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X Coloquio Internacional de Geocrítica DIEZ AÑOS DE CAMBIOS EN EL MUNDO, EN LA GEOGRAFÍA Y EN LAS CIENCIAS SOCIALES, 1999-2008 Barcelona, 26 - 30 de mayo de 2008 Universidad de Barcelona

A ECONOMIA SOLIDÁRIA NA CIDADE CAPITALISTA: CONFLITOS E CONTRADIÇÕES DA REPRODUÇÃO DO CAPITAL NO ESPAÇO URBANO Tatiane Marina Pinto de Godoy[1] Doutoranda em Geografia Observatório Territorial – Centro de Estudos Ambientais Universidade Estadual Paulista /UNESP Rio Claro tatiane.godoy@uol.com.br A Economia Solidária na cidade capitalista: conflitos e contradições da reprodução do espaço urbano (Resumo) A Economia Solidária consiste em uma forma, ainda não definida espacialmente, de base associativista e cooperativista, voltada para a produção, comercialização e consumo de bens e serviços, de modo autogerido, tendo como finalidade a reprodução ampliada da vida. Esta forma de produção envolve a dimensão social, econômica, política, cultural e espacial. Debatemos aqui o caráter emancipador da Economia Solidária tendo como lugar a cidade capitalista e buscamos responder qual é o lugar dos empreendimentos solidários. Para tal questão utilizamos dados oriundos do Programa Economia Solidária em Desenvolvimento no Brasil, do governo federal, que visa mapear e instituir políticas públicas que subsidiem este setor no território brasileiro. A partir desta intervenção do Estado, buscamos compreender a contradição entre o papel e a ação do Estado na geração de trabalho e renda através empreendimentos autogeridos inseridos no contexto de um modo de produção da cidade que visa à acumulação ampliada do capital. Palavras Chave: Economia Solidária, Cidade, Reprodução.

The Solidary Economy in the capitalist city: conflicts and contradictions of the reproduction of the capital in the urban space (Abstract) The Solidary Economy is a way of association and cooperation not yet spatially defined. It seeks for production, commercialization and consumption of goods and services, by selfmanaged means, having as a purpose the enlarged reproduction of life. This production form involves the social, economical, politics, cultural and spatial dimension. At this opportunity we debated the emancipator character of the Solidary Economy having the capitalist city as place. We also try to answer what is the place of the Solidary enterprises. For that we have

na sua forma mais aparente manifestada nas diferentes territorialidades. vislumbramos a possibilidade de contribuir para o conhecimento e talvez para o aprimoramento de uma forma de produzir que agrega pessoas e não apenas agrega o capital. This Program seeks to map and to create public policies to subsidize this sector in the Brazilian territory. e conseqüentemente impedindo o acesso às outras esferas da vida como o direito à moradia. a enorme concentração de pessoas. we try to understand the contradiction between the role and the action of the State concerning work and income generation through self-managed enterprises inside a way of production of the city that seeks to the enlarged the capital accumulation. ou mais especificamente dos empreendimentos solidários. Key words: Solidary Economy. which have been developed by the federal government in Brazil. A crise humana leva a crise da cidade. City. produto mais complexo do trabalho humano. patrões e empregados. . ou seja. cujo conflito está em um primeiro olhar de forma latente. A cidade é um campo de forças. que por sua vez é condição da negação humana. e a crise humana decorrente da negação da reprodutibilidade das relações sociais com o cerceamento do acesso ao trabalho. a distribuição e a organização social das atividades nas suas diferentes escalas. A análise da Economia Solidária. Nossa orientação teórica é de uma geografia crítica que vai além das análises locacionais. ao consumo e ao lazer. as contradições presentes nos espaços produzidos por modos de apropriação que em um primeiro momento se mostram contrastantes como são o da acumulação capitalista e o da produção solidária é necessário recorrer a vários aportes teóricometodológicos sem nos desviar da premissa de que o espaço é produto das relações sociais. Estudar a Economia Solidária através de um enfoque espacial nos remete à Geografia Econômica. A cidade. de riquezas e de objetos projetou fragmentos múltiplos e disjuntos como são as periferias e os subúrbios levando ao que hoje se chama de fase crítica.used the data from the Solidary Economy Program. que inclua pessoas marginalizadas dos avanços da ciência pós-moderna cujos resultados segregam grande parte dos homens. pobres. de atividades. é a materialização em um mesmo espaço de diversas territorialidades. Optamos por investigar mais detidamente os empreendimentos solidários no contexto urbano. metáfora lefebvriana[2] emprestada da física nuclear. por exemplo. A implosão-explosão do urbano. A problemática urbana carrega consigo a crise da cidade. Nosso esforço vai à direção de uma análise que dê conta do desvendamento das relações sociais produtoras do espaço geográfico e de suas implicações na reprodução da humanidade. Mas não se trata tão somente de estudar a localização. Reproduction. mas que através de um olhar informado se manifesta na dimensão do visível através da divisão centro/periferia. No mesmo espaço urbano estão presentes ricos. Mas sem nos esquecermos da questão da mundialidade. Starting from this intervention of the State. Para podermos apontar. bem como condição de reprodução destas relações sociais. Ao escolher a Economia Solidária como tema de estudo. Sua divisão social é mais visível. Tal objetivo nada mais se justifica do que pela necessidade de uma nova forma de viver. e se possível iluminar. Estas duas crises são indissociáveis. no âmbito da geografia nos assegura a possibilidade de estudar as políticas públicas do Estado através de duas categorias: o território e o lugar.

