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A construção de uma questão
A atividade clínica constitui objeto de capital interesse para qualquer psicanalista em formação. Por ocupar um lugar privilegiado na experiência analítica e ser regida por uma ética, exige investimento e dedicação. No decorrer dos estudos e reflexões sobre o fazer do analista, deparei-me com dificuldades no entendimento de vários conceitos, entre eles, um causou-me profundo estranhamento: a noção de construção. No entanto, antes, é preciso reconhecer a dificuldade no estudo e pesquisa em psicanálise, bem como identificar pelo menos duas de suas causas. A primeira, deve-se em parte à própria dificuldade de formalizar os conceitos, visto que Freud os reelabora e lhes faz acréscimos ao longo dos quarenta anos dedicados à sua disciplina. Enquanto fundador de uma “nova ciência” (era essa sua pretensão), ele sempre advertiu sobre o estatuto de um saber provisório sujeito às exigências encontradas na realidade de sua prática. Disposto de tal honestidade intelectual, ele deixou para a posteridade uma trajetória de pesquisas que jamais nega o conhecimento anterior, mas trabalha-o para reposicioná-lo conforme uma explicação que reflita (nos dois sentidos) a prática da clínica psicanalítica. A outra dificuldade é colocada para o praticante e pesquisador da psicanálise, enquanto sujeito, quando se trata em formalizar um saber de fato sobre a psicanálise. Com “saber de fato” quero diferenciar o saber que pode ser extraído apenas com a leitura dos textos (saber referencial ou conhecimento), daquele extraído de si na própria análise e que torna o conceito não apenas freudiano, mas assimilado de forma visceral – um aprendizado fruto da experiência. É preciso passar por um processo de análise para entender como operam os conceitos da psicanálise. Adquirir um saber sobre o próprio inconsciente e os desejos e fantasias que nos habitam é o que torna possível escutar essa dimensão em outras pessoas, e também formalizar um saber sobre essa prática. A resistência em saber do inconsciente opera como um entrave ao entendimento dos textos freudianos e à prática do analista. Ou seja, o trabalho de formalizar um saber em psicanálise considera a influência de um componente pessoal na produção de conhecimento, seja ele produzido

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dentro ou fora do meio acadêmico. Esse aspecto serve para ressaltar três pontos importantes na formação do analista: análise, prática clínica supervisionada e formalização teórica. Assim, pode-se dizer que o entendimento dos conceitos da psicanálise, em especial os da prática clínica, não está condicionado apenas à leitura e reflexão sobre os textos psicanalíticos, mas também a que o sujeito se implique e se reconheça implicado na possibilidade de assimilá-los. O que nos coloca em face de parte da discussão sobre a psicanálise e a universidade, pois no meio acadêmico autoriza-se um profissional mediante o cumprimento de certo números de créditos, durante certo período de tempo, enquanto o psicanalista se autoriza a partir de si mesmo. No entanto, sem desconsiderar as exigências acadêmicas, a psicanálise ganha espaço nos cursos de pós-graduação, onde é possível considerar também, de alguma maneira, a dimensão subjetiva, já que a pesquisa se faz “um a um”. Dessa maneira, apesar da tensão entre os campos, tornou-se possível a pesquisa da psicanálise na universidade. No percurso pelo universo psicanalítico sempre procurei formalizar algumas questões e trabalhar para respondê-las. O trabalho de escrever uma dissertação foi uma oportunidade para me dedicar a responder questões que são pessoais, antes de tudo. A escolha da “construção” como tema de trabalho é o recorte proposto, captado num momento de estranhamento com a temática. Claro que o rigor na produção de um saber no meio acadêmico deve estar à frente dessas particularidades (as minhas e a da psicanálise), mas ao mesmo tempo é preciso reconhecê-las para ser honesto com o leitor e comigo mesmo. O estranhamento frente à temática referida não foi gerado em uma cena ou momento determinado, mas fruto de uma seqüência de informações e eventos que ao “colidirem” produziram tal efeito. Parte provém da percepção que, tanto na leitura de textos pós-lacanianos, como no discurso dos psicanalistas freudo-lacanianos, há um consenso em afirmar que o trabalho de Lacan é uma continuidade ao de Freud. E de certa forma é esta a empreitada lacaniana ao propor, no início, um retorno ao fundador. Mas, como praticante da psicanálise, procuro colocar a escuta a serviço das hiâncias do discurso e procurar aquilo que escapa ao que o paciente diz, e de certa maneira é assim que acabo por “escutar” os discursos dos psicanalistas, seja na vivência institucional ou na leitura de suas obras.

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Apropriado dessa posição frente à obra lacaniana, e num momento de profundo interesse sobre o estatuto do saber psicanalítico e as pretensões científicas tanto de Freud como de Lacan, acabei por me deparar com a noção de construção. Registrava-a como uma prática dos tempos de Freud e que hoje estava associada ao uso selvagem1 da psicanálise e, portanto, destinada a desaparecer da “boa” prática de base lacaniana. Construir significava atribuir sentido sobre um conteúdo alheio e, logo, contrário ao que a ética da psicanálise propõe: as explicações sobre a neurose se encontram no próprio sujeito (é verdade que de forma inconsciente) e qualquer sentido que provenha do outro serve apenas para impedir o seu acesso, encobrindo-as. Freud (1932), em “A questão de uma Weltanschauung”, discute exatamente sobre a psicanálise não possuir uma visão (concepção) de mundo própria (Weltanschauung) além da científica, colocando-se à distância da filosofia e das religiões. Em ambas, cada uma a seu modo, procura se estabelecer um saber que permita explicar o mundo em sua totalidade, bem como gerar proposições sobre como se conduzir na vida a partir desta perspectiva. Assim sendo, a psicanálise não tem um sentido a oferecer sobre as coisas do mundo, nem de como se deve viver a vida. Portanto, não cabe ao psicanalista dizer o que é melhor para o analisando, ou mesmo qual o sentido sobre o sintoma deste. Em outra ponta está a prática clínica lacaniana, fundamentada no uso da interpretação a partir dos significantes. Lacan, em sua empreitada em dar um estatuto científico à psicanálise se aproxima da lingüística estruturalista de Saussure, procurando ali um método para a produção de saber. Do encontro com o estruturalismo fundam-se as bases do pensamento da psicanálise lacaniana, cujo primeiro tempo trabalha com a primazia do simbólico na vida anímica. Descreve o inconsciente como uma estrutura semelhante à da linguagem. Munido desse princípio organizador do seu pensamento, ele subverte o algoritmo saussuriano, e aposta na cadeia de significantes como a descrição do inconsciente. Ou seja, utiliza o método estruturalista que investiga as estruturas e elementos por baixo dos fenômenos e os aplica para descrever o inconsciente. Dessa maneira, Lacan pretende obter uma distância segura da sugestão, que colocava em risco a credibilidade do saber produzido em psicanálise, e propõe que o trabalho do analista
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Referência ao texto “Psicanálise Selvagem” de Freud, escrito em 1910, em que trata da falta de prudência de alguns analistas, e, sobretudo dos não analistas, ao fazerem suas interpretações, ignorando as condições do tratamento que possibilitam a interpretação.

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deva ser apenas o de interpretar a partir dos significantes (da estrutura), exigindo um afastamento da ordem dos significados – ao menos no momento de sua intervenção. Outro dado a colaborar para o meu estranhamento foi verificar que Freud formalizou a noção de construção apenas em 1937, próximo do final de sua vida. Ora, se Lacan teria dado continuidade ao trabalho de Freud, e se dizia freudiano, por que a construção (do modo apresentado por Freud) parecia uma noção de tão pouco prestígio nas rodas lacanianas? Temos assim, de um lado, a construção como uma formalização tardia de Freud, vista como um trabalho do analista em dar sentido sobre algo da vida do analisando. De outro, inter-relacionados: a questão da psicanálise não possuir uma visão de mundo própria e o firme propósito contrário à sugestão de conteúdo ao analisando como vertente ética; o retorno de Lacan e uma clínica que está interessada nos significantes e não nos significados. É com a junção desses aspectos que surge a necessidade de se estudar a noção freudiana de construção, pois ela parece deslocada na concepção freudo-lacaniana de psicanálise. O trabalho pretende responder sobre este lugar “fora-de-lugar” da noção de construção, conceituando-a e trazendo aspectos políticos e teórico-clínicos sobre o por quê de Freud formalizar a noção de construção apenas em 1937, apesar de já utilizá-la muito antes no tratamento analítico. Considera-se essa pesquisa de caráter teórico, e segundo a classificação de Mezan (1994), para quem a pesquisa em psicanálise pode ser de três tipos: históricoconceitual, com material clínico e psicanálise aplicada. Essa pesquisa está enquadrada como histórico-conceitual. Antes de justificar o uso dessa nomenclatura é preciso discorrer sobre as outras modalidades de pesquisa. A pesquisa baseada em material clínico parte de dados recolhidos na experiência clínica. Esse tipo de pesquisa é pouco comum na universidade, e está se tornando mais raro no meio analítico, em face de todos os problemas que podem surgir ao se publicar um caso: seja a necessidade de distorções para garantir o sigilo até e, sobretudo, a dificuldade no tratamento do material recolhido na análise que garanta a compreensão do leitor. Nesse tipo de pesquisa leva-se a experiência clínica de encontro com a teoria e busca-se elementos e conceitos que possibilitem um entendimento ou explicação sobre a questão formulada sobre a prática clínica. Ao final, o aprimoramento

“construção de caso clínico”. lendas. “delírio”. ela visa o encontro da psicanálise com outras produções culturais. obras artísticas. buscando determinações inconscientes em qualquer manifestação cultural. p. um refinamento dos conceitos da psicanálise. isso faria dela uma Weltanschauung. e esses abordavam a “construção da fantasia”. por ter sobre ele um entendimento. foi utilizado inicialmente o termo “construção” junto com o termo “psicanálise”. pois a palavra “construção” possui significado diferente em outros campos do saber. Segundo Mezan (1994). 1994. Para responder algo sobre a pergunta foi-me preciso recolher o material produzido que de alguma forma se dedicasse ao estudo da noção de construção. esta modalidade produz os seguintes efeitos: familiariza o pesquisador com a teoria psicanalítica bem como produz um efeito associativo. mesmo na psicologia tão próxima. seja como referência. “fantasia”. autobiografias e biografias. Essa modalidade de pesquisa parte da compreensão de que a psicanálise é capaz de analisar as produções do aparelho psíquico. tem-se a pesquisa histórico-conceitual. Possibilita a criação de um repertório teórico que influencia tanto a formação do profissional como outros níveis. a ação dos mesmos mecanismos que conduzem o processo analítico a funcionar” (Mezan. que . a “construção do saber” ou utilizavam o termo em sentido diferente da noção freudiana: “construção de discurso”. romances. seja como objeto de estudo. a teoria psicanalítica está no centro. Ou seja. 68). “A psicanálise aplicada mostraria em mitos. A outra modalidade de pesquisa é a psicanálise aplicada. poucos trabalhos referentes ao tema foram encontrados. Mas a idéia não é simplesmente analisar o mundo sob a ótica psicanalítica. antes de tudo. Prática instituída desde Freud. na qual este trabalho se inscreve: nela. Esta modalidade de pesquisa visa. a maioria dos artigos de psicanálise utiliza o termo “construção” de forma coloquial. Parte-se de um estudo exaustivo e minucioso da teoria. Foi assim. No entanto. o avanço na compreensão e formulação dos conceitos e mesmo modificações na prática clínica podem ser alguns dos frutos do encontro entre prática e teoria. do Scielo e do Google Acadêmico.5 da teoria. Foi necessário considerar outros termos pertinentes à temática para encontrar trabalhos sobre o assunto: “interpretação”. sejam científicas ou artísticas. produções do imaginário. em trabalhos com esses termos como tema. Finalmente. No rastreamento dos bancos de dados do CAPES.

6 encontrei. Para evitar tal manifestação é necessário um conhecimento das referências do autor e do momento histórico e cultural em que ele se insere. . O interesse não está na literalidade e sim nos efeitos que esse texto produz. algo que o mestre não disse. Visa o que de implícito se pode deduzir. O mesmo se pode dizer sobre o levantamento de livros sobre o assunto. O “ler o texto” não visa apenas a sua reprodução. Isto serve como advertência. em alguns deles. a própria dificuldade em encontrar obras que contemplem o tema de pesquisa serve também de justificativa para a necessidade de um trabalho dedicado à noção de construção. para além do dito. Para efetuar o estudo dos textos selecionados foi utilizado o método de releitura e comentário proposto por Garcia-Roza (1994). e utiliza o delírio psicótico como modelo para explicar a eficiência de uma construção no processo de análise. o olhar do pesquisador introduz um novo. Ou seja. busca para além da polissemia. mas também impõe limites ao pesquisador em suas incursões ao texto. para não colocar como sendo palavras de um autor algo que ele não poderia ter dito. Na releitura admite-se o valor da criação. da invenção. e o comentador vai dizer. 16). só o próprio autor poderia confirmar tratar-se de comentários ou de releituras –. e entender o que é possível extrair do autor ou é uma releitura. em que a construção é apresentada em aparente oposição ao conceito de interpretação. transformações. partes dedicadas ao estudo da construção. O comentário pretende avançar no entendimento do texto. portanto. Mesmo nos dicionários de psicanálise recorridos. “a revelação de algo oculto no texto. nem todos continham um verbete dedicado à “construção”. no sentido de transformação. Os termos foram definidos por uma leitura preliminar de “Construções em análise” (1937a). da interpretação e do trabalho do analista. Isso se dá pela própria polissemia existente na linguagem e. Esse exercício de diferenciar as conclusões pessoais produzidas a partir do texto possui suas fronteiras – no limite. no texto também. com a condição de que diga aquilo que o mestre diria e não algo novo em relação ao que o mestre disse” (p. principalmente. bibliotecas e consulta com outros profissionais da área indicaram que a noção de construção é abordada apenas de forma secundária em obras que tratam. A pesquisa feita em livrarias.

Nessa tríade. apresenta-se a posição de diversos autores comentadores de Freud. inclusive o conceito de construção segundo diferentes dicionários especializados. A utilização da escuta flutuante aparece proposta tanto em Garcia-Roza (1994) como em Laplanche. tem início o estudo sobre o texto “Construções em Análise” (1937) interrompido por questões surgidas no curso de seu estudo e que levaram a abordar “Análise Terminável e Interminável” (1937) e também “Além do Princípio do Prazer” (1920) já no capítulo quatro. A pesquisa foi efetuada da seguinte maneira: do texto freudiano dedicado à construção. retirou-se os termos-chave para levantamento bibliográfico. a noção de construção: o complexo paterno. uma temática ascende como fundamental para explicar a que serve. ao texto sobre as construções. a partir do exposto na figura . retorna-se. O autor francês denomina sua maneira de ler o texto de aplatissement (achatamento): dar o mesmo peso para tudo o que se apresenta no texto. possibilitando que do movimento do discurso o novo apareça. no capítulo cinco. ou seja. Na leitura desses textos encontrou-se uma delimitação lógica para cercar a questão da construção. acredita-se ser possível delimitar o campo a partir do conceito de pulsão de morte e o debate sobre o fim da análise (que remete a uma concepção de tratamento analítico). citado por Mezan (1994). ou seja. a sua aplicação na descoberta da fantasia em “Bate-se numa criança” (1919).7 Outro aspecto peculiar na pesquisa em psicanálise é o aproximar-se do texto à maneira clínica. buscou-se nos comentadores os principais textos freudianos para abordar a temática. Centrada a questão. aqueles que “insistiam” em aparecer nas diferentes obras dos diversos autores. utilizou-se de sua leitura para identificar os principais textos freudianos utilizados para abordar a noção de construção. no tratamento. nenhum conteúdo é privilegiado. aprofundado com o estudo de “Schreber” (1911). em “Homem dos Lobos” (1918). No capítulo dois (o primeiro após essa introdução). Escutar o texto como se escuta o analisando: a princípio. Na leitura dos comentadores de Freud se constatou uma falta de consenso sobre o conceito e o lugar da “construção” entre os autores contemporâneos. apresentando o modelo a que Freud recorreu para explicar a construção: o delírio psicótico. bem como seu lugar no tratamento analítico. abordado no capítulo seis. algo que nem o autor sabia. Após a escolha das obras relevantes dos autores-comentadores de Freud. fato marcante que reforça a necessidade de uma pesquisa em Freud sobre tal noção. No capítulo três.

No entanto.8 do terrível Deus de “Moisés e o monoteísmo” (1939). Finalmente. porém inacabado. os comentadores de Freud. no capítulo sete. é preciso começar nas obras que possibilitaram esse trajeto. . o confronto com os autores contemporâneos e as conclusões deste percurso (cheio de idas e vindas no tempo). recorro ao “Esboço de Psicanálise” (1940). último texto escrito por Freud.

porém se verificou a falta de consenso entre os mesmos sobre o lugar da “construção” dentro da psicanálise freudiana. e invertendo de certa maneira a ordem recorrente de apresentação. É verdade que um dicionário agrega muito mais verbetes. Os autores afirmam ser difícil e pouco desejável conservar o sentido restrito atribuído por Freud ao termo. a construção é um “termo proposto por Freud para designar uma elaboração do analista mais extensiva e mais distante do material que a interpretação. podendo ser abordado desde o início da obra freudiana em seus diferentes aspectos. inclusive os de âmbito histórico-geográfico. inclusive nos dicionários de psicanálise. 2. utiliza-se os comentadores de Freud como argumentação do raciocínio do pesquisador.9 2. das fantasias e do tratamento. organizado por Chemama (1995). Vale ainda considerar que o trabalho de Laplanche & Pontalis limita-se quase que exclusivamente à obra freudiana. Os dicionários de psicanálise No “Vocabulário de Psicanálise”. utilizo-me dos mesmos para reforçar a necessidade dessa pesquisa. de Laplanche & Pontalis (1998). não traz o verbete “construção”. neste trabalho. antes de adentrar os textos freudianos. proponho percorrer alguns autorescomentadores na tentativa de construir a partir deles um entendimento possível sobre a noção de construção na contemporaneidade. e essencialmente destinada a reconstituir nos seus aspectos simultaneamente reais e fantasísticos uma parte da história infantil do sujeito” (p. assim como o de mesmo nome. Diferentes perspectivas sobre o tema são apresentadas. no entanto. ao passo que o vocabulário (léxico) se restringe a noções e conceitos. O “Dicionário da Psicanálise” de Roudinesco & Plon (1998). Ao fazer referência a autores contemporâneos é comum procurar neles o entendimento sobre o tema de pesquisa.1. devendo ser entendida como um processo cabível não apenas ao analista e nem exclusivo ao processo de análise. Geralmente. Escritos sobre a noção freudiana de construção Como anunciado. O termo se referiria à própria estruturação do inconsciente. na medida em que diferentes são as interpretações sobre o assunto. Não é este o caso dos outros.97). que lhe são .

caracterizando os trabalhos de psicanálise aplicada e as hipóteses metapsicológicas como sendo construções.10 posteriores. por mais de um motivo se trata de uma noção importante. Como se pode perceber. Já na edição brasileira . da tradução francesa das obras de Freud.395). evitar o seu uso como modo de obter um gozo. pois busca restabelecer de modo global a significação da história do sujeito. É ao mesmo tempo. Apresenta o termo adivinhação associado ao processo de construção. resta perguntar por que justamente o verbete construção (deve haver outros) sofreu tal expurgo. presentes no caso do “Homem dos Lobos” e no texto “Construções em Análise”. Seja como for. Os autores também entendem que o processo da construção ultrapassa os limites da análise. e convém então refazer a questão acima: por que a noção freudiana de construção não teria sido digna de um verbete à parte? Alain de Mijolla (2005). por sua vez diferente da interpretação. A interpretação visa revelar parte do recalcado da história infantil. encontramos no dicionário de Roudinesco & Plon (1998) ao menos uma referência ao termo no verbete “interpretação”. Tudo isso considerado. escrito por Sophie de Mijolla-Mellor.389). apresenta o verbete “construção-reconstrução”. retirando-o de citações. apesar de se constituir dos efeitos de várias delas. A explicação de por que Freud a formaliza apenas no fim de sua vida encontra-se na tentativa de proteger sua doutrina contra paixão interpretativa dos analistas da época: serve para temperar a onipotência da interpretação. diretor do “Dicionário Internacional de Psicanálise”. e que absorveram o vocabulário lacaniano. e a construção o faz de forma completa – isso só é possível pela longa elaboração da cena infantil que a construção comporta. que o define da seguinte maneira: “Uma inferência feita pelo analista na forma de narrativa versando sobre uma parte da história infantil do analisando e apoiando-se num conjunto de interpretações prévias e parciais” (p. Por ser o processo de reconstituição da história infantil exige tempo e dedicação por parte do analista. Refere-se à construção e reconstrução como uma mesma noção. o tipo mais refinado de interpretação e uma crítica a ela. em que os autores a definem como “uma elaboração que o analista certamente deve fazer (tal como um cientista em seu laboratório) para reconstituir literalmente a história infantil e inconsciente do sujeito” (p.

