CULTURA

'ANATOMIAS CONTEMPORÂNEAS'

Uma exposição em que a arrumação das obras (nalguns casos redutora) e o resultado de uma parte dos trabalhos deixa a ideia de que se podia ter feito melhor

EXPOSiÇÃO

zer e por aí em diante. Esta catalogação que tem, na melhor das hipóteses, um sabor a Foucault ou a Kristeva - remete para os grandes tópicos corporais (nascimento, sexo, doença, morte - o que é que há mais?) que, como elementos abrangentes, são demasiadamente grandes para as obras que supostamente incorporam. Estas categorias, embora dêem uma ordem à exposição, cercam de modo· adverso as obras e, muitas delas, conceptualmente redutoras ou simplesmente demasiado frágeis, não sobrevivem a esse cerco. Outras obras são excessivamente unodimensionais para sobreviverem a toda a exposição: é o caso da obra do próprio Paulo Mendes, E(x) Romance - Surgical Plastical Love, do vídeo de Julião Sarmento, do trabalho D'Heart Side, de Pedro Tudela, de Screwed Rubber Fist, de João Paulo Feliciano, de Evasão, de Cristina Mateus, e dos cartazes pretensiosos de José Maçãs de Carvalho. Há obras que sofrem de uma colocacão demasiadamente literal e redutora ~as ligações iconográficas que fazem (por exemplo, a arrumação do desenho exemplar de Paula Rego ao pé das fotografias de Augusto Alves da Silva só porque ambos parecem centrar-se na mesma parte da anatomia...). Se algumas obras se destacam, isso acontece, de celta forma, independentemente da exposição e apetece-nos vê-las fora deste contexto. Pensando bem, nós já as vimos (quase todas) noutros enquadramentos e, do ponto de vista visual e conceptual, ficaram, geralmente, a ganhar: Helena Almeida, Pedro Cabrita Reis, João Penalva, Luís Campos, Patrícia Garrido, Gerardo Burmester, Fernando José Pereira, Paula Rego, Júlia Ventura têm obras interessantes no sítio errado. _

Expressão corporal
Chama-se Anatomias Contemporâneas. A iniciativa vale mais do que o desfecho
RUTH ROSENGARTEN ...

as últimas duas décadas, o corpo humano foi desmembrado e remembrado, exercitado e anatomizado, desumanizado e «pós-humanizado», atravessou fronteiras de sexo e étnicas, foi agente e objecto, autómato e cadáver... Como «instrumento fundamental das representações dominantes» (catálogo), o corpo tornounse um signo privilegiado, e os seus prazeres, poderes e dores têm vindo a ocupar um lugar central nas artes plásticas e performativas nestes últimos vinte anos. Tal como não falta literatura sobre este tópico, as exposições têm-se multiplicado, inclusivamente com mostras internacionais abrangentes e panorâmicas - os exemplos incluem a famosa mostra Post. -Human, no início dos anos 90, Identity and Alterity, a exposição principal da Bienal de Veneza de 1995, Inside the Visible e Rifes of Passage, ambas também de 1995, além de muitas outras. Contra este PimO de fundo, Anatomias Contemporâneas (Fundição de Oeiras) aparece-nos um pouco tardiamente. Nesta altura, é a saturação - apetece ver o corpo reintegrado em outros e diferentes temas. Comissariada por Paulo Mendes e Paulo Cunha e Silva, a exposição lança um olhar supostamente abrangen-

N

te sobre a temática do corpo na arte contemporânea portuguesa. Inclui 46 artistas, a mai-or parte pertencendo à geração de novos artistas, e inclui alguns nomes «consagrados» de várias outras gerações (Paula Rego, Alberto Carneiro, Rui Sanches, Julião Sarmento, Pedro Cabrita Reis) que conferem, aparentemente, uma espécie de autoridade retrospectiva e legitimidade à mos.tra.
ARRUMAÇÃO E IDENTIFICAÇÃO

À exposição tem de ser dado algum mérito. Foi uma iniciativa ambiciosa e uma tentativa corajosa de corresponder às tendências internacionais. O livro/catálogo que acompanha a mostra é igualmente ambicioso e, sem dúvida alguma; bem realizado. Em termos práticos, no entanto, a mostra deixa muito a desejar. Instalada no espaço enorme do Hangar 7 da Fundição de Oeiras, foi, por razões inexplicáveis, remetida para um espaço desenhado como uma toca de coelho. A total falta de legendas ou de sinalização de autoria faz com que o visitante tenha de transformar-se num verdadeiro decifrador de mapas, de modo a conseguir identificar o nome do artista cujo trabalho contempla. Está dividida em diversos núcleos temáticos: Acção, Dominação, Desejo, Excre-

ção, Secreção, Expressão, Disciplina, Pra-

\118/\023 de Dezembro de 1997

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