a das necessidades.160 habitantes. Urbana ou do Comércio. Uma crítica à economia política do espaço Para entender as dinâmicas da produção e reprodução do espaço geográfico é preciso entender as dinâmicas das práticas sociais em toda a sua complexidade. da população total de 169. o espaço é produzido pelas relações sociais de produção e. Em suas palavras: “a práxis engloba. industrial. Podemos receber a crítica de que o urbano já atingiu o meio rural através de suas estruturas racionalizadas. suas relações de produção e. assim como as necessidades de ordem técnica. Mais uma vez retomando Marx (1976. a dos bens. comercial ou financeira. um determinado número de objetos produzidos (instrumentos de produção ou bens de consumo).799. troca e acumulação. 110). a dos instrumentos.959 vivem nas cidades. seja no campo ou na cidade.953. Já vimos que este trabalho não poderá simplesmente se classificar como de Geografia Econômica. Entendemos que a análise espacial só pode ocorrer tendo como premissa que o espaço geográfico é aquele produzido pelo trabalho humano. Para a investigação que estamos desenvolvendo é preciso superar a subdivisões da ciência geográfica. bem como de sua distribuição. Mas é nas cidades onde se encontra o grande contingente populacional. Sobretudo. As trocas são parte integrante da economia. simultaneamente. O espaço é produzido na atividade agrícola. suas relações sociais de produção. é de fundamental importância que se identifique seus agentes e suas práticas. É também produzir e re-produzir as múltiplas relações sociais que permitem a produção e também a . Os empreendimentos de produção solidária necessitam da troca tanto quanto os empreendimentos de produção capitalista pelo simples fato de que sua produção precisa ser consumida para que possa ser novamente produzida. Fizemos um recorte espacial para a análise crítica que pretendemos. p. Lefébvre nos afirma que é preciso ir além da (re)produção material da sociedade para entendê-la. 267) afirma que os modos e as relações de produção. Também deve ser considerada que do total da população economicamente ativa. Portanto reafirmamos que escolhemos o espaço urbano para o estudo dos empreendimentos solidários. já que.Temos também o suporte da Geografia do Comércio. a discussão sobre a produção envolve um grau determinado de desenvolvimento social. segundo dados do Anuário dos Trabalhadores – DIEESE 2006. apenas 20. No Brasil. podemos dizer que todas as épocas da produção possuem certas características ou determinações comuns. Seria humanamente impossível querer dar conta de toda a complexa materialidade social. 137. seja através das atividades primárias. Se vivemos em um modo de produção que prima pela acumulação sempre ampliada do capital. George (1976. tanto quanto sem a distribuição e a troca. Tentaremos identificar quais são as particularidades da produção solidária. ainda que a Economia Solidária possua raízes profundas no espaço rural. p. troca e consumo em relação à produção capitalista. Produzir e reproduzir não significa apenas lançar na circulação.6 per cento realizavam atividades agrícolas em 2001 (DIEESE 2006). ele é condição de reprodução destas mesmas relações sociais. a produção dos meios e a dos fins. sobretudo. da produção agrícola mecanizada e informatizada. exigem formas particulares de comércio. secundárias ou terciárias. como nos assegura Marx[3]. a produção material e a produção espiritual. Cabe-nos analisar de que maneira esta relação econômica se dá na Economia Solidária. P. Analisaremos as trocas comerciais dos empreendimentos solidários já que não há produção sem consumo.

De Lefèbvre emerge a dimensão temporal e espacial na compreensão das lutas de classe. A divisão do trabalho possibilitou a perda da consciência de classe e o rompimento das solidariedades.21) traz uma metodologia de estudo considerando a vida cotidiana dos diferentes grupos sociais. aspiração mais ou menos irrealizada – a dialética presente na mercadoria enquanto afirmação e negação da vida. 14). resultado do esfacelamento da sociedade. Em sua “psicologia das classes sociais” Lefèbvre (2005. afirma que a consciência de classe do proletariado. Entretanto. Lefèbvre (2005. A sociedade tornou-se individualista. 24). análogas. As análises das relações de produção não se esgotam no modo de produção. assim como da burguesia. independentemente das diferenças de país.apropriação dos bens (e igualmente os limitam ou os obstaculizam)” (Lefébvre apud Ajzenberg. Na proposta de Lefèbvre este conceito não exclui em nada o trabalho produtivo. como afirma Ajzenberg (2005. isola os indivíduos. o ser humano enquanto produtor de riquezas se coisifica. esta destruição da consciência humana como sujeito da história. Este esfacelamento é também a especialização extrema do trabalho. Vivemos num mundo de necessidades criadas para a reprodução sempre ampliada do capital. Ele nos mostra que o espaço e o tempo tornaram-se simultaneamente mercadorias em torno das . onde a mundialização da produção e das trocas submete a moral à mercadoria e às finanças. Este esfacelamento. não apenas a alienação de sua posse. afirma Ajzemberg (2005. afirma Debord (1997. Estes perdem a sua consciência coletiva. 13). classe. A sociedade do espetáculo cria a passividade e dela necessita.10). Neste mundo da mercadoria. A organização do trabalho precarizou as condições dos trabalhadores e desfez a coletividade. p. A abordagem distinta da economia no estudo dos níveis de vida e da sociologia no estudo dos gêneros de vida não é capaz isoladamente de atingir em profundidade o psiquismo de classe. e apenas isto. Para Debord (1997. mas a alienação da consciência de seu papel como produtor da mais-valia. a consciência de classe é aquela da individualização com a generalização extrema das necessidades. A individualização. citado por Lefèbvre (2005. 21) mostra que a generalização das necessidades não significa satisfações idênticas mas. privação. p. surgem em escala mundial. p. e pelo espetáculo que dela se faz. 37) a sociedade do espetáculo constrói a sua unidade sobre o esfacelamento. 40). Assim. frustração. que é apropriada pelo possuidor dos meios de produção. 2005 p. Lukacs. Em um mundo preconizado pela troca. O individualismo cultivado de maneira exacerbada reinvidica as necessidades criadas pelo mundo da mercadoria espetacularizado. muda de acordo com a conjuntura. ou seja. falta. mas para compreendê-las é necessário o conceito de vida cotidiana. 21) supõe que as classes sociais se caracterizam diferencialmente pelas necessidades que. p. assim. raça. p. a insatisfação também se tornou mercadoria. Ao contrário: ele o implica. p. p. a proposta de Lefèbvre é a do vivido em uma situação. do espetáculo. o problema se desloca as noções negativas – de insatisfação. p. leva a alienação do individuo em relação ao produto de seu trabalho. E nesta mesma linha de pensamento Lefèbvre (2005. regime político.

