Deusa, mãe-natureza, bruxa, feiticeira, benzedeira, “dom de ser mulher ”?

“dom
Rosane Ribeiro Borges

Bem sabemos que percebemos no passado, primeiro as diferenças e só depois as semelhanças com o tempo em que vivemos.1

1

Resumo: Na sociedade pós-moderna, e mais especificamente no interior do Brasil, a benzeção ainda é amplamente praticada e mesmo procurada por pessoas de diferentes classes sociais e níveis culturais. Na cidade de Ituiutaba-MG tal situação não difere de outros lugares do país, e assim, conhecimentos, comportamentos e gestos, acompanhados ou não de ramos, água ou fogo, são cotidianamente utilizados, guardados e transmitidos de geração a geração, perpetuando em invocações sincréticas o ato da benzedura. Buscando entender a permanência destas práticas na atualidade, examino os mitos referentes à mulher ao longo da história, criados e guardados pelo consciente e inconsciente coletivo até chegar na “teoria do dom” do M.A.U.S.S.2 da modernidade. Palavras-chave: Benzedura; cultura; História; dom. Abstract: In the post-modern society, specifically in the interior of the Brazil, conjuring is still practiced as people from different social classes and cultural levels look for it. In Ituiutaba-MG this situation doesn’t differ from other regions of the country, and therefore, knowledge and methods are customary used, kept and transmitted from generation to generation, thus, perpetuating conjuring. To understand the permanence of certain acts in the contemporaneity, I examine

ARIÉS, Philippe. A história social da criança e da família. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1986, p.14.
M.A.U.S.S. Mouviment Anti-Utili-

2

Rosane Ribeiro Borges. Mestranda em História pela Universidade Federal de Uberlândia da linha de pesquisa História e Cultura.

tariste dans lês Sciences Sociales (Movimento Anti-Utilitarista nas Ciências Sociais), Escola criada em 1981, filiada à tradição teórica do sociólogo francês Marcel Mauss, nascido em 1872, fundador da sociologia moderna, divulgador da Revue du M.A.U.S.S., cujas pesquisas centralizam em estudos sobre a Dádiva. A filosofia teórica é embasada nos estudos e idéias do filósofo Claude Lefort, e pensamentos de Cornelius Castoríadis, iniciadores do grupo MAUSS . As reflexões maussianas tem-se aberto para debates com outras correntes de pensamentos que não são “redutíveis nem ao marxismo, nem ao estruturalismo, nem ao funcionalismo, nem ao individualismo metodológico, nem ao empirismo dogmático.” (Lefort: p.61, in: A Dádiva, p.10.) Analisa a sociedade a partir das trocas simbólicas e da dádiva num conjunto de reflexões sobre os modos “próprios e originais de organização da vida social fora das regras dos sistemas,

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

13

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

mercantil e estatal” (p. 13). Ver: M ARTINS , Paulo Henrique (org.). A Dádiva entre os modernos: discussão sobre os fundamentos e as regras do social. Trad. Guilher me João de F. Teixeira. Petrópolis: Vozes, 2002.

myths concerning women as time goes on. Those myths were created and kept by the collective conscious and unconscious in archaic, old, modern and contemporary times and are articulated with the “Theory of donation” out of MAUSS movement. Keywords: Conjuring; culture; time; donation.

A relação da mulher com elementos que compunham o “dom” de cuidar, curar, oferecer proteção, sempre foi forte e exteriorizada através de pinturas rupestres, vivenciadas nos rituais, celebrações realizadas no interior de religiões pagãs, em tempos distantes. Na atualidade, e mais especificamente no interior do Brasil, a benzeção é amplamente praticada, e procurada, por diferentes classes sociais e níveis culturais. Na cidade de Ituiutaba–MG, tal situação não difere de outros lugares do país, e assim, conhecimentos e métodos são cotidianamente utilizados, guardados e transmitidos de geração a geração, perpetuando o ato da benzeção. Diante desse contexto, procurei nesta pesquisa responder à seguinte questão: no que diz respeito à manutenção dessas práticas, que pontos incidem sobre os movimentos de mudanças e permanências? Para tanto, examino num primeiro momento, os signos, os mitos referentes à mulher ao longo da história que foram criados e guardados pelo consciente e inconsciente coletivo em vivências de épocas arcaica, antiga, moderna e contemporânea até chegar na “teoria do dom”, pensada pelos autores do M.A.U.S.S., nos dias de hoje. Estes signos que atravessam o tempo e se tornam cristalizados — são os resíduos que se mantém como se fossem fossilizados, no interior de uma rocha — intocáveis, gravados muito mais profundamente que as lembranças conscientes e que, às vezes nem se tem consciência, mas, felizmente o passado nunca morre