No entanto. o dicionário organizado por Kaufmann (1996) afirma que a construção tem. .96). Afirma que a noção de “verdade” ganhou contornos próprios dentro da psicanálise.279).1949). em benefício do mecanismo posto em destaque desde A Interpretação dos Sonhos. seu pai adquiriu nova importância para você (Freud. nunca mais se dedicou exclusivamente a você. apareceu então um outro bebê e lhe trouxe uma séria desilusão. uma “definição rigorosa. Seus sentimentos para com ela se tornaram ambivalentes.11 aparece o termo “completar” e em espanhol “colegir” (juntar).] uma destituição relativa do recalcamento como mecanismo privilegiado pelo trabalho de análise. Já no verbete “verdade histórica” ao falar de “Construções em Análise”. p. como Freud sublinhava. em que o papel essencial cabe ao recalcamento. conjecturar. Por fim. na medida em que a construção foi definida. o termo utilizado no original em alemão é erraten. utilizando os sedimentos deixados pela lenda. Sua mãe abandonou você por algum tempo e. Apesar de em Freud (1937a) aparecer à afirmação de que só a construção correta produz efeito sobre o sujeito. mesmo após o reaparecimento dela. Busca no exemplo freudiano de construção2 sobre a perda do amor materno para o irmão recém-nascido apresentado em “Construções em Análise” a maneira de apresentá-la. Reconhece o estatuto epistemológico da construção nas analogias apresentadas por Freud sobre o trabalho do arqueólogo e o delírio psicótico. Por tal referência. principalmente no que ser refere ao valor da regressão enquanto um mecanismo de defesa para a constituição da neurose: [. indicando a sua vinculação com a história do sujeito e a dos povos. diz que nesse trabalho a verdade é mais sutil “visto que uma construção errônea pode levar o paciente à rememoração de um fragmento de sua verdade histórica” (p. Sophie (2005) se refere com surpresa à segunda analogia. considerando-a como a imagem de destruição da angústia psicótica frente a uma lembrança inacessível.. O que nos faz crer ser “adivinhar” a melhor tradução e não “completar” como proposto pela tradução brasileira. dirigimo-me ao verbete “verdade” no mesmo dicionário. A verdade é sempre de uma narrativa a reconstruir.. em contraposição à interpretação” (p. você se considerava o único e ilimitado possuidor de sua mãe. No entanto. 1937. em 1937. que é traduzido por: adivinhar. supor. estabelece relação com uma mudança de ênfase sobre os mecanismos de defesa a serem observados na análise. 2 Até os onze anos de idade. além da histeria. isto é o mecanismo da regressão que. para explicar a importância de formalizá-la nesse momento.

Freud estaria alertando sobre os abusos dos psicanalistas de seu tempo sobre o uso da interpretação. Ela pode ser encontrada em trabalhos cujo foco é a interpretação. ou na psicanálise aplicada ou ainda.2 Os comentadores da obra de Freud A garimpagem de obras que abordam diretamente a noção de construção não é tarefa fácil. As dimensões apresentadas apontam para a importância da formalização dessa noção na história da psicanálise e o mérito em lhe dedicar um estudo. as temáticas da fantasia e do delírio parecem tão importantes quanto a interpretação. A regressão é então definida como a inversão do processo de organização do isso na construção do eu (p. os pontos mais relevantes na discussão sobre a construção foram indicados. capaz de produzir uma certeza mesmo quando equivocada.12 caracteriza também outras formas de afecção. a construção é descrita como um mecanismo do aparelho psíquico que pode ser utilizado para explicar a formação das fantasias e do próprio aparelho psíquico. nesses extratos dos diferentes dicionários. Para tanto. Ora. o que poderia sugerir a interpretação como a noção mais próxima nesta rede clínico-conceitual. Mas também é vista como sinal de uma modificação na concepção da análise: o trabalho do desvelamento do inconsciente divide a cena com o processo de reconstruir a trajetória de estruturação do sujeito3. ou o delírio. Observa-se que. Em seguida. não sendo uma referência a noção lacaniana de sujeito do inconsciente. buscando encontrar na construção alguma garantia na aplicação de sua doutrina por parte dos outros analistas: seja enquanto técnica da análise. levando em conta aspectos políticos do movimento psicanalítico. e não apenas como uma técnica clínica. É também referida como um processo de adivinhação do analista para compensar a ausência da recordação de certos conteúdos. 2. o fazer do analista.96). 3 Utiliza-se o termo “sujeito” enquanto ser humano. a questão desta pesquisa inclui-se no âmbito da teoria sobre prática clínica. diversas obras de comentadores de Freud foram examinadas para estabelecer o estado atual da noção de construção. . Porém. ou a fantasia. bem como os textos freudianos que possibilitaram “cercar” a temática. Nesse trajeto. pois nelas se encontram os subsídios e os fundamentos para pensar a construção como procedimento técnico. na própria elaboração metapsicológica.

discorre sobre o processo da análise e faz algumas referências à noção freudiana de construção. extraído. . o interessante é que esse ele se refere ao analisando e não ao analista. ou seja. constitutivo. E um pouco mais adiante: “Falo a vocês do que há em Freud. 1998. mais preocupados com o corte (da sessão) do que com a costura. Ana Costa (2005). pois não é possível sobrepor totalmente a sua noção à de Freud. de representar algo. continuamente subjacente ao desenvolvimento de seu pensamento” (p. Isso não quer dizer que ele tenha razão. Especialmente. diz surpreender-se ainda hoje ao ler os trechos em que Freud aplicava a construção. e a construção se configura como o trabalho de colocar “um determinado saber sobre o real4” (p. já em seu primeiro “Seminário”. além de existirem importantes contribuições ao tema ao longo de seu Seminário. Seria esta a ressalva feita a Freud por Lacan ao aventar a possibilidade de o mestre não ter razão? Com certeza.21). mais preocupados com o trabalho de abrir o campo dos sentidos do que “amarrar”. Lacan (1953) confirma a importância da reconstituição completa da história do sujeito: “O que conta [no processo de análise] é o que ele disso reconstrói” (p. A história é o passado na medida em que é historiado no presente” (p. aborda o “Homem dos lobos” e “Bate-se numa criança”. simultaneamente. simplesmente opera como verdade. Vai além: “A história não é o passado. o debate por ele realizado sobre o entendimento da noção de construção merece um estudo à parte. do vocabulário de filosofia e do conceito freudiano de realidade psíquica para designar a uma realidade fenomênica que é imanente à representação e impossível de simbolizar (Roudinesco & Plon.14). aqueles chamados por ela de “os lacanianos sete cruzes”. No entanto. Já o conhecimento é uma idéia que não se faz necessário dela se apropriar para se ter notícia. citando o texto freudiano de 1937: “A reconstituição completa da história do sujeito.13 Jacques Lacan (1953).22). para isso. e de que atualmente os psicanalistas são avessos a “colocar algo a mais” (p. Aqui ela faz uma importante diferenciação entre saber e conhecimento: o primeiro requer a experiência e não necessariamente possui um conteúdo ideativo. estrutural. concluir algo..644-5).] é o elemento essencial. procurando pontos comuns entre ambos.23).. A autora pretende indicar o que a construção coloca em causa e. em “Construção e Saber”.14). mas essa é a trama permanente. p.21). [. do progresso analítico” (p. 4 Termo empregado por Jacques Lacan em 1953. O primeiro aspecto comum está na impossibilidade de lembrar.

Por exemplo. O objeto referido seria o próprio analisando. Freud atribui um estatuto de atividade ficcionante à análise pela introdução da noção de construção. Termo que também pode ser traduzido por “cena primária” e “cena originária”. Construir significa reduzir as representações imaginárias ao esquema do Édipo. e na cena primária é o “eu” quem observa o coito entre os pais. ou mesmo de estupro. Mas. em “Metapsicologia freudiana”. enquanto legitimador da construção e da verdade histórica5 da cena primeva6 reconstruída. Segundo Roudinesco & Plon (1998) refere-se ao termo alemão Urszene e “designa a relação sexual entre os pais. Embora creia existir uma tendência explicativa e até mesmo pedagógica na utilização da construção. por ser uma produção prevenida e “subordinada à lógica de seu objeto” (p. e assim evitar que ela continue a atuar de forma inconsciente na vida do sujeito...] a construção é. tornando consciente o inconsciente via comunicação da construção do analista” (p.108). Afirma: “[. e é permissível considerar a Konstruktion como a forma adequada de Fiktion” (p. em “A construção da fantasia”. segundo Assoun (1996). O estranhamento no contato com a construção também se estende a Valéria Rilho (2005). acredita que. O trabalho da construção convoca o narrador para se colocar na cena.14 Outro ponto importante está na enunciação do “eu” nas construções.70). que a construção se refere a construir uma fantasia.70). Para a autora. por parte do pai contra a mãe” (p. a fantasia construída em “Bate-se numa criança” é o “eu” que aparece como objeto.18). tal como pode ser vista ou fantasiada pela criança. em “Construções em análise”. pois. o trabalho freudiano de construção “poderia parecer ultrapassado desde a ótica lacaniana por preconizar uma a direção da cura através do levante do recalcado. Assoun (1996). Afirma que no intervalo do aparente paradoxo é possível entrever. a forma de ‘fantasiar’ necessária no processo analítico. ela percebe um paradoxo em “Construções em análise” – o fato de esse aspecto explicativo tomar como modelo a estrutura delirante. No fim. Freud se coloca a mesma questão do período pré-psicanalítico: é a cena originária verdadeira ou apenas ficção investida de afeto (die mit Affekt besetze Fiktion)? Nessa dicotomia apresenta a “descoberta de que o próprio sujeito do sintoma é estruturado como um 5 6 A noção de verdade histórica é objeto de estudo no capítulo 6. acaba por ser diferente da ficção. . que a interpreta como um ato de violência. na análise do neurótico. Ambos os textos trabalhados têm na construção uma forma de reconhecimento do “eu” enquanto o narrador na cena.

522). Freud não o formalizaria exatamente por estar com os olhos no mito de Édipo. o traumatismo caracteriza-se por um afluxo de excitações que é excessivo em relação à tolerância do sujeito (Laplanche & Pontalis. “trata-se [de encontrar] daquilo de que se pode estar certo” (p. Para o autor. naquilo que aponta para um além do intencional.65). a ponto de compará-lo a Édipo. Freud aprofundaria sua compreensão do que estava em jogo nesse caso. 8 Acontecimento na vida do sujeito que se define pela sua intensidade. como farrapos de real. mas no sentido de circunscrever um real. Fala sobre o compromisso de Freud com a verdade. O interesse da análise está sempre na falha. O trauma seria a experiência cuja intensidade é tão grande que não se pode representá-la toda imediatamente. e parte da excitação permanece atuante e fora do campo representacional. Apresenta esta verdade enquanto uma certeza.71). que escapa sempre à interpretação” (p. . vêm suprir” (p.. Serge Cottet (1989). ao se propor a utilizar a ficção “que autoriza o real. 1998. mais parecida a uma tentativa de confirmar a universalidade do mito edípico. A seu ver. Utiliza o caso do “Homem dos ratos” para fundamentar essa afirmativa: ao apresentar uma construção com base em poucos elementos do paciente. Freud comunica ao paciente “nada mais que um resumo da sexualidade infantil dos Três Ensaios” (p. e no sonho refere-se ao conteúdo latente que não pode ser trazido a consciência. Em termos econômicos. o real7. mais do que o inconsciente.. p. 7 Segundo Cottet (1989). que nada mais é que sua realidade psíquica. dedica a segunda parte de seu livro “Freud e o desejo do psicanalista”.15 ‘como se’.74). Mas o encontro com a verdade não tem nada de apaziguante. enquanto o decifrador dos enigmas da Esfinge. Existe uma fantasia sobre o “si mesmo” na base de todo sintoma. Esta verdade buscada por Freud não era de exatidão.85). Freud a apresentaria “como ponto de horror” (p. pelo transtorno e pelos efeitos patogênicos duradouros que provoca na organização psíquica. e a construção. este conceito é apresentado em noções como umbigo do sonho e trauma. aos seguintes temas: a verdade.71). em buscar o “pedaço de realidade”.” (p. na fissura do discurso.80). pela incapacidade em que se encontra o sujeito de reagir a ele de forma adequada. e nesse trajeto. mesmo não o tendo formulado. intitulada “A Paixão da origem”. Freud trabalhou na direção do núcleo do real e. apesar de desvendar um real. “o real não é outra coisa senão o fracasso de uma simbolização que o imaginário quer preencher. Apenas em “Totem e tabu” de 1913. ao se propor decifrar o inconsciente. a parcela do sonho que não pode ser interpretada. no esquecimento. o trauma8. Ambas falam sobre o que não pode ser representado. Freud descobre o irrepresentável. e que os orifícios do corpo.

Conclui: “Delírio a dois: tal nos parece o esquema freudiano da cura. Produz-se algo novo em substituição do material existente. terá um ápice que promoverá mudanças tanto no âmbito da teoria como na prática clínica. Cottet (1989) se pergunta a que necessidade do tratamento essa noção atende: “a necessidade de construir a história ou a pré-história encontra na experiência analítica. Este lugar de condição e limite deve ser entendido no sentido de que a construção é antes de tudo uma desconstrução. tanto sua condição como seus limites” (p. em que fará a construção prevalecer sobre a interpretação” (p. Entende que Freud (1937a).87). porém sob a condição de considerar o delírio propriamente dito. convida o analista a delirar. Com as novas teorizações sobre a pulsão em 1920 estariam criadas as condições para fazer o tratamento avançar.31). em “Construções em Análise”. o processo de construir possui suas bases exatamente aí. “Ao renunciar a abastecer de sentido o sintoma. Aqui Freud estaria mais próximo do que nunca de seu ideal de reencontrar o núcleo do recalcado. segundo Cottet (1989). pois a busca é de um fragmento perdido da realidade.88). uma segunda época da técnica analítica. porém inconsciente. Poder-se-ia dizer que a noção de construção surge para suprir a ausência de uma concepção de real. Retira-se a fantasia do paciente. assim. entra o delírio a dois. Seria isso? Laéria Fontenele (2002). em ‘Além do Princípio do Prazer’. é o que há de menos patológico na psicose e constitui meio de escapar a esta” (p.89). por estar voltada para a retirada daquilo de imaginário que recobre o real: a fantasia.16 Esse movimento em direção ao real. Freud anuncia. Aliás. Esta sim é uma construção. Nele discorre sobre o tratamento e a insuficiência em se buscar o sentido do sintoma. apenas acessível pela estrutura do mito. “a construção em análise segue ‘passo a passo’ a construção da fantasia que se trata de dissolver. no qual este mecanismo aparece como uma tentativa de retorno à realidade. ou desvelar o recalcado para levar o sujeito a uma mudança em sua posição subjetiva. Para a autora é nesse contexto que a construção é formalizada enquanto conceito para “propiciar o desenlace progressivo de uma análise” (p. dedica um capítulo ao estudo da construção. Afirma que o termo reconstrução surge na análise de Schreber. e é homogênea a esta” (p. mas sem perder de vista o real. . que sucede à perda da ‘realidade’. em “A interpretação”.92).

Encontra na segunda tópica a teorização sobre a técnica da construção. faz um percurso na obra freudiana focando a técnica psicanalítica e sua teorização. consistiria na comunicação pelo psicanalista do mesmo texto. em “Além dos limites da interpretação”. uma advertência. e como Freud tenta romper as repetições que mobilizam o sujeito e não puderam ser interrompidas pelo recordar. como por exemplo. apenas algo a ser construído. e de tal maneira. estamos no campo do traumático e compulsivo.17 Fontenele (2002) afirma existir um equívoco por parte daqueles que entendem a construção como prevalecendo sobre a interpretação. Assim percebe-se a construção como uma noção que vem atender a necessidades técnicas. A importância da construção só é compreendida se considerarmos os outros elementos em jogo na análise. É o trabalho de desvelar. por marcar a dessimetria dos lugares ocupados pelo analista e o analisando. ou seja. que as partes estejam unidas e as lacunas preenchidas formando um texto completo. a transferência. já muito antes utilizada. já a segunda.36). a construção voltar-se-ia assim para essa necessidade psíquica em representar as excitações: enquanto a interpretação visa trazer ao consciente uma representação inconsciente. ela é apenas mais um recurso na tarefa analítica.37). ao menos. completamente. o discurso fantasioso do sujeito sobre si mesmo. Outra função da formalização da construção seria a de evitar “o estabelecimento de um gozo interpretativo por parte do cliente” (p. e de tal grandeza que este se torna incapaz de dominá-las . O trauma é para Freud (1920a) resultado da entrada de grandes quantidades de excitações no aparelho psíquico. Seria com a formalização de um além do princípio do prazer que interpretação e construção iniciam a sua separação enquanto conceitos. Myriam Uchitel (1997). Apresentando os termos construção e reconstrução. Segundo a autora. a construção oferece uma representação à pulsão sem representante psíquico. teóricas e políticas da psicanálise. define-os como a “oferta de um dado faltoso à narrativa ficcional” (p. como sinônimos. Embora se refiram ambas à reconstituição da história do analisando. a autora sublinha a diferença entre a interpretação e a construção: a primeira retomaria as partes dessa história esboçando um texto. pois não existe lembrança ali. um perigo vislumbrado por Freud na prática de seus seguidores ou.

mas também propõe a construção e a reconstrução enquanto noções distintas. pois ela está interessada não apenas em diferenciar a construção de interpretação. por exemplo: instinto [pulsão]. Na análise. Ela sugere haver um deslocamento na posição de Freud. ela afirme não ser cabível nenhum tipo de distinção entre os três termos: “[. possibilitando descarregá-las. ego. Concebe o trabalho da análise nos seguintes termos: tradução. Para evitar dificuldades ao leitor se adotará o seguinte procedimento: a cada vez que na citação um desses termos aparecer diferentemente do utilizado comumente no trabalho. destinada a preparar a excitação para sua eliminação final no prazer da descarga” (p. superego [supereu]. etc. revividos (repetidos em ato) na relação com uma outra pessoa. em sentido estrito.87). no contexto do tratamento. repressão [recalque]. “mas não delirante.73). [. “[. 12 É o processo em que os registros do passado são atualizados. para Uchitel (1997). 10 Refere-se ao termo alemão Deutung: é o cerne da teoria e da prática psicanalítica e refere-se ao trabalho de trazer à tona a significação de um conteúdo latente de um sonho.. Deve-se entender esse “dominar” como a capacidade de atribuir um valor psíquico às excitações. Desta forma procura solucionar o enigma da compulsão à repetição: ela é a tentativa do aparelho psíquico em representar certa quota pulsional. e com a transferência12.. . Valoriza a necessidade da convicção do paciente para validar a construção. mais 9 A utilização de alguns termos freudianos nesta dissertação diverge da tradução adotada pela Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. já não é delírio” (p. ou ato falho – a fim de evidenciar o desejo inconsciente de um sujeito. detradução. dizendo que ela até pode ser ficcional.. das relações de objeto” (p. cujas manifestações.] A construção seria.] o termo reconstrução para o trabalho de busca das ‘origens do sujeito’ [. 1998). É todo ato ou palavra do analisando que se oponha ao trabalho da análise de acessar o inconsciente.. Delírio a dois.. “A sujeição de um impulso instintual [pulsional]9 seria função preliminar.. portanto.. menos sintomática. Assim. p.85). construção da cena infantil.18 imediatamente. construção e desconstrução.] um inconsciente menos atingível. id [isso]. lapso. 659. [eu].46).] é para essa dimensão afetiva que entendemos escapar os esforços interpretativos” (p.. Portanto. ainda que. Uchitel (1997) faz uma discussão além da comumente encontrada. da busca por uma construção idêntica à verdade histórica.. demonstrando desta forma. publicada pela Imago Editora. o seu estabelecimento com a figura do analista é a condição para o tratamento e ao mesmo tempo uma forma de resistência a ele... parapraxia [ato falho]. 11 “Termo empregado para designar o conjunto das reações de um analisando. criam obstáculos ao desenrolar da análise” (Roudinesco & Plon. a construção vai além de um trabalho intelectual e visa também conciliar a dimensão afetiva: “[. para ceder a produção de um efeito de verdade..] poderíamos reservar a interpretação10 para o trabalho com as resistências11. Cabe ao processo de análise detraduzir os sentidos “escolhidos” pelo analisando e depois traduzir de forma mais ampla. ele será apresentado entre colchetes. Desconstruir as fantasias e construir representações onde elas não existem.

de vida e de morte. é problemático nessas indicações de Freud. sim. se constrói” (p. uma cristalização na sua posição subjetiva ao invés de uma mudança de posição como se quer (p. No entanto. por não possuir uma representação psíquica. dedica parte do livro a discutir a construção a partir dos casos: “Homem dos Lobos”. questiona tanto a eficácia desse procedimento como a sua teorização baseada na polarização pulsional: de vida e de morte. e conclui: as pulsões de morte são silenciosas. um equivalente psíquico do pulsional. mas apresenta uma crítica ao modelo freudiano: É certo que. Angela C. ou seja. Um dos efeitos prováveis para este último é a identificação com os significantes enunciados pelo analista e. em “Tratar o Impossível”. sejam sexuais e possuidoras de representação. Em breve conclusão. ao contrário da pulsão de vida. isso significa que “[.. Apresenta a fantasia como justificativa para a formalização da construção.87). o analista “participa” da construção de saber na análise. conseqüentemente. O interessante de sua crítica não está em questionar o valor do comunicar as construções feitas por Freud. . mesmo na prática atual. na medida em que a única forma de se obter acesso à mesma seria por essa técnica. entretanto. Freud (1920) apresenta essa divisão das pulsões por estar interessado em explicar o fenômeno da compulsão à repetição. “Homem dos Ratos” e do texto “Bate-se numa Criança”. Ao comparar o “Homem dos Lobos” com o “Homem dos Ratos” aponta parte da problemática ao afirmar que neste último a construção comunicada produz um sonho no paciente e ajuda a avançar o processo de análise no sentido da elaboração13. menos preservado” (p. Jean Laplanche cunhou também o termo “perlaboração” para se referir ao mesmo processo.19 indizível. Já no “Homem dos Lobos” não existe esse efeito de 13 Refere-se ao termo alemão Durcharbeitung: o trabalho inconsciente que ocorre na análise de integrar uma interpretação e superar a resistência a ela.91).] a fantasia não se interpreta e. apresentando uma nova teoria pulsional onde ambas. atuam sem que a percebamos. que tende à ligação e comporta o que Freud chama de representante-representação da pulsão. O que. Sugere que o ato deve ganhar destaque no fazer do analista. diz respeito à comunicação pelo analista de suas “construções” e os efeitos que um saber assim depurado possa ter sobre o paciente. Bernardes (2003). pois ela acredita terem sido capazes de produzir efeito de enigma em seus pacientes – o que ela problematiza são os efeitos produzidos na atualidade se colocadas à maneira freudiana. Ela afirma a importância da construção para a psicanálise atual.91). no sentido de descobrir o que tem valor estrutural para o sujeito..