Somente ali os indivíduos estão ‘diretamente ligados à história universal’ somente ali o diálogo se armou para tornar vitoriosas suas próprias condições”. enquanto influenciadas pela classe dominante. não possui a compreensão de seu espaço. alienado de sua condição enquanto sujeito da história. que separa e distingue pessoas e lugares. tarefa que cabe. 233) diz que ninguém pode afirmar que não está sendo ludibriado ou manipulado só em raríssimos instantes o próprio manipulador pode saber se ganhou. Para Debord é necessário que a teoria enquanto entendimento da prática humana seja reconhecida e vivida pelas massas para que haja a revolução proletária. Lefèbvre admite a existência de classes sociais definidas nas obras clássicas: classe burguesa. o proletariado. “Emancipar-se das bases materiais da verdade invertida. Debord (1997. classe operária. copiam a burguesia e. A hipótese de Lefèbvre é que as classes sociais se caracterizam diferencialmente pelas necessidades. A transformação verdadeira do mundo vai além da mudança do modo de produção capitalista para um outro modo de produção. ainda e sempre. no qual a teoria prática controla a si mesma e vê sua ação. ou morais. 2005 p. mesmo o espaço sendo produto de relações sociais dialéticas. não são nem elaboradas. 35). mesmo sendo a única classe social efetivamente revolucionária. Mas. o Conselho. Mas.quais ocorrem as formas modernas de luta de classe. O espaço produzido por esta economia política nega a vida humana. Estas necessidades resultam de uma crítica geral da vida cotidiana. p. nem suficientemente relacionadas à análise crítica da prática social” (Lefèbvre. Ela demanda a consideração do desenvolvimento da luta de classe com sua forma tradicional inclusa na moderna: a luta pelo espaço e pelo tempo. Seu cotidiano é colonizado pelo espetáculo. à classe que é capaz de ser a dissolução de todas as classes ao resumir todo o poder na forma desalienante da democracia realizada. Esta crise está presente no espaço da cidade e do campo. quem é essa classe dominante? A burguesia? A burguesia. Nem o indivíduo isolado nem a multidão atomizada e sujeita à manipulação podem realizar essa ‘missão histórica de instaurar a verdade no mundo’. espirituais. sempre quis ser igual à aristocracia. tem o papel irrisório do último vagão em um trem. . nas palavras de Lefèbvre (2005. Ao término da obra “A sociedade do espetáculo” há um caminho para a satisfação dessa necessidade. p. Mas cabe nos perguntarmos qual classe está imune à manipulação. As classes médias. Suas necessidades são orientadas pela autonomia do valor de troca. Entretanto “as distinções entre as necessidades profundas e as necessidades artificiais. com a diferenciação dos lugares como produto da desigualdade social. O estado crítico em que vivemos é produto de uma alienação generalizada? Como já dissemos anteriormente nós vivenciamos na atualidade uma crise generalizada. ele ainda é concebido através de uma lógica cartesiana que não é capaz de decifrá-lo na sua complexidade. se a sociedade do espetáculo é uma sociedade da passividade pela necessidade criada por uma classe dominante. classe camponesa e classes médias. por sua vez. 21). eis no que consiste a autoemancipação de nossa época. O homem. culturais. A imitação de classe acaba tem por conseqüência a ignorância das necessidades e satisfações artificiais em relação às necessidades reais. as necessidades materiais e as necessidades coletivas. Esta é a verdadeira necessidade. as necessidades elementares e superiores.

de um outro processo mais amplo. portanto. que os levam a sair do campo. que são fortemente urbanizados. tendo em vista a urbanização e suas determinações. através da industrialização. como conseqüência da Revolução Industrial. possibilitou a transferência agrícola. portanto. Tratava-se. Não podemos nos esquecer. nasce o urbano. mas também como processo. momento este em que. o processo de urbanização esteve quase sempre associado a um modelo econômico excludente. as quais cresceram sem planejamento. no entanto. A urbanização está associada à industrialização. notadamente quanto à geração de empregos. A concentração de terras e a precariedade das condições de vida no campo levaram grandes parcelas da população rural a migrar para as cidades.A transformação deste mundo da mercadoria espetacularizado passa necessariamente pelo desenvolvimento da luta de classe. além da maioria das nações industrializadas recentemente. processo desconcertante para o pensamento e a ação. ao longo da história. Não se podia mais. sem mesmo possuírem parques industriais. Há. para Lefèbvre (2002). ao longo da história. que chamam migrantes para as cidades. ou seja. Para Lefèbvre. profundo e dialético. Também não é simplesmente a expansão das cidades. Nesses além das transformações urbanas. A divisão do trabalho na cidade A análise da relação entre urbanização e cidade permite-nos compreender o espaço urbano. rico. ou seja. assim: a urbanização da sociedade. As transformações ocorridas no campo pelo desenvolvimento do mundo da mercadoria. e os repulsivos. a qual está empregada no setor de serviços. a análise da urbanização enquanto sentido e finalidade da industrialização . que inclua sua forma moderna. tanto nos países desenvolvidos quanto nas regiões mais industrializadas dos países emergentes. Nos países subdesenvolvidos. Todos os países desenvolvidos. ou desenvolvidos. também uma revolução agrícola. A urbanização não é um mero aumento da população residente nas cidades. como expressão das formas como se organizaram e reorganizam as cidades. em atividades secundárias ou terciárias. de Henri Lefèbvre. Nestes casos as atividades agropastoris são bastante mecanizadas e ocupam pouca mão-deobra. possuem altas taxas de urbanização. ou seja. levou à explosão-implosão. houve. como materialidade presente. Essas condições surgiram primeiramente nos países de industrialização antiga. a partir de então. acompanhada da decomposição da cidade na qual esse mesmo mundo se aninhou e expandiu. possibilitou a transferência da população do campo para cidade. uma modernização da agropecuária que. como acumulação de outros tempos. uma modernização da agropecuária que. a luta por uma nova cidadania: uma luta pelo espaço e pelo tempo. A problemática urbana não pode ser entendida enquanto for considerada como subproduto da industrialização. nas palavras de Martins no prefácio da edição brasileira d’A Revolução Urbana. que o urbano é um modo de vida e que a cidade é a concretização deste modo de vida. dois conjuntos básicos de fatores que condicionam a urbanização: os atrativos. às transformações provocadas na cidade pela indústria. pensar em termos de cidade e campo. Mas também há países que possuem baixas taxas de industrialização.

