrativa esclareceu o tribunal e. Há um ano. Queria pedir.

são condenados em dois anos de reclusão. creio que o delito de fuga é menos grave do que o seria para um homem condenado a uma pena mínima. o que conseguimos sem lhes causar grande mal. Dizemos em coro: − Obrigado. O presidente: . senhor comandante! Ao que eu ainda acrescento: . “Pelo delito de fuga. . levantem-se! Eretos como estátuas. constituído por militares de carreira. Por esse crime. A acusação esqueceu-se de dizer. talvez porque o ignora. não é obrigado a proferir qualquer sentença por isso. Faço notar ao tribunal que nenhuma das quatro pessoas atacadas foi hospitalizada. que os ferros dos pés da cama estavam envolvidos em trapos. O comandante murmura qualquer coisa aos dois assessores. aguardamos. “Tendo sido condenado a prisão perpétua. a fim de que as pancadas não provocassem a morte. “Resta-me pedir para nós os três a indulgência do tribunal.O tribunal.Acusados. sabe muito bem o que um homem forte pode fazer se bater na cabeça de alguém mesmo que seja só com a parte plana de uma baioneta. É bem difícil. admitir a hipótese de nunca mais se viver. O tribunal. depois bate com o martelo na mesa. nem sequer uma absolvição. viver em liberdade. eliminando a acusação de tentativa de assassinato.sentidos. na nossa idade. Então imagine-se o que não será com um pé de cama de ferro. o tribunal considera-os culpados em segundo grau.

com ciúmes. . onde estão os nossos camaradas. François Sierra veio me abraçar..Obrigado ao tribunal! Na sala. os guardas que assistiam ao julgamento nem queriam acreditavam no que viam e ouviam. Pelo contrário: até os que foram condenados a penas mais pesadas nos felicitaram pela sorte que tivemos. Está doido de alegria. Ninguém se sente aborrecido. todo mundo se mostra radiante com a notícia. Quando entramos no edifício.

mas não me sinto com alma de vencido. terei de cumprir dois anos de prisão disciplinar na ilha de São José. Mas. como prometi a mim mesmo. . só há um processo: fomentar uma revolta. Quase provoquei .SEXTO CADERNO AS ILHAS DA SALVAÇÃO A chegada às ilhas É amanhã que devemos embarcar para as ilhas da Salvação. eís-me. são e em boa forma física. eu sei. Primeiro. Apesar de toda a minha luta. Estou espantado por nada ter tentado ainda desde que está aqui. Mal acaba de fracassar em uma. para isso. Em dois anos vou fugir das ilhas. No entanto. começa a preparar outra. Quando sair. terei trinta anos. Perdi a partida. Já faz um ano que não para de fazer tentativas de fuga e não desistiu ainda.Meu velho Papillon. devo sentir-me livre. que está sentado a meu lado. como um forçado normal nas ilhas. é bem difícil desanímar você e eu sinto inveja dessa fé que tem de que um dia será livre. Nas ilhas. Pois bem.Aqui. . não me deixarei levar facilmente nas divagações que o isolamento completo cria. alguns homens escaparam. a poucas. Tenho o remédio para escapar delas. repito eu a Clousiot. mas. meu caro. horas da prisão perpétua. desta vez. Devo me alegrar por só ter de passar dois anos nessa prisão de outra prisão. Espero desmentir a designação que os forçados lhe deram: “a devoradora de homens”. as fugas são muito raras. Em primeiro lugar. ainda que os possamos contar pelos dedos. eu tenho a certeza de que fugirei. não tive ainda tempo de deitar a mão a todos estes homens difíceis.

são velhos forçados. não hesitou em envenenar outros sete que nunca lhe tinham feito nada. virando as costas a Clousiot. por uma corrente nos pés e por algemas. mas tenho medo de que ela me devore. Estes quarenta homens. fujo sem precisar de ninguém.o Tanon -. com um camarada. porque você nunca deixa a luta. até amanhã. Mais um grupo de dez.uma. -Boa noite. muito cedo. Clousiot? .Sorrio. À frente vão dois grupos de oito homens. que lhe queima as entranhas de se encontrar em Paris e pedir contas dos seus três amigos. das ilhas. Tá rindo. para matar um homem. . dois a dois. vai encontrar o mesmo gênero de gente. corremos o risco de desaparecer ao primeiro sinal de mau tempo. Todos. mergulho um pouco mais o meu rosto na brisa da noite. dá a você uma tal força que não admite que o que tanto desejas possa não acontecer. Clousiot.ilhas . no convés daquela galera. Partirei sozinho ou. atrás. -Está bem. os “caras das formigas”. mas eu.Boa noite. nas ilhas. com seis guardas e os dois chefes de escolta. no máximo. Por exemplo: os “antropófagos”. Vinte e seis homens a bordo de um barco velho de quatrocentas toneladas . que estão aqui. O fogo. Vamos ver essas sagradas ilhas de Salvação.São Lourenço e vice-versa. Primeira coisa a perguntar: por que razão essas ilhas de perdição se chamam da Salvação? E. Estamos ligados. O “caminho da podridão” tomou conta deles e reagem de maneira diferente de nós. embarcamos para as ilhas. . barca costeira que faz a rota Caiena . cada um vigiado por quatro guardas de carabina em punho. e o que pôs veneno na sopa e que. Mas. No dia seguinte.

diz o idiota.A espingarda não conta. o guarda reagiu como eu tinha previsto: . mas é exatamente por ter já muitos anos. . porque. que. Nós. Se o mar estivesse agitado. com correntes ou sem correntes. essa galera é perigosa e ainda por cima nos prendem. se esse barco podre se afundar. não sei se sabe. Temos ordem de acorrentar vocês. em voz alta. Mal acordado. . tem razão. O assunto foi imediatamente retomado por guardas e forçados. lanço a segunda: .. Sem correntes.. de um momento para o outro. .diz um outro. o que pode muito bem acontecer. pode acontecer alguma coisa. digo.retorquiu um guarda. e nunca lhe aconteceu nada . aconteça o que acontecer. senhor vigilante.Oh! já faz muito tempo. se esse caixão se abre no caminho. nos livramos logo dela .Ah! É igual. que esse barco faz esse trajeto. Vendo que a coisa pegou. que tem cara de enterro.De qualquer maneira.Ei. ainda tínhamos uma chance . só para contrariar.diz um dos condenados. em caso de naufrágio. .Com certeza. também não estamos mais leves .Decidido a não pensar durante essa viagem. as botas e a carabina. estamos livres. dado o seu mau estado. . Nós. . é tudo. Eu tinha conseguido o que queria: sacudir esse silêncio geral que estava me irritando. não há o perigo de nos salvarmos. procuro me distrair. ao vigilante mais próximo. Então. . A responsabilidade é dos que dão as ordens. vamos todos para o fundo. com o nosso uniforme.Com as correntes que vocês nos puseram.A gente não está nem aí se vocês se afogam.

. Pois bem. Com o comandante e a equipagem ele se enche logo. . não há nada. Agora passou-o a outro. com ar de bastante novo e muito queimado pelo sol. Você não é um homem qualquer! . No estado em que se encontra esse barco. Ainda por cima. Pretensiosamente respondo-lhe: . porque.É verdade.Sim. esse comandante. em escala elevada. muito bem. esse e aquele ali ao lado . . Um deles olha para mim e diz: . como estamos agora demandando para o estuário do Maroni. tem ar de saber se orientar no mar. um tipo baixinho e gordo. como marinheiro dou-lhe os meus parabéns.Era eu.É esse.disse o chefe da esquadra. que é o local mais perigoso. pergunta onde estão os caras que foram à Colômbia em um pedaço de madeira. . é conosco que viajam os dois chefes de convés..Onde estão os salva-vidas? Só vejo um muito pequeno. Isso provoca espanto.Sou.Quem era o capitão? . Os outros que fiquem aqui amarrados! A discussão prosseguiu.Não me espanta que tenhas ido tão longe. senhor. no máximo. Então.pergunta. o que vem da Colômbia? . . para oito pessoas. é de uma irresponsabilidade inaceitável que pais de família se arrisquem a um tal perigo para acompanhar esses miseráveis. Como eu pertenço ao grupo da retaguarda. meu rapaz. tem que pegar no leme.És você o Papillon. o comandante desce da ponte.

da folha do milho ou de outro material com que se enrola o fumo picado para fazer o cigarro (Nota da revisora: http://amandikaloka. . contra o vento e contra a maré. o que naturalmente faz o barco balançar em todos os sentidos mais que o habitual. porque é muito desagradável ver alguém vomitar perto de nós. ele riu às gargalhadas. Seguimos na direção norte-leste. O mar hoje. não está bravo. Fume à minha saúde. para a parte da frente do barco.4ssared. cerca das dez horas de manhã. comandante. Disse: . . não sei como. Felizmente. que eu tinha voluntariamente desencadeado. .diz o comandante sem refletir. Todos tinham uma palavra a dizer e a discussão passou. mas a companhia está à espera de apanhar o seguro. o que está acorrentado comigo tem queda para o mar.Tem razão! Há muito tempo que devíamos ter mandado essa galera para o cemitério.Mete a mão no bolso do casaco: . antes de desaparecer na escada.E para cúmulo da arrelia dos caras que eu queria contrariar.Felizmente que para a equípagem e para você há um salva-vidas.Felizmente. esse rapaz é um autêntico gaiato ladrão de Paris. 32 pedaço pequeno de papel fino. Esta discussão. Há guardas e presos agoniados.Aceite esse pacote azul de tabaco e as mortalhas32. Mas eu também devo felicitá-lo por ter coragem de navegar nesta carreta. mas o vento não favorece a viagem. uma ou duas vezes por semana. é verdade .Obrigado.com) . ou seja. Eu termino com uma estocada: . animou a minha viagem durante mais de quatro horas. da seda.

Fui fazer uma radiografia. nem vale a pena falar nisso. o cara lhe pagae quatrocentos francos e mais uns pozinhos dos outros pontos. . É relativamente novo. sete anos que está nas ilhas. Se ganhar duzentos no valete. .diz Titi -. . De resto.Mas. trinta e oito anos.Há pois. .Chamam-me o Titi la Belote porque. para ver se tenho uma úlcera. Há sete anos que estou nas ilhas e houve apenas duas tentativas de fuga.Porque você foi ao continente? . que ferrou tudo. Apostando no escuro. há muitas maneiras de ganhar grana. meu caro. Imagine a vigilância que havia! 33 Belo te. E ainda por cima tive a sorte de cair na mesma sala de onde você fugiu. não sei absolutamente nada das ilhas.Ainda pergunta? Foi você. outros recebem dinheiro de fora. Vê-se que você é novo.E não tentou fugir do hospital? . a coisa vai longe. há muito dinheiro nas ilhas? . Há. Ninguém conseguiu. (No ta d a reviso ra: http :/ / am and ikalo ka. através de vigilantes cúmplices.Fugir . nas ilhas. Só sei que é muito difícil fugir de lá.Foi condenado a trabalhos forçados em 1927. um jo go d e cartas d e o rig em nórdica com 52 cartas. que a bisca é o meu forte33.Não. Papillon. Bisca toda noite. . meu velho.com) . Parece que não percebe nada disto! . é do que eu vivo. Uns agarram-se a elas. meu velho Papillon! Nas ilhas. pagando-lhes cinquenta por cento. portanto. É por isso que não há muitos candidatos a tentarem a sorte. comparável à portuguesa bisca. a dois francos o ponto. com três mortos e duas prisões como resultado. devo dizer. então.4shared.

Olha. respondiam-lhe: . mulher orgulhosa e pedante. . quando o cara chegou.É para o caso de estares com a idéia de fazer o mesmo que Papillon. mantém-se muito bem no seu papel de forçado. demorou muito tempo para ganhar a estima dos homens. Capaz de dar um bom conselho.Segundo me disse um amigo meu. esse cara foi dominado pelo ambiente nobre em que vivia. . ter fornicado com uma sopeira. chama-se Jean de Bérac. mas sabe se portar como um autêntico condenado: nada de relações COM OS guardas. a mãe.Cada vez que um de nós se aproximava de janela para tomar ar. E se perguntava porquê. No entanto. autêntico mesmo.Diz para mim. quem é esse cara grande que está sentado ao lado do chefe da escolta? É um espião? . que o rapaz já não sabia o que . esse tipo duvidoso. faziam-no retirar-se. é um conde. Nem mesmo o médico ou o padre conseguiram usar ele. que se comporta como um autêntico vagabundo. teve a coragem de descer. bom camarada e distante dos vigilantes. de agarrálo e de afogá-lo em um lugar mais profundo. a mãe do menino.Arre! É como se tivesse matado duas vezes o próprio filho. .O que fez ele? . como você vês. Titi. A mãe pusera no olho da rua. como se fora uma cadela.Você és maluco? Esse cara é muito estimado por todo mundo. Sim. meu velho. atirou o próprio filho de cima de uma ponte para uma ribeira. que é tesoureiro e que viu o processo. e como o menino caiu em um lugar com pouca água. nada de lugares de favor. É um privilegiado. um conde. . criadinha do castelo. é um descendente de Luís XV. humilhava-o tanto por ele. Ainda segundo esse amigo. pois a razão por que veio parar aos ferros é bem horrorosa.

Conclusão? . para ele. que era a mãe. já baixo. podemos vê-las em pormenor. possivelmente. Está vendo. se tornou um nobre na verdadeira acepção da palavra. mas é só agora que ele é verdadeiramente o conde Jean de Bérac.Bem. defensora da honra da casa. a ilha do Diabo o ângulo superior. o cara não e como nós. eram seres desprezíveis. isso parece paradoxal. . Formam um triângulo. Papifion.A quanto tempo o condenaram? -A dez anos apenas. na minha humilde opinião de garoto brigão de Paris. Ilhas da Salvação. Assim. tudo o resto era insignificante e não merecia atenção. tinha-o cilindrado e aterrorizado a tal ponto que ele estava como os outros. Mas não é impossível. julgava ter direito a passar a primeira noite com a noiva dos seus criados. aspirando com delícia o vento. a conclusão é esta: livre e sem problemas.fazia quando foi atirar o garoto na água. Primeiro. A condessa. Eis as ilhas. penso: “Quando é que uma fuga transformará esse vento contrário em vento favorável? “ Chegamos. depois de ter dito que ia entregá-lo à Assistência Pública. quando cometido por um conde que quer salvar a honra da família. ilha Real. educado de tal maneira que. Sei que é muito difícil fugir-se de lá. dentro de poucas horas. E. que não têm tanta intensidade como nos trópicos. Esse monstro de egoísmo e de pretensão. deve ter explicado aos magistrados que matar o filho de uma criada não é assim crime tão grave. Real e São José a base. Foi nos trabalhos forçados que esse senhor. que. com uma extremidade plana à volta de . . esse conde Jean de Bérac era um nobrezinho de província. Não seriam escravos propriamente ditos. O Sol. essa incógnita para mim vai ser destruída. mas. ilumina-as com todos os seus raios. pelo menos. à vontade. apenas contava o sangue azul.

menos folhagem e. os edifícios do campo onde vivem os forçados. depois. rodeado por um muro branco.um cabeço34 de duzentos metros de altura. nós deixamos de ver a pequena ilha do Diabo. tal e qual. no alto do planalto. E. com as suas ameias35. com as suas celas e masmorras. um chapéu mexicano posto sobre o mar e ao qual tivessem cortado o bico da copa. um enorme edifício que se vê distintamente do mar. Menos coqueiros. distingo cinco grandes edifícios. sem qualquer construção importante. é um enorme rochedo coberto de coqueiros. desejaria viver ali. para que os barcos. que estamos mais perto. a de São José. No planalto. O conjunto representa. coqueiros muito altos e muito verdes. recorte no cimo de muralha ou torre (Nota da revisora: http://amandikaloka. em cumprimento de pena comum. sobre o comprido. com o cimo plano. toda a vida. há pouco.4shared. vejo ainda outras pequenas casinhas. destacam-se muito distintamente. Como o barco se prepara para entrar pelo sul da ilha Real. Por todo o lado. há um farol aceso durante a noite. e quem não saiba o que acontece ali.4shared . Pequenas casas de telhados vermelhos dão a essa ilha um atrativo pouco comum. Mostra-me.com) . se não desfaçam contra os rochedos. mas muito perto do extremo da ilha Real. é o edifício do segredo. e Titi la Belote confirma. espalhadas pela encosta. apenas 34 35 cume convexo e arredondado de um monte ou de uma pequena serra (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. E por aqui e por ali. arrastados pelo mau tempo. pequenas casas com telhados vermelhos. com as suas paredes brancas e o seu telhado vermelho. perto do mar. mais abaixo. a seguir.com ) cada um dos parapeitos separados regularmente por merlões na parte superior das muralhas de fortalezas e castelos. O outro. Agora. Mais longe de nós. O quarto é o hospital dos presos e o quinto o dos vigilantes. Fico sabendo por Titi que os primeiros são duas imensas salas onde vivem quatrocentos forçados. muito garridas. As torres de vigia. onde vivem os vigilantes. Compreendo imediatamente que se trata da reclusão. Pela visão que tive dela.

“Serviço de Salvavidas”. manejam enormes remos. esperamos. tronco nu. Depois de três toques de sereia. movida a remo. Não têm o uniforme listrado. depois os oito do grupo da frente. Com os pés livres. na parte de trás. Primeiro descem os chefes da escolta. os dez do meu grupo. Venceram rapidamente a distância. Vemos forçados que olham para o barco. Depois. Edifícios pintados de branco. os que têm dinheiro mandam fazer “por medida” em alfaiates. Atrás. Faz-se a acostagem. Um escaler36 aproxima-se do Tanon. a reboque. Desembarcamos no cais e. Mais tarde. Um vigilante ao leme.4shared . é muito comprido e tem mais de três metros de altura. vem um escaler grande. esse cais. “Padaria”. vazio. que se colocam à retaguarda. gênero salva-vidas. dois vigilantes armados de carabinas. com sacas de farinha a que tiraram as letras. à esquerda e à direita. para prestar pequenos serviços de transporte. pintadas de amarelo e com os telhados de fuligem. descemos para o salva-vidas. Farão outra viagem para transportar o resto das pessoas. obra que deve ter custado vidas de muitos forçados. Estamos entrando no porto de Real. usa uniforme de forçado. estão todos de calças e com uma espécie de blusão branco. roupas muito leves e mesmo de uma certa elegância. (http :/ / am and ikaloka. bem construído com cimento e blocos de pedra. alinhados diante do edifício da administração do porto. dois guardas com carabinas instalam-se à frente. seis forçados de pé. Titi la Belote diz para mim que. reconhecimento etc. mas sempre algemados. pintado de preto sobre fundo branco: posto da Guarda”. a cerca de duzentos e cinquenta metros do cais. estendem-se paralelamente a este.algumas casas à beira-mar. us. diz ele. a vela ou a motor. nas ilhas. Leio. de proa fina e popa larga. Quase ninguém. virei sabendo que são as casas dos deportados políticos. o Tanon lança a âncora. perto do guarda. desgastados pela água. Nenhum de 36 embarcação miúda.com) . ocultos. bem abrigado por um imenso paredão feito de grandes blocos. “Administração do Porto”. Os remadores arrancam.

E Dega? . E abraça-me. dois bandidos corsos. dizendo: -Não vão me impedir de abraçar o meu irmão. que conheci em Saint-Martin. Nesta altura.. Papillon! Conte com os seus amigos. Dirige-se para mim. aparece Chapar.Dois anos. mesmo assim. fura. que conheci em liberdade na França. de passar. . . Cesari e Essari. Alguns forçados da minha equipagem saúdam-me amigavelmente..Obrigado. chega Galgani. que pensava que nunca mais tornaria a ver.Conte comigo. a uma prudente distância de cinco ou seis metros. espanta-me que não esteja aqui.Que faz você? . acrescentando: . Vai ficar com pena de não tê-lo visto.nós tem bagagem.Bom. os deportados falam com nós em voz alta. diz pra mim: . distribuo a correspondência. Depois vai para ir embora: . Neste momento. em Marselha.E como está? .Tem um lugar importante na contabilidade. Chapar. dizem-me que são barqueiros e que prestam serviço no porto. . mas ele. Sem se importar com a presença dos guardas.Sou carteiro. o do caso da Bolsa. passam em um instante. não lhe faltará nada na reclusão! Quanto tempo pegou? .Não se preocupe. o guarda quer impedi-lo. Depressa virá aqui para perto de nós e verá que não está mal. Sem se preocuparem com os guardas.

. acompanhado por um vigilante. O comandante das ilhas chega. meu comandante . . .Você. chefe. o conde de Bérac e uns desconhecidos afastam-se do grupo.X anos. Eles têm cada um o seu saco com as roupas de forçados. Um vigilante diz a eles: .pergunta o comandante. de branco. Dega abraça-me várias vezes. matrícula de deportado X. Tiraram-nos as algemas a todos. Titi la Belote. A nossa escolta retira-se. fica a ser o presidiário Z.Vamos. O comandante aproxima-se.responde Dega. recluso número tal. um por um. bem vestido. Ele assiste a tudo.É esse o Papillon? . . − Porte-se bem na prisão.É sim.Quanto? . cada um traz um grande livro debaixo do braço. acompanhado por seis vigilantes. com um casaco abotoado.Vem aí. e dão-lhes uma nova classificação: . Desembarcaram os últimos e vieram para junto de nós.Onde está o contabilista? ..Estou tranquilo. Quando chega a minha vez. Põem o saco ao ombro e partem por um caminho que deve ir até o topo da ilha. Vejo chegar Dega. a caminho para o campo. Ambos fazem sair os homens das filas. Fazem a chamada. Dois anos passam depressa. .

dita com todo o coração: − Merecia ter conseguido. que estiveram comigo em São Lourenço. dez vão na primeira viagem.A prísão Uma canoa está pronta. Não chega sequer a desejar-me coragem. Em São José nos espera um comitê de recepção. Falo com Dega.Até a volta a todos. Friamente.Não. Alguns homens. vai ver que não lhe faltará nada.Estou como encarregado geral dos serviços de administração e me dou muito bem com o comandante. em uma única frase. Comenta. vamos! . Era bem fácil tomar conta daquilo tudo. para seis forçados que remam e dez presos condenados à reclusão. Dega diz: . é muito arguto. chegamos a São José. Não se sente disciplina alguma e eles parecem não ligar para os guardas.despeço-me. Estou espantadíssimo desde que cheguei por ver a maneira de falar dos presos. Não chora por mim. mas fica para a próxima. − Papillon. Obrigado pelo que disseram . Embarco na canoa. Sou chamado para partir. a história da minha fuga. Chegara a minha vez. vieram para as ilhas e contaram-lhe tudo. Dega diz: . Deve comportar-se bem lá na prisão para eu lhe mandar cigarros e comida. esse aqui vai na última viagem. Vinte minutos depois.gritaram. que se colocou a meu lado. Depois. Dos dezenove condenados. Somos apresentados a . . Sabe que eu já a tenho. Já conhece toda a minha história. Tive tempo de observar que há somente três guardas armados a bordo.

Ao entrarmos aqui. É tudo o que eu tenho para dizer. Pronto. Silêncio absoluto. Somos levados até o edifício da direção e entramos em uma sala fria. Percorremos. revistem-nos bem e coloquem um em cada cela. Não encontramos qualquer preso durante o trajeto. o caminho que sobe até a prisão. o que nos diz o comandante da prisão: . Após lutarmos lado a lado catorze meses pela conquista da nossa liberdade. Qualquer comunicação entre as celas é arriscada: pode acabar em um castigo bastante duro.dois comandantes: o da penitenciária da ilha e o da prisão. Entramos por um grande portão de ferro. vocês sabem que isso é uma prisão de castigo para as faltas cometidas pelos condenados. queremos é domá-los. Aqui só há uma regra: bico calado. ouvimos. Dez minutos depois. A porta e os quatro muros altos. porque sabemos que isso seria inútil. B e C. estou trancado na minha cela. Você é pessoalmente responsável por isso. guardas. Clousio e Maturette não devem ficar no mesmo edifício. . Se vocês não estiverem gravemente doentes. todos compreendemos que para sair vivo é preciso o ceder ao regulamento. os dezenove. que nos circundam. Santori. Não tentaremos corrigi-los. Nos despedimos com um olhar. Ah. Vejoos serem levados. os meu companheiros dessa fuga tão longa. ocultam. pois estamos mutuamente ligados para sempre por uma amizade sem limites. Charrière. pois uma chamada injustificada resulta em castigo. a pé e algemados.Prisioneiros.Direção”. antes de mais nada. e é rigorosamente proibido fumar. camaradas firmes e corajosos. Dispostos em duas filas. Clousiot está no B Maturette no C. E mais três outros: A. a 234 do edifício A. o meu coração contrai-se. encimado por duas palavras: PRISÃO DISCIPLINAR e compreendemos logo o que há de sério naquela casa. um pequeno edifício onde se lê: “Administração . não peçam médico. que me seguiram com valor e nunca chorarão nem lamentarão o que fizeram na minha companhia.

com mais ou menos um metro de largura. com uma única abertura: uma pequena janela de ferro. mas dentro de cada cela. tanto os prisioneiros como os guardas estão em meias. Um tecido grosseiro para ser usado como cobertor. França. Para não fazer barulho. Nunca eu teria podido supor ou imaginar que em um país como o meu. lado a lado. e uma rampa de ferro. Dois vigias caminham incessantemente de cada uma das extremidades até metade do caminho. na linha que junta os fundos de umas aos fundos das outras. uma instalação tão barbaramente repressiva como a prisão da ilha de São José. A claridade do dia chega até a passarela dos guardas. Por cima das celas. A impressão é horrível. à guisa de janela. esperando o apito (ou algo que o valha) para abrir a cama. embutida na parede e com dobradiças. está uma inscrição pintada na porta: “Proibido abrir essa porta sem uma ordem superior. um bloco de cimento. Em outro canto. uma placa de ferro. cruzadas de tal maneira que não deixam passar o mínimo volume. A três metros de altura. um caminho de ronda.” À esquerda. grossas como carris. o verdadeiro teto do edifício. terra que deu à luz os direitos do homem e do cidadão . colocada na vertical. uma caneca de soldado e uma colher de pau. uma prancha de madeira para servir de cama. a um canto. em uma ilha perdida no Atlântico. do tamanho de um lenço de bolso. para servir de banco. Por baixo deste. uma abertura com enormes barras de ferro. mesmo na Guiana Francesa. também de madeira. com um travesseiro. Penso . mal se consegue enxergar. Começo logo a andar no meu cubículo. abrindo e fechando exatamente como em Beaulieti. mesmo em pleno dia. todas igualmente cercadas por quatro parede muito espessas. uma vassoura. encostadas umas às outras. onde se encontram e fazem meia volta. a sete metros do chão. Mais alto. Uma corrente de ferro prende a “latrina” à placa.Examino a cela onde me fizeram entrar. oculta um balde metálico destinado a recolher os dejetos e urina. provida de uma espreitadeira. paladina da liberdade no mundo inteiro. Imaginem vocês cinquenta pequenas celas.pudesse haver.

podem baixar as camas e se deitar. a andar. O guarda acaba de passar sobre a minha cela. cinco. na verdade. Não o ouvi passar. É um apito. um. ou melhor. Recomeço a andar. meia volta. mas muito alto. de homens” que deram a essa prisão.Os novatos ficam sabendo que.imediatamente: “Aqui. três. cinco. A passarela fica iluminada e as celas permanecem no escuro. Durmam tranquilos. três. com um gesto de repulsa. vou e volto interminavelmente. Se vocês soubessem para onde me mandaram. que anuncia que podemos baixar da parede as pranchas de madeira que nos servirão de cama. quatro. É preciso que me habitue a essa jaula aberta no teto. Com a cabeça baixa. suspensa. dois. quatro. de setecentos e trinta dias. quatro. lá fora. como um pêndulo. já consegui um ritmo para o meu passeio. tentará viver sem ficar maluco. ao invés de tentar suprimi-las por completo. a mais de seis metros. no teto do edifício. três. se quiserem. meus queridos membros do júri que me condenou. cinco. Um. a distância dos passos rigorosamente calculada. Continuo. Suponho que talvez seja melhor aceitá-las e orientá-las para temas que não sejam muito deprimentes. a partir de agora. Ouço uma voz grossa que diz: . tenho a impressão de que se recusariam. como um sonâmbulo. dois. portanto.” Um. Vai ser muito difícil escapar às vagabundagens da imaginação. . o pêndulo está outra vez em movimento. na cela Charrière. dois. Interessam-me somente as palavras “se quiserem”. O momento é crucial demais para dormir. condenado a uma pena de dois anos. as mãos atrás das costas. Quase impossível. mas o vi. a ser cúmplices na aplicação do meu castigo. Pam! A luz acende-se. durmam tranquilos. meia volta. Cabe-lhe desmentir a designação de “devoradora. também chamado Papillon.

que dão setecentas e vinte horas. Não é verdade!. devo encher com alguma coisa esses dias. Não!. apenas roço nela ao fazer meia volta. de cima. pelo caçador que acaba de capturá-lo. Quando a sombra do guarda se projeta na parede. Se a gente levanta a cabeça para vê-lo. se um deles não for bissexto.. dá dezesseis mil e oitocentas horas. nessa maratona que não tem chegada nem tempo de duração. se não me engano nas contas. Quantas horas somar? Conseguirei calcular de cabeça? Como resolver essa conta? É impossível. a situação se torna ainda mais deprimente: fica-se com o sentimento de um leopardo em uma fossa. já nem vejo a parede. Papi. Quem estará à minha direita? E à minha esquerda? E atrás de mim? Se as celas estão ocupadas. Porque não os segundos? Se isso tem importância não. especialmente fabricada para feras selvagens. mas para que calcular os minutos? Não exageremos. É muito fácil multiplicá-las por sete. Um dia a mais são mais vinte e quatro horas. observado. Dezesseis mil e oitocentas horas mais setecentas e vinte dão um total geral de dezessete mil quinhentas e vinte horas... Mas... o fato é que eu não estou interessado.. 1 hora. essa “devoradora de homens” não é brincadeira. está certo. Dois anos são setecentos e trinta dias. Sabe que setecentos e trinta dias ou setecentos e trinta e um é a mesma coisa?. o senhor tem dezessete mil e quinhentas e vinte horas para ir morrendo nesta jaula (paredes lisas. Vejamos: cem dias são duas mil e quatrocentas horas.. essas hora esses minutos. Sozinho comigo mesmo. Cada ano tem trezentos e sessenta e cinco dias. A impressão é horrível. e vinte quatro horas é um monte de tempo. E a idéia me faz sorrir. de passagem. o efeito é estranho. Posso fazê-la. Ficam por somar ai da trinta dias. não deverão . vou precisar de alguns meses para habituar-me a ela.. Na verdade.Chegando ao final dos cinco passos. Prezado senhor Papillon. Quantos minutos terei de passar aqui? Não interessa.

mais adivinho do vejo .esses três homens interrogar também a si próprios acerca de quem acaba de entrar na duzentos e trinta e quatro?) Ouço o ruído abafado de uma coisa que acaba de cair atrás de mim. Mal consigo avistar algo comprido e estreito. na minha cela. um derivativo para os meus pensamentos. vim a ter a ocasião de observar muitas centopeias: elas caem do teto do edifício. durante o dia. torturá-la-ei com a vassoura durante o máximo de tempo que me for possível. lá de fora. Sinto-me tão enojado que não a pego para pôr na latrina. quando estou deitado. Quando estiver acordado e cair uma centopéia. consigo identificá-la: é uma e centopéia de mais de vinte centímetros de comprimento e dois dedos de largura. Que poderá ser? Ponho-me de joelhos e olho-a o mais perto possível. fiz um movimento de recuo. com o pé. sem lhes pegar ou fazerlhes mal. a coisa . De qualquer maneira. para debaixo da cama. no escuro. Por fim. Aliás. verei. empurro-a. quando o faz pela quarta vez e cai. Aprendi a deixá-las caminhar sobre o meu corpo nu. Amanhã. começa a subir. No momento em que vou apanhá-la. Deixo-a tentar três vezes a subida. esmago-a com o pé. Quando ela se mexeu.começa a se mexer e a deslocar-se rapidamente em direção à parede. Chegando ao muro. Uma picada desse bicho nojento queima horrivelmente durante seis dias e provoca uma febre de cavalo que dura mais de doze. A parede é tão lisa que não consegue agarrar. . O que será? Será que o meu vizinho teve suficiente habilidade para conseguir me passar qualquer coisa através da grade? Procuro descobrir o que é. deixando-a esconder-se e tentando encontrá-la depois. ou então me divertireí com ela. Deparei-me também com o ensejo de aprender quanto sofrimento pode custar um erro tático quando uma centopéia está em cima da gente. será uma distração.que. mas logo por terra. Sinto algo mole sob a grossa pele.

Quantos se suicidam? Não vejo como alguém o consiga. No entanto. aqui. os leitores. é possível.” Então. dois. o guarda não terá muita pressa em descer e abrir a cela para desprender da corda o corpo do enforcado. Está escrito na porta: “É proibido abrir essa porta sem ordem superior. que se aborrecerem. Podemos nos enforcar fabricando uma corda com as calças e. Apesar de tudo. Quando a água subia no calabouço de Santa Marta. Aqui ninguém ronca? Ninguém tosse? É verdade que faz um calor de morrer. creio que devo descrever. gritávamos. Que eles tenham sido condenados a essas penas. Abrir a cela? Ele não o pode fazer. cinco. aparecia uma grande quantidade delas. Fazendo essa operação e estando encostado ao longo do corredor. Ora. as vozes e as divagações dos que estavam temporária ou definitivamente loucos.Um. A opinião geral é que. quem quiser se suicidar tem muito tempo para isso. mas que as cumpram é outra. mas falávamos.. O meu destino é viver com as centopéias. nos balançamos no vazio e. cinco anos ou até mais. porém. podem saltar páginas. eram menores. No entanto. Não é fácil. de pé na camam utilizando a vassoura para passar a ponta da corda por uma das barras de ferro da janela. Papillon. Logo que ele acabe de passar.. Esta minha descrição talvez não seja muito movimentada e interessante para quem gosta de ação. preferiria Santa Marta. quatro. quando voltar. é uma coisa. três. para cumprir. Alias. é provável que o guarda não veja a corda. estará tudo feito. não precisa de se preocupar. Em Santa Marta havia inundação todos os dias. antes que venham tírá-lo da corda “por ordem superior”. há muitos que têm penas de quatro. escutávamos os cantos. O que você está dizendo é ilógico. é verdade. Não é a mesma coisa.. o máximo que um homem poderia resistir seriam seis meses. lá. E é de noite! Como não deve ser de dia. Se eu pudesse escolher. Um silêncio total. essas primeiras impressões. mas dá mesma família destas.. com a maior fidelidade possível. esses primeiros pensamentos que me .

De noite. cinco. Um. limpando-as da minha memória e afunando nestes grãos tão finos que até parecem de farinha. consigo facilmente sair do presente e mergulhar no passado. com a ajuda do cansaço. sentada de pernas cruzadas diante de mim. disporei de uma boa medida de tempo: primeiro turno. esse é gordo e baixo. em que Lali está pescando. Mexo na areia com os pés. aproximadamente. percebe-se até duas celas depois. Não é cem por cento silencioso. essa reação das minhas primeiras horas de enterrado vivo. vou até o mar para bochechar com essa água tão límpa e também tão salgada. e ela. observa-me. Por contraste com a escuridão da cela. Graças às quatro vezes por dia em que temos de abrir o postigo da porta. sentado na praia da minha tribo. Nem mesmo sei se existe a prisão. enrolado carinhosamente em uma folha de bananeira para conservar o calor. saberei. Como com a mão. três.ocorreram no contato inicial com a minha nova cela. incomparável. conhecendo a hora do começo do primeiro turno da guarda e a duração dele. dois.. Deve ser já tarde. Estou na cela. as horas. é a mudança da guarda. quatro. Depois. Zoraima traz um grande peixe assado nas brasas. O balofo está duas celas antes e ouve o barulho dos seus pés. nesse mar verde-opala. etc. se existe São José e as outras ilhas. Contínuo andando. segundo. como o outro. sinto-me em pleno sol.. Rolo na areia. Automaticamente. naturalmente. oscila a duzentos metros de mim. terceiro. O guarda anterior era alto e magro. O barco. continuo nessa caminhada interminável e. Faço concha com as mãos e . Caminho há muito tempo. adquirirei um relativo controlo do tempo. Que horas serão? Amanhã. Arrasta um pouco os pés. Fica feliz ao ver como vão decendo facilmente grandes pedaços de peixe e lê no rosto a satisfação de saborear uma comida tão deliciosa. com certeza. Ouço um murmúrio no meio da noite.

Zoraima é muito inteligente e não quis entrar enquanto. atira-se para cima de uma rede que está dobrada no chão e faz-me esquecer. castamente. como é costume quando sente prazer. nos encontrávamos. sorrindo. repetia-lhe uma palavra que. percebo que os meus cabelos estão muito compridos. cansados e nus. Tiro a tanguinha de Zoraima e ali na areia. . com gestos de pudica ternura. eu também. em pleno sol. Ela desce. Quando ela chegou. que o mundo existe. Nem sequer me deitei para ver através das pálpebras fechadas as cenas vividas. voltei àquele dia tão delicioso. Passei a noite inteira na aldeia guajira. sem dúvida. Quando Lali voltar. que começam a secar por obra do vento e do sol deste dia maravilhoso. Enquanto andamos enlaçados não deixa de me fazer entender: “Eu também. ela nos vê e percebe que estamos abraçados. pois a distância não é grande. Talvez o vento leve até Lali essa música amorosa. Durante o caminho de regresso. Andando sempre. vou pedir-lhe que corte o meu cabelo. Com o braço direito. Passo a noite toda com a minha tribo.passo-a no rosto. desfez as tranças e passou os dedos compridos pelos cabelos molhados. acariciado pelo mar. Depois. porque o barco volta logo para a praia. vivido há cerca de seis meses. deitados na rede. possuo-a. veste Lali e cobre-me com a minha tanga. deve significar qualquer coisa como “gulosa”. Na verdade. Caminho para ela. Ela geme langorosamente. deve ter-nos visto. não tínhamos acabado ainda de nos beijar. De qualquer maneira. sem qualquer esforço da minha vontade. que estamos fazendo amor. dentro dela. Não dormi nada. Esfregando o pescoço. em uma espécie de hipnose. segundo os seus cálculos.” Quando entramos. Veio sentar-se perto de nós e. dando pequenas bofetadas nas bochechas da irmã. envolve-me e puxa-me em direção à nossa cabana.

Para se lavar. como é que nos lavamos? . Soa uma apitadela. porque não sabe mas passas agora sabendo que não tem direito de falar com guarda. Essa agora! Não se pode falar com a sentinela? Por motivo nenhum? E se estivermos. mas fica quieto! “ Vinte vezes por dia. provocariam uma discussão qualquer para se desfazerem. Também não foi um médico quem estabeleceu o regulamento. para ouvir falar.Senhor guarda. um ataque de apendicite ou uma crise muito forte de asma? É proibido gritar por socorro aqui. Como vamos nos lavar aqui? . por qualquer razão. explodindo.Prisioneiro. ainda que não fosse para dizer: “Morre. quase morrendo? Uma crise cardíaca.escuridão da cela e expulsando essa espécie de neblina negra que me impede de ver o que está por baixo. se se colocar por baixo da bacia. Não desdobrou a coberta? . Escuto o barulho das camas que recolhem às paredes e o ruído que faz o meu vizinho.Dentro dela há uma toalha. o arquiteto e o funcionário. derramá-la com uma das mãos e esfregares-te com a outra. por hoje está perdoado. ao ajetar o leito. quando a resistência acaba e os nervos explodem.A luz apaga-se e percebe-se que o dia está chegando.Não. em meu dor. . duas dezenas destes duzentos e cinquenta homens. mesmo em caso de risco de vida? É o cúmulo! Mas não é. que estudou os pormenores da execução . As duas pessoas que fizeram o conjunto. Seria muito fácil armar um escândalo. não. pode verificar. da excessiva pressão existente dentro da cabeça deles. Quem teve a idéia de construir estas jaulas para leões não pode ter sido um psiquiatra: um médico não se desonraria a esse ponto. tirar a água com o jarro. invadindo a. que aqui devem estar. se não apanhas um castigo duro. Ele tosse e eu ouço um pouco de água caindo. Seria fácil fazê-lo para ouvir vozes. É normal. sofrendo muito.

da pena, são, ambos, dois monstros repugnantes, dois psicólogos viciosos e cruéis que odeiam sadicamente os condenados. Dos cárceres da Central de Beaulieu, em Caiena, por mais fundos que fossem, com dois andares de porões metidos terra adentro, ainda podia filtrar-se e, um dia, chegar a público o eco das torturas e dos maus tratos sofridos por alguns dos presos. A prova é que, quando tiveram de tirar as minhas algemas e as correntes que me prendiam até os polegares, vi no rosto dos outros sinais de medo; deviam, sem dúvida, recear vir a ter outros detentos. Aqui, nesta prisão, onde só entram funcionários da administração que estão muito tranquilos, nada lhes pode acontecer. Clac, clac, clac, todos os postigos se abrem. Chego perto do meu, arrisco uma olhadela e, depois, deito parte da cabeça de fora, esticando, logo a seguir, o pescoço. Olho à esquerda e à direita, vejo uma porção de cabeças no corredor. Imediatamente que, assim que os postigos se abrem, as cabeças se esticam para fora. O vizinho da direita lança-me um olhar inexpressivo. Está, sem dúvida alguma, pálido pela masturbação. É pálido e flácido, com uma pobre fisionomia opaca de idiota. O vizinho da esquerda diz pra mim, rapidamente: - Quanto tempo? - Dois anos.
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Eu, quatro. já completei um. Como se chamas? - Papillon. Eu, Georges, Jojo l'Auvergnat. Onde o prenderam? Em Paris. E você?

Não teve tempo de responder: o café, com o pedaço de pão, já estava chegando às duas celas anteriores. Ele recolheu a cabeça e eu fiz o mesmo. Estendo a caneca, enchem-na de café e depois me dão um pedaço de pão. Como não o apanho com suficiente rapidez, fecham o postigo e o pão rola pelo chão. Dali a menos de um quarto de hora já voltou o silêncio. Deve haver duas distribuições, uma em cada corredor, porque tudo está acontecendo depressa de mais. Ao meio-dia, dão-nos sopa com um pedaço de carne cozida e, à noite, um prato de lentilhas. Durante dois anos, esse cardápio só varia de noite: lentilhas, feijão escuro, ervilhas, creme de ervilhas, feijão branco ou arroz. A refeição do meiodia é sempre a mesma. De quinze em quinze dias, metemos a cabeça pelo postigo, e um preso, com uma máquina de cortar cabelo, raspa a nossa barba. Há três dias que estou aqui e algo me preocupa. Na ilha Real, os meus amigos disseram que me mandariam comida e cigarros. Não recebi coisa alguma. Gostaria de saber, aliás, como eles poderiam operar tamanho milagre. Por isso, não me surpreendo muito de nada ter recebido. Deve ser muito perigoso fumar e, de qualquer maneira, é um luxo. Comer, sim, torna-se vital, porque a sopa do meio-dia é água quente com dois ou três fiapos de folhas de verdura e um pedaço , de mais ou menos cem gramas de carne cozida. De noite, são feijões e alguns legumes secos, que aparecem boiando na água. Para ser franco, desconfio que não é a administração que deixa de nos dar uma refeição razoável, mas sim os presos que distribuem ou preparam a comida. isso me ocorre-me em uma noite em que um sujeito pequeno de Marselha está distribuindo os legumes: a concha vai até o fundo do caldeirão e, quando é ele, recebo mais legumes do que água. Com os outros, dá-se o contrário: mexem um pouco a mistura, mas enchem a concha na superfície, com poucos legumes e muita água. Esta. subalimentação é extremamente perigosa. Para se ter firmeza moral é necessária certa força física.

Estão varrendo o corredor, e acho que levam tempo de mais diante da minha cela. A vassoura passa insistentemente na base da porta e vislumbro um pedaço de papel branco aparecendo por baixo dela. Compreendo logo que meteram algo pelo intervalo entre a porta e o chão, mas não puderam colocá-lo direito e estão à espera de que eu puxe o papel antes de continuar a varrer o corredor. Puxo o papel, abro-o, é um bilhete escrito com tinta fosforescente. Espero que o guarda passe e leio à pressa: “Papi, todos os dias, a partir de amanhã, receberá cinco cigarros e um coco. Quando comer o coco mastigue-o bem para aproveitar tudo e engula o caroço. Fume de manhã, na hora da limpeza das latrinas. Nunca fume após o café da manhã, mas pode fazê-lo logo depois da sopa do meio-dia e de noite, quando acabar de comer os legumes. Junto deste bilhete vai papel e um lápis; quando quiser alguma coisa, peça por escrito. Assim que o varredor passar diante da porta, arranha a porta com os dedos; se ele também arranhar, empurra o bilhete. Nunca o passe antes de ele ter respondido ao sinal. Guarda o papel na orelha e o pedaço de lápis em um canto da cela, para não serem descobertos. Coragem. Um abraço. Ignace e Louis.” Eram Galgani e Dega que me mandavam a mensagem. Uma onda de calor subiu à minha cara: ter amigos tão fiéis e tão dedicados era algo que me confortava. Foi com mais fé no futuro e mais seguro ainda de sair vivo desta tumba que recomecei a minha caminhada, com passo vivo e cadenciado: um, dois, três, quatro, cinco, meia volta, etc. Caminhando, penso: que nobreza, que desejo de fazer o bem, existe nesses homens! É que eles se arriscam muito: um a perder o lugar na administração. o outro o cargo de responsável pela correspondência. De fato, é grande o que eles fazem por mim, sem falar que deve custar um pouco caro. Quantas pessoas precisaram subornar para fazer com que alguma coisa venha da Real até o meu cubículo na “devoradora de homens”! Leitores,

vocês precisam ter na mente o fato de que um seco está cheio de óleo. A sua polpa dura e branca tem que, se ralarmos seis cocos e os deixarmos em água que na manhã seguinte encontraremos na superfície um litro desse óleo, essa gordura cheia de vitaminas, é o que nos faz no regime alimentar. Um coco por dia não é saúde assegurada. Mas pelo menos, não me desidratarei, morrerei à míngua fisiológica. Hoje completo dois meses em novas condições, recebendo cocos e cigarros. Para fumar, uso precauções dos índio americanos: engulo profundamente o fumo e depois expiro-o aos poucos, abanando com a mão direita aberta em leque para que ele desapareça. - Ontem, sucedeu uma coisa curiosa. Não sei se agi bem ou mal. Um guarda, na passarela, deteve-se junto às grades, olhando para dentro da minha cela. Acendeu um cigarro, deu algumas fumaças e depois deixou-o cair cá para baixo, continuando o seu caminho. Esperei que tornasse a passar para esmagar ostensivamente o cigarro com o pé. Ele não se deteve por muito tempo: assim que percebeu o meu gesto, prosseguiu na sua caminhada. Teria pena de mim ou vergonha da administração (à qual pertence)? Ou seria uma armadilha? Não sei, e isso me preocupa. Quando sofremos, nos tornamos hipersensíveis. Se, durante alguns segundos, esse guarda quis ser um homem bom, eu não gostaria de tê-lo magoado com o meu gesto de desprezo. Já estou aqui há mais de dois meses. essa prisão, a meu ver, é o único lugar onde não se tem nada a aprender, porque não se pretende ensinar nada. Recorro, portanto, a mim mesmo. Tenho uma tática infalível. Para divagar com facilidade pelas estrelas e ver surgirem para mim diferentes etapas passadas da minha vida de aventuras ou da minha infância, para construir nas nuvens castelos espantosamente sólidos, preciso, antes, me cansar bastante, caminhar durante várias horas, sem parar, pensando normalmente em alguma coisa não importa qual. Depois, literalmente arrasado, deito-me na cama, ponho a cabeça sobre metade da coberta e cubro-a com a outra metade. O ar da cela - já por si

rarefeito - chega com dificuldade à minha boca e ao meu nariz, filtrado pela coberta. deve provocar-me uma espécie de asfixia nos pulmões e a minha cabeça começa a doer. O calor me sufoca, o ar falta, de repente, levanto voo. Ah, essas cavalgadas da alma, que sensações indescritíveis me proporcionaram! Tive noites realmente mais intensas que quando estava em liberdade, mais perturbadoras, com sensações ainda mais variadas que as autenticamente vividas no passado. Essa faculdade de viajar no espaço me permite sentar junto da minha mãe, morta há dezessete anos. Brinco com o seu vestido e ela acaricia os meus cabelos, que, nos meus cinco anos, eram compridos como se fossem de uma menina. Afago os seus dedos longos, tão finos, de pele suave como seda. Ela ri comigo do meu intrépido ímpeto de mergulhar no rio, tal como eu vira os outros garotos maiores fazerem no dia do passeio. Lembro-me de todos os pequenos pormenores do seu penteado, da ternura luminosa dos seus olhos claros e vivazes. Tomo a ouvir as suas palavras, doces e inebriantes: “Meu pequeno Riri, você deve ser muito sensato e muito inteligente para que a sua mãe possa gostar de você durante muito tempo. Mais tarde, também mergulhará no rio de uma altura bem grande, mas agora, você ainda é muito pequeno. Espere um tempo, crescerá rapidamente e o dia em que será um homem chegará depressa, até depressa demais.” De mãos dadas, caminhando ao longo do rio, voltamos par casa. Vejo-me, realmente, na casa da minha infância, de um modo tão concreto que ponho as duas mãos sobre os olhos da minha mãe para impedi-la de ler a música e de continuar tocar piano para mim. Não é imaginação, não, estou aqui. Estou em cima de uma cadeira, colocada atrás do banquinho onde ela se senta e escondo resolutamente os seus olhos grandes com as minhas mãos pequenas. Os seus dedos ágeis, contudo, continuam a se mover sobre o teclado e a arrancar-lhe notas para me fazer ouvir “A Viúva Alegre” até o fim.

Nem você, promotor desumano, nem vocês, policiais de duvidosa honestidade, nem Polein, esse miserável que comprou sua liberdade pelo preço de um falso testemunho, nem os doze palermas do júri, que foram suficientemente cretinos para aceitar a tese da acusação e a sua maneira de interpretar as coisas, nem os guardas da prisão, dignos associados da “devoradora de homens”, ninguém, absolutamente ninguém, nem grossos, nem a distância a que se acha essa ilha perdida do Atlântico, nada, absolutamente nada, coisa alguma material impedirá as minhas viagens deliciosamente levadas pelo tom róseo da felicidade, quando eu levanto voo e me dirijo para as estrelas. Há pouco, quando fazia contas ao tempo em que deverei sozinho comigo mesmo, enganei-me, pois só considerei as horas. Foi um erro. Há momentos que precisam ser medidos em minutos. Por exemplo, depois da distribuição do pão quando chega o momento de esvaziar os baldes dos dejetos mais ou menos uma hora após a comida. Depois de devolverem-me o balde vazio, ele traz o coco, os cinco cigarros, às vezes, um bilhete fosforescente. Não é sempre, é muito comum que, nessa ocasião, eu conte os minutos, pois controlo o tempo de cada passo, de modo a de um segundo, e o meu corpo serve de pêndulo. Ao dar volta, digo mentalmente: um. Doze idas ou vindas perfazem-se num minuto. Não pensem que fico ansioso por saber se vem o coco, que se tornou vital para mim, se receberei os cigarros, que me dão o prazer inefável de poder fumar dez por dia no interior deste túmulo, pois parto-os ao meio. Não. Às vezes, uma espécie de angústia invade-me na hora do café e tenho medo, sem qualquer razão particular, pelas pessoas que, arriscando a sua tranquilidade, me ajudam tão generosamente, temo que lhes aconteça alguma coisa. Fico na tentativa e só me sinto aliviado quando vejo o coco. Se ele veio, é sinal de que tudo corre bem para eles.

Lentamente, muito lentamente, vão passando as horas, os dias, as semanas, os meses. Há quase um ano que estou aqui. Há exatamente onze meses e vinte dias que não converso com ninguém, a não ser algumas palavras trocadas à pressa, mais murmuradas que articuladas, em menos de quarenta segundos. Tive, porém, oportunidade de trocar palavras em voz alta. Tinha-me constipado e tossia muito. Pensando que isso justificaria uma saída do cubículo para ir ao médico, solicitei a sua presença. Chega o médico. Com grande espanto meu, abre-se o postigo da porta e, através dele, aparece uma cabeça. - Que tem você? Está doente? É uma bronquite? Vire-se. Tussa. Parece mentira, mas não é. É verdade pura. Acreditem. Havia um médico da colônia disposto a examinar-me através do postigo de uma porta, dizendo que me virasse a um metro de distância, para que ele, com a orelha no postigo, me auscultasse. Depois, ordenou-me: - Ponha o braço de fora. Maquinalmente, eu ia obedecer, quando, por uma espécie de respeito próprio, digo a esse estranho médico: - Obrigado, doutor. Não é preciso incomodar-se. Não vale a pena. Pelo menos, tive a força de caráter necessária para fazê-lo compreender que não levava o seu exame a sério. - Como quiser - teve o cinismo de me responder; e partiu. Felizmente, pois eu estava prestes a explodir de indignação. Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Caminho, caminho, incansavelmente, sem parar, com raiva, e as minhas pernas estão tensas, em vez de relaxadas, como é de hábito. Depois do que acaba de acontecer, diria que tenho necessidade de dar um pontapé em

qualquer coisa. Mas em quê? Sob os meus pés, só há cimento. Mas dou pontapés em muita coisa, enquanto faço a minha caminhada. Na fraqueza desse idiota que, pelas boas graças da administração, se presta a atos tão deploráveis; na indiferença de uma classe de homens em face do sofrimento e dor de outra; na ignorância do povo francês e na sua falta de interesse ou de curiosidade em saber para onde vão e como são tratados os homens que constituem a carga embarcada de dois em dois anos em Saint-Martin-de-Ré. Dou um pontapé nos jornalistas dos assuntos policiais, que, acerca de determinado crime, escrevem artigos escandalosos sobre um homem e meses depois já nem sequer se lembram de que ele existe; nos padres católicos, que ouviram confissões, sabem o que está acontecendo nas prisões francesas do exterior e calam-se; no sistema processual, que se transforma em competição oratória entre quem acusa e quem defende. Finalmente, dou um pontapé na Liga dos Direitos do Homem e do Cidadão, que não ergue a voz para dizer: parem com essa guilhotina branca, suprimam o sadismo coletivo que existe nos empregados da administração; em todas as organizações ou associações que nunca interrogam os responsáveis por esse sistema para lhes perguntar como e porquê, no caminho da degradação, desaparecem, era cada dois anos, oitenta por cento dos que o povoam; nos atestados de óbito da medicina oficial: suicídios, doenças psicológicas, morte por subalimentação contínua, escorbuto, tuberculose, loucura furiosa, senilidade precoce. A que me falta ainda dar um pontapé? De qualquer maneira, depois do que acaba de acontecer, não estou em condições de caminhar normalmente: parece que, a cada passo, esmago alguma coisa. Um, dois, três, quatro, cinco... Transcorrendo lentamente, as horas aplacam, pela fadiga, a minha revolta muda. - Mais dez dias e terei cumprido exatamente metade da pena de reclusão. Na verdade, é um belo aniversário, digno de ser festejado, pois, descontada essa gripe forte, sinto-me de boa saúde. Não estou maluco, nem em vias de

enlouquecer. Estou seguro, cem por cento seguro, de que sairei vivo e equilibrado do ano que vai começar agora. Acordo ouvindo vozes abafadas. Escuto: - Ele está completamente inteiriçado, senhor Durand. Como foi que não percebeu antes? - Não sei, chefe. Como ele ficou pendurado no canto da barra da janelinha, que dá para a passarela, passei por ali várias vezes sem o ver. - Não tem importância. Mas o senhor deve reconhecer que é ilógico o fato de não ter notado. O meu vizinho da esquerda se suicidou, pelo que eu percebi. Retiram-no. A porta fecha-se. Cumpriram o regulamento com todo o rigor, pois a porta abriuse e fechou-se na presença de uma “autoridade superior”, o comandante da prisão, cuja voz pude reconhecer. É o quinto que desaparece à minha volta, nestas últimas dez semanas. Chega o dia do aniversário. Na bacia, vem uma lata de leite condensado Nestlé. É uma loucura dos meus amigos. Custou, com certeza, caríssima e deve ter-lhes acarretado riscos graves até chegar às minhas mãos. Tive um dia de vitória sobre a adversidade. Prometi então a mim mesmo que não levantaria voo para outras paragens. Estou aqui, na prisão. Já passou um ano desde que cheguei e sinto-me capaz de empreender a fuga amanhã mesmo, se tiver oportunidade. É uma verificação positiva e sinto-me orgulhoso de fazê-la. Pelo varredor da tarde - coisa inusitada - chega um bilhete dos meus amigos: “Coragem. Só resta um ano por cumprir. Sabemos que está bem de saúde. Nós também, normalmente, e um abraço. Louis e Ignace. Se puder, manda imediatamente algumas palavras pelo portador de agora.”

No pequeno papel branco que veio junto com o bilhete, escrevo: “Obrigado por tudo. Estou forte e espero continuar bem, graças a vocês, durante o outro ano. Podem me dar notícias de Clousiot e Maturette?” De fato, o varredor volta e arranha a minha porta. Passo-lhe o papel, que desaparece logo. Durante todo esse dia e parte da noite, fico com os pés em terra firme, na situação em que várias vezes já tinha prometido a mim mesmo que iria permanecer. Dentro de um ano, serei mandado para uma das ilhas. Real ou São José? Vou embriagarme de fumo e de conversa e irei logo tratar de combinar a próxima fuga. Com confiança no meu destino, enfrento a manhã do primeiro desses trezentos e sessenta e cinco dias que me restam por cumprir. Tinha razão para estar confiante, no respeitante aos oito meses que se seguiram. No nono mês, entretanto, as coisas se arruinaram. De manhã, na hora da limpeza dos baldes, o portador foi surpreendido com a mão na massa, no momento em que me passava o balde no qual pusera o coco e os cinco cigarros. O incidente era tão grave que durante alguns minutos a regra do silêncio foi esquecida. Ouvi claramente as pancadas recebidas pelo desgraçado e, em seguida, percebi o ruído de um homem estertorando, como se estivesse a morrer. O postigo da minha porta abriu-se, e a cabeça congestionada de um guarda gritou-me: - Você não perde nada pela demora! - Pode vir, canalha! - respondi-lhe, tenso, por ter ouvido o tratamento dispensado ao infeliz que me ajudava. Isso ocorrera às sete horas. Foi somente às onze que uma delegação, chefiada pelo subcomandante, me veio buscar. Abriram-me então a porta que há vinte meses se fechara à minha passagem e desde essa altura nunca fora aberta. Fiquei no fundo da cela, empunhando a caneca, em atitude de defesa, decidido a lutar enquanto pudesse, por duas razões: primeiro, para que alguns guardas

não me batessem impunemente, depois, para ser morto mais depressa. Não houve nada disso. Disseram: - Prisioneiro, saia. - Se é para me baterem, fiquem sabendo que me defenderei e que, portanto, não sairei daqui para ser atacado por todos os lados. Aqui, estou em melhores condições para rebentar com o primeiro que me tocar.
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Charrière, nós não lhe vamos bater. Quem garante? Garanto eu, o subcomandante da prisão. E você tem palavra?