50).. mas dois textos produzidos pela Escuela de la Orientacón Lacaniana (Buenos Aires.] precisar dois pontos distintos que o ato analítico visa: o recalque secundário (para a primeira).. pois. e por isso não parece pertinente. Argentina) contemplam a noção de construção: “Os Limites da Interpretação” e “Interpretação e Construção. a construção é um mecanismo para ultrapassar a inércia fantasística. entende que o caso não se presta a revelações e surpresas ao psicanalista.] dos limites do interpretável” (p.]. em relação aos efeitos causados no sujeito.72). ambas pretendem fazer ressoar uma verdade. trabalho publicado por Freud como resposta às dúvidas colocadas ao tratamento analítico no II Congresso de Psicanálise. publicado pela Associação Mundial de Psicanálise (1996) reúne textos escritos por instituições de diferentes países tendo como tema central a interpretação. tendo em vista. apontando a dimensão do desejo do analista como o orientador desta diferenciação.. Bernardes (2003) aponta a utilização feita por Lacan do termo construção: um saber construído pelo analisando no percurso da análise. A questão de comunicar ou não a construção ao analisando é colocada como a diferença na posição de Freud e de Lacan.. O trabalho de construção é o da fantasia e exige tempo. O livro “Os Poderes da Palavra”. ser impossível distinguir a verdade da ficção no inconsciente. é como se o saber construído em análise permanecesse de Freud e não fosse subjetivado pelo paciente. o tempo da perlaboração. Aborda o caso do “Homem dos Lobos”. pretende verificar construções préestabelecidas. Por conta disto.. Freud comunica e busca a confirmação . Ele quer verificar que se possa concluir que um trauma sexual infantil seja a causa discernível e originária de toda a neurose” (p. ocorrido em 1910. mas ao contrário. O Homem dos Lobos”. No primeiro texto. No outro texto.20 elaboração à apresentação da cena primária. a construção aparece como uma invenção de Freud para tratar “[. o originário (para a segunda) cujo esquecimento fundamental oferece apenas os contornos por onde se pode reconhecê-lo” (p. Discute a separação proposta por Freud entre interpretação e construção como sendo apenas no nível do enunciado.50) e afirma que a diferença entre interpretação e construção é feita para: “[. a do inconsciente.. “Freud interpreta a partir do complexo de Édipo [.

deve-se abandoná-la. ao pensar a construção em Freud. Ora. uma inclusive no nível do significante. Marie (2004) entende que Freud coloca a construção como um exercício de adivinhação por parte do analista. Os fragmentos verbais relatados e o recalcamento originário são homogêneos em Freud. No primeiro texto. portanto. segundo Marie (2004). injeta material acreditando ser este próximo o suficiente da história primitiva. Para isso faz referência ao termo alemão Deutung. Freud (1920b) apresenta o tratamento dividido em dois momentos: no primeiro o analista recolhe o material e apresenta ao paciente – é a construção – e no segundo. O próprio Freud teria dado os subsídios para invalidar a técnica da construção em dois de seus trabalhos em que aborda o assunto: “Psicogênese de um caso de homossexualidade feminina” e “Construções em Análise”. na verdade. haveria uma diferença crucial em o analisando construir em seu tempo e em sua lógica e o analista comunicar a sua construção. duas interpretações. o paciente age sobre o material. discute dois exemplos apresentados por Freud sobre a construção e afirma serem eles. alusão. a interpretação feita a um colega médico ao incluir um . Já Lacan considera esses fragmentos como distantes do buraco originário e. Já no outro texto referido. Afirma que o método analítico se diferencia de forma radical a qualquer psicoterapia por rejeitar o uso da sugestão em sua prática. Tudo é descrito como ocorrendo de forma consensual graças à transferência. o caso abordado foi interrompido pelo próprio Freud em função da intensidade da transferência negativa para com ele. Pierre Marie (2004) também faz referência ao trabalho de Lacan. Porém. é uma atividade projetiva e ficcional produzida pelo analista a ser considerada como um erro técnico de Freud e. o que invalidaria o processo de análise. A construção da maneira apresentada por Freud. A formalização de conceito de real possibilita a Lacan modificar o tratamento e propor outro trabalho ao analista. que demonstração é essa do trabalho da análise e da construção em que é preciso interromper ainda no primeiro momento? Esse caso seria a prova do equívoco que é o analista apresentar as suas construções. Além disso. e dele retira uma veemente crítica à técnica freudiana da construção. No primeiro.21 em “Homem dos Lobos”. para afirmar que a natureza da intervenção de um analista é a de indicação. portanto. se pergunta Marie.

Isso. da maneira apresentada é apenas o confrontar das crenças do analista com as crenças do analisando sobre o significado das palavras que esse último produziu. que obviamente referia-se a ele próprio e não à cena que narrava. A proposta é. É interessante notar que nem por isso existe um consenso sobre a temática: cada autor abre perspectivas diferentes sobre a noção de construção. confirmando assim. Não seria a esse gozo que Roudinesco (1998) está se referindo ao dizer que a construção é formalizada por Freud para proteger a psicanálise da paixão interpretativa? O que é possível perceber nesse breve percurso no trabalho de alguns autores é que de maneira geral. . delírio e interpretação – para pensar a noção de construção. e a despeito das palavras do próprio Freud (1937a) ao afirmar que não tinha se dedicado à construção até então. na prática clínica. que significa “velhaco”. por ser uma noção autoevidente. Conclui que a construção. deixar um pouco de lado essas considerações e ir ao encontro dos textos freudianos. Ou seja. trata-se de outra coisa e que exige uma formação específica: o analista precisa ser capaz de se abster de todo o gozo durante o tratamento de outrem. a construção é a confirmação obtida pela interpretação incidente sobre um sonho em que o nome Jauner surgira várias vezes. formalizar uma concepção própria sobre a noção de construção é um dos objetivos do presente trabalho. e fazem referências a conceitos específicos – como fantasia. Homem dos Lobos e A Jovem Homossexual. mas nada que possa ser considerado conclusivo. No segundo. transformado a palavra em Gauner. é uma interpretação. bem como retiram conclusões distintas sobre essa noção na obra psicanalítica e. considerando o período tardio de sua obra sobre o tema. Também há pontos comuns entre alguns autores. Freud apenas indicou o surgimento de uma palavra que “sobra” no discurso e essa seria a sua construção. neste momento. e pelas diversas interpretações sobre a temática. procurar explicação sobre a formalização da noção de construção. enquanto efeito do percurso. recorre-se aos mesmos casos clínicos – Homem dos Ratos. Freud sugere a alteração da letra “j” pela “g” no nome Jauner. mas ao invés de usar o termo gewagt diz jewagt. O paciente replica dizendo: “isso é demais”.22 “também” em seu discurso. O trabalho da análise não se pode ocorrer no nível do significado. Além disso. em seu ato falho a intervenção de Freud – para Marie. e na releitura de alguns deles.

Freud formaliza a construção .23 3.

Para tanto. mais corretamente. e conforme sua notação internacional e. e sim outro. A comunicação desta construção é o ponto de encontro entre estes dois trabalhos. Ou seja. . ela está correta. A tarefa do analisando é dizer tudo o que lhe vem à alma em busca das recordações perdidas. a finalidade de uma análise é o abandono. o analista estaria sempre com a razão.. Cabe. apenas nas referências bibliográficas a data da publicação e edição utilizada serão apresentadas. É neste contexto. como em retirar uma definição do que seja uma construção. e o faz neste texto apenas visando outro propósito. adivinhar] aquilo que foi esquecido a partir dos traços que deixou atrás de si ou.. A finalidade desse texto. mas qual? 14 Nas referências às obras freudianas aparecerá a data da primeira publicação. explicitar alguns elementos que cercam a noção no raciocínio freudiano. era apresentar uma resposta às críticas feitas à psicanálise por supostamente colocar o psicanalista no lugar de mestre. além de ser o único trabalho dedicado à noção. e a do analista. Ou seja. atos falhos. “[. chistes. O interesse nesse texto. que se recolhe todo material relativo a um possível desfecho da análise. faz-se necessário acessar de forma completa os registros recalcados basilares do sintoma (entendido como uma forma de satisfação parcial e substitutiva de uma pulsão). construí-lo” (p. O início de sua argumentação está em descrever a que se propõe uma análise e de que maneira ela ocorre. por parte do analisando. O processo de análise. provindo dessas formações. Explica a ausência de uma formalização anterior por considerar auto-evidente esta descrição da situação analítica. segundo Freud (1937a). localizando-a no contexto de sua obra e prática clínica.276). está tanto em apresentar a argumentação desenvolvida por Freud14 (1937a). por considerar relevante a este trabalho a cronologia dos textos consultados. Tal crítica se baseia no seguinte raciocínio: se uma interpretação é aceita. tema geral da presente pesquisa. senhor da verdade. de formas de satisfação primitivas e sintomáticas. O acesso é feito por diversas vias: sonhos.24 Em dezembro de 1937. consiste em duas tarefas desenvolvidas quase de maneira independentes. antes de tudo. mas se é rejeitada não significa um erro. todos favorecidos pela transferência com o analista. Freud publica “Construções em Análise”. repetições.] completar [erraten. segundo o próprio autor. e sim a resistência do paciente ao tratamento. o objetivo do texto não é apresentar a noção de construção como o título deixa entender. o paciente concordando ou não. Segundo Freud (1937a).

Recuperar a história do sujeito é parte importante do processo de análise. pode-se dizer que a construção é uma superinterpretação na direção dos objetivos da análise. Sua mãe abandonou você por algum tempo e. Ou seja. e de maior alcance na aproximação do núcleo recalcado do que a interpretação. O construir é posto como preliminar. o que falta para recuperar a cena em seu todo. a construção é mais ampla no seu conteúdo. nunca mais se dedicou exclusivamente a você. “Se é correta ou fornece uma aproximação da verdade. mesmo após o reaparecimento dela. apareceu então um outro bebê e lhe trouxe uma séria desilusão. acrescenta-se algo. tal como uma associação ou uma parapraxia [ato falho]” (p.25 Freud (1937a) compara a tarefa do analista de reconstruir com o trabalho de escavação do arqueólogo e afirma que “ambos possuem o direito indiscutido a reconstruir por meio de suplementação15 e da combinação dos restos que sobreviveram” (p. seu pai adquiriu nova importância para você (p. Aliás. Seus sentimentos para com ela se tornaram ambivalentes. Desta forma. ele [o analisando] reage a ela [à construção] com um inequívoco agravamento de seus sintomas” (p. esse é ponto em que Freud (1937a) diferencia a construção da interpretação: a esta última “aplica-se a algo que se faz a algum elemento isolado do material. . Ou seja. você se considerava o único e ilimitado possuidor de sua mãe. e possui. A construção é uma produção do analista repleta de sentido sobre parte da história esquecida do sujeito em análise. quando se põe perante o sujeito da 15 Grifo do autor. portanto. uma proximidade da verdade almejada. a reconstrução é um trabalho preliminar.283). que de início é apresentada como um trabalho preliminar. para em seguida o “construir” se confundir com o seu comunicar: “Trata-se de uma construção. Além disso. A diferença entre as profissões está na natureza mais complexa e na integridade do estado de preservação dos elementos psíquicos. O fragmento construído é um fragmento da história primeva esquecida.279). A auto-evidência anunciada por Freud (1937a) presente na noção de construção parece ir se turvando no decorrer do seu texto.279). porém. que age sobre este material. na análise. pois é necessário completar um fragmento para em seguida comunicá-lo ao analisando. além do material recolhido na análise. na produção de sentido. dando subsídios para uma nova construção do analista. na forma do exemplo dado por Freud (1937a): Até os onze anos de idade.277).

Caracteriza-se por ser uma superprodução de sentido por parte do psicanalista sobre uma parte da vida do sujeito que ele não consegue lembrar. mas possui efeitos terapêuticos idênticos ao do recordar. portanto. A construção.279). o termo reconstrução/construção como sendo o trabalho do analista em completar os fragmentos da infância esquecida e a sua comunicação ao analisando. ponto de partida do texto. poucas vezes produz uma recordação do material apresentado. dedicada a debater o fracasso da construção em produzir uma recordação. não existe uma lembrança a ser recordada: − Seja por seu conteúdo não ter sido esquecido. o sentido de “trabalho preliminar” é deveras restrito e questionável. é uma produção do inconsciente. cuja “parte II” encerra o debate sobre a validação das intervenções do analista. O que possibilita tal efeito? Antes das explicações sobre esse evento é preciso fazer alguns apontamentos com base no que foi visto até aqui: 1. diferente dos rememorados em análise. ao explicar o não recordar por ação da resistência que produz imagens “ultra-claras” (seria um efeito regressivo?) de detalhes acessórios da cena construída – ou seja. Apresentada uma definição de construção é preciso retornar ao percurso do texto freudiano. Ou ainda. deve-se notar a utilização dos termos “construção” e “reconstrução” enquanto sinônimos. A construção toca num campo em que o recordar é impossível pela associação livre do analisando e a interpretação do analista. Trata-se de uma explicação coerente com o sistema de pensamento freudiano. ao contrário da interpretação. Por estas características. − Seja por tocar algo fora do campo representacional. a sua comunicação exige certo tempo transcorrido de análise. Fica definido por enquanto. Assim. Além disso. como um “puro pulsional”. existe o deslocamento da intensidade psíquica para dados pouco relevantes. É outra a direção tomada por Freud. nesta dissertação. Resta a terceira parte.26 análise um fragmento de sua história primitiva” (p. pois credita às ações defensivas a permanência de uma . 2. essa será objeto de estudo posterior neste trabalho. pois incide sobre conteúdos que o paciente não é capaz de lembrar.

. O propósito outro citado por Freud (1937a). As hipóteses levantadas também se justificam na medida em que o texto imediatamente anterior. o trabalho de construir consiste em recuperar antigos registros da vida do sujeito há tempos soterrados. e recordar o que foi recalcado. O espanto é de Freud ao entender que apenas trazendo para o consciente o inconsciente é possível chegar a uma “cura” da neurose. A análise pode ser vista como um túnel. pois a considera auto-evidente. obteve efeitos semelhantes prescindindo da recordação. surge a crença na verdade da cena. a cena construída pelo analista não é recordada pelo paciente. Assim. Sem esclarecer sobre a sua intenção. na descrição do psiquismo. percorrer este texto pode ajudar a endossar as hipóteses apresentadas. 3. percorrer o texto “Análise Terminável e Interminável” e apresentar parte de sua discussão sobre os limites de uma análise a fim de verificar a concepção de tratamento nesse momento e a sua idéia de cura e fim de análise. Proponho. debate exaustivamente os limites do tratamento analítico e o fim da análise. na segunda tópica habita o Isso16e gera uma brecha para pensarmos em outras explicações do porque não se recorda. não seria vislumbrar acréscimos. dentro da dicotomia consciente-inconsciente. completa-se a cena perdida. por conta disso. e com os indícios encontrados. esboça a noção de construção como um trabalho a ser realizado pelo analista e utiliza a figura do arqueólogo para ilustrá-la. porém. algo que ultrapassa essa dimensão representacional (de palavras e de coisas) que.27 representação no inconsciente. Mas existe também. Trabalho concomitante ao do analisando em dizer tudo o que lhe vem à alma. supereu e isso.1 Os limites do tratável 16 A divisão do aparelho psíquico na segunda tópica é constituída por três instâncias: eu. no entanto. Por ser a construção uma técnica da análise utilizada pelo psicanalista para colaborar no avanço do tratamento. para além dos limites do rememorável? Freud anuncia no início de seu texto que o trabalho não pretendia fazer uma formalização da construção. Espantosamente. “Análise Terminável e Interminável” Freud (1937b). avanços ao tratamento. e o “esquecido infantil” é recuperado. escavado pelos dois lados e que em algum momento se encontra (no centro). com o texto em questão.

Talvez o debate do texto também se faça neste sentido. no sentido de determinar se existe um ponto de basta para ser analisado. qual o seu legado. A Freud (1937b) interessa refletir sobre a existência ou não de um fim para a análise. apenas seis meses antes de “Construções em Análise”. . à necessidade de fazer uma metapsicologia para explicar o vivido na clínica. ele visa garantir a continuidade da sua pesquisa. Freud (1937b) propõe primeiro ir até a experiência e depois se voltar à teoria e verificar tal possibilidade. ao remeter.28 Publicado em junho de 1937. Aponta a etiologia da neurose como um fator para determinar o sucesso ou não do tratamento: as análises das neuroses de origem predominantemente traumática são mais propensas a serem bem-sucedidas em relação às analises das neuroses detentoras de fatores constitucionais prevalentes. o documento em que diz o que deixou. Determina três fatores que influenciam no sucesso de uma análise: 1. em alguns momentos. Esse texto pode ser lido como uma reflexão pessimista de Freud sobre o tratamento que criou. Guardemos este debate para um momento oportuno. impedindo um fechamento sobre as conquistas obtidas. trabalhar contra qualquer forma de aprisionamento.235). o texto “Análise Terminável e Interminável” dedica-se às reflexões e conclusões de Freud (1937b) sobre a eficácia do tratamento analítico. De certa forma isso faz parte do seu legado. A influência dos traumas. ou seja. a seu desapontamento com a teoria erigida frente à experiência clínica e. mas eu o entendo como uma daquelas situações em que Freud expõe francamente as questões que o ocupam. É considerado por alguns psicanalistas como o seu testamento. A força constitucional da pulsão. as causadas pela intensidade da força pulsional. ou seja. 2. por enquanto. Ao apresentar uma discussão sobre os limites e dificuldades de uma análise. e compartilha com o leitor seu entendimento e dúvidas. e configurado como o “êxito em solucionar todas as repressões [recalcamentos] do paciente e em preencher todas as lacunas em sua lembrança” (p. ao mesmo tempo. seguimos com “Análise Terminável e Interminável”. Afirma que apenas as neuroses ocasionadas pela imaturidade do eu em dominar certas situações (traumas) propiciam análises termináveis. A fim de responder tal questão.

29 3. coloca o alcance da análise bem aquém das pretensões de Freud. ou mesmo. A experiência mostra que as pessoas analisadas não se tornam tão diferentes das outras. Para explicar esse tipo de modificação da pulsão utiliza-se da metapsicologia. tendo como ponto de explicação a oposição entre o processo primário e o processo secundário. O exame desses fatores indica a questão quantitativa como determinante no sucesso de uma análise: seja na intensidade de energia envolvida no trauma. ou seja.. seja nas alterações sofridas pelo eu. o limite da análise é posto pelo “[. Ao mesmo tempo.242). A formalização da pulsão de morte. ou ainda. na intensidade constitutiva da pulsão. Freud (1937b) desmonta a idéia de existir diferença entre pessoas analisadas e não analisadas. Sugere que em análise. capaz de alterar de tal forma o aparelho anímico que a pulsão em sua totalidade se submeteria ao princípio de realidade. As alterações sofridas pelo eu.] poder irresistível do fator quantitativo na causação da doença” (p. correção que põe fim à dominância do fator quantitativo” (p. 18 Grifo do autor. através da análise. . submeter quota da pulsão dentro do Princípio do Prazer ao Princípio de Realidade. trata-se de incluir. sendo unicamente possível um “amansamento” da pulsão. Em uma palavra. Freud (1937b) acredita numa intervenção no recalque primário.243). ou os efeitos alcançados são menos radicais do que o esperado e afirmados na teoria. submeter ao processo secundário quotas de pulsão operando em processo primário17. Em outro ponto. 17 Isto é: transformar a energia livremente móvel em energia ligada à rede de representações. a de alterar o recalque primário e submeter toda pulsão ao processo secundário. descoberta a partir da compulsão à repetição. como o almejado. indicando esse amansamento como pouco presente na realidade clínica. Uma pergunta se apresenta: é possível se livrar permanentemente de uma exigência pulsional? A resposta é que não se pode fazê-la desaparecer e nem é desejável. ao dizer que “a façanha real da terapia analítica seria a subseqüente correção do processo original de repressão18 [recalcamento]. Mas um obstáculo se faz presente na forma de uma compulsão irresistível. aponta sua insatisfação com tal raciocínio dizendo que por pouco não trocou a expressão teorização metapsicológica por fantasiar.. independente do fator que se examine. Isto pode significar que: ou poucas análises têm êxito de fato.

como. Ele conclui que os conflitos fazem parte da realidade e não precisam ser evitados e nem mesmo provocados. poucas são as conclusões e diversas as dúvidas de Freud (1937b). seu efeito nos pacientes é nulo. Freud (1937b) destaca o recalcamento entre os mecanismos de defesa.250). mas também ao interior do próprio aparelho. Ou seja. Algumas destas alterações ocorrem no embate do eu com o isso e o supereu. nem sempre é o melhor para o tratamento. visto que a superficialidade está a serviço da resistência. onde se deixam lacunas ou podem ser omitidas algumas partes ou mesmo reescrevê-lo. pois “se comportam como raças primitivas que tiveram o cristianismo enfiado nelas. no máximo se obtém um falso consentimento do paciente. É interessante indicar que Freud reconhece a ineficiência em comunicar algo que o paciente não esteja em contato. Freud (1937b) se pergunta sobre a importância de apresentar ao paciente a possibilidade do surgimento de novos conflitos. Ou seja. se faz necessário aprofundar-se ao máximo nessas questões para se obter uma resolução. por exemplo. e o eu é o piloto). O momento de vida do paciente e a transferência estabelecida colocam à disposição um rol limitado de questões e conflitos. o que gera distorções capazes de produzir outros desprazeres tão penosos quanto os que se tenta evitar (é a via de formação do sintoma. inclusive causando certa dose de sofrimento. causar o fim de um relacionamento para lidar com as possíveis ambivalências desta experiência. A análise já leva os conflitos presentes até seu mais alto nível para obter uma resolução eficiente. e o que o paciente acredita ser “bom” ou suficiente para ele. por entender que “o melhor é sempre inimigo do bom” (p. e a mesma observação é feita sobre a construção: é preciso que se esteja tão próximo quanto o possível de seu conteúdo. mas que continuam a adorar em segredo seus antigos ídolos” (p. a percepção da realidade. que proximidade é essa? Finalmente.30 Outro limite de uma análise. não sendo necessário e nem justo provocar mais conflitos na vida do paciente. Esta alteração na percepção não se limita à realidade exterior. Descreve-os como a transcrição de um livro. O transcritor produz um texto . não é possível trabalhar com esses conflitos latentes. Na prática.248). sobre as alterações sofridas pelo eu. nem que para isso seja necessário sacrificar a verdade. segundo Freud (1937b). mas se ele é incapaz de lembrar. é a permanência de conflitos em latência durante e após uma análise. na tentativa de garantir o mínimo de tensão no aparelho.

uma resistência do impulso em ingressar nesses novos caminhos.31 falsificado que não desperta suspeita. seja por ter uma alta fixidez aos objetos. as linhas de desenvolvimento. este argumento torna a diferenciação entre o isso e o eu de pouco valor. ainda mais com as descobertas de resistências cuja localização é obscura. Adesividade especial da libido – nos limites em que pode ser posta.253). predisposições herdadas dos antepassados: “mesmo antes de o ego surgir. Falta de plasticidade da pulsão – novos caminhos são abertos durante o processo de análise. fazendolhe resistência. A alienação do eu em relação à realidade e ao isso “preparam o caminho para o desencadeamento da neurose e o incentivam” (p. e a separação das pulsões de vida e morte não se localizam numa instância específica. apegada à doença e ao sofrimento. O resultado da análise depende também da força e da profundidade destas resistências e da possibilidade de alterar o eu. de modo inconsciente. já estão estabelecidas para ele” (p. “Ele não mais conteria o que o autor desejava dizer. Uma força se defende de todos os modos do restabelecimento. tendo como uma das suas vertentes de manifestação o sentimento de culpa e a necessidade de punição Essas manifestações são . Partes do isso são recalcadas por necessidade do eu e contém tudo o que não se quer saber. tendências e reações que posteriormente apresentará. mas existe uma inércia psíquica. 2. A seu ver. 3. no sentido da verdade” (p. além das adquiridas em conflito nos primeiros anos. e afirma fazer parte de sua constituição.257). Freud (1937b) se interessa em saber sobre a formação do eu e das suas resistências. seja pelo excesso de volatilidade da libido aos seus objetos (não consegue estabelecer relações objetais). Raízes mais profundas – o comportamento das moções pulsionais primitivas: a distribuição.254). Ou seja. a mistura. edita-se a realidade e vive-se fixado à infância. Aponta três resistências não-localizadas: 1. Dessa explanação se retira duas dimensões do tratamento: trazer à tona o “isso” e modificar o “eu”. O eu reage ao tratamento como um novo perigo.