A transdução se apresenta como consciência lógica dessa possibilidade. Partir do objeto meio concreto. ou seja. Teoricamente. como é o caso do urbano. evocam a sociedade urbana. num plano novo.prossegue a ponto de se poder afirmar que tal formulação é ao mesmo tempo essencial e insuficiente. e o é às vezes. se a teoria da complexificação anuncia e prepara a desforra do desenvolvimento sobre o crescimento. É através de um discurso coerente. evitando confundir quantitativo e qualitativo. Por isso ele a declara metafilosófica por ser ao mesmo tempo global e articulada ao conhecimento. amanhã real”. que se discerniam. a experiência mostrou que pode sim haver crescimento sem desenvolvimento. das mensagens. hoje virtual. porque se o fenômeno urbano tende a transpor .[4] Para Lefèbvre vivemos hoje em uma fase ou zona crítica que tem como característica a problemática urbana em nível mundial. O urbano não suprime as contradições do industrial. parcelar. a teoria da sociedade urbana vai ao mesmo sentido. mas para Lefèbvre ela se vincula ao conhecimento científico. Neste discurso a dimensão temporal. Assim. os mesmo problemas ou ausência de respostas encontram-se tanto no capitalismo como no socialismo. A extensão-expansão do urbano não vai continuar sem dramas. Tal noção de fase ou zona crítica se faz necessária. Lefébvre nos diz também sobre a complexificação da sociedade. Esta tese da complexificação parece filosófica. podiam e deviam andar juntos. já que os conceitos antigos não são mais suficientes e novos conceitos se formam. é reintroduzida. evacuada pela epistemologia e pela filosofia do conhecimento. quando ela passa do rural ao industrial e do industrial ao urbano. Todas essas considerações evocam a prodigiosa extensão do “urbano” a todo o planeta. O crescimento que devia ser um meio se tornou um fim. meio virtual. o que implica na transdução. Se para Marx o crescimento e o desenvolvimento. Há para Lefèbvre que se ampliar. com suas virtualidades e seu horizonte. que se define uma reflexão sobre o futuro. Os conflitos inerentes à produção entravam o fenômeno urbano. Tal complexificação atinge o espaço e o tempo porque a complexificação do espaço e dos objetos que nele se situam não ocorrem sem uma complexificação do tempo e das atividades que nele se desenvolvem. reduzindo-o ao crescimento. Em sua obra “A Revolução Urbana” Lefèbvre levanta a hipótese de uma urbanização completa da sociedade. porque comporta por essência o inacabamento. mas efetivo: teorias da informação. o conceito de complexidade se funda na distinção entre crescimento e desenvolvimento. porém não acabado. o caráter social do trabalho e seu conflito com a propriedade privada dos meios de produção. O fenômeno urbano prolonga e acentua. um objeto que ainda não se materializou completamente. Para o referido Autor a sociedade urbana é aquela que resulta da “urbanização completa. impedem o desenvolvimento do urbano. diversificar e formular de outro modo a lei de desenvolvimento desigual (de Lênin) para dar conta do conflito entre crescimento e desenvolvimento revelado no curso do século XX. Tal desforra está apenas no seu começo. da codificação e da decodificação.

ainda é tomada por ideólogos. Ele se apresenta como lugar dos enfrentamentos e confrontações. faz com que os cidadãos não vivam a cidade por inteiro. reunindo-as nas suas diferenças – heterotopias. em especial os do urbano. Ao mesmo tempo o fenômeno urbano é colossal. Assim. A pontualidade do fato é uma regra. . As desigualdades sociais se materializam na paisagem urbana. A racionalidade coerente que separava e dissociava tudo o que tocava. mas como ato que reúne e distribui. de estudo e de lazer – os locais por onde circulam. Quanto maiores foram as disparidades entre os diferentes grupos e classes sociais. ou seja. ao englobar uma ordem distante. maiores são as disparidades de moradia. o urbano é pontual. Intensifica-se aqui ou ali. Ele não existe sem esta localização: o centro. da ordem urbana e da desordem urbana. 163). leis e preceitos negativos. o seu local de moradia. Dessa forma os efeitos de uma possível ruptura no plano industrial e financeiro (crise de superprodução. ou seja. politicamente numa perspectiva que “não pode ser concebida sem a autogestão estendida da produção e das empresas às unidades territoriais” (Lefébvre. O urbano poderia ser então definido como lugar da expressão dos conflitos e lugar do desejo (lugar onde se concentra o desejo das necessidades). acesso aos serviços públicos. Isotopia e heterotopia se afrontam e desta nasce uma centralidade diferente. de trabalho. Ela era na verdade contraditória e conflituosa. unidade das contradições. A centralidade e a contradição dialética que ela implica excluem o fechamento. se estrutura como um quebra-cabeça em que as peças fazem parte de um todo. Atualmente. para Lefébvre (2002) o fenômeno urbano depende de uma leitura total porque nem a superação de seus fragmentos e conteúdos. Ou seja. agrupa as pontualidades distintas. o fim de todas as separações e a destruição dos obstáculos que acentuam a opacidade das relações e os contrastes entre transparência e opacidade são negatividades que implicam uma positividade. Dessa forma. crise monetária) serão acentuados pela extensão do fenômeno urbano e pela formação da sociedade urbana. o espaço urbano é fragmentado. Ele se localiza e se focaliza. porque ele produz não à maneira da agricultura e da indústria. quase sempre associada a um intenso crescimento urbano. em qualquer grande cidade. no espaço e nos objetos e. ou seja. pelo ser humano. Essa fragmentação. de suas condições no tempo. tomado como centro (momentâneo) reina uma ordem próxima. as trocas comerciais e as organizações industriais e financeiras parecem reafirmálas. que a prática produz e a análise compreende .fronteiras. o direito à cidade. do lugar e do não-lugar. Descobre-se assim como forma o movimento do pontual e do colossal. antes de tudo. e manifesta-se como movimento. Lefèbvre formula algumas leis do urbano. como princípio de uma organização superior. mas cada uma delas tem sua própria identidade. A ordem próxima. que é comparável ao paradoxo fundamental do pensamento e da consciência. Há um paradoxo do fenômeno urbano. ele cria. A sociedade industrial também nada tinha de harmoniosa. da re-apropriação. isto é. Em torno de um ponto. característica da sociedade urbana através da substituição do contrato pelo costume.a isotopia (cidade). O urbano como forma e realidade nada tem de harmonioso. O rompimento de barreiras. que se impõe e depois será reabsorvida no tecido espaço-temporal. a imobilidade. que são. nem sua reunião confusa podem defini-lo. O fenômeno urbano contém uma práxis. 2002 p. mas apenas os fragmentos fazem parte de seu cotidiano e caracterizam o seu lugar.