- Não me insulte, que é inútil. Dou-lhe a minha palavra de honra que ninguém baterá em você. Agora saia. Olho para a caneca, que continuo a empunhar. - Pode guardá-la, não precisará dela. - Está bem. Saio e, entre seis guardas e o subcomandante, percorro todo o corredor. Ao chegar ao pátio, a cabeça começa-me a andar à roda e sou obrigado a fechar os olhos, feridos pela luz. Finalmente, consigo ver a divisão onde fui introduzido. Está presente uma dúzia de guardas. Sem me empurrarem me fazem entrar na sala da administração. No chão, ensangüentado, está um homem que geme. Em um relógio de parede vejo que são onze horas, e penso: “Há quatro horas que torturam esse desgraçado.” O comandante está sentado atrás da sua secretária, com o subcomandante a seu lado. - Charrière, há quanto tempo recebe comida e cigarros? - Aquele ali já lhes deve ter dito.

- Estou perguntando para você. - Sou amnésico, nunca me lembro do que acontece na véspera. - Está brincando comigo? - Não. É estranho que isso não conste da minha ficha. Sofro de amnésia desde que levei uma pancada na cabeça. O comandante fica tão surpreendido com essa resposta que diz: - Perguntem para Real se existe alguma referência a isso na ficha dele. Enquanto telefonam, ele continua: - Mas lembra-se de que se chama Charrière? - Lembro-me. (E, rápido, para desconcertá-lo ainda mais, Passo a falar como um autômato.) O meu nome é Charrière, nasci em 1906, na Ardèche, e fui condenado a prisão perpétua era Paris, no distrito do Sena. Ele abre os olhos de tal maneira que ficam redondos como duas bolas de borracha; sinto que o desorientei. - Hoje de manhã recebeu o café e o pão? - Recebi. - Que foi que comeu ontem à noite? - Não sei. - Então, quer dizer que não tem memória? - Do que aconteceu, não me recordo, mas lembro-me das fisionomias. Por exemplo, sei que foi o senhor quem me recebeu, um dia. Quando, não sei. - Então, ignora quanto tempo de pena ainda lhe resta por cumprir? - Da prisão perpétua? Acho que é até morrer. - Não. Estou a falar da sua pena de prisão disciplinar.

- Fui condenado a uma pena de prisão disciplinar? Porquê? - Ah, isso e o cúmulo! Por Deus! Ainda acabo de perder as estribeiras. Não me venha dizer que não sabe que está aqui para cumprir uma pena de dois anos de prisão disciplinar por ter fugido, ora essa! Agora é que vou acabar com ele: - Por ter fugido? Eu? Comandante, sou um homem sério, capaz de assumir a responsabilidade do que faço. Venha comigo visitar a minha cela e verá se fugi. Nesse momento, um guarda diz-lhe: - Estão no outro lado da linha, comandante. esse pega no telefone: - Não há nada? É estranho. Ele diz que sofre de amnésia, causada por uma pancada na cabeça. Claro, é um simulador. Quem pode saber? Bem, desculpe, comandante, vou verificar. Até já. Irei informá-lo logo, sem falta. - Venha cá, seu trapaceiro, mostre-me a cabeça. Ah, de fato, há aqui uma cicatriz bem grande. Como sabe que não tem memória depois dessa pancada, hem? Explique isso. - Não explico, apenas me lembro de ter levado essa pancada, de que me chamo Charrière e de algumas outras coisas. - E já pensou no que vai acontecer agora com você? - É o que nós estamos discutindo. O senhor perguntou-me há quanto tempo me dão comida e cigarros. A minha resposta definitiva é esta: não sei. Pode ser a primeira vez, pode ser a milésima. Sofro de amnésia, não consigo responder. É tudo o que posso dizer. O senhor faça como quiser. - É simples. Você comeu demais durante muito tempo, e agora vai emagrecer um pouco: a sua refeição da noite fica suprimida até o final da pena.

Neste mesmo dia, recebi um bilhete pelo segundo varredor. Infelizmente, não consigo lê-lo, porque não está escrito com tinta fosforescente. De noite, acendo um cigarro que sobrara e que escapara à busca, porque estava bem escondido na cama. Avivando-lhe a brasa, consigo decifrar: “O sujeito do balde não falou. Disse que era a segunda vez que te dava comida e que agia por conta própria, porque o conheceu na França. Ninguém teve problemas em Real. Coragem.” Bem, aqui estou eu, sem coco, sem cigarros e, de agora em diante, sem notícias dos meus amigos da ilha Real. Além disso, sem jantar. Já havia me habituado a não passar fome, e os cigarros me ajudavam a encher o dia e uma parte da noite. Não penso em mim, lembro-me somente do pobre diabo que os guardas quase mataram à pancada por minha causa. Esperemos que não lhe tenham dado um castigo cruel demais. Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta... Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Vai ser difícil suportar esse novo e monstruoso regime. Não será preciso mudar de tática, já que vou comer tão pouco? Por exemplo: ficar deitado o máximo possível de tempo, para não gastar energias. Quanto menos me mover, menos calorias queimarei. Sentarei muitas horas durante o dia. Tenho que aprender uma outra forma de vida. Quatro meses são cento e vinte dias, eis o que me falta passar aqui. No regime em que acabam de me pôr, em quanto tempo ficarei anêmico? Não antes de dois meses, acredito. Portanto, tenho diante de mim dois meses cruciais. Quando estiver bem fraco, as doenças terão um terreno maravilhoso para me atacar. Resolvo ficar deitado desde as seis da tarde até as seis da manhã. Da hora do café à da limpeza dos baldes poderei andar mais ou menos duas horas. Ao meio-dia, depois da sopa, mais duas horas, aproximadamente. Ao todo, quatro horas de caminhada. O resto do tempo passo-o sentado ou deitado.

entre os quais Antônio de Londres. no Rat Mort. Falta um mês. e com tamanha nitidez que não duvido da presença deles. Já faz dez dias que dura esse regime. às vezes. da minha cela. Todos os meus amigos desfilam nessa viagem imaginária. portanto. Obtenho bons resultados. na própria hora em . As imagens do passado tiram-me da cela com tamanho vigor que acabo realmente por viver mais horas em liberdade que recluso. depois de ter ficado um bom tempo pensando nos meus amigos e no infeliz que foi tão maltratado. Ontem. no Marronnier. estive em Paris. tantas horas sem funcionar. O estado de fome permanente em que me acho origina que. no nosso meio. para um público inteiramente composto de corsos e marselheses. na Avenida Saint-Ouen. virtualmente. eu estava em Paris. Agora estou sempre com fome e apoderouse de mim um cansaço constante. bebendo champanhe com alguns amigos. Ontem. endêmico. nascido nas ilhas Baleares. alcanço o mesmo resultado que quando procurava cansar-me. ele matara um dos seus amigos. Hoje. nem da minha. Rua de Clichy. De manhã. e faz já três que absorvo apenas um pedaço de pão e uma sopa quente ao meio-dia.Será difícil levantar voo para outras paragens se me sentir depauperado de forças. O coco faz muita falta e os cigarros também. somente com um pedaço de carne cozida. Sem andar muito. mas falando francês como um parisiense e inglês como um autêntico londrino. e com esse regime alimentar drástico. nos lugares onde passei noites tão alegres. vamos a ver como me aguento. em ódio mortal. de fato. as amizades transformam-se. começo a treinar para me adaptar à nova disciplina. sem legumes. Enfim. dançando ao som do acordeão que toca no baile do Petit Jardin. embora as horas me pareçam mais longas e sinta nas pernas. São coisas que acontecem. um formigueiro constante. Deito-me cedo e logo fujo.

corto-o em quatro pedaços mais ou menos iguais e. Comi.isso é. como um às seis horas da manhã.e nesse ponto triunfaste .” Depois das minhas duas horas de caminhada. sento-me no bloco de cimento que me serve de banco. mas não doente. finalmente.“Não seja tão pretensioso. Mais trinta dias vão passar . “Porque fez isso?”. como ocorre com certa freqüência. outro ao meio-dia. o comandante não dará importância ao fato de se ter enganado. Habitualmente. Os seus dois anos de prisão disciplinar terminaram.“É que estou com fome e sinto-me sem forças. que recebi durante vinte meses. tenho que continuar friamente a representar. Como poderia sentir-te forte comendo o que comes? O essencial . outro às seis da tarde e o último à noite. eu examine a carne.”. esse calvário de dois anos.é que está fraco. estou sentindo-me muito nervoso. Não! Se é o comandante para quem fingi ser amnésico. O que significa um engano desses para uma mentalidade assim? Não terá a pretensão de deixá-lo com remorsos por ter . “Quando já está chegando ao final é que começa a fraquejar tanto?” .que me servem. foi essencial para a conservação da saúde e do equilíbrio nesta terrível provação.” . hoje de manhã. a porta vai se abrir e vão me dizer: “Prisioneiro Charrière. metade do meu pão. coisa que nunca faço. setecentas e vinte horas . de uma só vez. “Que é que você tem. caramba?!” Injustiça ou não. sozinho. Emagreci bastante e percebo claramente como aquele coco.” O que lhes direi então? Talvez: “Terminei. Depois de ter bebido o meu café. depois. Perguntarei: “Quer dizer que estou livre? Vou partir para França? Acabou a minha pena de prisão perpétua? “ Só para ver a cara dele e convencê-lo de que o jejum a que me condenou foi uma injustiça.e. é lógico que a “devoradora de homens” acabe por perder a partida. recrimino-me. saia. para ver se não é apenas pelanca. Com um pouco de sorte.

“Com toda a sinceridade. muito fraco. prefiro ser um condenado a ser um desses carcereiros. De um. se ele professar alguma religião. tanto como amanhã. Há uma barricada bem definida e cada um está de seu lado. Nenhum homem digno desse nome pode pertencer à corporação dos torturadores.” Faltam só vinte dias. até a serem crápulas. o temor de Deus o fará se arrepender e se angustiar. eu e os homens da minha espécie. mas é com dificuldade que consigo passar as vinte e quatro horas de cada dia. Tenho medo de ficar doente. está proibido de supor que um carcereiro é um ser normal. As pessoas habituam-se a tudo na vida. não me esforço para sonhar com coisa alguma. Arranham a minha porta. Sinto-me. recolho um bilhete fosforescente mandado por Dega e Galgani. Talvez somente perto da sepultura. Procuro reagir. Observei que o meu pedaço de pão é sempre dos menores. isso está se tornando em uma obsessão para mim. do outro. portanto. a bondade. leve desde já a convicção de que não pode ter compromisso algum com essa raça. que certamente cometeram delitos graves. Rapidamente. mas nos quais o sofrimento conseguiu criar qualidades incomparáveis: a piedade. a prepotência.me castigado injustamente? Hoje. acordado. não por um verdadeiro remorso das canalhices cometidas. o espírito de sacrifício. Leio: “Escreva . “A qualquer ilha que chegue. realmente. Quem pode ser tão canalha a ponto de querer me prejudicar até na seleção dos pedaços de pão? Há vários dias que a minha sopa é pura água quente e o pedaço de carne é sempre um osso com pouquíssima carne ou um resto de pele. a autoridade pedante e desalmada. mas sim pelo medo de que Deus o transforme em condenado. o sadismo de reações intuitivas e automáticas. a nobreza. Estou tão fraco que. a coragem. essa profunda lassidão e uma depressão grave me inquietam.

Eles têm razão: mais dezenove dias e chegarei ao fim desta corrida exaustiva contra a morte e contra a loucura. passo também deitado as outras doze.” Há um pedacinho de papel branco e outro de lápis preto. Mais dezenove dias. Estou passeando pelas ruas da Trinidad. que acompanham as canções tristes dos javaneses37. na Oceania. À noite. Assim passo mais dez dias.Desce aqui ao meu cubículo. se adoecer.. .Cala a boca ou leva um castigo para aprender . É o único modo de aguentar. Escuto: . me traz de volta à realidade.” Quando a vassoura passa novamente e arranha a minha porta. para gastar apenas as calorias indispensáveis. quando um grito horrível. Louis. então. passo doze horas deitado. sem me mexer. em seguida. É um grito que vem de uma cela atrás da minha ou. 37 relativo à ilha de Java. o médico será certamente influenciado pelos meus amigos para me tratar como deve. levanto-me e faço algumas flexões e movimentos com os braços.4shared . porque a falta de luz não o deixa ver bem. Aquela mensagem foi mais importante para mim que quaisquer cigarros ou cocos. Coragem. Ignace. no banco de pedra. mando o bilhete..diz o guarda. Essa maravilhosa manifestação de amizade firme é o estímulo de que precisava. de dia. inumano. Papi. Lá fora sabem como eu estou e. muito próxima. Devo fazer o mínimo possível de movimentos. ou o que é seu natural ou habitante (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. Escrevo: “Aguento a parada.com) . Estou muito fraco. embalado pelo som dos violões de uma corda só. Muito preocupados com o seu estado de saúde. canalha! Não está cansado de olhar para mim aí de cima? Assim perde metade do espetáculo. Obrigado. torno a me sentar. De vez em quando. Não cairei doente.um bilhete. ou então sentado. Vou suprimir as duas horas da caminhada matinal e as outras duas da do meio-dia.

a porta da cela dele se abre e ouço: . como quiser seus filhos da puta! Podem vestir ao contrário. vocês só podem ser uns filhos de merda! Devem-lhe ter colocado uma mordaça. -resmunga: ..Podem me vestir com a camisa de força. Mas você e todos os seus companheiros não passam de bonecos podres de merda! Pouco depois. mas nada será pior que esse silêncio em que vocês querem obrigar-me a viver! Não.Bem. se é do seu agrado. Tenho ainda dez dias. isso é.Deve ter enlouquecido. que é muito mais eficiente! E o pobre prisioneiro continua: . não me faça rir. um porco sujo! A minha sina foi esperar trinta e seis meses. porque. assim não! Veste ao contrário. com medo de ser punido. duzentas e quarenta horas para sofrer. para me fazer regressar à triste realidade da prisão. O guarda fica estupefato e. carrasco idiota. Há três anos que já quero dizer: você é um merda. quero falar.Não. apertar os laços.Acha? Mas o que ele disse é muito sensato. ao prosseguir a sua caminhada. não ficarei mais tempo calado. imbecil! Que castigo pode ser pior que esse silêncio? Castiga quanto quiser! Pode me bater. Esse incidente me tirou da ilha. parece que você vai acabar da mesma maneira que o outro. Essa cena parece ter emocionado jovem guarda. alguns minutos depois. dos violões. pois não ouço mais À porta fechou-se de novo. . isso não me impedirá de dizer que as suas mães eram umas putas baratas e que.Ah. . para dizer o nojo que você me dá. pára diante da minha cela e comenta: . por isso mesmo. do meio dos hindus de Porto de Espanha.

o meu corpo requer apenas um pouco mais de força física para voltar a funcionar com perfeição. em todos os aspectos. condenaram-me a prisão perpétua. estou certo que vou partir. talvez porque os dias são tranquilos. talvez por causa do bilhete dos meus amigos. Uma só vez a porta foi aberta. mas tenho apenas vinte e oito anos. estou fraco. em menos de seis meses. com frequência. a dois metros. Falou-se muito da primeira. A sua revolta permitirá que lhe apliquem tratamentos estudados com o maior rigor para o matar. No entanto. mal vestidos. a fim de que ele me punisse. olhando a multidão que corre para pegar o ônibus ou o metropolitano. o moral e a energia. do outro lado da parede. . Creio. que é a da violência. Não sobreviverá por muito tempo. Esta é a última noite que passo na prisão. há um prisioneiro que entra na primeira fase da loucura. Tudo na vida é. com as mãos azuladas pelo frio da manhã. Faltam duzentas e quarenta horas para me libertar desta reclusão. bem agasalhados e bem calçados. no inverno. e mesmo assim para me conduzirem diante do comandante. Consigo sentir-me mais forte porque o outro foi derrotado. A segunda vai ficar gravada nas pedras da cadeia. vêem passar os trabalhadores enregelados. o mais cientificamente possível. estou condenado a dez anos. mas Papillon apanhou prisão perpétua. A sensação me permite que eu me pergunte se não serei um daqueles egoístas que. mas o meu cérebro encontrase intacto. “De fato. que me sinto mais forte em virtude de uma comparação. Antes de seis meses. espero que a saúde. troquei monossílabos com o meu vizinho. feito de comparações. ainda usufruem com maior gosto da comodídade e sentem-se melhor que antes. aqui atrás.” Bem. Fora isso. Não tenho dúvida. Alguns segundos por dia. estou chegando ao fim da pena e. talvez pela pior porta.A tática de não fazer movimentos dá bons resultados. e. Há dezessete mil quinhentas e oito horas que entrei na cela 234. ao passo que ele tem cinquenta. contudo. me deixem em uma boa situação para uma fuga espetacular.” “De fato.

falaram comigo quatro vezes: uma. outra vez. uma conversa mais longa e movimentada com o comandante. cheirando como um cadáver. se me desmascarar diante do comandante. depois. formado em um verdadeiro esqueleto. da Prisão Disciplinar de São José. e Clousiot. No entanto. É isso que considera ser livre? Sei muito bem. Siga-nos. lívido. vejo Maturette. Não foram diversões excessivas. Dentro de quatro completarei trinta anos. tussa”. As minhas pernas mancam e manchas negras dançam diante dos meus olhos. pela lei. no primeiro dia. amanhã verei o Sol e. com o rosto cavado olhos encovados. você acabou de cumprir a sua pena. Abre-se a porta. No caminho. hoje saio. para me dizer que. Como estarão Clousiot e Maturette?” Às seis horas. pensando em uma única coisa: amanhã essa porta se abrirá definitivamente. Começo a dar gargalhadas. respirarei o ar do mar. Chegando ao edifício da administração. dão-me o café e o pão. Comi o meu pedaço de pão. quatro palavras trocadas com o guarda que se emocionara diante do preso enlouquecido. eu devia baixar logo a cama. a sua prisão perpétua. mas é uma vida que não se compara com a que acabei de suportar aqui. outro dia. ao ouvir o apito. caminhei apenas cinquenta metros. .” Recordo-me de que sou “amnésico” e que. Durmo tranquilamente. Sinto uma espécie de fraqueza. trinta deles ao sol. foi o médico: “Vire-se. Quatro horas. ele pode me dar um castigo adicional de trinta dias. amanhã estarei livre. estamos em 26 de junho de 1936. me darão certamente algo pra comer. livre? Amanhã recomeçará a sua pena de trabalhos forçados. “Como. Tenho vontade de dizer: “Vocês estão enganados.Charríère. por fim. No pátio. devo sair hoje. o sol é suficientemente brilhante para mim. 26 de junho de 1936. De qualquer modo. se me mandarem para a ilha Real. Penso: “Os meus amigos . deitado em uma padiola. Aparece o subcomandante com dois guardas.

Na sua escreverei: “Má conduta”.Não fales assim! . o que era mentira. Diz: . Estou morrendo. Ele olha-me com dois olhos brilhantes e sorri. Quero dizer a eles que a reclusão terminou.Sinceramente. Beijo o rosto de Clousiot. Vou anotar na ficha deles: “Boa conduta”. Estarei eu também como eles?” Sinto-me ansioso por me ver ao espelho. . Chega o comandante: .Estamos . .Sob que ponto de vista? No que se refere à comida? O mesmo de sempre.Ai. Digo-lhes: -Então? Como vai? Estão bem? Não respondem. Você. comandante. não. Repito: . morreu no hospital da ilha Real. e fora preso com vinte.Você não se lembra do caso dos cigarros e do coco? . .Adeus.Desculpe.Estão bons? . Maturette e Clousiot portaram-se bem. Tinha trinta e dois anos. Você cometeu uma falta grave.Tragam os presos aqui para dentro.responde debilmente Maturette. isso é o cúmulo! Que foi que comeu ontem à noite? . mas qual foi a falta que eu cometi? . por ter roubado uma bicicleta.parecem com um terrível aspecto. desde que cheguei aqui. Papillon. que regime tem você já há quatro meses? . Charrière. Alguns dias depois. não.Falo. sim.Bem. . que já temos o direito de conversar.

austera e selvagem.Vamos. Peço licença ao guarda para me sentar por alguns minutos. Não fiz nada que desmerecesse esse conceito. e a do Diabo. Escreverei “boa conduta”. Escoltados por um único guarda. A vida em Real . sem reparar damos as mãos uns aos outros.Está bem e é justo. está bem? .Não. A grande porta da prisão abre-se para nós passarmos. Acho que foi feijão. Mas não anotarei “má conduta”. nós dois adiante. um à esquerda e o outro à direita de Clousiot. bem lentamente. Foi com essa frase que nós saímos do gabinete. com o verde da vegetação e o vermelho dos tetos. ou talvez legumes. faça uma nova ficha de saída para Charrière. Ele autoriza. e automaticamente. É preciso descer. sem dizer nada. Vemos o mar. Esse contato produz uma emoção estranha. E lentamente. Desisto. O costume. O guarda fala: . rapazes. Não me lembro.. vamos até o campo. com seus reflexos brilhantes e prateados da espuma. de mãos dadas.Mas deram-lhe comida ontem à noite? Você comeu? . seguidos pelo guarda e pelos dois enfermeiros. Em frente fica a ilha Real. descemos lentamente pelo caminho que leva ao campo.Não sei. Nos sentamos. que transportam o nosso amigo agonizante. . não é isso. Guarda. nos beijamo no rosto.Claro que comi! O senhor acha que eu vou desperdiçar comida? . ou arroz.

Agradecemos-lhes. apesar dos seus protestos. todos os forçados se despediram de nós e nos desejaram boa sorte. e contarei. Maturette e eu temos diante de nós uma dúzia de maços de cigarros e de tabaco. dê-lhe as minhas vitaminas. O enfermeiro dá a Clousiot uma injeção de óleo canforado e uma adrenalina para o coração. Ao meio. exceto quando eu me aproximava dele e lhe punha a mão na testa. Em alguns minutos. café com leite muito quente. Um negro muito magro diz: . . Vão os três. Mas já sabe que vou para Real? . o contabilista disse. a maca com Clousiot. do outro eu. descemos. que é deveras interessante. Reencontro Pierrot le Fou. abria os olhos jà velados e dizia-me: . eu tenho. .Precisa de dinheiro? Tenho tempo de pedir antes de você partir para Real. Colondini. O vigilante diz para nós que temos de ir os três à enfermaria. Jean Sartrou. a sua história. As duas horas na enfermaria passaram depressa.Enfermeiro. À porta do campo. É verdadeiramente comovedora essa prova de solidariedade conosco. Comemos e bebemos bem. Então. nós somos verdadeiros amigos. Pierrot le . ele precisa mais que eu. Creio mesmo que para o hospital. partimos para Real.Sei. Pierre le Bordelais diz para mim: . Depois vim a conhecê-lo muito bem. Chissilia. Sempre com um único vigilante. fomos alvo da amável atenção dos forçados. Chama-se Essari.respondi eu. mais tarde. montanhês. Clousiot esteve todo o tempo de olhos fechados.Caro Papi. Saciados e contentes.Não. E é escoltados por vinte homens que atravessamos o pátio para entrar na enfermaria. O enfermeiro é um libertino corso. muito obrigado. Todo mundo quer nos oferecer qualquer coisa. chocolate feito com cacau puro. nós somos irmãos . de um lado Maturette.Mais do que isso.Assim que chegámos ao campo.

fazia já quatro meses. Chapar diz para mim: . . Maturette também recebeu uma. Um vigilante vem a seguir a nós. nos hospitalizaram. a mais importante das trilhas. mas não abriu a boca. Com quê? . Bem. Percebo então que foram os forçados enfermeiros Essari e Fernandez quem.Então. . de cigarros. No entanto. . Papi? Recebeste sempre o coco? . Um dos remadores é Chapar. Seis remadores. ambos com pulseiras de couro para poderem fazer força. esse sol da tarde é muito forte. parece que lhe rebentaram o fígado com um pontapé. dois vigilantes armados de carabina na retaguarda e outro ao leme.Segundo um enfermeiro. com alguns papéis na mão. em Marselha. perturba e aquece muito. impecavelmente vestidos de branco.Que é que lhe aconteceu? . . Só conhecia a mim. seguimos atrás deles. O salva-vidas se aproxima. portou-se bem. levantaram Clousiot como se fosse uma pluma e nós. Nem sabe quem é que lhe deu. Passam-nos a cada um uma ficha para o hospital de Real. sem consultar o médico.Fou pôs-me ao pescoço um saco cheio de tabaco.Não é possível. Maturette e eu. Só o enfermeiro Fernandez e um vigilante nos acompanham ao cais. Um vigilante pede dois maqueiros.Eu sei. de chocolate e de caixas de leite Nestlé. do caso da Bolsa. Os remos entram na água e. Desembarcamos no cais de Real.Morreu. No relógio da padaria são três horas. Dois forçados robustos.Não. lá estamos a caminho. o cara foi descoberto. sempre remando.

Meu velho Papí! Maturette pega-lhe-na mão. do lado da cabeça de Clousíot. ele sorri. quem é? .4shared .Então. em uma sala muito grande e bem iluminada. perto da chegada.É você. Aproximamo-nos do comandante Barrot. vemos. diante de um edifício quadrado e branco. é feito de calhaus38 e difícil de subir. abre os olhos e diz para mim: . por alcunha o “Coco Seco”. o calabouço não foi muito duro. e passo-lhe docemente a mão pela testa e pela cabeça. pois não? E esse da maca. instalaram-nos em camas muito limpas. Cada vez que o faço. 38 Rip as d e m ad eira. . Em uma paragem. Ele está com um ar inefavelmente feliz por nos sentir perto dele.com) . as mais altas autoridades das ilhas. e de outros chefes da penitenciáría. São quase todos forçados do meu grupo. sentados à sombra. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikalo ka.O caminho. todos nos dirigem uma palavra amável. Quando saírem. Olha para ele e depois diz: -Levem-nos para o hospital. . Sento-me no braço da maca. com mais de quatro metros de largura.murmura Clousiot. Felizmente que os dois maqueiros param de vez em quando e esperam que a gente chegue perto deles. Sem se levantar e sem cerimônias. encontramos um grupo de faxinas que vai para o trabalho.É Clousiot. com lençóis e travesseiros. Ao passar. No hospital. menino? . dêem-me uma nota para que me sejam apresentados antes deles irem para o campo. Ao chegarmos ao planalto. o comandante diz para nós.

o senhor chama a isso uma consulta. Conta-me que Jésus. mas é insurbordinado. que estava na sala vigiada de São Lourenço do Maroni. Depois de um exame minucioso. esse chega às cinco horas. aquele que me tinha iludido na ocasião da minha fuga.diz para Admira-me bastante. vejo-o abanar a cabeça com ar contrariado.dígo-lhe eu -.O enfermeiro que veio é Chatal. Chata1 conta-me que foi internado nas ilhas por suspeitarem de que ele estava preparando uma fuga. .Talvez. Doutor . − − Eu e o Papi não somos grandes amigos . doutor. receio que seja tarde demais. fora assassinado por um leproso. Ele não sabe o nome do leproso e eu pergunto a mim mesmo se não será um daqueles que me ajudaram tão generosamente. A vida dos forçados nas ilhas da Salvação é completamente diferente daquilo que podemos imaginar. doutor. Quanto ao outro.Falaremos nisso em outra ocasião. Pede a receita e depois olha para Chatal. . Vou tentar tratar do seu amigo e de você. auscultar-me através de um postigo? . − − − Porquê? Por causa de uma visita que eu lhe fiz no calabouço. mas eu espero de você que preste os seus serviços à administração.Está prescrito pela administração não se abrir nunca a porta de um condenado. . Ele ocupa-se principalmente de Clousiot e ordena a um vigilante que vá chamar o médico. não que faça parte dela. A maior parte dos homens são excessivamente . porque é um cara excelente.Isso é verdade.

são todos perigosos. nem a trabalhar na misse. . porque é graças a eles que se pode traficar tudo. lagostinhas. açúcar. que nunca aceitaram trabalhos forçados nos muros e dão apoio. café e vinho branco. nas estradas. Estes empregos são ocupados pelos verdadeiros presos. tão diferentes todos uns dos outros. onde cada um vê como o outro vive e observa como o outro é. É essa classe de deportados que serve de ligação entre a nós e a casa dos guardas.perdido por perdido. outros cozinheiros. em escadas. por diversas razões. nem ser vigilantes. operadores do farol. sobretudo dos guardas. ou plantando coqueiros. Comemos peixe com molho de azeite e alho. Só os condenados por pouco tempo têm esperança de ser libertados. Fizemos essa refeição no quarto de Chatal. Chamam-lhes “rapazes de casa”.perigosos. Em primeiro lugar. quer os vigilantes. As mulheres dos vigilantes procuram os forçados novos para estes lhes fazerem o serviço da casa e muitas vezes se envolvem romanticamente com eles. desta mistura de gente que vive em comum. Dega. enfermeiros. Os “rapazes de casa” não são mal tratados pelos outros forçados. carne. peixe. chocolate. condutores de búfalos. jardineiros da penitenciária. sopa de peixe. todos comem bem. porquanto os condenados a prisão perpétua . remadores. café. É uma mistura difícil de perceber. muitos tem trabalhos forçados em pleno sol ou sob vigilância. mas não são considerados. cigarros. ele. correios. cocos. etc. quer os forçados. Por outro lado. padeiros. Isso dá uma idéia do ambiente. Grandet eu. Trabalham das sete ao meio-dia e das duas às seis. queijo. lenhadores. Alguns são jardineiros. Dega e Galgani vieram passar o domingo comigo ao hospital. Galgani. pagam muito bem os serviços que não se têm relações com os guardas: limpa-pias. Todo mundo está comprometido no trabalho cotidiano. autêntica aldeola onde se comenta tudo. Nem a ser carcereiro. Maturette. porque se negocia tudo: álcool. Homem algum pertença verdadeiramente ao milieu se rebaixa a fazer essas tarefas.

Ocupa-se da conservação dos edifícios da administração.Pediram-me que lhes contasse pormenorizadamente a minha fuga. esse. Eu pergunto-lhes quais os trabalhos mais propícios para uma fuga. Grito de indignação para Dega. tal como para Galgani. . que ele mesmo afiou. É uma arma terrível. há dezenas de pintores. . temos de voltar para a prisão. Está em uma oficina onde. Dega me dá quinhentos francos para eu jogar. Só que Grandet oferece-me sociedade no seu lugar de dirigente do jogo. cerca de cento e vinte homens. O tempo comigo passou com uma rapidez surpreendente. pedreiros. marceneiros.Ando sempre armado. Depois é a minha vez. Na partida. E está resignado a cumpri-los. canalizadores. esse é um problema que sequer lhes veio à idéia. que tem um rico relógio -. Chatal acha que o jardim tem as suas vantagens para preparar uma. às vezes. porque na nossa sala. Dega. de maneira que com o que eu posso ganhar com os pesos com os quais viverei bem.E as revistas? . Por sua vez. verei que isso é muito interessante e extremamente perigoso. arranja-me o lugar que eu quiser. que é o principal contabilista. informa-me de que é ferreiro da conservação. . Com os dois que cumpriu lá e os três daqui.diz Dega. só lhe ficam a faltar três anos. se fia que um senador corso se ocupe dele. Pelo que se segue. segundo ele. Quanto a Grandet. Dega decidiu nunca mais tentar nada para fugir. Galgani.Já são cinco horas . Ele espera da França um indulto de cinco anos. há belas partidas. sem ter de despender o meu próprio dinheiro. ferreiros. Noite e dia. Grandet me oferece uma magnífica navalha de ponta e mola.

Dou duzentos francos a Maturette para guardar. − São quatro.Pode. formam um corredor de três metros. Para jogar precisa de trezentos francos. Um parisiense chamado Dupont diz para mim: . são carcereíros árabes. as quais.Jogamos à moda inglesa. Aqui tem trezentos francos de fichas.Voltamos a nos ver na prisão. mas como eu as passo junto de Clousiot. Tem medo de que ele não passe desta noite. Posso ser o quinto? . sente-se.. onde somos cerca de sessenta. Dois candeeiros a petróleo iluminam esse conjunto. sem bestão. ainda não tomei verdadeiramente contato com a vida desta enfermaria de hospital. Galgani diz para mim que já me reservou um lugar no seu grupo (os membros destes grupos comem em comum e o dinheiro de um pertence a todos).A maior parte dos vigilantes. A enfermaria tem trinta camas de cada lado. . Chatal encharcou-o em morfina. Maturette diz para mim: − Lá em baixo. Quando um homem é considerado perigoso. A aposta mínima é de cem francos. eles nunca encontram armas. ao meio. Sabe? . Como Clousiot está muito mal. Antes de partir. quase todas ocupadas. que nos revistam. . mas em um quarto do edifício da administração. mesmo que lhes mexam. Faz já três noites que estamos aqui. Vou para junto dos jogadores. Dega não dorme na prisão.Sei. isolamno em uma sala onde já se encontra outro também em estado grave. estão jogando pôquer.

com os me amigos perto de mim. em sua honra. Quando um morre. Lançaram-no aos tubarões. tinha dito a Chatal que não lhe desse mais morfina. . Apostamos a meias . Eu descubro uma nova classe de forçados: os jogadores. Na verdade. Seja o parceiro um cara legal ou não. nas ilhas. Maturette estava desfeito pelo desgosto. Havemos de ser amigos. Aqui tem trezentos. porque só tem cem.Obrigado. Paramos para o café da manhã. Clousiot morreu essa manhã. .Quero morrer inteiro. Eu ganhei mil e trezentos francos.Tome.digo eu. Eu fechei-lhe os olhos. entre as ilhas de São José e Real. . Vou dirigindo-me para a cama quando Paul chega perto de mim e me pede que lhe e preste duzentos francos para continuar a partida a dois. Você tem de ser muito rápido. A velocidade com que estes homens jogam é incrível. em um momento lucidez. Jogamos toda a noite.Então. em um lugar infestado de tubarões. és de fato o cara fixe de quem oi falar.Deíxou-nos o nosso companheiro de tão bela aventura. . “lançaram-no aos tubarões” fiquei gelado. Estende-me a mão. vão deitá-lo ao mar às seis horas ao pôr do Sol. Eles vivem do jogo para o jogo e no jogo. Nada lhes interessa senão jogar. a pena. Sem o que o diretor da mesa dê “lance atrasado”. Quando ouvi estas palavras. . só coisa lhes interessa: jogar. e temos de nos abster. Era estritamente proibido entrar nos quartos de isolamento mas Chatal tomou a coisa para a sua responsabilidade e o nosso amigo pôde morrer nos nossos braços. Esquecem tudo: o que foram. sentado na cama.. Papi. dá você as cartas. não há cemitério para forçados. Na véspera. eu a aperto e ele vai-se embora todo contente. o que poderiam fazer pra modificar a sua vida.

Mando dizer a Dega que vou sair depois amanhã. Louis Dega. nascido em 16 Novembro de 1906. antes de colocá-lo na prisão .diz para mim ele . à presença do comandante Barrot. a prisão perpétua trabalhos forçados. deve ser vigiado com cuidado. julga-o um condenado inocente e acha normal que você mantenha-se permanentemente revoltado. Deve ser mantido sob vigilância constante. pelo tribunal do Sena. Ele me envia um recado: “Peça a Chatal que lhe dê quinze dias de repouso na prisão. Chatal fará dele enfermeiro-ajudante. poderia meu comandante. . Não deve se beneficiar dos trabalhos da Central de Caiena: condenado incorrigível. onde leio mais ou menos: Henri Charrière. Perigoso sob todos os aspectos. mas com muita influência sobre os camaradas. condenado. Ele estende-me uma ficha amarela. Você tem aqui um amigo precioso. Suscetível de entrar e dirigir uma revolta.A morte do meu amigo faz com que o hospital se torne insuportável para mim. .” Maturette ficará mais algum tempo. levam-me ao edifício da administração. em Ardèche. Tentará fugir de qualquer parte.Em primeiro lugar. conhecido por Papillon.Papi. Ele acha que você não merece as referências que vêm da França a seu respeito. e para lhe poder responder. Logo que saio do hospital. O que gostaria de saber é qual é o seu estado de espírito atualmente. por homicídio voluntário. saber quais são as anotações sobre mim? -Veja-as você. o “Coco Seco”. o contabilista principal. . Saínt-Martin-de-Ré: Disciplinado. Devo dizer-lhe que a esse ponto não estou muito de acordo com ele.decidi pouco sobre você. e assim terá tempo para escolher o trabalho que quiser.

São Lourenço do Maroni: Cometeu uma selvagem agressão contra três guardas e um carcereiro para fugir do hospital.Muito bem. apesar das grandes dificuldades que isso apresenta. Talvez mesmo venha a consegui-lo. E consoante as conclusões do inquérito. Quer fazer um acordo comigo? . Assim. “Prisão de São José: Bom comportamento até a libertação. Condenado a uma pena ligeira de dois anos de reclusão.Mas. não é por você ser suscetível de fugir que eu tenho o direito de colocá-lo em uma cela ou no calabouço. férias adiadas por seis meses e reduzidas a três. e não quero fazer-lhe isso. como vê. A menos que invente faltas. “ .Porque não? Depende do pacto. isso é. . peço-lhe outra coisa.Com isto. Sabe o que custa uma fuga ao comandante? Um ano de soldo normal.diz o comandante quando eu lhe devolvo a ficha -. a perda completa do tratamento colonial. O caso é sério. vou embora. se houve negligência da parte do comandante. . estou absolutamente certo.Você é um homem que sem qualquer dúvida fará tudo para fugir das ilhas. pergunte a Dega. ele lhe dirá que só tenho uma palavra. dou-lhe a minha palavra de honra que não fugirei enquanto o senhor estiver aqui. . meu caro Papillon . Bom comportamento durante a prevenção. é possível a perda de um galão. se não ultrapassar seis meses. não estamos em muita segurança tendo-o como pensionista. em contrapartida. Ora se eu fizer o meu trabalho honestamente. . . Ora restam-me ainda cinco meses de estada nas ilhas.Dentro de pouco menos de cinco meses.Eu acredito em você. . Vem da Colômbia. Cinco meses.Comandante. gostaria que me desse a sua palavra de que não tentará fugir até eu abandonar as ilhas. .

A imensa porta é de madeira e encontra-se aberta. um corso. Os carcereiros preparam-se para me revistar. meu comandante.. Mas que isso fique estritamente entre nós. diz: . Ele manda chamar Dega. O chefe. acompanhado de um guarda.Que durante os cinco meses. . e de classe. Assim que chego ao pórtico. no edifício dos perigosos. que tenho que passar aqui. três blusões e um chapéu de palha de arroz. que eu me dirijo. ao campo central. . Para ir do pequeno edifício da administração até o campo. de quatro vigilantes cada um. Sentado em uma cadeira. Veio também cinco ou seis carcereiros árabes. Trazem os meus sacos. que o convence de que o meu lugar não perto dos bem comportados. Dois postos de guarda. com os trajes de presidiário. mandadfazê-los no alfaiate. o comandante ordena que me dêem alguns pares de calças capotes. Não há carabinas: todos trazem revólveres. um graduado.O quê? . “Penitenciária das Ilhas . onde estão todos os meus amigos. os guardas saem todos.Está bem. junto de um muro de quatro metros de altura que cerca toda a penitenciária. Deve ter cerca de seis metros de altura. E é munido com dois pares de calças impecavelmente brancas. novas.Seção da Real”. mas entre os homens do milieu.Temos um novo. é necessário atravessar o planalto e passar em frente ao hospital dos guardas. mas ele manda-os parar: . entendido. possa ter já os trabalhos de que poderei me beneficiar mais tarde. chegamos à porta principal. Depois de ter dado quase a volta completa nesse imenso retângulo.Sim. ou até mesmo mudar de ilha.

o vigilante grita: . vem aqui . uma barra de ferro. umas lonas que servem de cama e a que chamam macas. Assim que entramos. Por cima de cada uma. uma inscrição: “Edifício A . . a todo o comprimento.Ele só faz “panelinha” comigo. Também aí os homens vivem em pequenas comunidades. há um corredor de três metros de largura. onde vivem cento e vinte homens. muito esticadas.Grupo Espedal. São constituídas por grupos que vão de dois a dez homens. etc. Boa sorte nas ilhas. Vá. Sigo-o.exclamam.Não. Por cima da porta. muitos amigos à sua espera. O meu nome é Sofrani. uma grade que só fecha à noite. embora o não sejam. interrompida apenas pela porta. Entre a parede e essa barra estão estendidas. Vou atrás do guarda que me conduz a um deles. as “panelinhas”. estão colocadas duas prateleiras onde podemos pôr as nossas coisas: uma para a roupa. . Entre as filas de macas. forçados vestidos de branco: . ele vem conosco . existe.Papi. .gritam outros. com certeza. chefe. outra para os víveres. Grandet pega no meu saco e diz: . que me servirá de cama. Estas macas são muito confortáveis e higiênicas. Papillon. Penetro em uma enorme sala retangular. de todos os lados. entra.Está aqui um novo .Obrigado. Como na primeira barraca em São Lourenço.diz o guarda e vai-se embora. E entro em um grande pátio onde se erguem três enormes edifícios. a tigela. .” Diante da porta. No edifício especial deve ter. aberta de par em par. de cada lado. Instalam a minha lona. bem esticada.Guarda da caserna! Aparece um velho forçado.-Não o obriguem a tirar toda a bagagem. surgem.

percebo uma coisa que não tinha previsto: apesar dos dias passados no hospital. Um cara entra.. pára. Quanto lhe devo? Me dá a conta. como em um talho da França. levanta a toalha branca e aparecem. ou sujeitos que conheci na Prisão da Santé. Esperemos que ela dure. de repente. ou na do tribunal. em pilha.Bifes. bem acondicionados. todos amigos da França. vocês não deviam estar trabalhando? Todo mundo ri. alguns parisienses. Encontro muitos amigos. bifes. Mas. ou na equipagem. pergunto-lhes. Mas. tenho de reaprender a viver em comunidade. não pode ser da mesma maneira. porque o homem não lhe pergunta se quer.Cinco. . quem quer bifes? Chega a pouco e pouco ao nosso lugar. trazendo um tabuleiro coberto de uma toalha impecavelmente branca. − A essa hora. mas quantos pretende que lhe sirva.Costeletas. e apregoa: . meu sacana .Vá. Assisto a uma coisa que estava longe de imaginar. um montão de bifes. Corsos e marselheses. − Ah. Percebo que Grandet é um cliente diário. espantado por os ver. quem trabalha só faz uma hora por dia. como há mais um. .diz para mim Grandet. tome um travesseiro de penas de galinha. essa é ótima! Neste edifício. porque agora. . essa recepção é verdadeiramente calorosa.Costeletas ou acém? . Depois volta para a sua “panelinha”. vestido de branco.

o enfermeiro. enterites etc. o contabilista. . É aí que o cozinheiro dá uma parte do que ganha ao vigilante da cozinha. outra é vendida aos forçados que tiverem dinheiro para a pagar. O contrabando é o cozinheiro que vende a carne e o padeiro. . que. os “rapazes”. O cozinheiro da prisão vende em bifes a carne já destinada aos prisioneiros. prepara-a para os bifes. Quando o homem se vai embora. que vende as injeções. Uma parte é vendida aos vigilantes. leite em pó. latas de atum. por exemplo. Grandet diz para mim: . que negociam com a dona da casa onde trabalham e arranjam tudo o que lhes pedirmos: manteiga. O primeiro edifício onde ele se apresenta com a mercadoria é sempre o do Grupo Especial. os quais vendem peixe e lagostas. sabão de Marselha. nosso. tudo incluído. por sua vez. o cortador. sempre vem uma garrafa de Ricard e cigarros ingleses e americanos). falsos leprosos.. o que negoceia legumes e fruta. está ferrado. conforme os pedaços.Aqui. que vende pão de fantasia e pão branco. Para os valentões. o empregado do hospital que vende os resultados das análises e vai ao ponto de declarar falsos tuberculosos. leite condo. Edifício A. parte-a ao meio. queijos e vinhos e bebidas alcoólicas (na minha “panelinha”. o contrabando é a maneira que cada um inventa para arranjar dinheiro. vendem ovos. galinhas. para o guisado ou para cozinhar. e também aqueles que podem pescar.O vendedor de bifes puxa um bloco e começa a fazer contas: . se não tiver grana. simplesmente para livrar alguém de um trabalho difícil. isso é. Especialistas em roubos no pátio das casas dos vigilantes.Está em cento e trinta francos. Quando a recebe da cozinha.. Mas há ma maneira de ter dinheiro sempre: o contrabando. por intermédio das mulheres destes.Pago-lhe e começamos uma conta nova. de sardinhas. que consegue uma nomeação para determinado lugar. distribui a carne.

na altura da partida. A regra é que não pode haver mais que três ou quatro fiscais de jogo em cada edifício de cento e vinte homens. esse dispõe. cuja parte superior é furada para deixar passar uma torcida que mergulhada em petróleo e que.Mas o melhor contrabando. Aquele que decide fiscalizar os jogos. Cada qualidade tem um preço e os jogadores servem-se e deixam escrupulosamente. e diz: − Eu quero um lugar de fiscal de banca. na caixa. Os fiscais da mesa ganham cinco por cento sobre cada jogada. Os outros respondem.Então eu escolho um fulano para representá-los. em cima da cobertura. O que vencer passa a dirigir os jogos. Para os que não fumam há bombons e bolos fabricados em contrabando à parte. apresenta-se uma noite. Todos vocês dizem que não? Todos. de vez em quando. é necessário cortar. o dinheiro correspondente ao preço marcado. é ser da banca de jogo. ingleses. . dirige-se para o meio da sala e batem-se os dois à navalhada. e também a mais perigosa.Os jogos são pretexto para pequenos contrabandos. − − − Não. São candeeiros feitos com embalagens de leite. algumas caixas cheias de cigarros franceses. Há também o que prepara os candeeiros de petróleo e providencia para que eles não deitem muito fumo. Aquele que ele apontou compreendeu imediatamente. americanos e até feitos à mão. Levanta-se. . Cada edifício tem um ou . Há o que vende as coberturas bem esticadas para o chão. o que aluga banquinhos para os jogadores que não podem sentar-se com as pernas cruzadas debaixo das nádegas e o vendedor de cigarros.

sem pregos. Outros fazem alta marcenaria.com) . o corpo de um forçado. Os mais habilidosos trabalham em bronze. de madeira lisa e polida. Uma carapaça tem treze placas que podem pesar até dois quilos. O motivo utiliza do mais frequentemente é o seguinte: vê-se a ponta da ilha Real. Sem esquecer os pintores. De tempos a tempos. um pescador pesca um tubarão. dois homens levantam uma urna de onde escorrega. Na proa.. prepara-lhe a dentadura. madeiras de ébano e madeiras das ilhas. http :/ / am and ikaloka. Na água. apanhadas pelos pescadores. o Sol se pondo lançando todos os seus raios. só com entalhes. de búfalo. Um marceneiro confecciona um modelo de âncora em ponto pequeno. É uma espécie de contrabando artesanal. Finalmente há o trabalho manual. de tronco nu. Cheguei já a ver um cofrezinho de tartaruga clara. o café é conservado quente durante toa a noite. com largura suficiente no meio para que se possa pintá-la.4sahred . em forma de serpente. Acontece associarem-se vários talentos para realizarem um só objeto. Na superfície da água distinguem-se tubarões esperando o corpo de goelas abertas Em baixo. está escrito. embrulhado nua saco de farinha. no mar azul. que é uma verdadeira maravilha. pentes e cabos de escova. cachimbos. O artesão faz delas pulseiras brincos. Alguns trabalham a carapaça das tartaruga. à direita do quadro. com os remos erguidos na vertical e três guardas de metralhadora na mão na ré. o canal e a ilha de São José e. Por exemplo. Fixa-se essa âncora à dentadura aberta e um pintor pinta as ilhas da Salvação rodeadas pelo mar. chifre de boi. e a data. abrindo-a com os dentes bem polidos e certos. Outros trabalham a casca dos cocos. 39 Tecid o g rosseiro (Nota d a revisora. os encarregados dos cafés atravessam a sala e oferecem café ou cacau. que conservam quente em uma espécie de marmita norueguesa de fabricação caseíra.dois encarregados dos cafés. um barco com seis forçados de pé. “Enterro na Real”. Coberto por dois sacos de aniagem39 e confeccionado à maneira árabe. colares.

Mas o criminoso arrisca-se a apanhar cinco anos de prisão por assassinato.Ilha do Diabo”. Com efeito quando matam alguém.Todas estas espécies de artesanato são vendidas nas casas dos vigilantes. Com estas combinações. A pederastia toma um caráter oficial. ou feitas por encomenda. chamada Prisão Nova. o que apenas é possível aos internados há muito tempo. até o próprio comandante. Fazem o mesmo com as colheres ou as gamelas. Se forem considerados tuberculosos. mesmo os que estão condenados a prisão perpétua. sabe que fulano é mulher de sicrano. Há também os vigaristas. A lepra e a disenteria crônica também servem. arranja-se maneira de que o outro vá lá ter depressa. os homens são maís fáceis de manejar e adaptam-se à sua nova vida. Para os marinheiros bretões há um truque infalível: um objeto qualquer com. Todo mundo. mas tem um grave inconveniente: a coabitação em um pavilhão . são enviados para a prisão para tuberculosos. em cem não há três que procurem fugir das ilhas. Esse tráfico permanente faz totrar muito dinheiro nas ilhas e os vigilantes têm interesse de deixá-lo existir.para fugir. a oitenta quilômetros de São Lourenço. os que pegam uma velha caneca toda amassada e lhe gravam no fundo: “Esta caneca pertenceu a Dreyfus . Pode-se tentar também o desinternamento por motivos de saúde. Os condenados a prisão perpétua não têm outro meio senão o homicídio.a palavra “Sezenec”. e quando um é enviado para outra ilha. Kourou ou Caiena. sem saber se poderá aproveitar uma curta estada no quartel disciplinar de São Lourenço . são enviados para São Lourenço para serem julgado em tribunal. para São Lourenço. É relativamente fácil ser dado como tal. Entre todos estes homens. A única maneira é tentar ser desinternado e mandado para o continente. se não os transferiram juntos. O restante é vendido a bordo dos barcos que passam pelas ilhas. As mais belas peças são frequentemente compradas à vista.três meses no máximo .

mas talvez muito perigoso. É um célebre arrombador de cofres. os vigilantes vão muitas vezes procurar o “doente” e obrigam-no a responder a chamada. O chefe da caserna varre-a e passa a pano o chão de cimento. Mas nunca no edifício dos durões. instalado no edifício A. portanto. esse rapaz tem traços de um homem de trinta anos e o cabelo todo branco. onde procuram imediatamente nos catalogar.especial. É preciso aprender a viver nesta comunidade. não se está presente. Em primeiro lugar. muito alto e magro como um prego. Retiro- . Em conclusão. tem de se obter o respeito geral pela maneira de nos comportarmos com os guardas por não aceitarmos certos cargos. é a tranqüilidade nos trabalhos forçados. O meu amigo Grandet. que é da minha “panelinha”. Por cima da sua cama. Ele nem sequer levanta a cabeça e conserva-se mudo. Hoje estou quase sozinho nesta sala imensa. recusar certo tipo de trabalhos e não reconhecer nunca a autoridade do carcereiro. nunca obedecer. não demora muito tempo. com um aparelho qualquer de madeira no olho esquerdo. tem uma prateleira com cerca de trinta relógios pendurados. isolado cerca de dois anos com os doentes do tipo escolhido. Nas outras duas casernas. vejo-o trabalhando e tento meter conversa. en Marselha e em Paris. é um marselhês de 35 anos. Depois. Se jogar durante toda a noite. Somos amigos da França. o que todos eles querem. Aproximo-me dele. mesmo a troco de um incidente com um guarda. mas muito forte. Eis-me. é ainda mais difícil escapar ao contágio. É bom. O guarda da caserna (chamamos caserna a esse edifício) grita: . é necessário que todos saibam que não podem nos atacar sem correr perigo. com os meus cento e vinte camaradas. em primeiro lugar. Vejo um homem arranjando um relógio. Daí a apanhar realmente a lepra. do maior ao mais pequeno.Doente deitado. Quanto à disenteria. Dávamo-nos bem em Toulouse. ou a acabar tuberculoso.

Mas não tinha provas do seu infortúnio. podemos chamar-lhe rapaz. mal abriu a da casa. diz para mim: . sob pretexto de lhe querer oferecer um presunto que tinha recebido em sua terra. o relojoeiro deitava-se com a mulher. Para ele nada mais conta que os seus relógios. achava a coisa estranha e começou a ter suspeitas. no passado. Sem parar de mexer as suas mãos de prestidigitador. Havia muito tempo que ele dormia com a filha legítima de um vigilante-chefe bretão. É caso para isso e para muito mais. para ver se saio da prisão. mas hoje estou chateado. Vou pôr-me a trabalhar um pouco. era costume quando o guarda voltava para casa.Então. arranjou um truque para os surpreender em flagrante delito e atá-los aos dois.Tou. Como ele era “rapaz de casa”. Papillon.Oh. deixou o serviço duas horas depois de ter entrado um vigilante e o pediu que o acompanhasse até casa. que sabia ela era leviana. meu velho. mas não contava com a reação da mulher. mas ele nem sequer me respondeu. Calcula que aquele rapaz. passou o portão. mas.me um pouco envergonhado. esse cara está ignorando para todo mundo. Fazia-o ela própria. Uma armação. Em silêncio. por ter violado a mulher de um guarda. Quis falar com um cara que é relojoeiro. Um dia. O resto que se dane! É verdade que depois do que lhe aconteceu tem o direito de estar embrutecido. Encontro o Titi la Belote embrenhado no jogo com um baralho de cartas novo em folha. um papagaio pôs-se a gritar: “Chegou o patrão”. . cada vez que o bretão estava fora durante o dia. e o corno do marido. A mulher começou logo gritar: “Estou sendo violada! Socorro!” O dois vigilantes entraram no quarto no momento exato em que a mulher se escapa dos braços . foi condenado à morte. a mulher não o deixava lavar nem passar. Uma asneira. pois o cara não tem ainda trinta anos. Assim. saio para o pátio e sento-me perto do lavadouro. Os seus dedos ágeis baralham as cartas com uma rapidez inaudita. como vai isso? Tá bem em Real? .

fica de frente para uma tábua perpendicular onde o amarram com correias fixas. Então. a guilhotina. quando se vai para uma guilhotina. enquanto disparam sobre ele. com quatro outros forçados. montam.do forçado que. chega o atual comandante. há uma guilhotina. montam a guilhotina e abrem de repente a porta da cela do relojoeiro de Sabóia. “O relojoeiro de Sabóia encontrava-se. espantado. por seu lado. “Coco Seco”. dois forçados. ainda não é nada. No pátio estão as cinco pedras sobre as quais ela é colocada. o outro guarda tira-lhe a arma. mas no momento em que o bretão vai dar cabo dele. . Por isso. e cortam um ou dois troncos de bananeira. ele atravessa vinte metros na obscuridade da alvorada. foge pela janela. “Na Real. três árabes e um siciliano. Os carrascos atiram-se nele. na prisão dos condenados. Ele traz na mão uma grande lamparina e. arrancam o colarinho puído dele em passinhos curtos. enquanto. que tem por dever assistir à execução. com todo o aparato. com lâmina e tudo. Todas as semanas o carrasco e seus ajudantes. têm a certeza de que ela está em condições de funcionar. quando iam inclinar a tábua da qual sai a cabeça. amarram-lhe os pés com uma corda e atam-lhe os braços com a mesma corda. em uma cela de condenados à morte. Devo dizer que esse outro vigilante era corso e percebeu logo que o chefe lhe tinha contado uma história para embalar e que não houvera violação alguma. que a coisa é interessante. bem polidas e niveladas. Com uma tesoura. “Uma manhã. Papillon. o relojoeiro foi condenado à morte. Mas o corso não podia dizer isso ao bretão e fez de conta que acreditava. Mas até aqui. Todos os cinco esperavam a resposta ao recurso. Assim. cito pelos vigilantes que os tinham defendido. então. Depois é. com cada peça bem no seu lugar. que acabaram por rematar com um nó nos pés. O relojoeiro se rende. Sofreu um tiro em uma espádua. Deve saber. a mulher tapa as mamas e a cara e rasga o penteador. que. meu velho.

por isso é que tem todos esses relógios pendurados no seu quadro de observação. Depois disso. deixando o resto de tempo livre na ilha. e solta o saboiano.grita Barrot. percebe que os sacanas dos guardas tinham se enganado: vão cortar a cabeça do relojoeíro. um polícia de Calvi. Nesta manhã. contando-lhe o incidente. vão depressa buscar Rencasseu. Eu nem sempre trabalho: estou à espera de um lugar de limpa-latrinas. E vocês. tanto pelo seu passado. Ocupe-se dele. tal como o viu hoje. Controla-os muito tempo. descompõe todo mundo. certamente. faça-lhe companhia e dê-lhe rum.Com certeza. Deixa cair a lanterna. Todos os dias aprendo um pouco mais sobre essa nova vida. A caserna A é.Leve-o outra vez para a cela. enfermeiro. “. O relojoeiro foi indultado e condenado a prisão perpétua. Finalmente consegue ordenar: “. é esse que se executa hoje e não o outro! “No dia seguinte. É a sua paixão. uma concentração de homens temíveis. é natural que não se seja lá muito saudável. guardas e carrascos. que só me ocupará três quartos de hora. na verdade. Títi. ou não? .no momento em que ilumina a cena. passa o tempo arranjando os relógios dos guardas. Agora percebe. enviou um novo recurso ao ministro da justiça.Suspendam! Suspendam! . “Está tão emocionado que nem consegue falar. o direito a ir à pesca. que não tinha nada a ver com essa cerimônia. Lamento sinceramente. depois de um choque desses. O seu advogado. o saboiano tinha o cabelo todo branco. seus idiotas. há . que o cara tem o direito de estar um pouco maluco. como pela sua maneira de reagir na vida cotidiana.

quarenta vigilantes estão colocados de cada lado da porta. atiramos para muito longe as ferramentas e em Marselha nem sequer sabemos que existem.Rompam as fileiras! .Daceffi. Junta-se uma dúzia de guardas. e chamam Jean Castelli.Diz logo. segundo o que mais tarde vim sabendo. . antes do incidente. queira chamar os homens.grita Grandet. não sabes que é preciso ser caipira para alguém saber como é que se trabalha com esse . que. Todos ao mesmo tempo. coisa rara. O jovem guarda. fecham a porta de grades. exceto o comandante. um por um. assassino.Carniceiro. . Depois. para inspecionar a ilha do Diabo.estranho instrumento? Eu sou corso de Marselha.diz o guarda da tarefa em causa. Ele sai das fileiras e pergunta: .Tome essa picareta. A caserna C também. Guarde a picareta e deixe-me em paz. ainda sem estar a par do ambiente. Na Córsega. Castefli olha-o: . o guarda-mor. A caserna B desfila para ir para o trabalho. morres! . ó auvernhês. de metralhadora em punho. se tocar nele. o vigilante-chefe e os restantes guardas estão todos ali reunidos. a mim? − Sim . O comandante-adjunto. O comandante-adjunto diz: . os cento e vinte homens gritam: . levanta a picareta para Castelli. Friamente. sem nos preocuparmos com o ar ameaçador dos guardas.chamada para escolher os homens que vão estar trabalhando nas plantações de coqueiros. que saiu às seis horas.Que é? Estão-me mandando trabalhar. entramos todos para a caserna. Uma hora depois.