14

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

completamente para o homem. O homem pode esquecê-lo, mas desse passado guardará sempre a recordação.3 (Coulanges, 1995). As origens, assim como a credibilidade das recordações permanecem quase sempre recheadas de dúvidas pois é impossível distinguir o apreendido inconscientemente (residual) do aprendido (costume), mas é crível que o homem é o resumo de todas suas épocas anteriores,4 podendo ser possível a reconstrução de modos de vidas, através de processos históricos no estudo da memória e dos fragmentos que são os resíduos de processos de vida. No início da civilização o homem tirou os deuses de si próprio. Assim, o primeiro objeto de adoração foi o ser invisível, tudo que governava o ser humano, uma vez que sua força moral, seu pensamento eram provenientes do culto aos mortos. O segundo endeusamento refere-se à natureza. O homem retirava os deuses de cada elemento que a compunha, como exemplos, florestas, planícies, montanhas, rios e lagos, dentre outros. Nasceram assim milhares de deuses com variados nomes, conforme as necessidades do tempo e desejos daqueles povos. A história nos mostra que o primeiro culto foi oferecido a uma Deusa, aquela que o homem acreditava haver gerado o mundo e os seres humanos. Durante milênios, a principal preocupação humana foi se prostrar diante dessa Deusa — a mulher como doadora da vida. Para tanto, não faltam cerâmicas, pinturas rupestres,5 as quais reproduzem mulheres em posição de parto, ou com o ventre e os seios avolumados. As estatuetas simbolizam a anatomia feminina e são encontradas por toda a Eurásia, são artefatos que testemunham sentimentos de admiração e mistério experimentados pelos povos antigos e datam de 35.000 a 8.000 a.C. Arqueólogos entendem que as figuras podem ter representado divindades em cultos de fertilidade, ou símbolos de autoridade em sociedades matriarcais6. A mulher era vista como a senhora

3

COULANGES, Fustel. A cidade Antiga. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

4

COULANGES, Idem.

5

Pinturas Rupestres: Pinturas feitas nas rochas. Inscrições de povos antigos. Há mais de 40 mil anos o homem da Pré-história depositou suas marcas, figuras... em cavernas, deixando documentos de sua presença. Sociedades Matriarcais: Sociedade onde a mãe exerce autoridade de chefe sobre sua família e descendentes em geral. No matriarcado a mulher é a base da família e exerce nela autoridade preponderante.

6

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

15

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

7

Deusa: divindade feminina do politeísmo ou de religiões matrilineares.

da vida em todas as suas vertentes. Portanto, fecunda, divinizada, era entendido ser ela a única capaz não só de conservar esse poder para si própria, mas também de transmiti-lo a todos os outros segmentos da natureza. Nas culturas pré-patriarcais o homem desconhecia o papel masculino essencial na fecundação, via a mulher como criadora única, e era tratada como um ser mágico, um bem precioso, indispensável à sobrevivência da espécie. Ela era a Grande Deusa, e esta primeira Deusa era a Mãe. Como Terra-Mãe, dona da vida, rapidamente se transformou em responsável pelos mortos (lavavaos preparava-os para os rituais de despedida da vida terrena). Enfim, toda essa crença mágico-religiosa culminará em uma série de rituais associados às mitologias, além de estar sempre ligada, (à mulher) simbolicamente, não só a terra, mas também às águas, às cavernas, às árvores, às grutas, ao sangue, entre outros. Desse modo, o culto à Deusa-Mãe foi difundido em todos os extremos do planeta. Os estudiosos apontam os arredores do mar Cáspio como seu berço de origem, entretanto, dizem, independente de sua origem foi constatado sua existência em todas as civilizações arcaicas e curiosamente, esteve associada às mesmas crenças, aos ritos, aos símbolos, inspirando os mesmos sentimentos de amor e inveja, de feitiço e medo. Tais convicções contrariam aqueles que tentam negar isto, assim, o culto à Grande-Mãe estendeu-se por muitos séculos, mantendo-se presente no judaísmo, prolongando-se no cristianismo primitivo além de superá-lo. No paganismo, a Deusa7 reinava no céu e na terra. Era doadora do bem e do mal, além de condutora na vida e na morte. Ela sempre esteve ligada a fenômenos extremos, oscilando entre ser recusada ou endeusada, evidenciando os dois extremos detectados no princípio feminino, ou seja, contrários e complementares. Não foi difícil para o homem primitivo perceber

16

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

que sua sobrevivência dependia da natureza, e a partir dela fazer diversas associações. Um exemplo disso refere-se ao fato de que segundo alguns pesquisadores as fases da lua com seu eterno retorno propiciaram ao ser humano tomar contato com um tempo concreto. A lua marcava o ritmo da vida e a mulher foi observada como cúmplice lunar, e passou também a ser responsável pelas marés, chuvas, vegetação, germinação, bem como a menstruação e gravidez — o Calendário Lunar foi assim amplamente difundido como feminino. Em reconstruções históricas é possível verificar que a partir do século II os romanos convertidos ao cristianismo se negaram ao culto dos deuses pagãos8, mas estes cultos continuaram de forma mais circunferencial, retidos em pequenas capelas, ou ainda, em clareiras nas florestas. Percebemos que as religiões nunca morrem completamente, e que o sincretismo religioso exerceu papel preponderante na formação de várias religiões, e até mesmo a vertente romana sabemos que não escapou de inúmeras influências. Quanto ao cristianismo este se impôs como religião católica, porque incorporou e transformou aquilo que não conseguiu eliminar. Este procedimento é verificado através de ações que hoje são praticadas no catolicismo tais como as procissões, cantos, fogos, reuniões em campos, bebida, sendo resquícios de práticas pagãs. Mas havia muitos outros povos... que se organizavam social e politicamente em tribos independentes e possuíam, às vezes, uma religião única, por exemplo, a religião dos druidas — druidismo9, na qual se articulava toda uma sociedade. O culto celta sempre privilegiou a clareira sagrada, no meio da floresta, visto que ali a espiritualidade poderia ser sentida e vivida em toda a sua plenitude, lugares onde a figura feminina era primordial. A Bretanha antiga não cedeu facilmente à presença romana e muito menos à sua religião, manteve a organização tribal independente, e a mulher continuou a