Entre estes direitos. ainda não definida espacialmente.Toda esta discussão acerca da cidade e do urbano na visão de Henri Lefèbvre nos dá margem para especular se os empreendimentos de economia solidária estariam no contexto da autogestão proclamada pelo Autor como característica da sociedade urbana ainda virtual. de base associativista e cooperativista. voltada para a produção. não deixam por isso de ter a possibilidade de transbordar os centros. para determinar a via”. porque consistem apenas em acasos e necessidades igualmente cegos.38). O crescimento do número de empreendimentos econômicos solidários no Brasil O que entendemos por Economia Solidária consiste em uma forma. A formação de redes de cooperação e a iniciativa de inúmeras empresas geridas por trabalhadores. Tal pergunta se vincula ao caráter emancipatório salientado pelos defensores da Economia Solidária. sociais e espaciais. econômica. (Lefébvre. nos colocamos como desafio especular se os empreendimentos de economia solidária estariam no contexto deste projeto global. Se o projeto não se pode elaborar. de produção. cultural e espacial e no discurso de seus defensores. em fluxos e refluxos. Se as periferias são impotentes. seriam parte da Revolução Urbana necessária para a urbanização completa da sociedade? Lefèbvre propõe um projeto. Lefèbvre (1973. comercialização e consumo de bens e serviços.]". p. tendo como finalidade a reprodução ampliada da vida. p. a partir do momento em que estes são abalados. Ele visa a produção de uma diferença diferente das que podem induzir-se nas relações de produção existentes. reafirmando a emergência de atores sociais com a emancipação dos trabalhadores como sujeitos históricos. recordemos: o direito à cidade (o direito a não ser afastado da sociedade e da civilização.. Tem como hipótese que é através do espaço (e do tempo). . de modo autogerido. os direitos dos indivíduos e dos grupos. determinando as condições do seu ingresso na prática. p. 39). Tal projeto não é um programa. por meio de uma concepção de espaço. espontâneo e consciente. as experiências de Economia Solidária se projetam no espaço onde estão inseridas com a perspectiva da construção de uma sociedade justa e democrática. um caminho de construção do direito à cidade e alcance da sociedade urbana. São diante de tais termos que consideramos oportuno o debate acerca da possibilidade da Economia Solidária situar-se entre as ações e estratégias que consistem em tornar possível amanhã o impossível de hoje. juntamente com as novas formas de gestão democrática das cidades. é porque os fatos ditos sociais escapam ao pensamento e à ação. (LEFÈBVRE.. 1973. 39) nos alerta que “o projeto só pode resultar de um esforço coletivo. num espaço produzido com vista a essa descriminação) – e o direito à diferença (o direito a não ser classificado à força em categorias determinadas por potencias homogeneizantes) [. Lefèbvre defende que: "Só um projeto global pode definir todos os direitos. 1973. que se pode produzir esta diferença das diferenças. política. sobretudo os que o poder central rejeita para as periferias mentais. Para o Autor. teórico e prático. Diante destas considerações. Esta forma de produção envolve a dimensão social. nesta elaboração já cooperaram os grupos parciais e diferenciais. se estão destinadas isoladamente às revoltas locais e pontuais. distribuição e consumo. ou se não possui nenhuma eficácia.

superando a expectativa de que houvesse em torno de 20 mil em todo o país. "Esta perspectiva amplia e desenvolve as características emancipatórias dessas alternativas para torná-las mais visíveis e credíveis. de prefeituras municipais e governos estaduais. Também se constatou que está havendo um crescimento da Economia Solidária na década de 1980. Isto não implica que a hermenêutica das emergências renuncie à análise rigorosa e à crítica das alternativas analisadas. mas com o principal incremento a partir da década de 1990. Para Gaiger (2003). Santos (2003) analisa as alternativas a partir do que ele designa por “hermenêutica das emergências”. O Programa Economia Solidária em Desenvolvimento. movimentos e comunidades resistem à hegemonia do capitalismo e aderem às alternativas econômicas fundadas em princípios não capitalistas. Em sua obra intitulada Produzir para Viver. elaborado pelo Governo Federal através da SENAES/MTE visa à articulação de políticas públicas de geração de trabalho e renda ao combate à pobreza e a inclusão social. atua como vetor de racionalização do processo produtivo. iniciado em 2005. construir a integração destas políticas com vistas a sua consolidação. Para o fortalecimento da Economia Solidária no Brasil o Ministério do Trabalho e Emprego criou a SENAES (Secretaria Nacional de Economia Solidária) que. juntamente com o Fórum Brasileiro de Economia Solidária. face ao seu caráter antisistêmico. comparativamente ao trabalho individual e à cooperação. 2003. p. está realizando o mapeamento dos empreendimentos solidários em todo o território nacional.Boaventura de Sousa Santos (2003) destaca que qualquer análise que procure sublinhar e avaliar o potencial emancipatório das propostas e experiências econômicas não capitalistas que se tem vindo a fazer por todo o mundo deve ter em conta que. O levantamento. essas experiências e propostas são frágeis e incipientes. já identificou 21. Para isto foi implantado o SIES – Sistema de Informações de Economia Solidária. a economia solidária mostra-se capaz de converter-se no elemento básico de uma nova racionalidade econômica. a análise e a crítica procuram fortalecer as alternativas e não propriamente diminuir seu potencial. com efeitos tangíveis e vantagens reais.859 mil empreendimentos econômicos solidários. ou seja. o programa busca através da Rede Nacional de Gestores Públicos de Políticas de Fomento à Economia Solidária. entre os assalariados. . A análise da Economia Solidária no âmbito da Geografia possibilita o entendimento da produção de novos espaços econômicos suscitados pela necessidade de novas formas de reprodução do trabalho e da vida e que atualmente são objetos de políticas públicas de diferentes instâncias do governo. induzida pela empresa capitalista. 04). como demonstram algumas pesquisas empíricas. Todas estas informações possibilitam conhecer a realidade e a partir dela debater teoricamente o momento atual. Todavia. que se constitui em um instrumento para visibilidade da Economia Solidária e que tem como objetivo orientar e subsidiar os processos de formulação e execução de políticas para seu desenvolvimento." (Santos. Aproveitando as bases e redes já existentes. que apontam a cooperação na gestão e no trabalho ao invés de contraporse aos imperativos de eficiência. uma perspectiva que interpreta de uma maneira abrangente a forma como as organizações. apta a sustentar os empreendimentos através de resultados materiais efetivos e de ganhos extra-econômicos.