Porque vocês me dão nojo. que por enquanto.Não. A tensão estava no máximo.. estou doente . . Três vezes . Os guardas. Apenas um chega a recusar obediência. .Recuso. apontavam para o chão. não suportam ser humilhados desta forma pelos forçados. sobretudo os novos. Só estavam à espera de uma coisa: um gesto de ameaça que lhes permitisse entrar em ação com as metralhadoras.responde.Recusa? . Tinha com certeza a intenção de que o levassem para São Lourenço para ser julgado em conselho de guerra.De manhã não estava doente. Ele vai para o meio dos quarenta guardas. Dacelli ordena-lhe: . . Pergunto-lhe: .Desde quando? Não deu parte de doente na primeira chamada. Recusa-se a ir? . sim senhor. Saia. Os sessenta primeiros a serem chamados respondem exatamente a mesmo coisa.Três vezes. mas agora estou. porquê? .Vá trabalhar.Grandet? − − Presente. Recuso-me categoricamente a trabalhar para caras tão imbecis como vocês. − − Não posso. não me recuso.

diante de nós. E a caixa de linho para as celas. Assim. Neste momento chega o médico.Todos aqueles que foram chamados. a maior parte a prisão perpétua. não podemos suportar essa vida.Uma indigestão de guardas.Há. Nós. doutor. deve ser enviado para o hospital a fim de que 40 Form a arcaica d e asfalto. estamos todos condenados a longas penas. Não era um gesto de defesa porque ele não tinha ameaçado ninguém. não há esperança de fugir. sim. aqui.Parem. Aqui está o médico. − − Venha o primeiro .Enfermeiro. um vigilante permitiu-se. O doutor baixa a cabeça. o vigílanteenfermeiro fulano de tal tomará as medidas necessárias para purgar com vinte gramas de sulfato de sódio todos os deportados que hoje se declararam doentes. reflete um minuto e depois diz: . exceto aquele.diz o médico. o ressoar de uma navalha no macadame40 do pátio. Grandet. . escreva: “Por causa de uma intoxicação colectiva. Doutor. você? . Quanto ao deportado X. . À medida que a roupa ia caindo. Os outros ficarão na caserna. Ora essa manhã. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. que te. pode inspecionar estes homens? Os que não forem dados como doentes vão para o calabouço. Nas ilhas. A você compete julgar. doutor. tentar agredir com uma picareta um camarada estimado por todos. de vez em quando. essa é a verdadeira causa da nossa epidemia coletiva. ouvia-se.com) . tirem as roupas..4shared . se não houver uma certa elasticidade compreensão no regulamento.Há sessenta doentes? . que se recusou a trabalhar.

quase consegui fugir. acaba a música . em lugar de sopa. Quando lhe falei de fuga.Todo mundo para dentro! . compreendo que ainda não entendeu os forçados das ilhas. com uma gamela de madeira cheia de purganato de sódio. Ele veio comer junto a nós. Assim terminou o incidente e apenas o chefe da caserna teve o trabalho de enxugar o líquido entornado pelo chão.grita o comandante-adjunto. Eu suspeitava de que você não era homem para ficar tranquilo aqui.” Vira as costas e vai-se embora. nem o odor de pão. Pelo meio-dia. todos os outros o encobrem.acabam os jogos de xadrez e . Os forçados das ilhas só têm medo de uma coisa: que uma fuga resulte.O ano passado. Só que falar em fugir nas ilhas. acompanhado de dois forçados-enfermeiros. acabam os jogos de cartas. Disse-me: . Só três foram obrigados a engolir a purga. − Apanhem as suas coisas e não se esqueçam de nós. e espalhando a purga. O quarto caiu em cima da gamela. . nunca há uma testemunha. oitenta sujeitos em cem estão relativamente felizes aqui. é o mesmo que fiar chinês. Porque então toda a sua relativa tranquilidade é alterada: revistas contínuas.os instrumentos são destruídos durante as revistas . o vigilante-enfermeiro apresentou-se. simulando uma crise de epilepsia. Por outro lado. condenado por roubo de peles. faça você o que fizer. Ninguém o denunciará. acontece o mesmo. mas a coisa se ferrou. Passamos a tarde conversando com Jean Castelli. rouba-se. Faça um cara o que fizer. a gamelada uma para seu lado. Faz “panelinha” com o toulonês Louis Gravon. Mata-se alguém. Ninguém pôde sair. imitada na perfeição.verifiquemos se a sua recusa ao trabalho foi feita em plena posse das suas faculdades. Tal como os vê. Ficamos nas casernas. os seus olhos brilharam.

Diz para mim: . cada vez que possa. infelizmente. eu lavei-me com Palmolive ele disse-me: . Nunca tinha visto a questão por esse lado. Papillon. Ouço com toda a atenção. pareces meu filho. nos arredores de Kourou. e os guardas. arrombador profissional. Entre todos os forçados. por sua vez. cinquenta e dois anos. Sobretudo em fugir. que conseguiram fugir de cá. acaba tudo. falar espanhol com um natural deste país. A vida das ilhas não interessa. azeite. não há meia dúzia que pensem assim. é um sujeito de uma força de vontade e de uma inteligência pouco vulgares. tudo isso desaparece. Há realmente muitos homens que paga fortunas para os desinternarem e os deixarem ir para o continente. tome todas as precauções antes de falar com o cara.diz Castelli -. bifes. mas a sua energia de ferro dá gosto ver. manteiga. Mas daqui. . mas nunca estarás disposto a fazer a sua vida nas ilhas. ninguém acredita na fuga. Por exemplo. suprimido. absolutamente tudo.Você. pense dez vezes. acabam os livros. O velho Castelli me dá conselhos: aprender inglês e. Revistam-nos sem tréguas. vingam-se em todo mundo. Chamam-lhe “O Antigo”.de damas. foram apanhados no continente.Conclusão . no dia em que meter na sua cabeça preparar uma fuga. Come bem porque precisa estar em forma. Não volto ao assunto. Felicito-o. se não for um amigo muito íntimo.Palavra que você cheira a um paneleiro! Lavou-se com sabão de puta? Tem. Detesta a violência. Quase todos os tipos. lava-se apenas com sabão de Marselha. mas desde que se safem das ilhas são castigados. em suma! Acaba o artesanato também! É tudo. Ele me emprestou um livro para aeu . Jean Castelli. Açúcar. para de lá fugirem.

estamos sujeitos a ter que andar à navalhada com o primeiro ferrabrás que se ofereça. não quero brigar. A partir desta altura. O de Toulouse é chamado de Sardinha e ao matulão de Imes. Ou paga. tal como Jean Castelli. o Carneiro. tive ocasião de mostrar a quase toda a nossa caserna a minha maneira de proceder e de ver. O Sardinha responde: . Um rapaz de Cadouse é desafiado para lutar com navalha com um de Nies. é uma enciclopédia.Não tem nada que saber porquê. ou vem brigar comigo. É duro. tem também a sua maneira de ver as coisas. Em qualquer altura. mas é assim. a respeito de fugas. ou não joga. Ele tem sua opinião formada acerca da fuga das ilhas. Este. a segunda do continente. que é perigoso jogar. Ontem à tarde. Se acovardou? . A primeira dos trabalhos forçados portugueses. perto de cinquenta. o de Toulon.Nunca ninguém pagou para jogar pôquer.Ou me paga vinte e cinco francos por cada partida de pôquer. − − Não. É muito amigo de um marselhês. chamado Gardès. Porque vem comigo e não ataca os fiscais do jogo? . decido formar a minha opinião sozinho e nunca mais falar em fuga. que. O único ponto em que todos estão de acordo é que o jogo só interessa para se ganhar dinheiro. já fugiu duas vezes. Gravon. Os três são homens de ação e estão muito bem para a idade: Louis Gravon tem quarenta e cinco anos e Gardès. Nenhuma destas opiniões concorda com as outras. está no meio da sala com a navalha na mão: . de tronco nu. ou não joga.prender espanhol em vinte e quatro lições e um dicionário francês-inglês.

todos do meio. Papillon? . eu grito: − − Cala a boca. depois da minha chegada a essa caserna. covarde. Há alguém que diga o contrário? (Silêncio. deixe-me dizerte a você e aos outros que. Abro a minha navalha e encosto-a à coxa. Eu quero é fugir. antes de brigar com você. deve ser. se quiser. mais honrosa.) Em todas as nossas leis. nem para morrer. Porque vou arriscar uma navalhada. percebi com vergonha que a coisa mais bela. que também para você.Sim. Carneiro. paga ou para de jogar? Responde. sempre sentado. e admito que todos vocês decidam fazer a sua vida aqui. junto à perna esquerda.O rapaz é mesmo bravo. com a navalha aberta e segura pelo cabo. que eles merecem-no. Sento-me na cama Grandet. − Então. Carneiro. e deixe o cara em paz! Está doido. onde há mais de cem. falta uma. Ora todo o homem que diz que é capaz de fugir. logo que me cale. ao menos. digo: . e é um tipo para fugir. não estou aqui nem para matar. a única verdadeira . mas se não têm coragem para procurar reviver. que nunca tentou fugir. não estou doido e ouve o que vou dizer. É pena que a gente não possa fazer nada. Sem sair do meu lugar.. . antes de mais nada. respeitado por todos os outros. os que tentam fugir. o que irei.díz-me Grandet.Não. que tem entranhas para arriscar a vida em uma tentativa de fuga. ou a deixar-me matar por um fanfarrão como você.a tentativa de fuga .não é respeitada. Grandet diz para mim: . O Carneiro dá um passo para o Sardinha. Ninguém é obrigado a partir. mas também de ajudar. devem o respeito pelos homens que pensam escapar-se. Todos nós estamos na expectativa do que vai acontecer. Aí. prímordial: a obrigação que todos têm de não somente respeitar.

Papi. Quando volto para o meu grupo. ganho dele. dizem: . Durante toda a noite. e depois. mas ao soco.Não é para admirar. O Carneiro deixa cair a sua e diz para mim: . eu também não me quero brigar a navalha com você. com certeza. Todos os indivíduos do nosso meio. meus caros. Carneiro. Entrego a minha navalha a Grandet. Nos lavabos. vêm caras falar comigo. sabes. com uma cabeçada bem dada. sem as analisar e as discutir. lavamos juntos o sangue que escorre das nossas caras e o Carneiro diz para mim: . Agora. com a navalha na mão. insultar e provocar todo mundo! Não sei por que milagre não houve um que saltasse para o corredor para brigar com navalha com você. É uma vergonha. a gente embrutece nas ilhas.Bom! . . antes de partir.Tem razão.É verdade. reagem deste maneira.“E aquele que esquecer essa lei de homem que se prepare para sofrer as consequências. Este incidente colocou-me bem perante os homens e. para fazer ver que não sou covarde. Brigamos como cães durante cerca de vinte minutos. Grandet e Galgani insultam-me: . . vamos! E salto para o meio da sala. Papillon. quando alguém tem realmente razão.diz Galgani. se ainda quer brigar. sou. não se deixe muito brincar com esse vulcão. Aproximam-se como por acaso. Por fim. . considerado entre os meus camaradas como um homem que não se verga às coisas admitidas.Eu estou de acordo com o que você disse. Percebo que . . a partir desse momento. Há quinze anos que aqui estou e ainda nem mil francos gastei para tentar ser desenterrado. falam disto ou daquilo.Mas.Você não está bom da cabeça.

Então faz-se o jogo. . foi assassinado. Esta noite. O jogo é extremamente fácil: joga-se cinquenta e duas cartas e há a banca e o parceiro que tem o baralho. Uma manta sobre os joelhos esconde uma navalha grande. atiradas ao chão pelo assassino. porque estes estão quase sempre prontos para abusar do seu prestígio. levanta cinco por cento de toda jogada. quarenta e às vezes cinquenta . o que parte perde. O que parte tira uma carta e volta-a. À sua volta. E apesar disso. ela deve ser aceita sem um murmúrio. Se. quando dou uma ordem. A cada vez que a banca perde. É preciso defender os fracos dos fortes. pelo contrário. como já disse. sai um cinco. quando estava dormindo. e vice-versa. Não é fácil. jogadores de todas as regiões da França. o que parte tirou uma dama e a banca virou um cinco. e até muitos estrangeiros.quando sou eu a fiscalizar o jogo há menos discussões e que. aberta. é a banca que perde. o rapaz vigiava. trinta. O seu grito foi imediatamente seguido pelo estrondo que as caixas vazias. passa as cartas para o vizinho. sempre possível. Por exemplo. O fiscal do jogo. Está sentado em um banco. O fiscal de jogo deve conhecer o montante de cada aposta e lembrar-se quem é o que parte e de quem é a banca. para saber para quem vai o dinheiro. e a que for do mesmo valor que uma das duas da mesa perde. Debaixo das lonas onde dormiam tinham posto caixas vazias. Quando as apostas estão agrupadas em pequenos montes começam a tirar-se as cartas uma a uma. de costas para a parede para se proteger de uma agressão. provocaram. todos obedecem imediatamente. porque. Ele devia saber que a sua vida corria perigo. Quando o fiscal toma uma decisão em relação a um caso duvidoso. que vivia com um rapaz que lhe servia de mulher. A banca também tira uma carta e vira-a em cima da mesa. assassínararn um italiano chamado Carlino. Aposta-se ou na banca ou no que parte. Se sai uma dama antes de um cinco. para que ninguém pudesse rastejar até lá sem fazer barulho. incluindo árabes. em círculo. Ambos trabalhavam em um jardim.

chegam seis guardas: . Dez minutos depois. chefe. como todos os dias. conversando. o segundo toque e no café às seis e meia. junto ao local do jogo.Está bem. .Mataram um homem.Ninguém ouviu nada.Carlino.. interromperam a partida. . o primeiro toque de campainha. O chefe da caserna pergunta se deve chamar os vigilantes. Eu estava de pé.Amanhã de manhã. E é tudo. através da lona. pra banca . voltam a gritar: . Amanhã.Ali. Às seis.diz ao menino de Carlino. o jogo recomeça. o chefe da caserna diz ao guarda que acompanha o cara que traz café: . uma vez que ele já morreu o caso está encerrado. Mas hoje é diferente. é que vai perceber que ele está morto.Qual? . O rapaz amigo de Carlino não viu nada e esse já não respira. provocado pela queda das caixas. Ao segundo toque.Pro que corta! Não. . na chamada. Todos se levantam e querem saber o que se passa.etc. terceiro toque e saímos para a chamada. O grito e o barulho. Espero com impaciência para ver o que acontece quando os guardas descobrem um homicídio.Onde é que está o morto? . Não.. Retíram-no. como se nada tivesse acontecido. quando acordar. há muito tempo de os prevenir. Os jogadores. Nem mesmo você .Grandet dirigia uma partida de marselhesa. com mais de trinta jogadores à sua volta. Vêem o punhal enterrado. . Grandet toma a palavra: . nas costas de Carlino. Ás cinco horas e meia.

Soa o terceiro toque. meu comandante. Todo mundo saí. Volto para a caserna e deito para dormir. Quando chega a vez de Carlíno. leve-o. pois não consegui pregar olho toda a. o chefe dos guardas levanta a faca no ar e pergunta: − Alguem conhece essa faca? Ninguém responde.. − Sempre a mesma coisa. os comandantes presídio e os chefes dos guardas estão sempre presentes. de mãos estendidas.noite.diz este. a depois vai cada um para o interrogatório. .diz o guarda que faz a chamada. Depois de todos terem respondido presente. ninguém sabe nada. Sempre com a faca cheia de sangue mão. o vigilante-chefe ordena: . ninguém sabe quem desfechou o golpe. À chamada da manhã. − Alguém viu o assassino? Silêncio absoluto.Bom .Caso encerrado . Quase adormecendo. − Então. Mesmo . como de costume. o chefe da caserna responde: . levaram-no para o necrotério.Todos lá para fora e formem para a chamada. Hoje não há doentes na cama. digo que a vida de um forçado nada vale. Passa por mim. . O dia continua.Maqueiro.Foi morto essa noite. . Dois homens transportam o corpo em uma maca.Guarde a faca juntamente com uma nota dizendo que ela serviu para matar Carlino.

clandestinamente. Para ele cavar uma fossa. tanto entre os vigilantes como entre os deportados. mas depressa me habituo. O nada Vou começar o meu trabalho de limpa-latrinas na segunda. mas. para os despejar. despejamos três mil litros de água do mar. Bem entendido. Parece que já cometeu sete homicídios nas ilhas. todos se recusam a incomodar-se saber quem foi. Ajudamos o entulho a vazar com uma vassoura muito dura. mas Galganí me disse que ele é um homem extremamente perigoso. Mas eu sei que é uma falta muito grave. onde há um estreito canal de cimento que vai até ao mar. para em tudo. ao condutor de búfalos. sairei com outro forçado para esvaziar os baldes do edifício A. os jardineiros precisam de estrume. Às quatro e meia da manhã. O transporte da água custa vinte francos por dia. em menos de vinte minutos podemos esvaziar todos os baldes nesse canal e. quando o conhecer melhor. claro. Com efeito. dá um ou dois baldes de excremento para o jardim combinado. deita lá folhas secas e erva. isso é uma coisa que não dá pra fazer sozinho. cansou os meus pulsos. trazida num enorme tonel. Como é o meu primeiro dia de trabalho. os levemos até o mar. o impedirei de fazer isto. portanto eu sou obrigado a ajudá-lo. rapidamente. um forçado é menos que um cão. o transporte dos baldes feito com a ajuda de barras de madeira. mas. terei de lhe pagar o que ele perder . O regulamento diz que. e o negro. que é quanto temos de pagar ao condutor de búfalo. ele nos espera em determinado planalto. O contrabando dele é vender merda. um simpático negro da Martinica. Para a administração. Assim. O meu novo camarada é muito prestativo. porque a contaminação dos legumes pode provocar disenteria.se é assassinado covardemente. os nossos. Penso que um dia.

De resto. Graças a Chapar não me falta nem canas. Um dia em que eu subia a encosta com um monte de lagostas e sete ou oito quilos de salmão. é raro que eu não seja chamadas às pequenas casas pelas mulheres dos guardas. uma vez por dia peixe. diz para mim que não pode indicar-me nada mais do que. utilizando cornos de búfalo. . Só tenho uma obrigação: estar na prisão ao meio-dia. Todas elas sabem o meu nome. Sei. legumes ou frutas. vende-me dois quilos de salmão.Está doente? . É pena que não o queiras vendê-lo. ele trabalha como gravador. . Troco-o por cacetes de pão.É verdade. . com os salmãozinhos enfiados pelas guelras em um arame. .Não.Papillon. Pesco quantidades tão grandes que o distribuo pelos meus amigos da prisão. Em relação à pesca. . minha senhora.Não.se parar com o seu negócio. pelo meu marido. Há quinze dias. passo diante da casa do comandante Barrot. Quando acabo o trabalho tomo um belo duche. visto uns calções e vou. nem anzóis. Quando volto. o mar aqui é mau. Chapar ou outro qualquer podem ajudar. limpa-latrinas. Na minha “panelinha” come-se. Papillon. Mas com você pode ser diferente. no cais. portanto. . pelo menos.Então não lhe vendo peixe.Fez uma rica pescaria.Tem algum filho doente? . todos os dias pescar onde quiser. no entanto. que você se recusas a vendê-lo às mulheres dos vigilantes. Uma mulher muito gorda fala comigo: . e ninguém apanha peixe. E. Eis-me. pelo menos. que nem o provo.

Uma única frase lhe escapou. sob pretexto de ir oferecer o meu peixe a troco de legumes e de fruta. Procede bem. se me oferecesse dinheiro. tudo se vende. um dos caras da minha “panelinha”. .Tome. em um clima saudável. que morrer como um bicho no contínente. Observar os jardins. A senhora Barrot nunca me fez perguntas sobre o meu passado.. situado junto do cemitério dos vigilantes. Quando recebe Figatelli da Córsega. minha senhora. disseram-me que eu só devia comer legumes e peixe cozido. Foi ela quem me explicou a origem do nome das ilhas: em uma época em que havia uma epidemia de febre-amarela no continente os padres brancos e as irmãs de um convento refugiaram-se aqui e salvaram-se todos. é Matthieu Carbonnet. Ela sabe que. Mas convida-me muitas vezes a entrar em sua casa. Ele trabalha lá . E dou-lhe mais ou menos dois quilos de peixe. apenas me pede. Há três meses que sou limpalatrinas e conheço a ilha melhor que ninguém. porque adivinhou que. fique com estas lagostas e estes salmões. um dia. Graças à pesca. a propósito dos forçados: É verdade que não se pode fugir das ilhas. Serve-me ela própria um pastéis ou um copo de vinho branco. de cada vez que faço uma boa pescaria. mas mais vale viver aqui.Por que a senhora é gorda e a carne deve fazer-lhe bem. posso andar por toda a parte.Por quê? . apesar disso. arranjo sempre maneira de a senhora Barrot fazer dieta. mas. Quem trata de um jardim. . me ofenderia. oferece-me. nas ilhas. Depois disto.É verdade. Mas aqui não é possível. Daí o nome das ilhas da Salvação.

vinte quilos. anos de prisão. um bloco de cimento. diziam que eram inocentes. Ora. No entanto. Consegui relacionar-me com eles. Mas os próprios advogados provaram que haviam sido feitos milhares de metros desse tecido para lenços. Ele diz para mim que. material para fazer uma jangada. São chamados de os cunhados do carrinho. Por fim. No meio da encosta. aos poucos. juntamente com uma grande posta. com a cabeça daquele peixe. Poderiam. Eu trazia um peixe de. Poderei agir livremente. diz: . Ontem encontrei o médico. claro. se o corpo nunca mais foi visto. poderia preparar e guardar a jangada no seu jardim. Narric e Quenier. o médico. Como são pedreiros. mais tarde. talvez. irmã do outro. A gente tinha uns iguais. na casa deles existiam lenços com o mesmo desenho e o mesmo tecido. Mais dois meses e o comandante iria embora. “segundo os policiais”. nos sentamos no murozinho. Já me orientei: limpa-latrinas de título. chamado cherne. depois disso nunca mais ninguém o viu. têm entrada livre na oficina.sozinho . os dois cunhados pegaram prisão perpétua e a mulher de um deles. Houve testemunhas que os viram transportar. Eles negaram sempre. mas é o negro quem os faz no meu lugar. O inquérito determinou que o lixeiro teria ido a casa deles tratar de um negócio e que. Ofereço-a. que depois atiraram ao Mame ou ao Sena. muito fino. que assassinaram. espantado com o meu gesto. num carrinho de bebê. Tornei-me amigo de dois cunhados condenados a prisão perpétua. . em um bloco de cimento. Papillon. Condenados a trabalhos forçados. trazer-me. Falta convencê-los.Você não é rancoroso. saio como se fosse fazer despejos. Conta-se que foram acusados de transformarem um caixeiro. encontraram a cabeça embrulhada em um lenço. pelo nos.pensei que. daria pra fazer uma sopa deliciosa. Subimos até o planalto. a troco de dinheiro.

doutor. A administração não desinterna homem por doença sem o fazer passar. mas quero que saiba que se é um simulador.Queria fugir. Eu ataco: -Doutor. − − Porquê? Quase tenho vergonha de dizê-lo. -Não é possível fazer isso e aconselho que você nunca o faça.Tem razão. ele começa a rir. Então ele confirma-me uma coisa de que eu já tinha ou do falar. .. transformando-me assim em um cidadão honesto? .Desinternando-me como tuberculoso. porque não me ajuda a consegui-lo? . Eu fiz porque o senhor fez o impossível para salvar o meu amigo Clousiot.Consegue imaginar que eu possa vir a ser útil à sociedade.Sim. . portanto. um ano no pavilhão dos doentes desse tipo. pelo menos. não era? Você não és um forçado. É muito perigoso.Acredito sinceramente que sim. doutor. eu não sou dos trabalhos forçados. sem que isso represente um perigo para ela. não fiz por mim. . que as hipóteses de ser contaminado pelos outros doentes é grande.Então. o senhor acredita que um homem pode se regenerar? . Você me dá a impressão de ser outra coisa.Como? . fazer nada por você. Perante a idéia. Falamos um pouco e depois diz para mim: . Não posso.esse gesto. Estou aqui apenas de visita. .

diz: .Tenho um gato na barriga! E sai correndo em direção à cozinha. na mesma noite. que ele tentou arranjar uma maneira de os unir e fazê-los chegar à água.diz o doutor. portanto. nestas condições. não há engano possível: isso é gato. O chefe da despensa expede três coelhos.diz o corso. . ficamos bastante amigos. As dificuldades eram muitas. o clínico e eu. de comum acordo tinha aceitado o cargo de cozinheiro no alojamento dos vigilantes-chefes. levá-los até o mar sem ser visto nem ouvido e ligá-los cabos.Não brinque comigo. porque seria preciso. Para infelicidade dele. Era para estudar a possibilidade de roubar botijões. o médico é convidado para a refeição e. doutor. no domingo. iria se tornar muito difícil lançar essa espécie de jangada em um mar que. e os coelhos têm essas costelas redondas. cabeçudo como uma mula. mas. É gato. Carbonierio nos manda. Portanto. Carbonieri é. ao cais. felicito-o pelo cardápio.Apesar disso. roubar os botijões. fazendo com eles um guisado daqueles.Senhor Filidori. Depois de Barrot ir embora. Está vendo as costeletas que eu estou a comer? São chatas. estaria agitado. certamente. o gato é delicioso. Carbonieri mandou um ao seu irmão. dois coelhinhos. com vento e chuva. o óleo e o vinagre. mesmo depois que ele quase causou a morte do meu amigo Carbonieri. Matthieu Carbonierí. dos utilizados para o vinho.Nome de Deus. cozinheiro. no dia seguinte. a fim de que ele os prepare para o dia seguinte. aponta o revólver ao nariz de Matthieu e diz-lhe: . . saboreando o coelho. Cristacho . bem entendido. -Não . Depois matou três gatos. e dois a nós. nos estamos comendo três belos coelhos. . Com efeito. felizmente esfolados. Ora isso apenas seria possível em uma noite de tempestade.

foi isso que preparei. Eu sei que.Papillon. Mais algumas semanas e Barrot vai embora. A “comandanta”. sem perceber como o negócio foi descoberto. essa boa mulher mandou-me entrar em sua casa e ofereceu-me uma garrafa de vinho quinado.É o doutor quem diz isso? . Filidori volta à sala de jantar e diz ao doutor: . vou matá-lo por me ter feito comer gato. Acabei de ver as três peles e as três cabeças. diga tudo o que quiser. doutor.Então o doutor não sabe o que diz? ..Eu dei-lhe coelhos. não sei como agradecer as suas atenções comigo. Chatas ou redondas que sejam as costeletas. . Ontem fui ver a sua gorda esposa. eu sei que o que comi foi coelho. Olhe.Se você chama de gatos aquilo que me deu. que. diz: . alguns dias depois. como todo mundo lhe chama. em certos dias de má pescaria. o despenseiro olha para as peles e para as cabeças dos coelhos. Matthieu tinha escapado por uma unha negra.Ele está brincando com o senhor. Mais calmo e convencido.Não lhe vale de nada seres conterrâneo de Napoleão como eu. foi o vinho que lhe subiu à cabeça. .Fale. emagreceu bastante graças ao regime de peixe cozido e legumes frescos. você me deu tudo o que tinha . não tenho culpa. as peles e as cabeças ainda estão ali. . Diga-lhe que isso não é brincadeira que se faça. Desconcertado. Na sala vejo malas de viagem. nestes últimos meses.pergunta Carbonieri respirando fundo. . Estão se preparando para a partida. Aproxima-se o dia em que poderei agir. No entanto preferiu apresentar a sua demissão de cozinheiro. diz para mim: .Pois bem. diga-se de passagem. Tinha olhos de louco e Carbonierí.

O comandante e a “comandanta” Barrot partiram essa manhã. . mas inteligente. No seu discurso aos forçados.apanhado. E é com uma alegria bem compreensível que eu vi partir a “comandanta” e o seu marido. tomo o comando das ilhas da Salvação. ainda que os cinco meses de parada forçada tenham passado com uma rapidez inaudita. Agradeço-lhe muito. Arranjar-me uma pequena bússola. Entre as coisas disse-nos: A partir de hoje. Tenho verificado que os métodos do meu antecessor obtiveram resultados positivos. contrariada por não ter conseguido encontrar uma boa bússola. a pesca. Uma boa nova: o novo comandante manteve Dega no seu lugar de contabilista geral. Ontem. Quatro dias depois voltava com uma magnífica bússola antimagnética. e sobretudo para mim. são poderosas distrações e nós não temos tempo de nos aborrecer. minha senhora. as lutas. Oito dias antes da partida essa nobre mulher. o novo comandante deu a impressão de ser um homem muito enérgico. essa liberdade de que gozam quase todos os forçados: os jogos. não vejo razão para mudar a sua maneira de viver. as conversas. Precisamente da pequena. Que poderei fazer para lhe testemunhar a minha gratidão? . os novos conhecimentos. ele entregou o comando a um vigilante da sua terra. é muito o que você me pede. originário da Tunísia. Graças a você sinto-me muito melhor. E em três semanas vai ser difícil. as batalhas. emagreci catorze quilos. Papillon. chamado Prouillet.Uma coisa para si muito difícil. − Não é grande coisa e ao mesmo tempo. reunidos em rodo no grande pátio. É muito importante para todos nós. toma a atítude de se meter no barco costeiro e ir a Caiena.

não me deixei dominar por esse ambiente. me faço essa pergunta: “Será um candidato à fuga? Será correto ao ponto de ajudar outro a preparar uma fuga. . mas que me domina. Cada vez que faço um novo amigo. É uma idéia fixa. como me aconselhou Jean Castelli. E. mas armar uma fuga. conseguirei o meu ideal: fugir. sem fraquejar. se não quiser fugir?” Só vivo para isto: fugir sozinho ou acompanhado.No entanto. da qual não falo a ninguém.

pele bronzeada respondeu: . . onde trabalhava o meu amigo Carbonieri . A jovem. com certeza. Concorda. oferecidos pela senhora Barrot. Graças a Dega. ao passar em frente da casa do novo comandante com uma boa porção de salmão enfiado em um arame. mas ser ajudante. De momento. bonita.SÉTIMO CADERNO AS ILHAS DA SALVAÇÃO Uma jangada em um túmulo Em cinco meses. peço a Carbonieri que retome o seu antigo emprego no jardim.Comi. disse: . é o luga mais seguro para construir uma jangada. aprendi a conhecer os mais pequenos cantos das ilhas. enquanto come um bocado de queijo cabreiro que recebi há poucos dias da França. minha senhora. Então. morena. voltando-se para mim. ouvi o jovem “rapaz de casa” dizer para uma mulher ainda nova: . dão o emprego a ele outra vez. . Entre. um copo d vinho.É este. senhora “comandanta”.Então é esse o Papillon? Depois. obrigado. Esta manhã. tipo argelino. que levava todos os dias peixe fresco à senhora Barrot.ele já não está mais ali-. Bebe.Não. a conclusão a que cheguei é que o jardim existente próximo do cemitério. deliciosas lagostas pescados por você.

gozo de boa saúde.. Papillon. − Não sei mentir. igualente. Mas sou de um porto de mar e adoro peixe.Já te disse. Preparava-me para fumar um cigarro. Isso é que me aborrece. o meu marido manda no campo. que.Deixe-se estar. .é o homem que a senhora Barrot me recomendou antes de ir embora. .Porquê? No tempo da senhora Barrot você entrava. Sim. Entro. apesar da azáfama originada pela sua mudança e a nossa chegada. a senhora Barrot teve tempo. poi que não entra agora que sou eu que o convido? .continuou. acabei por concordar em lhe trazer peixe. pelo que vejo. Não tem. o mesmo favor. . E sei que ela era a única mulher das ilhas que tinha peixe apanhado por você. Enfim. depois de lhe ter dado uns bons três quilos de salmão e seis lagostas. eu mando em casa.diz para mim -. depois café e um rum da Jamaica. esse deportado . Ao me ver. Espero que me faça. mas ela diz para mim: . Papillon . Sento-me à mesa da casa de jantar e ela me serve um prato de presunto defumado e queijo. dirigindo-se à mulher: .É que o marido da senhora Barrot autorizava-me a entrar em casa. nenhum deportado deve entrar aqui.Papillon. Sinto que essa linda morena tanto pode ser útil como perigosa.Mas ela estava doente. quando chega o comandante.. Entre sem receio.. diz. agora dirigindo-se ao marido . Só há uma coisa que me atrapalha: é que eu sei que não costuma vender o peixe que pega. Sou de . Sem cerimônia senta-se à minha frente e oferece-me vinho. na realidade. enquanto a senhora tem saúde. Levanto-me. excetuando o “rapaz de casa”. Juliette.brão. de falar de você.

Vivem lado a lado longos anos pelo que é normal criarem ódios e amizades indestrutíveis. um dos vigilantes que agrediu.Então. há mais de três anos.Aqui. − Ah! Ouvi falar de ti e da sua fuga. nem mais nem menos. apenas cinco por cento dos homicídios são descobertos. Juliette começa a rir com um riso fresco e jovem. meu e da sua protetora. nada que objetar. Quanto tempo se dedica à pesca e que trabalho é o seu para que lhe concedam esse direto?i . Chamo-me Papillon. Por outro lado. minha senhora. Aliás. é.portanto. como não podem fugir. . Papillon? . Muito mais numerosos que no continente. . . sempre de pé. vai trazer-me peixe sempre que precisar. o senhor Prouillet.Obrigado. é você o agressor de Gaston? Isso não altera em nada as nossas relações.Como se chama? Vou levantar-me para responder. meu comandante os homens. Além disso. O comandante aqui não é o comandante. . mas Juliette volta a pôr-me a mão no ombro e obriga-me a sentar de novo. são intratáveis. Ninguém entrará aqui senão ele.diz o comandante. diz para mim: É incrível a quantidade de assassinatos que se cometem todos os anos nas ilhas. que meu sobrinho. o que origina que os assassinos se sintam mais menos seguros da impunidade. A que atribui isso.Está bem .O comandante. E diz: . .A sua explicação tem lógica.Aqui é a minha casa. . na ocasião da fuga. Nesse momento. É o meu marido. do hospital de São Lourenço do Maroni.

Termino o trabalho às seis da manhã. sim. senhora. Essas três horas. em que quase todos os guardas aproveitam para dormir. chega a dizer: “A "comandanta” mandou eu vir buscar tudo o que você pescou porque tem convidados para jantar e quer fazer uma caldeirada. assim. do meio-dia às três. tenho que regressar ao campo ao meio-dia. não terá que ir ao campo.Limpo latrinas.” E eu como na casa de Juliette.” . .Está bem . . assim. felicitando-me por haver agido como agi. por causa das refeições meus amigos. É a hora da sesta.” Diz para mim isso ou outra coisa do gênero. em compensação. não deixo de reconhecer que sou protegido como nenhum outro. Deixo a casa. até me pedindo que procure pescar esse ou aquele peixe ou que mergulhe para apanhar lagostas. Ela também tem as minhas atenções: “Papíllon. meu querido? .“Vem aqui em casa pra comer. Juliette passou a dispor de tudo quanto pesco.Não. das quinze às dezoito horas.Das seis manhã às seis da tarde. . a mim e à pescaria! Vai até o ponto de mandar o “rapaz de casa” ver onde estou pescando para levar o meu peixe.Você vai dar a ele uma licença especial. Praticamente.“Sím. às vezes.diz Juliette. mas só posso sair de novo.pergunta Juliette. Muitas vezes. O que é chatoo.. .diz o comandante. Um afrouxamento da vigilância. a maré é à uma hora. Em pouco tempo. Juliette monopolizou-nos. o que me deixa tempo livre para pescar. são preciosas. Se isso me contraria bastante. sento-me para comer e de beber. voltando-se para o marido. Sentada à minha frente. Não é tão discreta . conforme as horas das manhã perco a possibilidade de fazer boas pescarias. nunca na cozinha mas sempre na sala de jantar. . porque.Todo o resto do dia? . ele poderá pescar à vontade.” .

passo por casa volta da dez horas. muito aborrecido. Esta autoritária mulher desconcerta-me tanto que me sento. depois de uma boa pescaria. Nem sei o que dizer. interroga-me muíto sobre o meu passado. Ela nunca me tinha tratado por você. − − Ok. com o espelho na mão. Cumprimentoa e ofereço-lhe uma dúzia de lagostas... que. muito cedo. Observo a menina que penteia a mulher do comandante. não é verdade? E põe-se a rir. De quanto precisa para você e seus amigos? − − Oito. Não sei onde me esconder. .diz. .a minha vida em Montmartre -. somente diante de outra mulher. o meu apaixonado. Entretanto. Sente e beba um pouco. e de tempos a tempos. da qual apanhei cerca de sessenta lagostas. Amanhã. E estupidamente falo: . que ponha em um lugar fresco. . Saboreio lentamente o pastis enquanto fumo um cigarro. Encontro-a sentada.Belo! Deixe-as aí. Deve estar com fome. de roupão enquanto uma jovem.como a senhora comandanta anterior.Me dê todas elas. lhe põe rolos no cabelo. Simone?. Quantos pescou? Sessenta. percebe e diz-lhe: . o comandante dorme no seu quarto.Que tal. Mais ou menos dissimuladamente. certamente. atrás dela. faz favor. Já ia embora. Juliette. tem ciúmes de mim. para contar a minha juventude e a minha infância. Evito sempre falar no assunto que a interessa . Então fica com os seus oito e dá o resto ao rapaz. quando ela me diz: . hem.Tranquilize-se. me deita uma olhadela. não deixará de contar para todo mundo.

outro dia. com certeza que nós.Ela o vê passar com lagostas e uma grande moréia: “Venda-me essa moréia. como a senhora diz. aprenderam. Ao ponto de.Essa vaca põe você em perigo.diz a argelina. contou-me ela.. mas eu faço o que quero de com você. os Bretões.” .” E continuou o caminho sem nada vender a ela.contínua Simone. . As duas mulheres se acabam de rir. sabemos prepará-la muito bem. ou mesmo metade. Vai lá o menos possível e só quando souber que comandante está em casa. é um selvagem para todo mundo. verdade. . não pode apaíxonar-se por quem quer que seja. jogador sempre endividado: de dia. Todo mundo é da mesma opinião. porque até então só havia carne no talho. Matou um guarda-florestal.Ah! Essa é das melhores que tenho ouvido contar. na semana passada. .Ninguém pode domar um leão como você. Bretões que a apreciam devidamente. depois dos Romanos. regresso ao campo e.Felizmente que o seu apaixonado. conto à galera toda a história. menos para a mulher do comandante. dois peixes que ela tinha um desejo enorme de comprar.“Não são apenas. à senhora Kargueret . Muitos outros. inclui do os da Ardèche. Você não desconhece. Deve haver uma razão para isso. Simone! . dada a situação em que se encontra. Furioso.Sabe o que ele disse. . Papillon. trazer mais de quinze quilos de peixe e não ter querido vender à mulher do vigilante-chefe. Simone? . não é perigoso e. Papillon.Isso é muito sério .Não conheço a razão . Estou decidido a seguir o conselho. -Não vai me dizer que não está apaixonado por mim . . mas o que sei é que você. que a moréia é um prato de primeira qualidade. Muitas vezes tem que . É quase meu conterrâneo.responde essa -. se acaba fazendo lucros altos e à noite perde o que ganhou. à noite.diz Carbonieri. Descobri um marceneiro de Valença. É um sanguinário.

depois. que me veio dizer que Viciolí o ameaçava por não ter lhe pago os setecentos francos que devia.4shared. pois não pára de discutir com aqueles a quem deve dinheiro. . porque eu não gosto que o explorem.Bourset. Farei um sinal.Não é de Valença? . Naquele momento.. tudo corre bem até o dia em que contrai uma dívida com Vicioli. No entanto. que eu lhe darei o que ele vale.. Bourset tinha uma pequena escrivaninha que estava quase acabando. À noite nos encontramos a sós para conversar calmamente. . pagando-lhe por cento e cinquenta ou duzentos francos por uma arca de boa madeira que vale trezentos. Então. Quando você perder dinheiro e quiserem pagá-lo com metade do valor do último objeto que você fez.Não! Como?. portanto somos conterrâneos. . abusam dele. característico dos bosques da Córsega. Um dia.Quero falar com você essa noite.com) . nos lavabos. mas não pode dizer quando estaria pronta porque trabalhava escondido. Com efeito.Interessa. É tudo. Digo-lhe: .Obrigado .E eu da Ardèche. um vadio do maquis41. Decidi experimentá-lo. não estamos autorizados a 41 conjunto de arbustos e plantas diversas. um dos meus bons camaradas. Não deixo de intervir para ajudá-lo. espero por você nas latrinas.Sou. .diz Bourset. disse-lhe: .E.entregar um ou outro objeto para compensar o credor. traga ele pra mim. sabes que somos conterrâneos? . o que isso interessa? . Soube pelo Bourset. usado como refúgio pelos marginais por ter uma vegetação densa (Nota da revisora: http://amandikaloka.

Bem. Naric e Quenier. À noite digo a ele: . Papilion. porque nas ilhas só há madeira pesada. em peças separadas.Porquê? . Pela primeira vez na sua vida de forçado.Quer partir comigo? -Não. se fizer o que eu peço: uma jangada para dois homens. . Então. E foi isso que aconteceu. Então me resolvo a arriscar. eu chegarei como salvador.consertar móveis muito grandes. . -Ouve. Depois da pseudo-intervenção arquitetada por mim. Então eu monto uma pequena comédia. − − Tenho alguém. que não flutua. Só há um problema: não posso tirar da oficina pedaços de madeira muito grandes. − − Quando você me dá uma resposta? Dentro de três dias. Digo-lhe que verei o que posso fazer. de acordo com Vicioli. e inspiro nele uma confiança absoluta. para que tudo encaixe perfeitamente. por causa da quantidade de madeira que é necessária. esse exercerá pressão sobre Bourset e irá ameaçá-lo mesmo seriamente. Quem? . mas. primeiro é preciso esboçar um plano à escala. não faria isso a ninguém. para você. O mais difícil é encontrar madeira que flutue. . se for apanhado. Bourset não vê outra pessoa a não ser eu.Tenho dois mil francos para você.Os caras do carrinho. pode respirar tranquilo. eu estou pronto a arriscar dois anos de reclusão. depois cortar as peças uma a uma. com entalhes.

deixe-a no lugar que eu indicar. darei a você. De repente. será o contrário. Resolvi isso imaginando uma espécie de carcaça oca de madeira. O único problema é que isso vai demorar. Está prometido? . Assim. Terminando uma peça. . É um domingo de manhã.Promete me ajudar? .Então. Eu reconhecerei ser o autor dos bilhetes. primeiro. Ela será retirada. não tenho medo e gosto de ajudar você. sob os lavabos.Juro pelos meus filhos.Tenho medo dos tubarões e de me afogar.Não tem medo? − Não. faça a jangada acima desenhada.” Mais tarde. . No pátio. Somente uma longa e interminável semana depois é que posso falar a sós com ele. Espero. . mais ou menos seis meses. Copiarei o plano da jangada em uma folha de cadeira e por baixo escreverei: “Bourset. que será recheada de cocos secos com seu invólucro de fibra. ele me enche de alegria. Quando a . Deve. por escrito.Ouça bem: vou preparar uma defesa pra você em caso de acidente. bem entendido.. Ainda não disse nada pra ninguém. guardar as ordens por escrito.E se você for apanhado? . Não há nada mais leve que essa fibra e a água não consegue penetrar nela. na biblioteca. a resposta de Bourset. Não procure saber por quem.Sim. nem quando (esta idéia parece aliviá-lo). bem entendido. se não quiser ser assassinado. as ordens para a execução de cada peça. . . Perto de oitenta jogadores e outros tantos curiosos. evito a sua tortura se for apanhado e apenas arrisca um mínimo. o jogo atinge seu máximo.O mais difícil era arranjar madeira leve e seca em quantídade suficiente.

terei o suficiente para pagar os cigarros e o bife. Eis aqui o plano que eu fiz. Portanto. depois. Tenho necessidade de me reabilitar perante mim mesmo. de alcunha o Bonne Bouille. mesmo tendo medo. Já falou com os caras do carro de mão? − − Ainda não. poderá ser levada. A partir de hoje até a sua partida. se for necessário fazê-lo à custa de situações difíceis e nem sempre corretas. Estou feliz. copie e me envie a carta prometida. por um dos operários. Mesmo com as precauções que tomamos. Você me ajudou. tem quinhentos francos aqui. Fazendo trabalhos.Não. olhando-me bem de frente. Ele diz para mim sem hesitar: . . me sinto envergonhado perante tanta nobreza e ingenuidade. não jogarei mais. terá necessidade dele para preparar outra fuga. que.Porque eu não faria isso nem por dez mil francos. arrisco demais. não sei como agradecer. . e é assim. diz para mim: . Demorarei mais ou menos três dias. mesmo. Nunca começarei outra peça antes da precedente ter saído da minha oficina. A partir de quarta-feira.Porque recusa? . estava esperando a sua resposta. compete a você ter bastantes coco para meter lá dentro. preciso fugir a qualquer preço. foi o único que me estendeu a mão. Não veio sequer à mente dele que as minhas boas ações com ele eram calculadas e interesseiras. amanhã eu faço a primeira peça. Tome. da primeira clareira. vai informar o cunhado. Pois você já tem a minha resposta. Somente gratidão pode me pagar. por ajudarei você a ser livre. Bourset. A essa altura.Obrigado. Já falei com Naric. Se você chegar ao continente. guarde o seu dinheiro.jangada estiver pronta. Enquanto copio o plano para uma folha de caderno.

prometo que não perderemos nenhuma ocasião.Conte comigo para tirar as peças da oficina. Faltam só os cocos. Não tenho o direito de me calar porque eles podem ser acusados de 42 viveiro onde se criam plantas até a época de serem transplantadas (Nota da revisora: http://amandikaloka. Apenas quero que você não exija muita pressa porque nós não podemos retirar senão quando sairmos com muito material para fazer um trabalho grande de pedreiro. se passarem por cima e perceberem que o chão é falso. .Num alfobre42 de legumes não. Tudo parece bem planejado.com) .. porque tem os guardas que roubam legumes durante a noite e. só tenho que levantar a pedra e repô-la no seu lugar. Vou arranjar um esconderijo em um muro de apoio pegando uma pedra grande e fazendo uma espécie de gruta. sinto-me reviver. Assim que chegar às minhas mãos uma peça. Bem. na ilha.Matthieu. pois é ele que penso pra fugir. o melhor é combinar um lugar diferente para cada peça. estamos ferrados. encontrei quem me construa a jangada e quem retire as peças da oficina. . Só me falta falar com Matthieu Carbonieri. Só me falta falar com Galganí e com Grandet. Compete a você descobrir no seu trabalho um local para enterrar a jangada. depois de esconder a madeira. Está cem por cento de acordo. Os caras do carrinho não têm justificação alguma para irem ao meu jardim. A partir de então. arranjar uma quantidade suficiente.Quer que levem diretamente as peças para o seu jardim? -Não. isso seria muito perigoso. Em todo o caso. . não muito longe do jardim.4shared. Verei como posso. . sem chamar a atenção. que é perigoso.Entendido.

eles me mandam calar a boca e se recusam categoricamente: . tudo oportunidades para falar comigo. porque a pesca já desenvolve os braços. uma de dois bem. porque ele tomou a precaução de colar musgo em volta. Demais.cumplicidade. O lugar é perfeito. Nós nos arranjaremos. não me larga e. No entanto. Juliette. explicou-me que no dia do penteado estava brincando. Para manter o equilíbrio. a mulher do comandante. e a pescaria me mantém em perfeita forma física. até mais longe do que costumo quando pesco. Enfim. já passamos por tantas coisas.Parta o mais depressa possível. Fui ver o paredão onde Matthíeu cavou o esconderijo. O resultado é excelente. contraio os músculos. Aliás. e as ondas vêm rebentar contra minhas coxas. Como eu previra. duas das quais grandes. Normalmente eu deveria separar-me deles e viver só. O fato de eu estar preparando uma fuga levanta extraordinariamente o meu moral: Como mais do que nunca. Bourset aproveita todas as . Só faltam duas peças compridas. Enquanto você espera. a menina que lhe serve de cabeleireira. Quando lhes digo que estou preparando a fuga e que devo me separar dos dois. Já faz um mês que a fuga está em preparação. me dirige palavras amáveis acerca da minha saúde e do meu moral. sempre que volto da pesca. Portanto. mas já notou que só entro na casa dela quando o marido está. Recebi sete peças. Disse a mim francamente e. para me deixar à vontade. mais de duas horas de ginástica nos rochedos. Já faz dois meses e meio que começamos a mexer com as peças. continua sendo muito amável comigo. mas a cavidade parece muito pequena para que a jangada caiba lá. em todas as manhãs. sobretudo exercícios com as pernas. por enquanto ainda tem lugar. fique conosco. encontrei o exercício ideal para as pernas: meto-me pelo mar dentro. Não se nota que a pedra está deslocada. o esconderijo está cheio.

semana passada. A cova está coberta de folhas de coqueiro entrelaçadas. O “rapaz de casa” julga que os coloquei lá à espera da época própria para fazer óleo. reparo em um túmulo recente. Matthíeu Carbonieri. ele conserva o branco. O guarda do cemitério é um velho forçado meio cego. essa manhã. a alargar a cova para que a jangada. Encaro então a hipótese de me servir desse túmulo para montar a jangada e de colocar na espécie de túmulo que o marceneiro fez o maior número de cocos possível. se faz de vigia. muito menos do que estava previsto.metros. Depois de unidas e numeradas todas as peças. tomei a decisão . nem quem se aproxima dela. formando uma espécie de cobertura bastante resistente. Na cavidade do . Tem em cima um ramo feio. de onde está. perto dele. Só no pátio de Juliette se encontram nada menos que uma dúzia deles. tirei-as do esconderijo. Repousam agora na cova da boa mulher. bem escondidas pela terra que cobre as esteiras. muito arriscado. uma pequena camada de terra. Não se nota quase nada. outra de um metro e meio. Quando soube que o marido da morta partira para o continente. Lá se vão três meses que dura essa preparação da fuga. que morreu com flores ressequidas.de remover uma parte da terra da campa. Enquanto não houver perigo. com um metro e vinte. As horas parecem intermináveis e o boné vermelho apareceu diversas vezes. Tenho os nervos à flor da pele. mais ou menos. que passa o dia inteiro à sombra de um coqueiro. no ângulo oposto do cemitério. Não tirei a terra até a urna. Esse trabalho. Olhando para o cemitério. Se aparecer alguém. sentado no seu muro. de largura. quem quer que seja. a da mulher de um vigilante. possibilidade de ver o túmulo. alcunhado de Papa. enfim. porque fui obrigado. também com quatro nós. Pôs na cabeça um lenço branco com nós nas pontas e tem. Terminei. Por cima. até a urna. que não caberão no buraco. um lenço encarnado. Cabem somente um pouco mais de trinta. põe o encarnado. caiba lá. pois distribuí mais de cinquenta por vários locais. não tendo. não demora mais que uma tarde e uma noite.

por meu intermédio. uma corda com dois metros. Suo por todos os poros.” Como eu tivesse levado os cocos que espalhara pelo pátio de Juliette. ela reparou nisso e senti um terrível medo de ser descoberto. guardamos três sacas de farinha.“É um pouco demorado. Digo a ela: .insiste ela. Bourset está cada vez mais excitado. não acha? “ .muro. que ela profira a palavra fuga.“Sim. todo o azeite que quiser? Esses cocos são para outra coisa. nem arriscar muito. Podemos apanhá-los facilmente e sem perigo no estábulo aberto dos búfalos. pois teríamos calculado uma jangada para três em vez de dois. − É estranho. a vela. para que serveria.Se quer que eu lhe diga.” .“Não se. Depois de um momento de reflexão ela continua: . sempre fez o tal óleo de coco? Porque não trabalhou aqui no pátio? Eu tinha um maço para abri-los e eu lhe emprestaria uma panela grande para você pôr a polpa. Papillon. se você pode obter. e é tudo. Estamos na estação das chuvas e por isso chove todos os dias. Aliás. espero. Os meus amigos me perguntam em que altura vou. desde o princípio. Dizemme simplesmente de vez em quando: “Vai indo?” .Prefiro fazer isso lá no campo. parece até que é ele quem vai fugir. uma garrafa cheia de fósforos e lixa. . . uma dúzia de latas de leite. não acredito que vá fazer óleo de coco. o que me ajuda nas visitas à sepultura.Então. Naric já está com pena de não participar da fuga. no campo não deve ser lá muito comodo. faltando apenas as duas guarnições da armação. não é? . Tenho a respiração cortada. A jangada encontra-se quase pronta. Fui aproximando a pouco e pouco os cocos do jardim do meu amigo. pode andar mais depressa. tudo tá correndo bem.

e sobretudo proíbo-o de gastares dinheiro para me dar presentes.com ) . tiro as esteiras: a água recobre a urna. na fabricação de borrachas. pois ela respondeu: . Felizmente ela nem nota a minha atrapalhação.Minha senhora. mira-se a sepultura de duas crianças que morreram já faz um bom tempo. é um segredo. Agradeço-lhe sinceramente. essa operação diminuiu para metade a infiltração no nosso túmulo-esconderijo. um impermeabilizante usado na pavimentação de estradas.4shared . . fazer com a casca algo para lhe oferecer. tintas etc. Convencia-a. mas por baixo deve estudo inundado. verei. Chove todos os dias. entro lá e com uma barra procuro fazer uma abertura no cimento. não se incomode por minha causa. Poucos dias depois. passando da outra cova para esta. coisa que nunca faço.. Aqui está a verdade. Matthieu repõe periodicamente a terra que desaparece. Ufa! De repente peço-lhe que me ofereça uma bebida. Quando consigo. O momento é crítico. Mas não lhe direi mais senão que estes grandes cocos foram escolhidos para. sobretudo à tarde e à noite. uma vez ocos. Carbonieri diz para mim: . Deus está comigo.Bem. Pegamos a laje e a betumamos43 com cimento branco que Naric me tinha arranjado. na tumba onde está a jangada. em tão grande quantidade que atingiu a altura dos meus joelhos. infiltrando-se pela pequena camada de terra deixe à vista as esteiras dos cocos. desloco a laje deles. mas não o faça. a água esguicha.Papillon. peço-lhe. mas vejo-a tão intrigada e curiosa que vai estragar a surpresa que eu queria fazer pra senhora. À noite. (Nota da revisora: http :/ / am and ikaloka. Não muito longe. Ajudado por ele.Essa fuga sempre dá confusão! 43 Betumar: Impermeabilizar ou revestir com betume. Tenho medo de que a água.

Eu parto ostensivamente. um pouco à frente deles com duas alfaces. − Estamos verdadeiramente sobre brasas. Então. Venho buscar o mamão que você me prometeu. Papillon. A dez passos distingo as esteiras. O vento sopra todas as noites. tomates e rabanetes para as suas mulheres? '' − O seu jardim está bem tratado. quando Matthieu põe o seu lenço branco na cabeça.. Bom dia. quando fui buscar umas varas pros meus feijoeiros. Mas dentro de quatro ou cinco dias já vai ter mais. Aceitam os tomates. . Porque será que esses três guardas estão no jardim? Virão fazer uma busca? Isso não é costume. De manhã. Respiro fundo e tenho tempo de me recompor antes de chegar perto do grupo. desci ao cais e pedi a Chapar que me comprasse dois quilos de peixe. esperemos. Matthieu. senhores vigilantes. Matthieu. vigilantes. Passo pelo cemitério. mas me roubaram ela essa manha.Quase. Intrigado. avanço pelo caminho que conduz ao jardim. Quando me aproximo vejo três capacetes brancos. Espero mais de uma hora. as alfaces e os rabanetes. Ele concorda.Já estamos quase no fim. quase sempre acompanhados de chuva.Bom dia. varrendo o planalto da ilha com rugidos de raiva. Esperemos que isso . Decido ir ver o que está acontecendo e. que levou a terra. o túmulo está meio descoberto por causa da chuva. só por milagre não fomos descobertos. felicito-o . estou mais ou menos a vinte metros deles. . que virei buscar ao meio-dia.diz um deles. − Lamento. Os guardas me vêem chegar. Subo até o jardim de Carbonieri. cuidadosamente. não querem alfaces. Nunca vi três vigilantes no jardim de Carbonieri. sem perceber nada.

Esse Bébert Celier. Pergunto a Grandet: . Nunca foi civil. pode ser um delator? Ele me responde: . chegou bem ao seu destino.No entanto. Eu mesmo o montei: entrou perfeitamente. um desses soldados durões que esteve em todas as prisões militares de Marrocos e da Argélia. Uma impressão desagradável produzida pelo olhar muito curioso de um tal Bêbert Celier. tome a . mas não se pode dizer o mesmo para o túmulo. Os dois cunhados iam caiar um edifício. Os seus olhos seguiram Naric até a porta da oficina. nos encaixes. .Não. colocá-la em um tonel de cal e depois levá-la. de uma importância primordial mas ridiculamente embaraçosa. O maior pedaço de madeira. o de dois metros. batalhão de África. .Você tem alguma suspeita? Pensa que alguém está a par da nossa fuga fez confidências? Vá. Tenho a impressão de que ele viu Naric pegar na peça no estábulo. que está na nossa caserna. Até parecia duvidar que ela chegasse às minhas mãos. parece-me que qualquer coisa o inquieta. Por aqui dá pra ver. fale! . Está felicíssimo por saber que tudo correu bem.Esse homem foi dispensado dos trabalhos públicos. Bourset chegou a correr ao campo para saber se eu tinha recebido essa peça. Se você suspeita dele. pederasta apaixonado por jovens e jogador.dure. sem esforço. Conclusão: um inútil extremamente perigoso. Interrogo-o. É por isso que estava preocupado. não e não. É um tempo de sonho para partir. Os trabalhos forçados são a sua vida. Foi se juntar às outras peças da jangada. perigoso com a faca.

Tomem com ele as mesmas precauções que com os guardas.Acho que.Nada prova que seja um delator. que denuncia logo à primeira vista que é para uma jangada. por uma questão de ética. Eu devia. o meu cunhado estava nervoso e com medo. Quer fazê-lo ele mesmo. . por causa do tamanho desta peça. localizem Bébert Celier antes de agir. . Não são delatores por natureza.Bonne Bouille. Saí com o tonel às costas para que o carcereiro pudesse ver o interior.É também a minha opinião. Tenho grande dificuldade em impedi-lo. Esse Bourset imaginou por demais da conta.iniciativa e assassine-o essa noite. Sabe que esse tipo de forçados não gosta de fugas. Assim não terá tempo de denunciá-lo.É verdade . Mas depois o meu cunhado me disse que ele achou que o Bébert Celier estava nos observando atentamente. Não falemos mais nisso. mas tratando-se de uma fuga.Qual é a sua opinião? . Quando transportarem a última peça. quem sabe? Consulto Matthieu Carbonieri. . inspirando-lhe confiança para ele não revistar o tonel.Eu não. sem largar à espera de que o meu cunhado chegasse. se tiver essa intenção. Interrogo Naric: . Repugna-me assassinar ou deixar matar alguém apenas por suspeita. plantar-me bem em frente do carcereiro. . Isso era para que o árabe visse bem que eu não tinha pressa. O medo pode fazê-lo ver as coisas ao contrário. Isso perturba muito a sua vída organizada. mas também nada nos garante que seja um tipo honesto. notou alguma coisa de especial em Bébert Celier? . .diz Galgani -. Ele é da opinião de que deveria matá-lo essa noite. Imagina coisas que não viu realmente.

