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RUMO A UMA ESTRATÉGIA EUROPEIA CONTRA A VIOLÊNCIA ASSOCIADA AO DESPORTO

Os grandes eventos desportivos, sobretudo de dimensão internacional, revestem-se de uma importância inquestionável, constituindo um privilegiado palco de convívio e de entendimento entre os povos. Porém, a violência pode transformá-los em arenas de incidentes graves ou catástrofes, como sucedeu nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1974, ou no final da Taça dos Campeões Europeus do Estádio de Heysel, em Bruxelas, em 1985. Por isso, a segurança é a primeira condição para que estes eventos sejam uma festa. Apesar de não existir uma definição unânime de “grande evento”, podemos identificar um conjunto de elementos típicos que o caracterizam: a) Significado histórico, social ou político; b) Ampla cobertura mediática, nacional ou internacional; c) Participação de atletas de nomeada ou alta competição de um ou mais países; d) Inclusão, na assistência, de altas entidades ou de pessoas com notoriedade; e) Concentração de um número elevado de assistentes; f) Produção ou aumento de ameaças à segurança interna ou à paz pública, incluindo a criminalidade violenta e o terrorismo.

Além disso. por definição. pela forte carga emotiva que geram. A violência associada ao desporto. acabam por servir. Portugal beneficiou da realização recente de eventos muito relevantes. uma aposta e um desafio estratégico para países. Ela tem a particularidade de ocorrer no contexto de competições. que. A organização da Fase Final do Campeonato da Europa de Futebol – UEFA EURO 2004 – constituiu uma experiência deveras enriquecedora. cada vez mais. agendados para Pequim em 2008. esses grandes eventos oferecem aos países organizadores capacidades a em oportunidade matéria de de reforçar as suas de segurança. pelo papel que desempenham na promoção da imagem. da credibilidade e do espírito de iniciativa dos seus anfitriões. com frequência de pretexto ou oportunidade situacional para comportamentos desviantes. é. regiões e continentes. partilha informações e troca de experiências e boas práticas. na Áustria e na Suíça. uma forma específica de comportamento anti-social. Nesta comunidade da partilha de saberes. e. do EURO 2008. ao futebol. na Alemanha. Um dos aspectos mais marcantes destas manifestações de violência é a constituição de grupos organizados de adeptos. ou ainda dos próximos Jogos Olímpicos. . que nos permitiu transmitir boas práticas aos organizadores do Mundial de Futebol FIFA 2006.Os grandes eventos representam. particularmente.

Ainda assim. não obstante o peso residual dos adeptos ou grupos violentos. é impossível traduzir. No entanto.seja ao nível mediático. em grande medida. como a correcção. vigorosa e eficaz. Mas. As entidades responsáveis pela segurança dos espectáculos desportivos.Respeitando uma hierarquia. a dimensão e o impacto dos seus actos . observando valores comuns e eivados de um forte sentimento de pertença. ou seja. A esmagadora maioria dos espectadores respeita e pratica os princípios enformadores do desporto. justificam uma resposta célere. a gravidade. para usar uma expressão simples que. As causas desta violência são. num contexto típico de psicologia das multidões. comuns às que explicam a delinquência e a criminalidade juvenil e grupal em geral. continuam a representar uma ínfima minoria no grande universo dos adeptos do futebol ou do desporto em geral. mormente os organizadores ou promotores e as . a lealdade e a tolerância. importa sublinhar que estes indivíduos e grupos violentos. são exacerbadas e potenciadas por um sentimento de anonimato e de impunidade. o ”fair play”. estes grupos fornecem o ambiente ideal para indivíduos e grupúsculos já conhecidos pelas suas carreiras delinquentes praticarem actos de violência extrema. seja no sentimento de segurança -. verdadeiramente. ou tendencialmente violentos.

manifestações e consequências -. preventiva e comportar. policiais e judiciárias devem garantir uma resposta coordenada. (entre todos os agentes com responsabilidades na segurança dos espectáculos desportivos). de âmbito local. a violência associada ao futebol. como dimensões. o domínio sócioeducativo. requer também uma resposta integrada e adequada às circunstâncias de tempo e de lugar. as parcerias público-privadas. no essencial.nas suas causas. a valorização do papel dos adeptos e grupos ordeiros (através de incentivos da auto-regulação self-policing) e a erradicação de uma insignificante mas perturbadora minoria de “adeptos” e grupos violentos. como o afastamento desportivos. Num plano mais concreto. é indispensável adoptar uma estratégia contra a violência associada ao futebol. Tal resposta deve compreender medidas que vão desde a prevenção social e situacional a acções de prevenção específicas. importa ponderar as seguintes medidas e acções: dos adeptos mais violentos dos recintos . Neste contexto. Por outro lado. Essa estratégia deve ser.autoridades administrativas. constituindo um fenómeno complexo . nacional e europeu.

