O Código Civil tem artigo feminino?

Autoria Iáris Ramalho Cortês Instituição CFEMEA Mês/Ano janeiro/2003 Iáris Ramalho Cortês advogada, integrante do Conselho Deliberativo e Assessora Técnica do CFEMEA. Depois da promulgação da Constituição, em 1988, pouca legislação foi tão discutida no Brasil, quanto o novo Código Civil que entrou em vigor no dia 10 de janeiro de 2003. São posições favoráveis ou não que surgem em matérias elaboradas por pessoas das mais diversas formações, principalmente da área jurídica. Isto se justifica por ser o Código Civil a ordenação de regras e preceitos que acompanham as pessoas desde antes do seu nascimento até depois de sua morte, estando presente nos momentos mais importantes e nos simples atos da vida cotidiana. O Código Civil estabelece que toda pessoa é capaz de direitos e deveres. Com o nascimento, com vida, a pessoa adquire sua personalidade civil. Protege os direitos do nascituro desde a concepção, como o direito de poder receber doações e ter indicado um curador, nos casos em que o pai é morto e a mulher grávida, não tem o poder familiar ou está interdita. As mulheres no novo Código passaram a ser vistas como cidadãs, sujeitas de direito e deveres, por inteiro. Agora a mulher, ao casar não apenas “assume a condição de companheira, consorte e colaboradora do marido nos encargos de família, cumprindolhe velar pela direção material e moral desta”, como estabelecia o art. 240 do Código de 1916, mas, passam a exercer direitos e deveres baseados na comunhão plena de vida e na igualdade entre os cônjuges. Na ortografia, deixamos de ser, em todo o texto, uma “sombra” do homem, ou seja, quando se falava a palavra “homem”, tínhamos que nos sentir incluídas na masculinidade que esta palavra encerra. O “homem” estava colocado como o representante da humanidade brasileira e com isto a “mulher” não necessitava ser citada diretamente de vez que possuía um representante legal, pré-estabelecido pela escrita.Nos termas gerais passou a ser adotada a palavra "pessoas". Vários abusos foram excluídos. Mulher nenhuma tem mais que provar sua virgindade por ocasião do casamento, para não ser rejeitada e devolvida à sua família com a anulação do casamento. No novo Código, o casamento poderá ser anulado por vício da vontade, se houve por parte de um dos nubentes, ao consentir, erro essencial quanto à pessoa do outro. Erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge pode ser com relação à sua identidade, sua honra e boa fama, sendo esse erro tal que o seu conhecimento ulterior torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado; ignorância de crime, anterior ao casamento, que, por sua natureza, torne insuportável a vida conjugal; ignorância, anterior ao casamento, de defeito físico irremediável, ou de moléstia grave e transmissível, pelo contágio ou herança, capaz de pôr em risco a saúde do outro cônjuge

ou de sua descendência; ignorância, anterior ao casamento, de doença mental grave que, por sua natureza, torne insuportável a vida em comum ao cônjuge enganado. Nenhuma mulher tem mais que provar “honestidade” para ter direito à herança paterna, quando sabemos que o termo “honestidade” é representado simbolicamente de forma diferente para homens e mulheres. Para homens esta palavra desperta o sentimento de caráter público ilibado e para as mulheres o recato, comportamento íntimo reservado. É bom lembrarmos que a mudança não se deu de forma abrupta. Temos que fazer jus a muitas mulheres que, por mais de oitenta anos tentaram ser colocadas ao mesmo nível legal dos homens. Quando promulgado, em 1916, várias mulheres denunciaram a discriminação e machismos nele existentes e, de lá para cá, gerações de mulheres tentaram modifica-lo. Várias leis aprovadas indicavam esta mudança, como a Lei 883 de 1947 que dispõe sobre o reconhecimento de filhos ilegítimos, o Estatuto da Mulher Casada, Lei 4.121de 1962, que aboliu a redação original do Código de 1916, onde a mulher não podia, sem autorização do marido aceitar ou repudiar herança ou legado; aceitar tutela, curatela ou qualquer outro encargo outorgado por autoridade pública (múnus público); litigar em juízo cível ou comercial, exercer profissão ou aceitar mandato. Tivemos também a Lei 5.478 de 1968 que dispõe sobre as ações de alimentos. O direito de uso do nome de família para a companheira é autorizado através da Lei 6.015, de 1973 e a Lei do Divórcio (6.515/77) trouxe grandes modificações no relacionamento conjugal. Finalmente, a Constituição de 1988 deu à mulher os mesmos direitos e deveres na família. Além das mudanças legislativas, nossos tribunais também contribuíram para que as mulheres fossem se equiparando aos homens através de decisões emblemáticas que alteraram várias práticas discriminatórias e serviram de inspiração para muitos dos artigos da nossa nova legislação civil. Os direitos/deveres das mulheres no casamento passaram a ser os mesmos direitos/deveres dos homens. Foi abolida a tão famosa “chefia da sociedade conjugal” exercida pelo marido, que incluía a representação legal da família, a administração dos bens comuns, o direito de fixar o domicílio da família, prover a manutenção da família, entre outras obrigações e privilégios. Foi incluída no novo Código a figura da “união estável”. A Constituição de 1988 foi quem inaugurou este tipo de relacionamento, quando prescreveu que no § 3º de seu artigo 225 que, “Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento”. Duas leis posteriormente já haviam regulamentado situações de alimentos e sucessão na constância da união estável, na sua dissolução e dado como competência de tratar a matéria no juízo da Vara de Família. A novidade é a inclusão do tema na regulamentação da separação de corpos, no parentesco, na adoção, poder familiar, relações entre pais e filhos e entre outros quesitos nos Capítulos da Família e das Sucessões. O adultério foi conservado, apesar de já ter sido omitido pela Lei do Divórcio, que considerava como motivos para a separação judicial “a conduta desonrosa ou qualquer ato que importe em grave violação dos deveres do casamento e torne insuportável a vida em comum”, além dos casos de ruptura da vida em comum e de doença mental grave,

