You are on page 1of 10

Introdução

A divisão do estudo da linguagem, em uma perspectiva filosófica, em sintaxe, semântica e pragmática tem sua origem no texto Fundamentos de uma teoria dos signos (1938), do filósofo norte-americano Charles William Morris (19011979), da Universidade de Chicago. O texto serve de introdução à Enciclopédia Internacional de Ciência Unificada, da qual Morris foi um dos organizadores, junto com os membros do Círculo de Viena, Otto Neurath e Rudolf Carnap. Este projeto, que visava formular os fundamentos epistemológicos e metodológicos de uma ciência unificada, fora iniciado anos antes, ainda na Europa, por Neurath. O filósofo alemão Rudolf Carnap (1891-1970) foi para os Estados Unidos após a ascensão do nazismo, entre 1936 e 1952 e lecionou na Universidade de Chicago, onde trabalhou com Morris. Posteriormente, Carnap retomou e desenvolveu em suas obras a distinção entre sintaxe, semântica e pragmática como áreas de estudo da linguagem. Morris foi também influenciado pelo filósofo norteamericano Charles Sanders Peirce (1839-1914), que pode ser considerado um dos precursores da pragmática. Em sua discussão sobre a natureza e a função dos signos, Peirce
7

definindo as regras de formação das proposições. enquanto entidades abstratas. enfatizando o papel do interpretante na relação entre o signo e aquilo que este designa. Não devemos. não só na filosofia. Isso pode ser ilustrado com um exemplo da sin- . semântica e pragmática Segundo a definição tradicional encontrada em Morris e em Carnap. e a pragmática diz respeito à relação dos signos com seus usuários e como estes os interpretam e os empregam. contudo. a semântica estuda a relação dos signos com os objetos a que se referem. Sintaxe. A sintaxe estuda as relações entre os signos como unidades básicas no processo de formação de complexos como proposições — abstração feita do significado desses signos.8 Danilo Marcondes destaca a importância do uso. confundir o pragmatismo de Peirce — uma concepção filosófica mais ampla que estabelece como critério de validade de proposições científicas seus resultados com a pragmática enquanto dimensão do estudo da linguagem e do processo de significação. a partir das combinações possíveis entre os signos. Essa distinção e a definição de cada uma dessas áreas tiveram uma grande influência no desenvolvimento dos estudos sobre a linguagem no pensamento contemporâneo. Caracteriza-se como uma ciência formal. mas também na lingüística e na teoria da comunicação. A sintaxe e a semântica receberam tradicionalmente mais atenção. a sintaxe examina as relações entre os signos.

A sentença “João fora lá corre” é uma combinação sintaticamente incorreta. é uma sentença dotada de significado. sendo verdadeira. referem-se a objetos no real e a sentença descreve adequadamente um fato histórico ocorrido. em que os mesmos signos da sentença anterior se encontram impropriamente articulados. “Júlio César concluiu a conquista da Gália em 51 a. por exemplo. O modo de relação entre os signos também altera o significado da sentença. Assim. já que os signos que a compõem têm significado e estão corretamente articulados. a própria sentença não terá significado nem valor de verdade. “João ama Maria” é diferente de “Maria ama João”. seu modo de relação com os objetos que designam. A semântica estuda o significado dos signos lingüísticos. Pode-se dizer que. os diferentes signos lingüísticos utilizados na formação desta sentença não estão corretamente relacionados. Por exemplo. uma vez que. portanto. Isso ocorre porque se os signos não estiverem corretamente articulados. de acordo com as regras da língua portuguesa. Como. ao conteúdo significativo dos signos e à verdade das sentenças em que os signos estão incluídos. no caso das sentenças de uma determinada língua.A pragmática na filosofia contemporânea 9 taxe da língua portuguesa.C. .C.”. portanto. a sintaxe é um pressuposto da semântica. não será nem verdadeira. embora os signos em ambas as sentenças sejam rigorosamente os mesmos. O correto seria “João corre lá fora”. “51 Gália conquista da concluiu Júlio César a. por exemplo. nem falsa.”. não poderá descrever adequadamente fatos ocorridos e. mas sem sentido. ou seja. A semântica diz respeito.