e) Identificação de padrões comuns mínimos.a) Empenhamento político na definição de políticas e aprovação de normas que previnam e reprimam a violência associada ao futebol. g) Reforço da ligação entre o lado da oferta de tecnologias e equipamentos de segurança e o lado da procura (instituições policiais e organizadores dos eventos). recorrendo. d) Definição clara de funções e responsabilidades entre os vários stakeholders envolvidos na segurança de eventos desportivos. públicos e privados. sem prejuízo da soberania e da realidade nacional de cada um deles. conceitos e disposições legais entre os vários Estados-membros. b) Esforço de harmonização de políticas. neste último caso. ao Colégio Europeu de Polícia. desde os membros das estruturas de segurança privada aos comandantes do policiamento. desde o plano da segurança infraestrutural e da certificação técnica de instalações à área da protecção e socorro (safety). c) Política de comunicação que permita reforçar a segurança objectiva (induzindo boas práticas) e reduzir o sentimento de insegurança (combatendo o alarmismo). f) Investimento na capacitação e na profissionalização dos recursos humanos. passando pela segurança pública (security) e privada (stewards). aplicáveis no espaço europeu. de modo a colocar a tecnologia ao serviço da gestão da .

as seguintes medidas policiais e judiciárias: . na aplicação das políticas de prevenção social e situacional. permitindo a sua participação nos processos de tomada de decisão acerca da segurança e do bem-estar dos espectadores. visando. Segurança e Justiça da União Europeia. a curto prazo. l) Aperfeiçoamento dos mecanismos de coordenação da segurança de grandes eventos internacionais. tendo em vista a coerência e a eficácia dos processos e a articulação de políticas e entidades envolvidas. j) Envolvimento activo do associativismo. medidas e acções de segurança. para o cliente (customer-oriented approach) – neste caso. o espectador pacífico. dos clubes de futebol. No âmbito do Espaço de Liberdade. das autarquias locais e. respectivamente. embaixadas de adeptos (fan embassies) e mecanismos de auto-regulação dos grupos de adeptos (fancoaching) . a prevenção primária e secundária junto de crianças e jovens e a melhoria das condições ambientais e infra-estruturais dos estádios.e aprofundamento do papel das associações e dos grupos pacíficos de adeptos. i) Aposta em medidas de prevenção sócio-educativa – nomeadamente.segurança e a impedir que ela se converta numa ameaça adicional à segurança. h) Orientação das políticas. importa promover. zonas envolventes e redes de transportes. sobretudo. pública ou privada.

agregando os diversos aspectos de segurança. com poderes de autoridade policial. Essa edificação envolverá uma estrutura central de coordenação. . Estas e outras medidas comuns devem conduzir à criação. para garantir padrões mínimos e monitorizar e verificar a qualidade dos procedimentos técnicos e operacionais. uniformizados ou não (spotters). conceitos e padrões de procedimento. no respeito pelos ordenamentos jurídicos pelas especificidades nacionais. a par de normas. meios humanos. de uma Casa Comum Europeia em matéria de gestão da segurança de grandes eventos desportivos. mediante a definição clara do seu estatuto. ao território de outros Estados-membros. financeiros e logísticos. num futuro não muito longínquo. d) Reconhecimento das sentenças judiciais de interdição de acesso a recintos desportivos (banning orders) e da interdição de viajar para outro Estado-membro (exit bans). b) Criação de equipas conjuntas de peritos europeus avaliadores. entre Estados-membros e entre estes e a UEFA. federações ou ligas de futebol profissional. permitindo a sua aplicação a todo o espaço da União. aprofundando o regime previsto no Acordo de Prüm.a) Facilitação da troca de dados pessoais sobre indivíduos violentos (e não apenas grupos). c) Afectação de equipas de agentes policiais.

da Presidência Portuguesa e do Parlamento Europeu. Por tudo isto. em associação com a UEFA. No quadro de tal prioridade. deste modo. a Presidência Portuguesa identificou a melhoria da segurança de grandes eventos internacionais. como uma das suas prioridades em matéria de justiça e assuntos internos. observando o princípio da disponibilidade. em última análise. são os tópicos mais importantes da nossa política de segurança. reforçar a cooperação institucional e definir linhas de orientação para reduzir e tentar erradicar a violência associada ao desporto. e Justiça e promover o bem-estar dos cidadãos europeus. tendo por base os trabalhos técnicos realizados pelo think tank do grupo de peritos sobre violência associada ao futebol. surge esta Conferência. Segurança. incluindo os desportivos. Pretendemos. A segurança dos grandes eventos é essencial para preservar o Espaço de Liberdade. É também neste quadro de prioridades que. do reconhecimento de que a realização de grandes eventos desportivos em condições de segurança constitui matéria de interesse para a União Europeia no seu conjunto e não apenas para cada um dos Estados-membros. O reforço da cooperação policial e o aprofundamento da comunhão e partilha de informações sobre adeptos violentos. a Presidência Portuguesa apresentou recentemente um documento .Tratar-se-á. numa feliz parceria da Comissão Europeia.