Arranjo a terra com os pés. A chuva parou e eu vou.No outro lado da ilha. O mar está bastante agitado. . recupero a calma. quando desço para pescar. até o cemitério. Ganhei sete mil francos. . Estou muito inquieto. Depois de ter preparado os salmões para cozinhar perto da água do mar. Começo a pescar e apanho rapidamente uma quantidade de salmão.Papillon. É por isso que a senhora não me viu. Vou procurar Matthieu. pela noite ainda escura. descanso um pouco. mais de cinco quilos. Deixo o negro da Martinica fazer o meu trabalho.Passei toda a noite jogando. Quanto mais distraído jogava mais ganhava. Do muro do seu jardim vê-se bem o túmulo e reparo que há bastante terra na área. pensando no caso de Celier concluo que não tenho o direito de assassiná-lo. Onde pescou esse peixe? . Com os óculos procurei por você e não o vi. Não tenho a certeza. Passo pela casa de Juliette e dou a ela metade do peixe. Às sete horas.Porque vai pescar tão longe que nem com o óculos consigo vê-lo? E se for arrastado por uma onda? Ninguém poderá ajudá-lo a escapar aos tubarões. Sentado à sombra. saio para cumprir a minha suposta obrigação. Vou para a ponta sul da Real. Ao meio dia Carbonieri irá varrê-la. e me sinto enervado por causa da noite perdida naquela partida louca. mas fica mais ou menos bem. onde tenciono pôr a jangada na água. está já um sol maravilhoso. Estou de tal modo perturbada com esse sonho que não me lavei nem me penteei. Às quatro e meia. porque não conseguir encontrar a pá. sonhei coisas más a seu respeito. dizendo a mim próprio que essa tensão em que vivo há mais de três meses está preste a chegar ao fim e.Oh! Não exagere! . mas parece que não vai ser fácil nos afastarmos da ilha sem sermos lançados contra os rochedos por uma onda. eu o vi cheio de sangue e depois acorrentado. envolvido em uma disputada partida de marselhesa. Ela diz para mim: .

Um dia diz que. Faz o encaixe e. Decidimos que ele a faça e a esconda debaixo do seu de carpinteiro. mas espero você às quatro horas para tomarmos um café. A peça lá está no lugar. Vem? . farei com que lhe retirem a licença . direi ao rapaz que lhe serve de criado aonde vou pescar. mas Bourset persiste em não fazê-la. Não havia nada melhor para me acalmar do que o sonho de Juliette! Como se eu não tivesse bastantes problemas autêntícos! Bourset diz que se sente vigiado. às seis horas. fez a peça contra vontade. vou regressar ao campo e me deitar. Naric e Quenier. Mas está com um ar cansado. . É preciso aproximar esta circunstância. com o cabelo. . minha senhora. que têm de encaixar com precisão milimétrica.Sim. minha senhora. depois de verificar que.Bem. é nela que encaixam as outras! Cinco nervuras da jangada. Já faz quinze dias que esperamos a última peça. é o último a sair da oficina. até là. como andam reformando a capela.Bom. alguém mexeu na peça e voltou a colocá-la no mesmo lugar.. Falta-lhe talhar um encaixe na extremidade. da carroça puxada por um pequeno búfalo. podem entrar e sair facilmente da oficina com muito material. Para satisfazê-la. Matthíeu a teria feito no jardim. Mais ainda. instigado por nós. Bourset.Acha que sim? Proíbo-lhe de pescar no outro lado è ilha e. . se não me obedecer. enquanto saía. . Deve pôr um cabelo em cima para ver se mexem na peça. além do guarda.Sim. Se ela não precisasse de cinco entalhes. muitas vezes. mais ninguém está.Vamos. Com efeito. Natic e Quenier dizem não ver nada de anormal. de um metro e cinquenta. servem-se. seja razoável. minha senhora.

Terão de descobrir quem sabe o esconderijo. porque é certo que alguém sabe que sendo construída uma jangada. Avise-os. São. estou no campo. às três. finalmente. está tudo certo. é preciso que dois homens se envolvam à pancada diante da oficina.” Naric e Quenier estão de acordo. Naric e Quenier devem aproveitar este incidente para sair imediatamente com um motivo qualquer. Acho que essa ação me é favorável. Um alemão se aproxima e entrega um bilhete bem fechado e colado. Natic e Quenier estão na primeira fila. Naric e Quenier estão e Bourset não aparece. à espera que cheguem os que amigos que trabalham na oficina. Eles partem. porque. oitenta homens. Leio: “O cabelo desapareceu. Bébert estará ainda junto da porta da oficina ou talvez um pouco à . Ele me deu o serão. edi ao guarda que me deixasse ficar trabalharndo durante a noite para terminar um cofrezinho de madeira. Se isso der resultado. Pedimos esse favor a dois conterrâneos de Carbonieri. pedaços de madeira e a peça. Entre a chamada e a saída para o trabalho há um intervalo de trinta minutos. enquanto Naric apanha paus. Talvez consigamos andar mais depressa do que o cara que nos vigia. duas horas e trinta. tenho que ficar quieto um ou dois meses. Colocam-se no primeiro turno dos trabalhadores da oficina. os homens preparam-se.Meio-dia. que tem vinte filas de quatro lugares. os outros não terão acabado de entrar. eles saiam imediatamente com a prancha. Bébert Celier está mais ou menos no meio da coluna. Estamos todos de acordo que nos resta uma oportunidade. Vou levar a peça e pô-la no lugar das ferramentas de Naric. Verifico que o alemão não tenha olhado pra ele. Massani e Santini na décima segunda. Antes de entrarem todos. É preciso que. Bébert Celier na décima. portanto mexeram na peça. Eles não querem saber o porquê. como se estivessem com pressa de ir trabalhar caso não lhes interessasse. corsos de Montmattre: Massani e Santini.

Finjo uma grande dor de cabeça.Quanto? − Oito dias . que vão para calabouço. vir me convidar para uma partida. em geral sexualmente transmissíveis (http :/ / am and ikaloka. (Nota d a revisora. 44 Pátio externo d escob erto à frente d e um a ig reja.4shared . Durmo toda a noite. Santini. Bourset chega radiante: .frente. incluindo Bêbert. De pé. Eles não conseguiram tirá-la da capela. tudo correu bem.Disseram que eu tinha um cancro45 . talvez não a encontre casa. Naric e Quenier estão satisfeitos. Um guarda corso diz: − Não é uma desgraça ver dois conterrâneos brigando?! Volto a prisão. a peça está debaixo de algum atrial44. se bem que os jogadores tenham vindo. Vou visitar Juliette. Passo ao lado deles e pergunto-lhes: . Quatro horas. Já sabíamos antes. vejo Massani e Jean. Quando a briga rebentar. e automaticamente todo mundo se voltará para ver. Carbonierí e os meus amigos regozijam-se me felicitando pela maneira como organizei a operação.diz para mim ele -. como eles vão gritar como dois bezerros. O que de fato acontece é que estou morto de sono. À volta passo pelo largo onde se situa a administração. Seis horas. na igreja. mas contente e feliz por me encontrar prestes a conseguir os meus intentos. e depois o médico me confessa que se enganou e que não tenho nada.4shared .com) 45 ulceração isolada da pele ou mucosas que constitui o estágio inicial de várias doenças infecciosas.com) .responde Santini. Tudo corre bem. à sombra. em breve tratarei disso. Http :/ / am and ikaloka. ao fim da tarde. uma vez que o mais difícil está terminado.

deixando arrumadas junto dos baldes a vassoura e a pá. Todas as manhãs. Contei tudo a Jean Castelli e disse a ele que estava fugindo. Aqui fora.) .Esta manhã a peça foi. colocar os cocos e os víveres. regresso ao meu trabalho nas latrinas. a ida pelo jardim ao pé do cemitério e salto o muro. A jangada aparece no seu lugar. para colocar a peça. Converso com ele sobre a melhor hora de montar a jangada. de manhã. depois. o guarda do cemitério vai limpar as áreas próximas do túmulo que serve de esconderijo. o último pedaço da jangada. no cemitério. Ficou muito contente. Enquanto retiro a terra de cima das esteiras. com cada nervura bem ajustada. às vezes. também chove de noite. no dia seguinte. é preciso ???46 46 Arq uivo d anificad o . Deixou de chover durante todo o dia e. enfim. No ainda será preciso. Há quatro meses exatos que preparo a fuga e há dois dias que recebemos. uma vez a jangada lá fora. pegando na vassoura. onde podemos executar de dia. Com efeito. a melhor hora para pôr a jangada é às duas da manhã. limpo a área sempre à pressa. de madrugada. Os cunhados trazem as esteiras e pomos elas de lado. suja de lama mas em perfeito estado. e não seria prudente eu me aproximar. coordenadas as nossas ações. vou com uma pá de madeira bater a terra do túmulo. o outro remove a pedra e junta-se a mim com a peça. tirar do jardim de Matthieu a famosa peça e pô-la no seu lugar. porque. a fuga. Os meus sentidos estão alerta para as horas H: primeiro. (Nota d a revisora. Segundo ele. Depois. Meus amigos e eu decidimos precipitar os acontecimentos. guardada por Matthieu no buraco do muro. à às nove horas. Desde a colocação da peça no seu lugar e. provisoriamente.

. Deixamos cair a jangada e levantamos as mãos. Passe na minha casa amanhã de manhã.Não caiam na asneira de oferecer resistência. mas. assim como a de Matthieu. Então eu digo: . Admitam isso e salvem. cada uma bem fixada no seu lugar. .diz o sacana.Não fui eu que disse isso pra vocês. caminhem.Obrigado . Celier também tem que me pagar. darei a você o que prometi. chefe. estão rendidos. aparece um vigilante de carabina no momento em que tínhamos terminado e íamos embora. reviste-os. pois.Foi Bébert Celier quem nos denunciou. em direção ao comando. Para as ajustar fomos obrigados a bater com a jangada no seu lugar.responde o guarda. o guarda ordena: .É igual. Continuando a nos ameaçar com a carabina. Esse guarda é o vigilante-chefe da oficina. .Irei sem falta. .Mohamed. obrigado pelo favor que me fez. chefe? .Nem um gesto ou são homens mortos. não é assim? − Arranje-se com ele . Vamos.Encaixamos as cinco nervuras. com que tenho a disparar sobre vocês. . Eu dígo a ele: . ela está por um fio. sempre de mãos no ar. pelo menos. O árabe tira a minha navalha do cinto. é bom saber.Mohamed. Ao passar pela porta do cemitério encontramos um carceireiro: O guarda diz-lhe: . a sua pele.

A caminho . Agora. Fui metido em uma cela cuja janela gradeada dá para a estrada do comando. .Nada. O calabouço está às escuras. para nos deixa caçar como dois idiotas.Primeiro foi Bébert Celier. . que tinha vindo à nossa frente. já falaram demais. escondendo uma jangada que.Prenda-os no calabouço.O que tem a dizer. Os quatrocentos metros que tínhamos de percorrer para chegar ao comando pareceram o caminho mais longo minha vida. . avisado pelo árabe. você é esperto.pergunta o com dante. . senhor Bruet? . havíamos encontrado vigilantes.Que aconteceu. . falarei durante a instrução do processo. assim corno Dega e cinco vigilantes-chefes. . creio.Eu trepava todos os dias no alto de um coqueiro virado para onde vocês tinham escondido a jangada.. . iam sete ou oito guardas atrás de nós. porque.Apanhei estes dois homens em flagrante delito. Estava destruído. O comandante.diz o guarda -. podem baixar as mãos e andar mais depressa. como sois cruel comigo! Foi um bom escândalo a nossa chegada ao comando. à medida que avançávamos. que se juntaram àquele que nos ameaçava com a carabina. Como nos descobriu? . Papillon? . está na soleira da porta do edifício da administração. Tanto trabalho. mas eu ouço as pessoas que falam na rua.Quem lhe disse pra fazer isso? . depois o vigilante Bruet. Quando chegamos. está pronta.Mohamed. Meu Deus.

comprometendo-o falsamente. que lhes servia de esconderijo para dissimular a jangada. Afirmo que eles nada têm a ver com isto. Charríère e Carbonieri. Acrescento que surpreendi. Bruet Auguste.diz o comandante -. segundocomandante.Em resumo . e creio poder também tornar responsáveis por cumplicidade Naric e Quenier. operação que eu não podia fazer sozinho. Carbonieri não é culpado de desvio e roubo de material perante ao Estado. A distância.insiste o guarda. . Quanto a Naric e Quenier. nem de cumplicidade na fuga. vocês são acusados igualmente de roubo e desvio de material pertencente ao Estado. vigilante-chefe. Que confiança merece um espião? . ouçam o relatório que o senhor fez a seu respeito: “Eu.Primeiro. pode muito bem se vingar de qualquer um. .O que têm a dizer? . . sentado a uma mesa pequena. de profanação a um túmulo e de tentativa de fuga. das declações de Charrière e Carbonieri. Apenas o obriguei a me ajudar a retirar as esteiras do lugar. eu. Acuso de cumplicidade o marceneiro Bourset. Portanto. A jangada está calculada para levar um homem só.Os acontecimentos sucedem-se depressa. certamente rápidas. A sala do comando assemelha-se a um tribunal: comandante. Às três horas mandam-nos sair e põem-nos algemas. vigilante das oficinas das ilhas da Salvação. que Carbonieri não tem nada a ver com isto. acuso de roubo e o de material pertencente ao Estado os forçados Charriére e Carbonieri. Bourset é um pobre diabo que agiu sob ameaça de morte. e ?? r na mão. . .pergunta o comandante. Queiram assinar a declaração. são homens que quase não conheço.Não é isso que diz o meu informador . pois ela não se consumou. em flagrante. toma notas. violandoo túmulo da senhora X.Esse Bébert Celier que os informou. Um guarda serve de escrivão.

sorrindo. a encosta do abismo para que tinham me atirado.4sahred . não ando. para o protegerem de vinganças. em conseqüência de inflamação (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. em uma sala à parte. que sua mulher acha normal que um homem. o enfermeiro. Recebi um bilhete de Chatal. Pergunto-lhe quanto custará. ao sol. Estou como louco. Coisa curiosa. . o comandante está completamente convencido de que tudo se passou assim.Não assinarei a não ser que acrescentem a minha declaração acerca de Carbonieri. Nessa manhã. Ele diz para mim: . Bourset mostrou o bilhete ameaçador e o plano feito mim. Redijam o documento .ordenou o comandante. tente fugir. Felizmente que sou bem reabastecido por Dega. ele. Bourset e os dois cunhados. quase não como. Tenta habilmente que eu lhe confirme a cumplicidade Carbonieri.com) . pouco a pouco.Aceito. Subo enfim. com um diagnóstico de abcesso47 no fígado. fumo. Não consigo exprimir claramente tudo o que acontece em mim depois deste fracasso. que não está corrompido. Naric e Quenier. No que lhe toca. Todos os dias de manhã. dou um passeio do lado de fora. mas fumo. essa acusação de roubo de madeira. o comandante veio falar comigo. Diz para mim. em vias de transferência. mas tenho a impressão de que o convenci e o fiz compreender que era praticamente impossível ele pensar em me ajudar. Eu assino. não se mostra muito zangado comigo. a retirar as esteiras. ou mesmo em órgão cavitário. em sua opinião.. sem cigarro atrás de cigarro. Deve ser uma combinação entre a administração e o médico. no pátio da cela disciplinar. Avisa-me de que Bébert Celier está no hospital. 47 acumulação de pus numa cavidade formada acidentalmente nos tecidos orgânicos. durante alguns momentos.Nunca mais de dezoito meses. que seria o mais prejudicado se a fuga tivesse resultado.

às dez horas. toda a noite. o marceneiro e eu. Quatro meses de espera. A confrontação se realizará amanhã. Aconteça o que acontecer. para no momento final. de artimanhas. Digo a Naric e Quenier que peçam a confrontação entre o vigilante da oficina. no continente. porque me tem o risco de que um guarda se atire sobre mim. sem ter nada contra mim.Nunca revistaram a mim nem a minha cela. Luto toda a noite contra essa idéia. Aproveito para fazer entrar uma faca. para isso. Preciso conseguir fazer isso pouco antes ou logo a seguir à confrontação. tome a decisão que achar justa a respeito de detê-los. Tentou nos enterrar para poder voltar a viver. É impossível que se deixe ele . pudesse fugir como que em recompensa por ter impedido uma fuga. porque podem me acusar de premeditação. de medo de ser apanhado. condenou-me a dois meses de reclusão. mas corro o risco de ser condenado à morte. mas isso é para pessoas de outra categoria social. que agirá como instrutor do processo. vou ter que matar Celier amanhã! A única maneira de não ser condenado à morte é fazê-lo empunhar a sua navalha. ou pô-los em liberdade dentro do campo. de alegria. depois da confrontação. Bébert Celier. Como posso eu permitir que se não pense em punir inexoravelmente um indivíduo tão abjecto? Nunca fiz mal nenhum a esse pseudo-cidadão e ele mal me conhece. No passeio de hoje Naric disse que comandante aceitou. No entanto. é preciso que eu lhe mostre ostensivamente que tenho a minha aberta. acabar tão lamentavelmente devido à língua de um delator. Sim. De tal modo estou enrascado que é essa a minha conclusão. Não consigo vencê-la. ser razoável. porque tenho intenções de matar Bébert Celier. Não. Não posso matá-lo durante a acareação. Tento. Não consigo me demover. solicitando ao comandante que. puni-los disciplinarmente. na presença de um vigilantechefe. Há coisas na vida verdadeiramente imperdoáveis. mas conto com a inteligência crônica deles. Sei que não temos o direito de fazer justiça por nós próprios. e. Seria muito injusto se esse homem fosse transferido por ter prestado tal serviço e que depois.

Quenier. mas o vigilante que os acompanha diz-lhe: . . Quando repara em mim faz menção de recuar. o que tinha me autorizado a receber cigarros. dê a ele. Eís-nos a menos de dois metros um do outro. Fumei quase um maço inteiro de tabaco negro e. o árabe guarda da porta da oficina e Celier. Estou tão nervoso que.Pode me dar alguns cigarros ou um pouco de tabaco. Fala em corso com Carbonieri. O outro guarda aperta o cadarço de um sapato. Lamento sinceramente por você. E se me condenam à morte? Seria demais morrer por causa de alguém tão baixo. Como corso. Antartaglia diz: − Proibidas as conversas entre os dois grupos. Consigo prometer a mim mesmo uma única coisa: se ele não empunhar a sua navalha. estou no pátio. não o mato. quando chega o café.Avancem e ponham-se a distância. à espera para entrar na sala. Perdido por perdido. que ele também seja. Bourset e Carbonieri. Carbonieri fala em corso com o seu conterrâneo. juntamente com Naric. Papillon. Antartaglia não deixe eles se comunicarem. digo ao distribuidor de café: . diante do guarda. só tenho dois cigarros. Eu não fumo. Neste momento. Às dez horas menos um quarto. se tiver. ainda mais que eu. às seis da manhã. que vi os dois grupos. Percebo que ele diz que é uma desgraça o que está a acontecer com ele e que se arrisca a apanhar três anos de reclusão. Não dormi toda a noite. Não e não! Impossível! Sinto-me perdido. ainda que isso seja proibido. gosto dos homens e detesto os policiais. com autorização do chefe? Estou na pedra. senhor Antartaglia. . abre-se a porta e entram no pátio o árabe do coqueiro.se aproveitar-se do seu ato nojento.Sim. O guarda que nos vigia é Antartaglía. aqui à direita.

Sim. Eu sou canhoto e. Apenas Celier pode me ver com uma rapidez inesperada.Manda vir os maqueiros para levarem um cadáver.Me dá a sua navalha. .pergunta o guarda. . .Faço sinal a Matthíeu para que ele se ponha um pouco à frente. Não bata nele. atira-me um golpe que corta profundamente um músculo do meu braço direito. “A-aah!”. vai até a porta de ferro e bate. antes de entrar para o corredor: . nas nossas celas. Um grito animal. de um só golpe enterro a minha navalha até o fundo no seu peito. Desta vez. e ele cai como uma massa. senão serei obrigado a disparar em você e não quero fazê-lo. pelo menos eu estou vivo e ele está morto. . de revólver na mão. Solta duas palavras em corso. Antartaglia. Dou a ele. menino. diz para mim: . olha para Bébert Celier e escarra na sua direção.Quem morreu? . tendo a sua navalha aberta nas calças. ele põe o revólver no coldre.” O guarda repete: .Ah! Pensei que era o Papillon. Carbonieri aproxima-se de Celier e mexe na cabeça dele com o pé. Ele compreendeu logo.Meu pobre Papíllon. deixo escorregar a minha navalha para a mão. uma vez que está suspensa a confrontação. rapaz.Bébert Celier. Um guarda abre e Antartaglia diz a ele: . Metem-nos. outra vez. . Carbonierí diz para mim. Percebo que diz “Está morto.Saia daí. está ferrado. Caibonieri fala-lhe sem parar e monopoliza a tal ponto a sua atenção que eu me desloco um passo sem que ele note. saia daí. Quando o vigilante se levanta.

Bato à porta e grito: . quero que me levem ao hospital para me darem um curativo. o comandante diz-lhe: − − Cale-se.Bata à porta. chefe.Eu vi e sou testemunha .diz o outro guarda. encontramos o comandante rodeado por dez guardas. A porta se abre. E volta a fechar a porta devagarinho.Estou ferido.diz Antartaglia. . Tragam-no para aqui. senhor Bruet. . Papillon foi atacado. Quando saímos. ainda agitado: .Algemem-no e levem-no ao hospital. . O vigilante da oficina diz-me: . . . Não me parece . Realmente o músculo está bem golpeado.E fique sabendo.Assassino! Antes que eu responda.Abra . diz que está ferido.Que é? Para quê tanto barulho? . Ou muito maus ou muito bons. abre a porta muito devagar e diz para mim.Ah! Está ferido? Eu achava que ele não tinha lhe tocado quando você o atacou. vigilante Bruet. que um corso não mente. Foi ele quem atacou primeiro.O guarda volta sozinho.Tenho um músculo do braço direito cortado. . Estes guardas corsos são formidáveis. O guarda volta com o vigilante-chefe do bloco disciplinar. Não o deixem lá sob nenhum pretexto.Estou ferido. logo que o tenham tratado. eu vi. eu saio.diz Bruet. . .

é que dois árabes declararam que eu empunhei primeiro a navalha. Quanto a esse põem de parte o roubo e desvio de material do Estado.No hospital. por falta de provas. . Me autorizaram também a passear uma hora à tarde. salvo o da oficina e o instrutor do processo. diz para mim que. Deixo-me tratar sem um queixume. Naric e Quenier também se safam. ele não viveria muito tempo por causa do abcesso no fígado. quando o comandante me chama e me diz: . A instrução do processo está terminada.Não pude fazer anestesia local. Dega. Ele costura o meu corte sem anestesia geral nem local e depois.Oh! Não diga isso! De qualquer maneira. manifestam hostilidade. Chatal chama o médico.Depois acrescenta: Isso que você fez não é bonito. Todos me falam com certa animosidade e me deixam receber quanto tabaco eu quiser. porque fui ferido. Para mim. Aguardo a viagem até São Lourenço e o julgamento em conselho de guerra. é impossível que me condenem à morte. Nem o comandante nem os vigilantes. que viu todo o dossiê. A minha resposta inesperada deixa-o estupefato. o encarregado da instrução do processo não quer admitir a legítima defesa. Continua a instrução do processo. Com efeito. sem me dirigir palavra. apesar de todas as testemunhas a meu favor. sendo apenas acusado de cumplicidade em uma tentativa de fuga. Uma coisa sobre a qual se apóia a acusação. e hoje é terça. dez horas. pois admitem que ele foi coagido por mim. Quarta de manhã. Não pode pegar mais de seis meses. . para me ferrar. dá oito pontos. No fim diz: . coisa que eu ajudo a fazer crer. Bourset está completamente ilibado de culpas. não ando quase nada. Não faço mais que fumar. Devo partir sexta-feira. apesar da animosidade dele. as coisas complicam-se. já nem tenho injeções. estou há perto de duas horas no pátio. Restam eu e Carbonieri.

É preciso leválo de volta antes do meio-dia.Um pouco de pastis fraco? . Felicito-o pela sua coragem.Juliette. Espero que se porte bem. retirando-se discretamente. em primeiro lugar. Chegamos a casa dele: . trago-lhe o seu protegido. Não quero impressioná-la deixando você ser acompanhado por um vigilante engomado. Peço-lhe que compreenda que eu não devo aceitar.Ouça. Se tivesse me dito que queria fugir.diz ela. para ver como você estava.e recuso as duas notas de quinhentos francos oferecidas tão generosamente. eu não preciso de dinheiro. em segundo lugar para lhe dizer também que quero pagá-lo pelo peixe que generosamente me deu durante tantos meses. Quis falar co você. creio que poderia facilitar as coisas pra você. Ao vê-lo descer o caminho que conduz à sua casa. meu comandante. Ele responde: . como tinha lhe prome tido.A minha mulher quer vê-lo antes de partir. Juliette aproxima-se de mim e pousa-me a mão no ombro olhando-me nos olhos. Saio com ele sem escolta. E. Na minha opinião isso seria manchar a nossa amizade . Os seus olhos negros brilham mais. − Sim. meu amigo. considero-o agora melhor do que antes. Tem cerca de uma hora para conversar com ele diz.. mas ele disse que infelizmente. Não peço nada. isso não depende mais dele. Lamento não poder dizer mais nada. que felizmente ela retrai.Vem comigo. . -Você é louco. . à medida que se enchem de lágrimas. Pedi ao meu marido que o ajudasse o quanto fosse possível. Toma lá mil francos. é tudo que eu tenho. − Como quiser . pergunto-lhe aonde vamos. minha senhora.

no entanto. . eu lhe digo: . comandante. . finalmente. No caminho. ela não foi feita para viver aqui. Apesar de tudo. Acha que serei. o senhor possuí a mulher mais nobre do mundo. Papillon.Aproveito o fato de estarmos a sós. Papíllon. para agradecer tudo quanto fez para que me tratassem o melhor possível. comandante. soluçando: . boa sorte. que tinha matado dois . reformado. isso é muito cruel para ela.Eu sei.Adeus. Que Deus o ajude.Comandante. com certeza. E. − Adeus. .Adeus. Se eu não vesse sido ferido. absolvido pela morte desse sacana e que apanharei de alguns meses a dois anos pelo resto. presidido por um comandante da Polícia quatro galões foi inexorável. Três anos por roubo e desvio de material pertencente ao Estado. foi mais compreensivo com um polonês chamado Dandosky. penas separadas. poderia ter me dado grandes dores de cabeça. Sim! Terei necessidade de que Deus me ajude. essa mulher admirável não parou de me dizer palavras encantadoras. profanação do túmulo e tentativa de fuga. e mais cinco anos pela morte de Celier. apesar dos grandes aborrecimentos que eu lhe causaria caso tivesse conseguido fugir. tão severo para mim. oito anos de reclusão. Total. acrescentou. No momento de partir. − Sim. estou certo de que me condenavam à morte. O comandante me traz de volta ao bloco celular. Esse tribunal. à porta do bloco disciplinar. porque o conselho de guerra.E. . pois você bem que precisa. quer que eu lhe diga uma coisa? Você merecia ter seguido fugir. o que posso fazer? Dentre quatro anos serei. aperta longamente a minha mão entre e me diz.Durante mais de uma hora.

no entanto. oferecendo uma garrafa de vinho para beber com a refeição. À noite o gato não apareceu. ia ao encontro do polonês. A padaria era no cais. e o animal seguía-o por toda a parte como se fosse um cão. O polonês procura-o inutilmente por toda a parte. Dandosky escorraçou-o indignado. havia. condenado para sempre a trabalhos forçados. Acompanhava-o à pesca. dizia ele. Ao ter conhecimento da sua imensa dor. premeditação . dois forçados. convidaram Pandosky para comer guisado de coelho preparado por Corrazi. o animal voltava sozinho para a padaría e se deitava na mesa do seu amigo. quando a campainha tocava. Isso. Dandosky era o padeiro que fazia o fermento. o gato era a paixão da vida. Infligiram-lhe apenas cinco anos e. chamados Corrazi e Angelo. Só trabalhava das três às quatro horas da manhã. a mulher de um vigilante ofereceu-lhe um gatinho. Dandosky já não tem gosto para nada. Triste por ter perdido o companheiro. Calmo.homens. se estava muito ruim e não havia sombra. e pergunta à mulher como é que ela pôde imaginar que ele gostaria de outro gato que não fosse o seu. Era verdadeiramente lamentável que o único ser que ele amava e que lhe fazia tanta companhia tivesse desaparecido tão misteriosamente. Um dia. coisa que esse fazia pelo menos uma vez na semana. dedicava toda a sua ternura a um magnífico gato preto de olhos verdes que vivia com ele. Dormiam juntos. Passa uma semana e nem sombra do gato. Esse homem. não se dava com ninguém. e saltava atrás pequeno peixe que esse lhe fazia dançar diante do focinho apanhá-lo. falando mal francês. . mas. mesmo em frente ao mar e ele passava todas as suas horas livres pescando. Em pouco tempo.era uma grave ofensa à memória do seu querido desaparecido. Os padeiros vivem todos juntos em uma sala contígua à padaria. indiscutivelmente. Dandosky senta-se e come com eles. Ao meio-dia.

por assassinatos com premeditação. Reclusão . depois embrulha-a em um pano limpo e enterra em um lugar seco. de ombros largos. estatura média. muito forte. bem fundo. Louco.Vi Corrazí enterrar a pele do gato debaixo do mangue atrás dos escaleres. distribuidor de pão. Enquanto eu não fui compreendido pelo comandante da cia. pega os miolos deles e esborracha-os contra a parede da sala. com a cabeça em decomposição. Corrazi e Angelo jogam cartas. Ele não dormia com os padeiros. o coelho que Corrazí e Angelo te convidaram para comer era o seu gato. Os crânios abrem-se como dois cocos e os miolos espalham-se pelo chão. sentados em um banco na sala dos padeiros.Um dia. Retira-a meio podre. . e acercando-se deles pelas costas deles. também. Sob à luz de um candeeiro de petróleo. o polonês corre ao local indicado e encontra efetivamente. tão pesado. põe-na ao sol para secar. Dandosky é um homem de quarenta anos. Fica tudo manchado de sangue e de miolos. lhes dá. Vai lavá-la na água do mar. Preparou um bastão grosso de pau-ferro. a pele. . sem uma palavra. para que as formigas não a comam. o aprendiz procura Dandosky encontra-o e diz-lhe: . furioso de raiva.Sabe de uma coisa. Rancoroso. Corrazi bate em um aprendiz de padeiro. condenado a apenas a cinco anos. um formidável golpe na cabeça. foi. mas pertencia ao campo. entroncado. Como louco.A prova? . É isso que ele me conta. Dandosky. felizmente.diz o polonês agarrando-o pelo pescoço. não contente por ter matado os dois. que presidia ao conselho de guerra.

por pouco. deixo voar o chapéu. viver. Não demoramos muito nas masmorras de São Lourenço: chegamos numa terça-feira. seguem dezesseis homens. julgar os outros.” Mas como e que se sobrevive a oito anos dentro das paredes da “devoradora de homens”? Segundo a minha experiência. é o que deveria ter sido feito e deverá ser feito doravante minha religião. O meu desespero é tal que chego a desejar que esse maldito bote afunde. tem trinta anos e vai passar mais oito nas sombras. doze dos quais conhecem a reclusão. creio que isso é impossível. Se eu não tivesse matado Celier. O meu dever de homem para comigo mesmo não é estar zangado. Como pude cometer um erro desses? Sem contar que. mas a sua morte agravou tudo. Entre os guardas. viver para fugir. me acalmo. viver. A bordo. era ele que me matava. Não falo com ninguém. estou preocupado comigo mesmo por causa desse vento encharcado que me flagela o rosto. não precisarei dele durante os oito anos de reclusão que me esperam. E não resisto: . Eu não devia ter matado aquele pulha. A viagem faz-se com mar revolto: as ondas assaltam o navio e varrem-no de uma ponta a outra. você. viajamos na sexta. talvez mesmo dois.Fui levado para as ilhas algemado ao polonês. fomos julgados em conselho de guerra na quinta. Papillon. incluindo a fuga. Sem fazer o mínimo gesto. que escoltam os presos. mas sinto um desejo enorme de lhe fazer uma pergunta. Me protejo. Viver. Com o rosto virado ao vento. Não sei como ele se chama. pelo contrário. o até quase perder o fôlego nesse ar que me fustiga. Quatro ou cinco anos devem ser o extremo limite da resistência possível. retomo as idéias: “Bébert Celier foi engolido pelos tubarões. há um que conheci na reclusão. aquele merda. viver. antes de tudo e acima de tudo. apenas cumpriria três anos. depois de haver desejado o naufrágio. É.

Não.Obrigado. responde: . Pelo que vejo.. O guarda afasta-se. lembro-me até muito bem de um que saiu com relativa saúde e equilíbrio depois de ter estado lá seis anos. Eu prestava serviço na reclusão quando ele foi posto em liberdade.. você vem por oito anos.Não tem de quê. Surpreendido. aproxima-se e diz: . Com efeito.Adivinhou. Alguns castigos mais pesados impedem que se resiste até o fim. chefe. mas conheci muitos que aguentaram cinco anos. .Conheceu algum homem que tivesse conseguido sobreviver oito anos na reclusão? Depois de curta reflexão.− Chefe. nem tampouco escrever bilhetinhos. porque esticamos antes. . queria perguntar-lhe uma coisa. Durante o resto da viagem rumino sem cessar nessa decisão. Sim. como os castigos são baseados na supressão de parte ou de toda a alimentação. Conclusão: não devo aceitar cocos ou cigarros. Aquele aviso é muito importante. absolutamente nada com o exterior ou com o interior. durante um certo tempo. só poderei sair da vivo se nunca for castigado. dificilmente uma pessoa consegue recuperar.Só poderá se safar se não sofrer nenhum castigo. .O que é? . Uma idéia me ocorre: a única maneira de receber ajuda sem me arriscar a não comer é conseguir que do exterior alguém pague aos distribuidores de sopa para que escolham os . Nada. . mesmo depois de o castigo terminar e voltar ao regime normal.

que o precede com uma bandeja. antes que tenha tempo de proferir qualquer palavra. .Oito anos de reclusão. que está acompanhada do marido. Rapidamente.maiores e os melhores bocados de carne para me servir. Assim. Ele nada responde e nem arranja alento para me olhar. Ela levanta-se e. do contrário enlouqueço. escolhendo temas agradáveis. quer ao jantar. Voltamos às ilhas. não posso me arriscar a ser castigado. acrescento: . Com uma pena de oito anos. ambos vão embora sem se virar. em voz baixa. o outro. antes mesmo que os condenados tenham tido tempo de se pôr em fila. se a combinação for bem dada. Por haver tido essa idéia ia me sinto mais reconfortado. quanto? . ausento-me o mais possível.Quanto? . virtualmente frustrada.Não me mande nada. Volta para junto da mulher e fala com ela. Mal desembarco. nem me escreva. O comandante aproxima-se de mim rapidamente e. vejo o vestido amarelo-claro de Juliette. Juliette senta-se em uma pedra. Sonho. Galganiaproxima-se também e. serei até razoavelmente alimentado.Papillon .Oito anos. São três horas da tarde. . digo: . depois de me dar um olhar pesado com aqueles seus imensos olhos. É preciso que o primeiro remexa ao fundo da panela e me dê uma concha bem cheia de legumes.Compreendo. quer ao almoço. põe na minha tigela um pedaço de carne. O marido segura-a por um braço. pergunta-me: . Emocionada.pergunta Dega -. É fácil: enquanto um distribui o caldo. eu posso matar a fome e.

dírijo-me para a canoa que vai nos levar a São José. aqui. É a melhor. Coragem.Você. Os outros para lá.E depois: . vai para o edifício A. terá mais luz e mais ar. Se você for bem sucedido. Durante a curta viagem. Desculpe.Mais devagar. Ele responde: . Acrescenta: .Sentido! Apresento-lhes o comandante da reclusão.Condenados à reclusão. Assim. É bom ou mau sinal? . porque fica em frente da porta do corredor. Ninguém fala.. eu acho. Apresso tanto o passo que o guarda diz para mim: . adeus.É bom. Chegamos. talvez voltemos a nos ver um dia.Lamento que tenhas voltado para aqui. Voluntariamente. Seguidamente. Papi.Já me esquecia. É curioso: tenho pressa de me ver só na minha cela. profere o discurso habitual. depois do qual se volta para mim e diz: . Papillon. Papillon . cela 127. Parece que está com pressa de entrar nessa casa de onde saíste há tão pouco tempo. Espero que se porte . O presidente do conselho de guerra pediu que se instrua a um inquérito suplementar a fim de completar as informações sobre o seu caso antes de tomar uma decisão.Vê se consegue que me sirvam o melhor possível no almoço e no jantar. Estou na primeira fila da pequena coluna de doze homens que escala a encosta para chegar à reclusão.E Matthieu Carbonieti? . . Papillon. repito a Chapar o que disse a Galgani. Subo com rapidez. . Todo mundo olha para mim como se olha para um caixão que baixa à sepultura.Julgo que deve ser coisa fácil.

por ter matado Celier. indignado. os quais. Não tem que se arrepender por ter tentado reviver a mercê de uma fuga. De qualquer modo. digo conversando comigo mesmo “estas são as quatro paredes em que vai ficar enjaulado durante oito anos. há muito tempo que Celier foi digerido pelos . registre os períodos. se o seu comportamento for bom.bem. ainda se vê com uma certa nitidez. você dispõe de uma vantagem: se sucumbir aqui. Se adoecer aqui. tem. Efetivamente. quem sabe. ele andava se pavoneando pelas ruas. ou a. Pode ser que seja decretada uma anistia. enquanto apodrecia aqui. porque é um homem corajoso. porque depois de contar dezesseis vezes seis meses. Não conte os meses nem as horas. fiquei mesmo em frente de uma grande porta gradeada que dá para um corredor. O tempo ??.. a quem mais? De qualquer forma. mas. por sua vez. Porque não? Também pode surgir um homem de caráter que regresse à França e consiga comover franceses. Serão dezesseis. a satisfação de morrer às claras. você estará de novo livre. nem. eu sei lá. Isso me animou e me dá um pouco de coragem. tampouco . Eís-me..a verdade deve ser dita -. Porque não deve ser nada divertido um cara se apagar às escuras. ou rebente uma guerra. a um padre. Se bem que sejam quase seis horas. pelo menos o médico vem dar uma olhadela na sua cara. com luz. ao menos. obriguem a direção da penitenciária a suprimir essa forma de guilhotinar pessoas sem usar a guilhotina. de seis meses como se fossem apenas um. Oito anos é muito tempo. Quem sabe se um médico. talvez que. Se quer tomar uma decisão aceitável. é inutil. enfim. A cela não tem aquele cheiro podre que se notava na primeira em que estive metido. na 127. E isso é muito importante. ou sobrevenha um terremoto ou um furacão que abale essa fortaleza. É o que eu desejo. reto. não contará tudo o que aqui está acontecendo a um jornalista. e se for de dia. Imagina quanto sofreria se levasses a vida pensando que. “Meu velho Papillon”. venha a merecer uma redução de um ou dois anos na sua pena.

Começo a andar. Não. quatro. quatro. dois. uma dentro da outra. Se tivéssemos conseguido. Isso. foi preciso fabricar número excessivo de peças. Se houvesse feito isso. praticamente. vou sair vivo daqui. Em menos de quinze horas. ter fracassado na etapa final. Onde estaria agora se . para encaixar os cocos. talvez doze.tubarões. quem sabe onde estaria agora! Mesmo que fosse apanhado ao chegar ao continente ou descoberto no momento do embarque. cinco . lançar a jangada no mar. devia tê-lo suprimido imediatamente. três. um. a fuga. porque tentar de fato. se chovesse durante o dia. Encontro dois: o marceneiro quis fazer uma jangada perfeita demais. Nada de desperdiçar energia inutilmente. É lamentável. depois de aportar no continente.outra meia volta. percorrer a cela. cinco . Claro que era apenas o primeiro episódio da fuga. usou construir uma armação especial. só levaria três dias e não oito. porque estou aqui. e teria que percorrer mais de cento e cinquenta quilômetros na frágil jangada. e. Resolvo andar apenas duas horas de manhã e duas de tarde até saber se posso contar com uma boa alimentação.meia volta volver. Daí. o que ocupou muito tempo do marceneiro. porque apenas podíamos arriscar-nos a içar a vela. O outro erro foi mais grave: logo que surgiram dúvidas acerca do comportamento de Celier. eram duas jangadas. E. medida exata para. talvez tivéssemos que preparar uma nova fuga. a impeliria por mais de dez quilômetros hora. E se for digno de mim mesmo. como esperado. com esse nervosismo dos primeiros dias. em cinco passos. no dia seguinte àquele em que me fecharam na cela choveu. tocaríamos a terra. por isso. claro. e encontro imediatamente a posição da cabeça e dos braços. a vela. dois. e ficaria satisfeito.” Um. Se bem me lembro. deste sepulcro. segura de mais. feita de sacos de farinha. que tinha que tomar as suas precauções. sem dúvida. Quero descobrir as falhas do plano ou os erros que cometi.

para a minha tribo? Adormeci muito tarde. caso volte à Real. Devo repetir essa palavra três vezes sempre que eu esteja a ponto de me entregar ao desespero. que tenho intenção de verificar se é verdadeira. os forçados não são enterrados. Caso contrário. Como se diz para as crianças. Não. poderei andar durante dez a doze horas por dia. dormir bem. estou com os pés na terra. tendo aos pés uma corda amarrada a uma grande pedra. são muito boas para a saúde. digo a mim mesmo: as lentilhas. apesar de tudo. em um bar pequeno. diretamente. Uma delas. não deliro. na parte dianteira do barco. pois enquanto há vida há esperança. Passou-se uma semana. Essa primeira noite não foi muito deprimente. quase sem água. é instalado na horizontal. estarei em estado de viajar pelas estrelas. enquanto o guarda inclina o caixão e um outro abre uma espécie de alçapão. ao jantar.tudo tivesse corrido em nas ilhas no continente? Como sabê-lo! Talvez na Trinidad. sob a proteção do bispo Irénée de Bruyne. são lançados ao mar entre as ilhas de São José e da Real. Penso também nas lendas que correm de boca a boca. os seis forçados remadores levantam os remos horizontalmente à altura da borda. uma marmita cheia de lentilhas. no local onde abundam os tubarões. Desde ontem notei modificação nas porções da comida. penso em todos os casos de forçados que conheci nas ilhas. seria fácil voltar sozinho. O morto é envolvido em sacos de farinha. Cada um tem a sua história. para Guajira. Uma vez chegados ao local designado. É certo e não há . bem na terra. viver. sempre o mesmo. o que faz o corpo deslizar para dentro da água. Se continuar assim. viver. E daí só tornaria a partir depois de estar seguro de que determinado país me receberia. Conforme já contei. é a lenda do sino. mas consegui. ou em Curaçau. Viver. Um caixão retangular. têm ferro. já cansado. antes e durante o degredo. e à noite. Um enorme pedaço de carne cozida no almoço e. então. conversando com Bowen.

Ver comer um homem. Caminhar faz bem pra mim. porque. com o seu conteúdo. aos tubarões. feijão. mas. Muitas vezes. em semelhantes condições. não quero que isso me aconteça. depois que minha mãe morreu. fora da água. segundo aqueles que já assistiram ao espetáculo. As coisas passam-se exatamente conforme descrevi. por exemplo. em uma cela. Não me importaria menos de ser devorado vivo. ervilhas secas ou arroz. eu ia passar . Alimentando-me bem graças à organização montada pelos meus amigos. consigo me desdobrar em outro homem. Quando se ouve o sino da igrejinha. passei o dia nos campos de uma aldeia de Ardèche que se chama Favras. Dessa forma. O corpo volta à superfície e começam a disputálo. o que significa na luta pela liberdade. nunca deixando o cadáver se afundar. E que. não nada que explique por que razão eles ocorrem a esse local hora exata. Como sempre tudo sem esforço. conseguem levantar a mortalha. o cansaço que provoca é saudável. fica vazia em pouco tempo. das sete da manhã às seis da tarde. não. Os condenados. rasgando os sacos de farinha e carregando grandes nacos cadáver. é impressionante. a marmita do jantar. Ando. é um manjar de festa. e enquanto ando.margem para dúvidas. para eles. que os tubarões cortam imediatamente a corda. quando os tubarões são muitos. que toca quando morre alguém. a essa mesma hora. sem exceção contam que o que atrai os tubarões àquele local são as ladas do sino da capela. então. estou de perfeita saúde. logo o local fica regurgitando de tubarões à espera do cadáver. pois. às vezes. Esperemos que eu não venha a servir de prato dia. porque isso só poderá acontecer durante uma fuga. mas há a coisa que não pude verificar. sem parar. cheia de legumes secos. às seis da tarde. Além do sino. quando o sino está quebrado na Real não se avista um único tubarão. Ontem. além de tudo o mais. depois de uma inglória morte por doença. lentilhas.

Essa capacidade tão autêntica e verdadeira de reviver os tormentos passados há mais de quinze anos. deixando cair pelo caminho grande parte dos cogumelos que colhera. colhendo cogumelos. no silêncio mais completo. tão límpidas. Para a sociedade. ontem eu estava virtualmente nesse bosque de castanheiros. não há ninguém que possa me impedir de me refugiar nelas. E. mais ainda. nos campos. deliciei-me com as leves cócegas das bolhas minúsculas que subiam ao meu nariz.o dia inteiro em Favras. com a minha tia e o meut amigo. tão doces. essa faculdade sentida com tanta intensidade. só pode conseguir-se em uma cela. mergulhado em um tapete de folhas. roubei-lhe um dia inteiro que passei em Favras.algumas semanas na casa da minha tia. e a bebi água mineral na fonte chamada de Pessegueiro. Sim. 48 Arb usto d e até um m etro nativo d a Europ a e Oeste d a Ásia. professora do lugarejo. estou em uma dessas inúmeras celas da “devoradora de homens”. Essas lembranças revividas.4shared . longe de tudo quanto é barulho. dar ordens ao seu bem treinado cachorro. Então. de buscar nelas a paz que é necessária ao meu espírito atormentado e magoado. Um enorme javali apareceu de repente por entre as esbeltas giestas48 e me um susto tão grande que fugi correndo. cheguei até a sentir na boca o sabor fresco da fonte ferruginosa. o pastor Julien.enquanto caminhava na cela . passei . Ouço o murmúrio do vento nos castanheiros. Na realidade.com) . irmã dela. o ruído seco provocado pela casca da castanha quando cai no chão seco e macio. que obedecia prontamente trazendo de volta uma ovelha desgarrada ou castigando uma cabra inquieta. e depois ouvia o meu pequeno amigo. entre os castanheiros. tão nítidas. Chego a ver o vestido amarelo da tia Outine. o pastor. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka.

. muitos suicidas e loucos furiosos. perto da minha terra. a ração que recebo é razoável e. Se as pegamos de mal jeito. os desgraçados chorando e gemendo. Infelizmente daí a um ou dois dias os ouvidos começam a doer-me muito. com calma. para não ouvi esses gritos horripilantes. No dia seguinte. desde que saibam se controlar . As pessoas habituam-se a tudo. às cócegas extremamente desagradáveis que as patas e as antenas das centopéias provocam.Já passaram os seis primeiros meses. À minha volta.. às vezes. desde que estou nos trabalhos forçados me rebaixei a pedir uma coisa a um guarda. assim. mas. diariamente. Mas quinze vezes seis meses. principalmente durante muito tempo. para me ajudar a suportar a barulheira que fazem os loucos antes de serem levados das celas. Vamfazê-los o balanço da situação: nenhum incidente pessoal nestes seis meses. Já sei lidar com as centopéias gigantes. outro lado. Eu resolvera dividir o tempo em unidades de seis meses e mantive meu propósito. elas nos mordem imediatamente. Pela primeira vez.. Só hoje de manhã diminuí de dezesseis para quinze. mas o pior é que faz mal aos meus ouvidos: corto dois quenos pedaços de sabão e os enfio nas orelhas. a comida é sempre a mesma. é incrível o alívio que sinto por não ouvir mais esses infelizes. Eu conheci-o na ilha de Real. pois. quando acordo e vejo que um desses nojentos bichos passeia sobre o meu corpo nu. Reajo bem. e pedi-lhe que me arranjasse uma pequena bola de cera. É. É deprimente ouvir. Acontece que o cara que traz a sopa é de Montélimar. são logo retirados das celas. Arranjei maneira de resolver o problema. que..habituam-se até. Em seis meses. ele me trouxe uma bola de cera do tamanho de unia noz. horas ou dias inteiros. apenas fui mordido uma vez. dá pra conservar a saúde. preferível .

eu devia ter executado ele sem hesitar. verdadeiramente. Para eu conseguir era.. que é tratado como uma imundície da sociedade? Queria saber se os doze jurados da porra. pergunto a mim mesmo: quando é que uma pessoa tem o direito de matar? E chego sempre à mesma conclusão: os fins justificam os meios. Preciso me líbertar de uma idéia fixa que me persegue. E se tivesse me enganado? Se as aparências fossem falsas? Então teria matado um inocente! Que horror! Mas não é lógico que eu faça caso da minha consciência – logo eu. uma só vez que fosse.ainda não me decidi com que instrumento vou arrancar-lhe a língua . que nesse ano eu não me apresentei lá muito em forma. devem falar em termos gerais sobre “aquele caso infeliz do Papillon no julgamento de 1932: “Vocês sabem. O odor do pão atrai as centopéias e então dou um golpe nelas. E. Quem você se acha. que me condenaram. E se delegado do Ministério Público . se perguntaram. conscientemente. que havia disposto da oportunidade de construir uma jangada e tido a possibilidade de escondê-la em local seguro. Sobre o meu banco de cimento tenho sempre dois ou três pedaços de pão fresco. então. chegara a última peça. era ser bem sucedido na fuga que preparava. para mim. fim. Certamente. Uma vez que não desconfieii do perigo que Celier representava já na altura em que. para cúmulo do meu .esperar que elas terminem o seu passeio e desçam de cima de nós para depois as esmagarmos. se lembram. Porque não matei Bébert Celier no mesmo dia em que suspeitei da sua nefasta ação? Sem cessar. nem mesmo os meus advogados defesa se lembram de mim.alguma vez perguntou a si próprio se não foi um pouco exagerado no seu veredicto. pobre resíduo perdido. fizeram bem em me condenar a uma pena tão pesada. um condenado a trabalhos forçados por toda a vida. prezados colegas. Ora. uma questão de dias. Pior do que isso ainda: um condenado a oito anos de reclusão no meio de uma pena perpétua!. se achavam que. por milagre.. mole. E.

com apenas vinte e cinco anos!” Se meu pai soubesse por onde anda agora o seu filho. Apenas um. ou. Disso eu tenho certeza. Tenho a certeza de que. estava num dos seus melhores dias. Apenas um homem. Com palavras adequadas. ser respeitador da lei e ensine a compreendê-la e a aceitá-la. Conduziu a acusação de uma forma magistral. se manteve ma posição de magistrado probo e honesto. condenaram-no a morrer a fogo lento. sem sombra de dúvida. apesar de. . segundo a atmosfera positiva ou negativa que. em um dos corredores Palácio da justiça. mais forte dos dois partidos . e também. antes. É. Sim. claro. a minha família. Essa cruz que ele carrega sem acusar o filho. o delegado do Ministério Público. porque se deixam impressionar muito pelo brilho da acusação ou da defesa. o presidente do tribunal.o da defesa ou o da acusação consegue criar. o que fizeram dele. Bévin. Vejo e ouço tudo como se me encontrasse ao lado do do Raymond Hubert assistindo a uma conversa entre advogado ou a uma reunião mundana. era capaz de se tornar anarquista. conforme domínio que uma exerça sobre a outra nesse torneio oratória que eles absolvem depressa de mais ou condenam sem saber bem como. esse homem exemplar deve lembrar que doze merdas. co-professor primário. O presidente. esse homem imparcial é que pode incutír entre colegas ou em uma reunião mundana o perigo que representa fazer julgar um homem por jurados. que constituem o júri. vocês mataram o meu filho. o meu pobre pai é que nunca se deve ter queixado da pesada cruz que o filho lhe pôs nos ombros.azar. um adversário de grande grandeza. na verdade. que talvez me deteste um pouco por causa dos dissabores que indubitavelmente lhe causei. o meu pai. Ou pior. sem censurá-lo. Pradel. ele exclama: “Seus porcos. do fundo do coração. não estão preparados para assumir tal responsabilidade.

porque logo teço todos os pormenores de uma viagem real ou imaginária para afastar os pensamentos sombrios. Logo as supero. pelo que. Um. Resultado do balanço: boa saúde e bom moral. nunca será livre como eu serei um dia.Hoje à noite. Hoje de manhã. Havia já alguns que as minhas pernas estavam pretas e que minhas gengivas sangravam. dois. ouço pequenos trechos das suas conversas. Tenho um prego que uso apenas de seis em seis meses. viver para um dia reviver livre. Decorreram mais seis meses. um. a próxima fuga vai ser definitiva. Fíco tão cansado só com seis horas de marcha em duas vezes. não estarei ainda um velho. ele está morto. às vezes. quatro. Ele. é garantido. falaram em voz tão baixa que quase não consegui ouvir o que diziam acerca dos acontecimentos da noite. Diriase que estou cheio de água. cinco. estou vivo e devo continuar vivo. que um se sufocou metendo trapos na boca e nas narinas. Ao . a sua fama. já não posso andar dez ou doze horas por dia. Faço o balanço da situação. quatro. como nunca. é muito raro ter visões de desespero demoradas. Isso é certo. cinco. e. gravo na madeira um belo “catorze”. A cela 127 fica perto do local onde os guardas trocam de turno. perto do calcanhar: a pressão deixa sinal. De qualquer maneira. Deveria dizer que estava doente? Faço pressão com ar sobre uma das pernas. Nas minhas viagens pelas estrelas. Para mim. por exemplo. a “devoradora de homens” justificou mais ainda. Após um ano. outra meia volta volver. que me impediu de fugir. porque está morto. meia volta volver. porque preciso de viver. dois. se eu sair com trinta e oito anos. A morte do meu delator me deixa pensar que vou sair vitorioso desses momentos de solidão aguda. três. Tenho a certeza. Animo a mim mesmo: estou vivo. Soube que se enforcaram dois homens. estou vivo.

Os dentes.A roupa debaixo do braço. As gengivas doem e sangram muito.. É por uma autêntica revolução que terminam estes novos seis meses. até caiu um incisivo do arco superior. Todos eles. de pé. O comandante e o vigilante-chefe. Sem mais nem menos.Meia volta à esquerda! Encontro-me agora no último lugar de uma fila que se alonga até a outra extremidade do edifício e chega até o pátio. encoste-se na parede e espere. justamente quando perfazia dezoito meses nesta cela. Próximo dele. olham a cena em silêncio. saíram uns setenta. E essa manhã.Tirem a roupa. a porta abriu-se e disseram-me: . . . Dez guardas. Efetivamente. . Dirigindo-se ao primeiro da fila.X. . dois enfermeiros forçados guardam o enfermeiro. vocês todos! . Eu era o primeiro que estava lá fora. o médico pergunta: . São nove horas.grita o vigilante. vestindo uma camisa caqui de mangas curtas.O seu nome? . ontem mandaram nos colocar todos do lado de fora e passou um médico que levantava os lábios de cada um de nós.Saia. são desconhecidos. Um jovem doutorzinho.. ao ar livre. fazem a cobertura do cerimonial. de carabina em punho. não posso esfregá-los com a toalha felpuda e nem com sabão. está sentado a uma mesa de madeira. incluindo o médico.

disse. Chupe os limões. Arranquem esses três dentes . as pernas. . É porque come melhor do que eles. me dão um limão. Isso nunca se viu na reclusão.com) .Bonito! Você és o único que tem um corpo apresentável. flores brancas e frutos siliqüiformes (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. Continuo a ser o último da fila e regresso à minha cela.Abra a boca.Porque não está tão magro como os outros? .Faz hoje dezoito meses. com folhas comestíveis em saladas. Meia volta. Dois limões por dia: um de manhã. .Há quanto tempo está aqui? . as pernas.Bem. . xarope de cocleária49 duas vezes por dia antes das refeições. voltando-se para os enfermeiros.O seu nome? . É uma verdadeira revolução o que acaba de acontecer: conduzir os doentes para o pátio. Chegaste há pouco tempo? . . finalmente. Chega a minha vez: . vou dizer-lhe porquê. Lavam as minhas gengivas com álcool iodado e me pincelam com azul de metileno. apresentá-los ao médico. ou se masturba menos. Por fim.4shared . A boca.. O que está acontecendo? Será que.Não.Não sei.Álcool iodado primeiro. . Você está com escorbuto. nativa da Europa e de que se fazia extrato medicinal. deixá-los ver o Sol. um médico recusou a se tornar cúmplice silencioso desse famoso regulamento? Esse médico que mais 49 planta anual (Cochlearia officinalis). azul de metileno depois. passe o suco pelas gengivas.Charrière. um à hora do jantar.

meto o ramo no traseiro e digo-lhe: . Já chega de limões. mas também não melhora. por faltar ao respeito com o doutor. Papillon. maquinalmente.Não quer mais limões? É isso que quer dizer? .Você vai ser castigado. mastigo-a. muitos anos depois. percebo que a pequena árvore raquítica que me protege um pouco dos raios do Sol é um limoeiro sem limões. consulta ao Sol. Os guardas se acabam de rir. Quando o médico me chama.Depois. na Venezuela. voltando-se para mim: . mas olhe o que cresceu no meu traseiro.De modo nenhum. chama-se Germain Guilbert e morreu na Indochina. porque não me curam.Doutor. azul de metileno. senhor doutor. depois o vigilante-chefe diz: . não sei se é culpa dos seus limões. o que já estava me irritando. corto um pequeno ramo com algumas folhas. porque não posso andar mais de seis horas por dia. sem qualquer idéia preconcebida. e depois. Sempre a mesma receita: álcool iodado. . .tarde se tornará meu amigo. dois limões. . Mas vou mandar-lhe uma colherada por dia e continuará com os limões. Esse homem não pode ser castigado porque eu não me queixei . De dez era dez dias.Sim. quando esperava a minha vez de ser observado pelo médico. Quero experimentar o xarope de cocleária. -Não lhe receitei porque disponho de muito pouco e economizo para os doentes graves. E viro-me para mostrar o meu raminho cheio de folhas. A parte inferior das minhas pernas continua preta e um dia. Arranco uma folha. Foi sua esposa quem me comunicou a sua morte em Maracaibo.exclama o médico. Duas vezes. O meu estado não se agrava. xarope de cocleária e duas vezes o médico me recusou.

uma certa alga que. esperando a vez de ser observado pelo médico ou ouvindo as queixas dos outros.Espero. senhor. elegante. quem poderia sonhar que uma coisa tão maravilhosa pudesse acontecer? É uma transformação fantástica para todos nós: os mortos se erguem e caminham sob o sol. às nove horas. os enterrados vivos podem dizer enfim meia dúzia de palavras. obrigado. já vi índios comer algas do mar e sei que tem delas em Real. inspeção do governo. Claque.Está bem. Os índios comem-na crua ou cozida? . certamente todos médicos. Os reclusos recebem ordem de ficar em pé na soleira da porta da sua cela.Você me deu uma idéia. que esse homem não seja castigado. uma infinidade de claques abre as portas das celas em uma quinta-feira de manhã. Vejo que lhe indicam os que foram condenados a penas pesadas e os motivos que as determinaram. Acompanhado por cinco oficiais. Posso confiar? . . . ver caras. passa lentamente ao longo do corredor diante de cela. − Reclusos! . E surgiu um milagre: sair para o sol durante duas horas de oito em oito dias. cabelos de um cinzento-prateado. Vou mandar distribuir.. murmurar palavras. encontrei na praia.grita uma voz -.Sim. todos os dias. É uma garrafa de oxigênio que insufla uma vida nova a cada um de nós. claque. um homem alto. Antes de chegar à minha altura levantam um homem que . realmente. Acho que também existem na ilha de São José. E dirigindo-se ao comandante: .Crua. senhor doutor.Doutor.