8

Deuses Pagãos: O Deus de uma região nativa, não cristã, nem judaica. Diz-se de deuses do paganismo ou politeísmo.

9

Druidismo: Religião dos druidas, dos celtas. Religião da antiga Gália e da Bretanha.

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

17

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

10

Dom: Dote natural, talento, aptidão, capacidade, habilidades especiais além o esperado como comum. “Visão” aqui quer dizer: aptidão extra da percepção. Uma função extra-sensorial. Contemplação intuitiva. CAILLÉ, Alain. Autor do artigo “Dádiva e Associação”. publicado em 1997, in Revue des Ètudes Coopératives e Associatives, n. 265 (conforme nota, in A Dádiva entre os modernos, p.19, op.cit. GRAEBER , David. Pesquisador americano, antropólogo, professor na universidade de Yale, leitor assíduo da Revue du M.A.U.S.S. ÉSTES, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1994. Princípio feminino: A natureza instintiva da mulher. Ela é a memória arquivada das intenções feminina, diz Éstes, p. 46. Op. Cit. Psicologia Junguiana: Seu fundador Carl Gustav Jung, médico e psicoterapeuta estudou o Inconsciente e dedicou ao estudo profundo dos povos primitivos — seus mitos, religiões, tradições e hábitos. Estudou o sistema psicanalítico — Psicologia Analítica onde o inconsciente coletivo é entendido como sendo herança de ancestrais. A teoria Junguiana acrescenta à psicologia fundamenta uma dimensão que vai aos hábitos coletivos, hábitos espirituais e culturais.

11

12

13

14

representar a soberania, com papel de destaque tanto no campo social, político como no religioso. A Bretanha foi cristianizada muito tempo depois, com data de difícil precisão, contudo é conhecido que no fim do século III e início do século IV, esta região já possuía sua organização eclesiástica. O povo bretão, ao fugir das invasões anglo-saxônicas, refugiou-se em regiões mais selvagens da ilha. Neste lugar o povo bretão fixou morada, e assim surgiu a Nova Bretanha, a qual preservou seu povo, sua língua, sua religião celta... Na tradição religiosa celta, aquele que portasse um manto teria o dom10 de se metamorfosear. O manto druida era a certeza de que o indivíduo possuía a sabedoria, a visão11 e grande parte das mulheres celtas usavam este manto. Desse modo, pode-se afirmar que a referida tradição é repleta de magias, presságios, encantamentos — de fadas, deusas e sacerdotisas. Alain Caillé12 e David Graebe13, em Introdução à Dádiva, argumentam:
Ora, como se pode prever, se é importante fixar os traços essenciais da humanidade primeira e determinar o papel desempenhado nesta época pelo dom tal constatação não é suficiente para iluminar o mundo contemporâneo.

15

16 17

É preciso avançarmos, desenvolver o:
‘paradigma da Dádiva’: mostrar como a descoberta do papel central do dom na ‘sociedade primeira’ permite, transpondo-a, iluminar também a modernidade (...) ( Introdução à Dádiva, p.30.)

No que diz respeito às premonições e bênçãos femininas estas são cúmplices da luz do luar — da luz feminina — que acrescentados a flores, frutos, ervas, produziam beberagens de encantamentos; tudo era praticado em torno do poder enigmático e intuitivo da Deusa — Ela é memória arquivada das intenções femininas14 possuidora do chamado princípio feminino 15 Estés,16 num estudo à psicologia junguiana,17 reconhece

18

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

o poder intuitivo, instintivo, próprios de “todas as mulheres”, enfatizando que este último gerou luz, consciência, clarividência durante toda história da humanidade. Salienta que a mulher tem insight, podendo ser introvertida ou extrovertida, triste, majestosa ou vulgar, alegre ou ambiciosa, e complementa, dentro do seu pensamento na psique intuitiva:
O corpo é considerado um sensor, uma rede de informações, um mensageiro com uma infinidade de sistemas de comunicação — cardiovascular, respiratório, ósseo, nervoso, vegetativo, bem como o emocional e o intuitivo. No mundo imaginário, o corpo é um veículo poderoso (...) Nos contos de fadas, como encarnado por objetos mágicos que têm capacidade e qualidade sobre-humanas, considera-se que o corpo tem dois pares de orelhas, dois pares de olhos: um para a visão normal, e outro para a vidência; dois tipos de forças: a dos músculos e a invencível força da alma.18 (Estés, 1994, p.251.)