. Há ainda outras. que atuam de forma livre ou ligadas.] somente a ação conjugada e oposta das duas pulsões primordiais. Mas quem disse que o homem abre mão de seu desejo? Eis o problema. Tudo que é referente ao sexual e à morte se mostra como fundador dessa divisão no eu.. também presente em “A divisão do ego no processo de defesa” (1940a) em que o próprio eu se parte em dois para garantir a realização de duas exigências opostas. É interessante também o destaque dado ao surgimento da reprodução sexuada nos seres vivos como sendo causadora da morte nos indivíduos. Evidência da falta de tenacidade humana frente ao desejo. A discussão sobre os limites da análise coloca a questão quantitativa em seu centro. de não-representação. por suas metas. o repúdio à feminilidade como o ponto inalterável no processo de análise – seja para homens no medo da castração. Freud (1937b) conclui: Estes fenômenos apontam de maneira inequívoca para a presença na vida anímica de um poder que. o desafio à possibilidade de cura. Parafraseando Freud. De outra maneira. Eros e pulsão de morte. sem que cada uma seja capaz de reconhecer a outra. O exame da pulsão de morte sugere a necessidade de um redimensionamento da noção de conflito psíquico. nunca apenas uma delas (p. seja nas mulheres no desejo de possuir um pênis. chamamos de pulsão de agressão ou destruição e derivada da pulsão de morte originária. pois. locando-o no campo pulsional antes de tudo. As indicações da pulsão de morte e do conflito pulsional neste . pode-se dizer que o conflito é imanente à vida psíquica e não precisa ser provocado. ou campo de influência restrita.260). apenas o adia na crença de poder realizá-lo em outro momento. sendo a sua face de morte. própria da matéria animada [. desconhecidas. Com isso é como se Freud (1937b) dissesse: com o sexo foi preciso abrir mão da vida eterna. tendo a pulsão como o principal ponto de ineficiência da análise.32 produtos da relação entre o eu e o supereu. termos conectados de modo muito perspicaz por Freud no início desse parágrafo. Freud (1937b) apresenta o limite enquanto o rochedo da castração. o motivo de buscar a análise é a esperança de que se possa “resolver” a diferença entre os sexos. explica a variedade dos fenômenos vitais. E ainda.

enquanto técnica do tratamento analítico. Logo. destacando a nova concepção de aparelho psíquico e a dicotomia pulsional: pulsões de vida e de morte. a ser considerada ou a ganhar certa relevância. 4. inaugura um novo período para a psicanálise. O campo pulsional “Além do Princípio do Prazer”. de 1920. . Seu exame é necessário a fim de ampliar a dimensão em que a construção passa.33 texto vão de encontro à hipótese da construção ser uma tentativa de tocar algo que está fora do campo da representação – a pulsão – em busca de um novo fim na análise. no qual modificações e/ou acréscimos são apresentados. indo um pouco mais além. São exigências feitas pela prática clínica. questões sobre o alcance do tratamento analítico ocupam Freud desde a nomeação da pulsão de morte e mesmo antes.

O princípio de prazer é próprio ao método primário de descarga de excitação. em que a criança revive a idas e vindas de sua 19 Consiste no jogo infantil observado por Freud em fazer aparecer e desaparecer de um carretel preso a uma linha. é sentido como desprazeroso. nos sonhos ou em ato? Freud descobre essas repetições desprazerosas nos sonhos reincidentes da experiência causadora das neuroses traumáticas e na brincadeira de jogar e puxar um carretel (o fort-da). submetida ao psíquico. enquanto tendência do aparelho em reduzir ao máximo possível à tensão no seu interior. com intenso júbilo. Executando de forma direta e imediata a descarga.34 Freud (1920a) destaca neste trabalho algumas de suas fontes de reflexão: as neuroses de guerra. Mas no inconsciente. É preciso modificá-lo. as neuroses traumáticas e a brincadeira infantil conhecida por fortda19. a dicotomia prazer/desprazer se dá pela alteração da quantidade de energia solta no interior do aparelho psíquico. mas altamente perigoso à sobrevivência do sujeito. Segundo Freud (1920a). Até então se entendia o funcionamento do aparelho anímico sob a dominância do princípio do prazer. É a tentativa da criança de representar a angústia dos momentos em que sua mãe “desaparece” – mas agora de uma posição ativa e com o controle da situação. com algum prazer. ele é muito eficiente na aparência.21). O aumento de tensão. Ou seja. e o prazer é a descarga desta tensão. postergar suas exigências e buscar no exterior os objetos que possibilitem a descarga. A vida não é dominada pelo prazer. Cria-se um trajeto. . pressionando à descarga. é a experiência produzindo questões. demandando uma teoria para explicá-las. A metapsicologia é a teorização sobre a experiência clínica. Mas como entender a existência de experiências que não produziram prazer (descarga de tensão) algum e que continuam a serem revividas seja de forma alucinatória. e naquele momento precisava ser ampliada ou redimensionada para acolher os novos problemas agora bem definidos. as excitações permanecem soltas. Dito de outra maneira. gerado pela entrada de excitações no aparelho anímico. “um prazer que não pode ser sentido como tal” (p. pois nem toda satisfação pulsional é sentida como sendo prazerosa pelo eu. mesmo ocorrendo uma descarga. uma linha de representações para se alcançar a descarga: a energia que antes estava solta passa a ser conduzida por essa linha – a estar ligada. O princípio de realidade e o processo secundário de descarga surgem para garantir a autopreservação do sujeito. ou pelo menos mantê-la constante. A criança ao jogar o carretel falava “fort” (fora) e ao puxá-lo “da” (aqui). é o prazer neurótico.

ele repete inclusive na relação com o analista. Sem o acesso à “lembrança essencial”. Existe aí uma questão de manejo clínico na tomada de decisão sobre quando comunicar a construção ao analisando. permitindo certo grau de reflexão para reconhecer no vivido a parte esquecida 20 Grifo do autor.30). . parte daquilo que não pode ser recordado. Mas. é repetido. é imprescindível o reconhecimento do analisando sobre a sua veracidade para ser considerado eficiente. profundas são as modificações nos objetivos imediatos de uma psicanálise. Ele afirma que desde a sua criação. No início. o suposto avanço ao tratamento promovido pela construção. pois o analisando não consegue recordar tudo o que está recalcado. É pela pouca eficiência. O que o analisando não consegue recordar. em busca de um entendimento sobre os impasses postos pela compulsão à repetição. e nesse momento. sobretudo uma arte interpretativa” (p. em mudar a relação do paciente com seu sintoma. No entanto. o trabalho era o de descobrir o material inconsciente. ou se vive em ato o seu conteúdo – representa-se a idéia (no sentido teatral da palavra). tal necessidade não é atendida em sua totalidade. e é na clínica que está o olhar de Freud (1920a). o que Freud chama de o essencial. No processo de análise observa-se que. Mas estas repetições compulsivas não ocorrem apenas nessas situações. especificamente.35 mãe.29) 20. que o objetivo da análise passa a contemplar a necessidade de “obrigar o paciente a confirmar a construção teórica do psicanalista com sua própria memória” (p. duas dentre elas nos interessam para refletir sobre a possibilidade de fazer a análise avançar: ou se recorda a idéia pela inclusão de uma representação de palavra que nomeie o que está inconsciente. O analista deve “fazê-lo reexperimentar alguma parte de sua vida esquecida” (p. reuni-lo e comunicá-lo ao analisando. a convicção sobre a construção comunicada precisa ser alcançada de uma outra maneira. revivido. Logo. “A psicanálise era. A repetição na transferência do material recalcado indica que a neurose de transferência está instalada enquanto substituto da neurose original. está condicionado à convicção do paciente sobre a veracidade da cena construída. Com isso quero dizer que o processo de construir (trabalho do analista) em si não representa um avanço ao tratamento.29). existem algumas maneiras de uma representação inconsciente se fazer presente na vida do sujeito.

p. Possui tal complexidade que pode ser traduzida em diferentes facetas: repetição.supra. Esse poder precisa ser restringido. pois na medida em que se repete. e isso serve para ambos.112). exceto o que lhe é mostrado (. visto que os pais estão na sua origem. o paciente fala para o analista como sendo outra pessoa – geralmente os pais.) deve controlar-se e guiar-se pelas capacidades do paciente em vez de por seus próprios desejos" (Freud. perde-se a possibilidade de trazer o conteúdo inconsciente para a consciência. resistência a ele.. o analista “deve ser opaco aos seus pacientes e como um espelho. concede-se o poder que o supereu exerce sobre o eu. Consiste na vivência de certos conteúdos inconscientes encarnados na relação com alguém. porém. apesar de não ser dela fenômeno exclusivo. Ou seja. como fossem a verdade sobre o sujeito. "Podemos concluir que a intensidade e persistência da transferência constituem efeito e expressão da resistência" (Freud. pois todas as intervenções são escutadas. afirma que na análise a transferência ocorre da seguinte forma: "a catexia [investimento] incluíra o médico numa das 'séries' psíquicas que o paciente já formou" (p. Assim se configura a vertente de sugestão na transferência. p..36 do passado. por ser a condição para entrada em análise e se começar a interpretar. é também a mola do tratamento. como de hostilidade. A abstenção em usar esse poder é chave no tratamento. em . e assim conseguir a sua convicção sobre o construído. Freud é inflexível sobre a necessidade de o tratamento ocorrer em abstinência. Freud (1912). p.115). O conceito de transferência possui um lugar especial no processo de análise. sob transferência. mas simplesmente. é preciso considerar à construção com cuidado ainda maior. 1912. Por fim.16). 1912. o registro que se têm deles – e para ele dedica sentimentos de amor. e em sentido oposto. Não apenas isso: junto a esse lugar em que o analista é posto. resistência e mola do tratamento. pois se trata de uma intervenção que. Por todos esses aspectos. Dessa forma o papel da transferência ganha seu destaque no processo de construir. pelo lugar imaginário que o analista ocupa para o analisando. não lhes mostrar nada. Esta é a faceta de repetição da transferência. lembrá-lo. O valor de verdade não pela aproximação alusiva do recalcado. adquire peso particularmente importante e pode ser tomada enquanto verdade para o sujeito. como já indicado por Fontenele (2002) e citado nesse trabalho (v. no trabalho dedicado a tal assunto.131). sugestão. ou melhor. desse lugar.

podendo ir de encontro à construção do analista. Uma importante característica da compulsão à repetição é a de não ser apenas sentida como desprazerosa pelo eu. e não a sua recordação? 21 Considera-se. nem para as moções pulsionais recalcadas desde então” (Freud. mas também pelo seu ato enquanto repetição. Existem dois tipos de repetição. É ainda.31). p. se a resistência baixou e permitiu o recalcado vir à tona. A compulsão à repetição manifestada em certo momento da análise é diferente das resistências oriundas do eu. Mas vai além. referência a uma mesma coisa: o essencial recalcado21. mas também de reviver experiências que “não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca. percebe-se que parte do exposto em “Construções em Análise” já estava ali descrito dezessete anos antes. identificado por Freud em 1920 como o essencial. e pode-se atribuí-la ao recalcado. pois aponta que o avanço do processo de análise está condicionado à instalação da compulsão a repetição na relação transferencial. como sendo uma parte esquecida da história primeva do sujeito. É preciso certo progresso na análise para uma repetição compulsiva se instalar: ela é o recalcado em ato. porque não há lembrança e sim ação? Seria apenas por obra da resistência? E mais. mesmo há longo tempo. elas fazem cada uma à sua maneira. temporariamente. . ela não produz efeito algum.37 “Construções em Análise” afirma que se superestimou o poder de influência (sugestão) do analista e acredita que. condição para o surgimento da última o afrouxamento das resistências provindas do eu. cuja máxima aproximação é a sua atualização em ato e a posterior convicção de sua existência. Insisto aqui em destacar a existência de uma relação entre a repetição compulsiva e a construção do analista. sendo errada a construção. uma causada pela resistência – repete-se para não lembrar algum conteúdo recalcado – e outra. pode-se dizer que o lado do paciente não é feito apenas pelo seu recordar. qual a natureza desse recalcado. O que dizer sobre isso? Voltando ao percurso em “Além do princípio do Prazer”. em que o esquecido é nela revivido. segundo Freud (1920a). Se o trabalho de análise é como a escavação de um túnel feita pelos dois lados. trouxeram satisfação. Contudo. compulsiva. 1920a.

muitas das experiências com a sexualidade não alcançaram qualquer êxito ou prazer. as penosas vivências associadas – é o essencial recalcado repetido de forma compulsiva na relação transferencial. A tendência é reconhecer esses estímulos como provindos do exterior para tratá-los da mesma maneira defensiva que os estímulos externos. Eles são os responsáveis pela série prazerdesprazer e se propagam de forma direta e com grande intensidade no aparelho anímico. formando uma camada protetora capaz de receber e principalmente reduzir a intensidade dos estímulos que adentram o aparelho. Esse é constituído de matéria semelhante a um tecido vivo. de susto: faltou uma sinalização22 que mobilizasse antecipadamente investimentos para receber esta carga extra de energia. Contra a maioria dos estímulos externos o sistema está protegido. como na neurose de guerra. desenvolvendo a 22 A angústia seria este sinal. mas não contra os estímulos internos. o princípio do prazer está temporariamente inoperante. mais elementar e mais pulsional do que o princípio do prazer” (p. ainda “resta inexplicado o bastante para justificar a hipótese de uma compulsão à repetição. enquanto o interior continua vivo. cuja parte exterior se calcifica pelo contato com os estímulos. Os sonhos em que se repete a situação traumática são. Dentro dessa concepção. Freud (1920a) descreve como traumática qualquer excitação provinda de fora. inclusive para manter em aberto as questões postas no parágrafo anterior sobre a natureza desse recalcado que só aparece em ato. O aparelho anímico é pego desprevenido. Freud (1920a) abre a quarta parte do seu texto. Ou seja. o fundamental é vincular essa grande quantidade de energia e só depois buscar se desvencilhar dela. Não só na análise: ele aparece também como a marca de um destino e a perpétua recorrência da mesma coisa. uma tentativa de “dominar retrospectivamente os estímulos.38 A sexualidade infantil – e. por sua imaturidade. apresentando uma concepção vesicular do aparelho anímico. Tomando por minhas as palavras de Freud (1920a). algo que parece mais primitivo. A grande tensão gerada não pode ser eliminada imediatamente. Essa camada externa é incapaz de registrar os estímulos e serviria de proteção. suficientemente intensa para atravessar esse escudo protetor e inundar o aparelho anímico. Na infância.34). Anunciando ser “especulação” o que se segue. . e apesar disso insistem compulsivamente na vida adulta.

p. Contudo. mas não cessa a insistência em se obter satisfação pela reativação do traço de memória do objeto de satisfação. Com a enunciação da pulsão de morte se reconhece a pulsão como a expressão da inércia na vida. a primeira experiência de satisfação. e para garantir isso é necessário transformar as excitações em energia ligada e. ativar o traço mnêmico desta experiência parece ser o caminho mais curto para obter a satisfação (alucinatória) de uma premência instalada. Apenas quando esse processo está concluído é que a díade prazer-desprazer se torna operante. desta maneira. que consistiria na repetição de uma experiência primária de satisfação23 [. percebe-se. O princípio de realidade se instala. afirmativa extensiva inclusive à pulsão sexual: A pulsão reprimida [recalcada] nunca deixa de esforçar-se em busca da satisfação completa.] embora sem a perspectiva de levar o processo a uma conclusão ou de ser capaz de atingir o objetivo [alvo] (p..] o caminho para trás que conduz à satisfação completa acha-se.39 angústia cuja omissão constituiu a causa da neurose traumática” (Freud. ou seja. passar do processo primário para o processo secundário. por um lado. O que está na compulsão à repetição é a tentativa de ligar. 1920a. ou pelo menos parte dele.42). via de regra. É como se o aparelho anímico. Refletindo sobre as mudanças da teoria e da prática clínica. submeter psiquicamente a energia livre.. O pano de fundo da compulsão à repetição é a tendência (pulsional) de restabelecer um estado anterior de coisas. O destaque a ser feito à questão proposta é a relação entre a construção e a compulsão à repetição. a necessidade da convicção do paciente para confirmar a 23 Grifo do autor. Freud (1920a) conclui: o princípio do prazer é a tendência do aparelho psíquico em manter o mínimo de tensão em seu interior. nunca aprendesse de fato a diferença entre memória e percepção. A via regressivo-alucinatória (no modelo do arco-reflexo) fica bloqueada durante a vigília. Ali onde não consegue estender seus domínios é que surge a repetição compulsiva. Impedir o acesso ao registro da primeira experiência de satisfação ocorre para garantir a dominância do princípio do prazer..52-53). criar condições de descarregá-las de forma segura. obstruído pelas resistências que mantêm as repressões.. gerando por contrapartida o aumento da tensão e não a sua descarga. tanto no que se refere ao percurso de uma análise quanto à referência teórica que ambas fazem ao recalque originário e. mas não alcança todas as esferas psíquicas. de maneira que não há alternativa senão avançar [. . por conseguinte.

a descoberta da natureza conservadora da pulsão. . 5. o interesse é outro: encontrar indicativos para formalizar um lugar da noção de construção dentro da teoria freudiana. bem como parte do debate que a cerca.” A apresentação inicial do texto “Construções em Análise” neste trabalho teve por objetivo introduzir a noção de construção.. Um retorno ao “Construções.40 construção. considerada por seu autor como auto-evidente. e de outro. insistente em buscar satisfação onde é impossível.. Neste momento.

apesar dele não conseguir lembrar a cena construída. mas também [a existência de] um . cabe um exame da natureza dos delírios e verificar de que maneira tal aproximação é viável. O crucial nesta concepção não é apenas a existência de “método na loucura. se uma crença em sua presença concreta se tivesse somado à sua clareza” (p. Freud (1937b) apresenta a seguinte questão: “Como é possível que aquilo que parece ser um substituto incompleto produza. todavia. Elas não são consideradas alucinações pelo fato de os pacientes perceberem que são imagens e não eventos. e a influência exercida sobre o conteúdo do delírio pela realização de um desejo. o delírio possui um funcionamento no qual se destacam dois fatores: o afastamento da realidade.285). Como dito antes. às vezes a comunicação de uma construção produz recordações “ultra-claras”. [. Segundo Freud (1937a). não do evento referente à construção. no entanto. com produções semelhantes a fantasias: “essas recordações poderiam ser descritas como alucinações. Admitindo a hipótese de que o material constituinte dos delírios possui semelhanças com o conteúdo construído em análise. ou mesmo em estado de vigília. E afirma que os delírios psicóticos possuem estreita relação com as moções pulsionais inconscientes e o retorno do recalcado. Foi até este ponto que o presente trabalho tinha apresentado o texto freudiano. ele apresenta o delírio como um aproveitamento oportunista do impulso recalcado frente ao afastamento da realidade para ascender à consciência.. À maneira dos sonhos. Freud (1937a) levanta a hipótese de as alucinações em geral se constituírem a partir do material experimentado na infância. Logo em seguida.284).]. nem tudo sobre a construção se apresenta claramente para Freud (1937a). Há um interesse em explicar os efeitos produzidos pela construção na vida do analisando. um resultado completo” (p. ele reconhece que um ponto requer investigação: a ausência do recordar por parte do analisando da cena construída e a maneira como se produz a convicção sobre a verdade da construção do analista no analisando. enquanto as resistências deformam e deslocam o material que vem à tona. e que retorna: algo visto ou ouvido pela criança numa época em que ainda mal podia falar.. a crença em sua existência enquanto um registro pré-existente é condição para se dizer que a construção foi bem sucedida. mas de imagens secundárias produzidas em sonhos. depois esquecido.41 Porém.

