Sala de aula

Jogos e brincadeiras

Diversão em todos os cantos
NO CORREDOR Livres para circular, as crianças passam do canto da cozinha para o da leitura

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TENDA DAS BONECAS Tecidos coloridos na sala em que as meninas viram mamães e dão banho nos bebês

A escola sofreu uma profunda transformação a partir de 2002, após a rede municipal implantar o Projeto Dica – plano de capacitação para os profissionais da Educação Infantil. Antes, os pequenos só saíam da sala acompanhados e nos momentos planejados. “O aproveitamento de todas as áreas disponíveis passou a ser um estímulo para o aprendizado e a convivência entre as faixas etárias”, conta LILIANE ORAGGIO Mary Ceccato, diretora da Thereza Fiorotnovaescola@atleitor.com.br ti. E também para aprimorar a “decoração” interna. Hoje, cada sala tem pelo menos quatro cantos montados. Com tanta coisa bacana para fazer, seuem chega à EMI Thereza Coan Fiorotti, em São Caetano do Sul, ria um desperdício conter as crianças em na Grande São Paulo, tem uma surpresa. quatro paredes. Houve, então, mais uma As salas abrigam tendas com cenários e o mudança na rotina: agora elas circulam corredor e o pátio agora são locais de di- livremente, se entretendo com colegas de versão e convivência. Nessas áreas, bem outras faixas etárias. As turmas são diviiluminadas, persianas de madidas em grupos para que deira ou divisórias baixas sertodos estejam em atividades mais no site vem de separação para cantos ao mesmo tempo e possam Planta baixa da creche, galeria de fotos que reproduzem os cômodos comcantos das salas e explorar melhor cada uma dos de uma casa, um posto de saúdelas. “Os maiores ensinam dos corredores. aescola.org.br de e um escritório. Outros ain- www.nov os demais, que aprendem da abrigam livros, material de pela observação. E o contrádesenho e os mais variados jogos. Esses rio também ocorre: os que têm 5 e 6 anos são apenas alguns dos 40 cenários que as descobrem com os menores maneiras 188 crianças da creche têm à disposição. novas de brincar, adaptando regras e ma-

Em cenários montados na creche, os pequenos se sentem em casa e aprendem a conviver com os maiores da pré-escola

neiras de agir e voltando a explorar o fazde-conta”, salienta a professora Maria José Marinheiro da Silva. Ela e as colegas afirmam que o esquema de trabalho melhorou muito o clima na escola (leia quadro na página 42). A maior parte do material foi doada pela comunidade e reciclada pela equipe pedagógica – exceto as mesas baixas, compradas este ano. Os pais participam fazendo serviços de marcenaria e pregando os panos para formar as tendas. “Com essa ação conjunta e o uso de sucata, os gastos são muito baixos”, diz Maria José.

Objetivos claros
Para que a brincadeira seja proveitosa, a intenção pedagógica tem de ser bem definida. “O sucesso depende do uso que a garotada faz do espaço”, afirma Ana Cláudia Rocha, assessora de programas do Projeto Dica. Não adianta ter 100 livros no lugar destinado à leitura, por exemplo, e não despertar o interesse por eles. É preciso saber aproveitá-los, escolher histórias boas e contá-las de forma envolvente (leia o plano de trabalho no quadro da página 43). “A presença da professora é marcada mais pelo planejamento do que pela mediação. À educadora cabe ob-

FOTOS DANIEL ARATANGY

www.novaescola.org.br JANEIRO/FEVEREIRO 2008

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Jogos e brincadeiras

Plano de trabalho
OBJETIVOS ■ Promover a autonomia. ■ Estimular o convívio e a interação das várias faixas etárias. ANOS Creche e pré-escola. TEMPO ESTIMADO Livre. MATERIAL NECESSÁRIO Tecidos de várias cores e tramas (para fazer tendas e delimitar os espaços); garrafas PET de 600 mililitros com diferentes quantidades de água – para produzir sons variados – e lantejoulas gigantes, penduradas acima da cabeça das crianças, mas ao alcance das mãos; móbiles coloridos presos por elásticos roliços para serem puxados; cortinas de fitas coloridas de cetim e objetos sonoros (canto dos sons e das cores); tapete, almofadas, poltroninhas e estantes baixas com bastante variedade de livros que tenham muitas figuras (canto da leitura); um espelho grande ou vários pequenos, colados na parede (canto do espelho); mobiliário infantil de cozinha, sala, quarto e lavanderia (cantos da casinha); arara com fantasias, sapatos, bijuterias, chapéus, adereços de vários tipos e um espelho (canto da fantasia); caixas, tubos de papelão, papéis, latas, garrafas PET, potes, cubos, bancos e outros objetos que possam ser empilhados (canto de montar); pincéis grandes e largos, tinta, massinha, giz gigante, argila, folhas grandes de papel e cartolinas inteiras (canto das artes). ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO Delimite os cenários com divisórias baixas ou materiais que facilitem o trânsito entre elas (persianas de madeira, compensados que tenham

Cantos na creche
criança para se observar, diga o nome dela e identifique as partes do corpo e suas características particulares (cor dos olhos e cabelos, por exemplo). Canto de montar – Adquirir noções de tamanho e de cor: mostre como empilhar caixas e blocos de diferentes cores e dimensões ou como colocar um dentro do outro. Canto das artes – Explorar as tonalidades: disponha uma tinta por vez para que os menores percebam as possibilidades de trabalhar com uma só cor, pura ou mais aguada. 3ª ETAPA Depois da organização dos móveis e dos acessórios, é hora da diversão. Divida a turma em grupos para que os ambientes sejam bem explorados. Os bebês participam observando, sempre no colo de um adulto. Prepare-se para manter todos em atividade e deixar que a brincadeira aconteça, preocupando-se em mediar e incentivar a interação. Não há a necessidade de falar muito ou explicar o propósito para a classe. Quando surgirem os conflitos, interfira e estimule o convívio pacífico.