considerado por nós como um avanço para a simplificação da demanda judicial. Não havia a necessidade de se ter que provar o adultério, questão sempre tão constrangedora tanto para a vítima quanto para a pessoa adúltera. Entretanto, o adultério veio no novo Código com roupagem nova, ou seja, mesmo sendo motivo de separação judicial, o cônjuge adúltera/o não está obrigada/o a deixar de usar o sobrenome da/o outra/o ou proibida/o de receber pensão alimentícia, desde que prove a necessidade. Nos artigos que tratam dos “regimes de bens”, encontramos algumas novidades, como a possibilidade de mudança de regime depois do casamento, antes imutável, e a introdução de um novo tipo: a participação final nos aqüestos (bens adquiridos na vigência do matrimônio). Permanecem os regimes de comunhão parcial ou universal e separação de bens e, não havendo convenção, ou sendo ela nula ou ineficaz, vigorará, quanto aos bens entre os cônjuges, o regime da comunhão parcial. A opção por outro tipo de regime que não o de comunhão parcial necessita do pacto antenupcial, feito por escritura pública, no cartório que pediram a habilitação para o casamento. Muitos desses dispositivos já haviam sofrido modificações substancias por outras leis, em especial pelo Estatuto da Mulher Casada (Lei nº 4.121/62) e pela Lei do Divórcio (Lei nº 6.515/77). A expressão “pátrio poder” foi abolida. Agora temos o “poder familiar”, onde mãe e pai possuem o mesmo nível de responsabilidade diante de sua prole. Ainda com relação aos filhos e as filhas, foi finalmente introduzida na nossa legislação civil a repartição da responsabilidade materna e paterna, quando foi estabelecido que, em caso de dissolução da sociedade conjugal, a guarda dos filhos ficará com a mãe ou com o pai, dependendo do acordo entre eles. Em caso de divergência, o juiz atribuirá a guarda a quem revelar melhores condições para exerce-la. Alguns comentários surgiram quanto a este artigo do Código, despontando para a perda do direito da mulher em ter a preferência da guarda. Longe de considerar perda de poder, preferimos ver este artigo como um avanço. É o reconhecimento da paternidade responsável, atitude defendida por feminista há mais de uma década, com o slogan “filho não é só da mãe”, além de que, tal possibilidade já estava incluída em nossa legislação, através da Lei do Divórcio – Lei 6.515/77. A questão da paternidade também sofreu modificações. Antes o marido tinha de dois a três meses para contestar a paternidade biológica de filhos de sua mulher, agora passou a ser imprescritível, pode ser questionada a qualquer tempo. A capacidade civil passa dos 21 para os 18 anos. A cessação da incapacidade para os menores poderá ser feita por concessão dos pais e não mais “por concessão do pai, ou se for morto, da mãe ....”, como estabelecia o Código de 1916. Todos os artigos onde as idades de mulheres e homens estavam diferenciadas foram reparadas e igualadas, estabelecendo assim um equilíbrio entre mulheres e homens. Como se vê, foram introduzidas grandes novidades no novo Código Civil, a maioria ordenando preceitos já estabelecidos em legislação ordinária ou incluindo jurisprudências já firmadas por nossos tribunais. Entretanto resta a inclusão de temas atuais e necessários para a convivência entre as pessoas, como a parceria civil de

pessoas do mesmo sexo, indubitavelmente uma realidade em nossa sociedade e a fecundação artificial, outra realidade vivida em nossa sociedade atual, que foi citada apenas quando se trata da filiação. Alguns outros temas, fora do Direito de Família, também deixaram de ser incluídos ou foram colocados de forma insatisfatória, dando ensejo a que, há menos de um ano de sancionada e mesmo antes de entrar em vigor a Lei 10.406/02 que institui o novo Código Civil, já recebeu propostas de alterações para mais de 200 de seus artigos. Esperamos que as alterações que forem feitas contemplem de forma unânime os anseios da sociedade brasileira.