18

ÉSTES, Op. Cit.

Ainda, dentro do arquétipo da “mulher selvagem,” a autora assevera que:
Ela é a voz que diz ‘Por aqui, por aqui’. Ela carrega dentro de si os elementos para cura (...) ela dispõe do remédio para todos os males. Ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções (...) Ela é tanto o veículo quanto o destino. (Idem, p.26-27.)

Na expressão Ela carrega dentro de si os elementos para cura (grifo meu) noto que a palavra carrega significa que contêm os elementos, mas que ainda não os têm desenvolvidos, estão como que guardados, em estágio latente, podem aflorar ou não, dependendo de serem exercitados. Em ela carrega histórias e sonhos, palavras e canções..., percebo estar implícito que existe o acumular de lembranças de hábitos anteriores, de antigas consciências enraizadas nas mentes humanas. A partir dessas considerações, consigo compreender o fascínio que a mulher forte, intuitiva, a mulher
Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

19

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

19

SHAKESPEARE, William. Introdução Geral. Obras completas de William Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, v. I, 1995.

20

VOVELLE, Michel Ideologias e Mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987 DUBY , Georges. História da vida privada. São Paulo:Cia das Letras, 1990.

21

deusa ou bruxa, curandeira ou benzedeira, pôde exercer no imaginário coletivo e o quanto, partindo das minhas investigações, ainda exerce, permanecendo as mesmas características que acarretam simultaneamente respeito e medo. Recorrendo a fontes literárias, encontro na obra do famoso poeta inglês do século XVI , William Shakespeare19, Macbeth, fortes indícios de que o escritor acreditava existir um poder vigoroso e irresistível na mulher, ou, percebia que os homens de seu tempo assim o pensavam. No ato primeiro, o dramaturgo inicia sua tragédia com raios e trovões, e três feiticeiras. Macbeth, valente general da Escócia do séc. XI, volta glorioso da guerra e antes de ver seu Rei, encontra e ouve a profecia dessas três bruxas. Shakespeare, a partir desse encontro místico, entrega coragem e ambição à personagem de Macbeth que, alimentado pelos vaticínios ouvidos, transforma-se em cobiçoso tirano. Nesta narrativa há coragem, traições, assassinatos, e Macbeth coroado rei como anunciaram as profetisas. Shakespeare usa como principal argumento para recriar sua tragédia documentos de conceituados historiadores do séc. XIV e XV, final da Idade Média, em que o poder feminino era chamado de bruxaria. Em suma, o estudo da literatura clássica se mostra aqui revivendo temas antigos: a visão pagã da vida diferenciando-se da visão cristã e ainda o caminhar das mentalidades; do imaginário coletivo (termos usados por Michel Vovelle20 e G. Duby21, posto que tais pesquisas vislumbram um mundo em constante movimentação, repleto de lutas religiosas que abalaram os fundamentos da estrutura religiosa medieval (pautada no Catolicismo), as quais geraram ceticismo, superstições, perseguições e mortes: — A Caça às Bruxas. A intolerância quanto a ver-tente feminina, ou, em outras palavras, a repressão à mulher, deformou e fez com que germinasse a onda da doença cultural que foi se

20

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

agravando no decorrer dos séculos. Cabe lembrar que as chamadas bruxas ou feiticeiras podem ter sido vistas como hereges por parte da Igreja, mas em outras religiões, como a dos celtas, da qual já citei, essa heresia era vista e sentida como algo excepcional e a intuição deveria ser incentivada e contemplada, uma vez que suas praticantes eram privilegiadas com a grande sabedoria e extraordinária força interior e, por isto, tinham papel de destaque em assuntos políticos, social e particularmente religioso. Todavia, o nome dado ao resultado do uso dessa força interior modifica-se de acordo com a época e as culturas díspares, a exemplos, bruxas, feiticeiras, rezadeiras, profetisas... Segundo Laura de Mello e Souza, autora de O diabo e a Terra de Santa Cruz: feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial,22 neste país as práticas de magias coloniais eram diferentes da feitiçaria louca e perseguida da Europa. Tais métodos eram aceitos, pois trouxeram vida aos três séculos de existência colonial, construindo sentimentos de religiosidade nos diferentes povos que compunham a colônia brasileira. Entretanto, somente após entrar em vigor o Código Penal de 1890, é que curandeirismo passa a ser consi-derado crime em âmbito nacional, haja vista que feitiça-rias ou práticas de magias como adivinhações, benzeduras eram o caminho sempre buscado para amenizar, curar... enfatiza a historiadora. Assim, no Brasil Colônia (século XVIII), feiticeiras e contrafeiticeiras, ambas eram solicitadas para detectar malefícios e curas de que-branto23, mau olhado24, espinhela caída25, vento virado26, dentre outros, procedimentos comuns na sociedade Colonial. Desse modo, havia no país, como já foi dito, uma mistura de crenças religiosas, além de práticas místicas, como exemplos, benzeduras, curandeirismo e até satanismo. Estes métodos intensificaram-se, possivelmente no inconsciente coletivo, diante do conhecimento da grande quantidade de degredados enviados de