Tal documento constitui. merecem destaque os seguintes instrumentos e medidas: a) O trabalho do think tank de peritos governamentais e policiais. não é. na contudo. que aconselha e apresenta propostas ao Grupo de Trabalho de Cooperação Policial. Este. que constitui uma referência para outras redes europeias. que compreende um conjunto de medidas tendentes a minimizar os riscos de segurança nos jogos de futebol com dimensão internacional. ao nível do Grupo de Trabalho Cooperação Policial. Europa. tendo em vista a aprovação de uma Decisão do Conselho. o primeiro programa de trabalho. deste há mais de duas décadas. b) O desempenho da rede europeia de pontos nacionais de informações policiais de futebol. . medidas e acções têm vindo a ser adoptados graças proficiente desenvolvido. a União Europeia tem desenvolvido um trabalho intenso para aumentar a cooperação policial internacional e a troca de informações sobre grupos de adeptos violentos. ao nível da União Europeia. No último decénio. Vários trabalho instrumentos legislativos. as medidas que preconiza são adaptáveis a outros eventos desportivos. Sem embargo. No plano da União. o início ao da “história”. pelo Comité Permanente do Conselho da Europa.estratégico. criada há cinco anos por Decisão do Conselho.

c) O património normativo e técnico do Comité Permanente do Conselho da Europa deve. É evidente que a solidariedade institucional constitui a condição sine qua non para a concretização deste programa de trabalho. pelos Ministros da Justiça e dos Assuntos Internos. b) O Parlamento Europeu pode acompanhar e necessários são colocados ao seu serviço. reforçar a fiscalizar o cumprimento do programa. para minimizar os riscos inerentes aos jogos ou torneios de futebol de dimensão internacional. por um lado. garantindo que os meios .c) O esforço regular de aperfeiçoamento do Manual Europeu. Foi neste contexto que surgiu o programa de trabalho que a Presidência Portuguesa pretende ver aprovado. que teve a sua última actualização em 2006 e incorpora as boas práticas dos sucessivos campeonatos europeus e mundiais de futebol. dentro em breve. os peritos europeus têm defendido a adopção de medidas e acções adicionais. por outro. Sem esquecer a valia e a pertinência das medidas previstas neste Manual. designadamente ao nível da formação e do treino. Assim: a) A Comissão pode encorajar e financiar os Estadosmembros. servir de base ao desenvolvimento do programa e.

social ou religiosa). Ao percorrer esse caminho – um caminho que se faz a caminhar. a liberdade e o bem-estar dos nossos cidadãos e a melhorar a credibilidade e a reputação da União Europeia.cooperação e a assistência a países não comunitários (que também participam nas competições). d) A UEFA. pelo capital de conhecimento que adquiriu e em consonância com o papel que vem assumindo. bem como outras associações nacionais ou europeias de organizadores e promotores. Portugal. . estaremos. a nossa União será. continua empenhado em que o programa de trabalho seja desenvolvido ao longo dos próximos anos. a reforçar a segurança. o espaço previligiado para a organização de eventos de dimensão internacional. Deste modo. como ensinou o grande poeta espanhol e europeu Antonio Machado -. como referência mundial na gestão da segurança de grandes eventos. Consideramos que as medidas e acções nele previstas representam um passo significativo no caminho para a erradicação da violência associada ao desporto no espaço europeu. desportiva. económica. cada vez mais. pode também harmonizar normas e procedimentos ao nível de todo o continente europeu e desempenhar um papel pioneiro na melhoria das estruturas e das condições de segurança. seja qual for a sua natureza (política. cultural.

Bruxelas. dos clubes. no das empenhamento Estados-Membros. dos eleitos locais.Confiamos. para de conduzir todos esta os empresa difícil. da UEFA e de outras associações europeias. fraternidade e cidadania plena. Com o empenhamento de todos. o desporto será um factor cada vez mais forte de união. instituições europeias e internacionais. 29 de Novembro de 2007 O Ministro da Administração Interna Rui Pereira . das associações de adeptos.