Enquanto lugar-tenente: aquilo que ocupa o lugar de outro. A construção toca o recalcado por alusão. apesar de ter-se dedicado pouco a ela em sua clínica. É um modelo para a compreensão da neurose. sendo plausível supor que a crença compulsiva que se liga aos delírios derive sua força exatamente de fontes infantis” (p. Será tarefa de cada investigação individual revelar as conexões íntimas existentes entre o material da rejeição atual e o da repressão [recalque] original. faz referência a ele. livrando-o das distorções e encaminhando tal conteúdo ao passado.286). Tal como nossa construção só eficaz porque recupera um fragmento da experiência perdida. A construção gera um representante25 desse recalcado original na consciência.].286). o neurótico a deforma. é também comum aos neuróticos.285). como na analogia que se segue: Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções24 que erguemos no decurso do tratamento analítico – tentativas de explicação e de cura [. a quem Freud dedica seu trabalho e as suas construções. entender o funcionamento do aparelho anímico: é como se fosse um sonho acontecendo sob os olhos do analista. de tal maneira que pode ser visto como um equivalente disso cujo acesso está bloqueado. não mais baseada no convencimento do paciente sobre o equívoco em suas crenças delirantes e sim “no reconhecimento de seu núcleo de verdade” (p. e de como é possível. dessa maneira. O trabalho procuraria ligar este elemento de verdade-histórica à atualidade do paciente. como abrem caminho para uma concepção do tratamento dos psicóticos.42 fragmento de verdade histórica. Mas o fenômeno psíquico de trazer e reviver na atualidade elementos do passado não é exclusivo dos psicóticos. Freud (1937a) destaca a importância do estudo da psicose. Freud supõe que o sentimento de certeza provindo da comunicação da construção é similar ao sentimento do psicótico em relação ao seu delírio porque ambos provêm da presença de um elemento de verdade histórica. A diferença entre ambos está na intensidade da crença da revivência do passado: o psicótico a experimenta como realidade material e o neurótico a vive na realidade atual.. É diferente de ser uma representação-de24 25 Grifos do autor.. O psicótico ignora a realidade. Essas observações esclarecem não apenas algo sobre a construção. . assim também o delírio deve seu poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da realidade rejeitada (p.

. Ou seja. também. Apesar de reconhecer a dificuldade do termo não pretendo defini-lo para além de: algo que determina o fim do tratamento e a mudança subjetiva do paciente frente a seu sintoma.1 O método na loucura Não só por sua (relativa) raridade. Vale seguir as indicações sobre o estudo das psicoses e nos aproximarmos do estudo da fantasia para entender os seus efeitos e a que ela se destina. e oriunda de um passado primevo. Freud crê que a explicação apresentada possibilita um fim ao tratamento. o da fantasia e o do delírio. como se fosse necessário ao paciente um sentido sobre as suas origens e a de seu sintoma. Trata-se de uma representação de palavra que é capaz de ser incluída tão próxima do núcleo do recalcado (recalque originário) que a reconhecemos como sendo o representante imediato deste. 27 Os outros historiais clínicos são: caso Dora. Refere-se. 5. como a construção produz efeito de verdade no processo de análise. As comparações de Freud entre o delírio na psicose e a construção na análise remetem à outra equivalência já indicada: a fantasia na neurose. Coloquemos como similares o material da construção. o texto de Freud mais importante dedicado ao tema da psicose (ou neurose narcísica. Encontrar a significação sobre o vivido no período pré-linguagem é o que Freud almeja. homem dos ratos e a jovem homossexual. criando as bases para o pensamento como o conhecemos. é necessário (novamente) determinar a natureza deste recalcado e. o pequeno Hans. pré-linguagem. a um estudo sobre o relato autobiográfico de um caso de paranóia. Isso destaca a importância dada por ele até o fim de sua obra à existência de dados oriundos da realidade material na constituição do sintoma. ele impulsiona o aparelho psíquico a buscar no exterior os objetos de satisfação. Admitindo essa hipótese. um de seus cinco grandes historiais clínicos27. É no recalque primário que essa organização tem início. como anunciado em seu título original. “um substituto incompleto que produz efeito completo” sobre o recalcado. publicado em 1911.43 palavra capaz de tornar consciente a representação-de-coisa recalcada. como ele chegou a propor) é indubitavelmente “O caso Schreber”. É importante ressaltar que em Freud (1937a) a construção é um substituto de uma lembrança esquecida. trata-se de uma pesquisa 26 A cura em análise é um tema polêmico entre os psicanalistas. Mas não apenas isso: a construção cria uma possibilidade de “cura26”.

Isso. Resumidamente.44 fruto da interpretação de um livro escrito pelo Dr. Freud (1911). É mais suportável para o eu sentir-se perseguido . temida e odiada. Mas a mudança afetiva frente à figura do médico é uma reação ao despertar da fantasia de assumir perante ele uma atitude feminina. O psicótico vive aquilo que o sintoma neurótico apenas figura. na medida em que apresenta o histórico de Schreber – desde o episódio inicial de hipocondria até chegar ao delírio em sua forma final – formula explicações sobre a progressão da doença e. aquilo que o neurótico procura manter escondido. Flechsig. mesmo que de maneira deformada. O desejo de ser possuído pelo médico transforma-se em medo de sofrer abuso sexual – esta é a solução temporária manifesta em seu delírio. Aliás. Para chegar nesse ponto de generalização é preciso percorrer parte do histórico do Senatspräsident Schreber. torna-se necessário sua transformação em mulher. o médico ocupava lugar central. pode-se anunciar ser essencialmente um o conflito a que o delírio pretende resolver em todos os casos masculinos de paranóia: a fantasia de desejo homossexual de amar um homem. Schreber consiste num delírio estruturado em sua forma final como o escolhido por Deus para repovoar a Terra. a mulher de Deus. por entender que a diferença entre ambas. a ponto de compor um portaretrato em sua casa. Flechsig é visto como um assassino da alma. em parte. a começar por sua relação com seu primeiro médico. e após a sua alta passou a receber intensa devoção da esposa de Schreber. de quem provém à ameaça de emasculação contra Schreber. num trajeto “regressivo”. No início do delírio de perseguição. a história do Dr. como o delírio se constrói para responder a um conflito psíquico. a fim de por Ele ser fecundado e gerar com seus filhos uma nova humanidade. Schreber sobre a sua própria doença e não um paciente. refere-se à intensidade do conflito psíquico. o Prof. Freud (1911) reconhece na paranóia a possibilidade de investigar. foi antes amada e honrada. A alma de Flechsig é categorizada com subdivisões iguais as descritas para se referir a Deus em momento posterior: “Deus Flechsig”. É interessante notar que a figura do médico. de grande importância para o seu delírio na fase bem estruturada. Foi ele quem o tratou durante a primeira internação. e mesmo em momento posterior – o de conciliação com o desejo homossexual – ele permanece como seu instigador durante todo o curso da doença. Para isso.

A mudança da figura do médico para Deus parece ser um agravamento da doença. como: o recalque e a sublimação. mas é o que possibilitou alguma resolução no conflito. bem como a relação estabelecida entre eles e o pai do pequeno Schreber. E ele tinha razão. no presente caso tal desejo permaneceu escondido por muito tempo. Tratando-se de um pedido de Deus. o pesar que sentia por não ter tido filhos – quem sabe os conseguisse sendo mulher. mas sim de desejos homossexuais próprios à organização infantil que eclodiram na vida adulta. . que nos neuróticos heterossexuais sofre outros destinos. pois era um famoso médico. Nesse tempo. De fato. até algo despertar essa libido homossexual. Freud (1911) relaciona a figura de Deus e do médico. localizada por Freud (1911) como estando entre o narcisismo e as primeiras escolhas objetais. O delírio de ser transformado em mulher de Deus é a saída para conciliar esse desejo. os dois surtos terem ocorrido logo após receber uma promoção profissional. portanto homossexual (“sexo igual”). cujo segundo nome pode ser traduzido por “Louvor a Deus”: Doutor Daniel Gottlob Schreber. Restabelece-se a ordem das coisas no aparelho psíquico. a mudança de sexo e a idéia de ser tomado sexualmente como mulher entram em consonância ao que Schreber chama a “ordem das coisas”. Mas não encerremos aqui. O Doutor. O medo da ameaça de castração do pai versus seu amor fornece o material para a fantasia de desejo de ser transformado em mulher. não se trata de um caso de homossexualidade. decorrente do seu primeiro tratamento (por hipocondria) foi o que possibilitou a ascensão da fantasia homossexual muito antiga. Daniel Gottlob. pois o eu pode ser incluído nesse desejo pela intensa satisfação narcísica colocada à disposição: a honra de ser mulher de Deus. Freud levanta hipóteses. O sentimento pelo Dr.45 sexualmente por um homem do que assumir a existência de um desejo de servir de mulher para ele. como a morte de seu pai e irmão. Flechsig. ou mesmo. a tendência é que as primeiras escolhas sejam pelo semelhante ao eu. por exemplo. Claro que outros fatores aparecem em cena no desencadear da doença de Schreber. Freud (1911) encontra nele a explicação para as discussões de Schreber com Deus. pois se conciliou algo que antes era insuportável e inconsciente. pois é possível remontar esse desejo homossexual a um tempo anterior ao surgimento do médico na vida de Schreber. Aliás. principalmente por sua semelhança aos conflitos de uma criança com o pai amado. como.

O abolido. A terceira fase é. Destaca o mecanismo de projeção na constituição do delírio referindo-o a uma percepção interna suprimida e o seu aparecimento posterior e deformado como uma percepção vinda do exterior. enfim. ou seja. bem como o eu se torna o objeto de amor. o retorno do . O “alvo” passa a ser feminino. O eu torna-se o objeto de si mesmo excluíndo a relação com qualquer outro. apresenta as variações possíveis nos casos de paranóia: 1.46 Depois de confrontar com seus colegas analistas outros casos de psicose. Contradiz o sujeito. pois ele não é nem sujeito. Segue-se o recalque propriamente dito. Megalomania: nega toda a sentença: “não amo ninguém. Freud (1911) interessa-se em saber sobre como opera a formação dos sintomas da paranóia. Fazendo jogos de palavra com este enunciado e criando novas combinações. 4. passa por um processo em três fases: de início. Delírio de perseguição: o “eu amo o homem” apresenta-se por duas inversões “o homem me odeia”. enquanto sujeito da oração. nem objeto dos investimentos pulsionais.78). processo oriundo do eu para manter afastado da consciência as idéias que façam referência à libido fixada. de sujeito torna-se objeto. no cerne do conflito psíquico. O amor vira ódio e o eu. Todo o processo está fora do eu. 2. de uma fantasia de desejo homossexual. Enuncia tal fantasia de desejo da seguinte maneira: “eu amo o homem”. Inverte-se o sexo com quem se estabelece relação. Delírios de ciúme: “ela ama o homem”. exclui o eu. o recalcado. Há o auto-enaltecimento. Freud (1911) fica estupefato ao encontrar como típico dos casos de delírio paranóide a existência. “Aquilo que foi internamente abolido retorna desde fora” (p. Erotomania: “ela me ama”. a fixação da libido a um estádio infantil que permanece inconsciente e torna-se a base da doença. Para além do central e conflituoso desejo homossexual. só a mim mesmo”. 3.

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recalcado na forma de sintoma nos diversos quadros patológicos, cada um ao seu modo, em função da falha imanente ao recalque. É preciso considerar o delírio como uma reação frente ao desejo e à ameaça que este representa à coerência do eu. Inventa-se uma nova realidade capaz de comportar o desejo ascendente. “A formação delirante, que presumimos ser produto patológico, é, na realidade, uma tentativa de restabelecimento, um processo de reconstrução” (p.78). Construção de um mundo novo capaz de conciliar a falha no recalque do desejo pelo pai. O delírio é resposta a uma estrondosa re-ligação libidinal a um “objeto” primitivo, e como já indicado, que faz referência ao narcisismo primário. O desligamento da libido de representações de objeto é a essência do processo de recalcamento, mas nem por isso o delírio é comum a todas as pessoas. Ou seja, essa reconexão entre afeto e representação só mostra que houve um recalcamento antes e não serve como explicação sobre a produção delirante em si. Logo, a disposição à paranóia precisa encontrar resposta em outro lugar. No momento seguinte a esse desligamento (o recalque), a tendência está em procurar estabelecer ligações substitutas, sendo na paranóia a instância do eu o objeto privilegiado de investimento da libido – é um retorno ao narcisismo. Pode-se concluir que nessas pessoas existem importantes pontos de fixação durante o narcisismo, o que leva a uma perda no interesse pela realidade externa de forma considerável. Isso torna possível uma construção da realidade delirante. Vale frisar: o delírio é uma tentativa de restabelecimento do eu frente a um desejo inconsciente cujo recalcamento falhou. Organiza-se a realidade de tal forma que o desejo ascendente possa ser incorporado a sua vida de forma suportável. Os mecanismos de formação dos sonhos e das fantasias se assemelham ao da formação do delírio, pois todos se dirigem à realização de desejo. O sonho é a via régia de acesso ao inconsciente e objeto privilegiado de estudo da psicanálise. Freud (1900), ao interpretá-lo, extrai uma teoria sobre funcionamento mental e a técnica do tratamento analítico. Ele encontra por trás das imagens representações que mostram um desejo inconsciente realizado e que uma quota de pulsão obteve satisfação. O sonho por não ser um produto da vida de vigília possibilita a descoberta dessa dimensão “desejosa” da vida psíquica, pois durante o sono as resistências (do eu e supereu) também descansam, dando maior mobilidade ao

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inconsciente. Por ser um produto que sofreu um número menor de deformações a descoberta do conteúdo latente se torna mais fácil através do uso da associação-livre, se bem que só se fala do sonho quando acordado. Assim, as outras produções do inconsciente também carregam um saber que vem do inconsciente, seja no delírio, no sintoma ou na fantasia. A construção está cercada por esse universo conceitual de formações inconscientes, no entanto, ela surge exatamente onde não é possível interpretar – no sentido de trazer para o consciente o inconsciente. Se Freud usa o delírio como modelo da construção nos faz pensar que ela se presta aos mesmos alvos. Isso, na medida em que o delírio é uma produção que carrega um desejo insuportável e trabalha para conciliá-lo junto ao eu, já que é impossível mantê-lo no inconsciente. Mas não é um desejo qualquer, pois sua intensidade e características constituem a sua psicose. Sendo assim, a construção seria uma tentativa de enlaçar algo do desejo inconsciente tão fundamental para o neurótico em sua constituição, que se sabe apenas pela exposição no delírio psicótico. O enlaçar aqui no sentido capturar, não apenas trazer a consciência e sim de incluir algo ao campo representacional. E a fantasia inconsciente, em que medida nos serve para pensar a construção? 5.2 Fantasias perversas Em 1919, Freud publica “Uma Criança é Espancada”. A partir de seis casos clínicos (quatro mulheres e dois homens), ele aborda uma fantasia cujo conteúdo nomeia o referido texto. Essas fantasias comportam sentimentos prazerosos e em função disso, com o passar do tempo, elas passam a operar sozinhas, independente da vontade. Construídas muito cedo, quando são confessadas na vida adultas se fazem acompanhar de sentimentos de vergonha e culpa. A fantasia da “criança é espancada” envolve alto grau de prazer de ordem sado-masoquista e surge na mais tenra infância enquanto um traço primário de perversão que mais tarde pode ser recalcado. Trata-se de uma parcela do sexual que permanece fixado a essa forma de satisfação. A maneira como os analisandos a narram em análise é produto de um processo histórico de elaboração e sofrem diversas modificações durante o seu desenvolvimento.

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Freud (1919) inicia sua narrativa pelos casos femininos, afirmando que, numa primeira fase de elaboração da fantasia “bate-se numa criança”, quem é espancado não é a pessoa criadora da fantasia e sim uma outra criança conhecida, como um irmão ou irmã. Na outra ponta da cena está a pessoa espancadora, um adulto que será reconhecido em outra etapa como sendo o pai da menina fantasiadora. Essa primeira fase da fantasia pode ser apresentada na seguinte sentença: “alguém (meu pai) está batendo nunca criança”. Como a própria criadora da fantasia não faz parte da cena, entende-se não se tratar de um prazer masoquista, mas possivelmente sádico, pois a criança espancada é alguém conhecida e próxima. Numa segunda fase ocorre uma importante transformação. O pai é claramente o espancador, e quem passa a apanhar é a própria criança: “estou sendo espancada pelo meu pai” é a nova sentença, o que torna a fantasia marcadamente masoquista. Além disso, acresce-se um intenso prazer à cena fantasiada. Freud (1919) afirma:
Essa segunda fase é a mais importante e a mais significativa de todas. Pode-se dizer, porém, que, num certo sentido, jamais teve existência real [grifo meu]. Nunca é lembrada, jamais conseguiu torna-se consciente. É uma construção da análise, mas nem por isso é menos uma necessidade (p.201).

Está claramente dito se tratar de uma fantasia o construído em análise e impossível de ser lembrado pela associação livre. Para Freud, essa construção possui o conteúdo mais importante e significativo da fantasia. Para explicar a sua existência prévia no inconsciente usa como argumento a idéia de que essa etapa da fantasia determina traços no caráter da pessoa adulta. O argumento parece de pouca consistência, já que é pouco provável a existência de causa única em características da personalidade de um adulto, e mesmo que existisse, não há como estabelecer relação entre eventos tão distantes, sendo que o causador só pode ser construído em análise. Parece que sua verdadeira intenção ao anunciar aqui e em seu exemplo de construção de uma cena infantil em 1937, é forjar uma nova etapa inconsciente da fantasia infantil. Ou seja, a segunda etapa seria uma tentativa de explicação para a intensa satisfação perversa que se encontra associada ao curso do desenvolvimento da fantasia de espancamento. Freud depara-se com uma fantasia que possui grande

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satisfação em sua forma final e não consegue justificar sua presença, apenas pela dedução de uma etapa intermediária é que pode justificar a satisfação associada. Se não, como é possível ter acesso a certas etapas da fantasia com exceção da considerada fundamental? Em Freud, parece que sempre “o mais importante” não é acessível pela associação livre, o que nos coloca de frente à pergunta sobre a natureza do recalque e desse recalcado não-rememorável. Não proponho responder a essas questões nesse momento, pois acredito que na continuação do percurso no texto freudiano sobre a estruturação da fantasia seja possível obter, por acréscimo, algumas respostas. A terceira etapa assemelha-se à primeira, no sentido de que as pacientes são capazes de comunicá-la. Além disso, quem bate não é mais o pai: ou a figura permanece indeterminada como na primeira fase ou se torna um substituto do pai, como por exemplo, um professor. Quem sofre a agressão não é apenas uma criança, mas diversas do sexo masculino, cujas identidades são diferentes da pessoa criadora da fantasia – inclusive, não se consegue reconhecer as crianças nem como próximas ou sequer conhecidas. Entretanto, algo é muito diferente da primeira fase: a existência de uma intensa excitação sexual, derivada da segunda fase, que procura satisfação pela masturbação. Outra característica dessa fase é que o espancamento pode ser substituído por cenas de humilhação ou castigos. A sentença é esta: “alguém bate e/ou humilha meninos (desconhecidos)”. A fase é marcadamente sádica e torna-se detentora de forma permanente dessas tendências libidinais na vida adulta. Deduz-se (adivinha-se) a segunda etapa pela diferença entre a primeira e a última, acessíveis pela associação livre – o que explica a intensa satisfação acrescida na passagem de uma etapa a outra – e também possibilita identificar os seus reais agentes pelos representantes do pai e da própria criança identificados nas outras etapas. Freud (1919) afirma ser possível encontrar no processo de análise a criança envolvida naquela época com questões relativas ao pai, ao complexo paterno28, caso se chegue até o período primitivo em que tal fantasia é constituída. Existe uma ambivalência de sentimentos para com aquele que é tomado como objeto, e a necessidade de dividir sua atenção e ternura com outros, impondo-lhe uma perda de um lugar imaginário de onipotência (narcisismo). Logo, a fantasia é o produto do conflito posto entre a realidade e os desejos infantis, e pode ser retratada da seguinte maneira: “o
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Termo utilizado por Freud para designar a relação ambivalente em relação ao pai no complexo de Édipo.