Na verdade. a pragmática consiste na nossa experiência concreta da linguagem. o domínio da variação e da heterogeneidade. Contudo. em diferentes contextos. É nisso que consiste o que denominaremos de problema de Carnap. a semântica faz abstração de variações de uso específicas e considera o significado dos termos independentemente dos usos. devido à diversidade do uso e à multiplicidade de contextos. uma análise da linguagem em um sentido mais sistemático e teórico se dá na passagem para os planos da semântica e da sintaxe. tal como utilizada por seus usuários para a comunicação. por exemplo. a resposta seria negativa. A sintaxe faz abstração do significado e considera apenas as classes ou categorias de signos para examinar as regras formais segundo as quais se relacionam. Como vimos anteriormente. que envolvem níveis gradativamente maiores de generalização. portanto. É por este motivo que Carnap. uma vez que qualquer tentativa deste tipo envolveria uma abstração dessa diversidade e dessa multiplicidade de uso. Examinaremos em seguida. para Carnap. Assim. é possível analisar a linguagem de um ponto de vista pragmático? Podemos dizer que. considera a pragmática um domínio da linguagem de difícil análise. em busca de elementos comuns que permitissem um tratamento mais teórico e sistemático. É. por sua vez. o estudo da linguagem parece pressupor a passagem deste nível concreto da experiência da linguagem para a semântica e a sintaxe. contu- . diz respeito à linguagem em uso.10 Danilo Marcondes A pragmática. ou seja. nos fenômenos lingüísticos com que efetivamente lidamos.

Podemos considerar que há duas linhas de desenvolvimento da pragmática na filosofia da linguagem. mesmo que originariamente os autores que formularam essas concepções não tenham utilizado este termo em relação às suas propostas. levando em conta os desenvolvimentos mais recentes destas propostas. Nessa acepção a pragmática consideraria tanto a contribuição dessas expressões lingüísticas quanto a necessidade de interpretá-las de acordo com o contexto para determinar o significado das sentenças em que são empregadas. Posteriormente o papel do contexto na constituição do significado será ampliado. isto é. a pragmática trataria especificamente do que Yehoshua BarHillel chamou de dêixis ou de expressões indiciais. advérbios de tempo e de lugar. Outra possibilidade de compreender a pragmática consiste em considerar o significado como determinado pelo uso. “Ele veio ontem aqui”. “ontem”. estendendo-se a outras expressões da linguagem. Para ter significado. demonstrativos. A primeira a considera como uma extensão da semântica. algumas tentativas dentro da filosofia da linguagem contemporânea de dar uma resposta positiva ao problema de Carnap. Pronomes pessoais. essas expressões dependem do contexto. seriam tipicamente dêiticos ou expressões indiciais. o que só pode ser feito levando-se em conta o contexto específico em que a sentença foi utilizada.A pragmática na filosofia contemporânea 11 do. Essas concepções acrescentam . sem o que não podem ter a sua referência determinada. A compreensão dessa sentença é impossível sem a determinação da referência das palavras “ele”. Por exemplo. “aqui”.

como uma propriedade imanente à palavra.12 Danilo Marcondes à consideração do contexto a idéia de que a linguagem é uma forma de ação e não de descrição do real. que. O primeiro é representado pela concepção de significado como uso. Essa teoria considera possível um tratamento sistemático da linguagem de um ponto de vista pragmático. desde que se analise a linguagem enquanto ação. de Wittgenstein. O segundo é a Teoria dos Atos de Fala inicialmente formulada por John L. Ele considerou o significado de uma palavra como o seu uso em um determinado contexto (IF. nem pretende formular uma teoria. por sua vez. §43. dois tipos de desenvolvimento dessa segunda alternativa. embora considerando que é possível analisar a linguagem em uso. Austin. o que podemos considerar uma concepção pragmática. não propõe um tratamento sistemático deste uso. o significado não deve ser entendido como algo de fixo e determinado. Encontramos. 432) e introduziu a noção de jogo de linguagem (IF. §7). ou seja. desde que se adotem as categorias adequadas para isso. Vamos nos concentrar nesta segunda alternativa por considerarmos que ela apresenta efetivamente o desenvolvimento de uma filosofia pragmática da linguagem. sobretudo em suas Investigações filosóficas. Segundo Wittgenstein. . Wittgenstein e a concepção de significado como uso O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein (1889-1951) desenvolveu.

contar anedotas etc.A pragmática na filosofia contemporânea 13 mas sim como a função que as expressões lingüísticas exercem em um contexto específico e com objetivos específicos. generalizar. A mesma palavra pode. assim. portanto. Não podemos. que as empregam com um objetivo determinado. variar dependendo do contexto em que a palavra é utilizada e do propósito deste uso. definindo como que uma entidade abstrata que seria o significado da palavra. dar uma ordem. então. não sendo. As palavras não são utilizadas primordialmente para descrever a realidade. determinada de modo definitivo. por conseguinte. agradecer. como a semântica tradicional parecia supor. (IF. mas para realizar algum objetivo como fazer um pedido. O significado pode. A linguagem é sempre comunicação e a determinação do significado de uma palavra ou expressão depende da interpretação do objetivo de seu uso nesses contextos. São esses diferentes contextos de uso com seus objetivos específicos que Wittgenstein caracteriza como jogos de linguagem. Essa impossibilidade de generalização e a ênfase na análise do contexto são alguns dos traços fundamentais que levam a classificar a concepção wittgensteiniana como pragmática. Isso pode ser ilustrado através da análise do próprio termo “jogo” que encontramos nas Investigações filosóficas . fazer uma saudação. participar de diferentes contextos com diferentes significados. Essa noção visa estipular que as expressões lingüísticas são sempre utilizadas em um contexto de interação entre falante e ouvinte. §23). São inúmeros esses usos e não há por que privilegiar um sobre o outro já que tudo depende dos objetivos particulares de quem usa a linguagem.