se constituem em grandes complexos que unem em um mesmo espaço sistemas produtivos com utilização de alta tecnologia e especialização de seus trabalhadores. como veremos mais detalhadamente adiante.274 municípios (correspondente a 41 per cento dos municípios brasileiros). e na década de 1990 quando as políticas de livre mercado produzem um regime de concorrência onde o corte de custos atinge principalmente os trabalhadores que perderam seus empregos pela automatização da indústria e dos serviços. Experiências cooperativistas e associativistas de regiões como a Terceira Itália tem sido debatidas no Brasil pelo Governo Federal através de um Acordo de Cooperação entre o dois países que visa implementar e aperfeiçoar políticas públicas voltadas à Economia Solidária no Brasil. detectar as virtualidades da Economia Solidária enquanto forma de realização da emancipação do trabalho em relação ao capital.000 empreendimentos econômicos solidários. estas são experiências que ultrapassam o caráter autogestionário. Índia. Era o fim dos Trinta Gloriosos nos países de economia avançada e que acabou por extinguir a sua política do Estado de bem-estar social. Experiências observadas no Brasil. Dentre as regiões brasileiras cabe um destaque ao nordeste que apresenta um significativo crescimento dentre as demais regiões no número de empreendimentos solidários a partir da década de 1990. Em meados desta mesma década ocorre uma crise internacional motivada pelo embargo do petróleo aos EUA e países da Europa em retaliação de países árabes ao apoio dado à Israel. mas que vão além da acumulação material e buscam a emancipação social. Há uma redução da expansão das associações e uma relativa estabilidade na expansão de novas cooperativas.Os dados aqui apresentados descrevem a Economia Solidária no Brasil através de números e informações disponibilizadas pelo Sistema Nacional de Informações sobre Economia Solidária (SIES) e pelo Atlas da Economia Solidária no Brasil. e o Brasil especialmente sente os efeitos com o crescimento do desemprego que só tende a se intensificar na década de 1980. inclusive o Brasil.859 empreendimentos levantados pelo Sistema Nacional de Informações em Economia . África do Sul. Também merece destaque o complexo cooperativo de Mondragón localizado no país Basco (Espanha) e tomado atualmente como um dos paradigmas do cooperativismo no mundo. Outro dado a ser considerado é que se até a década de 1990 o tipo de empreendimento de economia solidária em maior número era representado pelas associações. O Brasil passa no momento pelo apogeu do número de empreendimentos econômicos que primam pela gestão compartilhada. Dados apresentados no Atlas da Economia Solidária no Brasil (2005) mostram que até a década de 1970 o aumento do número de empreendimentos econômicos solidários era baixo. a partir de então ganham destaque os grupos informais. o nordeste apresenta no ano de 2007 quase 10. Moçambique. Esta crise do petróleo desestabilizou a economia mundial e causou uma recessão que extrapolou as fronteiras e atingiu todo o mundo. entre outros países ditos da periferia ou semi-periferia. Sozinho. elaborados pela Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego através de um levantamento realizado em 2. Colômbia. ou seja. Conseqüentemente os resultados atingiram os países pobres. Entretanto. As experiências italiana e basca. O objetivo desta descrição é o de tomar conhecimento da realidade concreta afim de que se possam investigar suas origens e motivações e mais além. nesta região se concentra 44 per cento dos 21. mostram que são nestes lugares que podem estar presentes as práticas de transformação social mais inovadoras que não se detenham à idéia de progresso e desenvolvimento postas pela Europa e América do Norte. chamada de a “década perdida”.

complemento de renda dos sócios (20 per cento) e obtenção de maiores ganhos (17 per cento). o estado do Espirito Santo subiu de 259 EES (2005) para 520 ESS (2007). a maior parte dos empreendimentos está organizada sob a forma de associações. mas não tão acentuado quanto a região nordestina. cujo aumento relativo foi de 100. Podemos apontar algumas causas através das razões para a criação dos empreendimentos econômicos solidários no contexto brasileiro. Podemos observar isto no acompanhamento da divulgação dos dados pelo SIES. A região sudeste vem agregando empreendimentos a sua somatória total. urbana e mista são melhores distribuídas na região Sul do que na região Sudeste. significando um aumento relativo de 26 per cento. seguida por grupos informais. Mas observando-se detidamente os estados federativos observaremos que a tradição cooperativista do Rio Grande do Sul persiste com a presença de 2085 EES. cujo grande peso são os empreendimentos econômicos solidários urbanos.Solidária – SIES. ficando abaixo da região sul.27 per cento. 33 per cento atuam exclusivamente na área urbana e 17 per cento tem atuação tanto na área rural como na área urbana. Já na região sul aparece como os motivos mais citados “obtenção de maiores ganhos” (48 per cento) e “fonte complementar de renda” (45 per cento).900 empreendimentos desta natureza e com um padrão de crescimento positivo. Em 2005 esta região possuía 14 per cento dos empreendimentos. mas o levantamento daqueles que ainda não haviam sido identificados no período anterior. As regiões Sudeste e Sul têm predominância de EES na área urbana. representando 9.200 a 3. 2007. Já as regiões sul e sudeste apresentam uma participação diferenciada como se observará nos gráficos. No Brasil. Sozinho o Rio Grande do Sul é responsável por 58 per cento dos empreendimentos econômicos solidários presentes na região sul e lhe atribuindo o terceiro lugar entre as regiões com maior número de EES. Este incremento se deu principalmente por conta dos estados de Minas Gerais que passou de 521 EES (2005) para 1236 EES (2007) com um aumento relativo de 137 per cento e Rio de Janeiro que passou de 723 EES (2005) para 1343 EES (2007) com um aumento relativo de 85 per cento. Metade dos empreendimentos econômicos solidários no Brasil atua exclusivamente na área rural. Na análise regional destacamos que o motivo “alternativa ao desemprego” é o mais citado nas regiões sudeste (58 per cento) e nordeste (47 per cento). com 46 per cento e 53 per cento respectivamente. Os 3 principais motivos para a criação dos EES são: alternativa ao desemprego (21 per cento). Já o estado de São Paulo subiu de 641 EES (2005) para 813 EES (2007). Os grupos informais são aqueles que ainda não possuem registro legal por estarem no início de suas atividades ou devido às dificuldades para adequação às normas jurídicas. A análise dos dados faz surgir a questão da presença maior de grupos informais nas regiões sul e sudeste do Brasil. As demais regiões isoladamente apresentam em torno de 2. Mas as proporções entre as atuações na área rural. . cooperativas e outras formas de organização. O menor crescimento constatado no levantamento entre 2005 e de 2007 foi no estado de São Paulo.53 per cento do total nacional. Nas regiões norte e centro-oeste o principal motivo citado é o de complementação de renda. nordeste e centro-oeste acompanham o perfil nacional. Vale ressaltar que os dados referentes a este período não significam apenas a criação de novos EES. diferentemente do padrão nacional. Por fim. Cada região apresenta uma distribuição diferenciada. então com 17 per cento dos EES. As regiões norte. Fora de contexto se destaca a região Sudeste com 60 per cento dos EES atuando na área urbana.