é preciso que o analista use os fragmentos deixados pelo paciente e reconstrua essa cena. Encena-se na segunda fase a perda desse amor. ele utiliza o caso de um homem que era capaz de lembrar da cena de ser espancado pela sua mãe. mas em função da relevância de seu conteúdo a pressão para que essa representação permaneça no inconsciente é tal que não se consegue acessá-la por associação. ao contrário do que Freud nos quer fazer crer. Se essa é a peça fundamental e inconsciente também na fantasia masculina. então a etapa de ser espancado pela mãe só permanece acessível por já ser um substituto da fantasia fundamental. o sentimento de culpa e o amor em relação ao pai. mas também o substituto regressivo daquela relação” (Freud. Desta maneira consegue satisfazer. ou seja. resta também no homem algo a ser construído em análise e a prova de que o construído já estava inscrito no inconsciente permanece sem solução. Ou seja. provavelmente em função da intensidade do recalcamento. Tudo isso se realiza sob alienação do eu. a organização genital regride para a etapa anal-sádica. p.51 meu pai não ama essa criança. ser na verdade. ele apenas a denunciou. trata-se de algo registrado no inconsciente. Além disso. como forma de satisfazer a um sentimento de culpa por ser o objeto incestuoso. 1919. ama apenas a mim”. Freud acredita existir uma fase anterior no homem que permanece inconsciente: inicialmente dirá ser a inversão de papéis (espancadoespancador) entre ele e sua mãe. Para demonstrar a existência de um registro prévio no inconsciente da fantasia construída. o desejo de ser espancado por seu pai a etapa fundamental. a sentença “o meu pai me ama” precisa ser distorcida e na regressão da organização sexual aparece com a equivalente “o meu pai está me batendo”. e posteriormente afirmará. A construção em Freud equivale a pôr em palavras o que se deduz existir no inconsciente pelos indicativos deixados na fala do paciente a respeito de sua tenra infância. Logo. Freud acredita que esse conteúdo está no inconsciente. Freud (1919) entende que a fantasia construída (2ª etapa) nessas análises permanece inconsciente. mas retrata a ambivalência de sentimentos: ser amada pelo pai e o medo de perder esse amor possibilitam a satisfação por duas vias opostas.205). A fantasia não resolve o conflito. “Não é apenas o castigo pela relação genital proibida. O fato de acessar pela associação . ao mesmo tempo. A fantasia é literalmente uma masturbação mental.

O próprio Freud desconstrói o seu argumento ao afirmar existir uma etapa a ser construída no homem de igual conteúdo a construída na análise dos casos femininos. como uma manifestação regressiva do seu amor por ele. sua “invisibilidade”. continua a operar posteriormente por obra do supereu. o afeto originado na fantasia que a anima. mas a sua regressão a um período anterior de organização garante a sua realização e. como afirma o próprio Freud (1919). O sentimento de culpa pressiona no sentido dessa organização.210). Ou seja. referente ao complexo de Édipo.52 livre um conteúdo que em outra pessoa só pode ser construído em análise. Pois. não apenas o recalcamento explica a impossibilidade de acessar o “desejo pelo pai”. e posteriormente recalcada. não significa que o conteúdo já existia no inconsciente desta pessoa. é a culpa pela masturbação infantil. Dessa forma percebe-se que o mecanismo de regressão possui importante papel na regulação do psiquismo. uma marca da passagem pelo complexo de Édipo. destacando-se junto com o recalcamento na tentativa de garantir que certos conteúdos se mantenham à distância . “Não me surpreenderia se algum dia fosse possível provar que a mesma fantasia é a base do delirante espírito litigioso da paranóia” (p. assim como no delírio paranóico anteriormente apresentado no caso Schreber. apenas daquela que pode comunicar em análise. dos delírios paranóicos e. ao mesmo tempo. ou melhor. está posto que para além do mecanismo de recalcamento aplicado ao Édipo. e antes da etapa final do complexo de Édipo em que o pai passa a ser novamente objeto de identificação. O pai. na construção de Freud. está no centro de sua organização. Pode-se afirmar que a relação ao pai apresenta contornos próprios na constituição do sujeito e o desejo a esse está na base das formações deste tipo de fantasia. Ainda é importante destacar. porque não dizer. essa fantasia é uma cicatriz. existe também a regressão. um resíduo. aqui também. independente das diferenças no roteiro feminino e masculino dessa fantasia de espancamento. A sexualidade infantil recalcada pode se satisfazer pela via da fantasia – assim como no sonho e no sintoma – de maneira deslocada e deformada. enquanto mecanismo de defesa criador das condições para a realização da fantasia. pelo menos não a partir deste argumento. Não há como ter certeza sobre a existência prévia da fantasia antes da comunicação do analista. especificamente ao complexo paterno. A etapa fundamental recalcada no menino é também o desejo de ser espancado pelo pai.

Além de interpretar. escutada. posterior a analise dos delírios de Schreber (1911) e anterior ao das fantasias de ser espancado (1919). Para um conteúdo entrar no consciente é necessário ligar representações verbais às representações de coisa29 que constituem o universo inconsciente. mas para a fantasia fundamental não existem palavras suficientes para trazê-la à tona: seja pelo argumento freudiano da existência de intensas forças defensivas. mas dele se teria beneficiado a questão do sigilo. quase toda já realizada em 1914. A outra forma de registro é nomeada de representação de palavras. oral. . Até o momento. é preciso percorrer o sentido inverso da organização do sintoma para desvendá-lo. Esse é também um momento de debate entre Freud e os psicanalistas da época em relação a alguns conceitos. e entendidas como tentativas de dar resolução ao conflito basilar na estruturação de um sintoma/estrutura (recalque primário). Esses trabalhos indicam o complexo paterno e o narcisismo como conceitos fundamentais na explicação desse momento dos primórdios. que consiste num complexo de registros sobre a palavra que nomeia a coisa. Na verdade.3 Construções sobre o homem dos lobos O relato do caso do Homem dos Lobos foi publicado em 1918 com poucos acréscimos à sua escritura. Esse conjunto de registros sobre os atributos da coisa é chamado de representação da coisa ou objeto. não tivesse Sergei Constantinovitch Pankejeff se tornado mais tarde um personagem público e publicado sua autobiografia. As primeiras representações que criamos são sob os objetos. as coisas. abordou-se o delírio e a fantasia enquanto um modelo para a construção. Proponho assim aprofundar com eles este estudo. Este atraso na publicação sem dúvida se deveu a primeira Grande Guerra. para uma idéia ser consciente é preciso poder dizê-la. verificando a construção na prática de um caso clínico. seja pelo indicado em 1920 como algo que não se faz representar. 5. Trabalho temporalmente intermediário. reconstruí-la. etc. e de certa maneira uma continuidade do apresentado em “História do Movimento Psicanalítico” 29 Freud procura explicar como uma idéia passa do estado consciente para o inconsciente através da sua teoria da representação. reconstituir sua história. seja ela em sua forma escrita. faz-se registro sobre os atributos da coisa. As idéias acessíveis ao consciente seriam aquelas que possuem a representação de coisa ligada – a imagem visual da coisa conecta-se a imagem acústica da palavra – a uma representação de palavra.53 da consciência. Ou seja. um dos mais importantes e debatidos: o Caso do Homem dos Lobos (1918).

sem exceção. que fora executado diversas vezes. com suas implicações para a estruturação do sintoma. Nos experimentos com hipnose. Ao voltar à consciência. o fato de o médico ter lhe sugerido sob hipnose. não por próprio interesse. não só por fortalecer os conceitos anteriores. Nesse experimento. Outro ponto fundamental para delimitar o campo psicanalítico é a concepção da sexualidade infantil.54 (1914a). Na época. o médico fazia uma sugestão. porém ativas. a paciente não se recorda de nada e ao ouvir a palavra-chave se colocava a executar a ação determinada. Pode-se dizer que para ser uma psicanálise é preciso levar em consideração todos esses aspectos. capaz de se tornar ativa como programado. comandando a vida do sujeito. usando sua posição de fundador da psicanálise. Discordâncias teóricas entre Freud. A partir disso. A técnica da interpretação dos sonhos também precisa ser considerada. A teoria do recalcamento é apontada como a pedra angular. Freud estabelece um conceito de inconsciente enquanto uma manifestação importante da vida anímica. a condensação e figuração. irrevogáveis. portanto. o que pode ser comprovado através das experiências com a hipnose. estabelecendo critérios para que um tratamento pudesse ser considerado uma psicanálise. e consiste na hipótese de que existem idéias inconscientes. A experiência com os sonhos possibilita a descrição dos mecanismos no funcionamento psíquico: o deslocamento. a paciente era incapaz de se lembrar o porquê estava fazendo aquilo. Jung e Adler começaram em 1910 e culminaram na dissidência deles do movimento psicanalítico. Freud (1914a) indica quais são os conceitos basilares da psicanálise e. no caso. mas por demonstrar a existência de um sentido latente nos sonhos. até se comentou a existência de três escolas de psicanálise. mas por declarada pressão da figura de Freud. No entanto. pode-se perceber que a idéia sugerida pelo médico permanecia no psiquismo. e descreve as regras de seu funcionamento. Uma das conseqüências desse confronto é a fundação da Psicologia Analítica por Jung e a Psicologia Individual por Adler. mas Freud em 1914 decide o debate. Outros textos aqui abordados que contemplam essa discussão são: “Introdução ao narcisismo” (1914b) e “Uma criança é espancada” (1919). cuja explicação e acesso pela associação livre são usados para compreensão do sintoma. A discordância de Jung em relação a Freud está focada para a concepção de sexualidade infantil e a definição de libido enquanto uma energia sexual. Jung . uma ordem à paciente que seria ativada apenas ao escutar determinada palavra.

Duro golpe para Freud. e Freud precisa comprovar suas teorias e apresentar argumentos para refutar a dos outros. Freud chega a inventar vários detalhes do caso. se o comprovar as teorias for mais importante do que ouvir o paciente. havia um incômodo em estar “a sombra”. de estender os domínios psicanalíticos por toda Europa. Ou seja. apoiada na idéia da existência de um “protesto masculino” como o fator dominante na neurose. sua irmã e pai se suicidaram num intervalo de dois anos. Nesse sentido pode-se dizer que o caso clínico cumpre a função de “exemplo” clínico. inclusive o que chama de “estarrecedora cena primária” (p. Adler propõe uma verdadeira visão de mundo. segundo Roudinesco (1998). Para Freud (1914). O “homem dos lobos” é uma descrição detalhada sobre o tratamento de um jovem que se encontrava incapacitado e em cuja infância (aos seis anos) apresentou um quadro de fobia seguido de uma neurose obsessiva de conteúdo religioso. colocando o inconsciente em segundo plano em favor do eu. interpretações nesse sentido são apresentadas no livro da Associação Mundial de Psicanálise (1996) que afirmam ser esse caso uma tentativa de comprovar o Édipo em detrimento ao próprio caso clínico. pois ratifica a teoria psicanalítica em seu todo. a sexualidade como centro da vida anímica desagradava a Jung. Ele construiu sua própria teoria. Essa situação descreve boa parte do momento político que cerca a escritura do caso clínico do “homem dos lobos”. como nos conta Freud (1914). tentado a adentrar o sedento e puritano mercado americano. apresentava distúrbios intestinais permanentes. inclusive por sua origem não judaica. assim como a filosofia. a fim de garantir a sua concepção sobre o psiquismo humano e os aspectos fundamentais de sua teoria. sendo a sexualidade uma de suas vicissitudes.565). Aliás. preferiu abrir mão desse aspecto central da psicanálise. Por voltada dos vinte anos.55 acreditava ser “neutra” a energia que anima a vida. Um dos momentos mais importantes do caso e . Na vida adulta. que. negada por Sergei em entrevista publicada por uma jornalista vienense. que via no médico de Zürich seu sucessor. Aos dez anos apresentou os primeiro sinais de uma grave neurose. na medida em que se propõe a explicar para além da vida mental e passa a definir sobre as coisas do mundo e como o paciente deve se conduzir na vida. A necessidade de responder a esse aspecto político expõe o caso a riscos. Em relação a Adler. e o único capaz. E ainda.

em dois tempos. e outra. surge como ameaça de castração provinda do pai. A disputa parece assim se resolver em favor da última hipótese. e ele é tomado de grande medo de ser devorado por eles. Essa cena possibilitou-o saber da diferença sexual anatômica e da castração. e junto dessa retorna também o medo da castração e toda a ambivalência do complexo paterno. O mesmo pode ser verificado na fantasia de espancamento abordada há pouco. sobre a realidade da cena primária. porém. Embora destacando que nada se altera no tratamento. causada pela realização de um desejo de satisfação sexual com o pai enquanto a revivescência de uma lembrança anterior. como condição para se obter tal satisfação sexual. É da análise desse sonho que se presume a causa de sua fobia: o medo/amor que sentia por seu pai. de Freud (1918).61). uma realização de desejo pelo pai. No sonho dos lobos existe. Refere-se a uma ocorrência real. assim como durante a análise com Freud. caso seja correta uma ou outra vertente. Porém. de forma deformada. Em querer tomar a mãe como objeto de satisfação sexual. . cena construída em análise. A análise parcial realizada por Freud (1918) aponta os seguintes fragmentos que são utilizados numa construção posterior: “uma ocorrência real – datando de um período muito prematuro – olhar – imobilidade – problemas sexuais – castração – o pai – algo terrível” (p. Trata-se de refletir sobre as duas vertentes dentro do movimento psicanalítico: uma. pois “essas cenas da infância não são reproduzidas durante o tratamento como lembranças. Essa seqüência indica ser este um sonho de angústia. É a partir desse sonho que Freud faz a construção da cena primária.46). são produto de construção” (p. castrado. parecem reforçar a segunda vertente. crente na realidade da cena primária construída. Este sonho é o primeiro momento a trazer à tona o temor ao pai.56 também pertinentes a este trabalho é a análise de um sonho de angústia que o paciente teve com apenas quatro de idade: a janela de seu quarto se abriu e lá fora há imagem de uns seis ou sete lobos brancos sentados em cima de uma grande árvore. os fatos. ou seja. o desejo em relação ao pai obriga-o a se posicionar como mulher. O caso segue com uma discussão. de quatro) entre o pai e a mãe. que a considera uma produção imaginária regressiva dos pacientes. em que a satisfação sexual com o pai é experienciada através da observação de um possível coito a tergo (relação sexual em posição como a dos animais. A atitude ambivalente em relação a todo representante paterno foi o aspecto dominante de sua vida.

Ou seja. a cena primária é uma fantasia do analista. em parte. Mas ainda. pois ambas precisariam creditar sua eficácia ao efeito da sugestão. Nesse primeiro tempo da discussão..] e. Freud afirma ter o conteúdo dessas cenas um significado tão extraordinário para o histórico do caso.. pois é ele quem a constrói a partir dos seus próprios conteúdos.63). pelo sentimento de convicção apresentado por seus pacientes. Esse argumento é equivalente ao apresentado por Marie (2004) que diz ser fantasia do analista qualquer construção sobre a vida do analisando. relatada em 1914. além de ser uma fantasia. Freud se posiciona favoravelmente à idéia da cena primária como uma cena ocorrida de fato. pois todo o presente caso passa a encontrar explicação e solução na . afirma que isso a relegaria a seguinte situação: a diferença entre a psicoterapia e a psicanálise se resumiria ao fato de a primeira tentar convencer o paciente de que se está curado. que elas apenas podem ser “pressentidas – construídas – gradativa e laboriosamente a partir de um conjunto de indicações” (p. é por conta do seu potencial em solucionar o tratamento que acredita na sua validade enquanto técnica. apesar de não serem fruto de recordações. Ao considerar o uso da sugestão na psicanálise.57 apoiando-se na construção da cena primária no caso do Homem dos Lobos. Freud vai além ao dizer que outra crítica possível é de que. enquanto a segunda o convenceria da verdade de uma cena capaz de curá-lo. Refuta as críticas que creditam tal sentimento à sugestão do analista ao comunicar sua construção. o modo como ocorreu independente do incentivo do terapeuta (p. A resposta de Freud (1918) a essas críticas é no mínimo interessante: Um analista que escuta essa reprimenda confortar-se-á a si mesmo recordando o quão gradativamente veio à tona a construção dessa fantasia [grifo meu] [. Essa crítica também feita por alguns autores contemporâneos. geram sonhos. onde os significados do analista concorrem para explicar os sintomas do analisando. e mais. e já apresentada no presente trabalho. o que lhe parece impertinente a sua concepção de psicanálise. E mais. quando tudo estava dito e feito. Considera um trabalho de sugestão. nenhuma diferença na prática. invalida o processo de análise que se utilize esse recurso. É como se dissesse: só quem conhece o percurso na elaboração de uma construção é capaz de julgar sobre a imparcialidade deste trabalho.62). Esse é o argumento para manter a questão em aberto. o que não deixa de ser uma forma de lembrar. e Freud não se recusa a responder.

o acesso da representação à consciência é negado. obtendo uma modificação nas suas defesas e em sua relação com o gozo. inconsciente. por sua composição de representações de coisa (Sachvorstellung). no entanto. de levantar parte do material recalcado que gravita ao redor de seu núcleo. e a fantasia seria. O tratamento é capaz. Depois de “após determinada fase do tratamento. Temos assim. p. especificamente para o final do tratamento e para a cura. e como mais tarde. A travessia do fantasma é uma etapa do tratamento lacaniano. tudo parecia convergir para essa fantasia. a capacidade de se ligar a uma representação de palavra (Wortvorstellung) é perdida (bloqueada) – por não poder ser dita. ou pelo menos essa é a tentativa freudiana. Assim como o eu faz pressão para efetuar o recalque propriamente dito (secundário). pela interpretação.63). é o processo de construção e desconstrução que o paciente faz sobre o “si mesmo”. Assim como a construção da cena primária pretende em Freud. irremediavelmente. feito esse percurso. Está-se diante do momento mais íntimo do recalque primário possível numa análise. provavelmente encontre sua sustentação nessas idéias. Nele. permanece. por ser a primeira. 1918. o núcleo do recalcado procura atrair as idéias que façam alguma alusão ao seu conteúdo. na síntese. os mais variados e notáveis resultados irradiam-se dela” (Freud. Aqui não se pode ter dúvida sobre a necessidade de redimensionar a discussão sobre a construção: o que se constrói em análise é uma fantasia primária cujo efeito demonstra sua importância. Construir seria oferecer palavras equivalentes à representação impossível de ser dita.58 fantasia/cena primária construída na análise. A diferença se faz no modo de que cada um aborda a fantasia primordial. que se chama de primária. no interior do inconsciente. por entender o recalque primário como aquele sofrido por um representante-representação (Vorstellungrepräsentanz). Constrói-se em análise uma cena. é preciso “construir” para capturar algo desse recalcado. ao se abrir uma via de acesso até ele não é suficiente para saber seu conteúdo. A idéia de travessia do fantasma proposta em Lacan. uma forma de dizer/encenar algo sobre esse inacessível. por contra partida. o seguinte panorama sobre a noção de construção: é o trabalho longo e extensivo executado pelo analista em recolher ao longo de uma análise fragmentos que lhe permitam reconstituir a cena em que a doença se . ou seja. o núcleo organizador: é causa e explicação da neurose.

em 1918. de que a cena primária realmente aconteceu: “certamente não há mais necessidade de duvidar que estejam lidando apenas com uma fantasia. mas sem encontrar uma explicação. Trata-se. Porém. principalmente ao repudiar a idéia de que a construção é fruto de sugestão. Essa lembrança retornou diversas vezes na análise. fantasias e formações sintomáticas vistos até então.” (p. E ainda. pode-se afirmar que a relação ao pai é responsável por esse primeiro recalque original e organizador. a cena construída aos quatro anos de idade – sobre a observação de uma relação sexual entre seus pais quando tinha apenas pouco mais de um ano – é uma produção regressiva frente aos momentos decisivos dos complexos de Édipo e de castração em que se encontrava. A associação continua no sentido de demonstrar uma equivalência entre borboleta e mulher. mas com o tempo e outras circunstâncias acrescidas fazem o analista ficar atento a certos conteúdos até então tomados como sem importância. num certo dia o paciente fala sobre uma borboleta que era chamada de “vovó” em sua língua materna. no presente caso. imaginação do analista ou projeção de seus conteúdos nos analisando. A construção enunciada é uma explicação sobre a causa de o sujeito ser como ele é. pois a solução do enigma trazida em . Sobre a veracidade da cena primária. e em função das descobertas apresentadas em “Os caminhos da formação dos sintomas” (1917).59 funda e explica-se.97): as listras poderiam ser semelhantes à roupa de alguma mulher.69). O decorrer da análise mostraria o quão equivocado estava ele em sua construção. em conseqüência das circunstâncias de vida do sonhador. uma posição bem diferente da defendida até então e há pouco anunciado. por conta da insistência do complexo paterno enquanto cerne dos delírios. permanece fiel em relação às outras possíveis acusações com as quais de antemão não se furtou a debater.67). só poderiam ser encontradas precisamente nesse período primitivo [tenra infância]” (p. Trago agora a situação precisa em que Freud procura demonstrar a injustiça de tal afirmação: a análise faz um percurso em que várias recordações são deixadas de lado. Freud acrescenta. de uma crise de angústia no paciente surgida enquanto caçava borboletas. “A cena que seria inventada tinha que preencher determinadas condições que. A borboleta caçada tinha listras amarelas e sobre essa característica Freud (1918) faz o seguinte “esforço construtivo” (p. Freud prefere encerrar esse tópico da discussão dizendo serem ainda as provas inconclusivas. No entanto. No caso do homem dos lobos. Apesar das descobertas feitas.