22

M ELLO E S OUZA , Laura. O diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

23

Quebranto: Achaque que manifesta com dores de cabeça, febre. “Quebrantamento do corpo”. Palidez, sonolência, indiferença, olhar amortecido. Falta de força, prostração, mal olhado. Mau olhado: Olho ruim, pesado, agourento, maléfico que uma vez lançado, pode fazer adoecer quem o captou. Espinhela caída: Dor nas costas, dor no estômago e dor na coluna, também “buxo virado”. Vento virado: Influência que prejudica. Quebranto, mau olhado. A criança fica choramingando, vomita. Também chamado de “buxo virado”.

24

25

26

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

21

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

27

M ELLO E S OUZA , Laura. A feitiçaria na Europa Moderna. São Paulo: Ática, 1987.

28

Vasalisa é uma boneca nos contos da Rússia, da Romênia, da Iugoslávia, etc, que traz uma característica psíquica antiqüíssima acerca do poder instintivo básico da mulher força, a mulher instinto. Mulheres que correm com os lobos. (Éstes, p.100.)

Portugal para o Brasil, acusados de falsas crenças, entre os quais, e em grande número — as chamadas beatas portuguesas. Laura de Mello e Souza (1996), listou 51 degredos e deste total analisei, que 41 eram do sexo feminino. Ainda sob este prisma esta autora, em outra obra, A feitiçaria na Europa Moderna,27 situa o fenômeno da caça às bruxas ocorrido na Europa como sendo uma situação armada pelo cerco à intolerância ao poder feminino, porque era a mulher que de fato, detinha atenção e grande movimentação em torno de suas ações como parteira, benzedeira, ou a prática do curandeirismo. Nos contos sobre “Vasalisa”,28 contado na Rússia, Romênia, Iugoslávia, Polônia, e em todos países bálticos, a boneca representa uma característica psíquica em torno do poder instintivo básico da mulher-força; a boneca é conhecida por sua perspicácia, seu senso de observação ela representa o espírito interior das mulheres.
A mulher (...) capta as causas, os porquês do que está em volta. (grifo meu) A intuição se autopreserva; é forte e entranha. Tem olhos, tem ouvidos que enxergam e ouvem além da capacidade comum do ser humano. (Estés, 1994, p.117.)

A intuição, segundo Estés, é o instrumento de adivinhação da mulher. Portanto, penso que esta dádiva seja a benfeitora de todas as mulheres fortes, lutadoras, carismáticas-pintoras, escritoras, escultoras, dançarinas, pensadoras, rezadeiras... Assim, este dom é a capacidade de captar as causas, os porquês do que está em volta, que a estudiosa cita acima. Dessa forma, a mulher treinada é observadora, sente e apreende, atraindo a atenção, incomodando posturas hegemônicas, uma vez que tal comportamento é verificado em análises através dos tempos, por exemplo, nas reações da Igreja Medieval, que perseguiu aquelas mulheres que apresentaram essa percepção e combateram-nas. Então, a

22

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

intuição é endeusada, odiada, respeitada, danada, porque consegue apreender o que está em sua volta, isto é, o animal irracional possui uma espécie de sensor e a mulher desenvolveu sua habilidade sensorial intuitiva e a usa com maestria. Jules Michelet,29 no livro A mulher, indaga a um mestre:
Supondo-se a ciência igual, qual será o melhor médico? Aquele que ama mais! — Reponde-lhe o mestre

29

MICHELET, Jules. A mulher. São Paulo: Martins Fontes, 1995, p.306-307.

Esta convicção induziu Michelet a uma afirmativa:
A mulher é o verdadeiro médico. (...) Ela o é entre todos os povos bárbaros. Entre eles, a mulher é que sabe os segredos das plantas medicinais, aplica-as. Aconteceu o mesmo entre os povos não bárbaros, de alta civilização.

Em que lugar esteve ou está presente essa mulher? Onde encontrá-la? Segundo a psicóloga Estés, esta mulher está nos lugares comuns no mundo dos homens: — ela vive nas grandes ou pequenas cidades, nas vilas, nos guetos, está nas universidades, nas ruas, nas salas de reuniões, nas fábricas, nos presídios, no comércio (...) independente de seu estilo. No que tange às naturezas de observação e perspicácia estas podem ter sido acumuladas a partir de antigas práticas de vida, tornando-se inerentes às vivências e repassadas através das memórias residuais, as quais provavelmente são vestígios do inconsciente coletivo, que para Michel Vovelli, são reflexos inconscientes de representações enraizadas. Desse modo, analisando ainda outros trabalhos sobre o chamado Dom, ou Dádiva Feminina, encontro nas pesquisas da historiadora e antropóloga Jamie Sams30, um estudo acerca de fatos do quotidiano dos índios norte-americanos, da Tribo Dois Mundos, em que as mulheres deste grupo não necessitavam provar força física para serem aceitas como especiais entre os

30

JAIMIE, Sama. As cartas do Caminho Sagrado. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

23

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

guerreiros, pois eram reconhecidas como possuidoras de uma sabedoria particular:
elas não tinham necessidade de suportar os rigores de força física para conseguirem adquirir mais Visão. As mulheres são Mães da Força Criativa do Universo e recebem naturalmente as mensagens dos seus Guias de Cura. (Sams, p.244.)