. O comandante diz: ..Como se chama? .Charrière.não teve forças para esperar tanto tempo de pé. Veja bem que talvez a sua pena seja comutada se eu . até poucos dias. .diz o comandante.Comportamento? . três e cinco anos. . ausência total de cuidados médicos. O grupo aproxima-se de mim.Mas.Quanto você já cumpriu? . . aquele ali!. é um cadáver ambulante.A sua pena? . proibição de passear no pátio e. Graive. . com distinção entre as penas.Oito anos por roubo de material pertencente ao Estado e morte.Esse tem a pena mais pesada da reclusão.Estão todos em um estado deplorável. É um dos canibais.Silêncio absoluto. respectivamente.Dezoito meses.As causas? . Um dos militares diz: . . O governador responde: . .O que tem a declarar? .Como passa de saúde? . .diz o médico.Que esse regime é desumano e pouco digno de um governo como o da França.pergunta o governador..Bom .Sofrivelmente .

Quando lá chego. . por ordem do governador.diz um guarda. vindos da Martinica e de Caiena. As esposas e as filhas dos vigilantes têm que ficar dentro das casas para podermos sair nus. E dá outro tiro. Corja de covardes. Todas as manhãs. em grupos de cem.A minha filha não está longe! Não sei nadar. haverá uma hora de passeio pelo pátio e banho de mar tomado em uma espécie de lugar onde os banhistas são protegidos dos tubarões. física e moralmente. três guardas e alguns árabes. ouço uma mulher gritar: . Como estou entre os últimos. Faz um mês que as coisas se mantêm assim. Como todo mundo se virou para o lado de onde vêm os gritos e os tiros de revólver. e todos os dias. Um dia. na água salgada. Essa hora de sol. que não passa de um declive de cimento que entra pelo mar e onde acostam os barcos. Mais gritos: Os tubarões! E mais dois tiros de revólver. sem pensar duas vezes. voltávamos da piscina para a reclusão quando soa gritos desesperados e dois tiros de revólver. empurro uma guarda e corro todo nu para o cais. tudo isso transformou radicalmente os reclusos. e nos dirigimos para o mar.exclama a mulher. eu. . Os rostos modificaram-se completamente. completamente nus. desce reclusão. a possibilidade de falarmos uma hora por dia. De agora em diante. veio duas mulheres a gritar desalentadas. senão ia eu.Socorro! A minha filha está se afogando! Os gritos vêm do cais. − − − − Joguem-se na água! . Os tubarões! .permanecer no cargo de governador.

flutua no mar. . Por minha vez. Isso era o que eu pensava.o cemitério dos forçados -.grito. Alcançam a menina antes de mim. sem refletir no risco que vou correr. mas ainda está muito longe. Arrisquei a vida inutilmente.Uma menina. e sem dúvida que acertaram em vários tubarões. levada vagarosamente pela corrente. E. nado rapidamente em direção da menina. Com a ajuda da corrente.Parem de atirar! . porque vejo-os às reviravoltas perto da criança. Choro de raiva. como uma espécie de recompensa. agarram-na e põem-na a salvo. Está sendo arrastada para o local onde confluem as correntes . o doutor Germain Guibert assina a suspensão da minha pena de reclusão invocando motivo de saúde. também sou içado para dentro do barco. Só me faltam uns trinta ou quarenta metros para alcançá-la quando aparece um barco que vinha da Real e cujos tripulantes perceberam o drama. sem sequer penssar nos tubarões. me atiro na água. com um vestido azul e branco. porque um mês depois. . Os guardas atiram sem parar. que continua a flutuar devido ao vestido e agita pés com toda a força para espantar os tubarões.

o carpinteiro. é um sábado o fato de todo mundo está lá. por causa desta tentativa de salvamento. o assassino de Dufrêne. e todos. os tubarões tiveram uma refeição de. a quem chamam de “comediante”. manifestando-me a sua amizade. no caso da Bolsa de Marselha. íntimo demais. Encontrei os meus amigos: Dega. Maucuer e Chapar. Também aqui está Barrat. foi parar na guilhotina. que foi absolvido no caso da fuga. Razori. que assassinou o motorista e o seu amiguinho íntimo. sem exceção. Deixei a ilha. condenado a oito anos de prisão disciplinar e. Quando entro de novo no bloco dos violentos. para cumprir uma pena normal. sempre contabilista. Grandet. na enfermaria. Barrat é o chefe do laboratório e o farmacêutico do hospital da prisão. então. . Chatal. que se mantém na Real como enfermeiro ajudante.Oitavo CADERNO RETORNO A REAL Devido. como carteiro Carbonieri. Naric e Quenier. A minha chegada à Real é um verdadeiro terremoto. com uma desnutrição geral. a um verdadeiro milagre. Viciolí. Maturette. me recebem de braços abertos. primeira. Dentre as vedetas da crônica policial dos anos 27 a 35 está Casino. e o meu cúmplice na primeira fuga. Bourset. segundo um médico brincalhão. estou de volta dezanove meses depois. Deram-lhes um dos mais bem dos peritos em pedras preciosas de Paris. que morreu na semana passada. volto à Real. Na ilha apanha-se facilmente a tuberculose por contágio através das coxas. Fosco. visionário e campeão de tênis de Limoges. Nesse dia. Os bandidos corsos continuam todos aqui: Essari.

acho que não há nenhum homem na prisão que lhe negue ajuda para o que quer que seja. mesmo sendo arriscado. Agora. à hora da chamada. E o jogo? . encontraram morto o servente que denunciou você. estão todos bem? . . Foi.Deve ter sido. que voltou. . − O comandante está chamando . . se manifesta e vem cumprimentar-me.Uma boa notícia. . com uma faca espetada no coração. . o seu antigo lugar o espera.Então. Ninguém viu nem ouviu nada.Você continua com o seu lugar aqui .Talvez um dia você saiba quem foi. Ficou vago desde o dia em que você foi embora. . . gostaria de conhecê-lo para lhe agradecer. meus caros. Papi. que nunca fala desde aquela famosa manhã em que quase o guilhotinaram por engano.Obrigado a todos.É melhor assim. . em frente à sala dos bem comportados. quando o espiava do topo de um coqueiro. Quais são as novidades? .Sim.Até o sujeito dos relógios.Papi.Que é? .Tudo bem. todos ficamos realmente muito chateados quando soubemos que você tinha oito anos para mastigar na solidão. Sempre gostaria de saber como e quando acabará a história.diz Grandet.Bom. Recomecemos então a cumprir a pena de prisão perpétua. que não quis que você o encontrasse vivo e se pôs ao trabalho. idéia de um amigo. provavelmente. . seja bem-vindo. . Encontraram o boi hoje de manhã.diz um servente.Essa noite.

Bom. categoria à parte. só pensam no jogo e homossexuais vivem com rapazinhos. aguardando que você possa voltar à limpeza de latrinas com o direito de pescar.Vou pôr-te a trabalhar como boiadeiro. vários guardas cumprimentam-me gentilmente. .Sinto-me satisfeito por ter sido indultado e dou-lhe parabéns pelo seu ato de coragem com a filhinha do meu colega.Obrigado. Sigo o servente e encontro-me o comandante Prouillet. os homens vivem da mesma maneira de antes. .Não sei como agradecer-lhe. comandante. . No posto da guarda. Papillon. São verdadeiros casais. O guarda da oficina daqui já não sou eu. paixões desenfreadas em que a “mulher” e o “homem” se vigiam mutuamente.sugere.Espere um mês antes de tentares fugir outra vez . . . sim. Papillon? .Saio com ele. Faz apenas duas horas que estou no bloco e já vem dois sujeitos falar comigo. e comece logo amanhã no seu novo lugar. o amor toma conta deles noite e dia. No bloco.Se isso não o comprometer demais. queria saber se Maturette é seu amante? − − Porquê? Tenho cá as minhas razões.Estou. Cenas de ciúmes. ótimo. .Isso não é da minha conta. com crimes inevitáveis se um deles se cansa do outro.Está bom. Os jogadores. comem e dormem com eles. . vou para França. rindo. . . .Diga para mim uma coisa. comandante. daqui a três semanas.

depois estava tudo acabado. Maturette percorreu comigo cerca de dois mil e quinhentos quilômetros e procedeu sempre como homem. . terá que se ver comigo.Se estiver de acordo. não tenho nada com isso. não agüento mais. avise-me.E se um dia ele se tornar meu amante? . Estou decidido a tudo. quer sejam passivos ou ativos. A minha mãe me mandou doze mil francos Para ver se conseguia ser desinternado e fui tirar uma radiografia em Caiena. Os pederastas. Tenho ele como amigo.Combinamos que ele faria uma ferida na barriga e fomos julgados em conselho de guerra.Não. . Depois.De acordo. você o conhece. são todos iguais: afundam-se na sua paixão sem pensarem em outra coisa. durante uma fuga.Mais vale morrer no mar. tenho vontade de me suicidar. como culpado. Pergunto-lhe: . . mas não me serviu de nada. .Ainda está aqui? . Se planejar alguma coisa.Ouça..Tentei de tudo. é o que posso lhe dizer. Mas se o ameaçar.E então? . . . o resto não é da minha conta. não conheço Maturette sob o aspecto de sexo. pelo menos morre livre. mas ficamos tão pouco tempo lá. só conseguimos ficar quinze dias. é o Razorí. o bandido corso. Encontrei o italiano daquela história do comboio. Você nem soube que eu estava lá. . . arranjei uma maneira de me acusarem de ter ferido um amigo.Quero saber se ele vive com você.Tem razão. Papi. salvo se isso o prejudicar. ele como acusador. Fui condenado a seis meses que curti na prisão ano passado. Veio cumprimentar-me. Fui julgado.

mijando no focinho dele.A vida no Real recomeça. Desço com “Brutus”. ele foge.4sahred .diz para mim o guarda que superintende neste serviço. O meu trabalho e o do meu camarada “Brutus” consiste em ir até o mar encher o barril de água e subir essa terrível encosta até o planalto. levando tudo o que resta da limpeza das latrinas feita na parte da manhã. tenho que ir nadar para o lago à procura de “Brutus”. às nove. de tão rústica que é. Só há um problema cinco horas. Começo às seis horas para. Pesa dois mil quilos e é um assassino de búfalos.Idiota! Filho da mãe! Teimoso como um bretão! Sai daí ou não. que o guia. peça longa a que são atrelados os animais (Nota d e revisora: http :/ / am and ikalo ka. . Hoje de manhã travo conhecimento com “Brutus”. . .É a última oportunidade dele .Se matar mais um. na quadra: encontra um barril com três mil litros de água. Quando encontro “Brutus”. cheia de bichos e nenúfares. O negro da Martinica. que se esconde. Quando lá chego abro a torneira do barril e a água escoa pelas valetas. E me enfureço sozinho. prenderam nele uma argola de ferro com uma corrente de cinquenta centímetros. Tornei-me imediatamente amigo de “Brutus”. Agora sou boiadeiro. Ás vezes levo mais de uma hora para conseguir apanhá-lo nesta água morta e nojenta. Como tem o focinho muito sensível. que apanhei no jardim do hospital. Tenho um búfalo chamado “Brutus”. seu merda? 50 nos carros de tração animal. me ensinará a conduzi-lo. iremos abatê-lo. mergulha e reaparece mais longe. A sua grande língua adora recolher o mijo salgado. pois não gosta de trabalhar. Depois de quatro dias.com) . preso no timão50 de uma carreira digna do tempo dos Gauleses. Em seguida dei-lhe algumas mangas verdes. acabar. o negro da Martinica declara que já estou apto a trabalhar sozinho. Já matou dois outros machos.

esfregando bem nas partes sensíveis. houve um pequeno revés por causa de “Marguerite”. como fazia o cara da Martinica.com ) . São nove horas. vai colocar-se no timão da carroça. Ontem. mas. meu camarada vem com dois barris vazios. O que demora mais é encher o barril no mar. Pois ontem. porque anda mais depressa comigo que com ele. Depois de ter me lavado. Tem uma linda fêmea que está apaixonada por “Brutus”. para limpar-me bem desta água do lago. andando ao nosso lado. 51 vara armada de ferro pontiagudo (Nota da revisora. ao passar pelo negro. voltou-se e apresentou-lhe as coxas. O búfalo fica grato. é relativamente rápido. O negro da Martinica a levava para cima de um muro e fazia amor com o animal todos os dias. Lavo então “Brutus” com a gordura. que é corno se chama a fêmea. foi o motivo final.4shared . Não a espanto como fazia o outro vaqueiro. Não os incomodo quando se beijam e “Brutus” fica motivado. na chamada das seis horas. Parece que quer compensar o tempo que me fez perder nas suas sessões de beijos com “Marguerite”. “Coito com um animal”. “Brutus” roça a cabeça pelas minhas mãos e. na chamada. apesar de tudo. Apanhado em flagrante por um guarda. sobra em geral mais da metade do barril de água doce. Nunca o espicaço com o chuço51. “Marguerite” entrou no poço. Http :/ / am and ikaloka. pois sobe com os três mil litros de água a uma velocidade incrível. passou em frente de mais de sessenta homens e. Finalmente. que enchi com água doce.Ele só reage quando consigo apanhar a corrente e nem liga pras ofensas. e nos acompanha. deixo que ela beije “Brutus” e nos acompanhe onde quer que ele vá. trabalho feito por dois forçados. Foi uma gargalhada geral e o negro ficou cinzento de vergonha. Começo a tomar banho. sozinho. já acabei e vou pescar. levou trinta dias de cana. Tenho que fazer três viagens por dia para transportar água. antes pelo contrário. depois de sair do lago.

Estamos diante do farol. um lugar com uma grande laje. Devido a isso já não preciso me lavar. se livre do barril. seguida pelos dois machos. Em seguida. Coçando-lhe o ouvido. Marguerite sobe lentamente a encosta. os edifícios dos dois hospitais: o dos prisioneiros e o dos guardas. prosseguem na caminhada. o campo dos forçados à direita e à esquerda. não gritam. “Marguerite” geme lânguida. “Brutus” e “Danton” encostam os chifres. deixando nele pedaço de chifre. que se afasta. param e voltam a esfregar e a entrelaçar os chifres. há. “Danton” faz esforços desmedidos para se libertar eu liberto “Brutus” dos arreios. que fica muito contente por causa disso. Mas hoje de manhã. “Brutus” tem o hábito de tomar água durante uns cinco minutos e eu abaixo a carroça para descansar melhor. no tanto. pois ali é um viveiro. na encosta. e esfrega apenas uns nos outros. Então esse afasta-se pelo menos trinta metros e. Assisto então a uma coisa muito curiosa. Quando subimos do mar. a galope. tão grande como ele. “Danton” surge e ataca “Brutus”. agrada ainda mais a “Marguerite”. Os dois mastodontes. O medo ou o desespero originam que este. esperava-nos escondido atrás de pequenos coqueiros que só têm folhas. precipita-se contra “Danton”. antes que o búfalo o tenha atingido. Parece que estão conversando e.Fiz um acordo com “Marguerite” para tirar “Brutus” de dentro de água. que se vira. mas “Brutus” não consegue travar a tempo e bate na carroça. ela emite um som parecido com o da égua no cio. Depois de três paragens. Então “Brutus” sai sozinho. sem se empurrarem. um largo terreiro com aproximadamente trezentos metros de comprimento. que de vez em quando. Quando se demoram mais. um outro búfalo. onde passa a noite. resfolegam apenas. No fundo. o outro bate na carroça e um dos seus chifres se espeta no barril. “Danton”. colados um ao outro. o desviado. Muito limpo e sem o cheiro nauseabundo da água nojenta. e continua em direção ao planalto. mas continuo a dar um banho nele como antes. chegamos ao planalto. .

pois ao resfôlego misturam-se sons. Tocam novamente os chifres um do outro. que. E. “Marguerite”. “Btutus” conseguiu encurralar “Danton” contra a parede do açougue. Têm. “Brutus” rodou sobre si mesmo. vai haver um duelo nos devidos termos. pelas sete horas. volta ao seu lugar. Ao grito de “Margueríte”. a cerca de vinte metros. poderíamos dizer que os seus dois mil quilos se multiplicam pela velocidade que adquirem. Só depois de terem brigado a noite inteira que. E por onde havia jardins. enfia-lhe um chifre inteiro na barriga. a fim de que o chifre girasse dentro da barriga de “Danton”. cento e cinquenta metros. cemitérios. portanto. por sua vez. A batalha prolongou-se durante duas horas. se dirige tranquilamente até o centro do terreiro. fugindo. destruíram tudo. espera. mas eu me opus a isso e. sendo perseguido por “Brutus”. Alguns guardas queriam “Brutus”. que. que devem significar alguma coisa. Ambos fraquejam. mas desta vez tenho realmente a impressão de que estão falando. Aliás. “Marguerite”. Já percebi. em um dado momento de choque. na manhã seguinte. devagar e o outro pela esquerda. O que se refaz mais rapidamente é “Brutus”. no meio de um mar de sangue e tripas. e. atiram-se um contra o outro. Depois desta conversa. sempre no meio. “Danton” quebrou o chifre que já tinha estragado no barril. indo colocar-se um em cada extremidade da praça. junto à beira-mar. orgulhosa que os dois assassinos vão lutar por ela. Para acabar com ele definitivamente. soltando longe gemidos. a galope. esse . Com a distância que cada um percorre. Os dois inimigos vão até junto dela. A batalha-perseguição continua até o dia seguinte. aceito pelas duas partes. um deles sai pela direita. tendo a fêmea como troféu. lavandaria. onde pára. trezentos metros entre eles.“Danton” e “Brutus” continuam a seguir. ela está de acordo. o choque das duas cabeças é tão forte que os dois ficam zonzos durante mais de cinco minutos.

Já são três belos machos que ele matou. embora não houvesse nada a fazer. O comandante sorriu: . . pois o guarda responsável pelos búfalos acusou-me de ter soltado “Bru” e. . estive prestes a perder o meu emprego de boiadeiro. .Papillon. senhor Angostí.Saí. -. Cambaleando. pois hoje você saiu como se fosse trabalhar.Estou ouvindo. vencido. − É verdade . afasta-se pelo caminho que leva à beira-mar.Vim aqui justamente para pedir ao senhor que salve o “Brutus”. já que estava atado à carroça. Nisto chega o guarda. Portanto. então que aconteceu? “Brutus” tem de ser abatido. se eu não tivesse soltado o “Brutus”. Pedi para falar com o comandante a respeito do animal. sempre procurando por “Marguerite”. eles estavam enfurecidos.disse o comandante. Nem mesmo assisti à noite da comemoração da vitória. Essa batalha de colossos enfraqueceu “Brutus” a ponto de eu ter que ajudá-lo a equilibrar o chifre para ele se poder levantar. “Danton” matava-o preso.. . é perigoso de mais. meu comandante.Ainda mais. logo. . depois de ter contado todos os pormenores. que o meu búfalo foi agredido . então. agonizante. . O guarda encarregado dos búfalos não entende nada do assunto. o senhor percebe.concluí. comandante. infelizmente.cai. saí para ver se conseguia parar a briga.Bom dia.. Estava à sua procura. incapaz de se defender. Deixe-me contar-lhe como “Brutus” agiu em legítima defesa.

. “Brutus”. vamos abatê-lo. O búfalo. em companhia de sua legítima esposa “Marguerite”. .Admite. . domingo de manhã. a quem vou pedir que venha e salve o “Brutus”. . se não bastar.É um sujeito curioso. . Chegue a um acordo com “Brutus”. Faça com que “Brutus” regresse ao trabalho.Porque me diz respeito. . quer deixar eu falar um instante? .diz o comandante. . sou eu que o guarda e ele é meu camarada. E de novo explico tudo. . nem o comandante. Papi. . mas se ele matar mais ninguém o salva.diz o corso. Dois dias mais tarde.. .Porque não? Penso que sim. fale. em São José.Porque você está se metendo nisso? . falarei com o doutor Germain Guibert. consertada a carroça pelos operários da oficina. é possível. senhor Angosti.Então “Brutus” e “Danton” travaram um duelo em comum acordo.. E.Deixe-o defender o búfalo dele .Não farão isso. . .Arre!.Sim. Sofro quando olho para essa gente notavelmente instalada em uma . Dará muita carne para a penitenciária. mas agora já não tem de guiar o como eu já disse.Não é você que me impedirá. Dou-lhe de novo o cargo de boiadeiro. que os bichos falem entre si. de início até o fim. . Aliás.Seu camarada? Um búfalo? Está brincando? . mas sim o comandante.Eu não.Bom. As coisas são extremamente perigosas por causa dessa pseudo-vida que gozamos. senhor Angosti.Olhe. voltava a transportar água do mar.

sim. sem outra lei que a da maior compreensão entre os seres a constituem. foram obrigados a juntar-se para coordenar. Esta é a praga que você me rogou. pensando: “Tudo está bem assim. seu idiota. duas vezes. estou aqui por culpa minha. tento recordar só as memórias do meu passado. Você só tem o meu corpo. Apenas o promotor se apresenta em sua cruel verdade.vida sem problemas. Elas negam-se a vir: parece que nunca existiu. Eu tinha quebrado a gaiola. um só não bastava. para que. conseguiu dormir tranquilamente bem? Gostaria eu de saber se você teve medo ou apenas ódio ao ver que a sua presa escapara do “caminho da podridão” para o qual o atirara quarenta e três dias antes. a tal ponto que os meus dois amigos. Que fatalidade me perseguiu para que eu de voltar aos trabalhos forçados onze meses depois? Teria Deus me punido por haver desprezado a vida primitiva. um jogo infernal. Meu Deus! Pensava tê-lo vencido na minha mente quando me vi em Trinidad. Por mais que eu tente esclarecer as perguntas difusas desse dia fatal. Chari e Grandet. apesar de ter fugido seis vezes. Ao fundo da sala. na casa de Bowen. enquanto chafurdam nos seus vícios. não consigo ver nenhuma pesooa. de novo. tão bela. as minhas duas amantes. verificam todos os dias. mas tenho que pensar em uma única coisa: fugir. ele está de novo no "caminho da podridão” onde o coloquei. não tenha conseguido a liberdade? Na prisão.” Engana-se: jamais o meu espírito ou a minha alma lhe pertencerão. nitidamente. que poderia ter levado enquanto quisesse? Lali e Zoraima. os seus guardas. Uns apenas esperam o fim da pena. quando você recebeu a notícia. fugir ou morrer. o seu sorriso de vencedor. você arvorou. que estou presente e isso basta. Quando soube que eu fora preso novamente e voltara para os trabalhos forçados. estou esticado na minha rede. Seis horas da manhã: . À noite. Quanto a mim. a tribo sem polícia. o seu sistema penitenciário.

invadimos o depósito de armas do comandante. não assimilei nada dos hábitos dos meus colegas.Qual é o seu plano? . Conversava com o meu acusador. . Arnaud. Trabalho lá para manter .Falem baixinho.Presente.. que estão de acordo. ajudados por quatro homens. com um pouco de ??? sor destes dias o sino chamará os tubarões para que o relembre com todas as honras. Sou um permanente candidato a fuga. Papillon? . . porque são sementes de dedos-duros.Bom.Não. Quer que he diga uma coisa? Não pertenço aos trabalhos forçados. deve ter começado a apodrecer e.Presente. A minha sentença física nada tem a ver com a minha presença moral. estamos preparando uma revolta. os seus cálculos não estão certos.Matamos todos os árabes.Está dormindo. Para isso. . “Está tudo bem. no festim diário que lhes oferece diariamente o nosso sistema de eliminação por desgaste. . eu.Papillon? . quando dois homens se aproximam da minha rede: .Queríamos falar com você. e o meu amigo Hatin. ninguém pode ouvir. nem dos meus amigos mais íntimos. “ Engana-se.Papillon? . Já faz seis anos que nós o seguramos. todos os guardas e todas mulheres dos guardas. juntamente com as crianças. Seis horas da tarde: .

. não sou um assassino profissional. Além disso. não é possível. a atuar nesse golpe. com o agravante de terem deixado uma de mortos atrás. Estão lá vinte e três metralhadoras e mais de oitenta espingardas.Pare. fracassarão. A ação será feita de. mas os outros não são menos espertos. . depois da confiança que que lhe damos ao contar tudo. quarenta presos. depois de eliminarem os guardas. . Estarão também armados e.Não lhe pedi que me confiasse os seus projetos. O mais importante é que nenhum receberá os fugitivos e os telegramas chegarão a toda a velocidade antes de vocês. Em . mas não mulheres e crianças que não me fizeram mal algum. me prejudique bastante. Nego-me a colaborar. não diga mais nada.as armas em bom estado. . Há cinco meses que estamos a p parar o golpe. Deixa que lhe revele os pormenores que estudamos e vai que não há falha possível.. Como partirão? Nas ilha existem apenas duas canoas. Que vão fazer aos outros sessenta? . Sou capaz de matar alguém que.A gente pensava que aceitaria ser o chefe da revolta. até. . mas não estou de acordo. e cabe a mim avísar. Agradeço a confiança.È o que você pensa. os restantes atirarão uns contra os outros para terem o direito de ocupar uma canoa. que poderão transportar.Por quê? Deves-nos uma explicação. nego-me a ser o chefe e.. já temos mais de cinquenta homens de acor -Não me revele nomes. Mesmo que a revolta vingue. Só faço o que quero e não o que os outros querem. − Por quê? . Vocês não estão vendo o mais grave. Admitamos que participem na revolta cem homens. fugir. no máximo.Estaremos incluídos no número dos que partirão nas canoas.Porque o principal.

nos vingar.Disso estamos certos. Dou a palavra que.Porque sei de antemão que recusarão. .Queremos.Bom.Dou a minha palavra que não falarei disto nem ao meu melhor amigo. . Recuso.Porquê? .caso de a revolta triunfar. sobretudo. E agora que explicou que é impossível que um país nos receba.Não compreendo a sua idéia e creiam que.Espere aí. por isso não se deem a trabalho.Então vamos.É uma decisão irrevogável. não temos mais nada a fazer aqui. − − Bom.Avisamos você a tempo de mudar de ilha. . Peço a vocês que não falem do projeto a nenhum de meus amigos.qualquer lugar que aportem. Vocês não ignoram que estive na Colômbia e sei muito bem o que digo. Papillon. procuraremos refugiar-nos na selva. serão presos e devolvidos à França. . mesmo no . . . Então recusa. depois de um golpe desses. . a fim de não estar aqui quando isso acontecer.Muito bem. . . . uma última coisa: avisem-me oito dias antes para eu ir para São José.Sinceramente. não. . vocês não ficarão livres.É a sua última palavra? . .Acham que não podem abandonar o projecto? . serão reencaminhados qualquer que seja o local para onde forem. .

O principal. Papi? . . E o que ainda é mais grave.Admito. combinado. para nós. o sangue é o mesmo. estes sujeitos e. Não é possível que homens do milíeu entrem neste golpe. é fora dele que estão os facínoras capazes de fazerem isto. . embora no mílieu exístam verdadeiros assassinos. já que os dois caras só falaram com caras que estão por fora. amigos. . Não sabe de nada. atacar o guarda que toma conta das canoas. sofremos demais.E as crianças? E as mulheres? .Não admite que tenhamos o direito de nos vingar? . sem matar ninguém. porque há coisas mais portantes a fazer que essa porcaria.Não falemos mais nisso. além disso.Boa noite.. . .Não. Peço-lhes que desistam. porque.Boa noite. .Não nos desejas boa sorte? . mesmo que nos custe a vida. uma noite. Hautin e Arnaud saíram. .Evidentemente. mas não com inocentes. dizem que têm cinquenta ou setenta comprometidos e na Hora H mais de cem! Hístória de loucos! Nenhum dos meus amigos tocou no assunto. Que curiosa história! São dois doidos. metermo-nos em um barco e fugirmos juntos? -.É tudo igual.Não. têm de morrer também.Não posso fazer nada para que vocês mudem de idéia? Quer combinar outra coisa comigo? Por exemplo quatro espingardas e. é a vingança.

que está paralisada. Hautin nunca conheceu a liberdade. chegar à Venezuela. e assim foi condenado a essa pena terrível. Não transpira nada. Deve estar bem atingido nas suas faculdades mentais. foram enviados para São José sem explicação e sem motivo aparente. pescando. sempre por causa do que o irmão havia feito. parece. pois o seu plano era. onde se alistara. está na cadeia desde os nove anos de idade. resolveu injetar voluntariamente com não sei que produto na perna. em Saínt-Martin-de-Ré. Garanto. Deve ter havido traição. Além disso.Nessa semana. mas de que e de que grau? Devo falar com os meus amigos íntimos: Matthieu Carbonieri. Hautin e o irmão do meu amigo Matthieu. matou um sujeito na véspera do dia em que ia ser chamado para entrar na Marinha. Tento saber. Grandet e Galganí. Ficou assim porque. portanto. no cais. Jean. Nenhum dos três sabe de nada. Arnaud abalhava há quatro anos no depósito das armas e Jean era padeiro há cinco anos. para criar uma atmosfera de hostilidade. Pode ser um simples motivo. . no entanto. que é padeiro e vive. Hautin e Arnaud procuraram apenas presos que eram do milieu. mas não acredito. trabalhar em uma mina e fazer explodir uma carga de modo a ser atingido das pernas. para receber uma grande indenização. um lance teatral. Arnaud foi condenado.Porque falaram então comigo? − Porque todo mundo sabe que você quer fugir. a prisão perpétua por uma coisa que não valia nem dez anos. tirei informações acerca de Arnaud e de Hautin. Os jurados julgaram-no severamente porque no ano anterior o írmão dele tinha sido guilhotinado por assassinar um delator. discretamente. Arnaud. Antes de sair de um reformatório. Hoje de manhã. aos vinte anos. durante a chamada. contam que foi horrivelmente torturado na prisão. . parece que injustamente. O promotor falou mais do irmão do que dele próprio.

após uma instrução excessivamente rápida e com base nas declarações de um outro negro. . Gostaria de salvar o preto.Qual é a sua pena de trabalhos forçados? . . . tenho um problema: fui eu quem matou Girasolo.Como vou fazer isso? − Deixe-me pensar. .Pode ser que aquele que planejou a revolta tenha falado de Jean sem ele sequer saber do que se passava. A noite chega. Não perceberam a diferença. vem falar comigo ao pátio. Um velho forçado. que foi posto no isolamento. Os acontecimentos precipitam-se. Por esse preço. não irá para a reclusão. Digo a Garvel: . . Mas. chamado Garvel e apelidado de Saboía.Quanto já cumpriu? . o antigo boiadeiro foi condenado à morte por um tribunal especial. .Doze. Encontraram sangue na camisa do negro da Martinica. E o seu irmão Jean? .Vinte anos. hoje à noite falo com você.Papi.Procure um meio de pegar prisão perpétua.Não sei como se deixou envolver nesta história. Essa noite assassinaram Girasolo quando entrava para a latrina. Quinze dias depois. me entregaria. se achase um meio para apanhar apenas três ou cinco anos. mas estou com medo de ser guilhotinado. não me apresento.− − − Mas não desta maneira.

Temos de agir depressa. após ter sabido dos pormenores da conspiração para a revolta. Deu tudo certo: Garvel salvou o negro. Garvel. sem nada lhes dizer. .Você não pode ser denunciado e depois confessar os fatos. Motivo: não pode.Disse que ele roubara o meu “governo”. mas que. o caso era gravíssimo. Falei com o guarda Collona. Girasolo foi o homem que. Isto passou-se há dois meses. e diria a que Gravel lhe pedira que o defendesse e o acompanhasse e Collona. os guardas não acreditaram.Por quê? . Seria uma pena que eles liquidassem o crioulo. Hautin e Jean Carboníerí. Não sabia. era impossível condená-lo à morte. que foi posto em liberdade no momento exato. nem sequer os interrogar. mais nenhum nome. que teve uma idéia brilhante. Espere dois ou três dias. denunciou Arnaud. O meio para escapar à reclusão é a prisão perpétua. para o assassinato? . Ele mesmo levaria o criminoso ao comandante. . Tem que denunciar a si próprio. Afirmei que do. felizmente. me explicou o resto. Direi o nome dele depois de ter falado ele. em boa conciênscia. por medida de precaução. solto agora que tudo acabou.Que explicação você deu. no entanto. mandaram os três presos para São José. Perante a enormidade da denúncia. por sua vez. e que deveria contar com uma condenação de prisão perpétua. a falsa testemunha de acusação foi condenada a um ano de cadeia e Robert Garvel apanho prisão perpétua. Escolha um guarda como seu defensor. haveria assegurado ao velho forçado que após tal gesto de dignidade. . Garvel. No entanto.. deixar guilhotinar um inocente.Porque corres o risco de ser condenado à morte. no qual tinha aceitado participar.

acontecia que. quando o meu “governo” tinha desaparecido. Eles acreditaram na minha explicação. Pouco depois estou na presença do comandante. além de mim. e que de noite eu tirava o “governo” do cu e o escondia debaixo do cobertor que serve de travesseiro. . à hora da chamada. senhor comandante. nem me disse que ele havia denunciado uma revolta. Nada feito. Às oito horas.Sim.Arente dele. Pegue as suas coisas. M despeço dos meus amigos.diz ao consultar o meu dossiê. Girasolo. com a menina. Presente. ao guarda de serviço. que merda! A notícia da revolta acaba de rebentar na França. o que era verdade. A família de Lisette já não está na ilha. Não conheço o novo comandante. Ah!. Uma noite.É uma personagem curiosa .gritam no pátio.Porquê? . − − − − Papillon! Papillon! . embarco para São José. na semana passada. Tolera-se tudo menos isso.Você é o Papillon? . juntamente com alguns documentos que me acompanham. O comandante de São José se chama Dutain e é do Havre. trazendo uma diretriz nova: os chefes de serviço responsáveis por uma fuga serão destituídos e os prisioneiros capturados em fuga condenados à morte. As autoridades consideram que a fuga é motivada pelo desejo de os seus autores se juntarem às forças francesas que traem a pátria. . Chego só. fui à latrina e. Vá para São José. só um homem não estava dormindo. . É ele quem me recebe. O comandante Prouillet foi embora há mais de dois meses. e no cais sou entregue. Foi para Caiena.

que está exatamente sob a sua jurisdição. sob todos os pontos. Podem me dizer o motivo por que me mandaram para São José? É quase um castigo. não há motivo especial. É por isso que ele o mandou para cá. Fico movido com a sua espontaneidade e com o seu gesto. Está aqui uma anotação a tinta vermelha. irá para o campo..Não se engana. Estamos ligados a Grandoit. de três e cinco anos. que entram na sala acompanhadas por um jovem árabe. agora fica sem ele automaticamente. “Em continuo estado de preparação para a fuga. muito bonita. Prefere que fuja de São José. onde não tem responsabilidade.Obrigado. loirinhas. . . depois. o novo comandante receia que você fuja. Que vai fazer dele. obrigado.diz a mulher. querido? . quer vê-las? Ele chama as meninas.Sim. foi ele quem tentou salvar a sua afilhada Lisette. Antes da guerra. − Oh! Deixe-me apertar a sua mão . . comandante. “ Eu tenho duas filhas. está vendo esse homem. . que Real. sem falar do resto.Aumentaram as sanções contra os responsáveis por fuga.Porque é dado como perigoso.Querida. minha senhora.” Mas depois há uma outra: “Tentou salvar dos tubarões a filha do comandante de São José. eu sou a madrinha de Lisette. diga-me o que quer que eu faça. Possivelmente. . Nunca se dá a mão a um degredado. Estender o mão a um forçado é a maior honra que se pode conceder. . todo vestido de branco. . e por uma mulher morena.Primeiro. era possível que o culpado viesse a poder um galão.A meu ver.

Dezoito meses. Prepare um documento que entrega a Mohamed. mas vou encontrar uma maneira de voltar à Real. mas se o fizer será a uma hora em que você não esteja de serviço. Daqui a alguns anos. O chefe do posto da guarda é um velho corso muito violento. o comandante. acompanhado pelo jovem árabe.Não tentarei fugir. . já viu? Na . à beira do cais. escolha o calabouço onde que ficar. Os outros.Quanto tempo ficará o senhor aqui.De fato. .Assim está bem. procure-me. . a antiga casa de Lisette. Chama-se Filissari. Mohamed. Então. e.Não posso esperar tanto tempo. Papillon. . não é difícil . que serve de moradia e de escritório ao comandante. para não o prejudicar. -Está bem. . Se precisar de qualquer coisa. comandante? . . mas eu. . . Não lhe digo mais nada. é você o novo hóspede? Sabe que eu ou muito bom ou muito mau.Sinto-me feliz por ver que você é uma boa pessoa.diz a mulher. Papillon. acompanha Papillon ao campo. mato-o como um coelho. se fracassar. e você. percebe. Deixo a casa.Então. vamos ser amigos. dê ordem ao posto da guarda do campo para que deixe Papillon vir visitar-me sempre que queira.Para mim é fácil: o bloco dos perigosos. não tente fugir porque.diz. vou me aposentar e não quero me chatear logo agora.. Comigo. a rir. podem aguentar melhor os aborrecimentos de uma fuga.Obrigada . PapílIon. Querido. Sabe que eu sou amigo de todos os corsos. um notório assassino. querida. chego ao campo.

Depois da denúncia de Girasolo. Ele deixa-as e leva as da véspera. eu devia travar amizade com Jean. está entendido? Para onde lhe indicaram? Estou no campo. fui visitá-la para lhe agradecer. Hautin. não me convém. embora parecendo maior por ser mais comprida. Logicamente. presas em um volume achatado que termina em um cabo de madeira. A madrinha de Lisette manda-me. apenas os transferiram para São José). mais acima. a mesma coisa que preparou para a família. o árabe que trabalha em casa comandante me traz três marmitas sobrepostas. pois ela é composta dois planaltos que lhe ficam sobranceiros. O campo encontra-se no meio da ilha. É terrível o perigo que paira sobre essa família. se eu abrir a boca para que os isolem confirmo a veracidade e a gravidade da primeira delação. Então. caso os dois trouxas ainda estejam com as mesmas idéias. já que é irmão de Matthieu. Arnaud e Jean Carboníeri. todos os dias. mas ele tem a classe do irmão e. por causa da sua amizade com Hautin e Arnaud. Domingo. cerca de cento e vinte detidos. A ilha de São José é mais selvagem que a Real e um pouco só pequena. a reação dos guardas? É melhor eu me calar. no outro. o pátio. Todos os dias. durante uma hora. então. . o bordelês a quem chamam t le Fou. Por isso. resolvo me instalar perto de Carreir.minha idade e nas vésperas da aposentadoria seria chato. E qual seria. Ao acariciar estas cabecinhas loiras. pensei que às vezes é difícil saber qual é o nosso dever. Esperemos que isso se mantenha assim. todos os dias. Passei a tarde falando com ela e brincando com as crianças. em um bloco exatamente igual ao da Real. Lá estão Píerrot le Fou. na qual os guardas não acreditaram (não os isolaram. ao meio-dia. No primeiro. Entre parêntesis: os reclusos continuam a ir tomar banho. a temível reclusão.

puxam-nos. e Marsori. Pierrot le Fou entra sala a correr: pessoas: eu. um corso de . exatamente como animais. além do mais degradante. que não foi trabalhar hoje. munidos de um peitoral de gancho. Como guardei segredo. Os tiros de espingarda continuam.Arnaud e Hautin quase não falam no melhor comigo. sem familiaridade. Continuam os seus autores com as mesmas idéias? Trabalhamos aqui em um serviço pesado. com quinze ou vinte metros. As pedras são envolvidas por uma corrente grossa e comprida. branco como um morto. Jean Carbonieri não me dirige palavra. respondo: . apesar do rosto queimado pelo sol. vem para junto de mim. arrastam a pedra até o seu destino. mas é assim. é um serviço muito pesado e.É a revolta! . parece-me que ninguém está informado de que se planejava uma revolta na Real. Jean Carbonieri.A revolta? Que revolta? Ostensivamente. Papi. prendem-no a um dos elos da corrente e. quero que fique bem claro a minha ignorância. Têm de puxar grandes pedras. do lado de cá. com as quais estão construindo uma piscina junto ao mar. Percebi: os loucos passaram à ação. Pierrot le Fou. Soam tiros de espingarda e de revólver.Que revolta? Não estou sabendo. Tratamo-nos polidamente. Todos os presos dizem: . Baixinho. não me mexo. Marquetti. ficou magoado porque eu não quis me instalar junto dele. que toca violino (que frequentemente toca horas a fio e me deixa melancólico). Friamente. Ao sol. e os forçados. O que aconteceu? Quem venceu? Sentado. Tenho um grupo limitado a quatro Sète.É a revolta. ouço: .

É a revolta. Todo mundo o imita. Entenderam? . Se assim não fosse. .Sete deitem a arma fora. . não quero. agarre a sua faca. eles não tardam chegando. ninguém sabe nada acerca desta revolta de loucos. vamos matar o maior número possível antes de morrer! . façam o que puderem para fugir. mas parece que fracassaram.Também não.. Mato o primeiro que ameace um guarda. Nada lhes disse do que sei. O tiroteio acabou e os presos perderam.disseram os outros oito. .Sim. vamos matar quanto pudermos! Chissilia puxa pela navalha. Aqui somos todos homens do milieu. É absolutamente necessário compreender que abrir a boca é estar sabendo de alguma coisa.Nove. Deitem as armas na latrina.Vamos .Bom.Nesse caso. Os que o fizerem serão dizimados. incluindo Carboníeri. . Diz-lhes: . Pelo menos. a chacina prevista não poderia ter terminado de qualquer jeito.Não sabia de nada. Quantos somos? . Não teremos vantagem alguma em falar.Não sejam estúpidos.Nós também não . Eu.repete Carbonieri -. E você? .E se foram os presos revoltados que ganharam? .E você? . Não tenho vontade de ser abatido nesta sala como um coelho. Você está metido nisto? -Não. . Que bando de loucos! Papillon. E vocês? .

e agora se encontram no sétimo bloco. à direita e à esquerda. no qual todos gritam. Estamos apenas nove.diz Carbonieri. os jogos de xadrez damas.Cala a boca. Ouvem-se dois tiros. com violentas coronhadas. Aparece um homem nu correndo para as celas disciplinares. montes de lixo? Vamos fuzilá-los. Vingam-se assim em tudo o que não é regulamentar.” . os candeeiros.Como? .Estão chegando .Os guardas chegam como loucos. Eles já estiveram diante. são mais de vinte. . de vez em quando.grita Filissari. . empurrando à coronhada. Entram de rompante na nossa cela. . cada um no seu lugar. o que tentaram fazer é grave de mais! E nesta sala de perigos vocês estavam também todos feitos. e ao pontapé os trabalhadores do serviço das pedras. com certeza. prontos para disparar. No campo existem oito blocos. destruído e deitado fora. Tirem a roupa. o café e as roupas brancas. porque não temos vontade de tirar a roupa dos cadáveres. voltou. furiosamente espancado pelos guardas encarregados de o levar. Nenhum dos que estava fora trabalhando.Senhor Filissari. Logo entram no bloco do lado. . os banquinhos. pensando: “Tomara que um destes idiotas não aproveite a oportunidade para me abater impunemente. Estou com a boca seca. com certeza. Só falta o nosso.Ainda não estão nus? Estão à espera de que. Os bandolins. tudo é espezinhado raivosamente. Ninguém fala. . Papillon! Já não há que pedir perdão.. todos de espingarda ou revólver. morto de medo. as garrafas de óleo. como que petrificados.. de revólver. Em todos fazem a mesma coisa e.

. mas enganei-me. Atire. .Isso é impressão sua . Resolvo arriscar tudo por tudo: .Não estou metido nesta história da revolta. Papillon? Ainda de costas. como se fossem um só homem. Quer atirar? Pois muito bem. Para que uma revolta? Para matar os guardas e fugir? Para onde? E sou um homem de fuga.e viro-me para ele.Admira-me que um napoleonista como o senhor quer pura e simplesmente assassinar inocentes. para que não possam dizer que a gente ia atacá-los. conhece todos os pormenores da minha fuga. − Que tem a alegar.Vou explicar-lhe: Carboníeri é meu amigo. da Colômbia. E todos. − Temos o direito de nos defender . Pergunto: qual é o país que daria asilo a assassinos fugidos. nada de discursos. tenho a certeza. voltaram as costas. respondo: . já sabe muito bem qual o resultado de uma fuga nestas condições. mas foda-se. . Como se chama esse país? Não sejam estúpidos. Filissari tinha fuzilado dois infelizes nas outras celas. um verdadeiro napoleonista. tanto que (soubemos depois).Os olhos saltam-lhe das órbitas. atire depressa! Eu pensava que você era um homem velho Filissari. hoje de manhã. Arnaud e Hautin estranharam que ele tivesse se declarado doente para não ir ao trabalho. e isso é suficiente para que ele não tenha ilusões. . nenhum homem com cabeça se envolveria em tal história. Não faz mal! Voltem todos as costas a estes guardas. estão injetados de sangue com reflexos assassinos que não enganam. não nos interessa. mas Carbonieri? Ele está. Os guardas ficam espantados com a minha atitude.diz Pierrot. porque.Você talvez não. volto de muito longe.

acompanhe-o. Hautin e Marceau.Neste momento chega o comandante. . . Vamos. preciso que diga quantos homens é que. o subcomandante e Fílissarí. Saiam todos.Corbonieri! − − Presente. Guarda fulano. acaba de acontecer algo de muito grave.Arnaud. Levem-no para a cela. volta com quatro guardas. O guarda Duclos foi assassinado. Devido ao meu cargo. não houve revolta. . fiquem aqui apenas os guardas. Fica do lado de fora. Eu. tomaram parte ativa nisto. quero obter rapidamente algumas informações. darei eu próprio resposta. tragam todos sem exceção. portanto. teria me negado a falar algo em particular.Quem são? . Tentaram roubar as armas que estão em minha sala.Ah! Percebo! Quer o senhor queira ou não. mas. Filissarí sai e o comandante diz: .Se tivesse havido uma revolta como seria possível nós sabermos? Porque não nos contariam? Quantas pessoas é que estariam envolvidas? A estas três perguntas que lhe faço. em uma ocasião tão crucial. Antes de tomar certas medidas. trata-se. de uma revolta. por isso vim aqui. Não matem ninguém. depois de se apropriado das armas e matado o guarda. tenho que assumir responsabilidade muito importante. − − Papillon. meu comandante. -Três. confio em você: qual é a sua opinião? . comandante. sem brutalidade. Só tenho alguns minutos. Na sala entram o comandante. tragam os presos dispersos pela ilha.

eu. .Mas se são vocês que têm razão. . .. Pierrot. no dia em que não nos deixarem. que tomasse qualquer iniciativa? Fizemos. então sim. dentro do condicionalismo da situação. mas não se esqueçam de que. Senhor Dutain. não lhes seremos ser úteis a esse respeito. nada temos a ver com isso. nós é que seríamos os chefes e não eles. a revolta dos desesperados. e acho o senhor merece de nós toda a franqueza pelo simples fato de ter vindo até aqui para se informar antes de tomar decisões. Repito. Galgani e todos os bandidos corsos da Real e os homens do milieu somos uma corja de ignorantes. Nós não sabemos de nada.Você está mentindo. E e uma chalupa para seiscentos homens? Nós somos doidos ou quê? E matar para fugir! Suponhamos que conseguiam vinte: que ganhavam com isso. Está fazendo jogo duplo. ainda não sei quantos homens foram mortos pelos guardas ou mesmo pelo senhor.E aqueles que estão comprometidos? . Carbonieri. além de serem presos no país e recambiados para cá? Comandante. um suicídio coletivo. Papillon! . o senhor Filissari? Quantos barcos há em São José? Só uma chalupa. mas Girasolo denunciou-a e ninguém acreditou nele. .Houve mais alguém. Se tivesse havido uma revolta. deixe-nos em paz. falei de coração aberto.Mas que história é essa? Então nenhum de vocês está comprometido! . Morrer por morrer.Procurem-nos. . pode ocorrer uma revolta. alguma tentativa para nos apoderarmos do posto da guarda onde se encontravam quatro guardas armados mais o chefe. levar uma vida agradável. Papillon . Agora já sabemos que tudo o que ele disse era verdade.essa revolta era para ter sido feita na Real. morreremos todos juntos: somos forçados. por acaso. mas estou quase certo de que eram todos inocentes ou para que serve destruir as poucas coisas que possuímos? A sua ira parece justificada.diz Filissari.disse de Filissarí. essa história é uma loucura. além desses três doidos. Agora.

Vamos. e ninguém gritou para avisar o guarda. voltou-se para nós e disse: . Ufa! Escapamos na boa. que sempre serviu de ponto de paragem. Filissari saiu com esta: − Teve sorte de eu ser napoleonista! Em menos de uma hora. o guarda esticou sem dar um passo. Levantou a enxada e bater a ponta dela bem no meio da cabeça dele. já quase todos os homens do nosso bloco entraram. Alguns amarram o lenço para o pôr na cabeça. apanhou a espingarda e Marceau pegou o cinturão com o revólver. nem destruir o que lhes pertence. Quando se juntam a nós. Paramos então. Um ladrão conta-me. Como o descanso é só de dez minutos. Essa casa fica à sombra de coqueiros e a meio do caminho que temos de percorrer. sem a levantar. Com a cabeça aberta. Ao fechar a porta. o guarda também costuma se sentar na borda do poço. os fecharam nos outros blocos. ao lado de um grande balde de água fresca e bebemos. que tínhamos puxado uma pedra de quase uma tonelada durante quatrocentos metros mais ou menos. em voz baixa: . na sua precipitação. O caminho por onde arrastamos as pedras não tem trechos muito íngremes e existe um poço. Ele tirara o capacete da cabeça e a enxugava com um grande lenço. ficamos sabendo o que aconteceu. mais ou menos a cinquenta metros da casa do comandante. Empunhando-o. pois eles estavam. quando Arnaud se aproximou por com uma enxada na mão. Hautin. Assim que ele caiu. que estava naturalmente do à sua frente. Faltam dezoito: os guardas percebem que. Papi.. como de costume.Senhor Fílissari.Imagina. no serviço de transportar pedra. depois de os homens entrarem no bloco dos perigosos mande fechar as portas até nova ordem. Guardas à porta. nada de maus tratos contra estes homens. E foi-se embora com os outros guardas.

primeiro das crianças. O comandante apareceu na janela e começou a dar tiros uns a seguir aos outros. Ninguém gritou. que tinha caído. com o revólver na mão.Não se mexam. e ordenou: “. ouviu-se o primeiro tiro. depois do árabe. o árabe que trabalha lá abriu a porta.. nem o árabe. e de todas elas ele colocou a criança em frente do cano. vamos mostrar-lhes o que é ser corajoso! “Tirou a espingarda das mãos de Hautin. esse atirou a criança contra a espingarda de Arnaud. Hautín puxou as pernas do árabe. disparado por um guarda que estava no serviço das folhas secas. que se desequilibrou. não falem. árabes. Nenhum dos serventes se mexeu. mais rápido que eles. rolando todos pela escada. O árabe. Vinha acompanhado pelas duas crianças. mas segurou-a com a mão esquerda e apenas pelo cano. Prestes a cair. não gritem. Quem estiver com a gente. Ficaram ambos espantados e o árabe deu um pontapé em Arnaud. Nessa altura ouviram-se gritos. Sem subir a escada. conseguiu colocar a mão na arma. No preciso momento em que Arnaud subia já a escada para entrar em casa do mandante. nem os outros. deitem-se de cara no chão. Hautín agarrou-lhe na perna e Arnaud segurou o braço direito dele e torceu-lho. e correram os dois em direção à casa do comandante. Arnaud olhou-nos os e gritou: “. Marceau ficou junto dos outros. mas o cara defendeu-se pondo a criança à sua frente.É uma revolta. . obrigando-o a atirar a espíngada a mais de dez metros de distância. “No momento em que ambos se precipitavam Para pegá-la. “De onde estava. e nenhum dos homens grupo manifestou intenção de os seguir. Quatro ou cinco vezes a espingarda é dirigida contra o árabe. uma no colo e outra agarrada pela mão. Esse queria matá-lo. que nos siga. Vocês. seguidos pelos insultos de Arnaud e Hautin.Corja de covardes. vi tudo o que aconteceu.

Pouparemos a sua vida!. Embora cheio de sangue e com os braços atados. “Os guardas dispararam. para completar a obra. meteu-se na água num lugar onde abundam os tubarões. se lançara sobre ele. Assim livro-me de tornar a ver os seus horrorosos focinhos! “E entrou pelo mar. Como tivessem acorrido guardas de todos os lados..mas. esmagou-lhe mesmo a cabeça com uma violenta coronhada. . mas os árabes viram a manobra e. Depois. escondendo-se atrás da grande pedra. Hautin armazenou no seu corpo umas cento e cinquenta balas. “.Entregue-se! . Via muito bem dar um soco num. corria menos. que. e morreu um. porque. a pontapé e ao soco. Hautin com a sua perna aleijada. esse.. A água ainda não lhe chegava ao peito e já os tubarões o atacavam.respondeu Arnaud. parou. Cada um deles dispunha de trinta e seis balas. “. . metade fora da água. Vivi-morto. os guardas mataram-no a tiros de revólver e de espingarda. empurraram-no em direção aos guardas. Arnaud. em determinado altura. depois de agarrar a arma pelo cano. dizendo que ele estava também envolvido no golpe. com medo de ferir o árabe. para depois prosseguir.Prefiro servir d e alimento aos tubarões.Nunca! . pois estava sendo alvejado pelo comandante por mais dois guardas. Marceau quis salvar a pele atirando a arma para o poço. cujo corpo acabou na praia de barriga para o ar. Então Arnaud e Hautin fugiram na direção do cais pela estrada à beira-mar. à paulada. disparava para onde estava a espingarda. Os guardas não paravam de disparar. foi literalmente esquartejado e desapareceu em menos de um minuto. Os homens que Filissari matou foram os que . Acho que levou um tiro.gritaram os guardas. pelo menos. pelo que foi pego antes de chegar ao mar. Um deles. indo direto aos tubarões. “Todos os guardas descarregaram os revólveres sobre Hautin. cem tiros de o espingarda na massa constituída por Arnaud e os tubarões. perseguidos pelas balas.

Pare com a música Estamos de luto! . nem sopa. a espingarda fica encostada ao braço. os guardas olham com frequência para dentro da sala. Um naco de carne pela manhã. Chegaram reforços: guardas da Real. mas também todo o campo. Marquetti. outra à esquerda.grita um dos guardas. Na porta. Não apenas na cela.manteiga. comercializada em latas (Nota da revisora. No entanto. aqui. e espreitando pela porta gradeada podemos observar o que está acontecendo no pátio.com ) . formado por duas fileiras de redes. mas que desistiram por medo.denunciaram como tendo estado. Os árabes também são vigiados. nem põem a arma no colo. A tensão pesa. temos café e alguns alimentos . água. É proibido falar de um bloco para o outro ou chegar à janela. como não foi nada destruído. Não há café. uma à direita. . Nenhum preso. foi obrigado a parar. corned-beef52 à noite uma lata para quatro homens. À porta. sem brutalidades. Todo mundo está em transe. estão duas sentinelas. jogar pôquer em pequenos grupos de cinco. 52 conserva de carne bovina em salmoura. Nada de marselhesa. De vez em quando. Ninguém sai para trabalhar. avoluma-se. Mas nunca se sentam. se havia cúmplices. e. seguido por um guarda. as sentinelas revezam-se de duas em duas horas. Os outros blocos pouco ou nada têm. cortada em pedaços. que. que toca uma sonata de Beethoven. se dirige as “solitárias”. corned-becf ao meio-dia. ninguém se mexeu. O corredor. Resolvemos. A duração do plantão é curta: duas horas. dispostos a colaborar com Arnaud. Pelas janelas laterais. vê-se sair um homem nu. Http :/ / am and ikaloka. de início. etc. pronta a disparar. no seu violino. Pura mentira.4shared . azeite. sem gritos. nem de jogos com muita gente. para matar o tempo. Faz dois dias já que estamos todos trancados nas salas concernentes a cada categoria. porque são muito barulhentos.

onde alguém acendera lume para fazer café. pusemoslhe uma ligadura para estancar o sangue.A certa altura do dia. O que acaba de acontecer não se repetirá.Venha você apagá-lo! O guarda não esteve com meias Medidas e disparou várias vezes através da janela. . -Não diga que estou ferido. Niston teve a sorte de a bala não ter ficado cravada na carne. Nos atiramos para o chão. um velho rijo. que estava fazendo café para vender. Deve ser bretão. já está escuro. podem acabar comigo lá fora. penetrou na parte inferior do músculo e saiu. Depois o guarda diz: . O outro. E vai-se embora. . Não o conheço. chamado Níston. Filíssari aproxima-se da grade. São oito horas da noite.. um guarda mandou apagá-lo. Teve o desplante de responder: . Depois de lavarmos a ferida com vinagre. Acorre feito louco. acompanhado dos quatro guardas. Niston foi ferido em uma das pernas. Era um velho de Marselha. comenta o que aconteceu. Filissari insulta-o em corso. O que disparou. Ao ver fumaça que vinha das latrinas. Marquetti fala com ele corso.Façam o seu café. Neste momento.Não entendo. pensando que aquele doido ia fuzilar a todos nós. registrou-se um incidente. Voltamos para as nossas redes.Papillon. o chefe de serviço no posto da vigilância era ainda Fílíssari. vem comigo! É um guarda que me chama.. apenas responde: . um tipo de Auvergne. A perna de Niston sangra. não entende patavína.

aquele árabe que o salvou e impediu a revolta.Venha . Uma hora depois. Mohamed.Sim.O comandante quer falar com você. dois jovens guardas aparecem à porta. recuso. Vêm acompanhados pelo árabe que trabalha na casa do comandante.Papillon. Saio do círculo dos meus amigos e aproximo-me da porta. . .diz para mim o árabe. Fazem um círculo à minha volta.Papi. Um forçado oficialmente armado de espingarda! . . sou eu.Não deixaremos Papillon sair sem a presença do comandante.Diga-lhe que venha ele próprío buscá-lo.. Eu queria acreditar no que ouvia! .Que quer você a uma hora destas? Nada tenho que fazer aí fora! . De fato. Marquetti diz para mim: . Mohamed tem uma espingarda debaixo do braço. Nos trabalhos forçados acontecem as coisas mais incríveis.Mas é ele que o manda chamar.Vem conosco! . O guarda fala pelo postigo.Diga-lhe que venha cá. Eu não saio daqui. . Venho buscar-lhe. o cara está armado com uma espingarda. . .Estou aqui para lhe proteger se for necessário. O comandante quer falar com você e não pode vir aqui. Os meus amigos cercam-me. .Recusa-se? . Marquetti vai até a porta e diz.