com sua própria explicação sobre as listras é bem diferente. e por fim. porém. no delírio paranóico. Por esse efeito. chegando ao seu termo quando a fantasia primária é comunicada e produz um efeito de verdade sobre o paciente.60 seguida pelo paciente. Talvez porque do ponto de vista prático.108). ao mesmo tempo. enquanto “condição necessária para a sua recuperação” (p. segundo. redimensionar a construção enquanto conceito. O trabalho é do analista. pois agem sobre material específico. A construção da cena primária é para Freud condição para a análise encontrar o seu fim. pode-se. No trajeto feito nesse último capítulo. fruto de um trabalho meticuloso de recolher fragmentos. sendo o final desse processo de construir a extração completa da cena originária. na estruturação de um sintoma neurótico. numa fantasia de aspecto perverso. procurei dar contornos para a construção inserida em três importantes referentes clínicos: primeiro. Todos são modelos úteis para refletir sobre a construção. que por insistirem na cadeia discursiva do paciente indicam sua importância futura. pois podemos chamar essas produções inconscientes como sendo também construções. semelhantes às contemporâneas –. ou está distinção clínica não lhe parecia com suficiente clareza até então. e mostrou-se profícua e eficaz ao tratamento. Por isso. mas o conteúdo é do analisando. É a forma encontrada por Freud para solucionar o tratamento. são respostas do inconsciente ao traumático. ele se põe a defender sua posição. É importante sublinhar neste caso clínico a maneira como. e por . contudo. mostrando-o como uma interpretação. na sua clínica. sem ignorar as críticas feitas em sua época – aliás. Abre mão da realidade da cena primária e a assume como uma fantasia construída em análise. presume-se ser verdadeira aquela construção. fosse para Freud de pequena monta a diferença entre construção e interpretação. seu processo começa já no início de uma análise. mas procura demonstrar – destacando a importância da honestidade intelectual – o seu valor técnico no final de análise. Se considerarmos esse exemplo como sendo uma construção será necessário defini-la como: qualquer intervenção do analista que apresente sentido sobre o dito do paciente na tentativa de desvendar a causa da constituição de sua neurose. nenhuma é produzida pelo analista. Construção? Esse tipo de intervenção não seria uma interpretação? A crítica de Marie (2004) sobre a construção também incide sobre esse exemplo.

dirigimo-me ao texto em que a importância do pai é posta no limite: o universal de “Moisés e o monoteísmo” (1939). porque nesse abriria mão do seu estilo? Ele diz que. decantou-se algo a mais. A terceira parte possui dois prefácios. da perseguição nazista durante a Segunda Guerra. e a última teve a sua escritura completada apenas em 1938 – período em que Freud estava refugiado em Londres. Porém. elas ajudam a ampliar a nossa percepção sobre o que se trata de construir em uma análise. junto dessa pequena trama. algo comum capaz de amarrar essas diferentes construções. a ponto de parecem constituir três ensaios distintos. pois algumas idéias são apresentadas em mais de uma parte. após escrevê-lo.61 outro lado. não conseguiu apagar os traços da história e da origem desta obra. No entanto. a importância que o complexo paterno possui enquanto um nó. aliás. é composto de três partes. 6. É um belíssimo recurso fazer da obra o exemplo de sua pesquisa. . As duas primeiras foram publicadas pela primeira vez em 1937. publicado na sua versão definitiva em 1939. O modo como o texto está escrito gera certo estranhamento no leitor. O Pai O texto “Moisés e o Monoteísmo”. Pela necessidade de esclarecimento sobre tal insistência e a aposta de que possa auxiliar na elucidação do tema. Freud sempre teve muito cuidado em tecer os seus textos. o que parece indicar que faltavam as condições para fazer uma boa finalização do texto. este é o seu tema: a busca por traços sobre a origem.

sendo judeu. procurando explicar o lugar que ocupam na história da humanidade. Freud (1939) discorre sobre Moisés e a criação do judaísmo. a versão bíblica sobre esse homem. Como conta a história. o pequeno Moisés foi colocado em uma cesta no rio. por considerar provável que Moisés fosse de fato egípcio. é perseguido pela guarda do faraó e acaba por fugir para a terra de Madiã. muito conhecida na cultura ocidental e registrada no Antigo Testamento. pastor de ovelhas. e um outro. com essa obra Freud fala também de sua origem. Esse ponto é debatido por Freud (1939). É preciso lembrar que. modificada através dos tempos para se adequar aos anseios de seu povo (os judeus). Fato destacado por Serge Cottet (1989). Moisés era um hebreu criado pela família do faraó. É a história do “varão” Moisés. no capítulo em que fala sobre a paixão de Freud em buscar uma origem para a neurose. temática que se faz presente em toda a obra freudiana. por seu caráter ilustrativo. divisor de águas que separa o “normal” daquele que adoece. genro de um sacerdote em Madiã. . Foi resgatado e criado por uma princesa egípcia.62 Nos indicativos iniciais é possível reconhecer na temática contemplada à sua relação com a construção: a questão da origem. constituiu uma família. que na sua juventude via a escravidão hebraica imposta pelos egípcios como uma fonte de inquietação e por conta disso. e não cabem aspectos morais ou qualificativos nessa divisão. Num tempo em que o faraó e de todos que o perseguiam já tinham morrido. A discussão freudiana sobre a identidade de Moisés ficará afastada. Lá casou. seguidor de Akhenaton e adorador do “disco solar” como um único deus. e que começa da seguinte maneira: na época do seu nascimento. Sugere inclusive a existência de dois Moiséis: um aristocrata egípcio. um dia assassinou um egípcio que açoitava um dos seus. interessando. Após esse evento. trabalhando como pastor de ovelhas. havia a ordem de matar todas as crianças hebraicas do sexo masculino. e que sua origem. em função de uma visão de um oráculo do faraó. Lembrando que para ele doença e normalidade sempre foi apenas uma questão quantitativa. Moisés recebeu a aparição de um anjo que lhe disse: Deus ajudará seu povo a se libertar da opressão egípcia e caberá a você levá-los para uma terra boa e segura que lhes guardei. e por conta disso. Freud aposta na “resolução” do Édipo como o ponto primordial. Apesar de sempre considerar múltipla a causa das doenças psíquicas.

Assim é o temperamento e o poder do Deus de Moisés.63 Moisés parte em direção a capital do reino egípcio. Preocupado com a reação das pessoas em saber de sua missão. pois a religião que propusera exigia vigorosa abnegação dos desejos e não permitia a adoração e rituais. Foram diversos os percalços e as provações que esse Deus “libertador” impôs durante a peregrinação até chegar à Canaã. e por fim. Após a sua morte o povo consegue entrar em Canaã. mata vários animais por doença. A história do povo judeu é um marco civilizatório também. tendo Moisés para guiar o Seu povo. Moisés morre sem ter o direito de entrar na terra prometida. em uma só noite. e depois com moscasvarejeiras. uma nuvem de gafanhotos que comeu o que restou. Interessante notar que a idéia de um Deus único já existira no Egito sob a forma do culto do disco solar. ela não oferecia em troca vias sublimatórias que tornasse suportável e compensador abrir mão de seus impulsos para estarem ligados a tal Deus. Passaram por entre as águas do mar Vermelho e acamparam no monte Sinai. Quando Moisés consegue ser recebido pelo novo faraó. ao mesmo tempo em que cai em desgraça com Deus. pois narra à passagem de uma humanidade representada no politeísmo egípcio para uma organização com único Deus. Deus o proibiu. Esse Deus é tão poderoso que se torna inalcançável às pessoas. por dele se afastar. onde Moisés recebeu os dez mandamentos – e todo tipo de lei e regras sobre a vida em sociedade. isso desperta a ira do faraó que aumenta a exigência e a violência contra o povo. Segundo Freud (1939). Também recebe um cajado que se transforma em serpente quando jogado ao chão – é o modo de provar sua origem. empesteia o ar com mosquitos. surgiram trevas. dizendo ser o enviado pelo Deus de seus pais. que partiram em busca da terra prometida. sob o risco de sofrer todo tipo de infortúnio. envia uma chuva de granizo que estraga toda a lavoura. o faraó concedeu liberdade a todos. Abraão e Isaac. Moisés pode ter sido assassinado pelo seu povo. faz surgir tumores sobre os egípcios. ou seja. Deus envia dez pragas para mostrar o seu poder. Assim. é orientado por Deus a invocar as figuras de Jacó. sendo proibido até mesmo dizer o seu nome. Essa informação serve como argumento para Freud sustentar a tese da origem . infesta as terras com rãs. Dessa maneira e para se livrar de infortúnios piores. Contudo. pede para que ele liberte o seu povo. uma de cada vez: transforma as águas do Nilo em sangue. mata todos os primogênitos egípcios. Porém.

o faraó. podemos chamar a obra dedicada à origem de seu povo de “a” construção freudiana. junto com a liberdade. e que se reconhece em suas práticas como uma nação. o povo judeu é criado por Moisés. trata-se do esforço em demonstrar que somos atravessados por uma herança comum a todo ser humano. Freud (1939) define outras características comuns a todo trauma: . a que concedemos tão grande importância na etiologia das neuroses” (p. e por isso. a circuncisão enquanto representante da castração e marca no corpo de submissão ao Pai. Creio que o interesse deste trabalho pouco tem a ver com uma possível crítica ao judaísmo. e sim. adquiriram com Moisés uma nova religião. O povo judeu é o único daquele período cujas tradições e histórias permanecem vivas na atualidade. ou seja. pois lhes retirava o poder (de intermediador) que tinham numa sociedade fundamentada na religião e governada por um deus na Terra.64 egípcia de Moisés. mas isso não significa que não exista um trauma. nem sempre se encontra um trauma manifesto para explicar a neurose. uma delas é de profundo interesse à psicanálise. O culto ao sol foi ferozmente destruído pelos sacerdotes da época. Na prática clínica. O próprio Freud (1939) reconhece a sua pesquisa como uma construção. em outro lugar. o judaísmo cai no esquecimento.87). Os hebreus. Entre essas práticas. Após a sua morte. a ponto de não ser possível elaborá-la (no sentido de fazê-la escoar para fora do psiquismo) de imediato. tempos primevos estão esquecidos e retornam compulsivamente. O seu envolvimento com o povo hebreu seria uma tentativa de resgatar. Para formalizar esse paralelo recorre à concepção de trauma. ou seja. cedo experimentadas e mais tarde esquecidas. ou como diz Freud. tomando-o como o elo que aproxima a dimensão particular da universal. mesmo que despatriada. o fator quantitativo é fundamental para definir um evento como traumático. costumes e leis diferentes da época em que estavam sob o poder dos egípcios. entra num período de latência. É no estudo da epopéia desse povo que Freud encontra o material para fazer um paralelo entre a história da humanidade e a história da constituição do sujeito: em ambos. o modelo monoteísta. Para considerarmos uma experiência traumática é necessário que uma grande quantidade de energia esteja envolvida. O trabalho da construção na prática clínica de Freud procura formalizar um saber sobre as origens de um sujeito em análise. só retornado muito tempo depois. Freud (1939) define trauma como “aquelas impressões.

sendo a primeira a mais marcante. distante do sujeito. de tal maneira a constituírem uma teoria sobre a precocidade da vida sexual humana – interrompida por volta dos cinco anos30. como os relacionamentos atuais. São esquecidos. Essas direções resultam em ações específicas para atingir suas finalidades. ou seja. e não algo profundo. que demonstram a materialidade do inconsciente na vida. sob a condição de estar deformada para permanecer inconsciente. seja sob forma de experiência ou de impressões vivenciadas nesse período. inclusive a causa determinante da neurose. seja com esposa.90). Ele manifesta-se em frente do sujeito. pode caracterizar um quadro de inibição. entendidas como destino no senso comum. 2. São circunstâncias como essas. Os efeitos produzidos são diversos e em cada sujeito adquire contornos próprios. Busca-se vivê-la de forma real. a interrupção imediata e no 30 Amnésia que atinge os fatos dos primeiros anos de vida e é efeito do recalque sobre a sexualidade infantil. . 1939. A repetição da situação traumática ocorre de diversas maneiras. uma fobia. Relacionam-se a impressões de natureza tanto sexual como agressiva. p. Quando esse processo é intenso. a sexualidade possui o seu “desenvolvimento” limitado ao vivido na infância e é responsável por importantes aspectos da psique humana. ou mesmo. mas o que está na causa dos atos e escolhas permanece ignorado. usando as brechas da realidade. Além disso. A menina sofre com a repetição da cena. o chefe ou um vizinho. A primeira é definida como a suspensão de um processo em estado nascente. obscuro. A outra possibilidade de lidar com o trauma é evitá-lo e a quaisquer lembranças e atos que estejam associados. Esses três elementos se inter-relacionam. pode-se dizer que nas neuroses existem duas direções possíveis frente ao trauma: ou se procura repeti-lo de forma compulsiva. 3. ali algo se realiza. Um exemplo dessa insistência: “uma menina que foi tornada objeto de uma sedução sexual na infância pode orientar sua vida sexual posterior de maneira à constantemente provocar ataques semelhantes” (Freud. Ocorrem na primeira infância (até os cinco anos).65 1. Porém. no entanto. entra num estado de latência até a adolescência. ou evitá-lo de todas as maneiras.

Todas possuem uma característica compulsiva e atuam de forma independente do restante do psiquismo. “incluir no psíquico” – considerando estar o “compulsivo” fora do campo representacional – é diferente de conciliar duas idéias/desejos contraditórios já existentes. A questão para alguém buscar ajuda está na quantidade de sofrimento gerada nessa conciliação sintomática. . no entanto. Freud (1939) apresenta como exemplo da estruturação da neurose. Levanto essa hipótese.66 início. gerando intenso mal-estar. como numa fobia animal. A neurose nos adultos é um efeito retardado do trauma infantil. E ainda pode se pensar na angústia como um afeto desligado da idéia traumática e solto no interior do aparelho. o que poderia ser interpretado como uma conciliação ao submeter uma quota pulsional ao princípio de realidade. por incluir algo desse recalcado à rede representacional. Não que ela seja possível. Tal raciocínio pode estar equivocado. Está-se abordando os mecanismos de uma neurose estruturada em um adulto. um breve relato de um caso clínico. O sintoma neurótico pode ser visto como uma tentativa de “cura”. ignorando a realidade externa. em que o temido é um substituto daquilo que está na base do conflito. afinal. em que se encontra a reafirmação da importância do complexo paterno nesse processo de estruturação do sujeito. A fobia constitui a retirada do afeto da experiência traumática e o seu deslocamento para uma situação que não faça qualquer referência direta ao trauma. Na infância. É necessário lembrar que quem procura uma análise o faz por que essa tentativa de reconciliação falhou. com o retorno da sexualidade na adolescência. o que o sujeito consegue é. o menino partilha o quarto dos pais e tem a oportunidade de ver ou ouvir os atos sexuais dos pais. mas não estou certo até que ponto Freud não pretendia fazer uma conciliação “bem feita” ao dar sentido a esse traumático através de uma construção. O trabalho da análise é no sentido de aprofundar essa cisão. suportar o desprazer de um sintoma quando “bem feito”. cuja organização começou na infância. os efeitos das lutas defensivas travadas nesse tempo só aparecem após o período de latência. de reconciliação (assim como o delírio o é na psicose) entre as partes expelidas para fora do eu durante a infância. no máximo. na medida em que a construção é capaz de interromper o que de compulsivo existe no trauma. expor o conflito de forma irremediável. de qualquer atividade que possa fazer alguma referência à situação traumática.

seu temperamento torna-se muito difícil. e precede a existência da relação de objeto. indiferenciado: aquele que se acredita ter sido). porém. segundo Freud (1921). Sua atividade sexual se limitava às fantasias e devaneios sado-masoquistas.67 Nessa época.116). assemelhando-se àquele do pai. enquanto possuidor de pênis será o primeiro objeto de identificação para a criança. o eu (ideal)31 da criança e o pai são percebidos como perfeitos. Somente após a morte do pai que ele finalmente consegue se relacionar sexualmente e casar. Freud (1914) faz uma análise sobre esse período primitivo em que a identificação primeira ocorre. Tal ameaça produz um efeito traumático. A identificação ao pai é a primeira identificação do sujeito. A identificação. É também. Desde o início é ambivalente. O pai. . assume uma posição passiva frente a ele. Nesse período. a insônia surge como o primeiro sintoma de conciliação: fica acordado para poder “vê-los”. Durante o período de latência é considerado um bom aluno e filho. manifestado numa veemente insubordinação e extremada tentativa de autodestruição. o processo pelo qual o sujeito se constitui. com isso. mas por acreditar que por isso não lhe falta nada. ao mesmo tempo em que. com a chegada da puberdade e o re-despertar da sexualidade. Em “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Freud (1939) nomeia esse fenômeno de retorno à identificação primária. a um ideal de si projetado por seus pais. Identificado ao seu pai (uma pessoa agressiva). 31 Referência aos três “tempos” do eu: eu ideal (do narcisismo primário. Não apenas pela presença do pênis. ao mesmo tempo. é “a forma mais primitiva e original do laço emocional” (p. uma neurose se manifesta. interrompe qualquer possibilidade de os pais fazerem algo enquanto ele chora. e pode ser a via para expressão tanto de ternura como de hostilidade. bem como no desejo recalcado (ter o pai). e tem como conseqüências um medo do pai e. cujo sintoma principal é a impotência sexual. e a impossibilidade de ocupar o lugar dele (ser o pai) está na causa de sua neurose. Porém. uma referência óbvia à relação ao pai. junto ao supereu: aquele que se almeja ser). obtinha satisfação sexual nos castigos corporais ministrados pelo pai por conta de suas travessuras. passa a investir sexualmente em sua mãe. o comportamento do jovem mudou: é tomado por intenso ódio contra o pai. ela lhe respondia com ameaças de castração – a ser executada pelo pai. Segundo o paciente. no entanto. Assim. eu (instância representante da consciência: aquele que se acredita ser) e o ideal do eu (formação oriunda da saída do Complexo de Édipo. e afirma que a criança muito cedo se identifica a uma imagem.

97). o vínculo existente entre eles – criado no período do exílio – possibilitou estabelecer o primeiro contrato social: “cada indivíduo renuncia ao ideal de adquirir a posição do pai para si e possuir a mãe e as irmãs” (p. Não há registros sobre o que fomos. exatamente onde “o” trauma se encontra. A humanidade. Freud descreve o homem primitivo vivendo em hordas dominadas por um macho mais forte. eles também o honraram como modelo (também é assim nos filhos de hoje). a religião é apresentada como o sintoma por excelência. Logo após o assassinato.68 A partir do caso clínico apresentado. Apesar de sentirem ódio e medo desse pai primevo. olhar o monoteísmo judeu como uma formação sintomática. assim como o sujeito. institui-se a exogamia: o assassinato do pai permite a criação da lei. a lembrança do pai persiste sob a imagem de um animal sagrado. Em algum momento. reuniram-se para matá-lo. sexualidade e agressividade são fatores importantes no processo civilizatório. Nesse modelo. num combate contra os outros machos que o desafiasse que poderia levar a morte. Na organização social totêmica a ambivalência de sentimentos em relação ao pai é transferida para a relação com o animal: o respeito/medo e a adoração/modelo. ou seja. Para garantir seu lugar. passa por uma amnésia sobre sua préhistória. porém. e nessa empreitada. Esse macho. “O canibalismo [aparece] como uma tentativa de assegurar uma identificação com ele [o pai]” (p. O texto “Totem e Tabu” (1912) é uma construção freudiana sobre o que foi esse período primitivo. portanto. Essas etapas também são propostas para descrever a história da humanidade. . Assim. utilizava a força e a agressividade. é o início de um período conhecido por totemismo. Com a destituição da figura pai como líder da tribo (e a proibição de ocupar esse lugar). uma tentativa de reconciliação de algo que precisou ser expelido da “consciência histórica”. dominava o grupo e era o único que mantinha relação sexual com as fêmeas.96). o assassinato e o incesto passam a ser tabu. inicia-se um período de matriarcado. os irmãos passaram a disputar o lugar do pai. Freud (1939) propõe um modelo do desenvolvimento da neurose: trauma primitivo – defesa – latência – desencadeamento da doença – retorno do recalcado. acabam por devorá-lo cru. Contudo. nem como vivíamos nesse período que pode ser chamado de pré-linguagem. numa forma de incorporação do pai. o pai da horda. os “irmãos” expulsos do clã por atentarem contra o pai. Deve-se.