31

MATINS, Op. cit. Idem.

32

33

H AESLER, Aldo. A demonstração pela Dádiva. Abordagens filosóficas e sociológicas. In: A Dádiva entre os Modernos, Op. cit., p. 137-160.

No trabalho organizado por Paulo Henrique Martins, A Dádiva entre os modernos31, este pesquisador apresenta uma coletânea de estudos do grupo do Movimento M.A.U.S.S.32, onde é exposto questões sobre dádiva e dom, cujos preceitos são analisados nos paradigmas sociológicos e na sua função “classificadora, identificadora, e circulatória”.33 (Aldo Haesler, p.139.) Na lógica do movimento criado por Marcel Mauss,
“Dar é dar-se. Ao dar-se a si mesmo torna-se o dom”. “O discurso da Graça inscreve-se no Dom” (p.187.) “de graça recebestes de graça deveis dar!” (Mt 10,8)

34

CAILLÉ, Alain. Op. Cit.

A definição sociológica de Dádiva é sintetizada por Alain Caillé34 como:
“Qualquer prestação de bens ou serviços efetuada sem garantia de retorno, tendo em vista a criação, manutenção ou regeneração do vínculo social. Na relação de Dádiva, o vínculo é mais importante do que o bem” (grifo meu) (A Dádiva, p.192.)

Numa definição geral este autor propõe que a dádiva:
“é toda ação ou prestação efetuada sem expectativa, garantia ou certeza de retorno; por esse fato, comporta uma dimensão de ‘gratuidade’” (p.192.)

A primeira descoberta da dádiva teria sido de forma empírica num estudo nas sociedades arcaicas em

24

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

que, segundo Marcel Mauss, havia a tripla obrigação, isto é, dar, receber, e retribuir, mas, percebe-se através de análise de fontes documentais variadas que seria superficial considerar o referido dom como sendo uma característica somente de sociedades arcaicas de espírito comunitário, ou, mais primário ainda, concordar com o senso comum, de que dádiva é somente o que já está dito; ou seja, base de antigas civilizações. Outro aspecto pertinente na observação deste paradigma seria o da não aceitação (por algumas linhas de estudo), das compatibilidades do sistema da Dádiva com o modelo pós-moderno, sugerindo às vezes uma utopia num mundo industrial eternamente arraigado ao econômico. “A tentativa de demonstrar que o social tem regras próprias não redutíveis às dimensões estatal e mercantil parece-nos uma das contribuições cruciais dessa escola antiutilitarista para o pensamento crítico em sociedades como a brasileira”, segundo Paulo Henrique Martins. Portanto, a dádiva entre os modernos, é um debate que está posto nas Ciências Sociais, como forma de prática da ação social , cujas lógicas não obedece às econômicas, e sim a da doação, confiança e solidariedade. Assim o dar, receber, retribuir constituiu-se nas sociedades arcaicas mas continua como um dos fenômenos da sociedade atual:
“A sociedade se funda, sobretudo na ambivalência da reciprocidade: existe o interesse, mas também o desinteresse, o contrato e o vínculo espontâneo, o pago e o gratuito. Pelo interesse utilitarista, dizem os maussianos, funda-se uma empresa comercial, mas não há o vinculo social. E, no sentido contrário, pelo desinteresse espontâneo se fazem amigos, casamentos, etc. (...) mas não a economia de mercado ou Estado.” (Paulo Henrique Martins, p.12.)

Cabe ressaltar que em pesquisa de campo realizada em Ituiutaba–MG, onde trabalhei com dez (10) benzedeiras em depoimentos orais, quando indagava Como
Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

25

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

35

Dona Marzira tem 67 anos. Benzedeira de adulto e criança. Receita chás de ervas, ungüentos... Benze há 22 anos.

tudo começou...? Os motivos que a levaram ser benzedeira ? Um ofício sem lucros, sem regalias e, como eu própria já havia observado, sem hora pré-estabelecida para a prática. Colhi explicações similares entre elas. Vejamos Dona Marzira35:
Não,... não acho que é iscoiê caminho... eu acho que muitas coisas já vem nascido... com aquele dom, né? Aquela cruz... aquela... aquele destino que você tem que cumpri... então... bate na sua porta (...) eu acho que é assim... pela... natureza da gente, a gente vem... pela nascença da gente mesmo... A gente já nasce com aquela força, aquela intuição... Deus disse: ajuda o que tá em vorta de ti que eu te ajudarei, né? As benzedêras... Deus deixou um Dom (grifo meu) para essas pessoas; dom da cura. Um Dom divino para as pessoas de coração bão, pra podê ajudá. Porque a gente tem que tá preparado pra ajudá o outro... a pessoa recebe aquela graça. (...) Tem aqueles próprio pra benzê (...) aquelas mãos ungidas por Deus.