Existem exemplos em que os próprios trabalhadores assumem “as rédeas” de empresas em processo de falência ou entendem que a atividade realizada de forma coletiva oferece maiores possibilidades de manutenção do trabalho e de reprodução. apoio e fomento a grupos de trabalhadores que buscam coletivamente se inserir no mercado de trabalho através de produção. aos serviços de saúde. As condições de pobreza e os poucos anos de estudo formal da grande massa de desempregados leva estas pessoas a desempenhar atividades informais ou temporárias para a sua reprodução cotidiana. É na escala dos municípios que os efeitos do desemprego e da precarização do trabalho são sentidos com maior intensidade. comercialização e prestação de serviços. . que antes era apenas responsável pela regulamentação e fiscalização das questões trabalhistas exercendo também o papel de facilitador na geração de trabalho e renda ao exercer a função de intermediador de mão-de-obra. mas o grande destaque é a região Nordeste com 63 per cento de ESS rurais. mais propriamente na cidade. que acompanham o padrão nacional de predominância de empreendimentos econômicos solidários rurais. Na medida em que a reprodução social é dificultada pela falta de emprego o espaço social reproduz a dificuldade de acesso à moradia. de qualificação e requalificação profissional. A região Norte já é marcantemente caracterizada pela atuação maior dos EES na área rural. ao padrão nacional. Políticas públicas nas diferentes instâncias O enfrentamento da precarização do trabalho e das dificuldades de acesso ao emprego tem motivado a formulação de políticas públicas voltadas para a geração de trabalho através de programas que incluem formas autogestionárias de empreendedorismo. de pensar ao longo prazo e sem a visão da coletividade. investigar as causas destas características tão marcantes e tão distintas ao mesmo tempo em um mesmo território nacional. sem possibilidades de planejar o futuro. Municípios. Norte e Nordeste.Na comparação entre as regiões Centro-Oeste. então. eles são predominantemente urbanos na região Sudeste e rurais na região Nordeste. Embora a região Centro-Oeste tenha em números relativos a maior presença de EES rurais. é negado quando o homem tem restringida a sua possibilidade de se reproduzir. Evidentemente que toda regra tem a sua exceção. No município e. Mas o Estado. São muitos os casos em que a iniciativa de formação de cooperativas e associações parte das políticas de governo e não dos trabalhadores. Podemos afirmar que. estados e governo federal têm implantado sistemas de capacitação. orientação trabalhista e atendimento ao trabalhador pelo Sistema Público de Emprego. como vimos anteriormente. As dificuldades do acesso ao emprego pleno com seguridade social tornam a vida destes trabalhadores uma busca incessante pela sobrevivência dia a dia. A iniciativa de formulação e aplicação de políticas públicas para o empreendedorismo autogestionário tem suas raízes nas administrações municipais. Mas o que se tem observado é que estes trabalhadores necessitam primordialmente de apoio do Estado para que possam iniciar e manter os empreendimentos. muito mais amplo que o acesso a moradia e serviços públicos. São inúmeras as atividades desenvolvidas por empreendimentos solidários. estão materializadas as desigualdades sociais através da fragmentação do espaço e da diferenciação dos lugares. também podemos observar diferenças. se de fato existem espaços econômicos solidários no Brasil. Em uma análise crítica o direito à cidade. educação e segurança. passou a buscar novas respostas no âmbito da Economia Solidária. ainda que discretamente. Cabe. ela possui uma porcentagem de empreendimentos urbanos e mistos superior.

51). pela necessidade da inversão da concentração da renda e pelo apoio às mais diversas manifestações da economia popular." (Kapron. a região nordeste tem como característica mais aparente uma agricultura pouco mecanizada e dependente das condições naturais. Se a região sudeste é reconhecida pela concentração industrial e financeira. lutaram pelo fim do regime autoritário e pela redemocratização da sociedade e foi tida como sinônimo de democratização. em geral de tendência progressista[5]. É necessário que se ratifiquem programas de economia solidária tanto nos municípios quanto nos estados. Deve-se ultrapassar a idéia de atendimento aos “excluídos do mercado” porque a política para a economia solidária deve ser constituída ativamente como indutora de desenvolvimento. "(. com base legal e institucional. Um desenvolvimento desconcentrador e não centrado no capital. A tecnologia. O Brasil possui uma divisão territorial do trabalho reconhecida pela desigualdade de oportunidades entre as suas grandes regiões. Embora saibamos que mesmo legalmente constituídas muitas políticas públicas não são postas em prática O território. a sua regulamentação como política pública. a informação. têm formulado sistemáticas de formação e apoio a grupos de trabalhadores especializados em diversas atividades. onde o Estado promova infra-estrutura e tecnologias não apenas para o atendimento das necessidades do capital internacional.Governos municipais. em seguida.. A descentralização das políticas públicas sociais é produto dos movimentos sociais. a formação. As políticas públicas devem ser constituídas de programas regulares e sistematizados. nos permite apreender a divisão do trabalho estabelecida através do Estado. tão importante para a realização da economia. 2002 p. Experiências estudadas mostram que os projetos realizados por governos municipais e não regulamentados por lei acabam ou se transformam a ponto de perder suas características originais com a mudança das gestões. Este processo envolve a identificação dos diversos agentes e dos diferentes interesses que permeiam o debate da geração de trabalho e renda na agenda pública e. São as ações do Estado quem produzem a hierarquia dos lugares contidos no seu território através da implantação de infra-estruturas que definem as suas capacidades técnica e humana de desenvolvimento. mas para os ganhos na escala da produção local e solidária deve inverter a lógica da apropriação privada do conhecimento produzido nas universidades públicas. A luta pela democracia política através da participação popular nas decisões do Estado está no mesmo plano da luta pela democracia econômica. Para Kapron (2002 p.. a pesquisa e a inovação. não deve somente servir de forma privada para a reprodução do . enquanto expressão geográfica da regulação política. que na década de 1980. 51) cabe às prefeituras e aos governos regionais e nacionais ter uma atitude propositiva quanto à articulação de uma política para a economia solidária. passando pelo reconhecimento da força do mercado informal para a sobrevivência de milhões de pessoas. constituindo uma nova territorialidade da divisão do trabalho. a qualificação. a educação dos trabalhadores e da sociedade. porque ela vai muito além das políticas compensatórias. A mobilização de grupos representantes da sociedade civil e do Estado no sentido de regulamentar os direitos sociais devem expressar os interesses e as necessidades de todos os envolvidos.) a política pública pode colocar o Estado como indutor da constituição de serviços que permitam a capacitação.