É uma forma de repetir. o objeto de adoração se modifica. Assim como no delírio psicótico existe a crença compulsiva em sua realidade graças àquilo de verdade que carrega (de maneira deformada).99). Não é apenas nesses fragmentos que Freud (1939) afirma estar à justeza da construção. ganha características humanas misturadas a dos animais. por seu valor de verdade. Surge uma grande variedade de deuses. Acredito que esse momento torne mais claro ao leitor.69 Porém. em nome do pai32. o patriarcado retorna aos seus moldes primitivos. ou mesmo. multiplica-se. se possa matar e ingerir o animal totêmico.99). onde cada deus reina sobre determinado assunto e possui certas habilidades. no antigo Egito. finca as bases do que será a religião. e pelo efeito de credo quia absurdum. É com os fragmentos recolhidos na atualidade que Freud ergue a construção. Porém. Com o passar o tempo. nada que não possa apoiar-se em fundamentos sólidos” (p. A religião politeísta. do parricídio. A presença nos dias de hoje de vestígios desse tempo é surpreendente. como por exemplo. . a religião 32 Referência ao Nome-do-pai. comemorar e não saber do horror do assassinato do pai e garantir a lei instaurada (a ordem simbólica). mais brando e sob a condição de formar uma associação com os outros homens. retrata muito bem essa forma de organização. na religião católica. festivais são criados para que. É a ritualização. assim como nos rituais totêmicos. Freud (1939) afirma que “nada existe de inteiramente fabricado em nossa construção. re-atualização. creio porque é absurdo: “característica fora do comum só pode ser compreendida segundo o modelo dos delírios dos psicóticos” (p. cria-se poderes e cargos para governar. mas principalmente pela a força que exerce nos sujeitos. o que leva Freud a escrever sobre a humanidade a partir de Moisés e o judaísmo. e de que maneira isso nos interessa. num caso de fobia animal. Freud (1939) quer construir na história da humanidade o que construiu na história do sujeito: a fantasia fundamental enquanto uma realidade primitiva. e introduz o sujeito no simbólico. que podem ser tanto masculinos como femininos. A decadência do matriarcado possibilita o retorno do modelo patriarcal. como por exemplo. o ato da comunhão: come-se o corpo e bebe-se o sangue de Cristo. sob a configuração de uma religião com um deus-pai poderoso e único: o judaísmo. termo cunhado por Lacan para indicar o significante que abre a cadeia significante. A instituição de leis e de um animal sagrado. em certas épocas do ano.

tal como todo filho tivera esperanças de fazê-lo. acaba por se identificar com Ele. Jesus morreu “por nós” e nos salvou de todos os pecados – em especial. reforçando o seu valor de verdade. aos pacientes de hoje. subjetiva ou coletiva. seu efeito de absurdo e as conseqüências que produz na vida do sujeito. ao assumir a responsabilidade pelo desejo de assassinar o Pai. Ele tomou para si a culpa de toda a humanidade. ainda hoje. mas quando outros a partilham é realidade – e à psicanálise interessa essa enquanto realidade psíquica. que permitiu ser assassinado pelos homens.. deus grego. e por saber que seria destituído por um filho comia todos ao nascerem.102). Desposa a irmã.. e não mais uma abertura que faça avançar o tratamento. “O judaísmo fora uma religião do pai. ele assume o posto de o único representante do assassinato do pai. não pode ser considerada mera produção imaginária. Ao matar o pai. e por isso. A verdade que comporta. Isso se deve a popularização dos conceitos psicanalíticos. o do assassinato do Pai. o efeito de enigma? Uchitel (1997) acredita ser de pouca eficiência apresentar uma construção. [. também assume seu lugar supremo. Freud apresenta a noção de verdade histórica para criar uma terceira via no debate acerca da cena primária. uma construção feita em análise é capaz de provocar esse absurdo. nos tempo primevos” (p. proporcionam ao construído um status particular. acaba por substituí-lo quando também é assassinado.70 também se apóia nessa verdade histórica para provocar nos fiéis uma crença dogmática em seus preceitos. É o retorno do . porém. que assumiu o posto máximo dos céus ao castrar seu pai. Freud (1939) remete-nos ao filho de Deus. tudo isso. Na continuidade da história. Quando uma pessoa acredita numa realidade é loucura. porém. o contato do “Homem dos lobos” com a psicanálise é apontado como uma das causas do fracasso em seu tratamento. ocorre coletivamente. porém seu filho Zeus (único que não foi comido) o expulsa e toma seu lugar. Inclusive. o cristianismo tornou-se uma religião do filho. que faça referência ao Édipo. e a conseqüência da construção hoje é uma cristalização do sentido do analista no analisando. tomou seu lugar. ocupando o seu lugar. mesmo sem ter culpa. É semelhante ao mito de Cronos. apresentado no “Homem dos lobos”: a cena primária/fantasia fundamental não ocorreu de fato. Mas será que.] o Filho. O dogma religioso é como o delírio psicótico. Dessa maneira. Jesus.

O registro do trauma permanece inconsciente e só pode ter sua existência deduzida pelos efeitos que produz na vida do sujeito. é aí que garante sua amplitude. Apesar de isolado. o pai primevo retornando da horda primitiva. o de se tornar consciente. como o culto de semi-deuses (santos) para atender. em situações da vida atual. e deformada pelas resistências. sofrem uma diminuição. ao politeísmo: o “pai” é recoberto. Contudo. Freud (1939) apresenta às dificuldades de seu estudo em fazer um paralelo entre o homem e a humanidade. o cristianismo se volta para as crenças de outros povos e integra várias práticas “profanas”. os traumas primitivos a que nos referimos não alcançam tal destino. Considerando isso. na medida em que incorpora o “Antigo Testamento” às suas verdades. concomitantemente. permanece no inconsciente. por trás deste. ou o representante pulsional recebe uma energia excitação extra (como por exemplo. no recorte que faz ao escolher apenas o povo judeu (restrito a uma cultura). a repetição do assassinato e a absolvição do seu povo.71 recalcado em ato. o retorno é sempre de forma intensa. que empurram o recalcado. 1939. como o filho. Primeiro. Outra dificuldade está em explicar a transmissão do registro das experiências dos antepassados para além da tradição oral e da cultura.103). Ou ainda. o conteúdo recalcado não se extingue. transfigurado e. No entanto. Num momento de conclusão. sem possibilidade alguma de gerar conexões com o restante do psiquismo. Em seguida. O material recalcado pode inclusive ficar inteiramente isolado. Existe uma continuidade do judaísmo no cristianismo. Pode-se dizer que “Cristo foi Moisés ressurrecto e. tão semelhantes ao conteúdo recalcado que uma ligação entre os dois eventos se estabelece. de modo disfarçado. mas certas disposições inatas também . De todo modo. falar dos judeus é apenas o ponto de partida para a construção de uma metáfora sobre o ser humano. continua a pressionar no sentido de alcançar (satisfação) a consciência. o que ocorre de três circunstâncias: quando os investimentos do eu. colocado no lugar do pai” (Freud. é a teoria da herança arcaica: no inconsciente existe não apenas o registro de experiências do sujeito. p. Freud (1939) formula uma hipótese para explicar o fato de não ser possível ter acesso a esses registros. na adolescência). principalmente de um conteúdo recalcado. No sujeito. trazendo a lembrança à consciência. o que poderia prejudicar sua tentativa de generalização.

Freud acredita que traços de memória de experiências das gerações anteriores podem ser herdados. uma condenação a um eterno retorno do mesmo. No entanto. oferece algum sentido. retirar alguns importantes apontamentos em relação ao trabalho de construção. por exemplo. pois ressoa. toca-se o recalque primário por alusão. e o sintoma do Homem dos Lobos. contudo. Existe um fator constitucional que o pré-determina. em todos. pois é ele quem seleciona o material tendo a si próprio como critério. produz efeito integral ao final de uma análise (já que a recordação não ocorre). a partir dessa obra. O que Moisés e o percurso feito até então mostra é que esse começo é comum a todos. Independentemente de esclarecer o que é “essa maneira especial” de saber indicada por Freud – visto que a psicanálise lacaniana não avançou na direção dessa hipótese biologizante e sim da lingüística – é preciso reconhecer o lugar de verdade dessa herança referente ao pai: o totemismo. expõem como a construção . ao avaliar a construção para fora dos muros do contexto clínico. ao atribuir sentido sobre a história da humanidade. cujas palavras do paciente orientam o analista. a relação ao pai se impõe. seu estatuto no campo psicanalítico. com a diferença de conteúdo e extensão no homem: “não hesito em declarar que os homens sempre souberam (dessa maneira especial) que um dia possuíram um pai primevo e o assassinaram” (p. Aquilo que nunca teve palavras quando as recebe não se torna uma lembrança. ao mesmo tempo. o delírio de Schreber. pode-se dizer que Freud. Freud (1939) estabelece paralelo entre a herança arcaica e o instinto animal. a constituição do judaísmo. Esse estudo freudiano oferece recursos que esclarecerem como a construção. sobre a origem daquele sujeito. bem como. acaba por expor a sua própria subjetividade. enquanto uma programação que determina como agir frente a certas situações. a memória. independentemente da comunicação direta ou através da educação. Estamos diante da teoria da herança dos caracteres adquiridos de Lamarck. As críticas feitas ao uso da construção. o que há de originário e estruturante nesse construído. não o traduz em palavras. assim como nas funções cognitivas comuns cujo funcionamento é predeterminado. É uma marca do início da civilização.72 estão incluídas. em especial a de Pierre Marie (2004). É possível. o que se ganha é a certeza no que foi dito. da história e. Com ela. a partir de sua ação parcial. as fantasias de espancamento.115).

pode-se dizer que possui o seu mérito (toda ciência começa numa teoria). O próprio Freud (1939) reconhece que o mérito de seu trabalho com “Moisés” não está em explicar a origem do povo judeu e sim. Em “Construções em Análise”. Assoun (1996) diz que existe um caráter ficcional no saber metapsicológico. Bernardes (2003). A metapsicologia também pode ser pensada como sendo uma construção que figura sobre o nosso funcionamento psíquico. ou a teoria (o que faz referência aparente ao Édipo e a sexualidade). e até que ponto faz o tratamento avançar ou o cristaliza. ao final desse exercício imaginativo (eu não diria adivinhatório). ou o que o analista escuta no discurso. sim. Moisés mostra a ambivalência frente ao pai que limita e liberta ao mesmo tempo. da castração – como a base do que não se pode saber. Assim como Édipo figura sobre a nossa infância olvidada. Freud quer explicar o efeito de verdade que uma construção correta tem sobre o sujeito. pois a menina também vivencia esse tempo tendo “o pai” como objeto da primeira identificação. e em “Moisés e o Monoteísmo”. que não possui falta. para interpretar ou pedir para que o analisando fale mais. do limite. enquanto primeiro objeto de amor. . de poder decantar algum saber sobre a clínica psicanalítica. a mãe apenas serve à disputa entre os “homens”. em “Tratar o Impossível”. Aliás. A questão fica sobre o uso dessa técnica numa análise. Porém. demonstra que em o “Homem dos Lobos” a construção impede a continuidade da análise.73 pode ser. Refiro-me a “homem” enquanto ser fálico. No início. Pois quando se trata da seleção de conteúdos/idéias. indicando aspectos inconscientes do próprio analista interferindo em sua escuta. O complexo paterno possui papel especial no complexo de Édipo. sendo que a mãe entra em cena só depois. por inaugurar (o registro sobre) o conflito da vida. é difícil ter certeza do critério (do desde onde) se escolhe para se dar valor a certo conteúdo no discurso do analisando: o próprio discurso do analisando (o que repete). ele percebe que tal efeito também se produz. a partir da estruturação da religião. se tomarmos a construção como um recurso que serve para explicar algo vivido na prática clínica. uma produção imaginária daquele que o faz. por ser um conteúdo de Freud que o paciente não pode se apropriar. Apresenta o pai – enquanto representante da Lei.

Aliás. irei ao final em busca de outros indicativos sobre aquele início. Enquanto pesquisador. Tudo que começa precisa de um final A construção é a tentativa freudiana de encontrar um início primordial como possibilidade de resolução de uma análise. na obra de publicação póstuma: “Esboço de Psicanálise”. e descreve o curso de um tratamento desde a regra fundamental.74 7. além de significar uma síntese. sendo assim. mas de maneira muito pontual extrair dele os fragmentos pertinentes à construção. também recorro a ele. o mestre opta por fazê-lo como despedida. farei o trajeto inverso. Não nos interessa percorrê-lo todo. dirigindo-me às últimas palavras do pai da psicanálise sobre a construção. pois esboço. são os traços iniciais de uma obra. passando pela transferência. ou seja. Porém. até a questão do papel do analista. título curioso nesse momento. Freud (1940b) dedica o capítulo seis à técnica da psicanálise. é o que se faz antes de se começar um trabalho. Insiste que a construção é um trabalho . busca um início para obter um final. Trata-se de um relato conciso do que Freud produziu ao longo da vida.

nos conteúdos descobertos pela interpretação dos atos falhos e sonhos. e. No capítulo sete de “Esboço de Psicanálise”. Começo por afirmar que a impressão de falta de acordo entre os autores não se mantém em seu todo. fruto dos fragmentos coletados das mais variadas fontes: do que o paciente diz intencionalmente. no que mostra em transferência. na medida em que exige da construção um processo anterior de preparação e coleta de fragmentos. não deve ser comunicada a esmo. e exige certas condições de quando fazê-lo: Via de regra. ao afirmar que quanto mais completa a cena. da sua associação livre. sobre a construção e não do que ele pode dizer ao fim de sua vida. de como somos impelidos à doença pelo processo civilizatório. 192). resta à liberdade de tirar as minhas próprias conclusões e decidir sobre o que fazer da construção na prática clínica. p. Alguns pontos apenas demonstram a amplitude desse conceito e a falta de precisão da noção de construção na obra freudiana. mais fácil é para o paciente lembrar e assentir sobre a sua realidade e torná-la seu próprio conhecimento. Percebo que a minha ida ao “Esboço” é quase um pedido ao “pai” de uma palavra última.] Se procedemos doutra maneira e o esmagamos com nossas interpretações antes que esteja preparado para elas [. É importante apresentar alguns dos aspectos em que a construção foi tomada.. 1940b. portanto. A construção é um conhecimento do analista. e explicar em que medida eles são cabíveis. Todo esse material contribui na tarefa da construção sobre o esquecido e serve também para explicar determinado momento na análise. a construção não possui uma precisão tal que a diferencie da interpretação: Freud (1940) se refere à comunicação da construção como sendo uma interpretação. . enquanto últimas palavras. Freud debate a causalidade da neurose e demonstra a sua relação com o mito do Édipo e.. A construção destina-se a restabelecer. final. Percebe-se que ainda aqui. No entanto.] provocaria uma violenta irrupção de resistência (Freud.. parece ignorar todo o próprio debate sobre a impossibilidade do paciente recordar o construído. Nenhuma revelação é feita. adiamos falar-lhe de uma construção ou explicação até que ele próprio tenha chegado tão perto dela que só reste um passo a ser dado [. No entanto impõe-lhes uma diferença.75 a ser realizado pelo analista.. a recuperar o período da infância que foi submetido ao recalque.

ao longo de uma análise. como fica demonstrado nos trabalhos freudianos “Totem e Tabu” (1913) e “Moisés e Monoteísmo” (1939). a compulsão à repetição. ambas podem coincidir. da relação transferencial e de seus atos que. do delírio psicótico. Considera-se que em ambas é preciso a neurose de transferência instalada. fruto da imagem proveniente da identificação primária. Primeiro é preciso defini-los nos seguintes termos: a construção é o trabalho feito pelo analista de recolher. Vários desses temas estão imbricados e esta segmentação serve apenas para fins didáticos. estende-se sobre vários ramos de discussão: o político. Sobre a oposição entre construção e interpretação. pode-se dizer que são a mesma coisa. o mecanismo regressivo e o recalque. em certos pontos. na produção de conhecimento científico e na metapsicologia como indica Roudinesco & Plon (1998) e Assoun (1996). há de se concordar com Laplanche & Pontalis (1998) que o conceito de construção ultrapassa os limites da técnica clínica. e por isso. No interpretar. o recalque primário e o secundário. considerando a construção como uma técnica do analista no tratamento. Desta ótica. se interpenetram. a realidade psíquica. Pelo seu aspecto imaginário. pode-se dizer que se reconstrói a fantasia do analisando sobre si mesmo. o objetivo da análise. Ela deve ser pensada também no processo de estruturação da fantasia inconsciente. o técnico frente à interpretação. reunidos. quando se comunica uma construção. o analista “provoca” o paciente sobre a existência de outro sentido para além . A construção exige um processo de elaboração por parte do analista. deve-se admitir que os conceitos. e também na “psicanálise aplicada”. o que é diferente na interpretação de um sonho ou ato falho.76 Quanto a sua amplitude. e um tempo de análise transcorrido. afirma-se existir a construção em um sentido amplo: refere-se a qualquer produção intelectual que pretenda ser uma explicação sobre algum fenômeno ou evento da subjetividade ou não. Em sentido estrito. possibilitam explicar de que maneira o sujeito se constituiu. Assim. Construir é um processo solitário de “escavação” e a interpretação. em sua comunicação. a estruturação do sujeito. fragmentos extraídos do discurso do sujeito. Elas são diferentes também se avaliarmos a origem da comunicação do psicanalista. qualquer palavra ou ato do psicanalista. também se faz uma interpretação. Porém. Já a interpretação se mantém como qualquer intervenção do analista – ou seja.

Freud está recomendando que os psicanalistas não intervenham na sessão de qualquer forma ou a qualquer momento. quase um: “você é isso”. e sim no “desde onde” provém essa comunicação. O que soa como um paradoxo. assim como indicado por Sophie de Mijolla-Mellor (2005). Porém. Ao valorizá-la. interpretações. porém. já que a construção é uma “superprodução de sentido” com dedução das lacunas. No entanto. na verdade. o que ele ignora é que a diferença entre os termos não se dá apenas na sua forma de comunicação. talvez não se possa usar essa explicação para o exemplo em que Freud indica o “também” no discurso de um colega seu. para isso é preciso contextualizá-la no todo do caso clínico para diferenciar um ato analítico do outro. Inclusive. Lacan proponha a interpretação e a escuta apenas do significante. a ética da . se ela foi feita para avançar na explicação sobre a origem do sujeito acaba por também ser reconhecida como uma etapa do construir. termo excedente ao enunciar que alguém morreria “também”. Uma interpretação pode ser considerada uma construção ou uma etapa dela. Talvez por perceber esse risco. A comunicação de uma parte da construção (em construção) é também uma interpretação. e o uso da interpretação. Questões políticas indicam uma preocupação de Freud quanto ao futuro da psicanálise. e isso não deixa de ser uma sugestão sobre o que parece importante. pois na medida em que se faz qualquer tipo de intervenção valoriza-se algo em detrimento do resto. ao apresentar sua crítica à construção. e afirma serem eles. é preciso escutar por um bom tempo um paciente para dizer que isso que se interpreta é a partir do discurso do analisando e não dos conteúdos do analista.77 do manifesto e solicita-lhe continuar a falar ou o faz de forma alusiva. Marie (2004) a define como uma prática sugestiva. utiliza-se dos exemplos criados por Freud para demonstrar o que é uma construção. É como se quisesse guardar espaço para apenas uma produção de sentido e resguardar o analisando de todas as outras possíveis. Pierre Marie (2004). Porque construir é um longo processo de elaboração de uma interpretação sobre o sujeito. Sobre a crítica de Marie (2004) resta saber até que ponto é possível fugir totalmente da sugestão. fazendo o discurso voltar para o próprio paciente. pois não se tratava de um paciente em análise. A questão sempre é “desde onde” se intervém. A construção tem a função de uma advertência: “cuidado ao interpretar”.

É sobre o recalque originário que todos os outros recalques (propriamente ditos) são estabelecidos. De outra maneira. O mecanismo regressivo. percorre-se o caminho inverso da organização psíquica. Essa imagem (ideal) é o que se procura garantir e para isso o eu cinde. Um ser não limitado pela lei. também chamado de rochedo da castração. e determina um além do princípio do prazer na tendência conservadora da pulsão. A construção. o processo contrário de organização do eu a partir do isso. imaginário que. com fins explicativos. No entanto. À medida que se desconstrói. o saber metapsicológico. miticamente. a fantasia perversa e história de Moisés. é possível concordar com Cottet (1989) ao dizer que a construção existe pela ausência do conceito de real formalizado por Lacan. um ponto de basta. precisa ser morto. é também um meio de formalizar um saber técnico sobre o tratamento. início e causa da neurose.78 psicanálise requer que a intervenção seja sempre a partir do discurso do analisando e para indicar algo de seu desejo. aludir ao conteúdo desse primeiro recalque. O repúdio à feminilidade é uma outra maneira de falar da intransigência da identificação primária. Aquilo que não tem possibilidade de ser recordado coincide com o recalque primário e desta maneira pode-se dizer ser este o objeto da construção. Trata-se do pai como fonte de identificação primeira. e é no caminho oposto desta organização que Freud se depara com esse. Considerando isto. O mito do Édipo serve de representação sobre a vida sexual infantil esquecida. limita o seu contato com a realidade. por ser uma noção da técnica psicanalítica. Para tanto constrói um modelo pulsional de vida e de morte. para sobrevivermos. de tornar o inconsciente em consciente. e proporciona uma via de acesso através da associação livre. Freud interessa-se em entender e avançar sobre o que de compulsivo. demoníaco existe no sintoma. ou seja. o seu poder sexual e desejo assassino indiscriminadamente. Na intenção de encontrar a causa da neurose depara-se com o delírio psicótico. . Mas esse caminho de recordar tem um limite. que exerce. pois Freud não tinha claro ser irrepresentável o que está no início da estruturação do sujeito. faz sintomas. pois parte-se do sintoma da neurose adulta à fantasia que o anima (a fantasia sobre si mesmo). originário. ao invés do levantamento do recalque. junto a outro. passa a ser a via de acesso privilegiada com o uso da construção. erguemos templos e rituais em sua homenagem: o sintoma.

Porto Alegre: Artes Médicas. talvez. CHEMAMA. Enfim. não se pode deixar de considerar o lugar da transferência como potencializador (em sua vertente sugestiva) da crença do sujeito sobre as palavras do analista. . 2003. por ser o único recurso que dispunha com alguma eficiência para terminar a análise. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AMP.). Rio de janeiro: Jorge Zahar E. Dicionário de psicanálise. S. A construção enlaça pela palavra o excedente pulsional não representável e pára o movimento compulsivo. A interpretação. Tratar o impossível.79 via interpretação. ASSOUN. Metapsicologia freudiana: uma introdução. o que insiste em não se fazer representar. In: Correio da APPOA. A. Porto Alegre: 2005. está disposto a abrir mão da sua imparcialidade. chega-se a um ponto em que o eu não cede. A.. Textos reunidos pela Associação Mundial de Psicanálise. Freud faz avançar o tratamento quando se esforça em tocar o recalque primário e cria na consciência um equivalente daquilo que não pode ser dito (assim como o nome de Deus. BERNARDES. as certezas que essa imagem carrega. Rio de Janeiro: Garamond. Construção e saber. Tradução Dulce Duque Estrada.. Org. 2002. n. que somos “assassinos eróticos”.L. em Moisés). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. e perde a oportunidade de formalizar o conceito de real. COSTA. aqui. p. a função da fala na psicanálise. Freud e o desejo do psicanalista. C. 1989. L. B. Cottet (1989) aponta que Freud está cego por sua paixão pela origem. obtém a convicção do analisando sobre a sua realidade. 1996. Roland (org. afetando-o constantemente. P.135.. COTTET. Por fazer ressoar a verdade em causa.. FONTENELE. Parece que Freud. Os poderes da palavra. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Mas a pulsão e a sua dimensão conservadora servem como indicação de que existe algo fora do psiquismo.14-17. 1996. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed. 1995.

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