Ou ainda:
Deus disse: Ajuda o que tá em vorta de ti que eu te ajudarei, né? Deus deixou (...) um Dom divino para as pessoas de coração bão (...) Porque a gente tem que tá preparado pra ajudá o outro.

36

D. Sebastiana II . Sessenta anos. Benze adultos e crianças e foi parteira muitos anos. Receita chás, xaropes... Ituiutaba.

Ao analisar estas expressões observo que nelas há uma forma implícita de dizer que o dom existe guardado, e deve ser desenvolvido, ou treinado, numa decisão espontânea já que não existe interesses econômicos envolvidos no ato de benzer. Outro exemplo relevante é o de D. Sebastiana II36. Esta senhora explica que era minina e já acudia as mulher no parto... e por ser criança, não lhe era permitido entrar no quarto da parturiente:
Ficava de fora, na porta para ajudar...

26

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

Lá onde eu morava, as mulher morria muito de parto, lá na beira do Paranaiba... então tavam passando mal pra ganhar nenem, me levava lá (...) dava uma vasilhinha pra mim, eu fazia o remédio... As outra vinha, pegava na porta o paninho com o remédio meu e ia lá e passava na barriga dela. (...) Ai tudo começou Daí por diante eu passei por assistente (parteira) também, sabe? Eu agora rezo, faço xarope pra curá bronquite... parei de fazê parto. Tenho a capelinha... todo mundo vem — Domingo, 5 horas cumeça chegá gente...37

37

Sebastiana II. Op. cit. D. Maria. Setenta anos. Benzedeira de adultos e criança, já foi parteira, ensina porções. Benze há trinta anos. Ituiutaba.

D. Maria38 fala que foi escolhida:
Eu tinha. a minha sogra, ela benzia. Aí ela falou: ‘Maria, Deus tá perto de me chamá, você vai ficá encarregada dessa missão’.

38

Aí eu falei, ô Dona Badia, eu nunca benzí.
‘Deus te ensina’.

Aí veio aquela... Aí eu comecei (...) fui recebendo aquele dom.39 Dona Marzira40 fala como foi escolhida:
Minha vó era benzedeira e parteira... Minha mãe também... Num aprendí com minha vó nem com minha mãe porque elas nunca teve paciência... na gente, né? ... mas eu acho que foi assim... porque eu nasci,... num foi pra aprendê cum famia... eu acho que já vem assim... se fosse pra aprendê cum famia minha... eu tinha aprendido com minha vó... minha mãe, cuma tia, que sabia muita coisa também... Eu fui aprendê com a “veinha”.41

39

Dona Maria. Idem. Dona Marzira. Op. cit.

40

41

Dona Marzira acredita ser seu caminho de aprendiz diferente do usual pois dá explicações do porquê de não ter sido iniciada com a família. Percebo que a corrente continua com os elos ligados em mulheres, mas que pode haver escolhas independentes dos laços

Dona Marzira. Ib.id. cita a “veinha” como sendo uma senhora benzedeira muito velhinha, que a ensinou benzer. Observação: procurei por esta senhora. Já havia morrido; velhinha... quase cega e... benzendo sempre até seu fim.

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

27

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

42 43

Dona Maria. Op. cit. A sogra de Dona Maria, tinha outras filhas, e nenhuma se tornou benzedeira. Dona Jeza. Sessenta e quatro anos, mulata, viúva. Iniciouse na idade de mocinha. Dona Maria da Água Santa. Uma senhora ajudante na Igreja da cidade de Àgua Santa. A sogra de Dona Maria, tinha outras filhas, e nenhuma se tornou benzedeira. Novamente uma mulher. Criadas em regiões diferentes e que não se conheciam anteriormente. GRAEBER, David. Op. cit.

44

45

46

47

48

T AROT, Camille. Pistas para uma História do Nascimento da Graça. In: Dádiva entre os modernos, op. cit., p.161190.