a de poder . No leste da Ásia e no Pacífico concentram-se um terço da população pobre mundial. com menos de US$ 1. Disto também surge o debate sobre o desenvolvimento alternativo que deverá ser melhor apresentado nas próximas etapas de trabalho. ou seja. Talvez. Os trabalhadores da Revolução Industrial. Inglaterra. que comporta o cooperativismo. Mas apenas aqueles que exercem algum tipo de dominação interna e que podem pagar pelos avanços técnicos importados. entre outras experiências que aos poucos são divulgadas com um caráter alternativo ao capitalismo. a economia solidária surge de uma necessidade ainda mais premente. O que queremos colocar em questão neste momento é o caráter diferenciado que as experiências de economia solidária têm assumido em diversas realidades. cooperativas agropecuárias em Moçambique.00 ao dia. Observa-se ainda que são nos períodos de crise que o número de empreendimentos mais crescem. Uma análise para além do que existe: Os exemplos da periferia e semi-periferia O desenvolvimento do cooperativismo é estreitamente ligado ao desenvolvimento do próprio modo de produção capitalista. é um conceito criado na década de 1990 que tem em seu bojo a discussão das desigualdades sociais suscitadas pelo crescimento econômico que não proporcionou bem-estar a todos. ainda no século XIX e já sofrendo as conseqüências da destituição de seus bens de produção para empregar apenas a sua mão-de-obra nas fábricas. voltada para o conjunto da população e inclusive para a produção solidária. Mas como analisar a economia solidária em países que nunca tiveram períodos de prosperidade econômica e sempre conviveram com a pobreza de grande parte de sua população. Destes países tem emergido experiências de economia solidária que se diferenciam do que relatamos na Europa. São nos países ditos da periferia ou semi-periferia que vive hoje 90 per cento da população pobre do planeta. iniciam o que se pode chamar de embrião do cooperativismo em Rochdale. A história do cooperativismo é mais longa que a da economia solidária. Na África Sub-saariana o número de pobres chegou a 291 milhões até 2004. Nos países onde a carência social é produto de uma super-exploração da época em que ainda eram colônias e simplesmente foram deixados a própria sorte com os processos de independência. Nos países “em desenvolvimento” ou pobres.capital. A economia solidária. Estes dados do PNUD (2004) afirmam ainda que onde houve crescimento econômico o padrão de vida não foi melhorado. assim como o associativismo e outras formas de trabalho coletivo que primam pela autogestão. cooperativas do movimento sem-terra no Brasil. Na América Latina e no Caribe um quarto da população vive abaixo da linha de pobreza. o que diferencie a economia solidária insurgente entre o fim do século XX e o presente momento do cooperativismo de cem anos antes seja que as condições sociais pouco avançaram e em alguns casos até regrediram fazendo com que o trabalhador dependa muito mais da intervenção do Estado e de outras instituições para enxergar que o caminho a ser tomado deve considerar outras formas de trabalho que não se restrinjam a relação patrão-empregado. São cooperativas de catadores de lixo na Colômbia e na Índia. mas ser concebida como bem público. o desenvolvimento do padrão capitalista não atinge toda a população. Na Europa o cooperativismo é alicerçado na alta tecnologia e especialização de seus trabalhadores que buscam maior competitividade no mercado mundial.

a construção de uma saída econômica centrada na autogestão também pode fornecer as bases para a emancipação em outras esferas. Cadernos O Homem e a Sociedade.sobreviver e se reproduzir. H. Revista GEOUSP – Espaço e Tempo n. A revolução urbana. São Paulo: Abril Cultural. O direito à cidade. H. p. LEFÈBVRE. – São Paulo: FFLCH/USP. Marx. – São Paulo: FFLCH/USP. São Paulo: Edições Loyola. Seria nestes lugares que a essência da economia solidária. Henri. Ainda cabe uma melhor conceituação visto que no discurso partidário vigente a defesa do social independe da sigla ou ideologia fundante do partido. 2005. UFMG. DIFEL. V. A sociedade do espetáculo .17 (2005). São destes países que surge a hipótese de uma nova forma de se relacionar baseada no solidarismo. [4] LEFÈBVRE. 1976. Tradução de Sérgio Martins. nada tem a perder. Belo Horizonte: Ed. P. p. Espaços de esperança. A. Psicologia das classes sociais. portanto. LEFÈBVRE. XXXV. [3] K. [5] Denominamos de progressistas as lideranças políticas “mais radicais em defesa do social”. H. e. A Revolução Urbana. 1973. São Paulo: Centauro. Dra. 2002. 2002. H. Geografia Econômica. São Paulo – Rio de Janeiro. A reprodução das relações de produção. n. 21-41. LEFÈBVRE. 15. articulando a dimensão econômica. Silvana Maria Pintaudi [2] Presente na obra A Revolução Urbana. Tradução de Antonio Ribeiro e M. Tradução de Sérgio Martins.Rio de Janeiro: Contraponto.17. Para as pessoas que nunca tiveram nada. As classes sociais e suas formas modernas de luta. Revista GEOUSP – Espaço e Tempo. . Tradução de Rubens Eduardo Frias. 1997 GEORGE. 2001. Bibliografia AJZENBERG. LEFÈBVRE. Porto: Publicações Escorpião. 2004.. HARVEY. 2005. p. Orientanda da Prof. Amaral. Tradução de Ruth Magnanini. Introdução [à crítica da economia política] In: Manuscritos Econômicos Filosóficos e Outros Textos Escolhidos. UFMG. D. Os Pensadores. 09-19 DEBORD. G. Belo Horizonte: Ed. 1974. social e política em uma ação coletiva possibilitarão as transformações sociais mais amplas? Seriam estes os lugares da realização da utopia da emancipação? Notas [1] Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. 2002.

de S. B. Diez años de cambios en el Mundo. Os caminhos da produção não-capitalista. <http://www. 1999-2008.(Org). Produzir para viver. 2003. Universidad de Barcelona. Tatiane Marina Pinto de. Porto: Afrontamento.htm> Volver al programa provisional .ub. 26-30 de mayo de 2008.es/geocrit/xcol/181. Referência bibliográfica GODOY.SANTOS. A Economia Solidária na cidade capitalista: conflitos e contradições da reprodução do espaço urbano. en la Geografía y en las Ciencias Sociales. Actas del X Coloquio Internacional de Geocrítica.