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Imagens de Troca: Adriana Varejão Inaugurado no ano passado, o espaço excelente do Pavilhão Branco, nos jardins do Museu da Cidade, é um local privilegiado para a exposição de arte contemporânea. O pavilhão é, agora, dirigido pelo Instituto de Arte Contemporânea que inaugura o seu ciclo de exposições intitulado Imagens de Troca com uma mostra da obra de Adriana Varejão, jovem artista brasileira. O título do ciclo em inglês faz passar melhor o sentido implícito do programa. Trading Images transporta consigo a noção de imagens de comércio e a troca de imagens que subjacem às diversas formas de mestiçagem cultural que, de uma forma ou de outra, remetem para histórias de dominação. O trabalho de Adriana Varejão assenta na construção que a artista faz da sua própria identidade enauqnto ‘brasileira’. A obra foi cuidadosamente elaborada com base numa pesquisa, antes do mais sobre os despojos físicos da chamada conquista do Brasil e do projecto colonial europeu. Ou seja, nos vestígios desse projecto ainda presentes em obras de arte e de arquitectura: azulejos, pinturas, ex-votos, artefactos. Varejão distancia-se de muitos outros artistas que trabalham nesta área de pesquisa — área que tem vindo a ganhar relevância e legitimidade (na expressão sucinta cunhada por Hal Foster, ‘o artista enquanto etnógrafo’) — ao ajaezar uma visão política e cultural talvez um pouco manicheista a um sentido de rigor, de factura, numa acepção quase tradicional do termo. Pois é verdade, Adriana Varejão pinta. Fá-lo com a facilidade mimética do copista: a sua aptidão para o trompe l'oeil, que por vezes nos lembra o cuidadoso e depurado realismo de Vija Celmins, é notável, quer na forma como retrata os motivos decorativos e as irregularidades dos azulejos, as cenas marinhas ou os retratos tradicionais, quer quando reproduz o estilo 'naïf dos ex-votos ou da pintura colonial. O comércio da artista é o das imagens: a sua obra é inteiramente construída à volta da circulação e da articulação de imagens readyade das culturas brasileiras. A representação feita por Varejão do Barroco brasileiro, com a sua herança rica de objectos fabricados, transporta um olhar crítico sobre a constituição da própria etnicidade brasileira (o domínio europeu, o comércio de escravos): qual o preço dessa identidade, à custa de quantas vidas humanas. Nalgumas obras, a superfície lisa dos azulejos pintados em trompe l'oeil aparece literalmente rasgada. A tela desfaz-se para revelar como que as entranhas do trabalho: uma sub-superfície extraordinária de

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impasto em tinta de óleo, em vermelhos e castanhos, um corpo flagelado, esventrado por detrás da ornamentação dos azulejos. Este é um conjunto de trabalhos com uma força notável, apesar da abordagem conceptual do tema ser às vezes excessivamente literal. Sobrepondo à retórica da Conquista e das das ‘Descobertas’, uma linguagem ornamental e uma corporalidade dilacerada, Varejão circula entre as representações das diversas etnias do Brasil. O corpo aparece na sua obra como uma metáfora poderosa e central. O recorte de papel vegetal, coberto com motivos orientalizantes delicados, tendo como fundo os azulejos brancos, não é mais nem menos do que pele esfolada. Os olhos lacerados em Testemunhas Oculares — três auto-retratos enquanto caucasiana, índia e chinesa — dilaceram o quadro através do próprio orgão que lhe dá visibilidade, problematizandose, assim, o olhar do conquistador sobre o Outro subalterno. Ruth Rosengarten Adriana Varejão, Pavilhão Branco, Museu da Cidade, Lisboa. Visão, (dia?) Maio, 1998.

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