A mulher e o novo Código Civil Autoria Iáris Ramalho Cortês Instituição CFEMEA Mês/Ano março/2002 Veículo Revista GT Mulher Em 1916, quando o Brasil ainda era escrito com Z foi promulgado o Código Civil, que vigora até hoje, regulamentando as relações das pessoas na sociedade, na família, seus negócios, propriedades e obrigações, estabelecendo critérios e limites para essas relações. São 86 anos de reinado, tendo necessitado passar por dezenas de cirurgias plásticas para conservar seu vigor e poder acompanhar a dinâmica da sociedade. Entre estas cirurgias vale lembrar a quebra de vários tabus ou restrições com relação às mulheres, como o estatuto da mulher casada, que suprimiu sua capacidade relativa e concedeu-lhe mais autonomia, inclusive retirando o pátrio poder da exclusividade paterna (1962); o rito especial para as ações de alimento (1968); o direito do uso do nome de família pela companheira (1973); a introdução do divórcio em nossa legislação (1977); a possibilidade de investigação de paternidade dos filhos havidos fora do casamento dando direito à mãe de registrar o nascimento do menor (1992); o direito de companheiros à alimentos e sucessão (1994) e o reconhecimento da união estável como entidade familiar (1996). A Constituição Federal de 1988 foi marcante para o atual enfoque da família brasileira, concedendo direitos e deveres iguais a mulheres e homens na sociedade conjugal e com relação à prole, além de considerar a união estável como entidade familiar, que pode ser formada apenas pela mãe ou pelo pai e suas/seus descendentes. Paralelamente à atualização legislativa tivemos uma série de decisões em nossos tribunais, transformadas em jurisprudências, contribuindo para que nossa legislação civil refletisse um pouco mais a mudança dos costumes de nossa sociedade. Em junho de 1975 o Congresso Nacional iniciou a discussão do Projeto de Lei nº 634, que viria trazer para tod@s @s brasileir@s um novo Código Civil.

A caminhada pelos corredores do Congresso Nacional durou mais de 26 anos e teve cerca de 300 emendas. Foi aprovado no final de 2001 e sancionado em 10 de janeiro de 2002, transformando-se na Lei nº 10.406 – Código Civil. Como não podia deixar de acontecer, depois de tanto tempo de tramitação, tendo sido discutido em seis legislaturas (quantas gerações?), o novo Código Civil já nasceu provocando polêmicas. Será que veio com a “porção mulher” mais definida, ou o masculino continua a imperar? Logo de saída temos a grata satisfação em sermos consideradas “pessoas”. O artigo segundo que desde 1916 diz “Todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil”, passará a ser “Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil”. Parece ser simplória esta mudança, mas, na realidade vem desmistificar a soberania do homem como representante ortográfico da humanidade e servirá como um marco educativo para mudança na nossa linguagem. Apesar disso, no restante do texto, os artigos e substantivos masculinos continuam a exercer um papel predominante, com “os menores..., os maiores..., os filhos..., os pais..., os loucos..., os pródigos..., os índios..., o juiz..., o herdeiro” etc. Apesar das críticas indispensáveis, o seu conteúdo, de um modo geral, veio preencher várias lacunas, apagar velhos ranços, colocar nossa legislação civil mais perto da realidade atual. No entanto, conserva ainda alguns valores ultrapassados. No Capítulo dedicado à dissolução da sociedade conjugal e do divórcio foram introduzidas questões já retiradas da nossa legislação desde 1977 com a Lei do Divórcio (6.515/77), como o “adultério” e o “abandono voluntário do lar conjugal”, ambos motivos explícitos para uma separação judicial litigiosa. A Lei do Divórcio aponta condições genéricas no descumprimento aos deveres do casamento, o que torna o processo muito mais simples. A “conduta desonrosa” também é uma expressão que pode levar à tese de “legítima defesa da honra”, tese esta, abominada pelas feministas, observando que, na nossa cultura, a honra da mulher difere da honra do homem. No imaginário popular, a honra da mulher ainda está no seu comportamento moral e sexual, na sua conduta no privado e a honra do homem sempre vem refletindo o seu comportamento no público. Por exemplo, uma mulher honesta é aquela que, casada, respeita o marido, não o “trai” ou, se solteira, tem comportamento discreto na sua vida privada, enquanto que, quando se refere a homem honesto, não se pensa se ele está ou não “traindo” sua mulher, freqüentando prostíbulos ou casas de jogatinas. Ao homem basta não roubar para ser considerado honesto. Ainda na família, especificamente “casamento de menores de 16 anos” (a capacidade civil plena passa para 18 anos de idade) pode ser autorizado “para evitar imposição ou cumprimento de pena criminal ou em caso de gravidez”. Este artigo leva-nos a crer que está sendo imposta a obrigação de casar àquele que seduziu uma menor. Continua o antigo e conhecido “casamento na polícia”. No Código Civil de 1916 “as mulheres” podem escusar-se da tutela. No novo, o texto foi ampliado para “mulheres casadas”. Isto é privilégio ou discriminação? É muito tênue a linha que separa esses dois comportamentos. Na mesma linha de dúvidas quanto a ser privilégio ou discriminação, temos o artigo 152 do novo Código que reedita o artigo 99 do Código de 1916. Este artigo se refere à apreciação da coação, no Capítulo que