familiares. Parece haver na escolha da benzedeira iniciadora, algo que indica-lhe caminho, não sendo necessariamente de mãe, filha... de laços consangüíneos. Também isto foi perceptível numa análise à iniciação de Dona Maria42, que diz ter sido através da sogra.43 Dona Jeza44 me disse que seu aprendizado foi com a Dona Maria da Água Santa! 45 Percebo novamente aqui, um aprendizado feito fora dos laços familiares, e, neste caso, numa escolha onde uma mulher não conhecia a outra anteriormente, sugerindo-me crer que iniciadora e iniciada, aproximaram-se como “recipiendários nos quais provocou eco” e, numa análise em diálogo de D. Graeber46 e Alain Caillé,47 concordo com o anteriormente apreendido: “os dons e a amizade intelectual circulam através do tempo e dos oceanos.” É compreensível dár o que se recebeu de graça. Não importa quem deu o quê a quem. O que importa é a relação que se estabelece entre as pessoas. Enfim, os depoimentos de D. Marzira, D. Maria, D. Sebastiana (I e II), D. Jeza, representam a corrente do dar, aceitar e retribuir (...) reconhecida e presente no pensamento do grupo M.A.U.S.S. como na obra do maussiano, Camille Tarot48:
A dádiva impõe-se aos homens, fixa soberanamente os papéis de doador e donatário, além de criar, ao metamorfoseá-los em agentes de troca, o vínculo social. A dádiva não é uma escolha, mas uma obrigação; não é apenas um fato , mas um dever; não é apenas um gesto, mas uma estrutura que contém e organiza seus elementos.(...) Por último, a dádiva tem poder de absorver tudo, muito além dos bens materiais (p.162.)

Entendo que o dom de benzeções praticadas por mulheres, pode realmente estar no exercício intuitivo, podendo ser desenvolvido ou não, mas quando estimulado pode ser reconhecido como um “ dom” — um bem próprio. Pode também ser reconhecido como o dom da dádiva, segundo a argumentação maussiana onde ele

28

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

Rosane Ribeiro Borges

(dom), é o que faz a circulação da dádiva, aquela que, ao ser praticada, possibilitará o vínculo social, e que não representa um modelo de equivalências pois não há troca mediante retribuição (pode haver retribuição às vezes, mas não é o fim perseguido). Pode ser o dom que a psicologia junguiana estuda como a herança dos ancestrais do inconsciente coletivo O dom reconhecido por Estes49, o que está incorporado na psique feminina, e que se estimulado passa a ser uma ferramenta psíquica da mulher tornando seu instrumento de adivinhação, sua capacidade aguçada. Reconhecido pela estudiosa como o “arquétipo da mulher selvagem”. Vale ressaltar, portanto, que o dom da dádiva desenvolvido e retribuído em forma das benzeduras por mulheres na atualidade, não segue o modelo do homo oeconomicus — que produz para acumular, e sim representa o modelo do homo donatus — que produz para dar. Os parceiros do dom, valorizam o prazer da dádiva, diferente do modelo mercantil. As mulheres benzedeiras, às vezes conectadas ao nível do profano, são extremamente sensíveis e extraordinariamente capazes pois exercitam sua intuição. Possuem o desprendimento em aceitar a dádiva do dom, retribuindo-o com a força dos desejos de suas rezas, rogas dirigidas àqueles que necessitam de sua força. Assim, as ponderações arroladas neste trabalho demonstram que, felizmente na sociedade vigente, as pessoas dispensam, novamente, um reconhecido tratamento a essas mulheres especiais que têm nomes de: Sebastianas (I e II), Maria, Josefa, Marzira, Aparecida...50 Nos séculos da “ caça às bruxas” chamaram, maléficamente: Baba Yaga (mulher bruxa); Hille Bobbe — “ A Bruxa de Haarlen”.51 No Brasil Colônia: Brites Marques, Maria Padilha, Gerônima Gonzalez, Celestina, Maria Molambo, Maria Calha...52 Na Bíblia, sempre indicando importante papeis não

49

ÉSTES, Clarissa Pinkola. Op. cit.

50

Nomes próprios verídicos, colhidos em entrevistas orais, de benzedeiras da cidade de Ituiutaba-MG. B OBBE , Hille. A bruxa de Haarlen. Pintura do artista Frans Hals Séc. XVIII. Os nomes próprios foram colhidos em fontes de construções historiográficas, iconográficas, e literárias.

51

52

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005

29

Deusa, Mãe-Natureza, Bruxa, Feiticeira, Benzedeira, “Dom de ser mulher”?

53

Nomes próprios consultados na Bíblia onde muitos aparecem como tendo sido de adivinhas e profetizas. Também na Bíblia a mulher aparece como possuidora do dom da profecia vigorando esse pensamento em todos os tempos arcaicos: no paganismo, judaísmo e no cristianismo. A Mulher trazendo em sua essência a idéia de matriz, era eleita para espairar o a mensagem divina.

só na vida familiar, social, econômica, política e religiosa, os nomes das heroínas, profetisa, adivinhas foram: Sara, Rebeca, Jael, Judite, Ester, Miriam, Ulda, Débora...53 A partir desse artigo deixo minhas considerações para que sirva como instrumento de provocação a leitores interessados, e estudiosos(as) dispostos(as) a buscas de novos paradigmas, de novos caminhos que auxiliem a um entendimento mais amplo da mulher que benze — estas, cujas práticas não se explicam sob a forma de mercado, do “toma lá dá cá” mas, sob um outro modelo, que também não é o caritativo — encaixando mais , no modelo que Marcel Mauss chama de tripla obrigação: dar, receber, e retribuir — que é o movimento da dádiva.

30

Caderno Espaço Feminino, v.13, n.16, Jan./Jun. 2005