14 Danilo Marcondes (§66-70). §67) para explicar isso. como uma essência ou característica básica definidora que todos devem compartilhar. talvez. que a análise filosófica deve trazer as palavras do plano metafísico para o uso comum (IF. mas dissolvidos. mas talvez não quando olhamos para cada indivíduo separadamente. Podemos perceber essa semelhança em um retrato de grupo. E. A metáfora do tecido também é utilizada nesse sentido na mesma passagem das Investigações. Wittgenstein considera. assim. o pôquer e o tênis? Empregamos esse termo em relação a jogos competitivos e recreativos. O que haveria em comum entre o uso desse termo para designar coisas tão diferentes como o jogo de xadrez e o jogo de futebol. sendo que alguns estão mais próximos. Segundo ela. percebe-se que . outros mais distantes. O caráter genérico do significado seria como uma semelhança de família. Quando se examina o uso concreto das expressões. mas não há um único fio que percorra todo o tecido. é possível que haja apenas alguns traços característicos que nos permitem aproximar esses usos. Os problemas filosóficos devem ser elucidados levando-se em conta os usos das palavras e expressões que incluem. A variedade de usos forma uma espécie de tecido. não devamos buscar algo comum entre todos esses usos. no qual os diferentes fios se entrelaçam para formar o todo. §161). Porém. os membros de uma mesma família se parecem. Dessa forma a maioria dos problemas tradicionais não seriam resolvidos. sem que haja necessariamente algo comum a todos. a jogos solitários como a paciência ou em equipe como o basquete. Wittgenstein usa a imagem da semelhança de família (IF.

incapacidade de perceber distinções. que se tratam de usos inteiramente distintos do mesmo verbo. Ou seja. Por usar as expressões “Tenho uma nota de dez reais no meu bolso” e “Tenho uma idéia em minha mente” é que sou levado a crer que a mente é um espaço interior que tem como conteúdo idéias. Analisar o significado das palavras consiste em situá-las nos jogos em que são empregadas e em perguntarmos o que os participantes nos jogos fazem com elas. dos jogos de linguagem e do uso das palavras neles contidos revela essas distinções e permite o esclarecimento dos problemas. mas a maneira como funcionam no jogo. contudo. regras pragmáticas (IF. §54.A pragmática na filosofia contemporânea 15 em grande parte dos casos os equívocos resultam de confusões. Um exame dos diferentes contextos. como no jogo de xadrez. os jogos de linguagem possuem regras que definem o que é ou não válido. . falsas analogias. tal como o bolso pode conter uma nota. Assim. o que importa não são as figuras das peças. segundo as quais os objetivos podem ser alcançados. constitutivas dos jogos. São regras de uso. semelhanças superficiais. Uma análise do emprego do verbo “ter” nesses casos revela. que tornam possíveis os atos realizados por aqueles que jogam. 82-8. 567). As regras estabelecem como e para que podemos usá-las e em que circunstâncias isso pode ser feito. Do mesmo modo. mais ou menos formais. consiste em mapearmos as regras segundo as quais jogam e realizam lances válidos nesses jogos. também na linguagem o que importa são as funções que as palavras podem exercer nos jogos de linguagem. Os jogos são jogados de acordo com regras que podem ser mais ou menos explícitas.

devemos sempre considerar vários tipos de uso.16 Danilo Marcondes A concepção wittgensteiniana do método de análise pode ser ilustrada pela seguinte passagem das Investigações filosóficas (§77): “Diante dessa dificuldade pergunte sempre: como aprendemos o conceito dessa palavra “bom”. por exemplo? De acordo com que exemplos.” Além disso. compará-los e contrastá-los. . em que jogos de linguagem? Você verá então mais facilmente que a palavra deve ter uma família de significações. “Uma causa da principal das doenças filosóficas – dieta unilateral: alimentamos nosso pensamento apenas com uma espécie de exemplo” (IF. §593).