regulamenta as normas em caso de defeitos do negócio jurídico. A apreciação levará em conta, além de outras condições, o “sexo” do paciente. Apesar das críticas apresentadas, devemos reconhecer os avanços significativos para as mulheres, entre elas a substituição da expressão “pátrio poder” por “poder familiar” pode ser vista como mais uma ruptura da ortografia sexista onde, no Código de 1916, o homem exerce este poder, com a colaboração da mulher, sendo que, em caso de divergência, prevalece a decisão do pai, tendo a mulher que recorrer ao judiciário, caso queira impor sua vontade. Todos os demais dispositivos referentes ao poder familiar explicitam a igualdade de direitos do pai e da mãe, em relação à prole. Enquanto que, no Código de 1916 os direitos e deveres dos cônjuges são distintos em muitos pontos, o novo Código veio unificá-los. Naquele, “o marido é o chefe da sociedade conjugal, função que exerce com a colaboração da mulher no interesse comum do casal e dos filhos” e neste, “a direção da sociedade conjugal será exercida, em colaboração, pelo marido e pela mulher, sempre no interesse do casal e dos filhos.” A exclusão do privilégio à “... mulher solteira, ou viúva, ainda capaz de casar...” com um “dote segundo as posses do ofensor”, expresso no Capítulo Da Liquidação das Obrigações resultantes de Aos Ilícitos, do Código de 1916 é mais uma inovação não sexista do novo Código. No mesmo Capítulo encontramos outro privilégio que a mulher é objeto desde 1916 e que hoje está preste a perder: “a mulher agravada em sua honra tem direito a exigir do ofensor, se este não puder ou não quiser reparar o mal pelo casamento, um dote correspondente à sua própria condição e estado – se, virgem e menor, for deflorada; se, mulher honesta, for violentada, ou aterrada por ameaças ...”. Estes dispositivos poderão até ser consideradas “folclore” ou hilariedade, entretanto existem e com eles a sociedade brasileira convive há mais de 80 anos. Outra inovação trazida é a introdução da questão do planejamento familiar na legislação civil. Praticamente reproduz o texto constitucional, entretanto restringe-se a um artigo inserido de forma solta no Capítulo “Da Eficácia do Casamento”, deixando de lado seus desdobramento, inclusive a questão da inseminação artificial (que aparece apenas no Capítulo Da Filiação). O desdobramento destes temas tão atual é visto por muitas pessoas como justificável por sua condição polêmica e falta de discussão na sociedade. Alguns artigos que não entraram no novo Código e que representam uma ruptura do arcaico ordenamento legal são entre outros, considerar “erro essencial sobre a pessoa do outro cônjuge”, para anulação de casamento, “o defloramento da mulher, ignorado pelo marido”, ou a deserdação dos descendentes por seus ascendentes, causado por “desonestidade da filha que vive na casa paterna”. Ambos estes artigos do Código de 1916 poderiam ser considerados inconstitucionais diante da isonomia entre homens e mulheres preconizada na Constituição de 1988, entretanto, enquanto um diploma legal não é revogado, é passível de ser utilizado e estes poderiam levar muitas mulheres a sofrer o constrangimento de uma ação judicial.

Com estas breves e superficiais considerações sobre o novo Código Civil perguntamos se este “super-homem” descobriu sua porção mulher para enfim mudar o curso da história, como sugere o poeta.

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