Vamos ao assunto: já se sabe que deve estar chegando uma comissão de inquérito e todos os presos de todas as categorias terão de declarar o que sabem. sentados. os comandantes de Real. fortemente iluminada com candeeiros de carbureto. Queremos .Nem eu. vejo. Filissari diz para mim: . . que seguirão fielmente as suas instruções.Sente-se aqui nesta cadeira. Ao entrar na sala. Pretendo esquecê-las e acreditar no meu colega Dutaín. No caminho. Mohamed me dá um maço de cigarros. . Descemos até o comando. nem ninguém no bloco dos perigosos. .diz o comandante da Real -. Nos outros não sei. . é considerado Pelo comandante Dutain como um homem digno de confiança.Boa noite. que o apresentam como muito perigoso sob todos os pontos de vista. Papillon .diz o comandante de São José. sem o conseguir. Lá fora. Eu só o conheço pelas anotações oficiais. A porta que liga a sala à cozinha está aberta e de lá a madrinha de Lisette faz-me um aceno amistoso. de São José e da reclusão e os segundos-comandantes duas ilhas. .Papillon. A casa e o cais estão iluminados pelos candeeiros de carbureto.Boa noite. .Chegou Papillon. pessoalmente. vigiados por guardas. Reconheci dois que estavam no serviço do transporte de pedras. Você e mais alguns outros têm grande influência sobre os condenados. entrevi. espero que não tenha nada contra mim. pela tentativa de salvamento da afilhada da esposa dele.Papillon . à saída do campo. Estou de frente para todos. que tentam. dar luz à sua volta.Mohamed coloca-se a meu lado e os dois guardas também. quatro árabes. Ao passar pelo posto da guarda. .informa o árabe.

perturbados.Mas por que razão diz você que estamos em uma situação delicada? . Não faria sentido.. Papillon? Ou não sabe que fui eu. és capaz de prever o que os homens do seu bloco e os dos outros poderão dizer. penso que. .diz Dutain. .Que sugestões? .saber qual é a sua opinião acerca da revolta e também se. com a atmosfera pesada em que neste momento se vive. se a comissão vem realmente disposta a fazer um inquérito.Pessoalmente.Sim .Se insistirem em falar oficialmente em revolta. No entanto.Talvez eles possam escapar. . Se aceitarem as minhas sugestões. que a vida retome o seu curso normal já a partir de amanhã de manhã. Continuo: .Explique-se!. Só conversando é que podem exercer influência sobre os outros a respeito do que eles devem declarar à comissão... . Quanto à influência que possa exercer sobre os outros. . todos se livrarão. menos Filissari.digo eu. mais ou menos. mas não os chefes da Real . Está bem? .Sim. ajudado pelos meus colegas de São José. -Mas que você está dizendo. nada tenho que declarar. . que fiz abortar a revolta? .Os da Real não são apenas os comandantes dessa ilha mas também das outras. estão todos perdidos. os senhores serão todos demitidos.Primeiro. levantaram para logo voltarem a sentar-se. Os dois comandantes da Real. não a reconheço na prática..

vão afundar-se. E se no inquérito se esclarecer isso.acrescenta o comandante da Real. . já que não existiu. Mas se continuarem a falar em revolta. que todos os homens encarcerados nas celas por terem conspirado saiam prontamente e não sejam interrogados acerca da sua cumplicidade na revolta.É comigo. a partir de amanhã. não escaparão a sanções graves. . Por isso devem aceitar as minhas sugestões: a primeira. sem.Carbonieri também . E foi por isso que ele o incluiu gratuitamente na história. Embora reconheça que era difícil aacreditar nesta história de loucos. Se aceitarem estas sugestões. a vida recomece normalmente. inclusive os forçados do meu bloco. coisa que parecia impossível. e virá à luz a responsabilidade dos chefes da Real. que Filissari seja imediatamente enviado para Real por motivos de segurança. Porquê? Porque ele disse que ela tinha por objetivo matar mulheres. já que também esses dois homens foram para São José. Nenhum homem com no mínimo dois neurônios podia aceitar envolver-se em uma história destas. Mas os senhores não acreditaram na revolta. . Carbonierí era inimigo pessoal de Gírasolo desde Marselha. previamente se separar um do outro. Por outro lado. é que.Não.Como sabe disso tudo? . esse guarda é um assassino nojento. . e durante o incidente estava com um medo louco e queria matar todo mundo. a medida lógica era mandar um deles para o Diabo e o outro para São José. mesmo que me façam desaparecer. árabes e guardas.. Se falar em revolta. a terceira. como justificar então a morte de trés homens? Além disso. continuo a insistir. crianças. isso não é verdade. dispunham só de duas chalupas para oitocentos homens na Real e uma para seiscentos em São José. se não se fala de revolta. porque. providenciarei para que todos declarem que Arnaud. como já disse. tudo será dito e provado.Ora acontece que receberam uma denúncia de Girasolo revelando que estavam preparando uma revolta e indicando os chefes: Hautin e Arnaud.

nem confidentes.Sente-se. que provavelmente você tem razão.Não há dúvida! . O seu caso é da nossa conta e a esse respeito não pedimos colaboração. a senhora Dutain aperta a minha mão e me dá um café saboroso. Portanto. − É verdade. são sujeitos que resolveram suicidar-se. O que eles fizeram era imprevisível. Se quiserem. seria ótimo para eles admitir que houve uma revolta em São José. é porque tem intenções de o indultar.Hautin e Marceau agiram de modo a causar o maior mal possível antes de morrer.Papillon. Abre-se a porta. .diz o comandante da Real. . amanhã a vida continua como antes.Claro. Não houve revolta. por unanimidade. Já que ele te deu uma arma. não tinham nem cúmplices. Entro na cozinha e fecho a porta.diz um guarda. Papillon . ouvi tudo e percebi que você queria favorecer-nos. O senhor Filíssari será transferido hoje mesmo pan Real. decidimos.Não disse nada a meu favor? -Isso é da conta do comandante. onde todo mundo devia estar informado menos o seu marido. senhora Dutain. matando o maior número possível de pessoas antes de serem mortos. . A madrinha de Lisette diz para mim baixinho: .Ao termos apreciado o caso. eu vou para a cozinha e assim poderão discutir à vontade. . Entre. Os dois tratantes feridos decidiram suicidar-se matando antes o maior número de guardas possível. Papillon . Afinal de contas. Esperamos que mantenha a sua palavra. O árabe Mohamed diz: .

em nome de todos. que o diga. Níston foi para o hospital. fracassou no nascimento . . ficamos sabendo a verdade. pelo menos abater um antes de morrer. No caminho digo a Mohamed que espero que ele seja posto em liberdade.que. se não quisermos aborrecimentos. às sete horas.. os dois outros foram abatidos por jovens guardas.Contem comigo. apanham sol ou deixam-se ficar à sombra. falam. para não serem demitidos.transformou-se no original suicídio de . todas as celas do bloco disciplinar se esvaziaram. felizmente. o que se passou. e ele agradece-me. Ele parte conosco para Real. . o que queriam os guardas? Num silêncio absoluto. Até breve.Então. exatamente palavra por palavra. Agora que estamos todos reunidos. em liberdade. tentando. mas abriram as portas dos blocos e o pátio está cheio de forçados. . que haviam sido ameaçados por forçados encurralados. Carbonieri diz-me que os guardas haviam colocado a indicação: “Suspeito de cumplicidade na revolta” em pelo menos oitenta das cem celas. que. Em coro declararam-se todos de acordo. Ninguém foi trabalhar.Não. têm de acreditar E nós também.Se há alguém que não concorda com esse pacto que. fumam. Estes pensavam que os outros os iam matar e investiram de faca em punho.Você acha que eles acreditaram que não há mais ninguém envolvido no caso? . fiz com os guardas. . Hoje de manhã.Levem Papillon para o bloco e mandem chamar Filissari. Continham mais de cento e vinte homens. conto em voz alta. mas. E foi assim que uma verdadeira revolta . Fílíssari só matou um homem.

Como há sempre insatisfeitos. Isso foi feito na suposição de que corpos se afundariam. dado que levavam grandes pedras amarradas aos pés. envoltos nas mortalhas brancas. para deitar os cadáveres no mar. Dizem que o enterro dos três forçados abatidos no campo o de Hautin e Marceau foi feito do seguinte modo: como há apenas um caixão com corrediças. no fim de contas. verdadeiras maríonetes empurradas pelo focinho ou pelo rabo dos tubarões. A comissão veio e ficou quase cinco dias em São José e dois na Real.E o que ganhamos nós em termos concordado com os guardas? Olho para o sujeito. um bordelês perguntou-me: . os guardas. disseram que nenhum dos cadáveres chegou a desaparecer no mar. Mohamed foi indultado e Dutaín recebeu mais um galão. tese aceite por todos. antes de serem devorados pelos tubarões. Não me submeteram a um interrogatório especial. soube que tudo correu da melhor maneira possível: concederam licença a Filissari até a altura de se aposentar. em um festim digno de Nabucodonosor. colocaram-nos em uma canoa e lançaram-nos de uma só vez à água. que. e que os cinco. Pelo comandante Dutain. . Acha que não é nada? Esta tempestade. foi igual ao dos outros. administração e condenados.três forçados. Dela resta apenas uma ou uma história verdadeira. inclusive. não sei exatamente como ??? síficá-la. fugido diante de um espetáculo tão horroroso. dançaram um bailado fantástico. . Uma espécie de tácita cumplicidade entre guardas e forçados desorientou completamente a comissão. à noitínha. felizmente. acalmou-se.Quase nada: cinquenta ou sessenta forçados não apanham cinco anos de reclusão disciplinar por cumplicidade na revolta. Os guardas e os remadores teriam. talvez só pretendesse que tudo se compusesse da melhor maneira.

o que provoca polêmicas. Papillon? Eu nunca fui republicano. . apenas o agradecimento. a verdade é que não vejo aqui ninguém capaz de dar a vida pela França. .Eu. tuberculosos.Para arranjar mais dois ou três mil homens! . quanto a mim. Pelo contrário. sujeitos atacados de disentería? Está brincando! O cara não é idiota para se meter com forçados.Quer saber uma coisa.Você acha que o Grand Charies precisa dos forçados. certamente. Para quê? . ia ser mais severo. a vida até melhorou para todos.Isso já é outra coisa. . sendo. Todo o pessoal da administração dizer em alto e bom som que é petanista. pois o penoso serviço de arrastar pedras foi suprimido e agora são búfalos que as puxam. cabendo apenas aos forçados colocarem-nas no devido lugar. portanto. tarados. dos meus colegas por terem escapado a um regime que. Pois aqui não há oficina. Nas ilhas ninguém tem rádio e não sabemos o que se passa mas dizem que abastecemos os submarinos alemães na Martinica e em Guadalupe. A chegada de Pétain ao Governo fez piorar as relações entre forçados e guardas.Leprosos. a ponto de um guarda do comando me dizer: . Para ser um bom soldado é preciso ter amor à pátria. procuro regressar a Real.Quer que te diga uma coisa. Quer concorde ou não. Papi? É agora que nos devem revoltar para entregar as ilhas aos franceses de De Gaulle. impossível construir uma jangada. a guerra dura anos. Carbonieri voltou para a padaria e.E os dois mil que ainda se encontram sãos? . pessoalmente. Você pensa que a guerra é um ataque à mão armada? Um assalto dura dez minutos. Mas nem por serem homens saudáveis servem para combater. nada ganhei ou perdi. .

Ainda bem que Grand Charles tem a seu lado outros homens além de vocês. está vendo que eu tenho razão.Papillon. . sem representar um risco para ela. portanto. não acha que devemos nos revoltar para sermos incorporados às fileiras de De Gaulle? . O conde de Berac observa: .Lamento muito. . depois de livre. Além disso. Eu próprio já me declarei contra isso e o meu dever é tentar fugir. só sei que atrozmente porque o meu país foi invadido. Tomar as ilhas para De Gaulle é coisa que não me interessa e tenho a certeza de que a ele também. mas não tenho que me redimir aos olhos de ninguém.Então. Estou cagando para a justiça francesa e para o seu capítulo “reabilitação”. a favor de qualquer ação cuja finalidade seja fugir. De Gaulle ou Pétain. Não é caso para nos preocuparmos tanto com uma sociedade que não mostrou qualquer sinal de piedade conosco. Dá-se então um fenômeno: antes. Penso no meu pai. estão entrevendo um clarão de esperança. nas minhas irmãs e nas minhas sobrinhas. Não me parece que um sujeito possa provar isso de outro modo. assassinos e traficantes. E. declaram que estão com Pétain. para. Estou completamente a zero acerca disso.. ladrões. se fizerem uma coisa dessas.E por que razão havíamos de o fazer depois de tudo que sofremos? . não sei quem tem razão. sabe o que os caras importantes pensarão? Que vocês tomaram as ilhas para furtarem e não porque apoiassem a França Livre. pelo que me toca. Não devemos ser estúpidos. Fico doente só de pensar que os idiotas dos alemães estão na nossa terra e de que há franceses colaborar com os apaches! Os guardas. sem exceção.Seria a maneira de um condenado se redimir. Sou. ser normal e viver em sociedade. ninguém falava em se redimir. mas agora todos.

muitos fiscais. qualquer que seja o motivo. Para nós.Se as ilhas forem atacadas. vista de tão longe. não se sabe nada porque nas ilhas. legumes secos e arroz. é difícil de entender. a guerra. traduz-se no seguinte: dobrado o efetivo dos guardas. É autêntico. No fundo. o sistema judiciário francês e estes guardas não são a França. Um incidente divertido: chegou um padre à ilha Real e fez um sermão depois da missa. não há rádio. não me interessa uma revolta. alguns . vocês receberão armas para ajudarem os guardas a defender o território francês. As notícias são transmitidas pelas tripulações dos poucos navios que nos visitam e nos trazem farinha. Disse: . outros estão com De Gaulle. esse padre era cômico e certamente que fazia uma péssima idéia de nós! Pedir aos prisioneiros que defendessem a sua cela! Só faltava essa nos trabalhos forçados! A guerra. porque os delatores. desde o simples sentinela ao comandante e ao guarda-chefe. como já disse.− É normal que sintamos pena. − Mas como? Travam-se discussões muito graves entre os clãs. Quantos destes caras não estão hoje postos a se tornarem lacaios dos Alemães? Quer apostar que a Polícia francesa prende compatriotas para ir entregá-los às autoridades alemãs? Bom. Diz-se que chegou a São Lourenço do Maroni um agente das Forças Livres e que os Alemães ocuparam toda a França. interessa-me apenas fugir. é um órgão constituído por pessoas cujas mentalidades estão completamente deformadas. Eu digo e repito. Uns são a favor de Pétain. para nós.

por intermédio do doutor Rosenberg. para os dois. e plantei alfaces. ao tentar salvar um ferido que tinha ficado para trás. acrescentam. Enviou-me até uma fotografia dele e esposa. No entanto. Não sei a causa deste silêncio. pois quem for apanhado é condenado à morte e imediatamente executado.” Estou na Real faz já quase quatro meses. recebemos apenas quatrocentos gramas. Quando consegui obter a liberdade. A mulher dele. tirada na Canebière. nunca mais deu sinal de vida. tomates e berinjelas. em 1967.com forte sotaque alemão ou alsaciano53. NONO CADERNO 53 relativo à Alsácia. fez. Assim fiz. mas desisti. Ela está encantada e trata-me como um bom amigo.4shared . em Marselha. mas guardo na minha alma. a maior gratidão pelo modo como me trataram e me receberam no seu lar na Real. Estava de volta ao Marrocos e dava-me os parabéns por saber que eu estava livre e feliz. aliás. Era um indivíduo excepcional e tinha uma esposa digna dele. “Tentou passar para as fileiras dos inimigos da França. uma senhora excepcional. tive vontade de visitá-la. Este médico nunca estendeu a mão a um guarda. Quando fui a França. Morreu na Indochina. de qualquer patente. a única coisa que aumentou é o preço da fuga fracassada. e muito pouca carne. região do Nordeste da França. depois de eu lhe ter pedido que me recomendasse. Tomei-me amicíssimo do médico Germain Guibert. No auto de acusação. ervilhas. muito pouco pão. pediu-me que lhe arranjasse uma hora' para suprir as faltas provocadas por esse regime de cinto apertado. com o dou Germain Guibert. rabanetes. o que. porque ela havia deixado de me escrever. mas aperta frequentemente a minha e a de alguns outros forçados que conhece e estima. ou o que é seu natural ou habitante (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. entrei novamente em contato.com) . Enfim.

Vamos! Força! . Erguemos o caixão e. em vez de ser devorado. Com autorização do comandante. sinto um nó na garganta. Então. em sinal de adeus. Subimos os dois para a canoa e. debaixo da tampa. e o Sol desaparecia no horizonte. volteando velozmente em um espaço restrito de menos de quatrocentos metros. Quem matou o meu amigo foi um encrenqueiro armênio. Quando estamos tomando banho. Deus queira que não tenham tempo de apanhar o meu amigo! Os remos já estão levantados. enrolado em sacos de . para descansar. dormindo eternamente. Pus-lhe uma enorme pedra nos pés.mente indefeso. Esse assassinato vai desencadear uma série de outros crimes. completa. tomando banho. repentinamente. e tive de parar por três vezes. atada com arame em vez da corda habitual. no famoso caixão que serve para todos. Chegamos em menos de dez minutos ao meio do canal que passa entre a Real e São José. e a ajuda de outro. temos por hábito deixar a navalha aberta e à mão. e ele se enterraria na areia. . que acertam sempre na hora e no local exatos. eu próprio transportei o corpo até o cais. Pesava como chumbo. Assim os tubarões já não poderiam arrancá-la. lá estava Matthieu. caso de apareça alguém para nos atacar.diz o tipo que vai ao leme. Eram já seis horas da tarde. Dezenas de caudas de tubarões emergem da água. Tocava o sino quando nós chegamos ao cais. Estava nos lavabos. debaixo da roupa. e tinha a cara cheia de sabão no momento que aquilo sucedeu. O fato de ele não ter procedido assim custoulhe a vida. Para ele tudo acabara. São autênticos papa-defuntos.JOSÉ A morte de Carbonieri O meu amigo Matthieu Carbonieri levou ontem uma facada em cheio no coração.

Todos. ainda por cima. Está bem. Por pouco eu não me atirava também aos tubarões. não foi? Ora aí está. avança direto para o barco e depois. Os tubarões passam sob o barco. formando-se então qualquer coisa de inexplicável. sustentado por. Paro e sento-me. no meio de um turbilhão mais forte. viu e viu bem! Com sinos e tudo! Está contente? A sua mórbida curiosidade deve estar mais que satisfeita! Resta limpar o sebo da cara que matou o seu amigo. A oeste o céu está iluminado por alguns raios de sol que morrem no horizonte. dez ou vinte tubarões . Quando? Essa noite. já os sacos de farinha foram arrancados. O que é preciso é que não me lixem! Vejamos. O antebraço direito já lhe foi amputado. incluindo os guardas. o do seu melhor amigo. Caiu a noite. com . e se for possível parto para o Diabo. já nem são sete.quem sabe? Antes que o barco tenha tempo de voltar.farinha. Mas porquê essa noite? É muito cedo. batendo-lhe no fundo. e quando eu já o acho desaparecido. ficamos petrificados. uma profunda tristeza invade-me. Volto lentamente do cais até o campo. Sim. São dez ao todo lá no covil dele. de vez em quando. Lá não há jangadas. O corpo de Matthieu aparece durante dois ou três segundos em posição vertical. e.. Já são sete da tarde. desaparece para sempre. o cara deve estar a pau. Merda! Você é que quis ver um enterro. Com metade do corpo fora de água. com quantos homens posso contar? Quatro. Um dos homens quase perde o equilíbrio e por pouco não cai na água. para sair para sempre daquele inferno. à tona de água. tive vontade de morrer.. Liquidarei o cara. comigo cinco. volta a subir à tona. nem preparações. Deus meu! Mal ele entra na água. Ninguém me acompanha. o corpo de Matthieu começa a escorregar devido ao peso da enorme pedra e rapidamente atinge o mar. Pela primeíra vez. chego ao lugar onde Brutus atacou Danton. é quebrada pela luz do farol da ilha. O resto mergulha na escuridão que. De maca aos ombros.

revistam-me. Sente-se que qualquer coisa de grave se passou ou se vai passar. Sou forte e posso percorrê-la em dois dias.Quem foi que os matou? .Porquê? − − O armênio e o amigo estão nas latrinas. condena-me à morte? Se me matarem. Nunca aconteceu.Estão mortos. os ventos e as marés. . Fazendo o quê? .Eu.Não lhe fará falta essa noite. . Porque há só uma lâmpada em vez de três? .Não se vê nada aqui.Já não tenho a minha navalha. . E os outros? . a cavalo no meu saco. venha por aqui. Assim que chego à porta.Papi. É apenas uma questão de resistência. Tíraram quando me revistaram. nem os guardas nem os carcereiros árabes. asim. . o que é extraordinário. . Grandet puxa-me pela manga. A distância até a costa é relativamente curta: quarenta quilômetros em linha reta. É o próprio guarda quem me tira a navalha. será sua a culpa! Ninguém responde. Abrem a porta e entro na sala: .Foi rápido.dois sacos de cocos. A sala não está muito barulhenta. transforma-se em cento e vinte. . me jogo para o mar. mas com as ondas. Pego na maca e volto para o campo.Quer que me matem? Porque me desarma? Sabe que.

acho que isso deveria ficar por aqui.Não . Avanço para o grupo. já está suficientemente vingado. se concordar.Sim. Você perdeste o seu melhor amigo e nós perdemos dois. de pé diante das camas. . .Ainda há quatro do bando. De acordo? ..Queria dizer-lhe que Carbonieri foi. suficientemente vingado. O que se poderá fazer. O que diz? . . colados uns aos outros. .Me dá uma navalha. . Por fim lá consigo distingui-los. . Os meus olhos já se acostumaram à falta de luz.Paul.Só. e Sans-Souci.Está bem.Pensam que Matthieu. Eu fico neste canto. Depois se verá. registo a sua proposta. O Paul me deu a palavra de honra de que eles não saíam dali e que ficavam à espera até saber se está de acordo em que isso acabe aqui. A navalha está aberta na minha manga esquerda. . − Tome a minha. o cabo toca mesmo o côncavo da minha mão. creio eu. Paul. E retiro-me. com a morte do armênio.Então. vai falar com eles. Na minha opinião. ou diante dos seus amigos? O que quer? Deixo prudentemente um metro e meio entre eles e eu.diz Galgani. quer falar comigo? . Efetivamente.De acordo. que disseram eles? . estão os quatro. é que os dois bandos se comprometam a não agir durante oito dias.

Mas. Propus um acordo.Não quer vingar Matthieu? . . Papillon? . Uma voz sussurra na noite: . não teve outro remédio senão obedecer. durante oito dias nenhum de nós se mexeria. Isso abalou-me profundamente e só o que me satisfaz é que os assassinos não lhe sobreviveram senão algumas horas. .Boa noite a todos. E o pedaço de asno sentiu-se diminuído por ter sido obrigado a fazer isso diante de trinta ou quarenta jogadores. e vou estender-me na minha rede. O Armênio matou-o porque. tão brutal e tão suja. Sinto a mão de alguém escorregar por mim e extrair-me sorrateiramente a navalha.perguntam-me.diz Galgani. . Bom.Grandet não diz nada. .Meu velho. Para quê matar os outros? -Mas os caras sabiam? É isso que é necessário tirar a limpo. Vou ver se consigo dormir. ficará sempre um de guarda. Pelo sim. Jean Castelli e Louis Gravon estão de acordo em fazer um pacto de paz. no seu meio. como se encontrava entre Matthíeu e Grandet. de que. à noite. durma tranquilo. e eles a sua. pelo não. foram mortos dois em troca. Matthieu já está vingado. desculpem-me. nem sequer teve um motivo importante. A morte do meu amigo. Mas é uma fraca consolação.E você. .Durma se puder. Dei a minha palavra. E assim mata covardemente um homem que era o protótipo do aventureiro sério. preciso estar só. Papi. .Primeiro. ao jogo. Matthieu forçou-o a pagar setenta francos. quem matou Matthíeu? Foi o Armênio. Pelo menos.

. sem mesmo lhes dar tempo de esboçarem a defesa. Penso estupidamente: “Gostaria de saber quem foi que os atirou para as latrinas. tudo acabou: o “caminho da podridão” cumpriu-se até o fim. Com os olhos fechados. Não. em posição vertical. em um dado momento. Afinal. lhes atravessou o pescoço. Por agora. tentando alcançar o continente. Imagino que o local onde caíram deve estar encharcado de sangue. entre si. prateados. sem corda. dois sacos de cocos e deixar tudo. mais de cem.. Não. para o meu amigo.. reflexos lúgubres. Para. trata-se de sair da Real. e que estes miseráveis sabem que vai ter comida quando ele toca. juntamente com o esforço de contrair os músculos das coxas sobre o saco de cocos. aos quarenta anos! Não aguento mais. por uma bagatela.Dormindo. vermelho e violeta. lutando contra os elementos.. sem pedra. não irá.O Diabo.Acabou-se. lutando pela minha liberdade. vão me apanhar vivo. sem sacos de farinha. está tudo acabado. farei experiências. iluminando com os seus últimos raios a cena dantesca: os tubarões disputando. tudo ao cuidado de Deus. Papi? .” Mas não me apetece falar.. Sem espectadores. já sem um antebraço. Quarenta e oito ou sessenta horas? Será que tanto tempo de imersão na água do mar. Não. com certeza. nem guardas.. deslizando como se fossem submarinos. Eram. Morrer esfaqueado. Se for devorado. Está bem que os tubarões me comeriam. . .ele. paralisar as minhas pernas? Se tiver oportunidade de ir para o Diabo.Foi Grandet que.. Sem sino. como um tigre e com a rapidez de um campeão de esgrima. É mesmo verdade que o sino atrai os tubarões.. o meu amigo. Vejo ainda aquelas dezenas de caudas. Nada de fuga bem plancada. aquilo é apenas uma prova de resistência física. começo a ver o pôr do Sol tropical. avançando para o barco. depois se verá. E o corpo deste. nem forçados. mas vivo.

substituíla. naquela noite. O cabo do punhal era oco e o tubo também. Ainda era dia quando entrei na sala. E depois.por cem anos que viva.Pode ser. horrível. Era meio-dia. sabe? . pensei que não dormia.Quer café? . .Não me diga nada. Comecei a guarda à meia-noite. o enterro com os tubarões ainda foi pior. . Em vez de voltar ao campo fui às obras. . Antes da chamada fui buscá-lo. imagino o que foi. nunca imaginei que os tubarões tivessem tempo de se lançar ao assalto. Rodeado dos nossos amigos. Pude enfiar em um tubo de um metro um punhal afiado dos dois lados.Uma da manhã. mas como estava sempre se mexendo. o tubo nos lavabos. nunca esquecerei essa cena horrível. . O guarda perguntou para que era aquilo e eu respondi-lhe que a barra de madeira da minha cama se tinha partido e ia.Pensava que a história do sino era besteira.Tem razão. Nunca devia ter ido. É um espetáculo. . fingindo que ia buscar a fechadura para montar na porta. Pobre Matthieu. diante das camas. Voltei ao campo às cinco horas com o tubo na mão.Estava na ponta da ilha pondo uma porta de ferro quando soube que eles tinham morto o nosso amigo. mas deixei. e Paul um pouco atrás. depressa ajustei o punhal no tubo. pelo tubo. aceitando o café quente que Grandet me oferece e um Gauloise já aceso. Começava a fazer-se a noite. com o arame prendendo a pedra.Não. A morte de Matthieu me deixou pra baixo. E como você fez para eliminar assim tão depressa o Armênio e SansSouci? .. O Armênio e Sans-Soucí estavam de pé nos seus lugares. Papi. Sento-me na cama.

SansSouci. você se arriscaria demais. Eles podem fazer uma rusga. Isso me deu uma idéia. Papi? . ofuscado por seu turno. Jean ficou no fundo da sala e apagou uma das lâmpadas. Com os seus antecedentes.Mas aquilo tudo deve estar nadando em sangue? .Quem é que os levou para as latrinas? . se nós falhássemos. levou o braço esquerdo aos olhos e eu tive tempo de atravessar-lhe o pescoço com a minha lança. O Armênio. Gravon. só com um candeeiro a petróleo. O truque da lanterna ocorreu-me quando preparava a lança.Sabes. “Quis agir antes de chegar. Estava um cara na oficina mudando pilhas da dele.Não sei. Foram degolados tão bem que ficaram sem um pingoa de sangue. . ofuscado. assim como o punhal. Estamos quites. mas estão velhos e falta-lhes agilidade para se baterem em uma luta desta espécie. e eu liquidei-os com os olhos sem luz. atirou a faca para a frente sem saber para onde. A lanterna foi roubada e entregue a Dega por um carcereiro.Isso é que é melhor. Ao chegar perto deles. A sala estava quase às escuras. Jean Castelli e Louis Gravon são valentes. Mataram o nosso amigo com os olhos cheios de sabão. e contctei Dega para que ele me arranjasse uma. Eu arranjei uma grande lanterna de bolso. fez o mesmo. Dei-lhe com tanta força com a lança que o trespassei de um lado ao outro. noutro canto. ele percebeu tudo. O que você acha. Creio que foram os deles. . Por aqui não havia perigo. ao meio. Não tenho nada a me censurar. renunciei a perseguir Paul sob as camas e foi isso que o salvou. Aí levantou o braço e apontoulhes a lanterna para cima. Jean ia à frente e eu atrás. Como Jean tinha. entretanto. para lhes tirarem os “governos”. apagado a lanterna. dada por Dega. Paul atirou-se de barriga para o chão e rolou sob as camas. para evitar que você se envolvesse nisto.

há dois mortos nas latrinas? Desde que horas? . não tinha dado por nada. Grandet. que escorreguei. Mas Galgani diz que são todos culpados. molharam os pés no charco. que desde as seis e meia da tarde. . Foi somente agora. . A sala deve estar cheia de sangue. Cinco da manhã. . porque os homens. . antes de agir. Aquele velho forçado de setenta anos. agora com mais razão. que está precisamente na passagem. que eu não podia deixar de fazê-lo. ao andarem. e não sei como agradecer-lhe por ter agido depressa para vingar o nosso amigo.Vamos ver o que vai acontecer às seis horas. e quase parti o pescoço. Encontrei depois os caras nas latrinas.Como é que a gente pode saber! .Eu penso o mesmo. além disso. quer fazer-nos crer. tivesse dito tudo pro seu bando. não acredito que o Armênio. Fiz o meu dever .Obrigado. Paul não teria concordado com um assassinato tão covarde.Vocês acham que devo avisar o posto da guarda? Acabo de descobrir dois macabeus nas latrinas. Não saio para fazer o despejo.. mantendo-me. pois quero assistir aos acontecimentos..tem sofrido tanto.diz o velho. Com toda a franqueza. Ele sabia quais seriam as consequências. Vou fingir que estou doente.Eu estou dormindo desde as seis. me ajuda também para que isso fique por aqui.Como. e quer tanto ser livre. .. Acendi o isqueiro e vi que era sangue. Grandet responde no mesmo tom que o velho: . a nós. hora a que os caras foram mortos. quando ia mijar. quero ir-me embora. Sim. à margem desta história. -Não falemos mais disso.Fez bem. O guarda da caserna aproxima-se de nós: . em uma poça de qualquer coisa viscosa.

É verdade. . Seis e meia. a caserna está cheia de vestígios de pés que pisaram sangue durante a noite. Seis horas. . Um é Armênio. . − É verdade. A essa hora. Vai lá ver.Desde que horas? . vou eu dízer quem são.. chefe.Sim. vi-os agora quando ia mijar. .Diz que há dois mortos nas latrinas? . Não deixe ninguém aproximar-se das latrinas. o primeiro toque. . -Não é possível fazer o que diz.Porque tá gritando dessa maneira. vou dizer ao chefe da guarda. são o Armênio e Sans-Souci. Abrem a porta. .Chame.Quem são? . . atrás deles seguem os de pão. que nós vamos ver o negócio. . chefe. um vigilante-chefe e mais dois.Que quer que faça? Que os ressuscite? São cinco e um quarto. mas não. segundo toque. Amanheceu. perto do alvorada geral. Os dois dístribuidores de café percorrem a caserna. ficam junto à porta gradeada. Parece que vão entrar.Então! Velho maluco. esperemos pela chamada. sua mula velha? Logo na sua caserna? . há dois macabeus nas latrinas. Espere.Não sei.E vão-se embora. . às seis horas veremos. Chegam três guardas. . então.Não sei.Guardas! Guardas! .Bem. todos vão mijar ou cagar.Não.

E vocês. Por isso. aqueles homens ali. percebem. Claro que ninguém viu nem ouviu nada? Silêncio absoluto. assim como estão. saiam para o pátio.Todos nus. Quero que faça a autópsia. durmo muito.diz ironicamente o comandante. Vêm acompanhados por um médico e mais oito vigilantes. doutor. assim todos dormimos tranquilamente durante a noite. vem branco como a cal: . ouço mal e não vejo quase nada. e. porque geralmente só me levanto com o toque. Quando sai. . peguem os cadáveres e levem-nos para o anfiteatro. um a um. há quanto tempo estão ele mortos. em sentido diante das camas! Mas isso é um verdadeiro açougue.E você só descobre às cinco horas? Não ouviu nem viu nada? . foi uma sorte . estou dormindo e foi a vontade de mijar que fez que eu acordasse às cinco. . aproximadamente? . . passamos diante dos comandantes e do édico. Grandet.Até mesmo para nós. Explicam que escorregaram ao irem às latrinas. é o guarda desta sala. Ninguém apresenta ferimentos. Galgani e eu fomos examinados mais cuidadosamente do que os outros. ainda por cima tenho setenta anos. O dia já vai alto. .Você.Oito a dez horas .responde o médico. Por sorte.Tem razão. quarenta dos quais passados na prisão. . há sangue por todos os lados! O segundo-comandante é o primeiro a entrar nas latrinas. Doutor. Um de cada vez. já estão inteiriçados. Ás seis horas.Foram literalmente degolados.Os dois comandantes chegam. . mas vários estão salpicados de sangue. Examinam minuciosamente todas as partes do nosso corpo. Maqueiros.Não. guardas e presos. velho.

limpa como uma moeda nova.Sim. O Armênio deve ter sido.Foi tirada de mim às sete da tarde. . . o assassino de Carbonieri. . Papillon. . está doente? . Sabe. .Esses dois homens eram perigosos? . O médico volta das latrinas e diz: .E a sua navalha. às nove da manhã. sem se defender. Infelizmente. quase com certeza. ..Assunto arrumado . eu não sou trouxa.Excessivamente. Um presidiário não se deixa degolar como um coelho.De qualquer maneira. Todo mundo ao trabalho.Grandet. meu comandante. exceto os doentes. . Deveria haver alguém ferido. ninguém tem uma escoriação. Ele examina escrupulosamente a faca. . sem uma mancha.diz este: . que foi morto ontem na casa de banho.Ele fez um barulhão dos diabos.É verdade .Pode ver. não tenho provas e sei que não as encontraremos. .Papillon. onde é o seu lugar? . essa faca é sua? Claro.Não perdeu tempo em vingar o seu amigo. Ainda pela última vez. É difícil de se compreender isto. guarde a faca de Grandet. se está no meu lugar é porque é minha. pelo guarda.diz o comandante. doutor. doutor. Foram mortos em pé.Foi um punhal de lâmina dupla que serviu para degolar estes homens. dizendo que nós queríamos que o assassinassem. à porta. onde está? . ninguém tem nada a declarar? Se um de vocês pode esclarecer esse duplo homicídio dou a minha palavra que será desinternado e enviado para continente.Revistam todo o meu equipamento.

Nós estamos de acordo.diz Grandet. . O que acha. mas não vejo razão para matarmos uns aos outros. atacou uma carruagem-postal do rápido ParisBruxelas. não sei como teria encarado isto. o servente que resmunga sem parar por causa da limpeza que tem que fazer. Papi. Todo o bando do Armênio se declarou doente. é um homem de ação. lhe renderam uma soma importante. Autor de um crime pouco comum que o fez pegar vinte vários anos de trabalhos forçados. que. Sylvain. o grande Sylvain. no último momento. Papillon? -Uma pergunta só: vocês sabiam o que o Armênio ia fazer? . atirou ao longo da via as sacas de correio. Apertemos as mãos e não falemos mais deste triste caso. mais o relojoeiro. Jean Castelli e Louis Gravon dizem sentem-se indispostos. Galganí.diz Paul -. resolve tomar a palavra. . e quer que diga mais? Se o Armênio não estivesse morto. Sabendo disso. Este homem vive só.Então se é assim. recolhidas pelos cúmplices. dominou dois guardas. muito respeitado. não sabia de nada. dos quais um é alsaciano.Hoje não .Dou-lhe a minha palavra de homem. Sozinho. ficamos cinco do meu grupo e quatro do grupo do Armênio.Por que mais tarde? Nunca deixe para amanhã o que pode fazer hoje .Espero que não vão brigar em grupo. como se fossem os três mosqueteiros? . vendo os outros dois cochichando em um canto e ignorando que resolvêramos não agir uns contra os outros. fica para mais tarde. porque não acabamos com essa história de uma vez para sempre? . mas todos são seus amigos. . Grandet. . Dos seus cento e vinte homens. e dois ou três brigões. . A caserna está vazia.diz Galgani -.Silêncio absoluto.

a cena da véspera. avançando para o bote.Alegra-me ver tudo terminado. Olha para o vácuo balançando as pernas. e o meu amigo. ao escutála.. A imagem é tão impressionante. às seis horas. a sineta tocou. É melhor que eu parta para a Real e aja o mais depressa possível. Seria torpe se.Não falemos mais disso. . diz. viessem se encontrar na barriga de um tubarão. . mesmo passadas vinte e quatro horas. Eu não desejo nem por um minuto que o Armênio e Souci sejam levados pela horda dos tubarões.Eu sou testemunha .diz Sylvain.Está bem. À tarde. A perda deste nobre e sincero amigo vai ser. verdadeiramente um grande vazio para mim. Todos os dias digo o mesmo. ainda sem me olhar. Sabe o que aconteceu com Carbonieri. Uma fuga de doidos . que pendem à direita e à esquerda da cama. e então Galgani. Grandet ainda não voltou.Espero que nenhum pedaço desse porco do Armênio seja comido por um dos tubarões que devoraram Matthieu. balançando sempre as pernas. inimigos em vida. metade do corpo erguido. a meia voz: . Galganí não diz uma palavra. Não posso deixar de recordar. . A sinetaria de finados calou-se há bem dez minutos.

a pouca vigilância que há. não posso mais e quero fugir. no entanto.. há um guarda somente. Sei que lá. A sua localização. na despensa. E você? . tudo impede que o mandem pra lá. Papillon. o outro de vinagre.Não é. o risco de ser condenado à morte que me impedirá de partir. formada por um guarda-enfermeiro.Como estamos sob prevenção e os castigos foram reforçados era caso de fuga falhada. que cercam as instalações dos malucos. que vigia tudo o que os doídos fazem. parece-me que haveria esperanças de chegar ao continente.Como enfermeiro? . dá a você o mesmo que uma autorização para fazer o que bem entender.. Pode fugir e cometer qualquer delito. durante a nossa viagem da França. Os muros. . uma mulher dele ou um filho. Bem sabe que nunca tenho um emprego no pavilhão. Mas você poderia ir como maluco. Salvidia.Impossível. Salvidia? O italiano. Dígo-lhe: . Com efeito. Pedi que me admitissem no pavilhão dos doidos como enfermeiro. Bem ligados um ao outro. não são vigiados do exterior. suficientes para fazer uma jangada. e eu discutíamos debaixo do lavadouro depois de termos relido o aviso dando a conhecer as novas disposições em caso de fuga. a quem fora confiscado.É muito difícil. pois a justiça já não tem poder algum . Porque não vem comigo até lá acima? . de modo que não possam se separar. Papillon. se encontram dois tonéis de duzentos e vinte e cinco litros. ou até mesmo um guarda. não lhe parece. Um está cheio de azeite. No interior. é reconhecido irresponsável pelos seus atos. ajudado alguns bandidos. não é esse o momento de planejarmos uma fuga. longe do comandante.. Está vendo a responsabilidade que toma um médico assim que admite isso e assina tal diagnóstico? Ele poderia matar um bandido. Aconteça o que acontecer.Eu. um “governo” de ouro. Assim que um médico o classifica de maluco.

não podem ficar muito tempo deitados na mesma posição sem serem sacudidos por uma verdadeira descarga de nervos que os acorda num salto doloroso e lhes deixa o corpo rígido e tenso como se estalar. O máximo que podem fazer é metê-lo todo nu em uma cela acolchoada dentro de uma camisa de forças. incluindo fuga. Como enfermeiro.Como são extremamente nervosos. O que eu portanto preciso é que descubram esses sintomas em mim sem que eu me queixe deles. O resultado é que por qualquer falta bastante grave. 1 . 2 . sofrem de zumbidos nos ouvidos. sobretudo. e começo. Começo a estudar cuidadosamente o problema.Todos os malucos têm dores horríveis no cerebelo. poderei ajudá-lo a preparar o golpe o melhor possível. passo a ter uma idéia bastante clara acerca da doença.Muitas vezes. conseguir que ele me classifique de irresponsável. sempre que posso. a pouco e pouco.Papillon. 3 . e estar a seu lado nos momentos mais difíceis. e eu vou estudar o assunto a fundo e. Na biblioteca da penitenciária não há qualquer livro sobre a matéria. Não é má idéia. A minha loucura deve ser apenas suficientemente perigosa para obrigar o médico a tomar a decisão de me pôr no pavilhão.contra você. para poder convencer o médico. o castigo nunca é grande. assim. sabe que tenho confiança em ti e que quero fugir com você. mas. Faça o impossível para ir para lá como doido. mas não perigosa demais. aprender alguma coisa acerca dos sintomas da loucura. Mas esse regime pode durar muito tempo e um dia eles acabam por quebrar a dureza do tratamento. Romeu.Vá para os malucos. de modo a justificar os maus tratos dos vigias: camisa de . . converso com os homens que estiveram bastante tempo doentes. Reconheço que deve ser terrível um cara são no meio de todos aqueles loucos perigosos! .

Ontem perguntei ao meu vizinho porque ele havia tirado uma fotografia minha que na verdade nunca tive. Já nem me barbeio. Há três dias que não durmo. Para o inferno as hesitaçõe! Está decidido. Papillon? . Por vezes a sopa fica no balde alguns minutos antes de ser distribuída. murros. diante de todos. somente o meu amigo Grandet me Perguntou: . É a minha última oportunidade. Foi um balde de água fria que caiu sobre todos. Se representar bem essa comédia devo conseguir enfiar a cara no continente. etc. É preferível que seja outro a fazê-lo. Tenho uma coisa a meu favor: não existe qualquer razão evidente para fazer toda essa representação. mijo lá dentro. Todas as noites masturbo-me várias vezes. inquieto. Ele jurou por todos os santos que não tinha tocado nas minhas coisas e. e como muito pouco. . supressão da comida. mudou de lugar. injeção de brometo. mas a minha cara deve tê-los impressionado porque ninguém disse palavra. e que ele também esteja de boa. Se o médico não encontrar uma explicação lógica para isto. Tenho que fazer duas ou três coisas anormais na sala. não devo ser eu próprio a revelar-me doente.Porque se esqueceram do sal. para que ele me servisse. Não. Recusaram me mandar para a ilha do Diabo e não posso suportar o campo desde e o assassinato do meu amigo Matthieu. não me lavo e não me banho.forças. Segunda-feira vou à consulta. fui buscar a minha tijela e a estendia ao chefe do rancho. O chefe da caserna irá então falar ao guarda. é provável que eu ganhe a partida. E sem prestar atenção aos outros.Porque fez isso. Aproximo-me dela e. banho frio ou muito quente. e esse me mandará à consulta.

vi-os? .Não.Espera um bocado. .diz ele.Sim. Adeus. Fixo-o com uma expressão voluntariamente muito natural. ou toma-me como um verdadeiro imbecil. . porra! Você é médico ou veterínário? Não me diga que não teve tempo de vê-los antes deles se esconderem.pergunta o médico. doutor? . estupefato. Barbudo e sujo. vai .Sim. disseram-me que o doutor estava doente. . espantados. . . Papillon.E você está doente? . Os guardas ouvem. olhou para mim.Então porque veio à consulta? .Por nada. mas tive tempo de vê-los. não é? Diga-me. Papillon.Todos me viram comer a sopa em um silêncio total. Eu contínuo sentado. E o médico fita-me nos olhos fazendo incidir o pequeno feixe de luz de uma lanterna. eu não lhe queria dizer. doutor? A luz não é suficientemente forte. Conciliador e entrando no meu jogo para não me excitar.Não se faça de idiota. mas mesmo assim acho que já percebeu. . o meu aspecto joga a meu favor.Então isso vai ou não.O quê? . incidentes foram o suficiente para que eu me encontrasse diante do médico sem o pedir. mas não faço nenhum gesto violento que possa justificar a sua intervenção. . o médico levanta-se e põe a mão no meu ombro. O médico. -Não viu nada daquilo que queria descobrir. Sente-se aqui e olhe pra mim. Agrada-me ver que não é verdade. . Tenho os olhos brilhantes de fadiga. Ou se não me quer dizer.E repeti a pergunta. Estes.

Tanto faz.” Pouco a pouco. Porque não viu nada! O que eu pensava que tivesse visto são três pontos negros que eu tenho no olho esquerdo. ser dado por irresponsável e. Encontro-me. . O cara está confuso. uma meia hora.Levem-no já. e já me veio a cavalo em dois tonéis. Examina-me demoradamente. Na porta há um letreiro: “Em observação. enfermeiro italiano. mas não convencido. levado para o continente na companhia do meu amigo. no hospital. já sugestíonado. . posso acabar ficando maluco de verdade. Mas é preciso não levar muito longe brincadeiras: é perigoso porque.diz o médico. e conversamos como pessoas civilizadas. O primeiro passo estava dado. começo a me transformar em um maluco. Contudo. às escondidas. O médico visita-me todos os dias.Como você vai. No hospital ou no barracão estou sempre nas ilhas.Levem-no Para o pavilhão . fugir com o meu camarada. A fuga! Essa palavra mágica arrebata-me. mas acho-o muito fatigado e por isso vou metê-lo alguns dias no hospital para você descansar. ou quando leio. você diz que não está doente? Talvez seja verdade. Aprendi a torcer a boca e morder o lábio inferior. Dou-lhe a conhecer que sinto pressões estranhas na nuca. Papillon. depois. e não o deixem voltar ao campo. Quer? . de lençóis brancos. que o faço sem querer. com uma cama limpa. tique esse que treinei tão bem em um caco de espelho. à força de me obrigar a sentir desequilibrado. Mas quando olho para o espelho nem sinal dos três pontos.. o que é um jogo perigoso. é indispensável dar tudo se realmente quero chegar ao fim. Escondem-se assim que eu pego o espelho para vê-los. . Entrar para o pavilhão dos loucos. Papillon? Dormiu bem? .Mente com um sangue-frio colonial. Vejo-os somente quando olho no vazio. doutor. o primeiro sintoma. em uma cela bem iluminada.

não sei porque lá está. pára. pelo Match que me emprestou.Guarda. também. doutor. porque. doutor. Levanto então um punho para a parede que esconde a bomba imaginária e grito não muito alto: . . percebo que estão a observar-me pelo ralo. vou menos mal. O médico volta-se para o guarda-enfermeiro e murmura rapidamente: . Dois dias depois. Por detrás da minha cela há uma bomba de regar. mude-o de cela. segundo sintoma: ruído nos ouvidos. e o pam-pam que ela faz durante toda a noite bate-me na nuca. estavam ali dois guardas e dois enfermeiros. porca desajeitada! Nunca acaba de regar. Para onde quer você ir? . e até parece que ecoa aqui dentro! Pan e pan! E isso dura a noite inteira. é com certeza o médico. . jardineiro de meia-tigela? E deito-me na cama. também não falei.Para o mais longe possível da maldita bomba! Lá para o fundo do corredor. mas distingui o ruído de passos que se afastavam. e fico só na minha cela. Não ouvi a pequena portinhola de cobre fechar-se sobre ralo. para me acompanharem até o fim do corredor. Um ruído quase imperceptível alertame.Pára. A porta fecha-se.Sim. Segui-os sem dizer nada.. A impressão que causei essa manhã deve ter sido boa. porque eu não ouvi passos a afastarem-se quando os caras se retiraram. Obrigado. Obrigado. É impossível dormir.Existe alguma bomba? O guarda faz que não com a cabeça. Mas quanto a dormir é outra coisa. Como não me dirigiram palavra. obrigado. com a cabeça escondida sob o travesseiro. O médico e o cara do ralo iam embora. À tarde mudaram-me de cela. e eu agradeceria-lhe que me mudasse de cela.

O médico está verdadeiramente impressionado. faz cócegas horríveis e o zumbido é contínuo.. talvez eu consiga afogá-lo! O que acha? O meu tique na boca não pára.Por enquanto tudo bem. acompanhado por guardas-enfermeiros e por Chatal.Então.Não. nós vamos afogá-lo. Chatal.Sim. estive o dia inteiro e uma parte da noite tentando afastar um mosquito ou uma mosca que fez ninho na minha orelha. e o médico notou. Isso me irrita. Papillon? O médico. doutor! . Sínto-o inquieto e aflito. saúda-me gentilmente ao abrir a porta da cela. Todas as manhãs se repetem estas cenas.A minha atitude é agressiva..-Então como está. Pega na minha mão e olha-me bem nos olhos. não acabei. julgo que sim.Pare com isso. Chatal. . Enfiei-lhe um pedaço de algodão. mas não serviu de nada. . O barulho das asas não pára: zum-zumzum. ainda mais.. E. . se quer que ele se decida rapidamente. Sabe muito bem que isso não está bom! Quero saber qual vocês dois é cúmplice do cara que me tortura. mas pode ainda demorar algum tempo até mandar você para o asilo. mande fazer-lhe uma lavagem aos ouvidos. doutor! O que o doutor acha? Como não consegui asfixiá-lo..Sim. na altura de uma injeção de brometo.Primeiro.Quem é que o tortura? E quando? Como? . com variantes. . . avisou-me: . mas o médico não tem ar de se decidir a mandar para o pavílhão. Mostre-lhe que pode se tornar perigoso. quero saber se conhece os trabalhos do doutor Arsonval? . Papillon? Já leu a revista que tç enviei? . amigo Papillon.

.Sabe que ele inventou um oscilador de ondas múltiplas ionizando o ar em volta de um doente com úlceras doudenais? Mas esse oscilador emite correntes eléctricas.diz o médico. Para bom entendedor meia palavra basta! E deixe-me em paz com os seus bons-dias hipócritas e com os seus “como está. Papillon?”. mas possuo bastante força para estrangulá-lo.Creio que. Chatal disse-me que o doutor advertiu os vigilantes para terem cuidado comigo.Papi. Dou saltos de corça na cama de mais de dez centímetros de altura. . acompanhado por um vigilante. é certo. Assim dará um passeio. . estava bom.Ele está com a mania da perseguição .propôs Chatal para evitar que me enfiassem a camisa de forças. e que falassem simpaticamente comigo.. Que nunca abrissem a porta da minha cela sem irem dois ou três. levar medicamentos.É preciso levá-lo. Pois bem. Não posso mais. um inimigo meu instalou um aparelho desses no hospital de Caiena. Cada vez que durmo.Quer vir comigo e com o senhor Jeannus? . Assim que começo a fechar os olhos. como uma mola ao ser libertada. Todo o meu corpo se distende. “Corno quer que eu resista e durma? Passei toda a noite nisto. . . para o pavilhão dos loucos. a corrente salta. ele carrega no botão e a descarga atinge-me em cheio na barriga e nas coxas. seja ele quem for. doutor! Avise todo mundo que mando desta para a melhor o cara que eu descobrir ser o autor desta trama! Não estou armado. o mais depressa possível.Sim. pam!. . comeu bem? . posso encarregar-me disso . Pare com isso! O incidente deu resultado.Para onde vamos? .Até o pavilhão. Chatal.

Felizmente que faz calor. não teve tempo de ferilos. Ele se chama Fouchet. por outra via. a certa altura. Estão todos completamente nus dia e noite. irão. apanhamos ar no pátio. Um maluco aproxima-se de mim. que a mãe lhe tinha enviado aquela quantia e que se desfizera inutilmente de tudo o que possuía. Acabo de receber um cigarro do enfermeiro. Enquanto andamos. aceitarme? − Deixa isso comigo. mas crês que. penso que há já cinco dias que estou aqui e ainda não consegui falar com Salvidia. mas o cara ficou com tudo e foi embora para Caiena. deixaram os sapatos. Chatal vai falando e. quarenta. Sentado sob o sol. há três ou quatro anos. para que ele tentasse fugir. Quando Fouchet soube. enquanto os enfermeiros desinfectam as celas. ficou doido. A mim..diz o guarda contente por achar que eu caíra na armadilha de Chatal. então. Não é nada agradável viver com loucos! Em grupos de trinta.Quem é você? . diz: . estou farto. A mãe dele vendera a casa a fim de enviar quinze mil francos por um vigilante.Vamos. com uma centena de malucos. E saímos os três do hospital a caminho do asilo. furioso e no mesmo dia atacou os vigilantes.Sente-se fatigado de estar na caserna. Dominado. Veio-me enfim no asilo.Ah! Sim. como eu não estou doido da cabeça. . Conheço a história dele. Papillon? . quando estou quase chegando. eu falo por você . sobretudo desde que o meu Carbonieri não está lá. . O guarda devia ficar com cinco mil e entregar a ele dez mil. -É uma idéia.Porque não fica alguns dias no asilo? Assim o cara do aparelho talvez não o descubra para lhe dar uns choques. está louco.

4shared .E você quem é? . como se chama? . Por isso. se de eu ter tempo de lho dar. . jovem ainda. Eu quero saber é quem você é.Olho para o pobre homem. . mato o maior número possível de guardas.Isso é uma resposta estúpida. Dá-me o cigarro. Depois senta-se em frente de mim e fume-o com prazer. arranca ele dos meus dedos. . Http :/ / am and ikaloka. . como a acharam bonita. plantado diante de mim. e eles.Papillon? É uma borboleta54? Coitado. enforquei dois. . .Por que razão os enforcou? .Perdí-as. Cada vez que querem me dar alguma coisa que me pertence me ferram. de trinta anos.Porquê? . Essa noite. quer dizer. assim poderá fugir. . Uma borboleta voa e tem asas.Papíllon.com) . ficaram com ela e viveram lá! Não fiz bem em enforcálos? 54 Pap illon = Borb oleta em francês.Porque sim.pergunto-lhe.Roubaram a casa da minha mãe. que me interroga.Precisa encontrá-las. onde estão as suas? .Quem sou eu? Um homem como você. Os vigias não têm asas e você pode muito bem se livrar deles. Se fosse mulher tinha um buraco. . nem mais nem menos. Veja você que ela mandou a casa.Eu sou o Pato. (Nota d a revisora. Mas não diga isso a ninguém. Vê-se bem que você é um homem porque tem pau e colhões.

Há um gigante de metro e noventa. não morda. pode estar certo . Talvez um dia haja um que não acredite. se aparece um grande que vai morder. Como pode a Lua ter influência nos malucos? Não sei explicá-lo. gritam de todos os lados.. com braços. As lentilhas são servidas muito quentes. Os vigilantes fazem relatórios sobre os loucos em observação.O peixe morde. e por isso é preciso esperar que elas esfriem. Uf! Não é divertido viver no meio de loucos e. . Papillon? .O cara gordo que vê lá em baixo atrás das grades. e quando há Lua cheia ficam mais excitados que nunca. o pequeno adverte-o: “Cuídado. Começa sentar sempre ao meu lado. Tenho um pau com um cordel pendurado na ponta e imito os gestos de um pescador. mas verifiquei o fato.Não pode morder! Veja você que guardo eu pesco há um peixinho que me segue para todo o lado e. está vendo? Também vive lá na casa. Outras vezes. Esse vou igualmente despachá-lo. . pernas e peito peludos como o de um macaco. Por exemplo. nunca consigo acabar um prato de lentilhas. Esperam então para ver se eu reclamo.” É por isso que nunca apanho 'nenhum.disse. que me escolheu para vítima. Assim eles não aproveitarão a casa de sua mãe. também fazem experiências. é perigoso. além disso. levantandose. é o Papillon que está pescando. continuo a pescar. não me dão de comer.Tem razão. repetidas vezes. De qualquer maneira. Comigo. esquecem-se propositadamente de me levar para o pátio. À noite. Mexo em algumas com uma colher .Aquele já tá pra lá de Bagdá! Quando me põem para comer à mesa comum do refeitório. Ouço o guarda dizer ao enfermeiro: .

debruça-se sobre o prato. Desta vez sim! O médico decidiu classificar-me como irresponsável pelos meus atos. Desencadeia-se uma balbúrdia tremenda. Felizmente que o passeio dele não é na mesma hora do meu. agarra no meu. atira o meu prato para a frente e fica olhando para mim com os olhos injetados de sangue. Todos os caras estão de acordo em reconhecer que sou um maluco passivo. levanto-me e. Disse-lhe que tinha receio que os arames se partissem pela fricção dos tonéis no mar. decidi usar isso para desferir o golpe final. armados com os pratos. A sua cara de idiota está radiante: saboreia antecipadamente a alegria de comer as suas lentilhas e as minhas. quebro-lhe o jarro de água na cabeça. põe as mãos em concha e engole tudo em cinco segundos. todos os loucos se levantaram e começam a atirar-se uns contra os outros. parece-me. e procura agora arame suficiente para ligá-los um ao outro. com toda a força.ele pensa que é Ivanhoe . O gigante encolhe-se soltando um grito feroz. cheio de água. sec ainda não fui categoricamente dado como louco. encontro-me na minha cela. Assim que o gigante pega no meu prato. como se quisesse me dizer: “Viu como se come lentilhas?” Começo a ficar chateado com Ivanhoe e. Quando acaba. Em seguida. um corte de oito centímetros. Ivanhoe ostenta um grande curativo na cabeça. onde quatro possantes enfermeiros me colocaram depressa e sem contemplações. Puxo para a minha frente um jarro grande e pesado. Consegui falar com Solvidia.de pau e sopro-as. e faz o mesmo. Já arranjou uma chave falsa da despensa onde estão guardados os tonéis. Estamos de novo em um dia de lentilhas. Grito como um perdido que Ivanhoe me roubou a carteira com o meu cartão de identidade. e começa a deixar as lentilhas escorregarem pela garganta. O cara vai deixar de brincar comigo! Senta-se ao meu lado. orquestrada por gritos de todos os gêneros e tons. Levantado em peso. mas que tenho momentos muito perigosos. No mesmo instante. conseguindo assim comer algumas colheres. que seria . Fiz-lhe. Ivanhoe .

para o golpe. Quantos desses doidos varridos foram reconhecidos. pareceu-me delicioso. pois seriam mais elásticas. nem ao menos a da irresponsabilidade. deveria pensar que deveriam prendêlo. falando sozinhos. é preciso que uma pessoa não regule lá muito bem para fazer semelhante coisa.chamamos-lhe Titin. Olho bando de homens nus. quando ia no pátio. É um 55 antiga carruagem de aluguel. uma do corredor onde ela dá e uma da porta principal do pavilhão. Contudo. Tem uma disenteria permanente. têm os corpos martirizados por surras recebidas.” Foi preso imediatamente e os jurados tiveram o descaramento de não lhe reconhecer nenhuma atenuante. É bem o espetáculo do fim do “caminho da podridão”. mesmo mau. apertadas de mais.4shared . ou por pancadas que dão a si próprios. O mais imbecil dos cretinos. ao chegar. fazendo gestos desordenados. normalmente. Só um guarda para cada turno de quatro horas. cuidem dele. Mas. Das nove horas à uma da manhã e da uma às cinco. . pelos psiquiatras. tudo corre . depois chamou um fíacre55.é uma questão de paciência. acho que está doente. As visitas são pouco frequentes.é do meu grupo de 1933. cantando. disse: “Tomem. Titin está sentado a meu lado.melhor usarmos cordas. e apresentam marcas dos cordões das camisas de força. geralmente puxada por um só cavalo (Nota da revisora: http :/ / am and ikaloka. aproveitam para dormir e não fazem rondas. É necessário que ele faça mais três chaves: uma da minha cela. Assim. Contam com o condenado-enfermeiro que fica de turno com eles. Um guarda-chefe me deu um mau cigarro já aceso. mandou o cocheiro seguir para o hospital e. chorando. quando estão de vigia.com ) . pôs a vítima lá dentro. Matou um cara em Marselha. o máximo. Um mês. Dois dos guardas. como responsáveis pelos seus atos? Titin . Todos molhados ainda do banho que tomam antes de entrar no pátio.