um buraco pelos quais as crianças possam passar, cortinas de fitas coloridas ou tecidos). O ideal é ter no máximo 12 crianças por ambiente. DESENVOLVIMENTO ■ 1ª ETAPA Os funcionários devem estar preparados para esse esquema de trabalho. Por isso, é importante que o coordenador pedagógico, o diretor ou um professor marquem uma reunião para explicar à equipe que o objetivo desse tipo de organização é estimular a circulação e o exercício da autonomia e do poder de escolha. 2ª ETAPA Deixe que todos explorem os espaços livremente, durante o tempo que durar o interesse pela brincadeira. Porém, em alguns momentos, é possível eleger algumas intenções pedagógicas para serem trabalhadas em determinados ambientes. Confira aqui algumas sugestões. Canto das cores e sons – Conhecer texturas, formas e sons: estimule-os a tocar os instrumentos, a tirar sons das garrafas e a reconhecer as cores, chamando a atenção para a variedade de tons que existe. Canto da cozinha – Aguçar o paladar: leve alimentos prontos, como pão, gelatina e bolo, para serem degustados por quem visitar o local. Se o espaço permitir, prepare com a turma lanches ou sobremesas fáceis de fazer, como um sanduíche ou uma salada de frutas. Canto da leitura – Interagir com outras faixas etárias: peça que os grandes leiam para os menores e, durante a atividade, mostrem as figuras que aparecem nos livros. Canto dos espelhos – Reconhecer-se e conhecer o próprio corpo: leve a

NA SALA DE AULA Móveis adequados ao tamanho das crianças reproduzem uma casa em miniatura

servar as reações e intervir apenas para reforçar algum aspecto ou quando houver conf lito”, reforça Ana Cláudia. Na EMI Josefina Cipre Russo, também em São Caetano, até o chão é decorado com imagens plastificadas de animais, frutas e carros diversos. A intenção é estimular a oralidade: enquanto os bebês engatinham sobre elas, as educadoras perguntam se eles têm bicho em casa, onde eles dormem e o que fazem. “Nada é colocado nos ambientes por acaso ou so-

mente para enfeitar”, afirma Rosana Aparecida Munhoz, diretora da unidade. Ao escolher os temas para os cantos, a equipe pedagógica da Thereza Fiorotti priorizou o aconchego e fez com que os menores se sentissem em casa para facilitar a adaptação. Foram montados ambientes domésticos, com mobiliário infantil: o quarto tem cama e penteadeira; a cozinha, fogão, pia, mesa de jantar e geladeira; e a lavanderia, varal, tábua de passar roupa, ferro e vassouras.

Fantasia e raciocínio
O canto da fantasia faz sucesso com a garotada. Roupas de adultos, vestimentas de personagens que pertencem ao imaginário infantil e muitos acessórios ficam à disposição. O cantinho do raciocínio – com dominó, jogo de memória e baralho – é um dos preferidos, assim como o do médico, onde há sempre um “profissional” orientando os colegas no cuidado com a saúde. O lugar dos fantoches, que encanta grandes e pequenos, ajuda a desenvolver a linguagem oral. Os espaços ficam montados no mínimo um mês para que todos se familiarizem com eles e os explorem bem. Mas quem manda mesmo são os usuários: quando deixam de freqüentar um ambiente, é sinal de que querem novidades.
QUER SABER MAIS

DANIEL ARATANGY

Mais dinamismo e menos estresse
Há três anos, quando chegou à EMI Thereza Coan Fiorotti, Sueli Luzia da Silva levou um susto. Ela vinha de uma creche em que os professores ficavam isolados, cada um com sua turma, sua rotina e seus problemas. Lá ela encontrou crianças andando pela escola como se estivessem em casa e educadoras sempre prontas a recebê-las. Na aparente bagunça, havia muita organização. “Aprendi a trabalhar em conjunto”, diz. “Não somos acelerados. Somos dinâmicos”, afirma sua colega Maria José Marinheiro Silva. Esse trabalho é possível porque toda semana são realizadas reuniões para planejar as atividades, a rotina e a organização da escola. A equipe comemora os resultados, principalmente a diminuição do estresse. “Eu me sentia mais tensa e cansada quando ficava sozinha com uma turma. Agora tenho chance de perceber asparticularidades de cada um, saber do que eles precisam e ajudá-los”, diz Maria José.

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Contatos
Ana Cláudia Rocha,
anarocha@dglnet.com.br

EMI Josefina Cipre Russo,
R. Pernambuco, 100, 09520-170, São Caetano do Sul, SP tel. (11) 4224-1170 ,

AVALIAÇÃO Depois de montar um cenário, pergunte a si mesmo se ele é convidativo, atraente e desafiador. Durante a atividade, observe o grau de autonomia, a capacidade de interação e a resposta de cada um aos estímulos oferecidos, percebendo os vários níveis de desenvolvimento. A partir disso, planeje outras atividades e monte novos subgrupos conforme as necessidades.
CONSULTORIA Ana Cláudia Rocha, assessora de programas do Projeto Dica da prefeitura de São Caetano do Sul, SP .

EMI Thereza Coan Fiorotti,
R. Ulisses Tornicasa, 160, 09581-220, São Caetano do Sul, SP tel. (11) 4232-3979 , Projeto Dica, projetodica@terra.com.br

42 JANEIRO/FEVEREIRO 2008 www.novaescola.org.br

www.novaescola.org.br JANEIRO/FEVEREIRO 2008

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