. falta a da minha cela. Arranjou também uma boa corda além disso. Outros. têm as mãos suaves como plumas. não cago sangue. que me levou ao hospital com o amigo doente e que disse que era eu a causa da doença. Há uns que são maus. Pobre Titin. Por esse lado. são formados por conjuntos de cinco fíos.Lembra-se dos nomes de alguns? Ange.verdadeiro cadáver ambulante...E os amigos? . uma raça de cabeludos. . Sim. cago sangue. companheiro. Quando esses doces macaquinhos querem me defender.Tenho macaquinhos na barriga. tudo vai bem. De qualquer modo. Já possui duas chaves. quando eles estão zangados. segundo me disse. A Praça da Bolsa com as tabernas. sem inteligência. Dou-lhe a minha guimba e levanto-me imensa pena desse pobre ser que vai morrer como um nada. Salvidia tem quase tudo pronto.Não. le Lucre? Clement? .Lembra-se de Marselha. é muito perigoso conviver com loucos. cheios de pêlos. .Claro que me lembro. Eles acariciam-me docemente e impedem que os macacos maus me mordam. e a rapaziada. mais do com bandidos. Eles mordem-me os intestinos e é por isso que. . Titin? . Muito bem mesmo. não me lembro dos nomes. outra feita com as correias de tela da cama. Diz para mim: .Não sei. Fita-me com os seus olhos cinzentos. só me lembro do da puta de um cocheiro. essa é a única maneira de preparar fuga sem risco de ser condenado.

Tenho um medo pavoroso de que ele me estrangule e nem sequer posso defender-me. convencido de que ele me vai estrangular com as suas mãos de gigante. Os guardas viram o vapor que saía da janela. Fico aterrado ao ver a maneira como o bruto olha para mim. em vão. Fecha a água fria e abre inteiramente as de água quente. passeia na sala e dirige-se às torneiras. quando entra Ivanhoe. essa banheira é tapada com tela muito resistente. com os seus grandes olhos fitando-me atentamente. eu quase sufoco respirando-o e faço. afasta-se de mim. pois quase sou cozido vivo. . Besuntam-me com ácido e deitam-me na pequena sala da enfermaria do asilo. Tenho vontade de gritar por socorro. com essa espécie de camisa de forças. pois tenho os braços debaixo da tela. tenho queimaduras horríveis e sofro como um danado. Por fim aparece gente em meu socorro. esforços humanos. Fecho os olhos e espero.Tenho pressa de passar à ação. Ele aproxima-se de mim. Não esquecerei tão depressa esses momentos de terror. Quando me tiram daquele inferno. Berro como um possesso. Há vapor em toda a. Ivanhoe sai. Arranjei uma tão bem urdida que os guardas-enfermeiros puseram-me em uma banheira com água muito quente e deram-me duas injeções de brometo. Tem o ar de quem procura lembrar-se onde já viu essa cabeça que emerge da banheira como do buraco de uma guilhotina. de modo que não posso sair. O seu hálito e o cheiro a podre que ele exala inundam-me a cara. onde a pele caiu. Por fim. principalmente nas nádegas e nas partes. é preciso simular uma crise de vez em quando para continuar nesta ala do pavilhão. porque é muito difícil manter essa comédia. mas receio que ele se enfureça com os meus gritos. tentando rebentar com a tela. Só a minha cabeça desponta por um buraco. Há mais de duas horas que estou de molho.

com farinha de mandioca embebida em óleo e açúcar. O meu coração dá fortes pancadas dentro do peito. apenas tenho um pensamento rápido para meu pai e para a minha família. porque o mar está muito bravo e o azeite vai servir-nos. e têm me dar algumas injeções de morfina para conseguir suportar as primeiras vinte e quatro horas. que vou pendurar ao pescoço. porque. Tem se preparado. disse-me ele. talvez. se a fuga abortar. dos jurados ou do procurador. Que a sorte e Deus me favoreçam! Que eu consiga sair para sempre do “caminho da podridão”! É estranho. É tarde. também impermeável. Salvidia leva uma mochila. Sentado na minha cama. Mais ou menos três quilos. nele estão cigarros e um isqueiro de estimação. ele esvazia o tonel de vinagre às onze da noite. e tenho uma boa faca à cintura. Eu indicarei o dia. de lã. durante o turno da uma às cinco da manhã. . poderemos voltar para essa parte do asilo sem sermos vistos. espero o meu companheiro. A fuga vai começar dentro de instantes. digo-lhe que surgiu um vulcão na banheira. Quando o médico me pergunta o que aconteceu. Marco para essa noite. e uma camisola de marinheiro. O outro levaremos cheio. depois de me untar com pomada pícrica. Apenas precisa fazer uma chave da enfermaria. para acalmar as ondas quando o lançarmos à água. Salvidia não está de serviço. Amanhã teremos a chave. Visto umas calças de saco de farinha. Nem uma imagem do julgamento. Ninguém compreende o que se passou e o guarda-enfermeiro acusa o que preparou o banho de ter regulado mal as saídas de água. cortadas pelo joelho. para o que acaba de tirar o molde em um aço de sabão. Salvidia sai. e fazme ver que é uma sorte eu estar na enfermaria. Levo também um saco impermeável. quando me sentir suficientemente restabelecido para aproveitar o primeiro turno de um dos guardas que não fazem ronda. Para ganhar tempo.As queimaduras são tão graves que chamam o médico.

os dois tonéis são difíceis de erguer acima das rochas. O vento sopra com violência e as ondas esmagam-se raivosamente contra as rochas. Com o barulho do vento decerto não dá pra ouvir as pancadas. . nunca poderemos passar pelos rochedos com ele cheio. . que. Chegamos. Rapidamente ele fecha a porta e esconde a chave canto do corredor. põe essa placa de lata por cima e enterra bem as pontas. É um volume muito grande.digo eu. Desço recuando.Esvazie o tonel. devagar.Devagar.Quando a porta se abre. . Há um pequeno acesso ao mar. com o tonel de azeite. Começo a fazer rolar o meu tonel em direção ao mar. Espera. Pronto.Papi. eu à frente e o meu tonel atrás. Espero por ele. teremos de transpor uns rochedos difíceis. sem qualquer dificuldade. a caminho! Sigo-o. primeiro.Aperta bem a rolha. revejo. O tonel vazio é uma brincadeira. Bem ligados um ao outro. não demore. eu os arames. iria se chocar com o meu. Pego na mochila de farinha. Chegamos à despensa e encontramos a porta aberta. pra ele não ganhar muita velocidade! . para o caso de largar o tonel. . Ele enrola as cordas à volta do corpo. . assim. mas. contrafeito. Matthieu apositivamente levado de pé pelos tubarões. . já está vazio.Depressa. ao fim do caminho. Cada um deles é de duzentos e vinte e cinco litros. Felizmente é muito forte e consegue aguentá-lo nesta descida a pique. Salvidia vem atrás de mim.

Faço uma aterragem que me deixa positivamente sentado entre dois rochedos. para isso.Acalme-se. . Aí fica bem colocado. quando eu gritar. Nado e deixo-me arrastar por outra onda que rola em direção à costa. percebo que fui levado para mais de vinte metros do ponto onde nos tínhamos lançado ao mar. Salvidia. caramba! Levanta mais. raivosamente. Cuidado com essa onda! Somos erguidos juntamente com os tonéis e atirados brutalmente contra os rochedos. os tonéis.Empurra para cima. consigo finalmente sair dali. É então que. no momento em que subo. quando me vejo em seco. Enquanto grito estas ordens ao meu amigo. mesmo que a nos cubra. Ele empurra também.Cuidado! Eles vão partir-se ou então quebraremos as pernas ou os braços! . uma onda apanha-nos debaixo e atira-nos como uma pluma para cima de um rochedo pontiagudo. é necessário agora aguentar onde estamos. Puxa para você com força. . mais avançado que os outros. mas. ele e eu. leva-me para . Passe adiante em direção ao mar. Cheio de contusões. A pancada é tão forte que os tonéis se estilhaçam e os pedaços espalham por todos os lados. no meio de todo barulho do vento e das ondas. grito: . ou vem aqui para trás. e de repente nos vemos desvencilhados e levados pela onda. com firmeza. O lugar escolhido pelo meu amigo para o lançamento na água não facilita as coisas.mais de vinte metros de distância do rochedo. ele quer fazer parecer que entendeu: uma onda enorme envolve completamente o bloco que nós formamos. Eu empurro ao mesmo tempo. empurro a jangada com todas as minhas forças. Tenho ainda tempo de me agarrar antes de ser arrastado de novo. e certeza que nos safaremos dos rochedos. Mas. Sem precauções.de manejo complicado. Quando a onda se retira. Ele é o primeiro a subir para os tonéis e.

De pé. não tem vergonha de se virar assim contra mim? Sempre me saiu um ótimo Deus! Um nojento. nojento. onde pára o meu amigo? Grito. Sem procurar muito. Extenuado. regressar à enfermaria. enfrentando o vento e aquelas ondas monstruosas que acabaram de varrer tudo. e ouço-a cair do outro lado do portão.Onde está. Entro e fecho a porta atrás de mim. um maldito. pois não sei onde Salvidia pôs a chave da porta principal.Sujo. Ninguém me vê. Romeu?! Só o vento.Salvidia! Romeu! Onde está? Ninguém me responde. paralisado. isso sim! Um sádico. de sapatilhas e nada mais. enquanto atiro para longe o saquinho com os cigarros e o isqueiro que ele arranjara e que eu pendurara ao pescoço. deixo-me cair por terra. começo a chorar de raiva. Deito-me. Subo a encosta com uma única idéia: entrar e tornar a me deitar no meu colchão. ao corredor da enfermaria. Vou à janela e atiro a chave para longe. é o que você é! Um pervertido. tiro as calças e a camisa de lã e fico nu. Com mil raios. ergo o meu punho e insulto Deus: . visto que ele não fuma. porco. . Tive de saltar o muro do asilo. encontro a chave da enfermaria. Chego. gesto fraternal do meu amigo para comigo. um filho da puta! Nunca mais pronunciarei o seu nome! Você não merece! O vento abranda e essa calma aparente faz-me bem e me traz de novo à realidade. Só me resta voltar ao pavilhão e. pederasta.. com duas voltas. sem contratempos. física e moralmente aniquilado. A única coisa que me poderia denunciar . de novo. Com um pouco de sorte não será impossível. Depois. se puder. o mar e as ondas me respondem. Fico ali não sei quanto tempo. com toda a força.

Enguloos sem água. despedaçado contra os rochedos. apenas por estar atrás e não na frente. Papillon? Está dormindo como um pedra. . percebo que. A sala está cheia de sol e de janela aberta. .Porque me acordou? .eram as minhas sapatilhas molhadas. ele me deixa lá. realmente? Talvez fosse levado para mais longe que eu e conseguisse agarrar-se a qualquer rochedo. E sigo-o. Censuro-me por haver voltado tão depressa que o meu companheiro estava perdido. Estou ainda dormindo quando.Como as suas queimaduras já sararam. Três doentes espreitam lá de fora. deve ter morrido. Não teria eu voltado depressa demais? Devia ter esperado mais um pouco. São dez horas da manhã. Há três dias que a fuga fracassou. chefe. Salvidia nunca mais apareceu. precisamos da cama. aproveito para secar as minhas sapatilhas ao sol. . bebe. parece não haver nada de anormal. na extremidade da ilha. Teria meu amigo se afogado. Com o lençol por cima da cabeça.Está bem. seguramente. O vento e a água do mar tinham-me gelado. Olhe. no que me diz respeito. vejo um guardaenfermeiro diante de mim. Tiro-as e vou torcê-las no banheiro. Mas como saber? Tenho . coitado. Ainda não tomou o café? Está frio. Eu escapei por pouco e. Não se falou em nada. bruscamente sacudido. Vou da minha cela para o pátio e do pátio para a minha cela. Ao chegar ao pátio. Vá novamente para a sua cela. vou aquecendo aos poucos. A minha saliva basta para fazê-los descer. Na gaveta da mesinha de cabeceira estão dois comprimido para dormir. Mal desperto.Então.

então. tenho frio de noite. perdido o norte? Porque me encontro aqui? Diga-me. Estou. Conte-me o que está acontecendo. Que quer dizer? . Eu não conhecia esse cara.O que quer fazer? . Quer trabalhar? . chefe. por acaso. Agora preciso de convencer o de que estou melhor. Consegui ingressar no asilo. É o asilo. . ora. Prometo não sujar as minhas roupas. ajudando a limpar as celas. Estávamos sós no posto da guarda. Vai ser mais difícil conseguir que acreditem que estou curado. Papillon.Qualquer coisa. deixam-me a porta aberta até as nove horas. entre os loucos? Terei.que sair do asilo. Um cara de Auvergne. mas ele sabia bem quem eu era. disse-me: − − Não vale a pena continuar a luta. e é só quando chega o guarda da noite para começar o seu turno que a fecham. Olha para mim muito espantado depois diz para mim: − − Sente-se aqui comigo. mas vejo que está com ar de quem está melhor. pelo menos. À noite. E eís-me vestido. chefe. . . por favor.Senhor Rouviot (é o enfermeiro-chefe).Meu velho Papillon. Estou surpreendido. apto a voltar ao comando. falou comigo pela primeira vez ontem à noite. de me encontrar aqui.Sim. Não poderá me dar calças e uma camisa. ou. você esteve doente. o vigilante ainda não tinha chegado. enfermeiro condenado. por favor? O guarda está estupefato.

porque ele era um bom amigo. as entranhas e parte de uma perna. Pobre Salvidia! Deve ter sido uma bomba quando perceberam que ele sumira. Há quase um mês que tentei a fuga. seis dias depois.O que me aconselha a fazer? . Para ele. Por um acaso inexplicável. Encontraram o corpo do meu amigo. apesar de não ter me dito nada. Dará um passeio.− Deixe disso! pensa que não compreendi a sua jogada? Sou enfermeiro de loucos há sete anos e desde a primeira semana que percebi que você era um simulador. Comece a se comportar bem e. Se precisar de alguma coisa.Obrigado.Dupont. se não ouvi falar bem dele.Daí. Estão certos de que ele foi comido pelos tubarões. . Como se chamas? .Vou ver se consigo que o escolham para o grupo que sai do asilo todos os dias para ir buscar víveres no hospital. parece. Encontraram os pedaços dos tonéis trazidos pelo mar. deve ser um bom rapaz. Mas outros peixes comeram ele. Não esquecerei os seus bons conselhos. segundo me conta . Diz que. é só dizer. não o quero mal por isso. também não ouvi dizer mal. os tubarões não o devoraram. Uma pessoa nunca deve se curar depressa de mais. e daí? . O médico fez um barulho dos diabos por causa do azeite. Portanto. devido à guerra. E. . . − Então.Obrigado. ficarei contente em ser útil. Os seus olhos têm uma expressão tão sincera que não duvido da sua retidão. Sinceramente. lamento sinceramente o fracasso da sua fuga com Salvidia. em cada oito de dez conversas. tenho pena. isso custou-lhe a vida. não voltaremos a ter mais tonéis depressa. não diga disparates. boiando.

Resta sair do asilo. querendo falar. o seu filho morreu sem ferros nos pés. Babava e bufava. No lugar de cada morangueiro plantei uma cruz. Devido ao adiantado grau de decomposição não lhe fizeram autópsia. sentado em um carrinho de mão. Papillon” Cumprido esse dever. chegar à ilha do Diabo. me colocar de volta na caserna. lutando ao valentemente para conquistar a sua liberdade. Contar o escândalo que se seguiu não vale a pena. mas os sons não lhe saíam da garganta. derramou lágrimas verdadeiras. em “saída de experiência”. Tinha o crânio rachado. e de tal modo ele se aproveita de mim que não quer mais me largar. tão grande foi a sua indignação. Morreu no mar.Dupont. arranquei todos os morangueiros e deitei-os ao lixo. quando o selam. mas o guarda opôs-se dizendo que o seu jardim nunca estivera tão bem cuidado. Morreu livre. para Itália: “Minha senhora. e tentar outra fuga. Eu fui bastante bruto. O cara de Auvergne diz que. longe dos guardas e da prisão. Escrevo à mãe de Romeu Salvidia. Então. na sua última visita. O gordo e pesado guarda-chefe ia estourando. o médico queria me mandar para fora do asilo. mas o que eu posso fazer? outro escrever às nossas famílias se uma desgraça acontecesse a qualquer de . decido não pensar mais naquele pesadelo. tantas cruzes. Tantos morangueiros. Faz dois meses que me comporto bem. Pergunto a Dupont se ele tem possibilidades de fazer seguir uma carta pelo correio. corajosamente. custe o que custar. Cumpro esse doloroso dever beijando-lhe filialmente as mãos. O amigo do seu filho. O guarda-chefe encarregou-me de tratar do seu jardim. Tínhamos prometido um nós. hoje de manhã. Finalmente. Será preciso que ela chegue às mãos de Galgani para ele colocá-la no saco do correio. É a vida.

sentado em uma poltrona. doutor. ajudado por ela.. Reencontro os meus amigos. Eis-me.” Ninguém. Ele gostava tanto dos morangueiros que me sinto realmente desolado. Todos os dias passo algumas horas com o médico e a mulher dele. Vou pedir ao bom Deus que lhe dê outros. A mulher dele está junto de nós. Obrigam-me a contar a minha vida. Passo as tardes com essas duas pessoas admiráveis. deve ser posto em "saída de experiência" e ir para a caserna.O médico mandou costurarem no meu blusão: “Em tratamento especial. a não ser o médico. .. Papillon . “Este doente. O lugar de Carbonieri está vazio e ponho o meu catre ao lado desse lugar vazio. a fim de se readaptar à vida normal.Diga para mim. Papillon. . e peço desculpa ao vigilante. pois estão persuadidos de que isso . insiste em dizer. Bebi café e fumei alguns cigarros em companhia do médico.” . mandou eu apanhar folhas das oito às dez horas da manhã diante do hospital.disse a mulher do médico. Assim. . e o médico tenta me fazer falar do meu passado. na caserna. Papillon.O médico não levou a coisa para o lado trágico.Vem visitar-me todos os dias. Foi por estar sozinho no jardim que teve essa idéia esquisita. porque arrancou os morangueiros e pôs cruzes no seu lugar? . . em sua casa.Não posso explicar. e depois? Que fez após deixar os índios pescadores de pérolas?.Então. como se Matthieu ainda estivesse lá. pode me dar ordens. porque quero vê-lo e depois para ouvir as suas histórias. às vezes só com ela.Primeiro. de novo.

Foram tão bons amigos que não quis enganá-los: .Eu entendo. Está feito: devo partir amanhã.Doutor. não aguento mais essa prisão. adeus boa sorte! .contribuí para o meu equilíbrio definitivo. mas quero acabar com isto! Arranje uma maneira de me mandar para a ilha do Diabo. O médico e a mulher bem sabem porque vou para lá. Então. Decidi pedir ao médico que me mande para a ilha do Díabo. . ou escapo ou me arrebento. Esse sistema de repressão me desgosta e essa administração está corrompida. Papillon.

a mais batida pelo vento e pelas ondas. onde estão instalados o posto da guarda dos vigias e uma casa para os presos de delito comum. São uns trinta ao todo. Então. o preso em questão é recambiado para a ilha Real. que anda muitas vezes com uma barba de oito dias. às vezes. eleva-se rapidamente até um planalto. os quais vivem instalados em casinhas cobertas de folha-de-flandres. Depois de uma parte baixa. e todos os dias lhes é dado um pão. ou perto daí. que se destina apenas a deportados políticos. estes não deveriam ser enviados para a ilha do Diabo. que envenenou toda a família real de Lyon. também. É um brutamontes com um ar porco. . Há um cabo que liga a Real ao Diabo. Os políticos não se dão com os presos comuns e. a que fica mais a norte e. mais ou menos dez ao todo. Às segundas-feiras recebem os víveres. porque muito frequentemente o mar está agitado demais para que o barco possa acostar a uma espécie de pontão de cimento que constituí o porto da ilha. que cozinham durante a semana inteira. que se estende ao longo do mar por todo o litoral. O chefe dos vigilantes (são apenas três ao todo) chama-se Santorí. O enfermeiro é o doutor Léger. escrevem para Caiena queixando-se de algum deles. Oficialmente.DÉCIMO CADERNO DIABO O banco de Dreyfus É a ilha mais pequena do arquipélago da Salvação.

É preciso separar os cocos moles para os leitões que não têm dentes. É um indochinês. assassinava toda a tripulação.com ) . atacava as sampanas56 e. um sujeito de Bordéus e outro de Lille. uma de manhã e outra à tarde. tem. eu também não lhe chateio. no entanto. espero que se porte bem aqui no Diabo.E você. Excessivamente perigoso. às quatro horas faça a mesma coisa. Neste momento chega Santori: . Aqui há bastante peixe. À tarde. Pirata de profissào.4shared . Você come comigo e dormirás perto de mim. Cada pescador tem que dar um quilo de peixe ao meu cozinheiro ou então lagostas. dois negros. na Indochina. Um dos chineses conhece-me bem. todos ficamos satisfeitos. movida a remos laterais ou ginga. preso preventivamente por homicídio.. Se não prejudicar o meu juízo. . uma maneira de viver em comum com os outros que capta a confiança e a simpatia. às vezes. Vai lá para cima que eu já vou falar com você.Combinado.Ah!. já se instalou? Amanhã de manhã vai com Chang dar de comer aos porcos.Está bem. Eu cozinho duas vezes por dia e você vai à pesca. que tem no centro uma cobertura de bambu trançado onde se abrigam os passageiros e/ou a mercadoria (Nota d a revisora http :/ / am and ikaloka. A gente aqui está bem. senhor Santori. 56 pequena embarcação asiática de fundo chato. Combinado? . Assim. Chang? . Exceto estas duas horas. Na casa comum se encontram seis forçados: dois chineses. você fica livre para fazer o que quiser na ilha.Papillon. um sobrevivente da revolta da prisão de Poulo Condor. Papillon? . estava comigo em São Lourenço.Vou indo.

durante a guerra de 1914. Essa personagem repugnante. fica trancado. só o rosto é que é limpo. acompanhado por Chang. um frango ou uma galinha. provavelmente provocadas pelas asperezas das rochas. tinha um pau na mão e sovava um peixe enorme com mais de um metro e meio de comprimento e tão grosso como a minha coxa. um rosto emoldurado por pêlos grisalhos e muito compridos. que a conhece como os seus próprios dedos. grande e gorda.Eu já sei que você tem a mania de fugir. com uma longa barba branca. vêem-no e você não os vê. Depois de dar de comer a mais de duzentos porcos. de vez em quando. Vi também o porco que mandou fuzilar Edith Cavell. de noite. venha falar comigo que eu arranjo pra você. Não gosto que me procurem para conversar. Todos eles andam armados de catana57 e se você se aproximar das casas deles são capazes de pensar que vai roubar um frango ou ovos. cruzou-se conosco no cume que dá a volta na ilha pela praia. eu nem sequer vou dar-lhe muita importância. As mãos são vermelhas devido às feridas cicatrizadas. que.. Se conseguir matar um leitão 57 espécie de alfanje de origem japonesa (Nota da revisora: http :/ / am and ikaloka. O enfermeiro também mora em uma das casinhas que deveriam ser apenas para os presos políticos. Um velho. que lhe caem para o peito e para a testa. mas boa pessoa. De noite. .4shared . andei passeando pela ilha durante o resto do dia. mas eu sei que alguns saem.com ) . Os caras podem matar-lhe ou lhe ferir porque. escrevia contra a França a favor da Alemanha. É um jornalista da Nova Caledônia. Vendo ovos e.Se precisar de alguma coisa. mas como aqui isso é quase impossível. Mas só se estiver doente. Este doutor Léger é um cara sujo e atarracado. a enfermeira inglesa que salvou os aviadores ingleses em 1917. Dele. Toma cuidado com os deportados políticos.

jamais um civil entrou na ilha. Santorí concordou. Às vezes. Foi comigo até o banco onde Dreyfus se sentava olhando para o mar.Papillon.” 58 Alcalóid e g eralm ente usad o contra a m alária ou com o relaxante m uscular. fique um minuto sentado neste banco que eu acariciei. adeus minha senhora.com) . se o conseguir. Vou rezar para que o consiga e peço-lhe que. . Despeço-me deles o mais naturalmente possível antes que a chalupa se afaste do pontão. porque todos dizem que qualquer dia você tentará outra vez fugir. Pesco quantidades astronômicas de marisco desde a manhã até a noite. falar durante mais de uma hora com ela. e. em direção àquela França que o renegara. como se quisessem dizer: “Lembre-se sempre de nós. assim. tome lá esse tubo com cento e vinte cápsulas de quiníno 58. Segundo diz o comandante. lagostas e peixe para o doutor. porque nunca o esqueceremos.traga pra cá a perna que eu troco ela por um frango e meia dúzia de ovos. essa é. precisará disto no mato. . antes de partir. Santori está radiante porque nunca teve tanta variedade de peixe e de lagosta. já que está aqui.. imensos.Se essa pedra polida pudesse contar os pensamentos de Dreyfus. para se despedir dele.4shared . . Bom.Adeus doutor. sempre que quiser. O comandante me deu autorização para mandar pelo cabo. Gostava que também fizesse o mesmo. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikalo ka. Mando três ou quatro quilos todos os dias para a cozinha dos guardas. Os olhos dela fixam-se nos meus. Como o mar estava bom.. . francos. também vieram o comandante da Real e a senhora Guibert. O médico Germain Guibert visitou ontem o Diabo. seguramente a última vez que nos vemos. Pude.disse ela acariciando a pedra. quando mergulho durante a maré baixa. Sei que tentará fugir e. chego a apanhar trezentas lagostas.

do salão de baile do Petit Jardin. porque eu estarei sempre a seu lado!” Onde estará Raymond Hubert com o seu “seremos absolvidos”? Onde estarão os doze idiotas do júri? E os guardas? E o promotor de justiça? Que será feito do meu pai e das famílias que as minhas irmãs constituíram sob o jugo dos alemães? Quantas fugas? Vejamos. com o seu rosto de madona. Tenho trinta e cinco anos. Não preciso. com os seus grandes olhos negros. tenho perto de cem quilos de marisco em um viveiro natural e. . gritou no tribunal: “. Apenas desfrutei de sete meses de liberdade completa com a minha tribo de Guajiros. meu amor. depois de derrubar os guardas à cacetada. mais de quinhentos lagostas. e recordo como custaram a passar e como cada um deles ficou integrado no meu calvário. para Santori. Os filhos que quase fui obrigado a fazer às minhas duas mulheres índias: estão agora a caminho dos oito anos. mais me preocupar com a pesca. de Pigalle. no extremo norte da ilha. um verdadeiro camafeu. da Praça Blanche. do Boulevard de Clichy? Onde estará Nenette. quantas? A primeira. Domina o mar de uma altura de mais de quatro metros. Passei o melhor tempo da minha vida na prisão ou no degredo. ao olhar para trás. a Nenette que. em uma pipa de ferro presa por uma rede transparente. Hoje não fui pescar. quando me escapuli do hospital. contemplo as horas e os minutos. pois.O banco de Dreyfus fica mesmo no alto. Tenho o suficiente para mandar ao médico. Trinta e cinco anos! Que será feito de Montmartre. Estamos em 1941. Que horror! Como o tempo passa depressa! Mas. desesperada. para o chinês e para mim.Não se preocupe. há onze anos que estou na cadeia.

onde Dreyfus. consegui uma vitória retumbante. em Baranquilla. polida. Fui sempre perseguido pelo azar nessas minhas fugas! O golpe da missa. e tanta injustiça. e eu não devo ser menos forte. teríamos certamente mais facilidade em lançar a ada à água. e perseverou até o fim. Ele aguentou tudo aquilo. se atirado. Nunca me darei por vencido e tentarei outra vez fugir. na Real. se não fosse um homem corajoso. deste mesmo banco. em Rio Hacha. Duzentos metros mais abaixo. Um erro. ao abismo.deve valer-me para alguma coisa. a quarta. perto do cais. lutou pela sua reabilitação. Sim. Nessa. os atos de amor que fazia com as duas índias. essa pedra lisa. a quinta e a sexta. apenas por causa dele. com certeza. Dreyfus nunca se deixou abater. com o seu famoso Eu acuso. que falhou tão redondamente! A dinamite. na Colômbia. um grande erro da nossa parte haver deixado o italiano escolher o lugar para nos jogarmos no mar. É verdade que teve Êmile Zola. A oitava. como delator. Porque deixei eu a minha tribo? O meu corpo é estremecido por um frêmito de desejo. na companhia do pobre amigo Carbonieri. Foi a mais bonita. Este banco . condenado e inocente. Todavia. Depois a terceira.A segunda. teria. eu estaria agora livre. continuar a viver . a última. daqui. sem parar. ainda. que falhou por causa da denúncia do filho da puta do Bébert Célier. preciso pôr de lado essa idéia de tentar uma fuga . a do asilo. apesar de tudo. Se tivesse calado a boca. Sinto. será para mim apoio e um exemplo. encontraa coragem para. bem dentro de mim. que explodiu sem resultado! Clouziot pendurado pelas calças! E a demora do narcótico em produzir efeito! A sétima. e as ondas batem enraivecidas. sobranceira a esse precipício.

o mar entrega-se à loucura. as ondas atacam. os meus pensamentos vagueiam e sonham com o passado. Os meus olhos ficam frequentemente ofuscados com a luz proveniente do reflexo da crista das ondas. Isto é muito importante.” Quando há tempestade. inexoravelmente. ataca os rochedos mais avançados da ilha. sem sombra de dúvida que me arrastará consigo ao ir embora. estorva o meu avanço sobre o continente. em frente a um amontoado de rochas. esse mar. É por isso que todos os dias lhe arranco um pedaço. construindo um futuro corde-rosa. curral existem muitos. sem realmente ver. portanto. para guardar os cocos. rebentam e retirando com violência. . Sei onde conseguirei arranjar bastantes sacos de juta. a única saída para o mar. pois barra o meu caminho. Nas longas horas que passo sentado no banco de Dreyfus. fica a parede rochosa e. porque se eu me atirar dos rochedos agarrado a um saco cheio de cocos no momento em que onda volta para trás. pouco a pouco. “ É nesta altura que descubro uma coisa importantíssima.“Vá embora. que formam uma ferradura com cerca de cinco ou seis metros de largura. Escava-os. que parecem dizer: “Por aqui não passa. Ali mesmo por debaixo do banco de Dreyfus. minar inteiramente esses gigantes de pedra. corroendo as rochas e parecendo dizer. devo de esquecer-me da palavra morte. precisa desaparecer. mergulhando diretamente nela. De tanto olhar. para somente pensar na idéia de vencer e ser livre. As toneladas de água não podem dispersar porque ficam presas entre dois desses rochedos.tendo como alternativa o sucesso ou a morte. e não somente açoita fortemente as rochas como procura ainda penetrar em todos os cantos para. O mar. Pela frente. sem nunca se cansar. conheço todos os caprichos possíveis e imaginários das ondas.

A rocha é escorregadia e muito batida pelas ondas. Como partirei com dois sacos de cocos em vez de um e peso cerca de setenta quilos. portanto o mais perigoso. com quem falei. para fugir. coloquei uma pedra que deve pesar trinta e cinco ou quarenta quilos. a proporção é a mesma: um saco para cada trinta e cinco quilos. podemos dizer que fomos colocar as linhas para apanhar tubarões. se consegui afastar-me da costa. esse é o único local de onde. vai me ajudar. Chang. Escondo um saco de juta bem costurado. . Chang. Conseguiu arranjar uma quantidade de linhas de fundo. O som das ondas ensurdece-me. que só recebe quando a maré está baixa.A primeira coisa a fazer é realizar uma experiência. cheio de cocos secos com o seu invólucro de fibra em uma espécie de gruta que descobri quando andava apanhando lagostas. Em um outro saco. A lua cheia ilumina a cena como se fosse em pleno dia. a maré é mais alta e. Estou excitadíssimo com a experiência. Chang pergunta: . O saco dos cocos e a pedra são muito pesados e nada fáceis de carregar. serei arrastado para o largo. que está amarrado ao saco dos cocos. É daqui que tenho que tentar fugir. as ondas mais fortes. Mais um empurrão e conseguimos. Quando há lua cheia. Esperarei pela lua cheia. Não consegui empurrá-los para cima do rochedo.Vamos. Para se entrar lá é preciso mergulhar e nadar debaixo da água. porque. portanto. pelo que constitui um esconderijo seguro. no entanto. Esse lado da ilha está sempre deserto e ninguém imaginará que um sujeito vá escolher o lugar mais batido pelas ondas. se nos surpreenderem. não correndo o risco de me espatifar na ilha Real. As lagostas ficam agarradas ao teto da gruta. E.

Chang e eu. A onda projeta-o.É verdade. estou certo de que apenas de madrugada perceberão a fuga. dirige-se como louca contra o rochedo e vai quebrar perto de nós. em segundo lugar. pode fugir mais facilmente do que daqui. Não acho nada boa essa idéia de fugir do Diabo.Não me cheira bem. e atira-o para cima da crista. volta a colocá-lo no mesmo local de onde eu o havia lançado. sem sequer olhar outra vez para o mar. para começar. . Ao contrário. mas na Real a fuga seria descoberta em menos de duas horas. O saco abre-se. finalmente.Perfeito. Papillon. com cerca de cinco metros de altura. com sete ou oito metros de altura. deste lugar maldito. Chang. pouco mais à esquerda. fazendo-o espatifar-se de encontro rochas. Papillon? Atine para aquela onda. pouco antes da espuma. posso ser facilmente caçado pelas três lanchas da ilha. Pelo lado sul. aqui. Em cima do saco com os cocos. porque a onda derrubou-nos ferozmente para o lado da terra -. juntamente com a pedra. não existem barcos. o saco vai para o mar.Espere para ver se ele volta. Se eu . Levado como se fosse uma palha. levanta-se. com uma força espantosa. conseguimos. não há telefone.Está pronto. . É melhor a Real. existe até a possibilidade de pensarem que me afoguei enquanto pescava. . Depois. Ensopados até os ossos. No Diabo. antes de tirar. esfolados e magoados. Ainda não tinham decorrido cinco minutos quando vejo chegar o saco empoleirado na crista de uma nova onda. nos afastamos o mais depressa possível. que só se move com os impulsos das ondas.. Apesar disso. atiramos o saco no momento em que ela forma um redemoinho. mas o choque é tão violento que a crista passa acima do rochedo e nos encharca. . os cocos espalham-se e a pedra rola para o fundo do abismo.

se não havia qualquer mudança. como se fosse uma trovoada que rola e vai extinguindo-se ao longe. duas vezes maior que qualquer das outras. Faz um barulho distinto das restantes. mas ainda não cresceram até ficarem suficientemente fortes para lhe resistir. fiquei a observar se a era automático. se não. Quase nem espuma na crista. Mas como? O sol é terrível ao meio-dia. habilmente. E é então que. só se repete de sete em sete ondas. pulverizando-o por completo. Um sol que evapora. A onda. E. nada disto me impede de estudar o lugar. em poucas horas. sendo necessários dez ou quinze segundos para que o redemoinho. alcance novamente a saída e se afaste. novamente me sento no banco de Dreyfus. formando-se a mais de trezentos metros da costa. Um sol tropical que faz ferver o cérebro dentro do crânio. como se fora um turbilhão. que existe entre eles. indo depois chocar no penhasco. a onda. um sol que calcina todas as plantas que conseguiram nascer. diante dos meus olhos. Sim. Portanto é daqui que preciso partir. vejo que sou um verdadeiro idiota. verificava qualquer alteração na periodicidade desta onda gigantesca. nem uma vez ela apareceu atrasada. arrancando e fazendo . a massa de água. subitamente. no entanto. Seis ondas de uns seis metros e depois. Aproxima-se a direito como se fosse um “I”. ao contrário das outras seis. Mas não. um sol que faz dançar o ar. aumentando de volume e de altura. que voltou a trazer o meu saco para cima dos rochedos. deixando no lugar dela uma película de água e sal. Quando bate nos rochedos e se precipita na apertada passagem. o ar mexe-se. qualquer poça de água muito profunda. comprime-se e rodopia várias vezes dentro da cavidade. muito maior que a das outras ondas. Desde o meio-dia ao pôr do Sol. e o revérbero da sua luz solar queima as minhas pupilas.fugir com o mar não existe barco algum capaz de chegar até cá.

pois. por causa da espuma.rolar no seu seio enormes pedras que não param de ir e voltar com um estrondo parecido com o de centenas de carroças cheias de pedra descarregadas brutalmente. . De acordo? . divididos por duas ou três pedras. . a cerca de uns trezentos metros. Papillon.Como se chamava a menina que você salvou em São José? . quando a sétima se forma. Não consigo acompanhá-lo com os olhos. Eu ajudo. O saco não voltou. e o sobrevivente de Poulo Condor escuta as explicações com os ouvidos bem abertos.Está bem. não quero correr riscos nesta tentativa e. atiramos para a famigerada onda dois sacos de cocos. assim que a vaga se quebra. Conto a Chang.Vamos pôr esse nome à onda que um dia vai levá-lo. Iremos pela maré alta. que devem pesar bem uns oitenta quilos. com os dados exatos: dois sacos de cocos bem amarrados um ao outro com setenta quilos em cima. se precipita em direção ao mar. como se tivesse sido sorvida.De acordo. porque não consigo vê-lo mais. De resto. vou fazer uma experiência a sério. carregados com três pedras. . atiro o saco. juntamente com uma pedra de mais ou menos vinte quilos e. por isso. já está. . mas ainda o vejo durante uma fração de segundo quando a água. Auxiliado por Chang e aproveitando uma maré de equinócio com ondas de mais de oito metros.Lísette. daqui a pouco tempo. o soco já deve ter passado o ponto onde ela nasce. Volto para casa. consegui descobrir uma maneira perfeita de me jogar no mar. Acho que descobriu. Meti uma dezena de cocos no mesmo saco. cheio de alegria e esperança. começa o equinócio. As seis outras ondas não tiveram a força suficiente para o devolver à costa e.

cinco. Rebenta com uma força tal que Chang e eu somos completamente varridos do rochedo e. crescendo em um segundo. . portanto. Pensando. porque os três guardas estão do outro lado da ilha ocupados com um inventário geral. Ali vem “Lisette”. Parto para a grande aventura no dorso de “Lisette”. mas sim para oeste. já longe da costa. Uma. O mar está sempre agitado na ponta do banco de Dreyfus mas hoje é visível o seu particular mau humor. por quatro vezes. seis. E. Parece ainda maior. que em todas as outras vezes. três. na crista das ondas. Formou-se a mais de duzentos e cinquenta metros e. As seis ondas que se seguem a “Lisette” não os trazem no seu vaivém. Saíram. os enxergamos. os sacos carregados caem no abismo. mas os sacos também não vêm na sua crista. duas. em uma fração de segundo. nos atiramos para trás e. nós o vemos perfeitamente. sozinhos. . Subimos correndo até o lugar onde se encontra o banco de Dreyfus para tentar vê-los mais uma vez. quando se precipita e rebenta no espaço. o golpe é ainda o mais ensurdecedor possível. sobretudo na base. Não há perigo. da sua zona de influência.“Lisette” chega com o mesmo barulho de um comboio. A experiência é indiscutivelmente positiva.Lá está. não fomos arrastados para o abismo. avança. aprumada como uma falésia. não na direção do Diabo. Terão sido levados para mais longe que o lugar onde nasce a onda? Não temos qualquer ponto de referência que nos permita saber isso. mais agua que habitualmente. “Lisette” rebenta com o seu barulho característico. Isso tudo sucedeu às dez da manhã. de encontro às enormes pedras. Os sacos seguiram. aparecem muito longe. É realmente impressionante. Uma forma-se novamente e aparece. A monstruosa massa vai atacar o rochedo com mais força nunca. que não podíamos ficar em cima do rochedo. e pulamos de alegria quando. quatro. olha. liberando. embora não tivéssemos escapado do jato de água.

. Eu não quero fugir daqui. Portanto. de fato. oito ou dez marés no máximo. à primeira vista. não pode voltar ao Diabo. não é nada divertido. não terão força suficiente para nos atirar novo sobre os rochedos. . A deriva pode ser mais ou menos longa. bem proporcionado. . empurrados pelas marés? . mas não pretendo suicidarme.diz Chang. seremos atirados para a praia. isso dependerá das marés. mas. Sylvain. Admito que.Não cague antes de tempo. arranjo um companheiro para prosseguir a fuga no continente.Como é que calcula isso? . Reconheço que.É certo que. sozinho. Estas são as palavras de Sylvain. No mato. demoraremos de quarenta e cinco a sessenta horas. Levei uma semana convencendo Sylvain. muito impressionado com a apresentação que acabo de fazer-lhe de “Lisette”.Bom. . Mas é a única onda capaz de nos levar bastante longe. Está na Diabo apenas há três dias e.. não há dúvida de que teve dedo. depois. Assim. de maneira que as outras que vêm atrás.Francamente. Depois. O vento terá pouca influência porque não possuímos velas. se houver mau tempo. com um metro e oitenta e um corpo de atleta.É ali que você diz que devemos nos atirar? Pois meu filho. é verdade. cada um na sua jangada improvisada. sejamos arrastados para longe. se ele aceitar. não sei ao certo. Com sete. olha. . um sujeito cheio de músculos. nós já experimentamos . nem chegar à Real. as ondas serão mais fortes e levar-nos-ão mais depressa para a terra.Tem calma. quanto tempo calcula que demoramos chegando ao continente. propus-lhe para fugirmos juntos. naturalmente. qualquer um se arrepia.

. mais diretamente as ondas nos dirigirão e atirarão sobre ela. se nos tramar. não senhor.Das ilhas até a costa. com certeza. . Com as marés baixas. de pescadores.Precisamos chegar perto de Kourou. esse campo especial para indochineses? . cento e cinquenta quilômetros. não é asneira. Se o cara se portar bem. vai comigo? . Se não fosse por causa das marés baixas. O que faremos depois? . não são mais que quarenta quilômetros. no máximo. damos-lhe dinheiro e pomos ele pra se mexer.O irmão de Chang encontra-se lá. À primeira vista. que é uma aldeia. -Não.Que vamos fazer em Inini. seringueiros e garimpeiros. Deve haver. Ã deriva andamos como se seguíssemos a hipotenusa. umas picadas no mato para se chegar até Caiena e a um presídio de chineses.Quase. Repare no sentido das ondas. porque são elas que nos levarão para o largo. O cara é muito inteligente. chegaríamos à costa em menos de trinta horas. não acha que qualquer coisa que possa boiar a essa distância da costa desloca-se a cinco quilômetros por hora? Ele olha-me e ouve atentamente as minhas explicações. Precisamos fazer mais ou menos cento e vinte. de um triângulo retângulo. no mato. acho que tem razão: entre quarenta e oito a sessenta horas estamos lá. em linha reta. bastante importante. Quanto mais nos aproximarmos da costa.Está convencido. chamado Inini.. É preciso aproximarmo-nos com cuidado. . que nos vão fazer perder tempo. Precisamos agarrar um preso ou um negro e obrigá-lo a levarnos até Inini. porque existe aí uma colônia penal. Supúnhamos que nos encontramos no continente. o obrigamos a fugir conosco.

terão tudo o necessário para a fuga. servirão de esconderijo para nos refazermos antes de nos encontrarmos na floresta. e como temos o mesmo peso. Esperem que outra maré os leve para dentro do mato para poderem agarrar-se aos galhos de árvores ou cipós.São os únicos rochedos de toda a costa. até o infinito.Não sei. aproximadamente a uns vinte quilômetros.acrescento eu.Preste bem atenção. .pergunta Sylvain. . . . O primeiro que chegar espera pelo outro.Está bem. quando estava na Real. de novo. Estas rochas são brancas por causa da merda dos pássaros. Porém. estão ferrados. daqui não se vê Kourou. digam-lhe e ele avisará Cuic-Cuic. Se não. Ora bem.Sim.Fazendo mais ou menos duas jangadas iguais. Nunca o pisem. é só areia. Um chinês nunca fala com a Polícia. com certeza. . com certeza não ficaremos muito longe um do outro. porque é perigoso e engole as pessoas. É preciso esperar até que alcancemos um galho ou uma cipó . deve ter reparado que à direita de Kourou. Sylvain! Nunca pise o lodo nem mesmo junto à costa. pois não é conveniente acender fogueiras. quando estiverem quase chegando ao continente. À direita e à esquerda. No caso de nos separarmos. . Atenção . . Mas nunca se sabe.Quantos dias? .. Papillon. barco e comida.continua ele -. Ele fugirá com vocês e arranjará. No caso de verem algum compatriota meu no mato. Como nunca ninguém vai lá. encontrarão lodo. Podemos comer ovos e os cocos que levarmos.Porque chamam Cuic-Cuic ao seu irmão? . . é preciso arranjar um processo de nos encontrarmos. o meu irmão está lá.Já sei. há umas rochas brancas que se vêem bem quando o sol bate nelas. Estou resolvido. Se encontrarem Cuic-Cuic. Foi um francês que o batizou de Cuic-Cuic.

Num poço abandonado da ilha. Se. por acaso. Pedi a Sylvain dez dias para me treinar a montar a cavalo em um saco. é preciso deitarmos em cima dos sacos. Sempre que for possível. pois a maré deve começar a vazar duas horas depois. tendo o cuidado de não adormecer. Um parafuso de ferro passa através dos anéis. Estão ligados com uma corda de cânhamo trançado e arame. não conseguiremos agarrá-los de novo.Cinco. Encontramos sacos de tamanhos diferentes e a boca de um está encaixada na do outro. Se cairmos na água. tentará sacá-la. é preciso um esforço suplementar para nos aguentarmos lá em cima. eu estiver muito cansado. pois. para serem mais resistentes. enquanto eu dormirei sábado todo o dia e domingo. Ele não a usa. e Chang. terá oito metros. Vamos ralar dez cocos cada um. Percebemos que. Ele faz a mesma coisa. Chang dará sozinho de comer aos porcos. quando os sacos estão quase se virando. É impossível que nesse espaço de tempo não cheguemos ambos ao lugar combinado. As duas jangadas estão prontas. para não os perdermos. Prendi-a às cordas que seguram os meus sacos. Chang costurou um saquinho impermeável. com toda a sua força. pelo que os cocos não podem sair. às dez da noite. e coturados um ao outro com uma linha grossa. Domingo de manhã. há uma corrente com cerca de três metros. Sylvain não pára de fazer ginástica e eu me deixo massagear nas coxas pelas ondas pequenas. que as açoitam durante longas horas. Partiremos no domingo. amarro-me aos . É impossível que os meus dois sacos se separem um do outro. Parece que Santorí tem uma espécie de bexiga de couro para pôr vinho.. A polpa perrnitírá a nós aguentar a fome e a sede. feitas de sacos duplos. A onda. com a lua cheia. que vai algumas vezes na casa do guarda. arranjei umas pernas e coxas de ferro. que prenderei ao pescoço e onde levarei cigarros e um isqueiro. Com as contrações que sou obrigado a fazer para lhes resistir. “Lisette” estará.

Somente de manhã. . A Lua só nasce às nove. Se os sacos se virarem. Lá fora. A fuga do Diabo Domingo. sete horas da tarde. eu não quero complicações. Direi apenas . a noite está negra e o céu pouco estrelado. andando contra o Sol. Chang cortou dez cocos para cada um.Então. então.E porque não vai falar com ele correndo e dizendo-lhe que uma onda nos levou. Acabo de acordar.“Chefe. será demais. Papillon. roubadas do depósito das ferramentas. assim. mais três dias. Mais três dias! Sentados no banco de Dreyfus. olhamos para “Lisette”. . E. PapílIon. Durmo voluntariamente.Sim. .diz Chang. Grandes nuvens carregadas de chuva passam por cima nossas . Papillon e Stephen não vieram trabalhar hoje. Sylvain.É mais que certo. temos umas bananas. depois de ele acabar de dormir a sesta. O presídio de Inini fica a leste de Kourou. a água despertartne-á e eu coloco-os novamente na posição certa. Tenho fé que conseguiremos. . E você? . . Terça de noite ou quarto de manhã estaremos no mato.Só na segunda-feira à tarde. eu possa dormir sem correr o risco de cair na água e perder a minha jangada.” Nem mais uma palavra. desde sábado de manhã.Santori ficará banzado . Além das facas.sacos com corrente. é que temos a certeza de seguir a direção certa. Eu dei de comer aos porcos sozinho. enquanto pescávamos? − Não. é que revelarei que vocês desapareceram. Talvez.

ganha dinheiro suficiente para ele e o seu “homem” viverem comodamente. Acabamos de sair do barracão. Sylvain e eu. Para o menino bonito deve ser o mesmo. Além do amante fixo. Tiramos as duas jangadas da gruta e nesse mesmo instante nos encharcamos por completo. tem mais amantes do que poderia e estivesse em liberdade. Sylvain e Chang me ajudam a puxar a minha jangada para o alto do rochedo. arranja clientes a vinte e cinco francos cada. um árabe forte. . Chegamos em pouco tempo ao norte da ilha. transforma a prisão em um paraíso. contudo. Ao mandá-los para o “caminho da podridão”. vamos pescar clandestinamente de noite ou mesmo passear pela ilha. Satisfazer as suas necessidades eróticas é algo que. Além do prazer que os clientes lhe proporcionam. Chang. Eles dois e os clientes dedicam-se obstinadamente ao vício e. desde o dia em que puseram os pés na prisão. todos acham a coisa natural. para o árabe. tenho medo . Assim que a porta se fecha sobre o cu do panaca. Deve ter uns vinte e três ou vinte e cinco anos e. poder fazer amor com o amigo duas ou três vezes por dia é o melhor da cidade.cabeças. Um rapaz entra com o amante. É nesta podridão que eles encontraram a felicidade. A última hora. Na prisão. embora tenha deixado de ser um adônis. O vento sopra com os uivos característicos das rajadas desencadeadas no alto mar. Como muitas vezes. só pensam em uma coisa: sexo. Repentinamente. penso que. para ele. exatamente como se fosse uma das putas da Rua Rochechouart. o procurador que conseguiu condená-los fracassou na tentativa de castigá-los. Acaba com certeza. resolvo prender o pulso esquerdo à corda do saco. ficamos sós. Não há dúvida de que precisa viver na sombra para conservar a pele cor de leite. Olhando enquanto abrem a porta.Vamos embora. de fazer amor em um canto qualquer. em Montmartre. seu corpo é o de um efebo.

Mais uma . Chang lança-me um último adeus. “Lisette” arrasta-nos para o largo com uma rapidez vertiginosa. em dois minutos.grita Sylvaín-. coladas a à outra. para onde teve de subir depressa. com a ajuda de Chang. com o nervoso. Atireí-me uma fração de segundo antes do meu companheíro que se lança imediatamente. Com um pano branco na mão. empoleirado no banco de Dreyfus. quase sem espuma e tão regulares que vamos à deriva. Em menos de cinco minutos estamos a mais de trezentos metros da costa. coisa que vai levar bem uma meia hora. para me segurar. é ele quem segura nas minhas pernas para me ajudar a enfrentar a rebentação de “Lisette”. fundidos na mesma massa de água como se fôssemos um todo. . quase parecendo a torre de urna igreja. estou em cima dela. aproxima-se.de perdê-lo e de ser arrastado sem ele. tenho as mãos de Chang. Chang chega junto de mim. e. enfia as unhas nas barrigas das minhas pernas. Aquelas que nos levam são bem mais compridas. Aperta o meu pescoço. Eu. Estou na mesma a posição. Há já cinco minutos que saímos do lugar perigoso onde as outras ondas se formam para irem em direção ao Diabo. . que vem nos buscar. depois me abraça. Sylvain ainda não subiu para a sua jangada. Sylvain sobe ao rochedo em frente. Deitado sobre a rocha e agachado em uma depressão da pedra. e nas duas jangadas. Temos de esperar por seis ondas. quebra-se sobre os dois rochedos e se espraia em direção ao penhasco. que. Com o seu habilidoso estrondo ensurdecedor. Vem empinada. sem balançar e sem que a jangada corra o perigo de se virar. além disso. a outra é a nossa! Ele fica à frente da sua jangada para cobri-la com o corpo e protegê-la contra a água que vai passar por cima dela. A Lua já está bem alta e vê-se perfeitamente. A “Lisette”. Enrolei uma toalha em volta da cabeça.

Sylvaín não está muito longe de mim. Veio somente massa escura. pelas minhas contas. O Sol nasce no horizonte. terminado a cigarro. consigo ver. A maré com a qual partimos nos atirou para longe e nos empurra agora para o continente. nem se modifica com a operação. Pronto. depois fumo outro cigarro. durante e depois dos primeiros momentos do mergulho. Como a mínha vista ia não alcança o perímetro creio que. sentei-me. resolvo comer um pouco de coco ralado. um sorriso pelo êxito. No alto de uma das cristas dessas ondas. Não tenho medo. portanto. E se eu me sentasse na jangada? As minhas costas fariam o papel de vela e conseguiria ir mais depressa. são. o pano branco de Chang. Vou fumar um cigarro. a trinta quilômetros. pois. mal se distinguem e nem se percebe que são três. bem oleado. Não. O parafuso. pelo menos. Pelo meu rosto perpassa um sorriso de triunfo. elas estão. uma última vez. de modo que. Desenrolo a corrente e dou uma volta com ela em torno da cintura. Sylvain está bastante longe de mim. é inútil descrever a dor de barriga que eu senti antes. Levanta o braço várias vezes e agita-o em sinal de alegria e de vitória. levados suavemente para o largo. não tenho medo.Subimos e descemos ao ritmo destas ondas profundas e altas. embora o Sol as ilumine por completo. Sim. Como bastante. quando nos encontramos à mesma altura sobre a crista de . Pronto. ao virar a cabeça por completo. Estamos muito à flor da água para que consigamos avistar a costa. profundamente aspiro as primeiras fumaças e expiro docemente o fumo. Percebo que nos encontramos bastante longe ilhas. talvez a uns cinquenta metros na direção do alto mar. Longamente. com a vazante. De tempos em tempos. A noite não foi violenta e sentimos fortemente a mudança de direção da corrente. Ponho as mãos no ar para as secar. seis da manhã.

em contrapartida o avanço é estúpido. nadar ao lado dos sacos e respirar profundamente. penso. virar os sacos e tornar a subir em cima deles. nem a corrente. A culpa é da corrente. não tenho força suficiente nos dedos. é porque as ondas são mais baixas. Isso vai servir de experiência. sufoco com ele. dúvida de que é muito melhor vento e o mar agitado do que a calmaria. Sinto-me esgotado e faltam-me as forças. Nossaa! A jangada virou-se e por pouco não me afoguei. conseguimos ver-nos embora de relance. Molho a toalha e enrolo-a à volta da cabeça. . Tirei o casaco de lã. na hora da largada. Minha cara está ardendo.uma onda. O vento diminui bastante e. Que interessa que a parte de baixo esteja voltada para cima? Torno a me amarrar. Os meus movimentos não são bastante livres por causa dela. que começa a ferver. Irrito-me e. Experimento livrar-me por completo da corrente e os meus dedos procuram. desaparafusar a porca. se a viagem é mais cômoda. apesar dos meus esforços. Fiquei de cabeça perdida só de pensar que não era capaz de me livrar da corrente. porque a água se evapora imediatamente. inutilmente. Não há. nem com a corda. Subo para cima da jangada. ao prender o meu pulso. Não consigo. Ali percebi a burrice que fiz. Sol queima inexoravelmente meus braços e pernas. lá está! Passei um mau bocado. aumentando mais ainda o calor. talvez por estar muito nervoso. Bebi dois bons goles de água salgada. Apesar do vento. Uf! Enfim. Me molhar é pior. Não me preocupo em virar a jangada. Consegui por fim. portanto. fazendo-a deslizar sempre no mesmo sentido. O Sol bate com uma força terrível sobre o meu crânio.

assim como a bexiga de couro com a água doce. Deito-me em cima dos sacos e. O saco da comida está por baixo. tem o peito nu e faz-me sinais. Sinto-me esgotado com o esforço que acabo de fazer e é com dificuldade que subo para ela.'Tenho cãibras tão fortes na perna direita que grito como se nem pudesse me ouvir. Agora. quando estiver no alto da onda. mas mais ao alto-mar. à frente da onda. e depois empurrar com os pés. é a quarta maré depois partimos. com o dedo. ele está cem por cento à altura. lembrando-me de que a minha avó dizia que isso fazia passar as dores. julgo que quer segurar a jangada para que eu me aproxime dele. Muito raramente desaparece. O Sol está baixo no horizonte e em breve desaparecerá. é me pendurar nela. Faço. remo. Sinto sede e fome. A melhor maneira de fazer a jangada virar. porque. porque as ondas são pequenas. Bebo um bom gole de água do cantil de couro de Santori e depois como dois pedaços . Tirou a camisa. é o estar muito tempo debaixo da água que me tira as forças. Parece que rema com as mãos. já percebi. Sinto-me cansado. Paro de remar com as mãos. mais ou menos quatro da tarde. O remédio caseiro fracassa estrondosamente. Depois de cinco tentativas. e ele também me vê muito bem. Está a cerca de trezentos metros à minha frente. Esperemos que a noite não seja muito agitada. São perto de seis horas. mergulhando os braços na água. umas cruzes sobre o lugar onde me deu a cãibra. tenho a sorte de conseguir virar a jangada de uma vez só. Parece que essa nos leva com mais força que a outra em direção à costa. O Sol desceu bastante para oeste. Vou tentar virar a jangada e comer. Os meus lábios estão rachados e ardem. vejo sempre Sylvain. Se ele conseguir parar e eu remar será possível diminuir a distância entre nós? Escolhi bem o meu cúmplice nesta fuga. pela leve espuma que noto à sua volta. Preciso poupar as forças.

como se déssemos as boas-noites. O vento aumentou e as ondas também. A porca. O resto está agora mergulhado na penumbra do crepúsculo. O vento refresca. se a sorte permitir que o vento sopre com a mesma força. Satisfeito. de onde vem o vento. para não me molhar inutilmente. nem se fosse seria preferível. Contínua bastante afastado de mim. Torço o mais possível o meu casaco de e visto-o. caminharemos bastante até amanhã de manhã. mais forte o vento sopra. Estou sentado. ou se isso é muito perigoso depois da experiência que já tive. me amarrar nos sacos. Percebo então que tinha ficado com os movimentos travados devido à corrente ser muito curta. Não me pergunto se convirá eu me segurar. não deve chover tanto durante a noite. Portanto. Agora. A leste. Não penso absolutamente em nada. não há nuvens. Antes que escureça. sintome mais tranquilo. pois uma das extremidades desta estava enrolada nas cordas e arames do saco. como da primeira vez. Já não vejo o meu companheiro. Sylvain. porque. É noite cerrada. que se acentua a cada minuto. cheia de óleo.de polpa de coco. acendo cigarro e fumo deleitado. com pernas esticadas. A jangada navega otimamente com estas diferenças de nível cada vez mais acentuadas. aquece e. funciona sem dificuldade. desaparecido o começo logo a sentir frio. Essa noite é muito importante. Não preciso apertá-la de mais. caso o cansaço me vença. a oeste. A . com as mãos secas pelo vento. Quanto mais a noite avança. pois. agita sua toalha e eu a minha. se tingem de cor-de-rosa. Desprendo a corrente e prendo-a de novo à cintura. Somente as nuvens. porque tenho um medo terrível de pegar no sono e perder a jangada. O céu está cravejado de milhões de estrelas e o Cruzeiro do Sul brilha mais que todas as outras. mesmo molhado. Essa ponta é facilmente recuperável e assim passarei a ter os movimentos mais livres.

e quando. mas não aguento mais. com certeza. Estou. que lhe dão o aspecto de um rosto. pressionando a chama contra o braço direito ou o pescoço.Lua sai lentamente do mar. livre. Não posso perder essa jangada: ela é a minha vida. o dia lunar é mais intenso. A noite torna-se cada vez mais clara. já muito afetados pelo Sol e pela água salgada. Merda! Luto contra todos estes entorpecimentos. É impossível deixar de fixar esses reflexos prateados. sobe e desce sem problemas. Ao fim de alguns minutos estou de novo todo molhado. O vento secou o casaco e as ondas não me molham o peito. bem entendido. Não há nada de anormal com a jangada. sinto uma dor aguda no cérebro. Já passa das dez horas. Por mais que eu próprio veja que estou exagerando. se apresenta por fim. enorme. Será o fim se. não posso ficar por muito tempo com as pernas esticadas sobre os cocos. não queria seguir na direção normal das outras. que. não sigo resistir e fumo três cigarros seguidos. “Não pode dormir. inteira. veio de encontro a . Mas olhos ardem cada vez mais: fecho-os. realmente fazem mal aos meus pobres olhos. porque isso causa cãibras horríveis. Uma onda rebelde que. Irei adormecer? E se cair à água o frio me acordará? Fiz bem em me prender de novo com a corrente. As águas ficam platinadas e o seu estranho reflexo queima-me olhos. Tiro o isqueiro de vez em quando e me queimo. eu não acordar. De vez em quando pego no sono. que procuro afastar com toda a minha energia. em um tom vermelho pardacento. distingo claramente as suas manchas negras. E cada vez que volto à realidade. À medida que a Lua se levanta. ao cair na água. Sinto uma angústia terrível. “ É fácil dizer. em um mar fortemente agitado. No entanto. constantemente molhado até a cintura.

pois a Lua ilumina bastante o mar. devem ser mais ou menos duas ou três da manhã. que estamos na água. sentado com as pernas em cruz. enquanto cinco ondas me . Não. Há cinco marés. com ela de frente. de pé em cima da jangada. soprando regularmente. uma de cada vez. mas conservo os olhos abertos sem esforço. Estou tiritando. consigo sentar-me em cima das pernas. sem reflectir. Essa coisa de ficar molhado até os ossos serve para alguma coisa: o frio me acordou completamente. Mudar de posição me fez bem. Devia ter perguntado a ele antes de partir. A segunda noite já vai bastante adiantada. Tento ver Sylvain. Não só me molhou. dado que ele não tinha nada com que pudesse amarrar-se. Ninguém responde. trinta horas. Podíamos até ter combinado assobiar cada um de maneira diferente. Procuro desesperadamente. só tenho uma idéia: ver o meu companheiro.mim do lado direito. Me acostumei ao ritmo e o meu corpo forma um bloco único com a jangada. levantome e. Escuto. colocando os pés debaixo das nádegas. com todas as minhas forças. Os dedos dos pés estão gelados. mas talvez agora aqueçam. e duas outras ondas normais cobriram-me completamente da cabeça aos pés. Será que Sylvain sabe assobiar? Não sei. levantando a corrente com a mão esquerda. metendo os dedos na boca. Depois coloco as duas mãos díante da boca e grito: “Hu-hu! “ Só o barulho do vento e o chanchar das ondas me respondem. e isso é muito importante. Apoiando-me sobre as duas mãos. O pior é que já desceu e. que começa a descer para oeste. Então. Seco os dedos ao vento e assobio. As pernas ficam endurecidas e resolvo dobrá-las. De tanto procurar à minha volta. Me reprovo por não ter pensado nisso. O vento está forte. não consigo ver bem. mas é inútil. fico em equilíbrio. Que horas serão? Pela posição da Lua. como também me atirou de través. Fico bastante tempo assim. não vejo nada. O meu companheiro estará sobre a sua jangada? Temo por ele.

a Lua demora bastante tempo antes de cair no mar. após ter esfregado os dedos dos pés. “Amanhã verá a floresta. por ter estado diretamente exposto ao Sol das seis manhã às seis da noite. Pelo menos está mais forte. Ah. vejo claramente o Sol se levantando a leste e. para descer e tornar a subir. sinto ainda a frescura da noite. penso. Os meus lábios já estão rachados e. uma linha negra no horizonte. a espuma branca vê-se com frequência que estamos no fim da noite. Quando lá chego acima ponho-me completamente de pé. Tento me recordar com os olhos fechados. no entanto. não será fácil passar o dia. uma ponta da Lua ainda visível na linho do horizonte. achei! De repente. por dizer. a noite passada.levam na sua crista. que durante a noite. Ardem tanto quanto olhos. O Cruzeiro do Sul desapareceu há muito e a Ursa Maior também. Depois de o Cruzeiro do Sul ter desaparecido. as coisas não vão muito mal e que o dia duro será o de amanhã. Nado à direita. nada à esquerda. E esse pensamento me reconforta. fiquei com a pele toda queimada. sem dúvida. Fumo dois. Hoje. Os braços e . O vento parece aumentar. Devem ser quase cinco horas. nada pela frente. na sua crista. A única coisa que parece que eu tinha visto é. revendo as imagens da primeira noite. mas. quanto tempo depois do nascer do Sol é que ela desapareceu. Com certeza é o continente. Papí. Estiquei de novo as pernas. com o Sol batendo de novo em cima de mim. Depois resolvo secar as mãos e fumar um cigarro. Faz trinta horas que estou no mar. Somente a estrela Polar brilha mais que todas as outras. Que horas serão? A Lua está bastante baixa. Já não me lembro. Agora as ondas são maiores e mais profundas. Ontem. Estará ele atrás de mim? Não tenho coragem de ficar de pé e olhar para trás. ao mesmo tempo. vai ver também o seu companheiro!”. Preciso reconhecer por enquanto. Inútil. e. a oeste. agacho-me. se Deus quiser. ela é a rainha do céu.

Imaginem que não vi um único tubarão. Dentro de uma hora. Mal os primeiros raios me tocaram. o com ele vestido. um doce calor me percorre da cintura à cabeça. Levanto a toalha que serve de capuz e exponho o rosto ao Sol. Uma primeira sensação de bem-estar desprende-se de todo o meu corpo. porque sai com toda a força. queimado ou não. Não é preciso frequentar Saint-Cyr59 para saber que todos os destroços voltam à praia. muito bem preparadas. parecendo bastante decidido a torrar tudo hoje. Se puder. (Nota d a revisora: http :/ / am and ikaloka. a mais simples. De todas as fugas muito bem estudadas. Dois sacos de cocos e depois o vento e o mar me levaram. é a vida.com) .4shared . 59 Saint Cyr é um fam osos colég io m ilitar francês. estará muito calor. O monstro dos trópicos surge atrás de mim. chegamos com certeza na terra essa tarde. As coxas e o ânus ardem também terrivelmente. mas devido à água salgada e à fricção dos sacos que formam a jangada. vale bem aguentar isso e muito mais. se for possível aguentar o casaco de lã. afinal. Se o vento e as ondas continuarem durante todo o dia com a mesma força desta noite. O monstro quer fazer-me sentir antes de ser a morte. a mesma coisa. Tenho noventa por cento de probabilidades de chegar vivo ao continente. o que já é alguma coisa. ficou quase morno. Desta vez. estou em liberdade. De qualquer maneira. é certo. como se estivesse em frente de uma lareira. a que melhor resultou foi. ou não será? Nem que fique literalmente esfolado e meio-morto não é um preço elevado por uma viagem destas e com um tal resultado. em um segundo. Expulsa o dia lunar em um piscar de olhos. não tapo os braços e. Não espera emergir completamente do seu leito para fazer a sua imposição como dono e rei indiscutível dos trópicos. Estarão todos de férias? Não posso negar que sou um cara cheio de sorte.as mãos. O vento.

a sensação de haver andado mais rapidamente que se eu tivesse apenas me deixado levar pelas ondas. observando o mar. Tenho a impressão de que ela não está muito longe. Arde. Ao subir do fundo da onda vejo Sylvain de pé na minha frente. No momento em que ela engrossa. contudo. Dissemos bom dia umas vinte vezes pelo menos. essa espécie de vela me fará deslizar mais depressa que ele. também em tronco nu. Notei distintamente que estava com a mão direita sobre os olhos. . Com as mãos em concha. Aguento durante cerca de meia hora. três vezes. Fico de pé e assobio. a cerca de cem metros de mim. Está sentado. Legal! Acabei de ver o meu amigo. Quando sou levantado por outra onda. Uma onda mais forte que as outras leva-me para o continente. nas veias e até as minhas calças molhadas sentem a circulação deste sangue vivificador. O vento sopra forte e eu resolvo. idiota! Olhou com certeza. Certamente. para me aproximar dele. mas não me viu. mas o casaco machuca meus dentes e as forças que preciso empregar para resistir ao vento me esgota depressa de mais. um pouco à frente. sobre a sua jangada. Quando abaixo os braços. Tiro o casaco: vou ficar de tronco nu. antes que o queime de mais. que avançarei quase na mesma linha. Olha para trás. uma. duas. experimento. Mas que está ele a fazer? Não parece preocupado em saber onde me encontro. por um instante. Ele agita o casaco no ar.O sangue corre. Esperarei que o Sol suba um pouco mais para me pôr de pé na jangada e ver consigo avistar Sylvain. fluido. pego em um pouco de água e esfrego nos olhos. Não me viu. Vejo claramente o topo das árvores da floresta. torno a vê-lo. enfiando o casaco nos braços. Encontra-se a menos de duzentos metros de mim. do lado esquerdo. meu amigo. Em menos de uma hora a Sol irá alto. e fará um calor diabos! Sinto o meu olho esquerdo meio fechado. levantando-os e segurando a parte de baixo com a boca. vejo.

a profundeza das ondas. que eu choro como uma criança. sinto-O em volta de mim. hoje toco nEle. nas mil horas que passei nas masmorras lúgubres onde estava enterrado vivo sem ver um raio de luz. Estou completamente seco da cintura para cima. o mar. Molhei a toalha e tornei a colocá-la. uma emoção tão grande. Deus está com você. e neste sol que se levanta para devorar aquilo que não tem força suficiente para suportá-lo toco realmente em Deus. até com os peixes que ele teve de criar em quantidade suficiente para que o homem se alimente. É no meio dos elementos monstruousos da natureza . Estaremos a menos de dez quilômetros. por sorte. ele sobe ao mesmo tempo que eu.o vento. Nas lágrimas que correm dos meus olhos purulentos.” Nunca tive instrução religiosa. encontramos Deus. a floresta. Nas duas últimas ondas. tocamos nEle. porque os ombros. que podemos agora distinguir perfeitamente. Perdi o equilíbrio e caí em cima da jangada. . sou ignorante ao ponto de não saber quem são os pais de Jesus . Papi. Em cada onda que nos ergue acenamos um ao outro e. as estrelas. desta vez. e chegamos a identificá-lo com o vento. Visto o casaco. como um capuz. à volta da cabeça. dentro de mim. mas. Será livre e vencerá. me invade uma alegria imensa. sem procurá-lo. vejo-o estender o braço em direção à floresta. a abóbada imponente da floresta . Ao ver o meu camarada e o mato tão próximo. o Sol. vejo milhares de cristais de todas as cores e penso tolamente: parecem os vitrais de uma igreja.se sua mãe era realmente a Virgem Maria e o pai um carpinteiro ou um cameleiro -. de noite. Ele sussurra-me mesmo ao ouvido: “Você sofreu e vai sofrer mais ainda.antes de tornarmos a nos sentar. e. Devem ser mais ou menos dez horas da manhã. O Sol subiu rapidamente. resolvi ficar com você. não conheço o abc da religião cristã. mas toda essa crassa ignorância não nos impede de encontrar Deus quando realmente o procuramos. Assim como eu O sentia.que nos sentimos infinitamente pequenos em relação a tudo o que nos rodeia. a imensidão do mar.

atravessada. vira-se. De vez em quando. Não só eles dão voltas e mais voltas. que passeiam depenicando60 na areia. petiscar. estão vermelhas como camarões. chegaremos a terra. o que nos faz supor que ainda essa manhã. Os meus olhos supuram sem parar e a pele dos lábios e do nariz já caiu. portanto as ondas não são muito profundas. o sol cai a pino sobre a minha cabeça. Olhe. julgando ajudá-los. Ouvi dizer que eles costumam empurrar em direção à costa os destroços ou os homens. estamos a menos de cinco quilômetros e já consigo avaliar quanto distam entre si os troncos das árvores e até. que. veio clara uma árvore enorme caída. no entanto. e levanta o braço. Quando se distinguem bem pormenores das coisas. que. As ondas são mais curtas e precipitam-se raivosamente. mas vão embora sem sequer encostar na minha jangada. Está mesmo com a intenção de fazer de mim um assado. sei calcular as distâncias. ver o que eu era. da crista de uma onda mais alta. Continua de tronco nu. são só três ou quatro que vieram farejar. lambiscar . Agora. a corrente é mais forte e as ondas dirigem-se quase perpendicularmente para a costa. tenho trazido quase sempre dentro de água. Nossa! Meio-dia. com a folhagem mar.os braços e as costas ardem horrivelmente. com um barulho ensurdecedor. Sylvain quase nunca desaparece da minha vista. Distingo pássaros de plumagem branca. saboreando pequenas porções. pois noto que avançamos de um modo estranhamente rápido. vejo os pormenores da floresta. Graças à minha primeira fuga. Poucos voam a 60 comer aos poucos. Até as pernas. São milhares. beliscar. além disso. com a toalha em cima da cabeça. em direção à costa. golfinhos e pássaros! Espero que os primeiros se divirtam sacudindo a jangada. dentro de quatro ou cinco horas. os afogam com os seus golpes embora o façam com a melhor das intenções. Estamos a menos de um quilômetro da costa. Conforme nos aproximamos.

pois. Mas que faz aquela grande besta? Está de pé e abandonou a jangada. nojenta. mas a sua garganta parece não estar em condições de emitir sons. espraiam-se. Tenho ainda um pouco de água. quarenta horas que parti.com) . porque o momento mais difícil será quando.mais de dois metros de altura. Já não são ondas grandes que nos empurram para a costa. Sylvain está à minha frente e à direita. vencida esta. Não flutuarei antes pelo menos. a mais de cem metros. Toquei no fundo. sobre a areia. e o único ruído que nos perturba são os gritos das aves pernaltas. A água não é suficiente para me levar. Quero assobiar. Estamos tão perto que vejo. Olha para mim e faz gestos. e depois. senão eu ouviria. as ondas começarem a passar por cima de mim para me levarem com elas. às dez da noite. As ondas já não nos atingem. por falta de fundo.4shared . duas horas antes de a maré começar a vazar. Não (Nota d a revisora – http :/ / am and ikaloka. nos encontramos em cima da areia. Há. atacando a praia. Estes pequenos voos curtos são para não se molharem com a espuma. Afunda-se um pouco a cada passo que dá e não conseguirá voltar para trás. Existe uma espécie de barra onde se chocam com um ruído espantoso. Penso que quer dizer qualquer coisa. Endoideceu. Já está. À noite chegarei à floresta. são duas horas da tarde. Pan! Pan! Mais dois ou três metros. a linha suja que a água deixa quando atinge a sua altura máxima. A praia-mar deve principiar lá pelas três. Foi anteontem. O barulho das ondas não chega a cobrir os gritos desses milhares de aves pernaltas de todas as cores. é a sétima maré e é normal que eu esteja em terra. e Sylvain está mais próximo. Pelo Sol. Prendo a corrente para não ser arrancado da jangada. não posso. duas ou três horas. Portanto. estou em terra. nos troncos das árvores. Estou a mais ou menos quinhentos metros da floresta. esvazio o cantil e depois tento gritar para o avisar. O mar tem uma cor amarela pardacenta.

certamente. Demorei. e foi espraiarse maís. bastante rapidamente. onde entrou lama. e o sujeito que cair lá fixa-se. a cara e os braços cheios de lama. Um grito chega até onde estou. empregando todas as minhas forças. mas sim de pé e só com o peito de fora. no caso de se afundar. tento enxugar o olho esquerdo. impedindo a minha visão. olha-me e faz-me sinais que não compreendo. rapidamente: “Quanto mais . Da lama saem algumas bolhas de gás. mais de uma hora.consigo emitir qualquer som. talvez a cinquenta ou sessenta metros. não se mexa. avanço na sua direção mais de trinta metros. A primeira onda acaba de chegar. Acename com a cabeça em sinal de compreensão. O terror devolve a minha voz e grito: .Sylvain. De repente. É então que vejo distintamente o meu amigo enterrado até o ventre. A raiva me dá forças sobrehumanas e. Passou também por cima. vejo-o. Para cúmulo. Sylvain volta-se de novo para mim. Passou literalmente por cima de mim. embora não o veja. Vejo mal. mas estou bastante perto dele. Enfim. Sentado. com as mãos. Eu gesticulo como se quisesse dizer: não. Já não está deitado. deito-me de bruços e enterro as mãos na areia. Está a mais de dez metros da sua jangada. sem contudo me arrastar. Penso. de Sylvain. a chorar. percebo. fazendo deslizar a jangada. não. longe. Então. por baixo está o lodo. agache-se na areia! Se puder. não sei se está perto ou longe dela. é apenas uma crosta fina. sendo-lhe impossível voltar para a jangada. nunca chegarás à floresta! Como a jangada dele se encontra de permeio. A princípio penso que deve estar bastante próximo e que. o meu olho direito começa a coçar e eu. que ele se afastou bastante e que se afundou na lama. A jangada avança e desliza mais de vinte metros. não saias da jangada. cobrindo a areia de espuma. solte as pernas! O vento foi o mensageiro do meu desesperado apelo e ele compreendeu. que está ainda com o peito de fora. Deito-me de novo de bruços e arranco a lama. poderá agarrar-se.

Estou a menos de quarenta metros. os seus olhos estão arregalados para os meus. sem um gesto. que positivamente o devoram. coberta de uma leve camada espumosa. Sylvain desapareceu. Volto a deitar-me de bruços e a arrancar essa lama que está agora quase líquida. Continuo. olho. o instinto de conservação acaba com qualquer sentimento: “Está vivo. custe o que custar. Percebo que ele sabe que vai morrer. Arrasto-me um pouco. mas. que não me esforce mais. Uma onda enorme acaba de passar. que. Quando a onda se retira.” Uma energia de animal que vai perder a sua cria se apossa de mim e. está completamente lisa. Olha-me intensamente. como uma mãe que quer salvar o seu filho de um perigo iminente. a trezentos metros da terra. A lama. Faz-me sinal como para me dizer que não insista.” . Ele me olha sem uma palavra. e quando chegar na floresta não serà nada fácil. para chegar junto dele.ondas vierem. A minha reação é horrível. como um pobre imbecil. me cobrindo. Os meus olhos estão fixos nos dele. mais mole fica a lama. mas sozinho. Não tenho outra preocupação que não seja olhá-lo. avança cinco ou seis metros. e desinteressa-me por completo ver onde enterro as mãos. repugnante. quase me asfixiou e me arrancou da jangada. a areia amoleceu prometida. Sento-me para ver melhor. desprendendo-se. procuro deslizar sobre a lama. mesmo assim. e estou a menos de trinta metros quando chega uma onda enorme que me cobre com a sua massa de água e quase me arranca da jangada. Avanço muito menos rapidamente que há uma hora. Nem sequer a mão do meu pobre amigo aparece para me dizer um último adeus. Sylvain está enterrado na lama até as axilas. por causa das duas outras ondas que passaram por cima de mim. sem o seu amigo. conseguir escapar. Preciso de chegar ao pé dele.

Cada vez deslizo mais alguns metros. A trovoada acabou. posso precisar dela.. A jangada deslizou ainda alguns metros e começo somente então. Só cerca de uma hora depois é que há fundo suficiente para que eu seja novamente levantado e levado para o interior dá floresta. Cobrem-me completamente e de água. Lá pelas cinco horas. com um barulho de trovoada. sem parar. sobre a areia. A menos de trezentos metros das árvores! Mas porque fez uma coisa dessas? Como pôde pensar que essa crosta seca era bastante firme para permitir que você chegasse a pé até a floresta? O sol? A reverberação? Não conseguia resistir por mais tempo a esse inferno? Por que razão um homem como você não pôde aguentarse mais algumas horas?” As ondas sucedem-se umas às outras. A onda que me empurrou. rugindo. A jangada de Sylvaín já entrou no meio da vegetação. despertame dos meus pensamentos. Mas não a jogo fora. ao ver a onda espraiar-se perto das árvores. silenciosas e eu desencalho e flutuo.Uma onda que se quebra nas minhas costas. Dobrou-me em dois e o golpe foi tão forte que perco a respiração durante dois segundos. O intervalo entre elas é cada vez menor e o seu tamanho aumenta. encontro-me de novo em seco. Apenas vinte metros. sempre sobre a lama. os carneirinhos transformam-se de repente em ondas. com o choro por Sylvain: “Estávamos tão perto! Se não se tivesse metido na lama. e sou depositado apenas a vinte metros da floresta virgem. . Solto o parafuso e livro-me da corrente.. atirou-me sobre as árvores. Chego. não muito brutalmente. porque estou sentado. Quando a onda se retira. e estou plenamente resolvido a não me mexer da minha jangada até que tenha um galho ou um cipó ao alcance das mãos.

É. porque ali abunda o lodo mortal. permitirão eu comer e aguentar a caminhada. Antes de dar um passo. Não. O meu corpo arde. De qualquer maneira. meio andando. Tenho as pernas cheias de ervas de folhas e ainda continuo empurrando os sacos que me serviram de jangada. mas ainda me restam três pedaços de polpa de coco. Neles está a minha vida. abranda as minhas . profundamente na floresta. depois de abertos. por ser oleosa. os meus pés apalpam primeiro o terreno debaixo de água e só quando esse não afunda é que avanço. horizontalmente. devem ser sete ou oito da manhã. O sol penetra. A polpa. A água penetra até muito dentro do mato e. penetro no mato. Uma quantidade de bichos passeiam por acima de mim. ainda não me encontro em terra enxuta. talvez tenha dito duas ou três vezes “pobre Sylvain!” antes de adormecer corno uma pedra. quando a noite cai. que puxei para cima da árvore e prendi dos lados.Na floresta Rapidamente. talvez. o fim da décima maré cheia. São os gritos dos pássaros que me acordam. meio a nadando. Só vejo água à minha volta. antes que venha o pôr do Sol. Acabo de vestir o casaco e depois amarro bem os sacos. esperarei que a água se retire para ir à beira-mar e apanhar um pouco de sol. Passo a minha primeira noite instalado sobre uma árvore caída. Estendo-me. porque os cocos. A minha caçimba está presa no pulso direito. Já passaram sessenta horas desde que saí da ilha do Diabo: Não sei se estou longe do mar. que como deliciado. esgotado num lugar onde dois galhos formam uma espécie de nicho e adormeço: antes de ter tempo de pensar seja no que for. passando em seguida um resto sobre as minhas feridas. Já não tenho água doce. Um cheiro a podre chega ao meu nariz e com ele vem tanto gás que os olhos começam a arder-me.

de encontro a uma árvore. Vou acampar e descansar durante vinte e quatro horas. só uma grande tristeza invade o meu coração e fecho os olhos como se isso pudesse me impedir de assistir à cena da morte do meu amigo. retirar a polpa deles e colocarei-a dentro dos sacos. Podia fazer uma fogueira. caminhando sem muita dificuldade. mas acho que não é prudente. Acabo de tirar a polpa dos cocos e. Fumo um cigarro. Em menos de duas horas.queimaduras. Olho demoradamente o local onde suponho que Sylvian desapaceu. Penso em Sylvan. Depois fumo dois cígarros. terreno seco. agora. se era essa a minha idéia? Portanto. lavei-o com água salgada tirada de uma poça. O mar retira-se rapidamente e chego com facilidade à beiramar. As minhas roupas enxugam depressa e o corpo também. caminhando pela areia. Arrumei bem os sacos dentro do nicho e começo a tirar os cocos. É melhor que com um facão. Antes de mais. pronta para comer quando quiser. dirijo-me para oeste. Para ele tudo acabou. O resto do dia e da noite passou-se sem qualquer incidente. por fim. . O Sol está brilhante e o mar de uma beleza sem igual. Consigo descascar dois. Com sacos ao ombro embrenho-me lentamente entre as árvores. Tem de ser assim para que a casca se abra. nada se modificou. desta vez sem egoísmo. com toda a força. encontro. porque não fugi sozinho. Há qualquer marca nos troncos das árvores que indique a maré chegue até aqui. Como um coco inteiro e bebo a pouca água muito açucarada que ele contém. Abrirei os cocos aos poucos. Lanço um último olhar para o túmulo do meu amigo na floresta. batendo com as extremidades deles. O barulho dos pássaros me acorda ao nascer do Sol. com uma pequena trouxa no ombro.

de a algum incêndio provocado pelo homem ou por um Procuro observar o Sol. vou lavá-los com água doce. do lado esquerdo é quase noite. na ocasião da minha primeira fuga de São Lourenço do Maroni. lenhadores ou fornecedores dos garimpeiros. a abóbada da floresta fica a mais de vinte. com o polegar claramente moldado na lama. juntamente com os cocos. mais uma prova de que devo avançar com o máximo cuidado. O caminho é estreito. Resolvo caminhar até o anoitecer.Pelas três da tarde. depois de transformá-la em uma pasta de óleo e polpa. mas está desimpedido de galhos. tinha um estojo de barbear. esfrego os lábios e a cara com ela. Os meus olhos se colam muitas vezes e estão cheios de pus. em uma caixa vedada com um pedaço de sabonete. mas não preciso usá-la. encontro um trilho. Tem duas camadas e não é tão serrada como aquela. Ando rapidamente. mais para cima. . escurece. Algumas vezes. o que significa que deve ser bastante frequentado. Assim que puder. De vez em quando. É um caminho de seringueiros. vejo algumas marcas de burro ou de mula sem ferraduras. Está dia só do lado direito do caminho. Caminho de catana na mão. ao mesmo tempo. É impossível caminhar de noite. nas valetas. galhos cortados recentemente. Recuperei-a intacta. doze lâminas e um pincel. A primeira linha de vegetação vai até cinco ou seis metros de altura e. De repente. A floresta não é a mesma a que eu estava habituado. porque o trilho está livre de obstáculos. A sua inclinação mostra que quase a desaparecer. Vou mastigando a polpa de coco e. Nos sacos. Vejo até. e às vezes encontro uma clareira. netro na floresta e procuro um canto para me deitar. Víro-lhe as costas e dirijo-me para les -na direção da aldeia de negros de Kourou ou da peniten do mesmo nome. me alimentar e matar a sede. e em uns buracos de barro seco distingo também pegadas de homem.

Estão muito distantes os guardas da Real. Para quê alterar o plano? Se no Diabo concluíram que nós nos afogamos não há perigo. me deito em cima de um montão dessas folhas. bem abrigado debaixo de umas folhas lisas de uma espécie de bananeira. de São José e do Diabo. o que se pode fazer? Para agir. onde se encontram os chineses e. não deixe de ser forte. Kourou torna-se perigosa. Como existe aí um presídio para estrangeiros. . na vida de alguém que o aconselhasse ou apoiasse. Deve também haver ali um posto da Polícia. o irmão de Chang. Certamente que adormecerei logo de seguida e tenho a impressão de não estar chovendo. apesar de estar: sozinho. Apesar do desgosto natural causado pela perda do seu amigo. pois seca a minha boca e não consigo salivar facilmente. Só a sede é que me atormenta. mas se admitiram que houve uma fuga. deve estar cheio de árabes.A mais de trinta metros do atalho. Papi. portanto. antes que topem com você. meu caro PapílIon. Não se deixe apanhar como um anjinho. nunca precisaste. É um homnem ou não é? Não seja bobo. e essa é a terceira noite que passei sem incidentes no continente. Os guardas do presídio dos estrangeiros. Tinha pensado em agarrar o primeiro guarda que aparecesse e obrigá-lo a levarme às proximidades do presídio de Inini. há seis dias que deixaste. Cuidado. O coco me sustenta. Será conveniente ir até a aldeia? Não conheço nada dos arredores. Nada de erros. Apenas sei que o presídio fica entre essa e o rio. portanto de caçadores de homens. Kourou já deve estar informada. Ah! Se Sylvaín estivesse aqui comigo! Mas não está. tem de descobrir os caras. Papillon. Cuic-Cuic. todos devem saber. sejam eles quem for. A segunda parte da fuga começou. Esta noite não estou muito cansado. que cortei com a catana. Fumo dois cigarros. os negros da aldeia.

porque. obedece. preciso afastá-los.Não devo seguir pelo trilho. não tira os olhos do chão. acordado pelos gritos estridentes dos pássaros que saúdam o nascer do dia. aterrorizado. Ah. salta em cima dele. A minha mão direita agarrou no braço que a a espingarda e. pelo amor de Deus! Está de pé. avanço com bastante dificuldade. obrigo-o a largála. mas não vejo a pessoa que assobia.O senhor é um fugitivo? . fiz bem em agir assim. Traz um fardo nas costas Tem uma arma na mão direita. . olha para mim: . Para mim. Cometi um grande erro ao caminhar todo o dia por esse atalho. Engatilho a espingarda e. desperto juntamente a floresta. deixe-o cair. O pobre negro. ordeno: . Bom. Na altura em que passa em frente da árvore. com a catana pronta a entrar em ação. aí vem ela. torcendo-o. espero que ele se aproxime.Ponha o fardo no chão. apesar de os cipós e de os galhos não serem muito grandes. mas sim pelo mato. começa também um novo dia. Me levanto muito cedo. o atalho segue direto durante uns cinquenta metros. É um negro retinto. Escondido atrás de uma árvore grande. para próximo daquele. Não foi leviandade. e encosto a ponta da minha faca no pescoço dele. amanhã ando pelo mato. Passo um pouco pela cara e me ponho a caminho. as costas dobradas sob o peso do volumoso fardo. porque daí a pouco ouço um assovio. Depois. À minha frente. mesmo à beira do trilho. foi uma loucura. Com a cabeça baixa. mas já no meio das árvores. Veste uma camisa de caqui e uns shorts e está descalço. Não tente fugir porque eu o mato. Bem perto do trilho. afastando-me dois metros.Não me mate! Tenha dó de mim. tendo como única arma a catana. Como um punhado de coco e mastigo-o bem. De qualquer maneira.

por favor. . Assim que eu entre em contato com determinado chinês.Cale a boca. Pelo amor de Deus. . .Sou.É da aldeia? .Nasci lá. O que quer que eu faça? Cumprirei todas as suas ordens até mesmo sem ganhar nada. não me mate. . .Conheces Iníni? . Como se chama? . . Se fizer o que eu mandar. Entendido? . Se me denunciar ou me enganar. eu o mato. você pode partir.Para onde vais? .Uma nota de quinhentos francos.O que quer? Pode ficar com tudo o que eu tenho.Vou levar mantimentos e remédios aos meus dois irmãos. Escolhe. .Está bem. dou ela de presente a você e devolvo a espingarda.De Kourou. tenho cinco filhos.De onde vem? . . deixe-me viver. mas.O que é? . que estão cortando lenha no mato. ..Preciso que me leve até o presídio de Inini. às vezes negocio com os chineses do presídio.Conheço.Está vendo isto? .Jean.

Tira seis latas.Esconda o seu fardo no mato. Jean. porque se os guardas ou os caçadores de homens me apanharem. Jean. senhor Papillon.Confio em você. .Bom. tão facilmente ele se desenvencilha dos galhos e dos cipós.. correrá grandes riscos quando passarmos perto do presídio. Espero que não me enganes.Não me engane.Como quer que o trate. Quero ser honesto com o senhor. para saber onde está – dígo a ele.Em Kourou já se sabe que dois condenados fugiram das ilhas. . . . Ele tem leite condensado. juro que o ajudarei honestamente. Garanto-lhe que o levo até Inini pela floresta.De agora em diante. tome cuidado para que ninguém nos veja. . Siga o caminho que lhe parecer mais seguro. porque se nos descobrem a culpa é sua. precisamos nos embrenhar diretamente na floresta e passar bem longe de Kourou. Eu me visto sem largar a espingarda.Não. Bebo uma lata de leite. qual será a melhor maneira de chegarmos a Inini? Pense que a minha segurança é a sua vida. . poderá vir buscá-lo tarde. Em sua opinião.Por Papíllon. e entao você tá ferrado. Ele me deu também umas calças compridas novinhas e um blusão. . oferece a mim e me dá também um pão de quilo e toucinho fumado. se não é um homem morto. Jean sabe andar no mato melhor que eu e é difícil para mim acompanhá-lo. Vou fazer uma marca nesta árvore. serei obrigado a matá-lo. senhor? .Parece bom e honesto. . .

sente-se como que tranquilo.Tem menos medo agora. assim que deixámos as proximidades do trilho. . . . .Tome um maço de Gauloises.Sentamo-nos em um grande galho de árvore. . senhor Papillon. tem trinta e dois anos. Já não sua tanto e a sua fisionomia está menos contraída. Faz pena ver como eles morrem aos poucos.Pare. é um cara super legal.Já tínhamos caminhado com muitas precauções. mas. Nas ilha é melhor. Avançamos rapidamente. . quero fazer um cigarro. sou muito bom.Viu muitos? Onde? . . sofro ao ver como os presos são tratados pelos guardas da França. Ofereço-lhe uma das suas latas de leite.No presídio dos estrangeiros de Kourou. Esse negro é inteligente. É a primeira vez que vejo um condenado gozar de perfeita saúde. Saiba o senhor que. . -Sou sim. era muito perigo para o senhor e também para mim. Jean. pela febre e pela disenteria. Perto do atalho.A sua mulher é jovem? . Jean? .Pois é.Sim. Eu tenho quarenta. três meninas e dois rapazes.Ganha bem a vida? . . reparo que Jean parece mais calmo. destruídos por esse trabalho de cortar lenha. nunca se afasta mais de três ou quatro metros.É. . como católico. estamos melhor nas ilhas.Obrigado.pergunto-lhe. Temos cinco filhos. Ele recusa e prefere mastigar a polpa do coco.

os meninos vão para a escola. esse presídio é uma podridão e um homem corajoso deve fugir desta sujeira. Pelo contrário. trabalhador. Pobre negro que acha que. sem nunca hesitar no caminho a seguir. os olhos mostram claramente que é dotado de sentimentos. Ganharia em dobro: livra-se do perigo que represento para ele e recebe uma recompensa por matar um cativo. bom pai de família. mas dá para matar a fome. Há dez anos que estou no cárcere e que procuro fugir para ser livre. como você. Jean explica que. tenho receio de prendê-lo. precisamos evitar um ou dois postos avançados. Conseguiremos. ouvem-se tiros. Além disso. porque acho que ele pode desaparafusá-lo 61 Árvore nativa da Amazônia. Sempre é uma ajudinha.Eu. Pois é. E se eu estiver enganado a respeito do negro? Se ele for falso pode pegar na espingarda e me matar quando adormecer. deita-se. Têm sempre o que calçar. para chegar perto do presídio. . . com cerne castanho-amarelado. onde chegamos duas horas depois de anoitecer. e construir uma família. da qual se obtém essência us. mas não se vê luz alguma. tento reviver. Decidimos parar e passar ali a noite. Jean. Com um maravilhoso senso de orientação. (Nota da revisora: http :/ / am and ikaloka.4shared . bom marido.Nós sustentamos mais ou menos com o pau-rosa61 e a minha mulher lava e engoma a roupa dos guardas. Sem falar. É quase da minha altura e o seu rosto de negro não tem nada de antipático.Vou ajudá-lo honestamente a conseguir isso. bom cristão. em perfumaria. No entanto. Ao longe. Jean leva-me diretamente a arredores do presídio dos chineses.E o senhor Papillon? . ele é muito inteligente. Ainda possuo a minha corrente e o parafuso. lá porque os seus filhos têm sapatos para calçar. Você mesmo disse. Sinto-me morto de cansaço.. de madeira pesada. Somos muito pobres.com ) . mas tenho medo de adormecer. nada mais interessa.

talvez provisoriamente. fazer-me desaparecer. ajudado por algumas queimaduras de cigarro e. homens nem animais ferozes nas proximidades. ajudado pelas queimaduras e pelas picadas dos . além do mais. porque. não havendo. e distingo perfeitamente o urro do gorila. e naturalmente. em 1931. Desejo apenas que eles não sejam portadores de malária ou de febre-amarela. Não posso confiar neste homem. Completamente tenso. conseguiu. fora do “caminho da podridão”. Agora queestou. Poderia livrar-me deles passando pelo corpo saliva misturada com tabaco. aguento sem muito esforço e. por uma nuvem de mosquitos absolutamente decididos a sugar o meu sangue. Tenho um maço inteiro de Gauloises. A noite está escura como breu. tenho a impressão de que adormecerei. sobretudo. Farei tudo para não dormir. Nem larguei a espingarda. mantenho-me desperto. considera-me um bandido. tinha vinte e cinco. Foi em 1932 que o promotor sem coração. Ele está deitado a dois metros de mim. Quando entrei nele. Vim desde o fundo desse poço e estou prestes a sair dele. que. grito rouco e possante que ouve a quilômetros. fossa cheia de líquido viscoso que deveria me derreter e. É muito importante. A noite passa lentamente. lançar-me. neste poço que é a penitenciária. enfim. mas consigo não dormir. levar a bom termo a primeira parte da fuga. A floresta tem os ruídos característicos da noite. Estamos em 1941. Consegui. lentamente. mas. Portanto. tentarei manter-me acordado. portanto. se o fizer. se se repete com regularidade. Fiquei tão bem acordado. agirei com tanta precaução para nada. por meio de um instinto impiedoso e desumano. jovem e forte. Pesnso em mobilizar toda a minha energia e inteligência para a segunda etapa. São dez anos. é sinal de que o bando pode comer e dormir tranquilo. e eu só lhe veio o branco da planta dos pés.tão bem como eu e.

O dia nasceu. Posso estar satisfeito comigo mesmo. Daqui a uma hora. que o dia vai nascer. Já lhe disse que pode ter confiança em mim. O negro senta-se.Passo-lhe a faca sem hesitar. e começa a coçar os pés. já teremos alguma claridade. Estamos perto de uma boa estrada que lhe dá acesso. devolveu-me a faca. Decidi ajudá-lo para que o seu plano tenha êxito. que a arma não caiu uma só vez da minha mão. . Empreste-me a sua faca. o senhor não dormiu? Não. chegamos aos arredores do presídio de Inini. O espírito foi mais forte do que o sono e eu alegrome ao ouvir os primeiros gritos dos pássaros. sem qualquer encontro bom ou mau. − − Obrigado. Somente os bichos percebem. senhor Papillon. Os que “se levantam mais cedo que os outros” são o prelúdio de que não se deve esperar por muito tempo. caminho de ferro de via reduzida corre ao lado desse terreno baldio desbravado.Beba a água que tem dentro e passe um pouco na cara. depois de termos patinhado muitas vezes dentro de grandes poças de lama que tivemos que atravessar. − − Bom dia. Nessa estranha bacia bebo e lavo-me. Jean. . Jean. Vamos andando.mosquitos. que. me dá um pedaço grande e guarda o outro. anunciam o próximo nascer do dia. . Acendo um cigarro e Jean também fuma. Ele anda dois ou três passos e corta um galho de certa planta. não arrisquei a minha liberdade. capitulando sob a importância de tanto esforço. . muito antes de todos. Vai custar a fazer dia na floresta? Ainda demora mais de uma hora. depois de ter se espreguiçado. É lá pelo meio-dia.Fez mal.

A estrada é muito movimentada. Aqui estão os quinhentos francos e a espingarda (que antes descarreguei). Passam uns chineses. de Caiena. diga: “Aquele condenado parecia bom rapaz. Você foi honesto. caçar. etc. Jean revela que as varas têm uma ponta de ferro que serve para empurrar ou para travar os vagões. dois chineses com longas varas de madeira fazemno deslocar-se. dá pra ouvir de longe . Gostaria. Tem um banco na parte superior. Deus lhe pague melhor do que eu por ter ajudado um desgraçado a tentar se salvar. Terão menos medo de mim do que se encontrarem um branco foragido. fico com você até amanhã de manhã. de ser eu próprio a chamar o chinês que escolher para avisar o seu amigo. Obrigado.” . Espero que. Saem faíscas das rodas. Mesmo que apareça um guarda.Toma. Tenho a minha faca e a catana. Vá embora. Alguns chineses podem ir para o mato durante algumas horas. caçar borboletas.. Está quase anoitecendo e não poderei andar muito.É por ali que circulam os vagões empurrados pelos chineses. Deixe-me ir pela estrada. procurar cipós para fazer móveis ou folhas de coco para confeccionar esteiras. . Tome lá a espingarda. mais uma vez obrigado. outros um porco do monte e outros ainda montes de folhas de coqueiro. Jean. se o senhor quiser. é tarde. não estou arrependido de o ter ajudado ele. para protegem do sol os legumes da horta. não estranhará a minha presença. Fazem um barulho terrível. Atrás. Tenha confiança em mim. mas todos têm de regressar antes da cinco da tarde. .diz Jean.Senhor Papillon. quando contar essa história aos seus filhos. Todos eles parecem dirigir-se para o presídio e Jean diz que há muitas razões para andarem na floresta. Assistimos à passagem de um deles. cobras. carregando nos ombros rolos de bananas. onde se sentam dois guardas. Direi que vim procurar pau-rosa para o entreposto de madeira Symphorien. depois de terminarem a tarefa determinada pela administração.

mas dizem algumas palavras em chinês ao seu compatriota. . porque. . . . do contrário.diz em dialecto um velho chinês que leva ombros um pequeno tronco de bananeira. . − − Fugiu? Sim.Bom dia . Vêm até junto de mim. Está pendurada pelos pés e a cabeça vai rolando pelo chão. transportando uma grande corça enfiada em uma estaca. Aproximando-se. O que você quer? . Assobio. leve a sua espingarda.Ri e olha-me com os seus olhos severos. Jjean manda o velho entrar no mato. que eu quero falar com você.Está bem. que responde com dois ou três monossílabos.Então. Como se chama? − Papillon. agrada-me: − − Bom dia.. . certamente um palmito.Falam uns cinco minutos.Seguem sem cumprimentar o negro. acharão estranho ver um homem desarmado na floresta. Pare. chinês.Bom. .E pára. Bom. que parou para cumprimentar Jean. porque esse velho educado.Está no meio da estrada. estende-me a mão. Não ouço a conversa.De onde? -Do Diabo. . Dois chineses passam. Assobiarei de leve quando ver o chinês que me convenha.

Partiu por mar? .Cuic-Cuic roubou sessenta patos do comandante do presídio. O comandante quer matar Cuic-Cuic. Jean fica vigiando. Jean? .O que acha.Porquê? . . amigo íntimo de Cuic-Cuic. em último caso vou aceitá-la.Compreendo. Sou amigo de Chang Vauquien.Ah! Bom! . porque se o senhor quiser que nós voltemos atrás.Impossível. E o velho afasta-se. irmão de Cuic-Cuic.Que você avise Cuic-Cuic de que o espero aqui. confio nele. . Não saia daqui. . até Kourou.Não sei bem. . mas não faça fogo aqui.Não sei.Jean. .Há quanto tempo? -Dois meses. Obrigado pela sua oferta. vou para muito longe. .− Eu não conheço. Volto essa noite. . .Nada está perdido. com um gosto pronunciado de avelã. eu arranjo-lhe um barco. Ele resolve. consigo uma vela para fugir por mar. Eu volto e trago comida para você e cigarros.Aperta-me novamente a mão. Quando ouvir saia para a estrada. Vou ao presídio falar com outro chinês. Compreende? . O chinês tínha nos dado um grande pedaço de palmito.A que horas? . . Eu assobio La Madelon. é impossível partir sozinho.O que quer ? . Por isso ele fugiu. É fresco e delicioso. Comemos. .

. quente. Confia em mim.Vamos nos sentar na borda da estrada . alguém assobia La Madelon .É amigo íntimo de Chang? . Ele disse para eu procur Cuic-Cuic para fugir com ele. acordando-me. talvez nove horas. .Sou. chama-se Van Hue. . Jean veio para junto de nós. Quais são as tatuagens de Chang? . delicioso. Tem um braço cortado. Disse-me que esses três pontos representavam a marca de que ele tinha sido o chefe da revolta de Poulu Condor. Cada um deles aperta a minha mão.Um dragão no peito e três pontos na mão esquerda.Muito bem. -Coma primeiro e depois fale . Sou um bom marinheiro. .Na sombra ninguém nos vê. até a Colômbia.Que horas são? . Confortou-nos e resolvemos guardar o resto da comida para mais tarde.diz Jean. .Passo tabaco molhado pelo rosto e pelas mãos. Bebemos um chá açucarado. é por isso que Chang quer que eu leve o irmão. São três. A Lua vai nascer. Sempre assobiando. chegam junto de nós. O seu melhor amigo é outro dos chefes da revolta.Senhor Papillon.diz um deles em francês correto. fui muito longe. Jean e eu comemos uma sopa de legumes bem quente. .diz o letrado do grupo. porque os mosquitos começam a atacar. Eu já escapei uma vez. Aproxima-se quem estava assobiando e eu respondo. . A noite está escura como breu. Vamos para a estrada.Não é muito tarde.

diz o intelectual. Quando tiver bastante. o dia surge e ouve-se ao longe o ruído de um vagão que avança sobre a linha férrea. Volto para o mato e adormeço feliz. Ouça bem: Cuíc-Cuic ainda não conseguiu fugir porque não sabe dirigir um barco. Andam sem se esconder. Jean diz: . porque está cercada de areia movediça. Van Hue aparece antes do nascer do dia.Está bem. Quem quiser chegar lá sem conhecer o caminho. Apertamos as mãos e eles partem. ponte. Onde está não corre perigo algum. a uns dez quilômetros daqui. explicarão que foram verificar umas armadilhas colocadas no mato durante o dia. Ele fabrica carvão de lenha. Venho buscar você de madrugada para levar você até Cuic-Cuic. Quando ele chegar. depois de fumar alguns cigarros com a barriga cheia de um boa sopa. . Para ganhar tempo. Se os apanharem. Uns amigos vendem o carvão e devolvem o dinheiro. durante mais de quarenta minutos. Durma aí. permitindo ver até uns cinquenta metros de distância. seguimos pela estrada at que amanheça. Andamos depressa. De repente. Chegamos a uma ponte de madeira e ele diz: . eu o chamo. virei procurar você amanhã de .Desça para debaixo da manhã. portanto. não durma aqui. Seguimos pela beira da estrada. é nosso amigo. .Senhor Papillon. Ninguém pode ir à espécie de ilha onde se escondeu. se enterrará no lodo.Você é realmente amigo de Chang..Sou eu . Venha conosco. Além disso está sozinho na floresta. Durma na floresta que eu fico aqui. porque a Lua surgiu e está claro. Nos escondemos na floresta. comprará um barco e arranjará alguém que fuja com ele.

Explicou-me a maneira de.Ande comigo .Vai à frente.Em frente . Um sujeito aproxima-se da borda da ilha. Jean. Demoram e eu começo a perder a paciência. com nenúfares em flor e grandes folhas verdes charco. se não é engolido sem possibilidade de escapar adverte : . De que se alimentará o animal. . eu o sigo e passarei a ter mais atenção. no caso de eu não chegar a acordo com Cuic-Cuic. Van Hue. Van Hue pára e começa a cantar. ir falar com ele novamente na sua aldeia.. Insisto em que ele aceite os quinhentos francos. uma ilhota. se calam. Os dois chinas conversam. Evita cortar cipós ou ervas à catanada. Deve ser a lenha ardendo. . até que.Adeus. voltando pelo mesmo caminho. Aperto a mão desse bravo negro da Guiana e ele desaparece no mato. em voz alta. estamos diante de um pântano. . que acaba de me ver escorregar. Sígo-o. Veio um caimão só com os olhos à mostra. a você e à sua família. Na nossa frente. Do meio da minúscula ilha sai um rolo de fumo. obrigado e boa sorte. Em menos de três horas. Orienta-se sem hesitar e avançamos rapidamente porque a vegetação não é muito densa. finalmente. presos na lama. a uns cento e cinquenta metros.diz Van Hue embrenhando-se na floresta. não escorregue.Cuidado. metido assim na lama? Depois de andar mais de um quilômetro pela margem desta espécie de lago de lama.diz Van Hue. afastando-as com as mãos. na sua língua. Seguimos pela borda do vasto . Que Deus o abençoe. É baixo e está em calções.

Sou. assombrado.Obrigado . . Sentamos. porque então não é apenas um.Presta bem atenção. -Não. olhos inteligentes e francos. não podemos ajudar um ao outro. Tem de andar pressa porque os sinais que o porco deixa desaparecem muito rapidamente. O caminho nunca é o mesmo. . É um cara com dentes muito polidos. leve essa perdiz.diz este. Cuic-Cuic chega cerca de uma hora depois. é preciso esperar aqui. Se acontecer um acidente. Cuic-Cuic observa e eu arregalo os olhos. mas dois que desaparecem. O menor passo em falso e se afunda. Ele foi caçar. Fico desconcertado por ver que esse animalzinho lhe obedece como um cão. que tinha junto de si um pequeno porco preto. o animal fareja e embrenha-se rapidamente no pântano.Tudo certo. obrigado.. . O meu novo amigo põe-se rapidamente caminho e diz: . De fato. .me dá um aperto de mão e vai embora. mas o porco encontra sempre passagem. pode ir embora. O porquinho chega ao outro lado sem nunca se afundar mais do que dois centímetros. Van Hue. . É um amigo de Cuic-Cuic. Cuic-Cuic. volta-se para mim e avisa-me. .Põe os pés em cima da marca dos meus. não demora.Tome.Você é amigo do meu irmão Chang? .Tudo ok. A lama nunca me . Uma vez tive de esperar dois dias. Papillon. porque a lama se desloca. O chinês fala para ele na sua língua.

Escorria suor por todos os lados. um homem de pequena estatura. . . não é aqui que os caçadores de homens nos encontrarão! . me ajuda a subir e a pular para o rebordo da ilhota. sinhô. sorrindo e mostrando as gengivas desdentadas. avistei uma cabana.ultrapassou a barriga das pernas. . o pequeno chínês que vi antes de Cui-Cuic. Uma porta e. É o fumo proveniente das duas carvoarias.Fala com ele em francês e não em dialeto. O china. é um amigo de meu irmão. Tusso. O porco fez dois desvios compridos.Bom dia. na frente desta. quanto a isso pode estar descansado! Penetramos na ilhota. . divisava o seu corpo. embora estivesse bem acordado. um franguito que é só pele e osso.Ah!. . Perto. o que nos obrigou a andar em cima desta crosta pouco firme mais de duzentos metros.Me dá a mão. trançadas como se fossem esteiras. estende-me a mão. E Cuíc-Cuíc. perguntava a mim mesmo se o meu destino não seria morrer como o infortunado Sylvain. um casebre com o telhado de folhas e as paredes também de folhas. Um cheiro de gás carbônico invade a minha garganta. mas o rosto dele parecia ter os meus traços. Aqui não há perigo de aparecerem mosquitos.Bom. Tornava a ver o desgraçado pela última vez e. Na primeira parte do trajeto. Não posso dizer que sentia somente medo. Que impressão me produziu essa passagem! Não vai ser fácil esquecê-la. estava realmente aterrorizado. envolvida no fumo. e mesmo assim isso só aconteceu quase no fim. examina-me da cabeça aos pés. Satisfeito com a inspeção.

Sim. sente-se. É limpa a única divisão desse casebre. e por isso. o dono dos patos. . ficou cor de cobre. o meu leito está pronto. queria me matar. Em um canto. seguida por arroz com carne e cebolas. onde ferve um caldeirão. Com o sol.Então. falando.. que vêm de Cascade. roubei os patos do comandante do presídio e foi por isso que fugi.Me ajude a arranjar uma cama para ele dormir de noite. olham bem de frente quando fala. uma espécie de lareira. de um preto brilhante.Onde é que jogas? . ficamos sozinhos. que o maneta trouxe. Cuic-Cuic. compridos feitos por ele com folhas de tabaco preto. . faz agora três meses. Os chineses do presídio de Inini e os libertos. cada um de nós procura conhecer e compreender o outro. Todas as noites se joga.No mato. . Os seus olhos bastante severos. . Fuma uns cigarros.Pois é. Em menos de meia hora. porque o comandante. e. Cuic-Cuic e eu. O amigo de Cuic-Cuic é o que vende o carvão. uma cama feita de galhos de árvores. tive de fugir. a um metro do chão. Os chineses põem a mesa e comemos uma sopa deliciosa. Com o rosto iluminado pelas chamas da pequena lareira. Eu continuo a fumar cigarros enrolados em papel de arroz. mas também o que ganhei com a venda do carvão. pelo menos. O azar é que perdi no jogo não só o dinheiro dos patos. sentamos um em frente do outro. . Nos examinamos. O rosto de Cuic-Cuic não é bem amarelo. quando escurece. noutro. Não vive na ilha. .Entre.

É por causa da fuga correr bem. está bem. que é o nome dele. fecho os olhos. Papillon. . porque ele quer ir de madrugada procurar Chocolat.Mas eu também quero vê-la. não há um só mosquito. O fumo faz eu tossir e irrita a minha garganta. .Agora já percebo a atitude de meu irmão. nos deitamos.Bom. . Depois de colocar um galho enorme na lareira. Existe uma boa lancha para vender por mil e quinhentos francos. Não consigo adormecer. para durar toda a noite.já. dormir. Cuic-Cuic é baixo. da morte de Sylvain. O dono é um negro. pensei em comprar um barco e procurar alguém que saiba manobrá-lo e que queira partir comigo. antes de oito dias estaremos no mar. cortador de lenha. tapado com uma boa coberta bem quente. Não precisamos esperar você vender carvão para comprar o barco. Por que motivo o meu irmão não fugiu com você? Falo-lhe da fuga. -Então. Há mais de três horas que eu e Cuic-Cuic conversamos. em três semanas.De manhã vou falar com Chocolat. já que você sabe navegar.Estou impaciente para fugir e. Achava que era impossível fugir do Diabo. É muito arriscado. Você é um homem favorecido pela sorte. mas deve ter uma força fora do comum e uma resistência a toda prova. você já a viu? . da onda “Lisette”. Conte-me a sua fuga. se tivermos sorte. é por isso que conseguiu chegar vivo aqui.Eu tenho algum dinheiro. então. Estou excitado demais. quando vendi o carvão. poderemos arranjar grana e irmos embora. Esticado no meu catre.. Estou contente. Mas. . . Se a barca for boa. Cuic-Cuic.Resolveu embarcar? . Resolvemos. . mas tem uma vantagem.

Cuic-Cuíc. volta. O porco levanta-se aos gritos do dono. Depois de me servir o chá.É com certeza correto e honesto para com os amigos. Vai direto pelo pântano dentro. Adormeço e sonho com um mar banhado de sol. é que descobriu uma passagem. Após três tentativas. Come e bebe. . tranquilamente. Depois de andar uns dez metros.Vou sair. e nós vamos atrás dele. três biscoitos bem assados só na minha conta. . O porco preto está deitado debaixo da cama de Cuic-Cuic. não responda. o meu barco vencendo alegremente as ondas.Então quero chá.Que você está tomar? . É difícil ler no rosto impassível de um asiático. Comemos bastante. . o meu amigo corta metade de um biscoito. açucarado. Os pássaros não chilreiam à nossa volta. Deve ser muito preguiçoso. besunta-o de margarina e me dá. Um galo canta o seu alegre cocoricó. mas os olhos dele depõem a seu favor. Se alguém gritar ou assobiar. ninguém consegue vir aqui. o fogo ficou aceso desde ontem e a água ferve em uma panela. . O dia está a nascer. no caminho da liberdade. Mas se você aparecer podem matá-lo com um tiro de espingarda. um tanto longe do local onde passamos ontem.Quer café ou chá? . percorre a distância a terra firme. vem comigo. porque continua dormindo. Uns biscoitos feitos de farinha de arroz assam na brasa. mas deve ser também muito cruel com os inimigos. com certeza que o fumo das carvoarias espanta-os. Não há perigo.Chá.

uns metros mais além. Cuic-Cuíc volta à tardinha. As árvores derrubadas e já cortadas indicam que é ali que Cuíc-Cuic vem buscar lenha para fazer. Um rato enorme foge debaixo dos meus pés. que caiu durante toda a tarde deitado calmamente na minha cama de folhas. não fui incomodado pelo gás carbônico. dei uma volta pela ilha. carvão. Bem abrigado da chuva. os saguis gritam de partir o coração. com cerca de dois metros de comprimento. Depois de apanhar oito ovos na capoeira62. O vento mudou direção e o fumo das duas carvoarias é arrastado para o outro lado. Sem dúvida que foi o rato que acabou com ela. Vejo também um monte enorme de argila branca. encontrei uma família de tamanduás. a aldeia onde mora. De